Você está na página 1de 528

Coleção Praticando

Geografia

práticas de campo,
laboratório e sala de aula
Coleção Praticando

Geografia

práticas de campo,
laboratório e sala de aula

Luis Antonio Bittar Venturi


organizador

São Paulo, 2010


Geografia: práticas de campo, laboratório e sala de aula
Copyright © 2010
Luis Antonio Bittar Venturi (Organizador)

Editores
Aloma Fernandes de Carvalho
Francisco Azevedo de Arruda Sampaio
Rita Marte Arruda Sampaio

Preparação do texto
Izabel Bueno
Maria Rita Camarini
Eduardo Justiniano

Revisão técnica
Eduardo Justiniano

Revisão
Izabel Bueno
Maria Rita Camarini
Pedro Carvalho

Produção e edição de imagem


Eduardo Justiniano
Rafael Sato

Administração e apoio
Ana Maria P. C. Mello
Ana Paula de Menezes
Carolina Oliveira Silva
José Henrique Mello
Eldo Francisco da Silva (Pixinguinha)

Produção Editorial
Jogo de Amarelinha

Projeto gráfico e diagramação


Estúdio Bogari

Capa
Eduardo Félix Justiniano

Todos os direitos reservados.

Editora Sarandi
Av. Brigadeiro Faria Lima, 1912 – Conjunto 208 B – Pinheiros – São Paulo – SP
Tel. (11) 3097­‑9040
http://www.editorasarandi.com.br
e­‑mail: editora@editorasarandi.com.br
Caro(a) leitor(a),

O objetivo desta obra foi reunir o maior núme‑ geográfico no qual a escola se insere. Por exemplo,
ro possível de informações técnicas e conceituais ao se praticar a construção de mapas temáticos,
que podem subsidiar pesquisas científicas, assim deve­‑se usar dados referentes à região na qual a
como orientar o trabalho do professor. Dirigido escola se insere (população rural e urbana etc.).
aos alunos de graduação dos cursos de Geogra‑ Ao se praticar a identificação de áreas de risco,
fia, Geologia, Biologia e mesmo Ciências Sociais deve­‑se buscar indicadores na paisagem na qual
e História, o livro também conversa com o profes‑ a escola se insere.
sor do Ensino Médio, sobretudo na seção“Na sala Finalmente, o livro busca superar a perspectiva
de aula”, presente em todos os capítulos. O livro tradicional do campo enquanto aula ao “ar livre”,
abrange, então, um público que muitas vezes é em que os alunos seguem um professor e tentam,
representado pelo mesmo sujeito, já que frequen‑ apressadamente e nem sempre em condições fa‑
temente os alunos universitários são professores voráveis, anotar e gravar tudo o que se ouve e
da rede escolar pública e privada. se fala. Embora isto ainda possa e deva ser feito
A grande variedade de assuntos tratados em alguns casos, o livro transfere para o aluno
impossibilita­‑nos de atribuir uma única orientação uma boa dose de protagonismo pela forma como
teórica principal. Este é o preço que a Geografia os conteúdos e as atividades são estruturados. O
paga por se ocupar de um vasto e rico temário. aluno será mais ativo entrevistando, fotografando,
Geotecnologias, técnicas de hidrografia, de análise cavando trincheiras, medindo vazão de rios ou as
de solos, estágio em sala de aula, aplicação de condições atmosféricas. Enfim, o aluno irá com‑
questionários, pesquisas históricas, entre muitos partilhar a experiência de campo que se tornará,
outros assuntos aqui tratados, apresentam, cada assim, muito mais atraente, auxiliando o processo
qual, suas especificidades teórico­‑conceituais, ain‑ de ensino­‑aprendizagem.
da que os grandes conceitos – como paisagem, Ainda que algumas áreas não estejam nomi‑
região, espaço – sejam contemplados. Metodolo‑ nalmente referenciadas em capítulos específicos,
gicamente, contudo, o livro propõe procedimen‑ seus conteúdos são contemplados em um ou mais
tos comuns que serão encontrados em todos os capítulos. É o caso, por exemplo, da Geografia da
capítulos. O primeiro refere­‑se à articulação entre População que, embora não seja objeto de um
os conteúdos. Constantemente o leitor irá se depa‑ capítulo específico, está contemplada tanto nos
rar com sugestões de atividades, muitas das quais capítulos dedicados à Cartografia Temática e Ge‑
trazem grande potencial integrador entre áreas, ografia da Saúde e, em menor grau, naquele que
como, por exemplo, Cartografia Temática, Geo‑ aborda as Técnicas de Interlocução.
morfologia, Fotografia, Biogeografia e Estatística. Assim, conferiu­‑se ao ensino e à aprendizagem
Outro procedimento metodológico proposto da Geografia um “sopro de vida” tornando es‑
refere­‑se à aproximação dos conteúdos à realidade ses processos mais vivos, articulados, interativos
do aluno e da escola, de modo que as informações e atualizados.
lhe façam mais sentido. Assim, se o capítulo pro‑
põe certa atividade, ela deve referir­‑se ao contexto Luis Antonio Bittar Venturi
Sumário

Introdução,  9 Capítulo 7,  175


Praticando a Geografia: o papel da praxis Técnicas de Cartografia
entre a res cogitans e a res extensa Alfredo Pereira de Queiroz Filho
Adilson Avansi de Abreu Mário De Biasi

Capítulo 1,  13 Capítulo 8,  205


A Técnica e a Observação na Pesquisa Técnicas de Cartografia Temática
Luis Antonio Bittar Venturi Marcello Martinelli

Capítulo 2,  31 Capítulo 9,  233


Técnicas de Geomorfologia Técnicas de Sensoriamento Remoto
Jurandyr Luciano Sanches Ross Ailton Luchiari
Marisa de Souto Matos Fierz Fernando Shinji Kawakubo
Bianca Carvalho Vieira Rúbia Gomes Morato

Capítulo 3,  57 Capítulo 10,  257


Técnicas de Hidrografia Técnicas de Localização e Georreferenciamento
Cleide Rodrigues Jorge G. da Graça Raffo
Samuel Fernando Adami

Capítulo 11,  273


Capítulo 4,  85 Sistema de Informação Geográfica
Técnicas de Pedologia Fernando Shinji Kawakubo
Déborah de Oliveira Rúbia Gomes Morato
Reinaldo Paul Pérez Machado

Capítulo 5,  109


Técnicas de Climatologia Capítulo 12,  289
Tarik Rezende de Azevedo Técnicas de Geografia da Saúde
Emerson Galvani Ligia Vizeu Barrozo

Capítulo 6,  137 Capítulo 13,  311


Técnicas de Biogeografia Técnicas de Pesquisa Histórica
Sueli Angelo Furlan Nely Robles Reis Bacellar
Patrícia Albano Maia
Capítulo 14,  322 Capítulo 21,  449
Uso e Registro de Fontes Bibliográficas Técnicas de Interlocução
Glória da Anunciação Alves Luis Antonio Bittar Venturi
Vanderli Custódio

Capítulo 22,  471


Capítulo 15,  335 Estatística Descritiva em Sala de Aula
A Escola como Laboratório Vivo Emerson Galvani
Nídia Nacib Pontuschka

Capítulo 23,  485


Capítulo 16,  357 A Redação do Trabalho de Campo
Técnicas Inclusivas de Ensino de Geografia Maria Alice Venturi
Carla Cristina Reinaldo Giminez de Sena
Regina Araújo de Almeida
Waldirene Ribeiro do Carmo Capítulo 24,  497
Profissão: Geógrafo
Hélio Garcia Paes
Capítulo 17,  383 Luis Antonio Bittar Venturi
Técnicas de Desenho e Elaboração de Perfis
Sergio Ricardo Fiori
Capítulo 25,  521
Contos de Campo
Capítulo 18,  405 José Bueno Conti
Técnicas de Ilustração Botânica
Maria Lúcia cereda Gomide

Capítulo 19,  413


Técnicas de Fotografia
Eduardo Félix Justiniano

Capítulo 20,  437


Técnicas de Vídeo
Mauro Luiz Peron
introdução
ADILSON AVANSI DE ABREu
Eduardo Justiniano
Praticando a Geografia:
o papel da praxis
entre a res cogitans
e a res extensa

O conhecimento geográfico tem motivado a cogitans) com o objeto material ou empírico (res
publicação de um grande número de livros. A extensa) da Geografia, de acordo com as convic‑
maioria ocupa­‑se com a divulgação de resultados ções pessoais de cada pesquisador.
de pesquisas. Um número menor volta­‑se para as Nesse contexto emerge uma importante
discussões de natureza teórico­‑conceituais, fre‑ questão para reflexão. As técnicas ou procedi‑
quentemente com viés analítico­‑histórico e pano mentos farão a mediação entre a teoria, o pes‑
de fundo político­‑ideológico. Poucos são os livros quisador e o objeto da pesquisa, e essa mediação
editados que se ocupam com a apresentação e a será pautada pela compreensão e linguagem que
discussão de procedimentos de observação e aná‑ o indivíduo mobiliza, a partir do conteúdo teóri‑
lise dos objetos materiais ou imateriais que inte‑ co que lhe serve de referência para identificar e
ressam ao campo da Geografia. Nesse panorama, analisar o que ele julga ser o objeto da Geografia.
a publicação de um livro com o título Geografia: A decomposição, análise e apreensão do objeto
práticas de campo, laboratório e sala de aula é digna empírico da investigação serão referenciadas,
de ser positivamente recebida, particularmente portanto, pelos conceitos teóricos que o pes‑
porque se volta para um público que, em geral, quisador, progressivamente, construiu em sua
encontra poucas referências dessa natureza. visão da ciência, em seu processo de formação
Este livro cumprirá, portanto, um papel re‑ cultural, científica e política. Nesse sentido, a res
levante no processo de formação acadêmica e extensa será abordada por meio de um recorte
pedagógica nos diferentes níveis em que a Geo‑ arbitrário, fruto da res cogitans do observador.
grafia é ensinada. Será importante para os alu‑ A res cogitans fornecerá a cada pesquisador
nos de graduação e pós­‑graduação, bem como as possibilidades para sua aproximação da res
para o corpo docente envolvido nesse ambiente. extensa para observação e análise. O que emer‑
Igualmente será útil para os geógrafos que, como gir desse processo será um conjunto de resulta‑
profissionais, atuam em institutos de pesquisa dos que poderá expressar, com maior ou menor
ou em órgãos da administração pública ou da fidelidade, o objeto observado. O resultado da
iniciativa privada, ocupados com temas que ob‑ observação comporá, portanto, um quadro que
jetivem resolver questões emergentes nos proces‑ reflete apenas parcialmente o objeto, na medida
sos de organização do espaço em suas diferentes em que ele foi recortado pelo observador, com
formas e escalas de manifestação. o descarte de alguns aspectos e a sobrevaloriza‑
A análise dos títulos e conteúdos deste livro ção de outros, pois esse processo decorre de um
evidencia a importância que se dá ao verbo prati‑ juízo do que é e do que não é importante, sendo
car e ao substantivo técnica empregados nos seus esse julgamento feito a partir das convicções e
diferentes capítulos. Em alguns, a discussão se imagens mentais prévias que pautam a praxis do
amplia, abordando também método (mais fre‑ pesquisador.
quente) e teoria (menos frequente). Apresenta­‑se aqui um problema fundamental:
A tônica da obra é, assim, indiscutivelmente se a observação e a experimentação só podem
prático­‑técnica, com o mérito de deixar que os ser realizadas a partir da teoria, como conduzir
procedimentos possam dar margem a uma praxis a praxis de maneira a articular o objeto pensado
que articule o objeto conceitual ou teórico (res (res cogitans) e o objeto empírico (res extensa), sem

10 práticas de geografia
perder a possibilidade de crítica a respeito da difi‑ ser longa, aproximando o geógrafo das últimas
culdade de aprender a totalidade dos fenômenos etapas da Geologia; outras vezes pode ser mais
e manter a faculdade de deixa­‑se surpreender por curta, mas ainda referente a milhares de anos,
um dado não previsto na teoria? aproximando­‑o da Arqueologia e da pré­‑história;
Na praxis o pesquisador depara­‑se com o ou, ainda, poderá durar apenas séculos ou es‑
dilema de como aproximar­‑ se do empírico, tar relacionada à duração de décadas ou mesmo
pautado por processos cognitivos expressos em anos, aproximando­‑o da Antropologia, da Socio‑
uma semântica que já recorta a realidade arbi‑ logia, da Política, da Economia e da História em
trariamente, de acordo com suas convicções e suas análises contemporâneas.
conveniências. Dessa forma, o geógrafo estará, particu‑
Essa situação não é um apanágio da Geo‑ larmente nesses últimos casos, envolvido dire‑
grafia. Ela opera em todos os ramos do conhe‑ tamente com os processos que analisa. Nessa
cimento e é importante fonte de erros, uma situação, sua condição se aproxima muito à do
vez que a valorização subjetiva do observador historiador. Sobre isso, Paul Ricoeur registra:
e o estado do conhecimento da própria ciência
introduzem um viés que o distancia de muitas “Por condição entendo duas coisas: de um lado, uma
questões que ele desconsidera, ou o aproximam situação na qual cada um se encontra cada vez mais im‑
dos aspectos que ele sobrevaloriza. Observador plicado, Pascal diria ’ fechado‘; de outro, uma condiciona‑
sempre corre o risco de apenas reiterar sua vi‑ lidade, no sentido de condição de possibilidade de ordem
são prévia do problema se não estiver alerta e ontológica, ou, como acabamos de dizer, existencial em
aberto para fatos que escapem de sua concep‑ relação mesmo às categorias da hermenêutica crítica. Faze‑
ção e eventualmente colidam com a concepção mos a história, e fazemos história, porque somos históricos.
teórica que o moveu. […] A coerência do empreendimento repousa, portanto, na
Por pertencer também ao objeto da Geo‑ necessidade da dupla passagem do saber histórico à her‑
grafia, na qual pretende articular o espaço e o menêutica crítica, e desta à hermenêutica ontológica. Essa
tempo em suas análises, a condição do geógra‑ necessidade não pode ser demonstrada a priori: só surge se
fo encontra paralelo com a do historiador. Isso for posta em prática, o que equivale a ser posta à prova. Até
permite uma aproximação com as análises de o fim, a articulação presumida permanecerá uma hipótese
Paul Ricoeur, quando discute a operação his‑ de trabalho.”1
toriográfica no plano epistemológico que passa
por três momentos: do arquivo, da explicação/ O geógrafo encontra­‑se, portanto, diante de
compreensão e da representação histórica. (ri- uma questão fundamental: se a observação e
coeur, 2007). a experimentação só podem ser feitas a partir
Essa aproximação é pertinente porque o da teoria, como conduzir a praxis de maneira
geógrafo, embora pretenda ocupar­‑se primor‑ a articular o objeto conceitual (res cogitans) e o
dialmente do espaço, aborda também o tempo,
mas em uma espessura ou duração diferente da
do historiador. Dependendo da natureza de seu 1 RICOEUR, Paul. A memória, a história, o esqueci-
objeto material, essa espessura temporal pode mento. Campinas: Editora da UNICAMP, 2007.

apresentação 11
objeto real (res extensa), mantendo uma abertura inclusive, à ressignificação do objeto material da
para a emergência do não previsto? Como pode disciplina.
o pesquisador se certificar de que as representa‑ Por esse motivo Geografia: práticas de campo,
ções conceituais com as quais ele se aproxima do laboratório e sala de aula deve ser saudado como
objeto da investigação são as mais adequadas? referência oportuna e contribuição relevante na
Será que ele não está descartando aspectos re‑ formação do pensamento geográfico.
levantes?
A história da Ciência, em geral, e da Geogra‑
fia, em particular, está repleta de exemplos de te‑
orias que demoraram muito a serem superadas,
porque a pesquisa continuava a ser feita pelos
cânones da teoria adotada, havendo pouca ou
nenhuma predisposição dos pesquisadores em
identificar fatos que contrariassem suas convic‑
ções. A lembrança da geomorfologia davisiana
é paradigmática.
Por ouro lado, não são fatos que revogam as
teorias, mas sim outras teorias. Enquanto ape‑
nas acumulam­‑se fatos que não se conformam
com determinada teoria, ela é mantida, ainda
que em situação cada vez mais desconfortável.
Apenas quando os fatos discordantes se trans‑
formam em conceitos, proposições e princípios
gerais surge a possibilidade de emergir uma teo‑
ria alternativa, que progressivamente aperfeiçoa­ SOBRE O AUTOR
‑se e supera a teoria até então dominante, que
Adilson Avansi de Abreu é geógrafo livre­‑docente,
pode, por algum tempo, permanecer de forma
com área de investigação relacionada à gênese e à dinâmica
residual. Nesse processo, parte da teoria que é da paisagem, compreendida como resultante da interação
refutada pode também ser incorporada na que das forças da natureza e da sociedade. A geomorfologia,
emerge. como elemento estruturador temporal e espacial da pai‑
A transformação processa­‑se, portanto, pela sagem, no contexto da Geografia Física, recebe particular
aceitação de uma nova ideologia que, sob certos atenção. A percepção da paisagem na perspectiva da
herança cultural e patrimonial, no contexto das ciências
aspectos, revoga a ideologia anterior 2. Quantas
humanas, é o outro eixo estruturador das pesquisas que
vezes, desde o início do século XX, isso aconte‑
orienta, podendo contribuir também para os objetivos do
ceu com a Geografia? Nesse processo, inúmeras planejamento territorial. Foi diretor da Faculdade de Filo‑
transformações conceituais e teóricas foram re‑ sofia, Letras e Ciências Humanas e Pró­‑ Reitor de Cultura
gistradas, tendo sido a praxis, em boa parte, o e Extensão Universitária da Universidade de São Paulo,
motor das mudanças que acabaram conduzindo, além de presidente do Condephaat.

2 PIRES, Eginardo. A teoria da produção dos conheci‑


mentos. In: Epistemologia e Teoria da Ciência. Petró‑
polis: Editora Vozes, 1971.

12 práticas de geografia
a técnica e a
observação
1
na Pesquisa LuIS ANTONIO BITTAR VENTuRI
knock Aert/Vincent

Introdução, 14 A observação como Sobre o autor, 30


As dimensões humanas técnica primordial, 24
da técnica, 15 Na sala de aula, 27
O gabinete, o campo Considerações finais, 29
e o laboratório, 21 Referências de apoio, 30
introdução

Neste capítulo, discutem‑se alguns aspectos gerais da técnica, úteis à leitura


dos capítulos subsequentes, que trazem as especificidades de cada área. Entre os
aspectos tratados estão: a técnica como prerrogativa humana, suas dimensões
artística, produtiva e científica, com ênfase nesta última, quando ela é consi‑
derada como apoio operacional à pesquisa; o mito da técnica e os critérios de
escolha e uso, entre outros.
Em um segundo momento, diferencia‑se o gabinete, o campo e o laborató‑
rio enquanto três instâncias da pesquisa, caracterizando ‑se cada uma delas e
enfatizando ‑se sua complementaridade. Em seguida, discute‑se a observação
enquanto técnica primordial, a sistematização, a subjetividade e as derivações
(inferências) decorrentes da experiência acumulada.
Finalmente, propõem ‑se atividades de fixação conceitual e de prática de
observação.

14
aS dimenSÕeS HumanaS
da tÉCniCa

As técnicas e os instrumentos desenvolvi‑ “[…] em termos precisos, é o conhecimento sobre como


dos pelo ser humano representam a extensão e fazer ou fabricar algo […]. O conhecimento racional, pro‑
o aprimoramento de todos os seus sentidos e fi ssional, das regras de procedimento envolvidas em fazer
habilidades permitindo‑lhe enxergar o invisível, ou fabricar algo. Inclui‑se sob este rótulo uma variedade
alcançar o que era antes inatingível, comunicar‑ de ciências e artes.” (GILES, 1993, p.150, grifo nosso).
‑se a distâncias e velocidades não imaginadas.
Permitem‑lhe ainda expressar sua sensibilidade Pelo exposto, podemos identificar, pelo me‑
através da arte, orientada por valores estéticos nos, três principais dimensões da técnica: artís‑
que mudam no decorrer do tempo. Possibilitam tica, produtiva e científica, sobre as quais dis‑
ao ser humano aumentar a produtividade de to‑ correremos brevemente, com maior ênfase na
dos os bens econômicos, assim como intensificar dimensão científica.
a apropriação e a transformação dos recursos na‑ A relação entre técnica e arte já aparece
turais da Terra. Finalmente, ajudam‑no a prever na origem do termo, em diversas definições, a
o que seria imprevisível e medir com precisão exemplo da técnica enquanto “conjunto de pro‑
o que os sentidos e a mente humana percebem cessos de uma arte”1. Considerando ‑se a arte
apenas de forma fluida e subjetiva. Observe a como forma de expressão permeada por valores
seguinte definição de técnica: estéticos num universo simbólico, esta acepção
torna a técnica uma prerrogativa exclusiva do ser
humano, da criação humana. É, “no sentido mais
geral, qualquer coisa criada propositalmente por
Robin utrecht/ANP Press–Grupo keystone

seres humanos, em contraste com aquilo que resulta


da obra da natureza”2.
Contudo, a submissão dessa dimensão da
técnica a uma análise lógico‑científica pode ser
pouco profícua, já que a arte não tem vínculos
necessários com materialidades e pode transcen‑
der facilmente o tempo e o espaço, tão funda‑
mentais para a análise geográfica. Na Figura 1.1,
é possível contemplar a técnica vinculada à arte.
Qual é a materialidade desta expressão artís‑
tica? Como se situa no tempo e no espaço? Qual
o objetivo de se chegar a esse resultado? Tentan‑
do responder a essas questões talvez se destrua
o propósito do “conjunto de processos de uma arte”.
Sob outra perspectiva, analisando a técnica
pela dimensão produtiva, mais uma vez estarí‑
amos reforçando‑a como prerrogativa humana.

1 Cunha (1981, p. 759).


Figura 1.1. Cirque du Soleil. 2 Ibidem.

capítulo 1 – a técnica e a observação 15


Berndt Fischer/Premium–Keystone
Apenas o ser humano pode desenvolver téc‑
nicas. O que os animais são capazes de fazer
(teias, formigueiros, ninhos, represamentos…)
seria apenas o resultado mecânico de caracte‑
rísticas previstas em seus códigos genéticos em
processo de adaptação ao meio. Sob a análise
geográfica, as ”ações” dos animais estariam es‑
tanques no tempo e no espaço e, por isso, o que
uma colônia de cupins era capaz de fazer muitos
séculos atrás é praticamente a mesma coisa que
faz hoje, salvo algumas adaptações ao ambiente,
Figura 1.2. Macaco­‑prego usando “técnica” em que articula
pois não haveria transmissão de conhecimento martelo (fragmento de rocha) e bigorna (rocha­‑base) para quebrar
no tempo e no espaço, a não ser geneticamente3. coquinhos.

Repare na Figura 1.2. Submeter esta imagem


aos recursos analíticos da Geografia também se‑
ria pouco profícuo, pois o tempo (quando) e o como também é possível considerar as perspec‑
espaço (onde) em que esta técnica foi empregada tivas ou desdobramentos econômicos, sociais,
fazem pouco sentido. Poderia ser há um milê‑ ambientais etc. A relação tempo­‑espaço se for‑
nio ou ontem; no Brasil ou em diversos outros talece, pois os objetos técnicos que acumulam­‑se
lugares. no espaço ajudam a contar sua história4.
No entanto, concebendo­‑se a técnica como Mas, quando a técnica, na dimensão produ‑
atributo humano relacionado à dimensão pro‑ tiva, caracteriza­‑se pelo trabalho alienado, ela
dutiva, sentimo­‑nos mais à vontade, pois temos pode voltar, em escala de detalhe, a ser estan‑
preservados todos os nossos referenciais concei‑ cada no tempo e no espaço. Veja a Figura 1.3.
tuais e analíticos. Outras vezes, porém, o trabalho alienado é
Nessa perspectiva, a técnica concebe­‑se como operacionalizado por um conjunto denso de ob‑
meio de apropriação e transformação da natureza jetos técnicos que facilitam sua recontextualiza‑
para alimentar o ciclo produtivo. Preservam­‑se aí ção no tempo e no espaço, como mostra a Figura
todos os referenciais da análise geográfica, como 1.4, que ilustra o setor industrial britânico no
o tempo, o espaço, a sociedade e a natureza. Há século XX.
um contexto socioeconômico definido, um con‑ Neste capítulo, contudo, daremos mais ên‑
junto de técnicas viabilizadas por esse contexto, fase à dimensão científica da técnica enquanto
ideais norteadores (por exemplo, autossuficiência, apoio operacional às pesquisas geográficas e
soberania), além de uma base físico­‑territorial ciências afins.
que favorece essa atividade produtiva. Há pres‑ Especialmente para as ciências que trabalham
supostos históricos para explicar esse contexto, com os mais diferentes aspectos do mundo real,

3 Esta assertiva, porém, pode gerar discordância em meio 4 Milton Santos torna a técnica uma categoria de análise
aos cientistas que estudam o comportamento animal. quando afirma que “as técnicas, de um lado, dão­‑ nos a
A evolução das ciências pode identificar algumas ca‑ possibilidade de empiricização do tempo e, de outro lado, a
racterísticas nos animais relativas à transmissão de possibilidade de uma qualificação precisa da materialidade
conhecimento e indícios de teleologia, que exijam revi‑ sobre a qual as sociedades humanas trabalham. […] É por
são conceitual ou a incorporação de novos critérios de intermédio das técnicas que o homem, no trabalho, realiza
definição de técnica. essa união entre tempo e espaço”. (SANTOS, 1997. p. 44).

16 práticas de geografia
Ricardo Luiz D. Funa/AGB Photo Library–Keystone Figura 1.3. Cortador de cana em canavial. Repare na impossibilidade
de se datar e situar esta imagem. Poderia ser do contexto nordestino
do século XIX ou paulista do século XXI. Neste caso, a técnica não
facilitaria a empirização do tempo e seria necessário, para isso, situá­
‑lo em uma escala mais generalizante, em que apareceriam outros
objetos, como estradas, usinas e treminhões.

como a Geografia, a Biologia, a Geologia, a Física


e a Sociologia, entre muitas outras, as técnicas
exercem um importante papel no processo de
produção científica, auxiliando o pesquisador na
obtenção e sistematização de informações que
irão subsidiar os argumentos, fornecendo­‑lhes
evidências empíricas, atribuindo­‑lhes consistên‑
cia e objetividade. Em outras palavras, a aplicação
das técnicas possibilita a geração de dados da
realidade que irão fornecer lastros empíricos aos
caminhos percorridos pelo método. Se o méto‑
do, dispondo de fundamentação teórica, auxilia
o pesquisador na organização do raciocínio, as
técnicas, por sua vez, auxiliam­‑no na organização

Culver Pictures Inc./Super Stock–Keystock

Figura 1.4. Cena do filme Tempos Modernos, de Charlie Chaplin.

capítulo 1 – a técnica e a observação 17


Acervo do Museu Geológico de São Paulo Valdemar Lefèbvre
das informações que lhe darão subsídio. Se, por
um lado, a teoria e o método são processos desen‑
volvidos no plano do pensar, por outro, a técnica
desenvolve­‑se no plano do fazer.
Obviamente, não se trata (e a definição ex‑
posta anteriormente nos mostrou isso) de um
fazer sem pensar, automático, mas sim, perme‑
ado pela razão. No domínio humano, o pensar
e o fazer andam juntos, são complementares e
estimulam­‑se mutuamente, o que é reforçado
pela afirmação de Anaxágoras (século V a.C.)
de que “o homem pensa porque tem mãos”.
Teorias, métodos, técnicas e instrumentos
constituem diferentes aspectos de um mesmo
processo (científico), ainda que em alguns mo‑
mentos os separemos analiticamente para com‑
preender melhor cada uma de suas característi‑
cas e funções dentro do processo. A criação de
dicotomias, por exemplo, entre teoria e técnica
Figura 1.5. Aplicação de técnica para fins de pesquisa científica.
(em que a primeira seria reveladora e a segunda Na foto, membros da Comissão Geográfica e Geológica, em
alienadora) é maniqueísta e cega para comple‑ levantamento em Salto dos Patos, no rio Grande (SP/MG), em 1910.

mentaridades. Um falso problema como este po‑


deria, eventualmente, remir alguns paradigmas
teóricos que ajudaram a legitimar as contradi‑ Caso o fazer promovido pelas técnicas tenha
ções sociais (malthusianismos, determinismos um fim em si, ou seja, esteja desvinculado de
eurocentristas) e, ao mesmo tempo, desvalorizar um processo de pesquisa científica, caracteriza­
o apoio técnico­‑instrumental às pesquisas cien‑ ‑se como um trabalho técnico. Por outro lado, se
tíficas (inclusive auxiliando na comprovação ou este fazer vincula­‑se a um processo de pesquisa
refutação de teorias), além dos institutos e órgãos conduzido por um método, evidencia­‑se um tra‑
técnicos (IBGE, por exemplo) que produzem e balho científico. Vale ressaltar que, num trabalho
sistematizam dados sobre os quais refletimos; que científico, a obtenção de dados não é aleatória,
fornecem “água para nosso monjolo analítico”. mas sistemática, estando sempre vinculada a um
Sem dúvida, a reflexão reveste­‑se de um status objetivo, a uma hipótese dentro de uma proble‑
mais alto na pesquisa, uma vez que é por meio mática preestabelecida5. Essa é a condição básica
dela que se promovem explicações. Mas, por ou‑ para que os dados possam atribuir objetividade ao
tro lado, não há como transformar a realidade trabalho científico, já que eles não o fazem por si
apenas refletindo sobre ela. Finalmente, embora só. E a decisão sobre a qualidade e a quantidade
haja, de fato, uma hierarquia, pois em um pro‑ dos dados, embora seja tomada pelo pesquisador,
jeto de pesquisa a teoria e o método orientam ou seja, pelo sujeito, será menos subjetiva se es‑
a prática (o homem pensa e concebe antes de tiver atrelada a uma problemática. De qualquer
agir), esta ordem seria mais operacional, pois não
haveria como estabelecer níveis de importância
para instâncias que têm diferentes funções no 5 Embora a observação aleatória também possa contri‑
mesmo processo. buir para o trabalho científico, como se verá adiante.

18 práticas de geografia
forma, o trabalho do pesquisador que faz uso das empíricas para serem aceitas pela comunidade
técnicas produzirá um conhecimento revestido científica, como a Teoria da Tectônica de Placas.
de caráter empírico, baseado, em grande parte, Na lógica do mercado, no entanto, muitos
na observação dos fatos, no uso dos sentidos, na instrumentos, especialmente os mais variados
prática e na vivência de situações reais. softwares, satélites e técnicas a eles associadas,
O pesquisador, enquanto cientista, diferen‑ desenvolvem­‑se com espantosa rapidez. A tec‑
temente do técnico, nunca poderá abrir mão do nologia, em uma de suas acepções possíveis,
método como processo mental que organiza seu caracteriza­‑ se pelo conhecimento técnico­
raciocínio, mas poderá fazê­‑lo, em certa medida, ‑científico aplicado a diversos fins6. Pode voltar­‑se
em relação à técnica. É possível que não domi‑ para a lógica do mercado, aumentando a produti‑
ne o uso de técnicas, terceirizando­‑as, o que o vidade e o lucro, ao atender demandas reais ou ar‑
tornará mais dependente de recursos e serviços tificiais (telefones celulares com jogos, TV, MP3,
para resolver as questões relacionadas à busca e filmadoras, GPS e computadores acoplados etc.).
sistematização de dados. Entretanto, é impor‑ Por outro lado, a tecnologia pode gerar muitos
tante considerar que a falta de tal domínio pode benefícios para a humanidade em diversas áreas,
incorrer na perda de espaço no mercado de tra‑ como medicina, comunicação e circulação de in‑
balho fora do meio acadêmico. formações, exploração de recursos naturais, ma‑
Por outro lado, o domínio da técnica, não peamentos e monitoramentos ambientais online,
necessariamente instrumental, pode assegurar entre muitos outros. Ainda que haja, atualmente,
ao pesquisador maior confiabilidade e maior o discurso da massificação da tecnologia, para‑
controle sobre os dados que irão subsidiar seus doxalmente, o acesso a ela não é universal, já que
argumentos. Esse domínio aprimora­‑se quase o poder aquisitivo ainda é fortemente desigual.
que exclusivamente no plano da prática, ou seja, A incorporação de valores e necessidades
no próprio uso da técnica, sobretudo daquelas pelo ser humano impulsiona o desenvolvimento
que empregam instrumentação específica. das técnicas (e instrumentos) ininterruptamente
As técnicas, diferentemente do método, cujo e com tamanha rapidez que se criam mitos em
desenvolvimento vincula­‑se às questões teóricas e torno delas como o mito da tecnologia, do prag‑
à própria evolução do pensamento humano, evo‑ matismo. Em outras palavras e aprofundando­‑se
luem segundo necessidades (práticas, produtivas, na questão, cria­‑se um paradoxo em que a razão
artísticas e científicas) que vão surgindo ao longo é obscurecida por ela mesma, pela mitificação
da história da humanidade, num percurso contí‑ da técnica. Por isso, torna­‑se necessário que o
nuo, embora não necessariamente linear. Quanto pesquisador seja muito criterioso na escolha das
mais complexidades do mundo real o ser humano técnicas que utilizará e que seus critérios não se
consegue desvendar por meio dos avanços técni‑ esvaeçam diante da sedução do novo.
cos e instrumentais, mais ele se depara com no‑ Impulsionado pelo mercado, o desenvolvi‑
vas complexidades. Quando o telescópio Hubble mento das técnicas antecipa­‑se às necessidades,
foi construído, para resolver determinadas ques‑ criando­‑as e recriando­‑as. Isso induz o usuário
tões acerca do cosmos, não era possível imaginar menos criterioso a mover­‑se em direção às “novi‑
quantas novas complexidades ele traria aos olhos dades” do mercado sem antes sentir necessidade
dos cientistas. Muitos mistérios foram revelados delas, tornando­‑as uma necessidade em si. Novas
e muitos outros vieram à tona quando os sonares
passaram a ser usados para estudos de batimetria
oceânica, além de terem possibilitado a confir‑ 6 A Ciência estaria voltada para a compreensão e a tec‑
mação de teorias que necessitavam de evidências nologia para a aplicação. Ver o Glossário.

capítulo 1 – a técnica e a observação 19


técnicas e instrumentos são buscados sem que os moderna, contanto que a relação custo­‑benefício
já existentes tenham sido suficientemente conhe‑ seja favorável. Mas não haveria por que adquirir
cidos e utilizados. Desse fato, decorre o risco de um caro GPS de última geração para a obtenção
uma inversão hierárquica no processo de produ‑ de alguns poucos dados de georreferenciamento
ção científica: a técnica, como meio de obtenção que poderiam ser obtidos de forma mais simples,
de dados, torna­‑se um fim em si mesma e, não até com uma bússola e um mapa.
raro, assume o papel do método. Em casos mais Deve­‑se ainda considerar a viabilidade e a
extremos, os instrumentos (softwares, imagens acessibilidade na escolha da técnica. Ainda que
de satélite etc.) assumem esse papel. Por isso, há ela possa ser adequada ao objeto e apresentar
que se reafirmar que o saber técnico existe para uma boa relação custo­‑benefício, o acesso a ela
exercer determinadas tarefas com maior eficiên‑ pode ser um obstáculo, seja pelo seu valor, seja
cia possível, mas não resulta em explicações. A por sua disponibilidade. É o que ocorreu durante
explicação de um fato ou fenômeno é produto de muito tempo com as imagens de satélite como
um saber científico estruturado por argumentos7. instrumento básico das técnicas de interpreta‑
Se o uso de instrumentos estiver desvinculado ção de imagens. Hoje, no Brasil, este instrumen‑
das teorias e métodos que regem o processo cien‑ tal é bem mais acessível.
tífico, estará atendendo a outros fins e os instru‑ Uma vez desvinculada a adequação da técni‑
mentos poderão tornar­‑se meras mercadorias. ca do grau de modernidade que incorpora, pode­
‑se fazer ainda algumas outras considerações. Os
instrumentos mais simples e tradicionais tendem
Critérios de escolha da técnica a ter uma vida útil muito maior. Uma bússo‑
la, um heliógrafo ou uma biruta funcionarão
No processo de pesquisa, a escolha das técni‑ indefinidamente, enquanto a Terra girar, o Sol
cas está, primeiramente, relacionada à natureza brilhar e o vento soprar. Funcionam sem fontes
do objeto de estudo e sua adequação a ele. Ao artificiais de energia e dificilmente algum com‑
se estudar Climatologia, por exemplo, não há ponente terá de ser substituído. Nesse sentido,
como escapar das técnicas e do uso de instru‑ os instrumentos eletrônicos, ainda que ofereçam
mentos (por mais digitais que estejam) como precisão e rapidez na obtenção dos dados, ten‑
as medições de temperatura por termômetros dem a ser mais frágeis e dependem de baterias,
ou da pluviosidade por pluviômetros (ver Capí‑ sinais de satélites, além de apresentarem, pela
tulo 5 – Técnicas de Climatologia). Do mesmo sua complexidade, maior chance de sofrer algum
modo, ao se estudar um tema em que a relação problema de funcionamento.
sujeito­‑ objeto envolve intersubjetividade, há Outro aspecto positivo dos instrumentos tra‑
que se lançar mão das técnicas de aplicação de dicionais ilustra­‑se pelo fato de que eles forçam
questionários ou entrevistas, entre outras (ver o observador a prestar mais atenção na dinâmi‑
Capítulo 21 – Técnicas de Interlocução). ca da natureza, favorecendo sua compreensão.
Em seguida, a escolha da técnica deve levar Um exemplo extremo dessa consideração pode
em consideração a relação custo­‑benefício. Nada ser dado pela comparação de um relógio digital
impede que a técnica mais adequada seja a mais e um relógio de Sol. No primeiro caso, o leitor
obtém automaticamente a hora em números
sem nenhum esforço mental, e, se o dado estiver
impreciso, ele dificilmente saberá. No caso do
7 Uma discussão sobre as diferenças entre o saber técnico
e o saber científico pode ser encontrada no segundo relógio de Sol, ele terá de “lembrar” que a Terra
capítulo de Granger (1994). gira no sentido oeste­‑leste, que o Sol “nasce” a

20 práticas de geografia
leste, além de ter que considerar qual é a estação sinais elétricos que equivalem a uma determinada
do ano e em qual hemisfério está. Observando­‑se quantidade de chuva. A criação de instrumentos
comparativamente o funcionamento de outros e técnicas também se inspira na observação di‑
instrumentos, por exemplo, uma bússola clássica reta de fenômenos da natureza. A observação do
e um GPS, uma balança digital e uma tradicional, sistema de locomoção dos morcegos inspirou a
com pesos e contrapesos, é fácil perceber que os invenção do radar, assim como a observação das
instrumentos mais simples exigem mais habili‑ aves inspirou o desenvolvimento da aviação.
dades do observador e “mostram” como os fenô‑ Finalmente, o bom­‑senso na escolha da téc‑
menos funcionam, enquanto os mais sofisticados nica e a criatividade para adaptações e usos são
oferecem resultados imediatos, mas camuflam o aspectos que devem ser considerados com a de‑
funcionamento dos fenômenos. vida seriedade. Essas características favorecem
A valorização de técnicas e instrumentos mais melhor adaptação às condições materiais do
simples ou tradicionais não ocorre aqui (e isso ambiente de trabalho e ao contexto socioeco‑
deve estar claro) em detrimento do moderno, do nômico do lugar onde se vive, possibilitando ao
sofisticado; da mesma forma que o contrário não cientista alcançar, mais rapidamente, as soluções
seria aceitável. Os instrumentos mais modernos técnicas requeridas. Por essa razão, também é
tendem a apresentar maior alcance, rapidez e importante conhecer o máximo de técnicas pos‑
precisão (ainda que a questão da precisão não sível, como forma de ampliar as possibilidades
seja prerrogativa exclusiva dos instrumentos di‑ de uso e adaptações em diversas circunstâncias.
gitais), características que podem ser absoluta‑
mente necessárias ao estudo. Há, também, certos
instrumentos sofisticados de pesquisa que são
insubstituíveis pelo que proporcionam. É o caso, O GABINETE, O CAMPO
por exemplo, de imagens de radar ou satélite (ver E O LABORATÓRIO
Capítulo 9 – Técnicas de Sensoriamento Remo‑
to). Ainda que não promovam a integração in loco O uso da técnica dentro do processo de pes‑
do observador com a natureza, proporcionam quisa pode, em muitos casos, ser dividido em
uma inigualável visão de conjunto, abstraindo três momentos ou espaços de trabalho: o gabi‑
e revelando aspectos ocultos, favorecendo enor‑ nete, o campo e o laboratório. O laboratório (do
memente a compreensão de diversos fenômenos, latim, laboratorium, lugar de trabalhar, de labore,
como a evolução de áreas urbanas, desmatamen‑ trabalhar) está sendo aqui considerado exata‑
tos, fenômenos climáticos, entre muitos outros. mente como um lugar de labor, de trabalho, seja
É interessante considerar ainda que muitas equipado com instrumental específico, ou não.
técnicas e instrumentos que nos são apresentados Assim, o gabinete incorpora­‑se nesta acepção.
como novos são, na verdade, roupagens tecnológi‑ De modo geral, a divisão entre gabinete e labo‑
cas de ideias já existentes ou de lógicas há muito ratório ocorre claramente em especialidades que
conhecidas. Os alunos normalmente se surpreen‑ requerem instrumentos mais específicos, como
dem quando descobrem que dentro de um plu‑ a Pedologia e a Climatologia, entre outras. O
viômetro eletrônico (ver Capítulo 5 – Técnicas de gabinete é utilizado para o planejamento e a pre‑
Climatologia) há uma pequena báscula (um tipo paração do trabalho de campo e o laboratório,
de monjolo), engenho cuja invenção se perde nos stricto senso, para o trabalho de sistematização
séculos da História. A única diferença consiste das informações recolhidas em campo. Nas pes‑
em um ímã que, a cada vez que o mecanismo quisas voltadas para temáticas sociais, não raro
abaixa com o peso da água que recolhe, envia o laboratório e o gabinete fundem­‑se em um

capítulo 1 – a técnica e a observação 21


mesmo espaço físico de trabalho, já que essas os alunos devem praticar a análise integrada,
temáticas requerem menor uso de instrumenta‑ articulando e relacionando os fatos observados.
ção específica. Embora se desenvolvam de forma Em pesquisas científicas, o campo é onde
mais independente dos aparatos técnicos, tais são gerados dados primários e confirmam­‑se ou
pesquisas lançam mão de boa parte das técnicas ajustam­‑se os secundários, ou seja, dados que po‑
tratadas neste livro, como a aplicação de questio‑ dem corroborar ou não hipóteses de trabalho e
nários e entrevistas (ver Capítulo 21 – Técnicas conceitos científicos. Nesse caso, a observação em
de Interlocução), de tratamento estatístico (ver campo é mais sistemática e menos aleatória, em‑
Capítulo 22 – Estatística Descritiva em Sala de bora o contato com a realidade quase sempre gere
Aula), registros fotográficos e videográficos (ver novas ideias que serão incorporadas como novas
Capítulo 19 – Técnicas de Fotografia e Capítulo variáveis à análise geográfica. Isso quer dizer que,
20 – Técnicas de Vídeo, respectivamente) e leitu‑ embora o contato com a realidade seja direto e sis‑
ra de imagens, entre outras. tematizado, não se tem controle assegurado sobre
Em princípio, o trabalho de gabinete auxi‑ os processos, como se pode ter em laboratório. No
lia no preparo do trabalho de campo, isto é, no campo, o pesquisador está submetido às dinâmi‑
planejamento das ações baseado em um conhe‑ cas da realidade que elegeu estudar. Pode haver
cimento prévio da área de estudo. Essas ações um deslizamento de encosta ou um protesto blo‑
podem envolver providências mais científicas, queando a estrada, uma tempestade, um “apagão”,
como o levantamento cartográfico e bibliográ‑ uma greve. Ou seja, a dinâmica do mundo real
fico da área de estudo, definição de pontos de pode nos reservar muitas surpresas, de modo que
observação segundo a temática e os objetivos é comum que o planejado no gabinete não ocorra
da pesquisa, e também ações mais logísticas, em campo exatamente como se esperava8. Isso
estabelecimento de contatos com interlocutores, significa que o planejamento do trabalho de cam‑
marcação de encontros para entrevistas, verifi‑ po, como o da pesquisa, requer certa flexibilidade
cação das condições de segurança dos pontos do pesquisador e a possibilidade de um plano B.
de parada, consulta às previsões meteorológi‑ A tecnologia incorporada cada vez mais aos
cas, obtenção de autorizações para entradas em instrumentos utilizados por determinadas técni‑
Unidades de Conservação, travessia de balsas, cas (como imagens de satélite de alta resolução,
hospedagem, além de muitas outras, sempre por exemplo) pode diminuir a necessidade de
atreladas aos objetivos do trabalho. campo, já que fornece informações cada vez mais
O momento do trabalho de campo representa precisas da realidade. Sendo uma das funções
o contato direto com a realidade, seja como ex‑ do trabalho de campo conferir as informações
tensão da sala de aula (aula de campo) seja para obtidas por outros meios, o aumento da precisão
a realização de pesquisa científica. Esse contato das informações pode tender a confinar o pesqui‑
pode ser de observação imediata ou intermedia‑ sador no laboratório. Mas ele deve ter consciência
do pelo uso de técnicas e instrumentalização. do risco que existe em transformar seu trabalho
Em aulas de campo, que podem ocorrer em no chamado “trabalho de gabinete” e, sobretudo,
qualquer ambiente (natural, urbano, rural e até
no oceano, a depender da temática envolvida)
os alunos praticam a observação orientada por 8 Lembro­‑me que, em 1988, programei um trabalho de
conceitos apreendidos em aula (erosão, mono‑ campo para a pesquisa de mestrado, no Parque Na‑
cultura de exportação, densidade populacional cional das Emas (GO). Mas um incêndio de grandes
proporções impossibilitou o trabalho de campo. Assim
etc.), além de usar algumas técnicas e manu‑ uma nova variável, relacionada à vulnerabilidade, foi
sear instrumentos. Mas, sobretudo, no campo, incorporada à análise.

22 práticas de geografia
ter clareza de que o campo e as informações que Finalmente, o campo socializa os geógrafos
ali podem ser obtidas são insubstituíveis. e os alunos, enriquecendo a vivência acadêmi‑
Em termos gerais, o trabalho de campo é uma ca e escolar, tornando o aprendizado escolar da
técnica ampla que incorpora outras mais especí‑ Geografia muito mais atraente e a pesquisa ge‑
ficas (atreladas aos diferentes objetos de estudo) ográfica cientificamente mais legítima.
e, de tão fundamental para a análise geográfica, Finalmente, o trabalho em laboratório en‑
é considerada por alguns como método, assim volve o tratamento das informações obtidas no
como o é para os antropólogos9. Esta é uma dis‑ campo e planejadas no gabinete. As amostras
cussão que, certamente, não se esgotará aqui. de solo serão analisadas mais precisamente e
O valor do trabalho de campo para os geógra‑ classificadas, os questionários serão tabulados,
fos atravessou séculos, fortalecendo­‑se com os as entrevistas serão transcritas, as fotografias se‑
naturalistas, resistindo às revoluções científicas rão melhoradas e os vídeos editados, os produtos
que reformularam a Geografia e chegando ao cartográficos serão eventualmente corrigidos em
século XXI com seu status inabalado, represen‑ função do que se observou no campo. Enfim, as
tando talvez o maior consenso entre os geógrafos informações devem ser sistematizadas de modo
das mais diversas tendências e formações. que possam ser incorporadas como base empí‑
O trabalho de campo é, segundo Wooldrid‑ rica da pesquisa.
ge, “fonte primária de inspiração e ideias e inspira O laboratório ainda tem outra função
uma grande parte tanto do problema quanto do acadêmico­‑ científica. É onde também podem
método de nossa área de estudo”, (1948:2, apud ser feitas simulações de fenômenos, cujo controle
stoddard & adams, 2004, p. 53). é mais eficiente do que em campo10; simulações
O campo é onde a complexidade da reali‑ que podem, por analogia, promover maior com‑
dade é revelada e conduzida à compreensão do preensão do real, a exemplo de testes de porosida‑
geógrafo, munido de seus principais conceitos, de e permeabilidade de solos, simulações de ba‑
como paisagem, espaço e região, por exemplo, os lanço hídrico, simulações de entrevistas, teste de
quais se materializam na realidade; dão sentido modelos (climatológicos, geomorfológicos etc.).
a ela e dela obtêm sentido. É onde as fronteiras Finalmente, o laboratório também exerce
acadêmicas das disciplinas deixam de fazer sen‑ uma função mais didática, tanto em escolas
tido e são substituídas por inúmeras conexões como em universidades, pois é o espaço em que
entre os fatos observados, num processo de re‑ promovem­‑se estágios, cuja função é, entre ou‑
construção conceitual. tras, a aquisição de determinadas habilidades
No campo, a visão do geógrafo é simultane‑ e o aprendizado do uso de determinadas téc‑
amente multiescalar, capaz de observar desde o nicas e instrumentos (confecção de mapas, por
detalhe a seu lado até o conjunto da paisagem, exemplo). Lembremos ainda que, nos estágios de
multiplicando­‑se as possibilidades de conexões ensino, a própria sala de aula é um laboratório11.
verticais (entre escalas de diferentes grandezas) Em suma, o laboratório promove um contato
e horizontais (entre os fatos simultaneamente
observados). Portanto, o trabalho de campo é
uma experiência insubstituível.
10 Experimentos também são empreendidos em campo,
em Geomorfologia, Climatologia, Biogeografia etc.,
9 Um dos métodos científicos da Antropologia refere­‑se mas exigem uma estratégia de controle mais complexa
à pesquisa participante, em que o pesquisador passa que envolve a proteção dos instrumentos, instalações,
longo tempo nas comunidades que estuda. Ver mais a coleta periódica das informações, etc.
informações no Capítulo 21 – Técnicas de Interlocução. 11 Ver Capítulo 15 – A Escola como Laboratório Vivo.

capítulo 1 – a técnica e a observação 23


controlado entre o pesquisador e a realidade, de qualquer conhecimento científico (ou o se‑
muitas vezes intermediado por instrumentos. gundo, se considerarmos que antes de sairmos
observando temos que ter uma problemática ou
temas predefinidos). Mesmo uma simples aula
de campo ou em estudo do meio (que aqui não
A OBSERVAÇÃO COMO estão sendo diferenciados), é útil que o professor
TÉCNICA PRIMORDIAL defina alguns temas­‑alvo para que a atenção dos
alunos não se disperse muito.
Talvez esta seja a técnica mais antiga e inata Ao diminuir a aleatoriedade da observação,
ao ser humano, já que ele passa a vida observan‑ é necessário preservar a visão de conjunto, tão
do. Aqui, estamos considerando dois tipos de essencial à análise geográfica integrada. A sis‑
observação: aleatória e sistemática. A primeira é tematização não deve ser um fator restritivo,
descomprometida de resultados; é mais contem‑ como uma viseira limitante do campo de visão.
plativa e seu nível de detalhe, velocidade, hie‑ Apenas fará com que o observador, ou melhor,
rarquia dos fatos dependerá apenas da atenção o sujeito preste mais atenção aos fatos relevados
e do interesse subjetivo do observador. Embora por aquela pesquisa, naquele momento, otimi‑
ela não seja metódica, contribui para o conheci‑ zando suas observações. Caso contrário, ele fica
mento científico, na medida em que pode gerar à deriva no oceano dos fatos14.
ideias, insights, de forma mais ou menos espon‑ A observação sistemática poderá ser operacio‑
tânea, não raro favorecida pelo próprio estado nalizada por uma diversa gama de instrumentos.
de relaxamento mental12. Mas como a pesquisa Os instrumentos óticos, como binóculos, lunetas,
não pode depender do surgimento de insights, lupas, lentes e microscópios, atendem a diferen‑
é necessário empreender uma observação mais tes objetos de estudo das diversas ciências, como
controlada, mais heurética. a Geografia, Biologia, Geologia e Astronomia.
A observação sistemática será dirigida ou focada Entre tais instrumentos ainda existem aqueles
em alguns alvos previamente determinados pelos que possibilitam o registro da observação, como
objetivos da pesquisa, precisamente pelas hipóte‑ câmeras fotográficas (ver Capítulo 19 – Técnicas
ses levantadas ou pelas variáveis analíticas sele‑ de Fotografia) e câmeras de vídeo (ver Capítulo
cionadas13. Quando se vai a campo observar fatos 20 – Técnicas de Vídeo). Há ainda os instrumentos
que se relacionam a um objetivo de pesquisa, o métricos, como o clinômetro, com o qual obtem­‑se
observador torna­‑se um sujeito e o fato observado a inclinação de vertentes (ver Capítulo 2 – Téc‑
transforma­‑se num objeto de estudo. A observação nicas de Geomorfologia), o termômetro, o helió‑
sistemática pode ser considerada como uma téc‑ grafo, para medir a radiação solar (ver Capítulo
nica orientada pelo método analítico descritivo e, 5 – Técnicas de Climatologia) e muitos outros,
enquanto técnica, não produzirá explicações, mas que serão apresentados neste livro. Finalmente,
lhes fornecerá as bases necessárias. Só é possível existem os instrumentos de georreferenciamento
explicar o que se conhece, portanto a observação que nos dão a posição geográfica e a orientação
descritiva deve ser valorizada como uma etapa espacial dos fatos observados, como a bússola, o
primordial da pesquisa, ou o primeiro momento GPS (ver Capítulo 7 – Técnicas de Cartografia e
Capítulo 10 – Técnicas de Localização e Georre‑
ferenciamento) e o próprio mapa.
12 É comum os alunos voltarem dos feriados e das férias
com ideias novas de pesquisa.
13 Diferença que se define apenas pela forma de aborda‑
gem, ou seja, do método adotado. 14 Consulte também Venturi (2008).

24 práticas de geografia
É conveniente ressaltar que não existe o ob‑ muns. Não raro, os observadores iniciarão sua
servador ideal, capaz de realizar observações observação pelo que mais chama a sua atenção,
isentas de subjetividade. Não se observa para por exemplo, um edifício mais alto, um pico pon‑
depois interpretar; a observação e a interpreta‑ tiagudo. Essa parece ser uma tendência daqueles
ção fazem parte de um mesmo processo, sendo que se iniciam na observação científica. Mas o
que a segunda poderá ser refinada a posteriori. A sujeito observador deve tomar alguns cuidados.
observação científica, portanto, nunca será total‑ O primeiro deles refere­‑se à importância daquele
mente objetiva, pois sempre sofre interferências fato de destaque, lembrando que os fatos não
do sujeito da observação. O que será observado, têm importância científica a priori, mas são rele‑
em que ordem, em qual nível de detalhamento, vados pelos objetivos da pesquisa. Sendo assim,
o que será omitido ou negligenciado, tudo isso aquele edifício alto pode ter pouca importância
será impregnado, num bom sentido, pelo sujei‑ explicativa, enquanto fatos mais sutis seriam mais
to, sua história, seus valores, seu conhecimento relevantes. Em segundo lugar, deve­‑se considerar
prévio. Segundo Hanson (1992), observar é ter que, quase sempre, são os fatos mais comuns que
uma experiência que sofre interferências das ajudam a explicar a realidade e não as exceções.
experiências anteriores. A experiência acumu‑ Certa vez, durante o percurso de um trabalho
lada apareceria na interpretação daquilo que se de campo, em 2007, paramos à beira da rodovia
vê, alterando a experiência da observação. Para Carvalho Pinto (no estado de São Paulo) para
ilustrar essa ideia, imaginemos um geógrafo com realizarmos um exercício de observação. Havia
seu filho de cinco anos passeando no centro de diante de nós uma grande extensão territorial
uma metrópole. Embora possam estar observan‑ caracterizada por colinas suaves, recobertas de
do sensorialmente os mesmo objetos, estão ten‑ campos com algum cultivo e alguma pecuária em
do experiências de observação muito distintas. pequenas propriedades. Porém, ao fundo, víamos
As diferenças da experiência da observação as escarpas continentais da Serra do Mar que
não existem apenas entre os sujeitos, mas em um “saltavam” no horizonte, fato que foi relatado com
mesmo sujeito ao longo do tempo. A observação grande destaque pelos alunos. A visão dos alu‑
do garoto de cinco anos mudará ao longo de sua nos ultrapassou toda a paisagem predominante
vida, à medida que suas experiências e seus co‑ (entre o grupo e a serra) e foi atraída pelo relevo
nhecimentos possibilitem a realização de novas destacado ao fundo, ainda que este não fosse re‑
leituras. presentativo do conjunto e nem ajudava a explicar
A observação ainda envolveria outros órgãos o contexto predominante. Em outra parada, já
sensoriais além da visão. Num país estrangeiro, num ambiente serrano, um pico mereceu desta‑
por exemplo, uma palavra só terá algum signifi‑ que em meio a um modelado de topos convexi‑
cado caso se tenha acumulado alguma experiên‑ zados. Mais uma vez, destacou­‑se uma exceção
cia linguística daquele povo, embora se possa e tornaram­‑se secundárias as características pre‑
ouvir os mesmos sons vocalizados. dominantes da paisagem, muito mais explicativas
A linguagem usada para fazer a descrição do dos processos de esculturação do relevo.
fato observado também será impregnada. As‑ Enfim, existiria uma ordem para se obser‑
sim, dez observadores fariam dez diferentes re‑ var os fatos da realidade? Sim, não e talvez. Sim,
latos de observação de um mesmo fato, mesmo caso se tenha um objetivo específico, hipóteses
que tivessem os mesmos objetivos de pesquisa ou variáveis já selecionadas, o que, como vimos,
e a mesma formação acadêmica. São os sujeitos orientaria a observação para determinados fa‑
que observam e não os pares de olhos. Apesar tos. Não, caso se esteja realizando exercícios de
dessas pluralidades, há algumas tendências co‑ observação descritiva, inventariando fatos que

capítulo 1 – a técnica e a observação 25


não estão necessariamente relacionados a um seja, que são inferíveis. Reflita sobre esta defini‑
objetivo de pesquisa. Observações dessa nature‑ ção de observação:
za são exercícios úteis para praticar a linguagem
adequada, o uso de conceitos, a homogeneização “A conclusão ou juízo baseado em elementos objetivos
do nível de detalhe etc. Finalmente, talvez, pois da realidade. Estes podem fundamentar­‑ se na percepção
há algumas sugestões em diferentes fontes, que dos sensíveis, de elementos da realidade que, embora não
se podem ser acatadas ou não. Na perspectiva sejam observáveis em princípio ou de fato, no entanto, têm
da Geografia Regional “clássica”, sugere­‑se ini‑ efeitos observáveis, como os prótons, por exemplo.” (GILES,
ciar as observações a partir dos aspectos físico­ 1993, p. 112­‑113)
‑territoriais, para então proceder à observação
das formas de ocupação e uso. Esse procedi‑ Assim, na medida em que o geógrafo interiori‑
mento pode ser adequado em muitos casos, já za alguns conceitos, como o de, paisagem enquan‑
que os tipos de uso sempre sofrem influência das to resultado da relação entre seus componentes,
características do ambiente. Há alguns autores, mais correlações e inferências poderá fazer,
por exemplo, que estabelecem ordem de fatos ou seja, mais fatos ”ocultos” poderá desvendar.
observáveis. Nagel & Spencer (2000, p. 14­‑18) Quanto mais conhecer as dinâmicas dos compo‑
propõem que, em áreas urbanas, por exemplo, a nentes da paisagem e do espaço, mais desvendará
observação deveria ocorrer na seguinte ordem: essências dissimuladas pelas aparências.
¾¾linhas de comunicação (ruas, estradas, aero‑ No entanto, é preciso deixar claro, no relato
portos); da observação15, o que de fato se viu e o que
¾¾tipos de uso (residencial, industrial, comer‑ foi inferido. Quando, à noite, num retorno de
cial) com caracterizações internas (classe média, campo, passamos pela transição entre uma ba‑
indústria de tecnologia, comércio de eletrônicos); cia sedimentar e um cinturão orogênico, vários
¾¾diferenciação entre áreas novas e antigas; alunos relataram ter observado essa transição
¾¾outros tipos de uso (terrenos baldios, espaços estrutural. Ora, apenas sabiam que essa tran‑
verdes etc.). sição ocorria aproximadamente naquela área e
poderiam até ter inferido esse fato pela sinuo‑
Já as diferentes áreas de estudo da Geografia, sidade que passou a caracterizar a estrada ou
como Biogeografia, Geomorfologia, Pedologia por alguma outra evidência ou efeito. Mas não
etc., por suas peculiaridades, trazem orientações observaram de fato e isso tinha de ficar claro,
sobre a ordem de observação dos fatos, como se pois as inferências são derivações interpretativas
verá nos capítulos subsequentes. da observação e, por isso, sujeita a erros.
Seja qual for o caminho da observação, uma Para apoiar as observações diretas e as in‑
ordem escalar deve ser considerada. É sempre ferências, o sujeito pode fazer uso de um “ins‑
conveniente iniciar a observação a partir de uma trumento” muito especial: a teoria científica,
visão mais geral para, gradativamente, se chegar composta de conceitos e leis que estabelecem
a detalhes, os quais farão mais sentido dentro relações explicativas entre os fatos e nos ajudam
de um contexto mais amplo. Se um fato é uma a tornar a realidade mais inteligível. Mas esse
abstração momentânea de um todo, ele será assunto fica para outro momento.
mais bem compreendido tendo esse todo como
referência, daí a necessidade de contextualizá­‑lo
em conjunturas mais amplas.
15 Para reforçar a ideia da descrição como relato da obser‑
Também fazem parte da observação fatos vação, leia o Capítulo 23 – A Redação do Trabalho de
que estão fora do alcance direto da visão, ou Campo.

26 práticas de geografia
NA SALA DE AULA

Propõe­‑se agora a realização de duas atividades de fixação conceitual e


treino de observação.

Atividade 1

Peça aos alunos, diante de uma mesma paisagem, que a descrevam em


uma página. Padronize o tempo de observação (cerca de 20 minutos16) e a
extensão da descrição (uma página). É interessante que a paisagem seja rica
em elementos naturais e antrópicos, pois se for muito homogênea o exercício
perderá sentido. Caso não haja possibilidade de realizar este exercício fora da
sala ou da escola, exponha uma imagem diante dos alunos.
Após o tempo previsto, peça para que cada um leia em voz alta a descrição
que elaborou. Neste momento, os alunos terão consciência das influências
subjetivas na observação do objeto. Discuta com os alunos os seguintes pon‑
tos:
¾¾Por que as observações são tão diferentes, já que a paisagem é a mesma e
os alunos estão no mesmo nível escolar?
¾¾Quantos iniciaram a descrição pelos aspectos mais marcantes, e por que
isso teria ocorrido?
¾¾Há aspectos da paisagem que, por serem mais sutis, foram negligenciados?
¾¾Que aspectos predominam na paisagem descrita? É mais urbana? Mais
rural? Apresenta regularidade na ocupação ou é do tipo “desordenada”?
¾¾Há elementos novos e antigos coexistindo?

Atividade 2

Em sala de aula, exponha aos alunos uma imagem ou, em campo, pare
diante de uma paisagem. A Figura 1.6 é um exemplo possível.
a) Quais são os elementos de fato observáveis, relacionados às moradias, a
aspectos naturais como vegetação, relevo etc.?
b) Quais seriam os elementos inferíveis? Com auxílio das informações do
Capítulo 2 deste livro (Técnicas de Geomorfologia), analise se haveria risco
de deslizamento. Quais aspectos indicam isso? Veja que foi preciso acumular
certo conhecimento para se poder inferir algo, para enriquecer a experiência
da observação/interpretação.

16 O tempo da observação é muito variável e quase sempre demanda mais tempo do que
imaginamos. Os 20 minutos foram propostos apenas para viabilizar o exercício em sala de
aula.

capítulo 1 – a técnica e a observação 27


c) Que outros fatores poderiam ser inferidos (exclusão social, degradação
ambiental etc.) e por quais indícios?

Repita esta atividade, agora usando uma imagem bem diferente, como a
Figura 1.7, por exemplo.
Eduardo Justiniano

Figura 1.6. Ocupação irregular em área de mananciais no município de São Paulo/SP, em 2006.
Eduardo Justiniano

Figura 1.7. Agronegócio de soja. Distrito Federal, 2006.

28 práticas de geografia
ConSideraçÕeS finaiS

Neste capítulo, procurou‑se argumentar em favor da técnica enquanto uma


instância do processo de pesquisa, ressaltando suas características, funções,
alertando para o risco de sua mitificação e, ao mesmo tempo, para possíveis
preconceitos remanescentes de épocas passadas. Se, por um lado, deve‑se ser
criterioso com a escolha e o uso das técnicas, por outro, apenas a prática consoli‑
da seu domínio. Mesmo a observação, enquanto técnica investigativa primordial
e base para a compreensão da realidade, deve ser praticada. O conhecimento
enriquecerá a experiência da observação, permitindo inferências cada vez mais
seguras e, assim, mais científicas.
Com base nos aspectos aqui relevados, expõem‑se nos capítulos subsequen‑
tes uma ampla gama de técnicas utilizadas pela Geografia e ciências afins, das
quais os alunos e professores poderão fazer uso, de acordo com suas necessi‑
dades e interesses.

29
REFERÊNCIAS DE APOIO

Glossário Bibliografia

Heurético: (do grego heuretikós = inventivo) diz­‑se do CUNHA, A. G. Dicionário etimológico da língua
método pedagógico pelo qual se leva o aluno a desco‑ portuguesa. 2. ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira,
brir por si mesmo a verdade que se lhe quer inculcar17. 1981.
Inferência: 1 – conclusão deduzida por raciocínio GILES, T. R. Dicionário de Filosofia – termos e filó-
(CUNHA, 1981, p. 435); 2 – o processo lógico ou con‑ sofos. São Paulo: EPU, 1993.
ceitual que consiste em derivar uma proposição de GRANGER, G. G. A Ciência e as ciências. São Paulo:
outra ou de outras proposições (GILES, 1993, p. 81); Editora da Unesp, 1994.
3 – admissão da verdade de uma proposição, que não é HANSON, N. R. Observação e interpretação. In: MOR‑
conhecida diretamente, em virtude da ligação dela com GENBESSER, S. (Org.). Filosofia da Ciência. São Pau‑
outras proposições já admitidas como verdadeiras18. lo: Cultrix, 1992.
Interpretação: 1 – operação pela qual o espírito passa LACOSTE, Y. Pesquisa e trabalho de campo. In: Se-
do signo para a coisa significada ou, preferivelmente, leção de textos, n. 11 (Série Teoria e Método). São
Paulo: AGB, 1985, pp. 1­‑23.
para a ideia significada19. Subentende­‑se, nesta acep‑
LENON, B. & CLEVES, P. Fieldwork techniques and
ção, que a interpretação necessita de conhecimento.
projects in Geography. Londres: Collins Educational,
2 – Explicação do sentido de algo […] 20.
1996.
Observação: percepção atenta. A observação é a
NAGLE, G. & SPENCER, K. Geographical enquiries –
pesquisa das características diferenciadoras de uma
skills and techniques for Geography. Londres: Nel‑
coisa e, nessa qualidade, o primeiro momento de
son Thornes, 2000.
qualquer conhecimento científico. […] Diferencia­‑se
SANTOS, M. A natureza do espaço – técnica e tem-
a observação natural, que consiste simplesmente em
po. Razão e emoção. São Paulo: Hucitec, 1997.
perceber as coisas (…) da observação científica, que
VENTURI, L. A. B. Ensaios geográficos. São Paulo:
consiste em ler­‑se instrumentos de mensura (termôme‑
Humanitas, 2008.
tro, barômetro etc.) e que implica num certo interesse
e em certos conhecimentos: a observação nunca é
passiva e só notamos as coisas ou características em
função de nossas disposições mentais e de nossos
conhecimentos21. SOBRE O AUTOR
Tecnologia: conjunto de conhecimentos, especial‑
mente princípios científicos, que se aplicam a um de‑ Luis Antonio Bittar Venturi é mestre (1993) e
terminado ramo de atividade22 . doutor (2001) em Ciências (Geografia Física) pela Uni‑
versidade de São Paulo (USP), onde também graduou­
‑se (1986) e licenciou­‑se. Atualmente, é professor dou‑
tor (RDIDP) da USP na graduação e na pós­‑graduação
do Departamento de Geografia, orientando pesquisas
17 Novo Dicionário Aurélio. Rio de Janeiro: Nova Fron‑ de mestrado e doutorado. Atua nas áreas de Geografia
teira, p. 721. dos Recursos Naturais, Teoria, Método e Técnicas de
18 Ibidem.
Campo e Laboratório da Pesquisa em Geografia, temas
19 GOBLOT, Edmond. Le vocabulaire philosophique.
Paris: Arnand Colin, 1927, p. 311. sobre os quais tem publicado artigos, livros e proferido
20 JUPIASSU, Hilton; MARCONDES, Danilo. Dicionário palestras. É avaliador ad hoc pelo MEC e parecerista
de Filosofia. 3. ed. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1996, de instituições de fomento à pesquisa e de publicações
p. 146. especializadas.
21 JULIA, Didier. Dicionário da Filosofia. Trad.: José
Américo da Motta Pessanha. Rio de Janeiro: Larousse
do Brasil, 1969, p. 231.
22 Idem nota 19 e 20, p. 1 360.

30 práticas de geografia
técnicas de
Geomorfologia
2
JuRANDyR LuCIANO SANCHES ROSS
MARISA DE SOuTO MATOS FIERz
BIANCA CARVALHO VIEIRA
Eduardo Justiniano

Introdução, 32 Condutividade hidráulica, 45 Na sala de aula, 52


Cartografia geomorfológica Técnicas aplicadas às áreas Considerações finais, 54
como suporte técnico da costeiras, 47 Referências de apoio, 55
pesquisa, 33 Modelagem matemática na Sobre o autores, 56
Experimentos de campo, 40 análise geomorfológica, 49
introdução

A maioria das pesquisas em Geomorfologia, como em qualquer outro ramo


das ciências da Terra, passa por três níveis de análise, quais sejam: trabalho de
gabinete ou escritório, trabalho de campo e trabalho de laboratório.
Os trabalhos de gabinete constituem‑se, sobretudo, na elaboração do projeto,
nas pesquisas bibliográficas, cartográficas e de dados preexistentes. Nesse rol,
estão livros, artigos de revistas, jornais, teses, dissertações, arquivos de fotos
aéreas, imagens de radar, imagens de satélites, arquivos de mapas topográficos
e mapas temáticos de Geologia, Pedologia, Geomorfologia, Hidrografia, ve‑
getação, usos da terra, climáticos, dentre inúmeros outros. Esses documentos
podem ser qualitativos e/ou quantitativos e servem de base analítica e teórico‑
‑metodológica, bem como subsidia a parte operacional da pesquisa.
A interpretação de fotografias aéreas e imagens de satélite e radar para pro‑
duzir os mapas temáticos preliminares, que serão confrontados com os dados de
campo e laboratório, é outra fase importante do trabalho de gabinete.
A pesquisa de campo, por sua vez, processa‑se de dois modos: um básico
inicial, que se caracteriza pelo trabalho de observação e descrição mais precisa
possível, incluindo coletas de amostras para análise laboratorial; e um segundo,
marcado pelos ensaios e experimentos de campo.
Dentre as pesquisas geomorfológicas, incluindo mapeamentos e trabalhos
de campo em Geomorfologia, destacam‑se o trabalho desenvolvido pela divi‑
são de recursos naturais do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE,
1995). Trata‑se de um manual técnico oferecendo um roteiro sistemático para
observações e descrições de fatos geomorfológicos, geológicos e pedológicos
detalhados, que possibilitam apoio às pesquisas sobre o relevo e sua dinâmica
pretérita e atual.
Outra obra de referência: Geomorfologia: exercícios, técnicas e aplicações,
organizada por Guerra & Cunha (1996) e produzida com a colaboração de vários
profissionais, foi o primeiro livro de aplicação de técnicas em Geomorfologia
no Brasil.
CartoGrafia
GeomorfolÓGiCa
Como SuPorte tÉCniCo
da PeSQuiSa

A cartografia do relevo ganhou importância Para Tricart (1965) os elementos de descri‑


na Europa, principalmente no Leste europeu, ção do relevo são informações que devem ser
após a Segunda Guerra Mundial, por dois prin‑ retiradas das cartas topográficas. Entretanto,
cipais motivos. O primeiro foi o desenvolvimento estas não são suficientes, sendo necessário acres‑
das bases tecnológicas, aviões e fotografias aéreas centar informações de natureza específica que
e, a partir da década de 1970, a utilização dos a simples carta topográfica não fornece, como,
sensores remotos com plataforma em aviões a por exemplo, rupturas topográficas, rebordos de
jato e em satélites, produzindo imagens de radar pequenos patamares. A identificação da “nature‑
e satélite, que passaram a ter ampla aplicação na za geomorfológica dos elementos do terreno” é
pesquisa dos recursos naturais, tais como: relevo, feita através de simbologia gráfica e é de caráter
solo, rochas, água, clima, vegetação. O segundo genético, pois ao se registrar, por exemplo, um
motivo deveu‑se, sobretudo, à necessidade de front de cuesta, ou uma crista sinclinal, está se
demonstrar a utilidade da Geomorfologia como fornecendo informações ligadas à gênese.
instrumento para desenvolvimento econômico e A datação das formas, ainda que relativa, é
social dos então países comunistas, com destaque primordial para que se possa identificar o que
para URSS, Polônia, Tchecoslováquia e Alema‑ são formas herdadas das formas vivas que con‑
nha Oriental, em função dos mapeamentos dos tinuam a se desenvolver na atualidade e, ao mes‑
recursos naturais e do planejamento territorial. mo tempo, ajudar na explicação da gênese.
No Brasil e na Austrália, países de grande dimen‑ Tricart (1965), ao discutir a concepção e os
são territorial, a Geomorfologia também firmou‑ princípios da carta geomorfológica detalhada,
‑se com os mapeamentos geomorfológicos volta‑ lembra que a descrição razoável dos fatos geo‑
dos para projetos de levantamento dos recursos morfológicos representa categorias de fenôme‑
naturais através do Projeto Radambrasil (Brasil – nos muito diferenciados segundo a escala ado‑
1970/1985) e da CSIRO (a partir de 1945). tada. Afirma que as cartas de pequena escala,
O mapa geomorfológico é um importante em função da natureza das coisas, são orientadas
instrumento na pesquisa do relevo, correspon‑ para representar, sobretudo, os fenômenos mor‑
dendo ao que Tricart (1965) apresentou como foestruturais. Já nas cartas de escala maiores, as
sendo o que constitui a base da pesquisa e não formas esculturais assumem maior significado.
a concretização gráfica da pesquisa já feita. Ele Afirma também que as cartas geomorfológicas
é ao mesmo tempo o instrumento que direciona detalhadas devem compor‑se de dados de quatro
a pesquisa e, quando concluído, deve representar naturezas diferentes:
uma síntese como produto desta. Assim, a carta ¾ dados morfométricos: obtidos a partir de carta
geomorfológica é indispensável na questão do topográfica;
inventário genético do relevo. Para tanto, ao se ¾ informações morfográficas: que devem ser re‑
elaborar a carta geomorfológica é necessário: gistradas através de simbologia que indique o
¾ fornecer elementos de descrição do relevo; fenômeno e sua origem, por exemplo, escarpa
¾ identificar a natureza geomorfológica de to‑ de falha ao invés de simplesmente escarpa;
dos os elementos do terreno; ¾ dados morfogenéticos: as formas registradas
¾ datar as formas. no mapa através de símbolos devem indicar sua

capítulo 2 – técnicas de geomorfologia 33


gênese, como terraço fluvial, planície fluviolacus‑ direto com a tipologia das formas. Para a carto‑
tre, entre outros; grafia geomorfológica são aplicados os mesmos
¾ cronologia: a idade das formas também deve princípios adotados para a cartografia de solos
ser estabelecida, distinguindo‑se as formas fun‑ e de geologia, em que se representa o que estes
cionais das formas herdadas (paleoformas). As temas têm de concreto, ou seja, os tipos de so‑
paleoformas indicam os processos pretéritos, en‑
quanto as formas atuais permitem definir o siste‑

Matos Fierz & Ross


ma morfogenético operante na região atualmente.

A cartografi a geomorfológica deve mape‑


ar concretamente o que se vê e não o que se A
deduz da análise geomorfológica.Portanto, em
primeiro plano, os mapas devem representar os
diferentes tamanhos de forma de relevo, dentro B
da escala compatível. Em primeiro plano deve‑se
representar as formas de diferentes tamanhos e,
em planos secundários, a da morfometria, mor‑
fogênese e morfocronologia, que têm vínculo Figura 2.1. Fragmento do mapa das morfoestruturas
do estado de São Paulo.

Morfoestruturas e Morfoesculturas no Estado de São Paulo


2 1
2.1
2.1.1 2.1.2 2.1.3 2.1.4

2.2.1 2.2.2 2.2.3 2.2.4

2.2.2.1 + +

Sérgio Fiori
+ +++ +
+ + +
+ + +
+ + + +
+ + + ++ + +
A B
MORFOESTRUTURAS
++++ 1 - Morfoestrutura em estruturas dobradas - rochas cristalinas (não detalhadas neste
exemplo)

2 - Morfoestrutura em bacia sedimentar - rochas sedimentares


2.1- Morfoestrutura em planalto (esculpido em rochas sedimentares)
2.1.1 - Tipos de formas ou padrões de formas semelhantes - colinas de topos
pequenos e convexos
2.1.2 - Tipos de formas ou padrões de formas semelhantes - colinas de topos
amplos e convexos
2.1.3 - Tipos de formas ou padrões de formas semelhantes - colinas de topos
amplos e planos
2.1.4 - Formas em escarpa com patamares estruturais
2.2 - Morfoestrutura em depressão periférica
2.1.1 - Tipos de formas semelhantes - colinas de topos amplos e convexos
2.1.2.- Tipos de formas semelhantes - colinas de topos amplos e planos

Formas de vertentes
2.2.2.1 - Forma em colina de topo convexo

Figura 2.2. Perfil das morfoestruturas e morfoesculturas no estado de São Paulo. Fonte: Ross (2004).

34 práticas de geografia
los e as formações rochosas para, a seguir, dar mento geomorfológico adotado pelo Projeto
outras informações relativas à idade, à gênese e Radambrasil, no qual as formas agradacionais
às demais características de um modo descritivo recebem a primeira letra maiúscula A (de agra‑
no corpo da legenda. dação) acompanhadas de outras duas letras mi‑
A cartografação e a análise geomorfológica núsculas que determinam a gênese e o processo
podem seguir os pressupostos da metodologia de geração da forma de agradação. Por exemplo:
proposta por Ross (1990 e 1992), como indicam Apf – A de agradação ou acumulação; p de pla‑
as Figuras 2.1. e 2.2. nície e f de fluvial. Outras formas de agradação
O primeiro táxon, que representa maior ex‑ possíveis são as planícies marinhas (Apm)e as
tensão em área e que corresponde às unidades planícies lacustres (Apl), entre outras. As formas
morfoestruturais, é identificado em imagens denudacionais (D) são acompanhadas de outras
de radar e satélite e controlado em trabalho de letras minúsculas que indicam a morfologia do
campo e por cartas geológicas. Na representa‑ topo da forma individualizada, que é reflexo do
ção cartográfica, cada unidade morfoestrutural processo morfogenético que gerou tal forma. As
é identificada por cor. formas podem apresentar características de to‑
O segundo táxon, referente às unidades mor‑ pos aguçados (a), convexos (c), tabulares (t) ou
foesculturais contidas em cada morfoestrutura absolutamente planos (p), conforme apresentado
é, do mesmo modo, identificado com o auxílio na Tabela 2.1., a seguir.
dos produtos dos sensores remotos e controlado Deste modo, os conjuntos de formas denuda‑
com a investigação de campo. Essas unidades cionais são batizados pelos conjuntos Da, Dc, Dt
recebem identificação por diferentes tons da cor e Dp ou outras combinações que apareçam ao
que representa a morfoestrutura. Por exemplo, se executar o mapeamento. Esses conjuntos são
se a cor verde indica uma determinada morfo‑ acrescidos de algarismos arábicos extraídos da
estrutura, os variados tons de verde indicarão as matriz dos índices de dissecação. Por exemplo:
unidades morfoesculturais contidas e pertencen‑ o conjunto Dc23 significa forma denudacional
tes a essa morfoestrutura. de topo convexo com entalhamento do vale de
O terceiro táxon representa as unidades mor‑ índice 2 (20 a 40 metros) e dimensão interfluvial
fológicas ou padrões de formas semelhantes que de tamanho médio (750 a 1.750 metros). Veja a
estão contidos nas unidades morfoesculturais e Figura 2.3, na próxima página.
correspondem às unidades em manchas de me‑ O quarto táxon é representado pelas formas
nor extensão territorial, definindo­‑se por conjun‑ individualizadas que, neste caso, são indicadas
tos de tipologias de formas (tipos de relevo) que no conjunto. Deste modo, a unidade morfoló‑
guardam entre si elevado grau de semelhança, gica ou de padrão de formas semelhantes tipo
quanto ao tamanho de cada forma e aspecto fi‑ Dc33 constituem­‑se por formas de topos arre‑
sionômico. Esses padrões caracterizam­‑se por dondados ou convexos e vales entalhados que,
diferentes intensidades de dissecação do relevo individualmente, caracterizam­‑se por morros.
ou rugosidade topográfica, por influência dos Assim, a forma individualizada é um morro de
canais de drenagem temporários e perenes. topo convexo, com determinadas características
As unidades morfológicas ou padrões de for‑ de tamanho, inclinação de vertentes e gerada
mas semelhantes são de duas naturezas gené‑ por erosão física e química fazendo parte de um
ticas: as formas agradacionais (de acumulação) conjunto maior: o padrão de forma semelhante.
entre as quais estão as planícies; e as formas O quinto táxon refere­‑se às partes que com‑
denudacionais, em que predomina a erosão. põem as formas do relevo, ou seja, das verten‑
Podem­‑se seguir os procedimentos do mapea‑ tes. Este táxon só pode ser totalmente repre‑

capítulo 2 – técnicas de geomorfologia 35


Tabela 2.1 – Padrões de formas de relevo

Formas de denudação Formas de acumulação

D – Denudação (erosão) A – Acumulação (deposição)

Da – Formas com topos aguçados Apf – Formas de planície fluvial

Dc – Formas com topos convexos Apm – Formas de planície marinha

Dt – Formas com topos tabulares Apl – Formas de planície lacustre

Dp – Formas de superfícies planas Api – Formas de planície intertidal (mangue)

De – Formas de escarpas Ad – Formas de campos de dunas

Dv – Formas de vertentes Atf – Formas de terraços fluviais

Atm – Formas de terraços marinhos

Fonte: Modificado do tema Geomorfologia do Projeto Radambrasil – MME – SNPM – 1982.

sentado cartograficamente quando se trabalha ticas genéticas. Assim, os setores de vertentes


com fotografias aéreas em escalas de detalhe podem ser identificados como: escarpado (Ve),
como 1: 25.000, 1: 10.000, 1: 5.000, ou imagens convexo (Vc), retilíneo (Vr), côncavo (Vcc), em
de satélite de alta resolução espacial. Nesses ca‑ patamares planos (Vpp), em patamares incli‑
sos, as vertentes são indicadas por seus diversos nados (Vpi), topos convexos (Tc), topos planos
setores que indicam determinadas caracterís‑ (Tp) entre outros que possam ser encontrados.

Sérgio Fiori
DIMENSÃO INTERFLUVIAL
de 3.750 m de 1.750 m de 750 m de 250 m de 250 m
a mais a 3.750 m a 1.750 m a 750 m a menos
1 2 3 4 5
até 20 m
1 11 12 13 14 15
ENTALHAMENTO

de 20 a 40 m
2 21 22 23 24 25
de 40 a 60 m
3 31 32 33 34 35
de 60 a 80 m
4 41 42 43 44 45
Figura 2.3. Padrões de
dissecação do relevo e 80 m ou mais
exemplos de padrões de 5
dissecação aplicável para 51 52 53 54 55
escalas médias (1:100.000,
1:250.000). Fonte:Tema Dt 31 Dt 13 Dt 15
Geomorfologia do Projeto
Da 54
Radambrasil/MME/SNPM B Dc 33 Dt 11
(1982), adaptado.

36 práticas de geografia
O sexto táxon corresponde às pequenas for‑ As declividades das vertentes tanto podem ser
mas de relevo que se desenvolvem, geralmente, obtidas com medidas com clinômetro ou com
por interferência humana, ao longo das verten‑ bússola geológica no campo ou elaborando‑se os
tes. São formas geradas pelos processos erosivos mapas clinográficos, já bastante divulgados em
e acumulativos atuais. Nestes casos, destacam‑ nosso meio, sobretudo, a partir da contribuição
‑se as ravinas, voçorocas, terracetes de pisoteio de De Biasi (1992).
de gado, deslizamentos, corridas de lama, peque‑ Os sistemas de informações geográficas
nos depósitos aluvionares de indução antrópica (SIG) possibilitam a elaboração dos mapas iso‑
e bancos de assoreamento. Também se enqua‑ clinográficos pelo processamento digital dos da‑
dram neste táxon os cortes, aterros, desmontes dos numéricos topográficos.
e outras formas produzidas pelo homem. Essas Os mapas clinográficos ou de declividade,
formas de relevo só podem ser representadas bem como os perfis topográficos, a priori, eram
quando em escalas grandes, em que é possível elaborados manualmente, tendo como ponto de
cartografar detalhes dos fatos geomórficos indi‑ partida os mapas topográficos de diferentes es‑
cados em fotos aéreas ou no campo. calas. Atualmente, a maioria dos pesquisadores
já utiliza as técnicas de geoprocessamento para
a elaboração desses mapeamentos. No entanto,
costuma‑se, em sala de aula, utilizar a técnica
morfometria Como manual, porque é uma forma de se fi xar con‑
tÉCniCa de análiSe ceitos melhorando a aprendizagem com relação
GeomorfolÓGiCa à interface realidade/representação das formas
do relevo.
Existem vários recursos técnicos para as me‑ Em função da escala e da equidistância das
didas das formas do relevo, que se aplicam em curvas de nível ou isoípsas, monta‑se o ábaco com
mapas e também no campo (ver Figura 2.4). os intervalos de declividades que se deseja repre‑
sentar (Figura 2.5). A partir da construção do
ábaco, percorre‑se com ele por entre as curvas de
nível do mhapa e elabora‑se a divisão dos espaços
Fatia entre curvas pelos polígonos demarcáveis pelo
710
percurso das classes de declividades estabelecidas
700 no ábaco, conforme descreve De Biasi (1992).
Em campo, é possível fazer medição da decli‑
Sérgio Fiori

vidade com o uso do clinômetro, equipamento


Fatia
que possui uma mira e no seu interior uma bolha
Figura 2.4. Modelo de fatiamento do relevo em carta topográfica.
Fonte: De Biasi (1992), adaptado.
Sérgio Fiori

ACETATO
10% 10%

20% 20%

640 640

650 650
Fendas

Figura 2.5. ábacos na elaboração da carta clinográfica manual. Fonte: De Biasi (1992), adaptado.

capítulo 2 – técnicas de geomorfologia 37


que auxilia na definição do ponto de equilíbrio.
Quando se atinge o alvo desejado, ou seja, o
topo ou a base da vertente, trava‑se o clinômetro
fazendo‑se a leitura da declividade em graus ou
em porcentagem (Figura 2.6).
Os perfis topográficos1, que podem reunir ao
mesmo tempo forma, litologia e, dependendo da
escala, os tipos de solos, são elaborados em sala

Eduardo Justiniano
de aula com a utilização de cartas topográficas
(ver Figura 2.7).
Com as informações de altitude traça‑se um Figura 2.6. Clinômetro.

transecto sobre a carta topográfica, o qual pode


ser retilíneo ou tortuoso. Para elaborar o perfil
retilíneo, basta transferir com uma régua ou com Caso o transecto elaborado seja sinuoso ou
uma tira de papel as informações desse tran‑ siga em direções diferentes, utiliza‑se o cur‑
secto para um papel milimetrado, ajustando as vímetro, que pode ser analógico ou digital. O
distâncias de acordo com as escalas horizontal e curvímetro analógico possui uma roldana com
vertical adequadas para o mapeamento. a qual se percorre o transecto, ou o curso do
Desta forma destaca‑se a sequência apresen‑ rio, quando se quer elaborar o perfil longitudi‑
tada pelo IBGE (2008). nal de um rio (vide Capítulo 3 – Técnicas de
¾ Em um papel milimetrado, traça‑se uma li‑ Hidrografia). Essa roldana está diretamente li‑
nha básica e transferem‑se, com precisão, os si‑ gada a um ponteiro que gira ao mesmo tempo,
nais para essa linha. indicando a distância percorrida de acordo com
¾ Levantam‑se perpendiculares no princípio e no a escala da carta, lembrando que o curvímetro
fim dessa linha e determina‑se uma escala vertical. analógico possui um visor com diversas escalas;
¾ Seguindo‑se as linhas verticais do papel mi‑ já no digital, define‑se a escala anteriormente ao
limetrado, levantando ‑se perpendiculares dos procedimento.
sinais da linha‑base, marca‑se a posição de cada Há outras técnicas de morfometria, como as
ponto correspondente na escala vertical. utilizadas por meio da contagem de crênulas2
nas imagens de radar; a da matriz de dissecação
Em seguida, todos os pontos serão unidos do relevo desenvolvida pelo Projeto Radambrasil
com uma linha, evitando‑se traços retos. Alguns e modificada por Ross (1992), que opera com as
cuidados devem ser tomados na representação dimensões dos interflúvios na horizontal e com
do perfil. os entalhamentos dos vales na vertical; as téc‑
¾ Iniciar e terminar com altitude exata. nicas de medidas de frequência de rios (Fr) ou
¾ Distinguir entre subida e descida quando canais de drenagem, e as de densidade de drena‑
existir duas curvas de igual valor. gem (Dd), explicadas no Capítulo 3 – Técnicas
¾ Desenhar cuidadosamente o contorno dos de Hidrografia. Repare na estreita relação entre
picos, se achatados ou convexizados, ou ainda, Geomorfologia e Hidrografia: quanto maior a
em forma de crista.

2 Crênulas resultam da combinação da densidade de ca‑


nais de drenagem e alturas dos morros ou colinas (ru‑
1 Sobre a escala vertical, necessária à construção do per‑ gosidade topográfica). Expressam‑se pela textura dos
fil, consultar o Capítulo 7 – Técnicas de Cartografia. alvos na imagem.

38 práticas de geografia
Sérgio Fiori
N

50
50 100
100 150
150 250
300 350 200
200

A B

50

400
Metros

350
300
250
200
Figura 2.7. Esquema
150
para elaboração de
100
perfil topográfico.
50
Fonte: IBGE (2008).
0
A B

densidade de drenagem, mais dissecado tende com exclusividade. Nesses casos, é imprescindível
a ser o relevo. a utilização das fotos aéreas.
Outro indicador também pode ser utilizado Outra situação que também dificulta a apli‑
aplicando ‑se a razão de textura (T) que se ex‑ cação dessas medições é quando a escala é pe‑
pressa pela fórmula: quena, como 1:100.000 ou 1:250.000 em relevo
3 de elevada dissecação. Nessas escalas, tanto
NT (número de canais) imagens de radar quanto imagens de satélites
T=
P (perímetro da bacia ou da amostra) oferecem grande dificuldade de identificação da
rede de drenagem devido à sua elevada densida‑
Todas essas fórmulas podem ser aplicadas de. Isso praticamente torna impossível a aplica‑
para diferentes escalas de trabalho e utilizando‑se ção, quer seja de medidas de densidade de dre‑
diferentes sensores (imagens de radar, de satélite, nagem (Dd), frequência de rios (Fr) ou razão de
fotos aéreas) ou até mesmo, de forma simplifica‑ textura (T). Entretanto, nesses casos, pode‑se
da, utilizando‑se apenas boas cartas topográficas. aplicar a mesma fórmula de razão de textura (T),
Entretanto, quando se trata de áreas em que a substituindo‑se o número total de canais (NT)
intensidade de dissecação do relevo é elevada, as pelo número total de crênulas, ou seja:
cartas topográficas tendem a apresentar a rede de
drenagem simplificada, o que impede utilizá‑las NC (número total de crênulas)
T=
A (área)

3 Para calcular o perímetro também se utiliza o curvíme‑ Assim, a rugosidade topográfica fica repre‑
tro ou software de mapeamento. sentada por meio da razão de textura em vez do

capítulo 2 – técnicas de geomorfologia 39


número total de canais, utilizando­‑se o número parcela sob a mata natural, outra sob um bosque
total dos pequenos divisores ou espaços interdre‑ de silvicultura, outra em terrenos com pastagem,
nos, que representam as formas do relevo. Para outra com agricultura de ciclo curto (soja, mi‑
facilitar a operacionalização do trabalho, deve­‑se lho, trigo, algodão etc.), outra com agricultura
optar pela utilização de amostras circulares de de ciclo longo (citricultura, café, cacau, pimenta
área conhecida e proceder à contagem dentro do reino, frutas arbóreas etc.). Essas variações
de cada amostra para cada uma das tipologias podem ser trabalhadas em função das estações
de padrão de forma do relevo representadas por climáticas ao longo do ano ou dos tipos climá‑
“manchas” pré­‑identificadas de “padrões de for‑ ticos regionais. Enfim, há uma grande gama de
mas semelhantes”. possibilidades para se trabalhar com os experi‑
Essas propostas de mensuração para estabe‑ mentos de campo. Seguem algumas técnicas de
lecimento dos índices de dissecação do relevo são medição de erosão.
mais apropriadas para escalas pequenas e médias
(1:250.000, 1:100.000, 1:50.000). Para as escalas
maiores que ressaltam maiores detalhes (1:25.000, Calhas de Gerlach
1:10.000, 1:5.000) deve­‑se trabalhar o relevo por
meio do mapeamento de elementos das formas, Os experimentos com parcelas delimitadas e
ou seja, identificando a tipologia de segmentos fechadas com calhas para coletas de sedimentos
de vertentes. Nesses casos, os índices de disse‑ e água constituem­‑se por lâminas ou placas de
cação serão dados pelas classes de declividade e metal galvanizado que fecham três lados de um
não mais pelas técnicas anteriormente discutidas. retângulo com um quarto lado posicionando na
parte mais baixa da área de amostragem, onde se
instala a calha coletora também construída por
lâmina de ferro. A calha também é conectada a
EXPERIMENTOS DE CAMPO tambores por saídas laterais de água, conforme
a Figura 2.8. O trabalho do pesquisador e seus
Entre os experimentos mais utilizados em auxiliares é coletar, a cada chuva, o volume de
campo estão as parcelas para medir erosão dos água e sedimentos armazenados na calha e nos
materiais particulados dos solos pela ação me‑ tambores, medindo­‑os, secando­‑os e pesando­‑os
cânica das águas das chuvas. em balança de precisão.
Esses experimentos devem ser instalados em Importante lembrar que ao lado do expe‑
diferentes condições de relevo, solos e cobertura rimento é preciso instalar um pluviômetro ou
vegetal para que os dados possam ser compa‑ pluviógrafo para se ter simultaneamente os da‑
rados. Deve­‑se sempre tomar variáveis fixas e dos sobre o volume das chuvas que ocorrem no
promover a variação das demais. Por exemplo, episódio que transportou aquela quantidade de
toma­‑se como variáveis fixas a morfologia da sedimentos contidos nas águas da calha e dos
vertente, a declividade uniforme do setor da tambores. Esse procedimento deverá ser feito
vertente escolhida e o tipo de solo, como, por permanentemente ao longo de toda a fase de
exemplo, uma vertente côncava, com declividade experimentação, que poderá ser de pelo menos
de 20% e solo de textura média (argiloarenosa). um ano, para se ter uma melhor percepção da
Os experimentos são instalados nos terrenos que dinâmica processual em função dos períodos
tenham essas características de relevo e solo e chuvosos e secos.
os sítios devem variar em função da cobertura Se, ao final de um experimento, constatar­‑se
vegetal e do uso da terra. Pode­‑se instalar uma que a parcela instalada em uma cultura X acu‑

40 práticas de geografia
mulou mais sedimentos que aquela em cultura Y, por de alguns pinos por área, mais que três ou
pode‑se concluir que a cultura Y protege mais o quatro por unidade de área preestabelecida. Por
solo e a X o deixa mais suscetível à erosão. exemplo: cinco pinos regularmente distribuídos
instalados em dois metros quadrados.
Os pinos devem ser graduados de um em
Pinos de erosão um centímetro e introduzidos no solo por im‑
pacto até atingir certa medida, igual para to‑
Os pinos de erosão devem ser instalados dos. A partir disso, monitora‑se ao longo de
utilizando‑se os mesmos critérios adotados para um tempo preestabelecido (dias, meses, ou um
as parcelas com as calhas de Gerlach, ou seja, ano), verificando ‑se o quanto a erosão retirou
escolhem‑se os sítios para experimentação e sedimentos, pela maior exposição dos pinos na
tomam‑se variáveis fi xas (relevo, solo) variando superfície. Pode‑se também utilizar esta técnica
o uso da terra. Pode‑se, também, tanto para as para verificar se houve acúmulo de sedimentos
calhas como para os pinos de erosão, utilizar (fundo de vale, por exemplo), quando os pinos
como variável fi xa a cobertura vegetal/uso da são gradativamente encobertos. O rebaixamento
terra e variar o relevo e o solo, dependendo do ou a elevação do terreno são medidos sempre em
que se queira testar. Pode‑se ter como variáveis centímetros (graduação dos pinos).
fi xas, por exemplo, o relevo e a cobertura vege‑ É importante verificar o comportamento
tal, variando o tipo de solo. Neste caso, o resul‑ do rebaixamento erosivo nos espaços entre os
tado indicará qual tipo de solo é mais suscetível pinos e mais afastados destes, porque há uma
à erosão. Variando‑se as formas de vertente, irá tendência da ação de turbilhonamento da água
se concluir pelas formas mais instáveis, e assim ao redor de cada pino e isso promove mais ero‑
por diante (ver Figura 2.9). são do que nas partes nas quais não há pinos.
A quantidade e a distribuição dos pinos de Esse procedimento pode ser executado com uma
erosão nos sítios de experimentação pode ser linha nivelada nos topos dos pinos e medindo‑se
variável, mas acredita‑se que é sempre bom dis‑ ao longo dela a altura da mesma em relação à

"Splash"
Chuva
"Detachment"

Escoamento superficial
m
2,0 Chapas de ferro
galvanizado
m
1,0 Solo Calha coletora
De
20 cliv (PVC)
ida
10 cm de
cm (+)
Sol 5° Tampa
oc
om
veg
eta
ção
Sérgio Fiori

Galão
(60 litros)

10,
0m

Figura 2.8. Parcela para


monitoramento de escoamento
superficial runoff. Fonte:
Guerra (1998).

capítulo 2 – técnicas de geomorfologia 41


superfície do terreno em vários pontos. Após as dos para se executar as medições, deve‑se fazer
medidas, extrai‑se o valor médio das alturas, do várias medidas (em torno de cinco) para cada
qual se subtrai o valor inicialmente deixado para horizonte de solo. Esse procedimento é neces‑
cima da superfície do terreno quando os pinos sário para avaliar a tendência comportamental
foram fi xados. da resistência de cada horizonte de solo, de cada
um dos lugares selecionados para as medições.
Os testes com o penetrômetro de impacto são
Penetrômetros efetuados aplicando ‑se verticalmente a haste
metálica que recebe impactos de 4 kg de um ci‑
Os testes com penetração de hastes metáli‑ lindro de aço, que se desloca por 40 cm apoiado
cas servem para medir o grau de resistência que em vareta metálica, conforme ilustra a Figura
os solos oferecem à penetração sob impacto ou 2.11. Esse equipamento, desenvolvido por pes‑
sob pressão. Esses testes indicam o estado de quisadores do antigo IAA (Instituto do Açúcar
compactação em que os solos se encontram e e do Álcool), é conhecido pelo nome de seu cria‑
são usualmente utilizados em área de agricul‑ dor: penetrômetro de Stolf. A haste metálica tem
tura, por engenheiros agrônomos, para medir comprimento de 70 cm e imprimem‑se quantos
a compactação dos solos em áreas agrícolas. impactos forem necessários para fazer penetrar
Os valores são dados por kgf/cm² e podem ser a haste até o limite do comprimento da mesma.
aplicados utilizando‑se aparelhos denominados A haste é graduada de 10 em 10 cm, e deve‑se
penetrômetro portátil ou de bolso, penetrômetro de contar quantos impactos são necessários para
impacto e penetrômetro eletrônico. penetrar cada 10 cm. Deve‑se proceder vários
O penetrômetro portátil é normalmente uti‑ ensaios (no mínimo três) em cada local escolhido
lizado para medir resistência dos horizontes dos para os testes. Os testes devem ser efetuados
solos em cortes (ver Capítulo 4 – Técnicas de com o solo úmido, portanto, no período chuvoso
Pedologia), perfis ou em trincheiras com pene‑ de verão.
tração horizontal. O uso desse equipamento é O penetrômetro eletrônico (Figura 2.12), que
bastante simples: o penetrômetro portátil tem pode ser manual ou acoplado a veículos simples,
uma haste metálica graduada de 0 a 4,5 kgf ofe‑ reúne as funções do penetrômetro de bolso e do
recendo leitura direta do resultado da resistência penetrômetro de impacto e é de fácil operacio‑
de penetração, ou seja, o valor indicado pelo anel nalização em campo. A leitura da compactação
medidor após a haste penetrar totalmente no é realizada sistematicamente de acordo com a
perfil do horizonte do solo mostra a resistência força aplicada, cuja medida independe de outro
do solo, que variará de 0 a 4,5 Kgf/cm² (ver Fi‑ instrumento. Os dados obtidos são armazenados
gura 2.10, na página 43). Nos locais seleciona‑

Topo do solo
Sérgio Fiori

10 cm ou mais
Figura 2.9. Pino
de erosão visto
em perfil. Fonte:
Guerra (1996).

42 práticas de geografia
Rafael Sato
medições de um mesmo lugar (ponto) e as dife‑
renças entre outros pontos mensurados. Podem‑
‑se ainda aplicar testes estatísticos para verificar
o desvio ‑padrão entre os resultados das medi‑
ções aplicadas. Os resultados gerais devem ser
Figura 2.10. Penetrômetro portátil.
correlacionados com os tipos de relevo, solos, e
coberturas vegetais para avaliar as diferenças de
resultados comportamentais. A maior ou menor
automaticamente em um computador acoplado resistência do solo pode representar maior susce‑
ao equipamento. tibilidade à erosão, o que evidencia, desta vez, a
Os dados obtidos com os penetrômetros po‑ estreita relação entre Pedologia e Geomorfologia.
dem ser trabalhados com métodos estatísticos
simples tabulados em softwares especializados,

Divulgação/PenetroLOG–Falker
por exemplo, em planilhas (tabelas) para elabo‑
ração de gráficos, os quais permitirão a análise
das evidências e das diferenças de resultados das
Sérgio Fiori

b
d Detalhe de f
Rosca fina 1/4”
13 mm

1,5 mm
40 mm

30°
c
23,9 mm

Figura 2.12. Penetrômetro eletrônico.

Ø 12,8 mm

a técnica do GPr (radar


70 mm

de superfície de solo)

O sistema Grounded Penetrating Radar


(GPR) consiste em adquirir informações da
Figura 2.11. Penetrômetro de impacto: a) luva móvel
para of operador manter na vertical sem interferir na
subsuperfície da Terra com um sensor de radar
e
força resultante durante a penetração da haste; b) e que tem a capacidade de rastrear o subsolo. O
c) limitadores superir e inferior; d) peso que provoca o alcance, que pode chegar a 50 m de profundi‑
impacto; e) chapa para ser fixada na superfície do solo,
dando o nível de referência da leitura de profundidade.
dade, depende do tipo de antena que se aco‑
Fonte: Manual técnico do equipamento. pla ao equipamento para obtenção de maior ou

capítulo 2 – técnicas de geomorfologia 43


menor profundidade, bem como de resolução de porções rasas do subsolo é enviado através do
na diferenciação das camadas de deposição de solo por meio de uma antena transmissora Tx. O
material sedimentar. sinal emitido sofre reflexões e difrações em des‑
Essa técnica pode auxiliar na obtenção das continuidades presentes no meio de propagação
informações do subsolo, quando na Geomor‑ e é, então, captado ao retornar à superfície por
fologia leva­‑se em consideração que as formas uma antena receptora, Rx (gandolfo et al.,
estão diretamente ligadas ao tipo de material 2001 apud matos fierz, 2008).
que as sustenta. Assim, o GPR é utilizado para De acordo com Xavier Neto (2006 apud
determinar o comportamento e o tipo de mate‑ matos fierz , 2008), a transmissão do sinal
rial, bem como sua disposição na subsuperfície do GPR depende das propriedades elétricas do
do relevo. meio, sobretudo condutividade e permissivida‑
O GPR é uma técnica geofísica que utiliza de elétrica, sob condições de alta frequência.
ondas eletromagnéticas na faixa de VHF/UHF Essas propriedades sofrem forte influência do
irradiadas por uma antena emissora colocada conteúdo de água presente no solo. O pulso ele‑
na superfície do solo (xavier neto, 2006 apud tromagnético gerado em superfície é refletido e
matos fierz , 2008), conforme Figura 2.13. difratado, pelas estruturas geológicas e feições
Essa é a técnica geofísica mais indicada para anômalas, que podem estar presentes no terre‑
investigações rasas, pois tem gerado excelentes no, quanto por elementos na superfície da terra
resultados de alta precisão em certos tipos de (tanques, árvores, cercas, postes etc.). As ondas
ambientes geológicos, com vasta aplicação em refletidas e difratadas são recebidas por uma an‑
estudos de áreas costeiras (gandolfo et al., tena receptora colocada na superfície do terreno.
2001 apud matos fierz , 2008). A alta reso‑ Uma série de medidas é realizada ao longo
lução das imagens permite mais detalhes das de uma linha e, quando estas são plotadas lado
heterogeneidades da geologia (pestana & bo- a lado em um gráfico tempo versus distância, for‑
telho, 1997 apud matos fierz, 2008). nece uma imagem de alta resolução das estru‑
De acordo com Pestana e Botelho (1997), a turas em subsuperfície (Figura 2.14). A imagem
técnica do GPR é, em princípio, bastante similar formada no radargrama representa os tempos
às técnicas de sísmica de refração e de sonar de percurso da onda, desde a sua emissão no
(ver Figura 2.13). No caso do GPR, um pulso transmissor até sua chegada ao receptor (tempo
de energia eletromagnética de alta frequência duplo de trânsito) (xavier neto, 2006 apud
(10­‑1000 MHz) para investigações detalhadas matos fierz, 2008).

VLF
GPR EMI
0,03 am

300 µm
300 am

300 km
Visível
0,3 µm
0,3 am

0,3 cm
30 µm

300 m
30 am

30 km
30 cm
3 µm

30 m
3 am

3 km
3 cm

3m

Comprimento
de onda λ Raios UV UHF VHF
Rádio Audio AC
Gama Radar
Raios X Ondas curtas
Infravermelho 1 GHz
Sérgio Fiori

Frequência Hz
20 18 16 14 12 10 8 6 4 2
10 10 10 10 10 10 10 10 10 10 1

Figura 2.13. Espectro eletromagnético situando as faixas de frequências de trabalho de diversas tecnologias. O GPR trabalha com frequências
entre 10 MHz e 1 GHz, correspondendo a comprimentos de onda de ordem de 30 m a 0.3 m, respectivamente. Fonte: Xavier Neto (2006).

44 práticas de geografia
Sérgio Fiori
CONDUTIVIDADE HIDRÁULICA Distância

A condutividade hidráulica (K) representa a


habilidade com que um fluído é transportado em
um meio poroso. Em ambientes tropicais úmi‑

Profundidade
dos, muitos processos geomorfológicos, tais como Meio 1
erosão e movimentos de massa, são responsáveis
Interface
pela modelagem e evolução do relevo, possuindo
uma estreita relação com a variabilidade espacial Meio 2

desse parâmetro. Assim, conhecer o comporta‑


mento da condutividade hidráulica dos solos, em
uma paisagem suscetível a tais processos, torna­ Distância

‑se uma importante ferramenta para o conheci‑


mento da dinâmica do relevo.
Essa propriedade depende diretamente da

Tempo Duplo
permeabilidade dos solos, da viscosidade do flu‑
ído, da massa específica da água e da aceleração
da gravidade. No entanto, para os estudos de
percolação da água nos solos, pode­‑se considerar
estes três últimos parâmetros como constantes,
tornando a condutividade hidráulica do solo si‑
nônimo de permeabilidade e dependente dire‑
Figura 2.14. Princípio de formação da imagem no GPR.
tamente das dimensões, da geometria e da orga‑ Fonte: Xavier Neto (2006).
nização interna dos poros do solo (Figura 2.15,
na página 46). Essa variação, de acordo com as
propriedades do meio poroso, é válida tanto para é fundamental durante a construção e a manu‑
um meio saturado quanto não saturado (acima tenção dos aterros sanitários, por exemplo. Nes‑
do lençol freático). No entanto, este último, além sas áreas são feitas medidas de condutividade
de ser influenciado pelas características físicas hidráulica nas camadas “impermeabilizantes”,
dos solos, como textura e estrutura 4, também com o objetivo de verificar e garantir valores
irá variar com o teor de umidade volumétrica muito baixos (entre 10 ‑7 cm/s e 10 ‑9 cm/s), im‑
do material (condutividade hidráulica não sa‑ pedindo ou até mesmo evitando que o fluxo dos
turada/Kñsat). resíduos líquidos, provenientes da decomposição
Além de ser muito utilizada na Geomorfo‑ das camadas de lixo sobrejacentes, contamine os
logia, para melhor compreender a dinâmica da solos e o lençol freático.
água e o seu papel na deflagração de processos
geomorfológicos, a mensuração desse parâmetro
Técnicas de mensuração

4 Veja o Capítulo 4 – Técnicas de Pedologia. Atente tam‑


A condutividade hidráulica saturada e não
bém para o Capítulo 3 – Técnicas de Hidrografia. As saturada dos solos pode ser estimada por meio
inter­‑relações entre os capítulos reforçam a ideia da de técnicas realizadas in situ e em laboratório. A
paisagem geográfica como resultado da integração de
seus componentes (solos, relevo, água, vegetação, cli‑ efetividade da técnica depende das limitações
ma, substrato e ação antrópica). da teoria proposta para descrever o movimento

capítulo 2 – técnicas de geomorfologia 45


Condutividade Hidráulica (cm/s)
Água a 20ºC
1 0 -1 -2 -3 -4 -5 -6 -7 -8 -9
10 10 10 10 10 10 10 10 10 10 10

Classes
Praticamente
Alta Média Baixa Muito Baixa
Impermeável
Figura 2.15. Classificação
aproximada da condutividade Areia Argilas
Fina Homogêneas

Materiais
hidráulica de acordo
Argilo- Argilas
com as diferentes classes Cascalho Areia Arenoso Estruturais

Sérgio Fiori
granulométricas. Fonte: Klute e
Dirksen (1986) apud Stephens Silte
(1996), adaptado. Mistura de Areia, Silte e Argila

da água dentro do solo, e todas as técnicas são (Ksat), existem vários tipos, dentre eles os ensaios
comumente comparadas em termos de acurácia de poços, bastante utilizados pela Geologia de
dos resultados, tempo e água gastos durante os Engenharia. Tais ensaios podem ser realizados por
ensaios e resolução espacial. meio da aplicação de cargas constantes e variáveis
Os ensaios de laboratório começam com a co‑ e também por meio do bombeamento (descarga)
leta de uma amostra de solo no campo sob con‑ de água. No ensaio de infiltração (carga), inicial‑
dições controladas, preferencialmente amostras mente, abre­‑se um poço até o horizonte de solo
indeformadas, as quais, de acordo com a textura desejado, preenchendo­‑o com água e mantendo o
do material, podem ser submetidas a dois tipos de nível de carga constante dentro do poço. A partir
testes: carga constante ou carga variável (Figura daí, faz­‑se uma leitura da vazão durante um deter‑
2.16). A principal desvantagem dos ensaios de minado tempo, até que esta se torne constante,
laboratório consiste em sua pequena representa‑ sendo esse valor utilizado no cálculo final da Ksat.
tividade espacial devido ao tamanho da amostra, A estimativa da condutividade hidráulica não
que poderá não englobar algumas estruturas do saturada (Kñsat) também pode ser realizada tan‑
solo, como macroporos, raízes, fendas e feições to no campo quanto em laboratório, sendo que
reliquiais, que estão diretamente relacionadas aos seu valor estará associado ao conteúdo de água
valores da condutividade hidráulica. do meio e à carga de pressão estabelecida na
Quanto às medidas de campo para estimar amostra, mensurada por meio de tensiômetros.
condutividade hidráulica saturada de campo As técnicas utilizadas para mensurar a con‑

Fonte permanente
Figura 2.16. Permeâmetros de água
de carga constante (a) e Carga Hidráulica
em h0 para h t em
de carga variável (b). Em
um tempo t
ambos os testes, a amostra h0
é inicialmente colocada em “Ladrão”
um cilindro de comprimento
h
(L) e área transversal (A) e
fechada entre duas placas
ht
porosas. No primeiro teste a
amostra é submetida a uma Área da seção
carga constante (h) até que transversal (a)
todos os poros desta amostra L L
sejam preenchidos por água
(saturação) e o fluxo de saída
Sérgio Fiori

(Q) não varie mais com o


tempo. Fonte: Freezy e Cherry Área da seção Área da seção
Vazão (Q) transversal (A) Vazão (Q) transversal (A)
(1979), adaptado.

46 práticas de geografia
dutividade hidráulica não saturada (Kñsat) no portabilidade e uso em locais de difíceis acessos
campo podem ser realizadas por meio de cargas e aos valores obtidos em campo mais próximos
constantes ou variáveis. Nesses ensaios, um flu‑ das condições naturais do solo e do relevo.
xo de água constante (ou variável) é aplicado no
solo até que o perfil se apresente em equilíbrio.
Assim, a condutividade hidráulica não saturada
é calculada pela relação entre a taxa de volume tÉCniCaS aPliCadaS
constante e o gradiente hidráulico mensurado ÀS áreaS CoSteiraS
na amostra (stephens, 1996).
As técnicas de análise geomorfológicas apli‑
cadas às regiões litorâneas são, em grande par‑
Permeâmetro de Guelph te, diferenciadas das técnicas aplicadas às áreas
O permeâmetro de Guelph (PG) é um tipo continentais, devido às diferenças morfodinâmi‑
de permeâmetro de carga constante que mede cas, morfológicas e morfogenéticas.
a condutividade hidráulica saturada de campo As áreas costeiras encontram‑se na interface
(Ksat) acima do lençol freático. Foi desenvolvi‑ de três ambientes: o continental, o marinho e
do por Reynolds et al. (1983) na Universidade o atmosférico, enquanto nas terras interiores a
de Guelph (Canadá). Basicamente, ele é com‑ interação ocorre mais entre atmosfera‑litosfera.
posto por uma garrafa de Mariotte que contro‑ Entre as técnicas de análise da geomorfologia
la o nível constante de água dentro do furo, um costeira, algumas mais utilizadas podem ser des‑
tubo de acrílico no qual a água é introduzida e tacadas. Na pesquisa voltada para análise granu‑
um tripé que pode ser adaptado para altas de‑ lométrica de amostras de areias, por exemplo, a
clividades (Figura 2.17). Na extremidade infe‑ técnica utilizada é a descrita a seguir.
rior do tubo de acrílico, a água é distribuída no
solo através de uma ponta perfurada que é pre‑ Saída de ar
enchida com areia fina para reduzir a turbulên‑
cia do fluxo de saída do permeâmetro durante a Marcador
recarga de água. da carga h

O sistema de funcionamento do PG con‑


siste na aplicação de uma carga constante de
água (H) em um furo de raio determinado (a),
Reservatório
medindo ‑se, em intervalos de tempo (t) cons‑ externo
tantes, o caimento do nível de água (R), que
Tubo de Reservatório
passa em uma determinada área transversal (A) acrílico interno
(GRADUADO)
do tubo de acrílico graduado, ou seja, medindo‑
‑se o fluxo Q. Depois de determinado período,
que dependerá, dentre outros fatores, da umi‑
dade antecedente do solo e da sua textura, uma T
pequena área em torno do furo estará saturada
(bulbo saturado) e o fluxo Q ficará constante.
Este mesmo valor é inserido no cálculo da con‑
dutividade hidráulica dos solos. O permeâmetro Figura 2.17. Desenho
Sérgio Fiori

esquemático do permeâmetro
de Guelph destaca‑se frente aos menores volu‑ de Guelph e seus principais
mes de água utilizados em cada ensaio, a maior componentes.

capítulo 2 – técnicas de geomorfologia 47


¾¾Coleta em campo. Para coleta do material em altura que possibilita a visualização com o te‑
campo, é necessário abrir trincheiras no sentido odolito. Segundo Muehe (1996), o nivelamento
transversal à praia para identificar as camadas de é feito medindo­‑se a diferença de altura entre
sedimentação, como apresenta Muehe (1996). o nível, ou teodolito cuja altura é previamente
Pode­‑se aproveitar as trincheiras para estudar, determinada, e a superfície do terreno ao longo
desenhar, fotografar a disposição dos estratos do perfil.
com a possibilidade de identificação dos paleo‑ As distâncias entre os pontos de amostra‑
ambientes de rio, dunas e praias. Se o objetivo gem são predeterminadas e podem ser medidas
principal da pesquisa for apenas identificar a em campo com uma trena ou, ainda segundo
granulometria do material, então não será ne‑ Muehe (1996), as medidas de distância podem
cessário preservar as camadas. Caso contrário, ser feitas por leitura ótica por meio do método de
é necessário utilizar um tubo de PVC ou de alu‑ estadimetria6.
mínio para testemunhar (coletar) a amostra. O Outra técnica mais simples de determina‑
tamanho do tubo vai depender da profundidade ção do perfil praial ou perfil subaéreo citado por
que se deseja atingir. Muehe (1996, p. 224) é a técnica das balizas de
¾¾Em laboratório. As amostras coletadas em tes‑ Emery, que consiste em duas balizas de 1,5 m
temunhos precisam ser congeladas no tubo para de altura, pintadas em faixas de cores alterna‑
que, no momento da abertura do mesmo, as ca‑ das, com largura de 2 cm. A medida se dá pela
madas não se desfaçam. O tubo deve ser partido diferença entre dois pontos, ao longo do perfil,
ao meio para facilitar a observação das camadas, determinada pelo observador da baliza de ré, sen‑
porque as laterais junto a ele ficam alteradas e há do obtida pela projeção de uma linha imaginária
migração de material. Após a abertura do teste‑ que liga a linha do horizonte com o topo da baliza
munho, inicia­‑se a observação visual dos padrões mais baixa. A diferença de altura é determinada
de textura, cor, estrutura, presença de materiais por contagem das faixas de 2 cm pintadas nas
biodetríticos (os quais podem ser datados). Em balizas e permite uma aproximação de até 1 cm,
seguida, faz­‑se análise granulométrica do mate‑ precisão suficiente para esse tipo de ambiente. A
rial de cada camada (consultar Capítulo 4 – Téc‑ distância horizontal, entre as balizas, é medida
nicas de Pedologia). Durante a observação do com uma trena, tal como mostra a Figura 2.18.
testemunho é importante produzir um desenho Os dados obtidos com as medições em cam‑
com escala e descrever suas características e po podem ser anotados em forma de tabela e
fotografá­‑lo. transferidos para uma planilha eletrônica, o que

Outra técnica muito utilizada na análise geo‑


morfológica costeira é a do perfil praial, porções
6 “O método é baseado na semelhança de triângulos, em que
emersa e submersa. O uso do teodolito 5 para a relação entre a distância focal (altura do triângulo) e
nivelamento topográfico é muito utilizado para a distância entre duas marcações (retículos) na ocular do
nível do teodolito (base do triângulo) serve para a determi‑
determinação da variação do perfil praial. Para
nação da distância entre o aparelho e a mira. Para isso,
esta técnica, utiliza­‑se o nível topográfico ou te‑ basta determinar a altura da base do novo triângulo na
odolito em conjunto com uma mira topográfica, posição da mira através da diferença das leituras na mira,
do retículo superior e inferior. Esta diferença, multiplicada
espécie de régua graduada de até 4 metros de por 100, que é a relação distância focal/base do triangulo
na ocular, fornece a distância em metros. Equipamentos
topográficos modernos permitem a determinação de dis‑
tâncias por emissão e recepção de ondas eletromagnéticas
5 Consultar também o Capítulo 10 – Técnicas de Locali‑ na faixa do infravermelho, mas são de custo relativamente
zação e Georreferenciamento. elevado”, (MUEHE, 1996, p. 224).

48 práticas de geografia
Horizonte
a questionamento do “modelo” de ciclo de erosão,
desenvolvido por Willian Morris Davis, que pas‑
sou a ser testado por meio de diferentes técnicas
a = b = variação de nível
Baliza e pelo desenvolvimento de outros modelos da
evolução da paisagem, que tentam, dessa forma,
Corda
conhecer e explicar as variáveis envolvidas neste
Sérgio Fiori

b
praia
Talude de
sistema (christofoletti, 1985).

Figura 2.18. Balizas de Emery. Fonte: komar, Paul D. (1998).

modelos: conceitos e
principais características
possibilita a elaboração de gráficos. Os gráficos
dotados com as cotas de altitude e distância Modelo pode ser definido como sendo uma
mostram o perfil da praia. Observe que o mesmo estruturação simplificada do funcionamento de
pode ser feito para qualquer perfil, praial ou não. um aspecto do mundo real, sendo uma aproxima‑
Para a determinação do perfil da região sub‑ ção altamente subjetiva, uma vez que não inclui
mersa adjacente ou continuação do perfil de todas as observações ou medidas associadas, po‑
praia, é necessária a utilização de um equipa‑ dendo obscurecer detalhes acidentais e destacar
mento chamado ecobatímetro acoplado a um somente os aspectos fundamentais da realidade
barco, assim como explica Muehe (1996, p. 228). (haggett & chorley, 1967). A definição de
Para tanto, é preciso fazer uma calibragem do modelo pode também contemplar a sua relação
aparelho no ponto em que se encerrou a medi‑ com a teoria, uma vez que é uma formalização e/
ção do perfil praial com o método de estadimetria. ou estruturação simplificada de uma teoria que
As leituras angulares são feitas em intervalos de pode, por sua vez, ser representada por um ou
tempo constante, por exemplo, de 3 em 3 mi‑ mais modelos, permitindo a manipulação de de‑
nutos, sendo o instante da leitura transmitida duções complexas (harvey, 1969).
via rádio para a embarcação, quando o operador As características dos modelos possibilitam
do ecobatímetro efetua uma marcação no perfil identificar e avaliar sua qualidade. Dentre elas
com registro do horário da leitura. podemos destacar, por exemplo, a seletividade,
que consiste na seleção das informações em que
os aspectos menos importantes são descartados e
apenas aqueles mais significativos e fundamentais
modelaGem do mundo real são considerados; a estruturação,
matemátiCa na análiSe na qual os aspectos selecionados da realidade são
GeomorfolÓGiCa tratados em termos de suas conexões; a reaplica‑
ção, que demonstra que o modelo não se apre‑
Durante a chamada Revolução Quantitativa senta apenas como descritivo de um caso, mas
e Teorética ocorreram importantes transforma‑ possibilita que seja usado para outros casos da
ções na tentativa de incluir a Geografia no con‑ mesma categoria; e a simplicidade, que demonstra
texto científico global por meio de maior rigor na que o modelo deve ser simples de manipular e de
aplicação da metodologia científica, do desenvol‑ compreender, mas sem detrimento da complexi‑
vimento de teorias, do uso de técnicas estatísti‑ dade necessária para representar com precisão o
cas e matemáticas, da abordagem sistêmica e do sistema em estudo (haggett & chorley, 1967
uso de modelos. Um exemplo desta revolução é o e christofoletti, 1999).

capítulo 2 – técnicas de geomorfologia 49


Tipos de modelos São subdivididos em modelos caixa­‑preta (exige­
Os diferentes tipos de modelos têm uma rela‑ ‑se pouca ou nenhuma informação detalhada
ção direta com o grau de abstração da realidade, relativa aos componentes do sistema, havendo
ocorrendo desde formas mais simples, em que somente o interesse na natureza das saídas (out‑
a realidade é transformada apenas em nível de puts) resultantes das diferentes entradas (inputs);
escala, até a elaboração de modelos conceituais modelos parciais ou caixa­‑cinza (obtenção de re‑
pela aplicação de modelos matemáticos, sendo sultados sem o completo conhecimento do traba‑
estes últimos mais abstratos e gerais (thomas & lho interno do sistema, mas a obtenção de infor‑
hugget, 1980). Segundo Chorley (1967), os mo‑ mações específicas sobre as inter­‑relações entre
delos (sistemas) geomórficos podem ser classifi‑ os subsistemas permite identificar e predizer o
cados em Naturais ou Análogos, Físicos e Gerais. comportamento de todo o sistema, sob diferentes
a) Sistemas (modelos) naturais análogos: esses condições de entrada); e modelos caixa­‑branca (a
modelos consistem na tradução dos aspectos estrutura do sistema é construída pelo conheci‑
importantes de um determinado fenômeno em mento das variáveis envolvidas e das suas rela‑
um sistema análogo natural, considerado mais ções. Os modelos baseados em processos (process
simples e mais conhecido. Envolvem a procura models), por exemplo, descrevem os mecanismos
de situações ou eventos análogos em diferentes de operações particulares que ocorrem no mun‑
locais e/ou tempo. do e a partir do conhecimento dos processos
b) Sistemas (modelos) físicos: são baseados na pers‑ pode­‑se direcionar a escolha das variáveis).
pectiva de que a pesquisa pode ser mais bem rea‑
lizada pela dissecação da estrutura do problema
geomórfico em suas partes supostamente com‑ Exemplo do uso de modelo matemático
ponentes, de modo que o funcionamento de cada determinístico em bases físicas em
parte e as interações entre elas possam ser exa‑ estudos de movimentos de massa
minadas convenientemente, levando­‑se a uma Os modelos matemáticos em bases físicas são
síntese completa dos componentes num todo cada vez mais utilizados na Geomorfologia. A
funcional. Neste grupo destacam­‑se os modelos partir da década de 1970, especialmente na déca‑
matemáticos (determinísticos e estocásticos). Os da de 1990, com o desenvolvimento dos Sistemas
modelos determinísticos são baseados nas noções de Informação Geográficas (ver Capítulo 11 –
matemáticas clássicas de relações exatamente Sistema de Informação Geográfica) e o avanço do
previsíveis, entre variáveis independentes e de‑ geoprocessamento, tais técnicas ganharam maior
pendentes, e consistem num conjunto de afirma‑ destaque e utilidade devido à maior facilidade de
ções matemáticas exatamente especificadas, a manipulação dos dados ambientais. Atualmente,
partir das quais as consequências únicas podem existem muitos modelos aplicados em diferentes
ser deduzidas pela argumentação matemática ló‑ áreas da Geomorfologia, por meio dos quais é
gica. Nos modelos estocásticos, para cada entrada possível, por exemplo, simular a evolução do rele‑
(input) existirão várias saídas (output) refletindo vo ao longo de um tempo geológico e identificar
as incertezas do sistema. áreas instáveis a processos erosivos e a movimen‑
c) Sistemas (modelos) gerais: são modelos que ten‑ tos de massa.
tam fornecer um quadro global da totalidade do Dentre as principais vantagens do uso desses
sistema, estabelecendo o grau de conhecimento modelos matemáticos em bases físicas, destaca­‑se
sobre as partes componentes, interações entre seu baixo grau de subjetividade, pois os parâme‑
os elementos e o funcionamento interativo entre tros envolvidos e suas interações, para cada tipo de
as entradas (inputs) e saídas (outputs) do sistema. processo (como corridas de detritos) são avaliados

50 práticas de geografia
segundo equações matemáticas que descrevem cicatrizes, gerado por meio de ortofotos em es‑
o processo fisicamente. Dessa forma, elimina­‑se, cala 1:25.000. Essa combinação, além de ava‑
por exemplo, o valor ou peso dado a cada variá‑ liar a eficiência dos resultados finais do modelo,
vel (como declividade) pelo pesquisador. Outra contribui para o entendimento da tipologia do
grande vantagem é a possibilidade de criação de mecanismo de ruptura da área, uma vez que este
diferentes cenários a partir da combinação de é considerado na estrutura teórica do modelo. Os
valores dos elementos considerados pelo modelo. resultados encontrados foram bastante satisfató‑
Referente ao estudo de escorregamentos trans‑ rios, comprovando a grande potencialidade do
lacionais rasos, por exemplo, inúmeros modelos uso dessas ferramentas em estudos de previsão
matemáticos em bases físicas foram desenvolvi‑ dos escorregamentos rasos na paisagem, uma vez
dos com o objetivo de avaliar a suscetibilidade por que o modelo previu 43% da área como sendo
meio da combinação de modelos de estabilidade instável (FS≤1) e cerca de 67% de cicatrizes dos
e hidrológico. Nessa linha, destacam­‑se os se‑ escorregamentos concentraram­‑se nessas áreas.
guintes modelos: SINMAP (Stability INdex MA‑
Pping) (pack et al., 1998), SHALSTAB (Shallow tanΦ c’-Ψ(Z,t)ρwtanΦ
FS = +
tanΘ ρsZsenΘcosΘ
Landslide Stability Analysis) (montgomery &
dietrich, 1994 e montgomery et al., 1998);
SHETRAN (ewen et al., 2000) e TRIGRS (Tran‑ Onde:
sient Rainfall Infiltration and Grid­‑Based Regional FS = fator de segurança
Slope Stability) (baum et al., 2002). Φ = ângulo de atrito interno [°]
Como exemplo do uso de modelos matemá‑ Θ = ângulo da encosta [°] (valor retirado do
ticos, o modelo TRIGRS foi aplicado em uma mapa a partir do Modelo Digital de Elevação)
bacia hidrográfica da Serra do Mar paulista, re‑ c’ = coesão efetiva [Pa]
gião frequentemente afetada por movimentos Ψ = carga de pressão [Kpa]
coletivos de massa, principalmente do tipo es‑ Z = profundidade do solo [m]
corregamentos rasos. A partir da equação que t = tempo [s]
reflete matematicamente a junção de um modelo pw = peso específico da água [kN/m³]
de estabilidade de vertentes e um modelo hi‑ ps = peso específico do solo [kN/m³]
drológico, o qual avalia a dinâmica da água em 355800 356700 357600

cada porção da bacia, foram definidas as áreas Bianca Carvalho Vieira


7366300

MAPA DE SUSCETIBILIDADE (CENÁRIO A)

instáveis (Fator de Segurança ≤ 1) e as áreas es‑


táveis (Fator de segurança > 1). Neste exemplo,
foi gerado um mapa de suscetibilidade a escor‑
7365400

regamentos rasos utilizando os seguintes valores


hidrológicos e geotécnicos: coesão do solo (c) =
1000 Pa; peso específico do solo (ps) = 17,1 kN/
7364500

m³; espessura máxima do solo (Zmax) = 3 m; ân‑


LEGENDA
gulo de atrito interno (Φ) = 34º; altura inicial do Cicatrizes de 1985
Drenagem
lençol freático (d) = 3 m; taxa de infiltração ini‑ Limite da Bacia
Fator de Segurança (FS)
0.4 - 0.8
cial (ILT) = 1.0×10−9 m/s; difusividade hidráulica
7363600

0.8 - 1.0
1.0 - 1.2 320 160 0 320 metros

(D0) = 5.5×10−4 m2/s e condutividade hidráulica 1.2 - 1.5


1.5 - 6.0
Projeção UTM - Zona 23
saturada vertical (Ks) = 1.0×10−6 m/s.
Limite da Bacia Datum SAD-69 - Meridiano Central W45°

Posteriormente, o mapa de suscetibilidade Figura 2.19. Mapa de suscetibilidade (Cenário A) gerado pelo
(Figura 2.19) foi confrontado com um mapa de modelo matemático TRIGRS.

capítulo 2 – técnicas de geomorfologia 51


na Sala de aula

Na sala de aula, ou melhor, no entorno da es‑ b) A declividade média é baixa, caracterizando


cola, em estudo do meio ou trabalho de campo, relevo mais aplanado, provavelmente esculpido
há diversos exercícios geomorfológicos com base em bacia sedimentar? A superfície está coberta
em técnicas e instrumentos simplificados que o por vegetação ou há sinais de erosão, como ravi‑
professor pode empreender com os alunos. Eis nas, voçorocas e assoreamento?
alguns exemplos. c) Nas declividades verificadas, que tipo de
uso seria mais apropriado: cultivo de espécies
perenes (café, laranja…), temporárias (cana‑de‑
atividade 1: clinometria ‑açúcar, milho…), criação de um parque, repre‑
samento de rios, assentamento urbano…?
Um clinômetro7 pode ser construído com
uma régua fi xada em um transferidor de plás‑
tico e um fio com um peso amarrado à ponta atividade 2: erosão
(Figura 2.20). Em ambiente externo, alinha‑se a
régua a uma vertente visível, com os braços es‑ O professor pode escolher com os alunos
ticados e verifica‑se, pelo fio pendente, quantos duas áreas no entorno da escola (com mesma
graus de inclinação ela apresenta. Faz‑se essas inclinação) para instalar uma calha de erosão
medidas diversas vezes, anotando‑se os resulta‑ (Gerlach) ou os pinos de erosão, como mostra‑
dos que serão discutidos em torno das seguintes dos neste capítulo. O interessante desta ativida‑
questões: de é o envolvimento total dos alunos, os quais
a) A declividade média da região é alta (acima podem ser escalados para, periodicamente, me‑
de 30º), caracterizando uma modelagem de re‑ dir os pinos ou recolher e pesar os sedimentos da
levo dissecado (serrano?)? As vertentes estão re‑ calha. Ao final de um período, o professor pode,
cobertas por vegetação ou há sinais de erosão ou a partir dos resultados, discutir questões como:
escorregamentos? a) Em qual ambiente houve menos e em qual
houve mais erosão?
b) Qual a importância das variáveis vegetação e
clima no conjunto da paisagem? E do solo, espe‑
Eduardo Justiniano

cificamente, como recurso natural?

atividade 3: infiltração

O professor pode escolher com os alunos


duas áreas para fazer testes de infiltração.
Retira‑se o fundo e a tampa de uma lata (tipo
galão de tinta) e afunda‑se esta lata cerca de
Figura 2.20. Foto de um clinômetro de transferidor.
5 cm no solo. Adiciona‑se água, de litro em li‑
tro, cronometrando quanto tempo leva para o
solo infiltrar cada litro. Repete‑se isso até que
7 Sobre a construção e uso de clinômetro, ver também o o solo fique saturado, ou seja, quando a água
Capítulo 7 – Técnicas de Cartografia. parar de infiltrar. Isso pode ser feito em época

52 práticas de geografia
de chuva (a saturação será mais rápida) ou em Avaliação de riscos
época de seca. Discutem­‑se os resultados das
duas áreas em torno das seguintes questões: O professor, junto com os alunos, pode fa‑
a) Em que área a água infiltrou­‑se mais rapida‑ zer observações na paisagem na tentativa de se
mente e por quê? A vegetação ajuda ou obstacu‑ identificar riscos de deslizamento de encostas
liza a infiltração da água? (se houver áreas com essas características por
b) Qual a importância da permeabilidade dos perto), erosão e enchentes. Alguns indicadores
solos para o desenvolvimento das plantas? (Ob‑ de risco que podem ser observados são:
serve que na área do campo de futebol em que ¾¾adernamento (inclinação) de árvores e postes
ficam os goleiros a grama tem mais dificuldade no sentido da baixa vertente;
de se desenvolver; depois, tire suas conclusões). ¾¾ausência de vegetação, o que pode aumentar
Acrescente­‑se a isso a necessidade de se arar os a erosão;
solos antes dos plantios. ¾¾rachaduras no solo perpendiculares à inclina‑
c) Solos que infiltram mais água são mais frá‑ ção da vertente;
geis, ou isso depende também da declividade do ¾¾encanamentos soltos que despejam água na ver‑
terreno e da cobertura vegetal? tente, ocasionando erosão, como ravinas e valetas;
¾¾lixo acumulado na vertente, que pode acumu‑
lar água e aumentar o peso do material;
Atividade 4: topografia ¾¾cortes na vertente (para construção de casas,
ruas) sem a devida proteção (contenções, muros
Em uma área de certa declividade próxima de arrimo);
da escola, o professor pode, junto aos alunos, ¾¾arruamentos e ladeiras sem pavimentação no
empreender medidas topográficas com a téc‑ sentido da vertente, aumentando a velocidade da
nica das balizas de Emery. As balizas podem água;
ser construídas com taquaras retas e pintadas ¾¾casas construídas em planícies fluviais (vár‑
de acordo com as medidas mostradas neste zeas) de rios e rios assoreados com sedimentos
capítulo. Há outras formas simples de se fazer ou lixo, o que diminui a capacidade de escoa‑
medidas topográficas no terreno. Pesquise na mento e aumenta a possibilidade de enchente.
internet sobre a “mangueira de pedreiro”, por
exemplo, que requer materiais simples (man‑ Enfim, após essas e outras observações, a de‑
gueira transparente, água e metro) e é de fácil pender do contexto da escola, pode­‑se discutir
utilização. Os resultados podem ser discutidos os resultados em torno das seguintes questões:
em torno das questões apresentadas a seguir. a) As áreas observadas apresentam indicadores
Observação: este exercício pode ser feito con‑ de risco para deslizamento, erosão ou enchente?
juntamente com aqueles do Capítulo 7 – Técni‑ b) Se sim, de quem é a responsabilidade? Que
cas de Cartografia, nos quais medem­‑se alturas papel tem o morador, a escola, o poder público?
e distâncias em campo. c) O que pode ser feito para diminuir os riscos?
a) Para que servem essas medidas? Que profis‑
sionais a utilizam e para que fins? Com essas sugestões, queremos mostrar ao
b) E no seu cotidiano, elas exercem alguma in‑ professor que os estudos geomorfológicos têm
fluência? muito a ver com nosso cotidiano e que várias
técnicas podem ser empreendidas na escola,
mesmo com poucos recursos.

capítulo 2 – técnicas de geomorfologia 53


ConSideraçÕeS finaiS

As proposições inseridas neste capítulo não têm a pretensão de esgotar o


assunto, sobretudo porque são numerosas as técnicas utilizadas na pesquisa geo‑
morfológica, desde as mais simples até as mais complexas. Em Geomorfologia, s
estudos promovem articulações com várias outras áreas do conhecimento, como
Hidrografia, Climatologia, Biogeografia, Pedologia e até Cartografia, além da sua
relação direta com a forma como as sociedades ocupam o território.
A escolha de aplicação de um experimento ocorre em função dos objetivos
da pesquisa e da escala de análise; a preocupação central é aplicar os experi‑
mentos mais adequados a cada tipo de pesquisa, para que se crie base empírica
sistematizada para a sustentação dos argumentos e hipóteses de pesquisa.
Os procedimentos podem ser aplicados de forma mais simples em sala de
aula, na escola e em trabalhos de campo, de modo que a prática da técnica e
o uso de instrumentos auxilie na fixação de conceitos. O ensino de Geomorfo‑
logia será mais interessante se relacionado ao cotidiano do aluno e da escola,
envolvendo questões como conservação, riscos, usos adequados e planejamento
territorial. E o trabalho de campo será muito mais envolvente se contemplar a
realização de exercícios práticos.
referÊnCiaS de aPoio

Glossário

Crênulas: representam a textura do relevo em uma terrain model. Journal of Geology. n. 3, pp. 161‑
imagem aérea (imagem de satélite, imagem de radar), ‑180, 1993.
por meio das rugosidades topográficas que resultam EwEN J.; PARkIN G.; O’CONNELL P. E. SHETRAN: dis‑
da combinação da densidade de canais de drenagem tributed river basin flow and transport modeling sys‑
e do grau de entalhamento dos vales. tem. Journal of hydrologic engineering. v. 5 n.3,
Relevo dissecado: relevo com fortes inclinações (al‑ pp. 250 ‑258, 2000.
tas declividades) e com vales fortemente entalhados FIERz, M. S. M. As abordagens sistêmica e do equilí-
(profundos). brio dinâmico na análise da fragilidade ambiental:
Runoff: escoamento superficial da água pluvial que contribuição à geomorfologia das planícies costei-
não é absorvida e/ou infiltrada no solo. ras. Tese (Doutorado). Faculdade de Filosofia, Letras e
Tensiômetro: instrumento que mede a tensão da Ciências Humanas, Departamento de Geografia, uni‑
água do solo. versidade de São Paulo. São Paulo, 2008.
Movimento de massa: movimento coletivo de ma‑ FREEzE, R. A.; CHERRy, J. A. Groundwater. En‑
terial terroso/rochoso vertente abaixo, independente glewood Cliffs: Prentice Hall, 1979.
de processos, causas, velocidades, formas e outras GANDOLFO, O. C. B. et al. Estratigrafia da Ilha Com‑
características. prida (SP): um exemplo de aplicação do GPR. Revista
Brasileira de Geofísica. São Paulo, v. 19, n. 3, pp.
1‑22, set/dez 2001.
GuERRA, & CuNHA, . (Orgs.) Geomorfologia: exer-
Bibliografia cícios, técnicas e aplicações. Rio de Janeiro: Bertrand
Brasil, 1996.
BuRTON, I. The quantitative revolution and theoretical HAGGETT, P. & CHORLEy, R. J. Models, paradigms and
geography. In: DAVIES, w. k. D. (Ed.). The conceptu- the new geography. In: CHORLEy, R.; HAGGETT, P.
al revolution in geography. Londres: university of (Ed.). Models in geography. Londres: Methuen &
London Press, 1992. Co., 1967.
CHORLEy, R. J. Models in Geomorphology. In: CHOR‑ HARVEy, D. Explanation in geography. Londres:
LEy, R. J. & HAGGETT, P. (Ed.). Models in geography. Edward Arnold, 1969.
Londres: Methuen & Co., 1967. IBGE. Manual técnico de Geomorfologia. Rio de
CHORLEy, R. J.; kENNEDy, B. A. Physical geography: Janeiro: IBGE, Departamento de Recursos Naturais e
a systems approach. London: Prentice ‑Hall Interna‑ Estudos Ambientais, 1995.
tional, 1971. kOMAR, P. D. Pacific northwest coast living with
CHRISTOFOLETTI, A. As perspectivas dos estudos geo‑ the shores of Washington and Oregon. Coleção
gráficos. In: A. CHRISTOFOLETTI (Ed.). Perspectivas Living with the shore. Duke university Pres, 1998.
da geografia. São Paulo: Difel, 1985. LIBARDI, P. L. Dinâmica da água no solo. Piracicaba:
CHRISTOFOLLETI, A. Modelagem de sistemas am- Edição do Autor, 1995.
bientais. São Paulo: Edgard Blücher, 1999. MONTGOMERy, D. R.; SuLLIVAN, k.; GREENBERG,
De BIASI, M. A carta clinográfica: os métodos de re‑ M. H. Regional test of a model for shallow lands-
presentação e sua confecção. Revista do Departa- liding. pp. 943‑955, 1998.
mento de Geografia FFLCH/USP. São Paulo, n. 6, MONTGOMETy, D. R.; w. E. DIETRICH. A physically
pp. 45 ‑60, 1992. based model for the topographic control on shallow
DIETRICH, w. E.; wILSON, C. J.; MONTGOMERy, D. R.; landsliding. Water Resources Research. n. 30, pp.
J. MCkEAN. Analysis of erosion thresholds, channel 1153‑1171, 1994.
networks and landscape morphology using a digital MuEHE, D. Geomorfologia costeira. In: GuERRA, A.
J. T. & CuNHA, S. B. (Org.). Geomorfologia: uma

capítulo 2 – técnicas de geomorfologia 55


atualização de bases e conceitos. Rio de Janeiro: SOBRE OS AUTORES
Bertrand, 1996.
PACK, R. T.; TARBOTON, D. G.; GOODWIN, C. N.
Jurandyr Luciano Sanches Ross é bacharel em
Terrain Stability mapping with SINMAP, Techni-
Geografia (1972), mestre e doutor em Geografia Física
cal description and users guide for version 1.00.
(1987) pelo Departamento de Geografia da Faculdade
Report and software avaible from <http://www.​
de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade
engineering.usu.edu/dtarb/>. Rainfall Infiltration and
de São Paulo, do qual é chefe e professor titular. Re‑
Grid­‑ Based Regional Slope­‑Stability Analysis. USGS,
cebeu o Prêmio Jabuti pela organização do livro Geo-
Colorado, 1998.
grafia do Brasil (Edusp, 1986) e é membro de diversos
PESTANA, R. C.; BOTELHO, M. A. B. Migração de da‑
conselhos editoriais. Atua na área de Geomorfologia,
dos de radar (GPR) com correção topográfica simultâ‑
com ênfase nos seguintes temas: Geomorfologia e
nea. Revista Brasileira de Geofísica. São Paulo, v.15,
planejamento, Cartografia Geomorfológica, Gestão
n. 1, pp. 1­‑17, mar 1997.
Ambiental, Zoneamento Ecológico­‑ Econômico, Pla‑
REYNOLDS, W. D.; ELRICK, D. E.; TOPP, G. C. A reexami‑
nejamento Ambiental e Produção do Conhecimento
nation of the constant­‑head well permeameter method
Geocientífico.
for measuring saturated hydraulic conductivity above
Marisa de Souto Matos Fierz possui bacharela‑
the water table. Soil Science, v. 136, n. 4, pp. 250­‑268,
do e licenciatura em Geografia pela FFLCH/USP, mestra‑
1983.
do em Oceanografia Química e Geológica pelo Instituto
ROSS, J. L. S. O registro cartográfico dos fatos geomor‑
Oceanográfico da USP e doutorado em Geografia Física
fológicos e a questão da taxonomia do relevo. Revista
pela FFLCH/USP (2008). Atualmente trabalha como
do Departamento de Geografia. São Paulo: FFLCH/
técnica, pesquisadora e professora colaboradora da
USP, n. 6, pp. 17­‑29, 1992.
Universidade de São Paulo. Tem experiência na área de
. Análise empírica da fragilidade dos ambientes
Ciências da Terra, com ênfase em Geografia, atuando
antropizados. Revista do Departamento de Geo-
principalmente nos seguintes temas: Geomorfologia,
grafia. São Paulo: FFLCH/USP, n. 8, pp. 63­‑74, 1994.
Geomorfologia Costeira, Fragilidade Ambiental, Gestão
& MATOS FIERZ, M. S. Algumas técnicas de Ambiental e Geoprocessamento.
pesquisa em geomorfologia. In: VENTURI, Luis Antonio Bianca de Carvalho Vieira possui graduação
Bittar (Org.). Praticando Geografia – técnicas de (1998), mestrado (2001) e doutorado (2007) em Geo‑
campo e laboratório. São Paulo: Oficina de Textos, grafia pela Universidade Federal do Rio de Janeiro
2005. (UFRJ). Foi pesquisadora do Instituto de Pesquisas
STEPHENS, D. B. Vadose zone hydrology. Lewis Pu‑ Tecnológicas do Estado de São Paulo e professora do
blishers, 1996. curso de Geografia da UNESP/Ourinhos. Atualmente
THOMAS, R. W.; HUGGETT, R. J. Modelling in Geo- é professora doutora do Departamento de Geografia
morphology: a mathematical approach. London: da USP, membro do Comitê Executivo da União da
Harper and Row, 1980. Geomorfologia Brasileira (desde 2004) e da IAG – In‑
TRICART, J. Principes et méthodes de l geomor- ternational Association of Geomorphologists (2009­
phologie. Paris: Masson, 1965. ‑2013). Recebeu em 2009, durante o 7th International
XAVIER NETO, P. Processamento e interpretação
Conference on Geomorphology, o prêmio Jean Tricart
de Dados 2D e 3D de GPR: aplicações no imagea-
“Jovem Geomorfólogo” da IAG e do Grupo Francês
mento de feições kársticas e estruturas de disso-
de Geomorfologia.
lução no campo de petróleo da Fazenda Bélem
(CE). Tese de Doutorado. Universidade Federal do Rio
Grande do Norte. Natal (RN), 2006.

56 práticas de geografia
técnicas de
Hidrografia
3
CLEIDE RODRIGuES
SAMuEL FERNANDO ADAMI
Eduardo Justiniano

Introdução, 58 Análises hidrodinâmicas, 62 Sobre os autores, 84


Bacia hidrográfica: conceitos Na sala de aula, 76
e processos envolvidos, 59 Referências de apoio, 83
introdução

A bacia hidrográfica é uma das referências espaciais mais consideradas em


estudos do meio físico. Atualmente, subsidia grande parte da legislação e do
planejamento territorial e ambiental no Brasil e em muitos outros países.
Seu papel no planejamento territorial é resultado de suas características.
Trata‑se de um sistema que pode ser identificado e individualizado de maneira
relativamente fácil, quando considerados os fluxos superficiais de água. A área
interna aos seus divisores pode servir de base para estudos em Hidrologia (com
foco no transporte de água e sedimentos, por exemplo), em Geomorfologia
(relações entre materiais e formas, entre outros), ou mesmo em Biologia, para a
caracterização da dinâmica da fauna bentônica.
Entretanto, em grande parte dos estudos hidrográficos raramente existe uma
definição conceitual precisa desse sistema que é, ao mesmo tempo, hidrológico
e geomorfológico.

58
BaCia HidroGráfiCa:
ConCeito e ProCeSSoS
enVolVidoS

A escolha dos procedimentos mais adequa‑ se sistema por onde circula e atua grande parte
dos e das técnicas de pesquisa depende de con‑ da água envolvida.
ceitos precisos. Por isso, especialmente para as A rede fluvial, também denominada de rede
disciplinas relacionadas às ciências da Terra, a hidrográfica ou rede de drenagem, é composta por
defi nição precisa do conceito ‑categoria bacia todos os rios de uma bacia hidrográfica, hierar‑
hidrográfica é de fundamental importância, pois quicamente interligados. É um dos principais
implica a definição dos limites espaciais internos mecanismos de saída (output) da principal ma‑
e externos em que diversos e interligados proces‑ téria em circulação no sistema bacia hidrográ‑
sos desse sistema operam. fica: a água. Tanto a rede hidrográfica quanto
É possível definir a bacia hidrográfica como a bacia hidrográfica não possuem dimensões
um sistema que compreende um volume de ma‑ fi xas. Seu tamanho depende mais de subdivi‑
teriais, predominantemente sólidos e líquidos, sões e denominações que lhes atribuímos volun‑
próximos à superfície terrestre, delimitado inter‑ tariamente, apesar de existirem bacias e redes
na e externamente por todos os processos que, a hidrográficas de tamanhos diferentes. Como se
partir do fornecimento de água pela atmosfera, vê adiante, pode‑se subdividir uma bacia hidro‑
interferem no fluxo de matéria e de energia de gráfica considerando‑se as ordens hierárquicas
um rio ou de uma rede de canais fluviais. Inclui, de seus canais, até o nível de uma bacia de pri‑
portanto, todos os espaços de circulação, arma‑ meira ordem.
zenamento, e de saídas de água e do material Os processos de circulação de matéria e de
por ela transportado, que mantêm relações com energia que operam em bacias hidrográficas não
esses canais. envolvem apenas canais fluviais e planícies de
Ainda é comum, entretanto, encontrar defi‑ inundação, mas incluem as vertentes, nas quais
nições de bacias hidrográficas que não contem‑ os processos internos são de fundamental impor‑
plam todos esses aspectos. Por exemplo, o uso tância. Um exemplo desse tipo de processo é o
frequente da expressão bacia de drenagem (tra‑ escoamento basal que ocorre na primeira zona
dução direta de drainage basin) tem se sobrepos‑ importante de saturação subsuperficial que, por
to e se confundido ao termo bacia hidrográfica, sua vez, está interligada à planície de inundação
mas não contempla todos os aspectos de uma ou ao canal fluvial localizado na base dos siste‑
bacia. Neste capítulo, reafirma‑se a adequação mas de vertentes.
do uso do termo bacia hidrográfi ca, tendo em Tais considerações permitem afi rmar que,
vista diminuir confusões entre esse sistema e o para se reconhecerem os limites espaciais de
de rede de drenagem, que têm significados bas‑ bacias hidrográficas, é preciso, em primeiro lu‑
tante diferentes. A simplificação mais comum gar, considerar a distribuição espacial do con‑
da definição da bacia hidrográfica é aquela que junto dos processos envolvidos em todos os seus
a defi ne como área, drenada por uma rede de subsistemas. Então, a própria bacia hidrográfica
cursos fluviais interligados. Há também diver‑ estará delimitada.
sos esquemas ou representações gráficas que, Para áreas do meio tropical úmido, essas de‑
pretendendo clareza e didatismo, acabam por finições conceituais e espaciais são ainda mais
consolidar a visão bidimensional, deixando de necessárias, pois grande parte da água que preci‑
apresentar, por exemplo, os limites internos des‑ pita em bacias hidrográficas pode ficar reservada

capítulo 3 – técnicas de hidrografia 59


ou circular em vários níveis e subsistemas: copas, permanecer ou circular numa bacia hidrográfica,
folhas, caules, troncos e raízes da cobertura ve‑ destacando cada um dos subsistemas anterior‑
getal e da serrapilheira; diversos horizontes pe‑ mente mencionados e alguns de seus processos
dológicos; rochas; superfície das vertentes e suas particulares.
depressões; e, finalmente, canais fluviais e planí‑ Bacia hidrográfica compreende todos os pro‑
cies de inundação. Assim é que aos estudos de cessos relativos ao funcionamento de uma rede
bacias hidrográficas aplica­‑se a noção de sistema fluvial incluindo as alterações diretas e indiretas
aberto, composto por outros subsistemas, sendo desencadeadas pela água, inclusive os pedogené‑
os principais os sistemas de vertentes, o dos canais ticos, já que a água, além de ser agente de trans‑
fluviais e o das planícies de inundação. porte, é agente de mudanças físicas, químicas
A Figura 3.1, organizada com base em re‑ e bioquímicas nos ambientes por onde circula.
presentações de outros autores, demonstra os Ao tratarmos das técnicas de análise de uma
diversos níveis por onde a água poderá entrar, bacia hidrográfica, incluiremos as técnicas de

a) Processos hidrológicos b) Processos hidrogeomorfológicos:


e vegetação vertentes, solo e rocha
P

Ac Solo Asp

Fa Fg Nível As Fi
Ft freático Fb

Armazenamento
Rocha

da rocha
Limite Ar
externo
E P

- Limite superior da zona de saturação ou nível d’água


Sérgio Fiori

Ac - Armazenamento nas copas Fb - Escoamento basal Fq


Ar - Armazenamento no nível da rocha Fg - Fluxo de gotejamento Canal
As - Armazenamento no solo Fi - Infiltração Fb
Asp - Armazenamento na serrapilheira Fq - Fluxo fluvial
E - Evaporação Ft - Fluxo de tronco
Fa - Fluxo de atravessamento P - Precipitação c) Processos geomorfológicos de
canal e de planície de inundação
Figura 3.1. Bacia hidrográfica: limites e processos. Organização: Rodrigues, C. e Fiori, S.

60 práticas de geografia
um grande rol de especialidades das Ciências da de dados de vazão de cursos fluviais, carga em
Terra, destacando­‑se aquelas voltadas às análi‑ suspensão, níveis d’água, são exemplos clás‑
ses hidrológicas e geomorfológicas. Isso significa sicos. Os dados gerados por essas técnicas de
afirmar que cada um dos processos da Figura levantamento também podem ser relacionados
3.1, dentre outros ainda mais particulares, pode aos dados anteriores. Cada tipo de dado, cada
ser considerado em estudos de bacias hidrográ‑ escala de análise e cada objetivo de estudo po‑
ficas. Existem técnicas específicas para levan‑ derá requerer técnicas, recortes espaciais e séries
tamento e tratamento de cada um deles, con‑ temporais próprias.
forme se apresenta ao longo deste livro. Neste O fato de esses dois conjuntos de análises
capítulo, enfatizamos aquelas mais diretamente revelarem as formas mais consagradas de se
relacionadas às bacias hidrográficas. As técnicas estudar bacias hidrográficas não significa que
de levantamento selecionadas pertencem a dois são suficientes, mas vêm sendo desenvolvidos,
conjuntos de análises: o das análises morfométri‑ em sua maior parte, de forma complementar ou
cas e o das análises hidrodinâmicas. associada. O primeiro conjunto é mais desen‑
No conjunto das análises morfométricas é volvido na área de Geomorfologia, que também
importante o reconhecimento da espacialida‑ estuda os aspectos dinâmicos dos subsistemas
de do sistema quanto a: limites externos, área, envolvidos numa bacia hidrográfica. O segun‑
hierarquia da rede de drenagem, densidade de do conjunto mostra­‑se mais desenvolvido na
drenagem, gradiente de canais, comprimento da área de Hidrologia. Mais recentemente, variá‑
bacia, curva hipsométrica, coeficiente orográfico veis desses dois conjuntos de dados estão sendo
etc. Esses tipos de dados, quantitativos e espa‑ consideradas em levantamentos e tratamentos
ciais, podem gerar outros e permitir correlações que utilizam Sistemas de Informações Geográ‑
com determinados dados produzidos pela análi‑ ficas (SIG).
se hidrodinâmica. Por exemplo, é possível inter‑ A maior parte dos estudos de bacias hidro‑
pretar a circularidade da bacia hidrográfica com gráficas refere­‑se a aspectos hidrodinâmicos e
sua suscetibilidade aos processos de inundação. morfométricos. Os primeiros têm sido desenvol‑
Portanto, dados morfométricos e morfológicos vidos principalmente em função da necessidade
podem ser interpretados, revelando tendências de se inventariar o potencial hidroenergético de
espaciais de desenvolvimento de processos na bacias hidrográficas. Os morfométricos podem
bacia estudada. Esse é um raciocínio frequente‑ servir para as interpretações hidrodinâmicas e
mente utilizado na Geomorfologia. geomorfológicas, possibilitando interpretações
O outro conjunto de análises comumente sobre a gênese e a dinâmica atual (morfodinâmi‑
utilizadas em estudos de bacias hidrográficas ca) do sistema bacia hidrográfica. Ainda que em
diz respeito aos aspectos dinâmicos da água e menor número, existem também estudos que
dos materiais por ela transportados, envolvendo enfocam aspectos sedimentológicos, geoquími‑
todas as fases de entrada, circulação e armaze‑ cos e bioquímicos de bacias hidrográficas. Esses
namento hídricos. Nesse conjunto estão incluí‑ estudos servem aos dois objetivos mencionados,
das as técnicas para levantamento de dados de além do reconhecimento da qualidade de água
entrada de água no sistema, aquelas relacionadas numa bacia hidrográfica.
à circulação de água nas vertentes e as relacio‑ Percebe­‑se que os raciocínios apoiados em
nadas ao funcionamento dos cursos fluviais pro‑ dados experimentais de observações controladas
priamente ditos. Técnicas para coleta de dados por instrumentação adequada não são, contudo,
como entrada de água no sistema (pluviógrafos os únicos raciocínios possíveis para propor ge‑
e pluviômetros), técnicas para o levantamento neralizações sobre uma bacia hidrográfica. Em

capítulo 3 – técnicas de hidrografia 61


Geomorfologia, por exemplo, é possível inferir sistema como à circulação hídrica, destacando­‑se
alguns comportamentos hidrodinâmicos por os dados de séries temporais de precipitação, esco‑
meio de levantamento de dados morfológicos amento superficial e vazão fluvial (volume de água
desse sistema e seus subsistemas, pois algumas em movimento pelo tempo, comumente medido
relações frequentes entre aspectos de forma e em m³∙s−1). São também importantes outras vari‑
comportamento hidrológico já foram descober‑ áveis hidrológicas, como demonstra a Figura 3.1:
tas e confirmadas para alguns contextos mor‑ interceptação, fluxo de tronco, gotejamento, moda‑
foclimáticos e morfoestruturais. Assim é que lidades de fluxos superficiais, dados piezométricos,
se justifica a presença das técnicas referentes a estocagem na serrapilheira, dentre outras. Técnicas
levantamentos de dados morfológicos e morfo‑ de medição são ilustradas na Figura 3.2.
métricos de uma bacia hidrográfica ou seus sub‑ Exemplos de detalhamentos no subsistema
sistemas. As técnicas aqui selecionadas visam canal também podem ser lembrados: levanta‑
subsidiar leituras e interpretações do conjunto mento de velocidades de fluxo, ao longo de uma
de uma bacia hidrográfica. Por exemplo, os da‑ seção transversal, levantamento de níveis d’água
dos hidrodinâmicos gerados por essas técnicas em vazões extremas, vazões de margens plenas.
podem ter sua série temporal de observações Esses estudos devem auxiliar a compreensão do
submetida a interpretações estatísticas, uma conjunto do sistema bacia hidrográfica, sendo
das técnicas de tratamento de dados das mais importantes especialmente para a compreensão
usuais em estudos hidroclimatológicos. Podem dos subsistemas físicos relacionados. Experimen‑
também ser relacionados (relações estatísticas tos de levantamento de escoamento superficial na
ou espaciais) a outros dados, como uso e ma‑ vertente, por exemplo, podem ser apenas realiza‑
nejo da terra, mudanças na cobertura vegetal e dos com o intuito de entender os processos erosi‑
suas implicações com frequência de inundações. vos pluviais desse sistema, sem a preocupação de
Como se vê, dados diversos podem ser associa‑ compor um entendimento desse processo quan‑
dos para generalizações no plano das bacias hi‑ to ao comprometimento da bacia hidrográfica.
drográficas. Contudo, o entendimento da bacia só é possível
com base em estudos analíticos, que serão a base
para generalizações sobre a bacia hidrográfica.
Pelo fato de muitos modelos hidrológicos serem
ANÁLISES HIDRODINÂMICAS compostos por algumas dessas variáveis ou por
grande conjunto delas, decidiu­‑se por abordar
Os estudos hidrodinâmicos de bacias hidro‑ neste capítulo apenas algumas das variáveis e
gráficas compreendem basicamente os dados técnicas mais importantes, tendo em vista que
gerados por observações de campo ou por experi‑ também são consideradas em outros capítulos.
mentos laboratoriais que envolvem principalmen‑
te os processos relacionados aos diversos tipos
de fluxos hídricos. Esse tipo de dado pode ser Fontes de informação para
tratado estatisticamente ou auxiliar na propo‑ análises hidrodinâmicas
sição de modelos e simulações físicos (como os
modelos em escala reduzida), matemáticos ou Dados hidroclimatológicos e hidrossedimen‑
conceituais. Habitualmente, esses estudos são tológicos estão disponíveis na internet por diver‑
realizados com base no levantamento de algumas sos órgãos públicos – estaduais ou federais – que
variáveis hidrodinâmicas ou hidrológicas funda‑ têm alguma ingerência ou interesse nos recursos
mentais, tanto relacionadas à entrada de água no hídricos do País, ou que têm responsabilidade

62 práticas de geografia
Sérgio Fiori

Bulbo
Central

Figura 3.2. A água na bacia hidrográfica: exemplos de processos e técnicas de observação.

direta na geração de dados ou na manutenção de formas de operação desses reservatórios. Todas


redes de postos. Por exemplo, dados de precipita‑ essas questões envolvem o reconhecimento de
ção, de vazões, agregados ou não, para o estado dados hidrológicos fundamentais, entre os quais
de São Paulo, que interessam para cálculos de uma série temporal longa de observações de da‑
entrada de água na bacia hidrográfica, podem ser dos de vazão.
obtidos em sites do Sistema Integrado de Geren‑ O regime fluvial, por exemplo, só pode ser
ciamento de Recursos Hídricos (SIGRH), do De‑ conhecido por meio desses levantamentos, ten‑
partamento de Água e Energia Elétrica (DAEE), do em vista tratar­‑se do comportamento habi‑
da Agência Nacional de Água (ANA) ou da tual anual mais frequente de vazões e de níveis
Agência Nacional de Energia Elétrica (ANEEL). d’água de um rio em seção transversal determi‑
nada no decorrer de um ano hidrológico.
Os dados de vazões fluviais são mais comu‑
Levantamento de velocidade mente obtidos a partir de medições de veloci‑
e cálculo de vazões fluviais dade do fluxo e de profundidades de verticais
predeterminadas. O produto de uma subárea da
Atualmente, as medições em fluxos fluviais seção transversal do rio pela velocidade média
são consideradas as principais ferramentas para da seção permite a obtenção do dado em m³∙s−1.
os estudos hidrológicos e de geomorfologia flu‑ Para que essa lógica (área x velocidade) tenha
vial, principalmente aquelas medidas que auxi‑ maior proximidade com a realidade de campo,
liam na determinação das vazões. As medições são necessários certos procedimentos que de‑
precisas e de séries contínuas de descarga fluvial penderão do equipamento disponível, do porte
(vazões) são dados indispensáveis para uma sé‑ do rio, da acessibilidade e do objeto de estudo.
rie de tomadas de decisões no plano de geren‑ Se dados de vazão estão disponíveis em séries
ciamento de recursos hídricos. Por exemplo, no temporais, por vezes longas (mais de 50 anos)
planejamento e na operação de hidrelétricas é em diversos postos fluviométricos do Brasil, a
preciso reconhecer os locais mais apropriados densidade espacial desses postos é insatisfató‑
aos eixos de barramentos, o cronograma ade‑ ria para uma série de questões e estudos, como
quado para o enchimento dos reservatórios ou as aqueles voltados ao planejamento municipal ou

capítulo 3 – técnicas de hidrografia 63


Eduardo Justiniano
de bacias de menor ordem hierárquica, que mui‑
tas vezes são desprovidas de quaisquer dados
dessa natureza. Na Amazônia e em outras re‑
giões brasileiras essa situação é mais precária,
pois bacias e sub­‑bacias hidrográficas com a di‑
mensão de um estado inteiro são providas com
três ou quatro postos fluviométricos. Os postos
sedimentológicos são ainda mais escassos.
Assim, para algumas situações importantes,
nas quais o próprio planejamento dos recur‑
sos hídricos do país se insere, será necessário
ampliar a rede de observações sistemáticas, as
únicas que geram longas séries de observações.
Noutras ocasiões, como no caso da pesquisa
científica, serão indispensáveis campanhas espe‑
ciais de campo, nas quais variáveis importantes, Figura 3.3. Molinete utilizado para medição da velocidade da água.
como velocidades e vazões de um rio deverão ser
especialmente obtidas.
Diversos equipamentos podem ser utilizados Vertedouros são pequenas seções artificiais
para a medição de velocidades e para o cálculo de canais, construídas principalmente para su‑
de vazões de fluxos fluviais. A grande maioria perar situações fisicamente adversas ao uso de
deles está apoiada na lógica anteriormente men‑ equipamentos comuns, como os molinetes ou
cionada, do produto entre a área da seção trans‑ flutuadores, para a medição de velocidades e de
versal pela velocidade média. outros parâmetros hidrológicos. Isso se verifica
Como exemplos de equipamentos para obten‑ em rios de fluxos muito rápidos, ou de seções
ção de dados de velocidade, podem ser citados transversais muito pequenas. Os vertedouros
desde os mais simples, como os flutuadores, os constituem também um artifício para se estudar
molinetes (Figura 3.3), que podem ser mecânicos experimentalmente (em laboratório) as relações
e ter diversos tamanhos, ou eletromagnéticos; entre transporte ou movimentação de sedimen‑
velocímetros acústicos ou a laser. Para medições tos e condições de fluxo. Para se estudar as rela‑
de descarga (vazões) existem outras técnicas, ções entre a velocidade crítica de erosão segundo
como a construção de vertedouros artificiais a granulometria, têm sido utilizados experimen‑
e a utilização da curva­‑chave. As curvas­‑chave tos com vertedouros.
são obtidas com base em medições múltiplas de As técnicas que envolvem a medição direta
vazões em seções transversais que apresentem da velocidade para cálculo da vazão obedecem
formas ajustadas, com tendência à estabilidade, à integração de dados ao longo de seção do rio
podendo existir uma correlação imediata entre dividida em i áreas (Figura 3.4, página 66).
o nível d’água e a vazão associada. A plotagem
dessa série de dados pode gerar uma curva única Q = ∑ Vi. Ai
ou uma série delas, que podem ser ajustadas.
Com o estabelecimento de uma curva­‑chave, é Onde:
possível considerar unicamente os dados de ní‑ Q = vazão total
vel da água e descobrir a vazão correspondente Vi = velocidade média na área nº i
(com linígrafos, por exemplo). Ai = área da seção transversal nº i

64 práticas de geografia
Seleção dos locais e equipamentos

Antes de tudo, deve­‑ se compatibilizar as lo das vazões se baseia nas velocidades médias,
necessidades do estudo com as condições de qualquer subestimação ou superestimação desse
trabalho em campo e a disponibilidade de equi‑ dado poderá falsear o cálculo.
pamentos. Isso significa que haverá trabalho Molinetes com hélice de diferentes tamanhos
de campo preliminar, de reconhecimento, bem poderão ser utilizados de diversas formas, de‑
como levantamentos e tratamento em gabinete. pendendo das condições físicas dos rios. É pos‑
O procedimento amostral (número de se‑ sível realizar levantamentos a vau percorrendo­‑se
ções, número de medidas, locais, intervalos de o rio a pé, por ponte (requer cavaletes, polia e
tempo etc.) deve ser consequência de estudos cabo de aço para controlar a submersão) ou por
preliminares, principalmente os realizados em barco, onde o molinete é acoplado. Para levan‑
gabinete, que devem ser exaustivos. Nessa fase tamento a barco, um cabo de aço numerado é
estarão incluídos os levantamentos e tratamen‑ esticado de uma margem a outra e serve de guia
tos de dados morfométricos da bacia hidrográfi‑ para o barco que faz o levantamento de dados de
ca, que em muito poderão auxiliar na definição velocidade de verticais determinadas.
de locais mais representativos e na definição do
equipamento adequado.
O objetivo do estudo, quando bem traçado, Obtenção de dados de
também impõe as escolhas do processo amos‑ profundidades e velocidades
tral e do equipamento. Por exemplo, quando há com o uso de molinetes
necessidade de se comparar parâmetros hidrodi‑
nâmicos de cursos de 1ª e 4ª ordens, as escolhas A técnica mais comum para o levantamento
deverão levar em consideração reconhecimento de variáveis e posterior cálculo de vazões é a
prévio do gradiente hidráulico desses cursos (que somatória do produto de seções (ou subáreas
pode ser obtido a partir do perfil longitudinal), o de verticais) pela velocidade média da vertical
que, por sua vez pode colocar limites na escolha correspondente (Figura 3.4).
do equipamento para obter dados de velocidades Para cálculos precisos de vazão em rios de
e seção transversal. médio porte (aproximadamente de 6ª a 10ª or‑
Para o levantamento de vazões de um deter‑ dens) é recomendável retirar verticais (dados de
minado rio, há que se verificar, em primeiro lu‑ profundidade) de metro em metro. Avaliações
gar, sua magnitude e sua morfologia. Em rios de menos precisas de rios desse porte suportam in‑
pequeno porte pode­‑se utilizar micromolinetes. tervalos maiores, como de dois em dois metros.
Em rios de porte médio ou superiores (em torno, Quando a rugosidade do leito é significativa e
ou acima, de 6ª e 7ª ordem), podem ser utilizados a profundidade é inferior a 0,75 m, sugere­‑se
molinetes maiores. a obtenção de dado de velocidade a 0,1 (1/10)
Para a instalação do equipamento é recomen‑ da profundidade total, de cada vertical. Em
dável percorrer previamente a região selecionada verticais com profundidade superior a 0,75 m,
em campo e observar os documentos de gabine‑ recomenda­‑se a obtenção de dado de velocida‑
te (cartas topográficas, por exemplo), verificando des a profundidades relativas de 0,2 m e 0,8 m,
trechos do canal que apresentam evidências de a partir das quais se obtém a velocidade média
estabilidade e de menor variação de direção, ou da vertical. As velocidades devem ser medidas a
seja, trechos mais retilíneos, onde o gradiente de intervalos de tempo de 20 s a 30 s e, em rios de
velocidades tende a ser menor. Como o cálcu‑ baixas velocidades, deve ser respeitado intervalo

capítulo 3 – técnicas de hidrografia 65


maior. Carter & Anderson (apud kandolf & modelos apropriados aos estudos de escoamen‑
piÉgay, 2003) estimaram que o erro embutido to, modelos hidrodinâmicos em rios, modelos
no cálculo de vazões para dados de velocidade de precipitação‑vazão, outros para previsão de
retirados a apenas 0,6 m da profundidade em cheias, os que envolvem a avaliação dos efeitos
relação às vazões reais é de 4%. Para cálculos de mudanças no uso do solo e modificações cli‑
realizados com dados de velocidades colhidos a máticas, modelos de qualidade de água, dentre
profundidades relativas de 0,2 m e 0,8 m, esse outros (tucci, 1998). Recentemente, as variá‑
erro seria igual ou inferior a 2%. veis espaciais têm sido cada vez mais emprega‑
A Figura 3.4 ilustra a lógica da técnica do das nesses modelos e os SIG têm contribuído
molinete identificando as verticais, as subseções de forma radical na proposição e no desenvolvi‑
ou subáreas correspondentes à profundidade de mento de modelos hidrológicos, principalmente
0,6 h. A Figura 3.5 ilustra os campos que devem os que se dedicam às simulações de mudanças
ser preenchidos num modelo de planilha para em variáveis hidrológicas na bacia hidrográfica.
registro de campo utilizado pelos técnicos do Muitas dessas ferramentas – os modelos – de‑
DAEE/FCTH em levantamentos de rotina no pendem de informações que são resultado de
estado de São Paulo. Caso o sujeito seja novato análises por geoprocessamento.
ou não tenha experiência em Geomorfologia flu‑ Kineros 2, por exemplo, é um modelo que
vial experimental ou em Hidrologia de campo, descreve processos baseando ‑se em dados de
recomenda‑se que desenvolva seu planejamen‑ interceptação, infiltração, erosão e escoamento
to de campo com um desses especialistas, para superficial e foi desenvolvido para pequenas ba‑
selecionar os locais, o tipo de equipamento, os cias agrícolas e urbanas. Por meio do Kineros 2
intervalos espaciais e temporais de sua série de podem‑se observar os efeitos da expansão urba‑
observações, entre outros procedimentos. na ou da construção de reservatórios em cheias
e produção de sedimentos.
O SWAT é outro modelo, desenvolvido para
modelagens hidrológicas predizer, em bacias grandes e complexas, os efei‑
tos das práticas de manejo das terras sobre os
Os modelos hidrológicos representam pro‑ recursos hídricos, a produção de sedimentos e
cessos naturais ou artificiais complexos e per‑ o transporte de agroquímicos. Diferentemente
mitem simulações e previsões muitas vezes dife‑ do Kineros 2, o SWAT não lida com eventos in‑
rentes das condições sugeridas pela observação dividuais, mas com o comportamento de longo
direta. Existe um grande número de tipos de prazo da bacia frente às ações antrópicas.
modelos hidrológicos que em muito se diferen‑ Para a modelagem hidrológica e hidráulica de
ciam quanto aos objetivos e quanto ao tipo de bacias, o modelo HEC‑HMS simula processos
variáveis envolvidas. Em Hidrologia existem de precipitação‑vazão. Os resultados (hidrógra‑
Sérgio Fiori

Vertical onde é
medida a velocidade Subárea Ai

h
Figura 3.4. Seção transversal
e cálculo de vazões. Fonte:
kandolf et al. (2003), Profundidade h
Velocidade medida
modificado. a profundidade 0,6 h

66 práticas de geografia
fas) podem ser usados para estudos de disponi‑ Por exemplo, a análise linear abrange carac‑
bilidade hídrica, previsão de cheias, impactos de terísticas da rede fluvial que podem ser conta‑
planos de urbanização e operação de sistemas. das ou ter seu comprimento medido. Podem ser
Esses são alguns exemplos de modelos que gerados dados sobre o número, o comprimento
podem ser empregados em estudos de erosão, no médio e o gradiente médio dos canais de de‑
planejamento dos usos e ocupações das terras e terminada ordem em uma bacia. Uma série de
na previsão hidrológica. Entretanto, a maioria
deles foi desenvolvida para condições que não
são, normalmente, aquelas encontradas no Brasil
e mais estudos são necessários para dimensionar
sua aplicabilidade aos casos aqui encontrados.

Análises morfométricas

O estudo do desenvolvimento de uma ba‑


cia hidrográfica pode auxiliar no entendimen‑
to do progresso da paisagem como um todo
(doornkamp & king, 1971) e, como citado
anteriormente, a análise morfométrica fornece
um meio de atingir esse objetivo. As análises
morfométricas são classificadas em quatro tipos,
segundo Christofoletti (1980):
¾¾análise linear;
¾¾análise areal;
¾¾análise hipsométrica;
¾¾análise topológica.

Reprodução

Figura 3.5. Ficha de campo


utilizada pelo DAEE/CTH.

capítulo 3 – técnicas de hidrografia 67


formulações matemáticas e de índices pode ser cartas detalhadas em até 1:2.000, na Empresa
determinada com esses dados. Paulista de Planejamento Metropolitano S.A.
Contudo, toda análise morfométrica depen‑ (EMPLASA), ambos órgãos ligados à Secre‑
derá de um trabalho preliminar de reconheci‑ taria Estadual de Economia e Planejamento.
mento de dados básicos que envolve, principal‑ Vem sendo realizada digitalização desses da‑
mente, análise de cartas topográficas, sejam dos e vários levantamentos antigos estão sendo
elas digitais ou não e, por vezes, de fotografias atualizados com o uso de imagens de satélites,
aéreas. Esses dados são: reconhecimento dos li‑ como é o caso das cartas em escala 1:25.000
mites externos (divisores superficiais ou delimi‑ no Estado de São Paulo (DAEE/IGC).
tação de bacias hidrográficas), estimativas areo‑ Grande parte das informações de uma carta
lares e identificação de ordens hierárquicas de topográfica pode ser obtida e melhor detalhada
seus cursos fluviais. Uma vez realizada essa eta‑ empregando­‑se a interpretação de fotografias aé‑
pa, outros parâmetros morfométricos e índices reas, que também se prestam à geração de novos
podem ser estimados, conforme exemplifica­‑se documentos planialtimétricos como em softwares
adiante. de restituição aerofotogramétrica, como o DVP
(Digital Video Plotter) dentre outros. Existem
ainda, os Modelos Digitais de Elevação (MDE)
Fontes de informação para derivados diretamente de dados de sensoriamen‑
análises morfométricas to remoto como o SRTM (Shuttle Radar Topogra‑
phic Mission).
As cartas topográficas ainda são a maior
fonte de dados para levantamentos e análises
morfométricas, pois nelas delimitam­‑se bacias Geração de Modelos Digitais
hidrográficas, definem­‑se as redes de canais de Elevação (MDE)
fluviais e coletam­‑se dados altimétricos, que
são a base para cálculos posteriores. A obten‑ Muitos dados e elementos básicos para a
ção de cartas topográficas é realizada de duas análise morfométrica podem ser derivados dos
formas: a compra de cartas editadas em papel MDE. Em um SIG, a partir das curvas de ní‑
e a aquisição de cartas em meio digital. No vel e dos pontos cotados digitalizados, pode ser
Brasil, as diversas sedes do Instituto Brasilei‑ gerado um MDE por meio da interpolação dos
ro de Geografia e Estatística (IBGE) oferecem valores de altitude. Procedimentos de interpola‑
cartas impressas para compra direta ou para ção de valores podem ser otimizados e englobar
reprodução, principalmente cartas produzi‑ o uso de análises geoestatísticas como a kri‑
das na escala 1:50.000. Algumas folhas desse gagem (uma técnica que determina os valores
mapeamento sistemático do Brasil estão dis‑ interpolados com base em probabilidades deri‑
poníveis no servidor de geociências do IBGE vadas de um modelo espacial estatístico), con‑
(<ftp://geoftp.ibge.gov.br/>) em formatos varia‑ forme estabelecido, por exemplo, por Valeriano
dos. Em alguns estados podem ser encontra‑ (2002). Para determinar a rede de canais, pode­
dos dados cartográficos em escalas maiores, ‑se digitalizá­‑la da base cartográfica, extraí­‑la do
chegando a cobrir parte significativa de seus MDE, ou empregar­‑se uma abordagem híbrida1.
territórios com cartas 1:25.000 ou 1:10.000.
No caso do estado de São Paulo, é possível ad‑
quirir essas cartas no Instituto Geográfico e 1 Leia também o Capítulo 11 – Sistema de Informação
Cartográfico (IGC), ou, na Grande São Paulo, Geográfica, além do Capítulo 9 – Técnicas de Senso‑

68 práticas de geografia
Outra fonte de dados são os MDE produzi‑ Delimitação de bacias hidrográficas
dos pela missão SRTM. Estes dados são gerados
por interferometria de imagens de radar e dis‑ Para determinado local do canal fluvial (se‑
tribuídos pelo USGS (United States Geological ção transversal) pode­‑se traçar uma bacia hi‑
Survey) na resolução espacial de 3”, aproxima‑ drográfica que forneça a água e os sedimentos
damente 90 metros, que é consideravelmente que são transportados através da seção. Pode­
grosseira para algumas aplicações. Entretanto, ‑se determinar a área comprometida na produ‑
após o tratamento geoestatístico desenvolvido ção de água e de sedimentos de qualquer pon‑
por Valeriano (2004), pode­‑se interpolar a gra‑ to de um canal fluvial, como de uma estação
de para 1” (cerca de 30 metros) e utilizar este fluviométrica, de uma barragem, de uma usina
MDE como fonte de dados morfométricos. Os hidrelétrica ou ponto de captação de águas.
dados SRTM podem ser obtidos a partir do site Uma bacia hidrográfica pode ter seus limites
do projeto (<http://srtm.usgs.gov/>). As referên‑ bem definidos por meio de fotointerpretação e
cias citadas podem ser encontradas no link da de cartas topográficas. A primeira apresenta a
biblioteca digital, no site do INPE. vantagem de tornar mais preciso o limite, tendo
O trabalho com as cartas topográficas, como em vista o acesso direto a uma visão tridimen‑
compilação da rede de drenagem, curvas de ní‑ sional das mais fiéis à realidade do terreno. É
vel e pontos cotados, pode ser realizado manu‑ preciso lembrar que as informações de altime‑
almente, produzindo um overlay, ou pode­‑se tria presentes nas cartas são generalizações que
montar uma base de dados digitais por meio de podem trazer importantes distorções quanto à
softwares de mapeamento e SIG a partir da car‑ forma real do terreno. Assim, é recomendável
ta impressa. Nos SIG, a montagem da base de sempre dar preferência à delimitação por meio
dados inicia­‑se com a entrada dos elementos de de fotografias aéreas. Deve­‑se tomar cuidado
interesse (rede de canais fluviais, curvas de nível, para não perder a visão tridimensional duran‑
pontos cotados, entre outros) em um Sistema de te o processo de delimitação com o uso de fo‑
Informações Geográficas (SIG). Cada programa tografias aéreas. Outro lembrete importante é
específico apresenta alternativas próprias para a que os limites superficiais podem não corres‑
geração de informações morfométricas e a es‑ ponder exatamente aos divisores internos. Em
colha de determinado SIG depende de outros alguns estudos detalhados, esse pode ser um
fatores, tais como recursos financeiros disponí‑ dado importante que explicaria alguns desvios
veis, requisitos institucionais e características do encontrados em séries de dados hidrológicos,
projeto. Alguns programas têm rotinas específi‑ pois as perdas para as bacias vizinhas ou para
cas para análises morfométricas, por exemplo, o aquíferos profundos podem ser significativas.
Whitebox Geospatial Analysis Tools (<http://www. Numa carta topográfica, após locar a seção
uoguelph.ca/~hydrogeo/Whitebox/index.html>), transversal do rio na base, devem ser traçadas, a
um sistema com código aberto que possui fer‑ partir desse ponto na carta, linhas perpendicula‑
ramentas para essas análises e para modelagens res às curvas de nível de maior valor nas verten‑
hidrológicas. tes adjacentes, buscando identificar as áreas que
drenam para a seção determinada e envolvem a
rede de afluentes. Para uma delimitação precisa
valem algumas recomendações. Em primeiro
lugar, reforçar a rede de drenagem, caso ela não
riamento Remoto e do Capítulo 10 – Técnicas de Loca‑ esteja muito discernível na carta, como no caso
lização e Georreferenciamento, deste livro. de cartas monocromáticas. Antes de inscrever

capítulo 3 – técnicas de hidrografia 69


os limites, é preciso ler atentamente a carta, no Uma desvantagem dessa técnica é a geração
intuito de procurar as curvas de maior valor das de uma imagem raster da rede fluvial e de divi‑
áreas drenadas pela rede já reforçada grafica‑ sores, necessitando a digitalização dos divisores
mente. Essa leitura deve percorrer a região das e canais. Além disso, a qualidade do produto
cabeceiras e ser seguida pela interpretação da final é altamente dependente daquela dos dados
geometria, registrando­‑se mentalmente as áreas altimétricos originais e do MDE, pois pequenos
convexas e côncavas na projeção horizontal da artefatos são realçados no processamento. As
carta (em planta). Os limites devem ser traçados vantagens residem na alta produtividade, veloci‑
inicialmente nas curvas de maior valor que se dade na geração das informações e objetividade
fecham em pequenas áreas, procurando sem‑ dos resultados.
pre a isodistância no interior dessas curvas para Outras abordagens empregam medidas de
inscrever o limite. O limite deve ser preferen‑ distâncias em função de outras propriedades do
cialmente posicionado em áreas de geometria relevo, como o caminho de menor energia. A água
convexa em planta, evitando as áreas côncavas, tenderia a fluir seguindo a maior declividade do
que definem áreas de concentração e não de terreno aproveitando a maior energia potencial
dispersão (divisão/divisores) de fluxos hídricos nesse trajeto. A água tenderia a fluir seguindo a
superficiais. maior declividade do terreno para gastar o míni‑
mo de energia (demers, 1999). Em um MDE,
o pixel que representa um canal verteria para o
Levantamentos de dados em cartas pixel vizinho que apresenta a maior diferença
digitais com utilização de MDE altimétrica, portanto maior gradiente e assim
sucessivamente (Figura 3.6).
Recentemente, alguns autores desenvolveram A derivação da rede fluvial a partir de MDE
metodologias para a extração da rede de drena‑ impõe uma questão: como identificar as cabe‑
gem e de divisores a partir de MDE, utilizando ceiras ou onde começam os canais (montgo-
técnicas de geoprocessamento simples como mery & dietrich, 1988)? Duas abordagens
filtros direcionais e álgebra de mapas. Valeriano são empregadas: limiar de área constante e área
& Moraes (2001), por exemplo, propõem a de‑ de suporte crítica dependente da declividade. O
rivação à rede de divisores em folhas 1:50.000 uso do limiar de área constante é mais comum
com base nesses procedimentos. devido à sua facilidade de implementação. Ao
Em linhas gerais, após a geração do MDE derivar a rede de drenagem, indica­‑se um va‑
foram aplicados quatro filtros direcionais para lor mínimo de área para que seja estabelecido
calcular o gradiente nas direções Norte, Les‑ um canal de drenagem; assim o algoritmo deve
te, Nordeste e Noroeste. Desse passo resultam acumular uma dada quantidade de pixels que
quatro imagens com valores positivos e negati‑ drenam para ele antes de iniciar o traçado de um
vos de acordo com a ocorrência de máximos e canal (garbrecht & martz, 2000).
mínimos nas direções selecionadas. Essas ima‑ A premissa da técnica da área de suporte crí‑
gens são padronizadas para que seus valores se‑ tica dependente da declividade é que a cabeceira
jam +1, −1 ou zero e sobre elas são aplicados no‑ representa a transição entre processos de ver‑
vamente os quatro filtros para realçar os locais tentes (escoamento difuso) e de canais fluviais
onde ocorre a inversão de sinais. Somam­‑se as (escoamento concentrado) e que esta relação é
quatro imagens para gerar a imagem final com condicionada pelas propriedades morfológicas
a rede de divisores (máximos locais) e canais e dos materiais representada pela alteração no
(mínimos locais). gradiente. Outros fatores podem influenciar a

70 práticas de geografia
Coluna

5 5 4 3 2 1
ha
Lin 4
3
2
1
Sérgio Fiori

Figura 3.6. Caminho de menor energia. Fonte: DeMers (1999), modificado.

extração da rede de drenagem a partir de MDE, lógica. Em alguns casos os trechos retilíneos são
como a resolução espacial do modelo, o modo resultado da ação humana, como nas obras de
de geração deste, pré‑processamento dos dados retificação de canais fluviais.
(retirada de depressões e outros artefatos) e a Canais meandrantes apresentam sinuosidade
utilização ou não de rios digitalizados. acima de 1,5, valor que os distingue do padrão
retilíneo. Normalmente transportam cargas em
suspensão e formam barras laterais nas margens
Padrões de drenagem dos meandros.
No padrão anastomosado predomina gran‑
Os rios não apresentam as mesmas formas, de fornecimento de sedimentos ao canal fluvial,
havendo vários tipos de canais fluviais determi‑ muitas vezes acima de sua capacidade imediata
nados pela relação entre vazão do rio e o volume de transportá‑los; esses sedimentos são caracte‑
e tipo de carga sedimentar transportado pelo risticamente de textura grosseira e são transpor‑
canal. Essas variáveis estão relacionadas com as tados como cargas de fundo ou em suspensão.
características da bacia, climáticas, geológicas, Como resultado, o fluxo de água divide‑se em
geomorfológicas, pedológicas e de usos das ter‑ vários fluxos menores.
ras. Ao longo de um mesmo canal podem ser Nas bacias sob clima tropical úmido, com
encontrados vários tipos de padrões. Para rios cobertura vegetal de florestas e relevo suave, é
que escoam sobre sedimentos aluvionares, por‑ recorrente o padrão meandrante, enquanto nas
tanto não apresentando condicionamento forte áreas com modelado dissecado, clima semiári‑
por parte da litologia da área, podem ser reco‑ do ou com uso das terras que fornecem menor
nhecidos três tipos básicos de padrões (Figura proteção à superfície do terreno, pode ser encon‑
3.7, na página 72). trado o padrão anastomosado.
O padrão retilíneo é o mais difícil de ser en‑
contrado e, mesmo assim, ocorre em pequenas
extensões. Em rios que apresentam forte contro‑ o estabelecimento da hierarquia
le estrutural, a existência de trechos retilíneos
está normalmente associada a falhamentos. Existem diversos procedimentos para estabe‑
A carga detrítica pode ser formada por ampla lecer a hierarquia da rede fluvial e a hierarquia
gama de sedimentos, mas predomina o trans‑ de sub‑bacias. Dentre esses procedimentos tem
porte em suspensão. Ao observar um canal com sido mais difundido e utilizado o esquema de
padrão retilíneo, pode‑se inferir que seu curso Strahler que, combinado ao de Horton, permite
esteja encaixado em uma falha ou fratura geo‑ a identificação do canal principal. A defi nição

capítulo 3 – técnicas de hidrografia 71


da hierarquia de canais e de bacias hidrográfi‑ hierárquica superior. Normalmente, inicia‑se o
cas, assim como outros levantamentos de dados processo de ordenamento dos canais de 1ª ordem
morfométricos, dependerá da fonte utilizada até aquele de maior ordem, ou seja, de montante
para a identificação dos elementos de base, que para jusante. Na proposta de Strahler, o processo
apresentam escalas e qualidade diversas. A rede
hidrográfica extraída de fotos aéreas permite

Sérgio Fiori
uma atribuição mais fidedigna, não apenas em Padrão Retilíneo

função da escala, mais detalhada, mas por pos‑


Barras alternadas
sibilitar uma visão tridimensional mais próxima Fluxo

à da realidade do terreno, resultando numa atri‑


Padrão Meandrante
buição de ordens hierárquicas de rios e de sub‑
‑bacias hidrográficas de maior qualidade. Muitas Meandro abandonado
Barras
cartas topográficas não trazem fotointerpreta‑ laterais

ções corretas do ponto de vista dos conceitos


cursos fluviais perenes, cursos pluviais ou fluviais
intermitentes, sendo mais um exemplo de como
conceitos malconhecidos podem gerar produtos,
Padrão Anastomosado
tratamentos e análises malconduzidos.
O primeiro modo de hierarquização ampla‑
mente aplicado foi proposto por Horton em 1945.
Nesse esquema, os canais sem afluentes são con‑ Barras longitudinais

siderados de 1ª ordem e, apenas na confluência


de dois rios de igual ordem, acrescenta‑se mais
um à ordenação, ou seja, dois canais de mesma
Figura 3.7. Padrões de canais fluviais em sedimentos aluvionares.
ordem hierárquica formam um canal de ordem Fonte: Selby (1985), modificado.

Sérgio Fiori
1 1
1 4
1 1 1 2
1 1 1 3 1 1

2 3
2 2 3
1 1 1
2 2 2 2 4
2 1 1
3 2 4 2
1 3 1
3 2 4
1 1 2
1 2

4 4

A - Strahler B - Horton
Ordem
Primeira Segunda Terceira Quarta

Figura 3.8. Hierarquia da rede segundo Strahler (A) e Horton (B).

72 práticas de geografia
de ordenamento encerra­‑se com a determinação Novamente, a qualidade desse dado depen‑
da maior ordem numa bacia. Entretanto, no mo‑ derá da qualidade dos dados da base cartográ‑
delo hortoniano, deve­‑se proceder a uma segun‑ fica ou da fotointerpretação. Esse índice é um
da etapa que leva à identificação do canal prin‑ dos mais úteis para o planejamento regional,
cipal. Isso é feito percorrendo a rede fluvial de contribuindo também para interpretações so‑
jusante para montante e transportando a maiores bre as características litológicas e tectônicas
ordens aos afluentes que apresentem bacia com em mapeamentos geológicos ou mesmo para
maior área de drenagem ou menor ângulo em a diferenciação de unidades de solos em levan‑
relação ao canal de maior ordem, até atingir­‑se o tamento pedológicos. Com o uso desse dado é
último canal (Figura 3.8). possível separar áreas mais ou menos aptas à
O conceito de segmento fluvial pode ser ime‑ recepção de infraestrutura viária, por exemplo.
diatamente reconhecido: trata­‑se de trechos dos Também pode ser um valioso auxílio para inter‑
canais fluviais nos quais a ordem hierárquica pretações sobre morfogênese e morfodinâmi‑
não muda. Esse conceito é extremamente im‑ ca baseadas em inferências sobre diferenças de
portante para uma série de índices morfomé‑ permeabilidade, por exemplo, ou de diferenças
tricos obtidos da contagem desses segmentos, sobre a profundidade dos materiais permeáveis
como da densidade de rios (número de rios por (Figura 3.9).
área) ou o índice de bifurcação (relação entre o Para obter informações sobre a extensão total
número de canais de uma ordem pelo número de canais é possível utilizar softwares de cartogra‑
de canais de ordem imediatamente superior). A fia digital. Em cartas topográficas convencionais
subdivisão de bacias correspondentes a cada or‑ é comum a utilização de curvímetros que podem
dem hierárquica obedece aos mesmos princípios ser mecânicos ou digitais (Figura 3.10, na pá‑
relatados anteriormente. gina 74). Os passos são os mesmos: ajusta­‑se o
curvímetro para a escala da carta, posiciona­‑se
sua marcação zero e percorre­‑se a carta com ele
Densidade de drenagem e sobre todos os segmentos fluviais pertencentes
coeficiente de manutenção à bacia considerada. O dado da área da bacia,
A densidade de drenagem corresponde à ex‑ nessa ocasião, já deve ter sido recolhido. Habi‑
tensão total de cursos fluviais (Et) relacionada tualmente utiliza­‑se o km/km² como medida.
à área ocupada pela bacia hidrográfica corres‑ O coeficiente de manutenção (Cm) é um
pondente (A): índice extraído diretamente dos dados exten‑
são de rios e área de drenagem correspondente,
Dd = Et∙A−1 os mesmos utilizados no cálculo da densidade
Sérgio Fiori

Figura 3.9. Exemplos


de áreas com diferentes
densidades de drenagem.

capítulo 3 – técnicas de hidrografia 73


Rafael Sato
Figura 3.10. Exemplos de curvímetro digital e mecânico.

de drenagem, pois se trata de seu inverso. Com nascente e, naquele das ordenadas, as altitudes
esse dado procura‑se representar qual seria a correspondentes a cada distância. Recomenda‑
área necessária para a manutenção de um me‑ ‑se, principalmente para efeito de comparação
tro de curso fluvial perene. É um dado que per‑ visual entre perfis construídos a partir de cartas
mite raciocinar sobre o balanço hidrodinâmico 1:50.000 em regiões planálticas brasileiras, uma
de cada área estudada, revelando tendências de escala gráfica em que o eixo das abscissas cor‑
processos, como regiões que apresentam índices responda 1 km∙cm−1 e o eixo das ordenadas 200
de escoamento superficial (fluvial e de verten‑ m∙cm−1 ou 100 m∙cm−1.
tes) relativamente mais importantes que os de Na Figura 3.11 observa‑se o perfil longitudi‑
infiltração, interpretação possível de se realizar nal do córrego da Roseira (Jundiaí/SP), extraído
também com o índice densidade de drenagem. de um MDE, com escala reduzida. É também
A fórmula do coeficiente de manutenção é: possível registrar graficamente as ordens hie‑
rárquicas dos rios no perfi l para que relações
Cm = (1∕ Dd−1)∙1000 possam ser identificadas. Dentre as leituras e
interpretações mais comuns desse instrumento,
podem ser relatadas as que identificam os knick
points (formas salientes convexizadas) e as mais
Perfil longitudinal e importantes rupturas de declividade ao longo
curva hipsométrica do perfil. Ambas têm significados importantes
para os ajustes dos sistemas de vales e verten‑
Para a construção do perfi l longitudinal, a tes adjacentes de montante. Esses pontos são
cada cruzamento entre o rio principal e as cur‑ igualmente importantes de serem identificados
vas de nível, desde a sua nascente até a foz, quando se trabalha com previsão espacial de im‑
são registradas em uma planilha as distâncias pactos, pois é outra forma de segmentar a bacia
percorridas (com o uso do curvímetro, por hidrográfica baseando‑se em processos fluviais
exemplo) e o valor de altitude dessas curvas. distintos para cada um dos trechos.
Em seguida, são plotadas as informações para Os dados para a geração do gráfico foram
um gráfico em papel milimetrado ou planilha extraídos de um MDE com resolução espacial
eletrônica para compor a figura pretendida. A de quatro metros. A partir do canal principal,
ideia é construir um gráfico que contenha no identificado segundo Horton, foi executada uma
eixo das abscissas os valores de distâncias da amostragem regular de pontos a cada 200 me‑

74 práticas de geografia
Sérgio Fiori
830
820
810
800
Altitude (m)

790
780
770
760
750
740 Figura 3.11. Perfil
730 longitudinal do
0 1.000 2.000 3.000 4.000 5.000 córrego da Roseira.
Distância (m) Fonte: Adami (2005).

tros, ao longo do rio. Obteve­‑se a altitude cor‑ dos intervalos altimétricos e a menor altitude na
respondente a cada ponto após o cruzamento bacia dividida por H, gera h.
com o MDE. Esses dados foram transferidos Os cálculos são feitos em porcentagem, mas
para uma planilha eletrônica para a geração da registrados no gráfico como proporções (por
Figura 3.11. exemplo, como 0,25). Na Figura 3.12 é apresen‑
Hack (1957) identificou, para canais desen‑ tada a curva para a bacia do Córrego da Roseira.
volvidos sobre a mesma litologia, uma relação
sistemática entre o gradiente do rio e a mediana

Rafael Sato
do diâmetro das partículas da carga de fundo. 1
Entretanto, o gradiente tende a diminuir com
o aumento da área de drenagem. Uma revisão
sobre esse tipo de relação, entre outras, pode ser
encontrada em Christofoletti (1977).
A análise hipsométrica foi desenvolvida por
Strahler (1952) e a principal ferramenta nesta
abordagem é a geração da curva hipsométrica.
Altitude (h/H)

Este gráfico representa a quantidade de massa


que estaria disponível para a erosão em uma ba‑
0.5
cia e, em unidades proporcionais, permite com‑
parar formas de bacias de diferentes tamanhos
e amplitudes topográficas.
São calculadas: a área total da bacia (deno‑
minada A), a amplitude topográfica (H), a área
(a) de determinada faixa altimétrica (h). O valor
de H é a diferença entre a cota mais alta e a
mais baixa na bacia. As faixas altimétricas po‑
dem ser determinadas a partir da segmentação
do MDE em classes com amplitude constante 0
0 0.5 1
(por exemplo, 20 metros); a área de cada faixa
Área (a/A)
é determinada e acumulada das mais altas para
as mais baixas e esse valor é dividido pela área Figura 3.12. Curva hipsométrica da bacia do córrego da Roseira.
total da bacia. A diferença entre o valor inferior Fonte: Adami (2005).

capítulo 3 – técnicas de hidrografia 75


na Sala de aula

O conceito de bacia hidrográfica pode ser A própria delimitação da bacia pode ser desen‑
utilizado em sala de aula como base para a dis‑ volvida como uma atividade prática, por meio da
cussão de conceitos e ideias relacionados aos construção de maquetes (Figura 3.13). Para esse
vários campos da Geografia e de outras disci‑ exercício, utilizam‑se cartas topográficas e desse
plinas. material são desenhadas as curvas de nível em papel
Um aspecto importante desse papel é a arti‑ transparente. Posteriormente esse traçado é trans‑
culação entre o regional e o local. A ideia de ciclo ferido para placas de isopor ou papelão, que são
hidrológico, com as formas de armazenamento e coladas umas sobre as outras do nível altimétrico
transporte de água em nível global, pode ser dis‑ mais baixo para o mais alto. Podem ser empregadas
cutida a partir do estudo de caso da bacia onde diferentes espessuras de placas, levando a diferentes
está inserida a escola. Ressalta‑se, entretanto, representações do modelado2.
que o balanço hídrico, que não apresenta ganhos O cálculo de parâmetros e índices morfométri‑
ou perdas significativas na escala global, pode cos pode ser tratado numa interface com outras
apresentar perdas ou ganhos de água em escalas disciplinas como a Matemática. Dessa maneira,
maiores ou de maior detalhe. A simples integra‑ enquanto os conceitos são tratados em sua signifi‑
ção de dados de precipitação e vazão pode ser cação geográfica e com suas relações com a dinâ‑
utilizada para caracterizar o balanço hídrico da mica espacial da sociedade, outra disciplina pode
bacia de maneira simplificada. empregar a mesma unidade espacial para exempli‑

Maquete e foto: Carlos Eduardo da Silva Francisco

Figura 3.13.
(A) Maquete
do município
de Jarinu/SP.
(B) Bacias do
município de
Jarinu/SP.

2 Sobre confecção de maquetes, ver o Capítulo 7 – Técnicas


de Cartografia e o Capítulo 16 – Técnicas Inclusivas de
Ensino de Geografia.

76 práticas de geografia
ficar conceitos abstratos, como relações numéricas pelo IBGE. Esses e outros dados podem ser ob‑
e correlações estatísticas. tidos a partir do servidor de dados cartográficos
Sendo a bacia hidrográfica uma unidade espacial desse órgão:<ftp://geoftp.ibge.gov.br/>3.
explícita, com uma história e dinâmicas próprias, As duas áreas escolhidas apresentam geolo‑
torna­‑se interessante para trabalhar as relações gia e relevo diferentes entre si, conforme pode
entre Ciência, Tecnologia, Sociedade e Ambiente, ser observado na Figura 3.14. Nos mapas está
procurando desvendar como as mudanças técnico­ marcada a foz de dois rios; vamos calcular al‑
‑científicas têm resultado em diversas formas de guns dados morfométricos para as duas bacias
ocupação do espaço da bacia e com diferentes re‑ selecionadas e comparar os resultados.
sultados sobre os fluxos hídricos e biológicos nesse
sistema. a) Inicialmente, delimite a área da bacia a par‑
tir dos pontos marcados no mapa, seguindo as
curvas de nível e os pontos cotados.
Atividade 1: análises morfométricas
b) Calcule a área da bacia. Isso pode ser feito
São apresentados dois mapas extraídos das fo‑ com auxílio de um papel quadriculado, planí‑
lhas topográficas 1:50.000 Cabreúva (SF.23­‑Y­‑ C­ metro ou em ambiente digital a partir dos dados
‑II­‑4) e Laranjal Paulista (SF.23­‑Y­‑C­‑I­‑1) publicadas originais. Cada quadrícula no papel representa
Arquivo do autor

Figura 3.14. Localização das áreas para exercício. Fonte: GeoBank – CPRM, adaptado.

3 Seria interessante que, após uma primeira prática, o


professor começasse a fazer estes exercícios com a car‑
ta topográfica da região onde a escola se encontra, de
modo que este conhecimento aproxime­‑se da realidade
dos alunos.

capítulo 3 – técnicas de hidrografia 77


Arquivo do autor

Figura 3.15. Excerto da folha topográfica 1:50.000 SF­.23­‑Y­‑C­‑ II­‑ 4 (Cabreúva/SP). Fonte: IBGE, adaptado.

78 práticas de geografia
Arquivo do autor

Figura 3.16. Excerto da folha topográfica 1:50.000 SF­.23­‑Y­‑C­‑ I­‑1 (Laranjal Paulista/SP). Fonte: IBGE, adaptado.

capítulo 3 – técnicas de hidrografia 79


um valor de área na escala do mapa; esse valor comprimento médio. Conforme a literatura, es‑
deverá ser calculado e esse papel quadriculado sas relações devem aproximar­‑se de uma reta.
deverá ser sobreposto ao mapa da bacia. Conta­
‑se a quantidade de quadrados que estão dentro g) A partir das ordens, conforme Horton (1945),
da área da bacia e multiplica­‑se esse número pela identifique o rio principal da bacia e construa
área dos quadrados, encontrando­‑se a área da seu perfil longitudinal. Podem ser empregados
bacia. o curvímetro, ou barbante e régua. Essas etapas
podem ser facilmente desenvolvidas em meio
c) Estabeleça o ordenamento dos canais flu‑ digital com auxílio de SIG.
viais conforme a proposta de Strahler (1952) e
de Horton (1945).
Atividade 2: medição de
d) Empregando­‑ se um curvímetro, barbante vazão com flutuadores
e régua ou em meio digital, determine o perí‑
metro do divisor e os comprimentos dos canais Para esse exercício será necessário empregar­
fluviais segundo a ordem de Strahler. Segue­‑se ‑se a determinação da vazão com flutuadores e
com o barbante a linha que se pretende me‑ a equação:
dir (divisor ou rios) e registra­‑se o comprimen‑
to do barbante utilizado para “seguir” a linha. Q = L∙P∙V
Mede­‑se esse comprimento com uma régua e
converte­‑ se conforme a escala do mapa. Por Onde:
exemplo, para um mapa na escala 1:10.000 um Q = vazão em m³∙s−1.
milímetro corresponde a dez metros no terre‑ L = largura do rio, em metros.
no; se nossa linha utilizou 250 mm (ou 25 cm), P = profundidade média do rio, em metros.
isso representa 2.500 metros ou 2,5 quilôme‑ V = velocidade do fluxo em m∙s−1.
tros no terreno.
a) Selecionar uma seção transversal de um rio
e) Com esses dados de área da bacia e com‑ com condições adequadas (margens baixas, não
primento total de rios, vamos calcular a Den‑ poluído e retilíneo). Determine sua largura com
sidade de Drenagem (Dd) e o Coeficiente de auxílio de uma trena (Figura 3. 17). Anote o va‑
Manutenção (Cm) conforme as fórmulas ante‑ lor medido.
riormente mostradas. Utilizando os valores de
área da bacia e do comprimento do perímetro
do divisor, podemos calcular o Índice de Cir‑
cularidade (Ic). O Ic é dado pela razão entre
a área da bacia e a área de um círculo com o Largura Total (L)
mesmo comprimento de perímetro da bacia, ou
Sérgio Fiori
Profundidade 1

Profundidade 2

Profundidade 3

Profundidade 4

Profundidade 5

seja, Ic = A∙Ac−1, detalhes sobre sua interpreta‑


ção e outros índices podem ser encontrados em
Christofoletti (1980).

f) Construa um gráfico entre as ordens dos


canais (abscissas) e no eixo das ordenadas em Figura 3.17. Determinação da largura (L) e das profundidades de
escala logarítmica (a) número de canais e (b) uma seção transversal.

80 práticas de geografia
Sérgio Fiori
b) Determine a profundidade média do rio.
Com uma trena ou uma régua presa a uma es‑
taca, faça as leituras em intervalos adequados
da largura do rio. Para rios mais largos podem
ser feitas determinações a cada metro, para rios
mais estreitos com intervalos de 50 cm, por Ponto para soltar o flutuador
exemplo. Anote os valores medidos e calcule a
profundidade média:

~5 metros
Profundidade 1 + Profundidade 2 + Profundidade N...
N

Início da
N = número de medições de profundidade. Medição

c) Estabeleça a velocidade do fluxo. Como flu‑


tuadores, podem ser utilizadas pequenas peças
de madeira ou laranjas (cunha & guerra,

~10 metros
1996). Estabeleça seção de medição (com cerca
de 10 metros de comprimento) com início e fim
marcados nas margens. Solte, cuidadosamente,
o flutuador cerca de 5 metros antes da seção
de medição e estabeleça com um cronômetro
o tempo que o flutuador levou para percorrer
Fim da
toda a seção (ver na Figura 3.18). Para a medi‑
Medição
ção, o flutuador deve ser liberado no centro do
canal, anote os valores e calcule a média de 10
medições, desconsiderando aquelas que o flutu‑
ador tocou as margens do canal. Determine a
velocidade em m∙s−1; para isso divida a distância
da seção de medição pelo tempo médio que o
flutuador levou para percorrê­‑la. Exemplo: se
o flutuador leva, em média, 15 segundos para
percorrer uma seção com 10 metros de compri‑
mento, a velocidade será de 0,667 m∙s−1.
Figura 3.18. Esquema para a determinação da velocidade do fluxo
fluvial com flutuadores.
d) Com os valores estabelecidos, aplique a fór‑
mula e calcule o valor da vazão em m³.s ‑1. Se
a seção de medição apresenta 2 metros de lar‑
gura e profundidade média de 1,2 metro, a va‑
zão (Q) medida seria, nesse exemplo hipotético,
Q = 2 ∙ 1,2 ∙ 0,667, Q = 1,6 m³∙s−1.

capítulo 3 – técnicas de hidrografia 81


ConSideraçÕeS finaiS

O estudo de bacias hidrográficas tem ganhado relevância frente aos aspectos


institucionais ligados a esse conceito em questões de planejamento e gestão
ambiental. Entretanto, as técnicas e ferramentas de coleta, tratamento e análise
de dados pautam‑se em princípios clássicos como a identificação e delimitação
do sistema sob foco, a coleta de dados morfométricos sobre o relevo da bacia
e a dinâmica seus fluxos de matéria e energia.
Em sala de aula, a noção de bacia hidrográfica pode servir como um ponto
comum para a construção de um conhecimento interdisciplinar, pois podemos
tratá‑las de vários pontos de vista. Alguns dos temas tratados nesse texto podem
ser considerados adequados ao ensino de Matemática e Física, como forma de
aproximar conceitos à realidade do aluno. Outras disciplinas, como Biologia e Quí‑
mica, podem buscar nos processos e nos usos das bacias hidrográficas um ponto
de partida para suas temáticas. A construção de maquetes, por exemplo, pode
ser tratada em conjunto entre a Geografia e a Educação Artística. Os docentes
de Língua Portuguesa e História também podem se utilizar desse conceito – e
da bacia onde se localiza a escola como exemplo concreto – na forma de nar‑
rativas e descrições, e como muitas bacias hidrográficas estão há muito tempo
sob ocupação humana, como objeto de estudos históricos sobre sua ocupação.
Entretanto, é na Geografia que essa ampla gama de temas pode encontrar
uma forma de tratamento conjunto, permitindo ao aluno construir seu conhe‑
cimento sobre os lugares onde vive e articulando conceitos que lhe permitirão
lidar com realidades que ele ainda não conhece.
Independentemente da disciplina, a escolha e o tratamento de dados sobre
a bacia hidrográfica, que faz parte da vida cotidiana dos alunos e do professor,
deve ser buscada sempre. Os exemplos aqui trazidos deverão servir como um
recurso inicial e de treinamento.
Ainda assim, novas tecnologias na coleta de dados, tais como radares ou
medidores de velocidade de fluxo a laser, ou novos modelos para análise da
informação com possibilidades de predição de efeitos em relação às condições
atuais e simulações frente a situações futuras são importantes ramos da pesquisa
atualmente.

82
referÊnCiaS de aPoio

Glossário

Canais fluviais: são os locais por onde são transporta‑ MDE, determinando ‑se a elevação do ponto à montante
das as águas e os sedimentos de uma bacia hidrográfica e à jusante do trecho e a distância entre estes.
em turbulentos e canalizados. Imagem raster: uma das formas de representação de
Curva-chave: relação entre a elevação da lâmina dados espaciais em ambiente digital. Arquivos ou imagens
d’água de canal fluvial e sua vazão. É estabelecida a raster são grades com linhas e colunas espaçadas. Os dados
partir de medições de descarga fluvial e correspon‑ são armazenados para cada célula da grade, tais como
dentes leituras em uma régua graduada. Com essa tipos de usos das terras ou dados de elevação.
ferramenta é possível determinar‑se a vazão de um rio Perfil longitudinal: representação gráfica da variação das
a partir de leituras do nível da lâmina d’água. altitudes em relação à distância da nascente de um rio.
Débito fluvial: quantidade de água que passa por Planícies de inundação: superfície relativamente plana
uma seção transversal de um rio. Normalmente re‑ e baixa em relação ao nível médio de um rio. Durante a
latada em m³∙s−1, mas para canais menores pode ‑se ocorrência de cheias, são tomadas pela vazão que excede
empregar L∙s−1. as margens do rio.
Densidade de drenagem: índice morfométrico que Regime fluvial: é a variação no volume de água transpor‑
relaciona o comprimento total de canais numa bacia tado pelo canal fluvial. Essa característica é dependente de
com o valor de sua área. fatores climáticos, de uso das terras e do relevo e geologia
Escoamento basal: contribuição dos aquíferos ao na bacia hidrográfica.
escoamento do canal fluvial. Relevo dissecado: descreve formas do relevo que são
Gradiente fluvial: inclinação do rio. Pode ser deter‑ resultantes dos processos erosivos; o grau de dissecação
minado em campo com medidas das elevações do é proporcional à intensidade dos agentes de retirada e
trecho analisado ou a partir de cartas topográficas ou transporte de materiais.

Bibliografia

CHRISTOFOLETTI, A. Considerações sobre o nível de logic and hydraulic modeling support with
base, rupturas de declive, capturas fluviais e morfogê‑ geographic information systems. Redlands: ESRI
nese do perfil longitudinal. Geografia. Rio Claro, v. 2, Press, 2000.
n. 4, p. 81‑102, 1977. HACk, J. T. Studies of longitudinal stream profiles in
CHRISTOFOLETTI, A. Geomorfologia. São Paulo: Ed‑ Virginia and Maryland. Geological survey profes-
gard Blücher, 1980. sional paper. washington, v. 294b, pp. 45 ‑97, 1957.
DeMERS, M. N. Fundamentals of geographic in- HORTON, R. E. Erosional development of streams and
formation systems. 2. ed. New york: John wiley & their drainage basins; hidrophysical approach to quan‑
Sons, 1999. titative morphology. Bulletin of the Geological So-
CuNHA, S. B.; GuERRA. A. J. T. Geomorfologia: ciety of America, v. 56, pp. 275 ‑370, 1945.
exercícios, técnicas e aplicações. Rio de Janeiro: kANDOLF, G. M.; PIÉGAy, H. Tools in fluvial geo-
Bertrand Brasil, 1996. 345 morphology. Chichester: John wiley & Sons, 2003.
DOORNkAMP, J. C.; kING, C. A. M. Numerical analy- MONTGOMERy, D. R.; DIETRICH, w. E. where do
sis in geomorphology: an introduction. London: channels begin? Nature, v. 336, pp. 232‑234, 1988.
Edward Arnold, 1971. SELBy, M. J. Earth’s changing surface: an introduc-
GARBRECHT, J.; MARTz, L. w. Digital elevation mo‑ tion to geomorphology. Oxford: Oxford university
del issues in water resources modeling. In: Hydro- Press, 1985.

capítulo 3 – técnicas de hidrografia 83


STRAHLER, A. N. Hypsometric (area­‑altitude) analysis SOBRE OS AUTORES
of erosional topography. Bulletin of the Geological
Society of America, v. 63, pp. 1117­‑1142, 1952.
Cleide Rodrigues possui graduação em Geogra‑
TUCCI, C. E. M. Modelos hidrológicos. Porto Alegre:
fia pela Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Huma‑
ABRH/UFRGS, 1998.
nas da Universidade de São Paulo (1980) e mestrado/
VALERIANO, M. M. Modelos digitais de elevação de
doutorado em Geografia Física (1997) pela mesma
microbacias elaborados com krigagem. São José
instituição. Foi Fellow Professor na Universidade de
dos Campos: INPE, 2002.
Oxford, em 2009. Atualmente é professora da Uni‑
VALERIANO, M. M. Modelo digital de elevação com
versidade de São Paulo. Tem experiência na área de
dados SRTM disponíveis para a América do Sul.
Geografia, com ênfase em Geografia Física, atuando
São José dos Campos: INPE, 2004.
principalmente nos seguintes temas: Geomorfologia
VALERIANO, M. M.; MORAES, J. F. L. Extração de rede
Aplicada, Cartografia Geomorfológica, Geomorfolo‑
de drenagem e divisores por processamento digital
gia e Urbanização, Geomorfologia Fluvial e Gestão
de dados topográficos. In: X Simpósio Brasileiro de
Ambiental.
Sensoriamento Remoto, 2001. Foz do Iguaçu. Anais.
Samuel Fernando Adami é bacharel em Geo‑
Foz do Iguaçu: INPE, 2001. p. 517­‑524.
grafia (2001) e mestre em Geografia Física (2005) pela
Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da
Universidade de São Paulo. Desenvolve projeto de
doutorado no Instituto de Geociências da UNICAMP.
Atualmente é Pesquisador Científico II no Centro de
Pesquisa e Desenvolvimento de Solos e Recursos Am‑
bientais do Instituto Agronômico. Atua na área de
Geotecnologias, com ênfase em Sistemas de Infor‑
mações Geográficas e sensoriamento remoto e em
estudos voltados Diagnósticos de usos das terras e
do meio físico.

84 práticas de geografia
técnicas de
Pedologia
4
DÉBORAH DE OLIVEIRA
Eduardo Justiniano

Introdução, 86 campo, 87 Na sala de aula, 100


Técnicas de campo em Transcrição da descrição Considerações finais, 106
pedologia, 87 morfológica do solo no Referências de apoio, 107
Descrição do solo no campo, 98 Sobre o autor, 108
introdução

O solo é resultado da interação de vários processos pedogenéticos, como adições,


perdas e transformações. Sua formação depende da combinação e intensidade de
cinco fatores de formação: material de origem, clima, relevo, organismos e tempo. Os
fatores de formação do solo atuam conjuntamente, mas a manifestação desses fatores
dá origem a uma infinidade de tipos de solos no globo.
Os solos não estão distribuídos no globo de forma aleatória. Eles expressam a
combinação dos fatores de formação e grande parte deles localiza‑se de acordo com
a zonalidade climática global. Deste modo, na zona intertropical aparecem solos mais
desenvolvidos, pois há mais calor e umidade. Já em zonas de clima frio e em zonas
áridas ou cobertas com gelo há solos pouco desenvolvidos ou até ausência de solos
(ver Figura 4.1).
A Pedologia surgiu como ciência dos solos há pouco mais de 100 anos, com o russo
Dokuchaev que, entre 1877 e 1878, estudou os solos da Rússia para fins de fertilida‑
de. Ele foi o primeiro a perceber que o solo possuía camadas, que hoje chamamos de
horizontes, e que regiões de climas semelhantes podem originar solos semelhantes.
Atualmente, há técnicas bem definidas relacionadas a levantamentos de solos no
campo. Essas técnicas são padronizadas pela Sociedade Brasileira de Ciência do Solo
e encontram‑se detalhadas em Santos et al. (2005); elas são muito utilizadas pelos
pedólogos, que têm um papel importante para a ciência do solo.
O pedólogo é responsável por realizar os levantamentos de solos, elaborar mapas
e boletins descritivos. As etapas de seu trabalho seguem procedimentos de gabinete,
campo e laboratório. No gabinete, o pedólogo seleciona mapas, cartas e fotografias
aéreas da sua área de estudo, escolhe onde irá fazer levantamentos de campo e des‑
creve a área de estudo quanto às suas características climáticas, geomorfológicas,
geológicas, dentre outras, que irão auxiliar no entendimento dos solos e da paisagem
onde os solos estão inseridos. Isso porque o pedólogo, enquanto geógrafo, vê o solo
como um dos componentes da paisagem, que só pode ser compreendido como tal.
Esta fase corresponde à etapa pré‑campo.

Predomínio de
intemperismo físico
Muito baixo grau de
Trop. de
Câncer intemperismo químico
Eduardo Justiniano

Baixo grau de
intemperismo químico
Equador

Intensidade média de
intemperismo químico
nio
Capricór
Trop. de Alto grau de
intemperismo químico
Zona Glacial

Figura 4.1. Distribuição do intemperismo no globo conforme zonalidade climática. Fonte: Büdel (1974).

86
tÉCniCaS de CamPo
em PedoloGia

As técnicas de campo seguem critérios bem solos são descritos em barrancos de estradas, por
defi nidos para a descrição do solo no campo. abertura de trincheiras e/ou por meio de trada‑
Cabe ressaltar que o trabalho de campo e a des‑ gens. Em geral, aproveita‑se os barrancos de
crição do perfil de solo são fundamentais para estradas, o que está se tornando cada vez mais
a Pedologia. Como o perfil de solo corresponde difícil, com a impermeabilização destes para a
ao conjunto de horizontes ou camadas do solo, contenção de deslizamentos. Nesse caso, opta‑se
mais ou menos paralelas à superfície do terreno e por tradagens ou abertura de trincheiras.
como cada horizonte possui características pró‑ Se a descrição for feita em um barranco de
prias, eles devem ser descritos um a um. estrada, deve‑se preparar o perfil para o início do
As descrições de campo são baseadas princi‑ trabalho. Com a enxada, limpa‑se a parede do
palmente nos sentidos de visão e tato. Isso sig‑ barranco a uma profundidade tal que se possa ver
nifica que se deve observar atentamente o perfil, o solo “fresco” e a uma largura de aproximada‑
retirar amostras do solo e manuseá‑las. Uma boa mente um metro. A partir daí e utilizando‑se uma
descrição de campo irá nortear as análises de faca, podemos começar a separar os diferentes
laboratório a serem realizadas posteriormente. horizontes, baseando‑se principalmente na cor.
A escolha do local onde será descrita a mor‑ A descrição da morfologia do solo segue a
fologia do perfil do solo varia de acordo com a seguinte sequência: transição entre horizontes,
finalidade da descrição e sua utilização. Há vá‑ cor, textura, estrutura, porosidade, consistên‑
rias finalidades para esse tipo de estudo, como, cia, além de outras características morfológicas
por exemplo, mapeamento de solos, estudo de nem sempre presentes em todos os solos, como:
gênese do solo, funcionamento hídrico, erosão, cerosidade, cimentação, nódulos e concreções
manejo e fertilidade, dentre outras. minerais, presença de carbonatos, entre outros.
Quando descreve‑se o solo através de trada‑
gem, deve‑se atentar para o fato de que só é pos‑
materiais de campo

Rafael Sato
Os materiais utilizados em campo são ba‑
sicamente ferramentas como enxada, pá, faca,
martelo, trena e trado, além de água para molhar
as amostras de solo, caderneta de campo, cane‑
ta, lupa de bolso, sacos plásticos para coleta de
amostras e uma tabela de cores específica para
cor de solos (ver Figura 4.2).

deSCrição do Solo Figura 4.2. Material usado para a descrição do solo no campo. Na
no CamPo parte superior: tabela de cores específica para cor de solos, pá reta,
trado; parte inferior: borrifador de água, pá de jardineiro, martelo,
sacos plásticos, faca, fita métrica, Carta de Munsell e Manual de
Primeiramente, deve‑se selecionar onde será descrição e coleta de solo no campo (SANTOS et al., 2005). tFonte:
realizada a descrição do solo. Normalmente, os Lepsch (2002).

capítulo 4 – técnicas de pedologia 87


Sérgio Fiori
Figura 4.3. Perfil de solo em barranco de estrada.

sível descrever a cor, a textura e a consistência de cada horizonte com metro ou trena. Muitas
do solo molhado, pois as outras características vezes não é possível ver a transição do último
morfológicas serão destruídas pelo trado (ver horizonte do perfil, pois ele poderá estar muito
Figura 4.3). profundo.

Espessura e transição Horizontes do solo


entre horizontes
Um perfil de solo completo e bem desenvol‑
A transição entre horizontes é identificada vido apresenta cinco horizontes: O, A, E, B e
pela diferença de um horizonte em relação ao C, porém, nem todos os solos apresentam todos
outro, principalmente quanto a cor, textura e esses horizontes (ver Figura 4.5).
estrutura. Ela é marcada no perfil com uma Os horizontes apresentam uma grande varie‑
faca ou martelo através da observação visual dade de tipos, que são diferenciados entre si de
e do tato, retirando­‑se amostras dos diferentes acordo com a classificação da Sociedade Brasi‑
horizontes e comparando­‑as, até que seja pos‑ leira de Ciência do Solo através de sufixos com
sível a delimitação das transições. A transição é letras minúsculas:
descrita quanto à forma e ao grau. As formas de a – propriedades ândicas (vulcanoclásticas)
transição são: plana, ondulada, irregular e des‑ b – horizonte enterrado
contínua (ver Figura 4.4). O grau corresponde à c – concreções ou nódulos endurecidos
faixa de separação entre os horizontes, no caso: d – acentuada decomposição de matéria orgâ‑
abrupta (com até 2,5 cm), clara (entre 2,5 cm a nica
7,5 cm), gradual (entre 7,5 cm a 12,5 cm) e difu‑ e – escurecimento externo dos agregados por
sa (com mais de 12,5 cm). Mede­‑se a espessura matéria orgânica

88 práticas de geografia
Sértio Fiori
f – presença de plintita
g – gleização
h – acumulação iluvial de matéria orgânica
i – desenvolvimento incipiente do horizonte B
j – tiomorfismo (permanente ou temporariamen‑ O Horizonte orgânico de solos minerais

te alagado – sulfídrico) A
Horizonte mineral com acúmulo de
húmus
k – presença de carbonatos Horizonte claro de máxima remoção
E de argila e/ou óxidos de ferro
m – extremamente cimentado
n – acumulação de sódio
o – matéria orgânica mal ou não decomposta Horizonte de máxima expressão de cor e
B agregação (Bw) ou de concentração de
p – horizonte lavrado ou revolvido materiais removidos de A e E (Bt)

q – acumulação de sílica


r – rocha branda ou saprolito
s – acumulação iluvial de Fe e Al com matéria
Material inconsolidado de rocha alterada
orgânica C presumivelmente semelhante ao que deu
origem ao solum
t – acumulação iluvial de argila
u – modificações antropogênicas 
v – características vérticas R Rocha não alterada

w – intenso intemperismo do horizonte B


x – cimentação aparente que se desfaz quando
Figura 4.5. Horizontes principais do solo. Fonte: Lepsch (2002).
umedecido
y – acumulação de sulfato de cálcio
z – acumulação de sais mais solúveis que sulfato pode­‑se inferir que ele possui matéria orgânica;
de cálcio um solo vermelho indica a presença de óxidos de
ferro, como a hematita, e um solo amarelo indica
a presença de goethita. Já um solo acinzentado
As cores do solo pode ter presença de ferro reduzido, típico de
locais mal drenados, como beiras de rios.
A descrição morfológica da cor do solo é faci‑ As cores são descritas de acordo com a padro‑
litada pela sua visualização, pois é a característi‑ nização mundial, o que facilita muito os estudos
ca que mais chama a atenção de quem a descreve de pesquisadores de várias nacionalidades. Ela
e por ela pode­‑se inferir quanto à composição do segue o sistema Munsell de cores e utiliza uma
solo (ver Figura 4.6). No caso de um solo escuro, tabela denominada Munsell Soil Color Charts. A
Tabela de Munsell ou Carta de Munsell, como
é conhecida no Brasil, apresenta várias páginas
destacáveis, que possuem três componentes: ma‑
Sérgio Fiori

A A A A
tiz, valor e croma (Figuras 4.7 e 4.8). O matiz
AB AB AB
AB
corresponde à cor dominante, no caso, verme‑
B B1
B B lho, amarelo, azul, verde e púrpura, cujos núme‑
BC B2
C C C BC ros variam nos seguintes intervalos: 2.5, 5, 7.5 e
C
C 10. Os matizes mais usados estão entre o R (de
Red = vermelho), significando 100% (dessa cor);
Figura 4.4. Forma de transição entre horizontes. Da esquerda
para direita: plana, ondulada, irregular, descontínua. Fonte:
Y (de Yellow = amarelo), significando 100% e YR
Santos et al. (2005). (de Yellow­‑Red = vermelho­‑amarelado), signifi‑

capítulo 4 – técnicas de pedologia 89


Rafael Sato
Figura 4.6.
Caixa denominada
pedocomparador utilizada
para melhor comparar as
diferentes cores dos solos.

Sérgio Fiori
Cada página corresponde a um MATIZ
YR

Y
R
2/a 8/
VALOR

5R 10R 2,5YR 5YR 7,5YR 10YR 2,5Y 5Y

Mais oxidado Mais reduzido


INTENSIDADE
(VALOR)

Exemplo: CROMA
CROMA
Figura 4.7. Matiz Croma /0 a /8
Esquema de interpretação
7,5YR 7/6 7000A AMPLITUDE (MATIZ) 4000A
da Carta de Munsell.
Fonte: Santos et al. (2005). Valor

Rafael Sato

Figura 4.8.
A Carta de Munsell.

90 práticas de geografia
cando uma mistura de 50% de vermelho e 50% chas varia pouco em relação à cor matriz do solo,
de amarelo. distinto (mosqueado facilmente visível) e proemi‑
Nos solos brasileiros, as cores vermelhas, nente (grande diferença entre o mosqueado e a
vermelho­‑amareladas e amarelas são as mais co‑ cor matriz do solo).
muns. O valor refere­‑se à tonalidade da cor, que
varia de preto a branco, na escala vertical. O cro‑ A denominação da cor, em inglês, na Carta
ma diz respeito à pureza relativa ou à saturação de Munsell, tem sua tradução para o português
da cor e varia de cores neutras e acinzentadas e publicada pela Sociedade Brasileira de Ciência
aumenta na escala horizontal. do Solo (ver Tabela 4.1).
A amostra de solo deve ter sua cor descrita
preferencialmente no campo, sob a luz do Sol.
As amostras devem ser descritas secas e úmidas. A textura do solo
O torrão do solo deve ser quebrado para verificar
se a cor da sua superfície corresponde à mesma A textura corresponde à distribuição das fra‑
cor do interior. Quando o solo apresenta mais ções granulométricas do solo. O solo apresenta
de uma cor, é necessário descrever a cor da ma‑ três frações granulométricas quanto ao tamanho
triz e todas as cores de possíveis manchas. As das partículas: areia (2,0 a 0,05 mm), silte (0,05
manchas, ou mosqueados, devem ser descritas a 0,002 mm) e argila (menor do que 0,002 mm).
quanto: É comum o solo apresentar frações granulomé‑
¾¾à quantidade: pouco (área < 2% da superfície tricas maiores, como cascalho (20 a 2,0 mm) e
do horizonte), comum (de 2 a 20% da superfície calhaus (200 a 20 mm), porém estas frações são
do horizonte) e abundante (> 20% da superfície muito grandes para determinar a textura do solo
do horizonte); no campo.
¾¾ao tamanho: pequeno (eixo maior < 5 mm), No campo, é possível ver apenas as frações
médio (eixo maior de 5 a 15 mm) e grande (eixo de areia e silte a olho nu ou com o auxílio de
maior > 15 mm); lupas. A fração argila só é possível de ser vista
¾¾ao contraste de cores das manchas em rela‑ com microscópio eletrônico de varredura (Fi‑
ção à cor matriz: difuso (quando a cor das man‑ gura 4.9).
United States Geological Survey

Figura 4.9. Partículas


de argila caulinítica sob
microscópio eletrônico.

capítulo 4 – técnicas de pedologia 91


Tabela 4.1 – Correspondência em português das cores de Munsell

Munsell Correspondente em Português Munsell Correspondente em Português

Black Preto Light reddish brown Bruno­‑avermelhado­‑ claro

Bluish black Preto­‑azulado Light reddish gray Cinzento­‑avermelhado­‑ claro

Bluish gray Cinzento­‑azulado Light yellowish brown Bruno­‑amarelado­‑ claro

Brown Bruno Bluish gray Cinzento­‑azulado

Brownish yellow Amarelo­‑brumado Olive Oliva

Dark bluish gray Cinzento­‑azulado­‑ escuro Olive brown Bruno­‑ oliváceo

Dark brown Bruno­‑ escuro Olive gray Cinzento­‑ oliváceo

Dark gray Cinzento­‑ escuro Olive yellow Amarelo­‑ oliváceo

Dark grayish brown Bruno­‑acinzentado­‑ escuro Pale brown Bruno­‑ claro­‑acinzentado

Dark grayish green Verde­‑acinzentado­‑ escuro Pale green Verde­‑ claro­‑acinzentado

Dark greenish gray Cinzento­‑ esverdeada­‑ escuro Pale olive Oliva­‑ claro­‑acinzentado

Dark olive Oliva­‑ escuro Pale red Vermelho­‑ claro­‑acinzentado

Dark olive brown Bruno­‑ oliváceo­‑ escuro Pale yellow Amarelo­‑ claro­‑acinzentado

Dark olive gray Cinzento­‑ oliváceo­‑ escuro Pink Rosado

Dark red Vermelho­‑ escuro Pinkish gray Cinzento­‑rosado

Dark reddish brown Bruno­‑avermelhado­‑ escuro Pinkish white Branco­‑rosado

Dark reddish gray Cinzento­‑avermelhado­‑ escuro Red Vermelho

Dark yellowish brown Bruno­‑amarelado­‑ escuro Reddish black Preto­‑avermelhado

Dusky red Vermelho­‑ escuro­‑acinzentado Reddish brown Bruno­‑avermelhado

Gray Cinzento Reddish gray Cinzento­‑avermelhado

Grayish brown Bruno­‑acinzentado Reddish yellow Amarelo­‑avermelhado

Grayish green Verde­‑acinzentado Strong brown Bruno­‑forte

Greenish black Preto­‑ esverdeado Very dark brown Bruno muito escuro

Greenish gray Cinzento­‑ esverdeado Very dark gray Cinzento muito escuro

Light bluish gray Cinzento­‑azulado­‑ claro Very dark grayish brown Bruno­‑acinzentado muito escuro

Light brown Bruno­‑ claro Very dusky red Vermelho muito escuro­‑acinzentado

Light brownish gray Cinzento­‑brunado­‑ claro Very pale brown Bruno muito claro­‑acinzentado

Light gray Cinzento­‑ claro Weak red Vermelho­‑acinzentado

Light greenish gray Cinzento­‑ esverdeado­‑ claro White Branco

Light olive brown Bruno­‑ oliváceo­‑ claro Yellow Amarelo

Light olive gray Cinzento­‑ oliváceo­‑ claro Yellowish brown Bruno­‑amarelado

Light ted Vermelho­‑ claro Yellowish red Vermelho­‑amarelado

Fonte: Santos et al. (2005).

92 práticas de geografia
É preciso molhar a amostra e homogeneizá­‑la para sentir sua textura ao tato.
Em seguida deve­‑se tentar fazer um cilindro de aproximadamente 6 a 7 cm
de comprimento e 1 cm de diâmetro (ver Figura 4.11). Se não for possível
fazer um cilindro, a textura é arenosa. Se for possível fazer o cilindro e ele se
desfizer, a textura é média (significa que não há fração predominante), mas ao
continuar moldando um cilindro de 15 a 16 cm de comprimento, se ele rachar
ao formar um círculo, a textura é argilosa e se ele não rachar, a textura é muito
argilosa. A proporção das frações só será determinada com precisão através
de análise de laboratório, mas as inferências de campo são importantes, pois,
manipulando uma amostra de solo entre o polegar e o indicador, percebe­‑se
que a areia é a mais grosseira dentre as três amostras e é áspera ao tato, pois
arranha entre os dedos. Muitas vezes pode­‑se até escutar o atrito entre os grãos
de areia em nossos dedos. O silte é sedoso entre os dedos e tem a textura de
um talco, porém só é possível identificá­‑lo se houver uma quantidade elevada
no solo. A argila é plástica, pegajosa e facilmente moldável. Uma amostra pode
ser classificada em arenosa, siltosa, argilosa ou, como raramente um horizonte
apresenta somente uma fração, na combinação dessas texturas. No caso de
uma amostra que apresente mais areia do que argila, denomina­‑se de arenoar‑
gilosa. Quando apresenta mais silte do que argila será chamada de siltoargilosa
e assim por diante.
Rafael Sato

Figura 4.10. Teste da


textura no campo.
Sérgio Fiori

15 a 16 cm

C
6 a 7 cm
B D E
A

Figura 4.11. Etapas para descrição da textura no campo: A) molhar a amostra; B) se não for possível fazer um cilindro
de 6 a 7 cm, a textura é arenosa, mas se for possível fazer o cilindro e ele se desfizer, a textura é média; C) continuar
moldando um cilindro de 15 a 16 cm de comprimento; D) se ele rachar ao formar um círculo, a textura é argilosa; Eh)
se ele não rachar, a textura é muito argilosa. Fonte: Coche (1985), modificado.

capítulo 4 – técnicas de pedologia 93


A constituição mineralógica, principalmente da fração areia, que é a mais
visível no campo, deve ser especificada, se possível.
A textura do solo é importante para o reconhecimento do gradiente tex‑
tural na identificação de horizontes diagnósticos do perfil de solo, para me‑
lhor uso e manejo do solo, visando à utilização adequada de acordo com sua
permeabilidade e resistência à erosão, por exemplo.
Para uso agrícola (ou desenvolvimento de plantas) é interessante que o
solo tenha textura mista, pois, se a areia permite maior entrada de água e ar,
a argila, por outro lado, é mais ativa quimicamente e retém água e nutrientes.
O solo arenoso retém menos água e é mais vulnerável à contaminação, já que
é mais permeável. Já os solos argilosos possuem baixa permeabilidade, alta
capacidade de retenção de água e são altamente suscetíveis à compactação,
o que merece cuidados especiais no seu uso e manejo.

Estrutura

A estrutura corresponde ao arranjo das partículas primárias do solo, areia,


silte e argila, formando ou não agregados (ou torrões). Quando a estrutura
forma agregados, estes comportam­‑se como peças de um quebra­‑cabeça tri‑
dimensional dentro do solo e são unidades secundárias, formadas por óxidos
de ferro e alumínio, matéria orgânica, vários minerais, além da própria argila,
que são separados entre si por superfícies de fraqueza (ver Figuras 4.12 e 4.13).

Rafael Sato
Tipos Subtipos Eixos Representação Característica

Esferoidal Granular Horizontes


(arredondados) Grumosa Superficiais

Bloco Angulares Horizontes


(angulosos)

(cúbica) Subangulares AeB


Figura 4.12. Classificação
Prismática Horizonte B
e representação Prismática Horizontes
Colunar
esquemática das estruturas salinos
do solo. Fonte: Kiehl
(não tem
(1979), adaptado. Laminar subtipo) Horizonte C
Rafael Sato

Figura 4.13. Os diversos


graus de estruturação
de um agregado. Fonte:
Ruellan & Dosso (1993).

94 práticas de geografia
Tabela 4.2 – Solos: tipos e tamanhos dos agregados

Laminar: a Prismática (forma de prisma):


Blocos: com três dimensões da mesma ordem de magnitude,
lâmina é aquela é um tipo em que predomina a
distribuídas em torno de um ponto.
estrutura em que as linha vertical.
partículas dos solos
estão arranjadas Forma e aspecto arredondados,
em torno de um Mistura sem faces de contato
linha horizontal. As Faces planas, de faces
Forma a maioria arredondadas
unidades estruturais Sem o topo Com o topo
têm aspecto dos vértices e planas, com Unidades Unidades
arredondado: arredondado:
de lâminas de com ângulos muitos vértices de estrutura de estrutura
prismática colunar
espessura variável, vivos: blocos arredondados: não­‑porosas: porosas:
porém a linha angulares blocos granular grumosa
horizontal é sempre subangulares
maior.

Muito
< 1 mm < 10 mm < 10 mm < 5 mm < 5 mm < 1 mm < 1 mm
pequena

Pequena 1 a 1,9 mm 10 a 20 mm 10 a 20 mm 5 a 10 mm 5 a 10 mm 1 a 2 mm 1 a 2 mm

Média 2 a 5 mm 20 a 50 mm 20 a 50 mm 10 a 20 mm 10 a 20 mm 2 a 5 mm 2 a 5 mm

Grande 5 a 10 mm 50 a 100 mm 50 a 100 mm 20 a 50 mm 20 a 50 mm 5 a 10 mm ­‑

Muito
> 10 mm > 100 mm > 100 mm > 50 mm > 50 mm > 10 mm ­‑
grande

Fonte: Santos et al. (2005).

Quando um torrão de solo é submetido a mosos têm seu tamanho menor do que os agre‑
uma pressão entre os dedos, ele quebra­‑se em gados prismáticos, colunares e blocos angulares
torrões menores de acordo com seu plano de e subangulares (ver Tabela 4.2).
fraqueza. A facilidade ou dificuldade com que Quanto ao grau de desenvolvimento, a es‑
se quebra uma amostra é determinada pelo grau trutura pode ser:
de desenvolvimento da estrutura. Sua forma de‑ ¾¾sem unidades estruturais ou maciça;
termina seu tipo e tamanho. ¾¾com unidades estruturais:
Quanto à forma, os agregados podem ser ¾¾fraca: os agregados desfazem­‑se, predomi‑
classificados em: nando o material solto;
¾¾arredondados: estrutura granular (grãos sim‑ ¾¾moderada: os agregados desfazem­‑se com
ples no caso de solos arenosos, ou microagrega‑ pouco material solto; e
da, no caso de solos argilosos como o latossolo ¾¾forte: os agregados desfazem­‑se, sem material
vermelho) e grumosa (grumos); solto.
¾¾angulosos (blocos angulares, subangulares,
prismáticos e colunares); e Um agregado anguloso centimétrico pode ser
¾¾laminares. composto de agregados arredondados menores.
Para o desenvolvimento das plantas ou aprovei‑
Quanto ao tamanho, a estrutura varia nas tamento agrícola, é importante haver estrutura‑
classes: muito pequena, pequena, média, grande ção, pois um solo com estrutura bem desenvol‑
e muito grande, dependendo do tipo de agrega‑ vida permite a circulação de água, a aeração, a
do. Os agregados laminares, granulares e gru‑ penetração das raízes e da fauna do solo.

capítulo 4 – técnicas de pedologia 95


Porosidade

A porosidade do solo refere‑se ao espaço de solo ocupado por água, ar e


seres vivos e está diretamente relacionada à estrutura. É um importante meio
de circulação de material sólido, líquido e gasoso, de atividade de fauna e flora
e varia conforme o tipo de solo. No campo, é possível ver a porosidade com
auxílio de lupa ou a olho nu.
Os poros do solo estão classificados em microporos (menores do que
cerca de 0,05 mm de diâmetro) e macroporos (maiores do que cerca de 0,05
mm de diâmetro). A descrição da porosidade é feita através de tipo, forma,
tamanho e quantidade.
Quanto ao tipo, a porosidade pode ter sua origem relacionada à herança da
alteração do material de origem do solo (porosidade de alteração), à textura do
solo (porosidade textural), à estrutura dos agregados (porosidade estrutural)
ou à ação da fauna e flora do solo (porosidade biológica).
Quanto ao tamanho, a porosidade pode ser:
¾ sem poros visíveis;
¾ muito pequenos: < 1 mm de diâmetro;
¾ pequenos: 1 a 2 mm de diâmetro;
¾ médios: 2 a 5 mm de diâmetro;
¾ grandes: 5 a 10 mm de diâmetro;
¾ muitos grandes: > 10 mm de diâmetro.

Quanto à quantidade, os poros podem ser:


¾ poucos: em horizontes com porosidade pouco visível;
¾ comuns: em horizontes de textura argilosa e estrutura em blocos;

Raízes

Agregados
Sérgio Fiori

Ar
Figura 4.14. Poros
Porosidade
Água
do solo.

96 práticas de geografia
¾¾muitos: em horizontes de textura arenosa e estrutura granular ou hori‑
zontes argilosos com estrutura microagregada, como no caso do latossolo
vermelho (antigo latossolo roxo).

A macroporosidade é importante, pois ela é responsável pela infiltração de


água e ar no solo (permeabilidade), já a microporosidade é responsável pela
retenção e armazenamento de água para as plantas. Conclui­‑se, então, que
porosidade e permeabilidade não significam a mesma coisa (ver Figura 4.14).

Consistência

A consistência corresponde às várias forças de coesão e de adesão do solo


em vários graus de umidade, como seco, úmido e molhado. A força de coesão
refere­‑se à atração de partículas sólidas por partículas sólidas e a força de
adesão refere­‑se à atração das moléculas de água pela superfície das partícu‑
las sólidas. Ela permite inferir informações sobre o uso e o manejo do solo.
A consistência do solo seco é verificada comprimindo­‑se um torrão do
solo entre o dedo polegar e o indicador (ver Figura 4.15), que vai indicar a
dureza do material, variando de solta a extremamente dura, conforme os
seguintes tipos de consistência do solo seco:
¾¾solta: material não coerente entre o polegar e o indicador;
¾¾macia: fracamente coerente e frágil;
¾¾ligeiramente dura: fracamente resistente à pressão, quebra facilmente;
¾¾dura: moderadamente resistente e dificilmente quebrável entre o polegar
e o indicador;
¾¾muito dura: muito resistente e quebrável nas mãos com dificuldade;
¾¾extremamente dura: extremamente resistente e não pode ser quebrado
com as mãos.

Um solo extremamente duro é um empecilho à penetração das raízes das


plantas, ao preparo do solo para o cultivo, pois deve ser arado. Por outro lado,
essa dureza pode oferecer melhor suporte para a construção civil.
Sérgio Fiori

~ 3 cm

Figura 4.15. Determinação da Figura 4.16. Determinação da plasticidade. Figura 4.17. Determinação da
consistência do solo seco e úmido. Fonte: Santos et al. (2005). pegajosidade. Fonte: Santos et
Fonte: Santos et al. (2005). al. (2005).

capítulo 4 – técnicas de pedologia 97


A consistência do solo úmido também pode ¾¾plástica: forma­‑se um fio que necessita de
ser verificada com um torrão de solo umedecido pressão moderada para que seja deformado;
e serve para estimar a friabilidade do solo, va‑ ¾¾muito plástica: forma­‑se um fio que necessi‑
riando de solta a extremamente firme. A amos‑ ta de muita pressão para deformá­‑lo.
tra deve ser submetida a uma pressão entre o
polegar e o indicador (ver Figura 4.15), de acordo A determinação da pegajosidade é realizada
com os tipos de consistência do solo úmido des‑ com a amostra molhada, manipulada e pressio‑
critos na sequência: nada entre o polegar e o indicador, para obser‑
¾¾solta: material não coerente entre o polegar vação de sua aderência entre os dedos. A pega‑
e o indicador; josidade varia de não pegajosa a muito pegajosa
¾¾muito friável: desfaz­‑se com pressão leve; (ver Figura 4.17). Os graus da pegajosidade são
¾¾friável: desfaz­‑se sob pressão fraca e moderada; observados de acordo com o que se segue:
¾¾firme: desfaz­‑se sob pressão moderada; ¾¾não pegajosa: o material não adere ao pole‑
¾¾muito firme: desfaz­‑se sob forte pressão, difi‑ gar e nem ao indicador;
cilmente entre o polegar e o indicador; ¾¾ligeiramente pegajosa: o material adere aos
¾¾extremamente firme: desfaz­‑se sob pressão dois dedos, mas solta­‑se de um deles perfeita‑
muito forte e é fragmentado, pedaço por pedaço. mente.
¾¾pegajosa: o material adere aos dois dedos,
O solo oferece menor resistência quando alonga­‑se um pouco quando os dedos são afas‑
úmido, pois as forças de coesão e adesão são tados e rompe­‑se;
menores. ¾¾muito pegajosa: o material adere aos dois de‑
A consistência do solo molhado é verificada dos e alonga­‑se quando os dedos são afastados.
com uma amostra de solo molhada e manipula‑
da, para se estimar a plasticidade e a pegajosida‑ Um solo muito pegajoso é difícil de ser tra‑
de da amostra. A amostra deve ser molhada até balhado, quer seja para a construção civil, ou
atingir sua saturação. para a agricultura. Nem sempre um solo argiloso
A plasticidade é determinada formando­‑se é muito pegajoso e extremamente duro. Solos
um cilindro de aproximadamente 3 a 4 mm de muito plásticos e pegajosos devem ser trabalha‑
diâmetro e 6 cm de comprimento, variando de dos para cultivo com pouca umidade.
não plástica a ligeiramente plástica e representa
a capacidade dos solos serem moldados, sem a
variação de volume.
Solos com grande porcentagem de argila apre‑ TRANSCRIÇÃO DA
sentam maior plasticidade, maior resistência à DESCRIÇÃO MORFOLÓGICA
erosão e à percolação de água, menor capacidade DO SOLO NO CAMPO
de conduzir a água pelos poros, retendo­‑a, além
de apresentar maior coesão entre suas partículas, A descrição morfológica de campo é dividida
favorecendo a compactação (Figura 4.16). em duas partes: a descrição geral e a descrição
A plasticidade expressa o grau de resistência morfológica. Na descrição geral, descrevem­‑se
à deformação, como a seguir: as características gerais do solo e do local onde
¾¾não plástica: se formar um fio, este é facil‑ ele está situado, como sua localização e carac‑
mente deformável; terísticas quanto ao relevo, à vegetação, ao uso
¾¾ligeiramente plástica: forma­‑se um fio facil‑ do solo, dentre outras. A descrição morfológica
mente deformável; diz respeito à descrição de campo do perfil, se‑

98 práticas de geografia
guindo os padrões apresentados anteriormente, O horizonte Ap do exemplo do latossolo
como o exemplo apresentado na Tabela 4.3. vermelho apresentado significa que ele é um
Muitas vezes, somente a descrição de campo horizonte superficial mineral com matéria
não permite classificar o solo, o que pode ser orgânica, lavrado ou revolvido. O horizon‑
feito posteriormente, se possível em laboratório. te A3 é um horizonte mineral com matéria
A descrição morfológica é transcrita horizonte orgânica e os horizontes Bw significam ho‑
por horizonte e algumas observações que não rizontes intensamente alterados, típicos de
cabem na descrição podem ser anotadas. latossolos.

Tabela 4.3 – Descrição morfológica de campo de latossolo vermelho eutroférrico (PERFIL IAC 1360)

Latossolo vermelho eutroférrico, A moderado, textura muito argilosa


Classificação SBCS Rhodic Eutrudox (Estados Unidos, 1994)
Rhodic Ferralsol (FAO, 1994)

Classificação anterior Latossolo roxo eutrófico, A moderado, textura muito argilosa

Município de Ribeirão Preto


Localização
Coordenadas UTM: 210­‑212 KmE e 7.648­‑7650 kmN

Altitude 690 metros

Situação e declive Terço superior com declive inferior a 3%

Relevo Suave ondulado

Material de origem Material de cobertura proveniente de retrabalhamento de diabásio

Vegetação original Mata tropical subcaducifólia

Cobertura atual Capim­‑ colonião no perfil, cana­‑de­‑açúcar a 5 m de distância

Descrição morfológica

0­‑18 cm; bruno­‑avermelhado­‑ escuro (2,5 YR 3/3,5, úmida), vermelho­‑ escuro (10 YR 3/6 seca);
Ap muito argilosa; granular média e pequena moderada/forte; dura, friável, plástica e pegajosa;
transcrição clara e plana

18­‑34 cm; bruno­‑avermelhado­‑ escuro (2,5 YR 3/4 úmida), vermelho­‑ escuro (10 YR 3/6 seca); muito
A3
argilosa; subangular média moderada; dura, friável, plástica e pegajosa; transição gradual e plana

34­‑56 cm; bruno­‑avermelhado­‑ escuro (2,5 YR 3/4, úmida), vermelho­‑ escuro (10 YR 3/6 seca);
Bw1 muito argilosa; subangular média fraca; ligeiramente dura, muito friável, plástica e pegajosa;
transição difusa e plana

56­‑90 cm; bruno­‑avermelhado­‑ escuro (2,5 YR, úmida), vermelho­‑ escuro (10 YR 3/6 seca); muito
Bw21
argilosa; maciça porosa; ligeiramente plástica e ligeiramente pegajosa; transição difusa e plana

90­‑200 cm; bruno­‑avermelhado­‑ escuro (2,5 YR 3/4, úmida), vermelho­‑ escuro (10 YR 3/6 seca);
Bw22 muito argilosa; maciça porosa; muito friável; ligeiramente plástica e ligeiramente pegajosa; limite
arbitrário para a camada inferior

200­‑250* cm; bruno­‑avermelhado­‑ escuro (2,5 YR 3/4, úmida), vermelho­‑ escuro (10 YR 3/6 seca);
Bw23 muito argilosa; maciça porosa; muito friável; ligeiramente plástica e ligeiramente pegajosa; limite
arbitrário para a camada inferior

Observações: raízes abundantes na primeira camada, comuns na segunda e terceira e poucas na quarta e quinta.

Fonte: Modificado de Oliveira & Prado (1983).

capítulo 4 – técnicas de pedologia 99


NA SALA DE AULA partículas menores que 2,0 mm. A fração areia
tem diâmetro de 2,0 a 0,05 mm, o silte de 0,05
Todos os aspectos mostrados neste capítulo a 0,002 mm e a argila menor do que 0,002 mm.
podem ser trabalhados pelo professor na sala de Para interpretar a granulometria do solo,
aula e nos arredores da escola com os alunos. utiliza­‑se o Diagrama Textural da Embrapa (ver
Apresenta­‑se aqui algumas sugestões de ativi‑ Tabela 4.4), onde se lança os resultados de cada
dades didáticas para que os alunos possam co‑ fração granulométrica para obter­‑se a textura de
nhecer melhor os solos. cada horizonte.
No caso apresentado, o horizonte Ap do la‑
tossolo vermelho possui 61% de argila, 31% de
Tratamento de dados extraídos de silte e 8% de areia. Note que a soma desses valo‑
análises de laboratório em Pedologia res deve ser 100% ou estar próximo desse valor.
Nesse caso, lançando os valores no diagrama,
Não serão apresentadas aqui as técnicas de obtém­‑se um ponto de intersecção no campo da
laboratório em Pedologia, pois isso exigiria um textura muito argilosa (ver Figura 4.18). Desse
outro capítulo à parte, por ser um assunto com‑ modo, a textura do horizonte Ap é muito argi‑
plexo, mas serão mostradas algumas formas de losa. Deve­‑se proceder da mesma maneira com
tratamento e interpretação de dados brutos ob‑ todos os horizontes do perfil e verificar que, nes‑
tidos a partir de análises de laboratório, como se caso, todo o perfil é muito argiloso. Desse
dados de análise granulométrica e algumas aná‑ modo, a análise granulométrica vem confirmar a
lises químicas do solo, por exemplo, do perfil de descrição morfológica de campo desse solo, cuja
latossolo vermelho eutroférrico, apresentado no textura foi descrita também como muito argilosa.
item anterior.

Atividade 2: interpretação de alguns


Atividade 1: interpretação atributos da análise química do solo
da análise granulométrica
Pode­‑se interpretar alguns dados de análi‑
A análise granulométrica é um tipo de análise ses químicas e conhecer melhor o mesmo solo
física laboratorial responsável por determinar a analisado, conforme resultados apresentados na
porcentagem de areia, silte e argila do solo, das Tabela 4.5.

Tabela 4.4 – Resultados da análise granulométrica do latossolo vermelho eutroférrico

Características físicas do perfil IAC 1.360

Espessura (cm)
Atributos
0­‑18 18­‑34 34­‑56 56­‑90 90­‑200 200­‑250

Símbolo do horizonte Ap A3 Bw1 Bw21 Bw22 Bw23

Argila 61 65 65 61 62 65

Silte 31 26 25 29 29 29

Areia 8 9 10 10 9 6

Fonte: Modificado de Oliveira (1999).

100 práticas de geografia


0
100
10 ponto de intersecção
90
20
80
MUITO

PO
30
ARGILOSA

RC
70

EN
ILA
40

TA
G
60

GE
AR

M
DE

50

DE
50
M

SIL
GE

ARGILOSA

ET
60
TA
EN

40
RC
PO

70
30

80
20 MÉDIA SILTOSA
90
10
Rafael Sato

ARENOSA 100 Figura 4.18. Diagrama de


0 classes de textura do solo.
100 90 80 70 60 50 40 30 20 10 0 Fonte: EMBRAPA (1979).
PORCENTAGEM DE AREIA

PH Soma de bases
Observando­‑se cada atributo apresentado, A soma de bases é a soma dos teores de cál‑
percebe­‑se que o pH de todo o perfil é de aci‑ cio (Ca), magnésio (Mg), potássio (K) e sódio
dez fraca, com teores entre 6,0 a 7,0. A alcali- (Na), importantes nutrientes para as plantas.
nidade ocorre quando a pluviosidade é baixa e Quanto maior a soma de bases, maior a fertili‑
acumulam­‑se sais de cálcio (Ca), magnésio (Mg), dade do solo.
potássio (K) e sódio (Na). Solos alcalinos são ca‑ Sobre a soma de bases, ou S, percebe­‑se que é
racterísticos de regiões áridas e semiáridas. A de teor alto no horizonte Ap, passando a médio
acidez do solo desenvolve­‑se devido à remoção nos horizontes seguintes e chega a baixo no ho‑
de bases pelas plantas e pela água, permitindo rizonte Bw23. Isto pode significar que, como o
que o hidrogênio (H+) tome os lugares das bases. horizonte Ap foi lavrado para cultivo, teve acrés‑
A maioria das plantas cresce a um pH levemente cimo de bases para melhor produtividade.
ácido, ou seja, entre 5,5 e 6,5. Os solos ácidos po‑
dem conter poucos nutrientes e elementos tóxicos S: Soma de bases (cátions básicos trocáveis).
às plantas, como o alumínio (Al 3+), por exemplo. Corresponde a:
Como a maior parte dos solos brasileiros são áci‑
dos, há a correção do pH por adição de calcário S= Ca2+ + Mg2+ + K+ + Na+.
(CaCO3), procedimento denominado calagem. Critérios de avaliação recomendados pelo Insti‑
tuto Agronômico de Campinas:
Interpretação do pH:
S – Abaixo de 2,62 BAIXO
Acidez elevada → abaixo de 5,0 De 2,62 a 6,30 MÉDIO
Acidez média → 5,0­‑ 6,0 Acima de 6,30 ALTO
Acidez fraca → 6,0­‑7,0
Neutro → 7,0 É geralmente expressa em meq/100g de material
Alcalinidade fraca → 7,0­‑7,8 adsorvente e em condições de pH 7,0.
Alcalinidade → acima de 7,8

capítulo 4 – técnicas de pedologia 101


Tabela 4.5 – Perfil 1360: Latossolo vermelho eutroférrico (dados analíticos)

Espessura (cm)
Atributos
0­‑18 18­‑34 34­‑56 56­‑90 90­‑200 200­‑250

Horizonte Ap A3 Bw1 Bw21 Bw22 Bw23

pH 6,2 6,3 6,3 6,4 6,4 6,1

S 6,7 5,2 5,3 4,2 3,5 1,9

CTC 10,7 6,6 7,5 5,6 5,7 3,8

V% 63,0 79,0 71,0 75,0 62,0 51,0

m% 0 0 0 0 0 0

Fe2O3 22,8 23,5 22,8 23,5 21,4 24,1

Ki 1,6 1,1 1,1 1,5 1,2 1,4

Fonte: Modificado de Oliveira (1999).

Capacidade de troca catiônica ou CTC


Solos que possuem baixa capacidade de troca são pobres quimicamente, requerendo adição
de cátions apresentam necessariamente baixos de fertilizantes para uma boa produção. Neste
valores de cálcio, magnésio e potássio, elemen‑ caso, trata­‑se de um solo eutrófico, ou seja, de
tos tidos como importantes na alimentação das fertilidade alta.
plantas. Tais solos necessitam de pequenas doses
de insumos para atingir o nível de saturação por V(%): símbolo utilizado para representar a saturação por
bases desejável para a agricultura. A capacidade bases. Calculado pela fórmula V(%) = (100.S) / CTC, onde S:
soma de bases (cátions básicos trocáveis) → S = Ca2+ + Mg2+
de troca de cátions refere­‑se à quantidade de + K+ + Na + e CTC: capacidade de troca catiônica → Ca2+ +
cátions (Al, H, Ca, Mg e K) que o solo é capaz Mg2+ + K+ + Na + + Al3+ + H +
de reter. Neste caso, todo o perfil apresenta teor
Solo eutrófico: aquele que apresenta saturação por bases
médio de CTC, porém bem maior no horizonte igual ou superior a 50% (solos férteis).
Ap, provavelmente por acréscimo de fertilizantes
Solo distrófico: aquele que apresenta saturação por bases
para melhor produtividade agrícola.
inferior a 50% (solos pouco férteis).

Critérios de avaliação recomendados pelo Instituto Agronô‑


mico de Campinas:
CTC – Abaixo de 4,62 BAIXO Saturação por alumínio (Al)
De 4,62 a 11,30 MÉDIO
A saturação por alumínio é a relação entre
Acima de 11,30 ALTO
o teor de Al trocável e a soma de bases mais Al
trocável. Representa­‑se por m = Al(S + Al).
Como consequência da alta saturação por
Saturação por bases alumínio, os valores da soma de bases são muito
A saturação por bases refere­‑se à fertilida‑ baixos, pois a grande maioria das cargas elétricas
de do solo. É a proporção de CTC ocupada por está ocupada pelo alumínio e não pelas bases.
bases. Quanto maior o valor de V%, mais fértil Quanto mais ácido é o solo, maior é o teor de
é o solo. Solos com baixa saturação por bases alumínio passível de causar dano às plantas; e

102 práticas de geografia


quanto maior o valor, maior a toxidez. A maio‑ É representado pela relação sílica/alumina:
ria das plantas apresenta dificuldades de cresci‑ relação molecular entre a sílica (SiO2) e a soma
mento em solos ácidos, devido principalmente à alumina (Al2O3) em argilas, argilominerais ou
presença de alumínio solúvel em níveis tóxicos. solos. Neste caso, o latossolo vermelho apresen‑
No exemplo apresentado, o solo não apresenta tado é de um solo muito intemperizado, o que
toxicidade por alumínio. corrobora com um solo muito desenvolvido, de‑
vido a seu estado avançado de intemperismo.
Saturação por alumínio: Representa­‑se por m
= Al(S + Al).
É considerado álico um solo que apresenta valor m Devido ao fato de o índice Ki da caulinita cor‑
superior a 50%. responder a 2, esse valor foi estabelecido como
limite entre solos:
¾¾ muito intemperizados (Ki ≤ 2) e – pouco in‑
temperizados (Ki > 2).

Teor em óxidos de ferro


Devido ao fato de grande parte dos solos bra‑
sileiros apresentarem teores elevados de óxidos de Atividade 3: abertura de
ferro em relação aos teores de matéria orgânica, a trincheira no jardim da escola
adsorção dos nutrientes e da argila se faz pelo ferro.
Os óxidos de ferro mais comuns nos solos são Se a escola dispuser de um espaço externo
a hematita e a goethita. A primeira é responsável suficiente para abrir uma trincheira, toda a parte
pelas colorações avermelhadas e a segunda pe‑ da descrição de solo no campo poderá ser feita a
las amareladas. No exemplo apresentado, o solo partir do que foi visto no item 2.
apresenta alto teor de ferro, ou seja, é um solo Não há um tamanho ideal para se abrir uma
férrico, devido à herança do material de origem, trincheira. Isso vai depender do espaço disponí‑
no caso o diabásio. vel no jardim da escola, mas de acordo com San‑
tos et al. (2005), a trincheira deve ter 2,0 m de
O SiBCS (Sistema Brasileiro de Classificação de Solos) es‑ profundidade, 1,5 m de comprimento por 1,2 m
tabeleceu as seguintes classes de teor de Fe2O3 nos solos
de largura, em razão das variações horizontais
brasileiros:
e verticais do solo. Ela pode ser aberta com uso
Baixo teor: < 8% hipoférricos de máquinas ou manualmente. Uma das faces
Médio teor: de 8% a < 18% mesoférricos
da trincheira deve ser bem iluminada pelo sol e
Alto teor: de 18% a < 36% férricos
Teor muito alto: a partir de 36% perférricos deve ser limpa e alisada, além de possuir degraus
para facilitar o acesso ao seu interior. Como se
trata de uma escola, para a segurança dos alu‑
Índices Ki nos, a trincheira deve ser cercada e ter seu acesso
O índice Ki é um indicador do processo de restrito às atividades didáticas.
dessilificação dos solos ou do grau de alteração
e grau de intemperismo do solo. Ele mede o
grau de decomposição da fração argila do solo. Atividade 4: horta na escola
Na sequência de intemperismo, os valores de KI
são mais altos para a montmorillonita (argila do Ter uma horta na escola não é difícil. Basta
tipo 2:1), mais baixos para a caulinita (argila do ter um local onde se possa fazer um canteiro ou
tipo 1:1), e bem mais baixos para gibbsita (óxi‑ até mesmo em vasos. As dimensões do canteiro
dos de alumínio). devem ser do tamanho que a área permitir.

capítulo 4 – técnicas de pedologia 103


200 cm
100 cm
10 cm

120 cm
Corte AA

Planta baixa

200 cm
Figura 4.19.
Representação de
abertura de trincheira
para descrição do

Sérgio Fiori
perfil de solo. Fonte:
Santos et al. (2005). Corte AA

O local deve ser plano ou suavemente incli‑ animal. As mudas devem ser plantadas com um
nado, afastado de áreas contaminadas, deve to‑ espaçamento de aproximadamente 30 cm umas
mar sol o dia todo, ser úmido, a terra deve ser das outras e enterradas de 2 a 3 cm de profundi‑
adubada e a água usada para molhar as plantas dade. Em seguida, as mudas devem ser regadas.
deve ser limpa. O canteiro deve ser regado duas vezes ao dia,
Para preparar o canteiro, deve­‑se limpar e pela manhã e no final da tarde. O mato que cres‑
capinar a área, desmanchar os torrões do solo cer em volta do canteiro deve ser retirado para que
usando a enxada, para que o terreno fique bem não o invada e prejudique o crescimento das plan‑
fofo e cavar a uma profundidade de aproxima‑ tas. A terra deve ser mantida fofa a cada semana.
damente 20 cm.
A área deve ser cercada com tábuas, tijolos ou
outro material que segure a terra para que não Atividade 5: experimentos
sofra erosão pela água das chuvas. com solos
Para o plantio podem­‑se usar mudas ao invés
de sementes, para acelerar o crescimento das plan‑ Mesmo sem muitos recursos e sem um labo‑
tas. Mais ou menos uma semana antes de receber ratório adequado pode­‑se trabalhar alguns te‑
as mudas, o canteiro deve ser adubado, de prefe‑ mas sobre solos com os alunos em sala de aula.
rência com adubo orgânico, que pode ser esterco Seguem algumas sugestões:
Eduardo Justiniano

Porosidade do solo
Você vai precisar de um torrão de solo are‑
noso, um torrão de solo argiloso, um pedaço de
rocha dura, como um granito, uma bandeja e um
copo com água.
Coloque os torrões e a rocha numa bandeja e
vá molhando aos poucos. Observe e discuta com
os alunos o que aconteceu. Observe a velocidade
de penetração e retenção da água nos tipos de
solo e na rocha. No solo arenoso, a água vai pe‑
Figura 4.20. Exemplo de preparo de horta. netrar com maior rapidez e vai sair rapidamente,

104 práticas de geografia


Sérgio Fiori
tensa acontece no solo exposto, pois a água que
Água
sai do bico da garrafa é mais barrenta do que no
solo com vegetação morta e do que no solo com
grama, que está mais protegido, pois as raízes das
plantas ajudam a proteger o solo contra a erosão.

Solo 1 Solo 2 Rocha

Tamanho das partículas do solo


Figura 4.21. Modelo de experimento da porosidade do solo. Você vai precisar de mais ou menos meio qui‑
lo de solo, três peneiras de cozinha com aber‑
turas de malhas diferentes, uma colher grande,
devido à alta porosidade. Já no solo argiloso a uma bandeja, um rolo de macarrão e três pratos
água vai penetrar lentamente e será retida com descartáveis.
maior facilidade, devido a menor porosidade. Já Coloque o solo na bandeja e, com as mãos,
na rocha, a água penetra muito lentamente. deixe os torrões de solo o menor que você conse‑
guir. Em seguida, desfaça os torrões de solo com
o rolo de macarrão. Coloque cada peneira sobre
Erosão do solo um prato descartável e acrescente um pouco de
Você vai precisar de três garrafas PET, uma solo em cada peneira. Peneire o solo, veja e sinta
tesoura, uma bandeja e uma vasilha com água. com as mãos o tamanho das partículas que você
Com as garrafas PET cortadas ao meio na peneirou. Observe que você não vai conseguir
vertical, sem cortar o bico das garrafas, faça o separar a areia, o silte e a argila, mas conseguirá
seguinte: na primeira garrafa, coloque um grande separar principalmente areias de tamanhos di‑
torrão de solo nu que caiba no orifício da garrafa ferentes, dependendo do tamanho das malhas
que foi recortada com a tesoura; na segunda gar‑ das peneiras. Isso significa que o solo possui
rafa, coloque um outro torrão de solo (do mesmo areias de granulometrias diferentes e também
tamanho do anterior) com vegetação morta; e, na de resistências diferentes. As areias apresentam
terceira garrafa, um torrão de solo com grama já vários tipos de minerais, como quartzo, feldspa‑
plantada. Incline as garrafas levemente, com o to, mica, dentre outros. Como o quartzo é mais
bico para baixo, numa bandeja, e coloque água resistente do que os outros minerais, apresenta
no solo aos poucos, observando como a água sai areias de granulometrias maiores do que os mi‑
do bico. Você vai observar que a erosão mais in‑ nerais menos resistentes.

Fazer abertura na garrafa Água Solo

Solo com Solo com


vegetação grama
morta
Solo nu

Textura 1 Textura 2 Textura 3


Sérgio Fiori
Sérgio Fiori

Figura 4.22. Modelo de experimento da erosão do solo. Figura 4.23. Modelo de experimento da textura do solo.

capítulo 4 – técnicas de pedologia 105


ConSideraçÕeS finaiS

O solo ainda não é visto como parte integrante do meio ambiente, pois não é
muito conhecido. Portanto, é preciso conhecê‑lo para melhor compreender seu
potencial e conservação. Nesse sentido, o estudo dos solos é de suma importân‑
cia, tendo em vista que há hoje vários problemas ambientais ligados aos solos,
como deslizamentos, erosão, contaminação, compactação, empobrecimento.
Além disso, é preciso considerar que o solo é a base para a produção de alimentos
para a humanidade. Se recursos vegetais são renováveis ou reprodutíveis, eles
dependem dos solos que, na maioria das vezes, são esgotáveis.

106
referÊnCiaS de aPoio

Glossário

Agregado: conjunto coerente de partículas primárias teores de minerais primários de fácil intemperização
do solo com forma e tamanho definidos, que se com‑ e baixo índice ki.
porta mecanicamente como uma unidade estrutural. Latossolo vermelho: latossolo desenvolvido a partir
Análise granulométrica: determinação das quanti‑ de rochas básicas (basalto, diabásio etc.). Tem entre 18
dades das frações areia, silte e argila, em amostras de a 40% de Fe2O3 e, por isso, são muito atraídos por ímã.
terra fina seca ao ar (TFSA – menor do que 2 mm), Meq/100g: miliequivalentes de minerais por 100 gra‑
geralmente expressas como porcentagens por peso. É mas. Considera‑se que um miliequivalente equivale a
determinada pelo método da pipetagem, do densíme‑ um miliosmol.
tro e, atualmente, por granulômetro a laser. Nódulos e concreções minerais: são corpos cimen‑
Capacidade de troca de cátions (CTC): soma total tados que podem ser removidos intactos da matriz do
de cátions trocáveis que um solo, ou algum de seus solo. Suas composições variam de materiais parecidos
constituintes, pode adsorver a um pH específico. É com os da matriz do solo até substâncias de compo‑
geralmente expressa em meq/100g de material ad‑ sição diferente. As concreções apresentam simetria
sorvente e em condições de pH 7,0. interna disposta em torno de um ponto, de uma linha
Características vérticas: características de alta ex‑ ou de um plano, enquanto os nódulos não apresentam
pansibilidade e contractilidade devido à variação do organização interna.
teor de umidade e à presença de argilas expansivas, Plintita: formação constituída de mistura de argila,
originando rachaduras no solo. pobre em húmus e rica em ferro e alumínio, com quart‑
Cerosidade: revestimento de argila na superfície dos zo e outros minerais. No perfil de solo, aparece com
agregados. mosqueados vermelhos e vermelho ‑escuros.
Cimentação: endurecimento por substâncias cimen‑ Tiomorfismo: usado para designar material permanen‑
tantes, tais como húmus, carbonato de cálcio ou óxidos te ou periodicamente alagado, de natureza mineral ou
de silício, ferro e alumínio. orgânica, rico em sulfetos (material sulfídrico).
Gleização: processo de formação do solo resultando Trado: instrumento destinado à coleta de amostras
em gleissolos, isto é, solos minerais, hidromórficos, com de solo através de abertura de orifício na superfície
horizonte glei dentro de 60 cm da superfície. do solo. Apresenta vários tamanhos, e os tipos mais
Latossolo: solo espesso com baixo gradiente textural utilizados são o holandês, o de rosca e o de caneco.
entre os horizontes A e B, baixa CTC, baixos ou nulos

Bibliografia

COCHE, A. G. Suelo y. Piscicultura de agua dulce. ESPINDOLA, C. R. Retrospectiva crítica sobre a pe-
Roma: FAO, 1985. dologia. Campinas: Editora da unicamp, 2008.
CuRI, N.; LARACH, J. O. I.; kÄMPF, N.; MONIz, A. C.; kIEHL, E. J. Manual de edafologia – relação solo-
FONTES, L. E. F. Vocabulário de ciência do solo. Cam‑ -planta. São Paulo: Ceres, 1979.
pinas: Sociedade Brasileira de Ciência do Solo, 1993. LEPSCH, I. F. Formação e conservação dos solos. São
EMBRAPA. Manual de métodos de análise de solo. Paulo: Oficina de Textos, 2002.
Rio de Janeiro: Serviço Nacional de Levantamento e OLIVEIRA, J. B. Solos do estado de São Paulo: des-
Conservação de Solos, 1979. crição das classes registradas no mapa pedológi-
EMBRAPA. Sistema Brasileiro de Classificação de co. Campinas: Instituto Agronômico, 1999.
Solos. Brasília: Serviço de Produção de Informação OLIVEIRA, J. B. Pedologia aplicada. Piracicaba: FE‑
(SPI), 2006. ALQ, 2005.

capítulo 4 – técnicas de pedologia 107


OLIVEIRA, J. B.; JACOMINE, P. K. T.; CAMARGO, M. Dicas na Internet
N. Classes gerais de solos do Brasil. Jaboticabal:
FUNEP, 1992.
O Solo – Projeto Solo na Escola/UFPR
RUELLAN, A.; DOSSO, M. Regards sur le sol. Paris:
Disponível em: <http://www.youtube.com/watch?v=
Foucher, 1993.
bPrpyyDNTDo&feature=related>.
SANTOS, R. D.; LEMOS, R. C.; SANTOS, H. G.; KER, J.
C.; ANJOS, L. H. C. Manual de descrição e coleta
Análise de solo
de solo no campo. Viçosa: Sociedade Brasileira de
Disponível em: <http://www.youtube.com/watch?v=
Ciência do Solo, 2005.
ALfDLxIAtaM&feature=related>.
VENTURI, L. A. B. (Org.). Praticando Geografia: téc-
nicas de campo e laboratório. São Paulo: Oficina de
Textos, 2005.

SOBRE O AUTOR
Dicas de sites
Déborah de Oliveira é bacharel e licenciada em
http://www.pedologiafacil.com.br/glossario.php Geografia pela Faculdade de Filosofia, Letras e Ciên‑
http://www.cnps.embrapa.br/sibcs/ cias Humanas da Universidade de São Paulo, mestre e
http://www.escola.agrarias.ufpr.br/ doutora em Geografia Física pela mesma instituição.
http://www.iuss.org/ Lecionou a disciplina Geografia durante vários anos
ht tp : / / w w w.fao.org / landand water / agll / w rb / em escolas públicas e privadas de Ensino Fundamental
mapindex.stm e Médio e disciplinas relacionadas à Geografia Física
http://www.soiltectonics.com/soilsglossary.html no ensino superior. Atualmente é professora doutora
do Departamento de Geografia da FFLCH/USP. Tem
experiência na área de Geografia Física, com ênfase
em Pedologia e Geomorfologia.

108 práticas de geografia


técnicas de
Climatologia
5
TARIk REzENDE DE AzEVEDO
EMERSON GALVANI
Eduardo Justiniano

Introdução, 110 padronizados, 118 Referências de apoio, 134


Observação usando apenas os Observação usando Sobre os autores, 135
cinco órgãos dos sentidos, 112 instrumentos digitais, 124
Observação usando Conforto térmico, 127
instrumentos simples, 116 Imagens de satélite e
Observação usando informações da imprensa, 128
instrumentos analógicos Na sala de aula, 131
introdução

A despeito de a Climatologia assumir posição de destaque na explicação das


feições e processos superficiais, na prática, normalmente, defrontamo‑nos com
a ausência de mapas climatológicos adequados à escala em que se trabalha.
Isso decorre do fato de que a construção do conhecimento e sua representação
sintética num mapa processam‑se em velocidade e ritmo variado. Em estudos
de caso, quase sempre, não há mapeamento climático nas mesmas escalas
que existem para a drenagem, o relevo, as rochas, o solo, a vegetação e outros
aspectos, o que torna necessário começar a pesquisa de um estágio elementar.
Ao invés de compilar informação e apreender o conhecimento sistematizado
por aqueles que nos antecederam, há que se elaborar uma hipótese para a
distribuição espacial das unidades climáticas por dedução, a partir da aplica‑
ção de preceitos relativamente simples e da observação preliminar em campo.
Em seguida há que se testar, também em campo, a consistência das unidades
determinadas.
Posto que o objeto da Climatologia é essencialmente abstrato e não pode
de imediato ser integralmente apreendido pelo instrumental sensorial próprio
do ser humano, é preciso recorrer a dois expedientes: a observação interme‑
diada por instrumental técnico e a percepção temporal evolutiva dos processos
observados. Por outro lado, uma vez que não é possível estar em vários lugares
ao mesmo tempo, a simultaneidade da observação e amostragem numa área
deve ser obtida recorrendo ‑se à multiplicação de observadores e/ou a instru‑
mentos registradores.
Sendo a observação instrumental muito custosa, a densidade da amostragem
deve ser dosada de forma que, com o menor número de instrumentos e pontos
de amostragem, obtenha‑se a melhor relação custo‑benefício. Desta feita, a eta‑
pa anterior à observação e amostragem sistemática em campo, a da elaboração
de hipóteses a partir da observação preliminar, é a mais importante e determina
o resto do trabalho de investigação, inclusive sua viabilidade e exequibilidade.
Resumindo, isso significa que, em função das hipóteses, determina‑se o quê,
onde e como observar e/ou medir e registrar.
Ressalta‑se que a representatividade espacial e temporal das observações
e medições varia em função da precisão adotada e dos atributos próprios dos
elementos e processos observados. Por exemplo, a descrição do tipo de nuvens
e sua distribuição é válida para uma área que pode chegar a dezenas de quilô‑
metros quadrados a partir do ponto de observação, enquanto a direção de um
fluxo de ar próximo à superfície pode ser válida para alguns metros quadrados
durante alguns segundos. Isso significa que, no caso de observação sistemática
de mais de um elemento, o número e a distribuição de pontos de amostragem
pode perfeitamente ser diferente para cada elemento. No caso desses mesmos
exemplos, suponha‑se que se pretenda estudar a variação do escoamento de ar
próximo à superfície numa bacia hidrográfica de primeira ordem em função dos
tipos de tempo meteorológico predominantes. A observação, a cada meia hora,
da nebulosidade e de sua evolução num único ponto bem escolhido (tendo como
critério o alcance visual de toda a área) normalmente é suficiente, enquanto o
número de pontos de amostragem simultânea da direção do escoamento de
ar próximo à superfície pode chegar às dezenas. Em suma, após uma primeira
ideia da complexidade da dinâmica climática e sua decorrência nas formas de
observação, passa‑se a estudar as técnicas de campo e laboratório.
OBSERVAÇÃO USANDO
APENAS OS CINCO
ÓRGÃOS DOS SENTIDOS

Nosso próprio aparelho sensorial sempre é deve permanecer ereta, visando o horizonte e
usado para obter informação do mundo externo, relaxada. Concentrando­‑se no rosto, deve prestar
e os instrumentos técnicos nada mais são que a atenção no frescor causado pelo fluxo de ar nas fa‑
extensão de nossos sentidos. Um termômetro de ces. Com atenção, deve ir girando o corpo de for‑
mercúrio, por exemplo, é um arranjo engenho‑ ma que perceba o fluxo vindo de sua frente. Como
so em que a variação do volume de um líquido a direção tende a variar pela turbulência natural
num recipiente estanque é observada num del‑ deste tipo de escoamento, deve­‑se procurar uma
gado tubo. Paralelamente a este há uma escala direção que seja percebida como a predominan‑
linear. Da comparação entre a posição em que te1. Normalmente, um minuto de observação é
se encontra o menisco do mercúrio no interior suficiente. Se a turbulência e a variação da direção
do tubo em relação à escala, obtém­‑se uma me‑ forem pequenas, em pouco mais de dez segundos
dida linear. A rigor, é através de uma construção atinge­‑se a melhor orientação possível em relação
lógica que se entende ser a medida obtida uma ao fluxo de ar. Nesse momento, fixa­‑se um ponto
tradução visual do volume do mercúrio. Também de referência dessa direção no horizonte. O mes‑
por construção lógica, aplicando conhecimento mo pode ser feito com a palma da mão aberta,
anterior, entende­‑se que o volume do mercúrio voltada para frente, com o braço estendido e com
depende fundamentalmente de sua temperatura, os dedos entreabertos2. No caso de escoamento
a qual, a rigor, não pode ser apreendida direta‑ mais sutil, na linha da cintura, ou abaixo, deve­‑se
mente pela visão, mas parcialmente inferida pelo ficar agachado e com o antebraço descoberto.
tato. A despeito da dificuldade de obter tempe‑ Como nessa posição é mais difícil ficar relaxado,
ratura com precisão aceitável usando diretamen‑ convém apoiar um dos joelhos sobre o solo.
te o tato, este instrumento permite a obtenção Tendo fixado o ponto de referência no hori‑
da temperatura sem o contato direto do corpo zonte, pode ser feita a representação da direção
humano, que sabidamente é uma fonte de calor. diretamente numa base cartográfica orientada
A própria necessidade do recurso a instru‑ em conformidade com o terreno, através de uma
mentos artificiais depende fundamentalmente seta. A direção também pode ser determinada
das hipóteses em investigação. Verifique­‑se que, através dos pontos cardeais (norte – N, sul – S,
naquele exemplo anterior em que se pretendia leste – E e oeste – O ou W), colaterais (nordes‑
estudar a variação do padrão de escoamento pró‑ te – NE; sudeste – SE; sudoeste – SO ou SW;
ximo à superfície, seria perfeitamente possível e noroeste – NO ou NW) e subcolaterais (lés­
realizar a pesquisa sem quaisquer instrumentos, ‑nordeste – ENE; lés­‑sudeste – ESE; su­‑sudeste –
recorrendo apenas a um grupo grande de obser‑
vadores atentos com sua percepção e capacidade
de descrição clara e objetiva apuradas através de 1 Direção predominante, neste caso, significa aquela que
treinamento. persiste na maior parte do tempo. Não é o mesmo que
direção média.
Qualquer pessoa é capaz de determinar a di‑ 2 Com treinamento, é possível perceber a direção de
reção do escoamento do ar usando sensibilidade um fluxo de ar com velocidade 20 cm por segundo
natural das faces e das palmas das mãos com a ou maior. Como, para finalidades práticas, em geral,
adota­‑se a velocidade de um metro por segundo como
precisão de dez graus de azimute. Se o escoamen‑ o limiar para chamar de vento o escoamento horizontal
to puder ser sentido na altura da cabeça, a pessoa do ar, a sensibilidade natural da pele é suficiente.

112 práticas de geografia


Eduardo Justiniano
N nos objetos do entorno do observador. Nes‑
te caso, é possível padronizar o procedimento
para um grupo de pessoas, mesmo com pouco
NO NE treinamento. A Tabela 5.1 apresenta a escala
NNO NNE
de Beaufort, a mais usada e difundida usando
ONO ENE essa técnica. O simples exame dessa tabela dis‑
pensa maiores explicações. A escala de Beaufort
O E aplica­‑se bem para a caracterização do vento
OSO ESE em escalas de maior generalidade. Para casos
específicos, pode ser conveniente criar classes
SSO SSE intermediárias de velocidade, sobretudo para
SO SE
velocidades menores.
A distribuição e a tipologia das nuvens são in‑
dicadores essenciais dos processos atmosféricos
S predominantes. A observação e o registro da ne‑
bulosidade consideram três elementos essenciais.
Figura 5.1. Rosa dos ventos indicando os pontos cardeais,
colaterais e subcolaterais. Em primeiro lugar, determina­‑se a altura em três
tipos básicos: altas, médias e baixas. Em seguida,
SSE; nor­‑nordeste – NNE; nor­‑noroeste – NNO classificam­‑se as nuvens com base em sua forma
ou NNW; su­‑ sudoeste – SSO ou SSW; oés­ e aspecto, para finalmente estimar quanto da
‑sudoeste – OSO/WSW; oés­‑noroeste ONO/ abóbada celeste é coberta pelas mesmas. Nem
WNW). A figura que representa os pontos carde‑ todos os tipos de nuvens ocorrem em quaisquer
ais, colaterais e subcolaterais é denominada Rosa alturas, nem produzem quaisquer proporções de
dos ventos (Figura 5.1). Se for um ponto em que cobertura do céu, nem coexistem em quaisquer
a observação será repetida muitas vezes, convém associações. As Figuras 5.3 a 5.5 apresentam o
determinar a priori uma sequência de pontos de sistema de classificação mais simples e adotado
referência com direções conhecidas e memorizá­ pela Organização Meteorológica Mundial4.
‑la3. Por convenção, registra­‑se a direção de onde A nebulosidade classificada como cumulonim‑
vem o fluxo de ar e não para onde vai. Por exem‑ bus, nimbostratus e altocumulus recebe, por vezes, a
plo, um vento com direção norte (N) significa que denominação de nuvens de desenvolvimento vertical
está vindo do norte e indo para a direção sul (S). por transitarem, em sua formação e dinâmica, entre
É comum adotar algumas designações diferentes os três níveis de nuvens – baixas, médias e altas.
para os pontos cardeais, a saber: Norte (Seten‑ Em geral, registra­‑se a nebulosidade de bai‑
trional ou Boreal), Sul (Meridional ou Austral), xo para cima, ou seja, registra­‑se a tipologia e a
Leste (Oriental) e Oeste (Ocidental). distribuição da nebulosidade baixa, em seguida
A velocidade do escoamento é mais difícil média e, finalmente, alta. A estimativa da cober‑
de ser estimada com boa precisão diretamen‑ tura é feita tendo como referência a nebulosida‑
te através do tato. A técnica usual consiste de visível, ou seja, não é inferida a cobertura que
na observação do efeito do escoamento de ar

4 A complexidade da classificação depende das finalida‑


3 Ou, evidentemente, usar uma bússola (ver o Capítulo des e da experiência do observador. O sistema taxo‑
7 – Técnicas de Cartografia). Lembrando que a bússola nômico completo subdivide as famílias principais em
fornece a indicação do norte magnético e o vento deve subtipos e associações com mais de uma centena de
ser obtido em relação ao norte geográfico. classes de nebulosidade.

capítulo 5 – técnicas de climatologia 113


está no próximo nível, mesmo que seja evidente (de 1/8 a 7/8); se estiver totalmente limpo (0/8).
que haja sobreposição. Desta feita, a soma das Registra­‑se o numerador da proporção e anota­
coberturas em cada nível será, no máximo, a co‑ ‑se o horário da observação, já que a dinâmica
bertura total. A técnica mais simples de avalia‑ dos processos atmosféricos resulta em diferentes
ção da obstrução da abóbada pela nebulosidade tipologias e cobertura de nuvens ao longo do
é a classificação em oitavos do céu. Imagina­ dia. Na primavera e no verão, nos trópicos, ge‑
‑se a abóbada celeste dividida em oito gomos e ralmente a observação da nebulosidade tende a
avalia­‑se visualmente a proporção ocupada por ser bastante complicada, dada a rapidez dos pro‑
nuvens. É como imaginar uma grande pizza de cessos atmosféricos e a alteração do total e do
oito pedados no céu; junte as partes de nebulosi‑ tipo de nuvens. Cabe também destacar que até
dade e tente avaliar quantos pedaços equivale à mesmo o observador mais experiente recorrerá,
cobertura de nuvens naquele momento. Se o céu em algum momento, ao atlas de nuvens, dada
está totalmente encoberto (nublado) registra­ a complexidade na observação da cobertura de
‑se 8/8 (oito oitavos); se parcialmente encoberto nuvens e sua tipologia.

Tabela 5.1 – Escala de Beaufort para estimar a velocidade do vento

Velocidade
Força Designação Influência em Terra
km/h*

0 Calmaria 0a1 A fumaça sobe verticalmente.

1 Bafagem 2a6 A direção da bafagem é indicada pela fumaça, mas a grimpa ainda não reage.

Sente­‑se o vento no rosto, movem­‑se as folhas das árvores e a grimpa começa


2 Aragem 7 a 12
a funcionar.

3 Fraco 13 a 18 As folhas das árvores agitam­‑se e as bandeiras desfraldam­‑se.

Poeira e pequenos papéis soltos são levantados. Movem­‑se os galhos das


4 Moderado 19 a 26
árvores.

5 Fresco 27 a 35 Movem­‑se as pequenas árvores. Nos lagos a água começa a ondular.

Assobios na fiação aérea. Movem­‑se os maiores galhos das árvores. Guarda­


6 Muito fresco 36 a 44
‑chuva usado com dificuldade.

7 Forte 45 a 54 Movem­‑se as grandes árvores. É difícil andar contra o vento.

8 Muito forte 55 a 65 Quebram­‑se os galhos das árvores. É difícil andar contra o vento.

9 Duro 66 a 77 Danos nas partes salientes das árvores. Impossível andar contra o vento.

10 Muito duro 78 a 90 Arranca árvores e causa danos na estrutura dos prédios.

11 Tempestuoso 91 a 104 Muito raramente observado em terra.

12 Furacão 105 a … Grandes estragos.

* A conversão de km/h (quilômetro por hora) para m/s (metros por segundos) é efetuada dividindo­‑se por 3,6 e o contrário, multiplicando­
‑se por 3,6. Por exemplo, um vento com velocidade de 36 km/h equivale a 10 m/s, assim como um vento de 10 m/s equivale a 36 km/h. O
fator de conversão 3,6 é resultado da divisão de 3.600 (número de segundos de uma hora) por 1.000 (um quilômetro tem 1.000 metros).

114 práticas de geografia


A notação antiga usava quartos da abóbada, o que, em levantamentos
expeditos pode ser útil por tornar a observação mais rápida (apenas quatro
partes de cobertura de céu: 1/4, 2/4, 3/4 e 4/4). Outro expediente muito usado
é não distinguir a proporção em função dos três níveis.
Para facilitar o trabalho de campo, é comum providenciar, a priori, o
desenho de uma figura representando as possibilidades de cobertura de nu‑
vens (Figura 5.2). Nesse caso, deve­‑se preencher na figura a cobertura de
nuvens equivalente naquele horário de observação (1/8, 2/8… 8/8).
Rafael Sato

Figura 5.2. Modelo para avaliação da cobertura pela nebulosidade a campo. Cobertura de céu limpo (0/8) –
Cobertura de céu parcialmente nublado (4/8) – Cobertura de céu nublado (8/8). Organização: Galvani (2010).

Quadro-guia ilustrado para a cifragem das nuvens - C L Sc - Stratocumulus Cu - Cumulos


St - Stratus Cb - Cumulonimbus
C L Sc - St - Cu - Cb
Presença de Cb com região superior
nitidamente fibrosa ou estriada Sc formado pela extensão do Cu
9 4

Presença de Cb Ausência de Cu

Ausência de Sc formado
pela extensão de Cu

Cb não apresentando a parte supe- Cu com dimensão vertical Cu ou Sc com bases em


rior nitidamente fibrosa ou estriada moderada ou grande níveis diferentes
2 8
3
Ausência de Cu e Sc
com bases em níveis
diferentes

Ausência de Cu com dimensão


vertical moderada ou grande

Cu com pequena dimensão vertical


ou Cu em farrapos, diferentes da Sc que não são formados St ou Sc esfarrapados que não são St esfarrapados ou Cu esfarrapados
do mau tempo, ou ambos pela extensão do Cu de mau tempo, ou ambos de mau tempo, ou ambos
1 5 6 7
Sérgio Fiori

Figura 5.3. Avaliação da tipologia da nebulosidade – nuvens baixas.

capítulo 5 – técnicas de climatologia 115


Quadro-guia ilustrado para a cifragem das nuvens - C M Ac - Altocumulus
As - Altostratus
Ns - Nimbostratus
1 C M Ac - As - Ns 9

Sérgio Fiori
As semitransparente Céu caótico

Ausência de Ac Presença de Ac

6
Ac formado pela
extensão de Cu ou Cb
Céu não caótico
2 8
As opaco, ou Ns Ac em forma de torres
ou Ac em tufos
Ausência de Ac em
forma de torres ou em tufos

Ausência de As e Ns
4
Ac variando continua-
mente na aparência
5
Ac invadindo o céu 7
Ausência de Ac formado As ou Ns
pela extensão de Cu ou Cb

Ac não invadindo o céu

7 3
Ac em dois ou Ac semitransparente Ac variando pouco
mais níveis predominando Ac opaco predominando
7
Ac num só nível

Figura 5.4. Avaliação da tipologia da nebulosidade – nuvens médias.

No site do Instituto Nacional de Meteorologia (INMET), órgão do gover‑


no federal ligado ao Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento,
responsável pela observação de superfície no Brasil, podem ser obtidas infor‑
mações e imagens detalhadas de todas as famílias e tipos de nuvens (<www.
inmet.gov.br>, em seguida Informações/Sobre Meteorologia/Nuvens).

OBSERVAÇÃO USANDO INSTRUMENTOS SIMPLES

Para observar a direção do escoamento de ar com grande flexibilidade


e agilidade, nada melhor que uma biruta de canudinho, que consiste num
canudo de refresco com uma pá de papel em forma de trapézio, grampea‑
da numa extremidade, enquanto na outra há um prego de construção. No
ponto de equilíbrio espeta­‑se um alfinete que tem sua ponta enrolada com
o auxílio de um alicate de ponta fina. Nessa argola é amarrado um metro de

116 práticas de geografia


Ci: Cirrus
Quadro-guia ilustrado para a cifragem das nuvens - C Cc: Cirrocumulus
H
Cs: Cirrostratus
Sérgio Fiori

3
Ci densos originários de Cb
C Cc somente ou Cc predominando
Ci - Cc - Cs sobre (Ci + Cs)
H 9
Ausência de Cc ou Cc menor
do que (Ci + Cs)

Ausência de Cs Cs presente

2
(Ci densos + Ci torres +
Ci em tufos) predominando Ci não invadindo
sobre os outros Ci o céu Cs não cobrindo Cs cobrindo todo o céu
o céu todo 7

Ausência de Ci denso
originário de Cb
Cs invadindo o céu

1 Ci em filamentos ou
Cs não excedendo Cs excedendo
ganchos predominando Ci invadindo o céu 45 graus 45 graus Cs não invadindo o céu
sobre os outros Ci 4 5 6 8

Figura 5.5. Avaliação da tipologia da nebulosidade – nuvens altas.

linha de pesca bem fina. A Figura 5.6 ilustra a construção dessa biruta. A
despeito da simplicidade, este instrumento é muito sensível e extremamente
útil, quando se investiga o escoamento de ar próximo à superfície, sobretudo
quando a velocidade é pequena e/ou investiga‑se as linhas de fluxo no entor‑
no ou entre obstáculos.
Rafael Sato

Rafael Sato

grampo grampo

Figura 5.6. Construção da biruta de canudinho.

Figura 5.7. Biruta de


canudinho em uso.

capítulo 5 – técnicas de climatologia 117


Noélia Ipê
armanezado, determina­‑se a altura da chuva
em milímetros (mm) – importante recordar que
1 mm de chuva equivale a 1 litro de água por
cada metro quadrado de terreno. Com um tubo
de PVC com diâmetro constante na seção de
coleta e armanezamento, pode­‑se, com auxílio
de uma régua, obter a altura da chuva medindo
diretamente a altura da lâmina­‑d’água no inte‑
rior do tubo de PVC (Figura 5.8). O pluviômetro
deve estar adequadamente nivelado e em local
aberto. Pequenas perdas por evaporação podem
ocorrer devido à exposição da lâmina de água
à radiação solar, contudo esse erro não seria
maior do que a precisão mínima obtida no ato
da medida com uma régua comum.
As informações pluviométricas são extrema‑
mente importantes, pois, além de permitirem a
previsão de enchentes e deslizamentos de en‑
costa, subsidiam o planejamento de diversas
atividades, como a agricultura, o turismo, a ge‑
ração e o uso racional de energia (de hidrelétri‑
cas), circulação de automóveis em cidades (ro‑
Figura 5.8. Pluviômetro experimental indicando a numeração para
controle dos dados e a régua em seu interior. dízios de veículos ocorrem em época de estio),
entre outras.

Outro atributo5 do clima, de fácil quantifi‑


cação, é a precipitação pluvial (chuva). A chuva
pode ser avaliada com instrumentos específicos OBSERVAÇÃO USANDO
denominados de pluviômetros, quando medem INSTRUMENTOS ANALÓGICOS
somente o total de chuva, e pluviógrafos, quan‑ PADRONIZADOS
do registram início, total e término do evento
chuvoso. Os pluviógrafos não se aplicam a tra‑ Psicrômetro
balhos de campo de curta duração (um dia, por
exemplo), pois demandaria tempo em demasia Para determinar a umidade relativa do ar
para sua devida instalação. Os pluviômetros são (Psicrometria), a técnica mais usual consiste
bem mais simples e de fácil operação e podem em determinar a diferença de temperatura en‑
ser confeccionados com um tubo de PVC. Na tre dois termômetros. O primeiro é chamado
realidade, o total de chuva (H) é um volume termômetro de bulbo seco e serve para deter‑
(V) que foi coletado por uma área (A), então: minar a temperatura do ar. O segundo é cha‑
H=V/A. Assim, conhecendo­‑se a área de cole‑ mado termômetro de bulbo úmido e serve para
ta (cm2 ou m2) e o volume (mililitros ou litros) determinar a depressão psicrométrica. Este tem
o bulbo envolto com um tubo de tecido (mucelin)
cuja extremidade permanece mergulhada num
5 Também definido como elemento clima. recipiente com água. A água que sobe pelas fi‑

118 práticas de geografia


bras do tecido, por capilaridade, vai evaporando. se aumenta a depressão psicrométrica para uma
Ao evaporar, a água consome calor do resto do mesma temperatura de bulbo seco, a umidade
líquido e, por conseguinte, do bulbo do termô‑ relativa do ar decresce.
metro, reduzindo a temperatura. Quanto menor
a umidade relativa do ar, maior a taxa de evapo‑ Sabe­‑se que a radiação visível e a termal in‑
ração e maior a diferença entre o termômetro de terferem sobremaneira nas medições de tem‑
bulbo seco e aquele de bulbo úmido, portanto, peratura e umidade do ar. Para evitar esse in‑
quanto maior a depressão psicrométrica, menor conveniente, procura­‑se evitar a radiação solar
a umidade relativa do ar e vice­‑versa. Quando a direta e ventilar os bulbos dos termômetros. A
depressão psicrométrica tende a zero, a umidade maneira mais simples de se obter isso é girando
relativa do ar tende a 100%. vigorosamente os termômetros fixados a uma
A depressão psicrométrica também depende base, com um cabo ou uma cordinha. Este é
da pressão atmosférica. Para uma estimativa da o chamado psicrômetro de funda (Figura 5.9).
umidade relativa com pequena precisão, este O instrumento mais preciso é o psicrômetro de
fato pode ser negligenciado e considera­‑se ape‑ aspiração, que consiste num par de tubos du‑
nas a parcela da pressão que é devida ao efeito da plos que abrigam os bulbos dos termômetros,
altitude do ponto de observação. Como a função por onde flui ar por ventilação forçada acionada
que relaciona essas variáveis não é linear, con‑ por mecanismo de ventoinha movido a bateria
vém o uso de ábacos ou tabelas. A Tabela 5.2, ao (Figura 5.10).
final do capítulo, apresenta uma tabela sintética
para uso em levantamento expedito de campo
em altitudes entre 600 e 800 m em condições de Termômetro de máxima e mínima
temperatura e umidade comuns na maior parte
do território brasileiro. A Tabela 5.2 deverá ser A temperatura do ar diária apresenta mo‑
utilizada da seguinte maneira: mentos de máxima (por volta de 14 horas) e
¾¾após a leitura dos termômetros de bulbo mínima (por volta de 5 horas, dependendo
seco e úmido, determina­‑se a depressão psicro‑ da estação do ano e da latitude). Para tanto,
métrica (em alguns casos, quando o bulbo úmi‑ com um termômetro semelhante ao descri‑
do não está devidamente umedecido, a depressão to anteriormente, o observador teria que ficar
psicrométrica pode ser negativa e isso, fisica‑ constantemente (em intervalos de no mínimo
mente, não existe na atmosfera, pois sempre uma hora) anotando os valores de temperatu‑
o valor de temperatura obtida no bulbo úmido ra do ar. Ao final do dia, com a curva horária,
será menor ou, no máximo, igual à temperatura determinar­‑se­‑ia então a temperatura máxima
de bulbo seco); (Tmax) e mínima do ar (Tmin). Para evitar esse
¾¾por exemplo, para uma temperatura de bulbo inconveniente, utilizam­‑se de termômetros de
seco (ts) de 25 °C e uma temperatura de bul‑ temperatura máxima e mínima (Figura 5.11).
bo úmido (tu) de 25 °C, a depressão (ts­‑tu) será Esse conjunto dispõe de um filete que caminha
zero e, portanto, a umidade relativa do ar está no sentido do aumento/redução da temperatura
em 100%. Perceba que essa coluna nem existe do ar. No momento em que se atinge a Tmax
na Tabela 5.2 ao final do capítulo. Outro exem‑ ou a Tmin, o filete não retorna com a coluna
plo: mantendo ts em 25 °C e tu reduzindo para de mercúrio e o observador pode ler a Tmax ou
22 °C, a depressão psicrométrica será de 3 °C e a Tmin no dia seguinte. Normalmente a Tmax
a umidade relativa do ar será de 76%. Percebe­ é lida à noite e a Tmin nas primeiras horas da
‑se, pela consulta à Tabela 5.2, que à medida que manhã.

capítulo 5 – técnicas de climatologia 119


Fotos: Rafael Sato
Figura 5.9. Psicrômetro de funda (recomendado para trabalho Figura 5.10. Psicrômetro de aspiração.
de campo).

Figura 5.11. Termômetro de máxima e mínima. Figura 5.12. Heliógrafo Campbell­‑Stokes.

120 práticas de geografia


A diferença entre a temperatura máxima e a solar consiste numa lente esférica ajustada de
mínima de um local no mesmo dia denomina­ tal forma que na distância focal há um semianel
‑se amplitude térmica diária (também pode ser metálico com um trilho no qual é inserida uma
mensal ou anual). Esse dado é muito significati‑ tira de papel­‑cartão.(Figura 5.12). Na presença
vo, pois fornece­‑nos outras informações sobre a de radiação solar direta, a luz concentrada tra‑
paisagem. Por exemplo, em desertos quentes e ça um rastro, queimando o cartão, chamado de
secos, a amplitude térmica é de cerca de 50 ºC fita heliográfica (Figura 5.13). A fita heliográfi‑
(50 ºC de dia e 0 °C à noite, ou menos), o que in‑ ca é queimada quando a radiação solar direta
fluencia na dinâmica da paisagem, a exemplo do incidente é superior a 100 W/m 2, o que significa
intemperismo físico (calor­‑frio) que transforma dizer que em alguns instantes do dia ocorrerá ra‑
as rochas em areia. Já, nas áreas florestadas, a diação, mas esta não será transferida para a fita
amplitude térmica é reduzida em função da eva‑ heliográfica, subestimando o número de horas
potranspiração da própria floresta e da elevada de brilho solar. O heliógrafo fornece o número
umidade absoluta do ar, a qual tem a função de de horas de brilho solar e não a intensidade de
manter o equilíbrio térmico. Nesses ambientes, energia incidente (embora exista uma relação
a associação entre água e temperatura acelera entre essas variáveis). Conforme a elevação do
todos os processos bioquímicos e biofísicos, ra‑ Sol vai avançando, sua imagem projetada no car‑
zão pela qual se desenvolvem solos profundos tão também avança. Como o Sol avança cerca de
e grande biodiversidade. Em áreas próximas à 15 graus por hora, é possível avaliar quanto e em
costa (Vitória/ES, por exemplo), a amplitude que período do dia houve insolação direta. Em
térmica tende a ser mais reduzida do que nas trabalhos de campo, o heliógrafo dificilmente
áreas mais adentradas no continente (Cuiabá/ poderá ser utilizado, pois sua instalação (nive‑
MT), devido ao efeito de continentalidade (em lamento e orientação do eixo que contém a fita
Cuiabá) e maritimidade (em Vitória). heliográfica no sentido leste­‑oeste) demandaria
tempo não disponível nesses trabalhos.
A avaliação da radiação solar em um deter‑
Heliógrafo minado lugar é um dado importante, pois pode
subsidiar o planejamento de diversas atividades,
O mais simples dos instrumentos registrado‑ entre elas o turismo e a agricultura, além da ge‑
res é também um dos mais antigos e dos quais ração de energia elétrica por células fotovoltaicas
a solução construtiva não se alterou em mais ou simples geração de calor (placas solares para
de um século. O registrador de horas de brilho aquecimento de água).
Reprodução

Figura 5.13. Fita heliográfica para um dia com pouca cobertura de nuvens. Fonte: Galvani (2005).

capítulo 5 – técnicas de climatologia 121


Rafael Sato
Registradores analógicos
com pena e tambor

Os registradores analógicos, via de regra, con‑


sistem num tambor envolto por um diagrama em
papel que gira em torno de seu próprio eixo, im‑
pulsionado por um cronômetro mecânico a corda
ou eletromecânico. Uma pena metálica conduz
tinta através de um capilar que vai traçando uma
curva no diagrama conforme o tambor gira (Fi‑
gura 5.14). A pena, por sua vez, normalmente é
fixada na extremidade de uma haste que descreve
um arco de circunferência a partir de um eixo. A
haste funciona como um amplificador mecânico
de um pequeno deslocamento imposto por algum
elemento cujas dimensões variam em função do
fenômeno ou processo para cuja medida o instru‑
mento foi desenvolvido. No caso dos termógrafos,
é comum que haja um elemento metálico cujo
coeficiente de dilatação seja elevado em relação
Figura 5.14. Actinógrafo bimetálico de Robtzisch.
aos metais do resto do instrumento. No caso do
barógrafo, há uma cápsula de vácuo constitu‑
ída por dois discos estampados em aço muito e, portanto, de dilatação. Esse esforço de dilata‑
delgado cujas bocas se ajustam perfeitamente. ção diferencial entre as duas placas provoca um
A variação da pressão atmosférica externa resul‑ distanciamento que é transmitido à pena. Em
ta em variação da altura da cápsula, chamada trabalhos de campo, o actinógrafo apresenta os
aneroide. Os higrógrafos 6 mais confiáveis são mesmos problemas que o heliógrafo.
baseados num feixe de fios de cabelo padroniza‑ Em geral, os registradores analógicos são
do. O teor de umidade dos fios de cabelo tende exigentes quanto à horizontalidade da base. Os
a variar em função da umidade relativa do ar e mais exigentes possuem parafusos de ajuste fino
seu comprimento tende a variar de acordo com e níveis de bolha. Uma alavanca afasta a pena do
seu teor de umidade. O actinógrafo7 possui duas tambor para a troca do diagrama e, sempre que
placas metálicas justapostas e voltadas para o o registrador for transportado, mesmo que seja
zênite, no interior de uma cúpula de vidro. Uma por alguns metros, a pena deve estar afastada do
é revestida de tinta branca e a outra, de negro de tambor. Se o transporte for mais longo, além de
fumo. Quanto maior a intensidade da insolação, afastada, a pena deve ser fixada com um gram‑
maior a diferença de aquecimento entre as duas po, que normalmente fica na haste do próprio
afastador. No tambor, há uma fivela de encaixe
para fixação do diagrama (Figura 5.15). Normal‑
6 Os higrágrafos (do grego, hygrós = úmido + gráphein =
mente, o tambor possui uma guia, na qual o lado
escrever) são instrumentos que medem e registram a correspondente do diagrama deve ficar encosta‑
umidade relativa do ar. do, garantindo a validade da calibração quando
7 Os actinógrafos (do grego, aktís = raio + gráphein =
escrever) são instrumentos que medem e registram a da troca dos diagramas. A escala dos diagramas
radiação solar global. para instrumentos de rotação semanal normal‑

122 práticas de geografia


Rafael Sato

Reprodução
Figura 5.15 Detalhe de tambor, fivela e pena num registrador. Neste Figura 5.16. Gráfico de um termógrafo indicando os horários de
exemplo, o instrumento registrador é um termógrafo. temperatura mínima do ar (15,0 °C, às 6 horas) e a temperatura
máxima (37,5 °C, às 14 horas). Para esse dia, a amplitude térmica foi
de 22,5 o°C. Localidade: Piracicaba/SP. Fonte: Sentelhas (2007).
Rafael Sato

Reprodução
Figura 5.17 / Figura 5.18. Detalhe de diagrama com o barógrafo e nanômetro com a tampa aberta.

mente inicia na segunda­‑feira às 7 horas, enquan‑ rotação do tambor. Tanto nos modelos mecâni‑
to a escala dos diagramas mensais e bimensais cos quanto nos modelos eletromecânicos há uma
iniciam no dia primeiro do mês. No entanto, a chave para calibragem da velocidade do tambor.
não ser em estações meteorológicas, normalmen‑ A escala gráfica dos diagramas normalmen‑
te o momento de instalação não coincide com te possui linhas de grade com precisão um dí‑
o início da escala temporal do diagrama. A co‑ gito menor que a precisão do instrumento8. Em
locação, portanto, inicia com a identificação do geral, os instrumentos e diagramas são proje‑
instrumento e do local de instalação no verso do tados para que, entre a menor quantidade de
diagrama e com a anotação de data e hora com papel e a precisão desejada, haja a melhor rela‑
precisão de minutos na extremidade em que será ção custo­‑benefício. Nesses casos, a menor di‑
iniciado o registro. Quando da retirada do dia‑
grama, deve ser imediatamente anotada a data e
a hora na extremidade em que termina o registro.
8 Com acuidade visual normal e algum treinamento, uma
Isso permite o ajuste da escala temporal e que, pessoa consegue a leitura com precisão de quartos da
posteriormente, seja conferida a velocidade de menor divisão de grade no diagrama.

capítulo 5 – técnicas de climatologia 123


visão de grade no diagrama mede 1 milímetro. Os instrumentos digitais usados em Clima‑
A leitura se faz com o auxílio de uma lupa de tologia podem ser classificados em dois tipos:
bancada, chamada nanômetro, que possui um portáteis e fixos. Os instrumentos digitais fixos
retículo em décimos de milímetro (Figuras 5.17 normalmente são instalados agrupados e co‑
e 5.18). nectados a um único sistema de alimentação
e armazenamento de dados. O sistema é cha‑
mado de Estação Meteorológica Automática
Fotografia com objetiva (EMA). Este capítulo não tratará das EMA,
“olho de peixe” embora seja desejável sua instalação temporá‑
ria em trabalhos de campo com duração maior
Interessa à Climatologia, especialmente em que alguns dias e em alguns casos possam ser
escalas maiores, o estudo das obstruções da usadas sobre plataformas móveis (embarcações
abóbada celeste, seja pelos objetos implantados e veículos).
à superfície, pelo relevo, ou mesmo pela nebulo‑ Os instrumentos digitais portáteis9, em ge‑
sidade. Nesse caso, costuma­‑se registrar a abó‑ ral, possuem o transdutor num elemento sensor
bada com uma objetiva “olho de peixe” (Figura separado por um cabo de cerca de um metro do
5.19), que consiste numa lente capaz de projetar corpo do instrumento, o qual contém baterias,
em um círculo, no plano do filme, todo o cam‑ circuito eletrônico e visor. Isso permite que,
po visual de um hemisfério visual a partir do com o braço estendido, o sensor seja posicio‑
ponto de observação. Em geral, posiciona­‑se a nado o mais longe possível do corpo do obser‑
máquina fotográfica na vertical com auxílio de vador, enquanto, com o outro, o visor seja colo‑
um tripé, de forma que o centro da lente aponte cado numa posição adequada para sua leitura.
para o zênite. Deve­‑se colocar no campo visual No caso de grandezas em que a radiação solar
da lente uma vara em pé, com cor ou sinal que seja relevante, deve­‑se atentar para a posição do
indique a direção norte em relação ao ponto em sensor em relação ao Sol e ao observador (Figu‑
que foi tomada a foto. A avaliação da proporção ras 5.21 a 5.24, na página 126).
de obstrução pode ser feita pela contagem num Existem vários modelos de instrumentos
ábaco, como o da Figura 5.20, impresso numa digitais para determinar a umidade relativa do
base transparente, ou digitalmente usando ar. Dentre os portáteis, os mais difundidos, em
qualquer software para tratamento de imagens função do preço acessível, são baseados numa
orbitais. membrana higroscópica cuja condutância
elétrica varia em função de seu teor de água.
Embora muito práticos e de fácil manejo, deve­
‑se atentar para que as baterias sejam sempre
OBSERVAÇÃO USANDO novas (a umidade medida tende a ser menor
INSTRUMENTOS DIGITAIS que a real conforme as baterias vão perdendo

Nas últimas décadas, houve uma espécie de


revolução técnica na observação instrumental
9 Há no mercado instrumentos digitais portáteis que me‑
dos atributos climáticos com a massificação e o dem várias grandezas simultaneamente (temperatura,
barateamento de tecnologias digitais. Em geral, umidade relativa, velocidade do vento e luminosidade,
os instrumentos possuem sensores eletrônicos por exemplo). Antes de adquirir algum instrumento,
deve­‑se estudar cuidadosamente a sua precisão para
cujas propriedades elétricas variam em função cada elemento medido, pois é comum que seja satisfa‑
de algum processo ou fenômeno físico. tória para alguns elementos e não para outros.

124 práticas de geografia


Rafael Sato
voltado para a atmosfera, atentando­‑se para o
ângulo cônico a partir do instrumento, do qual
provém a luz captada pelo sensor, em geral 60º
ou 90º, dependendo do modelo.
Em função do instrumento usado, o sensor
não deve ser voltado diretamente para o Sol, pois
são concebidos para uso em ambientes internos.
Por isso, sempre deve ser consultada sua docu‑
Figura 5.19. Objetiva “olho de peixe”.
mentação antes de usá­‑lo.
O anemômetro analógico consiste em um me‑
didor da distância percorrida pelo vento em um
determinado tempo. A velocidade do vento é
calculada considerando a distância percorrida
pelo vento em um intervalo de tempo registrado
com um relógio (m/s ou m/min). Normalmen‑
te, essa observação é realizada a dois: um com
Rafael Sato

o anemômetro e outro com um relógio para


marcar um determinado intervalo de tempo
(um minuto, dois minutos). Após determinado
intervalo de tempo (um minuto, por exemplo)
observa­‑se a distância percorrida no anemôme‑
tro. Se a distância for, por exemplo, de 120 m,
então a velocidade do vento é de 120 m/min ou
2 m/s.
Esses instrumentos, pelas informações que
fornecem, são muito utilizados na arquitetura,
Figura 5.20. Diagrama para estimativa do coeficiente de obstrução
de céu. Fonte: Azevedo, 2005.
planejamento de interiores e engenharia.
Finalmente, a despeito da aparente prati‑
cidade, algumas regras básicas devem sempre
a carga) e para o acúmulo de pó no transdutor ser levadas em conta com relação às baterias de
(que tende a majorar as medidas). Deve­‑se evi‑ instrumentos digitais portáteis. A maior parte
tar expor o elemento sensor à insolação quan‑ das avarias nesses instrumentos resulta do arma‑
do determinar a umidade, pois a radiação solar zenamento do instrumento com as baterias. E a
aquece o transdutor favorecendo a evaporação maior parte dos erros e imprecisões nas medidas
e resultando em menores valores de umidade deriva da variação da carga das baterias. Ao pre‑
relativa do ar. Principalmente em levantamen‑ parar uma jornada de trabalho de campo, os ins‑
tos expeditos, deve­‑se atentar para a evapo‑ trumentos devem estar sem baterias, pois devem
transpiração do próprio corpo do observador, ter sido armazenados nessa condição. Deve­‑se
que tende a aumentar devido à atividade física identificar cada uma das baterias e aferir sua
intensa. tensão com um voltímetro. Em seguida, deve ser
O luxímetro portátil é usado para determinar a registrado o instrumento que a recebeu. Sem‑
luminosidade do ambiente. A técnica é bastante pre que se encerra uma jornada de trabalho de
simples, mas devem ser tomados alguns cuida‑ campo, o instrumento deve ser testado e limpo
dos. Determina­‑se a luminosidade com o sensor imediatamente. As baterias devem ser removidas

capítulo 5 – técnicas de climatologia 125


Rafael Sato
1

Figura 5.21 / Figura 5.22 / Figura


5.23 / Figura 5.24. Posição correta
para uso de alguns instrumentos
portáteis: (1) anemômetro digital, (2)
3 termohigrômetro, (3) luxímetro e (4)
anemômetro analógico.

126 práticas de geografia


e sua tensão medida e anotada10. Embora alguns metabólicos. A temperatura do corpo humano
instrumentos indiquem quando a tensão da ba‑ situa­‑se em torno de 37 ºC, sendo o limite infe‑
teria está baixa, não se deve fiar nesse expedien‑ rior 32 ºC e o superior 42 ºC para a sobrevivência
te, pois, na prática, há uma grande chance de só (frota; shiffer, 2001). No limite inferior da
se atentar para o fato depois de algum tempo ou zona de conforto (frio), o organismo reage cau‑
sequer percebê­‑lo. Em campo, isso ocorre por sando vasoconstrição, arrepio e tiritar (tremer);
várias razões: pode­‑se estar cansado, com sede, já no outro extremo da zona de conforto (calor)
com fome, com calor, com frio, distraído com podem ocorrer vasodilatação e exsudação.
outros aspectos etc. Além disso, deve­‑se evitar Alguns resultados dos primeiros estudos de
abrir o corpo do instrumento em campo para conforto (datados de 1916) indicaram que, para o
não entrar sujeira, insetos, água ou as ácidas e trabalho físico, o aumento da temperatura de 20
salgadas gotas de suor do próprio observador. ºC para 24 ºC diminuiu o rendimento em 15%; a
Se, no final do dia, perceber­‑se que a bateria 30 ºC de temperatura ambiente, com umidade
está fraca e, então, lembrar­‑se que a última vez relativa do ar (UR) em 80%, o rendimento caiu
que se havia prestado atenção a esse “detalhe” 28%; nas minas da Inglaterra, o trabalho do mi‑
havia sido pela manhã, restará tanta dúvida com neiro rendia 41% menos quando a temperatura
relação à confiabilidade dos dados coletados que efetiva (TE) era de 27 ºC em relação à TE de 19
a jornada de trabalho poderá ter sido em vão. Por ºC. Também foi detectado que há uma relação
isso, deve­‑se usar sempre baterias novas. entre os índices de conforto térmico e os aci‑
Por último, a mais importante de todas as dentes de trabalho (frota; shiffer, 2001). É
regras para o uso de instrumentos em trabalho evidente, então, que o nível de conforto térmico
de campo: evitar utilizar um instrumento sem influencia o rendimento escolar dos alunos. Por
ter se familiarizado com seu mecanismo, pecu‑ isso, vamos propor adiante um exercício de ava‑
liaridades, funcionamento, limites de uso. Testar liação de conforto na sala de aula.
e treinar antes é fundamental para evitar proble‑ Uma maneira simples de analisar o conforto
mas e dúvidas no campo. térmico é por meio da avaliação da temperatu‑
ra e umidade relativa do ar (conforme descrito
anteriormente, com uso do psicrômetro). Após
avaliar a temperatura e a umidade relativa do ar,
CONFORTO TÉRMICO determina­‑se o índice de temperatura e umidade
(THI) com uso da equação, a seguir, sendo Ts
O conforto térmico e higrométrico expres‑ a temperatura do ar em ºC, e UR a umidade
sa o bem­‑ estar do ser humano em função das relativa do ar.:
condições do meio. O indivíduo pode sentir
THI = Ts – (0,55 – 0,0055 ∙ UR) ∙ (Ts – 14,5)
conforto ou desconforto em função de tempe‑
raturas elevadas ou reduzidas e também por am‑ O resultado de THI é dado em ºC (funari,
bientes muito úmidos ou secos. O homem é um 2006). Com esse resultado, consulta­‑se a Tabela
ser homeotérmico, ou seja, a sua temperatura é 5.3 na página 128, para avaliar a situação de
mantida relativamente constante por processos conforto ou desconforto pelo frio/calor. Para
exemplificar, temos duas situações:
a) quente e úmida: Ts = 32 °C e UR = 95%. Para
10 Esta rotina também evita que o instrumento seja guar‑ esta condição o THI é igual a 32 °C, ou seja,
dado ligado. Por incrível que pareça, isso ocorre com
muita frequência, sobretudo em trabalhos de campo consultando a Tabela 5.3 temos uma situação de
longos e/ou que exigem esforço físico. “desconforto pelo calor”;

capítulo 5 – técnicas de climatologia 127


Tabela 5.3 – Faixas de intervalo do índice de conforto (ICT) em função do THI

Classes ICT (ºC) Característica


1 < ou = 5,9 Resfriamento muito elevado
2 6,0 - 8,9 Resfriamento elevado
3 9,0 - 11,9 Frio
4 12,0 - 14,9 Desconforto pelo frio
5 15,0 - 17,9 Leve desconforto pelo frio
6 18,0 - 20,9 Limite inferior da zona de conforto
7 21,0 - 23,9 Centro da zona de conforto
8 24,0 - 26,9 Limite superior da zona de conforto
9 27,0 - 29,9 Leve desconforto pelo calor
10 30,0 - 32,9 Desconforto pelo calor
11 > ou = 33,0 Aquecimento elevado
Fonte: Funari, 2006. Organizado: Armani, 2006.

b) fria e seca: Ts = 11 °C e UR = 45%. Para esta outra condição o THI é igual


a 14 °C, ou seja, “desconforto pelo frio”.

Esse é um procedimento relativamente simples que fornece um bom indica‑


dor das condições de conforto e desconforto das pessoas, tanto por frio e calor
quanto por umidade alta ou baixa. Sabe­‑se que esse índice depende de cada
pessoa (algumas sentem mais frio, outras mais calor), pois são índices subjetivos.
Essas faixas de conforto e desconforto também são diferentes para as várias la‑
titudes e condições climáticas brasileiras. Diante de uma queda de temperatura,
certamente um piauiense começará a sentir desconforto térmico mais rapida‑
mente do que um morador da serra gaúcha. Os brasilienses, por sua vez, cer‑
tamente sentirão maior desconforto térmico pela alta umidade em Manaus do
que os próprios manauaras. Mesmo assim, a Tabela 5.3 serve como parâmetro.

IMAGENS DE SATÉLITE E
INFORMAÇÕES DA IMPRENSA

Diariamente, os jornais escritos e televisionados apresentam em seus qua‑


dros a previsão do tempo para o(s) próximo(s) dia(s). Geralmente são previsões
de tempo bastante generalizadas, em que o apresentador, em alguns segundos,
mostra a previsão para o país inteiro. Claro que isso resulta em generalizações
que nem sempre expressam as diferentes particularidades dos tipos de tempo
previstas para todo o país. O fato é que a previsão do tempo é uma informação
que passou a fazer parte do cotidiano de todos. É comum olharmos a previsão
do tempo para sabermos que roupa vestir, se levamos guarda­‑chuva ou não,
se viajamos no fim de semana etc. As imagens de satélite também ganharam
espaço nessas mídias. A disponibilidade de imagens de satélite (tanto para
fins meteorológicos quanto para outras atividades) aumenta a cada dia. Na

128 práticas de geografia


Reprodução
internet, nos sites especializados de previsão do
tempo, é comum encontrarmos imagens quase
em tempo real. A Figura 5.25 apresenta uma ima‑
gem de satélite do dia 26 de fevereiro de 2010, às
5h45min. Observa­‑se, pelos tons brancos, grande
quantidade de nebulosidade sobre as regiões Nor‑
te, Centro­‑Oeste e Sudeste do Brasil. É possível
observar também grande nebulosidade sobre o
estado de Minas Gerais e sobre o Oceano Atlân‑
tico. Esse alinhamento de nuvens é indicativo do
deslocamento de um sistema frontal. Particular‑
Figura 5.25. Imagem de satélite do dia 26 de fevereiro de 2010, às
mente, esse sistema frontal resultou na redução 8h45Z (Z significa tempo Zulu, ou tempo médio em Greenwich, ou
da temperatura do ar em cerca de 12 °C (a tem‑ seja três horas a mais que a hora local, portanto 5h45min no horário
de Brasília). Fonte: Laboratório MASTER, disponível em <http://
peratura máxima do ar estava oscilando em 32 °C www.master.iag.usp.br> (acesso: ago/2010).
e, após a passagem dessa frente fria, reduziu para
20 °C) na região metropolitana de São Paulo. cia obedeceu à ordem de apresentação dos dados
Perceba que, após a passagem da frente fria, pre‑ e visa apresentar um check list do que levar em
domina ausência de nebulosidade. Interessante trabalhos de campo quando se pretende avaliar
atividade é acompanhar as imagens e associá­‑las atributos do clima em uma escala de tempo me‑
com as condições de tempo observadas e regis‑ teorológico.
tradas na região. Essas imagens podem ser vistas O que se espera, ao final deste item, é for‑
nos seguintes sites: necer aos professores de Geografia, alunos de
¾¾Centro de Previsão de Tempo e Estudos Cli‑ graduação em Geografia e demais profissionais
máticos (CPTEC), do Instituto Nacional de Pes‑ de áreas afins os conceitos básicos sobre instru‑
quisas Espaciais (INPE), no endereço: <www. mentação meteorológica, suas aplicações, limi‑
cptec.inpe.br> (clique em satélites); tações e problemas, visando facilitar a vida do
¾¾Instituto Nacional de Meteorologia (INME‑ usuário em tarefa tão difícil que é a realização
TE), no endereço: <www.inmet.gov.br> (clique de trabalhos de campo.
em imagens de satélite); É importante ressaltar o quanto o clima
¾¾Laboratório MASTER (Meteorologia Apli‑ influencia nossa vida cotidiana nas dimensões
cada a Sistemas de Tempo Regionais), do Insti‑ sociais, econômicas, culturais e em todas as
tuto Astronômico e Geofísico da Universidade escalas, desde as mudanças climáticas globais
de São Paulo (IAG), no endereço: <www.master. até o simples sair de casa para uma jornada de
iag.usp.br>. trabalho ou em férias. O Brasil é um país privile‑
giado, pois os climas são favoráveis para muitas
Na Figura 5.25, o termo GOES­‑12 IR sig‑ culturas (de alimentos, biocombustíveis), além
nifica: Geostationary Operational Environmental de apresentar grande potencial para a geração
Satellite – Satélite Ambiental de Operação Ge‑ de energias limpas tradicionais (hidrelétricas)
ostacionária; o número 12 indica que é a décima e alternativas (solar e eólica). Ao refletir sobre
segunda versão do equipamento e IR indica que Climatologia com os alunos, descobre­‑se cada
é o canal infravermelho (Infra­‑Red) do satélite. vez mais ligações entre este assunto e a realida‑
Para finalizar este capítulo, apresenta­‑se o de deles, tornando o aprendizado muito mais
quadro síntese (Tabela 5.4) com os principais profícuo. E praticar Climatologia por meio de
instrumentos apresentados no texto. A sequên‑ atividades é um exercício envolvente e prazeroso.

capítulo 5 – técnicas de climatologia 129


Tabela 5.4 – Principais instrumentos e características gerais

Nome do Recomendado em trabalho de Aquisição


Atributo medido Mede Registra
instrumento campo viável

Sim (**).
Sim. O problema é que em
É possível
Pluviômetro Precipitação pluvial (chuva). Sim Não dias chuvosos normalmente os
construir e o
trabalhos de campo são adiados.
instrumento.

Temperatura de bulbo seco Sim. Fácil manuseio em campo.


Psicrômetro e úmido. Estimativa de Sim Não Cuidado ao girar o psicrômetro, Sim (**)
umidade relativa do ar. pois ele pode soltar­‑se.

Termômetro Sim Sim. Necessário mais de um dia


Temperatura máxima e
de máxima e Sim (não em em campo para obter as medidas Sim(**)
mínima do ar.
mínima papel) necessárias.

Número de horas de brilho Não. Difícil nivelamento e


Heliógrafo Sim Sim Não
solar. orientação.

Não. Difícil nivelamento e


Actinógrafo Radiação solar global. Sim Sim Não
operação.

Não. Difícil nivelamento e


operação. Recomenda­‑se uso de
Barógrafo Pressão atmosférica. Sim Sim Não
um altímetro digital ou analógico
que apresenta esse recurso.

Fotografia
com objetiva Sim. Principalmente em estudos
Obstrução do céu. Sim (*) Sim (*) Não
“olho de abaixo do dossel da vegetação.
peixe”

Anemômetro Sim. Cuidados com as baterias e


Velocidade do vento. Sim Não Sim (***)
digital orientação do sensor.

Termômetro
Temperatura do ar. Sim Não Sim. Cuidado com as baterias. Sim (***)
digital

Higrômetro
Umidade relativa do ar. Sim Não Sim. Fácil manuseio em campo. Sim (***)
digital

Sim. Cuidados especiais no


Luxímetro Luminosidade. Sim Não Sim (***)
nivelamento.

Sim. Necessita de uma medida


simultânea de tempo com um
Anemômetro
Velocidade do vento. Sim Não relógio, pois o mesmo fornece Sim (***)
analógico
somente a distância percorrida
pelo vento.

(*) Necessita revelação da foto e determinação da área obstruída.


(**) Viabilidade de aquisição a custo reduzido de cerca de R$ 50,00.
(***) Viabilidade de aquisição a custo de cerca de R$ 300,00.

130 práticas de geografia


NA SALA DE AULA

Atividade 1

Após a parte teórica ser ministrada em sala, riação espacial da chuva, ou seja, há dias em que
dirija­‑se ao pátio da escola com os alunos e faça chove no bairro A e não chove no bairro B.
a observação da cobertura de nuvens. Mesmo Recomendação: instale o pluviômetro em lo‑
que as tipologias das nuvens sejam de difícil cal aberto com pelo menos 10 m de área livre em
identificação, somente a observação da cober‑ todos os lados; a altura deve ser de 1,5 m acima
tura de nuvens já despertará o interesse dos do solo e as leituras efetuadas sempre no mesmo
alunos para o tema da aula. Se possível, realize horário, em geral às 7 horas da manhã.
novamente essa observação algumas horas de‑ Após, ou durante essas duas atividades, dis‑
pois ou, como atividade extraclasse, solicite que cuta com os alunos os seguintes pontos:
avaliem a cobertura de nuvens em outros horá‑ ¾¾Nos trópicos úmidos, a influência do calor
rios, dias e meses do ano, envolvendo os alunos na dinâmica atmosférica sobre os processos cli‑
em observação contínua. Interessante salientar máticos explicaria o fato de 70% das chuvas nos
que na primavera e no verão a dinâmica da alte‑ trópicos (centro­‑sul do Brasil, de um modo geral)
ração da cobertura de nuvens é bastante rápida. ocorrerem entre outubro e março (para outras
Quase sempre, pela manhã, têm­‑se condições regiões do Brasil é necessário recontextualizar).
de céu limpo e, no meio da tarde para o final ¾¾Desse fato, extraem­‑se informações impor‑
da tarde, céu com cobertura total ou parcial de tantes que podem ser utilizadas no planejamento
nuvens. territorial. Sabe­‑se, por exemplo, que as chuvas
torrenciais ocorrem no período mais quente, o
que permite a prevenção de enchentes e desliza‑
Atividade 2 mentos de encosta, além do planejamento agrí‑
cola, turístico, energético (hidrelétricas) etc.
Instale um pluviômetro semelhante ao da ¾¾Em que época do ano a qualidade do ar tende
Figura 5.8 em um local aberto no pátio da ins‑ a ser melhor nas cidades? Por quê?
tituição. Como descrito anteriormente, após a
ocorrência de uma chuva, meça o total de chuva
com uma régua. Para isso, basta introduzir a Atividade 3
régua na vertical dentro do pluviômetro e ava‑
liar a altura da água. Em seguida elimine a água Uma atividade interessante em sala de aula
para outra leitura. Como a régua é graduada é avaliar a direção do fluxo de ar. Posicione um
em centímetros, basta multiplicar por 10 e terá instrumento similar ao da Figura 5.6, página
o total de chuva em milímetros (mm) ou litros 117, na porta da sala de aula, próximo ao piso,
por metro quadrado. Por exemplo, se a altura da e outro acima de sua cabeça. Observe que o ar
água dentro do pluviômetro foi de 3,6 cm, isso quente tende a sair da sala pela parte superior da
equivale a 36 mm de chuva. porta (a biruta vai indicar ar saindo da sala) e, na
Como atividade extraclasse é possível cada parte inferior, geralmente, ar mais frio entrando
aluno medir a chuva em sua residência e depois na sala (a biruta vai posicionar­‑se ao contrário
comparar os dados. Isso ajuda a entender a va‑ daquela na parte superior). Isso é interessante

capítulo 5 – técnicas de climatologia 131


para avaliar a circulação de ar dentro da sala de tações meteorológicas há um observador que
aula. Para este exercício, o ideal é fechar todas recebe os alunos. Prefira as estações meteoro‑
as janelas e deixar somente uma porta aberta. lógicas convencionais, pois as automáticas não
Como atividade extraclasse, solicite que avaliem são tão didáticas, tendo­‑se em vista os instru‑
a circulação do ar em suas casas. Essa circulação mentos utilizados.
do ar contribui para a melhor ventilação das edi‑
ficações, melhorando o conforto térmico nesses
ambientes. Se o ambiente possuir ventilador, é Atividade 6
possível simular a circulação do ar natural (sem
ventilador) e forçada (com ventilador ligado). É possível montar na escola uma miniestação
meteorológica convencional. De todos os ins‑
trumentos apresentados, alguns são possíveis
Atividade 4 de serem obtidos ou confeccionados facilmente.
É o caso do pluviômetro e do conjunto de
Avalie a temperatura do ar de bulbo seco e termômetros de máxima e mínima temperatura
bulbo úmido conforme descrito anteriormente do ar.
em diferentes locais da escola (dentro da sala, Procure um local na escola para a instala‑
na quadra a céu aberto, no corredor). Com es‑ ção do pluviômetro. Esse local deve ser aberto
ses dados, determine a umidade relativa do ar e com espaço mínimo de 10 m de raio no en‑
utilizando­‑se a Tabela 5.2 ao final do capítulo. torno para evitar a influência das construções
Após, calcule o índice de temperatura e umi‑ das medidas de chuva (o total de chuva pode
dade (THI). Nesse momento, se for necessário, ser superestimado se o pluviômetro ficar pró‑
o professor de matemática pode participar da ximo a uma goteira, ou subestimado se ficar
atividade para ajudar nos cálculos. Com o valor embaixo de uma árvore ou cobertura). Instale o
de THI, discuta os resultados com os alunos e, equipamento a 1,5 m de altura e faça as leituras
com base na Tabela 5.3 (página 128), conclua sempre no mesmo horário (7 horas da manhã,
se a sala de aula apresenta conforto térmico ou por exemplo). Escale os alunos para fazerem as
não. Essa atividade pode ser feita em diferentes leituras a cada dia da semana ou do mês. Ano‑
dias com condições atmosféricas diferentes (por te os dados e discuta em sala os valores regis‑
exemplo, um dia mais quente, outro mais frio, trados. Um termômetro de máxima e mínima
uma medida no período da manhã, outra à tar‑ pode ser adquirido por cerca de R$ 30,00 no
de). A atividade também pode ser repetida em mercado (faça uma pesquisa em um site de bus‑
outros ambientes da escola, como o pátio e a sala ca com a expressã “termômetro de máxima e
dos professores. mínima”). Esse conjunto deverá ser instalado
dentro de um abrigo meteorológico em am‑
biente externo, como mostra a Figura 5.26. Em
Atividade 5 caso de dificuldade na confecção do miniabri‑
go, pode­‑se instalar o termômetro de máxima e
A realização de uma visita a uma estação mínima no interior da sala de aula.
meteorológica é bastante interessante para os Faça as leituras e lembre­‑se que as leituras
alunos se familiarizarem com os instrumentos de máxima temperatura do ar lida pela manhã
de medidas. Verifique em sua cidade se há uma referem­‑se à temperatura máxima do dia ante‑
estação meteorológica instalada, faça o conta‑ rior. Anote e discuta com os alunos os aspectos
to e agende uma visita. Normalmente, nas es‑ levantados a seguir.

132 práticas de geografia


A amplitude térmica do local onde está a escola é grande ou pequena? No
caso de se ter uma amplitude elevada, quais seriam as razões? Está muito
longe do mar? Não há vegetação? E se as medidas acusarem uma pequena
amplitude térmica? Quais seriam as razões que explicariam isso, com base
nos conhecimentos que já adquiriu?
Qual a relação da vegetação com a umidade e a temperatura do ar? E o
concreto e o asfalto, como podem influenciar o microclima no entorno?

Mini abrigo meteorológico

Termômetro de
máxima e mínima

30
50

40
Pluviômetro
20
ºC
30
10 +
_ 20
0
10
10

Fios de
0
20
10
40

sustentação 50
+_
20

30
60

Figura 5.26. Abrigo


Biruta de meteorológico e
Base de sustentação canudinho pluviômetro, que
Sérgio Fiori

com 1,5 m pode ser fabricado


com ajuda de outros
professores.
Superfície do solo - preferência um gramado

Atividade 7

Efetue uma consulta aos sites ou jornais impressos que trazem a previsão
do tempo para a sua localidade. Um exemplo é o site do INMET (<www.
inmet.gov.br>), no qual pode­‑se selecionar previsão do tempo e depois municí‑
pios para encontrar a previsão para todos os municípios brasileiros. Anote os
valores de temperatura máxima e mínima previstos e a ocorrência ou não de
chuvas. Faça uma tabela indicando o dia, a temperatura máxima e a tempe‑
ratura mínima previstas e a previsão de chuvas (sim ou não). Com os dados
observados na miniestação construída na escola, inclua mais três colunas
(temperatura máxima e mínima do ar e chuva). Compare os dados, veja os
acertos e erros. Junte as imagens de satélite.
Realizar exercícios práticos e relacionar os dados com o cotidiano dos alu‑
nos certamente tornará a Climatologia um tema mais prazeroso e envolvente.

capítulo 5 – técnicas de climatologia 133


REFERÊNCIAS DE APOIO

Glossário Bibliografia

Azimute: ângulo entre uma direção qualquer e a Ayoade, J. O. Introdução à Climatologia para os
direção do norte geográfico no sentido horário, usual‑ trópicos. 3. ed. São Paulo: Bertrand Brasil, 1991.
mente determinado em graus. Por exemplo, a direção Frota, A. A. B.; Shiffer, S. R. Manual de conforto
do vento sul será expressa como 180º de azimute; a térmico. 5. ed. São Paulo: Studio Nobel, 2001.
direção leste, 90º e assim por diante. Funari, F. L. O índice de sensação térmica humana
Continentalidade: influência do continente nos em função dos tipos de tempo na região metro-
atributos ou elementos climáticos. Por exemplo, a politana de São Paulo. Tese (Doutorado). Faculdade
amplitude térmica no Brasil central é superior àquela de Filosofia, Letras e Ciências Humanas, Departamento
observada próxima ao litoral. A exemplo, a amplitude de Geografia, Universidade de São Paulo. São Paulo,
térmica média no mês de julho em Salvador (BA) é 2006.
de 4,8 °C e em Cuiabá (MT) é de 15,2 °C (INMET, Mendonça, F.; Danni­‑Oliveira, I. M. Climatolo-
1992). Vale lembrar que ambas as localidades estão gia: noções básicas e climas do Brasil. São Paulo:
em latitudes próximas. Oficina de Textos, 2007.
Depressão psicrométrica: é a diferença entre o Mota, F. S. Meteorologia agrícola. São Paulo: No‑
termômetro de bulbo seco e aquele de bulbo úmido. bel, 1983.
Por exemplo, se o termômetro de bulbo seco registra Pereira, A. R.; Sentelhas, P. C.; Angelocci, L. R.
27,0 °C e o termômetro de bulbo úmido 23,0 °C, a Agrometeorologia: fundamentos e aplicações
depressão psicrométrica (27,0 – 23,0) será de 4,0 °C. práticas. Guaíba: Agropecuária, 2002.
Grimpa: dispositivo da parte superior de cataventos. Sant’Anna Neto, J. L.; Zavatini, J. A. (Org.). Varia-
Tem como finalidade indicar a velocidade do vento. bilidade e mudanças climáticas. Maringá: Eduem,
A grimpa desloca­‑ se na vertical sob a atuação do 2000.
vento. Quanto maior a velocidade do vento, maior o Tarifa, J. R.; Azevedo, T. R. Os climas da cidade de
seu movimento. São Paulo: teoria e prática. 2001. In: Coleção Novos
Umidade relativa do ar: relação entre o conteúdo de Caminhos. n. 4. Departamento de Geografia, FFLCH/
vapor d’água na atmosfera naquele instante (e para USP, São Paulo.
aquela temperatura) e sua relação com a condição Tubelis, A.; Nascimento, F. J. L. Meteorologia
de ar saturado. A unidade relativa do ar não nos dá, descritiva: fundamentos e aplicações. São Paulo:
portanto, conteúdo absoluto de vapor d’água na at‑ Nobel, 1980.
mosfera. Para se ter essa informação deve­‑se calcular Varejão­‑Silva, M. A. Meteorologia e climatolo-
a umidade específica, o que não seria aconselhável gia. Brasília: Instituto Nacional de
por parte do autor, nesse contexto. Meteorologia, 2001.
Maritimidade: influência da presença dos oceanos
e mares em climas próximos. A água possui elevado
calor específico (demora para aquecer e para resfriar)
mantendo o equilíbrio térmico no ambiente úmido.
Zênite: imagine uma linha na vertical sobre sua cabe‑
ça, olhe para cima, e esse ponto é o zênite do local.
Se você mudar de local, o zênite também muda com
você. Também é o nome dado ao ponto mais elevado
do firmamento, aquele que miramos ao olhar direta‑
mente para cima. O ponto oposto ao Zênite, do outro
lado do globo, é denominado Nadir.

134 práticas de geografia


SOBRE OS AUTORES
Tarik Rezende de Azevedo possui bacharelado
(1995) e licenciatura (1996) em Geografia pela Facul‑
dade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Uni‑
versidade de São Paulo. É doutor em Geografia Física
(2001) pela mesma instituição. Atualmente é professor
doutor do Departamento de Geografia da FFLCH/USP.
Tem experiência na área de Geociências, com ênfase
em Climatologia de áreas urbanas e conforto térmico.
Emerson Galvani é mestre em Agrometeorologia
pela Esalq/USP (1995) e doutor em Agronomia (Energia
na Agricultura) pela Universidade Estadual Paulista Júlio
de Mesquita Filho, Campus Botucatu (2001). Atualmen‑
te, é professor doutor do Departamento de Geografia
da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas
da Universidade de São Paulo. Bolsista de pesquisa
e produtividade do CNPq (PQ1D), também é o atual
presidente da Associação Brasileira de Climatologia –
ABCLIMA (gestão 2008­‑2010). Atua, desde 2007,
como coordenador do Programa de Pós­‑ Graduação
em Geografia Física da FFCLH/USP e, desde 2009, é
vice­‑ presidente da Comissão de Pós­‑ Graduação da
FFCLH/USP.

capítulo 5 – técnicas de climatologia 135


136
0 1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 11 12 13 14 15 16 17 18 19 20 21 22 23 24 25 26 27 28 29 30 31 32 33 34 35 36 37 38 ts (°C)
91 91 92 92 92 93 93 93 94 94 94 94 94 95 95 95 95 95 95 95 96 96 96 96 96 96 96 96 96 96 96 96 96 96 96 97 97 97 97 0,5
82 83 84 84 85 86 86 87 87 88 88 88 89 89 90 90 90 90 91 91 91 91 92 92 92 92 92 92 93 93 93 93 93 93 93 93 94 94 94 1
73 75 76 77 78 79 79 80 81 82 82 83 83 84 84 85 85 86 86 86 87 87 88 88 88 88 88 89 89 89 89 89 90 90 90 90 90 91 91 1,5
65 66 68 69 70 72 73 74 75 76 76 77 78 79 79 80 81 81 82 82 83 83 84 84 84 84 85 85 85 86 86 86 86 87 87 87 87 87 88 2
56 58 60 62 63 65 66 67 69 70 71 72 73 74 74 75 76 77 77 78 78 79 80 80 80 81 81 81 82 82 83 83 83 83 84 84 84 84 84 2,5

práticas de geografia
48 50 52 54 56 58 60 61 63 64 65 66 68 69 70 71 71 72 73 74 74 75 76 76 77 77 78 78 78 79 79 80 80 80 80 81 81 81 82 3
39 42 45 47 49 51 53 55 57 58 60 61 62 64 65 66 67 68 69 70 70 71 72 72 73 74 74 75 75 76 76 77 77 77 77 78 78 78 79 3,5
31 34 37 40 42 45 47 49 51 53 54 56 57 59 60 61 63 64 65 66 66 67 68 69 70 70 71 71 72 72 73 73 74 74 75 75 75 76 76 4
22 26 30 33 36 38 41 43 45 47 49 51 53 54 56 57 58 59 61 62 63 64 64 65 66 67 67 68 68 69 70 70 71 71 72 72 73 73 73 4,5
14 18 22 26 29 32 35 37 40 42 44 46 48 49 51 52 54 55 56 58 59 60 61 62 63 63 64 65 65 66 67 67 68 69 69 70 70 70 71 5
6 10 14 18 22 26 29 31 34 36 39 41 43 45 46 48 50 51 53 54 55 56 57 58 59 60 61 62 62 63 64 64 65 66 66 67 67 68 68 5,5
4 8 12 16 19 23 26 29 31 34 36 38 40 42 44 46 47 49 50 51 53 54 55 56 57 58 58 59 60 61 62 62 63 64 64 65 65 66 6
1 5 9 13 17 20 23 26 29 31 33 36 37 40 42 43 45 46 48 49 50 51 53 54 55 55 56 57 58 59 60 60 61 61 62 62 63 6,5
1 7 11 14 18 21 24 26 29 31 33 36 37 39 41 43 44 46 47 48 49 50 52 52 53 54 55 56 57 58 58 59 59 60 60 7
5 9 12 16 19 22 24 27 29 32 34 36 37 39 41 42 44 45 46 47 48 50 50 51 52 53 54 55 56 56 57 58 58 7,5
4 7 11 14 17 20 23 25 27 30 32 34 36 37 39 40 42 43 44 46 47 48 49 50 50 51 52 53 54 55 55 56 8
1 6 10 13 16 18 21 23 26 28 30 32 34 36 37 39 40 41 43 44 45 46 47 48 49 50 51 51 52 53 54 8,5
4 8 11 14 17 20 22 24 27 29 30 32 34 36 37 38 40 41 42 43 44 45 46 47 48 49 50 51 51 9
4 7 10 16 18 21 23 25 27 29 31 33 34 36 37 38 41 42 43 44 45 46 47 48 48 49 9,5
Tabela 5.2 – Tabela psicrométrica para altitudes entre 600 a 800 m

13 40
3 6 9 12 15 17 20 22 24 26 28 30 31 33 34 36 37 38 39 40 41 42 43 44 45 46 47 10
2 5 8 11 14 16 19 21 23 25 27 28 30 32 33 34 35 37 38 39 40 41 42 43 44 45 10,5
2 5 8 10 13 15 18 20 22 24 26 27 29 30 32 33 34 36 37 38 39 40 41 42 43 11
1 4 7 10 12 15 17 19 21 23 25 26 28 29 31 32 33 34 36 37 38 39 40 41 11,5
1 4 7 9 12 14 16 18 20 22 24 25 27 28 30 31 32 33 34 36 37 38 39 12
4 6 9 11 13 16 18 19 21 23 25 26 27 29 30 31 32 33 34 35 37 12,5
Diferença de temperatura entre os termômetros de bulbo seco (ts) e bulbo úmido (th). Valores em °C.

3 6 8 11 13 15 17 19 21 22 24 25 27 28 29 30 31 32 34 35 13
4 6 8 10 12 14 16 18 20 21 23 24 26 27 28 29 30 32 33 13,5
3 5 8 10 12 14 16 18 19 21 22 24 25 26 27 29 30 31 14
3 5 7 10 12 14 15 17 19 20 22 23 24 26 27 28 29 14,5
3 5 7 9 11 13 15 17 18 20 21 22 24 25 26 27 15
3 5 7 9 11 13 15 16 18 19 21 22 23 24 25 15,5
3 5 7 9 11 13 14 16 17 19 20 21 22 24 16
(Observação: ts é a temperatura do ar lida no bulbo seco e ts­‑tu é a depressão psicrométrica obtida pela diferença entre ts – tu).
técnicas de
Biogeografia
6
SuELI ANGELO FuRLAN
Eduardo Justiniano

Introdução, xx Estudo da cobertura Estudos da fauna, xx


O conceito de área de vegetal, xx Estudando as aves, xx
distribuição e as técnicas de Procedimentos para Análise, interpretação e
mapeamento, xx levantamentos florísticos e relatório, xx
Reconstrução dos padrões e fitossociológicos, xx Na sala de aula, xx
seus processos formadores, xx Observando o meio físico, xx Considerações finais, xx
O trabalho de campo em Estudo dos fatores Referências de apoio, xx
biogeografia, xx climáticos, xx Sobre o autor, xx
introdução

A Biogeografia, campo da geografia que estuda a espacialidade da vida, busca


compreender os diferentes padrões de distribuição dos animais e das plantas
na Terra e analisa as alterações morfológicas dos seres vivos e os padrões que
se refletem espacialmente nos agrupamentos biológicos em diferentes escalas
e tempos. Em 1820, De Candolle (1778‑1841) foi pioneiro, ao distinguir e rela‑
cionar os padrões a causas históricas e ecológicas da atualidade na distribuição
dos seres vivos, reconhecendo a importância dos condicionantes físicos atuais
(clima, solos, redes hídricas, relevo) para a explicação dos padrões por processos
ecológicos e das causas históricas (associadas à transformação no tempo) não
observáveis no presente para a compreensão das transformações dos padrões
e das mudanças climáticas.
A separação da Biogeografia em ecológica e histórica vem sendo debatida
a tempos; os biogeógrafos que trabalham na primeira perspectiva pesquisam
essencialmente como as espécies reagem aos diferentes tipos de solo, climas e
formas de relevo, enfocando as interações biológicas atuais. Tais estudos revelam
o papel limitante desempenhado por esses fatores abióticos na distribuição sobre
a natureza, sobre a estrutura das comunidades e sobre a capacidade fisiológica
dos seres vivos para suportar certas condições ambientais. Este conhecimento
tem sido útil para a agricultura, biologia da conservação, planejamento ambien‑
tal, entre outros.
A Biogeografia histórica tem revolucionado paradigmas da ocorrência e dis‑
tribuição de padrões e tem sido fundamental no estudo da conservação, através
da compreensão da formação das paisagens, do endemismo, da raridade, dos
mecanismos competitivos, na formação e espacialidade dos grandes conjuntos
de ecossistemas. São, portanto, dimensões que se complementam; para muitos
autores trata‑se de uma divisão artificial que é adotada nos estudos, mas que
estão profundamente integradas.
Há muitas formas para se periodizar a história do pensamento em um campo
científico. Para alguns autores, a Biogeografia pode ser dividida em três períodos
marcados por rupturas conceituais: o clássico, o wallaceano e o moderno. O pe-
ríodo clássico (1760 ‑1860) caracteriza‑se pelas profusão de ideias criacionistas,
ou seja, o mundo foi criado por fatores sobrenaturais e deve ser conhecido e
descrito. Neste longo período de inventários, produziu‑se descrições florísticas e
faunísticas das grandes regiões mundiais, realizadas por viajantes naturalistas. No
Brasil, as missões destes naturalistas deixaram um importante registro de nossa
flora e fauna. A obra de Spix e Martius (1817‑1820), Langsdorff (1822‑1829) e o
trabalho de pintores como Rugendas, Ender, Pohl, Florence e muitos outros são
atemporais (Figura 6.1).
O período wallaceano (1860 ‑1960) é assim denominado devido à influência
das ideias evolucionistas de wallace‑Darwin. A Teoria da Evolução é a aquisi‑
ção que rompe o paradigma do criacionismo na explicação do endemismo e
da Biogeografia regional. Essa teoria postula que, através da seleção natural
Flora brasiliensis

Figura 6.1. Prancha 33 – Prospectus e Jugo Serra d’ Estrella in Sinum Sebastianopolitanum, de Benjamin
Mary (1836). Fonte: Flora Brasiliensis (1906) de Carl Friedrich Philipp Von Martius, Ignatz urban e August
wihelm Eichler, volume I. Disponível em: <http://florabrasiliensis.cria.org.br> (acesso: ago/2010).

e da competição, espécies dominantes de plantas e animais aparecem em


pequenos centros de origem, expandem‑se e diversificam‑se sobre a Terra. Na
explicação wallaceana, as grandes feições atuais da Terra – como os continen‑
tes e as bacias oceânicas – foram consideradas estáticas durante a evolução.
A maioria dos padrões biogeográficos teria se formado por dispersão, ou seja,
deslocamentos das formas de vida por pontes de conexão, que atuaram como
verdadeiros “filtros” seletivos das populações em busca do sucesso na irradia‑
ção adaptativa a partir dos centros de origem.
O período moderno inicia‑se em 1960, sendo em parte influenciado pela Teo‑
ria da Tectônica de Placas, pelo desenvolvimento de novas técnicas filogenéticas
(incluindo a Genética) e pela evolução de novos procedimentos de pesquisa da
Biogeografia ecológica. A concepção moderna de Biogeografia baseia‑se na
premissa de que a evolução da vida ocorreu concomitantemente à evolução
geográfica da Terra e as mudanças de tamanho e posição dos continentes e
oceanos teriam resultado em importantes movimentos das biotas. A sistemática
filogenética de Hennig (1965) criou uma nova maneira de traçar a história da
relação entre diferentes grupos de animais, por meio da discussão sobre as se‑
melhanças gerais entre os taxa (espécie e grupo de espécies), e da hierarquização
no tempo das modificações que ocorreram em sua forma.
o ConCeito de área de
diStriBuição e aS tÉCniCaS
de maPeamento

Uma das etapas mais importantes do traba‑ descrição de áreas de distribuição


lho do biogeógrafo envolve a análise das ocor‑
rências obtidas em campo para a elaboração de Para descrever a área de distribuição de uma
mapas de ocorrência e distribuição de espécies, espécie e transcrevê‑la em um mapa é preciso,
comunidades e ecossistemas. em primeiro lugar, definir suas fronteiras, o
A área de distribuição biogeográfica é uma que pode ser feito com várias técnicas. A mais
projeção espacial da espécie definida pelo con‑ simples é a técnica de nuvens de pontos (Figuras
junto de interações ecológicas e históricas de 6.3 e 6.4) em que cada ponto representa uma
cada espécie. É a área que mantém relações localidade onde a espécie foi encontrada. Este
ontológicas com a espécie: nasce com o nas‑ levantamento é feito em campo, com coletas
cimento do ocupante, modifica‑se através do georreferenciadas e registro de características
tempo e desaparece com o desaparecimento do da área de ocorrência.
ocupante. Nesse sentido, podemos considerar a Antigamente, o posicionamento dos pontos
evolução da espécie como uma projeção histó‑ era feito com base no índice de localidades do
rica de áreas, não apenas como uma sequência IBGE, que fornecia as coordenadas geográficas
cronológica da projeção geográfica (Figura 6.2). da localidade. Atualmente, obtém‑se as coor‑
denadas geográficas dos pontos de ocorrência
com o uso do GPS (ver Capítulo 10 – Técnicas
de Localização e Georreferenciamento). Basea‑
do em um mapa de nuvens de pontos pode‑se
Tempo

a9 A9 definir um desenho aproximado das fronteiras


a8 A8 da área de ocorrência da espécie em estudo,
utilizando‑se de diferentes procedimentos. Há
a7 A7
a6 A6 uma tendência atual em se fazer uso de técnicas
a5 A5 apoiadas em recursos de informática. A técnica
a4 A4 cartográfica consiste em colocar sobre as cartas
a3
topográficas em UTM (ver Capítulo 7 – Técnicas
A3
de

de Cartografia) uma retícula quadriculada, cujos


u
tit
La

a2 A2
lados medem geralmente 10 km. A ocorrência
a1 A1 da espécie identificada em uma quadrícula é
Sergio Fiori

considerada positiva, independentemente das


características ambientais ali presentes. O uso
Longitude
de símbolos diferenciados permite associar a
Figura 6.2. Sequência das possíveis etapas da evolução da área presença da espécie a diversos tipos de dados,
de distribuição da espécie A. Assim como o ocupante (gráfico como abundância e cronologia, o que possibilita
esquerdo) sofre uma evolução anagenética, cujas etapas podemos
indicar como “eidoforantes”, a própria área sofre um processo
acrescentar outros tipos de legendas corográfi‑
de evolução, tanto qualitativo como quantitativo, cujas etapas cas e quantitativas. Isso mostra que a Carto‑
podem indicar‑se como áreas semaforontes (direito). Em ambos grafia Temática (ver Capítulo 8 – Técnicas de
os esquemas, o segmento que conecta as etapas inicial e final do
processo representa o somatório de todos os resultados ocorridos
Cartografia Temática) oferece grande apoio à
no intervalo considerado. Fonte: zunino e zullini (2003). Biogeografia (Figura 6.5).

140 práticas de geografia


A. Caryocar glabrum album
B. Caryocar glabrum glabrum
Sérgio Fiori

C. Caryocar glabrum parviflorum

Limite de país

Rio
N

Figura 6.3. Mapa de


pontos da distribuição
de subespécies de
Caryocar glabrum.
Fonte: Whitmore
0 1000 Km
e Prance (1987),
modificado.
Sérgio Fiori

limite de país
rio

P. purpurascens
P. jacquacu
P. obscura
P. albipennis
Figura 6.4. Distribuição
P. perspicax do guano Penelope na
P. superciliaris mata de Várzea. Fonte:
0 1000 Km P. marail Whitmore e Prance (1987),
modificado.

capítulo 6 – técnicas de biogeografia 141


N

Número de espécies
1 2 3 4 5 6 7 8 9 16

Limite de país
Rio

Figura 6.5. Coleta de Hirtella


Chrysobalanaceae, indicando número de

Sérgio Fiori
espécies por grau quadrado de latitude e
longitude. Fonte: Whitmore e Prance (1987),
0 1000 Km
modificado.

As técnicas areográficas são semelhantes às tradicionais nuvens de pontos


e possuem maior precisão no mapeamento dos pontos, com apoio do GPS.
A ocorrência de um indivíduo é entendida como representativa de uma po‑
pulação e, portanto, de uma área. O procedimento aerográfico deriva da
aplicação da teoria dos traçados, particularmente do conceito de árvore má‑
xima de conectividade. Os pontos são unidos por meio de traçado aberto
(sem formar circuitos) de modo a minimizar o encontrado em cada ponto da
nuvem (Figura 6.6). Os valores dos arcos, ou traçados que unem os pontos, são
submetidos a testes estatísticos e o círculo representa a unidade elementar da
área de distribuição, da mesma forma que a malha para a retícula, na técnica
cartográfica. No entanto, na areografia, o tamanho ajusta­‑se às características
de cada espécie1.
A área abrange os pontos que representam locais onde a espécie foi re‑
gistrada. Assim, a unidade elementar é obtida a partir do traçado de um
raio em cada ponto, que delimitará um círculo ao redor deste. O valor desse

1 Consultar também Zunino e Zullini, 2003.

142 práticas de geografia


raio é obtido a partir da média aritmética e do Species Link, que desenha pontos de ocorrência
desvio­‑padrão calculados através dos valores dos em um mapa pela inclusão de suas coordenadas.
segmentos que unem os pontos de localização O processo de modelagem consiste em converter
(zunino e zullini, 2003). O conjunto desses dados primários de ocorrência de espécies (sim‑
círculos corresponderá à área core. Os círculos ples nuvens de pontos utilizadas pelo método
delimitados pelos valores do desvio­‑padrão se‑ areográfico) em mapas de distribuição geográ‑
rão menores e corresponderão a uma área mais fica indicando a provável presença ou ausência
detalhada; os delimitados pela média aritmética da espécie, neste caso, através da aplicação de
( x ) serão maiores (no entorno dos menores) e algoritmo genético (GARP – OM – Genetic Al‑
corresponderão a uma área de influência da área gorithm for Rule­‑Set Prediction).
“core”. As fórmulas para cálculo da média, da Estes softwares buscam modelar a partir de
variância e do desvio­‑padrão podem ser consul‑ pontos e massa de dados biofísicos a estima‑
tadas no Capítulo 22 – Estatística Descritiva em tiva do nicho ecológico potencial da espécie.
Sala de Aula. Os modelos trabalham, na maioria dos casos,
com a relação da localização da espécie e seu
nicho ecológico fundamental. Tais algoritmos
tentam encontrar relações não aleatórias entre
os dados de ocorrência dos organismos com os
dados ecológicos e ambientais relevantes para a
Sérgio Fiori

S
espécie, tais como: temperatura, precipitação,
_
X topografia, tipo de solo, geologia, entre outros
(Figura 6.7).
Quando o pesquisador insere pontos de
ocorrência no software, o sistema associa cada
ponto ao ponto central da quadrícula deter‑
minada em que eles estão localizados. Dessa

Pontos de ocorrência

Variáveis ambientais
Figura 6.6. Área de distribuição segundo o método areográfico.
temperatura (coberturas geográficas)
precipitação
relevo
solo
Métodos informacionais que utilizam softwa‑
res de modelagem de nicho ecológico e permitem
Distribuição prevista
trabalhar com grande massa de dados e estimar
Sérgio Fiori

a ocorrência de forma indireta a partir da reu‑


nião de variáveis biogeofísicas vêm sendo desen‑
volvidos. Os métodos digitais permitem trans‑ Figura 6.7. Esquema que mostra a relação entre as variáveis
ambientais e os pontos de ocorrência da espécie. Fonte:
formar o mapa de pontos em mapa de áreas, <http://splink.cria.org.br/docs/Anexo2_modelagem.pdf>
tais como o sistema Species Mapper, do programa (acesso:ago/2010).

capítulo 6 – técnicas de biogeografia 143


forma, cada ocorrência irá assumir valores de ecológico podem ser obtidas no site do próprio
camadas ambientais previamente selecionadas Species Link: <http://splink.cria.org.br/docs/Ane‑
pelo usuário, aliada à localização da espécie. xo2_modelagem.pdf>.
Nesse método os dados ambientais são arma‑ É importante conhecer o modo como a espé‑
zenados em um banco de dados. Quando o cie vive dentro de uma área, a qual pode parecer
pesquisador insere pontos de coleta (localiza‑ homogênea em razão da resolução da área de
ção da espécie) no sistema, eles são convertidos distribuição representada no esquema (Figura
e armazenados. O sistema formula uma regra 6.7). Em diferentes escalas, no entanto, percebe­
de faixa de ocorrência para cada variável sele‑ ‑se que uma área nunca é estritamente homogê‑
cionada pelo usuário (climáticas, morfológicas, nea, devido a variações dos aspectos abióticos e
bióticas etc.) no sistema. Essa regra baseia­‑se da demografia dos ocupantes (Figura 6.8).
nos valores entre o valor máximo e mínimo da
variável ambiental no conjunto de pontos das
quadrículas que representam os pontos de co‑ Dinâmica da área de
leta inseridos pelo usuário. O sistema descobre distribuição de uma espécie
matematicamente a amplitude de cada variável
do subconjunto de pontos inseridos no siste‑ O tamanho de uma população resulta do
ma. Após estabelecer a regra de faixa para cada equilíbrio entre a taxa de natalidade e a taxa de
variável, o sistema faz uma busca em todos os mortalidade; entre emigração e imigração. Com
pontos de quadrículas que possuem valores que frequência, fatores antropogênicos ou pequenas
satisfazem aquela condição. Todos os pontos mudanças na temperatura são suficientes para
são selecionados e, após uma intersecção entre provocar mudanças importantes na taxa de re‑
todas as variáveis, eles são plotados no mapa produção de plantas e animais de um ano a outro
final, demarcando uma área. Mais informa‑ (e também movimentos migratórios), incorren‑
ções sobre a tecnologia de modelagem de nicho do em mudanças no número de efetivos de uma
Sérgio Fiori

13 Km 13 Km

380 Km

Figura 6.8. Diferentes escalas


detêm diferentes resoluções,
de modo que uma área
mapeada parece homogênea,
mais ou menos ou fortemente
descontínua. Fonte: Modificado
3.500 Km de Zunino e Zullini (2003).

144 práticas de geografia


geração a outra. Em termos gerais, podemos dizer que a área de ocorrência
é dinâmica e varia numa escala de tempo que pode ser de curta ou de longa
duração. Portanto, os mapas em séries temporais podem ser muito úteis para
entender dinâmica. Veja o exemplo da área de distribuição de uma espécie de
lobo na Europa em 1900 e, na Itália, entre 1900 e 1985 (Figura 6.9).

Modificações da área de distribuição

A área de distribuição de uma espécie pode ampliar­‑ se, reduzir­‑ se,


desprender­‑se ou fragmentar­‑se antes de desaparecer, com a extinção de seu
ocupante (Figura 6.10).
A área muda com o tempo, no caso da mudança pelo processo de sucessão
ecológica ou da expansão seguida de contração por mudanças climáticas. A
contração pode levar à insularização da área, como a que ocorreu no Bra‑
sil durante o Quaternário, expressa pela Teoria dos Refúgios Pleistocênicos
(Figura 6.11).

Sérgio Fiori
N
(a)

(b)

Figura 6.9. Área de


distribuição do lobo,
na Europa, em 1900
(a); e na Itália, entre
1900 e 1985 (b).
Fonte: Modificado de
1900 1966 1973 1982 1985
Zunino e Zullini (2003).

capítulo 6 – técnicas de biogeografia 145


Figura 6.10. A área
de distribuição pode
fragmentar­‑se de
várias maneiras,
sendo uma grandeza
dinâmica. No plano
horizontal representa­
‑se o espaço, e o eixo
vertical corresponde

Sérgio Fiori
ao tempo. Fonte:
modificado de Zunino
e Zullini (2003).
Sérgio Fiori

N
Co
rre
nt
e E

Savanas e Cerrados
quat
orial

il
Corrente das Guianas

as
Br
do
te
en
rr
Co
Caatingas

Cerrados
Figura 6.11. Domínios
naturais da América do Sul há
13.000­‑18.000 anos. O mapa
sintetiza os conhecimentos
acumulados por Ab’Saber
sobre as diversas regiões
Eixos de expansão da semiaridez
brasileiras e suas prováveis
configurações no passado. Florestas tropicais, áreas refúgios de matas
e “brejos” de encostas e serras úmidas
Fonte: Ab’Saber (1977),
Glaciários de altitude do setor sul dos
modificado. Andes ( e tundras)
ru
o Pe

Áreas semiáridas com caatingas e floras


te d

similares (com cactáceos)


ren

Áreas de estepes sub-desérticas (extensões do “monte”)


Cor

Áreas estépicas e desérticas frias (extensões das


estepes patagônicas)
Corrente de Falkland

Corrente fria Grande deserto de Atacama


Corrente quente Grandes núcleos de cerrados com enclaves de caatingas
Limite de país
Núcleos de Araucárias (brasileira e andina)
Rio
Desertos rochosos e desertos costeiros andinos
0 500 1000 Km
Florestas boreais e temperadas frias de altitude

146 práticas de geografia


Área de distribuição e As disjunções e descontinuidades
fatores limitantes
As distribuições geográficas das disjunções
Entre os fatores que condicionam a exten‑ entre áreas de espécies e grupos filogenetica‑
são e a forma da área de distribuição de uma mente homogêneos têm uma importância ex‑
espécie, o clima tem importância primordial, es‑ cepcional na Biogeografia histórica. Embora
pecialmente pelos parâmetros de temperatura e os termos disjunção e descontinuidade sejam fre‑
umidade relativa do ar. Tanto as variações diárias quentemente usados como sinônimos, diferem­
como as sazonais influenciam a distribuição es‑ ‑se no sentido. Disjunção refere­‑se à separação
pacial dos organismos. Por exemplo, a maioria entre áreas consideradas elementos singulares de
das espécies tropicais não ocorre em isolinhas um sistema e descontinuidade refere­‑se à relação
de temperaturas abaixo de médias anuais de entre frações realmente ocupadas e frações livres
18 ºC. A cobertura pedológica é determinante de uma área unitária (Figura 6.12).
para muitas espécies. As espécies acidófilas, por
exemplo, não ocorrem em solos básicos deriva‑
dos de rochas carbonáticas. Mapeamentos históricos:
modelo conceitual

Criticando o conceito de centro de origem,


RECONSTRUÇÃO DOS que se mostrou incoerente com o princípio de
PADRÕES E SEUS PROCESSOS ancestralidade comum e de vicariância, levando
FORMADORES a resultados ambíguos, os autores de Biogeo‑
grafia Histórica da Vicariância, ou Especiação
A grande crítica que se faz aos padrões de‑
rivados da explicação na abordagem evolutiva é
que o modelo explicativo da dispersão com base
num centro de origem foi tomado como verdade
absoluta para a formação de todos os padrões
observados atualmente. Eldredge e Cracaft
(1980) afirmaram que a maioria dos trabalhos
de análise de padrões enfatizaram somente a ex‑
plicação dos processos pelos quais se formaram
os grandes padrões. O estudo dos padrões deve, (a) (b)
no entanto, anteceder a explicação dos processos
que os formaram. A conexão entre padrões, ou
seja, as relações temporais entre eles é um dos
Sérgio Fiori

aspectos mais importantes na compreensão da


evolução e da espacialidade. A reconstrução dos
padrões filogenéticos é indispensável ao estudo
(c) (d)
dos processos evolutivos2.

Figura 6.12. Área de distribuição contínua (a), descontínuas (b,


2 Para aprofundar esta questão, consulte Eldredge e Cra‑ c) e disjuntas (d). O método areográfico pode adotar critérios não
craft, 1980. subjetivos para discriminar descontinuidade de disjunção.

capítulo 6 – técnicas de biogeografia 147


Alopátrica3, sugeriram um modelo conceitual Para construir um padrão biogeográfico é
alternativo que envolve padrões generalizados preciso conhecer a filogenia do grupo; a filo‑
de distribuição biótica denominados traçados genia construída pelo biólogo (sistemata). Ver
generalizados. Admitem que um dado traça‑ Figura 6.14.
do generalizado estima a biota ancestral que, Para construir o padrão evolutivo de área em
devido a modificações geográficas, tornou­‑se Biogeografia, o cladograma de áreas é constru‑
subdividida em biotas descendentes, as quais ído pelo geógrafo, que deverá fazer a substitui‑
diferenciam­‑se e produzem padrões mais recen‑ ção dos nomes das espécies pelas áreas que elas
tes de diversidade taxonômica e distribuição. ocupam. Na representação, a área de distribui‑
Os autores rejeitam o conceito darwinista de ção tem o mesmo nome que a espécie (Figuras
centro de origem e dispersão das espécies como 6.15 e 6.16).
único modelo conceitual de explicação histó‑ As áreas não congruentes são deixadas de
rica. A técnica de mapeamento empregada na lado, utilizando­‑se somente as de congruência
Biogeografia da Vicariância é resumida da se‑ total para explicar a evolução da espécie na área
guinte forma: (terra e vida).
a) Mapeia­‑se e une­‑se a distribuição (traçado) Os cladogramas de áreas com muitas dife‑
de uma espécie ou grupo monofilético (traçado renças requerem a elaboração do cladograma
individual). As distribuições disjuntas somadas de áreas reduzido, que consiste na eliminação
representam a distribuição ancestral. das incongruências e resulta na seleção dos fe‑
b) A distribuição (traçado) de uma espécie ou nômenos que influenciam igualmente os dife‑
grupo monofilético de organismos deve coin‑ rentes grupos (Figuras 6.17 e 6.18).
cidir com os traçados de outras espécies ou Se um dado tipo de distribuição geográfica
grupos. Dessa maneira, testa­‑se se a Terra e (traçado individual) repete­‑se em vários grupos
a vida evoluíram juntas, procurando­‑se os vá‑ de organismos, a região delineada pelas distri‑
rios taxa, os mais diversos possíveis, fósseis ou buições coincidentes (traçado generalizado)
recentes, que ocorram aproximadamente na torna­‑se estatisticamente e geograficamente
mesma região, e procede­‑se aos vários traça‑ significante, e convida à explicação em um ní‑
dos individuais. vel geral.
c) Os vários traçados individuais são sobrepos‑ Os postulados básicos da vicariância são:
tos, evidenciando­‑se as áreas de congruência ¾¾ Espécies relacionadas representam parte
(traçado generalizado). A coincidência de traça‑ de uma barreira, ou seja, essa população an‑
dos de distribuição dos diferentes grupos pode tiga sofreu vicariância ou especiação alopá‑
acontecer em maior ou menor grau. A metodo‑ trica.
logia lançada por Croizat (1974) foi aperfeiçoa‑ ¾¾Existe realmente um centro de origem,
da por Nelson e Rosen (1979) que incluíram a mas ele tende a ocupar o máximo de área per‑
filogenia de Hennig (1965). mitida atingindo um cosmopolitismo primiti‑
d) Desta forma, o traçado generalizado deve vo, por meio da dispersão. Uma vez ocorrendo
ser confrontado com a filogenia dos grupos, dispersão, o centro de origem fica indetermi‑
obtendo­‑se o cladograma de áreas (Figura 6.13). nável, a não ser em alguns poucos casos pe‑
culiares. A dispersão que resulta no cosmopo‑
litismo primitivo ocorre antes do surgimento
da barreira efetiva. A especiação acontece
3 Croizat et al. (1974), Nelson e Platinick (1984) e Rosen simultânea ou posteriormente ao surgimento
e Beaver (1978). das barreiras.

148 práticas de geografia


4 C
A
B
M
6
Rafael Sato

1 3 D 5 Q
2 E
N

Congruência
Figura 6.13. Filogenia dos grupos: grupos monofiléticos (traçados generalizados).

Peixe Musgo

A B C X Y Z

va
l uti
evo
m
age
linh
Rafael Sato

Figura 6.14. Exemplo de cladograma.

1 2 3 1 2 3

ixe
e go
op us
e ad m
ár do
e a
od re
Rafael Sato

çã á
lu de
evo ão
luç
e vo
Figura 6.15. Exemplo de cladograma.

1° padrão 2° padrão

Peixe B
Peixe A Peixe C
Rafael Sato

3
2
1

Musgo X Musgo Y Musgo Z

A área do peixe A e A área de ocorrência do A área de ocorrência do


do musgo X tem uma peixe B engloba totalmente peixe C é totalmente englobada
superposição parcial a área do musgo Y pela área do musgo Z

Figura 6.16. Áreas de congruência dos dois padrões de distribuição.

capítulo 6 – técnicas de biogeografia 149


Rafael Sato
A B C D E M N O P Q

Figura 6.17. Cladograma de áreas para


o exemplo de um gênero com maior
número de espécies.

Rafael Sato
1 2 3 4 5 6 1 3 5 6 1 2 3 5 6

Figura 6.18. Cladograma de áreas


reduzido (áreas congruentes).

O TRABALHO DE CAMPO
EM BIOGEOGRAFIA

O trabalho de campo é fundamental para a ambiente4. A importância da observação não con‑


Biogeografia. Cada local possui características siste apenas em aproveitar informações visuais,
particulares e aponta problemas de ocorrência que podem levar à inferência de propriedades me‑
e de distribuição biogeográficas que podem ser nos aparentes do meio, mas é preciso considerar
interpretados mediante observação, registro, seu papel na educação do olhar a favor de maior
experimentação empírica etc. A observação conscientização sobre o ambiente que nos cerca.
de campo mostra também como as unidades de A observação não deve recair sobre o objeto
paisagem distribuem­‑se de forma desigual no individualizado, mas deve vê­‑lo como parte de
espaço. As técnicas a serem utilizadas consis‑ um todo estruturado e articulado historicamen‑
tem nos procedimentos de campo (observação te. Trata­‑se de considerar que o tempo da natu‑
detalhada e sistemática, anotações, desenhos, reza aparece combinado com o tempo social,
coletas, fotografias, medições com equipamen‑ com escalas e ritmos distintos.
tos, filmagens etc.) e no trabalho de laboratório A civilização moderna emprega métodos cien‑
(análise do material coletado e/ou observado, tíficos no processo de interpretação do meio na‑
análise das variáveis físicas, tratamentos para tural, com a utilização de medidas, análises, tra‑
formação de acervos – herbários –, tratamentos tamento de dados etc. Mas é preciso não perder
estatísticos etc.). de vista a importância das informações e inter‑
pretações que provêm de populações cujo modo
de vida está diretamente ligado ao aprendizado
A observação e a baseado na vivência e na observação cotidiana
descrição em campo da natureza, que também produz conhecimentos

É importante apurar e treinar a observação


em campo. O hábito da observação, de seu regis‑ 4 Sobre observação, ver também o Capítulo 1 – A Técnica
tro e de sua interpretação, leva à compreensão do e a Observação na Pesquisa, deste livro.

150 práticas de geografia


sobre o funcionamento do ambiente. Exemplos longo de uma linha ou trajeto (transecto) que
dessas populações, cada vez mais reduzidas, são cruze diferentes zonas. Deve­‑se ter muito cui‑
campesinos, agricultores tradicionais, pescadores dado na escolha dessa linha: é melhor começar
artesanais, populações indígenas, quilombolas, onde haja muitas mudanças evidentes à primei‑
varjeiros, pantaneiros e o que geralmente pode‑ ra vista. Para isso, pode­‑se utilizar as fotografias
mos chamar de homens do campo. aéreas, que auxiliam na visualização vertical dos
compartimentos de cobertura vegetal. Para que
o transecto seja útil, os estudos de animais e
Exemplo de registros de observação plantas devem ser acompanhados por uma inves‑
tigação de outros fatores ambientais, como so‑
Uma das técnicas úteis e importantes em los, topografia, parâmetros climáticos, tratados
Biogeografia é o uso do desenho em esboço ou em capítulos específicos deste livro. A posição
croqui, para o que temos apoio do Capítulo 17 – do transecto (ou de qualquer outra observação
Técnicas de Desenho e Elaboração de Perfis e do detalhada) deve ser indicada com clareza e pre‑
Capítulo 18 – Técnicas de Ilustração Botânica, cisão no mapa da área em estudo. O uso da carta
neste livro. Importantes biogeógrafos utilizaram topográfica com auxílio de uma bússola é o pro‑
técnicas de desenho para registro de suas obser‑ cedimento usual. Hoje pode­‑se contar também
vações, que consistem no uso do desenho livre com o GPS para definir, localizar, referenciar e
ou proporcional. O desenho pode ser aprimora‑ definir o transecto.
do com técnicas de acabamento como nanquim, Sempre que possível, deve­‑se realizar um es‑
têmperas ou aquarela. As observações de campo tudo preliminar para contextualizar e localizar
geralmente tornam­‑se mais significativas quan‑ a área de estudo sobre mapas topográficos e os
do anotadas em mapas e croquis. limites das áreas adequadas à pesquisa. Para tra‑
balhos de pesquisa científica, esta localização
deve ser precisa. Antes de ir a campo, é essencial
Planejando a atividade de saber:
campo em Biogeografia ¾¾De que modo será feita a coleta de dados?
¾¾O que se deve registrar?
O trabalho de campo concentra­‑se na obser‑ ¾¾Ao longo de que período é conveniente reali‑
vação, no registro e na coleta de informações zar o levantamento de dados em campo?
desses componentes em combinação com os
demais fatores do meio, considerando as esca‑ Realizar uma pesquisa bibliográfica antes de
las de tempo e espaço. Geralmente são chama‑ ir a campo é muito importante, pois permite
dos de dados primários. melhor conhecimento do local a ser estudado,
Em um estudo de campo é melhor concen‑ facilitando o planejamento das atividades de
trar a atenção sobre uma área determinada, que campo. Além do levantamento bibliográfico
possa ser investigada intensa e sistematicamen‑ sobre os aspectos gerais da área (histórico, uso
te. A demarcação de pequenas zonas no campo da terra etc.), deve­‑se procurar mapas temáticos
pode revelar ocorrência de plantas e animais (de vegetação, solo, geológico, geomorfológico
mais inconspícuos ou de difícil observação, que etc.) e fotografias aéreas ou imagens de satélite.
facilmente passariam desapercebidos em uma Estas atividades caracterizam o que foi tratado
observação superficial ou geral. como trabalho de gabinete, preliminar ao cam‑
Onde há uma transição clara – ou suposta – po (ver Capítulo 9 – Técnicas de Sensoriamento
da flora e fauna, é útil um estudo detalhado ao Remoto).

capítulo 6 – técnicas de biogeografia 151


A previsão do trabalho de campo

Todo trabalho de campo é precedido por seu significado. Aquele que tenta reter apenas na
uma avaliação de planejamento. À medida que memória suas observações traz poucas contri‑
se decide o quê se vai pesquisar no campo e os buições para uma pesquisa e terá dificuldade em
procedimentos a serem empregados, devem ser fazer um relatório de campo, como alertado no
providenciados os recursos necessários para a Capítulo 23 – A Redação no Trabalho de Cam‑
realização do trabalho. po, deste livro. A memória é sempre seletiva, e
A data da realização ou a época em que será há uma tendência a esquecermos o comum e a
feita a observação deverá conter períodos signifi‑ lembrarmos o raro.
cativos do ponto de vista biológico do que se irá Não há um único procedimento para os re‑
observar, por exemplo: as estações do ano, ciclo gistros de campo. O essencial é que a técnica
diurnal, ciclo de marés etc. usada seja consistente e coerente. No caso do
Ao ir para o campo, o pesquisador deve estar principiante, é importante que anote tudo o que
suficientemente treinado no manejo de todos os vê. Mesmo assim, perceberá que muitos detalhes
equipamentos cuja utilização esteja prevista em importantes poderão ser perdidos. Com o tem‑
seu roteiro de observação e de coleta de dados, po, o observador experiente passará a ser mais
e deve ter clareza da ordem em que as atividades criterioso, concentrando seus registros em as‑
serão desenvolvidas. O roteiro de trabalho de pectos significativos para o problema sob inves‑
campo é um instrumento muito útil na organi‑ tigação. Como alguns aspectos importantes do
zação das atividades. estudo de campo só se tornam aparentes quando
Ao chegar ao local de estudo, o observador o estudo está bem adiantado, é melhor registrar
deve estar munido de todo o material necessá‑ sempre mais do que menos.
rio para o registro de suas observações e dos Conhecendo um pouco a vegetação, a obser‑
instrumentos necessários para realizá­‑las, como vação de campo pode se tornar um importante
tabelas, manuais de campo, mapas, caderno de recurso de avaliação. Por exemplo, algumas es‑
campo, GPS, bússola, tesoura de poda, arma‑ pécies são excelentes bioindicadoras do estado
dilhas etc. de conservação de uma vegetação. Tomando o
exemplo da Mata Atlântica, sabemos que o me‑
canismo de sucessão ecológica pode ser identi‑
A observação no campo ficado em seus estágios pela ocorrência de algu‑
mas bioindicadoras. Em sala de aula os alunos
Não há técnica melhor para o estudo do podem realizar um pequeno levantamento des‑
ambiente (seres vivos e meio físico) do que a sas espécies, aprender a identificá­‑las na paisa‑
presença no local de estudo, para a observação gem e em suas observações de campo, identificar
cuidadosa dos animais e plantas e seu registro a sua presença e inferir preliminarmente sobre o
em um caderno de campo. seu estado de conservação.
A diferença essencial entre um observador No estado de São Paulo, a Secretaria do Meio
de campo engajado e um observador amador é Ambiente e o IBAMA criaram uma legislação
que o primeiro carrega consigo um caderno de de proteção que se baseia, entre outros aspectos,
notas e o utiliza. Há muitos curiosos que veem na ocorrência de plantas que podem ser obser‑
muito mais do que um observador engajado, mas vadas em campo. A legislação pode ser obtida
suas observações são inúteis, pois eles não as no site da CETESB:<http://www.cetesb.sp.gov.
registraram ou não prosseguiram na análise de br/licenciamentoo/legislacao/estadual/resoluco‑

152 práticas de geografia


es/1994_Res_Conj_SMA_IBAMA_1.pdf>. A Tabela 6.1 traz exemplos de
plantas que os alunos podem encontrar em suas observações de campo e
inferir sobre a conservação.
Não é necessário ser um especialista para reconhecer algumas destas
plantas. É claro que para um diagnóstico científico é preciso um levantamento
cuidadoso das ocorrências e também das características estruturais, mas a
rigor todo cidadão deveria saber utilizar­‑se das leis para reconhecimentos
iniciais de campo.
Veja alguns exemplos para praticar seu repertório. Procure tentar identifi‑
car algumas ocorrências de plantas em sua região e pesquise para saber algo
mais sobre o estado de conservação dessa área.

Tabela 6.1 – Estágios de regeneração

Estágio inicial de regeneração

Eduardo Justiniano
Eduardo Justiniano

Figura 6.20. Manacá­‑ da­‑Serra


Figura 6.19. Embaúbas (Cecropia spp). (Tibouchina mutabilis).

Estágio médio de regeneração


Eduardo Justiniano
Eduardo Justiniano

Figura 6.22. Guapuruvu


Figura 6.21. Palmito Juçara (Euterpe edulis). (Schiztolobium parahyba).

Estágio avançado de regeneração


Sueli Angelo Furlan

Eduardo Justiniano

Figura 6.23. Jequitibás (Cariniana spp). Figura 6.24. Paineira (Chorisia speciosa).

capítulo 6 – técnicas de biogeografia 153


Coleta e organização dos dados

Ao planejar a atividade de campo, o observa‑ informações sobre: composição florística, carac‑


dor pode ter dúvidas sobre o que coletar e como terísticas fisionômicas, estruturais, funcionais e
fazê­‑lo. É importante definir antecipadamente sua ocorrência e distribuição espacial.
o que será investigado e quais dados serão úteis
para sua compreensão. Se possível, organizar
um primeiro levantamento exploratório para Composição florística
familiarizar­‑se com a área de estudo. Pesquisar
em fontes bibliográficas como os dados podem O primeiro passo para o conhecimento de
ser obtidos auxilia a definição de procedimentos uma comunidade vegetal é o estudo de sua flora
e do tempo necessário para a coleta de dados. É ou a composição em espécies, mediante a orga‑
importante conhecer como outros pesquisado‑ nização de uma lista, a mais completa possível,
res coletam dados de mesma natureza. Existem das espécies ou gêneros que ocorrem na comu‑
manuais de coletas de dados que apresentam nidade. Quando a comunidade é desconhecida,
as técnicas mais usuais utilizadas por pesquisa‑ como é o caso de muitos ecossistemas tropicais
dores experientes. Planejar a coleta de dados é com uma biodiversidade elevada e insuficiente‑
essencial, pois muitas informações somente se‑ mente estudada, ou quando não se tem certeza
rão obtidas com a utilização adequada de equi‑ da identificação no campo, deve­‑se proceder a
pamentos. Nem sempre a coleta de dados exige uma coleta de várias amostras de indivíduos. É
efetivamente capturas de plantas e animais. No preciso conhecer o que será útil na identificação
estudo das aves e mamíferos, por exemplo, a co‑ para determinar os critérios de coleta. Os botâ‑
leta de dados pode ser a visualização do animal nicos sistematas consideram como fontes impor‑
e sua descrição. Em relação à coleta de pistas tantes de identificação: flores, frutos, sementes e
indiretas, como fezes e pegadas, é preciso co‑ ramos com folhas (quando a planta é de pequeno
nhecer um pouco do comportamento do animal. porte, deve­‑se coletar o indivíduo inteiro).
Por exemplo, para observar aves e obter dados Após a coleta, o material deve ser herbori‑
de visualização é muito importante percorrer a zado para evitar a deterioração e facilitar a pos‑
área de estudo ao amanhecer e ao entardecer, terior identificação. Normalmente, a identifica‑
pois nesses períodos as condições de umidade ção é realizada com o auxílio de especialistas.
e temperatura são mais propícias às atividades É muito importante etiquetar adequadamente
da avifauna. o material coletado, para que qualquer pessoa
possa utilizar as informações. De nada adianta
ao biogeógrafo saber que uma planta é de deter‑
minada espécie, se não souber sua procedência.
ESTUDO DA COBERTURA A taxonomia vegetal atualmente exige um
VEGETAL grande esforço dos botânicos, desde o proces‑
so de aquisição do espécime, dada as dificul‑
O estudo da cobertura vegetal realiza­‑se em dades de inventariar grandes áreas e os custos
diferentes escalas: no âmbito de regiões fitogeo‑ de campanhas de levantamento, acessibilidade,
gráficas, de biomas, domínios, estratos da cober‑ entre outros até a morosa comparação com as
tura vegetal, micro­‑habitats etc. Em todas elas, o amostras já catalogadas em um herbário. Outras
trabalho de campo é muito útil. Para a caracteri‑ metodologias vêm sendo desenvolvidas, como
zação da comunidade vegetal, devem ser obtidas a identificação de vegetais por meio da análise

154 práticas de geografia


Observação e descrição da
vegetação em uma área de estudo
de atributos foliares. Este trabalho consiste em
identificar vegetais por meio da análise do corte A descrição com base na observação empírica
transversal de uma folha ampliado por um mi‑ é um bom exercício para o olhar e deve ter seu
croscópio e análise das assinaturas da cutícula, foco no conjunto de características que com‑
epiderme superior, parênquima paliçádico e pa‑ põem a paisagem de um lugar. Na visualisação
rênquima lacunoso. Nesse método, cada assina‑ da paisagem, a vegetação e a topografia são ca‑
tura é avaliada isoladamente por uma rede neu‑ racterísticas marcantes.
ral pelo método leave­‑one­‑out para verificar a sua Observe mapas, mosaicos de fotografias aé‑
capacidade de discriminar amostras. Uma vez reas e fotografias comuns da área. Escolha uma
selecionados os vetores de características mais área, faça uma descrição geral (fisionômica) e
importantes, eles são combinados de duas manei‑ crie um esboço em forma de desenho na cader‑
ras: a primeira utiliza a concatenação dos vetores neta de campo. Ao caminhar, repare as plantas
selecionados; a segunda trabalha com a dimensio‑ que ali se encontram. Anote essas observações
nalidade de atributos de algumas das assinaturas em sua caderneta de campo. É possível observar
antes de fazer a concatenação. Os vetores finais os seguintes aspectos:
obtidos pelas duas abordagens são testados com ¾¾porte da vegetação;
rede neural via leave­‑one­‑out para medir a taxa de ¾¾organização das copas das árvores quanto à
acertos alcançada pelo sinergismo das assinaturas difusão da luz;
das diferentes partes da folha. Outros métodos ¾¾estratificação interna (a floresta apresenta
utilizam­‑se da informação genética. Mas mesmo sub­‑bosque, são encontrados cipós, trepadeiras
esses métodos bastante sofisticados não prescin‑ ou epífitas?);
dem dos procedimentos usuais de formar cole‑ ¾¾características fenológicas das plantas (flora‑
ções e descrever a partir da observação. ção, frutificação, folhagem);
Para um estudo sistematizado da vegetação, ¾¾grau de agregação da formação estudada
sugerimos os seguintes passos: (crescimento isolado, em tufos, agregados pe‑
¾¾observação e descrição da vegetação em uma quenos, agregados extensos).
área de estudo;
¾¾definição e aplicação de uma técnica para le‑
vantamentos florísticos e fitossociológicos; Desenho do diagrama de perfil
¾¾estudo da estrutura e fisionomia da vegetação;
¾¾desenho do perfil da vegetação; O perfil é uma projeção do que se vê num
¾¾coleta de material e herborização; plano5. Para a criação de um diagrama de perfil,
¾¾identificação da espécime de planta. demarca­‑se um trecho com barbante, definindo
o transecto, no qual se observou a vegetação,
Para o estudo, os materiais necessários são: em papel milimetrado, seguindo a escala deter‑
caderneta de campo e caneta, fita adesiva, bar‑ minada.
bante, jornais, papelão, prensa, tesoura de poda
pequena e/ou um pequeno canivete, podão,
sacos plásticos (transparentes e pretos), piceta
(frasco) com água, algodão, papel milimetrado,
5 Para apoiar a elaboração de perfil, veja também o Ca‑
chaves de identificação de plantas, quadrante pítulo 2 – Técnicas de Geomorfologia e o Capítulo 17 –
centrado, fita métrica, lupa de mão, régua. Técnicas de Desenho e Elaboração de Perfil, deste livro.

capítulo 6 – técnicas de biogeografia 155


Diagramas de perfis podem ser utilizados no estudo da estratificação, para
ilustrar as relações entre a topografia e a distribuição horizontal das espécies
ou vegetação de baixo porte. Esse perfil pode ser elaborado com base em car‑
ta topográfica e em fotografia aérea, aliados à observação de campo. Para o
observador, é interessante distinguir em seu perfil as classes de estratificação.
Veja na Figura 6.25 um exemplo de perfil com topografia.

Classificação dos estratos vegetais

Em Fitogeografia, além das pesquisas sobre a fisionomia da vegetação


com utilização de técnicas de fotointerpretação, pode­‑se estudar a divisão
estrutural das formações vegetais, com especial atenção para as fisionomias.
Numa fisionomia florestal, por exemplo, as espécies organizam­‑se em
andares chamados estratos. Do chão à copa das árvores há uma divisão estru‑
tural em níveis, relativos aos diferentes patamares de altura que alcançam as
espécies vegetais. Essa organização estrutural é fundamental na classificação
fisionômica das coberturas e apresenta­‑se basicamente dos modos descritos
a seguir.

Sérgio Fiori
m
10 11 12 13 1
1750
1700 1 2 3 9
Vertente
1650 4 5 9 mamelonizada
1 Topo interfluvial
1600 6 7
8 Anfiteatro erosivo
1550 Vertente Planície fluvial
retilínea
1500 Anfiteatro erosivo
Planície fluvial 0 500 1000m
A / Norte-Nordeste B / Sul-Sudoeste

Geótopos
1 - Campo gramíneo-lenhoso subtropical
2 - Floresta tropical com Araucaria e Podocarpus
3 - Floresta subtropical com Araucaria e Pedocarpus sobre prado
4 - Floresta subtropical com Araucaria e Pteridophita arborescente
5 - Floresta secundária subtropical com Araucaria e Myrtaceae (Área A1 de estudo fitossociológico)
6 - Floresta homogênea de Pinus elliottii
7 - Campo gramíneo-lenhoso secundário
8 - Gleschenial
9 - Floresta latifoliada subtropical com Araucaria emergente
10 - Floresta latifoliada subtropical de porte baixo com Vernonia diffusa
11 - Campo subtropical com Escallonia sp.
12 - Floresta latifoliada subtropical de porte baixo com Vernonia sp. e Chusquea sp.
13 - Floresta latifoliada subtropical de porte alto com Chusquea sp., Araucaria e Croton

Figura 6.25. Perfil topográfico, morfológico e fitogeográfico do geossistema dos campos interfluviais e valores
florestados. Fonte: Diniz e Furlan (1998).

156 práticas de geografia


¾¾Estrato herbáceo: nível mais próximo ao chão, forme a sua adaptação, pelos estratos, ocorrendo
logo acima da serapilheira. É o domínio das desde os níveis mais próximos ao chão até as co‑
plântulas (indivíduos jovens das espécies vege‑ pas das árvores. Por esse motivo, muitos animais
tais) no reino tropical e onde ocorrem as gramí‑ são especialistas e endêmicos, ou seja, sofreram
neas e outras plantas não lenhosas. Na floresta, coevolução com a floresta e vivem em condições
situa­‑se na altura da canela do observador. próprias e muitas vezes únicas. Analisando­‑se
¾¾Estrato arbustivo: nível que se situa cerca de 1 novamente a legislação referenciada no item A
a 2 metros de altura, onde estão os arbustos e in‑ observação no campo, deste capítulo, pode­‑se ve‑
divíduos um pouco mais crescidos de árvores de rificar que a estrutura da floresta também indica
pequeno porte, além das samambaias­‑açu (fetos o grau de regeneração.
arborescentes). O perfil da vegetação representa uma espécie
¾¾Estrato arbóreo: nível com diferenciações va‑ de fotografia desse arranjo estrutural vertical.
riadas, de diversos tipos de espécies arbóreas, Ele pode ser desenhado artisticamente ou de for‑
que alcançam alturas bastante distintas. Pode ma esquemática, com a utilização de símbolos.
formar, por vezes, o sub­‑bosque – um nível inter‑
mediário de árvores que sobressai ante o estrato
arbustivo, mas que não alcança as copas das ár‑ Herborização
vores mais altas. Ocorrem muitas árvores jovens
que formarão o futuro dossel. Cabe ao geógrafo realizar a coleta correta‑
¾¾Dossel: é o telhado da floresta, formado pelas mente e ao botânico identificar as espécies. Uma
copas das árvores que atingem maiores alturas. boa coleta deve conter um número de exempla‑
Pode apresentar diversos níveis de entrelaçamen‑ res suficiente para análise, registro no herbário
to e espaçamento, possibilitando a entrada de e envio a outros especialistas, se necessário.
luz em diferentes quantidades. É essencial para a Recomenda­‑se retirar cinco exemplares de ramos
proteção das espécies que dependem de sombra da planta contendo folhas, flores e frutos, pois
para crescer. são essas as estruturas que permitem identificar
¾¾Emergentes: nível representado por algumas ár‑ uma planta.
vores que desenvolvem suas copas acima do dossel. Para facilitar a identificação do material
Essa diferenciação na estrutura interna de pelo especialista, deve­‑se prestar atenção e to‑
uma floresta, aliada às condições do relevo, pro‑ mar nota no caderno de campo dos seguintes
picia uma infinidade de microambientes, com aspectos:
muitas possibilidades de microclimas determi‑ ¾¾Cheiro característico (amassar a folha e sentir
nados por diferentes gradientes de temperatura, se exala aroma).
umidade e intensidade de luz. ¾¾Presença de sementes, frutos e flores (ou bo‑
A fenomenal biodiversidade apresentada pela tões florais). Produção de látex e suas caracterís‑
floresta tropical atlântica é explicada, em gran‑ ticas (leitoso, hialino etc.). Disposição de folhas
de parte, pela grande variação de micro­‑habitats no ramo.
decorrentes de diferentes composições de luz, ¾¾Cor das flores, tronco, folhas etc.
vegetação e microclimas, o que é favorecido tam‑ ¾¾Presença de espinhos.
bém pela variedade estrutural e de relevo. Em ¾¾Observar o ambiente de crescimento da plan‑
decorrência dessa grande variação de ambientes ta (declividade, disponi­bilidade de luz etc.).
há uma infinidade de habitats para a fauna que, ¾¾Proceder à coleta corretamente: em caso de
do mesmo modo, apresenta grande diversidade. plantas herbáceas, coletar até a raiz; em caso
Diferentes tipos de animais distribuem­‑se con‑ de árvores, coletar um ramo inteiro.

capítulo 6 – técnicas de biogeografia 157


¾¾Na coleta de folhas, prestar atenção para não ¾¾as diferenças entre folhas simples, compostas
coletar somente o folíolo, mas a folha inteira. (pinadas) e recompostas (bipinadas);
¾¾as diferenças entre frutos secos, carnosos,
A observação é fundamental para a análise deiscentes e indeiscentes. As diferenças entre
das condições do meio físico no momento da plantas epífitas e parasitas (hemi e total).
coleta. Por exemplo, se o vegetal não estava com
folhas nem frutos, é importante marcá­‑lo para Para conhecer melhor uma formação vege‑
retornar posteriormente. tal também são utilizados procedimentos de
Depois de coletadas e devidamente identifi‑ levantamento de campo para verificar algumas
cadas individualmente, as amos­tras devem ser características da flora presente (ocorrência,
cuidadosamente colocadas entre folhas de jornal frequência, variedade, fitossociologia etc.). Os
que, por sua vez, devem ser colocadas entre duas resultados obtidos podem oferecer importantes
folhas de papelão e amarradas com barbante. informações sobre as condições em que se en‑
Esta é a técnica de herborização, que conserva a contra uma dada formação vegetal, seja ela um
planta até o momento de sua identificação. Caso fragmento ou uma formação contínua. É possí‑
não seja possível realizar a herborização no cam‑ vel diagnosticar alterações decorrentes de ati‑
po, recomenda­‑se que se coloque a amostra em vidades humanas, invasão de espécies exóticas,
sacos plásticos escuros, com alguns pedaços de efeito de borda etc.
algodão molhado (câmara úmida), até ser reali‑
zada a herborização e o envio das amostras para
o responsável pela identificação. A herborização
deve ser feita logo após o retorno do campo, de PROCEDIMENTOS PARA
preferência no mesmo dia, para não perder as LEVANTAMENTOS
amostras por ressecamento. É muito importante FLORÍSTICOS E
que cada espécime coletado receba um número FITOSSOCIOLÓGICOS
sequencial e seja descrito no caderno de campo.
A etiqueta de identificação deve conter dados Para a obtenção dos dados quantitativos é ne‑
como: cessário estudar as técnicas de amostragem. Re‑
¾¾nome do local da coleta; gras rígidas ou generalizações que se adaptem a
¾¾data; todas as circunstâncias devem ser evitadas, pela
¾¾classificação/nome vulgar; variabilidade das comunidades vegetais.
¾¾nome do coletor;
¾¾observações.
Técnica das parcelas fixas

Identificação O primeiro trabalho com ensaios fitossocioló‑


gicos no Brasil foi realizado com o intuito de me‑
O observador deve conhecer: lhor conhecer a relação entre a febre amarela e o
¾¾as principais diferenças entre angiospermas e ambiente da floresta: os hospedeiros, os vetores
gimnospermas; e o vírus. Esse trabalho foi realizado por Davis
¾¾as principais diferenças entre monocotiledô‑ (1945) na floresta atlântica do município de Tere‑
neas e dicotiledôneas; sópolis – RJ. Davis utilizou duas picadas na mata
¾¾a caracterização das diferenças entre ramo, (uma com 1.021 e m outra com 750 m). Estudou
raiz, folha, flor e frutos; uma faixa com largura de 3 m, onde mapeou e

158 práticas de geografia


contou árvores e mediu o Diâmetro à Altura do
Peito (DAP). Veloso (1945) estudou os parâme‑
tros de clima, solos e vegetação na mesma área, b) b) b)
a) a) a)
utilizando também picadas, numa distância de 1
km e numa faixa com largura de 5 m. Dividiu o
caminho em setores de 100 x 5 m. Vários outros
estudos que utilizaram os mais variados tipos de
parcelas podem ser encontrados na literatura. b)
a)
c)
Neles, a área varia conforme o objetivo de estu‑ c) c) d) d) d)
do e o tipo de vegetação estudada. Quanto mais
complexa a formação, maior a área, o número de
amostras etc.
A técnica das parcelas fi xase) e) e) f) f)
é utilizada para f)
c)
medir a densidade e a frequência de espécies d)

Sérgio Fiori
numa determinada formação vegetal. A utiliza‑
ção de formas geométricas, como o quadrado,
para delimitar amostras no campo é um recurso
e)
que consegue destacar e visualizar uma parcela f)
do conjunto da comunidade. O quadrado é ide‑
al para análises estatísticas e designa a menor
área da comunidade que contém uma adequada
representação. A forma geométrica escolhida Figura 6.26. Tipos de podão (a, b, c); desplantador (d); prancha
pode variar, mas o quadrado é a figura geomé‑ aberta (e) e fechada (f).

trica usada com maior frequência. Quando a


vegetação apresentar estratificação, usam‑se A delimitação da parcela é feita com barban‑
quadrados com diversas áreas, encaixadas umas te e estacas ou as próprias árvores. O observador
nas outras. Os quadrados devem ser suficien‑ deverá classificar e anotar o número de vezes
temente grandes para incluir árvores e conter que uma mesma planta ocorreu no interior do
outros menores, para os estratos arbustivos e quadrado. Para o estudo de elementos arbóreos,
herbáceos. deverá determinar o diâmetro mínimo que será
A escolha dos pontos onde se vai traçar os considerado (DAP). Para facilitar, utiliza‑se o
quadrados no campo pode ser definida por meio Perímetro Mínimo à Altura do Peito (PAP). De
de linhas (transectos), conforme o objetivo do acordo com a formação, pode ser de 10 cm, 20
estudo. A defi nição dessas linhas pode partir, cm etc. Essa avaliação é subjetiva, mas o obser‑
por exemplo, da análise prévia de fotografi as vador deve consultar trabalhos já realizados para
aéreas ou de imagens de satélite. Vários estudos verificar como foram definidos o PAP ou o DAP
sugerem que uma área de 10.000 m 2 (1 hectare) em formações semelhantes. Os dados deverão
seria suficiente para amostrar a diversidade de ser sistematizados em forma de tabela, como as
uma formação florestal. Essa delimitação, no Tabelas 6.2 e 6.3 exemplificadas a seguir.
entanto, deve ser controlada por uma curva de Na Tabela 6.3:
suficiência de amostragem, que consiste em ve‑ ¾ npi: número de parcelas onde ocorreu a espécie i
rificar quando é alcançada a representatividade ¾ ni: número de indivíduos de cada espécie
das espécies numa certa formação vegetal (cot- ¾ ABi: soma das Áreas Basais da espécie i
tam e curtis, 1956). ¾ FR (Frequência Relativa): (npi/npi−total)∙100

capítulo 6 – técnicas de biogeografia 159


¾¾DR (Densidade Relativa): (ni / ni−total)∙100 Aplica­‑se a definição a seguir para estimar a den‑
¾¾DoR (Dominância Relativa): ABi/(ABi−total)∙100 sidade absoluta e relativa.
¾¾IVI (Índice do Valor de Importância): FR + ¾¾Densidade absoluta = número de espécimes
DR + DoR iguais identificados dividido pela área do qua‑
drado.
Para calcular a área basal a partir do períme‑ ¾¾Densidade relativa = número de espécimes
tro da árvore, considere que dado o perímetro iguais identificados dividido pelo número total
(P), acha­‑se o raio (r): r = P / 2π. de espécies.
Com o raio, acha­‑se a área (A): A = πr2 / 2.
A partir dos dados apresentados pode­‑se cal‑
cular a densidade e a frequência. Frequência
A frequência indica a presença de espécies
em todas ou em algumas amostras. O cálculo é
Densidade feito considerando o número de quadrados em
É o número total de indivíduos de cada es‑ que se observou a ocorrência da espécie em rela‑
pécie encontrados numa determinada área de ção ao número de quadrados examinados.
amostra. Frequência = número de quadrados em que
Cálculo da densidade: toma­‑se uma amostra a espécie ocorreu dividido pelo número de qua‑
em forma de quadrado da vegetação em estudo. drados examinados.
O tamanho do quadrado varia conforme o tipo Observação: a densidade e a frequência in‑
de formação vegetal. Identificam­‑se as espécies dicam o número e a distribuição, mas não mos‑
diferentes entre si, numerando­‑as. Em seguida, tram o tamanho, o volume ocupado ou a quan‑
promove­‑se a contagem dos indivíduos iguais. tidade do terreno coberto ou sombreado.

Tabela 6.2 – Exemplo de tabela para anotação da distribuição da vegetação

Parcela n. Número de ocorrências Área basal (m²)

Espécies *** ***

1. *** ***

2. *** ***

3. *** ***

4. *** ***

Tabela 6.3 – Exemplo de tabela para anotação dos dados quantitativos de distribuição da vegetação

Espécies npi ni ABi (m²) FR (%) DR (%) DoR (%) IVI

1 *** *** *** *** *** *** ***

2 *** *** *** *** *** *** ***

3 *** *** *** *** *** *** ***

Total *** *** *** *** *** *** ***

160 práticas de geografia


Técnica do quadrante centrado

O primeiro estudo a aplicar a técnica dos qua‑ Os mesmos campos da Tabela 6.3 podem ser
drantes no estudo de vegetação tropical foi reali‑ preenchidos utilizando­‑se essa técnica.
zado por Goodland (1964), na Guiana Francesa. Após o cálculo do IVI para cada espécie,
Um dos estudos importantes quanto à revisão organiza­‑se uma tabela em ordem decrescente
metodológica dessa técnica pode ser encontra‑ de importância (ver exemplo na Tabela 6.5).
do na pesquisa realizada por Martins (1993). O Outras formas de tratamento e apresentação
autor discorre sobre o desenvolvimento histórico dos resultados devem ser utilizadas, como:
dessa técnica, muito usual e prática no estudo do ¾¾Número de indivíduos (% do total amostrado)
componente arbóreo de florestas tropicais. por famílias – histograma.
O quadrante é uma espécie de cruzeta para ¾¾Distribuição do índice do valor de importân‑
selecionar amostras aleatoriamente. Define­‑se cia por famílias – histograma.
um caminhamento (transecto) que será estuda‑ ¾¾Distribuição do número de espécies por fa‑
do pela técnica de amostragem por quadrantes. mília – histograma.
O procedimento deverá ser o seguinte: ¾¾Distribuição de frequência das classes de diâ‑
¾¾Em cada ponto de amostragem, a cada 10 metro – histograma e curva.
metros, estabelecem­‑se de modo aleatório os ¾¾Teste de suficiência da amostragem – curva
quatro quadrantes através de uma cruz de ma‑ do número acumulativo de novas espécies (espé‑
deira móvel encaixada em um suporte. cies inéditas) por número de pontos de amostra‑
¾¾Mede­‑se a distância do ponto ao centro da ár‑ gem – gráfico.
vore (portanto, soma­‑se o raio da mesma) mais pró‑ ¾¾Ocorrência das espécies nos pontos amostra‑
xima em cada quadrante. Mede­‑se com uma trena dos – tabela.
o perímetro do tronco e identifica­‑se a espécie. ¾¾Para a interpretação dos resultados indica­‑se
¾¾O limite inferior de diâmetro deve ser esco‑ consultar o trabalho de Martins (1993).
lhido com base no estrato mais baixo que se de‑
seja incluir na amostragem, estimando o diâme‑
tro médio das árvores desse estrato. Diversidade
¾¾Deve­‑se considerar as árvores mortas e excluir Existem vários parâmetros envolvidos na
os pontos de amostragem localizados em áreas análise da biodiversidade. Com base nas amos‑
que não representam a vegetação que se preten‑ tragens, pode­‑se calcular alguns parâmetros que
de caracterizar, como os pontos de amostragem nos permitem avaliar frequência, dominância,
que caem em clareiras no interior da mata. composição e índice de valor de importância.
¾¾Os dados coletados pela técnica dos quadran‑
tes e das parcelas fixas serão utilizados para o
cálculo de valores relativos de densidade, fre‑
quência, dominância e valor de importância. OBSERVANDO O MEIO FÍSICO

Uma tabela, como a Tabela 6.4, exemplifi‑ Para melhor compreender o que se vê no
cada a seguir, ajuda na organização dos dados. campo é necessário correlacionar os dados de
Todo o material estudado, seja pela técnica distribuição e ocorrência dos seres vivos com o
de parcelas ou de quadrantes, deve ser identifi‑ meio físico, ou fatores abióticos. Isso porque to‑
cado. Para isso, é necessária a coleta para iden‑ dos os seres vivos têm sua existência controlada
tificação da composição florística. pela variação de muitos fatores do meio físico

capítulo 6 – técnicas de biogeografia 161


Tabela 6.4 – Exemplo de tabela para registro do estudo de vegetação utilizando­‑se a técnica dos quadrantes

N° do ponto Espécies Distância + raio Perímetro

1. *** a) *** *** ***

b) *** *** ***

c) *** *** ***

d) *** *** ***

2. *** a) *** *** ***

b) *** *** ***

c) *** *** ***

d) *** *** ***

Tabela 6.5 – Exemplo de tabela

Posição Espécies Famílias DR% FR% DoR IVI%

1. Ilex theezans Arquifoliaceae 12,50 11,30 45,30 69,10

2. Tabebuia cassinoides Bignoniaceae 4,17 4,80 8,46 17,43

combinados, tais como a umidade, as tempera‑ cos. Os climáticos são os de maior amplitude,
turas, o tipo de solo, a orientação de vertente. Na pois condicionam os fatores biológicos, edáficos
escala do tempo ecológico, a interação desses fa‑ e geomorfológicos em diversas escalas de tem‑
tores tem um papel importante na manutenção po e espaço. Pelo exposto, percebe­‑se como os
de um ou outro tipo de ecossistema. campos de conhecimento da Climatologia, Geo‑
Os fatores do meio físico determinam, por morfologia e Pedologia, tratadas em capítulos
exemplo, o tipo de vegetação que pode ocupar específicos, são importantes para a Biogeografia.
uma vertente ou uma zona litorânea e condicio‑ É recomendável trabalhar com o intervalo
nam as características das comunidades vegetais. mínimo de um ano de observação para que se
Por outro lado, as comunidades podem também possa ter um acompanhamento de pelo menos
criar novas condições ambientais pela sua própria um ciclo estacional. As observações diárias são
existência. É o caso de uma floresta. Para sua como um flash do ambiente e não devem ser des‑
existência, ela depende de condições de umidade cartadas.
e temperatura específicas na atmosfera. Por sua
vez, em razão das suas próprias características
biológicas, poderá criar abaixo do dossel (encon‑
tro das copas de árvores) outros ambientes. Trata­ ESTUDO DOS FATORES
‑se de estudar nas diferentes escalas quais fatores CLIMÁTICOS
do meio estão atuando e como interagem.
Os fatores do meio físico podem ser tipifica‑ Os fatores climáticos, como temperatura,
dos como: climáticos, edáficos e geomorfológi‑ luminosidade, precipitação, umidade atmosfé‑

162 práticas de geografia


rica e ventos podem ser estudados em diferentes A temperatura no ambiente
escalas, desde uso de satélites até estudos mi‑
crometereológicos. Os dados macrometeorológi‑ A temperatura é considerada um dos fatores
cos podem ser obtidos por meio de consultas às limitantes fundamentais para os seres vivos. A
estações meteorológicas, aeroportos, cartas de atividade metabólica dos animais não homeotér‑
tempo etc. No campo, na escala do observador, micos (como anfíbios e répteis) é sensivelmente
fica mais evidente o tempo do dia observado, modificada conforme a variação da temperatura
considerando o sistema de nuvens, ventos, tem‑ no ambiente. Mesmo nos organismos que con‑
peratura, umidade relativa do ar etc. Depen‑ trolam internamente sua temperatura, como é o
dendo do objetivo do estudo, pode­‑se comparar caso dos mamíferos, o ritmo térmico tem um pa‑
um perfil climático com um perfil de cobertura pel importante no comportamento. Para as plan‑
vegetal, ou observar comportamentos da fauna tas, a temperatura do meio controla as taxas de
e acompanhá­‑los com a variação do microclima. evaporação e, indiretamente, a fotossíntese (por
Para estudo desses parâmetros pode­‑se utilizar meio da abertura e fechamento dos estômatos).
as técnicas sugeridas no Capítulo 5 – Técnicas Um estudo do perfil de temperaturas pode
de Climatologia. ser interessante para compreender determinada
área de distribuição de uma espécie.

A influência dos ventos


A temperatura do solo
O vento influencia a umidade do ar que, por
sua vez, influencia a ocorrência de chuvas e a A temperatura do solo é muito importante
umidade relativa do ar e, portanto, interfere na para as plantas e a fauna do solo. Em regiões li‑
transpiração da vegetação. O vento é um indi‑ torâneas, por exemplo, a temperatura na areia
cador climático do tipo de tempo, além de ser pode chegar a 80 °C enquanto a temperatura do
importante na dispersão de sementes e na chuva ar pode estar entre 20 °C e 30 °C. O solo pode
de pólen. também se resfriar mais do que o ar durante a
noite e produzir geadas. A temperatura à super‑
fície do solo poderá ser obtida por meio de um
A luz no ambiente termômetro infravermelho, pois a incidência di‑
reta de raios solares nos bulbos de termômetros
A luz é um dos fatores essenciais para os seres comuns interfere em sua determinação. Um per‑
vivos. Basta lembrar que a fotossíntese, atividade fil de comportamento térmico em profundidade
pela qual as plantas obtêm energia para a so‑ pode ser útil para compreender o arranjo espacial
brevivência, depende desse fator. A quantidade de coberturas vegetais e também a atividade bio‑
e a qualidade da luz e o número de horas de lógica da fauna de solo.
exposição variam no ambiente e atuam como
fator limitante na ocorrência e distribuição das
plantas. A umidade relativa do
Normalmente empregam­‑se luxímetros para ar e evaporação
medir a intensidade luminosa. No campo, os lu‑
xímetros (ver Capítulo 5 – Técnicas de Climato‑ A quantidade de vapor de água no ar é um
logia) são os mais indicados, pela facilidade de fator controlador da transpiração das plantas e
transporte e precisão. está ligada também às precipitações. Veja no Ca‑

capítulo 6 – técnicas de biogeografia 163


pítulo 5 – Técnicas de Climatologia a explicação Terra, não só no momento atual como durante
da UR e as técnicas e instrumentos para medi­‑la. as Eras Geológicas (leitão, 1947).
Utilizando um evaporímetro de Piché, pode­ Sabe­‑se o quanto é difícil observar e se apro‑
‑se calcular a evaporação da água num intervalo ximar dos animais. Sabe­‑ se, também, que é
qualquer de tempo. muito prazeroso poder observá­‑los na nature‑
za. As pessoas não apreciam a fauna do mesmo
modo, há preferências: alguns têm medo, outros
Os solos como suporte da vida repulsa por certos tipos de animais. Independen‑
temente dos sentimentos, os animais são parte
Os solos são de vital importância para os fundamental de todos os ambientes. Muitos são
seres vivos. De sua natureza depende uma in‑ injustiçados – como anfíbios, répteis e uma infi‑
finidade de processos que determinam os tipos nidade de insetos, porque a maioria das pessoas
de cobertura vegetal existentes na Terra. Que desconhece o benefício que trazem ao ambiente.
processos são esses? Do solo advêm os nu‑ Um exemplo de injustiça é o caso dos ani‑
trientes e a água para as plantas, e suas raízes mais necrófagos e uma grande infinidade de se‑
desenvolvem­‑se diferentemente conforme as ca‑ res decompositores. São verdadeiros lixeiros na
racterísticas físico­‑químicas do tipo de solo. Os natureza, que realizam uma incrível limpeza do
organismos endógenos que vivem no solo são ambiente. O urubu, o camarão e a garça, apesar
importantes para a reciclagem dos nutrientes, de bem diferentes, cumprem papéis semelhan‑
assim como para as propriedades químicas e tes na natureza, pois aproveitam restos animais
físicas do solo. O solo constitui, portanto, um e vegetais em sua alimentação, transformando­
dos fatores limitantes ao desenvolvimento das ‑os e devolvendo­‑ os em forma de nutrientes
comunidades biológicas. Solos derivados de ro‑ para a cadeia alimentar. Assim como eles, os
chas carbonáticas diferem de solos derivados tatus e as hienas também são necrófagos ou
de rochas graníticas, por serem mais ácidos. As detritívoros. São animais que se alimentam de
plantas tropicais geralmente são calcífugas, ou organismos mortos, em estágio pouco avança‑
seja, preferem solos ácidos. Mas o solo tem uma do de decomposição. Seria muito interessante
gênese ligada a processos climáticos, morfoge‑ estudar na sua localidade quem são os injusti‑
néticos e biogênicos que ocorrem há muito tem‑ çados, tais como esses importantes animais da
po. É importante para o observador de campo cadeia alimentar.
proceder à análise cuidadosa do solo, para me‑ É claro que existem animais que são peri‑
lhor compreender a comunidade vegetal. Para gosos para nossa saúde e para nosso modo de
isso, pode apoiar­‑se nas atividades propostas no vida, mas a generalização nos levou a um gran‑
Capítulo 4 – Técnicas de Pedologia. de extermínio de animais. Muitas de nossas im‑
pressões sobre a fauna são produto da falta de
informação.
Há uma infinidade de animais que nem per‑
ESTUDOS DA FAUNA cebemos em nosso dia a dia, pois nosso olhar
dedica­‑se somente à percepção de alguns grupos
Uma das subáreas de estudo da Biogeografia considerados mais belos pelo senso comum, ou
é a Zoogeografia, estudo científico da distribui‑ mais evidentes na paisagem. Do mesmo modo
ção e ocorrência da vida animal, que trata das que ocorre com o estudo da vegetação, o geógra‑
influências do meio, das mútuas relações entre fo não precisa ser um especialista em fauna, mas
as espécies animais e da sua distribuição pela em muitas situações precisa saber perceber sua

164 práticas de geografia


presença, conhecer um grupo indicador de am‑ equipamentos sofisticados, muitos animais são
biente ao checar uma lista faunística em projetos ariscos e sua observação, difícil.
de planejamento, usando seus conhecimentos de Procurar vestígios da presença dos animais é
Biogeografia. a mais importante tarefa do observador. Sinais
Os animais variam de tamanho e estrutu‑ típicos são encontrados e, se corretamente in‑
ra, por isso não se pode empregar uma técnica­ terpretados, podem oferecer uma identificação
‑padrão para observação, captura e conserva‑ segura do animal que os produziu, além de infor‑
ção. Os procedimentos variam muito segundo mações eficazes sobre sua ecologia. Os vestígios
os diferentes grupos. Inicialmente, procura­‑se mais comuns deixados pelos animais que podem
observar quais são os animais comuns ou mais ser utilizados em sua identificação são:
facilmente visíveis. A utilização de fotografia é ¾¾fezes;
muito útil no estudo da fauna, uma vez que se ¾¾pegadas;
deve coletar o mínimo possível, pois pelo des‑ ¾¾pelos;
conhecimento da fauna local, não se sabe que ¾¾tocas, abrigos e ninhos;
alteração será provocada no ambiente, qual ¾¾restos de alimentos;
significado de determinados espécimes etc. A ¾¾restos de anteparos.
coleta só deve ser realizada quando absoluta‑
mente necessária ao avanço do conhecimento As pegadas são os sinais encontrados com
científico. Deve­‑se evitar a coleta de espécies maior frequência e de interpretação mais con‑
raras, utilizando a fotografia. Obviamente, al‑ fiável. Observar pegadas é uma forma eficaz
gumas formas de coleta não irão provocar dis‑ de identificar a presença de animais na área de
túrbio no balanço da natureza. Alguns insetos, estudo. Com base em sua observação e na ela‑
organismos pelágicos, algumas formas de plan‑ boração de moldes, pode­‑se identificar princi‑
tas toleram uma coleta considerável. palmente a ocorrência de meso e macrofauna,
Os cadernos de anotação devem conter todas principalmente répteis, aves e mamíferos.
as informações dos animais observados, fotogra‑ Os locais mais propícios à presença de pe‑
fados ou coletados. Os animais coletados devem gadas são: beirada de corpos d’água, locais en‑
ser devidamente conservados e corretamente eti‑ lameados ou arenosos, trilhas, e próximo a ár‑
quetados. A conservação dos exemplares deve vores frutíferas. É importante ter informações
ser feita segundo manuais, pois varia para os di‑ básicas sobre os hábitos dos animais a serem
ferentes grupos. As capturas feitas corretamente pesquisados, para um melhor direcionamento
podem ser enviadas aos museus. da observação dos locais favoráveis à presença
de fauna.
É essencial observar o tamanho das pega‑
Rastros e pegadas de animais das (medir com régua), fotografar, identificar o
número de pegadas, a quantidade de dedos, a
Existem várias formas de se identificar a pre‑ distância entre eles, o formato da pegada (ocor‑
sença de fauna no campo, com a utilização de rência de almofada) e o local onde a pegada foi
instrumentos e técnicas, das mais simples até encontrada. O caderno de campo é material
as mais sofisticadas. Entretanto, estudar a fau‑ indispensável, pois todas as observações feitas
na não é tarefa simples, ainda mais em regiões devem ser anotadas.
tropicais, nas quais as limitações são impostas A Figura 6.27 ilustra um exercício simples
pelas características discretas de muitas espé‑ para treinar a técnica de se fazer um molde de
cies e pela vastidão dos territórios. Mesmo com uma pegada.

capítulo 6 – técnicas de biogeografia 165


ESTUDANDO AS AVES

A vivência no trabalho de campo permite ob‑ guias para todo o país, para apenas um esta‑
servar e identificar diversas aves. Alguns com‑ do ou uma localidade restrita, como o Aves no
portamentos das aves facilitam prever e deduzir campus (höffing, 2002), que retrata as espé‑
outros. A observação de aves é uma prática que cies de aves da Cidade Universitária, em São
envolve milhões de pessoas em todo o mundo. Paulo. Dois guias de abrangência nacional são:
Nenhum outro grupo de animais silvestres exerce Aves brasileiras (frisch, 1981) e Todas as aves
maior atração sobre as pessoas, pela sua simples do Brasil (souza, 2004).
contemplação. Certamente, algumas qualidades
notáveis das aves são responsáveis por isso, como
sua capacidade de voo, invejada pelo homem por Modos de observação de aves
centenas de anos; seu colorido, muitas vezes im‑
possível de ser reproduzido numa pintura, pois Observação de espera: o observador fica pa‑
algumas cores são decorrentes de iridescências da rado em determinado local por algum tempo, de
própria estrutura das penas; seu canto, melodioso preferência próximo a lago, rio ou árvore com
e agradável ao ouvido humano. A isso, acresce­‑se frutos, esperando que as aves da região apare‑
a grande conspicuidade das aves, que podem ser çam. É recomendável que as observações sejam
vistas voando a grandes alturas ou sobrevoando feitas ao amanhecer e ao entardecer.
ondas em alto­‑mar, nos desertos mais áridos e no
inóspito inverno antártico. Observação de percurso: o observador faz
A observação e o reconhecimento das espé‑ suas observações caminhando por uma estrada,
cies de aves podem ser feitos em grande parte trilha, picada, pelo campo etc.
pela sua simples visualização e escuta. Prova
disso é que muitos moradores das áreas rurais Equipamentos e dicas úteis para a observa‑
são grandes conhecedores das aves de sua re‑ ção científica de aves:
gião. Mas o uso de equipamentos poderá ser ¾¾câmera fotográfica;
muito útil. Tudo dependerá do maior ou menor ¾¾GPS;
interesse pela observação e aprofundamento em ¾¾binóculos;
suas técnicas. ¾¾boné para evitar luz sobre os olhos e melhorar
São de grande utilidade os guias de campo, o contraste e a saturação de cores na visualiza‑
livros em geral com formato pequeno para se‑ ção por meio do binóculos;
rem levados em campo, com desenhos ou fotos ¾¾lanternas para observações noturnas, e ou‑
de todas as aves de determinada região. Há tras menores de reserva;
Sérgio Fiori

Encher uma Fazer uma Colocar uma tira Despejar gesso Limpar o molde
caixa com areia pegada de papelão em no centro e endurecido com Figura 6.27. Fazendo um
volta da pegada deixá-lo secar uma escova molde de uma pegada.

166 práticas de geografia


¾¾fitas coloridas impermeáveis para marcar de identificação das espécies ou com a ajuda de
pontos na mata; um especialista.
¾¾relógio com cronômetro para marcar tempo A lista das espécies encontradas, tanto de
de observação de alguns hábitos; plantas quanto de animais, e sua distribuição,
¾¾lista das aves que ocorrem no local (alguns os diagramas de perfis, frequência, densidade,
lugares, parques e reservas possuem lista de sua fotografias etc. devem ser analisados cuidado‑
avifauna, o que ajuda a observação, porque per‑ samente em tabelas e gráficos. A análise e a
mite identificar melhor e mais rapidamente as comparação dos resultados levarão ao melhor
aves avistadas); conhecimento do local estudado e a conclusões
¾¾caderno de anotações para posterior estudo quanto a certos aspectos do ambiente. Os fato‑
das espécies de difícil identificação; res ambientais que influem sobre a natureza do
¾¾pequeno gravador para registrar o canto das habitat e a distribuição das plantas e dos ani‑
aves; mais devem ser tabelados, colocados em gráfi‑
¾¾guia de campo para uma boa identificação, cos e analisados juntamente com os dados de
lembrando que deve ser escolhido o local que fauna e flora. É imprescindível ao biogeógrafo
tem o maior número possível da avifauna do mapear os organismos encontrados e compará­
ecossistema escolhido; ‑los com a descrição biogeográfica constante na
¾¾roupas: devem ser discretas para não espantar literatura.
as aves; tons de verde ou marrom são adequados
para se camuflar com o ambiente;
¾¾modo de andar: deve ser cauteloso e silencio‑ Relatório de campo
so. Gestos rápidos assustam as aves, ao passo
que andar em câmera lenta permite boa aproxi‑ O relatório deve ser escrito em linguagem
mação. Andar direto em direção a uma ave pode clara, objetiva, precisa e simples e conter todas
assustá­‑la, mas andar em ziguezague, como se as etapas do desenvolvimento do trabalho, as re‑
estivesse apenas passando perto delas não as as‑ flexões dos autores e a metodologia empregada.
susta tanto. Existem vários modelos de relatório. A es‑
colha depende da forma como o observador
expressa seus resultados. Em geral, inicia­‑se o
relatório com a apresentação clara do problema
ANÁLISE, INTERPRETAÇÃO a ser investigado, pois ajuda na concentração
E RELATÓRIO dos propósitos almejados. Em seguida, inicia­‑se
a descrição de como e o quê foi pesquisado na
O observador de campo deve estar suficien‑ área escolhida. Os resultados devem ser anota‑
temente interessado na vida ao seu redor para dos e revistos no transcorrer do trabalho. Tabe‑
aprender, ao menos, sobre as espécies de ani‑ las, gráficos e ilustrações são muito úteis para a
mais e plantas mais comuns na área de estudo. visualização e discussão e devem ser confeccio‑
Seu valor como observador de campo aumenta‑ nados antes da redação do texto.
rá com sua habilidade de identificar animais e A discussão dos resultados, etapa final do re‑
plantas no material coletado, fotografado ou ob‑ latório, pode ser antecipada durante o desenvol‑
servado (anotações). Suas identificações devem vimento do texto, contudo só pode ser redigida
ser validadas em manuais de descrição, chaves depois da sua apresentação e interpretação.

capítulo 6 – técnicas de biogeografia 167


NA SALA DE AULA

Atividade 1: mapeando os
hábitos dos animais

Com base em imagem ou mapa esquemá‑ zação de exercícios de Biogeografia. Caso haja,
tico de uma área qualquer (fotografia aérea, exercite com os alunos as técnicas de quadran‑
imagem de satélite, carta topográfica) que con‑ te, de parcelas e de herborização, seguindo as
tenha fragmentos de formação vegetal em meio orientações fornecidas neste capítulo. Um qua‑
a outras variáveis (plantações; barreiras natu‑ drante pode ser facilmente construído com um
rais, como corpos d’água; e antrópicas, como cabo (do tipo enxada) e uma cruzeta feita de
estradas), propor questões reflexivas quanto à ripas.
viabilidade de mobilidade de uma espécie cujo Juntamente com os professores de Biologia,
habitat seja conhecido. Segue abaixo um roteiro colete com os alunos amostras vegetais, caso
de questões que podem ser aplicadas ao estudo seja permitido, utilizando as orientações e os
desse tipo de mapeamento. cuidados expostos neste capítulo. Acondicione
¾¾Observe a situação da cobertura vegetal da adequadamente as espécies coletadas, iniciando
área. Levando em consideração as distâncias a criação de um herbário da flora local para ser
entre os fragmentos e seus diferentes tamanhos, arquivado na escola.
identifique e relacione as regiões de maior ou Observação: note que o trabalho de campo
menor distanciamento entre fragmentos. de Biogeografia pode ser feito juntamente com
¾¾Com base em dados comportamentais de os exercícios propostos nos Capítulos 2, 4 e 5
uma espécie conhecida e das informações con‑ deste livro (Técnicas de Geomorfologia, de Pe‑
tidas no mapa, levante uma hipótese sobre as dologia e Climatologia – respectivamente). Essa
possíveis áreas de ocorrência deste animal. integração de atividades é útil para a constru‑
Delimite­‑as no mapa, tendo em mente o terri‑ ção do conceito de paisagem enquanto conjun‑
tório da espécie e as condições do fragmento. Se to articulado de componentes. As dinâmicas da
necessário, elabore uma legenda. natureza serão melhor assimiladas e os traba‑
¾¾Há condições para trânsito de indivíduos lhos extra classe serão mais empolgantes, uma
de um fragmento ao outro? Identifique na área vez que envolvem o aluno enquanto agente.
apresentada as principais barreiras (naturais/an‑
trópicas).
¾¾Elabore uma proposta para solucionar o pro‑ Atividade 3: reconhecendo
blema de rodovias (caso existam) que cortam a flora e a vegetação
fragmentos, ameaçando a vida de diversos gru‑
pos de animais. Destacar na aula o tema da cobertura vege‑
tal urbana como modo de perceber a presença
da natureza nas cidades. Mostrar alguns dados
Atividade 2: exercitando quadrante, sobre mudanças de temperatura e poluição e o
parcelas e herborização efeito benéfico da cobertura vegetal. Solicitar
aos alunos uma pesquisa em livros didáticos,
Identifique se, próximo à escola, existe al‑ enciclopédias ou na internet para verificar como
gum fragmento florestal, um parque ou área esse assunto é tratado. Disponibilizar o texto a
com cobertura vegetal suficiente para a reali‑ seguir para leitura em duplas.

168 práticas de geografia


Conversar com os alunos sobre o texto, des‑ uma contagem, por forma de vida, do número
tacando que até mesmo em uma cidade como de espécies que ocorrem no entorno da escola.
São Paulo ainda vivem muitos animais e plantas. É aconselhável elaborar uma lista de referên‑
Convidar os alunos para um levantamento cias, antes de realizar a atividade.
biogeográfico da cobertura vegetal urbana ou Produzir um mapa das dez principais espé‑
de áreas rurais do entorno da escola. cies da flora local escolhidas pelos alunos, entre
O estudo da cobertura vegetal e sua tipolo‑ as plantas nativas e exóticas, para conhecer sua
gia poderá ter dois enfoques. Um voltado para origem e distribuição.
o conhecimento da flora nativa e exótica e outro Construir tabelas para a pesquisa, separando
sobre as áreas livres e verdes do município. as plantas exóticas das nativas. De acordo com a
dificuldade apresentada pelos alunos, o professor
poderá eleger um número menor de plantas. O
Enfoque 1 – Flora importante é que os alunos percebam que mui‑
Organizar a turma em grupos para produzir, tas plantas na cidade são invasoras e exóticas.
em duas semanas, durante percursos de campo Na Tabela 6.6, um exemplo de tabela que po‑
pelo bairro ou região do município, um levanta‑ derá ser utilizado e/ou modificado para a cidade
mento de plantas relacionadas em lista. de São Paulo.
Definir um trajeto com os alunos, utilizando
um mapa de ruas do município. Identificar as ti‑ Tabela 6.6 – Exemplo de tabela
pologias de cobertura (praças, terrenos baldios,
Nativas do Brasil arbóreas Exóticas arbóreas
verde viário etc.). Distribuir as equipes por tipos
de áreas de cobertura e por formas de vida (vege‑ Araucária Tipuana
tação arbórea, arbustiva e herbácea). Explicar para
Ipê­‑amarelo Mangueira
as crianças como identificar essas formas de vida.
Cada grupo deverá listar o máximo de plan‑ Pau­‑brasil Flamboyant
tas que conseguir, mesmo que não saiba os seus
nomes científicos ou populares. Com apoio do Castanha­‑do­‑ Pará Chapéu­‑de­‑Sol

professor de Ciências, definir como esse inventá‑


Jequitibá Figueira
rio será feito. A listagem poderá ser por morfotipos
e nomes comuns, conhecidos localmente. O im‑
portante será reconhecer a diversidade de tipos.
Organizar uma lista com os nomes comuns Enfoque 2 – Vegetação
e depois pesquisar com os alunos os nomes Para organizar os dados de cobertura vegetal,
científicos das plantas, a origem geográfica e as criar uma tabela para os alunos identificarem os
curiosidades, por exemplo: para que serve, o que tipos que ocorrem na cidade, bairro ou entorno
provoca no ambiente etc. da escola. A sugestão apresentada na Tabela 6.7
Organizar os grupos para pesquisarem em poderá ser utilizada.
enciclopédias, livros e internet, se possível. Após esse levantamento os alunos poderão
Com as tabelas prontas, os alunos poderão ter organizar um croqui desta ocorrência utilizando

capítulo 6 – técnicas de biogeografia 169


Tabela 6.7 – Exemplo de tabela

Tipologia de áreas verdes Ocorrência na cidade (quantidade, localizações etc.)

Públicas

Praças *******

Parques municipais *******

Cemitério *******

Viveiros *******

Mirante *******

Monumento natural *******

Ruas arborizadas *******

Privadas

Clubes *******

Jardins e quintais *******

Sítios e fazendas *******

Outros *******

como mapa­‑base o guia de ruas (para o bairro eles se habilitarem para ultrapassar e superar as
e entorno da escola) ou mapa da cidade. Defi‑ limitações encontradas nas atividades que foram
nir com os alunos a forma como irão apresentar realizadas.
o resultado da pesquisa na “Semana do Meio Como o professor poderia agir para favore‑
Ambiente” ou em outra data importante do ca‑ cer o desenvolvimento das capacidades dos alu‑
lendário comemorativo da escola. nos nas atividades? Elaborar um registro desse
processo de observação das produções dos alu‑
nos.
Avaliação geral Avaliar as aquisições quanto à apropriação
Observar, ao longo das atividades, quais fo‑ de repertório referente ao tema da cobertura ve‑
ram as limitações dos alunos para ler, produzir getal como forma de perceber a natureza trans‑
textos, organizar dados e explanar um assunto formada. As proposições de debate, nas quais
de modo oral. Registrar as aquisições e dificul‑ o uso da oralidade é fundamental, constituem
dades a serem superadas pelos alunos, desde o importantes momentos para se promover o de‑
início do trabalho, e procurar introduzir, durante senvolvimento dessa competência. Registrar as
o período de estudos, atividades que se ajustem observações sobre esse repertório.
melhor às capacidades dos alunos e às suas novas As produções escritas deverão ser lidas e
aquisições. comentadas pelo professor, com indicações de
Observar, nesse registro individual de cada como o aluno poderá melhorar a sua capacidade
aluno, como o professor considera ser possível a de expressão pela escrita, em Geografia.

170 práticas de geografia


ConSideraçÕeS finaiS

Os padrões de distribuição de animais e plantas sobre a superfície terrestre


dependem, como vimos, de diversos fatores, como o clima, os solos e o relevo.
Portanto, a integração dos estudos de Biogeografia com os de Climatologia,
Pedologia, Geomorfologia e, sobretudo, Biologia é necessária para enriquecer
a compreensão de cada uma dessas áreas e da paisagem enquanto “conjunto
indissociável e em perpétua evolução”1. Ressalta‑se ainda o apoio técnico das
cartografias e do tratamento estatístico de dados às pesquisas em Biogeografia.
Procurou‑se mostrar que a Biogeografia nos auxilia na integração dos diversos
componentes da paisagem, na medida em que a distribuição dos seres vivos na
Terra é reflexo da dinâmica da paisagem.
Finalmente, a Biogeografia, por conceber a paisagem enquanto conjunto,
representa importante subsídio ao Planejamento Ambiental, conservação de
áreas, agricultura e mesmo turismo, lazer e educação ambiental.

1 Fragmento da definição de paisagem de Carlos Augusto de Figueiredo Monteiro, em seu livro


Geossistemas: a história de uma procura. São Paulo: Contexto, 2000. p. 39.
REFERÊNCIAS DE APOIO

Bibliografia

AB´SABER, A. N. Os domínios morfoclimáticos na Souza, Deodato G. S. Todas as aves do Brasil: guia


América do Sul: uma aproximação. In: Geomorfo- de campo para identificação. 2. ed. Feira de Santa‑
logia, n. 52, pp. 1­‑22, Instituto Geográfico/USP, São na: Dall, 2004. 350 p.
Paulo, 1977. Veloso, H. P. As comunidades e as estacoes botâni‑
CROIZAT, L. et al. Centers of origin and related con‑ cas de Teresópolis, estado do Rio de Janeiro. Rio de
ceptssystematic zoology. Harward, v. 23, pp. 265­‑287, Janeiro: Boletim do Museu Nacional Nova Serie
n. 2, 1974. Botânica, 1945, No. 3: 1-95.
DINIZ, A. & FURLAN, S. A. Relações entre classificações Whitmore, T. C. & Prance, G. T. Biogeography
fitogeográficas, fitossociologia, cartografia, escalas e and Quaternary history in tropical America.
modificações socioculturais no parque estadual de Oxford: Clarendon Press, 1987.
Campos de Jordão. São Paulo: Revista do Departa- ZUNINO, M.; ZULLINI, A. Biogeografia – la dimen-
mento de Geografia, 1998. p. 123-161. sión espacial de la evolución. México: Fondo de
ELDREDGE, N.; CRACRAFT, J. Philogenetic patterns Cultura Económica, 2003.
and the evolutionary process: method and theory
in comparative biology. Nova York: Columbia Uni‑
versity Press, 1980.
Frisch, Johan Dalgas. Aves brasileiras. São Paulo : Agradecimentos
Dalgas-Ecoltec Ecologia Tecnica, 1981.353 p.
FURLAN, S. Geoecologia: o clima, os solos e a biota. In:
A autora expressa seus agradecimentos a Eduardo Félix
ROSS, Jurandyr L. S. Geografia do Brasil. São Paulo:
Justiniano, Gerson Freitas, João Nucci e Kelly Cristina
EDUSP, 1996.
Melo, cujas colaborações foram inestimáveis.
Goodland, Robert. A phytosociological study of
the northern Rupununi Savanna, British Guiana.
Montréal: McGill University, 1964. 300 p.
HENNIG, W. Philogenetic systematics. Annual Review
of Entomology, v. 10, pp. 97­‑116, 1965.
Höfling, Elizabeth. Aves no Campus Cidade Uni-
SOBRE O AUTOR
versitária Armando de Salles Oliveira. 3. ed., 1ª
reimpr. São Paulo : EDUSP/Instituto de Biociências da Sueli Angelo Furlan é professora assistente dou‑
Universidade de São Paulo, 2002. 157 p. tora do Departamento de Geografia da Faculdade de
LEITÃO, C. M. Zoogeografia do Brasil. 2. ed. Rio de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade
Janeiro: Cia. Ed. Nacional, 1947. de São Paulo desde 1986. Possui título de mestre e
MARTINS, F. R. Estrutura de uma floresta mesófila. doutora em Geografia Física pela mesma instituição e é
Campinas: Unicamp, 1993. bacharel e licenciada em Biologia e em Geografia, tam‑
MONTEIRO, C. A. F. Geossistemas: a história de bém pela USP. Desenvolve pesquisas socioambientais.
uma procura. São Paulo: Contexto, 2000. É orientadora do grupo de pesquisa “Territorialidades
NELSON, G.; PLATINICK, N. Systematics and biogeo- da conservação: ambiente, conservação e populações
graphy cladistic and vicariance. Nova York: Colum‑ tradicionais”, vinculado ao Laboratório de Climatologia
bus University Press, 1984. e Biogeografia/USP, e coordenadora do Núcleo de
NELSON, G.; ROSEN, D. E. Vicariance biogeography: Estudos de Populações e Áreas Úmidas (NUPAUB/
a critique. Nova York: Columbia University Press, 1979. USP). É credenciada no Programa de Pós­‑ Graduação
ROSEN, R.; BEAVER, D. de B. Studies in scientific colla‑ em Ciências Ambientais da PROCAM/USP.
boration: Part I. The professional origins of scientific
co­‑authorship. Scientometrics, v. 1, pp. 65­‑84, 1978.

172 práticas de geografia


Técnicas de
Cartografia
7
Alfredo Pereira de Queiroz Filho
Mário De Biasi
EDuardo Justiniao

Introdução, 175 Alturas e atitudes, 194 Na sala de aula, 200


Escala, 177 Ângulos, 196 Considerações finais, 202
Orientação espacial, 184 Declividade, 197 Referências de apoio, 203
Distâncias, 192 Área, 198 Sobre os autores, 204

PRATGEO_2aprova.indb 175 26/11/10 12:21


INTRODUÇÃO

O objetivo deste capítulo é resgatar as noções básicas da cartografia por


meio de atividades tradicionais de levantamento expedito1 e de manipulação
gráfica das cartas topográficas. São técnicas antigas e consagradas, mas seu uso
foi reduzido, entre outros fatores, pela baixa precisão que apresentam, sendo
gradualmente substituídas pelas tecnologias digitais.
A revalorização desses procedimentos gráficos ou analógicos, numa época
caracterizada pelo paradigma tecnológico, justifica­‑se por duas razões: simplici‑
dade e potencial didático. Os procedimentos analógicos aqui abordados possuem
baixíssimo ou nenhum custo; não dependem da utilização de equipamentos
eletrônicos ou programas específicos e, em alguns casos, permitem a construção
do próprio instrumento de medida. Além disso, as atividades propostas podem
ser realizadas em campo, em laboratório ou em sala de aula, auxiliando na com‑
preensão e fixação de conceitos.
Os principais temas abordados são: escala cartográfica; orientação espacial;
estimativas de distância, de altura e altitude, de ângulo, de declividade; e cálculo
de área. As questões relacionadas à escala foram as mais exploradas, tendo em
vista sua importância e a recorrente dificuldade dos estudantes na compreensão
desse conceito­‑chave da Cartografia.

1 A compilação dos levantamentos expeditos aqui apresentados baseia­‑se, fundamentalmen‑


te, na obra Ensaios cartográficos, elaborada por João Soukup, em 1966. De origem austro­
‑húngara, ele foi o primeiro professor de Cartografia do Departamento de Geografia da Uni‑
versidade de São Paulo, onde trabalhou de 1947 a 1961.

PRATGEO_2aprova.indb 176 26/11/10 12:21


ESCALA

Escala é um atributo fundamental das pes‑ Já para Corrêa (2007), escala é uma constru‑
quisas geográficas. Entretanto, a utilização des‑ ção social que possui três principais acepções: a
se termo requer algum cuidado, pois existem cartográfica, que é a relação entre o objeto e a
para ele diferentes conotações. Entre muitas sua representação em cartas e mapas; a de di‑
definições de diferentes autores, pode­‑se iden‑ mensão, como, por exemplo, da economia de um
tificar alguns pontos comuns, como se observa país; e a conceitual, relacionada à idéia de que
a seguir. objetos e ações são conceitualizados em uma
Segundo Fabrikant (2001), escala está rela‑ dada escala na qual os processos e configurações
cionada ao tamanho dos objetos estudados e ao se tornam específicos (exemplo: escala da rede
nível de detalhe adotado na pesquisa. A natureza urbana e escala do espaço intraurbano).
dos fenômenos define a escala das análises, que
por sua vez determina o grau de generalização
do estudo. Escala cartográfica
Para Lacoste (1988) e Racine et al. (1983),
o significado de escala é intrínseco ao de repre‑ Escala cartográfica é a relação entre uma
sentação da realidade. Quando relacionado à distância horizontal medida no terreno (D) e a
Cartografia, a representação do espaço possui distância da sua representação no mapa ou carta
uma conotação de “forma geométrica”. Assu‑ topográfica (d), como mostra a Figura 7.1. A ex‑
me também o significado de nível de análise ou pressão “escala cartográfica” implica, sempre, na
recorte espacial, quando a representação está redução das dimensões dos objetos do terreno,
vinculada à Geografia. ou seja, a distância gráfica (no mapa) será sem‑
De acordo com Montello (2001), existem três pre menor do que a distância real (no terreno)
significados de escala: cartográfica, de análise e (ibge, 1999).
do fenômeno. A escala cartográfica representa A escala é fundamental numa representação,
numericamente a relação entre o tamanho do pois mostra a proporcionalidade entre as refe‑
objeto no terreno e as suas dimensões no mapa. ridas medidas. Isso significa que se soubermos
A escala de análise indica a unidade de tama‑ o tamanho de um objeto no terreno e a escala,
nho na qual um fenômeno é analisado (exem‑ é possível calcular as suas dimensões na carta.
plo: local, regional ou global) ou de agrupamento Da mesma forma, se conhecermos a escala e as
dos dados (exemplo: distrito, município, estado distâncias da carta topográfica, é possível obter
etc.). A escala dos fenômenos caracteriza as di‑ seu valor no terreno.
mensões da sua ocorrência sobre a superfície Uma escala cartográfica pode ser denomina‑
terrestre (exemplo: área afetada pelo fenômeno da grande, média ou pequena. Quanto maior o
climático “El niño”). denominador, menor será a escala (1/250.000 é
Para Castro (2003), escala é uma estratégia menor do que 1/5.000). Quando nos referimos a
de aproximação do real. Está associada à di‑ uma escala grande, significa que a carta possui
mensão e à complexidade do fenômeno. Para a grande número de detalhes e que ela abrange
autora, a perspectiva conceitual de escala revela pequena extensão no terreno. E, quando a escala
o problema da polimorfia do espaço. Nele, um cartográfica é pequena, o mapa apresenta pou‑
conjunto de escalas expressa as distintas rela‑ cos detalhes, mas abrange uma grande extensão
ções entre os fenômenos, que possuem múltiplas no terreno (Figuras 7.2 e 7.3). Exemplo: uma car‑
dimensões e expressões espaciais. ta 1/10.000 é considerada grande e abrange cer‑

capítulo 7 – técnicas de cartografia 177

PRATGEO_2aprova.indb 177 26/11/10 12:21


Sérgio Fiori

E=D/d

DD == 2000m
1000m
Carta
m
d = 40 m

Figura 7.1. Representação da escala cartográfica 1/50.000 (E= 2.000 m/40 mm, E= 2.000.000/40, E= 50.000). Observa­‑se que é necessário
uniformizar as unidades de medidas (2.000 m = 2.000.000 mm). Fonte: Brasil/Ministério do Exército (1980).

ca de 30 km2 no terreno. A escala de uma carta No uso da escala numérica, é importante


1/1.000.000 é considerada pequena e representa saber que:
uma área de 290.000 km2. ¾¾a escala numérica indica o fator de redução
A escala cartográfica é expressa de duas do documento cartográfico. Na escala 1/50.000,
formas distintas: a escala numérica e a escala uma distância no terreno foi diminuída 50 mil
gráfica. vezes para ser representada na carta. De manei‑
ra análoga, uma distância qualquer nessa carta
deve ser ampliada 50 mil vezes para correspon‑
Escala numérica der à distância no terreno;
A escala numérica pode ser escrita de duas ¾ ¾a cada ampliação ou redução, a escala
formas: numérica deve ser calculada novamente. Se
1) por uma fração: uma carta 1/50.000 for ampliada duas vezes,
ou simplesmente: 1/50.000 (a leitura em am‑ então sua escala será 1/25.000. Se a carta
bas é igual: “um para cinquenta mil”); 1/50.000 for reduzida duas vezes, sua escala
2) por equivalência: 1:50.000 (da mesma forma, será 1/100.000;
lê­‑se ”um para cinquenta mil”). ¾¾a escala numérica não deve conter nenhuma
1/50.000 = 1:50.000 unidade de medida (cm, m ou km);

178 práticas de geografia

PRATGEO_2aprova.indb 178 26/11/10 12:21


pequena grande

Rafael Sato
¾¾para interpretar a escala numérica, deve­‑se
escolher uma unidade de medida e associá­‑la aos nível de detalhe maior
dois números que compõem a escala (numerador
e denominador);

escala da carta
área da carta
¾¾se usarmos o milímetro, por exemplo, então
1 mm no mapa = 50.000 mm no terreno (50
m). Da mesma forma para o centímetro, 1 cm
na carta = 50.000 cm no terreno (500 m). Em
ambos os casos a distância no terreno é propor‑
cional (1 mm = 50 m e 1 cm = 500 m). Essas
duas unidades são as mais comuns, pois estão nível de detalhe menor
presentes nas réguas graduadas, muito usadas grande pequena
sobre cartas e mapas.
Figura 7.2. Relação entre escala cartográfica grande e pequena.

Escala gráfica
A escala gráfica é um segmento de reta ho‑ (subdivisão numérica à esquerda do zero). Veja
rizontal cujos números são baseados na esca‑ Figura 7.4, duas formas comuns de expressar a
la numérica, podendo conter ou não um talão escala gráfica.
Reprodução

Figura 7.3. Parciais de cartas topográficas em diferentes escalas. Fonte: IBGE.

capítulo 7 – técnicas de cartografia 179

PRATGEO_2aprova.indb 179 26/11/10 12:21


Rafael Sato
0 0,5 1 1,5 2 km
2 0 2 4 6 km

talão corpo

Figura 7.4. Representações cartográficas com diferentes escalas.

A escala gráfica possui uma grande vanta‑ no (1/100.000). No segundo exemplo de escala
gem sobre a escala numérica: ela se amplia e gráfica, 5 cm = 2 km, que significa que 1 cm na
reduz junto com o mapa e, por isso, não per‑ carta = 400 m no terreno (1/40.000);
de seu valor (Figura 7.5). Assim, um mapa com ¾¾na construção da escala gráfica segue­‑se o ra‑
escala gráfica pode ser reduzido ou ampliado, ciocínio inverso. Na escala 1/250.000, por exem‑
60° W via fotocópia ou zoom40°naW tela do computador plo, sabe­‑se que 1 cm da carta = 250.000 cm no
e manter a proporcionalidade das medidas do terreno, que corresponde a 2.500 m ou 2,5 km.
terreno e do mapa. 10° N Assim, basta representar um segmento de reta,
No uso da escala gráfica, é importante saber por exemplo, com cinco marcações (quatro in‑
que: tervalos iguais). Se o espaçamento for de 1 cm
¾¾na interpretação da escala gráfica basta co‑ (medida total do segmento = 4 cm), então, sobre
locar uma régua graduada sobre a escala gráfica a primeira marcação escreve­‑se o número 0, sobre
(o zero da régua deve coincidir com o zero da a segunda 2,5, sobre a terceira 5, na quarta 7,5 e
escala), fazer a leitura e a conversão. No caso na última, 10 km (escrever sempre a unidade de
da primeira escala gráfica (com talão), 6 cm = medida na escala gráfica, caso contrário ela não
6 km, portanto, 1 cm na carta = 1 km no terre‑ tem validade). Se a equidistância entre as divisões
10° S

80° W 60° W 40° W


Rafael Sato

10° N

N
0 1.000 km
30° S

1: 50.000.000

80° W 60° W 40° W


10° S
10° N

10° S

N
0 1.000 km
N 30° S
30° S 0 1.000 km

1: 100.000.000 1: 50.000.000

Figura 7.5. Representações cartográficas com diferentes escalas. 80° W 60° W 40° W

10° N
180 práticas de geografia

PRATGEO_2aprova.indb 180 26/11/10 12:21


Rafael Sato
quilômetro hectômetro decâmetro metro decímeto centímetro milímetro
km hm dam m dm cm mm
1000 m 100 m 10 m 1m 0,1 m 0,01 m 0,001m

Figura 7.6. Sistema Métrico Decimal.

da escala gráfica for de 2 cm, então o segmento Tabela 7.1. Relação entre escala e distância no terreno
de reta medirá 8 cm e os valores correspondentes
Escala do mapa 1 cm no mapa representa
serão: 0, 5, 10, 15 e 20 km. Em ambos os casos,
como a proporção foi respeitada, o aluno chegará 1/10.000 100 m no terreno
ao mesmo resultado caso queira transformar a
1/50.000 500 m no terreno
escala gráfica em escala numérica (1/250.000).
1/100.000 1.000 m (1 km) no terreno

Cálculos da escala 1/500.000 5 km no terreno

1/1.000.000 10 km no terreno
Escala indica a proporção entre as medidas
do mapa (d) e do terreno (D). Assim, é possí‑ Fonte: Queiroz Filho (2010).
vel calcular um dos seus componentes, caso se
conheça o valor dos outros dois. Embora possa Para resolver os exercícios de escala carto‑
aparentar alguma complexidade, esse cálculo é gráfica, essas fórmulas são fundamentais. No
muito simples. Para isso, deve­‑se: entanto, acredita­‑ se que não seja necessário
¾¾conhecer o sistema métrico decimal (ver Fi‑ decorá­‑las, pois mesmo que dê mais trabalho e
gura 7.6 e a Tabela 7.1); tome mais tempo de aula, é muito importante
¾¾usar a fórmula adequada; estimular a sua compreensão entre os estudan‑
¾¾converter os valores para a unidade de medi‑ tes. Nesses casos, é possível:
0° N da apropriada. ¾¾mencionar que se trata de uma relação entre
três termos que envolve, sempre, uma divisão ou
A proporção entre os três componentes (D, multiplicação. Explicar o significado do termo
d e E) pode ser calculada a partir das seguintes “proporção” e explorar seus exemplos cotidianos
fórmulas: costuma ser muito útil; por exemplo, se a receita
d=D∕E diz: 2 ovos para cada litro de leite e 800 gramas
D=d×E de farinha para fazer 1 kg de bolo, então deve­‑se
E=D∕d usar apenas 1 ovo para cada 1/2 litro de leite e
400 gramas de farinha, para fazer 0,5 kg de bolo
0° S
Onde: d = distância no mapa; D = distância se a receita for reduzida pela metade;
no terreno; E = denominador da escala ¾¾destacar as relações e grandezas envolvidas.
Se o denominador da escala (E) é um fator de
Exemplo
redução entre as distâncias no terreno (D) e as no
Escala: 1/50.000 mapa (d), então as distâncias no mapa serão sem‑
Distância na carta (d) = 4,5 cm pre menores do que as do terreno. Logo, E = D/d
Denominador da escala (E) = 50.000 (onde 1 cm no mapa =
50.000 cm no terreno) (se multiplicássemos D por d, então a distância
D=d×E no terreno ficaria maior do que ela realmente é,
D = 4,5 cm × 50.000 cm
0° S e não haveria proporção entre os termos). Ressal‑
D = 225.000 cm ou 2.250 metros
tar que os outros termos seguem o mesmo racio‑

capítulo 7 – técnicas de cartografia 181

PRATGEO_2aprova.indb 181 26/11/10 12:21


cínio. A distância no terreno (D), que é compa‑ significa, na maiowria das vezes, o tamanho do
rativamente maior no terreno do que no mapa, é papel disponível ou a altura da maquete. De forma
igual à multiplicação das outras duas componen‑ geral, usa­‑se a escala vertical para aumentar a per‑
tes (D = d × E). Se dividíssemos, o resultado seria cepção das variações do relevo. Por essa razão, a
muito menor do que a distância no mapa; escala vertical costuma ser maior que a horizontal.
¾¾lembrar que, no caso da distância na carta, Por exemplo, se o relevo de uma carta
d = D ∕ E, se a maior distância (terreno) fosse mul‑ 1/50.000 for aplanado, é possível utilizar uma
tiplicada pelo denominador da escala, então a dis‑ escala vertical grande para melhor visualizar as
tância no mapa não seria proporcional à do terreno diferenças topográficas (como 1/5.000). Caso
e a escala seria um fator de ampliação do terreno. o relevo da região seja muito dissecado e tenha
grande amplitude, é possível usar uma escala ver‑
tical comparativamente menor (como 1/10.000)
Escala vertical para as representações aparentarem maior suavi‑
dade e evitar o “efeito eletrocardiograma”.
A escala vertical é a escala numérica usada É importante destacar que as escalas hori‑
para a representação vertical das altitudes (oli- zontal e vertical não são sempre diferentes. Nas
veira, 1983). Indispensável nos perfis topográfi‑ cartas topográficas, as escalas horizontal e verti‑
cos e nas maquetes1, ela indica a relação entre as cal são idênticas. Mas, em outros tipos de repre‑
medidas verticais na representação e no terreno. sentação, como os perfis e as maquetes, a escala
Para compreender escala vertical é imprescin‑ vertical é sempre maior do que a horizontal, para
dível conhecer a forma de representação da ter‑ dar o destaque desejado à variação topográfica2.
ceira dimensão nas cartas topográficas, que são A relação entre as escalas horizontal e vertical
bidimensionais. Esses documentos representam é denominada exagero vertical. No caso de um
as altitudes por meio das curvas de nível e dos perfil topográfico, se a escala horizontal da carta
pontos cotados. Curvas de nível são linhas ima‑ (H) é 1/50.000 e a vertical (V) = 1/10.000, então
ginárias do terreno que unem todos os pontos o exagero vertical é igual a 5. No caso da Figura
que têm a mesma altitude. Pontos cotados, como 7.7, as escalas horizontal e vertical são idênticas
o próprio nome diz, são os pontos que indicam (1/20.000). Para ampliar a percepção do relevo, a
a altitude do terreno (altimetria). escala vertical foi ampliada para 1/10.000 (Figura
O intervalo altimétrico entre as curvas de nível 7.7b), ou seja, adotou­‑se um exagero vertical igual
de uma carta é fixo e denominado equidistância a 2 para representar a mesma região.
vertical. Exemplo: se o valor da equidistância é 20
m, então, numa vertente, a cada curva de nível, o
terreno pode subir ou descer 20 m. Construção da escala vertical
O princípio para a criação de uma escala ver‑
tical é idêntico ao da escala horizontal. Deve­‑se
Características e exemplos
A escala vertical é definida de acordo com o
seu uso e a possibilidade de representação, que
2 Um perfil topográfico é um corte vertical da superfície
do terreno ao longo de determinada linha (oliveira,
1983). Essas representações bidimensionais costumam
representar a variação das altitudes no eixo y do perfil.
1 Sobre maquetes, ver o Capítulo 16 – Técnicas Inclusivas As maquetes são representações tridimensionais do ter‑
de Ensino de Geografia deste livro. Consultar também reno, que mostram a conformação do relevo em escala
Simielli et al. (2007). (eixos x, y, z).

182 práticas de geografia

PRATGEO_2aprova.indb 182 26/11/10 12:21


Rafael Sato
associar a altura da representação (eixo y do perfil Perfil topográfico (A)
800
topográfico3 ou o eixo z da maquete) às altitudes
do terreno. Exemplo: se cada centímetro da re‑
600
presentação das altitudes equivale a 20 m no ter‑
reno, então, a escala vertical do perfil é 1/2.000.
400
Para calcular a escala vertical de um perfil
topográfico, deve­‑se seguir as seguintes etapas: 200
1) verificar a amplitude do relevo (a altitude
maior menos a menor) e contar o número de
curvas de nível que representa esse desnível; 0 200 400 600 800 1000
2) calcular a escala vertical: definir a altura do escala horizontal em metros (1:20.000)
perfil (tamanho do eixo y), relacionando­‑o com escala vertical em metros (1:20.000)
o desnível apurado.
Perfil topográfico (B)
400
350
Exemplo
300
Desnível = 460 m (resultado do valor da curva de nível mais
alta, 580 m, menos o valor da curva mais baixa, 120 m) 250
Equidistância das curvas de nível = 20 m 200
Altura aproximada do perfil (eixo y) = 10 cm (está relacio‑
150
nada ao tamanho do papel ou ao espaço disponível para
representá­‑lo) 100
50

Nesse caso, é possível fazer a seguinte as‑ 0 200 400 600 800 1000
sociação inicial: 10 cm = 460 m, ou seja, a cada escala horizontal em metros (1:20.000)
centímetro percorrido na linha vertical do per‑ escala vertical em metros (1:10.000)
fil, o relevo variará 46 metros (escala vertical
1/4.600). Figura 7.7a, sem exagero, e Figura 7.7b, com exagero vertical de
um perfil topográfico (exagero = 2).
Esse cálculo inicial costuma ser refinado,
uma vez que os números são quebrados e não Perfil topográfico de um vale
600

Rafael Sato
há correspondência entre os valores do perfil e as 560
curvas de nível. Para tornar sua leitura mais sim‑ 520
ples, recomenda­‑se a adoção da escala 1/4.000, 480
na qual 1 cm = 40 m, que equivale a duas curvas 440

de nível (Figura 7.8). E, como a escala vertical 400

aumentou, serão necessários mais do que 10 cm, 360

na altura no perfil, para representar o desnível de 320

280
460 m. Então, sugere­‑se usar o eixo y do perfil
240
com 13 segmentos (13 cm), com o mais baixo
200
associado a 120 m, o centímetro imediatamente
160

120

0 200 400 600 800 1.000 1.200


Escala horizontal 1:20000, onde 1 cm representa 200 m
3 Consultar De Biasi (1973) para mais informações so‑ Escala vertical 1:8000, onde 1 cm representa 80 m
bre construção de perfil topográfico e outras medidas
gráficas na carta topográfica. Figura 7.8. Exemplo da escala vertical do perfil topográfico.

capítulo 7 – técnicas de cartografia 183

PRATGEO_2aprova.indb 183 26/11/10 12:21


Sérgio Fiori
N

LEGENDA
ALTITUDES
350 metros
300
250
200
150
Figura 7.9. Escala vertical
100
da maquete: associar a 50
espessura de cada placa a 0
uma altitude do terreno.

superior, 160 m, o próximo a 200 m e assim por No entanto, essa escala vertical implica na
diante, até o de 600 m, no topo da linha (que aquisição de muitas placas de EVA, aumentando
abrange a altura máxima de 580 m). assim o preço e a quantidade de trabalho na ma‑
Para calcular a escala vertical de uma maque‑ quete. Nesse caso, é possível agrupar as curvas
te, siga os seguintes passos: de nível. Se 1 placa de EVA de 2 mm equivaler a
¾¾calcular o desnível (amplitude do terreno) e 2 curvas de nível ou 40 m, então a escala vertical
contar o número de curvas de nível que o repre‑ será 1/20.000.
senta, como no perfil topográfico;
¾¾associar uma curva de nível, ou um conjunto
delas, à espessura do material que será utilizado
na maquete (papelão, isopor, EVA4 etc.) e calcu‑ ORIENTAÇÃO ESPACIAL
lar a escala vertical (Figura 7.9).
A orientação espacial consiste em ajustar
Exemplo a direção ou o sentido5 de algo em relação aos
Desnível de 920 m
pontos cardeais (Figura 7.10) ou ao próprio ter‑
Equidistância vertical de 20 m
Material: EVA de 2 mm reno (oliveira, 1983). A origem do termo está
relacionada ao oriente (ou leste), que é parte do
Se associarmos cada curva de nível (20 m) a céu na qual o Sol surge pela manhã.
uma placa de EVA, cuja espessura é de 2 mm,
então 2 mm = 20 m, logo 1 mm = 10 m, escala
vertical = 1/10.000.
5 Nesse caso, direção é a posição de um ponto em re‑
lação a outro, sem ser considerada a distância entre
eles (exemplo: norte­‑sul). Sentido é o destino ao qual
4 EVA é o acrônimo de Etil Vinil Acetato (placa de bor‑ se refere (exemplo: Rodovia Dutra, sentido Rio de
racha). Janeiro).

184 práticas de geografia

PRATGEO_2aprova.indb 184 26/11/10 12:21


Sérgio Fiori
Os procedimentos descritos a seguir possuem
precisão relativa e decrescente, mas são muito
úteis e amplamente empregados em trabalhos
de campo e em sala de aula.

Orientação com a bússola

Para se orientar utilizando uma bússola no


campo, observe os passos a seguir.
¾¾Abrir a bússola e posicioná­‑la , conforme mostra
a Figura 7.11 (a qualidade do equipamento influi
na precisão da leitura dos ângulos);
¾¾virar o corpo até visualizar a direção ou o
objeto que se quer medir e fazer a leitura do azi‑
mute (ângulo horizontal, medido no sentido ho‑
rário, em relação ao norte magnético);
¾¾no caso de deslocamento (caminhada ou
marcha) orientado pela bússola, deve­‑se mirar
uma feição distante e elevada do terreno, de
Figura 7.10. Ilustração do processo de orientação espacial
forma que ela possa servir constantemente de de um mapa.
referência visual.

Eduardo Justiniano
Para orientar um mapa, croqui ou carta to‑
pográfica no campo:
Visada
¾¾colocar o documento cartográfico na posição
horizontal;
Le zim
itu u
A

¾¾abrir a bússola e colocar sobre a representa‑


ra te
do

ção gráfica (Figura 7.12);


¾¾girar o documento até que a agulha da bússola
coincida com o norte magnético impresso na carta;
¾¾no caso de deslocamentos médios ou longos
Figura 7.11. Forma de utilização da bússola para determinação do
(maiores de 300 m), calcular a declinação para
azimute da visada.
ajustar os ângulos da bússola e da carta. Ver
procedimento no item “Referências espaciais da
carta topográfica”, adiante.
Rafael Sato

Importante: os materiais ou objetos de ferro


e fios de alta tensão podem alterar a posição da
agulha magnética da bússola. Em alguns casos,
a agulha pode ficar “preguiçosa” ou apresentar
forte oscilação (soukup, 1966). Não usar den‑
tro de carros e evitar a proximidade de telefones
celulares MP3 etc. Figura 7.12. Orientação com bússola e carta topográfica.

capítulo 7 – técnicas de cartografia 185

PRATGEO_2aprova.indb 185 26/11/10 12:21


Orientação pelo Sol

A orientação espacial pelo Sol é antiquíssima ¾¾O norte estará na frente do observador e o
e muito popular, mas sua precisão é baixa. As sul, à suas costas.
formas mais utilizadas, em ordem crescente de
precisão, são: a da observação da posição do Sol, O segundo procedimento de orientação pelo
a do relógio de ponteiros e a da sombra da estaca. Sol é o do relógio de ponteiros. O relógio analó‑
O primeiro procedimento é o de orientação gico deve ser usado quando o Sol estiver oblíquo
pela observação visual da posição do Sol. Sua ao observador (no início da manhã ou no final da
precisão é muito baixa por causa do movimento tarde). Para isso, deve­‑se:
de translação da Terra e da inclinação do eixo de ¾¾manter o relógio na posição horizontal (mos‑
rotação. Isso significa que o local no qual o Sol trador para cima);
nasce e se põe no horizonte varia ao longo do ano ¾¾no Hemisfério Sul, posicionar­‑se de forma
(Figura 7.13), pois o astro descreve um movimen‑ que o meio­‑dia (ou linha 12/6 h do mostrador do
to pendular no horizonte. A seguir, descreve­‑se relógio) aponte para o Sol;
como realizar este procedimento de orientação. ¾¾o norte é indicado pela bissetriz (reta que di‑
¾¾Estender seu braço direito e apontar para a posi‑ vide o ângulo ao meio) do menor ângulo entre a
ção em que o Sol nasce (leste, nascente ou oriente). linha 12/6 h e o ponteiro das horas (Figura 7.14);
¾¾Estender o braço esquerdo para o lado oposto ¾¾nas porções do território brasileiro situadas
(oeste, poente ou ocidente). no Hemisfério Norte, é o ponteiro das horas que
deve ser apontado para o Sol. A bissetriz entre
Pela observação do nascer ou pôr do Sol o ponteiro das horas e a linha 12/6 h indica a
procedimento rudimentar
amplitude
direção Norte­‑Sul;
matutina ¾¾no caso de horário de verão, a forma mais
simples é atrasar o relógio para o horário normal,
ficando mais próximo da hora solar;
Leste
Norte (nascente) ¾¾caso o relógio seja digital, é possível desenhar
um relógio de ponteiros no chão, indicando a
Oeste Sul
hora do momento.
Sérgio Fiori

(poente)

Importante: a precisão desse procedimento


Figura 7.13. Orientação pelo nascere/ou pôr do Sol. Fonte: tornou­‑se ainda mais restrita dada a extensão
Soukup (1966).
territorial do país no sentido Leste­‑Oeste, e a
redução do número de fusos horários (somente
Com o relógio de bolso
Sérgio Fiori

Ponteiro três fusos, a partir de 2008). Além disso, tra‑


(resultados melhores)
N das horas
mita no Senado Federal um projeto de lei para
a unificação da hora brasileira. Se o horário de
Ex. para lugares
no hemisfério sul
Brasília for expandido para todo o país, o pro‑
cedimento do relógio se restringirá muito, pois
haverá grande discrepância entre a hora civil
Para lugares no hemisfério norte e a hora solar nas diferentes localidades. Por
é o ponteiro das horas que deve visar o Sol exemplo, amanhece no Acre, extremo Oeste
Figura 7.14. Orientação pelo sol e relógio (Hemisfério Sul). do país, cerca de duas horas depois da Paraíba,
Fonte: Soukup (1966). extremo Leste.

186 práticas de geografia

PRATGEO_2aprova.indb 186 26/11/10 12:21


S S

Plano Norte
Horizontal

a
n
dia
Oeste Leste Figura 7.15. Figuras 7.15a

ri
Me
(esquerda) e 7.15b (direita):
D D’

ha
Sérgio Fiori

A B C C’ A A’
orientação pela sombra de

Lin
B’ A’
uma estaca vertical. Fonte:
Sul
Boczko (1984).

O terceiro procedimento de orientação pelo lar a ela aponta a direção Leste­‑Oeste. O Norte
Sol é a técnica da sombra de uma estaca vertical. geográfico estará sempre à esquerda de onde o
Dentre as aqui abordadas, é a que garante maior Sol nasceu e, o Sul, à direita.
precisão, mas a que demanda maior tempo de
execução. Para tanto, deve­‑se: Importante: de acordo com Boczko (1984), a
¾¾fixar uma estaca vertical no chão (gnômon), precisão desse procedimento aumenta nos me‑
de aproximadamente 1 m, numa área plana, ses de dezembro e junho, ou seja, nos períodos
horizontal e acessível aos raios solares durante próximos aos solstícios, e reduz nos meses de
todo o dia. É fundamental que a estaca esteja março e setembro (equinócios).
perpendicular ao terreno (usar fio de prumo ou
esquadro para se certificar);
¾¾marcar, no solo, a sombra da estaca em, pelo Orientação pelo nascer da Lua
menos, um horário no período da manhã (exem‑
plo: 8 horas). Observe, na Figura 7.15a, que as A Lua nasce no leste, assim como o Sol. Con‑
sombras são mais longas ao nascer (A) e ao pôr tudo, a hora do seu nascimento (aparecimento
do Sol (A'). As sombras vão se reduzindo até che‑ no horizonte) varia de acordo com a fase em
gar o meio­‑dia (A, B, C, D) e vão se alongando que está. Em noites de lua cheia (plenilúnio),
até o final da tarde (D', C', B', A'). Repare tam‑ seu nascimento ocorre por volta das 18 horas 6
bém que a sombra ocorre no lado oposto ao do (horário de Brasília) e indica sempre a região les‑
Sol, isto é, que a sombra da manhã acontece pró‑ te, como mostra a Figura 7.16 (soukup, 1966).
xima ao Oeste, invertendo­‑se na parte da tarde; A fase da Lua depende da posição do Sol
¾¾marcar um círculo no solo, cujo centro é a e varia em ciclos de 29,5 dias. Para Sobreira
base da estaca e o raio é igual à extremidade da (2005), independentemente da fase da Lua, ela
sombra (Figura 7.15b). Deve­‑se usar um barban‑ sempre surge no lado Leste e se põe no lado
te centrado na estaca, de comprimento idêntico Oeste, mas esses horários variam de acordo
ao tamanho da sombra marcado no chão; com suas fases. Em noites de lua cheia, con‑
¾¾marcar, no solo, a sombra no período da tarde, forme mencionado, ela nasce por volta das 18
no momento em que a sua extremidade tocar o cír‑ horas e se põe próximo às 6 horas (ocaso). No
culo desenhado (aproximadamente às 16 horas, se dia seguinte, o nascer e o ocaso ocorrerão cerca
a sombra matinal tiver sido observada às 8 horas);
¾¾traçar, no solo, a bissetriz do ângulo formado
entre as duas sombras marcadas no chão (Figura
6 Esse horário pode variar conforme a região do país. Ver
7.15b). Essa linha, que passa pela base da estaca, referência no item sobre orientação pelo Sol e relógio de
indica a direção Norte­‑Sul. A linha perpendicu‑ ponteiros.

capítulo 7 – técnicas de cartografia 187

PRATGEO_2aprova.indb 187 26/11/10 12:21


Braço maior
Pela observação do nascer da Lua Rubidea
procedimento rudimentar Mimosa

Pálida
Plenilúnio (18 h) Estrela de Magalhães
Intrometida

r
a io
es o m
vez braç
4,5 do
em ento
Leste

gam
Norte

lon
Polo celeste sul

Pro
Perpendicular em relação
Sul

Sérgio Fiori
Sérgio Fiori
ao horizonte
Oeste Polo cardeal sul
Horizonte

Figura 7.16. Orientação pelo nascer da Lua. Fonte: Soukup (1966). Figura 7.17. orientação pelo Cruzeiro do Sul para
determinação do polo cardeal sul.

de 50 minutos mais tarde naquela mesma loca‑ Cruzeiro do Sul Cruzeiro do Sul
45°
lidade. Assim, a Lua pode ser vista também du‑ ~
= 3h
rante o dia, principalmente nas fases Crescente
e Minguante.
PCS
X
Orientação pela constelação do
Cruzeiro do Sul

Sérgio Fiori
S

No Hemisfério Sul é possível orientar­‑se pelo Figura 7.18. orientação pelo Cruzeiro do Sul para
Cruzeiro do Sul (Crux Australis). Numa noite determinação do polo cardeal sul e do polo celeste sul.
estrelada, deve­‑se:
¾¾identificar a cruz formada pelas quatro estre‑
las de maior brilho do Cruzeiro do Sul; tico (NM) e o norte da quadrícula (NQ), como
¾¾prolongar 4,5 vezes o braço maior da cruz ilustra a Figura 7.19.
(Figura 7.17); Importante saber que:
¾¾traçar uma linha imaginária vertical entre o ¾¾o norte geográfico (NG) ou verdadeiro apon‑
final desse prolongamento e o horizonte para ta para o Polo Norte, que é o ponto para onde
identificar o ponto cardeal Sul. Embora a posi‑ convergem todos os meridianos (ponto na super‑
ção do Cruzeiro do Sul no céu varie, por causa fície terrestre onde ocorre a intersecção com o
do movimento de rotação da Terra, o prolonga‑ eixo de rotação da Terra);
mento da haste maior sempre gira em torno de ¾¾o norte magnético (NM) indica o sentido do
um ponto no céu, o polo celeste sul (PCS). Ver polo magnético da Terra7. Ele se localiza em po‑
Figura 7.18. sição diferente do norte geográfico;
¾¾o norte da quadrícula (NQ) aponta a direção
vertical da carta, paralela ao eixo N­‑S do Sistema
Referências espaciais da carta de Projeção UTM.
topográfica

Existem, ao menos, três importantes referên‑


cias de orientação na carta topográfica: o norte 7 Essa é a definição lato sensu. Ver observações nas pági‑
geográfico ou verdadeiro (NG), o norte magné‑ nas posteriores.

188 práticas de geografia

PRATGEO_2aprova.indb 188 26/11/10 12:21


Pólo Norte Geográfico
Pólo Norte Magnético

NQ NG
NM
NQ - Norte da Quadrícula
NG - Norte Geográfico
Sérgio Fiori

MN - Norte Magnético

Figura 7.19. Os nortes das


cartas topográficas.
Fonte: Santos (1990).

Quando se orienta um deslocamento de riação da posição do Polo Norte Magnético ao


curta distância (até 300 metros) com bússo‑ longo do tempo. No entanto, para quém está
la e carta topográfica, essa diferença entre os posicionado longe do Polo Norte Magnético,
nortes expressos na carta não é significativa. essas mudanças não influenciam a medida dos
Entretanto, quando se percorre grandes dis‑ ângulos pela bússola.
tâncias, como longas caminhadas, navegação É importante destacar que a bússola não é
marítima ou aérea, essa diferença causa erros orientada exatamente na direção do Polo Nor‑
de orientação que podem ter consequências te Magnético. A agulha da bússola alinha­‑se de
muito graves. A diferença de 20º, por exemplo, acordo com o campo geomagnético local, que
pode fazer com que se chegue num ponto dis‑ varia de modo complexo conforme o tempo e o
tante cerca de 3.500 m do desejado, num des‑ local da superfície terrestre, como ilustra a Fi‑
locamento de 10 km. gura 7.21.
Por isso, é fundamental conhecer essa dife‑
rença, ou melhor, a declinação dos referidos ân‑
gulos (em relação ao norte magnético e ao norte Declinação magnética
da quadrícula da carta topográfica). O ângulo formado entre o norte geográfico
Calcular esse valor é fundamental quando se (NG) e o norte magnético (NM) é denominado
usa a carta topográfica e a bússola para orientar declinação magnética. Ele acontece porque essas
os deslocamentos longos. Por quê? Como as re‑ duas referências não convergem para o mesmo
ferências espaciais são distintas, os dados extraí‑ ponto.
dos da bússola precisam ser “compensados” para A declinação magnética varia com o tempo
serem transportados para a carta topográfica e e a região do país, conforme mencionado. Seu
vice­‑versa. valor está escrito nas cartas topográficas, como
O cálculo da declinação magnética para a mostra a Figura 7.22.
orientação dos deslocamentos é extremamente Para obter a direção do norte magnético
simples, como veremos a seguir, se comparado (NM), em relação ao norte geográfico (NG)
com a complexidade da questão do magnetismo deve­‑se:
do planeta. Somente para esclarecimento geral, é ¾¾somar o valor da declinação ao ângulo do
interessante mencionar que o Polo Norte Mag‑ NG, se a declinação magnética for para Leste
nético se movimenta diariamente, em velocida‑ (Figura 7.19);
de e direções distintas (geological survey ¾¾subtrair o valor da declinação do NG se a de‑
of canada, 2008). A Figura 7.20 mostra a va‑ clinação magnética for para Oeste (Figura 7.22).

capítulo 7 – técnicas de cartografia 189

PRATGEO_2aprova.indb 189 26/11/10 12:21


Eduardo Justiniano
2001
80°0'0"N

1994

1984

1640
1972
75°0'0"N 1680

1620
1962
1760

1680

1700
1740 1948
1780
1720

1800

1820
1904
Figura 7.20. Localizações do Polo Norte 70°0'0"N

Magnético nos últimos séculos. Fonte:


<http://cgc.rncan.gc.ca/geomag/nmp/ 1840
1860
long_mvt_nmp2_e.php> (acesso: 0 100 200 300 400
Km
ago/2010), modificado.
115°0'0"W 110°0'0"W 105°0'0"W 100°0'0"W 95°0'0"W

Para calcular a declinação magnética, realize carta para obter o valor correto a ser utiliza‑
as seguintes etapas: do. Exemplo: 14º 32' + 5º 51' = 19º 83' = 20º
¾¾verificar o valor da declinação magnética na 23' (quando a soma dos minutos exceder 60,
carta topográfica e o ano no qual foi impressa aumentar um grau e usar a diferença como os
(exemplo: 14º 32', 1971); minutos).
¾¾multiplicar a idade da carta pela declina‑
ção anual (ano atual  – ano da carta) × decli‑
nação anual. No exemplo, a declinação cresce Declinação da quadrícula8
9' (minutos) por ano, foi impressa em 1971 e, O ângulo formado entre o norte da quadrí‑
se o ano atual for 2010, então (2010 – 1971) × cula (NQ) e o norte geográfico (NG) é denomi‑
9'= 351'; nado declinação da quadrícula. Esse valor está
¾¾dividir o resultado por 60 para obter o valor
em graus (351´' / 60 = 5,85º). Multiplicar o valor
dos dígitos depois da vírgula por 60, para obter
8 Muitas referências desconsideram a declinação da qua‑
os minutos (0,85º × 60' = 51'). Logo, a declinação drícula e destacam somente o cálculo da declinação
magnética deve ser “atualizada” em 5º 51', valor magnética. Acredita­‑se que esse fato se deve: 1) ao valor
da sua variação após a sua impressão; do ângulo da declinação magnética variar com o tempo
e ser muito maior do que o da quadrícula; 2) ao ângulo
¾¾somar a variação da declinação, 5º 51', à do norte da quadrícula em relação ao norte geográfico
declinação magnética do ano de impressão da ser fixo e relativamente pequeno (da ordem de minutos).

190 práticas de geografia

PRATGEO_2aprova.indb 190 26/11/10 12:21


NOAA
Figura 7.21. Modelo de referência do campo geomagnético Fonte: International Geomagnetic Reference Field Model – Main Field Declination (2005).
Disponível em: <ftp://ftp.ngdc.noaa.gov/­Solid_Earth/­Mainfld_Mag/­images/­D_map_mf_2005_large.jpeg> (acesso: ago/2010).

Reprodução
escrito na carta topográfica (Figura 7.22) e, no DECLINAÇÃO MAGNÉTICA 1971
exemplo, representa 0° 57' 26" (os segundos po‑ E CONVERGÊNCIA MERIDIANA
dem ser desprezados no cálculo). DO CENTRO DA FOLHA
Se o norte da quadrícula estiver entre os
NM NQ NG
nortes geográfico e magnético (como na Figu‑
ra 7.22)9, é necessário diminuir a declinação da
quadrícula da declinação magnética. Usando o
14°32’
exemplo do item anterior, “Declinação magné‑ 0°57’26”
tica”, então 20º 23' – 0º 57' = 19º 26'.
Agora é possível transportar os dados da
carta topográfica para a bússola para orientar
com precisão seus deslocamentos. Esse resul‑
tado (19º 26') deve ser empregado da seguinte
forma:
¾¾somar o resultado ao valor obtido na bús‑
sola, para desenhar corretamente o ângulo na A DECLINAÇÃO MAGNÉTICA
carta topográfica. Exemplo: se o ângulo lido na CRESCE 9’ ANUALMENTE
Usar exclusivamente os dados numéricos
JABOTICABAL (SP)

9 Caso o norte da quadrícula estiver à direita do norte


geográfico, deve­‑se somar a declinação da quadrícula à Figura 7.22. Representação dos nortes e da declinação magnética.
declinação magnética. Carta topográfica de Jaboticaball (SP). 1/50.000. Fonte: IBGE (1974).

capítulo 7 – técnicas de cartografia 191

PRATGEO_2aprova.indb 191 26/11/10 12:21


bússola for 118º, então 118º + 19º 26' = 137º Passo
26'. Assim, esse ângulo (137º 26') deve ser O passo normal de uma pessoa, num terre‑
transportado para a carta topográfica com o no plano, é uma boa alternativa para estimar
transferidor; distâncias. Essa forma de medida é individual e
¾¾diminuir o resultado (19º 26') do ângulo varia de acordo com a altura ou o tamanho da
medido na carta, para orientar a bússola. Se o perna de cada indivíduo. Para medir distâncias
transferidor indicar o ângulo de 138º na carta to‑ com passo, deve­‑se aferir o tamanho do passo.
pográfica, então 138º − 19º 26' = 118º 34'. Dessa Existem duas técnicas para saber o valor do
forma, esse ângulo deve ser transportado para a seu passo:
bússola para orientar o deslocamento. ¾¾dividir a altura da pessoa por 4 e somar a
constante 0,365 m. Exemplo: altura 1,80 m / 4 =
0,45 + 0,365 = 0,815 m (cada passo = 0,81 m);
¾¾percorrer a distância de 100 m e dividir pelo
DISTÂNCIAS número de passos (mais preciso). Para aumentar
a confiabilidade, deve­‑se percorrer três vezes a
Medir ou estimar medidas mesma distância e tirar a média. Exemplo: no
no terreno caso de obter 123 passos, 125 passos e 123 pas‑
sos em 100 metros, então (123 + 125 + 123) /
Existem várias formas para medir ou estimar 3 = 123,666. Agora, deve­‑se dividir a distância
as distâncias no campo. Serão abordados aqui os percorrida pela média dos passos, para se chegar
procedimentos com trena, passo, régua milime‑ ao valor médio de cada passo. Então: 100 m /
trada e pulo do polegar, que possuem decrescen‑ 123,666 passos = 0,808 m;
tes graus de precisão. ¾¾percorrer as distâncias desejadas, anotar o
número de passos e multiplicar o resultado pelo
valor do tamanho do passo (0,808 m);
Trena ¾¾repetir aferição do passo em terrenos íngre‑
Medir distâncias horizontais com a trena, mes, semelhantes ao que será percorrido, para
num terreno plano, é muito simples. Para ga‑ refinar a estimativa da distância. Observe que
rantir boa precisão, é necessário: existe uma tendência do tamanho do passo ser
¾¾usar uma trena de tamanho adequado às dis‑ menor para descer uma vertente e ser maior para
tâncias que serão medidas (5, 10, 20 ou 30 m); subi­‑la.
¾¾conservar uma linha reta entre os dois pon‑
tos medidos e, quando o tamanho da trena for
menor do que a distância medida, manter o ali‑ Régua milimetrada
nhamento da série de medições; É possível estimar a distância de um objeto
¾¾manter sempre a trena na linha horizontal, com uma régua milimetrada, se a altura do refe‑
mesmo nos terrenos inclinados. Nesse caso, rido objeto for conhecida. Deve­‑se proceder da
deve­‑se proceder como se fosse medir a parte ho‑ seguinte maneira:
rizontal dos degraus de uma escada imaginária; ¾¾segurar a régua a 50 cm de distância dos
¾¾realizar as medidas em duplas (uma pessoa olhos. Para assegurar essa distância, pode­‑se
no início e outra no fim da trena); usar um barbante, que fica preso nos dentes e na
¾¾utilizar algum artifício para materializar, no mão do aluno;
solo, o local de medida (tinta, giz, estaca etc.) e ¾¾visar o objeto de forma que o zero da régua
anotar as distâncias medidas. coincida com um extremo da dimensão do ob‑

192 práticas de geografia

PRATGEO_2aprova.indb 192 26/11/10 12:21


jeto. Marcar com o dedo o outro extremo desse

A régua graduada
Com a régua milimetrada 0

como cursor
cada mm = 2´´´(milésimos)

e o polegar
objeto (Figura 7.23); 1
régua 8m
¾¾medir ou estimar a altura do objeto; 3mm ou 6´´´
Poste
2
¾¾calcular a distância, aplicando a fórmula: Barbante 8 6´´´=
altura do objeto / (número de milímetros × 2), 50 cm

Sérgio Fiori
1,333 Km
sendo que cada milímetro da régua corresponde Fórmula: objeto milésimos = Km
a 2 milésimos de radiano10. Conforme a Figura
7.23, 8m / (3mm × 2) = 1,33 km (a resposta será
Figura 7.23. Cálculo da distância com a régua milimetrada.
sempre em quilômetros). Fonte: Soukup (1966).

Pulo do polegar na distância AB, o resultado será: distância =


Esse procedimento está relacionado à pro‑ 5 m × 2 × 10 = 100 m.
porcionalidade do corpo humano. A proporção
entre a distância interpupilar (65 mm) e o com‑
primento do braço estendido com o polegar ere‑ Medir distâncias nas cartas
to (65 cm) é de 1/10. É importante destacar que topográficas
essa relação está baseada em adultos de estatura
mediana. Se for realizado por alunos do ensino Para medir distâncias lineares na carta topo‑
fundamental, provavelmente ocorrerão diferen‑ gráfica, basta possuir uma régua e conhecer a
ças expressivas. De acordo com Soukup (1966), sua escala. Exemplo: se a distância na carta for
para estimar a distância deve­‑se: igual a 8 cm e a sua escala for 1/50.000, então
¾¾esticar o braço e deixar o polegar ereto, na D = 8 x 50.000 = 400.000 cm ou 4.000 m ou 4 km
altura dos olhos; (ver mais detalhes no item ”Cálculos da escala”).
¾¾visar um objeto de dimensão conhecida, por É importante lembrar que as distâncias ho‑
um lado do polegar. Primeiro com o olho direito e rizontais da carta não levam em conta a declivi‑
depois com o esquerdo. Por causa do fenômeno da dade do terreno. Essa distância é a projeção de
paralaxe11, o polegar muda de posição em relação uma linha reta num plano de referência. Portan‑
ao objeto e forma uma distância AB (Figura 7.24); to, não representa a distância que será percor‑
¾¾contar o número de vezes que o objeto co‑ rida a pé pelo usuário, entre os dois pontos do
nhecido cabe dentro da distância AB; relevo. Para conhecer a distância que será per‑
¾¾calcular a distância entre o objeto e o ob‑ corrida sobre o terreno, deve­‑se fazer um perfil
servador: multiplicar o tamanho do objeto co‑ topográfico (sem exagero vertical) do trajeto e
nhecido pelo número de vezes que ele cabe medir sua distância, considerando todas as suas
na distância AB e multiplicar este valor pela variações (usar um barbante sobre a linha do
proporcionalidade da distância interpupilar e perfil, como explicado a seguir).
o comprimento do braço (1/10). Então, caso o Se o objeto que se deseja medir for sinuo‑
tamanho do objeto seja 5 m e caiba duas vezes so como, por exemplo, um rio, pode­‑se realizar
qualquer um dos dois procedimentos abaixo:
¾¾criar pequenos segmentos de reta sobre o
10 O milésimo é uma medida de ângulo que corresponde objeto. O vértice das linhas deve estar no cen‑
a 0,0064 (2π / 1000) de uma circunferência. tro das curvas. Em seguida, medir todos com a
11 Paralaxe é a mudança aparente da posição de um objeto
observado, por causa da mudança da posição do obser‑ régua, somar seus tamanhos e converter em me‑
vador. tros, como no exemplo anterior;

capítulo 7 – técnicas de cartografia 193

PRATGEO_2aprova.indb 193 26/11/10 12:21


¾¾sobrepor cuidadosamente um barbante de Régua milimetrada
forma que acompanhe as curvas. Após marcar Da mesma forma que se medem distâncias
no barbante o início e o final do objeto, esticar o horizontais, também é possível medir a altura de
barbante, medir seu comprimento com a régua um objeto. Para isso, deve­‑se:
e transformá­‑lo em metros (usar fórmula da es‑ ¾¾segurar a régua a 50 cm de distância dos
cala, D = d × E). olhos (usar o barbante, se necessário, para se
certificar da distância correta);
¾¾medir ou estimar a distância horizontal entre
o observador e o objeto;
ALTURAS E ALTITUDES ¾¾mirar o objeto de forma que o zero da régua
coincida com o topo do objeto. Marcar com o
As alturas dos objetos no terreno e as altitu‑ dedo a base do objeto (Figura 7.26);
des nas cartas topográficas podem ser medidas ¾¾calcular a altura (H), aplicando a fórmula: nú‑
de diversas maneiras. Os procedimentos expe‑ mero de milímetros x 2 x a distância horizontal /
ditos mais comuns são: visor triangular, régua 1000. Se a régua indicar 80 mm e a distância for
milimetrada e leitura das curvas de nível/pontos
cotados.
Pelo pulo do polegar
Baseado no fenômeno da paralaxe visual

Estimar alturas no terreno


A B
Distância
2x5m entre pupilas
Visor triangular Frente
da casa 6,5
O visor triangular nada mais é do que um

do pulo é 10 m
5m cm

A grandeza
pedaço de papelão grosso, cortado na forma de
triângulo retângulo isóceles. De acordo com II
5m 5m
Soukup (1966), o observador deve: 100 m
¾¾cortar um papelão grosso cujos lados a e b
do triângulo meçam 20 cm (ângulos internos de
45°, 45° e 90°); A B
Triângulo
¾¾segurar um cateto horizontalmente, na altura
dos olhos (Figura 7.25); Visada do olho:

¾¾visar, ao longo da hipotenusa, a parte mais Direito Esquerdo

alta do objeto. O observador deve se movimentar


Distância
entre
I
pupilas 65 cm
até que consiga visualizar o topo do objeto; 6,5 cm
¾¾medir a distância horizontal do observador Proporção 1:10
até o objeto com trena; visão : Braço
¾¾calcular a altura do objeto (H) com base nos 6,5 cm : 65 cm

dados dos dois triângulos que se formam. A al‑ Ex.: Distância


tura do objeto é igual à altura do triângulo de Observador - Casa
papelão (olhos do observador) mais a distância (2 x 5 m) x 10 + 0,6 m =
Sérgio Fiori

100,6 m
horizontal medida entre o observador e o obje‑
to. Exemplo: se altura da vista do observador =
1,60 m e a distância horizontal = 4 m, então Figura 7.24. Avaliação de distância pelo pulo do polegar.
H = 5,60 m. Fonte: Soukup (1966).

194 práticas de geografia

PRATGEO_2aprova.indb 194 26/11/10 12:21


Com o visor triangular C
a e b = 20 cm Com a régua milimetrada
Modelo cortado
Cada milímetro = 2´´´(milésimos)
Triângulo C
Isósceles de papelão n´´´ x AC 1
CC 1 =
b 1000
45° B resultado em metros

Sérgio Fiori
a
A C’
Régua
Ex.: altura CC”
da árvore = ?
B’

} Altura
da vista
C”
C1
Sérgio Fiori

A’ A Distância pelo mapa


Medida A’C”= AC’
AC’=CC’,CC”=CC’+C’C” Medição direta ou medição indireta

Figura 7.25. Representação do visor triangular. Figura 7.26. Régua milimetrada para estimar a altura.
Fonte: Soukup (1966). Fonte: Soukup (1966).

40 m, então: H = (80 × 2 × 40) / 1000 = 6,4 m (a ¾¾contar o número de curvas de nível que exis‑
resposta será sempre em metros). te entre o ponto e a curva mestra mais próxima
(exemplo: 2 curvas de nível x 20 = 40 m);
¾¾avaliar se o terreno está subindo ou descendo
Medir a altitude na carta em relação à curva mestra. Use as nascentes de
Conforme mencionado, a carta topográfica rios como referência das partes mais altas (mon‑
representa as altitudes por meio das curvas de tante) e a foz para as mais baixas (jusante);
nível e dos pontos cotados. Curvas de nível são ¾¾fazer uma interpolação, caso o ponto se loca‑
linhas imaginárias do terreno que unem todos lize entre duas curvas de nível:
os pontos que têm a mesma altitude. Pontos co‑ ¾¾calcular ou anotar o valor da curva de nível
tados, como o próprio nome diz, são os pontos que está acima e a que está baixo do ponto;
que possuem indicadores numéricos da altitude ¾¾medir a distância entre essas curvas (dc), em
do terreno. linha reta, passando sobre o ponto;
Se a posição do ponto cuja altitude se dese‑ ¾¾medir a distância entre a curva mais baixa e
ja conhecer coincidir com uma curva de nível o ponto (dp);
mestra ou ponto cotado, a resposta é simples e ¾¾fazer uma regra de três simples: a distância
imediata. Caso contrário, deve­‑se: entre as curvas (dc) está para 20 m (equidistân‑
¾¾anotar a equidistância vertical das curvas de cia da carta), assim como a distância entre a cur‑
nível da carta topográfica. Numa carta na escala va mais baixa e o ponto (dp) está para x;
1/50.000, por exemplo, cada curva de nível de ¾¾somar o resultado da interpolação à curva
uma vertente indica que o terreno varia 20 m de mais baixa para obter a altitude do ponto de‑
altura, para cima ou para baixo; sejado.
¾¾descobrir o valor da curva mestra mais próxi‑
ma (exemplo: 600 m). As curvas de nível mestras No exemplo da Figura 7.27 (escala 1/50.000
são as únicas que possuem indicação de altitude e equidistância de 20 m), o ponto está localiza‑
e são representadas com maior espessura e, por do entre as curvas de 620 e 640 m. A nascen‑
essa razão, possuem maior realce do que as ou‑ te do rio ao norte do ponto e a forma das curvas
tras curvas (Figura 7.27). Na carta 1/50.000, as de nível indicam que a vertente está inclinada
curvas mestras ocorrem em intervalos de 100 m no sentido NE­‑SO, sendo a sua base delineada
(exemplo: 100, 200, 300 m etc.); pelo rio. Entre as curvas de 620 e 640 m existe

capítulo 7 – técnicas de cartografia 195

PRATGEO_2aprova.indb 195 26/11/10 12:21


Reprodução
Com a régua

Ponto

Número de
milímetros x 2 =
milésimos Observador

Figura 7.27. Fragmento da carta de Jaboticabal /SP. Escala: Figura 7.28. Avaliação de ângulos com a régua milimetrada. Fonte:
1/50.000. Fonte: IBGE (1971). Soukup (1966).

uma distância de 5 mm e, entre a curva de 620 ¾¾usar a régua para visar o objeto. O zero da
e o ponto, 2,5 mm. Então: régua deve marcar uma ponta e, o dedo, o outro
extremo do objeto visualizado (Figura 7.28);
5 mm está para 20 m
¾¾multiplicar o número de milímetros por 2,
Assim como 2,5 mm está para x para obter o valor do ângulo (cada milímetro vale
Logo, x = 10 m dois milésimos).
Então, altura do ponto = 620 + 10 = 630 m

Dedos e mão
É possível avaliar os ângulos no terreno usan‑
ÂNGULOS do os dedos ou a mão. Este procedimento pode
ser muito didático, mas é importante esclarecer
Estimar os ângulos no terreno que apresenta resultados de baixa precisão, pois
o tamanho dos polegares, do punho e da mão
Bússola espalmada varia de acordo com os indivíduos.
A bússola é o instrumento mais popular para Como mencionado anteriormente, está baseado
medir ângulos horizontais. Ver no item “Orien‑ na proporcionalidade entre o comprimento do
tação com a bússola” as recomendações para braço, mãos e dedos. Como ilustra a Figura 7.29,
manusear a bússola. pode­‑se estender o braço e usar o dedo polegar
(+ ou − 2º 30'), o punho fechado (+ ou − 10°) ou
a mão aberta e espalmada (+ ou − 20°).
Régua milimetrada
A régua milimetrada, descrita anteriormen‑
te para medir distâncias e alturas no terreno, Medir ângulos nas cartas
também é útil para medir ângulos horizontais topográficas
(soukup, 1966). Para isso, deve­‑se:
¾¾segurar a régua a 50 cm de distância dos Os ângulos podem ser medidos nas cartas
olhos (um barbante, preso nos dentes e na mão topográficas com um transferidor. Com a carta
do aluno ajuda a fixar essa distância); na posição horizontal, sobrepor o transferidor

196 práticas de geografia

PRATGEO_2aprova.indb 196 26/11/10 12:21


de maneira que a linha 0/180º do transferidor ¾¾fazer um pequeno furo no transferidor cerca de
esteja paralela às linhas verticais das coorde‑ 1 cm abaixo do centro da sua base (Figura 7.30);
nadas UTM. Deve­‑se ler o ângulo horizontal, ¾¾prender um prumo nesse furo (barbante com
no sentido horário, que o objeto faz em relação um peso na outra extremidade);
ao zero do transferidor, que aponta para o NQ ¾¾segurar o equipamento na mão, com a base
(para poder transportar esse ângulo para a bús‑ do transferidor para cima, na altura dos olhos;
sola, deve­‑se considerar a declinação magnética ¾¾mirar o alvo ou a vertente com a base do se‑
e da quadrícula, descrita no item ”Referências micírculo;
espaciais da carta topográfica”). ¾¾ler o ângulo indicado pelo fio de prumo.

Também é possível usar um transferidor esco‑


lar de plástico, mas a leitura do ângulo deverá ser
DECLIVIDADE compensada, pois a graduação é diferente (90°
no topo e não nas bases). Nesse caso, segure­‑o
Avaliar a declividade no terreno com a graduação 180° próximo aos olhos e dimi‑
nua 90° do valor indicado pelo prumo.
Clinômetro
Clinômetro é um instrumento usado para
medir a declividade de um terreno ou vertente. Medir a declividade nas cartas
Existem clinômetros fabricados industrialmente, topográficas
mas é possível fazer seu próprio instrumento de
medida (Figura 7.30). Para elaborar o equipa‑ A declividade indica a inclinação de um ter‑
mento, deve­‑se: reno ou vertente em relação ao plano horizontal.
¾¾recortar um papelão na forma de semicírculo. A declividade de 1% significa que a vertente
Criar dois quadrantes de 90° (ver Figura 7.30), sobe ou desce 1 unidade em uma distância hori‑
ou seja, graduar o papelão de 0° a 90° a partir da zontal de 100 unidades. Exemplo: 10% de decli‑
parte superior do semicírculo (0° no topo e 90° vidade significa que se sobe ou se desce 10 m no
nas bases); terreno em 100 m (Figura 7.31). Para calcular a

Com as medidas anatômicas da mão de braço estendido


±2½° ±2½° ±2½° ±10°

Figura 7.29. Avaliação


±20°
Sérgio Fiori

O punho
de ângulos com a mão
a mão de
espaço de ±7½° - 8° medidos com o polegar (braço estendido).
dedos escachados
Polegar = ±2½° Fonte: Soukup (1966).
Sérgio Fiori

Alvo na altura da
Com o clinômetro - leitura direta
Bastão vista do observador
80 7

80

Prego 15 cm A´
70
0

Modelo cortado
60
60

de papelão A Balisa
50
50

40
30
0 4 Papelão A´´ ou vara
Graduação 20 30
10 0 10 20 Figura 7.30. Construção e
sexagésimal uso do clinômetro. Fonte:
Prumo Leitura : A = A´= A´´ ou
desenhada sobre
ângulo do declive do terreno Soukup (1966).
papel colado branco

capítulo 7 – técnicas de cartografia 197

PRATGEO_2aprova.indb 197 26/11/10 12:21


¾¾medir as figuras geométricas demarcadas. As
Rafael Sato

10 m
10% medidas devem ser realizadas com a trena na po‑
100 m
declividade: 10% sição horizontal (ver item “Trena”);
distância horizontal: 100 m ¾¾calcular a área do terreno usando as seguin‑
diferença de nível: 10 m
tes fórmulas:
área do quadrado = lado × lado;
Figura 7.31. Representação do cálculo da declividade.
área do retângulo = base × altura;
área do círculo = π × r²;
declividade em percentagem de uma carta topo‑ área do trapézio = [(base maior + base me‑
gráfica, deve­‑se usar a seguinte fórmula: nor) × altura] / 2;
área do triângulo = (base × altura relativa à
base) / 2.

É importante lembrar que a área medida no


Para calcular a declividade em uma carta to‑ terreno representa uma figura geométrica, regu‑
pográfica, deve­‑se: lar ou irregular, projetada sobre um plano. Por
¾¾calcular o desnível entre os pontos (equidis‑ essa razão, as medidas são sempre tomadas na
tância das curvas × número de curvas de nível posição horizontal e independem da declividade
entre os pontos); do terreno12.
¾¾medir a distância na carta e transformar em
metros (D = E × d);
¾¾aplicar a fórmula da declividade. Medir áreas nas cartas topográficas

Existem várias alternativas para medir áreas


na carta topográfica. A mais simples, e que não
ÁREA exige equipamento específico, é o procedimento
do papel milimetrado13. Para medir a área da
Medir áreas no campo carta deve­‑se:
¾ ¾fixar um papel milimetrado transparente
O modo mais simples e antigo de medir áre‑ (vegetal) sobre a carta topográfica. É possível
as irregulares no terreno é por meio de figuras usar o papel milimetrado comum sobre a car‑
geométricas. Como a área das figuras regulares ta, mas como ambos os papéis são opacos, o
é definida por fórmulas matemáticas conhe‑ procedimento deve ser realizado sobre mesa
cidas, recomenda­‑se a associação de figuras de luz;
geométricas que melhor expressem os limites ¾¾decalcar os limites da área da carta que se
irregulares do terreno a ser mensurado. Isso sig‑ quer medir no papel milimetrado;
nifica reduzir a superfície do terreno a figuras ¾¾contar os quadrados no interior dos limi‑
elementares, como quadrados, retângulos e/ou tes da área. Para isso, siga a seguinte hierar‑
triângulos.
Para medir uma área no terreno deve­‑se:
¾¾demarcar a área que será medida; 12 Ver também exercício de topografia básica no Capí‑
¾¾materializar no terreno as formas geométri‑ tulo 10  – Técnicas de Localização e Georreferencia‑
mento.
cas para reduzir a irregularidade do terreno (giz, 13 Ver também o exercício de delimitação de bacia em car‑
tinta, estacas, linhas etc.); ta topográfica, no Capítulo 3 – Técnicas de Hidrografia.

198 práticas de geografia

PRATGEO_2aprova.indb 198 26/11/10 12:21


Rafael Sato

+ +
+
+
+ +
+

+
+
+

+
+ +
+
+
+ +
+ + Figura 7.32. Contagem de
área na carta topográfica
com papel milimetrado.

quia: contar o número de quadrados maiores É importante lembrar que 1 km 2 equivale a


(1 cm 2), posteriormente a quantidade de qua‑ 1.000.000 m 2 (1.000 m × 1.000 m). Em outras
drados intermediários, de 25 mm 2 e, por fim, palavras, para converter metros quadrados em
todos os quadrados pequenos, de 1 mm 2. Cada quilômetros quadrados, a vírgula deve andar seis
quadrado contado deve ser marcado, com um casas decimais (ver Tabela 7.2).
X ou ponto, para que ele não seja contado em Se considerarmos, por exemplo, que a área da
duplicidade (Figura 7.32); carta topográfica no papel milimetrado possui
¾¾converter a área da carta em área do terreno. 19 quadrados grandes (19 x 1 cm2), 19 quadrados
Se a escala da carta for 1/50.000, então 1 cm2 = intermediários (19 x 5 mm 2) e 442 quadrados
0,25 km2 (1 cm = 500 m ou 0,5 km, logo 1 cm 2 = menores (442 x 1 mm2), então a área medida será
0,5 m × 0,5 km = 0,25 km 2). Da mesma forma, de 7,0425 km2, que equivale a 704,25 ha (1 km2 =
5 mm2 = 0,0625 km2 (5 mm = 250 m ou 0,25 km, 100 ha e 1 ha = 10.000 m 2) ou 7.042.500 m 2.
logo 5 mm2 = 0,25 km × 0,25 km = 0,0625 km2); Também é relevante destacar que a área medi‑
e 1 mm 2 = 0,0025 km 2 (1 mm = 50 m ou 0,05  da é a projeção do terreno num plano horizontal,
km, logo 1 mm2 = 0,0025 km2). ou seja, não considera a declividade do terreno.

Tabela 7.2 – Conversão de áreas

hm² dam²
km² (acre) m² dm² cm² mm²
(hectare) (are)

1 100 10.000 1.000.000 100.000.000 10.000.000.000 1.000.000.000.000

0,01 1 100 10.000 1.000.000 100.000.000 10.000.000.000

0,0001 0,01 1 100 10.000 1.000.000 100.000.000

0,000001 0,0001 0,01 1 100 10.000 1.000.000

capítulo 7 – técnicas de cartografia 199

PRATGEO_2aprova.indb 199 26/11/10 12:21


NA SALA DE AULA

As atividades abordadas neste capítulo podem ser utilizadas como com‑


plemento das atividades de sala de aula e trabalho de campo, desde o Ensino
Fundamental (orientação pelo Sol, entre outras) até o Ensino Superior, mas
principalmente no Ensino Médio.
Independentemente das séries e conteúdos tratados, recomenda­‑se que os
professores realizem integralmente os procedimentos cartográficos antes de
transmitirem aos alunos, particularmente as técnicas de trabalho de campo.
A progressão dos temas cartográficos pode ser a própria sequência sugeri‑
da nesse texto: escala; orientação espacial; estimativa de distâncias, de alturas
e altitudes, de ângulos, de declividade; e cálculo de área. Para aprofundar os
conhecimentos sobre técnicas cartográficas, além das atividades de levanta‑
mento expedito e de manipulação gráfica das cartas, mencionadas ao longo
do texto, recomenda­‑se os seguintes exercícios de escala cartográfica:
1. Se um centímetro na carta equivale a 250 metros no terreno, qual será a
escala da carta?
2. Qual é a distância no mapa, em linha reta, entre Porto Alegre e Uruguaia‑
na, sabendo­‑se que a escala é de 1/6.500.000 e a distância real é de 565,5 km?
3. Considerando­‑se uma carta na escala de 1/25.000, qual é a medida no mapa,
em cm, de um segmento de reta cuja medida no terreno é de 7.836 metros?
4. A cidade A está distante 820 km da cidade B (em linha reta) e estão sepa‑
radas uma da outra por um segmento de reta de 20,0 cm no mapa. Qual é a
escala do mapa em que essas cidades estão representadas?
5. Transformar a escala numérica do item 4 em escalas gráficas (km e m).
6. Desenhar, dentro de uma área de 18 × 6 cm do papel, uma figura que
tenha 80 × 25 metros no terreno. Essa figura não deve só caber dentro do
retângulo (18 × 6 cm), mas ser a que melhor se adapta. Assim como uma casa
geminada, que a área construída ocupa toda a lateral do terreno, as laterais
dos retângulos devem estar sobrepostas. Indique a escala numérica e desenhe
a respectiva escala gráfica.
7. Considerando­‑se um “levantamento expedito a passo” (medido com pas‑
sos), qual é a escala que permite representar uma reta de 532 passos, tomando­
‑se como base o passo de 0,75 m, em uma folha de 30 cm de comprimento?
8. Qual é a escala conveniente para representar o estado de Alagoas, numa
folha de papel de 40 cm de comprimento, sabendo­‑se que do seu extremo leste
ao extremo oeste, a distância em linha reta é de 700 km?
9. Quais são as escalas numéricas correspondentes às seguintes escalas gráficas?

100 0 100 200 m

3 0 3 6 km
Rafael Sato

0 5 10 15 km

Figura 7.33. Diferentes escalas gráficas.

200 práticas de geografia

PRATGEO_2aprova.indb 200 26/11/10 12:21


10. Calcular a distância em km, no mapa abaixo, que um carro percorreria
para se deslocar da cidade de Guajará­‑Mirim (RO) até a localidade de Corte
do Iata, seguindo pela rodovia da carta (linha tracejada).
Reprodução

Figura 7.34. Parcial da carta


de Guajará­‑ Mirim/RO.
Escala: 1/250.000.
Fonte: IBGE (1983).

Respostas dos exercícios de escala


1. 1/25.000 7. 1/1.330
2. 8,7 cm 8. 1 / 1.750.000
3. 31,34 cm 9. 1/5.000
4. 1 / 4.100.000 1/150.000
5. Escalas gráficas 1/250.000
890 0 890 1780 2670 m 10. 32,25 km (considerar a tolerância de até 10%, para
mais ou menos, por causa da elasticidade do barbante)
6. Escala numérica: 1/445 1cm = 2,5 km (escala 1/250.000) então 12,9 cm × 2,5 =
32,25 km
Escala gráfica:
4.100 0 4.100 8.200 12.300 km

Observação: as laterais da figura e do objeto repre‑


sentado devem se sobrepor.

capítulo 7 – técnicas de cartografia 201

PRATGEO_2aprova.indb 201 26/11/10 12:21


CONSIDERAÇÕES FINAIS

As principais atividades de levantamento expedito e de manipulação gráfica


das cartas topográficas utilizadas pelos geógrafos foram reunidas neste capítulo.
A forma do texto, seus exemplos, ilustrações e exercícios visaram facilitar sua
compreensão pelos alunos do Ensino Superior e expandir seu uso para os profes‑
sores e alunos do Ensino Fundamental e Médio, dentro das salas de aula ou nas
atividades de campo.
Os procedimentos aqui descritos são de utilização simples e propiciam a ob‑
tenção rápida de dados, embora de baixa precisão. Eles podem ser aplicados de
forma isolada, integrada ou ainda serem complementados pelas técnicas mencio‑
nadas no Capítulo 9 – Técnicas de Sensoriamento Remoto, Capítulo 10 – Técnicas
de Localização e Georreferenciamento e Capítulo 11 – Sistema de Informação
Geográfica. Além disso, o aprendizado e o uso dessas técnicas podem tornar
os estudos do meio e os trabalhos de campo mais interessantes e envolventes.

PRATGEO_2aprova.indb 202 26/11/10 12:21


REFERÊNCIAS DE APOIO

Glossário

Azimute: é o ângulo horizontal, no sentido horário, <http://www.geog.ucsb.edu/~sara/html/research/


em relação ao norte magnético. cosit01/fabrikant_cosit01.pdf> (acesso: mar/2010).
Curva de nível: é a linha imaginária do terreno que GEOLOGICAL SURVEY OF CANADA. Daily Move‑
une pontos de mesma altitude. ment of the North Magnetic Pole. 2008. Disponível
Declinação magnética: é o ângulo compreendido em: <http://cgc.rncan.gc.ca/geomag/nmp/daily_mvt_
entre os nortes magnético e geográfico. nmp_e.php> (acesso: mar/2010).
Equidistância vertical: é a diferença constante de IBGE. Noções básicas de Cartografia. Rio de Janeiro:
altitude entre duas curvas de nível. Departamento de Cartografia/IBGE, 1999. (Manuais
Escala cartográfica: é a relação entre uma distância técnicos em Geociências, n. 8).
horizontal medida no terreno (D) e a distância da sua IBGE. Carta topográfica de Jabuticabal. Rio de Ja‑
representação no mapa ou carta topográfica (d). Sua neiro: IBGE, 1971. Escala 1/50.000.
fórmula é E = D / d (onde: E = denominador da escala, IBGE. Carta topográfica de Guajará­‑ Mirim. Rio de
D = distância no terreno, d = distância no mapa). Janeiro: IBGE, 1983. Escala 1/250.000.
Levantamento expedito: obtenção de medidas do LACOSTE, I. Os objetos geográficos. Seleção de textos
terreno de forma rápida e, por conseguinte, de baixa AGB: Cartografia Temática. v. 18, pp. 1­‑16, 1988.
precisão. LOBECK, A. K.; TELLINGTON, W. J. Military maps and
air photographs: their use and interpretation.
New York: McGraw­‑ Hill, 1944.
MONTELLO, D. R. Scale in geography. In: SMELSER, N.
Bibliografia J.; BALTES, P. B. International encyclopedia of the
social and behavioral sciences. Oxford: Pergamon
BOCZKO, R. Conceitos de astronomia. São Paulo: Press, 2001.
Edgard Blücher, 1984. OLIVEIRA, C. Dicionário cartográfico. Rio de Janeiro:
BRASIL. MINISTÉRIO DO EXÉRCITO. Manual de cam‑ Fundação Instituto Brasileiro de Geografia e Estatísti‑
panha – Leitura de cartas e fotografias aéreas. Rio ca – IBGE, 1983.
de Janeiro: Ed. Serviço Geográfico do Exército,1980. RACINE, J. B.; RAFFESTIN, C.; RUFFY, V. Escala e ação,
BRITISH GEOLOGICAL SURVEY, The US/UK World contribuições para uma interpretação do mecanismo de
Magnetic Model for 2010­‑2015. 2010. Disponível escala na prática da Geografia. Revista Brasileira de
em: <http://www.geomag.bgs.ac.uk/documents/ Geografia, Rio de Janeiro, v. 45, n. 1, pp. 123­‑135, 1983.
WMM2010_Report.pdf> (acesso em: mar/2010). SANTOS, M. C. S. R. Manual de fundamentos car‑
CASTRO, I. E. O problema da escala. In: CASTRO, I. E.; tográficos e diretrizes gerais para a elaboração
GOMES, P. C. C.; CORRÊA, R. L. Geografia: conceitos de mapas geológicos, geomorfológicos e geotéc‑
e temas. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2003. nicos. São Paulo: Instituto de Pesquisas Tecnológicas,
CORRÊA, R. L. Diferenciação sócio­‑ espacial, escalas e 1990.
práticas espaciais. Cidades, v. 4, n. 6, pp. 61­‑72, 2007. SIMIELLI, M. E. R.; GIRARDI, G.; MORONE, R. Maquete
DE BIASI, M. Medidas gráficas de uma carta topográ‑ de relevo: um recurso didático tridimensional. Boletim
fica. Cadernos de Ciências da Terra – Instituto de Paulista de Geografia. São Paulo: AGB, n. 87, pp.
Geografia. São Paulo, n. 35, 1973. 131­‑151, 2007.
FABRIKANT, S. I. Evaluating the usability of the scale SOBREIRA, P. H. A. Astronomia no ensino de Geogra‑
metaphor for querying semantic information spaces. fia: análise crítica nos livros didáticos de Geografia.
In: Spatial information theory: foundations of Tema. São Paulo, v. 41, pp. 116­‑127, 2002.
geographic information science. CONFERENCE ON SOUKUP, J. Ensaios cartográficos: sobre assuntos
SPATIAL INFORMATION THEORY (COSIT ’01). Lecture básicos ministrados no curso superior de Geogra‑
Notes in Computer Science 2205. MONTELLO, D. R. fia. São Paulo: Revista dos Tribunais, 1966.
(Ed.). Berlin: Springer Verlag, 2001. Disponível em:

capítulo 7 – técnicas de cartografia 203

PRATGEO_2aprova.indb 203 26/11/10 12:22


Agradecimento

Agradecemos as inestimáveis observações de


Eduardo Félix Justiniano, que muito colaboraram para
a melhoria do texto.

SOBRE OS AUTORES
Alfredo Pereira de Queiroz Filho é gradua‑
do em Geografia pela Faculdade de Filosofia, Letras
e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo
(1989), mestre (1993) e doutor (2005) em Engenha‑
ria pela Escola Politécnica da USP, no Laboratório de
Geoprocessamento. Fez pós­‑ doutorado no Institut
des Hautes Etudes de L’Amérique Latine,  Université
Paris III Sorbonne Nouvelle (2008­‑ 09). É professor de
Cartografia e Geoprocessamento do Departamento
de Geografia da FFLCH/USP em regime de dedicação
integral (RDIDP).
Mario De Biasi é bacharel e licenciado pelo
Departamento de Geografia da Faculdade de Filo‑
sofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de
São Paulo (1963), e doutor em Geografia Humana
(1972), sob a orientação do Professor André Libault,
pela mesma instituição. Atualmente é professor doutor
da FFLCH/USP. Atua nas áreas de cartografia sistemática
e temática, materiais didáticos para ensino da Geogra‑
fia e utilização de índices morfométricos aplicados à
pesquisa geográfica.

204 práticas de geografia

PRATGEO_2aprova.indb 204 26/11/10 12:22


Técnicas de
Cartografia Temática
8
Marcello Martinelli
Eduardo Justiniano

Introdução, 206 e interpretação dos mapas Referências de apoio, 230


O fazer cartografia temática, 207 temáticos, 223 Sobre o autore, 232
A prática da elaboração dos A cartografia temática na sala
mapas temáticos, 208 de aula, 223
A prática da leitura, análise Na sala de aula, 228

PRATGEO_2aprova.indb 205 26/11/10 12:22


INTRODUÇÃO

Desde as primeiras manifestações da sociedade humana, feitas por desenhos


ou estruturas, tidas como mapas, e que se conservaram até hoje, até a cartografia
digital do presente, a história da Cartografia Temática ocupa um lapso de tempo
muito breve, confirmando­‑se, praticamente, em épocas relativamente recentes.
Conhecer mais de perto e praticar a Cartografia Temática, domínio dos mapas
temáticos, perpassa pelas bases da Cartografia e seus mapas gerais como um
todo, uma vez que as representações temáticas são historicamente sucessivas às
representações topográficas. Não há passagem brusca, muito menos uma cisão
em dois ramos, como comumente se anuncia. As representações temáticas não
substituem as topográficas, acrescentam­‑se a elas.
O grande agente motivador desse novo campo da Cartografia foi o flores‑
cimento e a sistematização dos diferentes ramos de estudos operados com a
divisão do trabalho científico, do fim do século XVIII e início do século XIX. Cada
nova ciência, na busca de sua afirmação, passou a demandar um tipo de repre‑
sentação específica para atender seu domínio de pesquisa.
Assim, o código analógico do mapa geral, topográfico, privilegiando o que se
vê, é substituído por um código abstrato, exprimindo propriedades conhecidas
dos fatos e fenômenos. Confirmou­‑se, assim, esse novo tipo de mapa como
expressão do raciocínio que seu autor empreendeu diante da realidade que se
lhe apresenta, apreciada a partir de um determinado ponto de vista: sua opção
de apreensão do mundo (palsky, 1984/1990/1996).
Este capítulo traz diversos mapas que devem ser copiados em papel vegetal
para a resolução dos exercícios práticos tratados ao longo do texto.

206 práticas de geografia

PRATGEO_2aprova.indb 206 26/11/10 12:22


O FAZER CARTOGRAFIA
TEMÁTICA

O ponto de partida é a delimitação da parte Dentre as várias posturas lucubradas durante


da realidade tida como problematizada pelo au‑ o século XX, estabelecendo paradigmas, a carto‑
tor do mapa, transformando­‑a em objetivo. Terá, grafia pode ser encarada como uma linguagem.
assim, diante de si uma realidade que poderá Toma o nome de linguagem da representação gráfi‑
ser vista desta ou daquela maneira. Define­‑se, ca. Sendo uma linguagem, dever­‑se estar atento à
assim, o tema. sua sintaxe. Sendo uma linguagem, terá também
No campo da Geografia, será tratada a re‑ sua semiologia, portanto, uma semiologia gráfica.
alidade considerada como a geografia do lugar A tarefa essencial da representação gráfica é
em que se vive, a partir da qual, passo a passo, transcrever as três relações fundamentais – de
será vislumbrada a compreensão para alcançar diversidade (≠), de ordem (O) e de proporcio‑
o conhecimento do mundo. nalidade (Q), que se podem estabelecer entre
Diante dessa postura e com base em todas objetos, fatos e fenômenos que compõem a
as contribuições que vieram desde a sistemati‑ realidade considerada, por relações visuais, de
zação da cartografia temática, pode­‑se assumir mesma natureza.
uma proposta de orientação metodológica para Assim, a diversidade será transcrita por uma
a elaboração de seus mapas com o seguinte diversidade visual, a ordem, por uma ordem vi‑
encaminhamento: os mapas temáticos podem sual e a proporcionalidade, por uma proporcio‑
ser construídos levando­‑se em conta vários mé‑ nalidade visual.
todos; cada um mais apropriado às formas de A elaboração de mapas temáticos conforme
manifestação (em pontos, em linhas, em áreas) esse entendimento exigirá ainda atentar para
dos fenômenos considerados em cada tema, seja duas questões básicas: quais são as variáveis vi‑
na abordagem qualitativa, ordenada ou quanti‑ suais e quais são suas respectivas propriedades
tativa. Pode­‑se empreender também combina‑ perceptivas.
damente uma apreciação sob o ponto de vista Em primeiro lugar tem­‑se o plano sobre o
estático ou dinâmico. qual será lançado o mapa. As duas dimensões
Deve­‑se salientar, ainda, que os fenômenos do planopodem conter pontos, linhas e áreas
que compõem a realidade geográfica a ser re‑ que variam visualmente em tamanho, valor, cor,
presentada em mapa permitem ser considera‑ e forma. O tamanho varia de grande a pequeno,
dos dentro de um raciocínio de análise ou de seja de círculos, quadrados etc. O valor varia
síntese. Nesse sentido ter­‑se­‑á, de um lado, do claro para o escuro, seja entre texturas ou
uma cartografia analítica – abordagem dos te‑ entre as cores, tanto zentre as frias, como entre
mas em mapas analíticos, atentando para seus as quentes. O valor também pode se articular
elementos constitutivos, lugares, caminhos ou em duas ordens opostas. A cor varia, conforme
áreas caracterizadas por seus atributos ou va‑ os matizes que compõem o espectro das radia‑
riáveis. E de outro, uma cartografia de sínte‑ ções visíveis, indo desde o violeta, passando por
se – abordagem de temas em mapas de sínte‑ todas as intermediárias, azul, verde, amarelo,
se, empreendendo a fusão dos seus elementos laranja, vermelho até chegar ao vermelhão. Na
constitutivos em “tipos”, perfazendo agrupa‑ impossibilidade de se dispor de cores, é possí‑
mentos de lugares, caminhos ou áreas unitá‑ vel aplicar texturas. A forma varia do quadrado
rias de análise caracterizadas por agrupamen‑ para o círculo, para o polígono estrelado e assim
tos de atributos ou variáveis. por diante.

capítulo 8 – a prática da cartografia temática 207

PRATGEO_2aprova.indb 207 26/11/10 12:22


Essas variáveis visuais mais as duas dimen‑ geográficas, escala, legenda e fonte. Em casos
sões do plano, portanto, num total de seis, têm muito específicos menciona­‑se também a pro‑
propriedades perceptivas que toda transcrição jeção. Essa prática completa­‑se com os respec‑
gráfica deve levar em conta. São as principais: tivos comentários, os quais congregam duas
¾¾Percepção seletiva (≠) – o olho consegue iso‑ partes:
lar os elementos (cor ou textura para diferenciar ¾¾metodológico (comentar o raciocínio desen‑
áreas e forma para distinguir pontos). volvido para elaborar tal representação);
¾¾Percepção ordenada (O)  – as categorias ¾¾interpretativo (apontar o que tal mapa revelou).
ordenam­‑se espontaneamente (valor para ordem
de importância ou ordem no tempo). Serão apresentados quatro blocos de circuns‑
¾¾Percepção quantitativa (Q) – a relação de tâncias:
proporção visual é imediata (tamanho para da‑ I – Apreciação estática de análise;
dos absolutos e ordem visual entre as cores para II – Apreciação dinâmica de análise;
dados relativos). III – Nível de raciocínio de síntese em apreciação
estática; e
Constituído, assim, o sistema de signos, com‑ IV – Nível de raciocínio de síntese em apreciação
pete ao construtor do mapa temático aplicá­‑lo dinâmica.
convenientemente a cada questão a ser transcrita
visualmente.
I – Apreciação estática
em nível de análise

A PRÁTICA DA ELABORAÇÃO São duas situações a serem consideradas.


DOS MAPAS TEMÁTICOS Em uma delas, a realidade geologia é vista
como feita de unidades litoestruturais distin‑
Serão consideradas nessa prática várias si‑ tas (Tabela 8.1), interessando ressaltar a rela‑
tuações em que se poderá estar diante da re‑ ção de diversidade entre elas. Será mobilizado
alidade geográfica que o estado de São Pau‑ o “Método corocromático qualitativo”, que
lo expõe. Solicita­‑se elaborar representações distingue áreas explorando variáveis visuais
pertinentes. Lembra­‑se que todo mapa deverá seletivas. A legenda será organizada na vertical
ter como elementos básicos: título (“o quê?”, com caixas empilhadas, porém não grudadas
“onde?” e “quando?”), orientação, coordenadas uma na outra.

Tabela 8.1 – Estado de São Paulo: geologia

Unidades litoestruturais

1. Quartenário 6. Cretáceo inferior e jurássico

2. Terciário 7. Permiano

3. Cretáceo superior 8. Carbonífero superior

4. Cretáceo inferior 9. Devoniano inferior

5. Cretáceo inferior (diabásicos e basaltos) 10. Pré­‑ Cambriano

Fonte: IG/USP (1971).

208 práticas de geografia

PRATGEO_2aprova.indb 208 26/11/10 12:22


Na segunda situação, a realidade geologia é vista como feita de unida‑
des litoestruturais que se ordenam no tempo, das mais antigas às mais re‑
centes, vislumbrando ressaltar a relação de ordem entre elas em seu respec‑
tivo padrão espacial. Será empregado o “Método corocromático ordenado”
(Figura 8.1), que ordena áreas empregando variáveis visuais ordenadas. A
legenda será organizada também na vertical com caixas empilhadas, porém
não grudadas uma na outra.

50° W Gr 45° W Gr
Eduardo Justiniano

20° S
5

6
3

5 6
2
7 8
2

N 10
9 10
1 1

25° S
0 50 km

Figura 8.1. Mapa para os exercícios práticos dos métodos corocromáticos qualitativo e ordenado.

Em um outro caso, a realidade população é vista como feita de quanti‑


dades absolutas, tendo o escopo de ressaltar a relação de proporção entre
elas em sua disposição no espaço. Será explorado aqui o “Método da figu‑
ras geométricas proporcionais”, que coloca círculos, por exemplo, centrados
nas áreas das ocorrências, as unidades de observação com áreas propor‑
cionais aos valores da variável em foco. Necessita­‑se de um cálculo. Para
traçá­‑lo é preciso conhecer o raio. Extrai­‑se a raiz quadrada do valor, (Q)
lendo­‑se o resultado em milímetros. Poderão resultar valores enormes que
não cabem no mapa ou muito pequenos, sem expressão. Dividem­‑se ou
multiplicam­‑se todos os valores por uma constante K até achar tamanhos
ideais, desde o menor ao maior (raio = Q/K ou raio = Q∙K ). A legenda

capítulo 8 – a prática da cartografia temática 209

PRATGEO_2aprova.indb 209 26/11/10 12:22


deverá ser feita como um gráfico cartesiano, tendo nas abscissas valores
redondos da variável e nas ordenadas as respectivas medidas gráficas dos
parâmetros lineares que se possam medir diretamente sobre o mapa: os
diâmetros. Completa­‑se o gráfico com a curva que une as extremidades dos
diâmetros, a qual emoldura alguns tamanhos de círculos correspondendo a
valores característicos de sua distribuição estatística (Figura 8.2).

Rafael Sato
0 250 500 750 1.000 5.000 10.000 mil habitantes

Figura 8.2. Exemplo de gráfico para legenda de mapas.

Segue a prática. Para tanto, utilizar as informações representadas no mapa


da Figura 8.3 e copiar a Tabela 8.2, completando os dados que faltam.
Nesta situação, a realidade população é vista como feita de quantidades
relativas, interessando avaliar o padrão de distribuição das mesmas agrupadas
em classes significativas. Convém o “Método coroplético”, o qual irá estabele‑
cer que a ordem crescente dos valores relativos agrupados em classes signifi‑
cativas seja transcrita por uma ordem visual também crescente. Necessita de
um processamento dos dados para agrupá­‑los. O procedimento mais simples
é o que emprega um método gráfico. Constrói­‑se um gráfico de dispersão
para a série de dados relativos fornecida, considerando a frequência de ocor‑
rência desses dados apurada dentro de classes de intervalos experimentais
pequenos. Cada valor da série é um ponto no gráfico. Os pontos poderão se
empilhar ou não.
Pronto o gráfico, isolam­‑se visualmente agrupamentos naturais que as
colunas de pontos formaram, as quais delimitarão as classes, que não po‑
derão ser muito numerosas – no máximo oito. A legenda é feita em caixas
empilhadas e disjuntas, uma para cada classe de valores. Convém que cada
classe se abra com o primeiro valor e feche com o último valor do grupo.
Em havendo uma classe com um único valor, este será indicado diretamen‑
te na legenda (ver Figura 8.4). Para a parte prática, utilizar a Figura 8.3 e
a Tabela 8.3.

210 práticas de geografia

PRATGEO_2aprova.indb 210 26/11/10 12:22


Tabela 8.2 – Estado de São Paulo: população residente total, segundo as regiões administrativas (2009)

Regiões Administrativas População Total Raio (mm) = Q/K

1. RM São Paulo 19.917.608 ***

2. RA Registro 284.826 ***

3. RA Santos 1.687.096 ***

4. RA São José dos Campos 2.284.700 ***

5. RA Sorocaba 2.848.651 ***

6. RA Campinas 6.233.127 ***

7. RA Ribeirão Preto 1.209.106 ***

8. RA Bauru 1.083.668 ***

9. RA São José do Rio Preto 1.437.210 ***

10. RA Araçatuba 727.342 ***

11. RA Presidente Prudente 838.044 ***

12. RA Marília 969.950 ***

13. RA Central 965.031 ***

14. RA Barretos 422.128 ***

15. RA Franca 725.315 ***

Fonte: SEADE (2009).

50° W Gr 45 W Gr

20° S
15

14
9 7
10

13

8
11
4
12
6

5 1
N
3
Eduardo Justiniano
25° S

2
0 50 km

Figura 8.3. Mapa das regiões administrativas para ser utilizado nas análises
propostas neste capítulo que envolvem as Tabelas 8.2, 8.3, 8.4, 8.6. 8.8. e 8.9.

capítulo 8 – a prática da cartografia temática 211

PRATGEO_2aprova.indb 211 26/11/10 12:22


Rafael Sato
0 20 40 60 80 100 120 140 160 180 200 220 240 260 280 300 320 340 360
hab./km²
Intervalos de 5 hab./km²

LEGENDA DENSIDADE 1,45 5,82


DEMOGRÁFICA
(hab./km²) 11,31 36,16

47,99 67,26

80,37 101,47

149,22

328,59

353,53
Figura 8.4. Definição das classes
pelo método gráfico.

Tabela 8.3 – Estado de São Paulo: densidade demográfica, segundo as regiões administrativas (2009)

Regiões Administrativas Densidade Demográfica (hab./Km2)

1. RM São Paulo 2.507,31

2. RA Registro 23,48

3. RA Santos 696,35

4. RA São José dos Campos 141,21

5. RA Sorocaba 69,68

6. RA Campinas 230,01

7. RA Ribeirão Preto 130,01

8. RA Bauru 66,90

9. RA São José do Rio Preto 56,51

10. RA Araçatuba 39,19

11. RA Presidente Prudente 35,25

12. RA Marília 52,37

13. RA Central 86,98

14. RA Barretos 50,59

15. RA Franca 70,25

Fonte: IBGE (2009).

212 práticas de geografia

PRATGEO_2aprova.indb 212 26/11/10 12:22


Em um terceiro caso, a realidade população é vista como feita de quanti‑
dades absolutas desdobradas em seus dois componentes, urbana e rural, in‑
teressando ressaltar a proporção entre os totais, bem como a proporção entre
as parcelas dentro dos totais. Trata­‑se de estruturas. Poderá ser utilizado o
“Método das figuras geométricas proporcionais divididas”. Calculam­‑se os raios
como já demonstrado e dividem­‑se os círculos em dois setores proporcionais
às porcentagens referentes à população urbana e rural. A legenda deverá con‑
siderar uma parte quantitativa e outra qualitativa. A primeira será apresentada
com o gráfico já exposto e a segunda mediante duas caixas superpostas, não
coladas, para uma variação visual seletiva (utilizar a Figura 8.3 e a Tabela 8.4).

Tabela 8.4 – Estado de São Paulo: população residente total, urbana e rural, segundo regiões administrativas (2009)

Regiões Administrativas População Total População Urbana % População Rural %

1. RM São Paulo 19.917.608 18.838.856 94,58 1.078.752 5,42

2. RA Registro 284.826 202.986 71,27 81.840 28,73

3. RA Santos 1.687.096 1.681.628 99,68 5.468 0,32

4. RA São José dos Campos 2.284.700 2.142.083 93,76 142.617 6,24

5. RA Sorocaba 2.848.651 2.433.168 85,50 415.483 14,50

6. RA Campinas 6.233.127 5.904.571 94,73 328.556 5,27

7. RA Ribeirão Preto 1.209.106 1.177.300 97,38 31.716 2,62

8. RA Bauru 1.083.668 1.021.319 92,25 62.349 5,75

9. RA São José do Rio Preto 1.437.210 1.326.563 92,30 110.647 7,70

10. RA Araçatuba 727.342 668.815 91,95 58.527 8,05

11. RA Presidente Prudente 838.044 742.168 88,56 95.876 11,44

12. RA Marília 969.950 899.062 92,69 70.888 7,31

13. RA Central 965.031 912.673 94,58 52.358 5,42

14. RA Barretos 422.128 396.266 93,87 25.862 6,13

15. RA Franca 725.315 688.200 94,88 37.115 5,12

Fonte: IBGE (2009).

Passemos agora a uma nova situação, na qual o rebanho bovino é visto


como feito de quantidades dispersas, em números absolutos, com o propósito
de se visualizar onde há maior dispersão e onde há maior concentração desses
animais. É o caso de se empregar o “Método dos pontos de contagem”. Ele

capítulo 8 – a prática da cartografia temática 213

PRATGEO_2aprova.indb 213