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UNIVERSIDADE FEDERAL DE PERNAMBUCO

CENTRO DE ARTES E COMUNICAÇÃO


CURSO DE GRADUAÇÃO EM ARQUITETURA E URBANISMO

Gabriela Magalhães Azevêdo

DECLARAÇÃO DE SIGNIFICÂNCIA:
uma investigação metodológica

Monografia apresentada como


um dos requisitos para a
obtenção do título de Arquiteta
e Urbanista.

Orientadora: Profa. Dra. Virgínia Pontual


Coorientador: Prof. Dr. Silvio Mendes Zancheti

Recife
2013
DEDICATÓRIA

ao meu amor,

que me mostrou que a vida pode ser mais.


AGRADECIMENTOS

ao agreste, lugar que sempre poderei voltar.

a minha família, responsável por me ensinar

quem sou e quem posso ser.

aos meus amigos, pelo carinho e companhia.

aos meus orientadores e mestres, responsáveis

pelo meu crescimento pessoal e acadêmico.

sobretudo, gracias a la vida que me ha dado tanto.


Nossas lembranças mudam, o passado muda.

O passado se estrutura a cada momento

como uma nova experiência na nossa mente.

Lama Padma Samten


Resumo

A declaração de significância é um documento onde estão expressos


os valores e significados de um bem patrimonial. É utilizado como
referência para as ações de conservação, gestão e restauro. Apesar de
ser utilizada por muitas instituições, incluindo a UNESCO, ainda há
uma grande lacuna a ser preenchida no que diz respeito ao processo
de formulação da declaração de significância. A partir da análise
documental e dos estudos de caso, este trabalho visa contribuir para
a construção de uma metodologia referente ao processo de
elaboração de uma declaração de significância, e apresentar um
modelo de declaração para os bens patrimoniais materiais. Espera-se
com este trabalho auxiliar na consolidação de um importante
instrumento de conservação e gestão do patrimônio cultural.

Palavras-chave: declaração de significância, metodologia, bens


patrimoniais, significância cultural, valores, gestão da conservação.
SUMÁRIO

Introdução 08

1. MEMÓRIA E CONSERVAÇÃO 12

Memória 14

Valor 16

Significância cultural 21

Integridade 23

Autenticidade 24

Gestão da conservação 25

2. O ESTADO DA ARTE DAS DECLARAÇÕES 28

Documentos institucionais 29

Trabalhos acadêmicos 36

Estudo de caso 38

3. CONSTRUINDO UMA DECLARAÇÃO 43

Processo de elaboração da declaração 46

Modelo da declaração 60

Considerações Finais 64

Referências 68

Apêndices 74

Anexos 78
8
Introdução

A declaração de significância é um documento onde estão


expressos os valores e significados de um bem patrimonial. A
declaração é utilizada como referência para as ações de conservação,
gestão e restauro, pois apresenta quais as características do bem que
devem ser preservados.

A declaração é utilizada, segundo Zancheti e Hidaka (2009),


como instrumento de suporte de memória e orientação para ação de
conservação. Como memória, grava para o futuro, a avaliação
cultural que uma comunidade realizou de um bem patrimonial.
Como orientação, especifica as características do bem para as quais a
comunidade atribuiu valor cultural, e que devem ser mantidas no
tempo.

Mason (2004) afirma que a importância da declaração de


significância está nela reunir as razões pelas quais uma edificação ou
local devem ser preservados, e assim identificar quais os aspectos
que precisam de proteção mais urgente. Afirma ainda que uma vez
definida, a significância cultural serve de base para a política e para o
planejamento dos bens patrimoniais.
Utilizada por muitas instituições, a declaração de significância
9
passou a ser exigida na década de 1990 pela UNESCO, juntamente
com o World Heritage Centre (WHC), para a inscrição dos bens na
Lista de Patrimônio Mundial.

Apesar do WHC - UNESCO fazer esta exigência, e a literatura


ressaltar a importância da declaração para a conservação dos bens
patrimoniais, são poucos os documentos que se detém na descrição
dos procedimentos para sua elaboração.

O suporte teórico-metodológico existente para a elaboração da


declaração é escasso e insuficiente, não auxiliando os órgãos e as
instituições que necessitam elaborar uma declaração. As declarações,
por sua vez, não possuem um padrão a seguir, o que as torna muito
diferentes umas das outras, tanto na extensão do texto como em seu
conteúdo.

O objetivo deste trabalho é contribuir para a formulação de


uma metodologia de elaboração de declaração de significância para
bens patrimoniais materiais. Para isso, os objetivos específicos são:

 Levantar declarações de significância desenvolvidas em


diferentes épocas e contextos;

 Analisar as semelhanças e diferenças entre as declarações;

 Traçar os elementos que deve conter uma declaração;

 Definir o processo de elaboração de uma declaração;

 Apresentar um modelo para a estrutura da declaração.


O resultado final deste trabalho é o desdobramento de
10
inquietações surgidas ao longo de anos de trabalhos e pesquisas no
campo da conservação urbana juntamente com os professores Silvio
Mendes Zancheti (UFPE/MDU) e Lúcia Tone Hidaka (UFAL),
parceria entre o Centro de Estudos Avançados da Conservação
Integrada (CECI) e a Universidade Federal de Pernambuco (UFPE).

Com este trabalho pretende-se chegar às ações necessárias para


a elaboração de uma declaração e a um modelo de declaração
estruturado, e espera-se que ambos sejam operacionais e auxiliem na
conservação dos bens patrimoniais. Para isto, o trabalho está
estruturado em três capítulos, descritos a seguir.

Capítulo 1: Memória e conservação


O capítulo apresenta alguns conceitos pertinentes relacionados
à questão do patrimônio cultural, como memória, identidade,
conservação e gestão. Aborda também sobre valor, significância
cultural, integridade e autenticidade.

Capítulo 2: O estado da arte das declarações


O capítulo faz uma análise da literatura sobre o processo de
elaboração da declaração de significância e analisa três estudos de
caso. Os casos estudados são declarações elaboradas em diferentes
épocas e contextos. Esta análise é fundamental para a elaboração da
metodologia de construção da declaração, pois identifica os
elementos essenciais que deve conter na mesma e apresenta
diferentes olhares a respeito do tema.
Capítulo 3: Declaração de significância
11
O capítulo apresenta os resultados deste trabalho. Expõe o que
foi identificado na literatura e apresenta o passo-a-passo do processo
de elaboração de uma declaração de significância. Apresenta também
o modelo da estrutura da declaração.
12

Memória e conservação
Memória e conservação
13

Entende-se por patrimônio um bem ou conjunto de bens


naturais ou culturais de importância reconhecida para determinado
lugar, região, país ou mesmo para a humanidade (Houaiss). Esses
bens patrimoniais podem ser materiais (artefatos, monumentos,
sítios urbanos e paisagens) ou imateriais (ideias, crenças, e tradições).

A conservação dos bens patrimoniais é toda forma de registro e


salvaguarda das vivências passadas para as futuras gerações. A
conservação integrada diz respeito à aplicação de técnicas de
conservação e restauro sensíveis aos contextos sociais e físicos das
comunidades, levando em conta a pluralidade de valores e
julgamentos equilibrados (JOKILEHTO 2002; HIDAKA 2011).

A conservação do patrimônio cultural está diretamente


conectada a três temas: memória, identidade e valor. Françoise
Choay 1 afirma que “é impossível tudo conservar”, afinal, apenas
conservamos aquilo que damos valor.

1 No prefácio do livro de Alois Riegl, O culto moderno dos monumentos, 2006.


1.1 MEMÓRIA
14
A memória é o oposto do esquecimento, e a memória coletiva é
responsável pela perpetuação das identidades socioculturais. Como
afirma Marilena Chauí (2000, p.163), “a memória social ou histórica,
que é fixada por uma sociedade através de mitos fundadores e de
relatos, registros, documentos, monumentos, datas e nomes de
pessoas, fatos e lugares que possuem significado para a vida
coletiva”.

Ecléa Bosi (1987) aborda o tema da memória sob a ótica da


reconstrução do passado, de algo que está em constante mudança.

Na maior parte das vezes, lembrar não é reviver,


mas refazer, reconstruir, repensar, com imagens e
idéias de hoje, as experiências do passado. A
memória não é sonho, é trabalho. (...) A lembrança é
uma imagem construída pelos materiais que estão,
agora, à nossa disposição, no conjunto de
representações que povoam a nossa consciência
atual. Por mais nítida que nos pareça a lembrança
de um fato antigo, ela não é a mesma imagem que
experimentamos na infância, porque nós não somos
os mesmos de então e porque nossa percepção
alterou-se e, com ela, nossas idéias, nossos juízos de
realidade e de valor (BOSI, 1987, p. 17).

A memória e o patrimônio passam por um processo


semelhante, o de seleção. Selecionamos no presente o que será
lembrado e conservado para as gerações futuras. E nesta seleção
muitas vezes se sobrepõe os valores de alguns atores ou grupos
sociais em detrimento de outros.

No processo de construção da memória existem os aspectos


objetivos e os aspectos subjetivos (Chauí, 2000), e as relações
intersubjetivas de diferentes atores sociais. Como nos diz Santana
(2012):
A memória não seria uma simples conservação do
15
passado, a capacidade de rememorar fatos tais quais
ocorreram outrora (...), mas dependeria das relações
interpessoais, da forma como os grupos e as
instituições sociais interpretam e elaboram os
acontecimentos (p.26).

A construção da identidade, seja individual ou coletiva, está


sempre em transformação, “não é estável e unificada – é mutável,
(re) inventada, transitória e, às vezes, provisória, subjetiva; a
identidade é (re) negociada e vai-se transformando, (re) construindo-
se ao longo do tempo” (RODRIGUES, s.d., p.03).

Da mesma forma como a identidade possui caráter dinâmico,


sendo reinventada de tempos em tempos, acontece com o
patrimônio, que passa por processos de revaloração. Esses processos
são resultados das transformações dos significados dos bens
patrimoniais. “Evidentemente, o grau de transformação é tão mais
lento quanto mais tradicional for uma comunidade. E, se isso
acontece, é porque valor e cultura estão fortemente imbricados”
(LACERDA, 2002, p.59). Os gestores devem estar atentos aos novos
valores e significados dos bens patrimoniais, para que estes possam
ser incorporados às declarações de significância e à elaboração dos
planos de gestão.

Um ponto importante na legitimação dos bens patrimoniais é a


diversidade dos atores sociais. Muitas vezes o mesmo artefato possui
significados distintos para indivíduos ou grupos, e por vezes, esses
significados entram em conflito. Segundo Silvio Zancheti e Lúcia
Hidaka (2011, p.46), “para a sociedade, os valores patrimoniais
importantes são aqueles atribuídos pelos processos coletivos, por
meio de seleção intersubjetiva e procedimentos de avaliação
realizados durante longos períodos temporais”. Sobre esse assunto,
afirma Elsa Peralta (2000):
16
Patrimônio não é só o legado que é herdado, mas o
legado que, através de uma seleção consciente, um
grupo significativo da população deseja legar ao
futuro. Ou seja, existe uma escolha cultural
subjacente à vontade de legar o patrimônio cultural
a gerações futuras (p. 218).

O atual sistema de salvaguarda dos bens patrimoniais se baseia


nos três pilares valores/significados, integridade e autenticidade. A
UNESCO exige testes de integridade e autenticidade para o processo
de inscrição dos bens na Lista de Patrimônio Mundial, bem como a
elaboração de um plano de gestão, que “deverá especificar a forma
como deve ser preservado o bem, de preferência por meios
participativos” (UNESCO, 2005, #108). A seguir esses temas serão
abordados de forma sucinta para uma maior compreensão do
desenvolvimento do trabalho.

1.2 VALOR

O conceito de valor é amplo, complexo e polissêmico. Sua


origem etimológica vem do latim (valere), que significa algo que tem
importância. Ou seja, o ato de valorar é o mesmo que romper com a
indiferença.

Johannes Hessen, em seu livro Filosofia dos Valores, aborda


diferentes aspectos a respeitos dos valores: o valor como uma
qualidade, a relação objeto-sujeito no processo de valoração, e a
questão dos valores culturais (consensos) em detrimento dos valores
individuais.

O autor afirma: “Valor é sempre valor para alguém. Valor é a


qualidade de uma coisa, que só pode pertencer-lhe em função de um sujeito
dotado com uma certa consciência capaz de a registrar” (HESSEN, 1967,
17
p.47).

Na realização de intervenções em bens patrimoniais é


necessária a apreensão de um sistema de valores, e sendo um
sistema, é formado por uma multiplicidade de valores. Sobre a
importância de um sistema de valores para a conservação
patrimonial Zancheti e Hidaka (2009) afirmam:

O valor é uma categoria analítica central para a


determinação da significância, pois é impossível a
realização de qualquer tipo de declaração sem o uso
de um sistema de valores que possa representar a
importância cultural, atribuída por uma
comunidade para seus edifícios. Os valores são de
vários tipos e todos devem ser considerados, em
primeira instância, para a determinação da
significância e não somente aqueles
tradicionalmente utilizados pelos especialistas na
conservação patrimonial ou da arquitetura
(ZANCHETI e HIDAKA, 2009, p.8).

O primeiro trabalho que se debruça sobre uma categorização


dos valores é o Culto Moderno dos Monumentos (Der moderne
Denkmalkultus 2), de Alois Riegl.

Riegl classifica os valores segundo duas categorias: valores


rememorativos e valores de contemporaneidade. A primeira diz respeito
aos valores ligados à memória, história e história da arte. Os valores
da segunda categoria surgem da “satisfação das necessidades
materiais e espirituais do homem contemporâneo” (LIRA, 2013,
p.11).

Entre os valores rememorativos estão o valor de antiguidade, o


valor histórico e o valor rememorativo intencionado. Os valores de

2 A primeira versão desta obra é de 1903.


contemporaneidade abrangem o valor instrumental, valor artístico
18
de novidade e o valor artístico relativo.

Estes valores são estudados por Norma Lacerda (2002, 2012)


sob a ótica da teoria contemporânea da conservação, e outros valores
são identificados pela autora no processo de intervenção dos bens
patrimoniais. Dentre eles, o valor cultural, simbólico, cognitivo,
econômico, de uso, de opção, e de existência. Uma síntese desses
valores será apresentada abaixo.

Valor histórico: reside no fato de que o artefato representa um


estado particular do desenvolvimento humano (Riegl, 2006). O valor
histórico é tanto maior quanto maior a pureza do estado original, tal
como se apresentava no momento de sua criação (Idem, p.76), e por
isso, a integridade e a autenticidade são aspectos importantes neste
tipo de valor.

Valor de antiguidade: manifesta-se pelo seu aspecto não


moderno do monumento (Riegl, 2006, p.69). Este valor está
diretamente ligado à percepção do passar do tempo na obra e seus
traços de degradação, como é o caso das ruínas.

Valor artístico: refere-se à apreciação estética. Riegl subdivide


este valor em dois, o valor artístico de novidade e o valor artístico
relativo. O primeiro refere-se à aparência de novo, através de suas
características materiais (como cor e forma) que expressam o caráter
de novidade. O segundo diz respeito à possibilidade de que obras de
gerações anteriores possam ser apreciadas não só como testemunhos
passados, mas também com respeito a sua própria e específica
concepção de obra de arte (Lira, 2013, p.13).
19
Valor cultural: está relacionado à identidade social. Encontra-
se fortemente relacionado ao valor histórico, no sentido que a
consciência do passado permite criar uma identidade comum, tanto
no presente como no futuro (Lacerda, 2002, p.62).

Valor simbólico: cada grupo, cada sociedade e cada época


criam os seus símbolos (Lacerda, 2012). Segundo a autora, os
símbolos estão fortemente ligados ao processo de construção das
identidades coletivas.

Valor cognitivo: está relacionado ao aprendizado propiciado


por um bem patrimonial, pois se constitui de um instrumento de
formação. Tem-se o exemplo dos sítios históricos que são utilizados
como instrumento pedagógico para o conhecimento de um período
histórico ou artístico (Lacerda, 2002).

Valor de existência: refere-se a um bem de valor inestimável


para a humanidade pelo simples fato de existir (Lacerda, 2002),
mesmo não havendo possibilidade de uso no momento presente.

Valor econômico: reside na utilização dos bens para os quais se


pode identificar uma demanda. Relaciona-se com o potencial
enquanto fonte importante de crescimento econômico (Lacerda, 2002,
p.60-1).

Valor de opção: está relacionado a um valor econômico futuro,


e, portanto, desconhecido (Lacerda, 2002). Este valor se refere aos
valores futuros, que ainda não foram descobertos, mas que podem
vir a existir.

Além dos valores citados, a conservação dos sítios urbanos


patrimoniais lida com outros valores, como o arquitetônico,
urbanístico e paisagístico. Contudo, todos os valores apresentados
acima podem ser sintetizados em apenas três, segundo Lacerda
20
(2012, p.52): valor de uso (atual), valor de opção (valor de uso futuro) e
valor de existência, sendo que este último condensa todos os demais
valores.

O grande desafio quando se trata de valorar os bens


patrimoniais é como conciliar todos os seus tipos de valores. Tem
que se “identificar os valores atribuídos a esses bens, não apenas
pelas gerações passadas, mas também pela presente geração e por
aquelas que hão de vir” (LACERDA, 2002, p.45). É neste ponto que
reside a importância do valor de opção, pois diz respeito a
conservação do bem não apenas pelo valor que tem no presente, mas
pelo valor que pode vir a ter no futuro.

Alguns desses valores tendem a permanecer no


tempo, enquanto outros são modificados ou
perdidos. Valores como os de uso e simbólico, por
exemplo, geralmente se modificam com o passar do
tempo, já que estão muito relacionados com os
atores sociais envolvidos na sua elaboração no
tempo presente, ao passo que outros valores como o
histórico, paisagístico, artístico, arquitetônico e
urbanístico permanecem, pois podem ser
considerados como sendo de longa duração (CECI-
ITUC, 2009, p.09).

A pessoa, ou o grupo, responsável pela identificação dos


valores de um bem patrimonial deve ter em mente que os valores
não são estáticos, que estão sujeitos a novas interpretações. De
acordo com Jukka Jokilehto (2006), são essas reinterpretações pelas
novas gerações, que conferem a noção de diversidade cultural.
1.3 SIGNIFICÂNCIA CULTURAL
21
A significância cultural é o conjunto de todos os valores
conhecidos de um objeto, compartilhados por grupos sociais
(Zancheti et al., 2009). O conceito vem sendo discutido nas últimas
décadas em diferentes áreas do conhecimento e sob diferentes pontos
de vista.

A primeira vez que o termo foi usado em um documento


institucional foi em 1964, na Carta de Veneza. Porém, sua definição
só vem aparecer na Carta de Burra, no final da década de 1990.

A Carta de Burra é o resultado de uma sequência de


publicações e atualizações elaboradas pelo ICOMOS Austrália, entre
as décadas de 1970 e 1990, a respeito da significância cultural e das
políticas de conservação e gestão dos sítios patrimoniais. O ICOMOS
Austrália reconhece apenas a última versão, do ano de 1999.

Pela Carta de Burra temos:

Significado cultural significa valor estético, histórico,


científico, social ou espiritual para as gerações passadas,
actual ou futuras.

O significado cultural está incorporado no próprio sítio,


na sua fábrica, na sua envolvente, na sua utilização, nas
suas associações, nos seus registos, nos sítios relacionados
e nos objectos relacionados.

Os sítios podem ter variações de valor para indivíduos ou


grupos diferentes (Australia ICOMOS, 1999, #1).

A definição de significância cultural da Carta de Burra é a mais


utilizada pela comunidade dedicada à conservação, sobretudo nos
países ocidentais (Zancheti et al., 2009). As críticas a seus conceitos e
procedimentos serão apresentadas no próximo capítulo.
No que diz respeito à construção da significância cultural,
22
existem basicamente dois tipos de abordagens. A abordagem objetiva
(ou empírico-positivista) compreende os valores como qualidades
intrínsecas aos bens patrimoniais, e lida com a significância cultural
como um conceito objetivo e fixo.

Este ponto de vista presume que “a cultura pode ser tratada


como um conjunto estático de artefatos” (MASON, 2004, p.66), e que
o mesmo objeto terá os mesmos valores para diferentes grupos
sociais e culturais.

Outro ponto de vista é o da abordagem relativista (ou relativismo


cultural), que diz que os valores são qualidades subjetivas, atribuídas
pelos atores sociais 3, e que se transformam no tempo e no espaço.

Dentro desta abordagem, Howard Green (1998) compreende


que a significância cultural é construída socialmente, a partir da
interação de diferentes grupos sociais, não sendo apenas os
especialistas que determinam a significância. Randall Mason (2004)
se alinha com esta perspectiva e ainda acrescenta que as teorias e
instrumentos de conservação precisam refletir “a noção de que a
cultura é um processo contínuo, ao mesmo tempo em que é criativo e
evolutivo – e não um conjunto estático de práticas e coisas” (p.70,
tradução da autora).

A significância cultural é compreendida neste trabalho como


uma construção intersubjetiva, fruto das relações entre sujeitos e
objetos, que se modificam a partir dos diferentes contextos, no tempo
e no espaço. Como afirma Frondizi (apud Hidaka, 2011): o objeto não é

3 Também conhecidos na literatura como stakeholders.


23
passivo, assim como o sujeito também não é absoluto na projeção de valores
sobre o objeto.

1.4 INTEGRIDADE

Integridade, etimologicamente, significa inteireza, ou seja,


‘qualidade de ser inteiro’, na condição de não ter nenhuma parte
faltando (JOKILEHTO, 2002). Para saber se um bem é íntegro,
segundo Stovel (2007), deve-se responder a seguinte questão: todos os
elementos necessários para contar a história completa do bem estão
presentes?

Integridade está definida pelo Guia Operacional (UNESCO,


2005) como a medida da plenitude e inteireza do patrimônio e seus
atributos. Para estudar as condições de integridade de um bem
patrimonial, deve ser examinado em que medida o bem:

a) possui todos os elementos necessários para exprimir o seu valor


universal excepcional;

b) é de dimensão suficiente para permitir uma representação


completa das características e processos que transmitem a
importância desse bem;

c) sofre efeitos negativos decorrentes do desenvolvimento e/ou da


falta de manutenção (UNESCO, 2005, #88).

Jokilehto (2006) faz uma análise mais aprofundada a respeito da


questão da integridade e identifica três dimensões. São elas: a
integridade sócio funcional, que diz respeito às funções e processos dos
bens no tempo; a integridade estrutural, se refere aos elementos
materiais que sobreviveram ao tempo; e a integridade visual, está
24
relacionada aos aspectos estéticos.

1.5 AUTENTICIDADE

Autenticidade refere-se à qualidade do que é autêntico, ao


caráter do que é genuíno e verdadeiro. Como afirma Jokilehto (2006,
p.2), “ao longo dos séculos, os filósofos têm discutido conceitos como
continuidade e mudança, e a noção de verdade, todos eles relevantes
também ao tocar a noção de autenticidade” (tradução da autora).

A UNESCO, no Guia Operacional de 2005, compreende a


importância do conceito de autenticidade para a validação dos
valores patrimoniais. O texto diz que “a capacidade de compreender
o valor atribuído ao patrimônio depende do grau de credibilidade ou
de veracidade que se pode atribuir às fontes de informação relativas
a esse valor” (UNESCO, 2005, #80).

A visão ocidental dualista, que compreende os artefatos em


autênticos ou não autênticos, passou a ser questionada pelos
orientais a partir da década de 1990. Eles mostraram que existem
outras formas de autenticidade além da materialidade do objeto
patrimonial. Afinal, é necessário aceitar que “as diferentes culturas
podem ter diferentes formas de expressar-se sobre questões como a
verdade e autenticidade” (JOKILEHTO, 2006, p.3, tradução da
autora).

Em decorrência das discussões levantadas a partir da


Conferência de Nara, no Japão, em 1994, a UNESCO remodelou os
critérios do Teste de Autenticidade para a inserção de um bem na
Lista de Patrimônio Mundial. Os critérios de autenticidade passaram
25
a ser: 1) forma e concepção, 2) materiais e substância, 3) uso e função,
4) tradições, técnicas e sistemas de gestão, 5) situação e
enquadramento, língua e outras formas de património imaterial, 6)
espírito e impressão, e 7) outros fatores internos e externos.

Assim, a autenticidade hoje é compreendida não como uma


entidade conhecida, ou um fenômeno objetivo, mas sim como um
conhecimento negociável, que está aberto a mudanças (BURNETT,
2006). A autenticidade deve ser analisada e interpretada segundo o
contexto cultural de cada bem, pois a percepção dos atores sociais na
análise da autenticidade muda de acordo com o tempo e o espaço,
não sendo possível restringir a avaliação da autenticidade a ‘critérios
imutáveis’.

1.6 GESTÃO DA CONSERVAÇÃO

A gestão é compreendida como um processo de negociação


entre atores públicos e privados capazes de intervir no processo de
mudanças das estruturas urbanas existentes (ZANCHETI, 2007). A
gestão da conservação diz respeito ao processo de negociação para a
tomada de decisões referentes à conservação dos bens patrimoniais.

Os sistemas de gestão podem variar conforme as diferentes


perspectivas culturais, os recursos disponíveis e outros fatores.
Podem integrar práticas tradicionais, instrumentos de planejamento
urbano ou regional (...) e outros mecanismos (UNESCO, 2005, #110).

Na última década a UNESCO passou a exigir um plano de


gestão para os sítios candidatos a Lista de Patrimônio Mundial. Vera
Milet (2002) faz a distinção entre o plano de conservação e o plano de
gestão da conservação. O primeiro “estabelece os objetivos e metas a
serem alcançados, valores a serem conservados, além
26
de
instrumentos jurídicos, políticos, administrativos e financeiros que
pretendem a consecução dos objetivos da conservação” (p.125). O
segundo “deve ser entendido como os processos e tarefas
desenvolvidos no cotidiano, que viabilizam a implementação do
plano de conservação e a verificação da consecução dos objetivos do
plano” (p.125).

A respeito do plano de conservação, Virginia Pontual (2012)


afirma que seus objetivos são:

a manutenção da especificidade, diversidade e


autenticidade da tipologia e morfologia urbana e
edilícia, assim como das expressões de vivências e
tradições culturais, integrando-as às exigências
contemporâneas de novos usos, funções e
atividades. Esses objetivos possibilitam prolongar a
vida útil de um bem cultural e valorizar as suas
características históricas e artísticas, sem perda de
sua autenticidade e seu significado (Pontual, 2012,
p.97).

Já o plano de gestão da conservação é um instrumento que


propiciará ao bem ou ao sítio uma gestão mais participativa, pois
traça metas a serem cumpridas no tocante à manutenção das
características patrimoniais, assim como faz uma avaliação do
processo de gestão do bem.

Cabe ao gestor do patrimônio ora definir as regras e


os procedimentos necessários à boa execução das
ações empreendidas, assegurando uma eficiente
gestão de recursos, ora garantir que as iniciativas
patrimoniais contemplem a própria diversidade
característica do nosso patrimônio cultural,
funcionando como fator estabilidade, de
27
desenvolvimento e de integração social (PERALTA,
2000, p. 222).

O plano de gestão da conservação compreende três partes de


acordo com Pontual (2012): a problemática atual da gestão, a
problemática futura da gestão, e o plano de gestão. Ainda segundo a
autora, o plano de gestão é complementado por outros instrumentos,
como o plano de desenvolvimento local, as legislações urbanas e os
programas de educação patrimonial. A declaração de significância
vem se unir a esses instrumentos, proporcionando diretrizes para a
conservação da significância, integridade e autenticidade dos bens
patrimoniais.
28

2
O estado da arte das declarações
O estado da arte das declarações de significância
29

A análise do estado da arte das declarações de significância foi


dividida em duas partes. Primeiro analisou-se os documentos que se
debruçam sobre o processo de elaboração da declaração de
significância. Depois fez-se um estudo de caso a partir de três
declarações visando a uma melhor compreensão da estrutura e dos
elementos (textuais e iconográficos) que devem conter uma
declaração.

2.1 DOCUMENTOS INSTITUCIONAIS

Os documentos analisados mais significativos estão divididos


em duas categorias, documentos institucionais e trabalhos
acadêmicos. Dentro dos documentos institucionais, temos: 1) A Carta
de Burra (Austrália, 1999); 2) Significance: A guide to assessing the
significance of cultural heritage objects and collection (Austrália, 2001); e
3) Guia Operacional (UNESCO, 2005).
CARTA DE BURRA
30
A Carta de Burra foi o primeiro documento a discorrer sobre o
procedimento de elaboração de uma declaração de significância. Por
meio de um diagrama, a Carta apresenta o Processo da Carta de Burra
– sequência de investigações, decisões e ações. O Processo é divido em
três etapas, que são: compreensão do significado, desenvolvimento
da política e gestão.

A elaboração da declaração consiste na primeira etapa, que se


divide em quatro fases como pode ser visto no quadro abaixo.

Imagem 01: Etapas para a elaboração de uma declaração segundo


a Carta de Burra. Fonte: Australia ICOMOS, 1999.

A respeito do processo de elaboração da declaração de


significância, a Carta de Burra afirma que:

As obras num sítio devem ser precedidas por estudos que


compreendam esse sítio, os quais devem incluir a análise
das evidências físicas, documentais, orais e outras,
baseada nos apropriados conhecimento, competências e
disciplinas.
31
Devem ser preparadas declarações escritas sobre o
significado cultural e a política para o sítio, justificadas e
acompanhadas pelas evidências de suporte. As
declarações sobre o significado e a política devem ser
incorporados num plano de gestão para o sítio.

Deve ser dada oportunidade aos grupos e às pessoas que


tenham associações com um sítio, bem como às que estão
envolvidas na sua gestão, para contribuírem e
participarem na compreensão do significado cultural
desse sítio. Quando for apropriado, eles também devem
ter a oportunidade de participar na sua conservação e
gestão (Australia ICOMOS, 1999, #26).

As críticas feitas ao processo apresentado na Carta de Burra


devem-se a algumas divergências presentes no documento. Uma
delas é que, apesar da Carta dispor que “deve ser dada oportunidade
aos grupos e às pessoas que tenham associações com um sítio”, o
diagrama apresenta um processo vertical, no qual a significância é
avaliada apenas pelos especialistas. A construção da significância
cultural é compreendida na Carta de Burra de forma objetiva, linear
e, sobretudo, em um processo não democrático.

Outra contradição é com relação à coexistência de diferentes


valores. A Carta afirma que “os sítios podem ter variações de valor
para os indivíduos ou grupos diferentes” (Idem, #1). Contudo, não
explica como se deve agir quando há valores que entram em conflito,
ou quais valores devem ser priorizados em detrimento de outros.

Zancheti et al. (2009) propõem algumas modificações no


processo da Carta de Burra. Os autores propõem que ao invés “de
avaliar, deve-se identificar os significados e proceder um julgamento
dos valores” (p.51), tendo em vista que a construção da significância
cultural parte da relação intersubjetiva entre sujeitos e objetos.
A metodologia proposta por Zancheti et al. (2009) acrescenta
32
que o passo seguinte ao julgamento de valores é a elaboração da
declaração e que os valores incluídos na declaração devem ser
reconhecidos e validados pelos atores sociais envolvidos com o sítio,
não apenas pelos especialistas. E, caso os valores não sejam
validados, o processo deve ser refeito até se chegar a um consenso.
Por isso os autores afirmam que se deve proceder ações de feedback
em três das etapas: caso a declaração não seja validada pelos atores
sociais, deve-se voltar a etapa anterior (F3) para se rever a
significância e se for o caso, retornar ao levantamento das
informações do bem patrimonial (F2).

Imagem 02: Proposta para a introdução do Feedback


no Processo da Carta de Burra. Fonte: Zancheti et al., 2009, p.51.
A importância da Carta de Burra é inquestionável, já que foi o
33
primeiro documento a abordar sobre o processo de elaboração de
uma declaração de significância. Contudo, não pode continuar sendo
este documento o único a abordar sobre o tema, tendo visto que a
conservação dos bens patrimoniais é um processo democrático e
deve incluir os atores sociais envolvidos com o sítio. A declaração
também não é um documento absoluto, e deve ser revisada
periodicamente para permitir que novos significados sejam
incorporados ao documento.

SIGNIFICANCE: A GUIDE

O Heritage Collections Council, conselho de patrimônio da


Austrália, elaborou em 2001 um guia para auxiliar na elaboração da
significância cultural de objetos e coleções patrimoniais intitulado
Significance: A guide to assessing the significance of cultural heritage
objects and collections 4. O guia foi desenvolvido por Roslyn Russell e
Kylie Winkworth para ajudar aqueles que cuidam de coleções a
identificar e preservar a herança cultural australiana. O guia aborda
sobre o que é significância cultural, como é o processo de avaliação
da significância, e quais são os critérios de avaliação.

O guia explica a avalição da significância como:

the process of studying and understanding the meanings


and values of objects and collections. Significance
assessment is a practical and effective process that helps
you clearly articulate the value and meaning of objects
and collections, and make sound judgements and good
decisions about conserving, interpreting and managing
them, now and into the future (RUSSELL e
WINKWORTH, 2001, p.11).

4 Significância: Um guia para avaliar a importância de objetos do patrimônio


cultural e coleções
o processo de estudar e compreender os
significados e valores de objetos e coleções.
34
Avaliação da significância é um processo prático e
eficaz que ajuda a articular claramente o valor e o
significado dos objetos e coleções, e enfatiza
julgamentos e boas decisões sobre a conservação,
compreensão e gestão, agora e no futuro (RUSSELL
e WINKWORTH, 2001, p.11, tradução da autora).

Ainda segundo o texto, a avaliação da significância envolve os


três passos a seguir: análise do objeto; compreensão da história e do
contexto; e identificação dos valores do objeto para as comunidades.

Esses três passos, na verdade, não são passos a serem


elaborados de forma linear, mas estão inter-relacionados. Eles se
desdobram nas seguintes etapas: compreensão da história e origem
do bem, compreensão do contexto no qual o bem está inserido,
análise da autenticidade e da integridade do bem, identificação dos
valores e montagem da declaração.

Com relação ao texto da declaração as autoras afirmam:


“Escreva uma declaração sucinta de significância que encapsule os valores e
significados do objeto. Não basta dizer que o objeto é significativo – deve-se
explicar por que é importante e o que isso significa” (RUSSELL e
WINKWORTH, 2001, p.20, tradução da autora).

As autoras apresentam também nove critérios para serem


utilizados no processo de avaliação da significância dos objetos e
coleções de arte. Os critérios estão divididos em duas categorias:
critérios primários e critérios comparativos. Os critérios primários são:
significado histórico, significado estético, significado científico e
significado social ou espiritual. Os critérios comparativos são: origem,
representatividade, raridade, condição, completude e integridade, e
potencial interpretativo.
Apesar do guia ser voltado para a área de museus, galerias de
35
arte e coleções históricas, tem grande contribuição na compreensão
da construção da significância para os bens patrimoniais como um
todo. Este documento é um dos poucos que auxiliam na
compreensão dos passos necessários ao desenvolvimento de uma
declaração de significância, e foi utilizado como base para o modelo
que foi desenvolvido neste trabalho.

GUIA OPERACIONAL

No Guia Operacional (UNESCO, 2005) são apresentadas


algumas diretrizes para elaboração da proposta de inscrição dos bens
para a Lista de Patrimônio Mundial. No documento também é
apresentando o conteúdo que deve ter uma declaração de
significância (ou de valor universal excepcional, termo mais utilizado
pela UNESCO).

A proposta de inscrição é elaborada pelo Estado-parte 5, e deve


conter as seguintes informações:

1) Identificação do bem;

2) Descrição do bem;

3) Justificativa da inscrição;

4) Estado de conservação e fatores que afetam o


bem;

5) Proteção e gestão;

6) Acompanhamento;

7) Documentação (UNESCO, 2005, #130).

5Os Estados-parte (State Party) são aqueles países que aderiram a Convenção do
Patrimônio Mundial, de 1972.
A justificativa da inscrição (item 3) refere-se à declaração de
36
significância do bem, já que deve apresentar as razões porque se
considera o bem detentor de valor universal excepcional, como
mostra o trecho abaixo:

(A justificativa da inscrição) deve indicar os critérios


do patrimônio mundial de acordo com os quais o
bem é proposto. A partir destes critérios, um projeto
de declaração de valor universal excepcional do
bem, redigido pelo Estado-parte, deve especificar as
razões pelas quais se considera que o bem é
merecedor da inscrição na Lista de Patrimônio
Mundial (Guia Operacional, 2005, p.49).

No anexo 7 desse documento, afirma-se que a declaração deve


abordar questões como: "o que o bem representa, o que o torna
excepcional, quais são os valores específicos que o distinguem, quais
são as relações do bem com o seu entorno" (UNESCO, 2005, p.154).

Este é o trecho em todo o documento em que a questão do


processo de elaboração da declaração é mais aprofundada. Ou seja,
apesar da UNESCO exigir uma declaração de significância para a
avaliação da inscrição de um bem na Lista de Patrimônio Mundial,
ela não dá suporte aos Estados-parte para que elaborem a declaração
como instrumento de gestão da conservação do sítio.

2.2 TRABALHO ACADÊMICO

Durante a análise de literatura foi identificado apenas um


trabalho acadêmico que se debruça sobre o processo de elaboração
de uma declaração, o artigo intitulado A declaração de significância de
exemplares da arquitetura moderna, de Silvio Zancheti e Lúcia Hidaka,
37
publicado em 2009 pelo CECI 6 em parceria com o ICCROM 7.

O texto discute a importância da declaração e sua utilização no


sistema WHC-UNESCO, e apresenta uma metodologia para a
elaboração de declaração para edifícios modernistas.

Segundo os autores, a declaração é “um documento que


expressa o valor cultural de um bem para uma comunidade. É uma
justificativa que explicita o porquê do bem ser conservado para o
usufruto de futuras gerações” (p.3).

Sobre a relação entre a declaração e o sistema de salvaguarda


internacional (WHC-UNESCO), afirmam os autores que ainda há
poucos subsídios para sua elaboração.

Não obstante a importância institucional e


operacional, da declaração para a política
patrimonial dos signatários da Convenção do
Patrimônio Mundial, a UNESCO contribuiu pouco
para aclarar o que entende pelo termo significância
cultural. Nas instruções sobre o monitoramento
periódico dos bens listados, o mais importante
documento operacional do WHC (Guia Operacional
2005), não está definido o que seja a declaração. (...)
Apesar do caráter operacional das instruções, há de
se reconhecer a sua pouca objetividade e precisão
conceitual (ZANCHETI e HIDAKA, 2009, p.4).

Outro ponto de discussão levantado no texto diz respeito a


questão conceitual da significância cultural. A opinião dos autores é
que a declaração deve ser construída a partir do entendimento do
relativismo cultural, e assim a declaração poderá se tornar:
um instrumento que estabelece: a) os valores em
disputa na sociedade; b) avalia, no presente, os

6Centro de Estudos Avançados da Conservação Integrada,


7Centro Internacional de Estudos para a Conservação e Restauração de Bens
Culturais.
valores segundo uma escala de importância,
38
indicando os conflitos de avaliação mais relevantes
e c) explica as mudanças da significância do
passado até o presente (ZANCHETI e HIDAKA,
2009, p.6).

Com relação à construção da declaração de significância,


Zancheti e Hidaka dividem o processo em três etapas: 1) a
determinação da significância, 2) a avaliação da significância e 3) a
redação da declaração.

Para a etapa de avaliação da significância, os autores fazem


uma releitura dos critérios levantados por Russel e Winkworth
(2001), voltados para obras de arte, e os utilizam na categorização
dos edifícios modernistas. Além desta contribuição, este trabalho
vem acrescentar a importância de olhar a construção significância
sob o aspecto do relativismo cultural.

2.3 ESTUDO DE CASO

A escolha dos estudos de caso se baseou, principalmente, na


diversidade do recorte. Os casos estudados são de diferentes épocas
e estão inseridos em diferentes categorias de bens patrimoniais.
Todos os três casos possuem seus valores reconhecidos
internacionalmente e fazem parte da Lista de Patrimônio Mundial da
UNESCO. Os casos escolhidos são: Centro Histórico de Olinda (sítio
urbano), a Ópera de Sydney (monumento), e o Rio de Janeiro (paisagem
cultural).

A cidade de Olinda foi selecionada como estudo de caso por ter


sido construída na época da colônia e ainda resguardar
características do século 18. A Ópera de Sydney, por ser um dos
edifícios ícones da arquitetura moderna e seu Nomination File 8 servir
39
de referência para a elaboração da declaração de significância de
outros monumentos. E por fim, o Rio de Janeiro, por ter sido inscrito
recentemente na Lista de Patrimônio Mundial como paisagem
cultural. Além de ser o único bem brasileiro inscrito nesta categoria,
achou-se pertinente analisar a declaração de uma paisagem cultural,
já que o foco desse tipo de bem é o “processo de interação do homem
com o meio natural” (AZEVÊDO e NEVES, 2012).

Imagem 03: Olinda, Ópera de Sydney e Rio de Janeiro. Fonte: WHC-UNESCO.

Com a análise dos estudos de caso percebeu-se que as


declarações de significância se diferenciam de acordo com a
finalidade. A declaração elaborada pelo Estado-parte para tentar a
inscrição de um bem na Lista da UNESCO é muito diferente de uma
declaração elaborada como parte de um plano de gestão.

As declarações para a inscrição de um bem na Lista, que é o


caso das declarações analisadas do Rio de Janeiro e da Ópera de
Sydney, se baseiam no conceito de valor universal excepcional utilizado
pelo sistema WHC-UNESCO. A definição de valor universal

8Nomination File é o documento que o Estado-parte elabora para tentar inscrever


um bem na Lista de Patrimônio Mundial da UNESCO.
excepcional é apresentada no Guia Operacional 2005 da seguinte
40
forma:

O valor universal excepcional significa uma


importância cultural e/ou natural tão excepcional
que transcende as fronteiras nacionais e se reveste
do mesmo caráter inestimável para as gerações
atuais e futuras de toda a humanidade (UNESCO,
2005, #49).

As declarações que se baseiam nesse conceito refletem a pouca


precisão conceitual do mesmo, e não apresentam os valores e
significados do bem de forma clara e direta, o que dá margem a
diferentes interpretações. Abaixo está um trecho do texto da
declaração da Ópera de Sydney como exemplo.

A Casa de Ópera de Sydney é um exemplo notável


do patrimônio cultural do século 20. Seu poder de
fascinar e excitar é universal e pertence ao mundo
como um grande monumento artístico e um edifício
ícone. A Casa de Ópera de Sydney tornou-se um
edifício que inspira e encanta pessoas ao redor do
mundo e atrai as pessoas para explorar as suas
diversas características marcantes (UNESCO, 2006,
p.45, tradução da autora).

Percebe-se neste recorte que o edifício é um ícone da


arquitetura moderna internacional, mas não é possível identificar
quais das suas características possuem valor e devem ser
conservadas.

A declaração analisada que se diferencia deste modelo é a de


Olinda, pois foi elaborada como parte de um plano de gestão da
conservação do sítio, trinta anos após a sua inscrição na Lista de
Patrimônio Mundial. Como há um distanciamento temporal, a
declaração consegue avaliar quais são os valores que permaneceram
ao longo do tempo e quais são os novos valores que foram
incorporados ao sítio. O texto desta declaração se baseia em uma
categorização de valores e identifica onde estes valores estão
41
expressos, o que auxilia na operacionalização da declaração como
instrumento, como mostra o trecho na declaração abaixo.

O valor histórico se expressa através do traçado


urbano, testemunho de um processo de ocupação
territorial implantado pelos portugueses no
nordeste brasileiro ainda no século XVI, que seguia
a tradição medieval de defesa por altura; do
conjunto arquitetônico, composto por um casario
homogêneo e por monumentos religiosos de uma
mesma época e estilo; e das disputas políticas e
ideológicas, resultado das primeiras iniciativas de
libertação da coroa portuguesa, evidenciadas em
fatos e documentos históricos que estão registrados
em relatos da cultura material e imaterial, dentre
outros (CECI – ITUC, 2009, p.08-09).

Além das diferenças citadas acima, as declarações analisadas se


diferenciam no conteúdo e no tamanho, como mostra a tabela abaixo.

Tabela 01: Análise dos estudos de caso

Itens de análise Casa de Ópera


Olinda Rio de Janeiro
na declaração de Sydney

Tamanho do texto 520 palavras 760 palavras 1.230 palavras

Linguagem do texto Objetiva Subjetiva Objetiva

Identifica os valores Sim Não Não

Identifica atributos Sim Não Sim

Lev. Iconográfico Não Sim Sim


Fonte: a autora, 2013.
As conclusões que se chegou com a análise dos estudos de caso 9
42
foram:

 O texto introdutório da declaração deve fazer uma breve


apresentação do bem, focando em pontos importantes da história
do bem;

 A redação da declaração deve ser curta e de linguagem clara;

 Os valores e significados culturais devem ser apresentados no


texto de forma objetiva, pois quando isso não acontece, abre-se
uma lacuna para diferentes interpretações;

 Faz-se necessário identificar tanto os valores antigos como os


novos valores incorporados ao bem;

 Deve-se considerar a opinião de diferentes atores sociais para a


declaração refletir os diversos valores do bem;

 A declaração deve incluir também as características (atributos


materiais e imateriais) e os objetos patrimoniais responsáveis pela
significação do bem;

 Faz-se de grande importância os levantamentos arquitetônicos e


iconográficos, que vai servir de subsídio para a não
descaracterização do bem em intervenções futuras.

As análises feitas neste capítulo formaram a base metodológica


para a elaboração do modelo e do processo da declaração de
significância, que será apresentada do capítulo seguinte.

9 Para maior compreensão das análises ver o apêndice e os anexos no fim do texto.
43

3
Construindo uma declaração
Construindo uma declaração de significância
44

A análise bibliográfica e os estudos de caso deram os subsídios


necessários para este trabalho chegar à metodologia de elaboração de
uma declaração de significância. Este capítulo apresentará os
resultados obtidos, que são o processo de elaboração da declaração
de significância e o modelo da declaração.

A partir dos dados levantados na literatura especializada sobre


gestão da conservação e a construção da significância cultural,
chegou-se a quatro pontos essenciais da estrutura da declaração de
significância:

 A objetividade da redação

 A multiplicidade dos valores

 A diversidade dos atores sociais envolvidos em


sua construção

 As necessidades de atualizações periódicas

A significância cultural é um conceito que permeia o campo da


subjetividade, contudo, para a declaração se tornar um instrumento
operacional, deve haver um esforço para relacionar os elementos
intangíveis (valores e significados) com os elementos tangíveis
45
(atributos) (STOVEL 2002; HIDAKA 2011; SILVA 2011).

A noção de atributo é discutida por diversos autores, mas nem


sempre se chega a um consenso. Neste trabalho entende-se por
atributo as características dos bens patrimoniais (materiais ou
imateriais) possuidoras de valores. Sendo os valores entidades
subjetivas, a identificação dos atributos é uma das formas de
objetivar os significados do bem patrimonial.

A necessidade de otimizar a objetividade durante o processo de


elaboração do texto da declaração está em dois aspectos, o de não
deixar espaço para interpretações pessoais, e o de tornar um
instrumento de fácil operacionalização.

No que diz respeito aos sítios urbanos, o patrimônio deste é


compreendido pelos objetos e processos. Entende-se neste trabalho
por objetos patrimoniais as entidades físicas (artefatos) possuidoras de
valores. Por processos patrimoniais, entende-se as dinâmicas urbanas,
decorrente de relações intersubjetivas, possuidoras de valores.

Para exemplificar, no sítio histórico de Olinda, têm-se como


objetos patrimoniais as igrejas, paisagens, ruas e ladeiras, e como
processos, o carnaval, a relação entre o uso residencial e religioso, e a
manutenção das técnicas construtivas tradicionais.

Objetos e processos patrimoniais não são valiosos


em si. Eles têm atributos que os tornam especiais em
relação a outros objetos. Os atributos podem ser
materiais, quando eles são tangíveis, ou não
materiais, quando eles são intangíveis, como a
religião ou outras propriedades culturalmente
significativas (ZANCHETI e HIDAKA, 2011, p.46).
Assim, para a elaboração da declaração de significância de
46
sítios urbanos, além dos valores, devem ser identificados os objetos e
processos patrimoniais.

Com relação à multiplicidade de valores, é importante que a


declaração integre valores reconhecidos em todos os níveis (STOVEL,
2002, p.178), do nível local ao nacional, e se for o caso, internacional.
Deve-se tentar gerar uma convivência de valores, mesmo quando
eles estiverem em conflito. Zancheti e Hidaka (2009) afirmam ainda
que na declaração devem estar inseridos tanto os significados
validados como os não validados, construindo um documento que
sirva não apenas para o presente mas também para o futuro.

A importância da relação dos atores sociais no processo de


conservação e gestão dos bens patrimoniais é tema de discussão há
quase quatro décadas, quando o tema foi discutido na Declaração de
Amsterdã (1975). Assim, a opinião dos diferentes grupos envolvidos
com o bem deve ser considerada para que a declaração de
significância seja um instrumento de gestão democrática.

A declaração de significância, também auxilia no


monitoramento do estado de conservação dos bens patrimoniais, e
para isto, deve refletir os valores do passado e do presente. É
necessário que se façam atualizações periódicas para que a
declaração possa incorporar as novas significações.

3.1 PROCESSO DE ELABORAÇÃO DA DECLARAÇÃO

A partir da análise de literatura chegou-se a cinco etapas para o


processo de elaboração de uma declaração de significância. As etapas
são: 1) Levantamento e identificação do bem; 2) Julgamento da
significância; 3) Elaboração da redação; 4) Elaboração das diretrizes de
47
gestão; 5) Consolidação. Cada etapa possui diversas fases.

Como o objetivo deste trabalho é que o processo de elaboração


da declaração sirva a diferentes bens patrimoniais, as fases devem
ser avaliadas antes de se iniciar o processo, pois é necessário que o
modelo sofra ajustes para melhor se adequar aos contextos
socioculturais dos bens.

Diagrama 01: Proposta para o processo de elaboração da declaração

Fonte: a autora, 2013.

O modelo desenvolvido sintetiza três conceitos presentes na


literatura: a) a significância cultural como processo construído
socialmente – e não apenas pela opinião do especialista-pesquisador;
b) a necessidade de validação do processo; e c) a necessidade de
revisões periódicas.

Etapa 1: Levantamento e Identificação

A etapa de levantamento e identificação consiste no


recolhimento e análise de informações sobre o bem em seus diversos
aspectos, que devem ser coletados e organizados em um banco de
dados. Este é um dos passos mais importantes, pois os seus
48
resultados estão ligados à compreensão de forma preliminar dos
valores e significados do bem.

O resultado desta etapa será um documento com diversas


informações sobre o bem, e é de grande valia que este documento
esteja disponível para consulta e pesquisas futuras. As fases de
levantamento e identificação são seis e serão apresentadas a seguir.

1a. Levantamento preliminar

Consiste no conhecimento preliminar do bem, com visitas ao


local e início das leituras a respeito do bem. Tal conhecimento inicial
vai auxiliar na escolha das fontes para o levantamento histórico.

1b. Levantamento de fontes documentais e iconográficas

Esta fase consiste na compreensão da história e significado do


bem dentro do contexto em que está inserido, desde a sua construção
até a data da pesquisa. Como afirma Pontual et al. (2008, p.3) é “a
história que pode revelar a cultura de um lugar e os significados
expressos ao longo dos séculos”.

Alguns dos dados levantados devem ser: quando e por quem o


bem foi construído, qual a sua importância para a época, como se
deu sua evolução no tempo, e quais foram as intervenções pelas
quais o bem passou. Estas pesquisas devem ser feitas a partir de
diferentes fontes documentais, que permitam maior domínio sobre o
tema.
Deve-se buscar no acervo da cidade e em outros locais os
49
registros daquele bem, que inclui além dos textos, fotografias, mapas
e imagens. As pesquisas devem contemplar também trabalhos
técnicos de órgãos públicos e trabalhos acadêmicos sobre o objeto de
estudo.

Nesta fase as visitas ao local têm que ser mais frequentes, pois
além de levantar imagens do bem ao longo da história, deve-se
elaborar registros fotográficos do bem em seu estado atual.

1c. Análise arquitetônica e/ou urbana

Esta fase consiste no reconhecimento do bem em seu estado


atual. Para a análise arquitetônica, no caso de edifícios, propõem
Zancheti e Hidaka (2009), que se deve fazer uma análise da
arquitetura e da construção do edifício em seu estado atual
ressaltando: os materiais, métodos e sistemas construtivos; a relação
com edifícios de épocas semelhantes de outros países e regiões; a
organização espacial dos ambientes e das áreas externas; os
elementos construtivos e decorativos; os bens móveis e integrados.

Para a análise urbana, no caso de sítios urbanos, segundo


Pontual et al. (2008), deve ser analisada a forma urbana, e para isto é
necessário identificar: os padrões de ocupação física da área
(tipologias, lotes e quadras); os marcos construídos as edificações de
referência; a estrutura dos espaços públicos; os espaços livres:
parques, praças, largos e áreas de uso público; vistas e perspectivas
importantes (paisagem urbana).
1d. Identificação do estado de conservação do bem
50
Deve-se identificar o atual estado de conservação do bem. Esta
fase deve ser feita por meio de registros fotográficos, juntamente com
a descrição das patologias, e caso seja necessário, deve-se elaborar
um mapa de danos. Devem ser identificadas também todas as
intervenções e restaurações pelo qual o bem já passou.

Zancheti e Hidaka (2009, p.7) a respeito desta fase afirmam que


se deve identificar as reformas, acréscimos, demolições e outras
transformações, relativas ao projeto original; o estado de conservação
da edificação e das obras de arte e dos elementos decorativos
integrados; o estado de conservação dos materiais construtivos;
principais patologias e riscos; e outras características julgadas
pertinentes.

Esta fase vai dar subsídios para a avaliação da integridade e


autenticidade do bem (Etapa 2) e para a elaboração das diretrizes
para gestão do bem (Etapa 4).

1e. Levantamento dos instrumentos de salvaguarda

Consiste no levantamento da existência ou ausência de


instrumentos de proteção para a salvaguarda do bem. Deve-se
levantar a legislação ao qual o bem está submetido e observar a área
de delimitação do tombamento (sendo apresentado em mapa). Os
objetos patrimoniais, juntamente com os bens móveis e integrados,
que estão tombados devem ser listados.
1f. Identificação dos atores sociais
51
Refere-se à identificação dos atores sociais envolvidos com a
história e a conservação do bem. A escolha dos atores sociais
envolvidos deve refletir as particularidades do bem analisado e está
aberto a mudanças e interpretações.

Hidaka (2011) divide os atores sociais em quatro categorias:


especialistas, residentes, grupos de referência cultural e visitantes. Os
especialistas são aqueles que conhecem e trabalham com a
conservação do bem, ou seja, tem ‘autoridade sobre o patrimônio’.
Neste grupo podem ser incluídos os gestores, mas não devem ser
inseridos os pesquisadores envolvidos na avaliação.

Com relação aos residentes, a literatura indica que sejam


subdivididos em dois grupos – residentes de longa data e residentes
novos. A subdivisão é indicada por causa da mudança dos valores ao
longo do tempo que os fizeram optar por residir no sítio ou no
entorno do bem.

Os grupos de referência cultural são aqueles que sua presença


ou atividade estão ligadas diretamente aos significados do sítio ou
do bem. Como exemplo temos os clérigos em Olinda, as baianas que
fazem acarajé no Pelourinho, os artesãos de barro no Alto do Moura,
e o movimento afro em São Luís.

Os visitantes possuem uma visão diferente dos residentes, pois


escolheram conhecer o sítio ou bem, dentre tantos outros existentes.
Etapa 2: Julgamento
52
A etapa dois é a de julgamento dos dados levantados durante a
etapa anterior. As duas primeiras etapas são responsáveis pela
construção da significância cultural, a partir das ações de
levantamento, análise, avaliação, julgamento e validação. A etapa um
refere-se ao levantamento e à análise e a etapa dois, às ações de
avaliação, julgamento e validação.

O olhar crítico do pesquisador, juntamente com a experiência e


vivência dos atores sociais é que vai identificar os diversos valores e
significados do bem patrimonial. Esses valores serão avaliados pelos
pesquisadores e depois passarão por uma formulação de um juízo de
valor, que é o momento do julgamento. O resultado deste julgamento
passará por uma validação social.

Esta etapa possui quatro fases, que são: a) as entrevistas com os


atores sociais, b) a avaliação dos objetos patrimoniais, c) a avaliação dos
valores e significados do sítio e a d) avaliação da autenticidade e da
integridade. Esta etapa se diferencia das demais por suas fases
estarem inter-relacionadas – o resultado de uma auxilia a elaboração
da outra, como mostra o diagrama a seguir.
Diagrama 02: As quatro fases da etapa de Julgamento
53

Fonte: a autora, 2013.

2a. Entrevista com os atores sociais

Consiste no contato com os atores sociais levantados na etapa


anterior. Nesta etapa serão identificados os valores e significados
atribuídos ao bem que marcaram a memória dos atores sociais
(PONTUAL e PICCOLO 2012).

As entrevistas 10 com os atores sociais podem ser feita por meio


de grupos focais, método Delphi ou questionários justificados. Fica a
critério do pesquisador escolher o tipo de entrevista que melhor se
encaixa em seu contexto. Antes de escolher o tipo de entrevista que
será utilizada, deve ser analisado o tamanho do universo e da
amostra que será utilizada para a pesquisa.

10Para mais detalhes sobre o procedimento das entrevistas ler PONTUAL et al


2008.
O tamanho da amostra vai depender do tipo de entrevista que
54
será utilizada no procedimento e deve ser analisada com base em
métodos estatísticos.

O objetivo das entrevistas é identificar e avaliar os valores e


significados, bem como os objetos e processos patrimoniais para os
diferentes grupos sociais. Deve-se estar atento tanto às
convergências, como às divergências de opiniões.

2b e 2c. Avaliação dos valores e significados e dos objetos patrimoniais

Os valores e significados vão começar a surgir na etapa de


levantamento e identificação do bem. As análises da história, da
arquitetura e/ou do urbanismo, e do estado de conservação vão
mostrar qual a importância do bem para a comunidade, e como se
deu sua evolução no tempo.

As entrevistas com os atores sociais vão servir para confirmar


os valores levantamentos inicialmente, acrescentar outros e mostrar
qual a escala de importância entre eles.

Esta também é a fase de identificação dos bens móveis e


integrados, e também dos atributos (materiais e imateriais) que
expressam os valores patrimoniais do bem, caso ele seja um edifício.
Caso seja um sítio urbano, deve-se identificar os objetos e processos
que expressam seus valores patrimoniais.

Nesta fase o pesquisador estará familiarizado com as


características do bem e passará a compreender a importância das
paisagens e vistas, a continuidade dos usos, e as relações sócio
espaciais.
Os registros fotográficos do bem em seu estado atual
55
(levantados na Etapa 1) são de grande importância nesta fase, pois
auxiliarão na identificação e na avaliação, tanto dos atributos como
dos objetos e processos patrimoniais, pelos atores sociais. Conseguir
elaborar uma lista ilustrativa com esses elementos patrimoniais é
uma das formas de objetivar o processo de elaboração da declaração
de significância.

2d. Avaliação da autenticidade e integridade

A avaliação da autenticidade e integridade se desenvolve em


dois momentos. O primeiro está relacionado aos levantamentos
documentais do bem, que apresentarão se o bem foi modificado ao
longo da história, e se essas modificações ocasionaram alterações
significativas nas características (materiais e imateriais) de valor
patrimonial. O segundo momento diz respeito à opinião dos atores
sociais com relação à integridade e autenticidade do bem, já que a
percepção desses conceitos muda de acordo com o contexto cultural.

A utilização de questionários ilustrados pode auxiliar este


processo: seleciona-se um conjunto de características que são
significativas para a compreensão do bem como um todo, dispõe
cada item do conjunto em forma de lista, escolhe-se duas imagens de
cada item – sendo uma antiga e outra recente.

O resultado é um quadro ilustrado que pode ser utilizado como


questionário individual ou em reuniões de grupo, onde se verifica a
opinião dos participantes com relação a autenticidade e integridade
de cada item do conjunto. As duas imagens (uma antiga e outra
recente) vão servir de suporte de memória, ou seja, vão reavivar as
lembranças dos participantes com relação às mudanças por quais os
56
itens passaram ao longo do tempo.

A avaliação da integridade e autenticidade, além de orientar a


conservação do bem patrimonial na atualidade, servirá de referência
para as intervenções futuras. Como afirma Stovel (2002), “definir a
autenticidade fornece uma proteção para a credibilidade dos valores
definidos, mas também é uma forma prática de orientar os
tratamentos propostos em relação ao respeito pelos valores
definidos” (p.14).

Ao final da avaliação, caso se conclua que houve perda total da


integridade e/ou da autenticidade do bem, o processo de elaboração
da declaração não poderá continuar, pois não houve manutenção da
significância cultural 11.

Processo inter-relacionado e validação

Como foi dito anteriormente, as fases desta etapa estão inter-


relacionadas, o que significa o desenvolver delas não é linear. As
quatro fases apresentadas acima vão acontecer paralelamente, e uma
vai auxiliar no desenvolvimento da outra.

Ao final desta fase será feita uma validação com os atores


sociais envolvidos no processo, para saber a opinião deles a respeito
da significância do bem. Caso a significância não seja validada, o
processo será refeito, e se for o caso retorna-se à etapa inicial, até a
negociação chegar a um consenso.

11Zancheti e Hidaka (2011), ao desenvolverem um indicador para medir o estado


de conservação dos sítios urbanos patrimoniais, chegam à conclusão que as três
variáveis (significância/valores, integridade e autenticidade) são indissociáveis, e
que a perda total de uma das variáveis acarreta a não conservação do bem.
Etapa 3: Redação
57
Após a construção da significância cultural e validação, a etapa
seguinte é a de elaboração da redação. A etapa de redação inclui o
desenvolvimento de dois textos, o da significância cultural, e o de
apresentação do bem. Todos os elementos necessários para o
documento final da declaração serão apresentados no subcapítulo
seguinte.

O texto deve ser curto, objetivo e de linguagem clara, evitando


adjetivos e opiniões pessoais. Caso haja valores distintos para os
grupos sociais, deve-se apresentar quais valores são importantes
para cada grupo. O texto deve apresentar tanto os valores antigos
como os novos.

Como na etapa anterior, ao fim da elaboração do texto da


declaração, faz-se uma validação com os atores envolvidos para
saber se o texto está de acordo com os valores e significados dos
diversos grupos sociais.

Etapa 4: Diretrizes

A etapa quatro é a de elaboração de um conjunto de diretrizes


que auxiliem na conservação do bem. Essas diretrizes vão se
desenvolver em dois momentos.

No primeiro momento vai se analisar os estudos feitos nas


etapas anteriores sobre o estado de conservação do bem e a
integridade e autenticidade, e identificar quais são os problemas que
necessitam de medidas de caráter de urgência. Deve-se elaborar um
relatório sucinto para ser encaminhado ao órgão responsável pela
58
salvaguarda do bem.

No relatório deve constar uma análise das descaracterizações


ou patologias do bem, imagens do atual estado de conservação,
mapa de danos (caso necessário), e sugestões de usos e de medidas
para a resolução dos problemas identificados.

No segundo momento vai se analisar quais as potencialidades e


restrições do bem e apresentar medidas que auxiliem na conservação
do bem a médio e longo prazo, com base nos conceitos da
conservação integrada. O documento deve também ressaltar a
importância da utilização de outros instrumentos, como o
monitoramento e os planos de conservação e gestão.

Etapa 5: Consolidação

A última etapa é a de consolidação, que é o momento de revisão


do processo e do produto final. Nesta etapa será feita uma reunião
com os especialistas para apresentar o documento final e fazer
pequenos ajustes, caso necessário.

Após esta revisão, deve ser organizada uma apresentação e


divulgação do documento final para os atores sociais envolvidos e
para a sociedade.

Revisão Periódica

Tendo em vista que a declaração de significância é um


julgamento espaciotemporal, e que a significância cultural não é fixa,
o processo de elaboração da declaração deve ser revisado
59
periodicamente para poder funcionar como um instrumento
atualizado de gestão democrática.

Entretanto, o espaço de tempo para se refazer o processo de


elaboração da declaração ainda não é discutido pela literatura. Fala-
se apenas em um tempo necessário para identificar as permanências
e mudanças nos valores.

No relatório periódico dos Estados Árabes, elaborado pela


UNESCO em 2004, diz-se que um plano de gestão geralmente é
adotado por um período de cinco a dez anos. Considerando que a
declaração de significância é um dos instrumentos utilizados na
elaboração de um plano de gestão, pode-se considerar o mesmo
intervalo de tempo até a sua revisão.

A elaboração da primeira declaração de significância de um


bem é a que demandará mais tempo, pois será necessário levantar
todos aqueles dados apresentados na Etapa 1. Por isso é de utilidade
pública que não apenas a declaração esteja disponível para o grande
público, mas também os levantamentos e análises elaborados no
início do processo.

A primeira declaração servirá de ponto inicial para a avaliação


da conservação e monitoramento do bem. As declarações posteriores
se desenvolveram com base nesse documento inicial, para identificar
os acréscimos e/ou as perdas de significância, integridade e
autenticidade.
3.2 MODELO DA DECLARAÇÃO
60
Os estudos de caso mostraram quais são os elementos comuns
em uma declaração de significância, e com o desenvolver do trabalho
alguns outros elementos vieram a surgir. Assim, chegou-se aos
elementos essenciais a uma declaração, que vão além da avaliação da
significância.

O modelo apresentado a seguir compreende que a declaração


possui seis elementos, que em sua maioria já foram desenvolvidas ao
longo do processo de elaboração da declaração, e que nesta etapa
serão organizadas para dar corpo ao documento final.

1. Dados do bem

São dados referentes à identificação do bem. Deve conter três


informações, que são: o nome do bem, a localização e os dados de
tombamento. No nome deve-se inserir o nome oficial e, caso o bem
possua mais de uma denominação, seus outros nomes. Na localização
deve conter o nome do município, da região e do país. Deve conter
também o endereço, caso o bem seja um edifício, e suas coordenadas
geográficas. Nos dados de tombamento deve-se conter informações a
respeito da salvaguarda do bem, que incluem as instituições de
proteção e o ano de tombamento.
2. Apresentação
61
Refere-se a um texto breve 12 que fala sobre a história do bem e
introduz aspectos importantes sobre o bem ao longo do tempo. Pode
abordar questões como quem o construiu, a importância da
construção na época e no lugar, a relação entre o bem e o entorno ou
a cidade, a relação com a comunidade, as intervenções pelas quais
passou, qual o seu estado de conservação atual, entre outros aspectos
pertinentes sobre a história do bem. Deve informar também quais
são os atores sociais envolvidos com o bem e quais deles foram
consultados na avaliação da significância cultural.

3. Avaliação da significância cultural

Esta é a parte da declaração onde será apresentada a avaliação


da significância. Há diversas formas de estruturar a redação da
significância. Percebeu-se que o melhor modelo é aquele que
estrutura o texto a partir dos valores identificados.

No primeiro parágrafo devem ser apresentados os valores que


foram identificados, tanto os valores que se mantiveram ao longo do
tempo, como novos os valores a estes agregados. Nos parágrafos
seguintes apresenta-se onde estão expressos esses valores. Para
maior compreensão do formato do texto, ver o Anexo A (p.78).

12 É aconselhável que o texto de apresentação não ultrapasse 500 palavras.


4. Lista ilustrada dos objetos patrimoniais
62
Esta lista diz respeito às características (tangíveis e intangíveis)
nas quais se corporificam os valores patrimoniais do bem. É uma
forma de trazer para o campo da objetividade os valores e
significados do bem, pertencentes ao campo da intersubjetividade.

Se o bem for um edifício, essa lista apresentará os atributos, e os


bens móveis e integrados. Se o bem for um sítio, a lista apresentará
os objetos e processos patrimoniais. Cada elemento da lista deve ser
seguido de uma fotografia atual, que auxiliará a compreensão de seu
significado.

A função da lista é auxiliar na operacionalização do


monitoramento da significância, da integridade e da autenticidade
do bem. Ela é utilizada também na avaliação do estado de
conservação do bem, metodologia desenvolvida por Hidaka (2011).
Para melhor compreensão da lista, ver o Anexo D (p.89).

5. Diretrizes de Conservação

Consiste em diretrizes que vão auxiliar nas medidas de


conservação e gestão do bem. Deve incluir uma breve avaliação do
estado de conservação do bem, as análises de integridade e
autenticidade e sugestões para a resolução dos problemas
identificados e medidas que auxiliem na conservação a médio e
longo prazo.
6. Anexos
63
Os demais documentos, mapas e imagens que sejam relevantes
para a compreensão da significância do bem devem entrar nos
anexos.

Os mapas devem apresentar a localização do bem a nível


nacional, regional e local. No mapa local, o bem e sua área de
entorno devem estar delimitados, bem como os limites de proteção.
Os mapas vão auxiliar nas diretrizes de conservação, caso uma das
questões sugeridas seja a expansão da área, ou algum elemento de
entorno que possa vir estar a prejudicar na conservação do bem.

Com relação às imagens e fotografias, devem ser anexadas


aquelas que não foram incluídas na lista de objetos patrimoniais, mas
são importantes para a compreensão do significado do bem e seus
atributos. Também é interessante que sejam anexados os registros
iconográficos que mostram as mudanças pelas quais o bem passou
ao longo do tempo. Outros documentos importantes ou as leis de
proteção ao bem podem ser inseridos nesta seção.
64
Considerações Finais

Declaração de significância: instrumento de memória e orientação


para a conservação dos bens patrimoniais. Foi tentando contribuir
para a formulação de um suporte teórico-metodológico para a
formulação de uma declaração de significância que este trabalho foi
conduzido.

Apesar da vasta literatura a respeito da construção da


significância cultural, ainda há vazios a serem preenchidos, e
perguntas a serem respondidas: Qual a validade de uma declaração
de significância? Um mesmo modelo de declaração se aplica a
diferentes bens patrimoniais? Há outras formas de elaborar uma
declaração?

Tentando responder algumas dessas perguntas, percebeu-se


que o processo metodológico de elaboração de uma declaração é
muito mais amplo e complexo do que se imaginava inicialmente, e
que os resultados obtidos neste trabalho são apenas os resultados
parciais do processo.

Para que o modelo elaborado neste trabalho seja validado, ele


ainda precisa ser submetido a algumas etapas: a) a validação com
especialistas da conservação a respeito do processo de elaboração da
65
declaração; b) a aplicação do modelo em diferentes bens patrimoniais
para saber se o mesmo tem condições de ser utilizado em diferentes
categorias de bens; e c) a revisão do processo, a partir do resultado
das duas etapas anteriores.

Apesar de não ter chegado a um resultado final validado, este


trabalho chegou a algumas questões pertinentes à formulação da
declaração de significância.

Uma delas diz respeito à relatividade da declaração. A


declaração de significância é uma seleção de valores e significados de
um bem julgados importantes em determinado contexto social.
Tendo em vista que a declaração passa por um processo de seleção,
avaliação e julgamento – baseado em opiniões e juízos de valor, não
deve ser considerada como representante absoluta dos valores e
significados do bem; mas sim como um recorte parcial e temporal
dos valores patrimoniais. Por isso a declaração deve ser revisada
periodicamente, para que novos valores possam ser incorporados ao
documento.

A necessidade de relacionar a intersubjetividade com a


objetividade no processo de formulação da declaração foi outro
ponto que se destacou durante a elaboração deste trabalho.

Significância cultural é um conceito intersubjetivo, fruto da


negociação de diferentes atores sociais. Contudo, a declaração não
conseguirá se tornar um instrumento operacional caso se mantenha
no campo da subjetividade. Deve haver um esforço do pesquisador
que a desenvolve para identificar os atributos, objetos e processos
patrimoniais que corporificam os valores e significados do bem.
A metodologia aplicada neste trabalho se baseou na análise
66
documental, e tomou como ponto de partida o estudo de bens
patrimoniais, ou seja, que já possuem instrumentos de salvaguarda.
Assim, o método desenvolvido neste trabalho serve apenas para
aqueles bens que possuem registros históricos. Considera-se que há
outras formas de desenvolver uma declaração de significância, e
ainda é cedo para avaliar se o processo desenvolvido pode ser
utilizado para bens culturais 13.

A relação entre a declaração de significância e a gestão da


conservação é outro ponto a ser discutido. Percebeu-se que eles
podem estar conectados de três formas diferentes, dependendo do
estado de conservação do bem: 1) a declaração pode ser utilizada
como referência para a elaboração do plano de gestão; 2) o plano
pode ser utilizado como referência para a revisão da declaração; e 3)
a declaração e o plano podem ser desenvolvidos paralelamente.
Independente de como se dá a relação entre declaração e gestão, é
certo que os dois caminham lado a lado na conservação dos bens
patrimoniais.

Sendo assim, espera-se que outros trabalhos venham a ser


desenvolvidos focando a metodologia, a operacionalização e até a
normatização do modelo da declaração de significância,
contribuindo para a conservação dos bens patrimoniais.

13 Bens culturais são aqueles bens que possuem valores culturais, mas não são
salvaguardados pelas instituições responsáveis, ou seja, são não tombados.
67

Referências, Apêndice e Anexos


68
Referências

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em: 07 Set 2013.
74
Apêndice A – Fichas do estudo de caso

CENTRO HISTÓRICO DA CIDADE DE OLINDA


Dados do Bem
Categoria Sítio cultural
País – Região Brasil – América do Sul

Tombamento Nacional – IPHAN 1980


Órgão – Ano Internacional – UNESCO 1982
Critérios de Inscrição (ii) exibe um importante intercâmbio de valores
humanos, durante um período de tempo ou dentro de
uma área cultural do mundo, sobre a evolução da
arquitetura ou da tecnologia, das artes monumentais,
do planejamento urbano ou do paisagismo;
(iv) exemplo excepcional de um tipo de construção,
conjunto arquitetônico ou tecnológico ou de paisagem
que ilustre um ou mais períodos significativos da
história da humanidade;
Análise da Declaração
Redação da Justificativa (Introdução)
Explica de forma breve a importância de uma declaração de significância.
Redação da Declaração
A redação é clara e direta. A significância cultural do sítio é expressa a
partir de um conjunto de valores que foram identificados por ‘diferentes
atores da cena atual’. Com base nesses valores, apresentam-se os atributos
e os processos patrimoniais onde os valores estão expressos, e assim se
insere um pouco da história do sítio.
Valores e significados identificados
Conjunto de valores: histórico, paisagístico, artístico, arquitetônico e
urbanístico (que se mantiveram ao longo do tempo), e simbólico e o de uso
(novos valores).
Contribuição
75
 Além dos valores antigos foram identificados novos valores, que
expõem novas dinâmicas no sítio;
 Abordagem da história do lugar por meio de análises e interpretações,
e não apenas de forma descritiva;
 O texto aborda os aspectos subjetivos relacionados ao patrimônio de
forma objetiva.
Comentários
O formato da redação da declaração, apresentado os valores e depois
quais são os atributos e objetos patrimoniais, está muito bem estruturado.
Facilita a compreensão da significância do sítio.
A declaração analisada do centro histórico de Olinda foi desenvolvida
entre 2009 pelos alunos do ITUC/AL, curso de Gestão do patrimônio
cultural integrado ao planejamento urbano da América Latina, iniciativa
conjunta entre o Programa de Pós-graduação em Desenvolvimento
Urbano (MDU) da UFPE e o CECI.
Referência Bibliográfica
CECI - ITUC. Plano de Gestão da Conservação do Sítio Histórico de
Olinda/PE. Texto não publicado, 2009.

CASA DE ÓPERA DE SYDNEY


Dados do Bem
Categoria Edifício
País – Região Austrália – Oceania
Tombamento Nacional – Australia's Heritage 2005
Órgão – Ano Internacional – UNESCO 2007
Critérios de Inscrição (i) representa uma obra-prima do gênio criativo
humano;

Análise da Declaração
Redação da Justificativa
Discorre sobre a história do lugar e sobre o processo de construção do
edifício. Apresenta os valores do edifício de forma subjetiva.
Redação da Declaração
O texto é comprido e prolixo, não deixando claro quais são os valores e
significados do bem.
Valores e significados identificados
76
Valores identificados no texto: artístico, arquitetônico, paisagístico,
histórico, simbólico e de uso.
Critérios: autoria, excepcionalidade, inovação tecnológica.
Contribuição
 Apresenta um grande levantamento arquitetônico e iconográfico da
edificação, com mapas, desenhos e fotografias de extrema qualidade;
 Apresenta de forma detalhada os aspectos de concepção e construção
do edifício, que auxilia na não descaracterização do edifício em futuras
intervenções.
Comentários
O documento serve de referência para a elaboração da declaração de
significância de diversos bens, porém, a significância do edifício não é
apresentada de forma objetiva o que dá margem a interpretações pessoais.
A declaração analisado foi o Nomination File elabora pelo governo da
Austrália.
Referência Bibliográfica
UNESCO. Sydney Opera House. Nomination by the Government Of
Australia for inscription on the World Heritage List, 2006.

RIO DE JANEIRO: PAISAGEM CARIOCA ENTRE A


MONTANHA E O MAR
Dados do Bem
Categoria Paisagem cultural
País – Região Brasil – América do Sul

Tombamento Nacional – IPHAN 1973


Órgão – Ano Internacional – UNESCO 2012

Critérios de Inscrição (v) exemplo excepcional de um assentamento humano


tradicional, uso da terra, ou uso do mar, que seja
representativo de uma cultura (ou culturas) ou da
interação humana com o ambiente, especialmente
quando ele se tornou vulnerável sob o impacto de
mudanças irreversíveis;
(vi) associado, direta ou materialmente, a
acontecimentos ou tradições vivas, com ideias, crenças
77
ou obras artísticas e literárias de significado universal
excepcional;
Análise da Declaração
Redação da Justificativa
O texto faz uma breve apresentação, não confundindo a história do sítio
com os seus valores e significados, como acontece comumente nas
declarações.
Redação da Declaração
O texto da declaração é pouco disperso, perdendo por vezes o foco do
significado cultural do sítio.
Valores e significados identificados
Atributos (materiais e imateriais) responsáveis pela significação do sítio:
Cristo Redentor, Pão de Açúcar, jardins de Burle Marx, Aterro do
Flamengo, a Bossa Nova e o Carnaval.
Contribuição
A compreensão que os atributos e objetos patrimoniais responsáveis pela
significação do sítio devem fazer parte da declaração.
Comentários
A inscrição do Rio na Lista já havia sido negada dez anos antes, quando
em 2002, tentou-se inscrevê-lo como um sítio misto (cultural e natural), e a
recomendação foi que tentasse inscrevê-lo em uma categoria nova, a de
paisagem cultural. O novo documento do Rio, semelhante ao da Ópera de
Sydney, é muito bem elaborado, de linguagem clara, e com muitas
imagens e desenhos, o que auxilia na compreensão do sítio como
paisagem cultural.
A declaração analisado foi o Nomination File elabora pelo governo do
Brasil.
Referência Bibliográfica
UNESCO. Rio de Janeiro: Carioca Landscapes between the Mountain and
the Sea. Nomination by the Government of Brazil for inscription on the
World Heritage List, 2012.
78
Anexo A – Olinda

Declaração de significância
Elaborada pelo CECI - ITUC. Plano de Gestão da Conservação do Sítio
Histórico de Olinda/PE, 2009. p.8-9.

Trata este texto da Declaração de Significância do Sitio Histórico de


Olinda, reconhecida como monumento nacional pelo governo federal em
1980 e declarada Patrimônio da Humanidade em 1982, pela UNESCO, na
categoria de centro urbano. A significância cultural deste sítio está expressa
por um conjunto de valores, que se mantiveram ao longo do tempo, quais
sejam: histórico, paisagístico, artístico, arquitetônico e urbanístico, sendo
agregados a estes, dois novos valores: o simbólico e o de uso.

O valor histórico se expressa através do traçado urbano, testemunho


de um processo de ocupação territorial implantado pelos portugueses no
nordeste brasileiro ainda no século XVI, que seguia a tradição medieval de
defesa por altura; do conjunto arquitetônico, composto por um casario
homogêneo e por monumentos religiosos de uma mesma época e estilo; e
das disputas políticas e ideológicas, resultado das primeiras iniciativas de
libertação da coroa portuguesa, evidenciadas em fatos e documentos
históricos que estão registrados em relatos da cultura material e imaterial,
dentre outros.

O valor paisagístico se expressa pela relação harmônica entre o mar,


a massa verde, a topografia, o traçado urbano (vias, quadras e lotes), o
casario e os monumentos. O Sítio Histórico está implantado sobre um
79
conjunto de colinas contíguas ao mar, cuja singularidade do meio ambiente
construído é conferida especialmente pelas igrejas com suas torres, que
estruturam o tecido urbano e compartilham o protagonismo da cena com o
meio ambiente natural. O verde ondulado dos quintais mescla-se aos tons
terrosos dos telhados e dialoga com o azul do mar, compondo assim, uma
paisagem singular.

Os valores urbanístico, arquitetônico e artístico se expressam na


morfologia, nas técnicas e materiais construtivos e nas tipologias das
edificações civis e religiosas. O acervo do Sítio Histórico de Olinda garante
a representatividade de vários séculos na evolução da arte e da arquitetura
brasileira, onde as diversas manifestações do barroco – presente em
fachadas e altares setecentistas – até os conjuntos ecléticos do Século XIX e
XX, convivem em sintonia e muitas vezes se sobrepõem às estruturas dos
períodos anteriores. De modo particular o valor artístico está manifestado
através da unidade estilística do casario e dos monumentos, presente ainda
nos bens móveis e integrados à arquitetura das edificações religiosas.

O valor simbólico se expressa pela relação de permanência dos


testemunhos do passado, das tradições sagradas e profanas (procissões e
carnaval) e culturais (música, danças, tapioca, artesanato e artes plásticas).
Estes bens constituem-se em um conjunto de inestimável riqueza imaterial.
O sentimento de pertencimento dos moradores tem sua raiz na profunda
relação de afetiva ao sítio, que por sua vez tem sua base nas relações de
vizinhança, favorecida pela configuração urbana e na forte participação
social.

Por fim, o valor de uso se expressa pela predominância do uso


residencial ao longo do tempo - vocação primordial do Sítio Histórico - que
atrelado a outros fatores, contribui para a permanência dos valores
anteriormente mencionados. Coexistindo ao uso residencial, o uso religioso
é também é relevante por manter velhas tradições características do lugar
como, por exemplo, as procissões. A presença de ateliês também ganha
80
destaque como uso peculiar do casario histórico, em conseqüência da
interação dos artistas plásticos, poetas e músicos ao Sítio.
81
Anexo B – Sydney Opera House

Proposed statement of outstanding universal value


UNESCO. Sydney Opera House. Nomination by the Government of
Australia for inscription on the World Heritage List, 2006. p.44-45.

The Sydney Opera House is of outstanding universal value as a


masterpiece of 20th century architecture. Its significance is demonstrated
by its unparalleled and seminal design and construction; its exceptional
engineering achievements and technological innovations; and its position
as a world-famous icon of architecture. The Sydney Opera House broke
with the formal traditions of Modernism defining a new expressive form
for civic monuments. It is a daring and visionary experiment that has had
an enduring influence on the emergent architecture of the late 20th century
and beyond.

The human creative genius represented in the Sydney Opera House is


attributable to Danish architect Jørn Utzon and to the ingenuity of other
architects, engineers and building contractors. The genius of Utzon’s design
has been internationally acknowledged by the Pritzker Prize and other
awards, as well as by architectural historians and practitioners around the
world. Utzon’s original design concept and his unique approach to
building gave impetus to a collective creativity. Ingenuity and technical
innovation flourished in collaborative teams of architects, engineers and
builders. The realisation of Utzon’s design concept demanded outstanding
engineering feats by Ove Arup & Partners whose work has also been
82
internationally acclaimed. New technologies, approaches and materials
evolved to create unique architectural forms and a building of rare quality
and character.

The design of the Sydney Opera House is exceptional. Utzon’s design


represents an extraordinary interpretation and response to the setting in
Sydney Harbour. The juxtaposition of the massive, hollow podium and the
light, sculptural superstructure of the shells is unmatched in 20th century
architecture and engineering. The originality of the design lies in the
exceptional way that Utzon unified a diverse range of architectural and
cultural traditions from ancient to modern times in a single building. Utzon
successfully contrasted and married seemingly antithetical ideas and styles.
This is encapsulated in the shells where the strong and dramatic character
of the concrete geometrical shapes simultaneously contrasts and merges
with their equally irrepressible qualities of sculpture, lightness and poetry
and their place as an elemental part of the natural landscape. While the
Sydney Opera House is an outstanding representative of late Modernism it
may also be seen as a rare specimen that defies and resists simplistic
categorisation into a singular architectural style.

The setting of Bennelong Point and Sydney Harbour forms an


intrinsic part of the outstanding universal value of the Sydney Opera
House. Utzon’s design is a sensitive and brilliant response to the landscape
creating a grand urban sculpture with its platform and cave-like shells that
invite inhabitation. Utzon used architecture to create a unique landscape
form. Sydney Harbour is one of the world’s most magnificent harbours and
the design produces wonderful vistas that are experienced both from inside
and outside the building.

The Sydney Opera House is of outstanding universal value for its


achievements in structural engineering and building technology. Utzon’s
genius is evidente in his experimental methodology and work style which
were inextricably linked to his radical design. His approach helped to
inspire engineering solutions and technological innovations that were
83
necessary to transform the initial design into a reality. The construction of
the gigantic podium and the unprecedented and complex shell structure
with ceramic tile cladding and hanging glass walls were all exceptional
technological triumphs. They were made possible by the pioneering of new
building methods and machinery and innovative structural engineering
analysis and testing using new computerised technology and processes.
These feats enabled Utzon’s radical design concept to become a reality. The
Sydney Opera House represents one of the most demanding and
innovative structures in modern architecture.

The Sydney Opera House is an exceptional representative of late


Modernism that was evolving at the time. It endures as one of the world’s
most highly acclaimed buildings of that architectural trend. Utzon’s design
was a most significant step in the history of modern architecture. The
Sydney Opera House exudes creativity, emotion and feeling along with its
spectacular sculptural, functional and powerful geometric forms.

The Sydney Opera House is an outstanding example of 20th century


cultural heritage. Its power to fascinate and excite is universal and it
belongs to the world as a great artistic monument and an iconic building.
The Sydney Opera House has become a building that inspires and delights
people around the world and attracts people to explore its many
remarkable features. It could be seen as making a contribution to
architecture as an expression of universal culture. Like the Finnish master
Alvar Aalto, Utzon created a building that is accessible to society at large.
The Sydney Opera House has been influential in architecture with others
striving to replicate its success.
84
Anexo D – Rio de Janeiro

Statement of outstandig universal value


UNESCO. Rio de Janeiro: Carioca Landscapes between the Mountain and
the Sea. Nomination by the Government of Brazil for inscription on the
World Heritage List, 2012. p. 84-

The three criteria described above, alongside the authenticity and


integrity of the Carioca landscape, are testament to the outstanding
universal value of the proposed site. It is an exceptional example of a
natural landscape that has developed over half a millennium from the
interactions brought about by human settlements and the development of
the city. It epitomises the sharing of human values, having given rise to an
extraordinary set of urban public landscapes, composed of gardens, parks
and protected natural landmarks whose natural scientific significance and
cultural associations grant them unique value worthy of being shared by all
humankind from every generation in the present and the future.

Following the arrival of the Portuguese Court in Rio de Janeiro and


the opening of the ports to friendly shipping in 1808, important scientific
expeditions came to Rio that contributed towards building up a body of
knowledge about biodiversity in tropical lands. The Botanical Gardens
presented an in-situ transformation of the landscape in quite a unique way.
Unlike their European counterparts, where the plant collections were kept
in glasshouses, the huge collection of plants brought to the Botanical
85
Garden of Rio de Janeiro from around the world were, and still are, grown
in the open air.

Scientific knowledge of the native plant life, allied to the romantic


ideals prevalent in the second half of the 19th century, brought with them
increased concerns about environmental preservation. One direct
consequence of this was the expropriation of old farms inside the Tijuca
massif in order to make way for reforestation, resulting in an urban forest
of unique features.

In no other city in the world did the legacy of scientific knowledge


acquired from the work at the Botanical Garden or the expeditions to the
Tijuca Forest become the basis and inspiration for large-scale urban
landscaping projects such as those seen in Rio de Janeiro. In the first
centuries of their existence, they supplied travellers and scholars with
important data for the study of the tropical environment, which served as a
basis for research in Europe and other continents. The Botanic Gardens,
which functioned as an acclimatisation garden, were at the heart of the
scientific enquiry that accompanied Portugal’s colonial enterprise, and
were equally important during the Brazilian Empire, serving as a great
example of scientific exchange between the temperate world and the
tropical world.

The way man has appropriated the exuberant wildlife in the area of
the proposed site is itself outstanding. The man-made transformations of
the landscape, the mountain and the seafront and the way they have been
conceived and occupied have made the city a point of reference the world
over. This is especially true of certain landscaping projects, starting with
the introduction and adaptation to the tropics of European ideas in the 18th
and 19th centuries, as witnessed by the reforestation of the Tijuca massif
and its subsequent transformation into an enormous forested park. This
was followed by the design of Passeio Público and Paris Square, and then,
more recently, the development of a school of modern landscaping which
grew up around Roberto Burle Marx and spread throughout the world, the
main examples of which are the designs for the Copacabana seafront and
86
Flamengo Park.

The quality of the successive interventions made over the course of


time to a site of such great beauty has earned the landscape heritage of Rio
de Janeiro city international recognition. As a colonial capital at the end of
the 17th century, Rio de Janeiro was endowed with the first public urban
space in Brazil, Passeio Público, designed by a leading artist of the day,
Mestre Valentim da Fonseca. It served as a model for several Brazilian
cities, confirming Rio as a model for development.

In the second half of the 19th century, Rio de Janeiro, now the
Imperial capital, had the honour of receiving the notable French botanist
and landscape artist A.M.Glaziou, who introduced the prevailing English
conceptions of garden design, which were beginning to take on in other
parts of Europe, including the parks included in Haussmann’s reform of
Paris. Thus, once again, Rio was the recipient of foreign influences that
were innovative even for European standards. In a very short space of time,
the influence of Glaziou’s work was felt in other Brazilian and American
cities, which confirms the universal value ofhis work. At the beginning of
the Republican period, Rio de Janeiro was the scenario for major
modernising projects: the public spaces thus created perpetuated the model
introduced by Glaziou.

This legacy influenced Burle Marx, who is acknowledged worldwide


for having melded in his work an extraordinary artistic talent with a
profound knowledge of Brazilian flora. This knowledge was gained partly
from research he undertook in his own “private botanic garden”, Santo
Antônio da Bica estate, covering 365,000 m2, and partly from field trips to
different Brazilian ecosystems to gather species. From the 1930s on, Roberto
Burle Marx was constantly engaged in projects that not only earned him
international standing, but garnered Rio de Janeiro worldwide recognition
for its outstanding cultural landscape.
The natural elements of the landscapes, which are reflected
87
throughout the world as symbolic values and associated images, have
served as inspiration for artists, architects, town planners and landscape
designers throughout the ages. There are countless representations of the
escarpments of Sugar Loaf and Corcovado, with its statue of Christ the
Redeemer; the mouth of Guanabara Bay, with its old fortresses built to
assure the bay’s defence; and, more recently, the outstanding landscapes of
Flamengo Park and Copacabana Beach, which together make up the
Carioca landscape.

The transformations of Copacabana beach – its design, enlargement


and planning to accommodate crowds – well reflect the ideal that spread
around the world over the course of the 20th century that the beach is the
epitome of leisure and pleasure-seeking. They also gave impetus to the
incipient beach culture, helping make Copacabana beach itself a world
icon.

Rio’s unique culture developed within this landscape and is


intrinsically linked to it. Certain aspects of its culture have spread
throughout the world, especially its music. Bossa Nova was born in
Copacabana, while samba is present in the biggest festival in the city,
Carnival, which has been a blueprint for other carnival festivities, with
samba schools and parades now a fixture in every continent.

The outstanding universal value of Rio de Janeiro’s cultural


landscape is therefore granted by a whole set of outstanding ways in which
man has interacted with the natural environment, all of which can be found
in combination today in an urban site which represents one of the world’s
greatest cities. The values are embedded in the studies of the natural
environment and botanical experiments which formed the bedrock of the
colonial experiment in establishing a society in the tropics, best represented
by the Botanic Gardens and Tijuca Forest. They can also be seen in
landscape designs that became an inspiration the world over, as in
Glaziou’s and then Burle Marx’s gardens, and in the development of
88
recreational and leisure activities involving the environment and places for
enjoying the scenery, as epitomised by the public parks and, above all, the
ideal of the beach whose most compelling icon is Copacabana.

Rio de Janeiro’s cultural landscape deserves to be recognised as


world heritage as much for the pioneering spirit behind its development as
for its great formal qualities, its social, cultural and environmental
functionality, and its historical importance.
89
Anexo D – Trecho da Lista de Objetos e Processos
Patrimoniais de Olinda
Elaborada por Lúcia Hidaka, em sua tese de doutoramento Indicador de
Avaliação do Estado de Conservação Sustentável de Cidades – Patrimônio
Cultural da Humanidade: teorias, metodologia e aplicação, 2011.

Lista de objetos e processos


(atributos físico-materiais e não materiais)

OBJETOS
2. Percurso do conjunto ladeira da
Sé, Horto, Igreja Sé, caixa d’água, 3. Percurso do conjunto Igreja do
casario, Igreja da Conceição, Igreja Carmo, convento, Igreja de São
da Misericórdia e ladeira da Pedro, casario e praças
Misericórdia.

4. Percurso do conjunto Quatro 5. Percurso do conjunto Igreja da


Cantos, casario, Mercado da Graça, colégio jesuíta, mirante e
Ribeira, Prefeitura, Igreja e Horto.
Mosteiro de São Bento.
6. Percurso do conjunto Varadouro:
8. Vista da Misericórdia para o
90
mercado, Igreja São Sebastião,
Istmo e Recife ao fundo.
casario, ladeira da Prefeitura.

PROCESSOS
1. Procissões religiosas e
2. Convivência dos usos residencial,
manifestações de sincretismo
religioso e educacional.
religioso

3. Manutenção do equilíbrio entre o


traçado urbano, parcelamento 5. Manutenção das técnicas
antigo, cobertura vegetal (fundo construtivas e revestimentos
lotes), ocupação dos lotes e tradicionais.
tipologia arquitetônica.

7. Artesanato de entalhe na
6. Carnaval
madeira.
91

Foram utilizadas para o texto as fontes Book Antiqua e Bookman Old


Style, e na capa Hand of Sean. Capa impressa em papel colorplus 120g
pequim, e páginas internas em papel ofício 90g.
Diagramação: Gabriela Azevêdo (azvdo.gabi@gmail.com).
Concepção da capa: Marina Mattos (ninamattos.projetos@gmail.com).

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