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penal.

REVISÃO: Maria Luiza Dias Ulhoa


CAPA: Maria Alves

ARTE: Maria Alves


Nota da Autora
Playlist no Spotify
Prólogo
Capítulo 1
Capítulo 2
Capítulo 3
Capítulo 4
Capítulo 5
Capítulo 6
Capítulo 7
Capítulo 8
Capítulo 9
Capítulo 10
Capítulo 11
Capítulo 12
Capítulo 13
Capítulo 14
Capítulo 15
Capítulo 16
Capítulo 17
Capítulo 18
Capítulo 19
Capítulo 20
Capítulo 21
Capítulo 22
Capítulo 23
Capítulo 24
Capítulo 25
Capítulo 26
Capítulo 27
Capítulo 28
Capítulo 29
Capítulo 30
Capítulo 31
Capítulo 32
Capítulo 33
Capítulo 34
Capítulo 35
Capítulo 36
Capítulo 37
Capítulo 38
Capítulo 39
Capítulo 40
Capítulo 41
Capítulo 42
Capítulo 43
Capítulo 44
Capítulo 45
Capítulo 46
Capítulo 47
Capitulo 48
Capítulo 49
Capítulo 50
Capitulo 51
Capítulo 52
Capítulo 53
Capítulo 54
Epílogo
Cena Extra
Notas finas
Agradecimentos Finais
Redes Sociais da Autora
Querido leitor,

Esta obra apresenta conteúdo

sexual e linguagem

imprópria. Devo frisar que se

caso você não se sinta


confortável com esses temas,
este livro não é pra você.
Quero que se sinta bem e se

divirta com meu livro e não o

contrário, ok?
Playlist – Heaven

Se não puder acessar o link.


Você pode entrar na playlist

apontando a câmera do seu


Spotify aqui:
Para as minhas amigas, Mary e Duda.
E para todos aqueles que são

apaixonados por livros.

E que amam cheirar as páginas quando


ninguém está vendo.

E para você, que tem uma queda por

jaqueta de couro.
Para aqueles que me deram a vida e que

irão acabar com ela se lerem esse livro.

Para meus pais, que vão me dar um


banho de água benta e me levar até o

padre (beijo padre!). Fiquem longe

desse livro, por favor! Preservem a

imagem de sua filhinha.

Amo muito vocês, mãe e pai.


“Vivíamos em um paraíso só

nosso, e ele foi destruído uma


vez. Agora estou mais do que
acostumado a viver em um

inferno.”
☆♡☆

Prólogo

O cheiro de fritura a esta hora da

manhã já está me dando enjoo. E estou

muito apertada e preciso urgentemente ir

ao banheiro, mas é isso que acontece


quando você tenta ser uma ótima
funcionária e colega de trabalho. Agora,
estou cobrindo as mesas da minha
amiga, como se as minhas já não fossem
o suficiente. A mesma amiga que disse

que voltaria há dez minutos.

A passos largos, vou até a mesa

que acabou de ser desocupada. Pego a


gorjeta e limpo tudo antes que Jonan

apareça por detrás do balcão


procurando motivos para me despedir.
Obviamente, ele nunca encontrou. Mas
qualquer passo errado e é rua.

Ouço o sino da porta tilintar


conforme mais clientes entram, enquanto

termino com a mesa levando a bandeja

com as xícaras vazias para o balcão

encontrando Jonan já de olho em mim,


me encarando pela pequena janelinha da

cozinha.

— Onde está a sua amiga? — Suas


sobrancelhas se juntam enquanto olha

para a mesa vazia que acabei de limpar.

— Banheiro? — Sugiro.

— Está me perguntando se ela está


no banheiro? — Devolve ele, tentando

esconder o sorriso de excitação que está

começando a se formar.

Antes que eu possa responder, o

sino toca novamente e uma Beatrice, ou


Triz, como costumo chama-la, entra
praticamente correndo enquanto tenta
amarrar o rabo de cavalo ao mesmo
tempo. Triz se posiciona ao meu lado

ofegante como se tivesse corrido uma


maratona.

— Cheguei!

—A lanchonete inteira viu. —

Murmuro recebendo uma cotovelada

nada sutil.

—Está demitida. — Jonan diz


arrancando um suspiro da Triz, que
assente abaixando a cabeça derrotada e
fazendo beicinho. Um segundo depois, a

mesma Triz derrotada abre um enorme


sorriso em seus lábios cheios de batom

vermelho enquanto pisca seus olhos da

maneira mais meiga possível.

—Posso trabalhar aqui? Acabei de

ser demitida, meu antigo chefe era um


monstro.
Jonan gargalha enquanto assente.

— Está contratada, mocinha.

Dou um high five com Triz

comemorando o seu “novo" emprego. Só


essa semana, Triz foi demitida e

contratada seis vezes, e hoje é quarta-

feira.

— Agora vão. Tem clientes

esperando.

Pego meu bloquinho em cima do


balcão e vou até a última mesa no fundo

da lanchonete. Abro o bloquinho em uma


nova folha enquanto me posiciono em

frente a mesa.

— Bom dia, o que vão querer? —

Pergunto quebrando a primeira regra da

lanchonete.

Sempre olhe o cliente nos olhos

E sorria quando for recebê-los.


— O seu número está no cardápio?

— Ouço revirando os meus olhos com


tanta força que até doeu.

— Seis. — Respondo o encarando

enquanto coloco uma das minhas mãos

em cima da mesa.

Ele me encara com a sobrancelha

erguida em uma pergunta silenciosa,


assim como os seus dois amigos me
encaram também.

— Seis o quê?

— Seis cantadas diferentes hoje. E

só abrimos há uma hora. Capricha mais,


cara.

Seus olhos verdes se arregalam e

se suavizam em segundos enquanto ele

abre um sorriso malicioso aceitando o

desafio. Ao contrário de seus amigos


que riem. Tiro os olhos do bonitinho de
olhos verdes e miro os outros dois. O
que está rindo abertamente como se eu
tivesse contado a piada do século tem

olhos castanhos bem bonitos, além de


lábios bem desenhados. Quando me toco

que estou olhando tempo demais para

sua boca, encaro o outro que está ao seu

lado esquerdo.

Péssima ideia.

Ele já está me olhando. Não. Ele


não está apenas me olhando, ele está

olhando para a minha alma e vendo


todos os meus pecados. O azul de seus

olhos é o mais incrível que eu já vi em


toda a minha vida. Seus olhos são como

o azul de um oceano e eu estou prestes a

me afogar nele.

Ele não desvia o olhar, e nem eu.

Ele não desvia porque não quer. Eu não


desvio porque não consigo.
Algo cai estilhaçando atrás de

mim, logo a voz de Triz xingando e


pedindo desculpas para os clientes me

tira da hipnose. Coço a garganta


desviando de seus olhos e voltando a

mirar o bloquinho em minhas mãos,

ainda sentindo seus olhos em mim.

— Hm... O que vão querer?

— As panquecas daqui são boas?


— Paro de mirar o bloquinho e encaro
os olhos castanhos fazendo o possível

para não olhar para ele.

— As melhores que já comi. —


Respondo oferecendo um dos meus

melhores sorrisos.

Ainda sinto seus olhos em mim.

— Vou querer, então. — Assinto

anotando seu pedido.

— Vou querer os croissants doces


e um café expresso, gata. — Reviro os
olhos novamente, o fazendo rir.

Claramente, ele ainda não desistiu de


levar meu número como brinde dos

croissants.

— E você? — Pergunto apenas

acenando com a cabeça enquanto

escrevo o pedido, levando mais tempo


do que deveria. — O que vai querer?

— Você.
☆♡☆

Capítulo 1
1 ano atrás
— Se arruma. — Minha nova

melhor amiga diz assim que entra em

nosso quarto.

— Oi, pra você também. —


Respondo sem deixar o sarcasmo de
lado enquanto ajeito meus óculos de

leitura com um dedo.

— O que está fazendo aí? —


Beatrice se posiciona ao lado da minha

cama, a qual nem tem espaço para me

deitar, já que está cheia de livros. —

Você está estudando?

Ignoro o olhar descrente em seu

rosto, virando a próxima página.

— Na verdade, fiz uma pausa dos


estudos para ler.

Triz me olha como se eu tivesse

duas cabeças.

— Você parou de ler, para poder...


ler? — Ela sacode a cabeça desistindo

de tentar me entender. Com toda a

certeza, ela acha que sou maluca. — Ok.

Tire esses óculos e vista um vestido com

aquela sua bota incrível. Vamos sair!

— Sair? Amanhã é nosso primeiro


dia. Quer ter uma ressaca na sua
primeira aula?

— Bem-vinda ao meu mundo, B.

Reviro meus olhos com força. Ela


poderia simplesmente me chamar pelo

meu nome, Grace. Eu odeio meu nome

do meio e tenho quase certeza de que

meu pai estava drogado quando me

registrou com esse nome. Mas, como a


amiga maravilhosa que a Triz é, ela faz
questão de me chamar por ele. Pelo

menos, ela abrevia.

— Vamos lá. É sua primeira vez


aqui e como sua nova melhor amiga, eu

tenho a obrigação de te levar para o mau

caminho. Então tire a cara dos livros e

vista esse vestido.

O vestido mais curto e brilhante

que tenho é jogado em cima da minha


cama cobrindo as páginas de alguns
artigos que eu estava lendo.

— Relaxa, B. Vamos só dançar e

aproveitar antes de nos preocuparmos


com notas altas.

Relaxar é a última coisa que

consigo fazer. Eu me programei, fiz

cronogramas e até passei a minha calça

jeans a ferro para vestir amanhã! Eu

batalhei muito para ser transferida pra


uma das melhores faculdades de New
York. Mas ser transferida foi “moleza",

o difícil é permanecer aqui. E para isso,


tem que ter um cérebro realmente grande

ou a conta bancária, mas esse não é o


meu caso.

Além do mais, ainda tenho pais

que esperam muito de mim. Apesar da


pressão ser um pouco difícil de suportar,

ainda os entendo. Sou filha única. A


única menina deles e eles querem o
melhor de mim. Então serei a melhor em
tudo o que eu puder ser.

— Só dançar? — Pergunto a ela


que assente com a cabeça rápido de

mais, já se animando com a ideia de eu

estar considerando pegar o vestido que

está chamando por mim.

Bufo, mas deixo um sorriso

escapar quando Triz comemora dando


pulinhos animados enquanto sigo para o
banheiro.

Triz dormiu todos esses dias desde

que cheguei com a luz da minha


luminária acesa enquanto eu estudava. E

apesar de claramente incomodar, ela

nunca disse nada. É uma boa amiga e

acho que estou devendo isso a ela.

Saio do banheiro com o cabelo

preso em um rabo de cavalo, maquiada e


já com o vestido que bate acima das
minhas coxas. Pego a caixa de baixo da

cama com minhas botas de camurça que


batem acima do joelho, e as calço.

— Vestida para matar. — Triz me

lança um olhar malicioso através do

espelho que ela encara enquanto passa

seu batom vermelho sangue. Ela estende


para mim assim que termina e recuso,

passando apenas um gloss em meus


lábios.
Eu odeio batom. Mas guardo esse

pensamento apenas para mim. Às vezes,


quando digo isso em voz alta parece que

estou assassinando a moda feminina.

— Ah, não. Vestida para dançar.

— Corrijo assim que pego minha

bolsinha colocando o gloss e minha


identidade dentro.

— Veremos.

Acho que todos os alunos

resolveram se encontrar na mesma festa.

Eu não faço ideia de quem é o dono


dessa casa, mas espero que não se

importe em arrumar tudo isso na manhã

seguinte, pois acabei de ver um cara

vomitando no jardim.

Aparentemente, a república é de
alguns jogadores do time da faculdade.
Ainda não fui apresentada a nenhum
deles. Sinceramente, a única pessoa que

conheço no meio de tanta gente, é a Triz.


Não é que eu seja uma pessoa

antissocial, com alergia a seres

humanos, eu apenas prefiro os livros.

Livros, na minha opinião, são os

melhores amigos que alguém pode ter. Já

conheci tantos lugares e mundos, e só


precisei ler. Não me importaria de ficar

trancada em meu quarto, desde que eu


possa ter um bom livro em mãos.

Mas aqui estou eu.

— Vem, vamos beber! — Triz me

arrasta mais para dentro da casa, e nem

consigo ver direito como ela é. Está

lotada de adolescentes dançando e

bebendo ao som da música que está alta


o suficiente pra destruir os tímpanos.
Não consigo ouvir direito o que

Triz disse após me servir e entregar um


copo vermelho. A bebida desce

queimando minha garganta e logo sou


arrastada até o meio da sala pela minha

amiga. Um gole disso que está em meu

copo já é o suficiente para me deixar

mais relaxada. Ignoro os gritos de

comemoração a minha volta, apenas

encarando por cima dos ombros pra


saber que os anfitriões estão aqui. Não é

difícil saber quem são eles, apesar de


não os conhecer ou nunca os ter visto.
Mas eles são jogadores de hóquei e
jogadores não passam despercebidos.

Sempre tem fãs para bajulá-los e, dado a

quantidade de garotas que estão os

rodeando nesse momento, são realmente

eles.

Triz e eu continuamos dançando e


bebendo, a bajulação acaba e todos
voltam a aproveitar a festa. Sinto a sala
mais cheia do que antes com a presença

deles aqui, mas apenas jogo meus


braços pra cima enquanto me mexo.

Rindo uma vez ou outra com Triz sem ter

motivo algum.

Acho que estou bêbada, mas não

nego quando Triz enche mais os nossos


copos.
Um ar frio passa pelo meu pescoço

me deixando arrepiada, sinto estar sendo


observada e quem quer que seja, está

apreciando meu show. Rebolo no ritmo


da música, olhando sutilmente para

todos os lados enquanto procuro pelo

meu telespectador.

Encontrei.

Encostado no batente da porta de


braços cruzados e vestindo uma jaqueta
de couro, ele me olha sem nem piscar

enquanto ignora as pessoas que estão


falando com ele. As luzes piscando me

impossibilitam de ver de que cor são


seus olhos, mas parecem ser lindos.

Sua mandíbula se fecha conforme

seus olhos saem das minhas coxas e


sobem lentamente sem nenhum pudor até

chegarem em meu rosto. Quando ele


percebe que estou encarando sem deixar
de me mover conforme o ritmo da
música, uma linha de um sorriso se abre
e quase não respiro quando ele

finalmente começa a andar até mim.

Seus passos são lentos e

despreocupados, como se ele tivesse

todo o tempo do mundo. Ou melhor,


como se o mundo fosse dele. Ele se

aproxima sem tirar os olhos dos meus e,


quando está perto o suficiente para que
eu possa ver a cor deles, quase tropeço
com os saltos da minha bota.

Azuis. Um tom de azul


impressionantemente lindo. Os cabelos

negros estão molhados como se ele

tivesse acabado de sair do banho, e não

é apenas uma suposição, já que seu


perfume chega até mim quando ele cola

nossos corpos e segura minha cintura.

Continuo a me mover, agora com


seu corpo próximo demais do meu,

ignorando o olhar de predador que ele


me lança. Não consigo desviar de seus

olhos, são azuis como o fundo de um


oceano e eu acabo de me afogar neles.

E não quero ser salva.


☆♡☆

Capítulo 2

Agora

Você.

Uma palavra.
Uma palavra para fazer eu tirar os

olhos do bloquinho amarelo em minhas


mãos e encará-lo. Os olhos azuis estão

me prendendo novamente e ele espera


uma resposta. Ele me disse uma única

palavra que revirou meu estômago e

tenho quase certeza de que isso não é

normal. Ele continua me encarando, seus

amigos nem se mexem e tenho a

impressão de que estão tão sem palavras


quanto eu estou.

Não tenho uma resposta pronta que

costumo usar com piadinhas que


enfrento diariamente. Dessa vez, fico

apenas paralisada e nem sei o porquê.

A maneira como ele está me

encarando.

O jeito como ele falou a porra de

uma única palavra.

— B? Algum problema? — Pisco


desviando meus olhos para Triz que tem

seus olhos travados nele. Aposto que


está tão impressionada quanto eu. Ou

não, já que ela encara os três clientes a


nossa frente como se fosse matá-los.

Não estou entendendo nada.

Também não sei de onde ela os conhece,


mas ainda sinto os olhos dele em mim e

não quero perguntar na presença deles.


O porquê dessa sensação, eu não sei.
— Vão embora.

— Triz? — Ela nem me encara.

Não consigo lembrar de nenhuma vez


que Triz agiu assim, nem com os caras

que a magoavam. Ela simplesmente está

em sua pose de durona, mas a conheço o

suficiente pra saber que está na


defensiva.

Os três a nossa frente se levantam


sem dizer uma única palavra, mas ainda
assim não deixam de chamar a atenção.

Não sei se é por Triz ter acabado de


expulsá-los sem mais nem menos, ou

pela beleza impressionante que eles têm.

Triz se aproxima ainda mais de

mim, segurando minha mão conforme

eles passam por nós duas. Quando ele se


aproxima, Triz prende a respiração e eu

também.

Ele me olha em silêncio enquanto a


mão de Triz está quase esmagando a

minha, mas nem consigo dizer que dói,


pois não sinto nada enquanto tenho seus

olhos em mim.

Pela primeira vez, ele é o primeiro

a desviar o olhar. Sinto o ar voltar para

os meus pulmões quando ele passa por


mim indo em direção a mesma porta que

entrou, saindo por ela.

Não sei o que acabou de acontecer.


E nem entendo quando Triz finalmente

solta a minha mão e me encara


procurando alguma coisa em meus olhos

que não seja confusão, que é como estou


agora.

— Não se aproxime dele. Nunca.

Sem esperar por minha resposta,

ela pega o bloquinho das minhas mãos e

o joga no balcão enquanto me puxa entre


as mesas.
— Vamos embora.

— Da pra me explicar que porra

foi aquilo? — Pergunto irritada com

Triz, que não me disse uma única

palavra desde que me tirou as pressas


da lanchonete e nos trouxe para nosso
pequeno apartamento.

Estou irritada. Com ela e comigo.

Com ela porque sei que algo está

errado e ela simplesmente não me diz o


quê enquanto anda de um lado para o

outro pela sala. E estou brava comigo

por não saber o que deu em mim! Que

porra foi aquela? Eu parecia um

espantalho sem cérebro que não sabia


nem qual era seu próprio nome.
— Só... — Triz para passando as

mãos ferozmente em seus cabelos pretos


sem se importar em bagunçá-los. —

Prometa pra mim que quando ver


aqueles caras de novo, você vai fingir

que não os viu e vai ignorá-los.

Prometa!

— Mas... — Triz se aproxima

segurando meus ombros.

— Sem mas, por favor. Prometa,


Grace.

Agora toda a raiva que eu estava

sentindo foi consumida pela


preocupação. Em todos os momentos de

nossa amizade, apesar de serem poucos

meses, Triz nunca me chamou por Grace.

Nunca. Isso soa um alerta em minha


mente e não consigo evitar a sensação

ruim que se acumula em meu coração.

— O que eles fizeram com você,


Triz?

Ela apenas me encara com uma

expressão irreconhecível nos olhos e me


abraça apertado. Não sei fazer nada

além de retribuir o gesto e apertá-la em

meus braços.

— Por culpa deles, todos os

momentos bons foram perdidos.

Não compreendo, mas não


pergunto mais nada. Apenas a abraço
mais um pouco antes de distraí-la
falando que acho que perdemos nossos
empregos, mas que conheço uma

lanchonete muito boa que está


contratando novas garçonetes.

Triz ri e fico feliz por ver seu

sorriso antes dela decidir tomar um


banho pra depois pedir uma pizza.

Decido tomar um banho também,


agradecendo por ter meu próprio
banheiro no meu quarto.

Fico embaixo do chuveiro mais

tempo que deveria, sozinha com meus


próprios pensamentos, tentando

compreender tudo o que aconteceu. E,

principalmente, quem era aquele cara e

por que ele me deixava tão inquieta.

Essas são aquele tipo de pergunta

para as quais não sei se quero uma


resposta.
☆♡☆

Capítulo 3

Antes

Seus lábios estão por todos os

lugares, e ao mesmo tempo em lugar


nenhum.

Não sei em que momento ele pegou

minha mão e me arrastou por entre as


pessoas até as escadas. Me lembro de

suas mãos em minha cintura enquanto

dançávamos, lembro delas descendo

descaradamente até minha bunda.


Lembro do seu nariz se arrastando por

entre a dobra do meu pescoço. E lembro


de quando segurei seus cabelos úmidos
e o puxei até sua boca colar na minha.
Foi questão de minutos até ele me
encarar com fome nos olhos e me trazer

até aqui.

Suas mãos estão descontroladas

enquanto me puxa mais para si com uma

única mão. Ouço a trava da porta atrás


de mim, e agora que sei que ninguém vai

nos atrapalhar, levo minhas mãos para


dentro de sua camiseta branca sentindo a
sua barriga definida.

Ele puxa meu lábio inferior com os

dentes quando minha mão entra em


contato com sua pele. Sorrio vitoriosa

com sua reação, já que nem cheguei a

fazer o que pretendo.

Ele me vira me deixando de costas

para ele e estou prestes a protestar

quando compreendo o porquê, sentindo


o meio das minhas pernas cada vez mais
molhado.

Estou encarando a mim mesma.

Vendo meus lábios inchados e meus


olhos dilatados. Assim como os dele.

Nós nos encaramos pelo reflexo do

espelho, ele não desvia nossos olhos

enquanto lentamente segura a alça do


meu vestido e a desliza para baixo. O

vestido cai em meus pés e nem consigo


me sentir envergonhada de estar usando
apenas botas e fio dental. Sem nenhum
sutiã.

— Gosta do que vê? — Pergunta


ele, pela primeira vez ouço sua voz e é

tão excitante quanto achei que seria. —

Porque eu gosto.

Ainda me encarando pelo reflexo,

suas mãos seguram meus seios,

beliscando meus mamilos enquanto ele


mordisca o lóbulo da minha orelha.
— Na verdade, gosto pra cacete.

Gemo quando ele belisca meu seio

mais forte me causando dor e me


deixando ainda mais excitada. Uma de

suas mãos começam a descer

acariciando minha barriga e nem preciso

implorar para que ele faça o que eu


quero, pois ele vê em meus olhos o que

preciso.

Sua mão invade minha calcinha e


nem reprimo o gemido quando seu dedo

entra em contato com minha pele.


Sentindo minha umidade, ele solta um

sorriso acompanhado de um grunhido e


nem reclamo quando dois dedos me

invadem sem esperar que eu me

acostume.

Oh, ele é duro. Seus dedos me

fodem, entram e saem de mim e não


consigo permanecer de olhos abertos.
Fecho minhas pálpebras arqueando
minha cabeça, me apoiando em seu
peito.

Isso é tão injusto. Ele ainda tem

todas as suas peças de roupa em seu

corpo, consigo o sentir duro atrás de

mim. Isso é injusto. Sinto suas mãos


massageando meu clitóris. O injusto é

tão gostoso.

Não consigo me manter em pé,


estou quase lá. Os gemidos saem de mim

incontroláveis e estou perto. Tão perto.

Mas o melhor orgasmo que eu teria


é interrompido quando ele tira sua mão

de dentro da minha calcinha e leva seus

dedos até sua boca provando meu gosto.

Ainda estou o encarando sem saber

o que dizer quando ele se afasta de mim

e se senta na cama.

— Mas que porra. — Praguejo


sem me importar com o que ele vai
pensar. Mas ele apenas me encara com
um sorriso no rosto enquanto se inclina

na cama se apoiando em seus braços


tonificados. Seu amiguinho ainda está

evidente e preso em seus jeans. Ele

segue meus olhos e quando volta a me

encarar, seus olhos azuis estão mais

dilatados que antes.

— Vem cá, gata. — Me aproximo


dele sem desviar nossos olhos e, quando
me inclino para tirar minhas botas, sinto
suas mãos nas minhas, parando o

movimento. — Elas ficam.

Sorrio novamente, dessa vez

levando minhas mãos até sua calça. As

removo enquanto ele tira sua própria


jaqueta e a camiseta, descartando-as no

chão. Faço uma nota mental de não


começar a babar. Ele é grande. Todo ele.
Tiro minha calcinha antes de subir

em seu colo, mas ele movimenta rápido


demais me jogando de costas na cama e

ficando por cima de mim. Volto a gemer


quando seus dentes entram em contato

com meus seios, ele morde e me chupa

lentamente deixando tudo isso ser uma

tortura. Seus dedos encontram minha

entrada novamente, e são bem-vindos

quando entram em mim.


— Eu vou... — Ele abre um

sorriso malicioso antes de se abaixar e


beijar a parte interna das minhas coxas.

Sua língua passa por minha abertura tão


lentamente que estou quase a ponto de

começar a xingá-lo. Isso é torturante

demais. Seguro seus cabelos com mais

força e o empurro até que sua língua

entre em mim.

Ele geme com a cabeça enfiada


dentro de minhas pernas e isso só me
deixa cada vez mais lubrificada. Seus
dedos não param de entrar e sair, sua

língua continua me chupando e me


sugando.

— Porra. — Gemo mais uma vez

quando sinto meu orgasmo, dessa vez,


sem nenhuma interrupção. Minhas costas

arqueiam para cima, sua cabeça ainda


está entre minhas pernas.
Ele se aproxima de mim me dando

um beijo duro e selvagem. E com o meu


gosto. Suas mãos agarram minha bunda

enquanto me aperta.

Uso toda a minha força para

empurrá-lo e ficar em cima dele, ele não

discute. Uma mão segura minha cintura e


a outra se estica até a gaveta da cômoda

ao lado da cama tirando um preservativo


de lá. Ele me entrega a camisinha
deixando que eu faça todo o trabalho.

Abro o pacote sem tirar meus

olhos dele e encaixo deslizando minha


mão pelo seu pau.

— Senta no meu pau, amor. — A

voz é carregada com desejo. — E rebola

pra mim.

Ele abre um sorriso safado,

quando guio o seu pau até a minha


entrada. Me acomodo em cima dele,
acostumando com sua largura.

Me movo em seu colo, me

deliciando com seu pau dentro de mim.


Suas mãos não param de apertar meu

corpo. Eu continuo rebolando em cima

dele, subindo e descendo, subindo e

descendo até nossos corpos estarem


soados e o quarto preenchido com

nossos gemidos.

— Porra, gata.
— Oh, meu Deus. — Ele se move

debaixo de mim, me preenchendo por


completo. Nossos corpos se movem em

um só ritmo, e tombo minha cabeça para


trás quando sinto o segundo orgasmo da

noite chegando.

Me remexo em cima dele cada vez


mais rápido, enquanto sinto minha

respiração ofegante e o meu corpo


tremer.
— Qual o seu nome? — Ele

pergunta no meio de um gemido. E uma


pergunta tão simples nunca foi tão sexy.

— Isso importa? — Pergunto de

volta. E acho que não era tão importante

quando ele me arranca um beijo feroz no

mesmo instante que nossos corpos


tremem gozando ao mesmo tempo.

Vestimos nossas roupas logo após


nossas respirações terem se acalmado.
Ajeito meu rabo de cavalo e sinto seus
olhos me analisarem a todo instante

enquanto passo o gloss em meus lábios.

— Algum problema? — Pergunto

por cima dos ombros.

— Vai me dar o seu número de

telefone agora ou só quando eu entrar em

você de novo?

Ignoro a pulsação que sinto no


meio de minhas pernas e pego a
bolsinha, passando-a pelo meu ombro.

— Como se isso fosse acontecer


de novo, cara.

— Como é?

Vou até ele dando um beijo em sua

bochecha, ele nem se mexe. Ainda está

paralisado como se estivesse tentando

entender o que acabei de dizer. Sei


exatamente o que é isso. Ele é um
jogador e nunca recebeu um “não” de
alguma garota.

Tem uma primeira vez para tudo.

Mal consigo ouvir sua resposta


quando atravesso a porta do quarto o

deixando boquiaberto enquanto me

observa descendo pelas escadas sem

nem ver o sorriso vitorioso que abro em

meus lábios.
☆♡☆

Capítulo 4

Agora

Fomos recontratadas por Jonan


hoje de manhã. Ele até riscou no seu

caderninho que fui demitida uma vez,


mas nada se compara a folha cheia com
o nome da Triz.

O expediente foi tranquilo, e Triz


estava bem melhor que ontem, mas eu

via como ela olhava para porta

prendendo a respiração sempre que o

sino tilintava. Isso era muito estranho


vindo de Beatrice Nora, ela nunca se

abalou com nada. Ela não agiu da


mesma forma que ontem quando pegou
seu pai traindo a mãe dela com sua tia,
ela apenas me olhou depois de
processar tudo e falou: “Pelo menos ela

é gostosa. Eu pegaria.”

— Por que está me olhando assim?

— Triz pergunta passando por mim

levando a bandeja com as xícaras sujas.

Apenas dou de ombros

continuando a limpar o balcão pela sexta


vez em menos de dez minutos.
— Olha, eu sei que te assustei

ontem, tá? — Ela encosta seus quadris


no balcão e se inclina para me encarar.

Paro o que estou fazendo e a olho de


volta. — Mas não esquenta com isso, B.

— Não dá. Você não é assim. —

Ela revira os olhos. — Só quero poder


te ajudar, mas pra isso vou precisar

saber o que está acontecendo. — Ela


abre a boca para responder, mas o sino
tilinta novamente e sua cabeça vira em
direção a porta. Suspirando aliviada, ela
volta a me encarar, mas desvia o olhar

assim que percebe o olhar que direciono


a ela. — É disso que estou falando.

— B, eu... — Ela puxa o ar com

força, soltando um grunhido antes de me


encarar e soltar: — Transei com aquele

cara. E ele fodeu meu coração. Não


quero que você seja a próxima, ok?
Cruzo os braços e a encaro cética.

— Jura? E quando foi isso? Por

que eu nunca soube da existência dele?

— Foi há muito tempo — Ela


engole em seco — Nós não nos

conhecíamos.

Considerando que ela sempre me

contava com quem transava sem nem

precisar perguntar, isso até que faz


sentido. Um pouco, pois ainda não
explica por que ele me olhou daquela
forma e ignorou completamente a
existência da minha amiga que estava

bem na sua frente.

Posso ser lerda, mas não sou

burra. Triz está me escondendo algo, e

eu vou descobrir. De uma maneira ou de


outra.

Apenas assinto pra sua história, e


continuo a limpar o balcão enquanto ela
volta a servir as mesas. Pego o lixo na

cozinha para levar para os fundos da


lanchonete. Jonan bagunça meu cabelo

quando passo por ele e ri quando


levanto meu dedo do meio. Ele é um

bom chefe, e é praticamente um pai para

mim e Triz. Ele cuida de nós como se

fôssemos sua própria filha. Sei que ele

sente falta dela, Sarah se mudou pra

morar com a mãe e isso o machucou


muito. Mas ele nunca demonstra isso, e

nunca deixou que a saudade interferisse


em sua lanchonete. Pelo contrário, ele

trabalhou cada vez mais, é sua forma de


deixar sua filha orgulhosa quando ela

voltar.

O vento frio me dá boas-vindas


quando atravesso a porta, jogo o lixo na

caçamba e limpo as mãos no avental em


seguida. O cheiro familiar de cigarro me
faz olhar para cima e é o azul de seus
olhos que encontro me analisando
minuciosamente.

Prometa pra mim que quando ver

aqueles caras de novo, você vai fingir

que não os viu e vai ignorá-los

Sei que prometi. E todos que me

conhecem sabem que odeio quebrar

minhas promessas. Mas não vou


conseguir ter um minuto de paz sabendo
que tem algo errado. Eu disse que iria

descobrir o que está acontecendo, e que


maneira melhor de fazer isso do que ir

direto à fonte?

É por isso que nem me dou o

trabalho de pensar duas vezes antes de

me mover, caminhando em sua direção.


Algo em mim diz que estou caminhando

em direção ao meu caçador, e eu sou sua


presa. A outra parte de mim sabe que
isso é a mais pura verdade.
☆♡☆

Capítulo 5

Antes

Eu odeio o mundo da Triz. Odeio


estar de ressaca faltando dez minutos

para a primeira aula.


Amaldiçoei Beatrice Nora mil

vezes apenas nesta manhã, e nem posso


culpá-la de verdade. Ela não me

amarrou e me levou a força para a festa,


então a culpa é toda minha. Mas ter

alguém que não seja eu pra culpar é bem

melhor. E, além do mais, a noite não foi

tão ruim. Ainda conseguia sentir ele

entre minhas pernas, e levei mais tempo

tomando banho do que de costume.


Não curto sexo casual com um

cara, pois em algum momento eu me


apego e me machuco. E, de qualquer

forma, caras como ele conseguem te


substituir com um estalar de dedos. Sei

disso porque já vivi isso antes na minha

antiga cidade. Não quero ser a tola que

cai no mesmo jogo duas vezes.

Felizmente, consigo assistir as


aulas sem cair no sono. O professor
pegou leve, já que é nosso primeiro dia,
e eu nunca estive tão agradecida. Fiz
algumas anotações em minha apostila,

para estudar mais tarde. A aula acaba e


ouço um suspiro de alívio coletivo

vindo de todos da sala. Reconheço

alguns rostos de ontem, então estão tão

mortos quanto eu.

— Como foi a sua aula? — Triz


pergunta assim que nos encontramos nos
corredores. — A minha foi maravilhosa,
sabe por quê? Porque não vi nadinha. Eu
dormi na porra da aula. Me lembre de

trazer ao menos minha almofada amanhã,


estou com câimbra.

Rio anasalada enquanto assinto.

— Não conversamos muito sobre a

festa ontem. Onde você se meteu?

— Não queira nem saber. —


Respondo sem nem precisar encará-la
pra saber que um sorriso malicioso está
se formando em seu rosto oval.

— Ele era bom?

Bom não chega nem perto do que


ele era. Aqueles dedos foram minha

perdição. Mas graças a ele, não consigo

olhar para um espelho sem lembrar de

como seus olhos famintos me encaravam

pelo reflexo.

— Essa sua expressão é de alguém


que transou com um Deus.

Com toda certeza ele não era um

Deus. O que ele fez comigo foi


diabolicamente torturante e maravilhoso.

— Quem é ele?

— Eu não faço ideia.

Triz estaca no chão e eu paro no

meio das escadas a encarando com a

sobrancelha arqueada.

— Calma aí, Cinderela. Você


transou com o cara que te deixou assim
aérea a manhã inteira e simplesmente
saiu sem nem saber o nome dele?

Reviro meus olhos voltando a

andar com Triz me seguindo ainda

resmungando.

— Eu estava tão fodidamente

bêbada ontem que não lembro de como

você estava na volta pra casa. Você


estava com suas botas, não é? Não me
diga que abandonou aquelas lindezas.

— Cresça, Triz. — Ela me dá uma

cotovelada. — Além do mais, ele faz


parte do time. Com certeza, já trepou

com outra pessoa essa manhã.

— Tá, mas e as botas?


Assisto mais aulas e minha cabeça

está praticamente explodindo. Retiro um


comprimido da minha bolsa e o tomo,

engolindo em seco antes de entrar na


cafeteria mais próxima da faculdade.

Deixo uma mensagem para Triz

perguntando se ela quer que eu leve algo

para ela. No mesmo instante, ela retorna

a mensagem, dizendo que a única coisa

que precisa é de sua cama.


Ainda estou rindo de sua

mensagem quando chego no balcão,


peço um cappuccino e escrevo meu

nome no copo. Me inclino para pegar o


dinheiro, mas paro o movimento quando

um braço passa por mim segurando uma

cédula. Olho para seu antebraço, meus

olhos presos na tatuagem que eu nem

havia notado em seu pulso ontem a noite.

O atendente pega a nota, e nem me


viro para encará-lo, apenas giro meus
calcanhares e vou até uma mesa vazia.
Reprimo a vontade de revirar os olhos

quando ele se senta na minha frente. Os


ombros largos em sua jaqueta de couro.

— Fique à vontade. — Digo

ironicamente quando seus dedos


começam a batucar na mesa.

— Oi, pra você também, gata. —


Seu sorriso se abre mais quando arqueio
a sobrancelha. — Como foi a aula?

— Está me seguindo?

Ele aponta com seus dedos largos

para a apostila em cima da mesa como


se fosse sua resposta.

— Você me deixou sozinho ontem.

Não foi legal, eu ainda tinha planos para

nós dois. — Seus olhos azuis não saem

de mim em momento algum. Preciso


beliscar minha coxa debaixo da mesa
para acalmar a sensação que sinto.

— Bom, meus planos não te

envolviam. — Seus olhos se abrem, mas


apesar da ofensa, seu sorriso se alarga

ainda mais.

— Você é má.

Uma garçonete aparece ao lado da

mesa, deixando meu copo na minha

frente e um pratinho com um croissant, e


colocando uma xícara de café preto na
frente dele.

— Eu não pedi isso, — Olhando

para o croissant, volto o meu olhar para


o homem a minha frente. — Esquece.

A garçonete assente, piscando para

ele antes de sair. Sério? Foi difícil

reprimir a vontade de revirar meus

olhos.

— O que está fazendo aqui? Vá


direto ao ponto.
— Já disse, ainda não terminei o

que comecei com você.

Belisco minha coxa novamente.

— É isso? — Ele assente. — Não


vai rolar, cara.

— Pode me chamar de Mason,

Grace. — Seus olhos vão para o copo

do qual havia escrito meu nome minutos

atrás.

— Ok, cara. — Ele sorri. — Não


vai rolar. Isso não funciona comigo.

— Funcionou ontem quando eu

estava dentro de você.

— Minha nossa senhora — A


garçonete que estava nos servindo antes

quase derruba sua bandeja. Ela apressa

os passos se afastando de nós mais uma

vez. Acompanho ela com o olhar, mas

quando o encaro novamente, ele já está


me olhando.
— Conheço caras do seu tipo —

Ele arqueia sua sobrancelha grossa e eu


prossigo: — Você sempre tem tudo

aquilo que quer e, quando escuta um


“não”, você leva como um desafio e

tenta ter aquilo a qualquer custo.

— Esqueceu de dizer a parte que


eu consigo o que quero.

— Não dessa vez, cara.


☆♡☆

Capítulo 6

Agora

Ele sopra a fumaça por entre seus

lábios quando me aproximo dele. Nos


encaramos por cerca de dois minutos
sem dizer uma palavra sequer. Ele
termina de fumar jogando o cigarro no
chão e pisando em cima, sem tirar os

olhos de mim.

— Não se aproxime da minha

amiga.

Ele ergue suas sobrancelhas

grossas, e quase vejo um pouco de


surpresa em seu olhar.
— Não vai ser um problema, gata.

— E nem se aproxime de mim. —

Digo, engolindo em seco.

— Agora, isso é um problema. —


Ele se desencosta da parede e se

aproxima mais de mim. Reprimo a

necessidade de dar um passo para trás,

pois não quero parecer estar com medo.

— O que você fez para ela? —


Solto a pergunta que estava me
corroendo desde ontem. Isso parece ter
o pego desprevenido, não consigo ver o
que se passa em seus olhos. Nem

imaginava que ele iria me responder,


mas quando abre sua boca, sua voz sai

em um sussurro rouco.

— Tirei algo que era importante


para ela. — Ele admite. — Mas fui eu

que perdi tudo.

Curiosamente, a fonte para as


perguntas que rodam a minha cabeça é

tão enigmática quanto elas. Eu estou


mais confusa do que antes. Do que ele

está falando?

Notando meu olhar confuso, ele se

afasta. Apenas um único passo para trás

que me deixou respirar.

— De qualquer forma, — Cruzo os

braços ficando ereta. — Já teve sua vez


com ela, agora fica longe dela.
Sua testa se franze em uma linha,

ele me estuda e quando percebe que não


estou brincando começa a gargalhar. Sua

gargalhada rouca continua enquanto ele


me olha, cessando em seguida.

— O que ela te disse? — Ainda

tem um toque de diversão na sua voz. —


Que trepei com ela? — Ele volta a rir.

— Isso é muito bom, na verdade. Mas


isso não aconteceu, gata.
Permaneço em silêncio. Não o

conheço, não sei se ele está mentindo.


Mas eu conheço a Beatrice, e sei que ela

estava mentindo pra mim.

— O que ela disse pra você?

Sei que não deveria, mas ainda

falo:

— Pra ficar longe de você.

Seus olhos fixam em mim, e seu


sorriso se abre lentamente.
— E por que está aqui agora?

Troco o peso dos meus pés e

abraço meu próprio corpo. Pela


primeira vez desde que o vi, começo a

me sentir indefesa.

— Preciso de respostas. — Ele

assente e eu continuo: — Quem é você?

Ele bufa soprando o ar enquanto

nega com a cabeça, passando a mão pelo


seu cabelo e deixando os fios
bagunçados.

— Essa não é a pergunta certa,

gata.

— E qual é? — Minha dúvida sai


em um sopro. Me sinto perdida, e a

maneira como ele está me olhando agora

só me deixa cada vez mais inquieta.

Ele não me responde. Suas mãos

se fecham em um punho, e sem mais nem


menos, ele me dá as costas andando até
a saída do beco.

— Ei — Ele para apenas me

encarando por cima dos ombros. —


Qual o seu nome?

Vejo um pequeno sorriso se abrir

em seus lábios, mas seus olhos apenas

demonstram um vazio que não consigo

entender.

— Isso importa?

Ele volta a andar sem esperar pela


minha resposta. Ele não ficou pra ouvir

o meu “sim”.
☆♡☆

Capítulo 7

Antes

Ela está certa. A loirinha acertou


na mosca. Eu odeio ouvir um não, e

odeio mais ainda ser dispensado. E ela


fez isso duas vezes.

Ainda não sei qual é a dela. Não

quero soar como um filho da puta, mas

não é difícil encontrar alguém pra uma

boa trepada e, em todas as vezes, sou eu


que dispenso. E só o fato de ter sido

diferente, já me despertou algo. Gosto


de desafios, e ela é um dos bons.
— O que está acontecendo com

você? — Noah pergunta passando por


mim, parando na porta do vestiário para

me esperar.

Pego meu capacete e o taco,

seguindo em sua direção, quando saímos

do vestiário, pergunto: — Conhece


alguma Grace?

Noah me encara franzindo a testa


enquanto pensa.
— Qual o sobrenome? — Dou de

ombros. Já foi complicado descobrir o


nome dela, fiquei horas no site da

faculdade olhando a página dos alunos


procurando por ela e nada. Ou ela é uma

aluna nova, ou é um delírio meu. E estou

torcendo pra loirinha não ser só um

delírio de alguma coisa que fumei,

porque a garota sabe rebolar pra cacete.

Meu pau sentiu muita falta dela esta


manhã.

— Sem sobrenome, impossível de

lembrar. Mas quem é a gata?

Dou uma cotovelada nele antes de


entrar no rinque, falando por cima dos

ombros enquanto deslizo no gelo.

— Você não pode chamar ela de

gata. É a minha gata.

Meu melhor amigo ri passando o


capacete pelos fios castanhos claro,
deslizando no gelo logo em seguida e se

aproximando de mim.

— Ela sabe disso?

— Vai saber, logo. — Respondo


antes de Noah me devolver a

cotovelada.

Corremos no gelo e começamos a

nos aquecer. A temporada deu início

mais uma vez, fomos campeões por três


anos seguidos e precisamos dar o nosso
máximo pra ter nossa quarta vitória
consecutiva antes da formatura.

Somos bons. Mas eu sou melhor.

— Porra, ela é gostosa. Olha isso

aqui, Mason.

Reviro meus olhos enquanto ando


pelo vestiário indo até o meu armário,

ignorando Hunter, que agora tem como


hobbie ser stalker de alguém. Todo dia é

uma foto de uma bunda diferente. Não


que eu não goste, na verdade, adoro,

mas não curto esse lance de ficar horas

vendo fotos. É muito melhor ir direto a

fonte e fodê-la.

— O nosso capitão foi fisgado. —


Noah solta fazendo todo mundo parar o
que estava fazendo para me encarar.
Visto minhas roupas tranquilamente
enquanto sinto os olhos de quinze caras

em mim. Passo minha jaqueta sobre os


ombros antes de pegar meu maço de

cigarro e guardar no bolso da minha

calça.

— Que foi, porra?

— O que foi que eu perdi? —


Hunter pergunta em nome de todos que
me encaram. Há um misto de diversão e

surpresa em seus olhos. Bando de filhos


da puta.

— Por favor, não me diga que é a

Stacy. Ela é gostosa, mas parece um

esquilo quando fala. — Ryle se

manifesta e todos assentem. Nem


consigo deixar de rir, porque Stacy tem

mesmo uma voz peculiar, e era meio


difícil transar ouvindo seus gemidos.
— Não é a Stacy. — Respondo,

recebendo um suspiro coletivo.

— Então tem realmente alguém?


— Hunter pergunta arqueando a

sobrancelha. Abro minha boca pronto

pra mandá-lo se foder, mas é a voz do

treinador que soa da porta do vestiário.

— As Marias-fofoqueiras querem

um chá ou querem cair fora do meu


vestiário?
Isso foi o suficiente para todos

pegarem as suas coisas e se dissiparem


desocupando o espaço. Caminho com

Noah até meu carro, já que o dele está


no conserto graças a uma fã maluca que

destruiu o seu carro com uma chave de

fenda e um martelo.

— Como a Grace é? — Ele

pergunta de repente por cima da música


alta que soa no rádio do meu carro.
— Loira, olhos castanhos, boca

deliciosamente incrível. — Noah ri


anasalado. — Sei lá, ela me deu um pé

na bunda, cara.

— Sério? — Pergunta descrente

enquanto confirmo com a cabeça. — E é

por isso que está atrás dela?

— Você está falando como se eu

fosse a porra de um perseguidor.

— Não sou eu que está atrás da


garota.
☆♡☆

Capítulo 8

Agora

Ela não se lembra de mim.

Soco.
É impressionante! Ela não se

lembra de mim.

Soco.

Ela se lembra da porra da melhor


amiga que agora me odeia, mas não se

lembra de mim.

Soco.

— Vai com calma, cacete. Acho

que o saco começou a chorar. — O


ignoro e continuo socando, cada vez
com mais força. É melhor socar isso ou

a cara de alguém. Noah vem até mim,


segurando o saco de boxe enquanto eu

continuo socando. — Você a viu de


novo. — Não é uma pergunta. Ele é meu

amigo há bastante tempo e sabe o quanto

isso tudo mexeu comigo. — Como ela

está?

— Ela ainda não sabe quem sou


eu. — Afundo meu punho no saco. Noah
volta a segurar com mais força.

— Dê um tempo a ela. O médico

disse que levaria tempo.

Dou um último soco antes de


encará-lo.

— Quanto tempo, porra? Ela já

está vivendo a vida dela como se nada

tivesse acontecido. Sou só um estranho.

— Eu sei, merda. Eu sei. — Ele


faz uma pausa indo até a cadeira
metálica onde deixei minha garrafa de

água. Ele a pega e joga pra mim. —


Sabe quando perco algo e, — O

interrompo.

— Pela milésima vez, eu não

peguei a porra do seu brinquedo.

— Vai deixar eu terminar, seu

babaca? — Seus olhos castanhos se

semicerram esperando que eu assinta.


Quando meneio com a cabeça, ele
prossegue: — Primeiro, Lego não é um

brinquedo. É um hobbie que precisa de


muita técnica, por sinal.

— Se você diz. — Dou de ombros

e abro a garrafa dando um longo gole.

— Continuando, sabe quando

perco algo e refaço meus passos pra

saber por onde andei antes de perder

essa coisa até encontrar?

— Não posso simplesmente


refazer os passos e achar a memória da
Grace.

— Eu sei que não pode. Mas não


estou falando disso.

— Prossiga, Sherlock.

— Porra, eu odeio esse

sobrenome, mas tem horas que ele

combina com minha mente brilhante.

Noah Harry Sherlock sofreu muito


bullying na escola. Mas a mãe dele
praticamente pediu pra isso acontecer.

Eu até me sinto feliz quando ele se sente


orgulhoso pelo sobrenome que carrega,

pois é bem melhor do que o ver puto.

Conheço esse cara desde o berço,

literalmente. Nossas mães são melhores

amigas, daquelas que passam horas


fofocando no celular e deixam o bolo

queimar no forno quando se empolgam


com o assunto da conversa.
Crescemos juntos, jogamos juntos,

estudamos juntos e agora dividimos um


apartamento. Sou praticamente casado

com essa porra.

— Você conhece a garota, sabe

tudo sobre ela, certo?

— Errado. Eu a conhecia e sabia

tudo sobre ela. — Pego um cigarro e um

isqueiro ignorando quando Noah enruga


o nariz. Ele odeia que eu fume, mas é o
único modo de deixar a inquietude de

lado. — Eu conhecia a velha Grace.

— Não. Você está errado. Não


existe a velha ou a nova Grace. Sempre

foi e sempre vai ser a mesma pessoa.

Você que é cego e não vê isso, Seth.

Sopro a fumaça o encarando. Ele é

o único que me chama de Seth, os outros

só me chamam de Mason. Bem, ele é o


único agora, já que antes Grace também
me chamava assim. Agora não mais. E

preciso engolir meu orgulho quando


admito que sinto falta dela pra caralho.

— O que quer que eu faça? —

Suspiro o encarando.

— Que faça esse inferno se

transformar no paraíso que era antes.

Faça a Grace se apaixonar por você de

novo.
☆♡☆
Capítulo 9

Antes

— Espera, — Triz me encara

ainda assimilando tudo. — Você molhou

o biscoito de quem?

— Oh, meu Deus!


Ela bufa.

— Transou com quem, porra?

Apenas a ignoro, me levantando e

indo até minha prateleira para pegar o


próximo livro, já que o anterior eu

devorei em uma noite, enquanto tentava

me distrair do curto reencontro com

Mason.

— Ele disse que se chamava


Mason.
Triz esbarra em mim, indo a

passos largos até a sua bolsa e tirando


seu celular de lá.

— Alô? — Ela faz uma pausa.

Encaro tudo com a sobrancelha erguida.

Já vi Triz usar o celular para mandar

mensagens e tirar fotos. Mas ligações?


Nunca. — Sim. Eu queria agendar uma

consulta no ginecologista, por favor.


Para Grace Ba... — Corro até ela e pego
seu celular, o arremessando em cima da
minha cama.

— Você está maluca?

Ela me encara como se eu fosse a


maluca aqui. Mas que porra é essa?

— Precisamos saber se você não

contraiu alguma doença. Arrisco dizer

que ele transou com o campus inteiro.

Sento-me em minha cama, soltando


um longo e dramático suspiro.
— Eu não sabia quem era ele. —

Digo pela milésima vez. — Nem mesmo


quando ele disse o nome dele, eu não

sabia. De qualquer forma, usamos


camisinha, mamãe.

Continuo lendo sem encará-la. Não

quero ver o julgamento em seus olhos.


Sou nova aqui e não conheço ninguém.

Isso inclui os jogadores do time. Não


que eu me sinta culpada, o que
aconteceu entre Mason e eu foi algo
inexplicavelmente bom. Mas não menti
quando disse que não voltaria a se

repetir. Basta uma única vez e pronto.


Além do mais, ele é um jogador, e sabe

muito bem que tem o campus inteiro a

sua total disposição.

— Ele é bom?

Tiro os olhos das páginas e a


encaro. Seus olhos escuros, piscando
com curiosidade, não desviam dos meus.

— Como que você passa de acusá-

lo de me transmitir uma doença para


querer saber se ele é bom tão rápido?

Triz apenas encolhe os ombros,

enquanto se joga de costas em sua cama,

ainda olhando para mim.

— Responde, vadia.

Gargalho antes de responder: —


Não é surpresa se eu disser que ele é
bom.

— Sortuda do caralho.

É claro que ele estaria encostado

na parede próxima a minha sala assim

que a aula terminasse. Porque,

obviamente, Mason não tem mais nada


pra fazer além de me perseguir.

— Como foi a aula, gata?

Passo por ele revirando os olhos,

mas isso só faz com que ele ande mais


rápido, até estar do meu lado.

— Você não vai parar de me

perseguir tão cedo, não é?

Mason leva a mão até o peito por

cima da jaqueta de couro, como se


estivesse ofendido. Mas, pelos olhos
brilhando com diversão e o sorriso que

ele abre, sei que ele não está nem um


pouco ofendido.

— Você pergunta como se não

soubesse a resposta.

Paro de andar, me colocando em

sua frente e obrigando-o a parar

também. Mason é alto, então preciso

erguer um pouco a cabeça para encará-


lo. Tento não me perder dentro do
oceano que são seus olhos.

— Eu já li sobre caras como você.

— Existem histórias sobre mim?

— Ele arqueia a sobrancelha.

— O típico jogador de hóquei que

fode com todos do campus e, quando

aparece a única garota que lhe diz

“não”, ela se torna um desafio. Depois

eles se apaixonam e blá-blá-blá.

— Tem só uma diferença, amor. —


Apenas o encaro com a melhor

expressão de tédio que consigo fazer. —


Eu não me apaixono.

— E eu não sou seu desafio.

Mason sorri se aproximando de

mim e preciso erguer a cabeça mais um

pouco, ignorando o fato de que nossos

lábios estão quase se tocando.

— Sim, você é.

Sem aviso, ele se estica o


suficiente para roçar nossos lábios e me

dar um selinho antes de se afastar,


passar por mim e ir em direção as portas

enquanto atrai vários olhares para si.

Sinto minhas bochechas

esquentando enquanto penso na

possibilidade de mais alguém ter visto


nosso pequeno showzinho.

— Você é maluca. — O dono da


voz se posiciona ao meu lado. Eu
continuo andando sem encará-lo. —

Linda, mas maluca.

O olho de esguelha. É impossível


não notar os olhos acinzentados e as

mechas rosas em seu cabelo, que é tão

escuro quanto o de Mason. Meu olhar é

atraído para suas meias que estão bem


visíveis mostrando o Bob Esponja em

uma, e seu amigo Patrick na outra.

— Sou Jef — Ele estende a mão.


Paro de andar só para segurar a sua mão

antes de voltar a me mover.

— Grace.

— Você sabe quem era aquele


cara, né? — Passamos pelas portas e Jef

continua: — Claro que sabe. Você deu

um fora nele. Você é só maluca mesmo.

Eu queria que o Mason gostasse de

pirulito, de vez em quando, sabe?

Engasgo com minha própria saliva


e depois gargalho, sendo acompanhada
por ele.

— Qual é a dele?

Jef pensa enquanto andamos pelo


gramado. Nem sei ao certo para onde

estamos indo, mas Jef parece ser um

cara legal.

— Como descrever o Mason? —

Ele pergunta a si mesmo. — Ele é o


capitão do time de hóquei , mas isso
você sabe. — Assinto. — E, por isso,
ele é bem cobiçado por aqui. Dizem que
ele é um Deus no quesito sexo, mas

prefiro ver com meus próprios olhos


antes de acreditar.

Dou risada mais uma vez.

— E é por isso que estou achando

que você é maluca. Normalmente, o

Mason nunca está desse lado da história


– o que leva o fora -, na verdade, acho
que ele nunca esteve.

Jef me dá um leve empurrãozinho

enquanto levanta suas sobrancelhas


várias vezes.

— E qual é a sua?

Apenas encolho meus ombros

enquanto ele se senta no gramado. Faço

o mesmo antes de responder.

— Só não quero ser o


brinquedinho sexual dele. — Digo —
Isso não é pra mim. Quero me

concentrar nos meus estudos e talvez, no


futuro, conhecer outros caras.

Ele balança a cabeça apertando os

próprios lábios com os dentes.

— Você não faz ideia do que ele

fez naquele corredor, não é?

O encaro confusa, o que é uma

resposta para Jef.

Mason fez alguma coisa além de


me importunar e invadir o meu espaço

pessoal?

— Grace... Ele te deu um selinho


na frente de todos. Sei que não é nada

extraordinário, mas ele meio que...

marcou um território, entende?

— Como é?

— Ele nunca fez isso com

ninguém. Mas fez com você. Para todos


aqui, você é dele agora, e nenhum cara
vai querer enfrentar o Mason.
☆♡☆

Capítulo 10

Agora

Não o vi mais. Já faz uma semana

desde que conversamos no beco atrás da


lanchonete de Jonan. Não contei nada
para Triz, porque algo me diz que ela
inventaria mais alguma desculpa. Ainda
tentei tirar informações dela, mas tudo o

que ela respondia era para deixar isso

quieto, e logo mudava de assunto.

Me sinto como um cego em um


tiroteio.

O sino tilinta mais uma vez,


atraindo minha atenção, mas é só mais
um cliente que vem aqui com frequência.

Anoto o seu pedido e, quando vou até o


balcão, vejo um cabelo castanho

familiar atravessando a rua oposta da


lanchonete.

Lembro dele. Ele estava sentado

aqui naquele dia, junto com ele.

— Hum... Será que pode me cobrir

rapidinho? — Pergunto a Kym, uma das


garçonetes que trabalha conosco nos fins
de semana.

— Claro, Grace.

Sorrio em agradecimento,

deixando o avental e o bloquinho em


cima do balcão antes de sair a passos

largos para evitar que Triz me veja. Não

posso deixar que ela me pare. Não

agora.

Corro em direção à rua que o vi


andar. Estava prestes a desistir quando o
encontrei mais uma vez. Grito chamando
sua atenção e ele para no mesmo
instante, olhando por cima dos ombros.

Há um misto de emoções em seus olhos


castanhos que não sei distinguir.

— Oi? — Ele diz, parecendo

incerto.

— Eu... — O que eu vim fazer aqui

mesmo? — Hum, preciso saber onde


está seu amigo.
Seus olhos me analisam em

silêncio. Ele leva as mãos para dentro


do bolso e só agora me lembro que

deixei minha jaqueta na lanchonete.


Estou quase congelando aqui fora.

Ele nota quando estremeço, tirando

a sua própria jaqueta e me oferecendo,


mas eu recuso.

— Aceita. Minha mãe me mataria


se descobrisse que deixei uma garota
morrer de frio.

Deixo um sorriso escapar quando

pego sua jaqueta. Ele estava usando um


suéter por baixo, então não parece sentir

falta da jaqueta.

— O que você quer com ele? — O

estranho volta a andar. Sem nem

controlar meus próprios pés, eu o sigo.

— Sinceramente, não sei. —


Respondo, e isso o faz me encarar com
as sobrancelhas erguidas.

— Noah.

— O quê?

— Meu nome. — Responde ele. —


Noah Sherlock.

Engulo uma risada. Noah revira os

olhos parecendo entediado. Ainda

assim, ele sorri.

— Eu sei, eu sei. Já ouvi muitas

piadinhas, pode rir.


Assim o faço. Quando minha

risada cessa, digo:

— Grace. Grace Lorey.

— Eu sei. — Diz ele. — Estava no


seu crachá.

Maneio com a cabeça.

— Sobre o seu amigo...

— Estou indo até ele, se quiser


vir... — Seu tom de voz é carregado com

uma sugestão.
Olho por cima dos meus ombros,

mas já não consigo enxergar a


lanchonete daqui. Talvez esteja sendo

uma maluca por seguir alguém que mal


conheço, de quem a minha melhor amiga

não quer que eu me aproxime. Por outro

lado, há uma voz no fundo da minha

mente dizendo que preciso fazer isso.

Seguir essa voz vai me trazer

consequências? Com certeza, mas sei


que vou me arrepender se não fizer isso.

Por isso, aceno para Noah, que me guia


pelo caminho até onde nós precisamos

ir.

— Ele está aqui? — Pergunto,


encarando a Galeria de Artes na minha
frente. Eu meio que estava esperando um

pub ou um estúdio de tatuagens. Isso não


parece ter a ver com o cara que conheci.

— Não fale como se estivesse

desapontada. — Noah ri enquanto abre a

porta para mim. Passo por ela e nem

consigo manter a boca fechada, já que


sou recebida por vários quadros

pintados a óleo magníficos. Não entendo


nada sobre pinturas, mas sei reconhecer
quando algo é belo.

Noah anda pelo piso branco, já

familiarizado com o lugar, enquanto eu


analiso tudo minunciosamente. Um rock

soa baixinho pelo lugar e quase sinto

vontade de rir, porque isso sim tem a ver

com ele.

Entramos em uma nova sala, que

parece ser o lugar onde as pinturas são


criadas. Há telas inacabadas por todos
os lugares, cavaletes espalhados e

algumas manchas de tinta no chão.

Meus pés param quando o vejo


bem ali. Sentado na frente de um

cavalete enquanto pinta alguma coisa.

Ele está em uma bolha, e nem parece

notar que tem companhia.

Mesmo de costas pra mim, vejo

seus pés batendo no ritmo da música e


seus braços se movendo enquanto
seguram o pincel como se fosse a coisa

mais preciosa e delicada do mundo.

Achei que tinha sido hipnotizada


por seus olhos, mas aquilo não chega

nem perto de como me sinto agora, e

nem sequer estou vendo seu rosto.

Quando a música termina, ele

apoia o pincel no suporte, admirando a

própria pintura e soltando um suspiro


que soou entristecido demais. Somente
quando Noah coça a garganta que ele

olha por cima dos ombros, encarando o


amigo com a sobrancelha erguida.

Quando me nota ali, sua expressão muda


completamente.

Ele me olha como se eu fosse uma

miragem, assustado demais. Pisca uma,


duas, três vezes antes de abrir a boca e

nada sair. Com toda certeza, ele não


parece o cara do beco.
Não sei quantos minutos se

passaram. Pareceram horas antes de seu


rosto deixar a surpresa de lado e me

olhar como me olhou da primeira vez.

Voltamos ao jogo.

Ele é o caçador. Eu sou sua presa.

Desvio meus olhos sem saber o

que fazer. Estou mentalmente me

xingando por ter ouvido minha cabeça


tola.
Burra. Burra. Burra. Burra.

Meus olhos param na tela que ele

pintava e admirava com tanta tristeza.


Nem sei como consigo respirar ao me

deparar com a imagem na tela.

Sou eu naquele quadro. Uma Grace

sorridente que tem um livro em mãos,

com óculos de leitura enquanto encara

as páginas. Ele me retratou lendo.


Retratou um momento que nunca cheguei
a viver.
☆♡☆

Capítulo 11

Antes

Vou matá-lo. Foi a primeira coisa


que pensei depois que Jef falou sobre a

história ridícula de eu ser a propriedade


de Mason. Eu continuei pensando nisso
quando perguntei onde ele estava para
qualquer pessoa que passasse na minha

frente e continuei pensando nisso quando


voltei para o mesmo lugar onde nos

conhecemos.

Agora, na luz do dia e sem


adolescentes vomitando no jardim, a

casa é realmente linda, mas nem paro


para admirar muito quando me coloco
em frente a porta e praticamente a
esmurro.

A porta se abre em um baque e sou


recebida por um abdômen bem definido.

Subo meus olhos encarando íris

esverdeadas que me analisam.

— Cara, acho que a sua garota está

aqui. E parece furiosa. — Ele diz sem

deixar de me encarar.

Ouço a risada de Mason e, sem me


importar, passo pelo babaca da porta e
invado a casa seguindo o som da risada
irritante. Não foi difícil encontrá-lo

sentado na poltrona enquanto segura uma


garrafa de cerveja com a mão.

Quatro pares de olhos me encaram,

inclusive os dele e do cara que abriu a


porta pra mim.

— Eu vou matá-lo. — Digo


entredentes, mas só recebo uma revirada
de olhos e um sorriso inconveniente

como resposta.

— Pode ser na cama, gata? Morrer


com você em cima ou embaixo de mim

seria um sonho.

— Você ouviu a parte em que eu

disse que vou matá-lo?

— Você fica por cima então. —

Ele dá de ombros, levando a garrafa até


seus lábios e tomando um gole. —
Asfixia durante o sexo não é meu lance,
mas por você eu topo tudo, amor.

Deus, nunca te pedi nada, mas


agora é um bom momento para que um

raio caia sobre esses fios grossos no

cabelo de Mason e arranque a sua

cabeça.

Sem dó e sem pena.

— Já que ele não vai nos


apresentar, nós fazemos. — Disse o cara
que estava atrás de mim, se colocando
ao meu lado e passando seus braços
pelos meus ombros.

Não sei se foi a arqueada de

sobrancelha que dei ou a forma como

Mason o encarou que o fez se afastar e

levantar as mãos em rendição.

— Eu sou Ryle. — Se apresenta.

— Hunter. — O moreno diz. Eu


apenas retribuo com um maneio de
cabeça, ainda encarando os olhos azuis
que também não me deixam por um
segundo.

— Saiam. — É tudo o que ele diz,

mas Hunter e Ryle saem da sala sem nem

se opor. Quase reviro meus olhos com a

babaquice que é a autoridade que


aparentemente Mason tem.

Ainda há um de seus amigos


deitado no sofá com uma bacia de
pipoca sob sua barriga. Ele pega mais

um punhado de pipoca, totalmente alheio


ao que se passa na sala, enquanto tem os

olhos grudados no jogo de hóquei que


passa na tv de tela plana.

— Noah?

Noah só ergue a sobrancelha e

abana com as mãos.

— Não vou me levantar, babaca.


Eu disse que isso ia dar merda, então
não interfira na minha bunda deitada
confortavelmente aqui e no meu jogo.

Gostei desse Noah. É o único que


não segue as ordens da Vossa Alteza.

Mason só bufa, mas noto que ele

não está chateado. Até admitiria que vi

amor envolvido entre esses dois, mas no

momento só quero socar a cara dele.

— Que merda foi aquela que fez


no corredor? Marcou território? —
Repito as mesmas palavras que Jef
disse. — Eu não sou um hidrante, muito
menos um objeto que você pode usar a

qualquer hora.

— Está bem. — Ele diz dando de

ombros.

— O quê?

— Você não é um objeto, amor.

Não quero te usar a qualquer hora. —


Ele cruza os braços sem deixar de me
encarar. — Quero transar com você a
qualquer hora, mas isso é totalmente
diferente.

— Não vai rolar, cara.

— Você sabe meu nome. Por que

insiste em me chamar de cara?

— Oh, você prefere princesa?

Noah ri sem tirar os olhos da

televisão.

— Você está tão fodido, Seth. —


Ele diz lançando um curto olhar pra
Mason antes de voltar a encarar seu
jogo.

Seth?

— Quem é Seth? — Pergunto sem

pensar em ficar quieta.

— Só os íntimos me chamam de

Seth. — Diz o Seth.

— O cara que está obcecado por


você. — Responde Noah ao mesmo
tempo.

Isso só pode ser piada.

Eu tinha uma noção de que era boa

no que fazia no sexo, mas não sabia que


era tão boa assim. Eu deveria me sentir

lisonjeada? Porque definitivamente não

estou.

Por mais que boa parte de mim

ainda o queira, principalmente a região


no meio de minhas pernas, eu não posso.
Vou acabar me machucando feio, e só
quero me concentrar nos meus estudos.
Nada além disso.

O próprio Mason disse que eu era

um desafio para ele. Ou melhor, o

próprio Seth Mason confirmou que eu

sou só um mero desafio.

Mas, se ele está tão empenhado

assim, o desafio poderia ser maior,


certo? E, quanto mais tempo leva, mais
perto ele fica de desistir e enfiar seu pau

em outro lugar, consequentemente me


deixando em paz.

— Tudo bem. — Digo por fim, não

só atraindo a atenção de Mason, como

também a de Noah. — Transo com você

mais uma vez.

— Algo me diz que você está

planejando alguma coisa. — Mason diz.

— Com apenas uma condição,


Seth — Um brilho repentino aparece em
seus olhos azuis, mas logo se dissipa.

— Pode dizer, gata.

— Quero um encontro. Um
encontro digno de um livro de romance.

Noah, que estava sentado no sofá,

até então calado, começa a gargalhar

alto o suficiente pro quarteirão inteiro

ouvir.

— Porra, você está


definitivamente fodido.

— Por mim, tudo bem — Seth dá

de ombros — Vamos transar no fim da


noite, né?

Algo me diz que Seth só pensa com

a cabeça de baixo. Apesar da resposta

ser óbvia, nego enquanto Noah gargalha

ainda mais.

— Isso é melhor que o jogo,


caralho.
— Que tipo de encontros são

esses?

— Você me leva pra jantar em um


lugar legal. Conversamos e nos

conhecemos. Simples.

— Conversar? — Ele faz careta.

— Nunca teve um encontro, Seth?

Seus lábios se apertam em uma

linha fina. Preciso morder minha


bochecha quando me dou conta de que o
capitão do time de hóquei , mulherengo

e safado nunca teve um encontro na vida.

Apesar de não demonstrar reação


com a notícia, é a gargalhada de Noah

que preenche a sala pela terceira vez.


☆♡☆

Capítulo 12

Agora

Abro a minha boca, mas nenhum

som sai dela. Continuo olhando para o


retrato bem pintado. Os fios do meu
cabelo estão mais longos na pintura, e
minhas unhas mais compridas.

— Isso é... — Ainda não consigo


dizer nada. Os dois estão me olhando

atentamente esperando uma reação

minha, mas tudo que sei fazer é

permanecer em pé de boca aberta.

Sei que deveria me preocupar em

ter um estranho fazendo uma pintura


minha depois de ter me visto apenas uma
única vez. Sei muito bem que deveria

dar as costas, correr para longe e nunca


mais voltar. Espero pela sensação

estranha que me manda fugir, espero o


frio na barriga e o desconforto. Mas não

sinto nada. Nada de ruim.

— É lindo. — Finalmente digo


algo, fazendo os dois me olharem como

se eu tivesse os insultado.

— Hum... Não quer nos matar? Ou


melhor, matar ele? — Noah pergunta

apontando para seu amigo, o qual ainda


me encara calado. Seus olhos azuis não

desviam dos meus.

— Não.

O azulado de seus olhos piscam, e

o vejo engolir em seco antes de começar

a vir em minha direção. Não me movo,

esperando paralisada até meu caçador


ficar de frente para mim. Ergo um pouco
meu rosto, ignorando o que sinto quando

olho em seus olhos.

Vejo seus lábios se moverem


abrindo um sorriso e os olhos cintilando

diabolicamente em diversão. É agora

que eu deveria correr, mas não o faço.

— O que faz aqui?

É uma boa pergunta. Realmente

muito boa. Sua sobrancelha se ergue


para cima enquanto espera pela
resposta, mas o único som que ecoa é a
nova música que começa.

— Você não me disse o seu nome.


— Minha voz sai em seu tom normal.

Quase faço uma dancinha vitoriosa por

finalmente não parecer uma criança

indefesa.

— Veio aqui pelo meu nome? —

Consigo perceber a forma como ele


fecha seus lábios para não rir. — Devo
me sentir especial, gata?

Dou um passo para trás, para que

eu possa respirar, mas ele claramente


não se importa, já que dá dois passos

pra frente, ficando ainda mais perto de

mim do que antes.

Cruzo meus braços e ergo ainda

mais a cabeça.

Se ele quer jogar esse jogo de


Caça e Caçador, tudo bem. Mas cansei
de ser sua presa.

— Quero o seu nome. E quero

respostas.

— Não posso te dar respostas


quando nem você sabe o que perguntar

— Ele pontua, e me odeio por ter que

concordar com ele.

— Seu nome, então. — Dou de

ombros, com minha voz ainda saindo


firme.
— Mason. — Ele responde. —

Seth Mason.

Seth.

É um nome bem difícil de


esquecer, mas ainda assim sinto que já o

ouvi antes e esqueci.

— Ok. Seth. — Seus lábios se

abrem em um sorriso que nem tenta

esconder. — Me ajude a descobrir o que


preciso saber.
Ele tomba a cabeça para o lado

sem tirar os olhos de mim, suspirando


enquanto esconde suas mãos dentro do

bolso da jaqueta de couro.

— O que eu ganho em troca?

É claro que ele iria querer algo em

troca. Eu não deveria estar surpresa,

mas estou. Principalmente porque não

sei nem por onde começar ou o que devo


fazer. A única coisa que sei, com toda a
certeza do mundo, é que Seth tem as

respostas, independentes das perguntas.


Assim como Triz, mas sei que ela não

vai me dar nada além de desculpas.


Então, Seth Mason se torna minha única

escolha.

— O que você quer?

— Já disse o que eu quero. — Ele

dá de ombros. Sinto um frio na barriga


que diz que eu não deveria perguntar,
mas apenas aceno com a cabeça,

pedindo que continue. — Você.

— Fala sério, cara. — Exclamo


parecendo entediada, mas por dentro a

euforia está me corroendo.

Seth se aproxima ainda mais de

mim, e se eu erguer mais a cabeça

nossos lábios irão se tocar sem que

nenhum de nós precise se mover.

— Quero você, Grace.


☆♡☆
Capítulo 13

Antes

É sábado. Ao contrário dos

universitários normais que estão saindo

para festas, baladas ou raves, estou

deitada em um pijama velho e apertado


demais para caber em meu corpo, ao
qual sou tão apegada que me recuso a

jogá-lo fora.

Encaro novamente a página do


livro que estou relendo, já que li todos

os que trouxe e não posso comprar

novos. Odeio que livros custem tão

caro. Eles deveriam ser de graça.


Deveriam ser distribuídos para todos.

Não deveriam ser considerados um


privilégio.
Suspiro secando as lágrimas que

derramo, e agradecendo por Triz não


estar aqui. Se ela já me enche o saco

sobre ler, não quero nem ver o que ela


vai fazer quando souber que eu choro

pelos livros que leio.

Uma batida soa na porta, me


fazendo praguejar. Triz sempre esquece

a chave. Eu já disse a ela que vou deixá-


la para fora. Quem sabe assim ela se
lembra de pegar a chave do quarto com
a mesma frequência que lembra de pegar
camisinhas.

Mas não é Triz que está na porta.

— O que você está fazendo aqui?

— Pergunto a ele, que passa por mim,

invadindo o quarto sem nem pedir

licença.

— Vim te buscar para um encontro,


ué.
— Regra número um dos

encontros, — Digo enquanto ele olha os


pôsteres nas paredes e os livros em

cima da escrivaninha de madeira. —


Você tem que marcar primeiro.

— Me entrega o manual depois,

amor. — Ele finalmente para de


bisbilhotar e me encara. Seus olhos se

semicerram quando me olham. — Estava


chorando?
Ah, merda. Livro do caralho!

— Não. — Digo rápido demais,

parecendo tão culpada quanto um réu em


tribunal. Seth se aproxima de mim

levantando meu queixo com sua mão

calejada, me fazendo encará-lo.

— Diz quem foi que eu arrebento o

babaca.

Quase sinto vontade de rir. Me


afasto de seu toque, indo até minha
cama, pegando o livro em cima dela e o
estendendo para que ele leia o título.

— Estava chorando por causa de


um livro? — Não há julgamento em sua

voz, só curiosidade. — Alguém morreu?

— Declaração de amor. — Pontuo.

Seth responde puxando o livro de

minhas mãos. — O que está fazendo?

— Lendo, amor. Agora vá se


arrumar. — Ele me dispensa tirando os
sapatos e se jogando em cima da minha
cama. Continuo o encarando com as
sobrancelhas erguidas enquanto Seth

inicia a leitura. — Vá se arrumar. — Ele


repete, me fazendo dar as costas e ir

fazer exatamente o que pediu.


Saio do banheiro já pronta. Meu

cabelo merecia uma pausa do elástico,


então o deixei solto. Já que eu não tinha

ideia de aonde nós íamos, optei por uma


calça preta e um cropped vermelho. Não

ligo muito para maquiagem, então não

passei nada além de rímel e meu velho

amigo gloss labial.

Ainda estou surpresa quando


encontro Seth na mesma posição,
encostado em minha cabeceira,
folheando o meu livro. Seus olhos se
erguem por cima das páginas, olhando

para o meu corpo lentamente de cima a


baixo. Quando enfim encara meu rosto,

ele abre um sorriso malicioso.

— Gostosa pra caralho.

Viro-me para que ele não veja

minhas bochechas vermelhas, mas


escuto o riso anasalado que sai de seus
lábios. Pego meus tênis e me sento na

cadeira giratória da escrivaninha


sentindo seus olhos em mim, mas quando

o encaro, ele está olhando para o livro


em suas mãos.

Vejo o exato momento que a

luxúria toma conta de seu rosto, e não


precisei de muito tempo para saber em

que parte do livro ele está.

— Escuta só... — Ele começa. —


“O primeiro toque da língua de Rhys

me incendiou. Quero que esteja deitada


na mesa como meu banquete pessoal.

Rhys grunhiu em aprovação diante de


meu gemido, meu gosto, e se libertou

completamente sobre mim.”[1]

— Oh meu Deus, para! — Isso só

o faz rir. E, quando me aproximo dele,

ele se levanta, se colocando do outro


lado da cama.
— Calma que só melhora. — Ele

lê silenciosamente antes de prosseguir.


— “Seu tamanho considerável se

libertou. Minha boca secou ao ver


aquilo. Eu o queria, queria cada

glorioso centímetro de Rhys dentro de

mim, queria agarrá-lo até que nossas

almas se unissem.”

Pulo na cama me jogando em cima


dele, que me segura sem esforço algum.
Circulo seu quadril com as pernas por
reflexo, enquanto ele move uma de suas
mãos para minha bunda.

Puxo meu livro de volta o

fechando, ignorando o olhar

descontraído e malicioso que Seth lança

em minha direção.

— Agora me solta. — Digo,

ignorando o aperto em meu ventre.

— Eu quero muito cancelar a porra


do encontro e te foder em uma mesa
cheia de tinta até as montanhas
tremerem. — Engulo em seco quando

seus olhos azuis dilatam. Seth se senta


comigo em seu colo e as mãos

segurando minha cintura, me

impossibilitando de levantar.

Sinto a pressão que vem da sua

calça jeans, e preciso reprimir o suspiro


que tenta escapar dos meus lábios.
Ele se aproxima roçando nossos

lábios, perto o suficiente para me beijar,


mas ele não o faz. Em seguida, ele

arrasta a sua boca até meu ouvido,


dando uma mordiscada no lóbulo, me

fazendo soltar o suspiro que eu reprimia.

— Vou te levar para um encontro,


digno de um romance, — Ele roça os

lábios na curva do meu pescoço antes de


voltar a falar. — Mas assim que você
permitir, vou te foder de todas as
maneiras possíveis. Vou querer ouvir
você gritar meu nome quando meu pau

estiver enterrado em você.

Seth se afasta apenas para me dar

o segundo selinho desde que nos

conhecemos. Se levantando
tranquilamente enquanto eu nem consigo

me manter em pé.

Ele passa por mim, pegando meu


livro novamente e parando no batente da

porta.

— Vou pegar emprestado isso


aqui. — Diz, se referindo ao livro em

suas mãos. — Pra saber o que fazer nos

próximos encontros.

Saio do estupor o encarando.

— Encontros? — Isso quer dizer

que haverá mais de um?

— Não achou que eu só iria sair


com você uma vez, achou? — Aperto

meus lábios desviando de seus olhos.


Ouço o seu riso anasalado antes de

voltar a encará-lo. — Tenho muitos


planos para nós dois.

Ele estica o braço em minha

direção, oferecendo sua mão. Sei que


vou me arrepender amargamente, mas

deixo para xingar a mim mesma em outra


hora. Sem pensar duas vezes, pego
minha bolsa e seguro sua mão, dando
permissão para que me leve para onde
quiser.
☆♡☆ ☆

Capítulo 14

Agora

Foi difícil manter a pose depois de


ouvir sua voz rouca dizer que me queria,

e me odeio por não saber por que estou


agindo assim. Pareço a Grace da época
da pré-escola.

Cruzo meus braços, ainda


encarando seus olhos azuis e mantendo a

expressão de tédio em meu rosto.

— Não vai rolar, cara. — Digo.

Um misto de emoção passa por seus

olhos, mas logo se dissipa. — Eu... Tem

algo de errado acontecendo com a minha


amiga, e sei que você e ele... — Aponto
para o Noah, que está encostado na

parede. Ele aponta pra si mesmo


parecendo ofendido, mas continuo: —

Estão escondendo alguma coisa de mim.


E eu vou descobrir o que é.

Seth e Noah se entreolham em uma

conversa silenciosa. Quando os dois


voltam a olhar para mim, é Noah quem

diz:

— Por que não pergunta pra sua


amiga?

Se ao menos ela me respondesse

com sinceridade.

Reprimo o suspiro cansado e volto


a olhar para o quadro atrás de Seth.

— Por que me pintou?

— Está fugindo das perguntas.

— Você também. — Falo, o


encarando.
Vejo o suspiro escapar por seus

lábios, Seth volta a olhar para o quadro


por cima dos ombros.

— Gosto de vê-la. E não, eu não

sou um psicopata.

— Mas está parecendo. — Noah

diz, recebendo um olhar semicerrado de

Seth. — Qual é, cara? Só disse a

verdade.

Deixo uma risada escapar. Por


algum motivo, não me importo com o
fato de Seth realmente parecer um
psicopata. Algo me diz que ele não é. É

só uma sensação estranha que nem sei


explicar, mas o meu sexto sentido não

está incomodado, ainda.

— Posso levar? — Pergunto me


referindo ao quadro.

— O quê? — Seth pergunta


indignado como se eu tivesse acabado
de chutar suas bolas. — Você quer...

aquilo?

— Hum... Sim? Quer dizer, sim. —


Respondo, mas é pra Noah que Seth

olha. Eu até diria que eles são um casal,

pela frequência exagerada com que

conversam através de olhares, se não


fosse pela forma como Seth me olha.

— Tá. — Ele responde, ainda


parecendo incerto. — A tinta precisa
secar, mas levo pra você ou...

— Eu venho buscar. — Digo

exasperada, pois não faço a mínima


ideia de como Triz vai reagir quando

souber que voltei a vê-lo.

Sei que isso tudo é ridículo. Da

parte dos dois, tanto de Triz quanto de

Seth. Por que eles não me falam logo o

que está acontecendo? Essa palhaçada


só faz com que minha curiosidade
aumente ainda mais.

Pego meu celular no bolso da

calça jeans, vendo pela hora que já


demorei mais tempo do que deveria.

— Coloca o seu número aqui. —

Estendo meu celular. Ele o pega sem

deixar o sorriso parar de crescer e,

depois que digita, me entrega de volta.

Seu celular apita no bolso. Ele o


pega digitando algo, em seguida, é o
toque do meu celular que ecoa pela sala.

[15:34] Seth Mason:

Amanhã às 19h

Na Galeria.

— O que é isso? — Pergunto logo


após tirar os olhos do meu celular.

— O que acha que é, gata? É um


encontro.

— Onde você estava? — Triz

pergunta assim que passo pela porta do

nosso apartamento.

Ergo meu braço segurando as

sacolas de mercado em resposta.


Passando por ela e colocando as coisas
na mesa da cozinha.

— Fiquei preocupada. Não vi


você saindo da lanchonete e nem estava

aqui quando cheguei, achei que... — Ela

para de falar, me fazendo parar de mexer

nas compras e encará-la.

— Achou o quê?

Triz pressiona o próprio lábio com


os dentes.
— Nada. — Dá de ombros. — O

que comprou?

O que está me escondendo, Triz?

O que eu não posso saber?

Por que você me deixa no escuro?

— Vou fazer tacos. — Digo por

fim, recebendo um sorriso como

resposta.

Não havia dito nada a Seth. Não

confirmei nada sobre vê-lo amanhã, por


mais que eu saiba que preciso ir até a
Galeria de qualquer forma para buscar o
meu quadro. Falei sério quando disse

que o queria.

Mas é essa insegurança de Triz que

está me incomodando bastante. O modo

como ela não me conta nada e me deixa


em cima do muro é aterrorizante.

E é esse pensamento que me faz


pegar o celular logo após terminar de
fazer os tacos e mandar uma mensagem

para Seth, confirmando que o verei


amanhã.

Se eles querem me deixar no

escuro, tudo bem. Vou atrás da luz

sozinha.
☆♡☆

Capítulo 15

Antes

— Carro bonito — Falo quando

me aproximo do seu Jeep. Seth responde


com um encolher de ombros como
agradecimento, indo até a porta do

motorista.

Forço uma tosse que o faz parar.

Os olhos azuis se voltam em minha

direção.

— Não vai abrir a porta pra mim?

Ele arqueia a sobrancelha e depois

ergue as duas mãos.

— Faz assim, amor. — Diz, se


referindo as mãos levantadas. Sem

entender, repito o gesto — Está vendo


isso? Você também tem mãos! — Ele

comemora com alegria falsa.

Ergo meu dedo do meio para ele,

que dá risada entrando em seu carro.

Tento esconder o sorriso que se forma


em meu rosto, mas sei que ele viu.

— Então, para onde vamos? —


Pergunto quando ele leva o carro para a
rua. Seth não responde de imediato,

apenas liga o rádio, deixando um rock


que não conheço ecoar pelo carro.

— Surpresa. — Ele responde.

Percebo quando o carro sai da

avenida indo em direção a saída da

cidade. Ele nota quando me mexo

desconfortável no banco do carona e

solta uma risada.

— Não se preocupe, gata. Lá tem


sinal de celular. Você pode ligar pra
polícia se achar que está em perigo.

Se tratando de Seth Mason, o cara


que está me perseguindo por sexo, eu

arriscaria dizer que estou sempre em

perigo com ele por perto e que deveria

ligar para a polícia agorinha mesmo.

— Agora que você disse isso,

estou começando a me preocupar. —


Digo, tentando aparecer séria, mas
acabo rindo e sendo acompanhado por

ele.

Quando paramos no sinal


vermelho, uma nova música se inicia.

Encosto minha cabeça na janela e canto

baixinho Trampoline[2]. Sou despertada

com os sons de buzinas que soam atrás

de nós. Volto o meu olhar para o

semáforo, que agora está verde, e depois


para Seth, que estava me encarando.
Na sombra da noite, seus olhos

parecem ser ainda mais escuros. Ele


pisca, saindo do transe em que estava, e

engolindo em seco antes de voltar a


movimentar o carro.

— Você tem uma voz bonita. —

Ele diz, a voz soando mais rouca que o


normal.

— Obrigada. — Agradeço em
pouco menos que um sussurro. Nunca sei
receber elogios, e acabei de perceber

que um elogio vindo de Seth é ainda


mais difícil.

Permanecemos em silêncio por

todo o trajeto, com apenas as músicas

soando baixas. Quando ele finalmente

estaciona o Jeep, desço do carro e paro,


olhando o parque de diversões a minha

frente.

— Sério? — Pergunto, sem deixar


de sorrir. Seth coça sua própria nuca,

parecendo nervoso enquanto assente, o


que me faz sorrir ainda mais.

Ele abre a porta de trás do carro

para pegar uma bolsinha. Faço uma

pergunta silenciosa enquanto o encaro.

— É uma câmera. — Dá de

ombros. — Gosto de fotografias.

— É isso que está cursando? —


Pergunto sem conseguir manter a
curiosidade de lado.

Ele assente enquanto andamos até

a entrada do parque.

— Gosto de capturar momentos.


— Sinceridade, é isso que sua voz

expressa. Seth segura a minha mão

quando começamos a ser rodeados por

pessoas. Ele compra nossos bilhetes e,

por um momento, quero voltar pro carro


e descobrir mais sobre ele.
— Sei o que está pensando. — Ele

diz, sem soltar a minha mão. — Hóquei


é a minha paixão, gosto da sensação que

sinto quando entro no gelo, amo a


adrenalina de correr com um taco na

mão...

— Estou sentindo um “mas” se


aproximando. — Digo, o fazendo rir.

— Mas não é o que me vejo


fazendo no futuro. — Seus olhos vão
para a bolsinha que tem na mão – a que

não está segurando a minha. — Me vejo


capturando momentos no futuro.

Começando por agora, gata. Fica bem


ali. — Ele aponta com a cabeça para o

painel de palhaços que tem a nossa

frente. Há buracos onde deveria estar o

rosto dos palhaços.

— Não vou colocar a minha


cabeça ali. — Solto sua mão e cruzo
meus braços.

— É o nosso primeiro encontro,

amor. O meu primeiro encontro. — Seth


joga muito baixo fazendo beicinho

enquanto pisca os olhos azuis em minha

direção.

Com uma bufada dramática

demais, vou até o painel e encaixo

minha cabeça no buraco, encontrando


Seth do outro lado com a câmera em
mãos e a bolsa pendurada em seu

ombro.

— Agora sorria, amor.

Reviro meus olhos com o apelido


e enrugo o nariz. E é com essa mesma

expressão que sinto o flash quando Seth

captura a cena.

Estou começando a considerar

parar perto de um lago e jogar a câmera


para os peixes.
— Ficou perfeita. — Ele diz

quando volto a me por ao seu lado. — A


foto. — Pontua. — A foto ficou perfeita.

Você, por outro lado, parece que está


tendo um derrame.

— Eu vou matá-lo. — Digo em

alto bom som, atraindo um pouco de


atenção daqueles que estavam perto de

nós.

— Parece que vou ouvir isso


sempre. — Ele suspira parecendo

decepcionado, mas o sorriso que abre


mostra o contrário. E, mesmo assim, não

recuso quando ele volta a unir nossas


mãos e me arrasta com ele por todo o

parque.

Para quem nunca teve um encontro


na vida, Seth Mason até que está se

saindo bem. Bem demais.

E só agora percebo que meu plano


de o fazer se afastar de mim com

encontros românticos que achei que ele


abominaria está dando muito errado.

Acho que o feitiço acaba de ser virado


contra o feiticeiro.


— Te dou o meu carro se você

acertar aquele alvo bem ali. — Seth diz


risonho ao meu lado. Eu até me animaria
com a aposta exorbitante, mas até agora
eu não consegui acertar nenhum dos
alvos.

Sou péssima nisso.

Mesmo assim, ergo meu queixo

tentando parecer confiante, mirando no

alvo que Seth escolheu e errando

novamente, para a surpresa de ninguém.

— Cansei, vamos em outro.

— É a minha vez, gata. Aprende


como é que se faz. — Ele pisca em

minha direção, me fazendo revirar os


olhos pela milésima vez em poucas

horas.

Nem sei ao certo há quanto tempo

estamos aqui, mas sei que Seth ganhou

tantos brindes que tivemos que voltar ao


estacionamento para guardar tudo no

carro. E ver Seth saindo como vitorioso


está me deixando de saco cheio. Estou
até considerando pegar uma dessas
armas e mirar em sua cabeça.

Um, dois, três, quatro, cinco e seis


e voilá, mais um brinde!

— Aquele ali. — Ele aponta para

o urso de pelúcia branco que usa óculos

e segura um livro. — Pra você, amor.

Aceito sem dizer nada, dando as

costas para ele, que gargalha vindo atrás


de mim. Paro de andar quando sinto
mais um flash em minha direção.
Também perdi a conta de quantas fotos
minhas ele tirou. Preciso me certificar

de que ele irá apagá-las. Principalmente


a que estou de boca aberta comendo

cachorro-quente.

Olho por cima dos ombros, e o


encontro encarando a fotografia que

tirou. Apesar de estar brava por ser uma


perdedora ao seu lado, a curiosidade me
vence e vou até ele para olhar a foto que
ele capturou.

Só dá pra ver metade do meu


rosto, meus cabelos estão voando com o

vento que passara na hora. Eu estou

segurando o urso como se segurasse

minha própria vida. Ele capturou um


brilho em meus olhos castanhos e o

esboço de um sorriso tímido que nem


cheguei a perceber que estava ali.
Seth Mason é bom em capturar

momentos. Bom pra caralho.

— Essa é a minha preferida. —


Ele diz, ainda encarando a foto.

Essa é a minha preferida também.


☆♡☆
Capítulo 16

Agora

— Isso não vai dar certo.

— Se você repetir essa merda

mais uma vez, enfio isso aqui no seu cu.


— Noah levanta uma peça do Lego que
está tentando montar há uma semana.

Ignoro a sua delicadeza matinal e

volto a olhar para a mensagem que


Grace me mandou confirmando o nosso

encontro.

— Não vai dar certo. — Repito

pela milésima vez. — É loucura.

Noah solta um suspiro e tira os

olhos do seu brinquedo para me encarar.

— Sim. É loucura, cara. Ela te


amar e não saber disso? Loucura. Ela

não lembrar de você, de nós? É loucura.


E ela achar normal um estranho pintá-la

em um quadro? É totalmente loucura. A


propósito, precisamos rever isso, cara.

Porra, ela também era minha amiga.

Sinto falta de uma parceira pra montar

isso comigo. Alguém pra zoar você.

Sinto falta pra caralho.

Me sinto um babaca agora. Mais


do que o normal. Fiquei tanto tempo
pensando só em mim e tudo que está
acontecendo com a Grace que em

momento algum pensei em como Noah


se sente. Ele e Grace ficaram próximos

quando começamos a sair, próximos até

demais. Eram a dupla perfeita que me

tirava do sério. Sei que ele gosta dela

tanto quanto eu gosto. E me sinto

péssimo por deixar os sentimentos dele


de lado.

— Ah, não. Não, não, não. —

Noah diz repetidas vezes. — Pode tirar


essa expressão ridícula do rosto, sei

muito bem o que está pensando. E, por

favor, eu não dou a mínima. Grace era

mais importante pra você do que pra


mim.

Me jogo no sofá, revirando meus


olhos quando Noah forma uma barreira
em volta da mesa de centro para

proteger o avião de Lego. Da última vez


que sem querer derrubei tudo no chão,

Noah ficou um mês sem falar comigo e


derramou leite sem querer na minha

roupa limpa.

Olho para o relógio em meu pulso,


vendo que faltam 11 horas para o

encontro. E nem sei por que estou


nervoso, já que tive vários encontros
com Grace. Mas a diferença era que
Grace sabia quem eu era, e ansiava por
nossos encontros semanais.

No começo, era só por sexo. Não

vou mentir, Grace na minha cama era

fenomenal. Éramos fenomenais juntos.

Mas, conforme eu a conhecia, fui


percebendo que Grace era incrível. E

sinto falta dela. De tudo que fazíamos.

— É foda ter um encontro com a


namorada que não lembra de você.

— Ela não era sua namorada. —

Noah pontua.

Não, não era. Porque não deu


tempo de ela aceitar.

Se eu soubesse que naquele

instante eu veria a garota por quem sou

apaixonado esquecer tudo que passamos

juntos, eu teria aproveitado mais.


Aproveitado cada segundo que tive com
ela. Teria aproveitado as suas risadas.
Seus surtos por causa de livros e até as
constantes ameaças de morte que me

fazia.

Eu teria aproveitado tudo.

Porque em um momento eu tinha

tudo, e no próximo eu não tinha mais

nada.

Vivíamos em nosso próprio


paraíso repleto de encontros, sexo e
mais encontros e muito mais sexo. Não
nos importávamos com nada, porque
tínhamos nosso mundinho onde apenas

eu e ela vivíamos. Era bom pra caralho.

— Eu... — Começo, mas paro.

Noah me encara, me incentivando a

continuar. — Eu estou com medo. Quem


garante que esse plano vai dar certo? De

fazê-la se apaixonar por mim. Ela pode


só me considerar um babaca e nada
mais. Eu já perdi a Grace uma vez, e foi
doloroso pra caralho. Não vou aguentar
perdê-la de novo. Eu não conseguiria

suportar.

— Só tenta entender que jogar a

bomba sem preparar o terreno vai ser

uma catástrofe para ambos os lados. O


seu e principalmente o da Grace. Ela

não iria suportar saber que perdeu


meses da vida dela. Meses que ela nem
sabe que viveu. A Grace de ontem acha
que terminou a faculdade sendo a boa
aluna que era, sem nenhum vínculo com

a gente. Foi escolha dos pais dela


esconder tudo que tinha a ver conosco e

os amigos dela da faculdade. Uma

escolha hipócrita, mas temos que

aceitar.

O problema, era que eu não


conseguia aceitar. Quando Grace
acordou, ela se lembrava de uma única
coisa: de ter chegado na New York
University, ter conhecido sua nova

colega de quarto e só. Grace havia


esquecido a festa da qual havia ido e me

conhecido. As aulas que havia

frequentado. Nossos encontros. Tudo.

O Sr. e Sra. Lorey contaram que

ela já havia se graduado. Como Grace


não reagiu bem ao saber disso, já que só
se lembrava de ter pisado nos
dormitórios, os pais dela resolveram
esconder todas as outras coisas. Coisas

das quais eu fazia parte. Mas, de acordo


com eles, seria difícil ver sua única

filha perdida em sua própria vida e seria

melhor para ela seguir em frente sem

saber o que perdeu. Ou quem

abandonou.

— Sei que dói, Seth. — Noah fala,


me tirando dos devaneios. — Mas não
seja a pessoa que vai soltar a bomba,
por favor. No momento que contar a ela

que tudo que ela acredita agora é uma


mentira, vai ser doloroso demais. No

momento certo, Grace vai se lembrar de

você. E, caso isso não aconteça, sei que

ela vai se apaixonar de novo.

— Como tem certeza?

Noah responde com um dar de


ombros.

— Ela se apaixonou por você

quando só queria afastá-lo, não foi?


Algo me diz que tudo que a Grace quer

agora é mantê-lo por perto.

O relógio bateu 19h em ponto


quando Grace atravessou a porta da
minha Galeria. Reprimi o sorriso que
estava prestes a abrir quando ouvi os

passos de seu calçado se aproximarem


mais.

Sempre pontual. Sinto uma pontada

em meu peito quando lembro do que


Noah me dissera. Não existe uma nova

ou uma velha Grace, e espero não ser


um tolo por agarrar essa esperança com
unhas e dentes.

— Seth? — Sua voz invade a sala.

Aproveito o meu momento de costas


para ela pra fechar meus olhos e

respirar fundo. Senti tanta falta de ser

chamado de Seth por ela. Achei que

nunca mais aconteceria.

Termino o embrulho do quadro que

eu pintei. O mesmo quadro que é uma


réplica de uma fotografia que eu tinha
tirado dela.

— Aqui está. — Digo, me virando

para encará-la.

Porra.

Nunca vou cansar de observá-la.

Grace é garota mais linda que já conheci

na minha vida. E, vindo de alguém que

tem um grande histórico de transas, é

algo que deve se considerar.

Os olhos castanhos piscam por


baixo da maquiagem leve que ela

passara. Grace se maquiou para vir me


ver? Ela abre a boca, mas tudo que sai é

um suspiro. Sinto falta do sabor de


morango dos seus lábios. Por fim,

Grace pisca novamente enquanto cruza

os braços tentando manter a pose.

Porra, como ela é sexy fazendo isso.

— Por que está me olhando assim?

— Assim como? — Minha voz sai


no mesmo tom monótono de sempre.

— Como se fosse um babaca.

Definitivamente, não existe uma

nova Grace. É a mesma de sempre.

Me aproximo a passos lentos com

o embrulho em mãos. Antes de entregar,

seu perfume doce me invade e preciso

de um segundo pra relaxar e não estragar

tudo. Mas eu não consigo me impedir


quando ouço minha voz dizendo:
— Sei que vai soar estranho, mas

você faz alguma ideia de quem sou eu?


☆♡☆

Capítulo 17

Antes

Se me dissessem há três dias que

eu estaria sentado no capô do meu jeep


com uma garota ao meu lado enquanto

olhamos a paisagem, eu iria gargalhar.


Riria até a minha barriga doer.

Agora, olhando para a vista daqui

de cima enquanto o céu está cheio de

estrelas – como se soubesse que teria

uma plateia esta noite -, até que não é


ruim. Grace é uma boa companhia.

Fazia tempo que eu não


conversava com uma garota. Na
verdade, acho que não faço isso desde o

fundamental. Eu só as fodia, sem


conversa. Então, ter que ficar sentado

olhando para o nada enquanto converso


com uma garota não é entediante como

achei que seria. Pelo menos, não quando

envolve Grace.

— Ser o capitão é legal? — Ela

me pergunta assim que termina seu


sorvete. Meu pau agradece, já que a
maneira que Grace estava lambendo os
próprios dedos e mordendo a casquinha
era sensual demais. Até parecia que ela

estava fazendo de propósito. Eu parecia


a porra de um virgem querendo lamber a

gota de chocolate que sujou seus lábios.

— Sim. — Respondo tentando


evitar a fantasia que se forma em minha

cabeça de Grace me chupando e me


olhando do mesmo jeito que estava me
encarando minutos atrás, quando tinha o
sorvete em sua boca. — Muitas
responsabilidades. Ter que manter o

time unido e na linha é difícil as vezes,


principalmente com várias festas

rolando, mas até que é legal.

— Está com algum problema,


Seth? — Grace soa divertida demais, o

que só comprova que ela sabia muito


bem o que estava fazendo.
Me viro para encará-la, e me

aproximo o suficiente para roçar minha


boca na sua. Quando noto seus lábios se

entreabrindo, me sinto vitorioso e volto


a ficar ereto, me afastando dela.

— Como esse jogo vai funcionar?

— Pergunto, com os olhos na roda


gigante lá embaixo. Ainda consigo ouvir

as risadas que Grace dera lá no topo.


Foi divertido.
— Que jogo?

— Esse que estamos jogando. —

Volto a encará-la. — Um encontro, uma


transa?

— Eu não disse isso. Disse que

ficaria com você mais uma vez. Não

lembro de insinuar uma terceira.

Solto uma risada e coloco meus

pés no chão, descendo do capô do carro.


Grace permanece sentada, o que facilita
para prendê-la. Colocando as mãos em
sua cintura, sinto o arrepio imediato da
sua pele em contato com minhas mãos.

— Deixa eu te contar uma coisa,

gata. — Me aproximo de seu rosto

levando minha boca até seu ouvido. —

Eu gostei, de verdade, disso aqui. O


encontro. E quero mais. Não estou

satisfeito e preciso de mais, se você


quiser também, é claro. Eu prometi que
te foderia, e eu odeio quebrar
promessas.

Mordo o lóbulo de sua orelha,


fazendo ela arfar.

— O que está fazendo? — Sua voz

sai fraca quando me afasto dela.

Arqueio a sobrancelha em sua

direção, o sorriso em meu rosto

crescendo ainda mais. Grace não é


burra. Ela achava mesmo que as
palavras encontro e romântico juntas
seriam a minha fraqueza e me fariam
esquecê-la. Foi uma boa técnica, muito

boa mesmo. Mas não foi difícil


descobrir seu joguinho e, como o bom

jogador que sou, pretendo jogar da

melhor maneira possível.

Se ela quer encontros, tudo bem.

Eu amo um desafio, por mais difícil que


ele seja.
— Eu disse que só tocaria em você

quando pedisse. É assim que os


mocinhos agem nos livros de romance,

não é? — Antes que ela possa


responder, volto a falar: — Na verdade,

acabei de lembrar de um trecho que li

mais cedo. O que dizia mesmo? Algo

sobre estremecer as montanhas.

Me aproximo dela mais uma vez,


voltando para a mesma posição que
estava antes. Meus olhos estão presos
em suas íris escuras a vendo engolir em
seco.

— Quando vamos estremecer essa

montanha, amor?

Acho que nem ela mesma esperava

a reação que viria a seguir. Fiquei

surpreso, mas não reclamei quando a

língua dela veio de encontro a minha em


um beijo selvagem demais para quem
nem me queria por perto. Apenas

aproveito, apertando mais a sua cintura


e a trazendo para a ponta do capô do

carro. Ela arfa quando sente meu pau


preso na calça jeans.

Suas pernas circulam meu quadril,

aproximando nossos corpos. Meu pau


está pulsando dentro da cueca,

implorando por ela de novo. Meus


lábios descem para a dobra de seu
pescoço, e Grace tomba a cabeça para o
lado, me dando ainda mais espaço.

Seguro um seio por cima de sua


blusa curta, desejando que ela estivesse

nua. Aqui mesmo, ao ar livre. Dane-se

que podemos ser presos por atentado ao

pudor. Quem liga? É o corpo da Grace


que vai rebolar em cima do meu pau

daqui a pouco.

Abaixo sua blusa, libertando seus


seios. Encaro os mamilos endurecidos e

ergo a sobrancelha olhando para Grace


em uma pergunta silenciosa. Ela apenas

encolhe os ombros.

Ela estava sem nada por baixo

dessa blusinha esse tempo todo? Porra.

Levo minha boca até seu peito,

sugando e mordendo seu mamilo rosado.

Seus gemidos se tornam altos demais e


preciso soltar sua cintura para tampar
sua boca enquanto me divirto com seus

seios. Nem grandes e nem pequenos


demais. São perfeitos.

Volto minha atenção para seus

lábios, a beijando como se ela fosse

tudo pra mim. Grace empurra suas unhas

por baixo da minha camiseta e morde


meu lábio inferior. Me afasto para ver

seus olhos dilatados e nem preciso de


um espelho para saber que os meus
estão assim também.

— Eu quero. — É tudo o que ela

diz. Levo minha mão até o meio de suas


pernas, a massageando por cima de sua

calça jeans.

— O que você quer, amor? —

Continuo massageando enquanto ouço o

gemido de Grace. Sexy pra caralho.

— Você. Quero você.

É isso aí. É tudo o que eu


precisava ouvir para erguê-la, abaixar

sua calça, deixando a blusa vermelha


ainda presa em sua barriga, combinando

com o pedaço de renda que cobre sua


pele. Volto a massageá-la por cima do

pano fino, a sentindo molhada em meus

dedos. Me agacho ficando de frente para

a parte do seu corpo que está chamando

por mim.

Afasto o tecido da calcinha para o


lado e a invado com meus dedos. Grace
ergue o quadril pedindo por mais, me
fazendo colocar o segundo dedo dentro

dela. Tiro e coloco lentamente, a


sentindo cada vez mais encharcada, e

preciso sentir seu gosto novamente.

Quando minha língua toca seu clitóris,

Grace geme, tombando a cabeça para

trás. Eu a chupo com delicadeza

enquanto meus dedos ainda trabalham


lentamente. Sinto as mãos de Grace

segurando meu cabelo e me empurrando


para que minha língua entre mais fundo

nela.

Sorrio olhando para cima, para

ela, com a cabeça ainda entre suas

pernas. Quase sinto a necessidade de


fotografar esse momento. A visão que

tenho de Grace com seus seios expostos,


os olhos apertados e os lábios
entreabertos enquanto seu rosto está
apontando para o céu estrelado sob
nossas cabeças é simplesmente perfeita.

É a porra da imagem mais linda que já


vi na minha vida.

A fodo com os dedos e com minha

língua, a devorando enquanto sinto seu


corpo estremecer. Minha língua chupa

seu clitóris e meus dedos entram nela


com força.
— Me faça lembrar o quão gostosa

você é. Goza para mim, gata. Agora.

Grace grita meu nome e arqueia


seu quadril para cima quando sinto seu

gosto em minha boca. Gostosa pra

caralho. Chupo com força, ainda

ouvindo a respiração alta de Grace, me


afastando apenas para ser puxado e

receber a sua língua em minha boca, me


beijando com ferocidade.
— Minha vez. — Grace diz. E é

agora que sinto que estou fodido, porque


Grace parece o retrato exato de um anjo

prestes a cometer um pecado. Os


cabelos dourados grudando no suor de

sua teta, os lábios inchados e as

bochechas vermelhas parecem ser minha

perdição. Sem contar suas pupilas

dilatadas.

Estou fodido. Muito fodido.


Porque algo me diz que não vai ter

mais ninguém que chegue aos pés de


Grace agora.

Grace desce do capô segurando o

cós da sua calça jeans. Por um momento,

achei que ela voltaria a vesti-la, mas

encaro atônito demais quando a vejo


remover seus tênis, ficando só com as

meias e tirando sua calça jeans,


deixando apenas o pedaço de renda
vermelha a cobrindo.

Porra.

Você está fodido, Seth.

Definitivamente fodido.

— Entra no carro. — Sua voz sai

cheia de desejo, o que é o suficiente

para fazer eu me mover e entrar no

carro, pelo banco de trás.

Depois dessa noite, vou procurar


um carro maior. Nem sei o que Grace
espera fazer comigo – eu aceito tudo -,

minhas pernas estão para fora e preciso


de espaço para fodê-la. Para meu corpo

caber no carro, me sento encostando na


porta, minha cabeça apoiada na janela

enquanto Grace remove minha calça, a

deixando presa em meus joelhos.

Grace puxa minha cueca para

baixo, libertando meu pau que salta para


fora e, sem precisar pedir, Grace o leva
até sua boca. Os lábios doces de Grace
beijam a ponta do meu pau enquanto ela
pisca os olhos em minha direção.

A frase “Você está fodido, Seth”,

volta a ecoar pela minha cabeça

enquanto Grace tem sua bunda para o

lado de fora do carro, sem se preocupar


com quem pode vê-la, com meu pau em

sua boca.

Gemo arqueando a cabeça para


trás e seguro os cabelos de Grace em um

punho, enquanto empurro meu pau para o


fundo de sua garganta. Ela aperta com as

mãos o que não cabe em sua boca, e


engole meu pau o máximo que consegue.

Isso é bom pra caralho.

— Grace... — Estremeço sentindo


que estou perto de gozar. — Porra, gata.

— Agora não. — Agora não o


que? Sinto vontade de gritar. —
Camisinha.

— Carteira.

Suas mãos são rápidas indo até o

bolso da minha calça, tirando a carteira


de lá. Ela pega a camisinha, a abrindo e

deslizando no meu pau que está duro,

ainda esperando por ela. Grace sobe em

cima de mim, se acomodando no pouco

espaço que temos. Definitivamente


preciso de um novo carro.
Sinto suas paredes me receberem

quando Grace senta em mim devagar.


Ela começa a rebolar lentamente em meu

colo enquanto me provoca.

Mas esse jogo pode ser jogado por

dois.

Volto a beijar seu pescoço,

chupando e mordiscando. Uma das

minhas mãos segura sua bunda e a outra


vai até seu clitóris, a estimulando. Grace
geme começando a rebolar mais

depressa e com mais força.

Meus lábios descem até seus seios.


Minha língua circula seu mamilo,

enquanto aperto o outro com a mão.

Grace aumenta ainda mais o ritmo. Seu

corpo se esfregando no meu, e estou


quase delirando quando sinto sua boceta

apertar o meu pau.

— Isso, gata. Não para.


— Seth.

Grace volta a gemer, cavalgando

em cima de mim cada vez mais rápido.


A beijo para silenciar nossos gemidos, o

suor já começando a escorrer por nossas

peles.

Sinto Grace estremecer pronta pro

seu segundo orgasmo, arqueamos nossas

cabeças para trás ao mesmo tempo.


Minha cabeça apoia na janela enquanto
gozo, meus olhos se fechando com força

e voltando abrir encarando as estrelas


no céu.

Porra.

Grace me fez gozar vendo estrelas,

literalmente.
☆♡☆
Capítulo 18

Agora

Além de alguém que claramente

está escondendo algo junto a minha

melhor amiga e que desperta uma


curiosidade em mim que nunca cheguei a

sentir antes, eu não faço ideia de quem


Seth Mason é.

Seth nota a resposta passando

pelos meus olhos sem que eu precise


dizê-la. Ele apenas dá um sorriso torto

antes de me entregar o quadro e passar

por mim. Eu o sigo sem saber para onde

estamos indo.

— Hum. Obrigada... pela pintura.

— Ele dá um maneio de cabeça,


atravessando as portas da Galeria e indo
para o lado de fora. — Aonde vamos?

Seth para ao lado de um jeep

preto, abrindo a porta do carona para


mim. Antes de entrar, encaro seus olhos

azuis, esperando por qualquer resposta

dele. Qualquer coisa.

— Fala comigo.

Ouço quando ele engole em seco,

sua mão se ergue para colocar uma mexa


solta atrás da minha orelha e, sem saber
o porquê, prendo minha respiração
enquanto sua pele entra em contato com
a minha.

— Gosto do seu perfume. Me faz

lembrar de momentos bons que vivi uma

vez.

— E por que não vive mais?

Ele desvia os olhos, abrindo mais

a porta.

— Quero te mostrar um lugar.


Não sei onde estamos, mas não

quero voltar.

Não conheço muito de New York.

Se conheço, não me lembro. Se já estive

aqui, nunca vou saber.

Aparentemente, perdi um ano da


minha vida. Não sei o que aconteceu ou
muito menos o que fiz, mas meus pais
me disseram que fui uma ótima aluna no

meu último ano na New York University.


Não tive tempo pra fazer muitos amigos

além de Triz porque me ocupava

estudando.

Sinceramente, não me surpreendi

por ter tido uma vida de universitária


monótona. É a minha cara. Mas, de
qualquer forma, não queria ter perdido
nada disso. Por mais entediante que
tivesse sido, não queria perder nada.

É horrível acordar na cama de um

hospital e perceber que meses se

passaram e tudo que você viveu a sua

mente fez questão de apagar. Precisei de


meses de terapia pra me acostumar com

essa realidade e, ainda assim, é


doloroso. Demais.
Por isso não quis seguir uma

profissão em Economia. Do que


adiantaria? Eu nem lembro o que

estudei. Entretanto, não posso reclamar.


Eu ainda tenho uma vida pra viver.

Bom, pelo menos não esqueci de

Triz. Acho que me sentiria desolada se


esquecesse alguém que foi importante

pra mim no meu último ano, mas fiquei


feliz quando meus pais disseram que
meus únicos amigos foram os livros.
Não lembro de ter lido. Ao menos vou
ler como se fosse a primeira vez.

Mas esse lugar em que Seth me

trouxe me traz uma paz. Talvez eu tenha

vindo aqui com Triz em algum momento.

As luzes da roda gigante iluminam

tudo. A vista é linda daqui de cima e,

apesar do céu estar um pouco nublado,


sei que ver as estrelas seria espetacular.
Seth dirigiu um bocado até chegar

aqui, e nem sei o porquê, mas não


reclamo. Acho que este é meu lugar

preferido na vida a partir de hoje.

— Por que não vive mais os

momentos bons? — Pergunto, seja lá o

que ele queria dizer com isso.

Seth olha para o céu nublado

enquanto está sentado no capô de seu


carro, comigo ao seu lado. Paramos em
um fast food e compramos alguns

hambúrgueres e refrigerante. Comemos


em silêncio, apenas com as risadas de

quem está no parque lá embaixo


ecoando aqui em cima.

— Quando o céu não está nublado,

ele enche de estrelas. As mais lindas


que já vi. Às vezes, parecia que era só

erguer as mãos que poderíamos tocar


todas elas. — Não entendo o que isso
tem a ver com minha pergunta, mas gosto
de ouvi-lo falar. Apenas assinto olhando
para cima, imaginando como o céu seria

com milhares de pontinhos brancos. —


Eu sempre vinha aqui. Ao menos duas

vezes no mês, não sei. Só nos

sentávamos aqui, conversávamos

enquanto as estrelas eram as únicas

coisas que poderiam nos ouvir. Era o

nosso lugar.
— Nosso?

Seth tira os olhos do céu e me

olha, os olhos tão azuis quanto aquilo


que ele estava olhando esse tempo todo.

Ele não diz nada, só me olha antes de

engolir em seco, soltando uma risada

sem humor logo em seguida.

— Eu e a primeira garota que

amei. — Ele diz com tanto pesar na voz


que me deixa triste por ele. Acho que
esquecer meses de sua vida não se

compara a perder alguém que ama.

— O que aconteceu? Com vocês?

— Eu a perdi.

Não perguntei mais nada depois

disso, porque acho que já atingi o limite

de Seth quando seus olhos ficam

carregados com uma tristeza tão

profunda que chega a me atingir. E quero


que me atinja mais. Quem sabe assim,
possamos compartilhar sua dor e ele não
precise carregar tudo sozinho.

Seth é novo, arrisco dizer que é


poucos anos mais velho que eu, e amar e

perder alguém tão jovem quando ainda

está começando a viver deve ser

horrível. Pego sua mão que está apoiada


ao lado de seu corpo e a seguro. Ele não

reprime o suspiro aliviado quando meus


dedos se movem em uma carícia para
acalmá-lo. Quando ele sorri, parecendo
mais leve que antes, começo a sorrir
também.

— Sabe, — Começo. Seus olhos

estão em nossas mãos, mas sei que ele

está me ouvindo, por isso continuo. —

Você não é quem eu achei que seria.

Isso parece atrair sua atenção. Ele

arqueia a sobrancelha olhando pra mim.

— Imaginava que você seria


aquele tipo de cara que não se importa
com ninguém. Um babaca. — Ele engole
em seco. — Mas você não é, só está...

como posso dizer sem feri-lo? Hum...


vazio? Você perdeu alguém, então

suponho dizer, que é como perder uma

parte de si. Você só foi vítima disso que

chamamos de vida.

— Você já perdeu alguém? — Ele


pergunta em um sussurro.
Se tivesse perdido, não me

lembraria. Não sei se isso me conforta


ou me machuca.

— Não. — Respondo, mas minha

voz soa incerta e sei que não fui a única

a perceber isso.

— Você... Você gosta da sua vida?

Mas que pergunta complicada pra

se responder em um primeiro encontro.


Se eu gosto da minha vida? Bem, acho
que precisamos gostar dela para poder
vivê-la, certo? E eu gosto de viver.

— Você gosta da sua? — Repito a


pergunta, sem respondê-la.

Eu poderia dizer que “sim”, mas

ainda não sei. Tive que aprender a

conhecer a mim mesma depois do

acidente. E é complicado gostar daquilo

que não se lembra.

Seth também não responde, e sei


que tem a ver com a garota que ele
perdeu. Bem, pelo menos ela era uma
garota de sorte. Não conheço Seth, mas

deu pra perceber em poucos minutos de


conversa que ele realmente gostava

dela. Eu só espero que tenha sido

recíproco. Seria um desperdício para

ele amar sem ser amado.

— Quem é Seth Mason? —


Pergunto quebrando o silêncio pela
segunda vez esta noite.

Seth aperta minha mão, a

acariciando sem perceber.

— Alguém que se sente perdido.


— Não tenho tempo de responder

quando ele devolve a pergunta: — E

quem é você, Grace?

— Alguém que quer ajudá-lo a se

encontrar. E, talvez, — Solto um


suspiro, encarando seu dedo que faz
movimentos circulares em minha mão.
— Encontrar a mim mesma.
☆♡☆
Capítulo 19
Antes

— Como está indo a nova vida de


universitária? — A voz calma da minha

mãe soa através do celular. Dou risada

com meu pai falando no fundo, avisando

que as panquecas queimaram.

— Está indo bem, mãe. As aulas


são legais e a estrutura desse lugar é

incrível. Papai iria amar.

— Tenho certeza que sim, querida.


— É a voz do meu pai que soa distante,

mas ainda dá para ouvir. — Só não vou

amar essas panquecas. Estão pretas

como carvão e mais duras que um


brownie. Querida, acho que vou morrer

envenenado, sua mãe quer me matar. Por


que estudar tão longe?
Gargalho tentando não acordar

Triz, que ronca na cama ao lado. Calço


minhas pantufas antes de me colocar

para fora do quarto, sem risco de


acordar minha amiga com minha

gargalhada e a da minha mãe, que nem

se importa mais com os “elogios” que

recebe do meu pai.

— É a melhor universidade, pai.


— Digo a mesma frase que falo em
todas as nossas ligações desde que
cheguei, e só estou aqui há algumas
semanas.

— Eu sei, querida. Estamos muito

orgulhosos de você. — Ele diz, seguido

pela minha mãe: — Morrendo de

saudades, mas com muito orgulho.

Pisco para afastar as lágrimas.

Mudar para New York foi um passo


enorme, ainda mais por ter me mudado
sozinha.

— Estou com saudades de vocês

também.

— E então, conheceu alguém? —


Minha mãe pergunta com o tilintar dos

pratos ao fundo. — Algum estudante de

Economia? Direito? Engenharia?

— Ela só está estudando há pouco

tempo, Jenny. É claro que não conheceu


nin...
— Fotografia. — Digo, segurando

o riso quando ouço meu pai se engasgar.

— Como é? — Ele repete entre as


tosses. — Mas já? Assim tão rápido? O

que fizeram? — Agora a voz do senhor

Lorey é mais autoritária. — Ele é um

bom rapaz? Irá trazê-lo na Ação de


Graças? É claro que vai! Tem que trazê-

lo. Para de rir, Jenny!

— Não estamos... Não somos...


Somos só amigos.

— Você não parece ter certeza,

querida. Oh meu Deus, Gregory, você


está hiperventilando? É só uma ficada

de jovens, homem. Respira! Eles só

estão fazendo o que os jovens da idade

dela fazem, transam!

— Oh, acho que vou vomitar. —

Ouço a voz do meu pai.

— Como se não fizéssemos o


mesmo.

— Agora eu vou vomitar. — Digo,

sentindo o cachorro-quente que comi


ontem querendo sair pela minha boca.

Conversamos mais um pouco sobre

as aulas e ignoro todas as perguntas

sobre Seth. Nem sei porquê abri minha

boca. Quando vi, já tinha saído.

Me despeço dos dois com um “eu


te amo”, voltando para o quarto para ver
que Triz já está de pé mexendo em seu
celular.

— Como foi o encontro com o Sr.


Foda Fantástica? — Ela pergunta, me

encarando.

Cheguei bem tarde ontem a noite e

exausta. Tanto pelo passeio no parque

quanto pelo o que aconteceu em seguida.

Triz me encontrou tomando remédio


para evitar sentir dor quando acordasse.
Transar com Seth é... incrível

demais. Mas conhecer o Seth foi ainda


mais incrível.

— Ele é diferente. — Sei que isso

não é bem o que eu queria falar, mas não

sei como descrever a noite de ontem.

Andamos por todos os brinquedos duas


vezes. Comemos pra caramba e nem

quero ver um algodão doce na minha


frente por um bom tempo, e as fotos que
ele tirara... não havia palavras para
definir o talento dele.

— Diferente como? — Antes que


eu pudesse dizer algo, um toque na porta

soa e Jef entra passando por ela sem

nem esperar que eu ou Triz possamos

nos levantar para abri-la.

— Então... — Ele se joga na

cadeira da escrivaninha, me olhando


com os olhos cheios de malícia. —
Como foi o encontro com o Sr. Me Fez

Gozar Vendo Estrelas?

— Quê? — Triz me olha indignada


por Jef já saber algumas coisas. Meio

que foi impossível ignorar suas

ligações, e tive que contar algumas

coisas enquanto tomava banho antes de


ir dormir. — Você já contou pra ele? Eu

sou a sua amiga há mais tempo!

Gargalho e cruzo minhas pernas,


respirando fundo antes de contar o

básico, ignorando quando Jef pede para


que eu diga o tamanho do pau de Seth.

Falo dos brinquedos que fomos, mostro


o urso que ganhei dele e termino dizendo

sobre o beijo que me dera antes de me

deixar em frente ao dormitório.

Jef se abana com um pedaço de

papel que pegou em cima da


escrivaninha e Triz me olha como se eu
tivesse ganhado na loteria. Em seguida,
eles trocam olhares assentindo algo
antes de voltarem a me olhar e dizerem

juntos:

— Você está em perigo.

— O quê?

— Tá gostando dele. — É Triz

quem diz. Nego com a cabeça, mas ela

prossegue. — Seus olhos brilharam e


não era por conta do sexo incrível que
fizeram ao ar livre, mas sim por causa
dos momentos que tiveram antes disso.

— O Seth pareceu ser um cara


legal. — Jef continua por ela. — Mas

conhecemos a reputação dele. Ele só

transa e nada mais. Eu não sei onde

vocês dois querem chegar com um


encontro, uma foda, mas não vai acabar

bem. Por mais picante que isso seja,


definitivamente não vai acabar bem.
— Não gosto dele. — Dou de

ombros, respirando fundo. — Só vi um


lado dele que não fosse o jogador de

hóquei galinha. E, de qualquer forma, eu


não quero um namorado. Preciso me

concentrar nos estudos. É minha única

prioridade aqui.

— Você tem certeza disso? — Triz

pergunta e eu assinto com a cabeça. —


Não vou dizer pra ficar longe dele. Ele
ainda não fez nada pra merecer isso.
Mas, se em algum momento ele
machucar você, não vou deixar que se

aproxime dele.

— Isso não vai acontecer. — Digo

olhando para o urso de pelúcia em

minha cama. — Meu coração não é dele


para que ele possa machucar.


Saio da aula ligando o celular e

esperando as mensagens chegarem. Eu


nunca confio em mim mesma para

silenciá-lo antes da aula começar, por

isso, opto por desligar.

Meus olhos se voltam para o nome

dele na tela. Ainda passo alguns minutos

sem abrir a mensagem porque, apesar de


não gostar de Seth Mason, tenho medo
de chegar a considerar a ideia de nutrir

algum sentimento.

Eu sou leitora, vivi muitas vidas.


E, além do mais, conheci tipos

diferentes de caras. E daí que eram só

personagens? No fim das contas, sempre

tem um toque de realidade. E as


mocinhas sempre se apaixonam por um

cara que mostra bastante interesse e que,


quando consegue o que quer, a descarta
como se fosse um objeto, para depois
perceber que a ama e eles viverem feliz
para sempre.

E não quero essa história na minha

vida. Não quero as tragédias dramáticas,

o ciúme bobo por ver o jogador mais

galinha do campus com outra pessoa, e


muito menos me apaixonar. Não é pra

mim e nem pra ele.

Mas Seth Mason não está


facilitando. Ele está tornando a minha

resistência cada vez mais difícil. E o


filho da puta sabe disso.

[11:21] Seth Mason:

Li seu livro. TODO.

Essa porra é viciante.

Não vou ser boiola e dizer que


chorei.
Mas talvez, TALVEZ tenha

descido uma lágrima.

Me diz que você tem a


continuação, pfv amor.

Fui ver o valor

Sabe quanto custa um livro?

É claro que sabe! Tem vários!

Quantos rins teve que vender?

Tá aí?
Responde, gata! Preciso da bosta

da continuação, caralho.

Gata??
☆♡☆

Capítulo 20
Agora

Grace sabe que há algo errado com


ela. Com a história ridícula que seus
pais contaram.

Parte de mim quer parar esse carro

no meio fio e contar toda a verdade.


Contar sobre quem eu sou e o que

passamos juntos, mas Noah está certo.

Ainda lembro do choro que ouvi

do lado de fora do seu quarto quando

seus pais contaram que um ano havia se

passado. Lembro de Grace descrente,


pedindo um calendário e gritando.
Lembro de ter engolido em seco, ter

sido um covarde e saído daquele


corredor. Lembro de quando seus pais

voltaram para a recepção com os olhos


marejados me dizendo que, pelo bem de

Grace, não contariam mais nada. A filha

deles não iria suportar a culpa de ter

esquecido alguém por quem era

apaixonada.

Lembro de ter perguntado se eles


estavam brincando com a minha cara.
De ter gritado com eles. Mas, a partir do
momento em que o choro da Grace

voltou a minha mente, eu simplesmente


parei.

Não aceitei. Só parei.

Conversamos com o médico em

seguida, para saber se havia chances de

Grace ter as lembranças de volta, mas


tudo que ele podia garantir era que
poderia haver flashs de memórias. E que

ela se lembraria aos poucos.

Eu esperei por isso. Me agarrei a


essa incerteza de que ela se lembraria.

Se lembraria de mim.

Eu não tinha ideia de onde a

levaria. Mas, quando senti o seu

perfume, me veio a velha lembrança de

nós dois nos divertindo no parque.


Apesar de não a ter levado até lá, gostei
ainda de ouví-la falar e me tocar.

E, quando ela deu a entender que

também estava perdida, foi o momento


exato no qual uma faísca se acendeu em

meu peito.

Não vou contar, porque não vou

suportar seu sofrimento, mas vou fazer

de tudo para que Grace se apaixone por

mim mais uma vez.

Estaciono uma rua atrás da sua.


Aceitei sua desculpa de que preferia ir
andando. Quase me fez gargalhar com a
desculpinha esfarrapada, já que sei que

o motivo disso é porque Triz a quer


longe de mim. Eu também iria querer se

tivesse passado por tudo na perspectiva

dela, mas não tenho mais paciência para

fazê-la enxergar o que de fato aconteceu.

De qualquer forma, não vou deixar Triz

estragar meus planos. Não mereço


muitas coisas nessa vida, mas sei que

mereço ter a Grace ao meu lado.

— Foi divertido. — Ela diz


sorridente se inclinando para pegar a

sua pintura no banco de trás. — Você é

um cara legal, Seth.

Já disse o quanto amo ouvi-la

dizer meu nome?

Não Mason. Não cara. Mas Seth.


Apenas Seth.
— Você é uma garota legal, gata.

Grace ri debochada com o apelido

e isso me faz sorrir. Vejo quando ela


aperta os lábios com os dentes e a

conheço o suficiente pra saber que ela

está pensando em fazer uma pergunta

que acha que não deveria, quando na


verdade deveria.

— Vou te ver de novo? — Ela


solta, os olhos castanhos brilhando com
ansiedade.

Isso me deixou feliz pra caralho.

— Você sabe onde me encontrar.

— Dou de ombros, tentando esconder o


quão eufórico estou.

Grace abre um sorriso enquanto

assente. Ela abre a porta e sai por ela.

Quando a fecha, se inclina para se

apoiar na janela olhando pra mim.

— Eu disse a verdade naquela


hora, sabe? Vou trabalhar para que nós

dois não sejamos pessoas perdidas.


Vamos conseguir juntos.

— Juntos. — Afirmo, recebendo

como resposta o sorriso mais iluminado

do mundo. Grace sai andando pela rua, e

eu acompanho com o carro logo atrás,


porque não seria louco de deixá-la

andar por aí completamente sozinha.

Vejo de relance mais um dos seus


sorrisos quando ela para em frente a sua

casa. Sigo pela rua vendo o


“tchauzinho” que ela me dá

discretamente, que quase me faz dar a ré


e beijá-la. Reprimindo essa vontade que

arde em meu peito, sigo para a minha

casa.


— Deixa eu ver se entendi, —

Noah diz enquanto prepara a sua janta.


— Ela sabe que tem algo errado?

— Ela não disse com essas

palavras, mas foi o que deu pra

entender. — Dou de ombros olhando

para a forma que ele tira do forno. —


Triz disse pra ela ficar longe de mim, e

sabemos como Grace é.

— Curiosa, atrevida... — Ele para


de falar quando o encaro.

— Isso só fez com que ela ficasse

disposta a descobrir o que está errado.

— E é aí que você entra?

Assinto enquanto ele corta um

pedaço da lasanha e coloca em seu

prato.

— Eu até ofereceria um pedaço

dessa divindade que eu fiz, mas lembrei


que você comprou hambúrguer e não fez
questão de trazer pra mim. — Ele soa

ofendido, o que me faz rir. Entretanto,


ele se contradiz quando pega mais um

prato no armário e me serve com um


pedaço menor.

— Então o plano de fazê-la se

apaixonar por você está de pé?

Assinto novamente com a cabeça

por estar com pedaço de lasanha na


boca. Está muito bom. Está ótimo, na
verdade. Noah é um mestre na cozinha,

assim como eu. Mas, diferente dele, eu


não me gabo. Por isso, a regra número

um desse apartamento é não elogiar nada


que Noah prepara ou terei que aturá-lo

falando disso o dia inteiro e torrando

minha paciência.

— Faltou sal. — Digo, bebendo o

refrigerante do copo que ele me servira.

— O pedaço que você engoliu


inteiro como se não tivesse acabado de

se alimentar parecia sem sal mesmo. —


Ele diz, soando debochado e voltando a

comer. Quando mastiga e engole, volta o


olhar para mim. — Quer mais?

— Só porque tenho dó de jogar

fora. — Noah gargalha me servindo


novamente.

Comemos juntos enquanto


reclamamos do nosso time que vem
perdendo mais do que deveria, apesar

de ser considerado um dos melhores da


Liga. Quando nossos pratos estão

vazios, assim como a forma que estava


cheia minutos atrás, cuido da pia

enquanto ele limpa o fogão.

Apesar de termos alguém pra


limpar, não somos muito bagunceiros.

Acho que esse fato foi o principal


motivo de termos considerado morar
juntos. Não tenho que me preocupar com
roupa espalhada por aí ou uma pia cheia
de copos sujos.

Assim que terminamos, Noah volta

para terminar de montar o seu brinquedo

e sigo para o quarto ao lado do meu

onde guardo alguns dos meus materiais


de pintura.

O pincel toma o controle de


minhas mãos e ganha vida enquanto mais
tinta é aplicada na tela. Quando enfim

termino, horas depois, nem me


surpreendo com o que pintei.

Tudo tem a ver com ela

ultimamente. O céu iluminado pelas

estrelas é só mais um lembrete de que

não posso desistir dela. Estamos juntos


nisso agora.

Eu só não estou tão perdido quanto


Grace está em sua própria vida porque
eu sei qual é o caminho que devo seguir

para me encontrar. E é em direção a ela.


Sempre vai ser.
☆♡☆

Capítulo 21

Antes

Ouço a maçaneta girar quando ela

abre a porta e entra no quarto, estacando


os pés no chão assim que me nota.

— Que merda está fazendo aqui?

— Viro a próxima página tranquilamente


ouvindo sua respiração funda. Quase

posso ouvi-la contar até dez para não se

jogar em cima de mim e me matar.

Mas isso só me deixaria feliz. Ela

sabe disso e, por ser uma garota má, ela

não vai me matar. Isso até me faz rir.

— Você invadiu o meu quarto? —


Ela pergunta, parecendo ofendida. E eu
nem sei por qual razão, até parece que
cometi um crime.

— Não é invasão quando se tem a

chave. — Ergo minha mão sem tirar os

olhos da página, apenas para que ela

veja o chaveiro que tenho.

— Onde diabos conseguiu a chave

do meu quarto?

— Ser o capitão do time de hóquei


tem suas vantagens, gata. E eu avisei que
queria a continuação do livro. — Dou
de ombros, indo para a próxima página.

Livro viciante do caralho, agora

entendo por que ela tem tantos.

— E isso inclui invadir

dormitórios de garotas indefesas?

— Isso e muito mais. —

Respondo, lançando um olhar por cima


do livro. — E você não é uma garota
indefesa.

Grace tem livros que pesam mais

que um tijolo, então nem preciso me


preocupar com a ideia de que ela fique

indefesa. Se estiver com o livro em

posse, vai matar a pessoa. No mínimo,

um traumatismo craniano.

Ouço quando ela bufa e sinto a

cama afundar quando ela se senta ao


meu lado, removendo seus sapatos antes
de pôr os pés na cama.

— Você leu aquele livro em uma

noite? — Pergunta ela sem deixar de


parecer descrente. Por outro lado, eu me

sinto ofendido.

— Sim. E você está me devendo

um café ou dois, por ter me deixado

ficar acordado a madrugada inteira. E, a

propósito, meu treinador está puto


comigo porque, aparentemente, eu
parecia um zumbi no gelo.

Vejo quando Grace segura a risada

antes de voltar a falar:

— Você sabe que começou pelo


segundo livro, não é?

— O primeiro seria com ela se

apaixonando por aquele filho da puta

que dorme enquanto ela vomitava as

tripas? — Grace assente ao meu lado,


apertando os lábios para não rir. —
Gata, eu não suportaria 400 páginas com
esse Tamlin. Fiz um favor para mim
mesmo.

Grace gargalha e, sem mais nem

menos, apoia a cabeça em meus ombros.

Quase paraliso por não saber o que

fazer. Nem em sonho eu imaginaria estar


deitado na cama de uma garota sem estar

transando com ela.

— Como foi a aula, gata?


Sinto seu sorriso surgir antes dela

ignorar a pergunta como sempre faz.


Parece que virou uma rotina nossa.

Ah, não. Sem essa de nossa. Não

existe nada nosso, além da frase “Nosso

sexo é espetacular”. Nem sei ao certo

porque estou aqui. O livro é viciante,


mas não tanto ao ponto de me fazer

seduzir a moça que tem a idade da minha


mãe que fica com as chaves. Não depois
de ouvir a voz do treinador gritando em
meu ouvido diversas vezes, mais do que
um ser humano com uma audição normal

possa aguentar. Tudo o que eu queria era


um minuto de paz e cá estou eu.

— Lê em voz alta? — Ela

pergunta, com receio da minha resposta.

Sei que vou me arrepender. Tenho

certeza de que vou me arrepender


amargamente disso. Mas, no momento
em que viro a próxima página iniciando

um novo capítulo, começo a ler em voz


alta com Grace deitada ao meu lado.

Acordo com uma garota deitada

em cima de mim. Não, não estou


sonhando. Eu dormi com uma garota
lendo, e não transando. Mas que porra!

Me mexo para pegar o celular que

toca em meu bolso, tentando não acordar


Grace, que se mexe dando as costas para

mim. Parece que alguém, assim como eu,

não dormiu a noite. Só queria saber por

quais motivos.

Atendo o celular, tentando me

levantar sem fazer movimentos bruscos


e acordá-la.
— Onde você está, porra? —

Noah soa irritado.

— Ocupado. — Sussurro
procurando por meus tênis que larguei

em algum lugar quando entrei no quarto

de Grace.

— Por que está sussurrando? —

Ele pergunta, mas não espera pela

resposta. — Não olhou a porra das


mensagens no grupo? O treinador Scott
está puto e quer a gente no gelo agora, já

que o capitão dele fez o favor de foder


com o treino hoje.

Noah normalmente é o mais calmo

de nosso time, mas, quando pisam no pé

dele por culpa de outro pessoa, o cara

vira uma fera. E o Noah puto me deixa


puto. E nós dois putos juntos não é legal.

— Traz sua bunda pra cá. Agora!

— Chego em 15. — Sem nenhuma


despedida, Noah desliga na minha cara.

Calço meus tênis e, antes de sair

do quarto, cubro Grace com a coberta


que estava dobrada nos pés da cama,

colocando na minha cabeça que só fiz

isso porque está frio. Tem algo errado,

mas nada que um treino com 15 caras


querendo te matar não resolva.

Pego o livro que estava lendo e


mais um emprestado da estante sem
olhar o título. Sem mais enrolação, saio

do quarto, deixando Grace em seu sono


profundo.

— Olha só quem apareceu... — O

treinador Scott range quando entro no


rinque deslizando sob meus patins. — Já
teve seu sono de beleza?

— Na verdade, tive sim. Até me

acordarem.

Alguns caras, os novatos, me


olham como se eu fosse maluco pela

audácia. Mas, cá entre nós, eu não

conseguiria esse posto sem ela. Me

tornei capitão no segundo ano. No

primeiro, eu ficava mais na reserva do


que no gelo, era um merda. Treinei pra
caramba pra chegar aonde estou e,

apesar de não querer levar isso para a


minha vida, gosto disso. Não menti para

Grace quando disse que as vantagens


eram ótimas.

O treinador Scott suspira

pesadamente antes de gritar para nós nos


posicionarmos.

Me inclino olhando para Noah a


minha frente que está com a camisa da
cor diferente da minha. Hoje ele é o

rival e, quando isso acontece, toda a


nossa parceria some e não há nada além

da ânsia por vencer. É a nossa maneira


de não pegar leve um com o outro só por

sermos amigos desde a infância.

— Você estava com ela. — Não é


uma pergunta. Ele sussurra aproveitando

a distração do treinador Scott, que está


ocupado gritando com Hunter na lateral.
É sua maneira de demonstrar o amor
pelo time, com gritos e mais gritos.

— Não é o que parece.

Noah bufa uma risada.

— Ah, é exatamente o que parece.

Está apegado a ela e só faz alguns dias.

O que acontece quando se passar mais

tempo? Namoro?

— Não seja tolo.

— Não. Já basta um de nós.


O apito soa e, antes do disco ser

jogado no chão, ouço os lábios de Noah


se abrirem sem transmitir som algum,

mas entendo perfeitamente quando ele


diz: “Definitivamente fodido, Seth.”

Não digo nada, apenas vou pra

cima e tomo posse do disco. Corro e


passo para Hunter, que o recebe bem e

se move. Ele passa o disco para Ryle,


que passa para mim, visualizo Drew que
defende o gol e minhas mãos vão para
trás, segurando o taco, mas, antes de
fazer minha jogada, uma montanha se

joga em cima de mim, roubando o disco


e passando para outra pessoa.

Noah me estende as mãos,

ajudando a me levantar.

— O que foi que eu disse?

— Que estou fodido.

— E como você está?


— Fodido.

— É isso aí.
☆♡☆
Capítulo 22
Agora

Entro no meu quarto sem que Triz


me veja, e pareço ter os meus 15 anos

de volta, quando saía escondido pulando

a janela do meu quarto. Fui pega. Todas

as malditas vezes meus pais estavam

esperando na sala de estar enquanto


tomavam chá, e perguntavam para onde
e com quem eu saíra. Não tinha nem
graça. E nenhum castigo também.

É por isso que estou mais

apreensiva por ser pega pela Triz do que

ficava com meus próprios pais. Eu só

não quero ter que mentir e me afastar de


Seth. Ainda não. Não até descobrir o

que está acontecendo. Até lá, tudo bem


conhecê-lo um pouco. Ele não é de um
todo ruim.

Acho que Seth só precisa de um

amigo. Uma companhia que não seja


Noah.

— Onde estava, mocinha? Pedi

pizza e tive que comer sozinha.

— Oh, meu Deus. Que tortura. —

Ela ri, mas os olhos desconfiados não

desgrudam de mim. Por isso, finjo


procurar algo na geladeira para não a
olhar. Como eu disse, eu prefiro ser
pega pelos meus pais.

— Com quem estava?

— O que está havendo com você,


Triz? — Ela ergue a sobrancelha quando

finalmente a encaro. — Está pior que

meus pais e você sabe muito bem disso.

Está paranoica desde aquele dia.

— Não estou não! — Sua voz afina


quando mente. — Só não quero você
perto daqueles caras, é pedir muito?

Fecho meus lábios para não soltar

que sei que ela mentiu sobre ter trepado


com Seth e toda aquela história ridícula.

Isso só a faria perguntar como sei, o que

me levaria a soltar a matraca e dizer que

vi Seth Mason.

— Você só está estranha, ok? Saí

pra pegar um ar. Tem algum problema


com isso?
Ela cruza os braços se encostando

no balcão.

— Não. — Ela fala, mas sei que


vê muito problema. — Seus pais

ligaram.

— Estão bem? — Ela assente,

respirando fundo em seguida. — Me

desculpa, tá? Eu só... Não consigo

esquecer isso e fico maluca. Sinto o


medo chegar em mim de novo. Amo
você pra caralho, B. Mais que a porra

das suas botas... E sinto medo.

— Medo de quê? — Ela aperta os


lábios. — Tudo bem. Não me conta.

Passo por ela e sigo para meu

quarto, ouvindo seus passos atrás de

mim.

— B?

— Quero ficar sozinha, Beatrice.


— Ela estaca quando ouve seu nome, e
não seu apelido. Entro em meu quarto

fechando a porta logo em seguida e


pegando meu celular assim que tranco o

quarto.

[23:01] Grace:

Ocupado?

[23:03] Seth Mason:


Pra você? Nunca

Aconteceu alguma coisa?

[23:04] Grace:

Minha amg tá maluca

[23:05] Seth Mason:

Por minha causa, eu suponho

Sinto muito
[23:06] Grace:

Não é sua culpa. Parte dela não

Só queria entender q merda tá


acontecendo

[23:07] Seth Mason:

Não posso contar, gata.

Fiz outro quadro, se quiser é seu.


[23:10] Grace:

Posso buscá-lo?

[23:11] Seth Mason:

Você sabe q sim.


— Mais café? — Ofereço para o

Sr. Jefferson, que vem tomar café em seu


horário de almoço sempre que pode. Me

considero sua amiga, já que sei todos os


seus pedidos só de olhá-lo, e faço o

mesmo com sua filha que está devorando

as rosquinhas.

— Por favor. — Ele agradece

rindo. — E um guardanapo pra nossa


Devoradora de Rosquinhas.
— Eu possu pedir o guardanapo

sozinha, papai. — Ela diz piscando os


olhos e erguendo o nariz feito uma

mocinha. — Com licença, tia Grace.


Você poderia me entregar guardanapos,

pu favo?

— Mas é claro, Lili. — Ela sorri


orgulhosa mostrando os dentes brancos

sujo de chocolate para seu pai que


gargalha.
Volto ao balcão reabastecendo o

bule de café preto e pegando alguns


guardanapos. Passo por Triz, que tem os

olhos cheios de mágoa, sem dizer nada.


Isso está me matando aos poucos e não

sei até onde minha curiosidade vai.

— Aqui está, pequena. — Estendo


os guardanapos a ela que já os usa. —

Mais alguma coisa?

— Podemos levar rosquinhas pra


mamãe, papai? — Lili pergunta

piscando os olhos castanhos para seu


pai. — Ela vai ficar uma fera se souber

que nós não levou.

— Nós não levamos. — Ele a

corrige.

— Ela vai brigar com você. —

Diz, o ignorando e olhando pra mim em

seguida. — Três rosquinhas pra viagem


pu favo, uma pra mamãe, uma pro
Bolinha e mais uma pra mim.

Olho para o Sr. Jefferson com as

sobrancelhas erguidas que assente com


um maneio de cabeça.

Pego as rosquinhas colocando no

saquinho de papel e os entrego. Lili que

faz questão de pagar pegando o dinheiro

da mão do seu pai e me entregando,

deixando uma gorjeta boa pra quem só


serviu cafés.
Eles me dão tchau antes de

atravessarem as portas, fazendo o sino


tilintar, ao mesmo tempo em que sinto os

olhos de Triz em minha nuca.

— O que foi? — Digo passando

por ela novamente, colocando o dinheiro

no caixa e o restante no meu potinho de


gorjeta.

— O que há com você, porra?

— Comigo? — Só pode estar de


brincadeira.

— Meninas. — Jonan chama a

nossa atenção apontando com a cabeça


as mesas que têm os olhos atentos em

nós duas. — Se resolvam em casa, aqui

não.

— Como se ela fosse me contar

alguma coisa. Preciso de ar, me dá um

tempinho, Jonan? — Ele assente


lançando um olhar estranho entre mim e
Triz. Ele mais que ninguém sabe que não

somos de brigar, muito menos em


público.

Atravesso as portas ouvindo Jonan

mandar Triz servir os clientes, e quase

giro meus pés de volta só pra agradecê-

lo.

Meus pés tomam vida própria, e

não é surpresa quando entro na Galeria


de Artes. Ignoro a insana vontade de
seguir até a sala onde toca o rock

quando encontro Noah sentado na mesa


da recepção.

— Olha só quem voltou. — Diz

ele, dividindo o olhar entre mim, o

notebook a sua frente e uma construção

pequena de Lego.

— Seth está?

— Foi buscar o almoço pra gente.


— Responde ele. — Pode esperar se
quiser.

Assinto olhando para os lados

vendo os quadros de paisagem cobrindo


as paredes. Sinto Noah olhar pra mim

enquanto meus olhos ainda estão nos

quadros.

— Ele fez tudo isso?

Noah assente com a cabeça.

— Era mais um hobbie. — Diz ele.


— Mas acontece que o cara é talentoso
pra caralho, e convenceram ele a abrir a

própria Galeria.

Sinto dor na sua voz. Olho para ele


mais uma vez que desvia o olhar pra

construção em miniatura.

— Foi a garota que ele gosta? —

Ele maneia a cabeça assentindo. — Ela

parece ser legal.

Isso faz ele erguer a cabeça e me


encarar.
— Ela era incrível. Éramos como

irmãos, sabe? — Noah abre um sorriso


nostálgico nos lábios. — Éramos

parceiros nisso. Ficamos acordados uma


noite inteira construindo um avião

enorme. Seth ficou puto, mas ela não

tava nem aí, parecia orgulhosa demais

pra se importar.

Ele ri me fazendo rir também. Mas


por dentro só sinto vontade de chorar.
Seth e Noah falam com tanto pesar que
parte meu coração. Então, seja lá quem
Seth perdeu, Noah perdeu também.

Me aproximo receosa e estou o

encarando com medo da resposta

quando pergunto:

— Posso ser sua nova parceira?

— Seus olhos se iluminam e ele abre um

sorriso sincero, puxando uma cadeira


para me sentar ao seu lado.
— Obrigado por ser minha

parceira, Grace.

— Obrigada por me deixar ser sua


parceira, Noah.
☆♡☆
Capítulo 23

Antes

— Precisamos conversar. — Sua

voz soa grave do outro lado da linha.

— São 4 horas da manhã, Seth.


Que porra você quer?
—Você por um acaso me julgou à

primeira vista por causa da porra de um


livro? — Não entendo nada do que ele

quis dizer. Na verdade, não sei nem qual


é o meu nome. Acho que é Claudia.

— Do que está falando? —

Pergunto reprimindo um bocejo.

— Comecei a ler um outro livro

seu. — Meus olhos vão instantemente


para minha estante. Semicerro meus
olhos no escuro e noto que um está

faltando, mas ainda não tenho força e


muito menos vontade para me levantar e

ver qual que não está comigo.

— Você roubou meu livro? —

Reprimo a vontade de gritar para não

acordar Triz.

— Não. Eu peguei emprestado.

— Ah, é? E quando ia me avisar?

Posso sentir Seth revirando os


olhos enquanto sopra o ar pela boca.

— Agora? A questão não é essa.

— A questão é que você ligou 4

horas da manhã pra falar de livros, Seth!


Tem mesmo que falar sobre isso?

Agora? São 4 horas, cara. — Friso as

horas mais uma vez, mas acho que ele

não se importa muito, já que me ignora.

— Gata, você lê a porra de um


livro onde tem um jogador machista e
automaticamente considera todos os
jogadores machistas que só querem
foder? Por isso não queria transar

comigo?

— Você soou como eles agora.

— Foda-se. O que eu quero que

entenda é que me sinto muito ofendido

por ser generalizado. Maria-patins?

Sério? — Ele ri irritado. — Isso é


ofensivo pra cacete.
— Não é porque eu leio que

concordo com tudo, Seth Mason. Tenho


minhas próprias opiniões.

— Aham. Sua opinião

generalizada sobre jogadores. Você é

jogadorfóbica.

— Essa palavra nem existe.

— Não. Porque não existia até

você ser uma.

Sento-me na cama, bufando alto


para que ele escute. Calço minhas

pantufas saindo do quarto antes que Triz


comece a reclamar do barulho.

— Você leu a noite inteira? —

Ouço um ruído como resposta. — E

quando é que você dorme?

— Não consigo dormir.

E, aparentemente, não vai me

deixar dormir também.

— Eu não te acho um jogador


cabeça oca. Na maior parte das vezes.

— O ouço rir. — Você é bem mais que


eles.

— Sério?

— Sim. Agora me deixa dormir,

porra. Eu tenho aula, cara. E você

provavelmente tem treino. — Ele deixa

uma risada escapar. Isso causa uma

vibração em mim, mas a ignoro.

— Grace? — Chama antes que eu


possa desligar.

— Hum?

— Sábado às 4.

— O quê?

— Um encontro, amor.

Seth quer sair comigo de novo?

— Ok... — Aperto meus lábios


tentando ignorar a vontade insana de

sorrir. — Agora vá dormir, pelo bem de


nós dois.

— Boa noite, Grace.

— Boa noite, Seth.

O dia está quente hoje. O

que significa que o ar-


condicionado da sala ficou

ligado o tempo inteiro para

aliviar o calor do ambiente.

Mas, para mim, significa que


espirrei a cada segundo. Era
difícil se concentrar quando o
meu esforço maior era pra não

espirrar tão alto.


Sou tão delicada quanto
um rinoceronte.
— Suas notas estão cada vez mais
excelentes, Senhorita Lorey. — A Sra.

Kohelan diz quando passo por ela ao

descer os degraus do auditório.

— Os dias sem dormir estão

valendo a pena. — Ela ri e, antes que


possamos continuar a conversa que não
estou a fim de ter – pois meu nariz está

pedindo socorro -, um anjo de cabelo


castanho claro e olhos vívidos bate na

porta aberta com o punho.

— Senhora Kohelan?

— Sherlock.

Engasgo em uma risada. Tento

evitar tampando a boca, mas não resisto

e gargalho, recebendo uma revirada de


olho de Noah, que não está nem aí. Acho
que está acostumado.

— Perdão. Mas sério, cara? Seus

pais te odeiam?

— Era o nome do meu bisavô. —


Ele leva a mão ao peito, mas os lábios

estão trêmulos por segurar as risadas.

— Diz, por favor, que ele andava

com uma lupa e um relógio de bolso.

— Na verdade, era um telescópio.


— Gargalho ainda mais alto. A tosse
falsa da Sra. Kohelan me faz parar. Ou

quase. Estou apertando os lábios com


muita força.

— O que você gostaria, Noah? —

Ela pergunta, tentando evitar dizer seu

sobrenome.

— Colin se machucou feio no

treino de hoje e não vai poder fazer a

prova do próximo período. Vim avisar.

— Preciso do atestado médico.


Noah o estende, claramente já

esperando por isso. A Sra. Kohelan lê o


papel por trás dos óculos redondos nada

contente. O que deixa evidente que as


faltas são frequentes.

— Ok. Esses jogadores de hóquei

só vão parar quando estiverem mortos...


— Ela continua falando enquanto deixa

a sala.

Saio com Noah ao meu lado,


recebendo olhares nada disfarçados por

todo lugar. Noah percebe meu


desconforto, apoiando a mão nas minhas

costas e me levando por outro caminho.

— Por que me olham como se eu

fosse a primeira-dama? Outras me

olham como se fossem me atingir com


tijolos.

— Você sabe bem o porquê. — Ele


diz como se fosse óbvio. — E acho que
sabe que não vai parar até que se afaste

dele. Os boatos aqui correm rápido, e


Seth não é uma pessoa que passa

despercebida enquanto invade um


dormitório.

— Você diz isso como se fosse

fácil afastá-lo. — Passamos pela porta e


eu sinto o ar quente em minha pele.

Quase sinto falta do ar-condicionado.


Quase.
Noah se coloca a minha frente, me

impedindo de andar. Levanto o queixo


junto a sobrancelha quando encaro seus

olhos castanhos.

— A pergunta é: Você quer que ele

se afaste de você?

Abro a minha boca, mas nada sai.

— Vocês dois vão me dar trabalho.

— Ele murmura, respirando fundo. —


Se for pra ser, tudo bem. Até agradeço
porque não vejo mais a Seth nu trepando
na sala desde que vocês se conheceram.
Não era uma imagem agradável. —

Imaginar Seth transando é agradável pra


mim, mas só quando é comigo. — Mas

Grace, conheci aquele cara antes mesmo

de usar fraldas. Só não brinca com ele,

está bem? Se não estiver a fim, não finja

que está. Porque Seth está.

— Como pode saber disso?


Ele volta a andar e eu o sigo, me

colocando ao seu lado.

— Ele está lendo. Pior, está


gostando. — Noah grunhe. — Eu não

aguento mais ouvir as opiniões dele

sobre o livro. Ele não me deixa em paz

nem no banho, porra.

Isso eu gostaria muito de ver, mas

engulo a risada para não o irritar. Noah


parece ser um cara legal, além de um
bom amigo, como demonstra ser a

respeito de Seth.

— Só vamos combinar uma coisa:


convença o Seth de não atrapalhar mais

o meu banho, porque já estou no limite

de arrebentar a cara dele.

— E, em troca, quero que o

convença a não invadir mais o meu

quarto. Parece um psicopata.

— Não é? — Ele gargalha. —


Fechado.

Ele estende sua mão e eu a seguro

dando um aperto.

— Gostei da nossa nova parceria,


Grace.

— Vou pensar antes de dizer o

mesmo em relação a você. — Digo

séria, arrancando mais um de seus

sorrisos.

É. Talvez seja bom ter Noah como


um amigo.
☆♡☆

Capítulo 24

Agora

Assim que passo pelas portas da


minha Galeria recém-formada, estaco na

soleira e preciso piscar meus olhos


algumas vezes para saber se o que estou

vendo não é uma miragem.

É a minha Grace.

Não a Grace que não se lembra

mais de mim. Mas a Grace que conheci

em uma festa e nos apegamos desde

então. É essa Grace que eu vejo agora,


montando mais um dos brinquedos
ridículos do Noah.

E ele também sabe disso. Sei pelos

seus olhos que me encontram enquanto


Grace está concentrada na pequena peça

que tem em mãos. Noah me encara com

os olhos assombrados e admirados.

É a mesma forma que estou

encarando Grace.

— Oi — Digo, tentando não


demonstrar o surto interno que está
acontecendo comigo nesse exato
momento. Grace dá um pulo na cadeira e
me encara com os olhos regalados.

— Eu... Oi? — O que ela está

fazendo aqui? Não deveria estar no

trabalho? Não quero fazer essas

perguntas, porque não quero que ela vá


embora. — Eu vim... não sei exatamente

por que eu vim, mas... Porra, que cheiro


bom.
Dou risada erguendo a sacola de

papel que tenho em mãos com a comida


chinesa.

— Quer? Acho que comprei mais

do que deveria. — Minto dando de

ombros enquanto Noah prende a risada.

Comemos feito monstros. A

comida nunca sobra e todas as vezes

brigamos pelo último pedaço como se


fossemos mortos de fome.
Mas se dividir a comida com

Grace significa que ela vai ficar, então


tudo bem.

— Nunca comi. — Ela diz,

parecendo envergonhada. Mas eu só me

aproximo colocando a sacola na parte

vazia da mesa e me sento ao seu lado.

Grace ama comida chinesa. Sei

disso porque a primeira vez que ela


comeu foi comigo. Gostou tanto que até
roubou a minha comida.

— Acho que vai gostar disso aqui.

— Estendo a caixa com Dan Dan Mian


[3]
, o seu preferido. Ela pega a caixa e,
ao invés de pegar o hashi, opta pelo

garfo de plástico, já que ela não lembra

que sabe muito bem usar os palitos.

Retiro a caixa com a comida de


Noah e entrego, antes de pegar a minha.

— Ah, já ia esquecendo. — Noah


diz. — Preciso mostrar uma das
encomendas que chegou... lá atrás. —
Ele arqueia a sobrancelha

sugestivamente.

Assinto dizendo para Grace que

voltaremos logo. Ela assente com o

macarrão na boca soltando um “Está


muito bom.”

Vou para a última sala, nos fundos


da Galeria, onde guardo todas as caixas
de materiais de pinturas e novas telas.

Noah passa por mim assim que


atravesso a porta e começa a andar de

um lado para o outro enquanto leva suas


mãos para a nuca parecendo nervoso, o

que só me deixa mais nervoso ainda.

— É a Grace.

Meu coração parece pular pela

boca, mas só cruzo os braços e me


encosto na porta.
— Eu sei que é a Grace.

— Não, cara. Você não está

entendendo. Aquela ali é a sua Grace.


Nossa Grace.

— Do que está falando? — Ele

para de andar, os olhos estão

assombrados. Ele abre a boca, mas nada

sai. Volta a andar novamente e estou

quase pulando em seu pescoço e o


fazendo falar.
— Eu não sei como explicar. —

Ele finalmente para de andar e se senta,


escorregando até o chão. — Você não

monta aquela merda de uma hora pra


outra se não souber nada. Eu sei todas as

técnicas, e tudo que a Grace sabe, eu

que ensinei. Ela montou aquela porra

sozinha, caralho.

Engulo em seco, tentando ver por


outro ângulo, apenas para acalmar o meu
coração que bate em um ritmo
acelerado. — Talvez ela só seja boa.

— Não. — Ele sacode a cabeça


agoniado. — Grace não sabia nada. Eu

queria matá-la antes por me atrapalhar.

Depois que ensinei tudo, peça por peça,

ela ficou boa. Não sei, cara. Não sei o


que acontece com o cérebro dela, mas

uma parte lembra. Só está trancada em


algum lugar. Mas ela lembra.
Noah olha para cima, para mim,

enquanto pisca os olhos, afastando a


agonia que sente.

— Por favor, não me ache louco.

Eu sei que é ela. É a minha melhor

amiga ali. — Uma lágrima cai e ele a

limpa com a manga de seu moletom,


fechando os olhos em seguida e

apoiando a cabeça na parede. Sento-me


ao seu lado, imitando a sua posição,
também fechado meus olhos.

— Sei que é ela. — Falo em um

sussurro. — Sei que é nossa Grace ali.

Ele assente, apertando os lábios.


Depois respira fundo antes de se

levantar e estender a mão para me

ajudar. Trocamos olhares cúmplices,

sem precisar dizer uma palavra para nos

comunicarmos. Eu respiro fundo também


antes de voltar para a mesa de Noah, na
recepção.

Noah me dá uma cotovelada

olhando para Grace. Sigo a direção de


seus olhos vendo Grace usando o hashi

sem problema algum. Sem ninguém a

ensinar.

Noah está certo. Uma parte do

cérebro da Grace não esqueceu nada e é

nessa parte que as lembranças comigo e


Noah estão.
— Por que estão me olhando com

essa cara? — Ela pergunta com o cenho


franzido.

Dou de ombros junto a Noah,

voltando a me sentar ao seu lado.

— Só gostamos de ter você como

amiga. — Noah fala por nós dois,

arrancando um sorriso de Grace.

Voltamos a comer e preciso de


muito esforço para não chorar quando
ouço Grace e Noah tagarelarem sobre a
construção que estão fazendo. Como nos
velhos tempos.
☆♡☆
Capítulo 25

Antes

Termino meu portfólio com as


fotos que tirei para o trabalho do Sr.

Paul e me jogo em minha cama pegando

o livro da Grace. Mas, antes de abri-lo e


devorá-lo como fiz com os outros, uma
batida soa na porta, atraindo minha
atenção.

— Noah perguntou se é ele que vai

fazer o jantar hoje, porque se você for

fazer, é melhor levantar a sua bunda daí.

Estamos com fome.

Reviro meus olhos encarando

Ryle. Os olhos claros são herança de


família. Ryle é um primo distante que foi
transferido para a New York University

no ano passado. Não somos tão


próximos como eu e Noah, mas Ryle é

um cara legal, apesar de torrar minha


paciência às vezes, como todo o time.

— Eu cozinho. — Digo, me

levantando. — Se eu ouvir Noah falando


das habilidades dele na cozinha mais

uma vez, vou matá-lo.

Ryle ri quando descemos as


escadas, encontrando Noah com seu

avental escrito “Mãe da Casa”. Foi um


presente dado pelo time no aniversário

de Noah. Pelo menos foi melhor do que


o anterior, que era um pau de borracha.

— Olha só quem está aqui. —

Suas sobrancelhas se erguem. —Alguém


que quer nos matar de fome!

Gargalho empurrando-o para o


lado e abrindo o armário. Os mortos de
fome devoraram duas pizzas depois do

treino e isso não faz nem duas horas.

Decido por fazer bolo de carne e


macarrão com queijo. Enquanto cozinho,

ouço Noah tagarelando ao meu lado

sobre o sal que coloquei demais e o

queijo que coloquei de menos.

É a forma dele de confortar a si

mesmo, já que sabe que meus dotes


culinários são melhores que os dele.
— Tá errado. — Ele diz, sentado

no balcão.

— Como que ligar o forno está


errado, seu babaca? — Pergunto, o

encarando.

— Só tá errado, cara. Faz direito.

Ergo meu dedo do meio para ele

que retribui o gesto carinhoso antes de ir

até o temporizador e o acionando para


que toque assim que as coisas estiverem
assadas.

A campainha toca e vejo Ryle

passando pela porta para ir atender.

— É pra você, capitão.

— Grace? — Pergunto sentindo os

olhos afiados de Noah em mim, mas nem

me importo, olho para Ryle e quase

tenho a expressão de decepção no meu

rosto quando Mandy entra na cozinha. —


Ah. Oi?
— Devo me sentir mal por ser

recebida assim? — Mandy faz biquinho


e reprimo a necessidade de revirar os

olhos.

— O que quer? — Pergunto sem

rodeios.

— Você nunca mais me ligou,

bebê. — Como responder que não estou

mais interessado nela sem parecer um


babaca? Ah, lembrei. Eu não me importo
em parecer um babaca.

— Não estou mais interessado,

Mandy. — Apoio meu antebraço no


balcão. — Você pode nos dar licença?

Tem um jantar pra acontecer e você não

está convidada.

Sua face muda completamente. O

sorriso some e os olhos tão azuis quanto

os meus escurecem.

— É por causa daquela vaca sem


estilo?

Aperto meus punhos e sinto minha

mandíbula trincar, minha voz sai fria


quando respondo:

— Não. E não fala mais assim

dela.

Mandy ri cruzando os braços.

— Eu preciso ir até ela para dar os

parabéns? Porque ela fez o impossível


colocando uma coleira em você. Estou
impressionada com isso, Mason.

— Mandy... — Ela me corta.

— Você já está de quatro por ela.

Essa é uma história muito boa pra


contar. Imagine só, o maior galinha do

New York University virou pau mandado

de alguém que mal chegou no campus.

Saio de trás do balcão e vou até

ela. Vejo quando ela engole em seco


quando seguro o seu pulso e ando para
fora da cozinha.

— O que está fazendo?

Subo as escadas com ela em meu

encalço, nos direcionando até meu


quarto. Fecho a porta com um baque

quando entramos e a empurro para a

minha cama.

— Mostrando que não sou pau

mandado de ninguém. Agora tira a


roupa. Não vou pedir duas vezes.
Mandy sorri maliciosa antes de

fazer exatamente o que pedi.

Sento no sofá, sentindo os olhos

dos caras em mim quando a porta da

sala bate assim que Mandy passa por


ela.
— Foi rápido. — É Hunter quem

diz.

Fecho meus olhos com força,


afundando minha cabeça no estofado do

sofá.

— Acho que tenho um problema.

— Digo, ainda de olhos fechados. Ouço

Noah bufar antes de dizer:

— É claro que tem. É a Mandy. —


Diz, como se fosse óbvio.
— Não. Não é esse o problema. É

lá.

— Lá aonde? — Ryle pergunta.

Não respondo. Continuo com os


olhos fechados, sentindo os três olharem

pra mim enquanto raciocinam. Engulo

em seco quando Noah cospe uma risada

e começa a gargalhar, seguido por

Hunter e Ryle.

— Cara... seu pau não subiu?


Se ele quer que eu afirme com

todas as letras, vai esperar sentado.

— Porra! — Noah gargalha ainda


mais e suponho que tem até lágrimas

saindo de seus olhos. — O que foi que

aconteceu, Seth?

Abro os olhos frustrado, encarando

os três que estão literalmente chorando

de rir.

— Não sei porra. Não rolou.


Daqui a pouco o campus inteiro vai
saber disso se depender da Mandy.

— Nem precisa se preocupar com


isso. — Noah fala soando sério agora,

mas ainda há um resquício de diversão

em seus olhos. — Todos sabem do seu

longo histórico e vão achar que o


problema é com a própria Mandy.

Bufo me levantando, indo para a


cozinha, pegando os pratos no armário e
colocando sobre o balcão.

— Relaxa, Mason. — Ryle diz

segurando a risada. — Nada que viagra


não possa resolver.

— Há há. — Forço uma risada,

mudando o foco para a comida que

coloco na mesa enquanto os caras se

sentam ao redor dela. Sinto o olhar de

Noah em mim. — Que foi, porra?

— Você é burro ou só finge


mesmo?

— Como é?

— Burro. — Ele chega a

conclusão. — É burro.

— Vai se foder, caralho. — Sirvo

meu prato e me sento.

— Pelo menos eu consigo foder e

muito bem, obrigado. — Ele diz fazendo

Hunter se engasgar com o bolo de carne.


— Tá apaixonado, cara. — Agora é
Ryle que se engasga.

— Vai. Pro. Inferno. — Digo

pausadamente, mas isso só faz Noah rir.

— Seu pau está apaixonado por


ela. Contra fatos não há argumentos,

cara, aceite as consequências. Porque

vou gostar de ver isso de camarote.


☆♡☆

Capítulo 26

Agora

— Acho que preciso pedir

desculpas por ter acabado com o almoço


de vocês. — Falo sem graça, mas o
olhar de Seth é divertido e me faz
relaxar.

— Foi bom ter mais uma


companhia. Uma que não seja Noah. —

Ele diz, abrindo a porta da mesma sala

em que me pintara uma vez.

Cuspo o chiclete de menta que

Noah nos oferecera no lixo mais

próximo. Ele teve que sair assim que


terminamos de comer para levar um dos
quadros de Seth para seu comprador.

Pelo que entendi, Seth vive disso, da


arte. E a melhor parte é que ele parece

amar isso.

— E aquele seu amigo? — Ele

franze as sobrancelhas. — O que

perguntou se meu número estava no


cardápio.

Seth Mason ri antes de responder.

— É meu primo, Ryle. É o último


ano dele na New York University e
passou pra dar um oi.

Sinto um aperto em meu peito


quando ele diz isso. Queria muito ter

tido o meu último ano, ou melhor,

lembrar do meu último ano. Pisco meus

olhos afastando a dor, mas não rápido o


suficiente para que Seth não veja.

— Algum problema, gata?

Apenas dou de ombros, me


sentando em um dos pufs vermelhos que
ele tem pela sala.

— Fiz meu último ano lá. — Solto


quando Seth me dá as costas para mexer

em uma caixa.

Sua voz sai baixa quando pergunta:

— E como foi?

— Gostaria de saber também.

Ele continua mexendo na caixa

com tinta. Acho que deve estar difícil


encontrar o que ele procura. Até parece
que está evitando olhar pra mim.

— O que quer dizer com isso?

Me levanto indo até ele, ficando a


um passo de distância olhando para suas

costas largas. Sinto quando ele prende a

respiração pela minha aproximação.

— Por que não está olhando pra

mim? — Assim que digo isso, Seth se


vira para ficar de frente pra mim. Ergo o
queixo para olhar em seus olhos azuis,
me segurando para não mergulhar neles.
— Já tínhamos nos visto antes, Seth?

Por que meu coração está batendo

como se eu tivesse corrido uma

maratona sem parar? Por que minhas

mãos estão soando?

Parte de mim quer que ele

responda sim, porque dessa forma terei


ao menos uma desculpa para meu corpo
reagindo assim quando está perto dele.

Mas a outra parte quer ouvir um não,


porque não suportaria a ideia de saber

que esqueci alguém.

Mas eu não sei por que dói quando

ele diz baixo o suficiente para que só

nós dois pudéssemos ouvir.

— Não, Grace.

Engulo em seco quando ele dá um


passo para a frente, fechando a distância
entre nós. Nossas respirações se
misturam quando ele se inclina em
minha direção. Solto o ar pela boca

quando seus lábios carnudos ficam a


menos de um milímetro dos meus.

— Queria ter me conhecido antes,

gata? — Seus lábios estão perto, muito


perto. Mas não estão perto o suficiente.

Sim.

Não.
Não sei.

Não consigo pensar.

— Porque eu teria adorado. — Sua

voz é só um vento que acaricia a minha


pele. — Adorado a porra de cada

segundo com você. Mas você teria?

Teria adorado estar comigo?

— Sim. — Sussurro.

— Grace?

— Hum?
— Vou beijá-la agora. — Seus

lábios roçam nos meus. — E não vou


parar mais.
Capítulo 27
Antes

Não vi Seth Mason durante a

semana, mas trocávamos mensagens.

Muitas. Sempre que meu celular apitava,


eu recebia um sorriso malicioso de Triz
e Jef, ambos já até tentaram roubar meu
celular para ver nossas conversas.

Visto um vestido vermelho de alça


que se agarra em meus seios e minha

cintura, valorizando algumas curvas que

tenho. Ele é soltinho, pois o clima não é

dos mais frios, mas também não é dos


mais quentes. E, como não tenho ideia

de para onde Seth irá me levar, pego o


mesmo tênis branco que usei no dia do
parque.

Faltam três minutos para o horário

marcado quando alguém bate a porta.


Aliso meu vestido antes de aplicar o

gloss e ir encontrá-lo. Seth está em sua

típica jaqueta de couro preta, com uma

camiseta por baixo da mesma cor. A


calça e o tênis também escuros.

Ele se apoia no batente da porta


antes de dizer da maneira mais sensual
que consegue.

— Olá, Grace, querida.

A gargalhada sai de mim sem eu

nem me importar por atrair a atenção de


quem passa no corredor do alojamento.

Gargalho até minha barriga doer

enquanto Seth me olha apertando os

lábios, tentando se mostrar sério.

— Eu ronronaria, mas não sei


como fazer isso. — Isso só me faz
gargalhar ainda mais. — Tá bom, gata.
Já entendi. Nunca mais vou imitar um
personagem.

— Não para nunca. É um bom

show. — Digo quando minha risada

cessa. Seth abre um sorriso sem

perceber, estendendo a mão para que eu


a segure, mas, quando sinto olhares

vindo do lado esquerdo do corredor,


simplesmente travo.
Seth olha por cima dos ombros, e

as garotas que até então estavam nos


encarando desviam o olhar entrando em

um dos quartos. Ele volta a olhar pra


mim engolindo em seco antes de

perguntar.

— Te incomoda? — Franzo minhas


sobrancelhas. — Sair comigo. Te

incomoda?

— O quê? Não.
— Mesmo?

— Não me incomodo, Seth. —

Aponto para a porta fechada. — Aquilo


me incomoda.

Seth respira fundo segurando a

minha mão. Fecho a porta atrás de mim

com a outra e ando a seu lado até

chegarmos no carro. Quando já estou

dentro e com o cinto de segurança, Seth


se vira, me encarando com a cabeça
encostada no banco.

— Me desculpa. — Ele diz

parecendo envergonhado. — Não queria


que passasse por isso, mas vou

compensar.

— Com o que exatamente?

— Surpresa, gata.


— Se contar pra alguém que te

trouxe aqui por vontade própria, eu


esqueço tudo o que temos e te mato,

amor.

Apesar do frio na barriga que sinto

quando ele diz que temos algo e a

ameaça eminente, meus lábios se

esticam ainda mais quando me deparo


com a melhor livraria localizada em
Greenwich Village. A Mercer Street

Books.

Meus olhos brilham e quase posso


senti-los molhados quando me deparo

com o BOOK em letras iluminadas.

Ouço a risada de Seth quando dou

pulinhos animados e seguro a sua mão o


arrastando para dentro.

Sinto o cheiro dos livros. Fecho


meus olhos, inalando o ambiente sem
nem me importar de estar parecendo

uma maluca ao lado do capitão do time


da universidade.

Os corredores são estreitos, já que

o lugar é cheio de prateleiras e estantes

enfileiradas. Seth anda a minha frente

segurando a minha mão, e acho que


estou tão eufórica nesse lugar que

pareço uma criança em uma loja de


brinquedos, onde o responsável precisa
segurá-la para que não a perca.
Passamos por alguns caminhos onde tem
algumas pessoas sentadas no chão

enquanto leem perdidas em seu próprio


mundo, outras estão sentadas nas

cadeiras enquanto leem o mesmo livro.

Paraíso. É o que isso é.

Paramos em um corredor vazio, e

Seth solta a minha mão olhando para as


prateleiras. Eu fiquei olhando para tanta
coisa que nem vi em que sessão
estamos. Mas não me importo, estou
rodeada por livros.

Alguém me tranca aqui dentro, por

favor. E não me deixe mais sair.

Seth escolhe um livro e se senta no

chão. Encaro com as sobrancelhas

erguidas quando ele dobra os joelhos e

apoia as suas costas na estante.

— Você vai ler? — Pergunto.


Minha voz sai mais descrente do que
deveria, fazendo Seth Mason revirar os
olhos.

— Estou em uma livraria, gata. O

que quer que eu faça? Fume?

— Você fuma?

Outra revirada de olhos.

— Se não pegar um livro e sentar

essa bunda gostosa aqui do meu lado,


vou fazer algo que vai nos expulsar
daqui. — O olhar malicioso que ele me

dá faz com que minha mente grite


“Perigo”.

— Tipo? — Cruzo meus braços

voltando a olhar para a estante.

— Vou fazê-la gozar aqui. E não

vou tampar sua boca quando você gemer

alto.

Ignoro a vibração em minhas


pernas, pegando qualquer livro e me
sentando à dois palmos de distância de
Seth, que tem um sorriso vitorioso nos
lábios. Ele acaba com a distância me

puxando pela cintura e colando seu


corpo no meu. E, sem dizer uma palavra,

ele torna esse o dia mais especial da

minha vida. Um dia que nunca vou

esquecer.
Me assusto quando Seth esbraveja

ao meu lado. Prendo o riso quando ergo


meu rosto para vê-lo encarar o livro em

suas mãos como se fosse matá-lo. Não


sei se dou risada ou se fico preocupada

com a possibilidade de Seth Mason

arremessar esse livro para longe.

Estamos há horas aqui. Muitas

horas. Já mudamos nossas posições para


o chão duro não incomodar nossas
bundas quatro vezes e o senhorzinho que
toma conta até nos entregou uma
almofada quando percebeu que

estávamos mergulhados em nossa


própria bolha.

— Ele, — Seth sacode a cabeça

trincando o maxilar de raiva. — Ele


torturou um bebê. Um bebê, porra!

— Seth! — Me jogo nele


tampando sua boca quando ele grita alto
demais. Ele continua esbravejando

contra a minha mão, semicerrando os


olhos e franzindo as sobrancelhas

conforme xinga e se descarrega. Quando


sinto sua boca parar de se mover na

palma da minha mão, o libero.

— Ele. Torturou. Um. Bebê. —


Repete ele em sussurro. — É esse o tipo

de livro que você lê, Grace? Estou em


perigo ao seu lado?
— Tecnicamente, ela que torturou.

Não ele. — Digo defendendo meu


personagem preferido.

— Porque ele a obrigou, caralho!

Não acredito que está cobrindo isso,

gata. Estou começando a me preocupar

com sua sanidade.

— Ele é lindo. — Encolho meus

ombros, ignorando a imensa vontade que


sinto de gargalhar quando Seth me olha
indignado.

— Sair comigo não quer porque

jogo hóquei, mas se esse torturador de


bebês bater na sua porta e te convidar

pra sair, você vai?

— Isso.

— Estou transando com uma

psicopata. — Diz ele incrédulo,

voltando a abrir o livro de onde parou.


— Estou fodendo a porra de uma
psicopata.

Saímos da livraria junto ao


senhorzinho, agora apresentado como

Joey, que cuida desse lugar há 10 anos.

Ele já estava acostumado com leitores

vindo e ficando até o horário de

fechamento. Nos despedimos dele com


um aceno de cabeça e sorrisos, já que
minhas mãos seguram os copos de café
que ganhamos de Joey e as mãos de Seth
seguram a saga de livros que comprou

só pra falar mal sobre o Torturador de


Bebês com propriedade. Palavras do

próprio Seth. Além disso, ele me

presenteou com alguns livros e não vejo

a hora de poder começá-los. Só não vou

começar hoje porque lemos tanto que

sinto minha cabeça pesada. Mas


repetiria esse dia mil vezes mais, se

pudesse.

Dirigimos os poucos quilômetros


de volta para a universidade. Seth para

em frente ao alojamento onde eu fico e,

antes de me virar para abrir a porta,

sinto a mão de Seth na minha coxa.

— A temporada de jogos já vai

começar, — Ele diz olhando para mim.


O azul em seus olhos parece o fundo do
oceano com a pouca luz do carro. — Se

quiser ir ver meu time jogar... — Diz


sugestivamente.

— Está me convidando pra ir

assistir você jogar?

Ele dá de ombros arqueando as

sobrancelhas, tombando a cabeça de

lado. Sua mão continua em minha coxa.

— Você vai?

Mordo minha bochecha interna


desviando os olhos para a janela. Só tem

alguns universitários saindo, prontos


para se divertirem em alguma festa

começando sua noite quando a minha já


chegou ao fim.

— O que somos, Seth? — Volto a

encará-lo.

Não sei se isso está indo longe

demais, porque nem sei o que sou para


ele. Amiga? Amiga colorida? Claro,
saímos e transamos, mas não temos nada

que nos classifique. E não sei por que


isso me incomoda, já que fui eu a dizer

“não” para ele várias vezes.

Noah estava certo. Gosto de Seth e

estou a fim dele. Mas ele não precisa se

preocupar com que eu o machuque,


porque vou estar ocupada demais

tentando não me machucar.

— Eu não sei. — Seth diz em um


suspiro. — Mas gosto de sair com você.

— Ainda é por causa do sexo?

Seth junta as sobrancelhas e abre a

boca, mas nenhum som sai dela. Depois,


desvia o olhar para frente.

— Não consigo dizer que é por

causa do sexo olhando pra você. Porque

seria mentira.

Por que meu coração está


acelerado?
— Mas não quero iludi-la com um

possível namoro, gata. Não é pra mim.


Essa coisa de se apaixonar.

— Ainda sou seu desafio? —

Pergunto para ele. Seth ergue os lábios e

me encara novamente enquanto se

aproxima de mim.

Nossos lábios estão perto demais,

roçando um no outro. Meus olhos se


fecham sem minha permissão e sinto que
ele está olhando quando meus lábios se

entreabrem.

— Sim. Você ainda é meu desafio,


Grace. — Ele se aproxima mais roçando

nossos lábios. — Mas agora, o desafio

maior é tentar me afastar de você. E

acho que, pela primeira vez, não ligo de


perder. — Engulo em seco a tempo de

sentir a sua língua deslizar em minha


boca. Sua mão segura meus cabelos, me
puxando para mais perto e eu arfo
quando levo minhas mãos até seu
abdômen precisando senti-lo.

Não ligo de beijá-lo até não

conseguir mais respirar. Não ligo

porque sinto que agora estamos jogando

o mesmo jogo, a mesma porra de


desafio. O desafio de nos separarmos

vai ser difícil para nós dois. Não quero


que isso aconteça, e não ligo de perder
também.

Sei que estou definitivamente

fodida quando tudo que vejo é seu mar


azul e tudo que eu faço é me afogar nele.
☆♡☆
Capítulo 28
Agora

Seth segura minha cintura, me


colocando em cima da mesa. Algumas

coisas caem no chão, mas não me

importo. Não agora.

A boca de Seth toma posse da

minha. Ele não está sendo delicado, está


me devorando como se estivesse faminto

a meses. Longe de mim reclamar disso.


Seguro a gola de sua jaqueta o puxando

pra mim, e ouço o seu gemido que faz


com que minhas pernas tremam.

— Grace — Ele geme. Sua boca

vai para a dobra do meu pescoço. Ele


beija e mordisca e, a cada segundo que

passa, estou mais delirante. Seus lábios


voltam para os meus, e mordo seu lábio
inferior com meus dentes recebendo um
aperto em minha cintura.

— Seth. — Seth se afasta me


encarando. Os olhos azuis dilatados me

encaram enquanto tenta acalmar sua

respiração.

Suas mãos saem da minha cintura

indo para meu rosto. Ele segura minhas

bochechas e me olha com tanta ternura


que mal posso suportar. E, mais uma
vez, Seth me beija. De modo lento, como

se aproveitasse cada segundo de nossos


beijos. Sua língua desliza na minha, se

entrelaçando como se fôssemos um.

Circulo seu pescoço com meus

braços, afundando minhas mãos em seus

cabelos, que são tão macios quanto


imaginei. O beijo terno termina quando

ele se afasta deixando um selinho em


meus lábios e apoiando suas mãos nas
minhas, que ainda estão nele.

— Você disse que não ia parar. —

Digo com a voz rouca. Seth sorri de


lado no meio das minhas pernas, sem

tirar os olhos de mim.

— Temos todo o tempo do mundo.

Não sei por que o fiz, mas o

abraço apoiando minha cabeça em seu

peito. Ele retribui o abraço sem dizer


nada e escolho não perguntar o porquê
de seu coração estar tão acelerado
quanto o meu.

— Você precisa ir? — Ele


pergunta em um sussurro.

— Sim. Mas não quero ir. Não

agora.

— Ótimo. — Ergo meus olhos

apoiando meu queixo em seu peito,

encontrando Seth me encarando. Ele


ergue as sobrancelhas sugestivamente e
tenho até receio de perguntar o que se
passa em sua cabeça. Mas Seth não me
dá a chance de questioná-lo quando se

afasta de mim, pegando os pincéis


caídos no chão e me entregando um.

— Pra quê isso?

— Para que serve o pincel, gata?

— Seth me olha segurando o riso

quando se afasta novamente indo para o


outro lado da sala, onde estão as telas.
— Para enfiar no seu cu. —

Murmuro, mas não baixo o suficiente.


Seth gargalha, trazendo dois quadros

consigo. Ele os encaixa em dois


cavaletes, deixando um de costas para

outro.

— Vem. — Chama ele, já


preparando as tintas e deixando a

disposição. Desço da mesa e me coloco


de frente para a tela branca, ergo meus
olhos para ver Seth sentado de frente
para mim e me olhando. Os cavaletes
são as únicas coisas que nos separam,

mas, ainda assim, sinto um fio em meu


peito, como se fôssemos ligados.

Pisco meus olhos, afastando os

sentimentos malucos antes que eles me


tomem. E, sentindo o olhar de Seth sobre

mim, começo a pintar, sem me importar


com a vida cheia de mistérios e
perguntas sem respostas que estou
vivendo.

Aqui, com ele, isso não importa.


Porque mesmo que ele não saiba, sinto

que esse é meu céu e meu paraíso. E não

quero ir embora tão cedo.

— Mas o que é isso? — Noah

atravessa as portas se deparando comigo

finalizando o meu quadro. Seth ainda


está sentado à frente pintando tão
concentrado que chega a dar inveja.

Uma música toca baixa de seu celular, e


acho que é a sua forma de inspiração.

— Voilà — Imito um péssimo

sotaque francês dando uma última

pincelada orgulhosa da minha obra. Seth

para o que está fazendo, se levantando


do banquinho de madeira e se colocando

ao meu lado direito, enquanto Noah se


aproxima ficando ao meu lado esquerdo.
Cruzo os braços, soltando um

suspiro satisfeito enquanto os meninos


inclinam a cabeça para o lado

observando minha obra prima.

— Seth? — Noah diz, ainda

olhando para o quadro. — Está vendo o

que estou vendo?

Seth tomba a cabeça ainda mais

enquanto semicerra os olhos.

— Acho que é uma vaca.


— Sério, cara? — Noah soa

incerto. — Achei que fosse um alien.

— Não. Tenho certeza de que ali


são as pernas e logo ali são as tetas

dela.

— Sem essa. Ali é a ponta do

OVNI e bem ali é a cabeça do marciano.

Me coloco ao lado da tela com

cheiro de tinta fresca enquanto encaro os


dois, que ainda estão encarando minha
pintura com o cenho franzido.

— É uma vaca. — Repete Seth.

— É um extraterrestre, seu tonto.

— Diz Noah.

— É a porra de uma florista! —

Falo alto, atraindo a atenção dos dois.

Ambos arregalam os olhos encarando a

pintura, depois se entreolham em uma

conversa compartilhada apenas entre


eles e em um timing perfeito, Seth e
Noah gargalham alto.

— Porra! — Noah grita entre as

risadas, se sentando no chão enquanto ri.


Seth tenta se manter sério, mas acaba

falhando e gargalha ainda mais.

— Isso é tudo, menos uma florista,

gata.

Eles riem novamente, me fazendo

revirar os olhos voltando o olhar para o


meu quadro. É claro que é uma florista!
Ali os olhos dela, a boca dela sorrindo e
tem até as flores na mão. É uma florista!

Uma tosse forçada soa na entrada


da sala. Os meninos param de rir,

voltando o olhar para o senhor apoiado

em sua bengala.

— Não tinha ninguém na entrada,

então segui as risadas. Espero que não

se importe, Mason.

— Como poderia, Sr. Hures? —


Diz Seth estendendo a mão para Noah,
que ainda está no chão. Noah a segura e
se levanta.

— E aí, Sr. Hures?

— Noah. — Ele maneia com a

cabeça, antes de seus olhos irem em

minha direção. — A mocinha eu não

conheço.

— Namorada do Seth. — Noah dá


de ombros recebendo dois tapas em
cada um de seus braços. Um meu e um
de Seth.

— Eu sou Grace. — Me apresento


ao Sr. Hures. Ele adentra mais a sala me

lançando um sorriso, mas logo seus

olhos vão para a minha pintura atrás de

mim. Saio da frente quando ele se


coloca em frente ao quadro.

— Oh, mas que bela obra de arte!


— Exclama ele maravilhado.
— Essa porcaria? — Noah

murmura recebendo mais dois tapas. O


que o Seth o dera deve ter doído, já que

Noah agora esfrega o braço fazendo


careta.

— A visão de um mundo logo após

as Revoluções, com todas aquelas


fumaças que contaminaram nosso

planeta... É genial.

Mas isso é a porra de uma florista!


Ninguém vê isso?

— Quanto quer por ele? — Ele

pergunta encarando Seth.

— Por mim, você leva de graça.


— Noah sussurra, e mais uma vez, ele

recebe o seu terceiro tapa do dia.

A feição de Seth muda para um ar

profissional, o que ele deve usar com

seus clientes, e posso dizer que se eu


fosse rica compraria todos os quadros
pela forma que Seth me encara.

Ele se coloca ao meu lado

circulando minha cintura com seu braço


antes de dizer:

— A criadora dessa... — Ele

pausa voltando a olhar para pintura. —

Arte. É a minha Grace.

Minha Grace?

— Oh. Um casal de respeito,


suponho. — O Sr. Hures diz, olhando
para a mão de Seth em meu quadril antes

de voltar a erguer seus olhos para mim.


— E quanto quer por ele, querida?

Como é? Alguém quer comprar

minha florista?

— Dez mil. — Seth diz e foi

impossível não engasgar com minha

própria saliva. Ele aperta minha cintura

me fazendo ficar quieta. — Mas, é uma


obra única, como o senhor pode ver. E
devo dizer que iria entrar em nossa

exposição. Sobretudo, sei que o senhor


ama ter pinturas únicas sem que ninguém

mais tenha. Então, acho que doze mil


dólares pode ser o suficiente para que

minha namorada não faça outro quadro

igual.

O Sr. Hures semicerra os olhos em

nossa direção, depois de volta para o


quadro.
— É um belo quadro. — Ele

divaga.

— Sim, é. — Seth concorda sem


hesitar.

— Noah? — Noah, que está até

então de boca aberta, apenas pisca para

Sr. Hures. — Podemos seguir para sua

sala e fazermos a finalização da minha

nova compra?

Noah assente ainda embasbacado


me lançando um olhar assombrado antes
de sair pela porta acompanhando o Sr.
Hures.

— Doze mil? — Minha voz mal

sai.

Seth dá de ombros indo até o

quadro e o pegando com cuidado,

levando para a outra ponta da sala, onde

eu suponho que coloque para esperar


secar.
— Vinte e cinco por cento é o

pagamento de Noah, já que é ele que


administra tudo aqui, desde comprar

materiais à lidar com os clientes. — Ele


se vira para mim. — O restante é seu.

— O que vou fazer com tanto

dinheiro?

— Não sei, gata. É seu. É você

quem decide.

Ainda estou embasbacada quando


Noah volta com o cheque em mãos e me
entregando. Nem ele acredita que o
alienígena valesse tanta grana, apesar de

claramente ser uma florista.


☆♡☆

Capítulo 29
Antes

Com o jogo mais esperado por

todos se aproximando, foi impossível


ver Seth durante algumas semanas. Ele

tinha que fazer seu papel como capitão,


mas ainda trocávamos mensagens com

uma frequência impressionante.


Falávamos sobre livros, estudos e mais
livros. Seth acabou se tornando o meu
parceiro de leitura e, é claro, ele insistia

em me acordar de madrugada pra falar

sobre algum acontecimento importante


do livro.

Na semana passada, quando eu


estava perto de morrer enquanto
estudava para a prova que teria, Seth me
ligou às 3h35. Eu não atendi porque
estava morrendo de sono, mas,

conhecendo Seth, era de se imaginar que


ele não iria parar até que eu atendesse.

Quando levei o celular ao ouvido, ele

resmungou.

— Cansei dessa vida de leitor. Só

me estresso, porra. Não existe algum


livro que me dê paz?
— Sim. Vou recomendar alguns de

autoajuda pra você. Mas agora estou


cansada, Seth.

Ele me ignorou.

— Eu leio essas porcarias no meu

tempo livre e para quê? Há um bando de

caras com quem preciso lidar e liderar

todos os dias e tudo o que preciso é de

paz... e de um boquete, gata. Mas aí,


tudo o que recebo é esse livro!
— O que aconteceu? — Perguntei

sem revirar os olhos, pois era esforço


demais para meus glóbulos oculares.

Ouço a respirada funda de Seth, e

já nos conhecemos o suficiente para que

eu saiba que ele está tentando manter a

paciência e não arremessar o livro


longe.

— Ele disse: “Não, eu acho que


não.” — Outra respirada funda. —
Ouviu isso, gata? Ele disse que não!

Mas que caralho foi isso aqui? Gata?


Está aí? — Minhas pálpebras estavam

pesadas e se fechando quando eu ouvi:


— Boa noite, Grace.

Acordei na manhã seguinte com

uma mensagem dele pedindo o próximo


livro. O pior, ou o melhor, tinha
acontecido. Eu havia transformado Seth
Mason, o capitão do time de hóquei, em
um monstro. Até arriscaria dizer que

Seth estava lendo mais livros do que eu.

— Qual a cor favorita do seu

homem? — Jef pergunta caminhando ao

meu lado. Ele insistira em fazer


compras, pois precisava de meias que

combinassem com a roupa que vestiria


no jogo de hoje.
— Seth não é o meu homem. —

Digo, franzindo as sobrancelhas.

— Bem, eu não citei ninguém. Foi


você que pensou nele. — Reviro os

meus olhos ouvindo o sorriso que

escapa de sua boca. — Até o chama de

Seth ao invés de Mason.

— Porque Seth é o nome dele.

Jef me lança o olhar descrente


antes de entrar em uma loja me
arrastando consigo. Ele mexe nas
roupas, enquanto apenas fico em pé sem
fazer nada e de braços cruzados.

— Perfeito! — Ele diz, atraindo a

minha atenção. — Vamos levar.

Ele ergue uma lingerie preta

transparente em minha direção. Nada

tampa os seios além de uma pequena

flor preta rendada, e a calcinha é apenas


um pedaço de pano.
Semicerro meus olhos em direção

a etiqueta e quase me engasgo com o


tanto de números que vejo ali. Eu

preciso escolher entre comer ou


comprar isso, e a resposta é bem óbvia.

— Nem pensar.

— Por minha conta, Grace. — Jef

faz biquinho enquanto pisca seus cílios

grossos. — Pense que você é a


Cinderela safada e eu o seu gênio da
lâmpada.

— Fada madrinha. — Suas

sobrancelhas se erguem — O gênio é do


Aladim.

— Tanto faz. Vou te deixar mais

sexy do que você já é e não ouse me

impedir. — Abro minha boca, mas ele

ergue o dedo para cima, me impedindo

de falar. — Olha, sei que você é nova


aqui, mas deixa eu te explicar. Esse time
é o coração da Universidade e o Mason

é o coração do time. Se ele estiver feliz,


nós ganhamos. E eu não comprei meias

com estampa de tacos de hóquei à toa.


Vocês não se veem há alguns dias. Por

favor, Grace. O time depende de você.

— Achei que o Seth era o capitão,


e não eu.

— E você é a primeira-dama. Se
toca, garota. — E, sem esperar por meus
protestos, Jef gira os calcanhares indo

até o balcão e foi muito difícil afastá-lo


das algemas em exibição.

Depois que saímos da loja, Jef me

leva pro salão de beleza. Acho que, no

fundo, Jef nunca brincou de boneca, e

agora decidiu que sou uma. Nossa


próxima parada é meu quarto no

alojamento. Ele escolhe minhas roupas,


separando uma saia jeans preta justa e
uma camiseta branca. Depois que saio
do banho, ele me maquia e me obriga a
usar a lingerie e as roupas escolhidas,

retirando minhas botas da caixa e, de


dentro das sacolas de compras, uma

jaqueta preta. Muito semelhante à do

Seth.

Ergo minhas sobrancelhas quando

me encaro no espelho, me virando pra


ele logo em seguida.
— O que está tentando fazer

comigo, Jef? — Tento deixar minha voz


o mais fria possível.

Jef se joga em minha cama sem

nem se preocupar com o olhar que

direciono a ele.

— Eu já disse. Estou vestindo a

primeira-dama e hoje, Grace, é seu dia

de andar no tapete vermelho, junto ao


nosso capitão.
☆♡☆
Capítulo 30
Agora

[15:41] Triz:

Onde você está?

Grace?

Jonan nos deu uns dias de folga

Disse q precisávamos nos


acalmar

Quer se acalmar comigo indo ao

shopping?

B?

— O que foi, gata? — Seth

pergunta quando escuta meu suspiro.

Guardo meu celular em meu bolso e me

viro para ele, voltando a ajudá-lo a


arrumar nossa bagunça, apesar de seus
protestos.

— Dias de folga. — Dou de

ombros.

— Você só pode ser maluca se


acha que ter folga é ruim. — Noah diz

levando as telas para o outro lado da

sala. — Não que eu esteja dando a

entender que eu deveria ter mais folgas,

sabe?

Seth ergue as sobrancelhas lhe


lançando o olhar afiado. Noah ergue as
mãos em sinal de rendição e volta ao
trabalho.

— Vou fingir que acredito que está

desse jeito porque recebeu folga. — Ele

diz.

— Não quero encontrar Triz. Sei

que estamos sendo infantis pra caralho,

mas não tenho paciência agora.

Noah e Seth trocam olhares pela


milésima vez ao dia. E creio que, se
planejo passar mais tempo com eles da
forma que quero, terei que me acostumar

com a conversa silenciosa deles.

— Eu sei fazer pizza. — Noah dá

de ombros, abrindo um sorriso

convencido.

— Eu faço melhor do que ele. —

Seth diz, me lançando um piscar de


olhos e tenho quase certeza que ele
notou que minhas bochechas

esquentaram.

— A sua massa é horrível. —


Noah fala, se aproximando. — Quer

matar a minha amiga?

Sinto o meu coração esquentar

quando ouço isso. Noah percebe o que

disse e me olha como se estivesse

envergonhado, mas eu sorrio me


aproximando dos dois.
— Vocês podem fazer juntos. —

Digo. — Vou adorar jantar com vocês.


Já almoçamos juntos mesmo.

Eles sorriem em resposta. Juntos,

terminamos de arrumar tudo e os sigo

até o carro de Seth. Preciso admitir que

vê-los brigando sobre seus dotes


culinários é mais divertido do que achei

que seria. Mal posso esperar para ver os


dois se matarem na cozinha.

— Se jogar muito orégano vai

ficar ruim, seu babaca.

— E se jogar pouco não vai dar

gosto no molho, seu babaca. Presta


atenção nessa massa, está grossa

demais.

— O seu cu. A massa está perfeita!

— Não está, não. E tenha modos,


temos uma visita!

— Não vamos ter se você matá-la

engasgada com essa massa grossa,


porra.

Seth aperta os lábios, respirando

fundo. Depois, encontra o meu olhar

onde estou sentada no balcão enquanto

os dois estão na ilha da cozinha. Noah

prepara a sua panela com o molho no


cooktop anexo a ilha de mármore e Seth
está abrindo a massa, que ele mesmo

fez, com o rolo de madeira.

— Grace, minha querida


convidada. — Ele diz — Pode dizer ao

filho da puta do seu amigo que a minha

massa está em perfeito estado?

— A massa dele está em perfeito

estado. — Digo, lançando um olhar para

Noah enquanto tento não rir.

— Grace, minha querida


convidada. — Noah responde. — Pode
dizer para esse filho da puta ir tomar no
cu?

— Não vou dizer isso. — Cruzo

meus braços, vendo o sorriso vitorioso

que Seth abre em seus lábios enquanto

Noah revira os olhos.

— Tudo bem. Eu não ligo.

Ninguém me ama nessa casa. Tudo bem.


— Noah finge estar magoado, mas ele
mesmo não se segura e começa a

gargalhar. — Quem eu quero enganar,


porra? Todos me amam.

Entre palavrões, risos e mais

palavrões, a pizza finalmente fica

pronta. Noah leva a bandeja para o

balcão, de frente para mim, e o cheiro


está tão bom que escutamos minha

barriga roncar. Seth pega o vinho e as


taças, se sentando ao meu lado. Ele nos
serve e o gemido que soltei quando
mastiguei o primeiro pedaço foi
impossível de evitar.

A massa está perfeita. O molho

também. O sabor está inigualável.

Muitos pizzaiolos matariam por essa

receita.

— Veja só, Seth. — Noah diz

sentado na minha frente depois de beber


um gole do vinho. — Ela amou o meu
molho.

Seth não tem chance de responder

quando o interfone que está ao seu lado


toca. Ele atende depois de limpar suas

mãos no guardanapo e manda a pessoa

subir. Mas, assim que desliga, vejo seu

corpo travar e não entendo o motivo.

A pessoa bate na porta e Noah se

levanta para abri-la. A cozinha é


adjacente, apenas o balcão separa a
cozinha da sala, então consigo ver

quando Noah abre a porta e um cara


passa por ela.

Seus pés calçando all star e meias

coloridas travam na porta e ele arregala

os olhos quando me vê. Olho para minha

roupa, procurando alguma mancha, mas


está tudo certo. Mesmo assim, o garoto

continua me olhando como se eu fosse


um fantasma.
Noah dá batidinhas em suas costas,

o tirando do transe, com os olhos


piscando, sem deixar de me olhar.

— Jef, essa é a nossa nova amiga,

Grace. E Grace, esse é o Jef. Acho que

vocês serão ótimos amigos.

Jef pisca mais uma vez, enviando

olhares para Noah e Seth, antes de se

voltar pra mim. O olhar assombrado se


transforma em um olhar cheio de brilho
e a boca entreaberta se transforma em

um sorriso contagiante, me fazendo


sorrir também.

— É um prazer conhecê-la, Grace.

— Ele atravessa a sala chegando ao

balcão e estendendo a mão para mim. Eu

a aperto, aumentando ainda mais o meu


sorriso.

— É um prazer conhecê-lo, Jef.

— Fizemos pizza. — Seth diz,


quebrando o silêncio que se instala. —
Senta ai, cara.

Jef se senta na cadeira ao lado de


Noah. Noah traz mais um prato e outra

taça. Sinto meu celular vibrar em meu

bolso e o pego, já sabendo quem é.

[20:06] Triz:

Estou preocupada. Onde você

está?

[20:06] Grace:
Com amigos.
☆♡☆
Capítulo 31
Antes

— 20 minutos para o jogo. Ele


deve estar no vestiário. — Triz diz,

caminhando ao meu lado antes de

subirmos na arquibancada.

Respondo apenas com um meneio

de cabeça e paro os meus pés no


primeiro degrau quando Triz e Jef não

fazem questão de subir junto. Os encaro


com minha sobrancelha arqueada e a

maior cara de tédio que eu consigo


fazer.

— Podíamos ir dar boa sorte,

sabe? — Sugere Triz.

— Achei que era você que tinha

me dito pra ficar longe dele porque ele


comia o campus inteiro.
— Eu o julguei mal, ok? — Ela dá

de ombros. — Isso foi antes de vocês


trocarem mensagens o dia todo e ver

como fica ansiosa quando chega


mensagem no seu celular. — Em um

timing perfeito, meu celular vibra dentro

da minha bolsa. Levo as mãos ao zíper,

mas paro respirando fundo. — Viu só?

Vamos lá.

— Está dizendo isso porque quer


entrar em um vestiário cheio de
jogadores, não é?

— Vou ser julgada se disser que


sim?

Aperto meus lábios para não rir.

Logo, Jef se põe ao meu lado, segurando

em meu braço.

— Vamos lá, primeira-dama.

— Se me chamar assim mais uma


vez, coloco fogo nas suas meias. —
Resmungo enquanto andamos, sentindo o

olhar afiado de Jef em mim, como se eu


fosse uma assassina. — Não vão deixar

a gente entrar.

Entramos no corredor que leva

para o vestiário masculino, mas paramos

assim que vemos um homem bem


parecido com um poste parado em frente

a porta. Ele não precisa fazer nada além


de arquear a sobrancelha pra dizer que
não vamos entrar.

Olho para os dois ao meu lado

lançando o olhar de “eu avisei”, mas,


quando giro meus calcanhares pronta

para voltar para a arquibancada, ouço

alguém me chamar. Olhando por cima do

ombro, vejo Noah vindo até mim com o


seu uniforme e calçando nada além de

meias. Acho que ouvi dois suspiros ao


meu lado e posso apostar que ambos
estão babando.

Noah é realmente bonito. Lindo, na

verdade. Os olhos castanhos, o cabelo


bagunçado e um pouco mais claro, mas

da mesma cor... Sobrancelhas grossas,

lábios bem desenhados e um maxilar de

dar inveja. Mesmo assim, não sinto o


mesmo frio na barriga de quando estou

com Seth. Noah é um bom amigo.

— O que está fazendo aqui? — Ele


pergunta divertido, já sabendo a

resposta. Mas me recuso a dizer, pois


cheguei aqui por livre e espontânea

pressão.

— Você não deveria estar lá

dentro? — Aponto com o queixo em

direção ao cara que protege a porta do


vestiário como se fosse o segurança de

um banco.

Noah dá de ombros, mostrando o


pacote de M&M’s que tem em mãos.

— Preciso comprar isso antes do

jogo. É tipo um ritual. Se eu ganhar,


como. Se eu perder, como também pra

afogar minhas mágoas. — Aperto meus

lábios para não rir. Os olhos de Noah

focam em Triz e Jef. — Eu sou Noah, é


um prazer.

— Sabemos disso. — Jef diz


encantado. — Eu sou Jef e ela é a Triz.
Eles maneiam a cabeça em

cumprimento antes de Noah voltar a me


encarar.

— Se quer entrar, tem que ser

agora, antes do treinador Scott aparecer

com os discursos inspiradores dele. —

Ele diz, revirando os olhos. Respiro


fundo, soltando uma bufada e me

perguntando por que me aproximo dele


para ir direto para a cova dos leões.
Vejo pela minha visão periférica Jef e
Triz fazerem uma dancinha da vitória e,
antes de passar pelo brutamontes que

fica ao lado da porta, ergo o dedo do


meio para meus amigos, ouvindo suas

gargalhadas, que logo ficam para trás

quando a porta se fecha atrás de mim e

vários pares de olhos vão em minha

direção.

Eu morri. Morri e estou no


paraíso.

Porque nem todos estão vestidos,

alguns ainda estão sem camisa, exibindo


os músculos. Sinto uma cotovelada de

Noah e um olhar que diz “Você está

babando”.

Meus olhos são atraídos para

costas largas que procuram algo em seu

armário. Seth Mason pega seu celular e


digita alguma coisa. No mesmo instante,
meu celular vibra. Ele sente os olhares

de seus colegas do time nele, olhando


para os lados com uma expressão

confusa estampada nos olhos. Quando


seu olhar cai em cima de mim, seus

olhos azuis se semicerram e um sorriso

cresce em seus lábios.

— Oi, amor.

E é isso. Duas palavras pra eu


perceber que, apesar de ouvir sua voz
quase todos os dias de madrugada, senti

falta dele. Mais do que posso admitir. E


ele sabe disso quando vê que engulo em

seco e seu sorriso aumenta mais.

— Senti sua falta. — Ele diz

fazendo meu coração pulsar em um ritmo

que não deve ser considerado normal.

— Beija ela logo, cara. — Um dos

jogadores que eu não conheço diz, mas


ele recebe um tapa do cara que está ao
seu lado. Foi ele quem abriu a porta pra

mim quando fui até a casa de Seth com a


intenção de matá-lo. Acho que seu nome

é Ryle.

Seth atravessa o cômodo vindo em

minha direção, Noah se afasta da gente,

mandando todo mundo voltar ao que


estava fazendo, mas, enquanto eles

calçam seus patins, ainda sinto seus


olhos curiosos em mim. Não sei se é
porque é raro ter uma garota aqui ou
porque é raro ter uma garota aqui com o
Seth.

— Veio me desejar boa sorte? —

Ele sussurra convencido.

— Meus amigos me arrastaram até

aqui. — Sussurro de volta.

— Bom, preciso agradecer aos

seus amigos, então. — Ele se aproxima


mais, circulando minha cintura com seus
braços, e preciso erguer meus olhos
para encará-lo. — Quando eu vencer...

— Se vencer.

— Quando eu vencer, — Ele


repete. — Me encontra no

estacionamento. — Ergo minha

sobrancelha em uma pergunta silenciosa.

— Vamos dar uma festa lá em casa e vou

levá-la comigo.

— Posso ir andando com meus


amigos.

— Eles podem vir com a gente,

mas a quero comigo.

— Por quê? — Suas mãos apertam


minha cintura quando ele se aproxima

mais de mim e nem ligo pro showzinho

que estamos dando.

— Eu disse, gata. Senti sua falta e

eu não a quero longe de mim. Essas


semanas foram uma droga.
Dou o braço a torcer e assinto com

a cabeça sem dizer nada, pois sei que


soaria fraca e isso só faria Seth sorrir

ainda mais. Ele inclina a cabeça


roçando nossos lábios, mas não me

beija, se afastando de mim e rindo

quando percebe que eu ansiava pelo

beijo.

Então voltamos ao jogo de Caça e


Caçador? Tudo bem, esse jogo pode ser
jogado por dois.

Me aproximo dele subindo na

ponta dos pés. Apesar de usar a bota de


bico fino, Seth continua sendo mais alto

do que eu. Encosto meus lábios em seu

ouvido, o sentindo estremecer ao toque.

— Preta, pequena e rendada. —

Sussurro ouvindo quando ele engole em

seco e segura a minha cintura com força.


Faço um esforço para me afastar sem
tropeçar em meus próprios pés quando

vejo seus olhos azuis dilatados.

— Eu nem sei o que ela disse, mas


isso foi sexy pra cacete. — O mesmo

jogador de minutos atrás diz recebendo

um tapa, dessa vez vindo de Noah.

Seth o ignora sem tirar os olhos de

mim.

— E quando é que vou ver isso?


— Sua voz sai rouca.
— Quando você vencer. — Digo

em um sopro antes de lhe dar as costas e


sair do vestiário, encontrando Triz e Jef

já nas arquibancadas, marcando o meu


lugar entre eles.

— Como está o nosso capitão? —

Triz pergunta.

— Ele garantiu nossa vitória? —

Jef pergunta ao mesmo tempo com os


olhos brilhando como o grande fã de
hóquei que ele é.

— Podem ter certeza de que ele

vai jogar duro hoje.

Eles sorriem vitoriosos, mas logo


percebem a malícia na minha voz e

gargalham junto comigo. Estou ansiosa

para ver o jogo e ainda mais ansiosa

para o que vem depois dele.


☆♡☆
Capítulo 32
Agora

Seth e Noah me deixaram em casa


tarde da noite. As luzes do quarto de

Triz estavam acesas, mas não parei de

andar e segui para o meu quarto,

fechando a porta em um baque surdo.

Pego um dos livros novos que


ganhei dos meus pais quando estava no

meu último ano. É uma pena que eu não


lembre de tê-los lido, mas é uma boa

distração. Me sento na cama com o livro


em mãos e, quando o abro, uma folha

escorrega, caindo em cima de meu

lençol. Estou com minha testa franzida.

Apesar de ser comum ganhar livros de

meus pais, não é comum vir com algo

dentro.
O papel branco está amassado,

como se tivesse sido dobrado várias


vezes e não paro pra pensar em nada

antes de ler.

Não sei como é escrever esse tipo

de coisa. Normalmente, não faço isso.

Você sabe, você me conhece. Mas tudo

bem, hoje é um dia especial.

Parabéns, Grace. Sim, sem


apelidos hoje. Como eu disse, é um dia
especial. É a nossa formatura, e
finalmente chegamos ao fim. Dá pra

acreditar que passamos todo esse


tempo juntos? Eu não consigo, é

impossível acreditar. Não por você,

mas por minha causa.

Se me dissessem que eu ficaria ao

lado de uma única garota no meu


último ano, eu internaria essa pessoa,
porque claramente ela estaria sob
efeito de drogas. Mas aqui estou eu, às
4 horas depois de tê-la acordado mais

uma vez. Você me mandou ir tomar no


cu, mas achei que escrever isso seria

mais agradável.

Gosto de você, Grace. Gosto


mesmo. E não é só por causa do sexo

incrível que fazemos. É muito mais que


isso. É você. Apenas você. Você é linda,
Grace. Tão linda por dentro quanto é
por fora e meu ano não seria tão bom
sem você nele. Eu estaria chapado em

algum lugar e com uma garota


diferente todas as noites. Sei que isso

não é agradável de ouvir, mas sou

sincero.

E sim, nossas fotos estão todas

guardadas. E não, eu não vou jogá-las


fora. São lindas porque você está nelas.
(E porque eu sou um ótimo fotógrafo).

Essa carta não entra no quesito

romântico, eu sei, mas saiba que fiz de


coração e que fui sincero em cada

palavra escrita.

E preciso te pedir uma coisa, me

encontre em frente ao seu dormitório às

18h, quero levá-la para o nosso último

encontro digno de livro de romance e


espero que essa carta seja uma boa
maneira de convidá-la. Prometo fazer

desse dia inesquecível.

Até logo, minha querida Grace.


☆♡☆

Capítulo 33
Antes

Todos na arquibancada deliram

quando o time entra no gelo, e os gritos


só aumentam quando Seth entra por

último. Seus olhos me procuram e,


quando me encontram, ele lança um

piscar de olhos em minha direção, antes


de colocar seu capacete. Não sei se ele
viu minhas bochechas corarem, mas Jef
e Triz viram e não hesitaram em soltar

sorrisos animadinhos, me fazendo


revirar os olhos.

Os jogadores ficam em suas

posições e eu procuro o uniforme com o


número 13 nas costas, o encontrando
bem no centro. O disco é solto entre ele
e seu adversário, mas Seth o empurra
com os ombros, tomando posse do disco

e passando para outra pessoa. Sei que é


Noah quem veste a camisa 27. Os dois

são rápidos, mas Seth consegue ser

ainda mais correndo para a frente do

gol, recebendo o disco e o lançando sem

hesitar. O disco entra, ele marca e a

plateia vibra. Em apenas poucos


minutos, Seth faz o time começar

ganhando. Noah o abraça e ele retribui.


Quando o solta, me lança um aceno de

cabeça e não faço nada além de sorrir.

Seth Mason está disposta a ganhar,

e está mais disposto ainda a me levar

como seu troféu.


7 a 2. Foi o placar do time quando

o terceiro período terminou. Seth Mason

fez hat trick[4], sendo seguido por dois


gols do – seu melhor amigo – Noah e

mais dois de seus companheiros de time

Hunter e Ryle. Ironicamente, eles seriam

os anfitriões da festa de hoje a noite.

Meus amigos e eu esperamos por

Seth em frente ao seu jeep. Achei que


Jef fosse desmaiar quando disse que

pegaríamos uma carona com o capitão


do time de hóquei. Não precisamos

esperar muito, e meus olhos tomam vida


própria indo em direção a ele, que já

tem seu olhar preso em mim. Seth

caminha ao lado de Noah, ignorando o

que ele diz enquanto não desvia os olhos

dos meus.

— Foi um bom jogo. — Digo


quando eles param na nossa frente.

— Foi, não foi? — Noah fala

animado. — Foi uma estreia incrível.


Congelamos a bunda daqueles caras.

— Eu vi uma torcedora deles

chorar com a derrota. — Jef diz

animado demais, parecendo feliz.

— Nem todos torcem pro time

certo, cara.

— Onde estão os seus colegas? —


Triz pergunta, atraindo a atenção de

todos. — Quem era o da camisa 12?

— Colin — Noah diz apertando os


lábios com força e prendendo o riso.

— Aquele cara é sinônimo de

pecado capital. Me apresentem a ele,

por favor? — Triz junta as mãos fazendo

beicinho. — Eu faço o que vocês

quiserem. Ou melhor, a Grace faz!


Fiquem com ela!
— Com prazer. — Seth murmura

em meu ouvido, me impedindo de enviar


um olhar mortal para a minha amiga.

Tudo que sinto é a vibração no centro de


minhas pernas.

Noah olha para Seth ainda

prendendo o riso e os dois compartilham


uma conversa silenciosa.

— Colin é gay. — Seth diz.

— Que? — Ouvimos o grito de Jef


e o encaramos assustados. — O que
estamos fazendo aqui parados? Vamos,
capitão! Abra a porta desse carro e me

leve com você!

Gargalhando, Seth faz o que o Jef

pediu abrindo as portas. Noah vai para o

banco traseiro, me deixando ao lado de


Seth. Antes que eu possa entrar, sinto

sua mão em meu cotovelo e, apesar de


estar com uma jaqueta de couro, é o
suficiente para me fazer arrepiar.

— Pensei em você durante o jogo

inteiro. Acho bom não ter feito planos,


porque pelo resto da noite você é minha

e não tenho intenção alguma de deixá-la

ir embora tão cedo.


É como a primeira vez. Os

adolescentes lotam a fachada da casa, há


latinhas de cerveja e copos plásticos

vermelho jogados por todo o gramado.


Tirando o fato de que não tem ninguém

vomitando, há uma diferença.

A mão de Seth está em minha


cintura e meu corpo colado ao dele. E,

por mais que eu odeie admitir, Jef tem


razão. Sinto como se eu fosse a
primeira-dama andando pelo tapete
vermelho, e a cada passo que dou sinto
olhares em minha direção.

As jaquetas combinando não foram

de muita ajuda e aposto que Jef entendeu

a ameaça em meus olhos antes de

chamar Triz para ajudá-lo a encontrar


Colin, com a promessa de que acharia

um boy magia à altura para ela.

Noah abre o caminho a nossa


frente, atraindo olhares de admiração e

desejo por onde passa. Nos viramos em


direção a sala de estar, que está tão

lotada quanto a festa que eu vira uma


vez. O mesmo lugar que dancei para

Seth. E acho que ele lembra disso

quando seus olhos escurecem me

olhando de cima.

Não tenho mais certeza se sou a


caçadora de hoje, mas pela forma que
Seth me encara e suas mãos me seguram,
sei que ele tem planos. Principalmente
quando ele se encosta na parede, me

puxando para ficar em sua frente e o


sinto duro atrás de mim. Minhas costas

estão coladas ao seu peito, e Seth se

inclina roçando seu nariz na dobra do

meu pescoço. Ele me dá um beijo

singelo antes de subir e deixar uma

mordida no lóbulo de minha orelha.


— Você estava bem ali. — Ele

sussurra em meu ouvido. — E eu


encostado bem aqui. Eu estava

enlouquecendo, gata. Não conseguia


tirar os olhos de você e do seu corpo

enquanto rebolava. — Sinto seu pau

pulsar dentro da calça e preciso fazer

um esforço para não soltar um gemido.

— Vi quando você olhou para mim. Vi

quando percebeu que eu a queria. Vi


enquanto dançava pra mim. E foi difícil

pra caralho resistir a vontade de ir até


você e fodê-la ali mesmo, na frente de
todos. Você me deixa louco, amor. Mais

louco do que estou acostumado a ficar. E

pior, eu gosto. Dança pra mim, Grace.

Como fez na primeira vez que esteve

aqui. Prometo terminar do mesmo jeito

que aquela noite. Dance pra mim.

Não sei como ainda consigo sentir


minhas pernas se moverem. Ou como
consegui seguir até o centro da sala
pisando em minhas botas, segurando a

mão de Seth e o levando comigo.

Seth volta a segurar minha cintura

enquanto me movo e ele tenta me

acompanhar. Deixo um sorriso escapar


quando percebo que terei que colocar

dançarino na lista de qualidades do


Seth, que está se tornando cada vez
maior.

Me movo no ritmo da música, o

sentindo engolir em seco quando fico de


costas para ele mais uma vez e balanço

meus quadris do mesmo jeito que fiz na

primeira vez. Ah, não. Isso é muito

melhor do que a primeira vez. Seth me


gira para ficar de frente para ele e

minhas mãos vão até seus fios escuros, o


puxando para mim. Minha língua desliza
na sua e não sei dizer qual de nós está
mais faminto. Seth aperta meu lábio com
os dentes, me fazendo soltar um gemido,

e isso só o faz me apertar ainda mais em


seus braços enquanto me beija.

Quando nos separamos em busca

de ar, ouvimos e ignoramos os gritos de


comemoração de seus colegas de time.

Volto a dançar.

Mas eu não danço para ele.


Naquela noite, eu dancei para nós.
☆♡☆
Capítulo 34
Agora

Minhas mãos tremem segurando o


pedaço de papel arrancado de algum

caderno. Lágrimas descem

descontroladas e os pensamentos em

minha cabeça não param no lugar. Está

tudo girando. O quarto, a cama, a minha


cabeça e eu. Tudo gira e a vontade de
vomitar me faz levantar e correr até o
banheiro, ignorando a tontura.

Coloco todo o almoço e o jantar

para fora e choro descontroladamente,

sentindo meu coração apertado. Me

arrasto para o chuveiro, abrindo a


torneira e deixando a água cair em mim,

sem me importar com as roupas.

Por que não me lembro disso?


Com quem eu saí? Por que não me

lembro de nada?

As palavras vinham carregadas de


carinho. Senti amor lendo aquilo e me

odeio. Nunca me odiei tanto desde que

acordei na porra daquela cama de

hospital sem saber que um ano já havia


se passado.

Eu esqueci alguém. Esqueci


alguém que esteve comigo o ano inteiro,
alguém que eu deveria gostar!

Tento achar respostas, mas nada

sai. Se meus pais soubessem eles me


contariam, certo? Talvez eu não

houvesse o apresentado. Talvez não

tenha dito nada porque não queria que se

preocupassem comigo. Talvez... São


tantos talvez que me sinto sufocada.

— B? — Ouço a voz de Triz, mas


nada sai de mim além de um soluço. —
Grace? — Chama Triz, dessa vez mais

assustada quando me encontra no


chuveiro. — Meu Deus, Grace. O que

aconteceu?

Apenas choro sem conseguir dizer

nada. O aperto que sinto no meu coração

está me machucando. É como se ele


finalmente sentisse falta de alguém.

Eu não sei o que aconteceu.


Éramos felizes? Pela carta, a resposta
não é outra além de sim. O machuquei?

Nunca vou saber e nunca poderia pedir


desculpas, pois não faço ideia de quem

ele é.

Triz se ajoelha no chão e me

abraça. Eu choro sentindo a água cair

sobre nós duas até meus olhos pesarem e


eu não sentir mais nada.


Acordo com a cabeça latejando e

os olhos inchados, mas encontro um


comprimido e um copo de água em cima

da minha escrivaninha e os tomo.

Triz deve ter trocado minha roupa

molhada por uma calça moletom e uma

camiseta.

Me levanto olhando para cama,

procurando o papel, mas ele não está lá.


Me abaixo o encontrando embaixo da
cama e o pego sem querer olhar para

aquelas letras novamente ou vou voltar a


chorar.

Encontro Triz com uma caneca nas

mãos enquanto toma chá fumegante

olhando para o nada. Assim que me nota

ali, ela solta a caneca no balcão e me


olha engolindo em seco.

— Eu conheci alguém? — Triz


franze o cenho sem me entender. — Na
universidade. Conheci alguém?

— Como vou saber se conheceu

alguém? — Pergunta ela, sem hesitar.

Estendo o papel para ela. Triz o


pega e começa a ler, seus olhos indo de

mim para folha a cada parágrafo.

— Onde achou isso?

— Isso não importa. Eu conheci

alguém ou não, Triz? Você é minha única


fonte de resposta. Sei que meus pais já
teriam me contado se soubessem! Triz,

eu estive com alguém e preciso saber


quem ele é.

Minha amiga aperta os lábios

olhando para a folha, depois erguendo o

olhar para mim.

— Eu não sei de quem é essa letra.

— Tem certeza?

Vejo quando ela engole em seco.

— Sim.
Respiro fundo, tentando não surtar.

Pego a carta de volta, colocando no


bolso da calça e indo me sentar no sofá.

Triz aparece e me estende uma caneca


enquanto segura a sua com a outra mão e

se senta ao meu lado.

A televisão desligada nunca esteve


tão interessante.

— Preciso saber quem ele é —


Sussurro sem encará-la.
— Não precisa. — Ela responde.

— Só... Você só vai se magoar quando


olhar pra ele e não se lembrar de nada.

É melhor deixar isso quieto, B. É melhor


seguir em frente.

— Acha, — Engulo em seco, a

minha voz voltando a embargar. — Acha


que eu fui encontrá-lo?

A encaro. Triz tem os olhos


úmidos e sei que é porque ela chora
quando vê alguém chorar.

— Você foi. — Ela aperta os

lábios. Uma lágrima cai e eu a limpo. —


Você é o tipo de pessoa que iria.

Quando uma lágrima desliza por

meu rosto, Triz se inclina e a seca com

as mãos. Ela apoia sua caneca na mesa

de centro antes de me abraçar.

— Estou aqui, B. É só isso que


importa agora.
— Eu te amo. — Digo, com a

cabeça encostada na dobra de seu


ombro. — Me desculpa pela briga.

— Me desculpa por ser paranoica.

Te amo muito, B.
☆♡☆
Capítulo 35

Antes

— Não vou voltar pro nosso

quarto hoje. — Triz grita no meu ouvido

através da música alta.

— O que? — Grito de volta. Ela


se curva pra falar em meu ouvido, já que
estou sentada.

— Vou foder! Não me espere.

Dou risada, mas, antes de

responder, sinto as mãos de Seth em


minha cintura. Ele se remexe na poltrona

e já sei que está me provocando. Sinto

quando ele se inclina para frente comigo

em seu colo para falar com Triz

enquanto roça seu nariz em meu


pescoço.
— Não se preocupe com sua

amiga, — Ele diz. — Ela está em boas


mãos.

Triz lança um sorriso malicioso

antes de escapar por entre as pessoas.

Procuro Jef com o olhar. Apesar de estar

muito excitada e desejando Seth desde


que ele me fez sentar em seu colo, a

parte de mim sensata e responsável


ainda está preocupada em como meu
amigo vai voltar pra casa.

— Ali, gata. — Seth diz em meu

ouvido apontando com o dedo e


instantemente meu sorriso se alarga

quando vejo meu amigo se agarrando a

Colin. — Eles estão curtindo a festa. —

Tenho certeza de que estão fazendo tudo


ali no canto escuro, menos curtir a festa.

— Poderíamos fazer o mesmo.

— Poderíamos. — Digo
sugestivamente, olhando para ele por

cima dos ombros. Antes que eu possa


fazer menção de me levantar, Noah

aparece em nossa frente, completamente


bêbado. Ele faz uma reverência olhando

para Seth e outra olhando para mim.

Em sua mão, ele tem duas coroas


que não faço ideia de onde ele achou.

— Majestades, — Ele se
aproxima. — Com sua honra e
permissão, esse jovem e mero lacaio

poderia coroá-los? Oh, não! Vocês não


podem dizer não! Seus súditos querem.

Vocês querem, não é, porra?

Um coro de sim animado ecoa por

toda a sala. Noah se aproxima coroando

Seth e a mim e tento não rir quando Seth


deixa a coroa torta de propósito.

— Abaixem o som, caralho. Não


estão vendo que quero ser ouvido,
desgraça? — Noah grita. — Povo do

Seth e Grace, eu tô muito bêbado agora,


então esse discurso vai ser o melhor de

todos! Gravem! Esse cara — Ele aponta


para Seth. — É uma pessoa

maravilhosa. Eu sou mais, eu sei. Mas

ele é o rei aqui. O que é que eu tô

falando, porra? — Ele gargalha sozinho.

Depois volta a ficar sério. — Eu amo

esse cara. Então mexer com ele é mexer


comigo, caralho. E, cara, — Noah olha

para Seth por cima dos ombros. — Por


mais que eu te ame pra caralho, você

não tem chances comigo. Oh, não chore.


Eu sei como é difícil não me ter.

Seth concorda balançando a

cabeça enquanto finge que lamenta, mas


seu corpo sacode embaixo de mim

quando ele esconde o rosto em meus


cabelos e gargalha, voltando a sua pose
desleixada na poltrona logo depois.

— Agora, vou falar sobre nossa

rainha. — Ah, meu Deus. Não preciso


virar meu rosto e olhar para Seth pra

saber que ele está sorrindo. — A regra

na porra do nosso reino é clara! Ela

manda e todos obedecem!

— Desde que me mande foder

você, não me importo — Seth sussurra


em meu ouvido, deixando uma mordida
no lóbulo de minha orelha.

— Se mexerem com ela, não estão

só mexendo comigo e nosso rei, mas


com o time inteiro! — O time vibra em

concordância. — Você é minha nova

amiga, gata do Seth. — Noah diz me

olhando. — Gosto de você, e não


precisa se preocupar, Seth. Ela é sua!

Mas se, sei lá, ela perceber que sou


melhor que você, aí já não posso fazer
nada. Sabemos que sou irresistível.

Tanto eu quanto Seth apertamos os

lábios com força pra não rir. Noah se


ajoelha e o corpo de Seth treme ainda

mais segurando a risada.

— Tão esperando o que, porra?

Curvam-se!

Quando um bando de adolescentes

embriagados se ajoelha perante mim e


Seth, basta apenas uma troca de olhares
com ele para cairmos na gargalhada. A
música volta para o volume máximo e
todos comemoram voltando a dançar.

Noah se encosta na poltrona, estendendo


a câmera de Seth, e não faço ideia de

onde ele tirou isso.

— Eu sou um ótimo fotógrafo né,


pombinhos?

A imagem que Noah retratou está


um pouco tremida, mas dá pra ver
claramente Seth sentado na poltrona tão

preta quanto nossas jaquetas de maneira


desajeitada com as pernas abertas,

comigo entre elas. Suas mãos estão em


minha cintura, e estamos olhando um

para outro enquanto gargalhamos. A

coroa de Seth torta em seu cabelo negro

refletiu um brilho na foto. A imagem está

perfeita.

— Sim. Você é, Noah. — Seth diz


e sinto o carinho em sua voz. — Mas, se
me der licença, preciso ir me curvar
perante a minha rainha e isso vai levar a

noite toda. Não ouse me interromper.

A porta de Seth se fecha em um


baque surdo. O som alto no andar de

baixo nem chega a ser ouvido aqui.


Ando até o centro do quarto, me
colocando em frente ao espelho. Sinto
os olhos de Seth em mim e me viro para
ele, que está apoiado na porta de braços

cruzados enquanto me devora com os


olhos.

— Tira sua roupa. — Não foi um

pedido. Foi uma ordem. — As botas


ficam.

Seguro a barra da saia, mas paro


sentindo seus olhos queimarem em mim.
— Achei que você fosse se curvar

perante a sua rainha.

Seus lábios se erguem para cima e


seus olhos brilham maliciosamente

quando ele se aproxima a passos lentos,

ficando de frente pra mim. Ele segura a

barra da minha saia, descendo o zíper e


a deslizando por minhas pernas

conforme se abaixa, ficando de joelhos


para mim.
— Assim, gata? — Minhas mãos

se apoiam em seus ombros largos


enquanto ele retira a saia com um pouco

de dificuldade, já que insiste para que as


botas fiquem. Ele ergue os olhos

dilatados para a minha calcinha. Seth

passa um dedo por cima do pano

lentamente e sorri quando escuta o

gemido baixo que escapa dos meus

lábios. Seu dedo começa a pressionar a


minha entrada enquanto sente a renda

ficar úmida, os movimentos seguem e

sinto seus olhos em mim quando inclino

a cabeça para trás e solto um gemido

alto quando Seth empurra o tecido fino


para o lado e me invade com sua língua.

Seth me estimula com apenas um


dedo enquanto suga o meu clitóris, sua

língua desliza para dentro de mim e suas


mãos seguram minha bunda me mantendo
em pé.

— Seth... — Sopro.

— Agora não. — Diz ele,

afastando o rosto apenas para me olhar.


Os dedos continuam fazendo o seu

trabalho lentamente. — Tenho permissão

para levantar e fodê-la a noite toda?

— Uhum. — Gemo quando ele

coloca mais um dedo em mim.

— Tenho o quê? — Ele provoca


impulsionando os dedos em minha

entrada e sei que, se ele não estivesse


me segurando, eu não conseguiria me

manter em pé sozinha.

— Permissão para me foder a

noite toda.

Seth tira os dedos de dentro de

mim, os levando até sua boca. Ele me

prova abrindo um sorriso sacana antes


de se levantar, suas mãos indo
diretamente para a minha jaqueta de

couro.

— Gostei dela. — Diz ele a


tirando delicadamente e sem pressa

alguma. Ele a dobra e a coloca em cima

da cômoda. Ele volta e tira minha

camisa na mesma lentidão que fez com a


saia, suas mãos tocando de propósito a

minha pele nua.

Por mais que os movimentos de


Seth sejam lentos, seus olhos não

mentem. Sei o que ele está fazendo.

É a mesma coisa que leões fazem


quando encontram sua presa. Se

aproximam, a passos lentos e calculados

e, quando você menos espera, eles

atacam e devoram.

É isso que Seth Mason está

fazendo.

Pelo resto da noite, ele é meu


caçador. E eu não me importo mais em
ser sua presa.
☆♡☆
Capítulo 36
Agora

Termino o livro que estava lendo e

reprimo a vontade que sempre sinto de

ligar para Grace e contar tudo o que


aconteceu. Mas não o faço. Não faço

mais isso há algum tempo.


Noah já deve estar em um sono

profundo, então nem vale a pena acordá-


lo só pra contar sobre os beijos que a

personagem escrevia em seu pote


sempre que eles eram especiais. Além

disso, sei que se não fosse pelo que

sinto por Grace, Noah poderia achar que

eu estava apaixonado por ele. Da mesma

forma que achou quando demonstrei o

amor dos personagens do livro da


semana passada.

Meu celular toca, me despertando

de meus próprios pensamentos e sinto


meu coração começar a acelerar quando

Gata está estampado na tela.

— Oi? — Pergunto, incerto. Parte

de mim está preocupado que seja Triz

que por alguma obra do inferno e não

divina, tenha encontrado meu número no


celular de Grace.
— Pode abrir a porta pra mim, por

favor? — A voz de Grace soa.

Pulo da cama e nem a respondo


quando vou a passos largos para a porta

e não tenho reação quando encontro

Grace em frente à minha porta

abraçando a si mesma com uma mão


enquanto a enquanto a outra segura o

celular no ouvido.

— Posso entrar? — Dou passagem


para ela, abrindo ainda mais a porta. Ela

passa por mim e ainda não sei o que


dizer ou o que perguntar. Estou

preocupado e ao mesmo tempo feliz por


ela estar aqui. — Sei que é tarde e que

você deveria estar dormindo e...

— Lendo.

— O quê? — Suas sobrancelhas se

franzem.

— Estava lendo. — Um brilho


cintila em seu olhar, mas logo se
dissipa. Ela leva a mão até o bolso da
calça e me estende um papel dobrado,

mas, antes que eu possa abrir, ela diz:

— Eu... Não lembro de nada. —

Eu sei, amor. — E tudo o que aconteceu

no ano passado foi apagado da minha


mente. — Sim. Eu fui apagado da sua

mente. — Mas, eu achei isso...

Minhas sobrancelhas franzem


instantemente e fecho meus olhos para

que ela não veja a emoção e a dor neles.


Sei exatamente o que é isso e não

preciso abrir pra saber o que está


escrito. Sei cada palavra.

Abro o papel mesmo assim, mas

não o leio. Apenas finjo. Pois lê-lo seria


como enfiar uma estaca em meu próprio

coração, pois só me lembraria do


encontro que tinha tudo para ser
perfeito, mas que se tornou a nossa
ruína.
☆♡☆
Capítulo 37
Antes

Ela é linda. Se eu levasse a sério

as pinturas que faço, daria todo o meu

suor para pintar a Grace da melhor


forma possível e, ainda assim, não
chegaria aos pés da verdadeira Grace.

Suas mãos pequenas retiram minha

jaqueta seguida pela camiseta, ela para


com as mãos no zíper da minha calça,

erguendo os olhos castanhos para mim.

Sei que não é um pedido que ela está

fazendo. Grace apenas quer ver o quanto


a desejo e, quando ela vê exatamente

isso em meus olhos, suas mãos descem o


zíper e ela retira a minha calça da
mesma forma que fiz com sua saia.
Lentamente.

Mas ela não repete a boa ação de


me provocar com sua boca e nem com

suas mãos. É uma pena, mas tudo bem,

temos muito tempo.

— O que eu faço com você, gata?

— Pergunto vendo quando ela engole em

seco e sentindo meu pau pulsar quando


encaro o bico de seus mamilos ocultos
por uma rosa negra. O resto do seu sutiã

é todo transparente e sei que a intenção


de Grace não é nada além de me matar

esta noite.

Mas vou morrer feliz.

— Posso começar comendo você

por trás, — Seguro a sua cintura a

puxando para mim. — Ou você pode

rebolar essa bunda gostosa em cima do


meu pau, — Grace arfa quando minhas
mãos seguram seus seios — Tantas

opções.

Sem aviso, a levanto em meus


braços, sentindo o bico de suas botas

contra a minha pele. A levo em direção

a minha cama, e seus fios dourados se

espalham no lençol. Linda. Linda e


gostosa, pra cacete.

Sua boca se abre quando a beijo, a


língua deslizando por todo o céu de sua
boca enquanto minhas mãos tomam

controle de seu corpo, apertando seu


peito por cima do sutiã e sua cintura.

Grace afunda suas unhas em minhas


costas quando começo a deixar

mordidas em seu pescoço. Apoio meu

peso em meus cotovelos descendo para

beijar entre seus seios e, apesar de

querer muito, ainda não posso tirar seu

sutiã. É sexy pra caralho.


Grace aperta as unhas em meu

antebraço quando estou prestes a tirar a


sua calcinha. A olho com a sobrancelha

erguida e tudo que recebo como resposta


é Grace se inclinando para frente e me

fazendo deitar em minha cama enquanto

sobe em cima de mim.

A renda roça em meu pau e tranco

meu maxilar, fazendo o sorriso de Grace


crescer.
— Grace? — Engulo em seco

quando Grace leva sua mão para trás de


suas costas e remove o sutiã, acabando

com meus planos.

— O que eu faço com você, gato?

— Ela pressiona seu quadril em meu

pau.

— Porra.

Grace definitivamente quer me


matar. Em cima de mim. Do mesmo jeito
que pedi uma vez.

Ela se inclina e se afasta apenas

para descer minha cueca, meu pau duro


pulsa em suas mãos quando ela segura e

começa a apertá-lo. Suas mãos sobem e

descem e empurro o meu quadril contra

ela quando sinto o toque molhado de sua


língua.

Fecho meus olhos sentindo a


pressão de suas mãos ao redor do meu
pau e seguro o seu cabelo em um punho

ouvindo um gemido de aprovação.

— Foda-se, porra. — Arfo quando


Grace suga com força. —Vira a bunda

pra mim, amor.

Ela afasta seus lábios apenas para

passar uma perna sobre mim, me

deixando com uma vista que nem em

sonhos eu poderia imaginar. A boca de


Grace para de chupar quando sente
minha língua passando demoradamente

em seu clitóris.

Ela volta ao trabalho e fazemos um


trabalho incrível juntos, e nem chegamos

a começar. Sua boca continua em meu

pau e a minha a devora.

Sinto o corpo de Grace tremer em

cima de mim e sei que ela está quase lá.

Sua boca não para de me sugar, apesar


de estar fraca.
Enfio um dedo nela, a sentindo

encharcada, e soltamos um gemido


juntos quando volto a pressionar minha

boca em seu clitóris. Grace me incentiva


movendo seus quadris contra meu rosto,

e não sei mais quem está provocando

quem até sentir sua boca soltar meu pau

com um gemido assim que a faço gozar.

— Oh, meu Deus. — Ela arfa


voltando a se colocar sentada de frente
pra mim em meu colo.

Deixo um sorriso escapar quando

me apoio em meus cotovelos me


inclinando para vê-la com a respiração

pesada. Seus fios já grudando em seu

rosto por conta do suor.

— Ah, não, gata. O único nome

que vai sair da sua boca vai ser o meu.

— Ela sorri com seus olhos dilatados.


— Mas pode ter certeza de que esse é o
nosso paraíso.
Seguro sua cintura com minhas
mãos enquanto a empurro para que fique
deitada em minha cama. Grace sorri com
malícia me puxando com suas pernas
colando meu corpo ao seu.
O bico da bota afunda na minha
pele e reprimo um grunhido tirando as
botas de seus pés e as arremessando no
chão.
É Grace quem se estica até minha
cômoda pegando um preservativo. Ela
abre o pacote e desliza a camisinha pelo
meu pau enquanto ergue seus olhos pra
mim. Estou engolindo em seco quando
ela deixa um beijo em meu quadril e
volta a se deitar colocando os braços
pra cima. Os mamilos rosados estão
duros apontados para mim.
— Se vira.
— O quê?
— De quatro, gata. Agora. — Ela
nem protesta, quando se move na cama
se colocando sobre os joelhos e
empinando pra mim.
Minha mão aperta sua cintura,
enquanto a outra move meu pau por sua
entrada. Grace geme, mas nem chego a
colocar dentro dela. Me inclino sobre
ela, meus lábios roçando o seu pescoço
e deixando mordidas e quando Grace
empurra sua bunda em minha direção,
enterro meu pau nela ouvindo seu
gemido de aprovação.
Suas costas se arqueiam enquanto
ela me recebe. Empurro cada vez com
mais força, puxando sua bunda pra mim.
— Mason — Grace geme quando
minha mão encontra seu clitóris. Ela está
inchada. Inchada e molhada e isso só faz
com que eu empurre meu pau contra ela
com mais forças.
A puxo para trás, virando sua
cabeça para mim, e sem deixar de me
mover, a beijo deslizando minha língua
na sua enquanto a provoco. Sufoco seus
gemidos com meus lábios enquanto bato
nela. Solto um grunhido quando ouço os
gemidos de Grace ficando cada vez mais
altos conforme aumento o ritmo.
— Goza pra mim, Grace. —
Sussurro em seu ouvido deixando uma
mordida no lóbulo de sua orelha. Sinto o
corpo dela tremer no mesmo instante que
sinto meus músculos ficarem tensos. —
Vamos lá, amor. Quero gozar com você.
Grace se liberta deixando um grito
escapar. Estoco nela uma última vez
quando sinto sua boceta apertar meu pau
me fazendo gozar.
Encosto minha testa em sua nuca.
Grace ainda está mole em meus braços,
e consigo sentir seu coração acelerado
conforme ela controla sua respiração.
Quando por fim se vira para mim, me
olhando por cima dos ombros, ela diz.
— Mais um round?
— Com toda certeza, gata.

Meu corpo cai ao lado do seu

quando gozo mais uma vez. O peito de

Grace sobe e desce quando a encaro e

não posso deixar de sorrir quando seus


lábios se erguem para cima também.

Não faço ideia de que horas são,


mas deve ser tarde. E quanto a festa,
nem sei se já acabou ou não. Mas não
importa. Tudo que importa são nossas

respirações ofegantes e o cheiro de sexo


em meu quarto.

— Sei que devo ir embora, mas

acho que não sinto minhas pernas. —


Grace murmura, me fazendo rir alto.

Seus olhos estão pesados e não é


preciso ser um gênio pra saber que ela
está exausta. Quem não estaria depois da
noite que tivemos? — O que está
fazendo? — Ela pergunta quando a ergo

em meus braços nos tirando de cima da


cama.

— Te expulsando do meu quarto.

— Brinco a fazendo rir enquanto a levo


até o banheiro. A coloco dentro da

banheira e giro a torneira, deixando a


água cair.
Pego alguns sais de banho de

dentro do armário que nunca cheguei a


usar. Pra ser sincero, acho que ninguém

mereceu usar até agora. Os jogo na água,


sentindo o cheiro de flores que começa a

preencher o banheiro. Sem dúvida

alguma, eu não iria usar isso tão cedo.

Ninguém iria levar a sério um jogador

de hóquei cheirando a rosas. Mas foi

difícil negar isso a Grace quando antes


de sair e lhe dar privacidade, sinto sua

mão segurar meu pulso fazendo um


pedido silencioso.

Entro me sentando atrás dela, suas

costas colando em meu peito pela

milésima vez essa noite. Ela inclina sua

cabeça se apoiando em meu ombro, e


ficamos apenas no silêncio. Até achei

que ela tinha dormido quando ela


pergunta baixinho.
— O que é sua tatuagem? — Olho

para a frase riscada em meu pulso


direito sentindo seu dedo passar em

cada letra lentamente.

— Si la musique est la nourriture

de l'amour, n'arrêtez pas de jouer.

— Isso foi sexy. — Ela murmura

quando falo em um francês enferrujado.

— Mas o que quer dizer?

— Se a música é o alimento do
amor, não parem de tocar.

— Shakespeare. — Ela diz. Não

me surpreendo por ela reconhecer a


citação. Afinal, é com a Grace que estou

falando. — O que está por trás da

tatuagem, Seth?

Dou risada quando, por alguma

razão, já esperava essa pergunta vindo

dela.

— Acho que é mais pessoal. Eu


sou ligado a música desde sempre. Tudo
que amo fazer, faço com fone de ouvido.
— Seu corpo sacode rindo e, antes que

ela pergunte o que, eu digo: — Treino


com música, cozinho com música,

revelo as fotos que tiro com música e

pinto com música.

Grace gira derramando água para

fora e me encara com os olhos brilhando


em animação.
— Você pinta? — Assinto

envergonhado. Não é uma coisa que


gosto de me gabar, por incrível que

pareça. — Por que não segue a carreira


com isso? Sabe, fotos e pinturas.

— Quem compraria meus quadros?

— Eu compraria. Se fosse uma

obra de arte linda, — Ela dá de ombros.

— Tipo eu mesma. Oh, meu Deus! Você


tem que me pintar, Seth.
— Está falando sério? —

Gargalho quando Grace pula da


banheira agarrando a toalha e enrolando

em seu corpo. Ela joga uma toalha pra


mim e me obriga a sair da banheira.

Mas, antes que ela saia do

banheiro, a pego no colo sob seus


protestos sem deixar de rir e volto a

colocá-la na cama.

— Temos que descansar, amor. Já


está tarde.

Ela tenta protestar, mas o bocejo

que solta me faz rir de novo. Me levanto


indo até meu armário e pegando uma

camiseta pra Grace. A jogo em sua

direção e pego uma calça moletom pra

mim. Paro quando volto a olhar pra


minha cama. Os fios claros de Grace

estão espalhados pelo travesseiro e seu


corpo pequeno está dentro da minha
camiseta preferida que nem notei que
peguei.

Me aproximo tentando não a


acordar, me deitando ao seu lado e

desligando o abajur.

— Seth?

— Hum?

— Promete que vai me pintar

depois?

— Prometo. — Respondo em um
sussurro. Procuro seu corpo no breu do
quarto, e a puxo para mais perto de mim.
— Grace?

— Hum?

— Promete que não vai embora

quando amanhecer?

— Prometo.
☆♡☆

Capítulo 38
Agora

— Eu não sei por que você me

mostrou isso, pra ser sincero. — Seth


diz, me devolvendo o papel enquanto

aperta os lábios. Ele deve achar que sou


maluca. Eu mesma estou achando isso.

Eu nem sei ao certo o que foi que

deu em minha cabeça pra chamar um táxi


e vir até aqui. Mas eu estava me

sentindo claustrofóbica em minha

própria casa, e o primeiro refúgio que

pensei para onde eu pudesse ir foi Seth.


Onde quer que ele estivesse.

Eu sei o quão babaca estou sendo.


Seth, apesar de mostrar ser uma boa
pessoa, querendo ou não, ainda é um

estranho para mim. Assim como sou uma


estranha para ele. Sobretudo, tem uma

parte em mim que insiste em me dizer


que devo confiar nele, apesar dos

segredos que ele compartilha com Triz.

— Me desculpa, acho melhor eu ir


embora. — Meus pés param no chão

quando Seth se coloca em meu caminho.

— E se eu te fizer um chocolate
quente? — Ele sugere arqueando as

sobrancelhas e mal hesito antes de abrir


um sorriso.

Seth Mason me leva de volta a sua

cozinha e nem posso admitir que estou

quase me sentindo em casa. Estou

passando mais tempo com ele do que


com minha própria melhor amiga e notei

que isso é algo com que devo me


preocupar a partir do momento em que
senti meu coração pesar e soube que
precisava ver Seth. Ele me acalma, e
nem sabe disso.

Ele me entrega a caneca fumegante

e a seguro entre minhas mãos, sentindo a

palma esquentar com o calor. Ele

mergulha dois marshmellows em minha


caneca e lhe dou um sorriso como

agradecimento.

— Por que você não lembra? —


Ele pergunta em um sussurro, antes de

apoiar sua caneca no balcão.

— Eu sofri um acidente. — Desvio


os meus olhos para os marshmallows

flutuando no chocolate. — Eu não sei o

que aconteceu. Não lembro. Não sei se

senti dor ou se eu não senti


absolutamente nada. Eu só não sei. Em

um momento, eu tinha chegado na New


York University pronta pra fazer o meu
último ano ser incrível. Eu conheci
minha colega de quarto, arrumei minhas
coisas, enfileirei meus livros, desfiz as

malas.... E uma semana depois, faltando


dois dias para o primeiro dia, eu dormi

e é isso. — Dou de ombros sem forças

para encará-lo. — Acordei em uma

cama de hospital, — Solto um sorriso

falso antes de prosseguir: — Lembro de

ter falado para os meus pais que estava


perfeitamente bem para começar as

aulas. Que eu deveria voltar pra


universidade. Lembro dos olhos dele se

enchendo de lágrimas. Eles chamaram o


médico e eu fiquei lá... olhando todos a

minha volta, até descobrir que um ano

tinha se passado.

— E a carta?

— Encontrei ontem. Eu não sei de


quem é. — Ele solta uma respiração
pesada. — Parte de mim quer muito

saber quem é ele, saber como éramos


juntos e pedir desculpas porque... —

Minha garganta fecha e ainda não tenho


coragem de olhá-lo, pois essa história

toda é maluca demais para entender. —

Pedir desculpas por não ter dado

notícias e perdão por não lembrar dele.

Ficamos em silêncio, e não digo


mais nada porque sei que ele ainda está
digerindo a história toda. Encaro minhas
próprias unhas e começo a descascar o
esmalte enquanto não ouço nada além do

tic tac do relógio da cozinha.

— E a sua outra parte? — Ele

pergunta. O olho com a testa franzida e

ele continua. — Você disse que uma


parte de você quer encontrá-lo. A outra

parte não quer?

— Não.
— Por quê?

Desvio meus olhos de novo,

apertando meus lábios. De repente, o


saleiro no canto do balcão se tornou

mais interessante do que essa conversa.

— Gata?

— Eu não posso encontrá-lo,

porque se ele ainda sentir algo por mim,

não vou poder retribuir o sentimento e


isso irá machucar nós dois. Irá machucá-
lo ainda mais, porque... hum... Eu meio
que gosto de outra pessoa.

— Quem? — Sua voz sai fria e me


causa arrepios. Ergo meus olhos vendo

os seus nublados. É como se chovesse

neles.

— Você, Seth. Gosto de você.


☆♡☆

Capítulo 39
Antes

Acordo com braços fortes me

segurando pela cintura. A primeira coisa


que ouço é o ritmo constante das batidas

de seu coração. Nossas pernas estão


entrelaçadas, e Seth dorme

tranquilamente. Acho que ficaria horas o


vendo dormir. Os cabelos negros
bagunçados, as pálpebras fechadas e os
lábios cheios entreabertos. Passo meu

dedo lentamente por sua bochecha,

contornando o seu maxilar. Sentindo os

pelos da barba que ele tira. E por um

momento, me pergunto como Seth Mason


seria se deixasse a barba crescer.
Aposto que mais tentador do que já é.

Acho que entendo por que Jef me

considerou uma louca por recusar estar


com Seth Mason. Ele não é só desejável

por ser capitão do time de hóquei, mas

porque ele é absolutamente lindo.

Tento me afastar dele. Sei que

prometi estar aqui quando o dia

amanhecesse, mas não posso.

Estou morrendo de fome, não


lembro a última vez que comi e não
quero acordá-lo com o som da minha
barriga roncando. Talvez eu possa

assaltar a sua geladeira e voltar antes


que ele acorde. Bem, é exatamente isso

que farei. Por mais que assaltar a

geladeira de jogadores de hóquei

famintos seja uma ação perigosa.

Saio de seu aperto, desço da cama


king size procurando por minha calcinha
no chão do quarto e, por mais que não
seja tão higiênico, é melhor do que ser
pega no flagra pelada, já que não estou

muito a fim de usar uma saia apertada


agora. A camiseta de Seth bate um

palmo acima de meus joelhos, está

ótimo assim!

Deixo minhas roupas e minha bota

para trás e desço as escadas apenas de


meias sem fazer barulho. Nem sei para
onde fica a cozinha, mas um cheiro
maravilhoso de panquecas é uma boa
pista para seguir.

Encontro Noah em frente ao fogão

enquanto canta baixinho uma música de

Imagine Dragons, virando as panquecas

com maestria enquanto segura uma


xícara de café.

Depois da noite de ontem eu


esperava ver Noah morto em algum
canto da casa e não de pé desse jeito

como se tivesse dormido por dias.

Meus olhos vão para o prédio


incompleto de Lego que tem várias

peças soltas ao redor. Noah ainda não

me viu e me aproximo devagar, não

resistindo em pegar uma peça e, antes


que eu possa encaixá-la, ouço:

— Se tocar, eu mato você. — Ele


ainda está de costas, mas não pago pra
ver e devolvo a peça para o mesmo

lugar em que estava.

— Achei que se alguém ousasse


tocar em mim, estaria mexendo com o

time todo.

Noah me lança um sorriso por

cima dos ombros.

— Quem foi o babaca que disse

isso? O Seth?

Gargalho antes de responder: —


Foi você, Noah.

Noah arregala os olhos, desligando

o fogo e apoiando a xícara na lateral do


balcão antes de me olhar semicerrando

os olhos.

— O que foi que eu fiz?

— Como pode acordar

perfeitamente bem sem nenhuma ressaca,

mas não lembra do show que deu?

— Eu fiz strip tease de novo?


Porra! Tem uma mordida na minha bunda

e eu não sei quem foi que deu!

Não resisto o impulso e gargalho


novamente.

— Você foi o lacaio. — Ele ergue

as sobrancelhas confuso. — Fez

discurso sobre amar o Seth e ele ser o

rei e blá-blá-blá. Até nos coroou.

— E onde diabos eu achei a porra


dessas coroas?
— Eu não faço ideia, mas agora

desejo que não tenha sido do lixo. —


Agora é Noah quem gargalha alto. —

Como pode estar tão bem depois de


ontem?

— Eu nunca fico de ressaca,

Grace. — Ele se vira para o fogão,


voltando a acendê-lo. — Quer

panquecas?

Assinto enquanto o vejo aumentar


a pilha de panquecas. E até me

surpreendo quando ele diz que são


apenas para cinco pessoas, isso se todos

acordarem. Não mora ninguém nesta


casa além de Seth, Noah, Hunter e Ryle.

Aparentemente, não é uma casa de

fraternidade como achei que seria. Eles

apenas dão festas sempre e, uma vez ou

outra, deixam algum colega de time ficar

por alguns dias. De acordo com Noah,


Hunter está ficando “por uns dias” há um

ano.

— Você é a primeira garota que


dorme com Seth. — Ele diz, desviando

os olhos para a peça antes de encaixá-la

no lugar certo. — Não estou falando de

transar. Mas, sabe, dormir.

Não respondo porque já sei onde

isso irá parar. Vamos voltar para o


assunto de Seth gostar de mim e, apesar
de Noah conhecê-lo há muito tempo, não

acho que ele está vendo as coisas da


perspectiva certa.

— Você está com a camisa

preferida dele. E ele não tentou te

enforcar por estar usando-a como ele fez

comigo. E, pra ser sincero, Seth é o


estilo que transa e cai fora. E você ainda

está aqui

Continuo calada mastigando as


panquecas enquanto giro uma peça em

meus dedos. Vejo Noah montando e


estendo a peça que seguro para ele, que

assente em agradecimento antes de


encaixá-la.

— Quer tentar? Mas, se derrubar,

eu juro que mato você.

Eu tentei e quase derrubei, mas não

morri. Noah disse que só não iria me


matar por respeito ao Seth, mas sei que
ele está gostando de ter uma companhia,

já que sempre que faço perguntas


relacionado ao Lego, seus olhos

cintilam animados.

— Isso, caralho! — Ele comemora

se curvando para me dar um beijo na

minha testa quando consigo montar


quatro peças seguidas sem errar ou

derrubar.

— Eu sou um gênio! — Comemoro


com ele, batendo nossas xícaras de café.

— Você quis dizer que eu sou um

ótimo professor. — Se gaba rindo


quando levanto o dedo do meio para ele.

— Você é uma boa parceira, Grace.

— Sério? — Ele assente, sorrindo

para mim. — Gosto de ser sua parceira.

E montar isso é divertido. — Seu

sorriso se abre mais com a última frase.

Covinhas.
— Estou vendo coisas por estar

bêbado demais? Ou estou em um


pesadelo onde minha garota está

montando essa baboseira? — Seth diz


entrando na cozinha, usando apenas

calça moletom e meias. Ele ignora o

olhar afiado que Noah o lança e segue

até a cafeteira, servindo uma xícara para

si.

Eu ainda não disse nada porque


estou em um looping eterno ouvindo
“minha garota” repetidas vezes.

Noah ri quando minhas bochechas


ficam avermelhadas e tento disfarçar me

concentrando no prédio, enquanto Seth

se senta ao meu lado com um prato de

panquecas.

— Achei que tivesse ido embora.

— Ele diz, me olhando antes de cortar


um pedaço de sua panqueca e levá-la até
sua boca.

— Eu prometi que estaria aqui. —

Vejo um misto de emoção cintilando em


seus olhos antes dele voltar a comer.

Consigo sentir os olhos de Noah em

mim. — O que foi?

— Nada, amiga. — Ele dá de

ombros. — Você só é tão burra quanto

ele. Sem ofensas.

— Não ofendeu, otário. —


Respondo.

— Ai! Doeu. — Ele leva as mãos

até seu peito, fingindo estar magoado. —


Minha melhor amiga me acha um otário,

acho que vou morrer.

Seth gargalha quando reviro meus

olhos, vendo Noah apoiar a cabeça no

balcão.

— Morri! — Diz Noah.

— Quando que essa amizade


começou mesmo? — Seth pergunta após

tomar um gole do seu café. Noah ergue a


cabeça com uma careta estampada no

rosto.

— Eu morro e essa é a primeira

coisa que você pergunta? — Ele diz,

parecendo insultado. — Mas que porra,


Seth! Você é um palerma.

— Você parece bem vivo pra mim.


— Seth murmura segurando um riso. —
Não foi isso que você me disse ontem a

noite.

Na mesma hora, Noah fica de pé


apontando um dedo para a cara de Seth.

— Foi você que mordeu minha

bunda, seu filho da puta! A tia já não

falou que é feio morder as pessoas, seu

babaca?

Seth cospe o café quando solta a


gargalhada, respingos da bebida param
no prédio de Lego que Noah ainda não
viu. Ryle e Hunter entram na cozinha no
mesmo instante vendo Noah olhando de

cara feia para Seth, que gargalha sem


parar, e a mim que tenho meus olhos

lacrimejando de tanto segurar o riso.

— O que aconteceu? — Ryle


pergunta. A voz ainda rouca pelo sono.

— Seth mordeu a minha bunda! —


Seth gargalha mais.
— Você mordeu a bunda dele,

Mason? — Hunter pergunta, sem saber


se dá risada ou se fica pasmo.

— Não! — Seth responde entre as

risadas. — Eu estava com a Grace o

tempo todo. Diz pra eles, gata.

Eu assinto com a cabeça porque,

se abrir a boca, vou rir e não sei se vou

parar tão cedo.

— E quem foi que mordeu a porra


do meu traseiro, caralho?

Seth gargalha e todos nós o

encaramos, sabendo que ele sabe de


algo. Ele dá uma respirada funda, se

acalmando.

— Quando eu estava subindo com

a Grace, você estava com o Colin e Jef.

— Oh, meu Deus. Oh, meu Deus.

Oh, meu Deus. Oh, meu Deus. — Noah


leva as mãos até a nuca e depois até a
sua bunda por cima da calça. — Meu cu
ainda está intacto?

A cozinha explode em uma


gargalha enquanto Noah tem seus olhos

arregalados. Ryle procura a cadeira

mais próxima e desaba rindo. Hunter se

senta no chão com as mãos na barriga.


Eu quase me desequilibro da cadeira,

mas Seth passa seu braço por meus


ombros, apoiando sua cabeça na dobra
do meu pescoço, enquanto seu corpo
sacode em uma gargalhada tão intensa
quanto a minha.

Quando as risadas cessam,

encaramos Noah com as sobrancelhas

franzidas, olhando para a construção da

qual nos dedicamos algum tempo


montando. Ele olha para os respingos de

café e depois para Seth, sua voz soando


fria quando ele diz:
— Corra.
☆♡☆
Capítulo 40
Agora

Grace gosta de mim? Não a Grace

do ano passado, mas essa Grace, que me

conhece há poucos dias? Ela gosta de

mim? Isso foi mais rápido do que achei


que seria. E tudo que vem fácil, vai
fácil. Sei disso por experiência própria.

Grace veio fácil quando nos


conhecemos e a perdi. Agora, por obra

do destino, aqui está Grace admitindo


que gosta de mim. Isso quer dizer que

vou perdê-la de novo? Porque eu não

aguentaria. Não posso perdê-la mais

uma vez.

— Grace... — Ela não me deixa


prosseguir.
— Eu sei, é loucura. Só tivemos

um encontro e você mal me conhece. —


Você que pensa. — É só que eu me sinto

bem quando estou com você.

Me levanto, pegando as canecas e

levando para pia enquanto sinto seus

olhos em mim. Estou apenas ganhando


tempo, ou vou enlouquecer e dizer o que

não devo.

Ela mesma disse que não quer


falar para a pessoa que escreveu a carta

que a esqueceu. Ela não quer ver a dor


em seus olhos. Então, preciso lhe dar as

costas apenas por um segundo, para que


não veja a dor nos meus.

— Vem — Passo por ela e saio da

cozinha, ouvindo seus passos atrás de


mim enquanto vou para o meu quarto.

Ela para na porta e eu não peço para que


entre. Posso sentir o calor de seus olhos
em minhas costas enquanto paro em
frente a minha estante de livros. Ela
estaria orgulhosa de mim se ao menos

lembrasse. Escolho um e passo por ela


novamente, indo até a sala e abrindo a

porta da varanda para me deitar no

chaise[5] acolchoado.

— O que vai fazer?

— Vou ler para você.

— Por quê?
Ela pergunta parada em pé ao meu

lado, sem fazer questão de se sentar.


Rolo meus olhos e a puxo para mim.

Grace cai em cima do meu colo com um


gritinho, mas, antes que possa se

levantar, a coloco entre minhas pernas.

Sua cabeça encosta em meu peito sem

nenhum protesto.

— Já leu esse? — Pergunto,


colocando o livro em nossa frente
depois de cobri-la com o manto que
Noah sempre esquece de levar para
dentro. Dessa vez, me sinto agradecido

por isso.

— Não lembro. — Ela responde,

parecendo envergonhada.

Apenas assinto com a cabeça, sem

dizer que ela já o leu. Começo a ler para

ela, ouvindo seus suspiros quando algo


acontece.
— No Reino das Fadas, — Leio,

mas é Grace quem termina a frase em um


sussurro.

— Não há palitinhos de peixe

empanado, ketchup ou televisão.

Ela se senta em um salto e se vira

para me olhar com os olhos arregalados.

Ainda estou segurando o livro aberto

quando vejo seus olhos marejarem.

— Eu já li isso. — Ela murmura


encarando o livro. — Devo ter lido e...
e...

— Se lembrou que leu. — Digo,


engolindo em seco. Ela assente sem

dizer uma única palavra, ainda em

choque. Depois volta a se deitar em

mim, soltando um suspiro.

— Você deve estar me achando

louca.

— Não estou.
— Mesmo?

Assinto com a cabeça, a vendo

virar a próxima página.

— Pode voltar a ler pra mim? Por


favor.

Grace nem sabe que ler é a menor

coisa que eu faria por ela. Se ela me

pedisse a coisa mais impossível do

mundo, eu tentaria. Provavelmente


falharia, mas voltaria a tentar. Por ela.
Sempre por ela.

Volto a ler e sinto suas lágrimas

molhando minha camiseta. Sei que não é


pela história. Sei que a dor de ter

esquecido um ano de sua vida ainda

aperta seu coração. Um dos meus braços

a envolve enquanto o outro segura o


livro. Apoio meu queixo no topo de sua

cabeça e continuo lendo. Lendo até que


ela pare de chorar. Lendo até ouvir seu
suspiro de alívio. Lendo até que Grace
durma.

Noah arregala seus olhos quando

vê Grace dormindo em minha cama. Ele

pisca, abre a boca, pisca de novo e


depois me dá as costas, indo para a sala
e se jogando no sofá.

— Como nós dois passamos dos

melhores jogadores que a New York


University já viu para dois boiolas

sofrendo por uma garota?

— Sinto muito. — Digo, sentando-

me ao seu lado e sentindo seus olhos em

mim.

— Não estou te culpando, Seth.


Você sabe disso. Nada foi culpa sua.
— Deixa eu ver... — Minha

cabeça afunda no encosto do sofá. — Eu


a levei pra sair. O tempo todo ela estava

comigo. Eu estava com ela antes,


durante e depois do acidente. Não sei o

que você acha, mas os fatos apontam

para mim. Nem posso culpar a Triz por

me odiar.

— Foi um acidente, caralho! —


Noah exclama, dando um tapa em minha
cabeça.

— Porra, doeu! — Devolvo o

tapa.

— Vocês são sempre assim? —


Grace aparece esfregando os olhos.

— Assim como? Lindo, cheiroso e

maravilhoso? — Noah abre um sorriso.

— Sempre.

Grace arqueia as sobrancelhas e


depois me encara.
— Ele é sempre assim?

— Assim como? Convencido,

arrogante e egocêntrico? — Dou de


ombros. — Sempre.

Grace sorri e Noah me encara com

o olhar afiado, antes de se levantar e

dizer que não vai dividir as panquecas

maravilhosas que ele irá preparar.

Duvido, pois Noah sempre precisa de


uma plateia que elogie seus dotes
culinários.

Os passos de Grace são lentos

vindo até mim e se sentando no mesmo


lugar em que Noah estava.

— Desculpa por ter dormido aqui.

E por ter ensopado a sua camisa.

— Não esquenta com isso, gata.

— Sobre o que eu disse, em

relação a gostar de você. — Prendo


minha respiração enquanto seus olhos
castanhos estão em mim. — Sei que

somos apenas amigos e não quero que


isso estrague nossa amizade.

Abro um sorriso de lado e seguro a

sua mão. Ela a move para que entrelace

na minha e eu não a solto. Senti falta de

segurar sua mão assim.

— Oh, pombinhos! — A voz de

Noah vem da cozinha. — Será que


podem se levantar e arrumar a mesa
enquanto faço as panquecas mais

deliciosas do mundo? Ou eu tenho que


fazer tudo sozinho nessa casa?

— Como você ainda não o matou?

— Pergunta Grace, se erguendo na ponta

dos pés para falar em meu ouvido.

— Não saberia onde esconder o

corpo.

— Você mata e eu escondo, que


tal? — Abro um sorriso concordando e
lhe lanço uma piscadinha que faz suas
bochechas corarem.

Passo por Noah para pegar os


pratos, trocando o pote de açúcar pelo

de sal. Grace segura o sorriso quando

me pega no flagra e apenas dou de

ombros. Gosto de ter ela aqui em uma


manhã, tomando café como

costumávamos fazer. Gosto pra caralho.


☆♡☆
Capítulo 41

Antes

— Não é porque venceram o

primeiro jogo com vantagem que vocês


vão descansar essas bundas. Agora
vamos pegar ainda mais pesado, e eu
juro por Deus que, se um de vocês
causar uma briga desnecessária

novamente, eu arranco as bolas de


vocês.

— Isso deve doer. — Noah

sussurra enquanto o treinador Scott


continua falando.

— Você disse a mesma coisa


ontem, porra. — Sussurro de volta. —
Só por causa daquele seu brinquedo

bobo.

— Brinquedo bobo que sua


namorada amou.

O treinador sai do vestiário e os

murmúrios começam enquanto voltamos

a nos vestir para o treino.

— Ela não é minha namorada. —

Dou de ombros. — Só somos


exclusivos, sei lá.
— Eu sei que você é exclusivo, já

que o seu amiguinho não quer nada além


dela, então meio que não é uma escolha

sua. Mas e ela?

— Grace não está com mais

ninguém. — Digo com muita certeza.

Noah ergue as sobrancelhas em dúvida,


sem lembrar que fez metade do campus

se ajoelhar para mim e Grace. A essa


altura, a faculdade inteira sabe disso, e
sei que, graças às palavras ridículas de
Noah, ninguém vai encostar em Grace.
Não enquanto ela estiver comigo, e não

tenho a mínima vontade de me afastar


dela.

— Ela vestiu sua camisa preferida.

— Estava escuro, não vi quando

peguei. — Passo por ele pegando meus

patins.

— Ela dormiu em casa.


— Transamos muito, estávamos

cansados e caímos no sono.

— Ela ficou pro café.

— Queria que ela morresse de


fome? — Rolo meus olhos e apanho meu

taco, batendo de leve em sua cabeça sem

querer.

— Pode inventar qualquer

desculpa, Seth, mas está se apegando a


ela rápido demais. Ela é uma boa garota
e agora é minha amiga, então não
estrague tudo.

Respondo abrindo um sorriso


enquanto levanto meu dedo do meio.

Saio do vestiário sem olhar pra trás

porque não quero que ele veja a verdade

em meus olhos. Não quero que ele veja


que eu sei que estou apegado demais a

ela e que não faço ideia de onde isso vai


parar.

Mexo meus ombros sentindo a dor

neles enquanto piso no gramado.

Preciso tirar algumas fotos e achei que o


dia ensolarado poderia ajudar no

contraste com as folhas das árvores.

Meus olhos vão para a lente da câmera,

mas o corpo pequeno de uma garota

sentada sozinha com um livro em mãos


chama a minha atenção.

Não vi ela depois que foi embora

no sábado a tarde. Conversamos apenas


por mensagens falando sobre livros e

minhas tentativas falhas de fazer sexo

por telefone.

Ela sorri para o livro e, no exato

momento em que o vento bate em seus

cabelos, clico e capturo uma foto.

— Agora você é um pervertido


que tira foto de garotinhas indefesas? —
Ela arqueia a sobrancelha erguendo a
cabeça para mim. Dou risada, me

sentando ao seu lado.

— Como foi a aula, gata?

— Como foi o treino, gato?

Abro um sorriso, mas não

respondo, já que ela nunca responde a

minha pergunta só por implicância.

— Você parece acabado.


— Pareço, é? — Murmuro

fechando meus olhos enquanto apoio a


cabeça no tronco da árvore. — O

treinador pegou pesado hoje. — Ainda


posso sentir o corpo de Hunter vindo

contra o meu várias vezes seguidas. E os

arremessos repetitivos só pioraram

mais.

— Beba isso. — Abro apenas um


olho para ver Grace me estendendo um
comprimido e sua garrafa de água.
Engulo o comprimido e vejo a careta
que ela faz quando recuso a água.

Nem consigo deixar de sorrir.

Pego o caderno que está ao seu

lado e sinto seu corpo retrair quando

leio seu nome no topo da página.

— Espera aí, — Abro um sorriso

quando Grace tampa o rosto com as


mãos e solta um gemido frustrado. —
Você se chama Grace Barbie? Como a
boneca Barbie?

— Cala a boca, Seth. — Sua voz


sai abafada enquanto ela continua

escondendo o rosto. Seus olhos se

semicerram, enfim me olhando quando

começo a gargalhar. — Já terminou? —


Suas bochechas esquentam e a

semelhança com a boneca é incrível, se


não fosse pelos olhos escuros. Continuo
rindo enquanto Grace revira os olhos.

— Tá, parei. Mas preciso dizer

uma coisa.

Grace ergue as sobrancelhas e


respira fundo.

— Sabe quem eu sou?

— Um bocó?

— O Ken da sua vida, entendeu?


— Gargalho — O Ken! Dá risada, gata.
— Eu vou enfiar o bico da minha

bota na sua bunda. — Ela resmunga.

— Não parece nada confortável —


Enrugo o nariz — Mas meu pau na sua

bunda parece ser algo bom.

Seus olhos se arregalam e, antes

que um de nós possa dizer algo, Noah

vem correndo em nossa direção e se

joga ao meu lado.

— Adivinhem só, meu cu está


intacto! — Noah abre um sorriso
contente enquanto Jef, Colin e Triz se
aproximam sentando-se também,

formando um círculo.

— Pois é. Foi uma garota louca

que mordeu sua bunda, não a gente. —

Jef diz se apoiando em Colin, que me


lança um piscar de olhos, como se me

agradecesse por ter apresentado Jef a


ele. Apenas meneio com a cabeça, já
que não fiz nada demais. Colin é o único
homossexual do time e nunca aceitamos
nenhum preconceito, mas é claro que

nem todos pensam o mesmo e as brigas


durante os jogos, na maioria das vezes,

são causadas por babacas que ofendem

Colin como se ele não fosse um ser

humano. É algo que deixa todo o time

puto e é difícil evitar a vontade de

arrebentar a cara de alguém.


Eu não conheço Jef, mas Grace

parece gostar dele. E acho que ele vai


ser bom para Colin, assim como Colin

será para ele. Ambos merecem ser


felizes.

— Agora preciso descobrir quem

foi a vampira que chupou minha bunda.

— Seu nome não é Sherlock? —

Triz pergunta, segurando o riso. — Faça


jus ao seu nome.
Todos riem, inclusive Noah. Grace

tenta retrair, com medo de que eu revele


o seu. Apenas encosto meus lábios em

seu ouvido, sentindo quando ela se


arrepia.

— Temos um segredo, amor. —

Sussurro e deixo um beijo em sua


bochecha, mas me arrependo

amargamente quando quatro pares de


olhos me olham como se eu tivesse duas
cabeças.

— Vocês viram o que eu vi? — É

Colin quem pergunta com os olhos


arregalados.

Noah abre um sorriso mostrando

suas covinhas quando me lança um olhar

sem dizer nada, e eu já que sei

exatamente o que significa. É um “eu te

avisei”.
☆♡☆
Capítulo 42
Agora

Bato a porta do apartamento assim


que passo por ela, com o celular preso

entre meus ombros e a cabeça enquanto

carrego sacolas de compras.

— Estou bem, mãe. E como estão

vocês?
— Ótima, querida. Seu pai

finalmente aprendeu a parar de reclamar


da minha comida e está começando a

cozinhar.

— E como ele está se saindo? —

Digo, vendo Triz vindo até mim para me

ajudar com as sacolas.

— Bem, até agora eu só tive que

jogar duas frigideiras fora. — Ela ri e


eu dou risada junto. Conversamos mais
um pouco enquanto Triz guardava as

compras. Quando me despeço, tudo já


está fora das sacolas e guardado nos

armários.

— Eu tava pensando, — Triz

começa piscando os olhos de maneira

fofa e já sei que lá vem coisa. — Já que


estamos bem e temos folga, que tal uma

noite das garotas? Podemos sair.

Acho que merecemos isso. Tratei


Triz mal, mas nós já nos resolvemos e

acho que sair é uma boa forma de nos


redimir. Triz comemora quando aceito e

corre em direção ao seu banheiro


enquanto sigo para o meu.

Enquanto faço cachos em meu

cabelo, ouço Triz bater na porta do


banheiro e sua voz soa em seguida:

— B? Pode me emprestar aquele


seu salto lindíssimo?
Dou risada. Triz está de olho no

meu scarpin há algum tempo. Paguei


uma grana nele. Não costumo emprestar

minhas coisas, pois nunca me devolvem,


mas, como minha amiga mora comigo,

emprestar as coisas para ela não é um

problema.

— Na caixa em cima do guard...

— Paro de mexer em meu cabelo e saio


do banheiro, mas já é tarde demais.
Triz está em cima da minha cama

na ponta dos pés para alcançar o topo do


guarda-roupa, mas, ao invés da caixa de

sapatos, em suas mãos está o quadro que


Seth me deu.

Ela desce da cama com o quadro

em mãos, os olhos vidrados na minha


imagem retratada pelas mãos talentosas

de Seth. Mas Triz não pensa nisso. Não


liga se ele é talentoso ou se a obra é
divina.

— Onde achou isso? — Ela engole

em seco, ainda olhando para a tela. Eu


não respondo, porque ela sabe a

resposta.

Triz coloca o quadro em minha

cama e depois me olha. Seus olhos estão

marejados, e quase choro junto quando

vejo a dor passando por eles.

— Você viu ele.


— Triz...

— Você prometeu pra mim que não

ia ver ele, mas estava com o Mason a


porra desse tempo todo! — Sua voz se

eleva e dou um passo para trás. Nem

consigo mais decifrar o que está

acontecendo com ela e muito menos o


que se passa em minha cabeça.

Triz não é assim.

— Que merda deu em você?


Ela ri com escárnio enquanto

sacode a cabeça de um lado para o


outro.

— Estou tentando proteger você,

porra!

— Por que, Triz? — Agora é a

minha vez de gritar. — Por que me quer

longe dele? Sei que é mentira aquela

merda que me disse. Ele nunca teve nada


com você. Você mentiu pra mim,
caralho. Por que me quer longe de

alguém que me faz bem?

— Porque foi esse mesmo alguém


que fodeu com sua cabeça. Por culpa

dele você não se lembra de nada!


☆♡☆
Capítulo 43
Antes

— As provas finais valerão um


quarto da nota de vocês. Apesar de

faltar alguns meses, não quero que

deixem os estudos de lado. Vocês

chegaram muito longe até agora, então

não ousem dar um passo para trás.


O sinal toca e todos recolhem seus

materiais. Ligo meu celular esperando


chegar uma mensagem de Seth. Chega a

ser ridícula a ansiedade que sinto para


receber uma mensagem dele. Vez ou

outra, ao invés de mandar mensagens,

ele me espera em frente a porta da sala.

Não somos namorados. Acho que

somos amigos bem próximos. Amigos


que transam o tempo todo e estão
sempre juntos. Mas o campus não vê
isso, pois agora eu carrego o título de
namorada de Seth e sei o que tenho que

fazer para não ter que carregar esse


nome ridículo comigo. Preciso me

afastar de Seth, mas isso não vai

acontecer tão cedo.

[14:46] Seth Mason:

Vou te matar
Eu deveria estar prestando

atenção na aula

Mas naaaaaao!

É a porra de um triângulo
amoroso

Você disse que a história era

sobre caçadores de demônio

Mas eu só estou vendo a porra de

uma garota confusa sem saber pra


quem dar
Ok, isso saiu ofensivo dmais

Ela não sabe para quem vai dar a

sua flor

Agora pareço a mãe do Noah


falando

Tenho treino dps da aula, amor

Mas me encontra em casa a

noite?

Tenho uma surpresa


— Está com as camisinhas,

querida? — Jef pergunta, me olhando

por sobre os ombros.

Reviro meus olhos, sem deixar de

rir.

— Sim, mamãe. — Ele gargalha.


— E você, pegou? — Jef abre um
sorriso malicioso, abrindo o porta luvas
e me mostrando o estoque de camisinhas

como se fosse trepar igual a um coelho.

— Cuide do meu capitão. — Colin

diz do banco do motorista.

— Pode deixar, papai. — Ele

gargalha junto com Jef e saio de seu

carro. Dou um tchauzinho com a mão


vendo o carro de Colin se afastar da rua
de Seth. Ele foi bem gentil em me trazer

aqui e está se tornando um bom amigo.


Estamos cada vez mais próximos, já que

ele está sempre ao lado de Jef. Os dois


são lindos juntos, nunca se desgrudam e

Jef até comprou meias combinando. É o

casal mais fofo do campus, sem dúvida

alguma.

O celular vibra em meu bolso


antes que eu possa tocar a campainha da
casa de Seth, e vejo mensagens da Triz.

[19:23] Triz:

Me empresta seu cropped preto?

Vou sair com o carinha do café

Não dá pra ser a única solteira do

grupo

[19:24] Grace:

Eu sou solteira, assim como Seth

e Noah
E sim, empresto

[19:24] Triz:

Vocês três são praticamente um

trisal.

A ideia de apenas beijar Noah me

causa um frio na espinha. Não por ele

não ser bonito, Noah é lindo até demais,

mas durante o tempo que passamos

juntos, o único sentimento que consigo


nutrir por ele é amizade e amor de
irmão. Às vezes, ele até me chama de
irmãzinha.

Digito um “Que nojo” e envio


antes de enfiar o celular no bolso

traseiro da calça e tocar a campainha. É

o meu irmão que abre a porta, me

recebendo com um abraço e um beijo na


testa.

— Adivinha só, maninha.

— Comprou outro Lego? — Passo


pela porta vendo a careta que ele faz.

— Sabe, Grace? Quando as

pessoas falam adivinha, elas querem que


você erre. Se você acertar, não tem

surpresa.

— Você é previsível demais.

— E você me ofendeu.

Lanço uma piscadinha antes de

colocar o pé na escada.

— Ele está lá em cima?


— Você sabe o caminho. — Ele

sorri e começo a subir as escadas, indo


em direção ao quarto de Seth. Uma

música toca alta e a reconheço. É a


mesma que cantei no carro dele no nosso

primeiro encontro. Seth não escuta os

toques que dou na porta, então

simplesmente entro no quaro.

Seus olhos azuis estão


concentrados olhando para uma tela. Sua
mão se movimenta sutilmente enquanto
ele dá vida ao quadro, e não posso
evitar o sorriso que abro ao vê-lo pintar.

O cavalete está de costas para

mim, mas sei que, seja lá o que Seth

esteja pintando, deve estar incrível.

Seus olhos se erguem para cima me


encarando, e ele sorri para mim

enquanto se levanta e limpa as mãos


sujas de tinta em um pano.
— Chegou bem na hora. Estava

dando os toques finais.

— Posso? — Pergunto, me
referindo a ir até ele. Seth assente e me

aproximo, parando ao seu lado.

Sou eu.

Seth pintou a imagem que vira

enquanto eu cantava a mesma música

que ecoa pelo quarto. Meus cabelos


estão soltos, minha cabeça esta apoiada
na janela do carro e meus olhos estão
fechados.

Sinto os braços torneados de Seth


me envolverem quando ele se coloca

atrás de mim.

— O que achou, gata?

— O mundo deveria ver seu

talento. — Sussurro como se minha voz

pudesse afetar a beleza da tela que


parece ser tão delicada. Seth acha graça
e desvio os meus olhos para ele. —
Estou falando sério. Isso está
espetacular. Por que não disse que

pintava tão bem?

— É só um hobbie. — Ele encolhe

os ombros, parecendo envergonhado.

Viro o meu corpo para o dele e abraço o


seu pescoço.

— Deveria ter sua própria


Galeria.
— E você deveria começar a tirar

a roupa. — Ele brinca desviando do


assunto, mas, quando não digo nada, ele

bufa. — Acha mesmo ou é só porque te


pintei?

— Acho mesmo. Você é talentoso,

Seth. E algo bom assim precisa ser


visto. Se a arte é o alimento do amor,

não pare de pintar.

Seth gargalha.
— Ambos sabemos que a citação

não é essa.

— Eu sei. Shakespeare está se


revirando no túmulo agora pelo plágio.

Antes que Seth possa responder, a

voz de Noah entra no quarto. Ele pisa os

pés com força no carpete, enquanto

tampa os olhos com as mãos.

— Se estiverem nus, vistam-se.


Seria como ver o inferno. Sem ofensas,
Grace, mas você é minha maninha agora.
É nojento.

Gargalho feliz, sabendo que


pensamos o mesmo em relação ao outro.

— Vem, vamos comer. Sexo só

depois, crianças.

Noah sai deixando a porta aberta,

um aviso claro de que é para nós o

seguirmos. Mas, antes de dar um único


passo, Seth segura meu pulso e me faz
encará-lo.

— Vou pensar no que disse sobre a

Galeria. — Diz ele levando o fio solto


do rabo de cavalo para trás da minha

orelha. — Mas só se me deixar pintá-la

outras vezes.

Não consigo evitar o sorriso que

se abre em meus lábios. Seth se inclina e

roça sua boca na minha.

— O que acha de ser minha musa,


amor?

— O que eu ganho em troca?

Seth ergue uma sobrancelha e abre

um sorriso malicioso. Ele é sexy pra


cacete, e não é uma surpresa para ele

quando o puxo pela gola de sua camisa e

o beijo. Seth Mason sorri com seus

lábios colados aos meus antes de

deslizar a sua língua para o céu da


minha boca.
Estou fodida. Sei que farei

qualquer coisa para ele em nome de


mantê-lo por perto. Nosso desafio ainda

está valendo: quem conseguir ficar longe


do outro, ganha. Aparentemente,

seremos bons perdedores.


☆♡☆
Capítulo 44
Agora

Encaro Triz a minha frente, sem


saber o que dizer. Quando finalmente as

palavras saem da minha boca, minha voz

sai fria e cortante.

— Você é patética. — Digo. Os

olhos de Triz se arregalam e eu não


consigo parar de falar. Agora que

comecei, ela vai ter me ouvir. —


Primeiro, me afasta de Seth porque

aparentemente vocês treparam. Agora,


me afasta dele porque ele causou o

acidente? Você está se ouvindo,

Beatrice?

— Você não acredita em mim. —

Ela sussurra, e vejo seus olhos


começando a embaçar por conta das
lágrimas.

— Como posso acreditar em você?

Você mentiu pra mim na primeira vez. O


que leva você a pensar que vou confiar

em você na segunda? Seth é bom pra

mim.

— Ele quase te matou!

— Não foi ele! Me diz, Triz,

porque não me disse antes então, hein?

— Eu... eu...
— Eu não quero ouvir essa merda.

Seja qual for o problema que você tem


com ele, não me inclua. Não tente

justificar a merda entre vocês com algo


que me fez sofrer. Algo que foi como

viver em um inferno pra mim. Acordar

sem saber da minha própria vida acabou

comigo e usar isso pra me afastar de

alguém é golpe sujo. Algo que eu nunca

esperaria de você.
Passo por ela para sair do quarto e

ouço os passos dela atrás de mim, mas


minha mão já está na maçaneta da porta.

— Vocês estavam apaixonados e

nem percebiam. — Ela sussurra. —

Eram o casal mais falado do campus,

mas vocês nunca paravam pra escutar os


rumores. Você estava mesmo gostando

dele e, por incrível que pareça, ele


estava mesmo apaixonado por você.
Mas o amor que ele sentia não foi o
suficiente para protegê-la. Por isso, o
odeio. E eu nunca vou perdoar o que ele

fez.

— Chega.

— Ele destruiu você, B.

— Chega, Triz.

— Ele te destruiu e agora isso vai

acontecer de novo. Porque é para ele


que você vai, não é? Você vai atrás da
única pessoa que te destruiu. E ele vai

acabar com seu coração novamente.

— Beatrice, já chega! — Grito,


fazendo ela dar um passo para trás.

Passo pela porta com brutalidade e

respiro o ar fresco para tentar me

acalmar.

Não peço um táxi e opto por ir

andando, pois será melhor para esfriar a


minha cabeça. Não acredito que Triz foi
tão longe assim. Ela era minha amiga.

Eu confiava nela.

Mas também confio em Seth. Ele


disse que nunca nos conhecemos antes.

Disse olhando no fundo dos meus olhos.

Eu contei tudo para ele e ele não seria

cruel ao ponto de me ver sofrer e ficar


calado. Seja quem for o dono daquela

carta, não é Seth.

Seth foi apaixonado por outra


pessoa. A dona de seu coração e do topo

daquela montanha com o céu cheio de


estrelas. Seth foi apaixonado por ela, e

não por mim.

Ele também está sofrendo, e saber

que Triz usou esse sofrimento para

aquela história ridícula me deixa


enojada. Como posso acreditar nela se

nem meus pais sabiam disso?

Bato na porta do apartamento de


Seth, e é Noah quem abre com um

sorriso que logo some quando ele vê


meus olhos cheios de lágrimas.

— O que foi, maninha? — Sinto o

aperto em meu peito com o apelido

carinhoso que me dera, e me jogo em

seus braços o abraçando. Noah cola seu


corpo ao meu enquanto afaga meus

cabelos. — Shh... Está tudo bem. Estou


com você. Seth está com você. Estamos
com você, Grace.

Choro apertando seu moletom e

sinto seus braços me apertarem mais.

— Vou te levar até Seth, está bem?


— Assinto limpando minhas lágrimas

com a manga da minha blusa.

Noah me leva até um corredor

onde há uma porta mais distante. Ele

abre revelando um quarto como a sala


da Galeria de Seth. Cheio de telas
pintadas e inacabadas. Seth se levanta
do banco em um sobressalto quando
passo pela porta como um furacão. Suas

sobrancelhas estão franzidas, a confusão


está estampada em seu rosto, mas se

suavizam quando me jogo em seus

braços e o beijo.

— Grace? — Ele se afasta sem me

tocar. Olho para suas mãos que estão


manchadas de tinta e até sinto um alívio
em meu peito, porque só a ideia de ter
Seth longe me deixa assustada. — O que
foi?

— Só me faz esquecer. — Peço

evitando as lágrimas, mas falho. Seguro

suas mãos sem me importar em me sujar

e as levo até a minha bochecha. — Me


faz esquecer da dor que estou sentindo.

Seth olha para Noah que está na


entrada do cômodo, depois volta o olhar
para mim quando ouço a porta ser

fechada.

— O que houve, amor?

Evito o arrepio em minha pele e


desvio os olhos.

— Triz me disse coisas horríveis.

Mas não importa, só... Me beije. Por

favor, Seth.

Vejo quando seu pomo de Adão se


move e seus olhos brilham.
— Não sei se vou conseguir parar

dessa vez.

— Eu não quero que pare.

— Grace...

— Me beija, Seth. — Sem mais

nenhuma palavra, ele cola nossas bocas.

Suas mãos me seguram pela cintura e ele

ergue meu corpo para que eu coloque

minhas pernas ao redor do seu quadril.


Puxo seu lábio com meus dentes e seu
cabelo com minhas mãos, sentindo o
pulsar que vem de dentro de sua calça
moletom.

Gemo, mexendo meus quadris, mas

Seth aperta minha bunda em uma ordem

para que eu pare de provocá-lo.

— O que está fazendo? — Sua voz

sai rouca.

— Preciso de você.

— Grace, você só está mal e eu


não posso me aproveitar disso, amor. —

Ele me coloca no chão com cuidado.


Ergo minhas sobrancelhas, mantendo os

olhos no volume evidente em sua calça.


— Cuido disso depois.

Ele se vira me dando as costas e

vai até a mesa larga onde um quadro


descansa ao lado de alguns potes de

tinta. Engulo em seco antes de ir até ele.


Não o toco, apenas apoio minha testa em
suas costas.

— Sei que disse que não queria

atrapalhar nossa amizade. E eu não


quero mesmo. Mas, ...

— Nos conhecemos há pouco

tempo.

Ele se vira e fica de frente pra

mim. É seu corpo que está preso entre a

mesa e eu.

— Você não gosta de mim. — Digo


desviando o olhar, mas sinto seus dedos

em meu queixo me forçando a encará-lo.

— Você não faz ideia do quanto


gosto de você, Grace. — Meu coração

pula em meu peito. — Mas você está

frágil agora e não posso fazer isso. Você

vai se arrepender.

Não. Eu não vou. Você é tudo o

que eu quero, Seth.

Fico na ponta dos pés e beijo o


canto da sua boca.

— Nunca vou me arrepender de

ficar com você. Isso é tudo que eu


quero.
☆♡☆
Capítulo 45
Antes

— O que foi agora? — Sua voz

soa sonolenta do outro lado e reprimo a

vontade de rir. — O seu último jogo do


ano não é hoje? Você não deveria estar,

sei lá, dormindo, porra?


— Estou sem sono. Você podia vir

aqui e... — Ela me corta.

— Ah, não. Nem pensar. Estou


praticamente morando na sua casa há

meses, Seth. — É. Exatamente por isso

quero que volte para cá, gata. — Eu

preciso dormir, capitão. E você também.

Suspiro, me levantando da cama

com o celular na mão.

— Tá bem... — Resmungo. — Boa


noite, amor.

— Vai tomar no cu, Seth. — E

então, Grace desliga.

Tranco a porta do quarto para não


correr o risco de alguém entrar aqui e

me pegar no flagra. Já basta encherem

meu saco mostrando fotos de bebês

parecidos comigo e com a Grace. É um

porre.

Grace e eu só estamos curtindo.


Funcionamos bem juntos e, além do
mais, ela me ajuda com as pinturas. Ela
me inspira transando comigo.

Guardo o presente de formatura

que comprei para ela e me sento em

minha mesa, pegando qualquer papel e

escrevendo o que vier na cabeça.


Minhas palavras são sinceras, mais do

que deveriam ser. Quando termino a


carta, leio o que escrevi.
— Puta que pariu. — Me levanto

em um pulo, saindo do meu quarto e


invadindo o quarto de Noah, que nunca

tranca a porta. — Acorda!

Sacudo o seu corpo em um ritmo

frenético. Noah não dorme, ele hiberna.

Seus olhos se abrem devagar e depois se


fecham novamente.

— Se for pra me contar sobre um


livro, eu vou te jogar pela janela. — Diz
ele com os olhos fechados.

— É mais grave.

Ele abre um olho só.

— Alguém morreu?

— Pior.

Noah se senta bufando e

esfregando os olhos e depois me

olhando com cara de poucos amigos. Eu


respiro fundo, desviando o olhar para os

seus bonecos de Lego.


— EstouapaixonadopelaGrace.

— Cara, eu não entendi porra

nenhuma. Fala direito. Eu quero dormir!


Hoje é nosso último jogo.

— Eu gosto da Grace! Estou

apaixonado por ela.

Noah abre a boca, mas nada sai.

Depois molha os lábios com a própria

língua antes de grunhir e pegar seu


travesseiro, jogando em mim com força.
— Me acordou pra dizer o óbvio,

porra?

— Você sabia? E por que não me


disse?

— Eu disse que você estava

fodido. — Ele rola os olhos. — Isso

quer dizer que está apaixonado. Você é

burro, cacete? Falo isso o tempo todo.

Me jogo em sua cama, afundando a


cabeça no colchão. Que porra? Quanto
mais eu escrevia, mais eu percebia que
Grace se tornou uma parte da minha vida
que adoro. Mas eu não estava esperando

estar apaixonado por ela. Isso está tão


errado.

— O que vai fazer?

— Morrer? — Pergunto e ouço sua

risada. — Não sei ser um bom

namorado, cara.

— Está brincando comigo, não


está? — Não respondo. — Vocês saem
juntos, ela vai em todos os seus jogos,
está sempre aqui com a gente e vocês

nunca param de conversar. Toda a


faculdade já sabe que namoram, menos

vocês. Chega a ser irônico. Só sei lá,

cara. Estão há meses juntos, e precisa

oficializar isso. Você sabe, a faculdade

acaba e cada um segue o seu caminho.

Só de pensar na Grace longe, fico


louco. Preciso dela comigo. E acho que
Noah está certo. Preciso oficializar isso
se quero Grace na minha vida. Se quero

que ela seja minha.

— Vou levar ela em um lugar

depois do jogo. — O encaro e vejo meu

melhor amigo abrir um sorriso. — Não


me espere pra festa.

— Dá pra acreditar? — Ele diz,


sem deixar de sorrir. — Perdemos uma
boa grana para as nossas mães.

Gargalho me lembrando disso.

Durante as férias, nossas mães tinham


nos perguntado quando eu e Noah

iríamos apresentar nossas namoradas. A

nossa resposta foi uma gargalhada sem

fim. Noah disse que isso não aconteceria


tão cedo, então a minha mãe e a mãe

dele apostaram que um de nós namoraria


alguém em menos de dois anos. Se isso
não acontecesse, nós venceríamos.

Acho que posso ter perdido uma

grana nessa brincadeira, mas ganhei algo


muito melhor.

— Estou feliz por você, cara.

Grace é incrível.

— Ela é, não é?

— Olha só para nós dois. — Ele ri

me empurrando para fora da cama. —


Agora cai fora porque pode ser que essa
coisa de se apaixonar seja contagiosa.

Gargalho pegando o travesseiro

que ele havia arremessado e jogando de


volta para ele, que me sopra um beijo de

boa noite acompanhado de uma ordem

para que eu vá dormir. Volto para meu

quarto e me coloco de frente para a


mesa, acrescentando uma coisa ao meu

texto.

Nosso último encontro. O último


encontro que Grace terá antes de ser

minha namorada. Eu só espero que sua


resposta seja um sim.
☆♡☆
Capítulo 46
Agora

Minha boca vai de encontro a sua

mais uma vez. Agora, não há nenhuma

voz em minha consciência me mandando


parar. Tudo que sinto é meu coração
acelerado quando ergo o corpo da minha

Grace e a coloco em cima da mesa.

Todos os pensamentos que


rodeavam em minha cabeça sobre fazer

o certo e não ficar com a Grace se

dissipam da minha mente. Se transar

com a Grace é errado, eu não vou mais


fazer o certo.

Ela geme quando seguro sua


cintura por baixo de sua camisa. Nossos
lábios se separam e a deixo respirar

enquanto dou atenção ao seu pescoço.


Beijo e a mordo sentindo suas mãos

agarrarem a barra da minha camisa e me


afasto para que ela a tire.

Seus dedos passeiam pelo meu

corpo quando minha camiseta vai ao


chão. Grace me olha com os olhos

dilatados, sua total atenção em mim


como se quisesse me gravar em sua
mente. Preciso engolir em seco quando
seus olhos descem até a lateral do meu
quadril e sua unha contorna cada letra da

tatuagem mais recente que fiz.

— O que isso quer dizer? —

Pergunta ela.

— Se a arte é o alimento do amor,

não pare de pintar. — Digo a tradução

do francês gravado em meu corpo. Vejo


o sorriso que Grace abre, mas não vejo
o reconhecimento.

— Parece ser Shakespeare. — Ela

diz.

— Alguém me disse isso uma vez.

Grace se inclina dando um beijo

em cima das letras. É o suficiente pra

me fazer arrepiar e soltar um gemido.

Quando ela volta a me encarar, tem um

sorriso que conheço bem. Ela está


excitada e me quer.
Sua mão afunda em meus cabelos

quando ela me puxa para perto. Sua


boca me devora, ela chupa a minha

língua e morde o meu lábio. Se ainda


existia algum rastro sanidade em mim,

agora não existe mais.

Puxo sua camiseta para cima, a


deixando apenas com o sutiã. Me inclino

sobre seu busto deixando beijos ali


enquanto aperto seu mamilo com meus
dedos por cima do pano rendado.

— Seth... — Ela geme.

Saber que conheço o que cada

gemido quer dizer é eufemismo.


Conheço a forma como seu corpo reage

comigo. Sei o quanto está entregue a

mim. E sei quando ela precisa de mim.

Me ajoelho em frente a mesa

puxando o cós da sua calça junto com


sua calcinha. Adoraria me sentar e
admirar Grace em cima da mesa, mas
não temos tempo. Na verdade, temos
tempo o suficiente e pretendo usar todo

dentro dela.

Abro suas pernas e sinto seus

olhos em mim quando coloco um dedo

dentro dela. Ela geme, mas tampa a boca


para que ninguém a escute.

Principalmente Noah, que deve estar na


sala, já que a altura da tv foi aumentada.
Grace ri, mas logo o seu riso se

transforma em outro gemido quando


coloco outro dedo. Faço movimentos de

vai e vem a sentindo encharcar, e estou


esperando só mais um gemido dela. O

gemido que diz “usa a língua, porra”.

Grace ergue a cabeça para trás e mexe

os quadris quando levo meus dedos mais

fundo enquanto massageio seu clitóris.

Vamos lá, gata. Geme pra mim.


Grace geme, e é a permissão que

eu precisava para me inclinar e colocar


minha língua dentro dela. Vou com calma

passando minha língua delicadamente e


a sentindo tremer, meus dedos vão

devagar e faço isso enquanto espero o

palavrão antes de aumentar o ritmo.

— Porra, Seth. — É isso ai.

Aumento minhas estocadas,


sentindo as mãos de Grace afundando
em meu cabelo enquanto ela me puxa

para mais perto. Quando chupo o seu


clitóris com força, Grace se deita sobre

a mesa. Ouço o palavrão que ela solta


quando sinto os respingos de tinta

caindo em mim e as latas indo de

encontro ao chão.

— Está tudo bem aí? — Pergunto,

sem deixar de rir. Minha cabeça ainda


no meio de suas pernas.
— Tudo em ordem. — Ela diz

ofegante se inclinando para me olhar. —


Só continua, eu estava quase lá.

— Eu sei. — Volto ao meu

trabalho enfiando minha língua em sua

entrada mais uma vez. O movimento dos

meus dedos começa a acelerar se


tornando forte e duro. — Goza pra mim,

Grace. Preciso sentir seu gosto.

Aperto seu clitóris com o dedo


antes de Grace soltar um gemido e gozar

em minha boca. A chupo enquanto sinto


seu corpo tremer, suas mãos segurando a

mesa com força. Me levanto sentindo a


pulsação em meu pau e preciso me

controlar e esperar Grace respirar um

pouco antes de fazer o que não faço há

um bom tempo.

Grace abraça minha cintura com as


pernas e me puxa pra perto. Sorrio me
inclinando pra beijá-la, ainda com seu
gosto em minha boca. Devoro sua boca
enquanto minhas mãos seguram o seu

seio com força. Sinto algo molhado


quando ela toca meus ombros.

Não resisto e gargalho me

afastando para olhar a bagunça que


Grace fez. Meus ombros estão sujos de

tinta, uma mistura de verde musgo com


vermelho, mas nem estou tão ruim A
minha mesa está bem pior. Ainda tem
tinta sendo derramada no chão e a mesa
está toda manchada.

— Isso é muito injusto. — Faço

um biquinho olhando para ela, que tem

apenas as mãos sujas.

Toco em uma poça de tinta amarela

e levo meus dedos para a sua barriga,

fazendo uma listra. Depois sujo o meu


dedo com o azul e faço outra. A próxima
é laranja e uso meus dedos como pincéis

enquanto o corpo de Grace é a minha


tela.

— Isso é um céu? — Ela encara a

própria barriga. Encaro o desenho que

fiz sem nem perceber, vendo o céu que

pintei.

Sim, é um céu. O céu do meu

paraíso.

Afundo meu dedo na tinta preta e


faço pássaros abaixo da renda do seu
sutiã. Sinto os olhos dela em mim o
tempo todo e, quando ergo meus olhos,

Grace está chorando.

— O que foi?

— Nada, eu só... Gostei disso. —

Não evito o sorriso que cresce em meus

lábios e a puxo para beijá-la novamente.

Seguro sua cintura e a ergo para cima,


suas pernas se enrolam em meu quadril
enquanto eu a levo para o pequeno sofá

no canto do cômodo. Deixo seu corpo


cair no sofá sem deixar que meus lábios

se afastem dos dela.

— Preciso de você agora, Seth. —

Ela geme. Meus dedos descem

novamente para sua entrada, enfio dentro


e, quando tiro, sinto Grace encharcada

de novo. Pronta pra mim.

— Me dá só um minuto. — Digo
vendo suas sobrancelhas se erguerem

quando me levanto indo até a porta. Eu


abro apenas uma fresta, o suficiente para

Noah me ouvir. — Noah?

— Camisinha chegando. — Ele

grita de volta, aparecendo na curva do

corredor com a embalagem nas mãos.


Noah arremessa e eu a agarro. — De

nada. Vai que é tua, cara!

Então, ele some. Grace está


gargalhando no sofá, mas a calo com um

beijo enquanto removo minha calça.


Abro o pacote e deslizo a camisinha

pelo meu pau, sentindo os olhos de


Grace me devorarem.

— Todo seu, gata. — Digo

erguendo as sobrancelhas, e vejo a


malícia em seus olhos quando ela faz

com que eu me sente e se coloca em


cima de mim. — Porra.
Minhas mãos são rápidas em

remover seu sutiã, a deixando


completamente nua em meu colo. Mordo

o seu mamilo quando Grace segura o


meu pau e o coloca dentro dela.

Eu senti tanta falta disso.

Grace cavalga em cima de mim.

Minhas mãos vão até sua bunda, e eu a

aperto e a trago mais pra mim enquanto


mexo meus quadris junto com ela. Ela
rebola em cima do meu pau devagar e

depois em um ritmo mais rápido.

— Grace... — Arfo, sabendo que


não vou durar muito.

Meu pau entra e sai de Grace. Seu

corpo se remexendo e o gemido que ela

solta são os sinais de que também está

quase lá. Seguro sua cintura e me

levanto para inverter nossas posições, a


colocando deitada novamente enquanto
me inclino sobre ela.

Beijo ela engolindo os seus

gemidos. Meu pau entrando e saindo


dela em um movimento frenético. Bato

com força indo fundo enquanto Grace

geme e afunda suas unhas em minhas

costas.

— Eu vou gozar. — Ela anuncia

me fazendo estocar com mais força.


Seguro seu rosto com minha mão e a
beijo, minha língua deslizando pela sua

enquanto sinto os espasmos que meu


próprio corpo dá quando gozo junto com

ela.

Apoio minha cabeça na sua com

meus olhos fechados, apenas ouvindo

nossas respirações ofegantes e o som da


televisão da sala.

— Grace, eu... — te amo.

— Você o quê? — Abro meus


olhos e a vejo me encarando. Sinto seu
coração acelerado abaixo de mim. Me
ergo beijando sua testa e saindo de

dentro dela.

— Eu gostei disso. — Ela sorri

pra mim em concordância. Eu tiro a

camisinha cheia e enrolo, arremessando


no lixo. — E nós precisamos de um

banho.


Jogo minha camiseta para Grace

assim que ela termina de se secar. Ela se


veste e a vontade de dizer que a amo

chega novamente, mas me viro de costas


e visto minhas roupas.

— Vou limpar lá enquanto você se

veste, ok? — Assinto passando a camisa


pela cabeça enquanto Grace sai do

quarto. Quando estou vestido, volto para


o cômodo no qual faço minhas pinturas.
— Deixa que limpo as tintas. Não

quero que se suje de novo. — Ela se


afasta revirando os olhos, mas vejo o

sorriso que abre antes de me dar as


costas.

Grace salva as latas que não

caíram e nem derramaram e as leva até a


prateleira. Quando dá as costas, a manga

da camiseta que ela usa prende no


puxador do armário. Estou rindo dela,
mas quando ela se liberta abrindo a
porta do armário e derrubando uma
caixa sinto meu coração parar.

Ela se inclina para recolher as

fotografias que caíram, mas, quando

seus olhos encaram as fotos, sei o que

vai acontecer. Vejo o momento em que


ela engole em seco. Seus olhos varrem

as nossas fotos em suas mãos e as que


estão esparramadas no chão. Logo
depois, ela me encara.

Seus olhos estão cheios de

lágrimas e de dor.

— O que é isso?
☆♡☆

Capítulo 47
Antes

Seth entra e é recebido pelos gritos

animados da torcida. Apesar de ser o

centro das atenções de centenas de


torcedores, seus olhos me encontram e
ele pisca para mim, como sempre faz.

Eu sorrio erguendo o dedo do meio,


como de costume. Por mais que ele tente

ser sutil, vejo o aceno de cabeça que ele


lança para Triz.

O jogo começa e a arquibancada

grita cada vez mais. O time adversário


abre o placar com poucos minutos, mas

isso não me assusta. O time vem se


preparando muito. É o último jogo da
maioria e sei que a vontade de terminar
o ano com chave de ouro é grande, e
isso é o suficiente para eles darem o

melhor de si.

Colin arremessa e faz o gol. Jef, ao

meu lado, grita loucamente e Colin lhe

lança uma piscadinha. Aprendi que essa


é a maneira do time de falar com a

gente. Por conta do tempo que passo


com os meninos, acabei conhecendo o
time mais de perto e me sinto uma
sortuda por ter passe livre para o
vestiário em todos os jogos.

Quando o primeiro período chega

ao fim e os jogadores saem voltando

para o vestiário, vejo Noah vindo em

minha direção e me levanto para ir ao


seu encontro.

— Você está desconvidada da festa


de hoje, maninha. Mas prometo que é
por um bom motivo. — Antes que eu

possa perguntar que merda ele disse,


Noah corre para a mesma direção que o

resto do time havia seguido.

Volto para o meu lugar com a

pergunta evidente em meus olhos, e sei

que alguém está aprontando comigo


quando Triz e Jef trocam sorrisos

cúmplices.

— O que está acontecendo?


— Nada. — Eles dizem em

uníssono.

O segundo período acaba com os


dois times empatados e, antes que o

terceiro período comece, os olhos de

Seth vão para Triz novamente. O juiz

joga o disco entre os jogadores e o

corpo de Seth é atingido com força pelo


seu rival.
— Aqui. — Triz estende um papel

dobrado para mim. — É melhor ler


agora e, seja o que for, se declare logo

pro seu homem. Ele merece.

Sorrio, abrindo a carta. O jogo

continua acontecendo, mas não me

importo. Tudo que importa são as


palavras de Seth.

— Por que está sorrindo assim? —


Triz pergunta quando guardo o papel em
meu bolso. Meu sorriso se alarga mais.

— É só um encontro. — Dou de

ombros, mas a minha vontade é de pular


e cantar que Seth gosta de mim.

— Isso se ele sair vivo daqui. —

Jef murmura e logo depois grita. — Tira

as mãos do meu homem, porra! Noah,

faça alguma coisa!

A briga é entre Seth, Colin e dois


jogadores do time adversário. Noah se
aproxima, mas, ao invés de separar a
briga, ele dá um soco no cara que
segurava Colin. O jogo para enquanto a

briga é apartada. Seth se separa e sai


deslizando pelo gelo, mas o sorriso

vitorioso que abre em seu rosto quando

vê que o soco que dera em seu rival

tirou sangue dele é difícil de ignorar.

Ele levanta os olhos para mim e ergo

meu dedo em sinal de positivo, vendo


seu sorriso se alargar ainda mais.

Ele prometeu que seria

inesquecível, e não vejo a hora disso


acontecer.


Corro até Seth, me jogando em

seus braços quando o encontro no final


do jogo. Ganhamos! Seth ainda veste seu

uniforme e me aperta em seus braços


com o taco em sua mão. Não pude
esperar. Assim que o jogo terminou com
o placar de 4x3, tive que correr até ele.
Nunca me senti tão feliz por um jogo, e

sei que parte disso é pelo que vai


acontecer depois.

— Vencemos! — Grito em seus

braços. Seth ri dando beijo em minha


testa e ergo meus olhos para encará-lo.

— Vencemos, amor.

— We are the champions, my


friends — Noah surge cantando com os
braços enganchados em Ryle e Hunter.
— Como é ser a irmã do jogador mais

foda, Grace?

Noah pergunta e vejo Seth revirar

os olhos, mas ele bufa uma risada. Foi

Noah que fez o gol da vitória com a


assistência de Seth, mas é claro que isso

é um detalhe irrelevante para Noah.

— Me sinto uma sortuda, maninho.


— Ele ri quando eu o abraço e sinto o

beijo que ele deixa em minha testa.

— Precisamos de um banho. —
Seth diz quando me afasto de Noah. —

Te encontro no estacionamento?

— Na verdade, não. — Sua testa

se franze. — Tenho um encontro daqui a

pouco e preciso me arrumar.

Vejo o sorriso que ele abre. Me


aproximo deixando um selinho em seus
lábios antes de lhe dar as costas e
correr, arrastando Triz, que prometeu me
deixar divina, comigo. Quero que tudo

seja perfeito. Algo digno de histórias de


romance.


— Ele já está esperando. — Triz

diz entrando no quarto. Assinto

passando o gloss em meus lábios e pego

o presente que fiz para ele. Apenas uma


lembrancinha pelo dia de formatura e

espero que ele goste. — B? — Me viro


para ela antes de atravessar a porta. —

Eu realmente gosto dele. O julguei mal


por ele ser parte do time, mas... Ele é

incrível. O time todo, na verdade. Só

aproveita, tá? Seth gosta mesmo de

você.

Vou até ela e a abraço forte.

— Obrigada por ser minha amiga.


Te amo.

— Te amo, B.

Me afasto e saio pela porta a

passos largos, ansiosa para vê-lo.


Encontro ele em sua típica pose, com as

costas apoiadas no jeep, vestindo sua

jaqueta de couro preta e as calças no

mesmo tom.

— Oi, gata.

— Oi, gato. — Ele ri, me puxando


pela cintura e me dando um beijo rápido

e singelo. Como sempre, ele contorna o


carro, indo até a porta de motorista e

entrando, esperando que eu abra a porta


do carona com minhas próprias mãos.

— Onde vamos?

— Surpresa, Grace. Não estrague.

— Dou risada enquanto ele sai com o

carro e, antes que ele ligue o som, pego


o seu presente e mostro para Seth
quando ele para no sinal vermelho.

— O que é isso?

— Um CD, sabe? Tem músicas

nele e dá pra escutar.

— Eu sei o que é um CD. — Ele

revira os olhos e eu dou risada. — Você

que fez?

— Gravei umas músicas. — Pego

a capa de volta quando o sinal abre.


Coloco o CD pra tocar algumas músicas
que sei que Seth gosta e umas que eu

gosto. Claro que algumas músicas são


bem mais importantes, porque foram a

trilha sonora de algumas coisas que


fizemos juntos, e ele sabe disso.

Seth dirige com a música ecoando

pelo carro. Vez ou outra ouço sua voz


cantando algo baixinho, e acho que essa

é a melhor coisa que já ouvi. Quando


Seth estaciona, ele se inclina para o
banco de trás, pegando uma mochila que
eu nem tinha visto.

— Pronta? — Ele ergue as


sobrancelhas e eu assinto antes de abrir

a porta e sair do carro. Andamos por

uma trilha e quase deixo meu queixo cair

com a vista quando finalmente


chegamos.

Estamos no topo de uma rocha e lá


embaixo o lago está congelado. Acima
de nós, as estrelas brilham intensamente

e não há nada além do silêncio.

Seth se abaixa, tirando uma toalha


da mochila e a estendendo no chão.

Depois tira potes de comida e uma

garrafa de vinho. Ele liga a sua lanterna

para iluminar, mas nem é necessário. A


lua está tão perto de nós que ilumina

tudo.

— É um piquenique?
— Você gostou? — Ele pergunta,

parecendo envergonhado.

— O que acha? — Isso o faz sorrir


e me puxar para que eu me sente em seu

colo. Nos beijamos até que o ar nos

falte. — Acho que esse é o melhor

encontro que você já fez.

— Sério? — Seus olhos azuis

cintilam. — Superou até andar de


cavalo?
— Por incrível que pareça, sim. —

Ele ri e deixa um beijo na dobra do meu


pescoço.

— Também tenho um presente.

Não é grande coisa, mas, — Ele tira

algo do bolso e ergue na altura dos meus

olhos. — Vi e me lembrei de você.

Eu pego o colar de suas mãos. Tem

pingentes de estrelas e é a coisa mais


meiga e linda que já ganhei. Sinto meu
coração acelerar.

— Eu amei, Seth. — Digo em um

sussurro. — Coloca em mim? — Ele o


pega e passa o colar pelo meu pescoço.

Quando prende o fecho, ele olha para os

pingentes de estrelas.

— As estrelas me lembram você.

— Diz ele em um sussurro. — Acho que

é por causa de quando te levei para o


parque, não tenho certeza. Eu só sei que,
quando vejo estrelas, é em você que

penso. É seu nome que vem em minha


cabeça, Grace.

Seus dedos contornam os pingentes

e sinto o arrepio em minha pele.

Seth era sinônimo do próprio

inferno quando o vi pela primeira vez.

Mas me sinto no céu quando seus dedos

me tocam. Ele é meu paraíso e minha


ruína. Agora, meu coração sabe o que
quer. Ele quer Seth.

Antes que eu possa dizer algo, o

celular de Seth toca. Ele desliga, mas


volta a tocar de novo. Eu me levanto,

rindo da careta que ele faz enquanto olha

para a tela do celular.

— Atende e assim eles nos deixam

em paz.

— Eu vou matá-los. — Diz ele


antes de se levantar também e atender.
Enquanto isso, me afasto lhe dando
privacidade. Fecho meus olhos
apreciando o silêncio, mas começo a

gargalhar quando ouço os palavrões


sujos e as ameaças que Seth faz. Quando

dou as costas para a noite e giro para

Seth, dou um passo em falso pisando em

uma parte escorregadia da pedra e caio.

— Grace!

Às vezes na vida, temos uma trilha


sonora que se encaixa em momentos

aleatórios do dia. Sempre vem uma


música na sua cabeça que você não

consegue esquecer. A música que te


move. A música que te acalma. A

música que te leva para outro mundo.

Eu tenho tido sonhos. Pulando em


um trampolim.

Ouço algo em minha cabeça. É


uma música. Lembro de tê-la cantado em
algum momento. Quando cantei? Não

sei.

Girando no ar. Nunca aterrisso,


só continuo flutuando.

Meu corpo cai na água congelada.

Bato minha cabeça e minha visão fica

turva.

Enquanto olho para cima. De

repente, o céu entra em erupção.

Não vejo nada. Tudo está


escurecendo. Tento manter os olhos

abertos, mas não consigo.

As chamas incendeiam as árvores.


Espalham em folhas que caem. Agora,

elas estão bem em cima de mim.

Minha cabeça está doendo. Meus

olhos estão marejados.

Está doendo. Está doendo. Está

doendo.

Espere, se eu estou pegando fogo.


Está doendo. Está doendo. Está

doendo.

Como posso estar tão


apaixonado?

Alguém faz isso parar de doer, por

favor.

Quando sonho que estou

morrendo.

Ouço um som. É o gelo se partindo


ao meu redor.
Eu nunca me senti tão amado.

O gelo quebra.

Eu tenho tido sonhos.

Mergulhando em um riacho de verão.

Meu corpo afunda e ouço um grito

aterrorizado de alguém.

Passeio, e eu caí. Eu queria que

acontecesse.

A água congelada entra em meus

pulmões. Tento nadar, mas meu corpo


está paralisado.

Meu corpo vira gelo. Peso

esmagador do paraíso. Bloco sólido de


ouro.

Estou afundando. A correnteza está

me levando. Eu não sinto mais nada

depois disso.

Deitado no frio. Me sinto em

casa.
☆♡☆

Capitulo 48
Agora

— Grace, eu...

— Nos conhecíamos. — Ela diz,


me interrompendo. Tentando engolir o

choro. — Você mentiu pra mim. Disse


que não me conhecia e...

Seus olhos encaram as fotos em

suas mãos. Vejo uma foto que Noah

havia tirado em uma festa, quando fez a

faculdade inteira se ajoelhar para mim e


Grace. Estávamos rindo. Éramos felizes.

Outra foto foi tirada horas antes do


nosso último encontro, quando Grace se
jogou em meus braços e me abraçou. Foi
Jef que capturou o momento e me
entregou quando Grace ficou internada.

No chão tem dezenas de fotos.

Fotos nossas. Fotos só dela. Fotos dela

com Noah, Triz ou Jef. Fotos dela com

meu time. Grace está sorrindo em todas


as fotos, seja sozinha ou com nossos

amigos.

— Vocês mentiram pra mim esse


tempo todo? — As lágrimas caem e

sinto meu coração doer. — Vocês


brincaram comigo esse tempo todo?

Você me viu sofrendo e não me disse


nada, porra?

Seus olhos me encaram novamente.

Só vejo dor enquanto lágrimas descem.


Vejo o exato momento em que a

compreensão a atinge. O exato momento


em que ela enxerga a verdade.
— Você. Era você. — Não consigo

dizer nada enquanto ouço sua voz


carregada de amargura. Tudo que sinto

são meus olhos lacrimejarem. — Era


você esse tempo todo.

— Era. — Digo, em um sussurro.

Toda a dor que eu estava sentindo


começa a aumentar ainda mais. —

Grace, eu não pude contar pra você


antes.
— Por que não, Seth? Era a minha

vida também! Isso aqui, — Ela joga as


fotografias no chão. — Essa sou eu! Eu

com você e com minha amiga e até


mesmo com Noah. Tem pessoas que nem

sei quem são e vocês me deixaram no

escuro! No escuro sobre minha própria

vida! — Sua voz sai baixa e rouca

quando ela pergunta mais uma vez: —

Por que mentiu pra mim?


— Por quê? — A encaro sentindo

o ar faltar em meus pulmões. — Grace,


eu te perdi. Eu vi você escapar diante

pelos meus dedos e é com essa porra


que sonho toda noite! Uma hora você

está lá, em meus braços, e na outra está

caindo. Grace, você era mais importante

pra mim do que pensava que era.

Vivíamos em um paraíso só nosso e ele

foi destruído uma vez. Agora, estou mais


do que acostumado a viver no inferno, e

não preciso perder você de novo.

— Eu vou embora. Preciso sair


daqui.

— Grace...

— Vou para longe de você, Seth!

Aí está o que eu mais temia. Eu a

perdi.

Quando Grace atravessa o cômodo

saindo pela porta, esbarrando em Noah


e correndo até a saída, percebo que a
perdi mais uma vez. Perdi Grace de
novo, e, dessa vez, ela não vai mais

voltar.

— Grace sabe. — Noah diz, vendo

meus olhos cheios com as lágrimas que

não deixei cair. Não até agora.

Me sento no chão, escorregando

pela parede e encaro o nada. Vejo pela


visão periférica quando Noah se senta
ao meu lado.

— Lembra quando me disse para

preparar o terreno antes da bomba


explodir? — Ele assente, engolindo em

seco. — Eu não fiz isso e a bomba

explodiu. Você estava certo. Todos os

lados saíram machucados.

— Seth...

— Perdi a Grace de novo. Eu vi


isso nos olhos dela. A dor que senti
naquele dia voltou. Voltou pior do que
achei que seria.
☆♡☆
Capítulo 49
Antes

Eu não consegui ser rápido o

suficiente para salvá-la. Vi seu corpo

cair e flutuar no ar como um anjo. Grace

caiu e eu ouvi seu corpo se chocar

contra o gelo. O som foi horrível e não


pude fazer nada além de gritar por ela.
Estava aterrorizado. Mas, enquanto
descia, o gelo se quebrou e Grace
afundou.

Corri, mas não fui tão rápido

quanto eu deveria ser. O corpo de Grace

já havia sido levado para outra parte do

lago. Eu gritei e chamei por ela enquanto


andava pelo gelo, e eu nem sabia se ela

estava viva ainda. O barulho do seu


corpo caindo. O barulho. Era horrível.
Soquei o gelo, vendo a água se

misturar com o sangue dos meus punhos.


Não me importei com isso. Eu precisava

salvá-la. Grace tinha que ficar comigo.


Aqui. Viva e bem.

Seu corpo parecia congelado. Sua

pele estava muito branca e os lábios


azulados. A emergência chegou e me

encontrou ali, agarrado a Grace,


enquanto eu tentava aquecer o seu corpo
com o meu.

Eu fiz isso acontecer.

Isso é culpa minha.

— Cadê ela? — Triz pergunta,


assim que me encontra sentado na sala

de espera. Atrás dela está Noah,

tentando falar comigo pelo olhar, mas

não quero que veja a culpa em meus

olhos. Junto ao meu amigo, estão todos


os meus colegas de time. — Cadê ela,
porra?

Abro a boca, mas nada sai. Triz

grita mais uma vez, e tenta partir pra


cima de mim. Deixo seu corpo colidir

com o meu sem me mexer enquanto sinto

os seus socos em mim. Eu não tento

contê-la. Na verdade, queria que doesse


mais. Eu mereço isso.

Seus socos param quando seu


corpo começa a tremer com o choro. É
Jef quem se aproxima e coloca ela

sentada.

— Seth? — Noah me encara, e


desvio o olhar mais uma vez.

— Ela caiu. Ela... — Minha voz

fica embargada. — Não sei como ela

está. Não me deixam entrar para vê-la.

— É sua culpa. — Triz diz

baixinho, mas todos ouvem. A única


coisa que ouço é Hunter pedindo a ela
para não dizer isso. — Você levou ela
lá. A culpa é sua! Você fez isso com ela.
Foi você quem a levou lá!

Isso me acerta em cheio. As

palavras não saem e tudo que vejo é

Grace caindo.

— Triz! — Jef grita. — Foi um

acidente, merda! Grace vai ficar bem,

sei disso. — Ele diz a última frase


olhando pra mim. — Precisamos ligar
pros pais dela.

Estendo a bolsa de Grace que

estava comigo para ele. Jef pega o


celular da Grace antes de sair, pedindo

para que fiquemos calmos.

Eu volto a olhar para o nada,

sentindo o olhar de Triz em mim. Todos

do time sentam na fileira atrás de mim, e

Noah ocupa a cadeira ao meu lado.

— Ela vai ficar bem.


— Ela vai ficar bem. — Repito as

palavras dele.

Tudo o que ouço é o som dela


caindo.

Fecho meus olhos tentando tirar

isso da minha mente Tentando pensar em

coisas boas. Eu só preciso pensar em

coisas boas antes que comece a

enlouquecer.

Grace cantando no meu carro.


Grace no parque de diversões.

Grace olhando as estrelas.

Grace me desejando boa sorte em

todos os meus jogos.

Grace em minha banheira.

Grace lendo.

Grace sorrindo pra mim.

Tudo envolve Grace. E é por isso

que dói tanto.


— Precisamos ver nossa filha. O

nome dela é Grace Barbie Lorey.

— Só um instante.

Me levanto vendo o casal a minha


frente. Eles me olham quando me

aproximo, e meus pés quase estacam no


chão quando olho para eles. Grace é
muito parecida com eles.

A mãe dela tem o mesmo tom de


cabelo claro, enquanto o pai dela tem

mais escuro, mas os olhos dos dois são

castanhos. O nariz empinado de Grace

vem da mãe e a boca bem desenhada


vem do seu pai.

Os dois me encaram com a testa


franzida, esperando que eu fale algo.
Tudo que sinto é um bolo se formando

em minha garganta, que me impede de


falar sem que lágrimas venham junto.

— Você é o fotógrafo. — O pai

dela diz, e sua esposa abre um sorriso

fraco.

— Grace falou de mim?

Ele assente, olhando para as

cadeiras cheias atrás de mim. As


cadeiras onde todos os nossos amigos
estão sentados esperando por notícias
desde ontem.

— Falou sobre todos vocês.

— Eu sinto muito. — O Sr. e Sra.


Lorey se entreolham. — Foi minha

culpa, eu me afastei dela e ela caiu. Se

eu estivesse perto... Me desculpem.

— Não foi culpa sua. — A Sra.

Lorey se aproxima, segurando meus


braços. — Foi um acidente, querido.
Vamos só torcer pra estar tudo bem, ok?

— Grace gosta muito de você,

filho. — O Sr. Lorey se põe ao lado de


sua esposa. — Sabemos que não faria

nada para machucá-la. E, se nem ela irá

culpa-lo, nós também não vamos. Grace

estará conosco daqui a pouco, ok?

O daqui a pouco se converteu em


horas. Depois dias. Grace não acordava.
Ela bateu a cabeça muito forte.

Mas o médico disse que demos sorte por


não ter sido fatal. Grace estava

dormindo e estava bem. Apesar de não


abrir os olhos, ela estava bem.

Eu não saía de perto dela. Apesar

da insistência de Noah e dos pais de


Grace para que eu fosse para casa

descansar, eu não saía. Não iria


conseguir sair sabendo que Grace
poderia acordar a qualquer instante. Eu
tinha que estar aqui quando ela
acordasse.

— Oi, amor. — Digo segurando

suas mãos. — Eu sei que já disse isso,

mas me perdoa? Me desculpe por não

proteger você. Eu vou viver com a culpa


pra sempre e só preciso ver seus olhos

mais uma vez. Preciso ver as estrelas


com você, amor. Está me ouvindo?
Grace? Só me dá um sinal. Qualquer
coisa. Eu preciso saber que está aqui e
que ainda te tenho comigo. Grace? Por

favor, amor.

A essa altura, eu já estava

chorando sem me preocupar em ser

visto. Eu não ligava. Tudo que


importava era a garota na minha frente.

— Seth? — Noah entra no quarto.

Ele se aproxima e me abraça,


segurando as mãos da Grace junto
comigo.

— Oi, maninha. — Sorrio entre as


lágrimas quando ouço o carinho em sua

voz. Noah a trata como uma irmã e a

relação dos dois é linda de ver. Sou

amigo de Noah há muito tempo, lembro-


me de quando éramos pequenos demais

e todo o natal Noah pedia uma


irmãzinha. Bem, ele ganhou. Ganhou a
Grace. — Você nos deu um susto e tanto.
Precisamos que acorde. Você é a nossa
parceira, Grace. É a minha irmã e... e

vê-la assim me machuca muito.

— Ouviu só, Grace? Noah se

importa mais com você do que com ele

mesmo. — Tento amenizar, sentindo as


lágrimas de Noah caírem em mim

quando ele ri. — Grace, nós te amamos.


Muito.
Foi sutil. Foi tão sutil que mal

dava pra perceber. Mas eu senti, e Noah


também. Sentimos quando Grace moveu

seus dedos. Sua pele acariciando minha


mão e a de Noah.

Grace nos ouviu.


☆♡☆
Capítulo 50
Agora

Me sinto sufocada.

Sinto dificuldade em respirar.

Todos mentiram pra mim. Meus pais.

Triz. Seth. Noah. E até o cara simpático


que comeu pizza comigo no apartamento

dos meninos. Todos me viram quebrar, e


nenhum se dignou a juntar os meus

pedaços.

Eu me sinto sozinha.

— B? — Triz chama, mas tudo o


que eu faço é correr para o meu quarto,

trancando a porta assim que entro. Meu

celular toca com Seth me ligando, mas

eu apenas rejeito a ligação e me jogo em

minha cama.

Perco a noção do tempo e não sei


quantas horas fiquei deitada encarando o
nada, tentando forçar a minha mente a se
lembrar de alguma coisa. Mesmo assim,

eu não vejo nada. Só o escuro. É um


breu em minha própria mente e eu não

sou capaz de achar uma luz.

Lembro de quando minha mãe me


dizia para aproveitar cada momento.

Cada segundo da minha vida, porque


nada é para sempre. As minhas
memórias, por exemplo, não eram.

Ignorei todo mundo por uma

semana e meia. Eu só saía do quarto

quando sabia que Triz não estava perto,

pegava tudo o que precisava e voltava


para a minha caverna. Também liguei

para Jonan, e ele foi compreensivo


quando disse que não iria trabalhar
porque minha vida era um inferno. E,
claro, ignorei muitas ligações. Incluindo

as dos meus pais e de Seth.

Parte de mim não quer sentir raiva,

mas dói pra caralho. Todos mentiram

olhando nos meus olhos e me


destruíram.

Acordo com uma batida na porta.


Meus olhos estão inchados e minha voz
sai rouca quando mando Triz ir embora,

mas as batidas continuam e me levanto,


ficando de frente para a porta.

— Vai embora, Triz. — As batidas

continuam. — Não quero ver ninguém.

— É o Noah. A Triz saiu, e, por

incrível que pareça, me deixou entrar.

— Só vai embora, tá?

— Grace, eu... nós sentimos muito.


Deveríamos ter contado, mas... você não
ia suportar. Estou errado?

Me encosto na porta, me sentando

no chão frio.

— Pareço feliz agora? — Pergunto


em um sussurro. — Isso não é motivo

suficiente pra mentirem pra mim. Não é

suficiente para esconderem a minha

própria vida de mim.

— Eu sei, porra. Eu sei. —


Ficamos em silêncio. Sei que ele
também se acomodou no chão do outro
lado da porta.

Tomo coragem, respirando fundo


antes de perguntar.

— Como foi?

Apesar de não ser direta, Noah

entende a pergunta.

— Era o último encontro de vocês.

Ele queria fazer algo especial, porque...


— Ouço um suspiro. — Íamos para
aquele lugar todo início de ano.

Nadávamos no verão e patinávamos no


inverno. Fomos lá muitas vezes e era

seguro. Achávamos que era. Você


escorregou, Grace.

Meu coração aperta e sinto as

lágrimas surgirem em meus olhos.

— Foi um acidente. Você caiu e o

gelo quebrou com a pancada. Então,


você afundou.
— O Seth me salvou?

— As mãos dele nunca estiveram

tão cortadas. Ele quebrou o gelo com as


próprias mãos pra poder te tirar de lá.

Se ele não tivesse me tirado da

água congelada, eu estaria morta.

— Enquanto ficou internada, não

saímos do seu lado. Seth lia pra você

todos os dias. Acho que você pode


cortar uns quinze livros da sua lista de
leitura. Ele leu tantos pra você, e eu só
ficava do seu lado, contava pra você o
que acontecia no meu dia de merda. Às

vezes fazia trancinhas no seu cabelo e


até pintei suas unhas uma vez. Ficou

horrível. — Ele ri, mas depois sua voz

fica embargada: — Seth estava lá

quando você acordou. Tínhamos

comprado flores pra você. Eu comprei

lírios e ele comprou gardênias. Foi a


primeira vez que compramos flores pra

uma garota. Quando íamos entrar na


sala, ouvimos você falar sobre voltar

pra universidade porque estava se


sentindo bem pra começar o primeiro

dia. Meu corpo paralisou e Seth parecia

prestes a desmaiar. Você chorou pra

caramba, Grace. Eu sinto a dor na sua

voz até hoje e sei que Seth também. Você

não se lembrava da gente. Não lembrava


dele e nem de mim. Tudo o que

passamos juntos não importava mais pra


você. Todas as malditas risadas que fiz

você dar, as brincadeiras e até meu


abraço, que você dizia ser o melhor do

mundo, só pra deixar o Seth com

ciúmes. Tudo. Não importava mais. Eu...

eu a tratava como uma irmã e a dor em

meu peito era como se fôssemos

realmente irmãos e... Foi difícil pra


caralho. Seth saiu por um lado do

corredor e eu por outro. Me enfiei em


um armário de vassouras e chorei.

As lágrimas caem sem parar. Tento

dizer algo, mas as palavras se

transformam em soluços e preciso

tampar a minha boca para que Noah não


me escute.

— Um inferno. Foi isso que nosso


mundo virou. — Ele funga.
— Seth disse o mesmo.

— Como não dizer? Você fazia da

nossa casa mais animada do que já era


antes. Todos a amávamos e... Se o

perfeito existe mesmo, então digo que

era a nossa vida. Alunos nota 10, festas,

amizades verdadeiras e amor envolvido


por parte de todos. Por sua causa, o Seth

começou a pintar. Ele abriu aquela


Galeria por sua causa.
— O que aconteceu depois que

acordei?

— Seth não comia. Não saía do


quarto e eu não pude ajudá-lo porque

fazia o mesmo. Seth se culpava e ainda

se culpa por ter te levado até o lago. Por

não ter sido capaz de impedir que


caísse.

Não faço mais perguntas. Deixo


Noah respirar enquanto tento raciocinar
tudo em minha mente. Só o que sinto é

dor. Dor e um imenso vazio.

Ficamos em silêncio por algum


tempo. Apenas os meus soluços ecoando

pelo quarto. Mas, então, escuto outro

choro que não vem de mim.

Quando Noah volta a falar, sua voz

soa tão baixa que quase não o escuto.

— Foi minha culpa.

— O quê?
— Seu acidente. Foi minha culpa.

Eu nunca disse isso pra ninguém porque


não precisava de mais ninguém me

julgando, pois eu já estava fazendo isso


sozinho. Foi minha culpa, Grace. Fui eu

que liguei pro Seth naquela noite. Eu não

deveria ter feito isso. Se eu não tivesse

ligado, ele não teria se afastado de você

e você não teria caído. Foi minha culpa,

maninha. Eu só queria ligar pra avisar


que ele tinha esquecido as alianças
comigo e... eu estraguei tudo. Eu quase

te matei.

— Noah.

— Me perdoa, Grace? Me perdoa,

por favor.

Seu corpo cai pra trás quando abro

a porta. Ele ergue os olhos vermelhos e

cheios de lágrimas em minha direção, a


voz carregada de dor quando diz:
— Me perdoa. Por favor, maninha.

Me jogo em seus braços, sentindo

meu corpo tremer com o choro. Noah me


aperta enquanto chora também. Ele não

para de pedir desculpas, e a cada “Me

perdoa, maninha” sinto meu coração

quebrar.

— Eu te perdoo. — Apesar de não

ter nada para perdoar.

Tudo o que Noah disse deixou


claro que foi um acidente. Não foi culpa
de ninguém. Talvez minha, por ter dado
um passo em falso, mas ninguém é o

culpado além do destino.

— Mesmo?

— Perdoo você, — Então

acrescento: — maninho.

Noah exibe suas covinhas entre as

lágrimas e me aperta mais uma vez. Ele


tem razão, seus abraços são bons.
— Senti tanto a sua falta. — Ele

diz, beijando o topo da minha cabeça.

Quando ergo meus olhos para


cima, para ele, Noah seca minhas

lágrimas e já sei o que esperar quando

ele solta um suspiro e diz:

— Nós sentimos, Grace. Precisa

perdoá-lo também.
☆♡☆
Capitulo 51
Antes

O médico pediu para que eu e

Noah nos retirássemos do quarto

enquanto ele olhava Grace. Depois que


contamos que sentimos a mão dela tocar
a nossa, vi a descrença em seu olhar,

mas creio que a urgência nas nossas


vozes fez com que ele confiasse em

nossas palavras.

Saímos para comprar flores. Acho

que Grace vai gostar de ver algo com

uma cor que não seja o branco do


hospital.

— Dá pra acreditar? — Noah diz


ao meu lado sorridente. O sorriso não
saiu de seus lábios desde que sentimos

Grace se mexer. — É a primeira vez que


compro flores pra uma mulher que não

seja a minha mãe. E nem uma namorada.

— E nem vai ser. — Vejo quando

ele enruga o nariz formando uma careta

engraçada antes de pagar pelas flores.

— Ela é minha irmã, cara. Que

nojo. — Dou risada também, pagando as


minhas flores. — Além do mais, Grace
gosta de você. Mas sabemos que se eu

não a visse como irmã e investisse, ela


escolheria a mim. Sou o melhor de nós

dois.

Seus ombros batem nos meus de

propósito, me fazendo rir. É a primeira

vez que me sinto feliz em dias. Desde o


acidente, tudo o que faço é ficar com

Grace até que acorde e, quando senti o


seu toque, foi como se eu estivesse vivo.
É surpreendente ver o efeito que Grace
tem em mim.

Sei que entramos nessa por causa


de sexo e nada além disso, mas foi

impossível não me apaixonar por ela.

Agora que Grace está perto de acordar,

– pois eu sinto isso – tudo o que quero é


que ela me perdoe por não ter protegido

ela. E que aceite ser minha namorada,


também.
Voltamos para o hospital. Noah e

eu estamos quase saltitando de alegria.


Seguimos na direção do corredor onde

Grace está e, antes que possamos entrar,


eu a escuto.

— O quê? — Sua voz parece

assustada demais. Meus pés estacam no


piso branco e não consigo andar. Será

que seus pais contaram que não a


salvei? Que foi minha culpa?
— Querida...

— Não! — Ela grita. — Não. Não.

Não. É mentira. Papai, diz pra mamãe


que é mentira.

— Grace, é a verdade. Você...

— Não é! — Os gritos aumentam,

sendo acompanhados de soluços. — As

aulas vão começar semana que vem. Eu

cheguei aqui há poucos dias, eu falei


com vocês ontem. Vocês me pediram pra
ligar todos os dias e... Eu... Mamãe?
Papai? Não... eu... o que está
acontecendo comigo?

— Grace, você não se lembra? —

Sua mãe pergunta com a voz embargada.

— Do que ela não se lembra? —

Noah sussurra ao meu lado. Sua voz está

baixa e carregada de dor. Ele sabe a

resposta e eu também, mas não quero


acreditar. Não posso acreditar.
— Querida, — É seu pai quem

fala. — Já se passou um ano. Não


estamos mentindo.

— Não. Não. Não. Não. Não.

— Ela não lembra da gente? —

Noah pergunta com a voz embargada.

— Sua formatura foi dias atrás.

Não viemos por conta da estrada, mas

ligamos para te avisar. Você já se


formou, Grace.
— É mentira. — Sua voz entre

soluços — Eu... eu...eu não lembro de


nada, papai. Me ajudem a lembrar, por

favor. Eu... — Grace solta um grito de


dor. — Eu não lembro de nada. Por que

dói tanto?

E é nesse momento que sei que a


perdi. Que sinto meu coração se partir.

Passo por Noah e corro até encontrar um


espaço vazio. As flores caem no chão se
despedaçando quando me sento junto as
pétalas e me deixo quebrar.

Deixo que a dor me atinja e me


faça chorar. Sinto a dor de perder a

garota que eu amo, e ela nunca irá saber

disso.

Por minha culpa tudo o que

tínhamos não passa de memórias

esquecidas. E eu nunca vou me perdoar


por isso.
☆♡☆
Capítulo 52
Agora

— Foi um acidente. — Digo,


entrando na sala. Triz me olha assustada.

É a primeira vez em semanas que ela me

vê. — Você o culpou por um acidente.

— Ele não deveria ter levado você

lá.
— Ele não poderia prever um

acidente.

— Quando vocês estavam saindo,


— Ela engole em seco. — Prometi que,

se ele a machucasse, não deixaria mais

ele se aproximar de você. Eu cumpri

minha promessa.

Me sento na ponta do sofá

segurando os joelhos junto ao meu peito.

— Como éramos?
Ela bufa uma risada olhando pra

mim, se apoiando no encosto do sofá e


segurando seus próprios joelhos.

— No começo? Sinceramente, eu

não sei definir o que eram. Mas depois?

— Ela ri. — Eram melosamente

apegados. Vocês eram o casal número 1


do campus, mas não estavam nem aí.

Tudo que importava era o mundinho de


vocês.
— Vocês eram amigos? — Ela

analisa a minha pergunta. Vejo quando


engole em seco antes de responder.

— Eu só o conhecia de vista e pela

fama de galinha que ele carregava antes

de você ser transferida pra

universidade. Não éramos próximos,


mas às vezes saíamos entre amigos.

Preciso admitir uma coisa. Vocês se


amavam, Grace. Todos viam isso, e eu...
disse umas coisas que não deveria no
seu acidente pra ele, mas... Achei que
morreria. Estava brava e você era a

minha melhor amiga e tive medo de


perder você. Quando acordou, você mal

se lembrava que me conhecia. Só sabia

o meu nome e aquilo acabou comigo. E

eu quis te proteger dele, mas...

— Mas?

Seus olhos me encaram repletos de


lágrimas. Deixo que chore sem dizer

uma palavra, até que ela possa se


acalmar e falar comigo, mas a

campainha toca e Triz se levanta


enquanto pragueja.

— Belo timing, Jef.

— Jef? — Triz abre a porta e

meias coloridas calçadas por tênis

vermelhos pisam no chão da sala. Jef


entra, me lançando um sorriso nervoso
enquanto esfrega a palma da mão em sua

calça.

— Oi? Hum... Triz disse que era


uma boa hora pra voltar a vê-la.

— Não exatamente agora. — Seus

olhos reviram. — Estava prestes a pedir

perdão.

— Oh, então cheguei em uma hora

maravilhosa. — Dou risada quando ele


tira os tênis e anda até mim usando
meias de donuts. — Sei que não me
conhece e que está tudo confuso agora,
mas eu era o seu amante.

— O quê?

Triz tampa a boca com as mãos

para refrear uma risada e Jef faz charme

enquanto alisa seu cabelo.

— Pois é, o capitão não era tão

bem dotado quanto eu. — Ele ergue as


sobrancelhas maliciosamente, e eu
apenas engasgo com minha saliva. —
Meu Deus, Grace! Eu sou gay.

Ah, minha nossa.

— Não! — Ele gargalha. — Meu


Deus, eu sou bem comprometido e, por

sinal, não é com você. — Jef ergue sua

mão, mostrando a aliança em seu dedo.

— Então... Nós não...

— Não. Que nojo. — Ele faz uma


careta. — Mas eu sou um dos seus
melhores amigos do mundo inteiro. —

Ele estende a mão para mim. — Eu sou


Jef.

— Grace. — Aperto sua mão

recebendo um de seus sorrisos. Jef se

senta ao meu lado arqueando a

sobrancelha e esperando Triz se sentar


também.

— Fui hipócrita e egoísta. — Triz


diz assim que senta no sofá. — Eu...
Acho que, — Ela coça a garganta. —

Acho que foquei tanto em você não


saber nada sobre mim, que esqueci de

me colocar no lugar dos meninos. Eu...


Quando você descobriu, coisas se

passaram na minha cabeça, B. Fui

sortuda por você ainda saber quem eu

era. Eles não tiveram a mesma sorte.

Meu Deus, eu sou tão egoísta!

— Triz...
— Me deixe terminar, por favor.

— Assinto. — Eu estou me sentindo uma


babaca agora. Eu te amo demais, B e

minha proteção foi longe demais. E só


reconheci isso depois de vê-la chorar

durante todos esses dias. Me machucou

demais e senti que parte disso era culpa

minha. Me perdoa, Grace. Por favor. Eu

sei o erro que cometi e eu estou

arrependida. Éramos felizes pra


caramba e sinto... — Sinto as lágrimas

embaçarem minha visão. — Quero ser

feliz de novo. Com você. Com Jef, Seth

e até mesmo o Sherlock. Me deixa ser

feliz com vocês, B. Me perdoe, por


favor.

Encaro seu rosto avermelhado


banhado em lágrimas enquanto ela solta

soluços com a intensidade do choro. Me


aproximo dela a abraçando. Triz chora
apertando seus braços ao meu redor, e
logo sinto Jef se juntar a nós.

— Te perdoo, Triz. — Ela sorri


em agradecimento quando se afasta de

mim pra secar as lágrimas. — Mas não é

apenas pra mim que você tem que pedir

desculpas.

Os olhos de Triz vão para Jef. Ele

sorri dizendo:

— Também não é pra mim.


Ela assente, percebendo a quem

deve pedir perdão pelas escolhas que


fez. Assim como eu percebo a quem

devo perdoar pelas verdades que


resolveu ocultar de mim.

Todos são meus amigos. E todos

queriam uma única coisa: me proteger


da minha própria vida. Mas não é isso

que vida significa? Viver errando e


acertando. Por mais que não sejamos
merecedores, todos nós precisamos de
cicatrizes. Apenas uma cicatriz que
diga: “Ei, lembra desse dia aqui? Nos

machucamos feio. Mas olha pra gente


agora! Estamos bem. Não é o

máximo?”

A cicatriz de Triz, a marca que ela


não vai esquecer, está nas atitudes que

ela tomou. A de Noah, na culpa que


carregou por todo esse tempo sem falar
com ninguém. E a de Seth... sou eu.

E, apesar de ainda ter que

conviver com um vazio em minha


própria mente, entendo que é essa a

cicatriz da minha vida, ouço quando

essa minha cicatriz diz: “Ei, eu sei que

te fiz esquecer de tudo. Mas olha ao


seu redor. Você tem amigos que te

amam e uma vida pra viver. Faça isso.


Viva!”
☆♡☆

Capítulo 53
Antes

— Eu queria que estivesse

acordada. Queria que se lembrasse de


mim, principalmente. Mas acho que essa

é a punição que mereço por ter feito isso


com você. Me perdoa. Me desculpa,

amor. Você foi especial pra mim e me


desculpe se não disse isso antes. Eu
deveria ter dito. Talvez as coisas
tivessem sido diferentes, talvez você

soubesse o que eu queria fazer quando a

levei para ver estrelas e, talvez,

estivesse vendo elas comigo agora ao

invés de estar deitada aqui. Me perdoa,


amor.
— Cara, precisamos ir pra casa.

— Você não entende? Aqui é a

minha casa. Grace é a minha casa... Só


deixa eu me despedir dela... Amor? Se

alguma parte de você sabe quem eu sou,

por favor, escute essa parte. Te imploro.

Eu não posso perdê-la assim, não desse


jeito. Você prometeu que não iria

embora. Sei que eu disse em relação a


não ir embora depois de transarmos,
mas... Pra ser sincero, eu não queria e
nem quero que vá embora da minha
vida. E você prometeu isso, amor.

Então, se ainda tenho espaço no seu


coração, se algo em você sente o mesmo

que sinto, não importa que eu seja

apenas um estranho, só siga o seu

coração, amor. Porquê ele vai saber o

que quer, sei disso. Eu te amo, Grace. Te

amo com tanta intensidade que não sou


capaz de expressar. Eu te amo.
☆♡☆
Capítulo 54
Agora

Não sei ao certo porquê estou


aqui.

Tudo que vejo acima de mim são

estrelas. Lindas e brilhantes, iluminando


todo o céu.
Fecho os meus olhos quando o

farol do jeep ilumina o meu rosto.


Afundo minhas mãos no fundo do bolso

da jaqueta quando o vejo sair de seu


carro. Ele olha para mim como se eu

fosse uma miragem, engolindo em seco

enquanto fita minha jaqueta de couro.

Igual a dele.

— Jef te devolveu — Diz ele,


enquanto se aproxima.
— Ele disse que era minha. —

Dou de ombros, voltando a olhar pra


cima. — A garota que mencionou

naquele dia bem aqui.

— Era você, Grace.

— Eu sabia? — Ele ergue as

sobrancelhas em minha direção. —

Sabia que me amava?

Seth Mason suspira desviando seus


olhos azuis para longe de mim. Ele
ergue seu queixo para o céu e encara as
estrelas sob nossas cabeças.

— Você disse uma vez que eu era o


típico jogador de hóquei que só a via

como um desafio. — Acho que ele vê o

espanto no meu rosto quando ri. — Você

estava certa. E eu estava errado.

— Em que parte?

Seu peito sobe quando ele respira


fundo. Seus olhos voltam a me encarar e
me prendendo neles.

— Na parte que eu disse que não

me apaixono. Eu estava definitivamente


errado, porque me apaixonei por você,

Grace. Só percebi isso tarde demais.

Tarde demais. Ele percebeu que

gostava de mim no dia do acidente? Isso

significa que não cheguei a saber se ele

gostava de mim da mesma forma que


gostei dele. O que acontece com quem
se apaixona duas vezes pela mesma

pessoa? Eu deveria saber. Com base no


que ouvi de Noah, Triz e Jef, eu era

apaixonada por ele. E, com base no que


sinto agora, eu sou apaixonada por ele.

— Foi um acidente, Seth.

— Que poderia ter sido evitado.

— Ficamos em silêncio, apenas o som

do vento passando por entre a gente. Me


aproximo dele, encostando meu braço no
seu. Sinto seu braço contornar minha

cintura quando ele se apoia no capô do


carro, sem desviar os olhos do céu.

Encosto minha cabeça em seu peito

e, antes que possa me dar conta, já estou

abraçada a Seth como se ele fosse tudo

para mim. Seth beija o topo da minha


cabeça, apertando seus braços ao meu

redor.

— Me perdoa?
Eu já ouvi isso de tantas pessoas

diferentes que só queriam o meu bem,


mas não tem o que perdoar. Fomos só

vítimas do destino.

— Perdoo. — Mas foi um

acidente. Completo em minha mente,

pois sei que não valerá a pena insistir


nisso se Seth não acredita. Em algum

momento, ele vai aceitar. — Seth?

Ele abaixa a cabeça para me


encarar.

— Poderia me beijar? — Vejo o

sorriso que ele abre. Não chega a


mostrar os dentes, mas é um sorriso. Ele

está feliz. E não é a sua boca que diz

isso. São seus olhos. Eles não estão

nublados, não como antes.

Sua mão segura meu queixo me

puxando para perto. Seth beija a ponta


do meu nariz me fazendo rir, depois
beija os cantos da minha boca. Seus

lábios roçam nos meus e, quando sinto


sua língua deslizar pela minha, é como

se eu estivesse fazendo o certo. É como


se fosse isso que meu coração precisa.

Seth me beija com uma delicadeza sem

fim, uma mão acariciando minhas

bochechas e a outra afagando meus

cabelos.

Sinto quando minhas lágrimas


caem. Seth se afasta secando-as com as
costas de sua mão. Ele me olha nos
olhos quando diz:

— Eu te amo, gata.

— Eu te amo, gato.

Ele ri me apertando em seus

braços mais uma vez. Ele me beija

novamente e me sinto tão bem. Tão feliz.

Sinto seu coração bater acelerado, me


apoiando em seu peito e ouvindo o som.
— Ainda se sente perdido? —

Pergunto quando me afasto para encarar


seus olhos.

— Depende. — Sua cabeça tomba

para o lado enquanto seus olhos se

cerram. — Tenho você?

Não evito o sorriso que cresce em

meus lábios. Se Seth Mason me tem?

Acho que ele, mais do que ninguém,


sabe o espaço que ocupa dentro do meu
coração.

Eu reencontrei Seth por um motivo.

Ou melhor, foi ele quem me encontrou.


O coração sabe aquilo que quer, quem

quer.

— Você me tem, Seth.

— Então estou em casa, Grace.


☆♡☆
Epílogo

Agora – 1 mês depois

— Precisamos conversar, Seth

Mason Tyler.

— Pai, por favor. — Grace

pragueja ao ouvir o tom de voz do Sr.


Lorey do outro lado da linha.

— O quê? Preciso saber das

intenções dele com a minha filha. —


Seguro a risada com a careta que Grace

faz enquanto encara o celular, que está

no viva voz.

— Pra quê, querido? Eles já

transaram mesmo. — Engasgo com a

cerveja que estava tomando. Noah, que


está ao meu lado, cospe a bebida e
gargalha, e Grace parece prestes a enfiar

a cabeça dentro do ralo da pia.

— Isso é coisa pra dizer na frente


das crianças?

— Crianças? Pelo amor, Gregory.

Crianças é o que eles estão fazendo.

— Puta que pariu! — Noah

gargalha mais, quase caindo da cadeira.

A ligação é cortada quando Grace


desliga o celular. As bochechas estão
coradas e seus olhos encaram o celular
em suas mãos como se ele fosse um
criminoso.

— O que perdemos? — Jef entra

na cozinha carregando as sacolas com os

ingredientes que Noah e eu pedimos

para que trouxesse. Triz passa por mim,


deixando um tapa em minha cabeça e

bagunçando os cabelos de Noah, que


ergue o dedo do meio para ela.
— Nada. — Grace responde

olhando para Jef.

Estamos voltando ao que éramos


antes. Sem intrigas e apenas os velhos

amigos da faculdade. Por Grace e por

nós mesmos.

— Quem quer ver o mestre em

ação? — Noah pergunta. No mesmo

instante, a cozinha, que antes estava


cheia, ficou vazia, porque todos
correram para a sala. — Essa porra foi

combinada, não foi?

Grace volta rindo e me abraçando.


Beijo o topo de sua cabeça antes de

beijar seus lábios, mas paro quando um

pano de prato me acerta.

— Modos na minha cozinha,

pombinhos.

Grace se separa de mim rindo. Ela


enrola o avental que Noah deu de
presente na cintura. Está escrito “Gata
da casa”, e é a mais pura verdade.

— Certo. O que preciso fazer,


maninho? — Ela pergunta, o chamando

pelo nome carinhoso. Noah abre o

mesmo sorriso enorme que sempre abre

quando ouve isso.

— Pode amassar isso, maninha?

— Grace assente se colocando do lado


dele e amassando as batatas. — E você,
cara? Vai ficar aí e não fazer nada?

— Vou ficar aqui e não fazer nada.

— Grace esconde o riso e Noah revira


os olhos.

— Sua comida é horrível mesmo.

— Ele resmunga, voltando a cozinhar.

Eu apenas encaro os dois. As duas

pessoas que amo mais do que posso

suportar.

Triz se senta ao meu lado,


ocupando o lugar que Noah estava antes.

— Você a ama. — Meus olhos

estão em Grace, vendo-a rir quando


Noah suja o seu nariz com molho.

— Amo. Muito.

— Muito quanto?

Sorrio. Triz me pergunta isso

sempre que pode, e a resposta é igual

todas as vezes.

— Estrelas são infinitas.


Eu a amo. Se precisasse colocar

meu amor por ela em números, diria que


é a quantidade de estrelas existentes.

Cada estrela é um “Eu amo você,


Grace”. E ela sabe disso. Encaro o

colar em seu pescoço, as estrelas

cintilando e brilhando como se fossem

reais.

Grace é isso, sabe? É o meu céu


repleto de estrelas que iluminam meu
dia. Nosso paraíso voltou a ser o que
era. E eu não poderia ser mais grato.

Deixo Grace mexer em nossas

coisas. As coisas que guardei do tempo

que ficamos juntos. Ursos de pelúcia,


livros, fotos, quadros. Grace toda noite
mexe nelas, na esperança de ter as

memórias de volta, mas isso ainda não


aconteceu. Mesmo assim, ela nunca

desiste. É algo que amo nela, apesar de


deixar sempre claro que, se as

lembranças não voltarem, não tem

problema. Prometi fazer novas em todos

os meus dias.

Grace ouve as músicas enquanto


segura a capa do CD que me dera. Na
capa está escrito com caneta vermelha
“Músicas que me lembram você”. Eu
ouvi todas as músicas todos os dias

desde o acidente. Eram músicas que me


lembravam de Grace e os momentos que

passamos. Foi o melhor presente que

alguém já me deu.

Paro de desenhar encarando suas

costas retraídas quando ela solta um


soluço.
— Amor, você está bem?

— Você usava jaqueta de couro, a

música estava alta e me senti presa nos


seus olhos.

— Grace?

— Se a música é o alimento do

amor, então não pare de tocar.

Meu coração palpita e não sei

como ainda consigo me levantar e


caminhar até ela. Grace me olha por
cima dos ombros, os olhos marejados e,

em meio as lágrimas, Grace sorri. O


sorriso mais lindo que já vi.

E, então, sinto o mundo parar de

girar quando ouço Grace dizer:

— Eu lembrei.
☆♡☆
Cena Extra

Eu não sei como vou reagir. Faz

tanto tempo que não a vejo e tenho medo

de estragar tudo, do mesmo jeito que

estraguei na primeira vez.

Meu primo, Ryle, que veio me

visitar, atravessa as portas primeiro.


Nunca tínhamos vindo até aqui, mas,

quando Noah me disse que havia visto


ela, eu não resisti. Precisava vê-la. Ao

menos por um único segundo.

Nos sentamos na última mesa

disponível. O lugar está cheio e meus

olhos procuram qualquer cabelo loiro


por aqui.

Só preciso olhar pra ela. Por


apenas um minuto.
— Calma, Seth. Parece que vai

infartar. — Noah diz, atraindo a atenção


de Ryle pra mim. De todos os amigos,

Ryle não ficava de fora em gostar da


Grace, mas fui claro quando o avisei pra

agir com naturalidade caso a visse.

— É, capitão. — Ryle insiste em


me chamar de capitão mesmo que eu não

esteja mais na New York University. —


É só a Grace.
É só a Grace? Abro a boca pra

mandá-lo ir se foder. Pra começo de


conversa, ninguém o convidou. Ele e os

caras já ficaram com a casa do campus e


quando comprei o apartamento com

Noah eu estava atrás de paz. E Ryle e

paz na mesma frase não combinam.

— Bom dia, o que vão querer? —

Sinto meu coração parar. É a Grace. É a


minha Grace bem na minha frente e eu
sabia que sentiria vontade de levantar e
agarrá-la, mas não sabia que seria tão
forte.

Olhe pra mim, gata. Olhe pra

mim, amor.

— O seu número está no cardápio?

— Ryle pergunta, agindo com

naturalidade demais. Chuto seu pé por

debaixo da mesa. Ele faz uma careta,


mas Grace nem percebe. Seus olhos
ainda estão na porra do bloquinho.

— Seis. — Responde ela, enfim

levantando os olhos para Ryle enquanto


se apoia na mesa.

Olhe para mim, só preciso ver

seus olhos e a deixarei em paz.

— Seis o quê? — Pergunta Ryle,

com as sobrancelhas erguidas. Noah está

tão petrificado quanto eu, já que é a sua


irmã que está falando com Ryle agora.
— Seis cantadas diferentes hoje. E

só abrimos há uma hora. Capricha mais,


cara.

Abafo minha risada quando Ryle

arregala os olhos, chutando meus pés

por debaixo da mesa. Sei que é a forma

dele reagir a Grace sem que seu rosto


demonstre algo.

Os olhos castanhos de Grace


focam em Noah primeiro. Eu a encaro,
implorando que me olhe enquanto sinto

o aperto que Noah dá no meu braço por


cima da minha jaqueta. Um tipo de surto

interno está acontecendo com ele e sei


exatamente o que Noah está sentindo

quando os olhos de Grace focam em

mim.

Ela não desvia o olhar e nem eu.

Gosto desse jogo. Gosto muito.

Sinto tanto a sua falta, gata.


Sinto o aperto de Noah novamente.

Algo se estilhaça e Grace desvia os


olhos para o bloco em suas mãos. Vejo

Triz pela visão periférica. Ela nos viu.


Merda. É claro que ela estaria

trabalhando aqui também, já que é a

nova guarda-costas da Grace.

Triz recolhe as coisas as pressas

enquanto pede desculpas, mas não me


importo. Se ela vir, Grace vai saber que
algo está errado. Conheço a minha
Grace.

— Hm... O que vão querer?

— As panquecas daqui são boas?


— Noah pergunta depois de engolir em

seco. Sua voz soa normal, mas as unhas

que ele está afundando na minha jaqueta

dizem que Noah está a um passo de

chamá-la de maninha.

— As melhores que já comi. —


Ela diz sorrindo, sem me olhar.
Permaneço sério, mas a vontade de rir é
grande. Eu a afetei. Olha pra mim,

amor. Olha pra mim de novo.

— Vou querer, então. — Noah

responde.

— Vou querer os croissants doces

e um café expresso, gata. — Grace

revira os olhos e faço o possível para


não revirar os meus também.
— E você? — Pergunta a mim sem

me encarar. — O que vai querer?

Olhe pra mim, amor. Grace olha, e


não consigo me controlar quando digo:

— Você.
Livros mencionados na
obra:

Corte de espinhos e rosas;

Sarah J Maas

Off campus / Amores


improváveis; Elle Kennedy

Estilhaça-me; Tahereh Mafi

Rainha vermelha; Victoria


Aveyard

As peças infernais; Cassandra


Clare

Mil beijos de garoto; Tillie


Cole

Príncipe cruel; Hólly Black


Caramba! Aqui estou eu.

Sinceramente, eu não sei o que dizer

além de obrigada. Obrigada por chegar


até aqui e por dar uma chance a

Heaven.

Agradeço também às meninas da

betagem: Mary, Duda, Malu, Liv e Nick.

Obrigada, meninas! Foi uma experiência


incrível tê-las comigo. Muito obrigada.
E agradeço também aos mutuals

do Twitter, que surtaram com os trechos


durante o processo de escrita. Sei que

causei bastante surto, então me


desculpem. Mas valeu a pena, não é?

E agradeço especialmente a você,

caro leitor, que está lendo isso agora.


Obrigada.
Redes Sociais da Autora

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[1]
Trecho do capítulo 55 do livro Corte de Névoa e Fúria, de
Sarah J Maas.
[2]
Trampoline; Shaed e Zayn.
Também é a música tema da obra ♡.
[3]
Prato de macarrão com molho apimentado, vegetais e
carne.
[4]
Expressão usada para quando o jogador faz 3 gols em um
único jogo.
[5]
Sofá redondo, normalmente de madeira, que ficam em
varandas e jardins. A autora achou muito chique usar a
palavra chaise.

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