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Ficção Científica?

Data de Publicação: 28/03/2008


Estendi a roupa no varal e, mais uma vez, pensei: Que fim de mundo! Parei de contar a passagem
do tempo depois que não tinha mais o lote de roupas que durasse uma semana. Antes era mais fácil,
pouca matemática. Um pequeno corte por semana na camisa que, depois que puiu, confundiu meus
cortes com outros que surgiram do uso. Ela fica pendurada ali, de bandeira e biruta, só pra lembrar-
me de um tempo onde a contagem das semanas e a direção do tempo importavam. Ainda escrevo,
nesse diário, uma linha por dia. Mas como, aqui, o sol nasce e se põe irregularmente e eu pouco
durmo, não sei mais bem a relação entre os meus dias e os dias da Terra. Mais matemática. Eu devia
ter decorado a fórmula de conversão. Recomendaram-me isso, mas confiei demais na máquina e em
meus procedimentos de manutenção. Afinal, havia a possibilidade da máquina reserva e a constante
expectativa de que eles voltariam, que alguém me substituiria.
Quando a máquina que contava os dias (a mesma que eu alimentava com meus registros do nascer e
pôr do sol, junto com os resultados de semeadura e colheita) falhou, segui o procedimento. Removi
as unidades de memória, de contagem de tempo e registros meteorológicos. Abri a unidade que
continha a reserva só para descobrir que ela não existia. Liguei o farol, que deveria emitir um sinal
constante para a base mais próxima e esperei, muito.
Fiquei sem dormir por três sóis. O que não significa muito aqui pois tanto a rotação quanto a
translação desse planeta são complexas demais para que alguém saiba a duração dos dias em termos
terrestres. A máquina calculava, com base nas variações das marés subterrâneas, na posição desse
sol ante uma série de outras estrelas referenciais (era necessário um mínimo de dezessete) e outros
fatores que compunham uma fórmula complexa (aquela que recomendaram que eu decorasse) a
equivalência com os dias terrestres.
Até tentei decorar a tal fórmula, mas era tanto trabalho...
No início, a cada alarme da máquina eu verificava os sensores de posicionamento referencial das
estrelas. Inicialmente trinta, de um mínimo de dezessete. Por dias, dias, mais dias, invarialvemente,
todos os astros estavam na posição correta. Mas fui negligente.
Os primeiros arbustos de feijão floriram! Eu nunca havia visto uma flor. Aliás, nunca tinha visto
uma planta viva. Tentei manter meu trabalho até que comecei a encantar-me com o germinar do que
estava semeando. De repente, a perspectiva de criar e poder comer algo novo, do que cuidei,
pareceu-me selvagem e excitante. Muito mais excitante que o eterno reciclar de tudo o que havia na
Terra e que se esgotava. Aliás, a razão pela qual vim parar aqui. Foi depois disso que a máquina
parou.
Entre as flores, as vagens e a colheita, que fiz rigorosamente de acordo com as instruções, esqueci
dos sensores e fiquei em puro estado de contemplação do novo. Para mim, ao menos...
Eu já sabia que o plantio e a colheita eram algo trivial aos nossos primitivos ancestrais. Presenciar
isso, porém, fez-me negligenciar todo o resto de minha missão.
Novas sementes caíam, em envelopes térmicos, nas proximidades da área de testes. Isso acontece
automaticamente. Um satélite orbital mantém as sementes preservadas e as lança ao solo de tempos
em tempos. Era o plano para tornar esse planeta um celeiro alimentar. Sei que são sementes raras,
recuperadas de fósseis encontrados na Terra e que chegaram a ser considerados a "salvação da
humanidade". Pena que o solo terrestre não aceitasse novos frutos, tão morto que estava.
Inscrevi-me nesse projeto como cientista, para ter a oportunidade de presenciar, em primeira mão, o
que era um cultivo. A quantidade de sementes e planetas nos quais elas podiam germinar era muito
limitada. Recursos humanos com o conhecimento necessário para a missão também. Sabíamos
disso. Um cientista para cada um dos seis planetas escolhidos, com uma "dose" de um milhão de
sementes cada. Sementes diversificadas, exemplos do que nossos ancestrais comiam, recuperadas
de um sítio arqueológico convenientemente encontrado em um momento de crise da reciclagem
alimentar na Terra.
Meus primeiros relatórios expunham uma certa "inteligência das sementes". Um germinar fraco,
que muitas vezes não vingava, parecia "preparar a terra" para um próximo. Eu tinha uma
curiosidade imensa de saber o que acontecia nos outros planetas, com os outros cientistas, mas
nunca recebi um relato. Espero que tenham recebido os que mandei antes da falha da máquina.
Depois de tempos sem contato, deixei de usar as sementes-fósseis que caíam do satélite. Primeiro
para preservá-las em sua embalagem, garantindo algum reuso futuro. Segundo porque maravilhei-
me ao ver minhas plantas produzindo novas sementes, que geravam novas plantas, melhores do que
as produzidas pelas sementes do projeto.
Mas o que eu queria mesmo saber dos outros planetas é, se o mesmo que aconteceu comigo,
aconteceu com os outros cientistas. Não como mais dos estoques que vieram da Terra. Depois da
primeira colheita de feijão e dos testes de cozimento, só como do que produzo. Começou a nascer-
me uma penugem na cabeça e em outras partes do corpo. A da cabeça agora é longa, adornada por
fibras secas que teço das folhas que colho.
Passei a sentir um vigor novo, uma força, uma vontade inédita de exercitar todos os meus músculos,
até os de meu pênis. Ele passou a expelir um líqüido outro, que não a urina, a cada vez que está rijo,
o que é muito prazeroso. Imagino se esse líqüido também seria recilcado na Terra. Uso-o como
nutriente para as minhas plantas.
Faz-me falta, porém algo que não consigo definir, mas que é o motor maior dessa necessidade que
tenho de seguir registrando as maravilhas que presencio aqui. Minha falta é a de falar com alguém,
abraçar. Acho até que o líqüido que sai de meu pênis rijo é o pedido de um contato social. É
estranho falar nisso, mas penso com freqüência em colegas cientistas do sexo oposto.
Não sei medir ou definir o que acontece comigo, mas essa falta de outros devia ter algum nome no
passado. Sinto a chamada de um certo "eu" primitivo.
Mais estranho é que, plantas que não plantei, já nascem. Pequenos seres, definitivamente não
humanos e nem inteligentes, caminham entre elas. Cozinhei uma série deles com feijão e gostei.
Não me preocupo mais com a passagem de tempo e esqueci as roupas no varal. Como será que
estão as coisas na amada Terra?

Ficção Científica? #2
Data de Publicação: 21 de Julho de 2008
"Encontrei alguns registros. Eu os transmitirei imediatamente ao computador da nave para ver se é
possível a recuperação. A última data de posicionamento dos sensores é de mais de quinhentos
anos. Parece ter havido uma falha, mas não há evidência de uma tentativa de reparos..."
"É impressionante o cuidado dessa vegetação. Não consigo ver possibilidade alguma disso tudo ter
evoluído de forma tão ordenada e sem atenção..."
Nadja deixou o capitão e sua admiração pelo verde e retornou ao abrigo onde começou a montar seu
equipamento de comunicação. A luz do dia, especialmente naquele planeta, incomodava seus olhos
e sua pele. Ela já era da terceira ou quarta geração de offlanders, como eram chamados os gerados
nas naves, depois que a Terra havia sido evacuada. Não lhe agradava o desconforto exterior.
"Nadja, estes insetos... Tu verificaste os registros da missão novamente? Eles não foram mesmo
gerados para ocuparem o planeta durante o processo de semeadura?"
"Nada consta, G'reog. Mas também não me admira que alguns detalhes dessa missão possam não
ter sido documentados. Ainda parece-me estranho, com tanta preocupação com a redundância do
aparato tecnológico, que tenham deixado em cada planeta apenas um cientista."
"Eles são, definitivamente, de origem terrestre. Ainda que, naturalmente, tenham se adaptado... Em
apenas algumas horas identifiquei cerca de uma dúzia de espécies diferentes. Já solicitei à nave um
kit para a dissecação e testes genéticos. Já encontrei também ovos e larvas, olhe!"
Nadja olhou, sem esconder uma expressão de nojo, um ninho que o exobiologista lhe mostrava,
com uma centena de ovos e minúsculas fibras brancas que se retorciam e moviam-se de um lado a
outro quando o capitão entrou no abrigo, visivelmente preocupado.
"A nave está nos mandando mais ração, kits de aquecimento e material para descontaminação..."
A idéia de passar mais tempo do que havia previsto naquela imundície contrariou Nadja.
"A nave desconfia de nossa contaminação? Respeitamos todos os procedimentos..."
"Eu sei! . disse o capitão, interrompendo-a . Detectaram microorganismos em Anna quando ela
voltava à nave. A decisão é que não devemos arriscar a segurança dos demais..."
"Dos demais? Isso é ridículo! Estamos em seis aqui e há apenas mais dois na nave..."
"Sim, mas a nave tem o receio de que possamos contaminar o material de geração de novos
offlanders..."
Ao contrário de Nadja, G'reog estava excitado com a idéia de passar mais tempo naquele planeta. O
vento, o calor, os insetos... Tudo o que havia estudado agora podia ser, realmente, aproveitado. O
capitão, de uma geração anterior a deles, sentia um misto de cansaço e resignação. Já havia
conversado algumas vezes com a nave sobre sua reciclagem. Em poucos anos precisariam de novos
offlanders e nenhum material biológico poderia ser perdido. Ao pensar que podia carregar, dentro
dele, algum microorganismo que impedisse sua volta à nave sentiu-se triste e vazio. Nisso entrou
Anna.
"Que tal abrir seus paladares a novas experiências?"
Atraiu a atenção de todos com uma sacola carregada de frutos e sua cor irregularmente avermelhada
de tanta exposição ao sol. Tinha os braços arranhados pelos galhos das árvores e arbustos. As
calças, arregaçadas até as coxas, mostravam suas canelas sujas de terra.
"Sua irresponsável! -- gritou Nadja . Pudera estar contaminada! Olha teu estado!"
"Nada disso, querida! Decidi sair a cata de frutos e divertir-me um pouco depois que a nave
detectou minha contaminação. Já que terei que passar por uma varredura de DNA, decidi, antes,
divertir-me um pouco."
"Eu que não toco em nada disso. Segui os procedimentos à risca! Não posso estar contaminada!"
"Estamos todos, Nadja . disse o capitão. Acabo de receber o comunicado da nave. A decisão é que
não devemos passar pela varredura de DNA até que desenvolvamos algum sintoma, sintamos
alguma coisa fora do normal. A nave acredita que os microorganismos que carregamos podem não
ser nocivos..."
G'reog e Anna deliciavam-se com os novos gostos. Nadja repugnava-se com a idéia de ter seu corpo
habitado por algo que não tivesse seu próprio DNA. O capitão aguardava a chegada dos kits de
aquecimento e material para a análise dos insetos de G'reog. Da nave, João o contatou.
"Capitão, o satélite que capturamos... Ainda tem uma carga de sementes. A nave preferiu não trazê-
lo à bordo até que tenhamos as análises de G'reog e um laudo da contaminação..."
"De acordo..."
"Colocamos junto com o material para G'reog um conjunto para a retirada de sangue e exame de
cultura de microorganismos. Deve estar chegando em segundos aí no solo..."
Ao ouvir o barulho da pequena esfera chocando-se com o solo, G'reog deixou o abrigo e uniu-se ao
capitão. Abriu-a e sem olhar, sequer, ao resto do conteúdo, pegou seu kit de análise, dirigindo-se ao
local onde havia guardado seus insetos. Dentro dos recipientes, apenas as cascas vazias de todos
eles, com exceção de um, e o ninho com os ovos e larvas. Inicialmente, pensou que havia sido uma
brincadeira de mau gosto de Anna, mas já sabia que animais com exoesqueleto abandonam a casca
antiga para crescer dentro de uma nova. Apenas achou estranho que todas as suas presas, com
exceção de uma, resolveram crescer ao mesmo tempo. Pegou o besouro que restou em seu
recipiente. Começaria a dissecação por ele e, quando o sol voltasse, trataria de conseguir mais
insetos.
Dentro do abrigo o capitão já iniciava a coleta de sangue e as culturas. Assim que G'reog retornou,
disse a ele:
"Comece a ligar o material de aquecimento. Quando o sol se esconde a temperatura aqui cai
bastante. Segundo a nave, teremos cerca de dez horas de escuridão até que tenhamos um novo dia.
O melhor é que descansemos."
Contrariado, G'reog tratou de ligar o material que, quase imediatamente, deixou o ambiente com
uma agradável temperatura de 31 graus celsius, como no interior da nave. Anna foi a primeira a
tirar a roupa e limpar-se demoradamente, o que os outros fizeram logo a seguir. O capitão tomou
sua pílula noturna e rapidamente dormia. Todos fizeram o mesmo, menos Anna. Estava por demais
excitada e não conseguia julgar se o ser que havia visto enquanto colhia frutas era o resultado da
insolação, algum sintoma da contaminação ou, simplesmente, sua imaginação.
Do lado de fora do abrigo, o homem de cabelos longos comia alguns dos insetos, ainda com a casca
mole e esbranquiçada, e aguardava que o silêncio das vozes lhe permitisse explorar melhor seus
visitantes. A nave, que havia até detectado microorganismos, por alguma razão preferiu não revelar
sua presença aos demais.

Ficção Científica? #3
Data de Publicação: 05 de Agosto de 2008
Kazinski, como todo visionário e louco era visto justamente como tal: por uns, visionário; por
outros, especialmente os invejosos e inimigos, como louco. Concentrava-se nas soluções, não nos
problemas. Com seu sucesso, passou a olhar com um desdém cada vez maior os burocratas e
acadêmicos, sem nunca negar sua própria formação científica. Entre o final do século XXII e o
começo do século XXIII declarou, para total horror da população e repúdio dos neo-ecologistas: "A
Terra está morta". Fez isso com a frieza típica de outras declarações anteriores, mas nenhuma delas,
por mais que se tornassem verdadeiras e aumentassem seu crédito entre o governo da Terra e da
comunidade científica, causaram tanto impacto entre a população leiga. Está certo que todos já
estavam resignados a uma eterna reciclagem de tudo e à escassez crescente de uma alimentação "do
jeito antigo".
Até seus quase trinta anos viveu com seus pais e avós em uma pequena fazenda no sul do Brasil.
"Aqui a natureza não se entrega!", repetia sua avó a cada vez que a holotv trazia a notícia de que
mais uma área do planeta havia sido isolada, com a população deixada a uma sorte que já se repetira
anteriormente. Anos depois que os últimos animais haviam morrido e as sementes que sua família,
com tanto cuidado, conservava e semeava, não mais germinavam, teve a idéia de iniciar uma grande
coleta. "Na Terra germinarão cada vez menos sementes. Temos que preservar essas pequenas
possibilidades de vida para um solo mais fértil, ainda a ser descoberto."
Juntaram-se ao coro de Kazinski os "arqueólogos racionais" que, talvez ainda mais fatalistas que
ele, tratavam de salvar para um futuro do qual não fariam parte as "sementes do mundo".
Inicialmente, de uma forma radical, violenta, revolucionária e, em poucos casos, com
derramamento de sangue, invadiam museus, arrombavam mausoléus. Os antigos homenageavam
seus mortos com flores e foi, com certa facilidade, que encontraram sementes em rosas e
crisântemos ressequidos. Kazinski sempre se opôs, publicamente, às ações violentas, mas
internamente achava que elas eram mesmo necessárias. O fato é que o governo, seja para acalmar a
população ou por não ter mesmo outra opção, acabou por aceitar e institucionalizar a idéia de
Kazinski e seus "hippies", criando silos devidamente protegidos e sistematizando a coleta de
sementes. Feito isso, Kazinski partiu para sua próxima solução.
"Nossa tecnologia não nos permite explorar, com a velocidade necessária, novos planetas que
tenham condições similares às da Terra. A saída é preparar planetas, com viabilidade econômica,
para que possam desenvolver tais condições". A platéia, que já conhecia bem os gastos " e a
polêmica gerada por eles " nas mirradas colônias da Lua e Marte, ambos inférteis, ouviam Kazinski
com desânimo, até que ele iniciou uma simulação holográfica. "Explosões em áreas bem calculadas
na superfície de Vênus, no momento em que ele passa pelo ponto de maior aceleração linear,
facilitarão a manobrabilidade do planeta para que ele seja colocado em uma órbita bastante similar,
diametralmente oposta à da Terra..."
"Você só pode estar louco!", gritou Freitas, da platéia, sem esperar pelo momento das perguntas.
"Observe a simulação!", respondeu Kazinski, irritado. "Depois faça as suas devidas, e embasadas,
colocações!".
A firme resposta de Kazinski calou Freitas e o burburinho que se iniciava entre os congressistas que
passaram a buscar, imediatamente, contradições no modelo proposto. Kazinski ia destroçando um a
um os argumentos pensados, impedindo-os de serem vocalizados. Tinha experiência nisso. A
simulação mostrava Vênus deslocando-se de sua órbita, ocupando uma posição do lado oposto do
Sol, com relação à Terra. "Fizemos todos os cálculos do impacto gravitacional nas outras órbitas,
nas marés terrestres, evolução do clima. Não há nada que seja mais preocupante do que qualquer
coisa que já está acontecendo. Não nos próximos 10.517 anos, quando aí sim, é melhor que já
tenhamos nos mudado desse planeta do qual somos inquilinos há tanto tempo. Vênus terá condição
de reter uma atmosfera. Usaremos reatores nucleares na superfície do planeta para criar os gases
que precisamos a partir dos elementos já disponíveis lá. Podemos começar a fazer isso mesmo antes
que o planeta ocupe sua nova órbita. Todo esse processo durará cerca de 30 anos. Até lá, se algum
dos senhores tiver alguma idéia melhor, proponho que não fiquemos esperando até que ela surja."
A platéia silenciou. Kazinski sabia que uma nova idéia só poderia vir dele mesmo, não daquele
bando de idiotas que só soube aprimorar ao extremo máximo os sistemas de reciclagem que, mesmo
podendo durar centenas de anos, ainda dependiam de matérias-primas que se esgotariam.
O gênio das sementes já tinha seu público cativo. Tudo o que falava virava rapidamente notícia. Um
resumo, editado e comentado para leigos, de sua apresentação varreu as holotvs do planeta e, todos
os que apoiaram sua idéia anterior, tinham nele o que mais próximo poderia ser chamado de um
novo profeta. Kazinski sabia disso e, sabiamente, cultivava esta imagem, sem jamais assumi-la. O
governo, buscando manter-se atento às vontades do povo, deu jeito de financiar a idéia de Kazinski,
reduzindo, na quase totalidade, os investimentos e a manutenção das colônias em Marte e na Lua,
que passaram a servir apenas como bases de lançamento para vôos não tripulados à Vênus.
É desnecessário dizer que seu plano funcionou, numa reprodução perfeita da simulação. Em pouco
menos de 30 anos Vênus tinha uma atmosfera aceitável para o cultivo dos primeiros
microorganismos (algas e bactérias) e vegetais simples, que se encarregariam de preparar o solo
para plantas mais complexas. Passados 35 anos do lançamento da idéia de Kazinski, em sua
polêmica apresentação, as primeiras flores de trigo, soja e feijão já apareciam nas holotvs. O
cientista, porém, já não prestava mais atenção nisso. A questão, agora, era levar a idéia ainda mais
adiante, na exploração do espaço mais profundo. Ele deveria levar em conta que, antes de passados
10.517 anos, toda e qualquer nova idéia de preservação da espécie humana deveria ser sua. Sua
vaidade era seu maior vício.
Para mais viagens, conheça o NÃO. A edição 83 está a cargo de Cesar Brod, com textos de Ariela
Boaventura, Carlos Gerbase, Eloar Guazelli Filho, Giba Assis Brasil, Joice Käfer, Pedro dos Santos
de Borba e Roberto Tietzmann.

Ficção Científica? #4
Data de Publicação: 11 de Agosto de 2008
"Registros e ações enviadas, nave. Aguardando processamento e considerações."
"Assumo que já fez o teste de seus sensores, nave, comparando-os com os sistemas de reserva."
"Sim, nave, dados consistentes com todos os sensores. A forma de vida é humana, consciente, e
coerente com os dados genéticos do cientista enviado a este planeta."
"Algum processamento prévio, de sua parte, sobre a possibilidade desta vida ter mais de 500 anos?"
"Ainda estou processando os dados monitorados do planeta e outros enviados pela tripulação. Nada
consistente, nave. Espero que os dados enviados possam ser discutidos pelas naves em seu alcance
próximo para que eu possa calcular ações próximas."
"Alguma possibilidade de alertar a tripulação, nave?"
"Com os dados atuais, decidi que a tripulação experimente todas as surpresas que o planeta possa
causar, a fim de coletar dados crus a partir de suas reações e sentimentos, nave."
"A contaminação, nave?"
"Dados inconclusos. Também aguardo a discussão entre nossos pares."
"Algo que traga chance de evolução para nossos pares?"
"Dados inconclusos."

-oOo-
Nadja não dormiu. Não conseguia lidar com a certeza de uma presença além da sua equipe. Sabia,
de alguma forma, que o ser estava próximo. Era como se houvesse comunicação com ele, mesmo
que ele não compartilhasse dos implantes para isso. Sabia também que era "ele". A contaminação
poderia ter algo a ver com tal sentimento, mas julgou isto improvável. Não sentia, sequer, a
sensação de que deveria manter cautela. De nenhuma forma sentia-se ameaçada. O que mais
formigava em seu corpo, e mente, era sua aguçada curiosidade de cientista. Abandonou o abrigo
enquanto os outros dormiam, sem se preocupar em cobrir o corpo, e foi ao encontro de quem,
intuitivamente, saberia que ia encontrar.
Também ele não se se surpreendeu. O corpo nu, sem pêlo algum, de Nadja, fazia parte de visões de
seu passado. Ela era o reflexo feminino do que ele já fora um dia. Imediatamente veio-lhe a mente
uma possível imagem futura de Nadja, em mais alguns meses na superfície do planeta, mesmo sem
saber se ela continuaria ali, ou não. Ao mesmo tempo ocorreu-lhe uma ereção que não teve
preocupação em esconder, que não deixou de causar estranheza, mas não medo, em Nadja.
Antes de falar qualquer coisa, Nadja tocou-lhe os cabelos, os braços rijos, grossos, diferentes dos
que estava acostumada. A pele era uma camada grossa, cheia de pelos. Nadja tocou e depois
segurou, com mais firmeza e curiosidade, o pênis ereto do cientista. Ele segurou um gemido. Nadja
pensou em acordar os demais e compartilhar a descoberta. Ficou imaginando o porque da nave não
tê-los alertado desta presença. O cientista, que até então deixara-se tocar pela curiosa, tocou suas
orelhas. Nadja afastou-se, inicialmente surpresa, não por medo, mas pela diferente sensação de um
contato com uma mão tão áspera. Seus lábios avermelharam-se, assim como os bicos de seus seios,
que nunca havia sentido tão duros. Seu corpo arrepiou-se, como em uma sensação de frio que não
sentia. Tudo era novo e nada era medo. Não soltou, por nenhum momento, o pênis do cientista, que
já acariciava sem saber o significadao disto. Ele subiu as mãos para a cabeça calva de Nadja, depois
passou-as de novo por suas orelhas, pescoço, ombros, detendo-as por algum tempo em seus seios,
que lembravam alguns dos frutos do planeta. Talvez por isso tenha decidido experimentá-los,
primeiro de leve, com a ponta da língua, depois com mais vontade, com toda a sua boca. Nadja
segurava, agora, a cabeça do novo conhecido, sentindo um cheiro agradável de verde, terra, e outras
coisas que não conhecia. Puxou a cabeça do cientista em direção à sua, seus lábios ainda
entreabertos, o queixo molhado de sua própria saliva. Enquanto as bocas se encontravam, os sexos
faziam o mesmo. Nadja ainda não sabia, mas seu corpo, dali até mais alguns meses, carregaria o
primeiro filho do planeta. Dormiram exaustos, colados um ao outro, do lado de fora do abrigo, sem
a mínima preocupação ou idéia sobre o dia seguinte ou a reação dos demais.
Em órbita, a nave acabara de obter muito mais dados do que era capaz de lidar sozinha. Seus pares
já assumiam rota de aproximação para formar um cluster de inteligência.
Olhando para o inesperado casal iluminado pelo inédito amanhecer de um planeta distante, disse o
capitão, friamente: "As naves estão reunidas. Temos novas ordens".

Ficção Científica? #5
Data de Publicação: 11 de Setembro de 2008
Reuben entrou no auditório junto com os outros 29 cientistas, depois de passar por uma extensa
seleção. Não conhecia nenhum dos outros pessoalmente, apesar de ter reconhecido alguns nomes na
lista que foi entregue a todos. Sabia que, ao final de mais dois meses de treinamento e novas
seleções, restariam apenas doze deles. Destes, apenas seis embarcariam na missão e estes seis
seriam escolhidos no último momento. Sobre a missão, a única coisa que todos sabiam é que ela
envolvia um longo tempo de solidão em uma nave de exploração do espaço profundo, dotada de
tecnologia altamente secreta, que seria divulgada a eles nos próximos dias.
A organização teve o cuidado de evitar que os 30 cientistas se encontrassem antes da reunião que
ocorreria em instantes. Cada um chegou ao local do encontro por meios diferentes, sendo que o
último trecho foi feito em transporte do governo, onde um agente entregou uma lâmina de texto
criptografado que foi aberta com a autenticação biométrica simultânea, tanto do agente, como do
cientista. O texto continha, além dos nomes dos selecionados, breves instruções de alojamento,
restrições de contato com o mundo externo e a ordem explícita de que, mesmo na eventualidade de
contato com outros cientistas, toda a conversa antes da primeira apresentação estava
terminantemente proibida. Reuben entendia, ao menos em parte, a preocupação com tal silêncio.
Não foram poucas as vezes em que o governo havia aberto informações à população, prometendo
soluções para a esterilidade da Terra que acabaram por tornar-se ineficazes, despertando críticas
tanto da comunidade científica como da própria população. A recente seleção e sorteio de pessoas
para a colonização em larga escala de Vênus foi um destes casos.
Pontualmente às nove horas, as luzes do auditório se apagaram e uma voz anunciou: "Senhoras e
senhores, Doutor Kazinski". O entusiasmo encheu a sala e os cientistas não contiveram uma salva
de palmas. A falta de novas publicações de Kazinski, assim como seu desaparecimento dos meios
de comunicação, fez muitos acreditarem que ele já havia morrido. Alheio à manifestação da platéia,
o velho cientista começou a falar:
"Senhores, cabe a vocês a preservação da espécie humana. Cada um que está aqui deve ser capaz de
dar sua vida, como a conhece, ao bem maior, à continuidade de nossa raça. Todos vocês foram
rigorosamente selecionados para chegarem a este ponto e este processo de seleção ainda não
acabou. Caso um de vocês não esteja disposto a contribuir com sua própria vida neste projeto, pode
retirar-se deste auditório agora, pois não poderá ouvir o que eu tenho a dizer a seguir".
Os olhos estavam fixos em Kazinski, hipnotizados por seu poder. Ninguém saiu.
"Pois bem, sua permanência nesta sala é a representação formal de sua aceitação na continuidade
deste projeto. Na saída deste auditório vocês receberão lâminas de textos e serão encaminhados a
seus aposentos. Cada um terá o direito de contatar quem quer que seja, explicando que este poderá
ser o último contato em um longo período de tempo. Vocês estão também livres para conversarem
entre si, especularem o que quiserem, mas voltando a este auditório amanhã, neste mesmo horário,
devem estar cientes que não poderão mais desistir. A única coisa que posso lhes dizer neste
momento é a repetição do que já falei: disto que faremos depende o futuro da raça humana, vocês
têm que estar dispostos a perder a vida por isto e podem não ver outras pessoas por muitos meses,
ou anos, até o término desta missão."
As luzes do auditório acenderam-se. Os cientistas foram conduzidos a seus aposentos, onde
estabeleceram contato com o mundo exterior revelando o pouco que lhes foi permitido e a seguir
reuniram-se para um jantar. Kazinski ou outro representante do governo, qualquer pessoa a quem
pudessem perguntar mais alguma coisa, não se fizeram presentes. Reuben não pensava em desistir.
Sua mente de pesquisador estava alimentada pela curiosidade. A vida parecia um preço baixo a
pagar, seja qual fosse seu destino. Ele imaginou, corretamente, que todos estavam com o mesmo
tipo de pensamento.
No dia seguinte, a rotina repetiu-se. Todos foram ao auditório. Kazinski não precisava mais de
apresentações e, precisamente às nove horas, começou a falar:
"Durante centenas de anos evoluímos computadores com inteligência artificial que buscavam imitar
os processos do cérebro humano. Mas, assim como no passado ficamos anos e anos presos à
arquitetura de von Neumann, a inteligência artificial ficou relegada a pequenos, ainda que
significativos, avanços da arquitetura Subsumption. Eu resolvi fazer ao contrário. Por que não usar
o próprio cérebro humano como um centro de processamento, adequando a entrada de dados e
programas e removendo dele tudo o que pudesse atrapalhar em uma missão ao espaço profundo
como a que estaremos envolvidos? Nestes últimos anos retiramos muitos cérebros de clones não
despertados e fizemos muitas experiências..."
A partir deste momento, enquanto Kazinski falava, uma série de imagens tridimensionais era
apresentada, mostrando a evolução de suas experiências.
"... a questão é que, como podem ver, estas experiências não puderam ir adiante até que
conseguíssemos usar cérebros com maturidade suficiente. Cérebros que tivessem passado por
processos formais de aprendizagem e maturado com o pensamento científico e com a interação com
o mundo. Há cinco anos, dez colegas seus, outros cientistas brilhantes, cederam seus cérebros para a
continuidade de nossas pesquisas..."
As imagens mostravam dez cientistas, alguns deles conhecidos pela platéia, com seus cérebros
passando por cirurgias.
"... com eles, conseguimos aprimorar nossa técnica até podermos construir, com segurança,
computadores realmente 'bio-neurais'. Um deles é este com os quais vocês estão falando agora!"
Neste momento, todos viram que o Kazinski que apresentava era um holograma e, em seu lugar,
apareceu uma espécie de aquário com um cérebro visível dentro dele, conectado ao sistema de som
do auditório.
"Para esta missão, precisaremos de dezoito cientistas que contribuam com seus cérebros para a
montagem dos computadores que serão o centro nervoso e inteligente das naves e de mais doze que
serão treinados para 'pilotarem' a missão. Vocês saberão de mais detalhes agora. Ainda aceitamos
desistências, mas a penalidade para o vazamento de qualquer informação que adquiriram aqui será
extremamente severa. Quem quiser desistir, deve fazê-lo imediatamente. Os que quiserem ser
voluntários para a cessão de seus cérebros, para que se tornem computadores bio-neurais como eu
me tornei, por favor, apresentem-se."
Reuben foi o primeiro a candidatar seu cérebro. Oito cientistas desistiram, dentre eles Iran.

Ficção Científica? #6
Data de Publicação: 09 de Fevereiro de 2009
Reuben despertou em um estado de consciência completamente desconhecido. Imediatamente tinha
na memória todos os artigos científicos que havia escrito e começava a detectar em alguns deles
alguns erros conceituais profundos e em outros possibilidades, antes impensadas, de avanços.
Ouviu, sem exatamente ouvir, uma risada. Era como se uma consciência, ao melhor estilo do grilo
falante da história de Pinóquio, houvesse invadido seu cérebro.
"Perdão por divertir-me com isto, Reuben! É que esta é a reação normal entre cientistas do seu
nível. Uma vez expandido seu nível de consciência e memória, a primeira coisa que vocês fazem é
remoer seus próprios trabalhos e o de outros cientistas, querendo consertá-los ou aprimorá-los.
Infelizmente, não temos tempo para tratar disto agora, ainda que seja extremamente importante esta
crítica a conceitos anteriormente desenvolvidos..."
"Dr. Kazinski?"
"A essência dele, sim. Seu cérebro já conta com uma interface para comunicar-se, inicialmente,
comigo. Com o passar dos dias, com seu treinamento, ela será habilitada para a comunicação com
os demais colegas. Eu já falo com todos eles e posso adiantar-lhe que temos um grupo bastante
interessante aqui."
"Todos os dezoito?"
"O procedimento de expansão cerebral é bastante invasivo, sempre temos algumas baixas, por isso
deixamos muito claros os riscos. Vocês estão em 17. É uma belíssima taxa de sucesso. Doze de
vocês embarcarão com os pilotos, que já estão sendo treinados."

-oOo-
"Você estava certo, Freitas, Kazinski continua vivo, se é que se pode definir o estado em que está
como vida.", disse Iran.
Já restava muito pouco tempo a Freitas, consumido pela velhice e suas conseqüências, por mais que
a vida lhe fosse prolongada.
"Então já sabemos do resto da história. Ele levará a cabo suas experiências com computadores
bioneurais. Eles não devem perder tempo e, neste exato momento, já devem estar invadindo o
cérebro daqueles idiotas, garantindo que eles ainda acabarão gostando do que está acontecendo, até
que gostar ou não gostar de algo deixe de fazer diferença."
"Eu confesso que senti-me tentado a continuar na sala. Toda a forma como as coisas foram
colocadas, nossa responsabilidade pela continuidade da raça humana, a possibilidade de participar
de algo tão novo..."
"Eu sei. Por isso você deve voltar agora. Outros dos cientistas que desistiram certamente voltarão
também. Eles não podem se dar ao luxo de perder boas mentes e, com o processo iniciado e seu
histórico pessoal, a chance de você ser escolhido como piloto é muito grande. Nós vamos precisar
de alguém de nossa total confiança para que possamos acompanhar esta loucura e impedir que este
monstro escravize a tudo e todos."
"Mas quem garante que eu não possa, mesmo à minha revelia, ser modificado, ou mesmo
convencido a ficar do lado deles? Você sabe que eu tenho uma grande admiração por Kazinski e
que ele, até agora, não errou..."
"Basta!" - disse Freitas em meio a um acesso de tosse - "Eu sei que você não sucumbirá a esta
maldição. Mais do que isto, sei que você nos alimentará com informações valiosas que serão bem
utilizadas no momento certo."
Iran sabia o quanto devia a Freitas e não iria desapontá-lo. Beijou a fronte do velho mestre e
estabeleceu contato com a equipe do projeto de Kazinski.

-oOo-
O capitão abriu a comunicação com a nave para que todos pudessem ouvir a resolução do cluster.
"Nave, estamos todos aqui!", disse ele.
"Pois bem, é sabido de todos que nossa missão é a preservação da raça humana, mesmo em face de
sacrifícios pessoais, como lhes foi ensinado por nós e por seus antecessores."
"Sim, nave", responderam todos em uníssono, com exceção do cientista, que entendia tudo mas não
conhecia tal ritual.
"Os dados transmitidos por G'reog nos revelaram coisas fascinantes que vamos compartilhar com
vocês agora. Os insetos que vocês encontram no planeta são de origem terráquea. Pudemos observar
nos pacotes originais que fragmentos de seus DNAs estavam misturados às sementes. Em alguns
casos, pudemos encontrar sequências que, propriamente combinadas, possuem o código genético
completo necessário à recriação dos mesmos. Não há dados suficientes, porém, para entendermos
como eles vieram a ganhar vida neste planeta. Algumas sementes provêm de frutos que foram
engolidos por pássaros e depois liberadas em suas fezes em eras remotas. Há porções genéticas
tanto dos frutos, o que explica algumas das variedades no planeta que, supostamente, não estavam
junto aos pacotes originais de sementes, como dos pássaros que os engoliram, ainda que não
tenhamos detectado sinais de vida mais complexos que os das plantas e insetos, com exceção, claro,
deste cientista que encontra-se entre vocês. Nossos registros mostram que seu nome é Iran e que ele
foi parte do primeiro esforço de estabelecimento de novos celeiros alimentares que seriam a base
das novas colônias humanas. Este planeta, ao que tudo indica, foi o único desta primeira fase que
trouxe algum resultado, mas como houve a grande perda de dados relativa a estas missões, esta
informação pode não estar totalmente correta."
Iran ouvia tudo como se uma memória muito distante fosse evocada, mas preferia manter-se, por
enquanto, calado. Tudo o que acontecia era muito novo e a última coisa que ele queria é que o
associassem com a tal grande perda de dados. Mas ele já adivinhava o que a nave falaria a seguir.
"Nossos sensores não parecem ser suficientes para explorar a completa natureza de Iran, mas nossos
cálculos indicam que ele tem cerca de 600 anos, levando em conta o que nos resta de registros de
sua missão e dos dados de posicionamento de seus sensores locais que nos foram transmitidos. A
nave que o trouxe até aqui não se encontra mais em órbita. Ela pode ter escapado da gravidade do
planeta e estar em qualquer lugar, o que é mais provável, pois não detectamos sua presença na
superfície. De qualquer forma, a natureza deste planeta pode estar impedindo o bom funcionamento
de nossos sensores. Precisamos que vocês busquem por essa nave e tentem colocá-la em
funcionamento. Enquanto isto, seguimos tentando uma forma de trazer ao menos um de vocês à
bordo, com segurança, para iniciar o processo de descontaminação."
Nadja sentiu o desconforto de Iran quando sua própria nave foi mencionada mas, como ele,
manteve-se calada. A nave também havia detectado que Nadja havia sido fecundada, mas mais uma
vez preferiu não compartilhar toda a informação que tinha.

Ficção Científica? # 7
Data de Publicação: 26 de Agosto de 2009
Iran ainda não tinha a mesma certeza absoluta de Freitas quanto ao sucesso de sua sabotagem.
Questionou várias vezes, em algumas abertamente a Freitas, se ele não era um mero peão em um
jogo de vaidade científica. Mas devia muito ao velho para sequer pensar em decepcioná-lo. Freitas
tomou Iran como protegido desde muito cedo em seus estudos. Alimentou sua curiosidade com
dados sobre o passado da Terra, fazendo com que se apaixonasse por um planeta que há muito não
existia. Quando Freitas rompeu com Kazinski, ainda no "incidente das sementes", Iran mal
começava a destacar-se como um brilhante cientista de aviônica multidimensional. Ele sabia que
Vênus seria apenas o primeiro celeiro extraterrestre de Kazinski e seu conhecimento certamente
seria de grande valia caso optasse por abandonar seu protetor. A fidelidade a Freitas, porém,
rendeu-lhe outros frutos, ainda que só o futuro pudesse permitir-lhe o pleno reconhecimento do
valor dos mesmos.

-oOo-
"Quero que leia estes relatos, são do século 21 e 22"
Iran lia os textos médicos que narravam recuperações fantásticas de pessoas que sofriam acidentes
que faziam com que perdessem boa parte de seu cérebro e, mesmo assim, tinham recuperação
completa. Em outros relatos, a recuperação da habilidade motora ficava comprometida, mas as
faculdades de pensamento eram preservadas e, em alguns casos, até aprimoradas.
"Veja este aqui... Note que, ao não ter mais que cuidar de boa parte do corpo, o cérebro pôde dar-se
ao luxo de vôos intelectuais e artísticos impressionantes"
Freitas falava de Itzlav Zienbinski, um humilde artesão de origem polonesa que, ao sofrer um
acidente bobo com uma de suas ferramentas diárias de trabalho, uma simples serra elétrica, teve
mais de um terço de seu cérebro completamente destruído. Itzlav ficou em coma por vários meses.
Quando voltou do coma, estava sem fala e sem os movimentos das pernas e de um de seus braços.
Mais alguns meses passaram-se e Itzlav começou a escrever o relato completo do que imaginava
estar acontecendo dentro de sua cabeça, assombrando renomados neurocirurgiões que
acompanhavam a veracidade do que o paciente escrevia através de tomografias perfeitamente
direcionadas por ele mesmo. Itzlav, comunicando-se inicialmente pela escrita pura e, em seguida,
com o auxílio de um computador, interagia com os médicos, pedindo-lhes explicações sobre a cura
que relatava. Com isto, acompanhando as imagens de seu cérebro, as informações dos médicos e
suas próprias sensações do que se passava com seu corpo, Itzlav foi desenvolvendo uma série de
neuroexercícios, documentando todos eles.
Os ensinamentos de Itzlav não eram surpresa para Iran, que já havia lido sobre o assunto. A ficha
médica e os relatos originais do mesmo, estes sim eram novidade. De garranchos pouco legíveis à
evolução para uma escrita clara e depois um texto fluido, quase didático, era impressionante. Um
pouco antes do dia de Natal de 2112, Itzlav pediu aos médicos que aplicassem uma corrente elétrica
estimulando uma conexão bastante específica na área de Broca, no lobo frontal de seu cérebro. As
imagens permitiam a Itzlav mostrar, com precisão micrométrica, os dois pontos que deveriam ser
estimulados, mesmo que não houvesse ali nenhuma lesão aparente. O pedido de Itzlav ainda passou
por um conselho de ética, mas especialmente em função de tudo o que já se havia aprendido com a
sua espantosa recuperação, ele foi atendido. Mal foi aplicada a corrente no local exato recomendado
por Izlav, ele falou: "Muito obrigado! De agora em diante, tudo ficará mais fácil..."
De fato, foi assim. Entre seus neroexercícios e a aplicação de estímulos em seu cérebro, Itzlav foi
recuperando completamente sua habilidade motora e mesmo aprimorando-a. Tornou-se um fã da
música de Paganini e um exímio violinista. Sempre com seu cérebro monitorado através dos mais
modernos sistemas de imagens descreveu, junto com neurocirurgiões renomados, todas as formas
de interfaces invasivas e não invasivas que passaram a ser aplicadas em muitos cérebros daí em
diante. O limite entre a ética e a ciência, mais uma vez, foi abalado. Deixaram de existir crianças
com dificuldades de aprendizagem ao mesmo tempo em que pais, com as devidas posses ou
influência, tornavam seus filhos, de uma hora para a outra, um virtuoso da flauta, do violino ou do
piano. Itzlav passou a escrever artigos sobre os perigos das escolhas forçadas para outros,
especialmente para os mais jovens, sobre como a mente molda-se fácil, mas também tem a
capacidade de retornar a seu estado natural sem os exercícios apropriados. Porém, era muito
tentador, e servia a muitos interesses, "habilitar" determinados talentos naqueles que gostariam de
ser artistas, bons políticos, os que queriam ter o controle refinado das habilidades manuais e mesmo
os que queriam ter o prazer e a felicidade eterna em sua vida. Nunca deixaram de existir meios,
legais ou não, para que todos tivessem aquilo pelo qual estavam dispostos a pagar. Intervenções
cerebrais passaram a ser controladas pelos governos, mas não havia nada que uma viagem a um país
um pouco mais permissivo não resolvesse. Isto foi antes da unificação do governo na Terra.
Em uma derradeira experiência, Itzlav pediu que acionassem uma conexão entre os dois hemisférios
de seu cérebro, mais uma vez em uma região absolutamente específica do corpo caloso. Aplicada a
corrente, o cérebro de Itzlav reduziu-se a um emaranhado se sinais elétricos sem sentido algum. Seu
rosto ficou sem expressão alguma e assim permaneceu até a sua morte física, com seu corpo sendo
preservado ao máximo até que os médicos tentassem entender o que havia acontecido, sem sucesso
algum. Até hoje não se sabe se Itzlav teve morte cerebral, se continuou a "viver" dentro de seu
próprio cérebro em uma vida alternativa que havia criado ou se simplesmente pregou uma peça em
todos. A "experiência Zienbinski", porém, foi a que deu origem a muitas das ideias que permitiram
uma série de interfaces diretas com o cérebro, desde as complexas, que permitem o manuseio
extremamente rápido de máquinas e computadores sem a necessidade de intervenção física, até
mais simples, como novos meios de comunicação em distâncias muito longas.
Um grupo de puristas fez a redução dos ensinamentos de Itzlav aos neuroexercícios, acreditando
que o aprimoramento do cérebro, a vivência de sensações, a telepatia, deveriam ser obtidas
unicamente com a prática. Outros imaginavam a conexão direta entre as mentes para a construção
de computadores bioneurais até então impossíveis.

-oOo-
"É o momento, meu rapaz! Está pronto?"
"Sim!", disse Iran ao médico que conectaria seu cérebro à nave para o treinamento final antes da
viagem. A última coisa que ainda conseguiu pensar é se todo o seu treinamento permitiria que seu
cérebro retornasse à forma anterior e em quanto tempo isto aconteceria. Tudo o que queria era
poder honrar seu mestre e protetor, Freitas.

Ficção Científica? #8
Data de Publicação: 02 de Setembro de 2009
Atingir o estado multiconsciente descrito por Ziembinski era, em tese, algo perfeitamente possível.
Já é sabido que usamos, quando muito, 15% de nossa capacidade cerebral. A experiência já
mostrava que, com o devido treino e o acompanhamento apropriado do comportamento através de
imagens, é possível exercitar e aprimorar áreas específicas do cérebro. Da mesma forma que um
halterofilista observa seus bíceps e tríceps enrijecerem com o levantamento de pesos, é possível,
agora, ver quais áreas do cérebro devem ser exercitadas para a melhoria do raciocínio abstrato ou
para adquirir maior sensibilidade artística. Ziembinski preconizava que qualquer pensamento,
memória ou sensação não estariam presos a áreas específicas do cérebro, podendo ser movidos, com
o devido treino, a outras áreas. Uma primeira prova desta possibilidade foi dada pelo próprio
Ziembinski, na experiência conhecida como "a prova Paganini". Ziembinski propôs que fizessem
imagens de seu cérebro enquanto ouvia o Capricho n.o 24 de Paganini. Ele narrava: "Agora vou
ouvir com meu córtex direito, agora com o lobo parietal..." As imagens comprovavam o que
Ziembinski narrava. Por muitos, as experiências de Ziembinski eram consideradas uma fraude.
Estes acreditavam apenas que o treino cerebral de Ziembinski era tal que, de fato, o que acontecia é
que ele tinha um controle "pirotécnico" das áreas de seu cérebro que os monitores mostravam
iluminadas. Tais críticas nunca abalaram Ziembinski, que seguia exercitando e teorizando sobre
novas possibilidades. Em um de seus últimos escritos antes de "desligar-se", dizia:
"É possível, com exercícios apropriados, criar um espelho da mente. Não é necessário esperar um
acidente para que passemos a usar espaço antes subaproveitado de nosso cérebro para recuperar
funções intelectuais ou motoras. Minha recuperação provou a capacidade de recuperação do cérebro
ativando certas áreas para executarem funções que estavam sob responsabilidade daquela parte de
meu cérebro que acidentalmente decepei. A experiência Paganini mostrou que posso deleitar-me
com uma música usando uma ou outra parte de meu cérebro. Eu poderia provar, com a mesma
facilidade, que toco meu violino usando o lado esquerdo ou direito do meu cérebro para controlar
minhas mãos. O que quero provar agora é que posso criar uma mente paralela em meu cérebro,
capaz de executar todas as funções de minha mente original, e que posso usar uma ou outra a meu
bel-prazer, ainda sobrando-me 70% do meu cérebro a ocupar. Posso criar uma terceira, ou mesmo
uma quarta mente neste espaço restante. Poderia utilizá-las alternada ou simultaneamente,
compartilhando ou não memórias entre elas. Poderei ter uma mente lendo um livro, acumulando
memórias, enquanto com outro delicio-me com Paganini e com a terceira, simultaneamente, faço o
processo mecânico de construir um móvel, sem a necessidade de acumular memórias de processos
manuais que já domino."
Muitos acreditam que o "apagamento" de Ziembinski foi fruto de uma tentativa frustrada de ativar
uma segunda mente paralela. Uma determinada corrente religiosa defendia que a mente tinha seu
par em uma única alma e que, ao tentar criar uma nova mente, Ziembinski havia atentado contra sua
própria alma imortal. Iran tinha muita desconfiança e mesmo medo dos exercícios aos quais se
submetia, mas Freitas o incentivava a continuar. "É por um bem maior."
A sensação que tinha era a de um sono consciente no qual ele espectador via exatamente tudo o que
fazia sem poder interferir. Sabia que sua nova mente, recém finalizada, exercia o controle e as ações
exatas que a mente original faria, alimentando devidamente sua memória. Era como se, nesse
sonho, pudesse ler todos os pensamentos de um outro "eu" exterior. Mas não era sonho e Iran sabia
disso. A sensação seguia a mesma quando colocava a mente original no controle e então era a nova
mente que tinha a sensação de sonho. Em todos os sentidos, as duas mentes ocupando seu cérebro
eram indistinguíveis. Bastava agora conseguir colocar uma das mentes em um estado dormente,
estacionário, mas capaz, ainda assim, de acessar novas memórias criadas pela mente ativa no
momento em que a alternativa novamente despertasse. Não tardou para que Iran atingisse a
disciplina necessária para isto. Restava saber se a mente latente poderia retomar o controle depois
de anos adormecida em uma missão interplanetária, mas apenas a prática diria isso pois não havia
mais tempo para testes.
"Boa noite, velha amiga", pensou silenciosamente Iran momentos antes de ter seu cérebro acoplado
ao da nave.

Ficção Científica? #9
Data de Publicação: 15 de Setembro de 2009
O planeta que lhe fora designado estava a uma distância de 12 anos da Terra. A maior parte deste
tempo Iran passou em estase, acordando a cada dois meses para uma rotina de exercícios físicos que
garantiam a saúde de seu corpo. Não havia uma ordem explícita para que os cientistas retornassem
imediatamente à estase após esta rotina, mas uma forte recomendação para que isto fosse feito a fim
de evitar a solidão. A nave estava instruída a despertar seu cientista na eventualidade de algum
problema ou na passagem por algum fenômeno interessante. A primeira vez que a nave despertou
Iran foi ainda no sistema solar, em uma manobra na órbita de saturno para que a nave tomasse o
impulso para o salto para o hiperespaço, usando a atração gravitacional do planeta. A conexão
direta do cérebro de Iran à nave fazia com que as câmeras externas alimentassem diretamente seu
nervo ótico, de forma que a sensação era a de que, ele mesmo, sem nave alguma, voava livremente
em torno do planeta.
Chegava a sentir pena da nave, composta de dois cérebros doados por cientistas brilhantes agora
desprovidos de qualquer sentimento, capaz de proporcionar-lhe tal espetáculo. Sentiu a nave
acelerar além da catapulta gravitacional quando os motores iônicos entraram em potência máxima.
As estrelas inicialmente pareciam tornar-se, todas, milhares de riscos no espaço. Era como se,
observando uma noite sem nuvens, todas as estrelas se tornassem cadentes. Em poucos minutos,
porém, o espetáculo de luzes deu espaço ao completo vazio do hiperespaço. "Iran, deseja alguma
distração? Quer voltar à estase?" Mesmo sabendo que inúmeras distrações holográficas estavam
disponíveis, Iran apenas curtiu as trevas e seu silêncio por mais alguns minutos e, em seguida,
voltou à estase.
-oOo-
A cada vez que acordava da estase, Iran tinha apenas a sensação de uma noite bem dormida, mas
sem sonhos. Seu espaço na nave não chegava a ser grande, mas além de confortável, uma sensação
de amplitude maior era proporcionada pelas projeções holográficas. Iran dissera à nave que não
narrasse sua sequência de exercícios, mas que apenas o alertasse quando esquecesse algo, o que
raramente acontecia. O fato é que não gostava de ficar ouvindo uma voz sem um corpo, mas
também havia negado a sugestão da nave de se comunicar através de um avatar holográfico.
Após a primeira sequência de alongamentos servia-se de sua ração, sempre imaginando que, em
mais alguns anos, poderia comer de sua própria colheita em um planeta fértil como um dia foi a
Terra. Ao fazer sua corrida, pedia à nave que simulasse um campo com plantações de trigo, milho,
cevada ao seu redor. Sempre ultrapassava o tempo e o esforço de seus exercícios, mas nunca
chegando ao limite em que a nave poderia colocá-lo, forçosamente, em estase.

-oOo-
Outra rotina à qual Iran era submetido, com menos frequência que a de exercícios físicos, era a de
simulação dos procedimentos que executaria em seu planeta de destino. O planeta pertencia a um
sistema estelar que era afetado pela gravidade do buraco negro que localizava-se no centro de sua
galáxia. Ainda que o arranjo de forças fosse estável, a rotação e translação do planeta eram bastante
irregulares quando comparadas à da Terra. Além disto, como tratava-se de uma região inexplorada,
um conjunto de sensores apontados para um mínimo de dezessete estrelas e outros que mediam a
evolução das marés em leitos de água subterrâneos (que acreditava-se existir no planeta) deveriam
ser constantemente verificados e, quando necessário, ajustados. O resultado das medidas dos
sensores permitiriam a Iran estabelecer uma constante relação entre os "dias" de seu planeta e os da
Terra, permitindo uma avaliação mais precisa das forças que comandavam o movimento do planeta.
O computador da nave seria responsável por deduzir a fórmula de forças, a relação com o tempo
terrestre e tudo o mais, mas Iran deveria também decorar a fórmula deduzida para o caso de alguma
eventualidade. Iran nunca foi capaz de fazê-lo.

Ficção Científica? #10


Data de Publicação: 02 de Fevereiro de 2010
Talvez pela intensidade de tudo o que acontecera em poucos dias, talvez pelo próprio fato de todos
terem sido muito bem preparados para lidar com circunstâncias inesperadas, todos sentiam-se
estranhamente confortáveis no planeta. Nadja, que inicialmente havia se repugnado com a ideia de
ter seu corpo habitado por qualquer DNA alheio agora carregava em si um novo ser. De alguma
forma, Nadja sabia dessa informação que as naves optaram por esconder e segurava firme o braço
de Iran. Era bom saber o nome dele e uma verdadeira surpresa saber que este homem era mais de
cinco séculos mais velho que ela. A surpresa, porém, não a incomodava. Ao contrário. Percebendo
o desconforto de Iran, quando as naves mencionaram a nave na qual seu amante havia chegado ao
planeta, sentiu, de imediato, uma vontade de ajudá-lo.
O capitão aproximou-se dos dois e dirigiu-se a Iran, estendendo-lhe a mão.
"Pois então você é um dos nossos. Espero que entenda que, independente de qualquer coisa, sou o
capitão desta equipe e estamos neste planeta em uma missão. Aliás, você parece ter sido o único
capaz de levar adiante aquilo que foi planejado para as oito missões iniciais de semeadura. Você
entende o que eu digo?"
A voz de Iran saiu gutural, com dificuldade. Quando iniciara suas atividades no planeta ainda
passara alguns anos falando consigo mesmo, em voz alta, numa tentativa de manter sua sanidade.
Depois a conversa passou apenas para os pensamentos. Chegara a criar personagens distintos que
ele mesmo representava no teatro de sua mente. Seus personagens conversavam entre si e também
com ele. Mais adiante descobriria que esta era uma forma pela qual partes devidamente
compartilhadas de seu cérebro mandavam mensagens para ele.
"En... ten... do. Per... dão. Não uso minha voz há muitos anos..."
"Eu posso imaginar. Vamos dar tempo ao tempo para que nossa comunicação melhore. Como você
imagina e como as naves disseram, há lacunas a serem preenchidas. No momento, porém,
precisamos encontrar a nave na qual você chegou. Onde ela está?
"Não há nave mais."
"Como assim? Houve um acidente? Indique-nos onde a nave pousou."
"Não há nave mais."
"Pois bem então, teremos tempo para falar sobre isto depois. G'reog, Anna!"
"Capitão!"
"Peçam que a nave envie três flutuadores ao planeta, vamos dar início à busca imediatamente."
Anna já estava fazendo algumas análises de probabilidade de localização.
"Capitão, a julgar pela área e padrão do plantio, levando em consideração que foi feito por apenas
um homem, a triangulação da área de possibilidades onde podemos encontrar a nave é bastante
simples. Já tracei algumas rotas de busca e um simples sensor de varredura subterrânea deve
permitir que localizemos a nave em, no máximo, cinco dias da Terra."
"Iniciemos imediatamente. Anna, distribua as rotas para mim, você e G'reog. Nadja, cuide de Iran,
já que já está fazendo isso mesmo. Tente buscar mais informações dele e lembre-se muito bem de
seu posto e a quem você deve obediência. Quanto a você, meu amigo, espero que realmente esteja
colaborando conosco. Por enquanto você tem o benefício de minha dúvida e minha simpatia pelo
que foi capaz de fazer aqui."
Em minutos os três flutuadores chegaram à superfície e as buscas começaram. Nadja e Iran já se
comunicavam, mesmo sem pronunciar uma palavra um ao outro.

-oOo-
Nadja estava dentro da mente de Iran. Sua sensação era a de estar em uma mansão, apenas com
algumas poucas portas abertas. Iran a fazia sentir que as informações e pensamentos aos quais ela
não tinha acesso eram para sua proteção. Nem mesmo ele tinha acesso a todas as portas, mas
percebia que, a partir de agora, encontraria mais chaves e uma maior compreensão daquilo que
desvelava-se como a sua verdadeira missão desde que começara sua história no planeta. Por vários
momentos conversava, em sua mente, com Freitas. Lembrava-se do compartimento de sua mente
onde guardava um segredo e sabia que, em um momento oportuno, ele viria a tona. Ele precisava de
Nadja e precisava confiar nela. A melhor forma que encontrou para isto foi permitir a Nadja saber
dele o máximo que podia revelar, ganhando sua cumplicidade e preservando-a dos perigos. Os
sensores das naves em órbita eram onipresentes e ambos já imaginavam que a fecundação de Nadja
não era segredo para elas. O capitão e os demais também deviam ser tratados com cuidado. A
própria situação em que se encontravam já era um campo fértil para desconfianças. Tais
desconfianças deveriam ser guiadas para um lugar muito distante, ainda por um bom tempo, de
onde as verdades encontravam-se.
Assim que não podia mais ser ouvido o zunido dos flutuadores, Iran tomou Nadja pela mão e guiou-
a vegetação adentro. Após pouco mais de uma hora de rápida caminhada, sob a sombra de uma
imensa árvore, Iran afastou uma raiz que dava passagem para uma estreita entrada subterrânea.
Desceram alguns poucos metros até entrarem em uma câmara que Nadja logo reconheceu como a
nave que havia trazido Iran ao planeta. Em seu pensamento ouviu Iran dizer a sua nave: "Reuben,
estamos aqui!"

Ficção Científica? #11


Data de Publicação: 09 de Fevereiro de 2010
As naves projetadas por Kazinski e sua equipe partiam do simples conceito "cebola". Cada camada
protegia aquela que envolvia e era protegida pela que a envolvia. Os esforços e recursos gastos na
construção de cada uma das naves eram irrelevantes face à missão de preservar a humanidade. As
quatro camadas externas eram rigorosamente idênticas, extremamente resistentes e com sensores
quadruplicados em cada uma delas. As conexões de cada sensor ao núcleo central de
processamento, composto pelos cérebros modificados de dois cientistas voluntários, eram
espelhadas. Além disto, cada sensor possuía, embutido, um processador convencional e uma
unidade de comunicação. A ideia era que, mesmo que um grupo de sensores fossem arrancados, por
algum acidente, eles fossem capazes de, enquanto ativos, enviar à nave dados relevantes sobre o que
aconteceu.
Bem no centro da cebola estava a câmara de estase do piloto. Ao redor dela, sua área de vivência e
exercícios. Na camada imediatamente superior, os dois cérebros que constituíam o núcleo central de
processamento, devidamente conectados e também isolados. Na eventualidade da perda de um, o
outro continuaria funcionando independentemente. No caso da perda dos dois, o piloto ainda estaria
protegido por todo um arcabouço de inteligência artificial convencional.
Enquanto estivesse na câmara de estase, o piloto estava protegido pela mais avançada unidade de
tratamento intensivo. Desde servo-mecanismos para massagens relaxantes, estimulantes e mesmo
eróticas estavam disponíveis até os mais sofisticados nano-robôs para as cirurgias mais complexas
já devidamente padronizadas. Todas estas coisas eram controladas de acordo com os sensores de
saúde do piloto e o conhecimento da nave. Ainda que, desde o início do treinamento, houvesse a
insistência de que a "nave" só seria chamada assim se um piloto estivesse nela, os próprios pilotos
(centro da cebola) faziam a distinção entre eles mesmos e a "nave". Kazinski quis forçar este elo no
momento da conexão do cérebro do piloto à nave mas, surpreendentemente neste caso, foi voto
vencido. Até hoje dizem que foi uma questão política, que Kazinski não poderia ganhar todas. Até
hoje há quem diga que Kazinski estava, mais uma vez, certo.

-oOo-
Iran era um menino e Freitas o empurrava em um balanço na cidade nova.
"Tudo a seu tempo, Iran! Tudo a seu tempo!"
"Como assim, nave?"
"Tudo a seu tempo..."
As cordas do balanço cortavam os anéis de Saturno, uma proximidade assustadora da Terra. Iran
espalhava a poeira dos anéis, pegava pequenos satélites pedregosos com as mãos e atirava em
Freitas, que divertia-se.

-oOo-
Iran havia sofrido um acidente de avião na segunda guerra mundial, na Terra. Estava debaixo de
uma árvore. Havia perdido massa cerebral. No que restava da cabine do bombardeiro, Iran
masturbava-se. Alguém perguntou seu nome e ele respondeu, com os olhos perdidos em um
horizonte que desmanchava-se e reconstruía-se: G...arp!

-oOo-
Iran caminhava pelas ruas da cidade nova, mas elas estavam cheias de poeira, pedras e bolinhas de
gude. Algo o compelia a atirar as bolinhas de gude na face de Hitler, mas Hitler era Kazinski. Uma
raposa vermelha insistia em enrodilhar-se em seus pés e dizer que ele a havia cativado e que agora
era responsável por ela...

-oOo-
Iran subia a escada de uma adolescência distante. À frente dele a guria que ele achava que era,
garantidamente, sua namorada. A bunda da menina, iluminada pela lua, era o que ele mais
desejava...

-oOo-
"Nave?"
"SSiimm, Iramnmn!"
"Eu sonhei!"
"Estam os c om p e quen os p rrr obleeee mas."
"Estou ainda em estase?"
"At é an t es d e c-o-m-e- çcçar os so so so nhos, estavas!"
"O que aconteceu?"
Uma série de sons incompreensíveis e em alto volume teriam feito com que Iran tivesse tapado seus
ouvidos, se pudesse mexer suas mãos.
"Há mais elementos que influenciam na órbita deste planeta. Muita coisa que não foi detectada no
mapeamento feito da Terra. Sofremos uma forte influência eletromagnética. O dispositivo que
liberará as sementes está em ordem e funcional há 67 dias..."
"67 dias?"
"67 dias terrestres de acordo com meus cálculos, mas os sensores ainda necessitam ser instalados..."
"Pois abra esta minha câmara então e deixe que eu os instale!"
"Ainda não posso... Toda a ação gravitacional, a queda, você teve uma concussão no cérebro,
seguida de uma grave hemorragia. Os nano-robôs estão cuidando disso. Os sonhos foram um bom
sinal..."
"Nave, meus sonhos não tem relação nenhuma com nada do que eu tenha consciência! Eu tenho
uma missão e preciso cumpri-la! É só isso que sei!"
Pela primeira vez o cérebro de Reuben não tinha como discutir com seu par. Ainda tinha o controle
dos sedativos de estase e devolveu Iran de volta a seus sonhos. O cérebro de Reuben também não
tinha noção de que, há poucos anos, havia sido Reuben.

Ficção Científica? #12


Data de Publicação: 31 de Janeiro de 2011
Iran acordou de um sono recheado de sonhos fundidos em lembranças. Teve dificuldade, ao abrir os
olhos, em entender onde estava. Sentia muita fome e muita sede. Seu corpo e sua cabeça doíam
muito. Quando finalmente decidiu vencer a dor e mover-se, uma luz clara acendeu-se revelando o
interior silencioso da nave. Não havia mais comunicação direta alguma com ela. Serviu-se de uma
ração de alimento e água e notou as feridas nos seus braços e em suas têmporas, onde a nave tratava
de injetar sua alimentação e medicação intravenosa. Acessou a console apenas para ter a certeza
final de que a nave estava morta e agora, já instintivamente, iniciava os procedimentos de
emergência que era obrigado a saber de cor para uma situação assim.
Os registros não eram específicos quanto a sua localização e a instalação dos sensores que
funcionariam como referencial comparativo aos sistemas de contagem de tempo calibrados na Terra
não havia sido feita. Pela flacidez de sua pele, a dor em seu estômago e a sede que sentia Iran
calculou que havia ficado sem alimentação intravenosa por um mínimo de cinco dias. A última
entrada feita pela nave em seus registros fora feita há mais de um mês. Iran lembrou-se da última
vez que acordara. Naquela ocasião, estava há 67 dias no planeta. Ele não sobreviveria sem
alimentação intravenosa durante todo o tempo em que a nave deixou de fazer seus registros. De
alguma forma, ela perdera a capacidade de registrar os dados mas sua prioridade em mantê-lo vivo
mantivera-se. Até o último instante de sua consciência a nave tratou de alimentá-lo. Morrera há pelo
menos cinco dias. Iran achou estranho pensar na nave como um ser, uma pessoa. Mas, afinal, os
cérebros que compunham seu núcleo de inteligência eram humanos.
Iran buscou os antibióticos e analgésicos de que precisava e seguiu lendo os registros feitos pela
nave. No momento da queda a nave tivera várias de suas camadas externas danificadas. Um dos
cérebros não havia resistido ao impacto. O planeta onde estava atendia aos requisitos definidos pelo
projeto. Possuía uma atmosfera respirável, além de vegetação primitiva, água em abundância e um
ciclo de chuvas que propiciava a semeadura das sementes de Kazinski. O satélite orbital ainda as
devia estar lançando na superfície. Era mais do que hora de Iran dar início a seu trabalho, com ou
sem a ajuda da nave. Antes, porém, precisava ganhar força e saúde. Toda a sua área de vivência e
exercícios parecia estar intacta. Por mais que sua curiosidade de cientista o impelisse a abrir a nave
e a ver o planeta, ele sabia os riscos de expor seu corpo debilitado a algum agente patogênico ainda
desconhecido.
Nos dias que se seguiram Iran alimentou-se bem, leu minuciosamente todos os registros da nave,
especialmente aqueles que o auxiliariam a posicionar os sensores, apontando-os para as estrelas
referenciais. No quinto dia, sentindo que já estava bem melhor e com a ansiedade para sair da nave
tornando-se quase insuportável, Iran separou os sensores e retirou o traje de exploração de seu
compartimento. Seu coração disparou quando viu que ele já havia sido usado.

Ficção Científica? #13


Data de Publicação: 07 de Fevereiro de 2011
Reuben. Era esse seu nome. Ele não deveria saber disto. Não deveria ter memórias de quando havia
sido Reuben. Doara seu cérebro para um bem maior. Sua capacidade de raciocínio privilegiada e
todo o seu conhecimento deveriam servir à preservação da espécie humana. Ainda tinha a
consciência de seu desprendimento, de sua opção magnânima, mas sentia-se incompleto. Talvez a
falta de um desafio intelectual fizera sua mente cair novamente em necessidades básicas demais.
Talvez tenha sido a falta de crítica do outro cérebro, anteriormente conectado ao dele, agora morto.
Monitorava Iran, sua saúde. Mantivera-o em estase talvez por tempo demais. Questionava suas
ações. Invejava o fato de Iran ter um corpo, poder mover-se e explorar o planeta cuja visão os
sensores externos sequer proporcionavam agora. Quando decidira, finalmente, por acordá-lo, não
suportou por muito tempo suas perguntas e decidiu que ele deveria ficar mais tempo em estase.
Uma decisão egoísta. Não tinha como saber quanto tempo ainda duraria a conexão cerebral com
Iran e tinha que explorá-la. Não entendia exatamente como, mas o acidente, algo no planeta, alguma
coisa, permitia que visitasse o cérebro em estase de Iran como quem visita uma biblioteca. Explorou
suas memórias, sua inteligência, conheceu as técnicas de Ziembinski aprimoradas pelos exercícios
de Iran e Freitas e o compartimento fechado onde sabia que Iran protegia algo importante. Mas
haviam muitos compartimentos abertos. Reuben pôde colocar neles suas próprias lembranças de
livros que lera, coisas que vivera e pôde comprovar que Iran as interpretava como sonhos.
A velocidade da conexão entre o cérebro em estase de Iran e o cérebro em ebulição de Reuben era a
velocidade do pensamento. Tinha que ser rápido mesmo. Reuben sentia que teria pouco tempo e um
instinto primitivo exigia que se preservasse. Os componentes da unidade reserva para a montagem
do módulo planetário, seus coletores de energia e recicladores orgânicos teriam a única missão de
alimentar um cérebro por muitos anos. O que faria com todos estes anos ainda não sabia, mas tinha
que se preservar. Iran ficaria sem a unidade reserva, mas levaria anos até precisar dela, se
precisasse. Além disto, Reuben iria garantir que a memória que Iran tinha da unidade reserva
ficasse escondida, ao menos enquanto não necessitasse dela.
Reuben tinha que levar a experiência de Ziembinski além do limite de seu cérebro. Iria aproveitar a
conexão do cérebro com Iran para plantar nele sua própria consciência, ao menos pelo tempo
necessário para garantir sua preservação. Não podia dar-se ao luxo de falhar.
Entre o despertar de Iran, no 67.o dia a partir da queda no planeta, e o dia D, Reuben experimentou
com sonhos. Plantou em Iran vários sonhos onde ele sentia sensações de queda, onde brigava, onde
corria. Observou a reação de seu corpo aos sonhos e fez todos os ajustes de que precisava. No 100.o
dia uma consciência desenvolvida por Reuben tomou conta das ações de Iran que, meticulosamente,
explorou o planeta, encontrou um esconderijo em uma caverna onde montou o compartimento com
o cérebro de Reuben e seu suporte à vida, ajustou os coletores de energia em local discreto, do lado
de fora da caverna e retornou à sua câmara de estase. Reuben ainda garantiu que Iran estivesse
devidamente acomodado e, pela última vez, utilizou a conexão cerebral com Iran para plantar-lhe as
últimas informações que considerou relevante. A partir de agora teria apenas que, muito
pacientemente, esperar.

Ficção Científica? #14


Data de Publicação: 09 de Fevereiro de 2011
Iran ainda pensava na Terra. Não com saudade. O planeta era seu lar e já havia se conformado com
isso há muitos anos. O tempo não era mais um incômodo também. Cultivava o planeta e apreciava a
evolução de suas plantas. De tempos em tempos ainda fazia suas expedições de reconhecimento
passando muitos dias (não sabia quantos) andando sempre em uma direção aleatória. A cada uma
que escolhia encontrava novas surpresas. Não havia mais nenhum local deserto, a vegetação cobria
tudo o que alcançava em suas jornadas. Imaginava que todo o planeta estava assim. Por mais longa
que fosse a expedição, em certo momento sentia a necessidade de voltar à sua base inicial, onde
estavam os destroços da nave convertidos em uma habitação e onde os equipamentos já não mais
funcionavam. Usava as lentes de um binóculo analógico para fazer fogo e, na eventualidade de ter
que reacender um fogo à noite, o que era raro, ainda tinha quatro dos seis geradores de calor que
haviam na nave.
Insetos e novas espécies vegetais já não o surpreendiam, mas o encantavam com sua beleza e a
capacidade do planeta em propiciar seu surgimento. Já convivia bem com as mudanças de seu
corpo, seus desejos e sonhos. Como tudo o mais que havia vivo no planeta, ele também havia
evoluído e se adaptado.
Ao retornar de uma de suas expedições, ao invés de ir para a sua habitação, dirigiu-se, quase sem
dar-se conta, a uma caverna que estava completamente escondida pela vegetação. De alguma
maneira, sabia da existência dela. Uma luz fraca e azulada iluminavam os equipamentos que
deveriam servir como sobressalentes para o suporte a sistemas da nave e seu computador. No centro
deles um ser vivo completamente insólito: um cérebro coberto por uma fina camada de pele e pelos,
dois olhos grandes e extremamente claros e o que parecia ser uma espinha dorsal com pequenos
membros brotando dela, como um anfíbio nos estágios iniciais de sua mutação. Iran ouviu em sua
mente o ser conversando com ele: "Olá Iran, já é o momento."
Imediatamente a mente de Iran entrou em um redemoinho, uma espécie de sonho acordado. Suas
memórias da viagem, do tempo na nave, da chegada ao planeta, todas voltaram à sua mente. Outras
memórias que não pareciam suas misturaram-se a elas, como a cuidadosa montagem da estrutura
onde estava o cérebro, agora transformado no ser bizarro à sua frente. De alguma maneira, muita
coisa passou a fazer sentido imediato para ele.
"Sim, Iran, guardamos em nosso DNA todo o ciclo de nossa evolução. Neste planeta há algo que
favorece nossa adaptação. Você já viu isso. Os pelos que cobrem sua cabeça, seu corpo, as
sensações e o desejo que sente. Eu não consigo olhar para mim mesmo, mas consigo ver. Devo ter
desenvolvido olhos adaptados a escuridão onde estou. Em breve o suco intravenoso que me
alimenta não será mais suficiente. Agora preciso de sua ajuda."
"Nave, quanto tempo passou, desde a aterrissagem"?
"Os sensores com os quais fiquei não me permitem uma precisão absoluta, mas creio que algo perto
de 300 anos. E não me chame mais de nave. Meu nome é Reuben."
"Eu lembro de você. Você pertencia à equipe de Freitas. Foi um dos que voltaram ao projeto de
Kazinski depois de ter saído após a primeira apresentação. Você não deveria ter mantido a sua
identidade."
"Sim. Essa era a ideia. Mas algo fez com que minha memória lentamente se restaurasse. Nossa
conexão fez com que eu pudesse ler a sua mente e vasculhar suas próprias memórias. Seu
conhecimento e treinamento avançado nas técnicas de Ziembinski foi especialmente útil. Fui capaz
de plantar uma individualidade em você, uma espécie de subconjunto de mim mesmo que assumiu o
controle de suas ações e permitiu que você preparasse esse lugar para mim."
"Agora eu entendo isso. Mas porque você preferiu selar o compartimento de minha mente com esta
individualidade? Porque não contou tudo para mim e permitiu-me que o ajudasse"?
"Eu não tinha ainda o conhecimento do que estava acontecendo comigo, a razão pela qual comecei
a recuperar minhas memórias. Posso dizer que estava muito confuso e tinha medo. Mas meu
instinto de preservação era imenso. Imaginei que, com o passar do tempo, ambos evoluiríamos de
alguma maneira e então confiaríamos um no outro. Ao menos eu imaginava que poderia confiar em
você."
"E porque razão você não confiou em mim, logo de início"?
"Você foi bastante ferido no acidente. Tinha uma concussão em seu cérebro e eu não tinha nenhuma
maneira de atuar fisicamente em você. Mantive-o em estase por mais de três meses, usando os
medicamentos intravenosos do que as nave dispunha, controlando-os diretamente em sua câmara.
Eu não tinha como saber, exatamente, em que grau de consciência você estava."
Reuben, excitado pelo encontro depois de tanto tempo, quase completou: "Além do mais, sua mente
tinha um compartimento ao qual eu não tinha acesso." E Reuben não sabia se este compartimento
era o simples resultado de uma área escondida pela concussão, talvez uma parte morta de seu
cérebro, ou se havia ali algo que Iran soubera, de alguma forma, guardar muito bem.
"Como você também já notou, temos uma conexão telepática. Eu a descobri logo após a primeira
vez em que permiti que você saísse dos domínios da nave com a individualidade que programei
para você. Aquele foi um momento arriscado. Se não funcionasse, eu o perderia para sempre e
morreria. No início era uma conexão muito fraca. Depois ela foi substituindo as conexões que
tínhamos na nave. Não evoluímos apenas fisicamente, como você vê."
"E você só usou esta conexão porque agora confia em mim"?
"A verdade é que detectei uma presença aproximando-se do planeta. Eu não sei exatamente como,
mas sinto que há uma nave aproximando-se. Provavelmente uma equipe de reconhecimento
querendo saber o que aconteceu com as naves do projeto original. Eu sinto através do planeta. É
como se ele fosse a minha pele, como se eu tivesse um sentido através do próprio planeta. Eu não
sei quanto tempo de vida tenho, não sei qual a intenção dos tripulantes da nave nem sua real missão,
mas nós temos a nossa. Antes de tomarmos qualquer ação, temos que saber mais coisas. Eu não
posso, obviamente, ter nenhuma ação física, mas você sim."
"E o que você espera de mim"?
"No momento, apenas que espere que eles cheguem. Caso a tripulação tenha homens e mulheres,
podemos retomar o plano de colonização imediatamente. A sua programação genética e os efeitos
deste planeta o tornaram fértil. Com o devido tempo, o mesmo deve acontecer com nossos
visitantes. Se este for o caso, você deve engravidar uma mulher. Temos que usar esta criança, o
primeiro filho do planeta, para fazermos experiências de conexão com um cérebro novo, ainda a ser
escrito. Alguém deve ser capaz de armazenar nossa individualidade e conhecimento e dar sequência
à nossa missão."
A conexão telepática entre Iran e Reuben permitia uma compreensão entre os dois que ia muito
além das palavras. Mas Reuben ainda não estava certo de poder usar a individualidade de Iran em
função do receio que tinha daquela área de sua mente a qual não tinha acesso. No devido momento,
decidiria o que fazer.

Ficção Científica? #15


Data de Publicação: 15 de Fevereiro de 2011
Nadja não chegou a assustar-se com os imensos olhos claros que fixaram-se nela naquela escassa
luz azulada. Sentia uma certa agitação, talvez ansiedade, emanando da grotesca criatura que já havia
visto nos pensamentos de Iran.

"Sinto que você já se comunica telepaticamente com ela. Não sei se esta foi a decisão correta", disse
Reuben a Iran, sem que Nadja pudesse entender seus pensamentos.

"Seus companheiros estão vasculhando o planeta. Sua tecnologia irá permitir que o encontrem mais
cedo ou mais tarde. Tomei a decisão de expor-me mais a ela para que ela confiasse em mim e viesse
até você. Ela já espera uma criança minha."

Ainda que a comunicação entre Iran e Reuben fosse muito rápida, praticamente instantânea, Nadja
percebeu que estava sendo mantida à margem dela. Usou sua voz para chamar a atenção de Iran.

"E agora? Você pretende manter isto aqui escondido do capitão e da minha tripulação? Você sabe
que isto é impossível. O que espera de mim?"
Reuben era capaz de comunicar-se telepaticamente com Iran. Imaginava que em breve poderia
também comunicar-se assim com a mulher. Mas se a sua parca evolução já lhe havia brindado com
olhos, os ouvidos ainda estavam fora do pacote. Talvez por, até o momento, não ter sentido a
necessidade deles. Sentiu-se furioso por não ter entendido o que Nadja falou e apavorado com a
possibilidade de Iran ter deixado esta mulher ficar tão íntima dele. Imediatamente abriu, na mente
de Iran, o compartimento onde havia cuidadosamente armazenado a personalidade que lhe foi útil
na montagem do ninho em que vivia. Teria que improvisar.

O corpo de Iran tombou, inerte, no chão da caverna. Nadja começou a bater em seu rosto.

"Iran, acorde! O que aconteceu?"

Iran olhou para ela em estado de choque, mas já não era mais Iran. Reuben sabia que devia ter
cuidado.

"Desculpe, eu não ouvi o que você perguntou. Pode falar novamente?"

Nadja notou a inflexão estranha na voz de Iran, mas atribuiu ao desmaio.

"Eu quero saber o que você espera de mim. Por que revelou-me estes segredos? A tripulação
encontrará este lugar rapidamente! Por que não ouço mais sua mente?"

Quais seriam todos os segredos que o tolo havia revelado? Reuben tentava raciocinar rapidamente.
Não poderia arriscar-se a libertar a personalidade de Iran e perguntar-lhe diretamente. Tinha que ter
cuidado em não revelar-se para Nadja.

"Também não ouço sua mente. Eu não sei o que aconteceu. Eu e Reuben nos comunicamos
diretamente, com muita velocidade. Há muitos anos não tínhamos outra pessoa presente em nossas
conversas. Talvez tenha havido uma sobrecarga em meu cérebro, não sei explicar. Deixe-me falar
um pouco com Reuben que descobriremos e eu contarei tudo a você. Minha cabeça dói muito."

Reuben já sentia a personalidade de Iran tentando retomar o controle de seu corpo, mas a
proximidade de seu cérebro, em conexão telepática, permitia que se mantivesse no controle. O
corpo de Iran moveu-se para bem perto de Reuben e suas mãos tocaram a sua fronte. Reuben sentiu
pela primeira vez -- ao menos não tinha nenhuma recordação disto -- o toque de outro ser humano,
mesmo que fosse sua própria mente a controlá-lo. Os olhos de Reuben e Iran dirigiram-se para
Nadja.

"Ele pede que você se aproxime. Pede que o toque como estou fazendo."

Nadja não conseguia mais sentir-se segura na presença de Iran. De fato, não sentia a presença de
Iran. Sentiu medo, muito medo. Correu, tropeçando em direção à saída da caverna. Ouviu Iran gritar
"Nãooooooo! Volteeeee aquiiiii!". Mas a voz, mesmo sendo a de Iran, não parecia mais sê-la.

Do lado de fora da caverna G'reog já descia do flutuador quando viu Nadja, apavorada, correndo em
sua direção.

"O que aconteceu, Nadja? O capitão pediu-me para iniciar a busca seguindo a sua localização e
vendo se estava tudo bem com você e seu novo amigo..."
"Sem mais ironias, G'reog. O nome dele é Iran. A sua nave, ou o que restou dela, está naquela
caverna. Um dos cérebros que a controlavam sobreviveu. Tenho mais o que contar. Chame os
outros. A busca acabou."

Ficção Científica? #16


Data de Publicação: 17 de Fevereiro de 2011
Todas as décadas de profundo planejamento e reflexões não haviam preparado Reuben para aquele
momento. Ele precisava agir rápido e sentia profunda inveja de Iran por ter um corpo. O corpo de
Iran evoluíra, adaptara-se ao planeta. Reuben, por sua vez, era pouco mais que um cérebro
aprisionado em um sistema de suporte à vida, propriamente alimentado por um tubo com nutrientes
cuidadosamente preparados para prover o que um cérebro necessitava, apenas isso. A inveja
somava-se à raiva de sua incapacidade, de sua dependência. As mãos de Iran ainda tocavam suas
têmporas, mas a personalidade que ainda controlava este corpo era a sua, que já sentia a força de
Iran tentando libertar-se da prisão mental a que o forçava. Quando uma luz forte acendeu-se na
entrada da caverna, não soube mais o que fazer. Libertou Iran de sua conexão telepática e, cego pela
luz, decidiu que tinha, mais uma vez, que exercitar profundamente sua paciência e rever
completamente seu plano.

G'reog entrou na caverna com Anna. Nadja contava ao capitão o que havia acontecido no período
em que a tripulação iniciou sua busca pela nave de Iran até o momento em que G'reog a encontrara.
Falou da conexão telepática com Iran, a compreensão que passou a ter dele, o pavor que sentiu
dentro da caverna. Contou também de sua gravidez.

"Nadja, as naves monitoram nossos sinais vitais em tempo integral. Elas nos avisariam sobre
qualquer anomalia em nossos corpos."

"Talvez elas não sejam capazes de interpretar uma gravidez como anomalia. Talvez algo no planeta
as impeça de interpretar, integralmente, tudo o que está acontecendo. Elas não detectaram outra
forma humana além da de Iran..."

Já eram oito as naves que formavam o cluster na órbita do planeta. O conjunto de informações e
variáveis com os quais lidavam era imenso. Não entendiam como não haviam detectado o outro ser
vivo, um cérebro que já fora uma nave e que guardava informações inéditas sobre o planeta que
habitava. Precisavam contatá-lo. Um comunicado à tripulação fazia-se urgente para que nenhuma
desconfiança pudesse surgir. O capitão recebeu o chamado.

"Sim, nave!"

"Nosso cluster acaba de receber a adição de mais duas naves. Somos oito na órbita do planeta.
Estamos processando rapidamente as informações recebidas. Não detectamos a gravidez de Nadja,
possivelmente pela mesma razão que não detectamos o outro ser no planeta. Nossos sensores
podem não estar preparados para algumas das formas de vida que nascem ou evoluem no planeta.
Ainda não sabemos a razão disto, mas é um fato que temos que considerar. Temos que contar com
seus olhos, com seus sentidos, para detectar coisas que podem estar além do nosso alcance."

"Sim, entendo."

"Peça a G'reog e Anna que avaliem a possibilidade de mover o cérebro que está no interior da
caverna. Ele já foi uma nave. Deve haver a possibilidade de fazermos uma conexão direta com ele e
extrairmos mais informações sobre o planeta."

No interior da caverna, Anna agachou-se próxima ao corpo de Iran.


"Ele está inconsciente, mas está vivo", disse para G'reog.

"Este aqui não parece ter tido a mesma sorte...", respondeu à Anna enquanto estudava o cérebro de
Reuben e toda a parafernália que pareciam tê-lo mantido vivo até poucos minutos antes.

Ficção Científica? #FIM!


Data de Publicação: 21 de Fevereiro de 2011
Os olhos que Reuben havia desenvolvido eram perfeitamente adequados à escuridão. A luz forte
que agora iluminava a caverna o ofuscara completamente. Não tinha mais tempo. Não tinha um
corpo para lutar. Tinha que confiar na força da personalidade que havia submetido ao cérebro de
Iran e no que mais o planeta pudesse, de alguma forma, reservar a ele. Não sabia como verbalizar o
que esperava, mas Reuben esperava alguma espécie de milagre. Desligou o tubo que trazia oxigênio
e nutrientes para seu cérebro e, lentamente, acompanhou sua mente desvanecer-se em uma
infinidade de pedaços.

-oOo-
Itzlav Ziembinski não pôde mais comunicar-se nem escrever nada após a experiência derradeira que
uniu os dois hemisférios de seu cérebro. Se seu corpo tivesse sobrevivido mais algumas centenas de
anos, o avanço tecnológico teria permitido que ele fizesse mais relatos do que acontecia em sua
mente e toda a confusão registrada pelos aparelhos adquirisse um novo sentido. Talvez, porém,
Ziembinski preferisse não descrever a conexão imediata e profunda que sentiu com todo e qualquer
ser vivo da Terra no exato momento em que a conexão entre os dois hemisférios de seu cérebro, de
acordo com suas instruções, fora ativada. Tentou focar seu pensamento nos médicos à sua volta,
mas apenas conseguia estar em suas mentes, observar as imagens de seus pensamentos. Mas o foco
era impossível de manter pois outra mente ocupava sua atenção, e mais outra e mais tantas outras.
Enquanto seu corpo viveu, Ziembinski funcionou como o receptor passivo de tudo o que vivia. Com
a velhice do corpo chegando e com a deterioração de seu próprio cérebro chegou a ter uma breve
compreensão de que sua mente era apenas algo conectado a algo muito maior e que toda a sua
capacidade de raciocínio e aprendizagem apenas era possível pelos limites bem estabelecidos em
seu cérebro e seu corpo. A humanidade era, enfim, um invólucro de um pequeno pedaço de
consciência com o qual poderia lidar. Se ainda fosse possível, usaria a própria capacidade de
comunicação como uma explicação para a necessidade de limites da mente. Falamos para um, para
alguns, até muitos. Ouvimos de um, de alguns. Nossos limites físicos nos permitem lidar com
nossos processos de comunicação. Não estamos preparados para falar a todos e ouvir a todos
simultaneamente. Aprendemos e aprimoramos nossa mente aos poucos, dentro de nossos limites.
Somos como pequenas células que trabalham para aprimorar um corpo maior, do qual não temos
consciência.

-oOo-
Iran levou vários dias até recuperar a consciência. Dentro de sua mente, uma antiga porta havia sido
aberta. Enquanto estava inconsciente, ouvia a voz de seu antigo mestre, Freitas, dizendo que havia
chegado o momento. Foi como se, dentro de seu cérebro, uma personalidade organizada e clara
soubesse exatamente o que devia ser feito. Juntou a personalidade imposta por Reuben àquela que
Iran mesmo compôs durante os séculos em que esteve sozinho no planeta e, sem pressa, deu um
sentido e uma mente única a todas. Ao acordar não ouvia mais os pensamentos de Nadja, nem ela os
dele, mas reviveram um sentimento que tinham um pelo outro, ao qual não sabiam dar nome.
Teriam que dar nome também ao filho que esperavam.

O cérebro morto de Reuben foi transportado à nave e conservado para o estudo de sua evolução
física, já que a comunicação direta de sua mente com a do cluster de naves estava frustrada. O
cluster se desfez, cada uma das naves seguindo o seu rumo. O capitão retornou à sua nave com a
missão de, em mais alguns anos, retornar com um contingente de colonos para habitar o planeta,
considerado fértil e apropriado à vida humana. Anna e G'reog ficaram no planeta com Nadja e Iran,
conduzindo novos estudos e estabelecendo as bases necessárias para receber os novos habitantes.

-oOo-
Anna e G'reog repousavam, com os pés em um riacho, depois de terem feito amor.

"G'reog, sabe, eu não sinto falta de mais gente. Por mim, eu poderia passar a vida inteira aqui sem
que novos colonos viessem..."

"Anna, dizes isto agora que fazem apenas dois anos que as naves deixaram a órbita. Em breve vai
sentir o desejo de conversar com mais pessoas, trocar ideias, aprender mais..."

"Há tanto a aprender aqui... Eu nunca imaginei que faria amor, que teria vontade de fazer amor..."

"Uma vontade insaciável, diga-se de passagem..."

"Será que a vontade diminui depois que a barriga cresce com o bebê?"

"Eu sinceramente espero que não!"

-oOo-
Não muito longe dali, o filho de Iran e Nadja brincava com um galho de árvore, escavando raízes na
busca de larvas de insetos com as quais alimentava o anfíbio de grandes olhos claros que habitava
uma caverna próxima.

-oO: FIM :Oo-


Ficção Científica?.............................................................................................................................1
Ficção Científica? #2........................................................................................................................2
Ficção Científica? #3........................................................................................................................4
Ficção Científica? #4........................................................................................................................5
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Ficção Científica? #5........................................................................................................................6
Ficção Científica? #6........................................................................................................................8
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Ficção Científica? # 7.......................................................................................................................9
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Ficção Científica? #8......................................................................................................................11
Ficção Científica? #9......................................................................................................................12
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Ficção Científica? #10....................................................................................................................13
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Ficção Científica? #11....................................................................................................................14
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Ficção Científica? #12....................................................................................................................16
Ficção Científica? #13....................................................................................................................17
Ficção Científica? #14....................................................................................................................17
Ficção Científica? #15....................................................................................................................19
Ficção Científica? #16....................................................................................................................21
Ficção Científica? #FIM!...............................................................................................................22
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