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O EXERCÍCIO DA AÇÃO DOCENTE (ESTÁGIO CURRICULAR) NA


MODALIDADE DE EDUCAÇÃO A DISTÂNCIA:
RELATO DE EXPERIÊNCIA
Leociléa Aparecida Vieira
EADCON – Sociedade de Educação Continuada
leocilea.vieira@uol.com.br
Profissão Docente e Formação de Professores

RESUMO
O artigo relata a experiência vivenciada, em cinco semestres, na disciplina Exercício
da Ação Docente (Estágio Curricular), ministrada no curso de Licenciatura Normal
Superior – Séries Iniciais na modalidade de Educação a Distância (EaD). Convicta
de que a formação docente somente se solidifica se estiver assentada na díade
teoria e prática, que, inseparáveis, constituem a prática pedagógica, e de que o
estágio constitui a espinha dorsal do curso, um questionamento se tornou a linha
mestra desde o início: que educador formar? Em resposta a essa pergunta, a
proposta da disciplina foi construída de forma que suas peças fossem sendo
encaixadas ao longo do curso, para que, ao final desse, as engrenagens estivessem
ajustadas. Em um primeiro momento, discutiu-se como se configura a identidade do
professor: quem é esse profissional e o que caracteriza sua prática diária, qual o
percurso da carreira docente – problemas enfrentados e as suas condições de
trabalho –, como se dá o processo de ensino-aprendizagem e a ação docente em
diferentes situações. No Exercício da Ação Docente II, realizou-se o mapeamento da
escola com o intuito de possibilitar ao futuro professor o conhecimento: da
comunidade escolar nas suas dimensões histórico-geográficas e sociopolítica; da
diversidade cultural, por meio da observação da infra-estrutura da escola; dos
processos de planejamento; dos atos de ensinar-aprender; de brincar, de merendar;
das relações professor-aluno e do processo de avaliar. O terceiro momento teve
como proposta a observação crítica de como as aulas acontecem, desde a sua
preparação inicial pelo professor até o repasse dos conteúdos aos alunos. O
acadêmico pôde refletir sobre o real significado de uma aula, acompanhar as
metodologias e os meios de ação utilizados pelo docente na mediação do
conhecimento, conhecer os recursos didáticos necessários a uma aprendizagem
significativa e, ao final, elaborar um roteiro de observação da prática docente. Nos
dois últimos períodos do curso, a disciplina propiciou ao aluno – futuro professor – a
prática propriamente dita: a docência nas Séries Iniciais do Ensino Fundamental. Ao
final de cada semestre, os resultados da aprendizagem foram apresentados por
intermédio de relatórios, os quais possibilitaram aos docentes da disciplina a
avaliação do trabalho desenvolvido pelos alunos e o ajuste dos processos para a
etapa seguinte.

Palavras-chave: estágio supervisionado; formação de professores; educação a


distância
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1 O INÍCIO DA EXPERIÊNCIA

Em março de 2006, fomos convidadas para pensar e, posteriormente,


escrever o material didático e ministrar a disciplina Exercício da Ação Docente
(Estágio Curricular) no Curso de Licenciatura Normal Superior – Séries Iniciais na
modalidade a distância, da Faculdade Educacional da Lapa (FAEL), no estado do
Paraná. O curso é ofertado de norte a sul do País e sua clientela é composta, em
sua maioria, por professores que atuam a muitos anos na escola e que viram na
Educação a Distância (EaD) a oportunidade da realização de uma faculdade.
Confesso que foi um enorme desafio. Nesse caso: duplo. Primeiro, ministrar
aulas na EaD, por si só, já constitui uma “afronta”, pois suscita novas metodologias e
posturas, tanto por parte do professor quanto do aluno. Costumo sempre mencionar
que estamos aprendendo a fazer educação a distância no Brasil. Segundo, porque a
disciplina de Estágio gera expectativas e ansiedade por parte do discente, como por
exemplo: “será que estou fazendo corretamente?”; “quando vou iniciar a didática?”.
O mesmo ocorre com o docente. Exemplo: “consegui explanar com clareza os
conteúdos e os encaminhamentos a serem seguidos no campo do estágio?”
Inicialmente, elaboramos o Manual de Estágio e, a cada semestre,
produzíamos o material didático e ministrávamos as aulas via satélite. Por meio da
interação dos alunos em tempo real, podíamos verificar se esses compreendiam o
conteúdo que estava sendo explicado, bem como os encaminhamentos a serem
seguidos no decorrer do período. Isso aconteceu durante quatro semestres. No
último, escrevi o material didático e a aula foi ministrada por outro professor,
seguindo os mesmos moldes anteriores.
A disciplina Exercício da Ação Docente se configura como a espinha dorsal
do curso, tem uma carga horária de 400 horas, as quais foram subdivididas em 80
horas ofertadas durante cinco semestres, ou seja, do 2º ao 6º período. Ao término
de cada período, os alunos, individualmente ou em dupla, produziram um relatório
das atividades desenvolvidas e o postaram eletronicamente em ferramenta própria.
Aqui se detecta mais uma dificuldade: para o nosso aluno, falta destreza no manejo
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das tecnologias da informação e comunicação. O esclarecimento de dúvidas aos


discentes é feito via teleaula, aula interativa e fóruns. Além disso, foi implantada a
Coordenação de Estágio, setor criado especialmente para atender a demanda
desses discentes.
No decorrer das aulas, os alunos também desenvolviam atividades para
compor um portfólio. O tema era escolhido de acordo com o assunto do semestre,
por exemplo: no primeiro, solicitou-se que elaborassem um texto reflexivo sobre
“Dos professores que eu tive, do professor que eu sou, que professor eu
quero ser?”

A EXPERIÊNCIA VIVENCIADA...

“O sonho viável exige de mim pensar diariamente a


minha prática; exige de mim a descoberta, a
descoberta constante dos limites da minha própria
prática, que significa perceber e demarcar a
existência do que eu chamo espaços livres a serem
preenchidos. O sonho possível tem a ver com os
limites destes espaços e esses limites são históricos
(…) A questão do sonho possível tem a ver
exatamente com a educação libertadora, não com a
educação domesticadora”.
(FREIRE, 1992)

A disciplina Exercício da Ação Docente esteve voltada para a formação


integral do professor. Tinha por intuito possibilitar ao acadêmico o aliamento da
teoria com a prática pedagógica, pois “a teoria só adquire significado quando
vinculada a uma problemática originada da prática e esta só pode ser transformada
quando compreendida nas suas múltiplas determinações, nas suas raízes
profundas, com o auxílio do saber sistematizado” (LIBÂNEO, 2006).
A fim de facilitar a explanação, a tessitura desse texto se fará em tópicos que
explicitarão como se deu a construção da disciplina.
Nesse Exercício da Ação Docente I, intitulado Identidade Profissional,
discutiu-se, com os alunos, o porquê de se realizar o estágio e que o mesmo “não
pode ser encarado como uma tarefa burocrática a ser cumprida formalmente (...)
Deve, sim, assumir a função prática, revisada numa dimensão mais dinâmica,
profissional, produtora, de troca de serviços e de possibilidades de abertura para
mudanças” (KULCSAR, 1994, p. 6).
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Explicamos que, ao se realizar um curso para a formação de professores, é


preciso ter consciência de que escolher a profissão de docente não é escolher uma
profissão qualquer, visto que não se deve fazer da docência um espaço para
acomodação ou “um estar professor” à espera de “algo melhor”. Trouxemos as
palavras de Libâneo (2001) para expor que ser professor exige uma ação reflexiva,
ou seja, uma auto-análise: voltar-se para si mesmo; pensar sobre si mesmo para
formar-se, formular uma teoria e redimensionar a própria prática; criar uma
• relação entre reflexão e situações de prática, considerando a situação
concreta; e
sempre utilizar a reflexão para compreender o movimento, as relações, os nexos e
para construir uma explicitação do real.
Assim, esse semestre teve como fio condutor a reflexão sobre o perfil do
profissional da educação e, a partir daí, os elementos constitutivos de uma
identidade profissional, tomando-se por base as novas demandas educativas e as
transformações do trabalho docente.
Nesse sentido, a discussão sobre a identidade profissional do professor
perpassou o “que é ser professor”, o que caracteriza essa prática profissional,
quais os problemas da prática docente, as condições de trabalho e de carreira
profissional dele. Era necessário, ainda, que o aluno, futuro professor,
compreendesse os processos de formação e profissionalização docente, tais
como: o processo de ensino-aprendizagem na prática docente e a ação docente
em diferentes situações de ensino-aprendizagem. Esses tópicos foram
explicitados no decorrer do período.
O eixo norteador do Exercício da Ação Docente II foi o Mapeamento Escolar.
Esse teve por finalidade propiciar ao futuro professor o conhecimento: da
comunidade escolar nas suas dimensões histórica, geográfica, da diversidade
cultural e a observação da infra-estrutura da escola e dos processos de
planejamento, do ato de ensinar-aprender, da relação professor-aluno, direção-
professor, do ato de brincar, de merendar, do processo de avaliar, entre outros.
No Exercício da Ação Docente III, refletiu-se sobre o significado da palavra e
da ação “A aula”. A partir de um roteiro, os alunos realizaram a observação crítica da
prática docente. Acompanharam desde a preparação inicial do professor até o
repasse dos conteúdos aos alunos, analisaram as metodologias e os meios de ação
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utilizados pelo docente na mediação do conhecimento, assim como os recursos


didáticos necessários para que houvesse uma aprendizagem significativa.
Os alunos praticaram a docência somente nos dois últimos semestres. A
finalidade desses foi propiciar ao aluno situações de ação docente num processo
reflexivo, por intermédio da investigação sobre a formação do professor
pesquisador, com a elaboração do trabalho de conclusão de curso. Além disso, o
intuito era ampliar os processos de elaboração coletiva da prática pedagógica, para
que o aluno aprendesse a conviver e a colaborar com as equipes de profissionais
que atuam na escola. Foi o momento da prática da sala de aula, a docência
propriamente dita. Os discentes tiveram a oportunidade de planejar, elaborar e
ministrar aulas nas Séries Iniciais do Ensino Fundamental. A proposta era a
metodologia da pedagogia de projetos.
No Exercício da Ação Docente IV, a prática em sala de aula se deu no
primeiro ciclo do Ensino Fundamental, que é constituído pelas 1ªs e 2ªs séries do
Ensino Fundamental e, no Estágio V, nas 3ªs e 4ªs séries. É importante salientar que
em cada semestre, eram repassadas as orientações sobre as atividades a serem
desenvolvidas no campo de estágio, com a carga horária a ser computada em cada
uma delas.

(IN)CONCLUSÃO

Em julho de 2008, os alunos dessa primeira turma de professores, que


vivenciaram essa experiência, concluem o curso. Duas questões foram constantes
desde o início da disciplina: oportunizar situações que possibilitassem a relação
teoria e a prática pedagógica; e formar um professor comprometido com os
resultados da aprendizagem de seus alunos, pessoalmente engajado na ampliação
de seus próprios horizontes culturais e na sua permanente atualização. Tenho a
convicção de que todos os textos que escrevi e de que todas as aulas que preparei
foram feitos com idealismo e paixão de uma professora compromissada e
sonhadora, crédula de que é possível formar docentes com qualidade por meio da
Educação a Distância. Dessa forma, para exprimir o sentimento em relação à
disciplina, empresto os versos bem ditos de Fernando Pessoa:
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De tudo ficam três coisas:


A certeza de que estamos sempre começando...
A certeza de que precisamos continuar...
A certeza de que seremos interrompidos antes de terminar...
Portanto, devemos:
Fazer da interrupção um caminho novo...
Da queda, um passo de dança...
Do medo, uma escada...
Do sonho, uma ponte...
Da procura, um encontro...

REFERÊNCIAS

KULCSAR, Rosa. O Estágio Supervisionado como Atividade Integradora. In:


PICONEZ, Stela C. B. (Org.). A Prática de Ensino e o Estágio Supervisionado.
2. ed. Campinas, SP: Papirus, 1994.

LIBÂNEO, José Carlos. O professor e a construção de sua identidade profissional.


In: ______. Organização e gestão da escola: teoria e prática. 4. ed. Goiânia:
Alternativa, 2001.