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Este livro, juntamente com uma série de seminários focados na


temática de Atividade de Inteligência e Segurança Pública, são
ORGANIZADORES: os produtos do Programa de Pós-Graduação lato sensu em
WANDO DIAS MIRANDA Atividade de Inteligência e Gestão do Conhecimento
ROBERTO MAGNO REIS NETTO desenvolvido pela Escola Superior Madre Celeste – ESMAC,
LUIS ROBERTO LOBATO DOS SANTOS desde o ano de 2015, com o objetivo de promover capacitação
integrada dos profissionais de segurança pública do Estado do
ILTON RIBEIRO DOS SANTOS
Pará e contribuindo para o desenvolvimento de uma sociedade
cidadã.
Os desafios são enormes, mas a vontade de enfrentá-los e dar
respostas consistentes deve ser tão forte qual, seguindo os

ATIVIDADE DE
princípios do Art. 144 da CF/88 que estabelece que a Segurança
Pública como dever do Estado e direito e responsabilidade de
todos. Assim, estamos contribuindo com a nossa parte.

INTELIGÊNCIA E
(Wando Dias Miranda)

SEGURANÇA PÚBLICA
O Brasil e as Trincheiras
do Século XXI

:
EDIÇÕES DOS AUTORES
ANANINDEUA
2018
ORGANIZADORES:
WANDO DIAS MIRANDA
ROBERTO MAGNO REIS NETTO
LUIS ROBERTO LOBATO DOS SANTOS
ILTON RIBEIRO DOS SANTOS

ATIVIDADE DE INTELIGÊNCIA E SEGURANÇA


PÚBLICA:
O Brasil e as trincheiras do século XXI

EDIÇÕES DOS AUTORES


ANANINDEUA
2018
Wando Dias Miranda
Roberto Magno Reis Netto
Luis Roberto Lobato dos Santos
Ilton Ribeiro dos Santos

DIAGRAMAÇÃO E CAPA:
Roberto Magno Reis Netto
Ilton Ribeiro dos Santos
ILUSTRAÇÃO DE CAPA:
Sandra Cristina Ferreira dos Santos

MIRANDA, Wando Dias; REIS NETTO, Roberto Magno;


SANTOS, Luis Roberto Lobato; SANTOS, Ilton Ribeiro
Dos. ATIVIDADE DE INTELIGÊNCIA E SEGURANÇA
PÚBLICA: O Brasil e as trincheiras do século XXI
Ananindeua/PA: Edições dos Autores, 2018.

ISBN 978-85-922616-2-7 (Edição Brasileira)


1. ATIVIDADE DE INTELIGÊNCIA 2. SEGURANÇA
PÚBLICA. 3. ESTUDOS INTERDISCIPLINARES.

Todos os Direitos Reservados. Obras Gratuita editada


em comemoração aos 10 anos do curso de Graduação
em Direito da Escola Superior Madre Celeste (ESMAC).
Não autorizada a reprodução para venda ou qualquer
outra atividade que não a disseminação do
conhecimento, exceto pela própria ESMAC, para
compensação de custos na venda da versão impressa
do livro.
Apresentação

O problemas enfrentados pela segurança pública no


novo século são tão desafiadores para as novos gestores,
como também são oportunidades para repensar a estratégia
de segurança pública da a sociedade, em um cenários onde
os recursos econômicos são limitados devidos as mudanças
estruturais da economia dos estados, e os constantes
avanços tecnológicos, nos leva a um novo paradigma onde
antigas estratégias que foram usadas durantes séculos na
identificação de criminosos, hoje não atendem mais as
necessidades de uma sociedade cada vez mais informatizada,
tecnológica e global.
As transformações nos cenários políticos e
econômicos que contribuíram para o fim da Guerra Fria no
final do século passado, e a necessidade de construção de
uma nova ameaça internacional levou ampliação dos
conflitos assimétricos em escala mundial, como o
neoterrorismo inaugurando pelos ataques do 11 de setembro
de 2001 nos Estado Unidos pela Al-Qaeda, que possuiu como
uma de suas principais característica a deflagração do terror
a sociedade civil por um inimigo sem rosto, um inimigo que
está dentro da sociedade agindo como um cidadão comum
no meio de tatos outros.
Fato esse que foi evidenciado durante as audiências
da Comissão Nacional sobre os Ataques Terroristas nos
Estados Unidos, conhecida como Comissão 11/9 que
demostrou a fragilidade do sistema de segurança interna dos
EUA e principalmente a desarticulação das redes internas dos
serviços de inteligência que não compartilhavam
informações sobre fatos de potencial risco a sociedade,
sendo que os desdobramentos levaram a uma reestruturação
das agência de segurança e mais de uma década de uma
Guerra ao Terror.
A nível interno a gestão do presidente George W.
Bush estabeleceu o Patriot Act como uma forma estabelecer
um controle interno da população, passando por cima dos
instrumentos legais consagrados pela Constituição dos EUA
em nome da segurança coletiva, o que levou a uma série de
debates sobre a validade desses atos e até onde o Estado
poderia ir em nome da segurança nacional?
Esse período inaugurou uma nova fase para as
agências de inteligência que passaram a ter mais poderes e
seu escopo de atuação se intensificou, passando a
acompanham além de grupos terroristas internacionais e
domésticos, atividades relacionadas ao narcotráfico, lavagem
de dinheiro e a corrupção de agentes públicos, servindo
como ferramenta de assessoramento ao processo decisório e
auxiliando na identificação de vulnerabilidades do sistema e
oportunidades de ações para os tomadores de decisões.
Na América Latina tivemos um movimento
internacional diferente do que acontecia na Europa e nos
EUA, principalmente pelo fato que o final dos nos 70 e 80
marcaram o início do processo de redemocratização política
do continente e o fim de um ciclo de regimes autoritários. O
“perigo vermelho” agora passaria a fazer parte do processo
eleitoral com as aberturas políticas e a regularização dos
partidos de esquerda, abrindo espaço para um “acerto de
contas” democráticos das agências civis de informações
(como o SNI no Brasil, SIDE na Argentina e DINA no Chile),
que atuavam em conjunto com os órgãos de repressão do
Estado, o que levou a uma serie de mortes que ainda hoje
necessitam de respostas e a criação de um estigma negativo
em relação aos serviços reservados de informação.
A redemocratização levou a reestruturação dessas
agências adequando-as ao Estado de Direito e aos processos
de prestação de contas de seus atos a sociedade através de
criação de sistema de controle interno e externo, mas
principalmente da mudança do foco que deixará de ser
político para atuarem na segurança interna e na defesa
nacional, levando inclusive a modificação de sua filosofia de
atuação que passou a ser a de Inteligência em vez de
Informação, uma mudança que leva a uma reflexão sobre o
presente e o futuro. Assim o SNI foi substituído pela ABIN, a
SIDE pela AFI e a DINA pela ANI.
A redemocratização também representou para muitos
países do continente um movimento político que abriu
oportunidades para a estruturação de grupo criminosos
internos e a articulação do tráfico interno e do internacional
de drogas, além do aumento da criminalidade em suas
diversas formas impulsionada pelo alargamento dos
problemas socioeconômicos e da corrupção nos governos, o
que levou a constituições de regiões onde o poder do Estado
é fracamente sentida, o que leva a configuração de vácuos de
poder que acabam sendo preenchida por grupos criminosos
que passam a controla territórios nacionais, como os casos
do narcotráfico na Colômbia e as favelas no Brasil.
No Brasil essa mudança se deu durante a gestão do
Presidente Fernando Henrique Cardoso com a promulgação
da Lei Federal nº 9.883/1999 que estabeleceu as bases da
Agência Brasileira de Inteligência – ABIN e do Sistema
Brasileiro de Inteligência – SISBIN, sendo a ABIN o órgão
maior da atividade de inteligência do Brasil e responsável
pela articulação da atividade a nível nacional e internacional,
possuindo superintendências regionais nos 26 estados
brasileiros, além de subunidades em localidades estratégicas,
principalmente em regiões fronteiriças e representações em
quatorze países da América do Sul, América do Norte, África
e Europa.
A atividade de Inteligência Estratégica de Estado –
AIEE desenvolvida pela ABIN caracteriza-se pela identificação
de fatos e situações que representem ameaças ou
oportunidades aos interesses nacionais, agindo de maneira
ostensiva na obtenção de informações, no levantamento e no
processamento de dados e na análise de informações que
serviram para produção de um conhecimento sensível de alto
valor estratégico para o Estado, mas que devido aos
problemas de econômicos nacionais, acaba por sofrer de
uma dos graves problemas da administração pública
moderna, o de ter uma missão bastante ampla e dispor de
poucos recurso humanos e financeiros para tal, o que
impacta diretamente no setor da segurança pública, onde
ainda encontramos um modelos de inteligência de ilhas,
fechado e sem comunicação com as outras agência, o que
traz graves consequências para a articulação de um sistema
nacional de inteligência de Segurança Pública.
A atividade de Inteligência de Segurança Pública –
AISP se diferencia da Inteligência de Estado devido seu foco
de ação, assim a Secretária Nacional de Segurança Pública,
através de Decreto 3.695/2000 a defini como o exercício
sistemático de ações especializadas na identificação,
acompanhamento e avaliação de ameaças reais ou potenciais
na esfera de Segurança Pública, bem como para a obtenção,
produção e salvaguarda de conhecimentos, informações e
dados que subsidiem ações para neutralizar, coibir e reprimir
atos criminosos de qualquer natureza.
A AISP possui uma natureza muito mais especifica de
atuação do que a AIEE, o que por si só já seria um enorme
desafio devidos a ampliação dos problemas socioeconômicos
e os crimes de corrupção, denunciados pela mídia nacional
que atingem a todas esferas de poder da nação, somando-se
a isso ainda temos as limitações de recursos humanos e
materiais e a necessidade de dar respostas rápidas para
atender o clamor de uma população que se sente cada vez
mais desamparada pelo Estado e a mercê da violência
cotidiana.
Os crimes de narcotráfico, organizações criminosas e a
corrupção podem ser considerados como os carros chefes de
um desfile de crimes e impunidades que tomam de assalto
todos os dias nossas casas pelos meios de comunicações
aumentando ainda mais nossa percepção de insegurança nas
cidades e no interior, o poder dos grupos criminosos não
está mais contido em áreas de periferias, longe dos olhos da
sociedade, mas vem tomando a cada dia os espaços urbanos,
estabelecendo verdadeiras redes de poder e medo aos
moldes do estado Hobbesiano.
Esse cenário de crise pode ser compreendido também
como uma oportunidade para repensar a estratégia de
enfretamento ao crime com ações estratégicas de
identificação das vulnerabilidades e aplicação dos recursos
de forma racional em ações pontuais que podem ser
oferecidas pela integração a nível institucional dos diversos
órgãos de inteligência dos Estados e a busca de sua
capacitação continua visando o aprimoramento de suas
metodologias de atuação, buscando esse objetivo, este livro,
juntamente com uma série de seminários focados na
temática de Atividade de Inteligência e Segurança Pública
são os produtos do Programa de Pós-Graduação lato sensu
em Atividade de Inteligência e Gestão do Conhecimento
desenvolvido pela Escola Superior Madre Celeste – ESMAC
desde o ano de 2015, com o objetivo de promover
capacitação integrada dos profissional de segurança pública
do Estado do Pará e contribuindo para o desenvolvimento de
uma sociedade cidadã.
Os desafios são enormes, mas a vontade de enfrentá-
los e dar respostas consistentes deve ser tão forte qual,
seguindo os princípios do Art. 144 da CF/88 que estabelece
que a Segurança Pública, como dever do Estado e direito e
responsabilidade de todos, assim, estamos contribuindo com
a nossa parte.

Prof. Wando Dias Miranda


Agradecimentos

A presente obra só foi concretizada graças ao apoio


da Direção Geral da Escola Superior Madre Celeste -
ESMAC, aqui homenageada na pessoa da Diretora
Geral Maria Iranilse Dias Brasil Pinheiro.

É fundamental agradecer, igualmente, o apoio


incondicional da Coordenação do Curso de
Graduação em Direito, na pessoa do Professor-
Coordenador, Prof. Luis Roberto Lobato dos Santos
(decano no curso e eterno comandante deste corpo
docente, com muita honra), assim como da
Coordenadora Adjunta, Prof. Susan Natasha Lima
Brasil.

Aos Organizadores do Livro, professores Wando Dias


Miranda, Roberto Magno Reis Netto e Luis Roberto
Lobato dos Santos, pelos desmedidos esforços na
execução de todas as atividades necessárias à
concretização da obra, do primeiro ao último
momento.

Ao Professor Ilton Ribeiro dos Santos, Coordenador


do Núcleo de Pesquisa da ESMAC, pelos esforços
editoriais, de diagramação, idealização e execução
dos aspectos artísticos da obra.

A todos os componentes dos Conselhos Editorial e


Científico da obra, que, gratuitamente e sob o único
intento de desenvolvimento da ciência, dispensaram
importante tempo de suas vidas para análise das
demandas solicitadas, contribuindo, assim, de
maneira fundamental à qualidade do produto final.

Aos autores que, abraçando esta iniciativa inédita na


instituição, abraçaram o propósito da obra e são os
principais protagonistas de cada linha deste livro.

Ao ANÁNKÊ – Observatório Jurídico, Político e Social,


na pessoa dos Professores Wando Dias Miranda e
Roberto Magno Reis Netto, nascido da unificação dos
Projetos de Pesquisa e Extensão em Atividade de
Inteligência e Segurança Pública, Novos Paradigmas
do Direito Civil e Processual Civil e Novos
Pesquisadores, responsável pela atividade de
divulgação da chamada e captação de autores, bem
como, de formação da rede científica responsável
pela análise científica da obra.

Aos discentes da ESMAC, que, ao longo destes 10


anos do curso de Graduação em Direito, foram a
inspiração de todos os debates que, atualmente,
resultaram na realização desta obra.

Parabéns e obrigado!

A ESMAC.
Organizadores da Obra

WANDO DIAS MIRANDA


Doutor em Planejamento do Desenvolvimento pelo
NAEA/UFPA; Mestre em Ciência Política pelo
PPGCP/UFPA, com ênfase em Relações Internacionais,
Políticas Públicas de Defesa, Fronteira e Amazônia.
Especialista em Gestão Estratégica em Defesa Social pela
Universidade Estadual do Pará (UEPA) e Atividade de
Inteligência e Gestão do Conhecimento (ESMAC).
Bacharel e Licenciado Pleno em Ciências Sociais.
Atualmente pesquisador do Observatório de Estudos de
Defesa da Amazônia (OBED).

ROBERTO MAGNO REIS NETTO


Mestre em Segurança Pública (UFPA). Especialista em
Direito Processual Civil (UGF/DF), Docência no Ensino
Superior (UGF/DF) e Atividade de Inteligência e Gestão do
Conhecimento (ESMAC/`PA). Graduado em Direito (UFPA).
Oficial de Justiça Avaliador do TJ/PA. Professor (ESMAC E
IESP) e Pesquisador.

LUIS ROBERTO LOBATO DOS SANTOS


Possui graduação em Direito pela UFPA - Universidade
Federal do Pará (1997), graduação em Curso de Formação
de Oficiais pela Academia de Polícia Militar do Ceará
(1976) e mestrado em Direito pela Universidade
Metropolitana de Santos (2003). Especialista em Direito
Ambiental e Políticas Públicas pela UFPA e Direito
Processual Penal pela UniFMU/SP (Universidade
Metropolitanas Unidas). Atualmente é Coordenador do
Curso de Direito da ESMAC (Escola Superior Madre
Celeste).

ILTON RIBEIRO DOS SANTOS


Graduado em Letras (UFPA), pós-graduado (lato senso)
em Semiótica e Cultura Visual (UFPA) e mestrado em
Artes pela (UFPA). No mestrado foi bolsista da
Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível
Superior - CAPES. Doutorando no Programa de Pós-
Graduação em Letras da Universidade Federal do Pará
(PPGL-UFPA), bolsista da Fundação Amazônia de
Amparo a Estudos e Pesquisas - FAPESPA.
Conselho Editorial

PRESIDÊNCIA DO CONSELHO EDITORIAL

WANDO DIAS MIRANDA


Doutor em Planejamento do Desenvolvimento pelo
NAEA/UFPA. Mestre em Ciência Política pelo
PPGCP/UFPA, com ênfase em Relações Internacionais,
Políticas Públicas de Defesa, Fronteira e Amazônia.
Especialista em Gestão Estratégica em Defesa Social
pela Universidade Estadual do Pará (UEPA) e
Atividade de Inteligência e Gestão do Conhecimento
(ESMAC). Bacharel e Licenciado Pleno em Ciências
Sociais. Atualmente pesquisador do Observatório de
Estudos de Defesa da Amazônia (OBED).

COORDENADORES ADJUNTOS DO CONSELHO


EDITORIAL

ROBERTO MAGNO REIS NETTO


Mestre em Segurança Pública (UFPA). Especialista em
Direito Processual Civil (UGF/DF). Docência no Ensino
Superior (UGF/DF) e Atividade de Inteligência e
Gestão do Conhecimento (ESMAC/PA). Graduado em
Direito (UFPA). Oficial de Justiça Avaliador do TJ/PA.
Professor (ESMAC E IESP) e Pesquisador.

LUIS ROBERTO LOBATO DOS SANTOS


Possui graduação em Direito pela UFPA) Universidade
Federal do Pará (1997), graduação em Curso de
Formação de Oficiais pela Academia de Polícia Militar
do Ceará (1976) e mestrado em Direito pela
Universidade Metropolitana de Santos (2003).
Especialista em Direito Ambiental e Políticas Públicas
pela UFPA e Direito Processual Penal pela UniFMU/SP
(Universidade Metropolitanas Unidas). Atualmente é
Coordenador do Curso de Direito da ESMAC (Escola
Superior Madre Celeste).

ILTON RIBEIRO DOS SANTOS


Graduado em Letras (UFPA), pós-graduado (lato
senso) em Semiótica e Cultura Visual (UFPA) e
mestrado em Artes pela (UFPA). No mestrado foi
bolsista da Coordenação de Aperfeiçoamento de
Pessoal de Nível Superior - CAPES. Doutorando no
Programa de Pós-Graduação em Letras da
Universidade Federal do Pará (PPGL-UFPA), bolsista
da Fundação Amazônia de Amparo a Estudos e
Pesquisas - FAPESPA.

MEMBROS EXECUTIVOS DO CONSELHO EDITORIAL

RODRIGO MAGALHÃES PESSÔA


É Advogado e doutorando em Direito Fiscal pela
Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa,
tendo obtido mestrado em Direitos Humanos e
Tributação pela Universidade Federal do Pará- UFPA
(2008), especialização em Direito Tributário e
Legislação de Impostos pela Estácio de Sá/RJ (2002),
possui graduação em Direito pela Universidade da
Amazônia - UNAMA (2001). Atualmente é professor
convidado do curso de Pós-Graduação do Instituto
Carreira, da Instituição de Ensino Estácio-FCAT, bem
como professor de graduação e pós-graduação do
curso de Direito da Faculdade DeVry-Faci e da Escola
Superior Madre Celeste - ESMAC.

THALES MAXIMILLIANO RAVENA CAÑETE


Possui graduação em Ciências Sociais pela
Universidade Federal do Pará (2009) e em Direito pela
Universidade da Amazônia (2013), mestrado em
Direito, linha de pesquisa Direitos Humanos e Meio
Ambiente pelo Programa de Pós-Graduação em
Direito da UFPA (2012), doutor pelo Programa de Pós-
Graduação em Ciências Sociais da UFPA. Atualmente
é professor do curso de direito da Escola Superior
Madre Celeste. Bolsista de Pós Doutorado da UNAMA.

ELANE BOTELHO MONTEIRO


Graduada em Letras com Habilitação em Língua
Portuguesa e Inglesa (Universidade Anhanguera) e
Bacharela em Direito (ESMAC). Graduanda em
Pedagogia (FACIBRA). Especialista em Processo: Civil,
Constitucional, Trabalho e Penal (Faculdade Maurício
De Nassau). Especialista em Direito Tributário
(Universidade Cândido Mendes) e em Educação a
Distância (FACIBRA). Pós-graduanda em Direito do
Trabalho (Universidade Cândido Mendes) e em
Português Jurídico (Universidade Unyleya).
Atualmente é professora de Língua Portuguesa,
Inglesa e Redação do Colégio Alfa e do curso de
Direito da ESMAC. Docente do Curso de Pós-
graduação da UNAMA.
MARIA IRANILSE DIAS BRASIL PINHEIRO
Possui graduação em curso de Graduação
Enfermagem e Obstetrícia pela Escola de Enfermagem
Magalhães Barata(1993), especialização em Curso de
Especialização em Avaliação Institucional pelo Centro
Universitário do Estado do Pará (2002) e
especialização em Administração de Instituições
Escolares pelo Centro Universitário do Estado do Pará
(2002). Atualmente é Diretora Geral da Escola
Superior Madre Celeste.

SANDRA CRISTINA FERREIRA DOS SANTOS


Possui Doutorado em Ciências da Educação pela
Universidad Autónoma de Asunción, Mestrado em
Educação: Ensino Superior e Gestão Universitária pela
Universidade da Amazônia (1999). Atualmente é
Professora Assistente III da Universidade do Estado do
Pará, Coordenadora do curso de Artes Visuais da
Escola Superior Madre Celeste, Coordenadora do
Instituto Superior de Educação e Coordenadora de
Extensão da ESMAC e Diretora Acadêmica da ESMAC.

SUSAN NATASHA LIMA BRASIL


Possui graduação em Direito pela Escola Superior
Madre Celeste (2015). Secretaria do Curso de Direito
da Escola Superior Madre Celeste e Coordenadora
Adjunta do Curso de Direito da Escola Superior Madre
Celeste. Advogada.
Conselho Científico

PRESIDÊNCIA DO CONSELHO CIENTÍFICO

ROBERTO MAGNO REIS NETTO


Mestre em Segurança Pública (UFPA). Especialista em
Direito Processual Civil (UGF/DF), Docência no Ensino
Superior (UGF/DF) e Atividade de Inteligência e
Gestão do Conhecimento (ESMAC/PA). Graduado em
Direito (UFPA). Oficial de Justiça Avaliador do TJ/PA.
Professor (ESMAC E IESP) e Pesquisador.

COORDENADORES ADJUNTOS DO CONSELHO


CIENTÍFICO

LUIS ROBERTO LOBATO DOS SANTOS


Possui graduação em Direito pela UFPA) Universidade
Federal do Pará (1997), graduação em Curso de
Formação de Oficiais pela Academia de Polícia Militar
do Ceará (1976) e mestrado em Direito pela
Universidade Metropolitana de Santos (2003).
Especialista em Direito Ambiental e Políticas Públicas
pela UFPA e Direito Processual Penal pela UniFMU/SP
(Universidade Metropolitanas Unidas). Atualmente é
Coordenador do Curso de Direito da ESMAC (Escola
Superior Madre Celeste).

WANDO DIAS MIRANDA


Doutor em Planejamento do Desenvolvimento pelo
NAEA/UFPA. Mestre em Ciência Política pelo
PPGCP/UFPA, com ênfase em Relações Internacionais,
Políticas Públicas de Defesa, Fronteira e Amazônia.
Especialista em Gestão Estratégica em Defesa Social
pela Universidade Estadual do Pará (UEPA) e
Atividade de Inteligência e Gestão do Conhecimento
(ESMAC). Bacharel e Licenciado Pleno em Ciências
Sociais. Atualmente pesquisador do Observatório de
Estudos de Defesa da Amazônia (OBED).

MEMBROS EXECUTIVOS DO CONSELHO CIENTÍFICO

RODRIGO MAGALHÃES PESSÔA


É Advogado e doutorando em Direito Fiscal pela
Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa,
tendo obtido mestrado em Direitos Humanos e
Tributação pela Universidade Federal do Pará- UFPA
(2008), especialização em Direito Tributário e
Legislação de Impostos pela Estácio de Sá/RJ (2002),
possui graduação em Direito pela Universidade da
Amazônia - UNAMA (2001). Atualmente é professor
convidado do curso de Pós-Graduação do Instituto
Carreira, da Instituição de Ensino Estácio-FCAT, bem
como professor de graduação e pós-graduação do
curso de Direito da Faculdade DeVry-Faci e da Escola
Superior Madre Celeste - ESMAC.

THALES MAXIMILLIANO RAVENA CAÑETE


Possui graduação em Ciências Sociais pela
Universidade Federal do Pará (2009) e em Direito pela
Universidade da Amazônia (2013), mestrado em
Direito, linha de pesquisa Direitos Humanos e Meio
Ambiente pelo Programa de Pós-Graduação em
Direito da UFPA (2012), doutor pelo Programa de Pós-
Graduação em Ciências Sociais da UFPA. Atualmente
é professor do curso de direito da Escola Superior
Madre Celeste. Bolsista de Pós Doutorado da UNAMA.

ILTON RIBEIRO DOS SANTOS


Graduado em Letras (UFPA), pós-graduado (lato
senso) em Semiótica e Cultura Visual (UFPA) e
mestrado em Artes pela (UFPA). No mestrado foi
bolsista da Coordenação de Aperfeiçoamento de
Pessoal de Nível Superior - CAPES. Doutorando no
Programa de Pós-Graduação em Letras da
Universidade Federal do Pará (PPGL-UFPA), bolsista
da Fundação Amazônia de Amparo a Estudos e
Pesquisas - FAPESPA.

MARIA IRANILSE DIAS BRASIL PINHEIRO


Possui graduação em curso de Graduação
Enfermagem e Obstetrícia pela Escola de Enfermagem
Magalhães Barata(1993), especialização em Curso de
Especialização em Avaliação Institucional pelo Centro
Universitário do Estado do Pará (2002) e
especialização em Administração de Instituições
Escolares pelo Centro Universitário do Estado do Pará
(2002). Atualmente é Diretora Geral da Escola
Superior Madre Celeste.

SANDRA CRISTINA FERREIRA DOS SANTOS


Possui Doutorado em Ciências da Educação pela
Universidad Autónoma de Asunción, Mestrado em
Educação: Ensino Superior e Gestão Universitária pela
Universidade da Amazônia (1999). Atualmente é
Professora Assistente III da Universidade do Estado do
Pará, Coordenadora do curso de Artes Visuais da
Escola Superior Madre Celeste, Coordenadora do
Instituto Superior de Educação e Coordenadora de
Extensão da ESMAC e Diretora Acadêmica da ESMAC.

SUSAN NATASHA LIMA BRASIL


Possui graduação em Direito pela Escola Superior
Madre Celeste (2015). Secretária do Curso de Direito
da Escola Superior Madre Celeste e Coordenadora
Adjunta do Curso de Direito da Escola Superior Madre
Celeste. Advogada.

CLARINA DE CÁSSIA DA SILVA CAVALCANTE


Possui graduação em Enfermagem pela Universidade
Federal do Pará (2007). É especialista em Enfermagem
Neonatal, pela Universidade Federal do Pará (2009) e
em Enfermagem do Trabalho pela FTI-UNINTER
(2012). Pós-Graduanda em Atividade de Inteligência e
Gestão do Conhecimento (ESMAC). Técnica em Gestão
Penitenciária (Enfermagem) junto à Superintendência
do Sistema Penitenciário do Estado do Pará (SUSIPE)
e Pesquisadora.

ADRIANA CÉLIA PALHETA DE ANDRADE MAIA


MONTEIRO
Graduada em Direito pela Universidade da Amazônia.
Pós-graduada em Gestão e docência no Ensino
Superior – ESMAC. Advogada, Mediadora e
Conciliadora – TJE – PA, Delegada da Escola Superior
de Advocacia – ESA – OAB/PA, Professora
Universitária e Palestrante.

ELANE BOTELHO MONTEIRO


Graduada em Letras com Habilitação em Língua
Portuguesa e Inglesa (Universidade Anhanguera) e
Bacharela em Direito (ESMAC). Graduanda em
Pedagogia (FACIBRA). Especialista em Processo: Civil,
Constitucional, Trabalho e Penal (Faculdade Maurício
De Nassau). Especialista em Direito Tributário
(Universidade Cândido Mendes) e em Educação a
Distância (FACIBRA). Pós-graduanda em Direito do
Trabalho (Universidade Cândido Mendes) e em
Português Jurídico (Universidade Unyleya).
Atualmente é professora de Língua Portuguesa,
Inglesa e Redação do Colégio Alfa e do curso de
Direito da ESMAC. Docente do Curso de Pós-
graduação da UNAMA.

ELIANE CRISTINA MONTEIRO CARVALHO


Graduada em Letras com Habilitação em Língua
Portuguesa e Espanhola (ESMAC). Especialista em
Gestão Educacional e Projetos (INEX). Atualmente é
docente do Colégio Sophos, Impacto, Paulista, Equipe,
Physics, Logos e Ideal.

ELIENE BOTELHO MONTEIRO


Graduada em Letras com Habilitação em Língua
Inglesa (UFPA). Pós-graduanda em Ensino e
Aprendizagem da Língua Inglesa (FIBRA). Atualmente
é professora substituta de Língua Inglesa e suas
Literaturas do Instituto de Letras e Comunicação
(ILC/UFPA). Professora de Inglês acadêmico para fins
específicos do Idiomas sem Fronteiras (ISF/UFPA). É
professora dos Cursos Livres de Línguas Estrangeiras
(CLLE/UFPA).
LAÍSE MACIEL BARROS
Graduada em Letras – Língua Portuguesa pela
Universidade Federal do Pará (UFPA) e Mestra no
Programa de Pós-graduação em Letras (PPGL-UFPA),
desenvolvendo pesquisas vinculadas aos estudos
linguísticos, mais precisamente, às análises, descrição
e documentação de línguas naturais.

CLÊBIA DE SOUZA COSTA


Professora da Escola Superior Madre Celeste, Doutora
em Direito e Ciências Sociais na Universidad del
Museo Social Argentino. Advogada.

ANGÉLICA MARIA LINS DOS SANTOS


Possui graduação em Direito pela Universidade da
Amazônia (2009). Tem experiência na área de Direito,
com ênfase em Direito e Processo do Trabalho.
Atualmente, advoga e é professora de Direito do
Trabalho I e II e Ética Profissional na Escola Superior
Madre Celeste – ESMAC.

MURILO DARWICH CASTRO DE SOUZA


Mestre em Direitos Fundamentais pela Universidade
da Amazônia - UNAMA. Advogado regularmente
inscrito na Ordem dos Advogados do Brasil. Possui
graduação em Direito pela Universidade da Amazônia
(2012). Tem experiência na área de Direito, com
ênfase em Ciências criminais. Pós-graduado em
Direito Penal e Processo Penal pela faculdade
Maurício de Nassau em parceria com a Escola
Superior de Advocacia. Pós-graduado em Ciências
Criminais pelo Centro Universitário do Pará. Professor
de Direito Penal e Processo Penal na Faculdade
Metropolitana da Amazônia - FAMAZ. Professor de
Direito Penal e Processo Penal na Escola Superior
Madre Celeste - ESMAC.

ITAMAR ROGERIO PEREIRA GAUDÊNCIO


Doutor em História Social da Amazônia/UFPA (2016);
Mestre em História Social da Amazônia/UFPA(2007);
Especialista em Ciências Jurídicas pela Universidade
Cruzeiro do Sul (2015). Especialista em Defesa Social e
Cidadania IESP(2017). Bacharel e Licenciado Pleno em
História pela Universidade Federal do Pará (2003).
Bacharel em Ciência da Defesa Social e Cidadania
IESP/UEPA (2008). Bacharel em Direito pela
Universidade Cidade de São Paulo-UNICID (2016).
Atualmente é Capitão da PMPA. Docente do Curso de
História na Escola Superior Madre Celeste. Membro
efetivo do Instituto Histórico e Geográfico do Pará na
cadeira nº 30 cujo patrono é o historiador Manoel
Barata. Sócio honorário da Academia de Letras e
Artes de Bragança.

FRANCISCO NICOLAU DOMINGOS Doutor em Direito


Tributário. Professor Adjunto no Instituto Superior de
Contabilidade e Administração de Lisboa
(ISCAL)/Instituto Politécnico de Lisboa. Árbitro em
matéria tributária junto do CAAD.

CLAY ANDERSON NUNES CHAGAS


Possui graduação em Geografia Licenciatura e
Bacharelado pela Universidade Federal do Pará
(1998), mestrado em Desenvolvimento Sustentável do
Trópico Úmido (2002) e doutorado em
Desenvolvimento Socioambiental pela Universidade
Federal do Pará (2010). Atualmente é Vice Reitor da
Universidade do Estado do Pará, participa do
Programa de Pós Graduação em Geografia e do
Programa de Pós Graduação em Segurança Pública
pela Universidade Federal do Pará. Professor da
Universidade do Estado do Pará atuando no curso de
graduação em Geografia. Professor Colaborador no
Instituto de Ensino em Segurança Pública e Defesa
Social do Estado Pará e Professor Colaborador da
Universidade de Cabo Verde no Programa de Pós
Graduação em Segurança Pública. É associado ao
Fórum Brasileiro de Segurança Pública e do Instituto
Histórico Geográfico do Pará. É consultor do Roster
pré aprovado para a América Latina do Programa das
Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD/ONU)
na categoria de Prevenção à Violência. Líder do
Laboratório de Pesquisa e Análise em Geografia da
Violência e do Crime. Tem experiência de Segurança
Pública, atuando principalmente nos seguintes temas:
Gestão do Território, Criminalidade, Homicídio e
Cartografia.

URIENS MAXIMILIANO RAVENA CAÑETE


Doutorando pelo Programa de Pós-Graduação em
Antropologia e Sociologia - PPGSA, Mestre pelo
Programa de Pós-Graduação de Gestão de Recursos
Naturais e Desenvolvimento Local na Amazônia,
ambos pela Universidade Federal do Pará - UFPA e
Graduado em Comunicação Social/Jornalismo pela
Universidade da Amazônia - UNAMA. Trabalha com
populações pesqueiras na costa norte brasileira, mais
especificamente unidades de conservação. Tem
conhecimento de manejo, unidades de conservação,
recursos comuns, economia ecológica,
desenvolvimento na Amazônia e gestão de recursos
naturais.

VOYNER RAVENA CAÑETE


Antropóloga, professora adjunto II da Universidade
Federal do Pará, atuando nos Programa de Pós-
Graduação em Ecologia Aquática e Pesca e no
Programa de Pós-Graduação em Sociologia e
Antropologia da UFPA. Possui Graduação em
Bacharelado em História (1991), Mestrado em
Antropologia (2000) e Doutorado em
Desenvolvimento Sustentável do Trópico Úmido
(2005) pela Universidade Federal do Pará. Desenvolve
projetos de pesquisa e extensão universitária voltados
especialmente às questões ambientais envolvendo
populações tradicionais em cenários rurais
amazônicos, assim como em áreas periurbanas em
uma perspectiva interdisciplinar envolvendo meio
ambiente, saúde e modo de vida.

MICHELLE BARBOSA DE BRITO


Doutoranda em Direito pela Universidade Federal do
Pará - UFPA, com estágio de doutoramento pelo
Centro de Direitos Humanos da Universidade de
Coimbra - UC. Mestre em Direito pela Universidade
Federal do Pará - UFPA (2013). Especialista em
Ciências Penais pela Universidade do Sul de Santa
Catarina - UNISUL (2009). Graduada em Direito pela
Universidade Federal do Pará - UFPA (2003). Analista
Jurídico do Ministério Público do Estado do Pará.

DENISE MACHADO CARDOSO


Possui Doutorado em Desenvolvimento
Socioambiental (Pós-Graduação do Trópico Úmido
PDTU/ NAEA) (2006) e mestre em Antropologia
Social, ambos pela Universidade Federal do Pará
(2000). Graduada em História também nesta
universidade (1987). Atualmente é Assessora Adjunta
da Assessoria de Diversidade (UFPA), pesquisadora
dos Programas de Pós-graduação em Sociologia e
Antropologia (PPGSA) e Cidades, Territórios e
Identidades (PPGCITI). Coordena o Grupo de Pesquisa
em Antropologia Visual e da Imagem (Visagem) e o
Grupo de Estudos sobre Populações Indígenas (GEPI).

AIANNY NAIARA GOMES MONTEIRO


Doutoranda em Direito no Programa de Pós-
Graduação em Direito, bacharela em Direito, mestra
em Agriculturas Familiares e Desenvolvimento
Sustentável, pelo Programa de Pós-Graduação em
Agriculturas Amazônicas (PPGAA), todos pela
Universidade Federal do Pará (2015). Foi assessora
jurídica na organização não-governamental rede
Justiça nos Trilhos, onde atuou no acompanhamento
jurídico de ações e com educação popular em diretos
humanos, entre os anos de 2014 e 2016. Atualmente é
Advogada do Projeto de Residência Jurídica da Clínica
de Direitos Humanos da Amazônia (CIDHA),
vinculada ao Programa de Pós-Graduação em Direito
da UFPA (PPGD/UFPA). Tem experiência com direito
agroambiental e direitos humanos.

ALESSANDRO RICARDO PINTO CAMPOS


Doutorando pelo Programa de Pós Graduação em
Sociologia e Antropologia/UFPA, Mestre pelo mesmo
Programa (2014), Especialista em Educação e Saberes
Africanos e a Implementação da lei 10.639 pela
Universidade Federal do Pará (2012) e graduado em
Ciências Sociais também pela Universidade Federal do
Pará (2005). Atua como servidor público estadual,
Professor Classe II, e discente externo da UFPA. É
membro do Grupo de Pesquisa em Antropologia
Visual e da Imagem Visagem, que é atrelado ao
PPGSA/UFPA, também faz parte da Equipe Editorial
da Revista Eletrônica Visagem.

ALEPH HASSAN COSTA AMIN


Doutorando em Direito pelo Programa de Pós-
Graduação em Direito da UFPA. Mestre em Direitos
Humanos e Meio Ambiente pela UFPA (PPGD).
Graduado em Direito pela Universidade Federal do
Pará. Advogado e professor universitário de Direito
Administrativo, Direito Ambiental e Direito Civil.
Pesquisa desenvolvida na área de Direito Ambiental,
mais especificamente no que tange a gestão e política
hídrica no contexto jurídico.
ALBINO JOSÉ EUSÉBIO
Doutorando em Sociologia e Antropologia área de
concentração em Sociologia na Universidade Federal
do Pará (UFPA), bolsista CAPES. Mestrado em
Ciências Sociais área de concentração em Sociologia
no Programa de Pós-graduação em Sociologia e
Antropologia (PPGSA) da UFPA. Graduado em
Ciências Policiais pela Academia de Ciências Policiais
de Moçambique (ACIPOL). Oficial Subalterno da
Polícia da República de Moçambique.

MÁRCIA ANDREIA JORGE DE LIMA


Assiste Social Titulada pela Universidade da
Amazônia com Habilitação em Serviço Social na
Empresa e Assistência Social Pública, especialista em
Gestão e Responsabilidade Social pela Fundação
Universidade Estadual Vale Do Acaraú.

HERICK WENDEL ANTÔNIO JOSÉ GOMES


Mestre em Segurança Pública pela UFPA. Possui
graduação em Ciências de Defesa Social pelo Instituto
de Ensino de Segurança do Pará (2000). Especialista
em Defesa Social e Cidadania - IESP (2014) e
Atividade de Inteligência e Gestão do Conhecimento
pela ESMAC (2016). Tenente-Coronel da Polícia Militar
do Estado do Pará – PMPA.

FLÁVIA LUCIANA GUIMARÃES MARÇAL PANTOJA DE


ARAUJO
Doutorado em Ciências Sociais pela Universidade
Federal do Pará (2015). Mestrado em Direito pela
Universidade Federal do Pará (2010) e Especialista em
Direito do Estado pela Universidade da Amazônia-
UNAMA e Escola de Governo do Estado do Pará-EGPA
(2008). Professora Adjunta da Universidade Federal
Rural da Amazônia.

SAMARA VIANA COSTA


Graduada em Estatística pela UFPA. Especialista em
Estatística – Modelos Quantitativos – pela UFPA,
Micropolítica da Gestão e Trabalho em Saúde pela
UFF. Mestre em Segurança Pública pela UFPA.
Professora do Grau Técnico do DF e Oficial das Forças
Armadas (FAB/DF). Consultora em projetos que
envolvam indicadores que monitoram e avaliam
políticas públicas pela UNICEF.

PAULO CESAR DA SILVA NUNES


Bacharel em Ciências Sociais com ênfase em
Sociologia pela UFPA. Especialista em Atividade de
Inteligência e gestão do conhecimento pela ESMAC.
Consultor na área de inteligência e segurança há 18
anos.

MAUREA MENDES LEITE


Mestre em Defesa Social e Mediação de Conflitos
pela UFPA. Especialista em Defesa Social e Cidadania.

RENATA NOVAES DA SILVA


Mestre em Planejamento do Desenvolvimento pela
UFPA. Economista. Engenheira Florestal. Pós-
Graduanda em Gestão Florestal.
LIGIA HENRIQUES BEGOT
Engenheira de Pesca pela UFRA. Pós-Graduanda em
Gestão de Segurança Pública e Planejamento
Institucional. Mestre em Ecologia, com ênfase em
gestão ambiental. Doutora em Desenvolvimento
Socioambiental pela UFPA.
Conselho Técnico

PRESIDÊNCIA DO CONSELHO TÉCNICO E ARTÍSTICO

ILTON RIBEIRO DOS SANTOS


Graduado em Letras (UFPA), pós-graduado (lato
senso) em Semiótica e Cultura Visual (UFPA) e
mestrado em Artes pela (UFPA). No mestrado foi
bolsista da Coordenação de Aperfeiçoamento de
Pessoal de Nível Superior - CAPES. Doutorando no
Programa de Pós-Graduação em Letras da
Universidade Federal do Pará (PPGL-UFPA), bolsista
da Fundação Amazônia de Amparo a Estudos e
Pesquisas - FAPESPA.

ROBERTO MAGNO REIS NETTO


Mestre em Segurança Pública (UFPA). Especialista em
Direito Processual Civil (UGF/DF), Docência no Ensino
Superior (UGF/DF) e Atividade de Inteligência e
Gestão do Conhecimento (ESMAC/PA). Graduado em
Direito (UFPA). Oficial de Justiça Avaliador do TJ/PA.
Professor (ESMAC E IESP) e Pesquisador.

REVISÃO

ELANE BOTELHO MONTEIRO


Graduada em Letras com Habilitação em Língua
Portuguesa e Inglesa (Universidade Anhanguera) e
Bacharela em Direito (ESMAC). Graduanda em
Pedagogia (FACIBRA). Especialista em Processo: Civil,
Constitucional, Trabalho e Penal (Faculdade Maurício
De Nassau). Especialista em Direito Tributário
(Universidade Cândido Mendes) e em Educação a
Distância (FACIBRA). Pós-graduanda em Direito do
Trabalho (Universidade Cândido Mendes) e em
Português Jurídico (Universidade Unyleya).
Atualmente é professora de Língua Portuguesa,
Inglesa e Redação do Colégio Alfa e do curso de
Direito da ESMAC. Docente do Curso de Pós-
graduação da UNAMA.

ELIANE CRISTINA MONTEIRO CARVALHO


Graduada em Letras com Habilitação em Língua
Portuguesa e Espanhola (ESMAC). Especialista em
Gestão Educacional e Projetos (INEX). Atualmente é
docente do Colégio Sophos, Impacto, Paulista, Equipe,
Physics, Logos e Ideal.

ELIENE BOTELHO MONTEIRO


Graduada em Letras com Habilitação em Língua
Inglesa (UFPA). Pós-graduanda em Ensino e
Aprendizagem da Língua Inglesa (FIBRA). Atualmente
é professora substituta de Língua Inglesa e suas
Literaturas do Instituto de Letras e Comunicação
(ILC/UFPA). Professora de Inglês acadêmico para fins
específicos do Idiomas sem Fronteiras (ISF/UFPA). É
professora dos Cursos Livres de Línguas Estrangeiras
(CLLE/UFPA).

LAÍSE MACIEL BARROS


Graduada em Letras – Língua Portuguesa pela
Universidade Federal do Pará (UFPA) e Mestra no
Programa de Pós-graduação em Letras (PPGL-UFPA),
desenvolvendo pesquisas vinculadas aos estudos
linguísticos, mais precisamente, às análises, descrição
e documentação de línguas naturais.

ARTE DA CAPA

SANDRA CRISTINA FERREIRA DOS SANTOS


Possui Doutorado em Ciências da Educação pela
Universidad Autónoma de Asunción, Mestrado em
Educação: Ensino Superior e Gestão Universitária pela
Universidade da Amazônia (1999). Atualmente é
Professora Assistente III da Universidade do Estado do
Pará, Coordenadora do curso de Artes Visuais da
Escola Superior Madre Celeste, Coordenadora do
Instituto Superior de Educação e Coordenadora de
Extensão da ESMAC e Diretora Acadêmica da ESMAC.

POESIA E ARTE DAS SEÇÕES

ILTON RIBEIRO DOS SANTOS


Graduado em Letras (UFPA), pós-graduado (lato
senso) em Semiótica e Cultura Visual (UFPA) e
mestrado em Artes pela (UFPA). No mestrado foi
bolsista da Coordenação de Aperfeiçoamento de
Pessoal de Nível Superior - CAPES. Doutorando no
Programa de Pós-Graduação em Letras da
Universidade Federal do Pará (PPGL-UFPA), bolsista
da Fundação Amazônia de Amparo a Estudos e
Pesquisas - FAPESPA.
AUTORES DA OBRA
(DE ACORDO COM A ORDEM DOS TRABALHOS)

I. ATIVIDADE DE INTELIGÊNCIA NO SÉCULO XXI

ROBERTO MAGNO REIS NETTO


Mestre em Segurança Pública (UFPA). Especialista em
Direito Processual Civil (UGF/DF), Docência no Ensino
Superior (UGF/DF) e Atividade de Inteligência e Gestão
do Conhecimento (ESMAC/PA). Graduado em Direito
(UFPA). Oficial de Justiça Avaliador do TJ/PA. Professor
(ESMAC E IESP) e Pesquisador.

WANDO DIAS MIRANDA


Doutor em Planejamento do Desenvolvimento pelo
NAEA/UFPA. Mestre em Ciência Política pelo
PPGCP/UFPA, com ênfase em Relações Internacionais,
Políticas Públicas de Defesa, Fronteira e Amazônia.
Especialista em Gestão Estratégica em Defesa Social
pela Universidade Estadual do Pará (UEPA) e
Atividade de Inteligência e Gestão do Conhecimento
(ESMAC); Bacharel e Licenciado Pleno em Ciências
Sociais. Atualmente pesquisador do Observatório de
Estudos de Defesa da Amazônia (OBED).

HERICK WENDEL ANTÔNIO JOSÉ GOMES


Mestre em Segurança Pública pela UFPA. Possui
graduação em Ciências de Defesa Social pelo Instituto
de Ensino de Segurança do Pará (2000). Especialista
em Defesa Social e Cidadania - IESP (2014) e
Atividade de Inteligência e Gestão do Conhecimento
pela ESMAC (2016). Tenente-Coronel da Polícia Militar
do Estado do Pará – PMPA.

CLAY ANDERSON NUNES CHAGAS


Possui graduação em Geografia Licenciatura e
Bacharelado pela Universidade Federal do Pará
(1998), mestrado em Desenvolvimento Sustentável do
Trópico Úmido (2002) e doutorado em
Desenvolvimento Socioambiental pela Universidade
Federal do Pará (2010). Atualmente é Vice Reitor da
Universidade do Estado do Pará, participa do
Programa de Pós Graduação em Geografia e do
Programa de Pós Graduação em Segurança Pública
pela Universidade Federal do Pará. Professor da
Universidade do Estado do Pará atuando no curso de
graduação em Geografia. Professor Colaborador no
Instituto de Ensino em Segurança Pública e Defesa
Social do Estado Pará e Professor Colaborador da
Universidade de Cabo Verde no Programa de Pós
Graduação em Segurança Pública. É associado ao
Fórum Brasileiro de Segurança Pública e do Instituto
Histórico Geográfico do Pará. É consultor do Roster
pré-aprovado para a América Latina do Programa das
Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD/ONU)
na categoria de Prevenção à Violência. Líder do
Laboratório de Pesquisa e Análise em Geografia da
Violência e do Crime. Tem experiência de Segurança
Pública, atuando principalmente nos seguintes temas:
Gestão do Território, Criminalidade, Homicídio e
Cartografia.
RILMAR FIRMINO DE SOUSA
Bacharel em Direito pela Universidade Federal do Rio
Grande do Norte. Especialista em Atividade de
Inteligência e Gestão do Conhecimento (ESMAC).
Delegado de Polícia Civil do Estado do Pará (tendo
ocupado até 2018 a função de Delegado Geral da
Polícia Civil). Professor da Academia de Polícia Civil
do Estado do Pará.

FERNANDO DE SOUZA ROCHA


Bacharel em Direito (UFPA). Especialista em Atividade
de Inteligência e Gestão do Conhecimento (ESMAC).
Delegado da Polícia Civil do Estado do Pará.

II. SEGURANÇA PÚBLICA NO SÉCULO XXI

FERNANDO NOGUEIRA BEBIANO


Mestre em Direito Fundamentais pela Universidade da
Amazônia. MBA em Direito Civil e Processo Civil pela
Fundação Getúlio Vargas do Rio de Janeiro - FGV.
Pós-graduando (Lato Sensu) em Direito do Trabalho e
Previdenciário pela Pontifícia Universidade Católica
de Minas Gerais, PUC-MG. Bacharel em Direito pela
Universidade da Amazônia.

LÍVIA CRISTINA SILVA PEREIRA


Bacharel em Relações Internacionais pela
Universidade da Amazônia (2012). Mestrando em
Ciências Criminológico-Forense pela UCES -
Argentina.
ADRIANO ROBERTO DE SOUZA FERREIRA
É Mestre em Segurança Pública pelo Instituto de
Filosofia e Ciências Humanas da Universidade Federal
do Pará (2017). Possui graduação em Licenciatura em
Física pelo Instituto Federal de Educação, Ciência e
Tecnologia do Pará (2007). Tem experiência na área
de ensino da Física e perícia de acidente de trânsito.
Atualmente é Policial Rodoviário Federal.

EDSON MARCOS LEAL SOARES RAMOS


Bacharel em Estatística pela Universidade Federal do
Pará (1994), mestre em Estatística pela Universidade
Federal de Pernambuco (1999) e Doutor em
Engenharia de Produção pela Universidade Federal de
Santa Catarina (2003). Atualmente é professor
Associado IV da Universidade Federal do Pará e
professor colaborador da Universidade de Cabo Verde
no mestrado de Segurança Pública.

MICHELE MARIA BRITO DA PONTE SOUZA


Mestre em Segurança Pública pela UFPA. Bacharel em
Direito pela FACI-Devry. Especialista em Direito do
Trabalho, Processo do Trabalho e Direito
Previdenciário pela Unisc. Advogada.

MAYARA ROBERTA ARAÚJO ROCHA


Mestre em Segurança Pública pela UFPA. Especialista
em História Contemporânea (FIBRA). Graduada em
História (FIBRA).
JULITA PAES BARRETO DOS SANTOS CHAVES
Mestre em Segurança Pública pelo Instituto de
Filosofia e Ciências Sociais da Universidade Federal
do Pará. Bacharel em Administração de Empresas
pela UNAMA. Bacharel em Direito Pelo CESUPA.
Advogada.

LUÍS FERNANDO CARDOSO E CARDOSO


Pós-doutor em Antropologia pela University of St.
Andrews, Scotland - UK (2014), Doutor em
Antropologia Social pela Universidade Federal de
Santa Catarina (2008), Mestre em Sociologia pela
Universidade Federal do Pará (2002) e Graduado em
Ciências Sociais pela Universidade da Amazônia
(1999). É colaborador no Programa de Pós-Graduação
em Ciência Política.

AMANDA FERREIRA ROCHA


Bacharela em Direito pela Universidade Federal do
Pará. Especialista em Ciências Penais pela Rede de
Ensino LFG/Anhanguera. Mestranda do Programa de
Pós-graduação em Segurança Pública pela
Universidade Federal do Pará. Advogada. Membro da
Comissão de Advogados em Início de Carreira da OAB
Seção Pará.

CRISTIANE DO SOCORRO LOUREIRO LIMA


Graduada em Serviço Social pela Universidade
Federal do Pará. Especialista em Serviço Social na
Gestão das Políticas Sociais pela UFPA. Especialista
em Metodologia do Ensino pelo IESP. Especialista em
Lato Sensu Executive Mba em Segurança pela
Universidade Candido Mendes(2003). Mestre em
Serviço Social pela Universidade Federal do Pará e
doutora em Ciências Sociais pela Universidade
Federal do Rio Grande do Norte(2009). Atualmente é
Professora da Universidade Federal do Pará, Professor
do Instituto de Ensino de Segurança do Pará. Revisora
da Revista Brasileira de Segurança Pública. Revisor da
revista Sociedade e Estado (UnB. Impresso), da
Universidade Federal Fluminense. Professora da
Universidade da Amazônia.

DAYSE DO SOCORRO BORGES FONSECA


Mestranda no Programa de Pós-graduação em
Segurança Pública, na Universidade Federal do Pará
(2017). Especialista "Lato Sensu" em Direito
Processual, pela Universidade da Amazônia.
Bacharelado em Direito pela Universidade da
Amazônia e licenciada plena em Educação Física pela
Universidade do Estado do Pará. Analista Judiciário
do Tribunal de Justiça do Estado do Pará.

LUIZ AUGUSTO MOTA NUNES DE CARVALHO


Mestrando em Segurança Pública pela UFPA. Bacharel
em Direito pela Faculdade de Ciências Humanas,
Saúde, Exatas e Jurídicas de Teresina. Especialista em
direito do trabalho e processo do trabalho pela
Universidade Candido Mendes. Papiloscopista Policial
Federal do Departamento de Polícia Federal e
professor.
SILVIA DOS SANTOS DE ALMEIDA
Bacharel em Estatística pela Universidade Federal do
Pará. Mestre em Estatística pela Universidade Federal
de Pernambuco (1999). Doutora em Engenharia de
Produção pela Universidade Federal de Santa
Catarina. Professora colaboradora no Mestrado em
Gestão de Defesa Social e Mediação de Conflitos da
Universidade de Cabo Verde e professora associada IV
da Universidade Federal do Pará na Graduação em
Estatística e no Programa de Pós-graduação em
Segurança Pública. Associada do Fórum Brasileiro de
Segurança Pública e da Associação Brasileira de
Estatística.

RENATA ALMEIDA DANIN


Graduada em Administração pelo CESUPA.
Administradora na Secretaria de Saúde Pública e
Mestranda do Programa de Pós Graduação em
Segurança Pública pela Universidade Federal do Pará
- UFPA.

BRENDA THAYANA TRINDADE LOPES


Graduanda em Direito pela ESMAC. Participante de
Projetos de Institucionais Pesquisa. Técnica em
Segurança do Trabalho.

EVELYN MUNARINI GUALBERTO


Graduanda em Direito pela ESMAC. Participante de
Projetos Institucionais de Pesquisa.
BEATRIZ DE OLIVEIRA DA SILVEIRA MILÉO BRASIL
Bacharel em Direito pela Universidade da Amazônia.
Mestre em Defesa Social e Mediação de Conflitos pela
Universidade Federal do Pará (UFPA). Delegada de
Polícia Civil do Estado do Pará. Condecorada com a
Medalha Evanovich de Investigação Policial (2010) e a
Medalha do Mérito Policial Civil (2011), em razão do
êxito em investigações policiais complexas.

CLARINA DE CÁSSIA DA SILVA CAVALCANTE


Possui graduação em Enfermagem pela Universidade
Federal do Pará (2007). É especialista em Enfermagem
Neonatal, pela Universidade Federal do Pará (2009) e
em Enfermagem do Trabalho pela FTI-UNINTER
(2012). Pós-Graduanda em Atividade de Inteligência e
Gestão do Conhecimento (ESMAC). Técnica em Gestão
Penitenciária (Enfermagem) junto à Superintendência
do Sistema Penitenciário do Estado do Pará (SUSIPE)
e Pesquisadora.

AGUSTÍN ENRIQUE LEÓN NAVAS


Magister en Derecho Internacional. Licenciado en
Estudios Internacionales (UCV) y especialista en
Negociación y Resolución de Conflictos en Seguridad
y Defensa Integral de la Nación del Instituto de Altos
Estudios para la Defensa Nacional Gran Mariscal de
Ayacucho Antonio José de Sucre.
SUMÁRIO

I. ATIVIDADE DE INTELIGÊNCIA NO SÉCULO XXI 46

A LEGALIDADE DO ATO PRATICADO NA 47


ATIVIDADE DE INTELIGÊNCIA: PERSPECTIVAS
DE VALIDADE PERANTE O ORDENAMENTO
JURÍDICO ATUAL
Roberto Magno Reis Netto
Wando Dias Miranda
Herick Wendell Antônio José Gomes
Clay Anderson Nunes Chagas

ATIVIDADE DE INTELIGÊNCIA E FORMAÇÃO DE 87


POLICIAIS CIVIS NO PARÁ, NO PERÍODO DE 2005 A
2006
Rilmar Firmino de Sousa
Fernando de Souza Rocha

II. SEGURANÇA PÚBLICA NO SÉCULO XXI 109

SEGURANÇA PÚBLICA COMO DIREITO SOCIAL 110


FUNDAMENTAL DE PRESTAÇÕES E A
IMPORTÂNCIA DE SUA EFETIVAÇÃO NO SÉCULO
XXI
Fernando Nogueira Bebiano

PANORAMA CRIMINOLÓGICO: TRÁFICO ILEGAL DE 130


PESSOAS NAS FRONTEIRAS DO ESTADO DO PARÁ
Lívia Cristina Silva Pereira

PERFIL DAS VÍTIMAS DE ACIDENTES DE TRÂNSITO 147


ATENDIDAS PELO HOSPITAL METROPOLITANO DE
URGÊNCIA E EMERGÊNCIA, DE ANANINDEUA-PARÁ
Adriano Roberto de Souza Ferreira
Edson Marcos Leal Soares Ramos
CONTROLE SOCIAL INFORMAL E CRIMINALIDADE 161
NA PÓS-MODERNIDADE
Michele Maria Brito da Ponte Souza
Mayara Roberta Araújo Rocha
Julita Paes Barreto Dos Santos Chaves
Luís Fernando Cardoso e Cardoso

UM RETRATO DAS MULHERES QUE CUMPREM 184


PENA NO CENTRO DE REEDUCAÇÃO FEMININO DE
ANANINDEUA
Amanda Ferreira Rocha
Cristiane do Socorro Loureiro Lima
Dayse do Socorro Borges Fonseca
Luiz Augusto Mota Nunes de Carvalho
Silvia dos Santos de Almeida

O ESTADO PENAL E O ENCARCERAMENTO EM 216


MASSA NA AMÉRICA CONTEMPORÂNEA
Renata Almeida Danin
Luís Fernando Cardoso e Cardoso

VIOLÊNCIA DE GÊNERO NA INTERNET: REVENG 227


PORN E SEUS MECANISMOS DE DEFESA
Brenda Thayana Trindade Lopes
Evelyn Munarini Gualberto
Beatriz de Oliveira da Silveira Miléo Brasil

PERFIL DOS CRIMES DE TRÁFICO DE DROGAS 243


DENUNCIADOS PELO MINISTÉRIO PÚBLICO NO
MUNICÍPIO DE BENEVIDES-PA NO ANO DE 2015:
UMA ANÁLISE CRÍTICA
Roberto Magno Reis Netto
Clarina de Cássia da Silva Cavalcante
Wando Dias Miranda
Herick Wendell Antônio José Gomes
TRÁFICO DE DROGAS E SÉCULO XXI: UMA 269
RECONSTRUÇÃO GENEALÓGICA
Roberto Magno Reis Netto
Clay Anderson Nunes Chagas

VENEZUELA: HACIA LA CONSTRUCCIÓN DE UNA 315


DOCTRINA MILITAR BOLIVARIANA DE SEGURIDAD
Y DEFENSA INTEGRAL
Agustín Enrique León Navas
I. ATIVIDADE DE INTELIGÊNCIA NO SÉCULO XXI

Cadeados e encadeamentos: questões e paradoxos


Na Avenida 18 de Julio, no centro de Montevideo, numa esquina de um
restaurante famoso, se encontra a "Fuente de los Candados" onde os casais
apaixonados colocam cadeados com as iniciais de seus nomes como forma de
eternizar o amor.
Como um cadeado, objeto tão rígido, de cobre e de aço, pode se tornar um
símbolo de pactos amorosos entre duas criaturas? Como se pode estabelecer
relações entre metais sólidos com um fenômeno humano abstrato, como o amor?
Talvez, a resposta mais coerente esteja no fato dos metais serem difíceis de
quebrar, de romper, deste modo, relacionar o pacto amoroso a algo inquebrável.
A palavra cadeado e encadear vêm do latim catena, cujo étimo está presente
também em concatenar e cadeia. Assim, temos os paradoxos, entrelaçar as coisas
e trancafiar as coisas.
A palavra encadeamento carrega um sentido de entrelace, pensamentos
encadeados. Alguma coisa que se completa no outro. Então, parece que preciso
pensar para além da rigidez metálica do cadeado, que agride a ideia de liberdade,
ampliar os sentidos do vocábulo cadeado, e de como é absorvido nos gestos
humanos.
O poema-desenho presentifica a conversa de duas sentinelas. Toda a conversa
busca encadeamento, porque tem uma narrativa falada, tensa de significados que
se estende ao universo de significado do outro. Debaixo de uma noite, esses
guarda-noturnos conversam sobre coisa pouco clara, como é o tema da noite,
entendimentos-cadeados, entendimentos-fechados. Então, como não tenho
completude de significado das coisas, sempre haverá pequenos cadeados fazendo
parte da compreensão de minha realidade. Não se entende, de modo pleno, o
que se descortina para cada um em sua realidade.
Existe um processo contínuo de significação e ressignificação das palavras. Pensar
sobre as palavras é pensar filosoficamente sobre a condição da vida no mundo, e
desse modo, entender como essas palavras se firmam nos caldos dos discursos e
reposicionar os gestos. Existe sempre um abismo entre o vocábulo e o significado,
e é desse fosso silencioso e escuro, que somos convidados, continuamente a
repensar sobre as coisas da vida. A palavra cadeado pode privar a liberdade, ou
proteger objetos de furtos, mas também pode ser um pequeno e singelo objeto
que expressa amor nas fontes de água doce das cidades.
(Imagem e Texto Por Ilton Ribeiro dos Santos)
A LEGALIDADE DO ATO PRATICADO NA ATIVIDADE DE
INTELIGÊNCIA: PERSPECTIVAS DE VALIDADE PERANTE O
ORDENAMENTO JURÍDICO ATUAL

Roberto Magno Reis Netto


Wando Dias Miranda
Herick Wendell Antônio José Gomes
Clay Anderson Nunes Chagas

RESUMO: O presente estudo objetivou a realização de um


enquadramento jurídico os atos praticados no exercício da
atividade de inteligência, elencando os elementos legais
caracterizadores de sua validade. Para tanto, o mesmo se
valeu de um método jurídico-zetético, pautado numa
pesquisa bibliográfica e documental. Após o enquadramento
das ações de inteligência como atos jurídico-administrativos,
foram enunciadas lacunas referentes ao tratamento da
matéria, bem como, potencialidades quanto ao
desenvolvimento legislativo daquela atividade estratégica à
área da segurança pública.

PALAVRAS-CHAVE: atividade de inteligência. segurança


pública. atos jurídico-administrativos de inteligência.
elementos de validade.

ABSTRACT: This study aimed to realize a legal framework of


the acts practiced in the exercise of intelligence activity, listing
the legal elements that characterize its validity. Therefore, it
was based on a juridical-zytetic method, based on
bibliographical and documentary research. Following the
framing of the intelligence actions as legal-administrative
acts, gaps were reported regarding the treatment of the
47
matter, as well as potentialities regarding the legislative
development of that strategic activity in the area of public
security.

KEYWORDS: intelligence activity. public security. juridical and


administrative acts of intelligence. elements of validity.

1 INTRODUÇÃO
É indiscutível a importância da atividade de
inteligência para preservação da integridade e estabilidade
dos Estados. Neste sentido, aliás, ressalta-se o caráter
estratégico desta atividade, tanto para preservação da
Soberania Estatal num contexto internacional, quanto, para
propiciar um status mínimo de ordem interna (GONÇALVES,
2009).
Contudo, a despeito desta relevância, é assente a
existência de um verdadeiro pavor social à execução de
medidas voltadas à obtenção dos conhecimentos sensíveis
necessários à condução dos processos decisórios
determinantes àquela pretendida ordem, quase que numa
relação de proporcionalidade inversa.
Trata-se de um estigma decorrente dos métodos de
coleta de informações 1 peculiares ao período anterior à
democracia brasileira (em muito, atribuído às práticas
concernentes ao regime ditatorial instalado a partir de 1964),
ao longo do qual se associou uma imagem de “repressão
política” e “violação às liberdades e direitos fundamentais” à
atividade de inteligência (BRANDÃO, 2002, p. 30).

1
Aqui ressaltando, conforme a lição de BRANDÃO (2002, p. 43) que a utilização da
terminologia “informações” é típica da atividade de inteligência anterior à década de
1990.
48
Disto, surge uma interessante dicotomia: se, por um
lado, é de inescusável interesse público a manutenção da
ordem estatal, seja no plano externo ou interno, de outro
lado, poucos são os que aceitam, pacificamente, qualquer
espécie de investigação ou observação de suas atividades
particulares, como se sua vida configurasse uma redoma de
individualidade intangível e intransponível.
Noutras palavras: tem-se que todos anseiam que o
Estado investigue atividades potencialmente nocivas a seus
interesses (e aos interesses públicos), porém, poucos aceitam
ser investigados, inobstante se saiba da potencialidade
delitiva de cada um.
Por óbvio, a permanência do estigma é atribuível, em
muito, à ausência de uma maior discussão aberta, tanto
doutrinária, quanto política e popular, a respeito das
peculiaridades da inteligência, bem como, a não
demonstração dos mecanismos pelos quais esta atividade
pode ser efetivamente controlada, interna e externamente,
em cada uma das fases do ciclo de sua produção - solicitação,
coleta, análise e disseminação de resultados (GONÇALVES,
2009).
O controle deste instrumento de ação estatal, aliás,
ganha uma relevância especialíssima no contexto do regime
democrático. Preliminarmente, em razão da necessidade de
participação popular nas políticas públicas a serem
implementadas pelo Estado (inclusive, as de inteligência, a
despeito de seu caráter normalmente sigiloso) e, em segundo
lugar, em razão da limitação da atuação executiva deste
último diante do núcleo intangível dos direitos fundamentais
do cidadão, notadamente, sua liberdade material e ideológica,
privacidade, sigilo de comunicação, inviolabilidade domiciliar
e integridade física.
49
Compreender os mecanismos de controle da atividade
de inteligência, portanto, afigura-se fundamental à própria
confiabilidade deste mecanismo de tutela de interesses
públicos, repercutindo na própria legitimidade da atuação dos
agentes e órgãos de inteligência no Estado Democrático de
Direito.
Neste contexto, é inevitável o surgimento de uma
questão: Quais são os elementos caracterizadores da validade,
perante a lei, dos atos praticados no exercício da atividade de
inteligência em nosso Estado Democrático? É o problema de
pesquisa sobre o qual o estudo se debruçou.
Por óbvio, é necessária a realização de um corte
epistemológico imprescindível ao atingimento da resposta
àquela questão. Preliminarmente, em razão do fato de que a
atividade de inteligência pode denotar um viés tanto externo
(voltado às relações internacionais), quanto interno (voltado à
segurança pública e demais atividades estratégicas),
detentoras, cada uma, de características marcantes, conforme
assinalou Gonçalves (2009).
Em segundo lugar, em função de que a inteligência,
como atividade executiva do Estado, denota-se como um
processo que nasce num nível político e se concretiza num
nível administrativo, em que os mecanismos de controle
podem ser bastante diferenciados, tanto na teoria, quanto na
prática.
Em razão disso, a problemática estará direcionada ao
âmbito da atividade de inteligência em segurança pública, em
seu aspecto administrativo, ou seja, executivo ou operacional.
O debate é de extrema significância: para o âmbito da
inteligência, denota argumentos imprescindíveis a sua
legitimação e concretização social. Para o âmbito jurídico, a
temática propicia o desenvolvimento de uma doutrina
50
preventiva e repressiva de condutas juridicamente prejudiciais
ao ordenamento vigente, sobretudo, aos direitos
fundamentais do cidadão.
Ademais, trata-se de assunto que, por suas próprias
características, toca num ponto deveras polêmico, já que a
atividade de inteligência, como instrumento de investigação
de ameaças potenciais ao sistema, necessita de uma
“metodologia própria” que, sem demagogias, atua no
extremo limite da noção de legalidade, transitando numa
fronteira muito tênue e fácil de ser ultrapassada.
Como objetivo geral, verificou-se, a partir do modelo
Jurídico e Legislativo do Estado Democrático de Direito
Brasileiro, se existem elementos de controle da validade do
ato praticado no exercício da atividade de inteligência, a partir
de aspectos legais.
Especificamente, buscou-se um enquadramento dos
atos de inteligência em uma das categorias de atos jurídico-
administrativos previstos pela doutrina brasileira, tomando
como base o paradigma democrático atual. Em seguida,
verificou-se, a partir do ordenamento jurídico, quais seriam os
elementos necessários à caracterização da legalidade dos atos
em questão.
Por fim, satisfeitas aquelas premissas, restaram
delineados os critérios determinantes da validade dos atos
jurídico-administrativos de inteligência, consideradas suas
peculiaridades e metodologia própria.

2 DOS MÉTODOS E TÉCNICAS


Em relação aos caminhos metodológicos, cumpre
assinalar, preliminarmente, que o estudo se baseou num
método jurídico-zetético, que, no dizer de Bittar (2016),
representa um esforço analítico que, partindo de uma postura
51
de valorização de aspectos históricos, sociológicos, filosóficos
e culturais, perfaz uma reflexão crítica do direito conforme
sua realidade dentro de um contexto de tempo e espaço
específicos.
A escolha se deu, justamente, pela necessidade de
interpretação das características fundamentais da atividade de
inteligência em face do regime democrático instituído pela
Constituição de 1988, e, sobretudo, adequando a análise de
suas normas à luz da principiologia constitucional (ou, se
assim se preferir, ao Neoconstitucionalismo [FERNANDES,
2014]).
No mais, o estudo adotou uma técnica exploratória
(uma vez que se busca definir pontos ainda obscuros relativos
à atividade em menção [MEZZAROBA; MONTEIRO, 2014]),
materializando-se por meio de uma pesquisa bibliográfica e
documental, debruçada, portanto, sobre a doutrina e sobre a
legislação pertinente à temática (MARCHESINI DE PÁDUA,
2012).

3 DO ENQUADRAMENTO JURÍDICO DOS ATOS PRATICADOS


NA ATIVIDADE DE INTELIGÊNCIA EM SEGURANÇA PÚBLICA.
3.1 ELEMENTOS DEFINIDORES DE UM ESTADO DEMOCRÁTICO
DE DIREITO.
Inicialmente, é importante buscar uma definição
conceitual satisfatória a respeito do que caracterizaria o
reputado Estado Democrático de Direito estabelecido no
Brasil, obviamente, sem devanear em torno de qualquer
noção apaixonada ou axiologicamente neutra.
Nesse sentido, partindo dos ensinamentos de
Fernandes (2014, p. 285), compreende-se que uma “(...) ideia
de democracia não é ideal, mas configura-se pela existência
de procedimentos ao longo de todo o processo decisório
52
estatal, permitindo e sendo poroso à participação dos
atingidos, ou seja, da sociedade”.
Não se trata, portanto, de um sistema em que será
inequívoca a participação de todos os atores sociais. Afinal,
num contexto de diferenças e exclusões, tergiversar sobre
uma democracia ideal seria ignorar a existência de interesses
dominantes (hegemônicos), que se sobrepõe aos de outros
grupos sociais, por vezes, desprovidos de voz e participação,
porém, ainda assim, capazes de exercer potenciais pressões
(contra-hegemônicas) na luta por um maior espaço político,
econômico e social, traduzindo uma moderna dicotomia
existente tanto num cenário mundial, quanto brasileiro
(SANTOS, 2013).
Interpretar, portanto, a declaração constitucional de
que se vive numa democracia, é, acima de tudo, compreender
que o que determinaria o caráter democrático do Estado, em
termos pragmáticos, é a possibilidade (em maior ou menor
grau) de participação popular (direta ou indireta) na tomada
dos processos decisórios inerentes à construção e execução
de políticas públicas, ao invés de uma imposição unilateral
das mesmas.
Deve-se lembrar, aliás, que o Brasil, como país de
proporções continentais, não compreende um só Brasil, mas
vários Brasis: a multiplicidade da cultura, das práticas, dos
povos originários, dos modelos religiosos, dos movimentos e
grupos de pressão social, dentre vários outros fatores,
afiguram-se como elementos determinantes para a aceitação
e viabilidade das ações estatais, de modo a se afirmar, sem
exagero, que um mesmo modelo de política pode se adequar
perfeitamente a uma Região, sendo absolutamente impróprio
a outras (FARIAS NETO, 2011).

53
Por isso, sem embargo, é assente que o modelo
ideológico de Estado Democrático de Direito é um
“paradigma” que orienta a ação estatal em prol das
necessidades de “diferentes formatações” de uma mesma
“sociedade civil”, sob o desiderato de realização dos objetivos
constitucionais: liberdade social, desenvolvimento,
erradicação da pobreza, bem estar etc. (FERNANDES, 2014, p.
285).
De fato, é de se ressaltar que este modelo é ideal, já
que na prática são incontáveis as dificuldades impostas a sua
implementação, o que pode gerar substanciais
questionamentos quanto à qualidade do seu funcionamento.
Santos (2011), por exemplo, afirma que a expansão da
participação popular para além do voto pode ocasionar o
surgimento, até mesmo, de um novo paradigma político
estatal, para além de estruturas legitimadoras de situações
arraigadas no tempo, o que, perante mentes menos abertas à
mudança poderia significar uma verdadeira ameaça à
estabilidade e longevidade das instituições estatais.
O debate é interessante, mas, infelizmente, não cabe
nas presentes linhas, por força dos objetivos eleitos. De todo
modo, a partir destes poucos parágrafos, já se pode ter uma
noção de democracia como processo e não como modelo
inerte.
Determinante, ao passo, é destacar que o alinhamento
de políticas públicas num Estado declarado Democrático de
Direito deve observar dois fatores: a) a multiplicidade social,
que roga uma participação popular na elaboração das ações
políticas, tanto na fase de elaboração, quanto na fase de
implementação; e, b) a observância de normas jurídicas
previamente elaboradas (em concordância ao primeiro
preceito) que ditarão os processos a serem seguidos e
54
formalidades necessárias, imprescindíveis à validade daquelas
ações, em respeito a um princípio democrático segundo o
qual as regras do jogo estarão bem delineadas a todos,
possibilitando controles prévios, concomitantes e/ou
posteriores.
É se advertir, entretanto, que assim como não se pode
falar numa só sociedade, igualmente, não se pode falar num
só governo ou num só direito, senão em espaços
contraditórios, forças político-sociais em confronto, distantes
de formar o que muitos apregoam como um “bloco
monolítico ou plenamente hegemônico de poder”, ainda que
se declare a existência de uma “hegemonia conservadora”
(BEHRING; BOSCHETTI, 2006, p. 198).
Diante disto, surge o questionamento: em face de
tamanha volatilidade política, como estabelecer um
parâmetro mínimo de funcionamento das políticas estatais,
sobretudo, das políticas de inteligência? Como garantir o uso
ético da máquina pública? Como aferir um mínimo de
legitimidade destas ações estatais? Certamente, a construção
de instâncias comunitárias de participação, de integração
social e política, e, sobretudo, de controle, dentre outros, é
medida de extrema importância. Porém, para que se cheque a
tanto, é imprescindível o estabelecimento de um regramento
inicial mínimo, de caráter vinculante, capaz de coordenar as
ações de quaisquer potenciais detentores do poder (sejam
sujeitos hegemônicos ou contra-hegemônicos), propiciando
um desenvolvimento equilibrado de políticas e decisões
estatais sem condutas predatórias.
Este parâmetro inicial compreende-se aqui, pode ser
obtido a partir da lei. Afinal, se o Estado, além de
democrático, é um Estado de Direito, suas instituições devem
obediência às normas jurídicas, em tese, elaboradas em
55
atenção a um processo de convergência de forças (por vezes
antagônicas, como vimos) que as legitima ideologicamente.
É claro que não se deve ignorar que a
institucionalização de normas e conflitos acaba por se
configurar como mecanismo de filtragem de interesses,
cooptação de demandas e favorecimento de camadas
hegemônicas do organismo social, ocupando a lei, neste
contexto, uma função “organizadora” da “violência estatal”,
responsável por legitimar privilégios estatais em detrimento
de largas camadas da comunidade, como afirma Miguel (2015,
p.40).
A luz dos ensinamentos de Foucault (2015), o norte ora
adotado poderia ser facilmente desqualificado sob a
argumentação de que a lei (portanto, o direito posto) é um
instrumento de exclusão social, utilizado como ferramenta de
criminalização de condutas não desejadas por grupos
detentores de poder, em detrimento dos menos favorecidos. E
de fato o é!
Porém, de outro lado se pode ignorar que o modelo de
ordem instituído a partir da lei, apesar de não ser o ideal, é
um mínimo modelo de garantia de ordem social que não deve
ser simplesmente dispensado ou eliminado. Afinal, o direito
funciona como um parâmetro de limitação reconhecido pelo
Estado em relação aos seus próprios atos políticos ou
administrativos, e que, nessa qualidade, serve como uma
primeira instância de discussão e controle daquelas ações, ao
menos, para fins de revelação das lacunas institucionais a
serem supridas em eliminação ao mau funcionamento das
instituições.
Mais ainda, a ressignificação (ou releitura) da lei à luz
da Constituição Federal, como exigência típica de um Estado
Democrático de Direito, impõe a derrogação de qualquer
56
prática legal que venha a sufragar de validade os ideais de
igualdade e liberdade (dentre outros) relativos a qualquer
cidadão, o que, em sede de atividade de inteligência, ganha
contornos especiais: Em sua reconstrução democrática, a
inteligência não manifesta pretensão de estender sobre os
historicamente desfavorecidos as mesmas redomas de
privilégios e proteções concedidas anteriormente às classes
socialmente favorecidas. Pelo contrário: busca-se uma
ostensiva busca de informações, coerente e comprometida
com o interesse público, que atue sobre fatos significantes à
gestão democrática, pouco importando o nível de poder
político, econômico ou social dos envolvidos.
Falar de controle e do uso ético da máquina pública,
destarte, importa reconhecer a existência de uma
normatização que estabeleça os limites das ações dos agentes
públicos no exercício de sua competência, equilibrando as
relações políticas e possibilitando o exercício democrático dos
mecanismos institucionais.
Ou seja, o desempenho da atividade de inteligência
deve se guiar por limites legais semelhantes aos impostos às
demais atividades estatais, justamente, por ser uma política
de atuação estatal de caráter especial. Aliás, como bem
adverte Gonçalves (2009), a atividade de inteligência é uma
função diretamente destinada ao agente político tomador de
decisões, pelo que se traduz como instrumento colocado à
disposição das estruturas estatais, sendo assim, regulado
conforme uma produção normativa pública prévia (a qual, ao
menos em tese, deve se constituir a partir do ideal da vontade
popular).
Conclui-se que o direito é preliminar à própria
atividade de inteligência (que, por sinal, é instituída pelo
mesmo), devendo esta ser uma atividade contextualizada aos
57
moldes do Estado Democrático. Desta forma, é possível a
eleição do ordenamento jurídico como uma primeira
trincheira de legitimação dos atos realizados pelos serviços de
inteligência, obviamente, observadas as peculiaridades e
caracteres próprios desta atividade, conforme resta
argumentado no teor do tópico seguinte.

2.2 QUALIFICANDO A ATIVIDADE DE INTELIGÊNCIA NO


CONTEXTO DO ESTADO DEMOCRÁTICO DE DIREITO
Partindo-se, assim, do marco legislativo como primeiro
parâmetro de legitimação, tem-se que a atividade de
inteligência pode ser (legalmente) conceituada como uma
função que objetiva a obtenção, análise e disseminação de
conhecimentos dentro e fora do território nacional sobre
fatos e situações de imediata ou potencial influência sobre o
processo decisório e a ação governamental e sobre a
salvaguarda e a segurança da sociedade e do Estado2.
É assente que esta atividade pode se realizar, como
dito, em diversos níveis, áreas do conhecimento e espaços de
atuação política estatal, o que, por sua vez, denota a
existência de inúmeras atividades de inteligência (estratégica,
militar, fiscal etc.), cada uma com peculiaridades e práticas
próprias (embora semelhantes).
Porém, dito em momento anterior, o estudo deterá seu
foco sobre a atividade de inteligência em Segurança Pública.
Conforme prescreve a Doutrina Nacional de
Inteligência em Segurança Pública,
A atividade de ISP (inteligência em
Segurança Pública) é o exercício
permanente e sistemático de ações

2
Art. 1º, §2º da Lei nº 9.883/99, que Institui o Sistema Brasileiro de Inteligência –
SISBIN e promoveu a criação da Agência Brasileira de Inteligência – ABIN.
58
especializadas para a identificação,
acompanhamento e avaliação de
ameaças reais ou potenciais na esfera
de Segurança Pública, basicamente
orientadas para produção e
salvaguarda de conhecimentos
necessários para subsidiar os governos
federal e estaduais a tomada de
decisões, para o planejamento e à
execução de uma política de Segurança
Pública e das ações para prever,
prevenir, neutralizar e reprimir atos
criminosos de qualquer natureza ou
atentatórios à ordem pública (BRASIL,
2009, p. 10).

Trata-se de uma função intrinsecamente ligada à


atividade estatal de segurança pública, constitucionalmente
definida como um “dever do Estado, direito e
responsabilidade de todos”3, cujo intento é “a preservação da
ordem pública e da incolumidade das pessoas e do
patrimônio4”. Assim sendo, é um serviço público,
propriamente dito.
Especificamente, quanto à finalidade da Atividade de
Inteligência em Segurança Pública, ressalta Gonçalves (2009,
p. 31) que,
(...) a inteligência policial tem por
escopo, basicamente, a produção de
provas de materialidade e autoria de
crimes, ou seja, por meio da análise

3
Art. 144, da CF/88.
4
Ibidem.
59
sistemática de informações disponíveis,
busca a identificação de criminosos e
os aspectos essenciais da consumação
do delito. Há que se considerar, ainda,
seu caráter consultivo, quando
contribui para elaboração e adoção de
medidas ou políticas de prevenção e
combate à criminalidade.

No entanto, sua função vai muito além do enunciado


acima. As informações obtidas por meio da inteligência,
igualmente, podem ser utilizadas para orientação das
instâncias superiores quanto à alocação de recursos materiais,
econômicos e humanos (policiamento orientado à resolução
de problemas), bem como, para fins de estabelecimento de
instâncias de diálogo com a população e sugestão de políticas
públicas a serem implementadas por outros órgãos da
administração pública (policiamento comunitário), como bem
ensinam Azevedo, Riccio e Ruediger (2011).
Informações inteligentes, assim sendo, constituem-se
como importantíssimo produto à ação preventiva e repressiva
na atividade de Segurança Pública.
Inclusive, a própria dicção do art. 144 da Constituição
Federal declara a atividade de Segurança Pública (e, na
mesma esteira, a inteligência em segurança pública) como
uma função nitidamente atribuída a órgãos públicos,
instituídos e com atribuições delineadas em igual nível
constitucional.
É notável (para não se dizer evidente), portanto, a
natureza pública da atividade de inteligência em segurança, o
que é fundamental que se compreenda, desde logo, como
uma premissa inafastável deste estudo: sendo uma atividade
60
pública, é natural sua submissão a um estatuto jurídico de
direito público, típico, portanto, do direito administrativo.
Não à toa, a Doutrina Nacional de Inteligência em
Segurança Pública (BRASIL, 2009, p. 14) submete os atos de
inteligência aos princípios Constitucionais aplicáveis à
“Administração Pública” (Art. 37, caput da CF/885), dentre
outros.
E, tal qual a atividade de administração pública (em
sentido amplo), tem-se que a atividade de inteligência em
segurança pública pode se realizar em dois níveis distintos:
um nível político (constitucional ou governamental), que se
relaciona com a gestão superior da vida política do Estado; e
outro nível, administrativo (em sentido estrito) que atende,
num plano executivo, à realização prática das diretrizes legais
e planejamentos necessários à materialização da vontade
política (CUNHA JR., 2011).
Conclui-se, neste segundo momento, que um estudo
da atividade de inteligência, que tome como marco a
legalidade, decerto, deve ser orientado pelos princípios e
normas inerentes ao direito administrativo, como estatuto
regente de seu funcionamento.
Prosseguindo, como mencionado em momento
anterior, o estudo se debruçou (por necessidades temáticas)
sobre aquele segundo nível de atividades administrativas, o
executivo, do qual foram extraídos os critérios de validade
dos atos praticados em sede de atividade de inteligência.

3.3 DO ENQUADRAMENTO DOS ATOS JURÍDICOS DE


INTELIGÊNCIA.

5
Art. 37. A administração pública direta e indireta de qualquer dos Poderes da União,
dos Estados, do Distrito Federal e dos Municípios obedecerá aos princípios de
legalidade, impessoalidade, moralidade, publicidade e eficiência.
61
Torna-se assente, a esta altura, o enquadramento
jurídico dos atos praticados no exercício da atividade de
inteligência em segurança pública como atos administrativos
sui generis (ou especiais), dada a especialidade do regime em
que ocorre sua execução e o caráter diferenciado pelo qual
sofrem a incidência dos princípios constitucionais.
Cunha Jr., conceitua atos administrativos como
(...) espécie do gênero ato jurídico,
regido pelo direito público, do qual se
vale o Estado ou quem age em nome
dele, para exprimir, unilateralmente,
uma declaração de vontade, fundada
na lei e voltada ao desempenho de
funções administrativas na gestão do
interesse coletivo (2011, p. 100).

O conceito deve ser complementado por Justen Filho:


O ato administrativo é uma
“manifestação de vontade”, no sentido
de que exterioriza a vontade de um
sujeito dirigida a algum fim. Isso
significa a existência de dois aspectos
inconfundíveis na vontade. Há a
exteriorização física, consistente numa
ação ou omissão. Mas há também um
aspecto interno, volitivo, que é a causa
da ação ou omissão (2009, p. 273).

Na esteira desta compreensão, tem-se que os atos


administrativos são, preliminarmente, caracterizados por
serem atos jurídicos, portanto, manifestações de vontade
62
consciente, materiais ou reais, tendentes a produzir um efeito
(ou consequência) previsto(a) em lei (GAGLIANO e
PAMPLONA FILHO, 2009). Em segundo lugar, são atos
praticados por um agente público devidamente investido em
suas funções, preordenados à realização de uma finalidade
estritamente pública (CARVALHO FILHO, 2013), sob inexorável
regime de direito público (ou seja, regrados por normas
regentes de matéria de direito público, interessante, destarte,
a toda a sociedade e sujeito a determinados imperativos de
ordem).
Sob os aspectos tipológicos, constata-se que os atos
administrativos praticados em atividade de inteligência
poderão, de acordo com as características, ser tanto
vinculados6, quanto discricionários7. Igualmente, sua
classificação é variada conforme o efeito ocasionado pelo ato
ou os responsáveis pela sua execução, questões que são
despiciendas à presente análise.
No entanto, é de extrema relevância a classificação
finalística dos atos praticados em sede de atividade de
inteligência em segurança pública. Por sua natureza e
imposição estatal, tais atos se caracterizam como atos
administrativos de império, ou seja, manifestações de vontade
para as quais não concorre a vontade dos particulares.
No bom dizer de Carvalho Filho, “Atos de Império são
os que se caracterizam pelo poder de coerção decorrentes do
poder de império (ius imperii), não intervindo a vontade dos
administrados para sua prática” (2013, p. 130), definição que

6
Ou seja, com elementos estrita e totalmente amarrados em lei.
7
Consistindo em atos nos quais se dá margem ao administrador para uma atuação
regida por critérios de conveniência e oportunidade (CARVALHO FILHO, 2013),
dando-lhe liberdade quanto à escolha do objeto, desde que regularmente exposto o
motivo do ato.
63
se conforma perfeitamente, aliás, à esfera da atividade de
inteligência.
Este apontamento é de suma importância: os atos de
império (em geral) são, inequivocamente, as espécies de atos
administrativos que mais se denotam aptos a ocasionar
violações aos direitos e garantias fundamentais do cidadão, o
que, por óbvio, é mais ainda assente na categoria de atos
administrativos praticados no exercício da atividade de
inteligência.
Como assevera Gonçalves (2009, p. 56), “algumas
dessas medidas limitarão em algum momento, as liberdades
individuais. Entretanto, ou as autoridades governamentais
agem assim ou as consequências podem ser nefastas”, afinal,
a vedação à prática de atos desta natureza, num contexto de
enfrentamento a organizações criminosas cada vez mais
estratificadas política e socialmente, significaria um suicídio
institucional inaceitável.
Daí repetir-se: É inconcebível abrir mão de um serviço
tão estratégico (como o é qualquer atividade desenvolvida
dentro da Segurança Pública), devendo-se buscar, por outro
lado, sua legitimação por meio de eficientes mecanismos de
controle legal e institucional.
Como afirma Cepik, ao tratar dos “mandatos legais” 8
da atividade de inteligência (num contexto internacional,
aplicável, porém, ao âmbito interno),
[...] claro está que os mandatos legais
não resolvem os problemas políticos
resultantes da interpretação sobre as

8
Na exposição de CEPIK (2001), a ideia de marcos legais se confunde com a ideia de
legalidade ora exposta, ou seja, a previsibilidade legal da adoção de “atos” de
inteligência para fins de administração pública dos interesses sociais, notadamente,
na área da segurança pública, no caso deste trabalho.
64
áreas, os métodos e a intensidade da
atuação da inteligência. [...] entretanto,
considerando-se que existem
realmente ameaças que exijam a
manutenção de organizações de
security intelligence, os mandatos
legais tornam-se imprescindíveis para
ao menos estabelecer parâmetros a
partir dos quais se possa julgar as
ações e prioridades destes órgãos
(2001, p. 181).

E, aqui, atinge-se o cerne deste primeiro momento


deste estudo: compreendendo-se que os atos praticados no
exercício da atividade de inteligência em segurança pública
são efetivos atos administrativos de império, pode-se
estabelecer, a partir das características deste último, critérios
legais definidores da validade daqueles primeiros, sem
obviamente, olvidar suas especificidades e diferenciações.
Para tanto, foi necessário compreender a noção de
“validade legal” daquela sorte de atos jurídicos, bem como,
realizar uma detida análise sobre os elementos internos e
externos conducentes à sua legitimação, conjecturas das quais
se ocupou o tópico seguinte, mais uma vez, sob o guia
estruturações científicas do direito administrativo brasileiro.

4 DA DEFINIÇÃO DE VALIDADE E CRITÉRIOS INTERNOS E


EXTERNOS DOS ATOS ADMINISTRATIVOS DE IMPÉRIO NO
DIREITO BRASILEIRO.
4.1 DOS PLANOS DE EXISTÊNCIA, VALIDADE E EFICÁCIA DOS
ATOS JURÍDICOS E SUA APLICABILIDADE AO ATO JURÍDICO-
ADMINISTRATIVO.
65
Objetivamente, pode-se conceituar um ato jurídico
como uma “declaração de vontade” exarada com o objetivo
de “produzir efeitos admitidos” (ou seja, não proibidos) pelo
direito, no sentido de “criar, modificar e extinguir direitos ou
situações jurídicas” (GAGLIANO e PAMPLONA FILHO, 2009, p.
315).
Por óbvio, para que possam atingir suas finalidades
pretendidas, é imprescindível que os atos jurídicos obedeçam
pressupostos delineados pela própria lei, ou seja, preencham
determinados planos jurídicos pré-determinados.
O primeiro plano seria o da existência, que materializa
o surgimento do ato jurídico no mundo substancial, exigindo-
se, para tanto, a manifestação de vontade de um agente por
meio de suporte formal apropriado, voltada a um certo objeto
(finalidade da vontade) (GAGLIANO e PAMPLONA FILHO,
2009).
O segundo plano é o da validade, que configura a
aceitação do ato existente pelos preceitos legais que lhe são
próprios. Exige-se, assim, que o ato tenha sido praticado por
agente capaz, por meio de uma forma não defesa por lei (ou
por ela vinculada), voltando-se a um objeto lícito possível e
determinado ou determinável (GAGLIANO e PAMPLONA
FILHO, 2009). Note-se que um ato pode até existir, porém,
não ser válido.
É sobre este critério que o estudo, logo a seguir,
dedicará sua atenção.
Por fim, há o plano da eficácia, que diz respeito à
potencialidade de o ato existente (e presumidamente válido)
gerar efeitos concretos no mundo substancial. Aqui se avalia
sua sujeição a fatores temporais ou jurídicos capazes de
limitar ou postergar a modificação material pretendida pelo
mesmo no mundo, bem como, o momento em que aquele
66
atinge a sociedade e produz consequências (GAGLIANO e
PAMPLONA FILHO, 2009).
A compreensão desses planos é de fundamental
importância porque, em termos práticos, embora seja natural
a plena satisfação dos planos jurídicos em questão, não é
incomum constatar, tanto na esfera pública quanto na
privada, a presença de ações que embora, existentes e
eficazes (já produzindo efeitos concretos, portanto) carecem
de efetiva validade.
E, esta invalidade - grave, como o nome já sugere -
acaba por passar desapercebida em razão da uma
incompreensão coletiva a respeito dos elementos que lhe são
intrínsecos. Numa hipótese otimista, poderia até se falar na
convalidação do ato (ou seja, correção do elemento ausente
ou defeituoso). Mas, em grande parte dos casos, o caminho
inafastável é o da anulação administrativa ou judicial do
mesmo (sem prejuízo de eventuais compensações ou
reparação de danos eventualmente causados).
Os mesmos planos jurídicos em questão são aplicáveis
aos atos jurídico-administrativos do Estado, os quais,
entretanto, detêm elementos (componentes) diferenciados
dos atos jurídicos civis ou comuns.
Conforme ensina Carvalho Filho (2013), nos termos da
doutrina predominante, os atos administrativos são
compostos por cinco elementos necessários à sua validade,
quais sejam: a) Competência; b) Objeto; c) Forma; d) Motivo;
e) Finalidade.
Como regra geral, a ausência de um destes elementos
importará na imediata nulidade do ato (ao menos, até sua
convalidação). Assim, mesmo que o ato seja existente e eficaz,
por sua nulidade, poderá ocasionar severos prejuízos à
administração pública, tanto num aspecto material (já que
67
poderá ser responsabilizada pela atuação irresponsável de um
agente), como num aspecto político (uma vez que a nulidade
pode importar num “descrédito” sobre sua atuação pública e
política).
Especificamente, no que toca à Atividade de
Inteligência, tem-se que o regime jurídico destes atos ganhará
contornos diferenciados, justamente, por conta das
peculiaridades inerentes a esta atividade e sua metodologia
própria.
Portanto, nos tópicos subsequentes, foi travada uma
discussão em torno da verificação e discussão destas
peculiaridades, justamente, para que se pudesse compreender
como funcionariam os mecanismos de controle de legalidade
do ato jurídico-administrativo praticado na atividade de
inteligência a partir de cada um daqueles elementos
destacados.

4.2 DA ANÁLISE DOS ELEMENTOS DE VALIDADE DOS ATOS


JURÍDICO-ADMINISTRATIVOS À LUZ DAS PECULIARIDADES
DA ATIVIDADE DE INTELIGÊNCIA
4.2.1 Da Competência.
O primeiro elemento a ser destacado em relação à
análise da validade de um ato praticado em Atividade de
Inteligência é o da competência, ou seja, a tarefa de verificar
se o ato praticado estava, ou não, na efetiva esfera de
atribuições legais cometidas ao agente que o praticou, seja
ele um analista ou agente de campo (operacional).
E, é aqui que se confronta um dos principais problemas
inerentes à validade jurídica dos atos jurídico-administrativos
de inteligência: a regulamentação das ações dos agentes e
analistas de inteligência, normalmente, é firmada no nível dos
manuais das entidades (serviços ou órgãos) que
68
desempenham a atividade, sem que a lei confira qualquer
espécie de mandato ou autorização legal para que estes
simples digressos realizem tamanha normatização.
Não se trata de uma crítica recente, diga-se de
passagem. Conforme relata Figueiredo (2005), ainda no ano
de 1963, era relatado pelo então Chefe do Serviço Federal de
Informações e Contra-Informações – SCIFI, o Tenente Coronel
Carlos Ramos de Alencar, em conferência ministrada na Escola
Superior de Guerra, que a legislação vigente à época era cheia
de inconsistências que, além de tornar indefinida a
competência do órgão (e, por via de consequência, de seus
agentes), comprometia totalmente a eficiência do sistema de
inteligência.
Em outras palavras, constata-se que muitas das ações
praticadas por agentes e analistas de inteligência em
segurança pública, em termos concretos, não encontram
qualquer previsão legal que as ampare, o que, de pronto,
importaria na invalidade daquelas, sujeitando-as a eventual
declaração (judicial ou administrativa) de nulidade, dando azo
a condenações reparatórias ou compensatórias contra o
Estado, conforme cada caso.
A visibilidade deste problema, entretanto, é ocultada
por uma série de limites práticos relativos à análise judiciária
da validade de ações de inteligência. Como aponta Cepik
(2001), a histórica visão de intangibilidade do mérito
administrativo9, o sigilo inerente à atividade (que, muitas

9
Mérito administrativo, conforme a doutrina de CARVALHO FILHO (2013, p. 125),
pode ser compreendido como a esfera de “liberdade de escolha” atribuída política e
legalmente aos agentes públicos pelo regime democrático, para que estes,
atendendo a critérios de oportunidade e conveniência, que jamais poderiam ficar
vinculados (amarrados em lei), possam fazer as “melhores escolhas” no atendimento
das necessidades concretas do interesse público, evitando uma maior burocracia no
atendimento das demandas do organismo social.
69
vezes, acaba por inviabilizar a noção de contraditório e ampla
defesa judicial) e a existência de mecanismos refratários à
atuação judiciária, tem-se mostrado como impeditivos fiéis à
colocação dos serviços de inteligência nos bancos dos réus,
para sua sorte.
Ainda conforme Cepik (2001), tem-se como muito mais
comum a participação prévia do poder judiciário no controle
de algumas ações de inteligência que, por analogia
(impropriamente), inspiram-se em mecanismos
investigatórios, como no caso das interceptações telefônicas 10,
ações controladas11 e infiltrações12.
Nas demais situações, até mesmo pela difícil
caracterização dos ilícitos administrativos oriundos da
atividade de inteligência e considerável carência de estudos
jurídicos sobre o tema (sendo o assunto muito estranho até
mesmo aos profissionais do direito), pouco se vê em termos
de atuação judicial.
Ainda, assim, o problema do vazio legislativo é
considerável.
Preliminarmente, não há que se confundir a atividade
investigatória (voltada à produção de provas para o processo
penal), com atividade de inteligência (voltada à obtenção de
informações necessárias à tomada de processos decisórios
pelo poder público), pelo que sequer se poderia legitimar o
uso via analogia dos meios de investigação acima
identificados no seio da atividade de inteligência (embora, na
prática, estes sejam corriqueiramente realizados).

10
Lei 9.296/96, que regulamenta a intercepção telefônica tratada no teor do art. 5º,
XII, da Constituição da República Federativa do Brasil.
11
Art. 9º, da Lei nº 12.850/13, que trata do combate a organizações criminosas.
12
Art. 10, da lei supra mencionada.
70
Em segundo lugar, mesmo pressupondo que, por
serem os agentes ou analistas de inteligência membros da
área de segurança pública, estando assim conglobados pelas
competências gerais de seus cargos (enquanto policiais,
fiscais, etc.), deve-se lembrar de que, por outro lado, há uma
diferença substancial entre as atividades de investigação e
repressão de crimes e a atividade de assessoramento ao
gestor, esta última, realizada tipicamente em sede de
atividade de inteligência, através de métodos próprios de
coleta e análise de dados. Persiste, portanto, a necessidade de
regulamentação específica,
Em terceiro lugar, considerando a natureza das práticas
(operações) efetivadas pela atividade de inteligência (como,
por exemplo, as entradas, as interceptações de sinais e as
entrevistas), constata-se que estas não encontram
fundamento em qualquer lei capaz de admiti-las como
exceções democraticamente consentidas aos direitos
fundamentais que invariavelmente atingem.
Em quarto lugar, constata-se comum a colaboração de
particulares que, de livre vontade ou mediante incentivos,
fornecem as informações necessárias à apuração de fatos, e,
nessa qualidade, poderiam ser classificados, em sentido
amplíssimo, como agentes particulares colaboradores
(possivelmente, agente honoríficos, por prestarem
informações por uma questão de honra à nação ou ao serviço
público)13. Porém, novamente, são raras as regulamentações a
respeito desta possibilidade ou, até mesmo, da concessão de
incentivos oriundos de dinheiro público àqueles sujeitos (o
temido tema da verba secreta).

13
Nesse sentido, recomenda-se a leitura de Carvalho Filho (2013, p. 591).
71
Portanto, vislumbra-se uma verdadeira lacuna
legislativa funcional a respeito do tratamento jurídico das
ações dos profissionais da atividade de inteligência, capaz de
gerar, repita-se, uma enxurrada de ações judiciais contra o
Estado, bem como, prejuízos graves e incompatíveis com a
ideia de regime democrático.
Além disso, a ausência de regulamentação pode gerar
responsabilidades individuais que, por mais que consentidas,
acabariam por ser imputados exclusivamente ao analista ou
agente da atividade em questão, num imoral benefício do
ente estatal assessorado.
Impõe-se, de maneira inconteste, a regulamentação da
matéria no Brasil.

4.2.2 Do Objeto.
Por sua vez, é importante que seja verificado o objeto
da ação praticada pelo serviço de inteligência, situação que
diz respeito à criação, modificação ou extinção que se
pretende produzir na realidade jurídica pertinente. Em linhas
simples, o objeto expressa o conteúdo da ação realizada.
Aquilo que efetivamente “se fez” (JUSTEN FILHO, 2009, p.
295).
Este objeto, por sua vez, deve ser lícito (ou seja, não
deve ser proibido por lei), possível (ou seja, efetivamente
realizável, em termos práticos) e determinado, ou, no mínimo,
determinável (ou seja, deve ser potencialmente delimitável ou
quantificável).
Como a atividade de inteligência é voltada à obtenção
de dados sensíveis ao processo decisório, tem-se que o objeto
deverá satisfazer: a) a obtenção de dados por meios legais
(licitude), através de b) métodos legalmente viáveis
(possibilidade), e, c) inerentes a fatos devidamente
72
especificados e delimitados (determinação), sobretudo, em
razão de que, no contexto democrático, a atividade de
inteligência se encontra voltada a fatos (e não a pessoas).
Quando se trabalha com dados abertos (ou seja,
publicamente disponíveis através de meios abertos de acesso,
como prestações de contas, redes sociais, meios de
comunicação etc.), nenhum problema se constata, em regra,
quanto ao objeto dos atos de inteligência (BARRETO;
MIRANDA; NASCIMENTO, 2015), desde que a informação
produzida não esteja voltada a denegrir a honra, imagem,
vida privada ou intimidade do eventual atingido. O mesmo,
porém, já não se pode dizer a respeito da atividade destinada
à obtenção de dados negados, que pressupõem uma
acessibilidade não autorizada pelos indivíduos e instituições
atingidos pela ação dos serviços de inteligência (BARRETO;
MIRANDA; NASCIMENTO, 2015).
A obtenção de tais dados, num contexto democrático,
só poderia ser consentida em duas hipóteses: Ou a) há uma
autorização legal à acessibilidade excepcional dos mesmos
(hipótese em que o objeto seria vinculado em lei),
preenchidos certos requisitos; ou, b) há autorização
discricionária concedida, conforme oportunidade ou
conveniência, por um órgão ou instância colegiada (hipótese
voltada a atos discricionários), o que, ainda assim, pressupõe
previsão legal.
Como já se viu no tópico anterior, raras são as leis que
tratam a respeito destas possibilidades, sendo comum o
recurso analógico (impróprio) em casos como os das leis nº.
9.296/96 (que trata da interceptação telefônica) e nº.
12.850/13 (a lei de combate a organizações criminosas, que
trata da possibilidade de infiltração de agentes), em ambos

73
casos, sob estrita autorização judicial e após o preenchimento
de determinados requisitos.
Algo que seria próximo do segundo exemplo é
previsão de uma comissão de controle e fiscalização externa
em relação à Agência Brasileira de Inteligência, conforme
previsão do art. 6º14, da Lei 9.883/99. Diz-se “algo próximo”,
porque, a despeito da previsão legal deste órgão de controle
externo, a lei deixou sob inteiro critério do Congresso
Nacional a institucionalização desta Comissão, não
especificando se este controle poderia ser prévio, ou não, o
que, por óbvio, não poderia ser estipulado naquele ato
regimental, justamente, por significar uma ingerência em
competências do Poder Executivo, e, assim, violação ao
princípio constitucional da separação das funções
constitucionais.
Igualmente, questiona-se a (ausência de)
expressividade concreta da atuação daquele órgão (o que não
cabe nas linhas do estudo, mas deve ser objeto de crítica,
certamente).
Novamente, observa-se que a falta de tratamento
adequado a respeito dos objetos, ou seja, conhecimentos
passíveis de serem acessados no exercício da atividade de
inteligência, sobretudo, no que toca aos dados negados, pode
conduzir a ação a um contexto de ilegalidade.
Por mais que as informações obtidas pelas ações de
inteligência não sejam (e nem possam ser) utilizados para fins
de instrução criminal (já que esta não é a destinação da
Atividade de Inteligência), ainda assim, sua obtenção pode
ensejar sentimentos de violação substancialmente perigosos à

14
Art. 6o O controle e fiscalização externos da atividade de inteligência serão
exercidos pelo Poder Legislativo na forma a ser estabelecida em ato do Congresso
Nacional.
74
estabilidade democrática, o que, mais uma vez, impõe um
tratamento legal adequado sobre a matéria.

4.2.3 Da forma.
Em linhas diretas, aqui se constata um dos problemas
mais nevrálgicos do tema.
A forma diz respeito ao suporte material por meio do
qual o ato administrativo se realiza (se por escrito, por gestos,
sinais etc.). A regra é a solenidade dos atos, ou seja, sua
elaboração por escrito, com perfeita identificação dos
responsáveis, e seguindo prescrições especificadas em normas
legais ou regulamentares (CUNHA JR, 2011).
Contudo, o que é regra para as demais atividades, é
nítida exceção para a atividade de inteligência: as ações de
inteligência devem ser compreendidas como um processo, ou,
em doutrinários, como um ciclo, que, para ser consolidado
como válido, depende da validade de uma série de atos
praticados em seu decorrer.
Embora o ato final (em tese) deste ciclo - o Relatório
de Inteligência -, seja um documento solene, portanto, escrito
e elaborado conforme determinadas regras específicas, em
alguns casos, até mesmo com a identificação (criptografada,
ou não) dos responsáveis, tem-se que as demais ações
concretas praticadas ao longo do processo de obtenção ou
transmissão de informações sigilosas, não detêm
pormenorizações específicas, afora as previstas nos manuais,
o que torna a verificação de sua validade uma atividade
hercúlea e praticamente impossível, senão, aos membros da
própria equipe de inteligência em campo, no momento da
operação.
Certamente, é aqui que surge a maior necessidade de
discussão, debate e construção de mecanismos de controle da
75
formalização dos atos de inteligência. Afinal, é no momento
da ação, da transmutação da vontade, por meio do ato, num
meio material, que podem ocorrer arbitrariedades contrárias
ao espírito democrático.
Novamente, roga-se a regulamentação da matéria,
carente em todos os sentidos.

4.2.4 Motivo
No dizer de Cunha Jr. (2011, p. 111), o motivo “é a razão
ou circunstância de fato ou de direito que autoriza ou
determina a prática do ato administrativo”. Em linhas mais
simples, trata-se do porquê da prática de um ato.
Em sede de atividade de inteligência, deve-se lembrar
de que este motivo sempre estará voltado à obtenção de
dados qualificados, necessários à tomada de um processo
decisório por parte de um gestor (CEPIK, 2001), o que se dá
por meio de diversas outras atividades de preparação, coleta e
disseminação de informações.
A gênese da solicitação de informações, por sua vez,
que é o primeiro passo do ciclo de inteligência, ocorre a partir
da formalização da demanda de um agente de cúpula (aos
quais normalmente se encontram subordinados os órgãos de
inteligência), pleiteando uma determinada sorte de
informações a respeito de um fato.
Esta demanda, por sua vez, deve se conformar a um
mandato ou poder conferido ou legitimado pelo sistema
político, materializando, assim, um verdadeiro ato político15.

15
Conforme o ensinamento de CUNHA J. (2011, p. 99), os atos políticos
materializariam uma ação facultada pelos documentos políticos máximos da
federação brasileira (Constituição Federal, Constituições Estaduais e Leis Orgânicas),
bem como, leis estratégicas, que permitiriam uma ação com “maior liberdade” a ser
efetivada por parte de determinados grupos de agentes públicos (normalmente de
cúpula, sendo, nessa qualidade, chamados de agentes políticos), conforme funções
76
Assim, todos os demais atos que decorrerem desta
solicitação (ato político) estarão direta e exclusivamente
vinculados ao pedido (motivo da ação de inteligência) não
devendo se estender, a princípio, a quaisquer outros fatos que
não aquele demandado pela autoridade assessorada, sob
pena de violação desta motivação, salvo, quando influente na
decisão a ser tomada, conforme margem discricionária
eventualmente conferida por lei ao agente ou analista.
Há, portanto, uma vinculação do motivo à demanda
solicitada, que, se contrariada, poderá gerar a invalidade do
ato jurídico-administrativo.
Ademais, apesar do campo político não se configurar
como objeto de análise (ao menos estrito) deste estudo, deve-
se lembrar de que a vontade política determinante do motivo,
se eventualmente corrompida, enseja por parte dos
executores das ações jurídico-administrativas de inteligência
apego à legalidade, de modo a, em último caso, até mesmo
recursar a satisfação da demanda solicitada.
Trata-se de outro problema teórico digno de debate,
uma vez que a vontade política corruptível pode ensejar
motivos inválidos, porém, vinculativos da ação dos agentes e
analistas da atividade de inteligência. Deste modo, uma
eventual recusa executiva legítima por parte destes últimos
pode acabar por ser substituída por um acatamento tácito de
arbitrariedades, ainda mais num Brasil onde a meritocracia é
sinônimo de subserviência quando da eleição dos ocupantes
de cargos de confiança.
Trata-se, portanto, de sério ponto a ser analisado além
da legalidade, invadindo o campo teórico político e ético.

políticas concedidas diretamente pelo povo (mandato eleitoral) ou por autoridades


eleitas (funções de confiança, por exemplo).
77
3.2.5 Finalidade
Finalmente, é assente na doutrina que a finalidade é
um elemento vinculado de conteúdo irredutível dos atos
administrativos: “(...) toda atividade desenvolvida pela
administração pública deve guiar-se para o atendimento de
um único resultado ou bem jurídico, qual seja, o fim público,
que nada mais é senão servir ao interesse da coletividade”
(CUNHA JR., 2011).
Trata-se de uma consequência mediata que deve ser
almejada em relação aos atos administrativos em geral, não o
sendo diferente em relação aos atos jurídico-administrativos
praticados na atividade de inteligência.
Cepik (2001) afirma que, pela natural subsidiariedade
da atividade de inteligência, esta pode ser compreendida
como um subconjunto do próprio ciclo das políticas públicas,
sendo desempenhada como uma função que deve estar
voltada ao fornecimento de informação qualificada e
embasada, para permitir ao gestor (materializador das
políticas que atenderão, conforme critérios constitucionais, ao
que é de interesse coletivo) à tomada de decisões corretas em
prol da comunidade.
Novamente, deve-se lembrar de que a noção de
interesse público aqui utilizada perpassa por toda a discussão
de democracia já realizada no terceiro tópico deste estudo,
não devendo, nem de longe, ser compreendida como uma
utopia capaz de conglobar todos os interesses existentes no
organismo social. O que se deve ter em mente, em relação à
finalidade, é que um ato de inteligência válido é aquele
desempenhado em prol do atingimento de um objeto lícito
(finalidade imediata), conforme uma necessidade declarada
pelo detentor de um mandato político-jurídico competente.

78
O caráter finalístico do ato (a satisfação do que é de
interesse público), portanto, acaba por dizer respeito a
questões que ultrapassam, novamente, a esfera da legalidade,
habitando o campo da política e da vontade representativa,
declarada pelos agentes escolhidos conforme os processos
institucionalizados pela Constituição e pela Lei (eleição direta
ou indireta, nomeação para ocupação de cargos de confiança,
etc.).
Por óbvio, escolhas realizadas pelos administradores
em desrespeito ao mínimo processo democrático instituído,
decerto, significarão uma violação da finalidade pública ora
referida, importando, por sua vez, na nulidade de toda e
qualquer atividade desempenhada pelos órgãos de
inteligência.
É por isso que, mais uma vez, se reforça a importância
do controle político exercido pelo Poder Legislativo em
relação à atividade de inteligência, o qual, no nível federal,
repita-se, foi instituído pela própria Lei 9.883/99, que, em seu
art. 6º, instituiu a comissão de controle e fiscalização externa
em relação à Agência Brasileira de Inteligência (num modelo
que deveria ser seguido por todo e qualquer serviço,
independentemente da esfera federativa).
Esta comissão, regida pela Resolução nº 02/2013 do
Congresso Nacional, detém a função de fiscalização e controle
externo da atividade de inteligência desempenhada pela
Agência Brasileira de Inteligência – ABIN e demais órgãos do
Sistema Brasileiro de Inteligência – o SISBIN, por óbvio, não
só de maneira restrita ao aspecto de legalidade que embasa
este estudo, porém, num aspecto muito mais amplo,
conglobando a conveniência política das ações realizadas.
A despeito do caráter elogioso da iniciativa, constata-
se a não reprodução obrigatória deste mecanismo de controle
79
no âmbito dos Estados e Municípios, enfraquecendo o
necessário e imprescindível controle de finalidade dos atos
jurídico-administrativos realizados pelos órgãos de
inteligência destes entes federativos, sobretudo no campo da
Segurança Pública, onde é marcante a atuação, sobretudo,
dos Estados-Membros de nossa federação.
Igualmente, o já registrado trauma histórico associado
à atividade de inteligência, aliado à ausência de transparência
política (questão que não se restringe somente ao âmbito da
atividade de inteligência, diga-se de passagem) são fatores
que dificultam substancialmente a legitimação e, nesta senda,
a criação de mecanismos de controle da legalidade (e,
portanto, da finalidade) dos atos jurídico-administrativos
praticados no exercício daquela função.
Cabe, por hora, a transcrição de importante conclusão
obtida por Cepik, em seus estudos a respeito das questões
políticas que envolvem a atividade:
(...) Mesmo nos países mais
democráticos os mecanismos de
supervisão congressual são muito
recentes e têm evidentes problemas de
desempenho institucional. Na medida
em que a institucionalização dos
serviços de inteligência envolveria não
apenas a obtenção de “estabilidade”
organizacional, mas também um longo
processo através do qual eles tornam-
se (ou não) organizações valiosas para
o público, esse é um processo que está
fortemente relacionado à
transparência, ou seja, à capacidade do
público ver e julgar por si mesmo os
80
atos dos governantes na área de
inteligência. Mesmo que os serviços de
inteligência contemporâneos tornem-
se suficientemente ágeis para
estabilizarem-se organizacionalmente
no novo contexto (...), sua eventual
institucionalização dependerá ainda da
difícil resolução do dilema da
transparência (2001, p. 214).

Portanto, longe de analisar a finalidade com a


simplicidade costumeira da ciência jurídica, constata-se que o
atendimento ao interesse público, num contexto democrático
de interesses divergentes, em verdade, é um critério
legislativo meramente retórico que, na prática, só se realiza
mediante a existência de órgãos de controle (sobretudo
legislativos) que garantam a transparência do processo
político de uso dos órgãos de inteligência, obviamente,
respeitando seu sigilo e o caráter fundamentalmente
estratégico de suas funções.

5 CONSIDERAÇÕES FINAIS
Faltando praticamente uma década para a
comemoração do centenário da institucionalização da
atividade de inteligência no Brasil (surgida em 1927, no
Governo Washington Luis), observa-se que a função ainda
convive com sérios problemas contemporâneos ao seu
nascedouro, concernentes, sobretudo, à indiferença quanto à
normatização de sua metodologia e práticas, o que só reforça
o temor criado em torno de sua existência atual e de seus
fantasmas, remanescentes de regimes autoritários.

81
Como se constatou ao longo do Estudo, uma vez
verificada a natureza jurídico-administrativa dos atos
praticados na atividade de inteligência, vislumbrou-se
também, a partir da legislação vigente, a possibilidade de
aferir critérios mínimos para avaliar a sua validade.
Das construções doutrinárias do direito administrativo,
por sua vez, ressaltou-se o caráter público da atividade de
inteligência em segurança pública, bem como, sua submissão
a normas de mesma natureza, bem como, a princípios
constitucionais inerentes à atividade administrativa como um
todo.
De igual maneira, constatou-se a existência de graves
lacunas legislativas referentes aos elementos definidores da
validade dos atos praticados no exercício da atividade de
inteligência, capazes de ocasionar, num primeiro momento, a
declaração de nulidade das ações realizadas, e, como
consequência, possíveis prejuízos financeiros aos entes
públicos envolvidos na violação da legalidade.
Numa perspectiva mais grave, tem-se que esta
fragilidade de limites pode importar num total descrédito em
relação à atuação das instituições políticas e administrativas,
além de significar, numa total contrariedade ao espírito
democrático, a tomada de violações não consentidas aos
núcleos intangíveis de certos direitos fundamentais do
cidadão.
Faz-se necessário, portanto, um aprimoramento da
legislação brasileira quanto aos elementos configuradores da
validade dos atos jurídico-administrativos desempenhados na
inteligência (competência, objeto, forma, motivo e finalidade).
Igualmente, além do aspecto da legalidade, é
imperioso o fortalecimento de instituições de controle político
institucional desta atividade, justamente para que, superando
82
cicatrizes do passado, a função em apreço tenha reconhecida
sua legitimidade democrática e seu caráter de
imprescindibilidade à mantença da ordem social.
Para tanto, faz-se necessária uma desmistificação da
atividade de inteligência, sua apresentação formal à
comunidade e sua submissão à debates e estudos abertos,
como o ora efetivado, de modo a admiti-la como significativo
instrumento evolutivo à disposição do Estado Brasileiro,
sobretudo, no aspecto tangente à segurança pública.
Por óbvio, o presente estudo não se encerra em si
mesmo, mas dá azo a um prosseguimento da análise por
vieses históricos, políticos e jurídicos mais aprofundados, que
poderão buscar as origens (pretendidas, ou não; e,
convenientes, ou não) de tantas lacunas normativas no
regramento deste importante campo político.
Cumpre encerrar essas ponderações afirmando que a
atividade de inteligência empodera o regime democrático,
permitindo a antecipação de eventos muito prejudiciais à
ordem social, inclusive, no sentido de proteger e potencializar
a participação de camadas não hegemônicas do organismo
social (historicamente estigmatizadas pelo regime dito
democrático), aproximando da realidade concreta o
proclamado mito da igualdade típico do modelo político
nacional.
Contudo, isto pressupõe uma crença da comunidade
de inteligência e no aprimoramento de suas ações, na
eticidade de suas atribuições e, sobretudo, na pluralidade
político-institucional, que impõe controlar e aceitar o
controle, justamente, como garantia de transparência na
satisfação das necessidades públicas.
Aprimorar é preciso: Se hoje o Brasil ainda não acredita
na comunidade de inteligência, a comunidade de inteligência,
83
certamente, como visionária por aptidão natural que é, tem
muitos motivos para acreditar no Brasil.

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86
ATIVIDADE DE INTELIGÊNCIA E FORMAÇÃO DE POLICIAIS CIVIS NO
PARÁ, NO PERÍODO DE 2005 A 2006

Rilmar Firmino de Sousa


Fernando de Souza Rocha

RESUMO: Este trabalho tem como objetivo analisar como a


disciplina Atividade de Inteligência foi inserida na formação de
policiais civis do Pará, no período de 2005 a 2006, a partir da análise
do referencial teórico e das experiências educacionais da docente
que ministrou a disciplina Atividade de Inteligência no período de
estudo. Foram comparadas experiências educacionais da docente
em outras instituições de Segurança Pública. Nesta pesquisa
apresentamos uma proposta do tipo descritiva, com componentes
do enfoque qualitativo, com a realização de entrevista à
profundidade, para contextualizarmos suas experiências, pontos de
vista, significados, bem como, as percepções de um dos
pesquisadores enquanto diretor do Núcleo de Inteligência Policial
(NIP) no período de 2005 a 2006. Dentre os resultados da
implantação da disciplina Atividade de Inteligência na Polícia Civil
do Pará no período pesquisado e seus avanços, surge a reflexão
sobre a falta de gestão de continuidade do negócio público com os
cursos de formação de policiais civis, a exemplo das constantes
reduções de carga horária e mudança de ementa de curso.

Palavras-Chave: Formação de policiais civis. Atividade de


Inteligência, Experiências educacionais.

ABSTRACT: This article presents as goal to analyze how occurred the


insertion of the study of Intelligence Activity in the formation of the
State of Pará’s Police, by analising the educational experiences of a
teacher in the period between 2005 and 2006, and the experience of
the researcher, as Director of Police Intelligence Department (Núcleo
de Inteligência Policial – NIP). Among the results of the implantation
of the subject Intelligence Activity at the Police at the analyzed

87
period and its headways, and a reflection about the lack of
continuity in the public administration.

Key words: Police officer formation. Intelligence activity. Educational


experiences.

1 INTRODUÇÃO
Nesta pesquisa apresentamos uma proposta do tipo
descritiva, pois segundo Sampieri, Collado e Lucio (2013, p. 102), os
estudos descritivos buscam especificar as propriedades,
características e os perfis das pessoas, grupos, comunidades,
processos, objetos ou qualquer outro fenômeno que se submeta a
uma análise.
Para lograr êxito, o propósito de pesquisa se programou
componentes do enfoque qualitativo, cujo foco é compreender e
aprofundar os fenômenos, que são explorados a partir da
perspectiva dos participantes em um ambiente natural e em relação
ao contexto, com amostra de estudo de caso.
Por meio da entrevista à profundidade, buscamos
compreender a perspectiva da docente que participou da
implantação e ministrou a disciplina Atividade de Inteligência nos
dois primeiros cursos (GPE e Formação de Policiais Civis), suas
experiências, pontos de vista, significados, bem como, as percepções
de um dos pesquisadores enquanto diretor do Núcleo de
Inteligência Policial (NIP) no período de 2005 a 2006.
Nossa pesquisa teve como objetivo geral analisar como a
disciplina Atividade de Inteligência foi inserida na formação de
policiais civis do Pará, no período de 2005 a 2006. Dentre os
objetivos específicos, buscou-se analisar o referencial teórico e as
experiências educacionais da docente que ministrou a disciplina
Atividade de Inteligência no período de estudo, e comparar
experiências educacionais da docente em outras instituições de
Segurança Pública.
Dentre as perguntas norteadoras da pesquisa: Como a
disciplina Atividade de Inteligência foi inserida na formação de

88
policiais civis do Pará? A formação de docente influenciou nas
experiências educacionais da disciplina Atividade de Inteligência na
formação de policiais civis? Quais as experiências educacionais
ministradas na formação em Segurança Pública no Pará?

2 REFERENCIAL TEÓRICO
Na mitologia grega, Bauman (apud PUREZA, 2011 p. 8-9) nos
mostra a estória de Tântalo — filho de Zeus e de Plutó — que um
dia cometeu um crime que os deuses não quiseram ou não
poderiam perdoar e, por isso, foi punido: Tântalo frequentava as
festas no Monte Olimpo na companhia dos deuses, e teria abusado
da confiança divina ao compartilhar com outros homens mistérios
que deveriam permanecer ocultos dos mortais.
Pelo seu crime, Tântalo recebeu uma punição exemplar: foi
mergulhado até o pescoço num regato, mas quando abaixava a
cabeça tentando saciar a sede, a água desaparecia, e sobre sua
cabeça foi pendurado um ramo de frutas, porém, quando ele
estendia a mão tentando saciar a fome, um repentino golpe de
vento carregava o alimento para longe — o suplício de Tântalo —,
daí a expressão “tão perto e ao mesmo tempo tão distante!”.
Para Pureza (2011), essa versão mitológica nos remete a
preceitos de segurança orgânica (atualmente chamada segurança
corporativa), segmento da Contrainteligência1 que preconiza a
adoção de um conjunto de medidas destinadas a prevenir e obstruir
ameaças, de qualquer natureza, dirigidas a pessoas, dados,
conhecimentos, materiais, áreas e instalações.
Na Bíblia Sagrada (2000, p. 164-165), no Antigo Testamento
— livro Números 13: 1-33 — verificamos na história cristã a
importância de informações oportunas para a tomada de decisões
estratégicas, e da utilização de recursos humanos capacitados a
serem empregados na coleta de dados:

1
Ramo da Atividade de Inteligência, que objetiva prevenir, detectar, obstruir e
neutralizar a inteligência adversa e as ações de qualquer natureza que ameacem a
salvaguarda de dados, conhecimentos, áreas, pessoas e meios de interesse da
segurança da sociedade e do Estado.
89
O Senhor falou a Moisés: mande gente
para explorar o país de Canaã, que vou dar
aos filhos de Israel. Mande um de cada
tribo, e que todos sejam chefes”. […]
“Moisés mandou que eles explorassem o
país de Canaã, e lhes falou: subam pelo
deserto do Negueb até chegar à montanha.
Observem como é o país e seus habitantes,
se são fortes ou fracos, poucos ou
numerosos. Vejam se a terra é boa ou ruim;
como é que são as cidades onde moram, se
são abertas ou fortificadas. Vejam se a terra
é fértil ou estéril, se tem árvores ou não.
[…] Quarenta dias depois, voltaram os
exploradores e se apresentaram diante de
Moisés, Aarão e toda a comunidade de
Israel, no deserto de Farã, em Cades. Diante
deles e da comunidade, fizeram seu
relatório e mostraram os frutos da terra.

Para o general Alberto Mendes Cardoso (2005, p. 293, 311 e


320), o primeiro tratadista de defesa do Estado, Sun Tzu (400-320
a.C.), destacou nos treze capítulos da obra “A Arte da Guerra” a
importância de informações oportunas para a movimentação de um
exército e êxito em suas batalhas, bem como, da utilização dos
“melhores talentos”:
Um exército pode marchar grandes
distâncias sem dificuldades, se o fizer
através de regiões onde o inimigo não se
encontrar. Pode-se estar certo do êxito dos
ataques, se forem atacados lugares não
defendidos. Pode-se garantir a segurança
da defesa, se forem mantidas somente
posições que não possam ser atacadas. […].
São as informações oportunas que

90
permitem ao soberano esclarecido e ao
bom general atacar e vencer, e obter feitos
fora do alcance dos homens comuns. Ora,
essas informações não podem ser evocadas
dos espíritos; não podem ser obtidas
indutivamente da experiência, nem por
meio de qualquer cálculo dedutivo. […]
somente o governante esclarecido e o
general sensato empregarão o melhor
talento do exército para fins de
espionagem e, assim obterão grandes
resultados (Sun Tzu).

Para Pureza (2011), assim como no livro Números — em que


o Senhor diz a Moisés: “Mande um de cada tribo, e que todos sejam
chefes” —, Sun Tzu também demonstrou preocupação com o
emprego dos “melhores talentos” do exército para fins de coleta de
informações oportunas.
A autora estabelece um paralelo com o tema “Educação em
Segurança Pública”, e afirma que o emprego dos “melhores
talentos” implica na capacitação técnica de recursos humanos em
Segurança Pública, por meio da educação continuada, para que
somente assim, tenhamos os melhores talentos atuando na
Atividade de Inteligência Policial.
Para Pureza (2011), isso significa dizer que os que trabalham
na Atividade de Inteligência não são melhores que os da área
Operacional, e assim como estes, devem ser capacitados na
educação formal para bem desempenharem suas funções. É o que
se pode chamar de “profissionalização da Segurança Pública”,
deixando de lado a cultura do “NHS” — “Na hora, sai!”.
Contudo, veremos que, historicamente, os policiais civis não
foram submetidos à capacitação técnica para a realização de suas
rotinas policiais na Área da Inteligência, executando inicialmente a
repetição de ações incorporadas à rotina laboral.

91
No Brasil, Célio Santos (2012, p. 111) nos mostra que com a
vinda de D. João VI, em 1808, foi criada a Intendência Geral de
Polícia na cidade do Rio de Janeiro, que contava com um Delegado
em cada província, seguido de breve período democrático e
descentralizado da gestão policial e judiciária, colocando o Juiz de
Paz como figura pública eleita, responsável pelo conhecimento e
julgamento de pequenos crimes e posturas municipais, mas em 1841
o sistema policial foi reorganizado por meio da definição e
aparelhamento das Polícias Civil e Militar.
De acordo com Costa & Grossi (2007, p. 12), durante os
períodos republicanos (1889-1930 e 1946-1964) os estados
brasileiros gozaram de grande autonomia para organizar e controlar
suas polícias. Mas, contudo, durante os períodos autoritários (1937-
1945 e 1964-1985), as polícias estaduais foram submetidas ao
controle federal, não como cooperação, mas sim em relação à
submissão dos estados às diretrizes do governo federal.
O Brasil, assim como diversos países da América do Sul,
sofreu forte influência da doutrina norte-americana de Informações
e Contrainformações2, difundidas por meio de cursos somente para
a cúpula militar desses países, atendendo aos interesses norte-
americanos estratégicos de combate à subversão e contenção do
Movimento Comunista Internacional, com reflexos nos campos
político e econômico.
Era uma estratégia do então governo de Washington, que
resultou na criação e difusão de diversas doutrinas de Segurança
Nacional, difundidas para países que, em muitos casos, serviram de
“sucursais” do serviço norte-americano, com a formação da cúpula
militar na “Escuela de las Americas”, instituição estadunidense-
panamenha onde foram treinados, a partir de 1961, centenas de

2
Terminologia que passou por modificações ao longo das décadas, e inicialmente
estava associada às questões bélicas e de segurança nacional, e posteriormente,
evoluiu para Atividade de Inteligência, com os segmentos de Inteligência e de
Contrainteligência, e empregada “a serviço da sociedade e do Estado Brasileiro”, “um
Estado Democrático de Direito” – em que o Estado e a sociedade têm o mesmo peso
e valor, conforme a doutrina da Agência Brasileira de Inteligência (Abin).

92
militares latino-americanos para agir contra o comunismo no
continente (SANCHES, 2016)
O Paraguai — juntamente com o Brasil, Guatemala, Bolívia, e
Colômbia — foi selecionado em 1956 como um dos primeiros países
latino-americanos a receber o programa de treinamento policial.
Para lá foi designado o Ten. Cel. Robert K. Thierry, formado pela
Escola de Inteligência Estratégica dos EUA, enviado pela Embaixada
Norte-americana em Assunção com a missão de instalação,
assessoramento, e treinamento contínuo do pessoal da Direção
Nacional de Assuntos Técnicos (“la Técnica”), que foi responsável
pela tortura, morte, desaparecimento e lesões físicas e psicológicas
a quem se atrevesse a questionar as políticas baseadas na Doutrina
de Segurança Nacional.
Antes de Robert Thierry, o tratamento nos interrogatórios
era violento e primitivo, com a utilização de claves de ferro
cortantes, socos, dentre outros, que careciam de “refinamento
metodológico”, eficiente e devastador que veio de fora, segundo
Riquelme (op. cit.). Assim, Thierry apresentou a tortura sistemática,
com a aplicação de descargas elétricas, imersão na água, golpes nas
zonas mais vulneráveis do corpo, acompanhamento médico para
calibrar o volume da descarga a ser aplicada em cada caso, com o
fim de arrancar confissões dos detidos.

Foto 1 - Instrumentos utilizados em técnicas de tortura ao longo da


história

93
Fonte: Pureza, 2016

Para Brito apud Sara Leite (2014, p. 13) a Inteligência Policial


no Brasil remonta antes mesmo da Inteligência Clássica, pois Getúlio
Vargas criou em 1933 a Delegacia Especial de Segurança Política e
Social (DESPS). Transformada em 1944, na Divisão de Polícia Política
e Social (DPS). Da sua origem até 1964, atuou na vigilância e na
repressão de adversários políticos do regime vigente, repassando tal
tarefa ao Serviço Nacional de Informações (SNI), no início do regime
militar.
Dessa forma, Luciano Costa apud Sanches Pureza (2011, p.
56) nos mostra que por volta de 1955 no Pará foram criadas as
Delegacias de Homicídios, de Entorpecentes e de Crimes contra os
Costumes, além de subdelegacias e os comissariados de Polícia. Os
policiais civis eram nomeados pelo governador do Estado e não
recebiam qualquer treinamento para assumirem os cargos.
Seguindo o cenário nacional, por volta de 1960 foi instalada
a Delegacia de Ordem Política e Social (DOPS) no Estado do Pará,
seguindo as atribuições gerais das DOPS nacionais: atribuições de
investigar crimes políticos. Isto, seguramente, influenciou várias
gerações de policiais civis com a cultura do “secretismo”, com
apropriação das “informações reais”, e assumindo também o papel
de “polícia da polícia” (SANCHES, 2011).
94
A DOPS foi extinta no período de 1992/1993, e criada a
Divisão de Investigações e Operações Especiais (DIOE), sendo as
precursoras da “inteligência policial” na Polícia Civil do Pará.
Posteriormente, foi oficializada a criação da Diretoria de Inteligência
Policial (DIPOL), que foi sucedida pelo Núcleo de Inteligência Policial
(NIP) em 2004.
No âmbito do Ministério da Justiça (MJ), foi criada em 1995
a Secretaria de Planejamento de Ações Nacionais de Segurança
Pública (Seplanseg) que em 1997 se transformaria em Secretaria
Nacional de Segurança Pública (Senasp), destinada a articular
iniciativas de cooperação intergovernamental na área de Segurança
Pública, com a inclusão de demandas da sociedade e do cidadão na
formação dos operadores de segurança pública.
Em 1998, a Senasp/MJ desenvolveu um projeto que
objetivava o treinamento de profissionais da área de segurança
pública, que culminou com o primeiro documento oficial referente à
necessidade de novos currículos para os cursos de formação dos
profissionais da área de segurança do cidadão.
Para a Senasp/MJ, era fundamental compatibilizar as
necessidades das polícias da União e dos Estados, para viabilizar a
integração do ensino policial, com o emprego de técnicas mais
eficazes de repressão e prevenção à violência e a criminalidade, bem
como, quanto ao uso de drogas, com um policiamento voltado para
a relação polícia/comunidade, por meio do “exercício de valores
morais e éticos e do fortalecimento dos Direitos Humanos” em uma
base comum a todas as academias, escolas ou centros de formação
profissional.
Nesse contexto, em 2000 a Senasp divulgou o Plano
Nacional de Segurança Pública (PNSP) para nortear as ações
governamentais de combate e prevenção da criminalidade, que
compreendeu quatro conjuntos de medidas contemplados em 15
compromissos, que se desdobravam em 124 ações, dentre elas,
temas relacionados a crime organizado, controle de armas,
capacitação profissional, reaparelhamento das polícias, etc.

95
Referente à capacitação profissional, a Senasp lançou as
“Bases Curriculares para a Formação dos Profissionais da área de
Segurança do Cidadão”, com o objetivo de descrever e nortear
algumas das ações pedagógicas relacionadas ao perfil desejado para
os profissionais da área, os princípios pedagógicos, as dimensões do
conhecimento e o desenho básico do currículo com suas disciplinas.
Destaque para a inclusão da disciplina Atividade de Inteligência, que
anteriormente algumas academias tratava como Atividades de
Informação e Contrainformação.
Em 2003, as Bases Curriculares foram substituídas pela
Matriz Curricular Nacional (MCN), e esta, pela Matriz Curricular
Nacional em Movimento - Diretrizes Pedagógicas e Malha
Curricular, a MCN foi atualizada em 2009.
Nesse contexto, como forma de incrementar a cooperação
intergovernamental, a Senasp criou em 2003 o Sistema Único de
Segurança Pública (Susp), que estabeleceu seis eixos temáticos nos
quais as ações deveriam ser concentradas, dentre eles a gestão
unificada da informação, gestão do sistema de segurança, e
formação e aperfeiçoamento de policiais.
No Pará, não encontramos nenhum registro na Academia de
Polícia Civil sobre as disciplinas Atividade de Informações ou
Atividade de Inteligência nos cursos de formação de policiais civis,
anteriores a 2005. Assim, nossos policiais civis não possuíam
formação na área de Inteligência ministrada em nossa academia de
polícia.
Em fevereiro de 2005, com a morte da missionária
norteamericana, Dorothy Stang, em Anapu/PA, o juiz deferiu a
medida cautelar de interceptação telefônica e o Núcleo de
Inteligência Policial (NIP) teve que emergencialmente
operacionalizar a interceptação no Sistema Guardião, que ainda não
estava em funcionamento.
Todavia, os policiais não haviam sido capacitados conforme
previsto no contrato com a empresa que vendeu e instalou o
Sistema Guardião no Estado, mas pela necessidade, decidiu-se
operacionalizar assim mesmo as interceptações legais telefônicas

96
concedidas no “Caso Dorothy Stang”, com o conhecimento básico
adquirido pelos policiais do Núcleo de Inteligência Policial (NIP) que
acompanharam a montagem e apresentação de características dada
pela empresa.
Assim, conseguiu-se dar suporte às equipes operacionais da
PCPA que atuaram em Anapu/PA, com êxito na resolução do crime e
consequente prisão dos mandantes e pistoleiro. A experiência
marcou a vida profissional do autor principal, pela decisão advinda
de uma situação extrema, que acabou como uma “proeza” bem
sucedida, mas que não houve a capacitação anterior dos
profissionais para a execução de tarefas técnicas e de interceptação
legal telefônica.
Após o Caso Dorothy Stang, verificou-se a necessidade de
criação de um grupo operacional de pronto emprego na Polícia Civil
do Pará, com condicionamento físico, treinamento contínuo, e que
pudesse ser mobilizado com rapidez para o trabalho de Polícia
Judiciária, e que também assessorasse com agilidade o delegado
geral e o diretor de inteligência policial.
Assim, criou-se o Grupo de Pronto Emprego (GPE), cujo
processo seletivo foi realizado internamente mediante ficha de
inscrição, análise de currículo (experiências anteriores à polícia e na
instituição), teste de aptidão física, entrevista e pesquisa social. Este
foi o primeiro curso da Polícia Civil do Pará a incluir a disciplina
Atividade de Inteligência nos cursos Básico (10 h/a) e Avançado (20
h/a), e teve como alunos profissionais das seguintes categorias:
delegados, investigadores e escrivães.
Posteriormente, incluiu-se a disciplina Atividade de
Inteligência no Curso de Formação de Policiais Civis (concurso C-
89/2006, 680 h/a), em 2007, com carga horária de 20 h/a, como
etapa do concurso público, para alunos delegados, investigadores,
escrivães e papiloscopistas. Mesmo não sendo o objetivo deste
trabalho, mas a título de informação, nos concursos seguintes a
carga horária foi reduzida para 10 h/a (concurso C-149/2009, 480
h/a) e depois aumentada para 14 h/a (último concurso – 2014, 600
h/a), com alterações de ementa da disciplina.

97
A questão dos currículos da PCPA foi tratada por Sedovim
(2008, p. 54-55), em seu estudo sobre a formação dos policiais civis
do Estado do Pará, tendo como foco uma investigação sobre os
currículos desses cursos na Acadepol, compreendendo o período de
1998 a 2007. A pesquisa teve como objetivo geral “realizar uma
apresentação dos currículos da formação dos policiais civis no Pará,
assim como verificar quais fatores podem ser determinantes para a
construção dos currículos no que se refere às disciplinas e suas
respectivas cargas horárias, que o contemplam”.
Dentre os vários aspectos apontados pela autora quanto à
escolha do tema, a experiência profissional na Acadepol em
participar e/ou acompanhar a construção dos projetos de cursos
voltados para a formação de policiais civis do Estado do Pará, bem
como atuar como docente em algumas das disciplinas ministradas
nesses cursos.
Dentre os resultados da análise, as mudanças constantes
relativas à estruturação dos currículos que compõem aqueles cursos,
principalmente no que se refere à estruturação das disciplinas dos
mesmos e de suas respectivas cargas horárias, com “falta de
uniformidade quanto aos currículos, absolutamente variáveis para a
formação dos mesmos cargos de policiais”, a exemplo, determinado
concurso público cujo curso de formação era de 1.030 h/a, enquanto
que para outro, que tinha como finalidade formar os mesmos
profissionais para o exercício das mesmas funções, percebia-se uma
redução de 350 h/a da carga horária total do curso, ou seja,
passando a ter apenas 680 h/a. O que diria a autora, policial
aposentada, sobre as alterações realizadas posteriormente:
Concurso C-149/2009 (480 h/a) e o último, realizado em 2014 (600
h/a)?
Para Sedovim (2008, p. 11), “essa discrepância certamente
influenciará na construção das disciplinas a serem ministradas nos
cursos de formação, refletindo diretamente nos objetivos a serem
alcançados”.
Segundo Sedovim (2008, p. 61), os eventos selecionados
para estudo ocorreram em períodos marcados por mudanças,

98
inovações e transformações voltadas para o ensino do profissional
de Segurança Pública no Brasil, tendo como diretriz pedagógica
desse “marco” um novo pensar e olhar para o ensino policial com as
Bases Curriculares para a Formação dos Profissionais da Área de
Segurança do Cidadão (2000), a Matriz Curricular Nacional para a
formação em Segurança Pública (2004) e a Matriz Curricular em
Movimento: diretrizes pedagógicas e malha curricular (2006). A
pesquisadora realizou a análise dos currículos referentes aos três
Concursos Públicos selecionados no período de estudo às categorias
delegados, escrivães e investigadores, bem como dos editais dos
concursos e projetos de cursos de formação policial, este último
elaborado pela Acadepol.
Relativo aos fatores externos à Acadepol que podem ser
determinantes para a construção dos currículos dos cursos de
formação de policiais civis, a pesquisa apontou para uma série de
fatores determinantes, dentre os quais: “1) A falta de uma identidade
dos currículos dos cursos, quanto a grande flexibilidade e
diferenciação de carga horária, das disciplinas que compõem os
currículos, bem como, as disciplinas que são suprimidas dos
currículos, sem que critérios sejam diagnosticados nesse sentido; 2)
As influências de demandas externas, quanto à urgência da
formação desses policiais, bem como da necessidade em dar
respostas rápidas à sociedade nos serviços prestados pelo
profissional de segurança pública; problemas de verbas
orçamentárias para a realização de uma formação, comprometendo
assim a qualidade e excelência desses cursos; e 3) Através das ‘falas’,
extraídas de conversas ‘informais’, mantidas com ex-diretores e
funcionários da ACADEPOL, alunos egressos dos cursos e,
professores cadastrados no Instituto de Ensino de Segurança do
Pará – IESP, que ministram aulas na Academia de Polícia Civil do
Pará, que enquanto conteúdos representacionais expressos em
torno da temática, posicionaram-se de forma bastante crítica, o que
vem corroborar para uma reflexão crítica/construtiva, das pessoas
que elaboram e executam as atividades pedagógicas e
administrativas do ensino policial civil no Pará.

99
3 ANÁLISE DOS RESULTADOS
No primeiro nível de análise apresentam-se as evidências
qualitativas organizadas segundo a dimensão a qual estejam
vinculadas: “Formação do docente”, “Ingresso na docência em
Segurança Pública”, “Experiências no ensino/capacitação de docente
para atuar na Segurança Pública”, e “Relação acadêmica na PCPA”.
Dentre os resultados na dimensão “Formação do docente”,
com relação à Formação Acadêmica da docente entrevistada,
Zeneide Sanches Pureza, no período de 2005 a 2006, ela possuía
duas graduações (bacharelado), uma especialização em Educação,
uma especialização (380 h/a – Curso Básico de Inteligência/ABIN) e
diversos cursos de capacitação (Metodologia de Produção do
Conhecimento, Entrevista, Propaganda, dentre outros realizados no
Centro de Formação em Recursos Humanos (CFARH) e na Escola de
Inteligência (EsInt) da Agência Brasileira de Inteligência (Abin).
Somente em 2008 a docente realizou o Curso de Formação de
Docentes em Segurança Pública, e iniciou o mestrado em Educação
com Ênfase em Investigação Educativa.
Na dimensão “Ingresso na docência em Segurança Pública”,
de acordo com a docente entrevistada ela teve conhecimento por
meio de matéria em jornal local sobre a abertura de período de
credenciamento de currículos no Instituto de Ensino em Segurança
Pública (Iesp) do Pará, inscreveu-se e seu currículo foi analisado por
banca avaliadora do instituto 3 que a chamou para ministrar a
disciplina Atividade de Inteligência para cursos do Corpo de
Bombeiros Militar (BM) a partir de 2005.
Na dimensão “Experiências no ensino/capacitação de
docente para atuar na Segurança Pública”, a entrevistada informou

3
De acordo com o edital, os currículos eram pontuados e as dez melhores notas eram
selecionadas pelo Núcleo de Informações Docentes (NID) para ministrar a disciplina
(se o primeiro colocado não pudesse, chamavam o segundo, etc.). Esse sistema
funcionou até 2008, e a entrevistada ficou em primeiro lugar nesse período. Depois,
mudou a direção do Iesp e passaram a chamar o professor por indicação das
academias.
100
que sua primeira experiência educacional em Segurança Pública foi
no Curso de Formação de Sargentos do Centro de Formação,
Aperfeiçoamento e Especialização de Praças “Maj. Henrique Rubim”
(CFAEHR/BM), e que após ter sido convidada para ministrar a
matéria participou de oficinas pedagógicas com os demais
professores selecionados e teve acesso à Matriz Curricular Nacional
da Senasp e alinhamento com a doutrina institucional do CBM.
Quanto à capacitação de docente para atuar na Segurança
Pública, a princípio, sem formação pedagógica, foram muito úteis as
oficinas pedagógicas do CFAE/BM, que de forma muito didática os
organizadores possibilitaram a confecção de plano de aula,
relatórios e, principalmente, o acesso à MCN/Senasp.
Posteriormente, acabou por realizar o Curso de Formação de
Docentes em Segurança Pública, promovido pelo IESP, e o mestrado
em Educação com Ênfase em Investigação Educativa (em que
investigou problemas da formação educacional de policiais civis em
Belém), e a cada disciplina que ministrava exercitava os
conhecimentos adquiridos nos cursos e leituras que realizava,
buscando também sua experiência como aluna do Curso de
Formação de Policiais Civis, em 1991.
A experiência como aluna policial talvez tenha feito toda a
diferença na experiência docente (motivação pela busca de soluções
para os velhos problemas educacionais): ingressou com 19 anos
(universitária) na academia de polícia e recebeu uma punição
“atípica” por ter chamado o professor pelo nome na prática de
Educação Física: ir para o alto da caixa d’água da academia (hoje,
Hospital Metropolitano de Belém) até o final da aula. O problema
era que a aluna tinha medo de altura, mas o episódio serviu como
uma superação do medo e exemplo de uma questão complexa na
formação de policiais civis: o “professor” não tinha formação
acadêmica em Educação Física!
Na dimensão “Relação acadêmica na PCPA”, com a
necessidade de criação do GPE na Polícia Civil do Pará, o diretor do
NIP encaminhou à docente entrevistada (que também trabalhava

101
com ele na reestruturação do núcleo de inteligência) um esboço de
projeto de criação do grupo com respectivo curso de formação.
Pela necessidade do NIP em assessorar o delegado geral em
tempo oportuno, e também ser assessorado pelo braço operacional
de pronto emprego, a docente entrevistada vislumbrou ser
oportuno a inclusão da disciplina Atividade de Inteligência, visto
que já ministrava essa disciplina para os cursos de sargento e de
soldados BMPA e PMPA, e na PCPA não existia essa disciplina.
Contudo, ao retornar o projeto da Academia de Polícia Civil
(Acadepol) para o diretor do NIP, a disciplina Atividade de
Inteligência foi retirada do texto, e na tramitação para a aprovação
do delegado geral a docente entrevistada inseriu novamente a
disciplina Atividade de Inteligência e, assim, foi implantada a
matéria pela primeira vez na PCPA, com 10h/a no Curso Básico e 20
h/a no Curso Avançado.
Em seguida, o diretor do NIP e a docente entrevistada
conseguiram inserir a disciplina também nos Cursos de Formação de
Policiais Civis (2007 - delegado, investigador, escrivão e
papiloscopista), com 20 h/a. De acordo com a professora, na
construção das ementas de curso buscou sensibilizar os alunos para
a importância da Atividade de Inteligência na corporação, visto que
em virtude do quantitativo de h/a reduzido (10-20h) não se
vislumbrou formar profissionais para atuarem na atividade (em
operações ou análise4), mas sim a possibilidade de sensibilização
para o pronto atendimento das demandas dos profissionais de
inteligência.
De acordo com a entrevistada, as ementas foram
construídas com ênfase em Segurança Orgânica (atualmente
chamada Segurança Corporativa), e posteriormente modificadas
pela Acadepol, com redução para 10h/a, não havendo gestão de
continuidade do negócio público.

4
Em 2008, por conta da realização do Fórum Social Mundial em Belém/PA, a Senasp
realizou vários cursos de capacitação, dentre eles o Curso Básico de Inteligência com
220 h/a, com disciplinas introdutórias de 30 h/a, ou seja, praticamente impossível
segundo a entrevistada compactar conteúdos para 10-20 h/a.
102
Dentre as limitações apontadas pela docente, a falta de uma
cultura institucional de inteligência, assim como confusões sobre o
que de fato seria a atividade e sua finalidade de assessoramento
(assessorar autoridades e assessorar unidades operacionais),
confundindo assim a produção do conhecimento com o relatório de
transcrição de interceptação legal telefônica, dentre outros.
Por conta dessa cultura, disseminou-se a ideia de que
trabalhar com inteligência é o mesmo que trabalhar com
interceptação telefônica.

4 CONCLUSÃO
A partir das análises realizadas, considera-se pertinente
deixar como aporte da pesquisa uma série de considerações sobre a
forma como a disciplina Atividade de Inteligência foi inserida na
formação de policiais civis do Pará, no período de 2005 a 2006.
Verificou-se que o Brasil, assim como diversos países da
América do Sul, sofreu forte influência da doutrina norte-americana
de Informações e Contrainformações, difundidas por meio de cursos
somente para a cúpula militar desses países, com reflexos nos
campos político e econômico. No Brasil, foi criada a Divisão de
Polícia Política e Social, que juntamente com o Serviço Nacional de
Informações atuaram na vigilância e na repressão de adversários
políticos do regime vigente, com atuação nas unidades da federação
das DOPS estaduais: com atribuições de investigar crimes políticos.
Historicamente, nossos policiais não recebiam treinamento
para a rotina policial, recebiam uma estrela que os habilitava ao
desempenho da função e, posteriormente, com a criação da
Acadepol, a formação se deu de acordo com as necessidades
empíricas. Quanto à formação em Atividade de Inteligência (ou
Informações) de nossos policiais na Acadepol, corrobora-se a nossa
pesquisa por não termos encontrado registros sobre a existência de
tais disciplinas.
Daí inferir-se que a percepção de nossos policiais para as
ações da Atividade de Inteligência, com formação anterior à

103
inclusão da disciplina nos cursos de formação, estaria associada às
práticas da investigação policial e, principalmente, às técnicas de
interrogatório, a exemplo das ações desenvolvidas no Paraguai pelo
Coronel Robert Thierry, responsável pela capacitação em “técnicas
de interrogatório”.
Dentre os resultados na dimensão “Formação do docente”,
verificou-se formação acadêmica na graduação (inclusive a jurídica),
especialização na área educacional e na área de Inteligência, com a
realização de muitos cursos de capacitação para o exercício da
Atividade de Inteligência realizados no Centro de Formação em
Recursos Humanos (CFARH) e na Escola de Inteligência (EsInt) da
Agência Brasileira de Inteligência (Abin). Tal possibilidade de
capacitação na área da Atividade de Inteligência foi atípica a um
policial civil, e se deu em função da servidora ter sido requisitada
pelo órgão federal de Inteligência, e seguramente influenciou seu
trabalho como docente no IESP/PA.
Na dimensão “Ingresso na docência em Segurança Pública”,
segundo a docente seu ingresso se deu via processo de seleção de
docentes, com análise e pontuação de currículo, sem a ingerência do
famoso “Quem Indica (QI)”, uma vez que de outra forma seria difícil
a aceitação por se tratar a docente em seu órgão de origem
Investigadora de Polícia Civil (e para alguns delegados seria um
absurdo ter um subordinado como docente).
Na dimensão “Experiências no ensino/capacitação de
docente para atuar na Segurança Pública”, verificou-se a
importância das oficinas pedagógicas para os docentes, tanto os
técnicos quanto os pedagogos, pois alinham as ações formativas à
Matriz Curricular Nacional da Senasp e à doutrina institucional.
Na dimensão “Relação acadêmica na PCPA”, verificou-se que
as necessidades práticas laborais impuseram a necessidade
institucional de tomada de decisões, como no caso “Dorothy Stang”,
de utilização do Sistema Guardião antes mesmo da capacitação de
servidores do NIP/PCPA, ou mesmo na criação do Grupo de Pronto
Emprego (GPE) /PCPA, e na criação deste, como se deu a inclusão da
disciplina Atividade de Inteligência, pois apesar da Senasp já prever

104
essa disciplina, a Acadepol ainda não a percebia como importante,
talvez por falta de uma cultura institucional.
Nesse contexto, reforça o pensamento de Sedovim (2008)
sobre as influências de demandas externas, quanto à urgência da
formação desses policiais, bem como da necessidade em dar
respostas rápidas à sociedade nos serviços prestados pelo
profissional de segurança pública, além de problemas de verbas
orçamentárias para a realização de uma formação, comprometendo
assim, a qualidade e excelência desses cursos, com as constantes
modificações de carga horária dos cursos de formação de policiais
civis.
A partir das análises da implantação da disciplina Atividade
de Inteligência na PCPA, no período de 2005 a 2006, e seus avanços,
fica a reflexão sobre a falta de gestão de continuidade do negócio
público, pois com a mudança de governo e de direção dos órgãos
estatais, é como se tivesse ocorrido um retrocesso no período de
2007 a 2010, com a redução de carga horária (10 h/a) e mudança de
ementa de disciplina por profissional que não tinha formação na
Área de Inteligência, e “elaborou” apostila com a Doutrina Nacional
de Inteligência de Segurança Pública (DNISP) e a trabalhou na
reduzida carga horária, com estudos de caso do Sistema Guardião.
As questões de prova foram objetivas, de marcar, e versaram sobre
Inteligência, Contrainteligência e Operações de Inteligência.
Posteriormente, houve o ingresso de outros professores com cursos
na Área de Inteligência.
Vale lembrar que a DNISP foi alvo de investigações da
Polícia Federal, solicitadas pela Senasp, em função do vazamento de
material classificado (à época, Reservado) nas redes sociais, o que
reforça a tese de Sanches Pureza em sua dissertação de mestrado:
de que os policiais civis de Belém não percebem a Segurança da
Informação e Comunicações (SIC) como extensão da Segurança
Física adquirida na academia.

105
REFERÊNCIAS

AGÊNCIA BRASILEIRA DE INTELIGÊNCIA, Conselho Consultivo do


Sisbin: Manual de inteligência: doutrina nacional de inteligência:
bases comuns. Brasília, 2004.

BÍBLIA SAGRADA. Edição Pastoral. Sociedade Bíblica Católica


Internacional e Paulus. 40ª impressão. São Paulo/SP, 2000.

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uma visão brasileira da obra de Sun Tzu. Rio de Janeiro: Record,
2005.

COSTA, Arthur & GROSSI, Bruno C.: Relações intergovernamentais e


segurança pública: uma análise do fundo nacional de segurança
pública. In: Revista Brasileira de Segurança Pública, Ano 1, Edição 1,
2007.

LEITE, Sara Souza. O emprego das fontes abertas no âmbito da


atividade de inteligência policial. In: Revista Brasileira de Ciências
Policiais/Academia Nacional de Polícia – v.5, n. 1 (jan/jun 2010- ) –
Brasília: Academia Nacional de Polícia, 2014.

RIQUELME, Marcial Antonio. Investigación sobre el terrorismo de


Estado y el operativo condor. In: ABC Color, 16 de mayo de 2004,
Asunción/PY.

SAMPIERI, Roberto Hernández. COLLADO, Carlos Fernández. LUCIO,


María del Pilar Baptista. Metodologia de pesquisa; tradução: Dayse
Vaz de Moraes; revisão técnica: Ana Gracinda Queiroz Garcia, Dirceu
da Silva, Marcos Júlio. – 5. ed. – Porto Alegre: Penso, 2013.

PUREZA, Zeneide Sanches. Percepção de Segurança da Informação e


Comunicações (SIC) dos Policiais Civis de Belém/Pará. Dissertação
de Mestrado apresentada como requisito parcial para obtenção do

106
título de Mestre em Educação com Ênfase em Investigação
Educativa, Facultad de Filosofía y Ciencias Humanas, Universidad
Católica “Nuestra Señora de la Asunción”. Assunção: PY, 2011.

PUREZA, Zeneide Sanches. Textos em produção para o curso de


Doutorado em Ciências da Educação na Universidad Autónoma de
Asunción. Asunción/PY, 2016.

SANTOS, Célio Jacinto dos. A polícia no pensamento criminológico:


as origens dos saberes policiais investigativos. In: Revista Brasileira
de Ciências Policiais/Academia Nacional de Polícia – v.3, n. 1 (jul/dez
2010- ) – Brasília: Academia Nacional de Polícia, 2012.

SEDOVIM, Wallice da Rocha. Formação do Policial Civil no Pará: um


olhar sobre a construção dos currículos no período de 1998 a 2007.
Monografia de Especialização submetida e aprovada pela
Universidade Federal do Pará como requisito parcial para a
obtenção do grau de Especialista em Sociedade e Gestão de
Segurança Pública, da Rede Nacional de Altos Estudos em
Segurança Pública (RENAESP).

107
108
II. SEGURANÇA PÚBLICA NO SÉCULO XXI
Lascas e rasgos: palavras farpadas
A história do arame farpado está ligada a Revolução Industrial, e tinha
como função imediata, limitar o terreno para os animais domesticados não
fugirem. Esse cercado espinhento foi inventado no estado
de Illinois nos Estados Unidos em 1873 e quinze anos depois, o arame farpado
estava sendo utilizado pelos militares ingleses como instrumento de guerra.
Depois das duas grandes Guerras Mundiais, e tantas outras pequenas no
cotidiano, o arame farpado se internacionalizou e tornou-se símbolo de
atrocidades desumanas, como holocausto, e também de contenção de ideias,
como as barricadas de ruas.
Trouxemos essa invenção das farpas metálicas para o cotidiano
urbano medonho, criamos trincheiras nos terrenos de guerra nas cidades.
Então ampliamos nosso vocabulário para refúgio: cercado, vedação, muro,
gradeamento, sebe, valado, sitiado, circunvalado, encurralado, ladeado,
rodeado, muramento, parede, cerca-elétrica.
O poema “Lascas e rasgos” fala das palavras que provocam brechas no
volume maciço de frases violentas que golpeiam o cotidiano. Palavras
farpadas rasgam respiradouros de vida nos hábitos sangrentos dos homens.
Como num estado onírico-criador, apenas no mundo da linguagem as
palavras-farpadas conseguem rasgar os caducos vocábulos cansados,
soterrados em camadas, assim, desenvolver novos significados, resignificar as
relações humanas para o convívio com o outro. Nos rasgos da palavra-
comum brotam novos raminhos de verde-chuva impondo a vida.
É possível, então, uma palavra-farpada abrir rasgos em vocábulos velhos e
atrofiado de ira, carregados de barbáries? É possível nos espaços abertos dos
rasgos germinarem novas ideias de vida nas biografias dos que vivem em
coletividade? É possível reativar uma coletânea de palavras de boas-novas
nos horizontes maçantes do convívio humano?
Resignificar palavras, rever as camadas, produzir fluxos de acontecimentos da
palavra-imagem, são atos que mudam o presente dos vocábulos, seus vários
passados, suas várias formas de encadeamento, suas várias hierarquias de
importâncias, suas diversas redes de determinações, seus diversos campos
ideológicos. A palavra-farpa é necessária para reavivar nossa capacidade de pensar e
produzir sentidos, porque é desigual a luta constante contra a corrupção das ideias,
dos sentidos e das avalanches ideológicas que sedimentarem camadas rígidas e de
difíceis rasgos sobre nossas palavras corriqueiras.
(Imagem e Texto Por Ilton Ribeiro dos Santos)

109
SEGURANÇA PÚBLICA COMO DIREITO SOCIAL FUNDAMENTAL DE
PRESTAÇÕES E A IMPORTÂNCIA DE SUA EFETIVAÇÃO NO SÉCULO
XXI

Fernando Nogueira Bebiano

RESUMO: O Direito Social Fundamental à segurança pública tem


sido violado, tendo em vista que o Estado não consegue conter o
fenômeno da violência contemporânea ou diminuir para níveis
razoáveis. Isso tem refletido negativamente na vida dos cidadãos,
pois não têm um ambiente seguro onde possam viver e estabelecer
relações interpessoais para desenvolver suas potencialidades. Essa
pesquisa foi desenvolvida a luz de uma abordagem jurídico-
sociológica do direito à segurança pública, a fim de mostrar a
importância de sua classificação como direito social fundamental de
prestações, para que se tenha maior engajamento de todos órgãos
públicos, para que se possa efetivar políticas sociais que possam
propiciar cidadania.

PALAVRAS-CHAVE: Segurança Pública, Direitos Fundamentais,


sociedade.

ABSTRACT:
The fundamental social right to public security has been violated,
since the State can not contain the phenomenon of contemporary
violence or reduce it to reasonable levels, this has negatively
reflected the life of the citizens, since they do not have a safe
environment where they can live and Interpersonal relationships to
develop their potentialities. This research was developed in the light
of a juridical-sociological approach to the right to public security, in
order to show the importance of its classification as a fundamental
social right of benefits, in order to have greater involvement of all
public agencies, in order to implement policies That can promote
citizenship.

110
KEYWORDS: Public Security, Fundamental Rights, society.

1 INTRODUÇÃO
Ao não propiciar um ambiente seguro onde os cidadãos
possam viver e estabelecer relações interpessoais com objetivo de
desenvolver suas potencialidades, o Estado acaba por violar Direitos
Sociais Fundamentais.
Partindo desta premissa, este artigo faz uma abordagem
jurídico-sociológica do direito à segurança pública, a fim de mostrar
a importância de sua classificação como direito social fundamental
de prestações para que aja um maior engajamento de todos os
órgãos públicos no fomento de políticas públicas para o combate ao
fenômeno da violência contemporânea.
Utilizou-se de hermenêutica constitucional para interpretar e
descrever os elementos que influenciaram a travessia do modelo
jurídico do Estado de Direito para o paradigma do Estado
Constitucional.
Para esse desiderato, utilizou-se do método sistemático para
analisar o ordenamento jurídico brasileiro, notadamente a
Constituição Federal de 1988, dada a afirmação de que o direito à
segurança pública é um direito com a marca da fundamentalidade
formal e, também, material. Portanto, todos os órgãos públicos
devem estar engajados em efetivá-los.

2 MODELO E ESTRUTURA DO ESTADO


Os indivíduos, com vistas a uma convivência pacífica, abrem
mão de uma parcela de sua liberdade elegendo o Estado como
detentor do Poder de ditar as regras e gerenciar os conflitos entre
os homens. Nesse norte Cichocki (2009) assevera, sob a perspectiva
dos indivíduos, o poder visto sob esse ponto de vista, - relação entre
dois sujeitos - torna evidente o liame mantido com o conceito de
liberdade. O poder do Estado de um lado, e a liberdade do
indivíduo, de outro, são, de fato, os polos problemáticos da
convivência social e, ao mesmo tempo, os elementos definidores do
modelo e regime do Estado, segundo o autor supracitado.

111
Em verdade, não se pode olvidar que o Estado, nos regimes
democráticos, tem como fim a justiça e o respeito à liberdade.
Conforme Bobbio (1990), trata-se da limitação do poder estatal em
benefício das liberdades individuais. Este é o pensamento central de
Rousseau (1965, p. 30), considerado mentor da democracia
moderna, assim a definiu "uma forma de associação, que defenda e
proteja de toda força comum à pessoa e os bens de cada associado,
e pela qual, cada um, unindo-se a todos, não obedeça, portanto,
senão a si mesmo, e permaneça tão livre como anteriormente".
Portanto, fica evidente a importância do Estado na
manutenção de uma estrutura adequada de vida em sociedade,
estabelecendo punições para os transgressores das regras com
vistas a manter o equilíbrio e paz entre os homens, garantida a
liberdade de cada um para exercer seus Direitos. Nesse ponto, Reale
(1987) aduz:
[...] torna-se necessário estabelecer um
relacionamento equilibrado e dinâmico
entre o poder Público e a sociedade, de tal
modo que o Estado não seja fortalecido em
si e por si mesmo, isto é, em função dos
fins que lhe são próprios, mas sim em razão
das finalidades dos indivíduos, dos grupos
naturais e da coletividade em seu conjunto
(REALE, 1987, p.40).

O poder do Estado, desta forma, encontra sua legitimação


nos próprios indivíduos, portanto, não deve se afastar de seu
objetivo, qual seja o Bem Comum. Para atingir esse fim, deve estar
atento ao dinamismo cultural, já que a evolução da sociedade
tornou as relações intersubjetivas mais complexas, segundo Cichocki
(2009, p.27), "essa mutação social desenfreada, oriunda da
denominada - civilização em massa - tende a provocar uma - crise
de valores -, sem precedentes, na história da humanidade".
Consequentemente, a falência do Estado enquanto instituição criada
com vistas a organizar a sociedade. Desta forma, faz-se necessário

112
ao Estado acompanhar o ritmo de desenvolvimento social para não
se tornar obsoleto, no que tange aos anseios dessa massa de
pessoas.

2.1 DO ESTADO DE DIREITO AO ESTADO CONSTITUCIONAL DE


DIREITO
Com a mutação cultural provocada pela globalização1 houve
uma grande transformação na sociedade, sendo que essas
mudanças e a própria evolução do homem como indivíduo social,
provocaram alterações na estrutura do Estado e sua organização.
Nesse cenário, o Estado Constitucional de Direito mostra-se,
atualmente, como a base jurídico-normativa das sociedades
civilizadas. Sendo que, segundo Gomes (2008, p.15-18) “a evolução
do antigo Estado de Direito (liberal ou social) para o Estado
Constitucional de Direito retrata um avanço (jurídico e político)
extraordinário”.
Nesse sentido, Canotilho (2003, p.92-93) assevera que “O
Estado só se concebe hoje como Estado Constitucional. Não deixa,
porém, de ser significativo que esta expressão – Estado
Constitucional – tenha merecido decisivo acolhimento apenas na
juspublicística mais recente”.
Por seu turno, Gomes (2008) aduz que o Estado
Constitucional de Direito é caracterizado pelo seguinte decálogo:
pluralidade de fontes normativas; (2)
positivação não só legal senão também
constitucional e/ou internacional dos
direitos e garantias fundamentais do
indivíduo; (3) subordinação da produção da
legislação ordinária à Constituição Federal
e, também, ao Direito Internacional dos
Direitos Humanos; (4) superação da

1
Sobre a evolução desse fenômeno, Franco Filho (2012) destaca que existem
globalizações diversas no decorrer de nossa história (império romano, Antiguidade;
grandes descobertas, por volta do século XVI; revolução industrial, do século XIX;
chamada econômica, do século XX, chegando no XXI).
113
democracia formal (democracia das
maiorias) pela democracia substancial (ou
material); (5) distinção entre vigência e
validade da lei; (6) convivência com as
antinomias e lacunas do ordenamento
jurídico; (7) eficiente sistema de controle de
constitucionalidade das leis; (8) revisão do
papel do juiz; (9) revisão do papel da
ciência jurídica; e (10) revisão e atualização
normativa do princípio do devido processo
legal. (GOMES, 2008, P.15-18).

Miranda (2000, p.195-196) bem observa que “não é


suficiente enumerar, definir, explicitar, assegurar de per si
(isoladamente) os direitos fundamentais; requer que a organização
do poder político e toda a organização constitucional estejam
orientadas para a sua garantia e a sua promoção”. Nesse diapasão,
Breus (2007, p.37-38) pontua que “A gradual substituição das
constituições semânticas pelas constituições ‘para valer’ suscitou
uma série de repercussões por todo o âmbito social, em especial no
atinente à dicotomia público-privado”.
De fato, afirma Breus (2007, p.41), o que evidencia
efetivamente a Constituição do Estado Constitucional ante o Texto
Maior de um Estado de Direito é a introdução de valores e princípios
no âmbito do texto constitucional, “essencialmente no que se refere
à dignidade da pessoa humana aos direitos fundamentais, assim
como o estabelecimento de metas e diretrizes a que o Estado deve,
em primeiro plano, buscar, com o escopo de concretizar e de
proteger os direitos e valores antes mencionados”.

3 SEGURANÇA PÚBLICA COMO DIREITO SOCIAL FUNDAMENTAL,


FUNDAMENTALIDADE FORMAL EFUNDAMENTALIDADE MATERIAL
Em relação aos Direitos Sociais, Roesler (2014) explica que
“O Estado Democrático de Direito é concebido com base em dois
fundamentos: respeito aos direitos fundamentais/sociais e

114
democracia. O Estado Democrático de Direito é, portanto, um Plus
em relação ao Estado Social, na medida em que o Direito é visto
como instrumento necessário à implantação das promessas de
modernidade não cumprido pelo Estado Social”. Nesse passo, Streck
(2005), afirma:
O Estado Democrático de Direito
representa, assim, a vontade Constitucional
da realização do Estado Social. É nesse
sentindo que ele é um Plus normativo em
relação ao direito provedor-
intervencionista próprio do Estado Social
de Direito [...] Desse modo, se a
Constituição se coloca o modo, é dizer, os
instrumentos para buscar/resgatar os
direitos de segunda e terceira gerações [...]
é porque no contrato social – do qual a
Constituição é a explicitação – há uma
confissão de que as promessas da
realização da função social do estado não
foram (ainda) cumpridas [...] A noção do
Estado democrático de Direito está, pois,
indissociavelmente ligada a realização dos
direitos Fundamentais. É desse liame
indissolúvel que exsurge aquilo que se
pode denominar de Plus normativo do
estado democrático de direito, (STRECK,
2005, p. 38-40).

A análise dos direitos sociais, a partir de um estudo do


sistema jurídico brasileiro não pode deixar de levar em conta a
afirmação da fundamentalidade destes direitos. Essa característica
lhe garante um especial tratamento no sistema jurídico, no que se
refere ao aspecto formal e também no material (CANOTILHO, 1998,
p.498).

115
Sobre a marca da fundamentalidade formal, referindo-se a
Constituição Alemã, Alexy (2008, p.69) acentua que normas de
direitos fundamentais são as contidas nas disposições dos artigos
primeiro ao décimo nono, bem como as disposições garantidoras de
direitos individuais. Conclui que “normas de direitos fundamentais
são as normas diretamente expressas por essas disposições”.
Desta forma, no contexto nacional, a segurança pública tem
a marca da fundamentalidade formal, já que a segurança é um
direito social positivado no artigo 6º da CF/88 e, também
assegurado no caput do art. 5º da CF/88. Até porque, para ter uma
vida digna é necessária a valorização do princípio da dignidade
humana - art. 1º, III – (BRASIL, 1988).
Enfatiza-se que, a fundamentalidade material é atinente à
correlação entre os direitos fundamentais e o núcleo de valores que
informa a Constituição Federal, notadamente os princípios
enumerados no Título I da CF/88, dentre os quais, a dignidade da
pessoa humana.
Portanto, sob aspecto material, os direitos fundamentais
representam as decisões axiológicas fundamentais eleitas pelo
constituinte a respeito da estrutura do Estado e da Sociedade. Nesse
sentido, a segurança pública é um direito fundamental com a marca
da fundamentalidade material2, à medida que é considerado um
direito especial relativo à vida, visto que se trata de um direito que
assegura proteção aos cidadãos.
Este conceito material tem também, segundo Olsen (2008,
p.24), “especial relevância para se compreender a real
fundamentalidade de todos os direitos fundamentais previstos
expressamente no texto constitucional, ainda que não exatamente
no catálogo do Título II”. Assim, a segurança pública assegurada no

2
“Afinal, o constituinte inseriu uma cláusula de abertura quando tratou do regime de
direitos fundamentais no parágrafo 2º do artigo 5º, da CF, admitindo como
fundamentais os direitos decorrentes dos princípios”, bem como, do regime
constitucional, e aqueles previstos em tratados internacionais. Nesse prisma, somente
poderiam ser considerados direitos fundamentais não expressamente previstos na
Constituição aqueles que, materialmente, fossem dotados da mesma dignidade
(OLSEN, 2008, p.24).
116
art. 144, capítulo III da Constituição Federal de 1988, ainda que não
conste formalmente no Título II, é um direito fundamental com a
marca da fundamentalidade material.
Frisa-se que sendo o direito social entendido como direito
fundamental, possuiu aplicação imediata conforme o escólio de
Bonavides (2009, p.518) que “atribui aos direitos sociais o caráter de
direitos fundamentais, à medida que positivados no texto
constitucional, e submetidos ao regime da aplicabilidade imediata
prevista no § 1º do art. 5º da CF/88”.

3.1 SEGURANÇA PÚBLICA COMO DIREITO FUNDAMENTAL SOCIAL


DE PRESTAÇÕES
De acordo com Olsen (2008, p.49), “os direitos fundamentais
sociais são frequentemente associados a direitos que demandam
dos poderes públicos uma prestação que satisfaça uma necessidade
ou um interesse jurídico de seu titular”.
É o que se depreende, também, da definição clássica
formulada por Silva (2009, p.286) de que “Direitos sociais, como
dimensão de direitos fundamentais do homem, são prestações
positivas proporcionadas pelo Estado direta ou indiretamente,
enunciados em normas constitucionais”.
Assim, Sarlet (2010, p.57) entende que “Não se cuida mais,
portanto, da liberdade do e perante o Estado, e sim da liberdade por
intermédio do Estado. Estes direitos fundamentais, [...] caracterizam-
se, ainda hoje, por outorgarem aos indivíduos direitos a prestações
sociais estatais”.
Portanto, percebe-se, que o direito à segurança pública
copila uma série de direitos, considerados como direitos de
prestações, segundo Santin (2004, p.78) “pela sua característica de
liberdade pública, por conter relações públicas e privadas, seja nas
prestações estatais positivas e negativas como no respeito mútuo
dos cidadãos à incolumidade e patrimônio alheios e na contribuição
à preservação da ordem pública”.
Na perspectiva positivista, Santin (2004, p.80) aduz que “o
Estado deve tomar medidas ativas, prestações positivas, para

117
garantir e concretizar a ordem pública e proteção à incolumidade da
pessoa e o seu patrimônio, numa obrigação de fazer, para a
realização do bem-estar social, finalidade cobrada no Estado
Democrático de Direito”. É que, conforme observa Alexy (2008, p.
201-202), “quando se fala em ‘direitos a prestações’, está a fazer
referência em ações positivas fáticas”.
Com objetivo de efetivar o direito à segurança pública, a
Constituição Federal de 1988 discriminou/determinou órgãos e
instituições a fim de satisfazer o direito a prestações positivas por
parte do Estado, sendo algumas delas: Polícia Federal; Polícia
Rodoviária Federal; Polícia Ferroviária Federal; Polícias Civis; Polícias
Militares e Corpos de Bombeiros Militares, art. 144, I a V; e as
Guardas Municipais, § 8º, (BRASIL, 1988).
Sobre a estrutura de direitos criados com objetivos de
efetivar o direito fundamental à segurança pública, Sarlet (2010,
p.185) afirma que:
Na Constituição vigente, os direitos a
prestações encontram uma receptividade
sem precedentes no constitucionalismo
pátrio, resultando, inclusive, na abertura de
um capítulo especialmente dedicado aos
direitos sociais no catálogo dos direitos e
garantias fundamentais. Além disso,
verifica-se que mesmo em outras partes do
texto constitucional (inclusive fora do
catálogo dos direitos fundamentais), se
encontra uma variada gama de direitos a
prestações” (SARLET, 2010, p.185).

Pontua-se que não basta a criação dos órgãos e instituições


citados ao norte, segundo SILVA (2009, p.636) “faz-se necessária
uma nova concepção de ordem pública, em que a colaboração e a
integração comunitária sejam os novos e importantes referenciais”.

3.1.1 O Direito Fundamental à Segurança Pública

118
A primeira constituição brasileira que tratou de segurança
pública foi a Constituição dos Estados Unidos do Brasil de 1937,
notadamente em seu artigo 16, inciso V, ao dispor que competia,
privativamente, a União legislar sobre “[...] o bem-estar, a ordem, a
tranquilidade e à segurança pública [...]” (BRASIL, 1937).
A expressão segurança pública não aparece de forma
taxativa na Constituição de 1946, no entanto, o artigo 183 dispunha
que era de responsabilidade das polícias militares a missão de
garantir a segurança interna e a manter a ordem nos Estados, bem
como nos Territórios e no Distrito Federal (BRASIL, 1946).
Assim como a Constituição Federal de 1946, a Constituição
de 1967 não previa taxativamente o termo segurança pública.
Contudo, estava disposto no art. 13, §4º, que os Estados deveriam se
organizar pelas Constituições e leis que adotassem, observando,
entre outros, os princípios previstos na Constituição Federal, sendo
da responsabilidade das polícias militares, instituídas para a
manutenção da ordem e segurança interna nos Estados, nos
Territórios e no Distrito Federal [...] (BRASIL, 1967).
Ao contrário das anteriores, A Constituição Federal de 19883
deu maior relevância ao tema, dedicando um capítulo específico

3
“A promulgação da Constituição Federal de 1988 – também conhecida como a
‘Constituição Cidadã’ – viabilizou novos compromissos políticos e sociais no sentido
da legitimação da democracia, do federalismo e da participação como grandes pilares
estratégicos da organização do Estado. Embora estabelecido em nível político-
institucional, o movimento de democratização brasileiro enfrenta ainda o desafio de
alcançar as práticas cotidianas dos cidadãos, permeando as relações da população
com as diversas agências (e agentes) do poder público, com os espaços e com os
indivíduos que o povoam. A experiência democrática dos últimos 20 anos tem
reiterado esta constatação, demonstrando que o leque de garantias constitucionais
não se projeta de modo uniforme na realidade social brasileira. Recortes
socioeconômicos, de gênero, étnico-raciais, articulam-se de forma complexa em
nossa história social, ditando o rumo de expansão destas garantias entre as diversas
“classes de cidadãos”. Para segmentos bastante expressivos da sociedade brasileira, o
exercício de certos direitos, como a liberdade de pensamento e o voto, não gerou
automaticamente o gozo de outros, como a segurança e o emprego, colocando para
os governos democráticos o desafio da afirmação ativa da cidadania plena no Brasil.
Esta tarefa, na atualidade, tem se caracterizado pelos esforços governamentais em
119
para tratar sobre a segurança pública. Esse direito fundamental está
disciplinado no artigo 144, Capítulo II, do Título V, sendo
considerado como responsabilidade de todos e dever do Estado
(BRASIL, 1988).
No sentido de implementar o direito fundamental social à
segurança pública, a Constituição Federal de 1988 integrou diversas
normas:
a - impõe um dever ao Estado de prestar o
serviço de segurança pública para a
manutenção da ordem pública e da
incolumidade das pessoas e do patrimônio,
por meio de norma constitucional válida
(artigo 144, “caput”);
b - por outro lado, estabelece o direito à
segurança pública como garantia
fundamental individual e social (artigos 5º,
“caput”, e 6º), atribuindo-o conteúdo
específico, qual seja, o de receber a
proteção do Estado para a manutenção da
ordem pública e da incolumidade das
pessoas e do patrimônio (artigo 144,
“caput”);
c - prevê que a prestação do direito à
segurança pública se desenvolva de forma
eficiente (artigo 37, “caput”, e 144, § 7º); e
d - atribui a competência para o legislador
de dispor sobre a organização e o
funcionamento das instituições de
segurança pública (artigo 144, § 7º).
(BRASIL, 1988).

Como foi pontuado alhures, houve uma ampliação dos


direitos fundamentais com a promulgação da Constituição Federal

qualificar os canais institucionais de participação e controle social, atendendo as


antigas reivindicações dos movimentos sociais”. (CARVALHO, 2002. p. 09.
120
de 1988, que abarcou a segurança pública. Nesse contexto, Silva
(2005, p.777) entende que a palavra segurança “[...] assume o
sentido geral de garantia, de proteção, estabilidade de situação ou
pessoa em vários campos [...] e manutenção da ordem pública4
interna”.
Nesse sentido, Carvalho (2007, p.1116) assevera “A segurança
pública tem em vista a convivência pacífica e harmoniosa da
população, fundando-se em valores jurídicos e éticos,
imprescindíveis à existência de uma comunidade, distinguindo-se,
neste passo, da segurança nacional, que se refere mais à segurança
do Estado”.
Sobre a natureza jurídica da segurança pública, Santin
(2004) esclarece que:
[...] pelos valores que protege e resguarda
para uma qualidade de vida comunitária
tranquila e pacífica [...] Não há divergência
sobre a condição de direito fundamental
do direito à segurança pública.
[...] como não poderia ser diferente, no
Plano Nacional de Segurança Pública, o
Governo Federal considerou claramente o
direito à segurança como um dos direitos
fundamentais do cidadão.
[...] visa resguardar a ordem pública e a
incolumidade da pessoa e do patrimônio
do cidadão, numa atividade primária, para
a paz social. (SANTIN, p. 80-88).

4
Para Eugenio Pacelli de Oliveira, “o vocábulo ordem pública, consoante se acha
inscrito no art. 312 do CPP, e malgrado a pluralidade de sentidos que dali pode se
obter, parece indicar maiores cuidados e preocupações com a estabilidade e/ou
tranquilidade da comunidade, em relação ao cumprimento, pelo Poder Público, das
funções que lhe são inerentes em tema de segurança pública” (OLIVEIRA, 2004. p.
62).
121
Sobre os desafios do Estado (combate a violência)5, no que
se refere à promoção da garantia à segurança pública em um
patamar onde os cidadãos possam desenvolver suas atividades com
o mínimo de segurança, Soares (2006, p.117) formula as seguintes
indagações:
Podemos tornar as polícias melhores do
que são? Mais eficientes, mais honestas e
confiáveis, menos violentas e capazes de
valorizar seus profissionais? Podemos
adotar políticas públicas mais inteligentes e
eficientes na prevenção da violência,
mesmo com poucos recursos? Podemos
combater com mais eficácia a lavagem de
dinheiro e as conexões entre o crime, a
polícia e a política? Haveria algumas
medidas capazes de causar prejuízo a essa
gente, bloqueando pelo menos algumas de

5
O RDH “Segurança Cidadã com Rosto Humano: diagnóstico e propostas para a
América Latina” revela um paradoxo: na última década, a região foi palco de duas
grandes expansões: a econômica, mas também a criminal. Apesar das melhorias
sociais, a região continua a ser a mais desigual- e a mais insegura do mundo.
Enquanto a taxa de homicídios diminuiu em outras regiões, o problema tem
aumentado na América Latina, que registra mais de 100 homicídios a cada ano,
chegando a mais de um milhão de assassinatos entre 2000 e 2010. Embora a taxa de
homicídios tenha se estabilizado e até diminuído em alguns países, ela ainda é alta:
em 11 dos 18 países analisados, a taxa é superior a 10 homicídios por 100 mil
habitantes, um nível considerado epidêmico. Além disso, em todos os países
estudados, a percepção de segurança se deteriorou, e o roubo triplicou nos últimos
25 anos, tornando-se o crime que mais afeta os latino-americanos. (....) Uma das
principais lições aprendidas na região é que as chamadas políticas de “mão de ferro”
não funcionam: a forte repressão policial e criminal, muitas vezes coincidiu com altas
taxas de criminalidade na América Latina, diz o relatório. As experiências analisadas
confirmam que uma abordagem que proteja o direito a vida com dignidade e
integridade física e material está no centro da segurança cidadã, que é um bem
público, ao qual todas as pessoas devem ter acesso, e que é responsabilidade do
Estado.” PNUD Brasil. Relatório Regional de Desenvolvimento Humano recomenda
prevenção, reformas institucionais e acordos nacionais de longo prazo para lidar com
o crime e a violência. (PNUD, http://www.pnud.org.br/Noticia. 2013.
122
suas práticas? Haveria como lidar com o
ciclo vicioso dos crimes mais graves,
interceptando a dinâmica que os
realimenta? Poderíamos viver em um país
em que se andasse pelas ruas com menos
medo? Um país em que houve menos
violência doméstica contra as mulheres?
Em que os negros não sofressem tanto os
efeitos perversos do racismo e a
homofobia fosse quase apenas uma
lembrança amarga de um passado
preconceituoso? Um país em que as escolas
funcionassem e mantivessem as crianças e
os adolescentes mais interessados, o dia
inteiro, em atividades de ensino, arte,
cultura, esporte e lazer? Um país com mais
oportunidades e menos armas, menos
mães precoces e menos uso irregular do
solo, que agride o meio ambiente e impede
o planejamento urbano? Em que a política
fosse uma prática menos degradada? Em
que os governos fossem um pouquinho
mais decentes e eficientes? Em que a
estrutura do estado não se limitasse a
secretarias e ministérios, que são feudos,
rivais entre si, e por isso acabam
bloqueando a aplicação de políticas
públicas integradas e coordenadas? Um
país em que o acesso a justiça fosse menos
desigual? Em que a política criminal fosse
menos refratada por filtros de cor e classe?
Seria possível tornar o Brasil um país
menos injusto e um pouquinho mais capaz
de respeitar suas próprias leis? Seria
possível fazer com que a s leis valessem

123
realmente para todos? (SOARES, 2006
p.117).

A segurança pública está albergada no artigo 6º, caput do


art. 5º e no 144, da Constituição Federal de 1988, portanto, trata-se
de um direito social fundamental com a marca da fundamentalidade
formal, no sentido material, também é um direito fundamental, ou
seja, de fundamentalidade material, já que à segurança pública deve
estar conectado, axiologicamente, com os valores consagrados no
princípio da dignidade da pessoa humana, que seja capaz de
propiciar um ambiente seguro e adequado para os cidadãos
desenvolverem suas potencialidades.
Frisa-se que a positivação dos direitos fundamentais sociais
(segurança pública) na CF/88 não basta, é necessária a atuação dos
poderes públicos em todas as esferas. Nesse ponto, assevera Duarte
(2011, p.140) “[...] as normas constitucionais que exprimem direitos a
prestações sociais necessitam, em regra, não só da atuação
conformadora ou concretizadora do legislador ordinário, como
também das transformações de natureza econômica, social e
administrativa, para ficar em apenas três esferas”.
Para implementar esse direito social fundamental (à
segurança pública), deve haver um intercâmbio entre os sistemas
(Poder Judiciário, Poder Executivo e Poder Legislativo). É que para
efetivar os direitos sociais, é necessário movimentar a estrutura do
Estado. Nesse sentido, Piovesan (2003, p.344-345):
Nessa ótica, compete ao Legislativo, como
destinatária das normas consagradoras de
direitos e garantias fundamentais: a)
proceder em tempo razoavelmente útil
à sua concretização, sempre que esta seja
necessária para assegurar a exequibilidade
de normas, sob pena de
inconstitucionalidade por omissão; b)
mover-se no âmbito desses direitos,
sendo-lhe vedado que, a pretexto da

124
concretização de direitos por via legal,
opere uma redução da força normativa
imediata dessas normas, trocando-a pela
força normativa da lei; c) não emanar
preceitos formal ou materialmente
incompatíveis com essas normas.
Por sua vez, ao Judiciário compete: a)
interpretar os preceitos constitucionais
consagradores de direitos fundamentais,
na sua aplicação em casos concretos, de
acordo com o princípio da efetividade
ótima e b) densificar os preceitos
constitucionais consagradores de direitos
fundamentais de forma a possibilitar a
sua aplicação imediata, nos casos de
ausência de leis concretizadoras.
No que tange ao governo e à
administração, incumbe-lhes um
importante papel na tarefa de
concretização dos direitos fundamentais,
tendo em vista que, no exercício de sua
competência planificadora, regulamentar,
fornecedora de prestações, os órgãos da
administração e do governo desenvolvem
tarefas de realização de direitos
fundamentais (PIOVESAN, 2003, p. 344-
345).

É necessário implementar uma política criminal que não


fique reduzida apenas ao âmbito punitivo do Estado. Para resolver o
problema da criminalidade, deve-se da ênfase a uma política
transformista, que tenha por objetivo mudar essa triste realidade
social. Valorizando políticas sociais que possam propiciar cidadania
e verdadeiras soluções no que se refere à questão do desvio social
negativo. Um maior compromisso com a transformação da estrutura

125
social, criando condições para diminuição das desigualdades sociais
que é fruto do embate entre riqueza e poder. Valorizando o
princípio da dignidade da pessoa humana para criação de um
ambiente onde as pessoas possam desenvolver suas potencialidades
(LOPES, 2008, p.69-80).

4 CONCLUSÃO
Conclui-se que, com a passagem do Estado de Direito ao
Estado Constitucional, deve ser dado um novo enfoque aos direitos
fundamentais, no sentindo de buscar sua máxima efetivação.
O direito à segurança pública não é considerado um direito
social fundamental apenas por constar expressamente no rol
taxativo da constituição Federal de 1988, visto que existe uma série
de direitos fundamentais sociais materiais, que tem como marca da
sua fundamentalidade, a correlação entre os direitos fundamentais e
o núcleo de valores que informa a Constituição, desta forma, sob
aspecto material, os direitos fundamentais representam as decisões
axiológicas fundamentais eleitas pelo constituinte a respeito da
estrutura do Estado, bem como, da Sociedade, é nesse sentido que
para a segurança pública pode ser considerado um direito
fundamental com a marca da fundamentalidade material.
No atual Estado Constitucional de direito, os direitos sociais
fundamentais de prestações deve receber tratamento especial do
Estado no que se refere à busca de sua efetivação, sendo à
segurança pública considerada um direito social fundamental de
prestação, conforme os valores consagrados na Constituição Federal
de 1988, todos os órgãos públicos devem estar engajados na busca
da máxima efetivação desse direito, para tanto, deve haver um
intercâmbio entre os poderes, judiciário, executivo e legislativo, para
implementar uma política criminal que não fique reduzida apenas
ao âmbito punitivo do Estado. Mas que valorize políticas sociais que
possam propiciar cidadania, com maior compromisso com a
transformação da estrutura social, criando condições para
diminuição das desigualdades sociais.

126
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129
PANORAMA CRIMINOLÓGICO: TRÁFICO ILEGAL DE PESSOAS NAS
FRONTEIRAS DO ESTADO DO PARÁ

Lívia Cristina Silva Pereira

RESUMO: O artigo pretendeu estudar o fenômeno do tráfico


internacional de pessoas sob a ótica da Criminologia e áreas afins.
Em especial, o estudo dedicou-se a mencionar o fenômeno no
Estado do Pará, as políticas públicas que alcançam suas fronteiras
territoriais e o atual Plano de Enfrentamento aplicado no Estado que
busca combater esse problema. Utilizou-se como metodologia a
extensa revisão bibliográfica, inclusive autores estrangeiros, com o
objetivo principal de investigar o tráfico de pessoas nas fronteiras
do Estado do Pará como um fenômeno social. Os objetivos
específicos consistiram em identificar a função das principais
instancias do poder público que elaboram as políticas estaduais
relacionadas ao tema; descrever a realidade social percebida nas
vítimas deste fenômeno; e comparar instrumentos internacionais
com a política estadual vigente no Estado do Pará.

PALAVRAS-CHAVE: tráfico ilegal de pessoas; migração no Estado do


Pará; tráfico ilegal nas fronteiras

ABSTRACT: The article intended to study the phenomenon of the


international traffic of people from the perspective of Criminology
and related areas. In particular, the study was devoted to
mentioning the referred phenomenon in the State of Pará, as public
policies that cover its territorial borders and the current Plan of
Confrontation applied in the State that seeks to combat this
problem. The extensive literature review was used as methodology,
including foreign authors, with the main objective of investigating
the traffic of people in the borders of the State of Pará as a social
phenomenon. The specific objectives were to identify the function
of the main public actions that elaborate State policies related to the
theme; to describe the social reality perceived in the victims of this

130
phenomenon; and to compare international instruments with the
current policy applied in the State of Pará.

KEYWORDS: Illegal trafficking of people; Migration in the State of


Pará; Illegal trafficking in the borders.

1 CONSIDERAÇÕES INICIAIS
O tráfico de pessoas, nas fronteiras do Brasil, tem sido tema
de políticas públicas de grande importância no Brasil. As fronteiras
do país perpassam por onze Estados brasileiros, fazendo contato
direto com dez países da América do Sul. No caso das vítimas de
tráfico ilegal, diferente das migrações ilegais, há o agravamento do
fenômeno pela exploração ou a intenção de abuso por um
intermediário (CACCIAMALI; AZEVEDO, 2006). Ao considerar-se o
crime de tráfico de pessoas como uma prática milenar desde o
período da Antiguidade - e que até hoje se perpetua - o fenômeno
social “consiste na atitude de alguém (o aliciador) enganar ou coagir
a vítima, apropriando-se de sua liberdade por dívida ou outro meio
(físico, moral, psicológico etc.)” (PEREIRA, p.41, 2015).
O tráfico ilegal de pessoas afeta a população vulnerável de
um dos Estados de fronteiras mais frágeis do Brasil, o Estado do
Pará, que por sua extensão territorial faz contato direito com
Guiana, Suriname e Guiana Francesa e, por isso, é conferido a si
grande responsabilidade a planos de prevenção, combate e
enfrentamento ao tráfico ilegal, frequentemente atingindo mulheres
e crianças (QUAGLIA, 2008, p. 40, apud BARBOSA, 2000, p. 35) em
um dos países de fronteira com o Estado do Pará, Branco reflete
que:
(...) o problema explícito do tráfico de
mulheres com fins de exploração sexual
para o Suriname existe em suas múltiplas
facetas, apesar da ausência de estatística
oficial sobre o número específico de
brasileiros e brasileiras vivendo e
trabalhando atualmente no Suriname.

131
Dados relativos ao ano de 2004,
apontavam a estimativa de
aproximadamente 17 mil brasileiros no
País, vivendo na capital Paramaribo e em
outras colônias, sendo a sua grande
maioria ilegal, oriundos dos Estados do
Pará, Maranhão e Amapá. De igual modo
não existe estatísticas de quantas mulheres
sobrevivam da prostituição (boates e
garimpos) sendo certo que todas as
brasileiras são consideradas como tal para
os surinameses (BRANCO, p. 44, 2009)

A desconfiança das vítimas em torno da sua situação ilegal


no país, o medo da discriminação e vergonha de sua condição de
“mercadoria” impede a ação do rol de legislação relacionada ao
tráfico humano, desde princípios de Direitos Humanos defendidos
em arcabouço internacional à jurisdição de entidade local. Tal ciclo
ascende ao estudo da Vitimologia. A disciplina, historicamente
elencada à ciência da Criminologia (OLIVEIRA, 1992), tem como
objeto a “observação biológica, psicológica e sociológica” do
sujeito, ainda que paradoxalmente a vítima concorra para o crime
(SANTOS, 1976, p. 161).
A reflexão do ponto de vista criminológico é necessária
considerando que sua função abrange o esclarecimento do ato
delituoso, ponderando fatores biopsicossociais inerentes à
complexidade do crime (SANTOS, 1976, p. 40). O estudo do agente
(neste caso, vários agentes) do crime e do perfil da vítima podem
esclarecer os pontos de vulnerabilidade que desenham a estratégia
de segurança pública. Entende-se que o crime não é composto de
causas, mas sim fatores, nos quais somados formam uma estrutura
complexa de ordem individual e social (OLIVEIRA, 1996).
O artigo tem como objetivo principal investigar o tráfico de
pessoas nas fronteiras do Estado do Pará como um fenômeno social,
considerando os conceitos intrínsecos à disciplina de Criminologia e

132
suas vertentes. Pretende ainda, em específico, identificar a função
das principais instancias do poder público que elaboram as políticas
estaduais relacionadas ao tema; descrever a realidade social
percebida nas vítimas deste fenômeno; e comparar programas
internacionais com a política estadual vigente no Estado do Pará.

2 MÉTODOS APLICADOS
O estudo adotou como método o trabalho descritivo, com
exploração de bibliografia mista de Direito, Relações Internacionais,
Antropologia, Sociologia e matérias afins. Foi feito revisão de dados
publicados pelo sistema nacional de justiça e por instâncias
estaduais responsáveis por levantamentos e recepção de denúncias
de tráfico ilegal de pessoas.
A pesquisa também abrangeu, por meio de extensivo acervo
interdisciplinar, menções a estudos de Organizações Não-
Governamentais, monografias e manuais de enfrentamento ao
tráfico. O propósito foi a triangulação de informações a fim de
aclarar o panorama criminológico pretendido sem ater-se somente à
bibliografia tradicional, adicionando assim consistência ao artigo.
A organização do estudo sobre o tráfico de pessoas no
Brasil, em âmbito estritamente legal, é dividida em três partes
principais: a ação, o meio e o fim, ou seja, o fenômeno não é só um
crime “meio”, pois se caracteriza mesmo quando a exploração não
ocorre. Ainda que o presente artigo não se restrinja à menção da
legislação brasileira a respeito do tema proposto, é válido lembrar a
fundamentação jurídica explicitada no Código Penal brasileiro, Art.
239, que versa sobre o tráfico internacional de pessoas com fins de
exploração sexual, corrupção e prostituição de crianças,
complementado pelo Art. 244, do Estatuto da Criança e do
Adolescente. As leis mencionadas, e as referidas posteriormente no
presente trabalho fazem conjunto coercitivo, ou preventivo, com as
políticas sociais e projetos de combate ao fenômeno.
No Brasil, acordos internacionais que versam sobre Direitos
Humanos são inseridos na legislação interna com status de mesma
hierarquia do ordenamento jurídico (BARBOSA, 2010, p. 64), ou seja,

133
torna-se Emenda Constitucional. A melhor representação de
cooperação internacional sobre o tema de enfrentamento ao tráfico
de pessoas está na Resolução 55/25 do Protocolo Adicional a
Convenção contra o Crime Organizado Transnacional, que define o
recrutamento, ameaça e outros tipos de coação que envolva o
tráfico de pessoas.
A referência ao Protocolo de Palermo é intencional. É
considerado o instrumento jurídico que conceitua de uma forma
mais consensual entre os signatários do Acordo Internacional sobre,
em específico, o tráfico de pessoas e suas complexidades (agentes
aliciadores, vendedores intermediários, contatos internacionais, às
vezes, autoridades judiciais). Devido à ambição do projeto, muitos
dos membros signatários ainda estão em fase de adaptação ao
conteúdo do Acordo. Ele ainda busca, como objetivo futuro,
comparar estatísticas criminais de tráfico dos países signatários,
representando assim, um instrumento universal de formas efetivas.
Com esse conjunto de meios metodológicos que permitem
analisar o objetivo último do artigo (PINHEIRO, 2013, p. 12), em
outras palavras, objetivo este que inclui as relações de conceitos da
Criminologia com o fenômeno do tráfico ilegal de pessoas, tem-se
que não apenas referido justificativa jurídica, mas também conceitos
interdisciplinares que integram as complexidades do tema.

3 TRÁFICO ILEGAL DE PESSOAS E CRIMINOLOGIA


Quando se remete à história do Brasil, o tema do tráfico de
pessoas adquire um complexo de estudos referente às origens,
legalidade do tráfico e objetivo deste. Considerando o período
colonial em que o tráfico legal (à época, com respaldo comercial à
escravidão negra e migração interna de escravos indígenas) e,
posteriormente, o ilegal (com proibição do tráfico com finalidade
escravista) construíram uma estrutura social na história nacional. A
herança dessas relações com finalidade econômica fincou-se por
séculos em todas as regiões do Brasil.
Na Amazônia, ainda que a presença de escravos africanos
tenha sido mínima, a escravização indígena ocupava fazendas, antes

134
terras habitadas por esses povos. Havia basicamente duas opções:
ou os indígenas recuavam, ou eram reprimidos pelos portugueses,
que de forma gradativa dominavam até mais remotos territórios. O
autor, Victor Leonardi (1996, p.80-81), explica que:
A situação do baixo Amazonas, ainda em
terras do Pará, era muito semelhante [a
situação do que hoje é o Estado do
Maranhão], sendo o trabalho indígena
utilizado com frequência, tanto na aldeia
de Gurupatuba, atual Monte Alegre, como
nas de Jaguaguara e Santa Cruz do
Nhamundá, atual Faro. Os caboclos e
ribeirinhos, que ainda vivem hoje nessas
localidades, são descendentes daqueles
índios aculturados no século XVIII e, em
seguida, empregados em alguma atividade
extrativista regional, ou no transporte
fluvial, ou, ainda, no trabalho doméstico
(...) (grifo de autor).

Antropologicamente, há uma relação entre os crimes de


tráfico de pessoas contemporâneo e a escravidão, ou mesmo à
servidão por dívidas. Em ambos os casos, as vítimas são privadas de
sua liberdade (CACCIAMALI; AZEVEDO, 2006, p.3). É um fenômeno
transnacional e está presente em todos os continentes,
transformando pessoas em mercadorias altamente lucrativas.
Historicamente, a migração no referido contexto surge
como necessidade de melhoria da realidade pessoal do indivíduo.
Segundo Cacciamali e Azevedo (2006), a motivação da migração
ilegal está relacionada com a possibilidade de ascensão social ou
econômica. Atualmente, para muitas vítimas, não é fundamental
pensar cuidadosamente sobre as condições de emprego prometidas
pelos intermediadores. No contexto do tráfico ilegal, se há coerção
ou voluntariedade, a realidade social “pressiona” a vítima a inclinar-
se pela oferta, ceder e aceitar deixar seu país. É importante salientar

135
que a diferença crucial entre tráfico de migrantes e tráfico de seres
humanos está no consentimento da vítima. Segundo Cícero Rufino
Pereira, “(...) enquanto que neste – tráfico de pessoas –
consentimento nunca existiu (ou é viciado por coação, fraude ou
similares), naquele – tráfico de migrantes – há o consentimento do
sujeito passivo do crime” (2015, p. 43).
Em contrapartida, os agentes ativos do fenômeno do tráfico
ilegal (aliciadores, compradores, traficantes de órgãos, agentes de
adoção ilegal, intermediários para trabalho escravo ou para
prostituição e pornografia dentre outras funções) recebem
estímulos da sociedade moderna que condicionam elementos
debilitadores de sentimentos sociais. Uma das teorias da gênese do
crime é a de Fatores Criminógenos, que destaca a Indiferença
Afetiva como carência altruística. Para Oliveira:
O mesmo empenho na competição
inevitável para alcançar objetivos
existenciais, que comumente é designado
pela expressão “lutar pela vida”, reduz
drasticamente as já delicadas emoções de
piedade e de probidade, de generosidade e
de altruísmo, de liberdade e de amor. A
redução extremada de todas as
manifestações da afetividade é fonte de
angústia patológica, sentida por muitas
pessoas sob a forma de medos vagos e
inidentificados. (1992, p. 51)

As desigualdades geradas pelo sistema atual capitalista, a


estrutura social construída e o que se considera eficiente perverte o
que se considera comercial e tende a formar um “efeito espiral” de
concentração de riquezas, alcançando também o mercado negro. De
acordo com Desimoni, “La desdicha de los seres humanos aflora
cuando la realidad no llega a satisfacer sus expectativas (salarios
reales declinantes en una nación donde son esperables salarios

136
reales crecientes) y cuando las pautas para lograr éxito son
desconocidas y cambiantes”1 (2015, p.154).

3.2 ATUAIS POLÍTICAS PÚBLICAS ESTADUAIS DE ENFRENTAMENTO


AO TRÁFICO DE PESSOAS
O objetivo deste tópico não é fazer menção exaustiva das
diversas instâncias públicas no Estado do Pará que objetivam, com
muito empenho e estudos detalhados, o enfrentamento do tráfico
ilegal de pessoas. Também não estão listadas neste artigo as
iniciativas por ordem de importância, senão políticas e iniciativas
que, em igual grau de valor para a sociedade, estudam
especialmente o tráfico ilegal de seres humanos. O tópico visa,
principalmente, esclarecer que o Estado do Pará mantém iniciativas
que promovem a prevenção e luta contra esse fenômeno social,
alcançando, inclusive, as fronteiras do Estado.
Quando se considera a Secretaria de Justiça e Direitos
Humanos (SEJUDH) do Estado do Pará como principal instituição
pública que tem por missão “promover o exercício da cidadania, a
defesa dos direitos humanos e do acesso à justiça, assim como a
reparação pelos respectivos danos”2, é possível verificar sua
abrangência proporcional à necessidade do Estado. Com aprovação,
em 2009, do Plano Estadual de Enfrentamento ao Tráfico de
Pessoas, é possível interpretar que há metas plausíveis em cada
iniciativa teoricamente levantada. O Conselho Estadual de Justiça e
Direitos Humanos, órgão colegiado da referida Secretaria,
encarrega-se, inclusive, da “instauração de inquéritos
administrativos para investigar as suas causas, sugerindo medidas
tendentes a assegurar a plenitude do gozo dos direitos humanos” 3.

1
A miséria dos seres humanos surge quando a realidade não cumpre suas
expectativas (salários reais declinantes em uma nação onde se espera o aumento dos
salários reais) e quando as diretrizes para o sucesso são desconhecidas e mutantes.
(DESIMONI, 2015, p. 154, tradução nossa)
2
BRASIL. Secretaria de Estado de Justiça e Direitos Humanos. Disponível em
<http://www.sejudh.pa.gov.br/conheca-a-sejudh/missao-2/>
3
BRASIL. Secretaria de Estado de Justiça e Direitos Humanos. Disponível em
<http://www.sejudh.pa.gov.br/diversos/conselhos/>
137
Contudo, Branco reflete que “a realidade da estrutura de
enfrentamento ao problema, hoje, apresenta-se muito incipiente,
para não dizer precária (...) com o estabelecimento de prioridades
cujos verbos traduzem sempre ações futuras, como levantar,
capacitar, mobilizar, articular e etc” (2009, p. 36, grifo do autor).
A Coordenadoria de Enfrentamento ao Tráfico de Pessoas e
Trabalho Escravo, em conjunto com o serviço do Posto Avançado de
Atendimento Humanizado ao Migrante, articulam um rol de política
pública que garante o respeito e a dignidade aos direitos da pessoa
humana. Além de elaborar, também executa projetos de
enfrentamento ao tráfico de pessoas, como a execução, em 2015, de
uma das diretrizes do II Plano Nacional de Enfrentamento ao Trafico
de Pessoas: a capacitação para enfrentamento ao Tráfico por meio
do “II Seminário Estadual de Enfrentamento ao Tráfico de Pessoas:
Interlocução entre as Políticas para Fortalecimento da Rede”,
promovendo a diálogo da sociedade civil e órgãos governamentais4.
Em maio de 2017, a referida Coordenadoria apresentou avaliação do
II Plano Nacional mencionado durante a 7ª Reunião Ordinária do
Comitê Nacional de Enfrentamento ao Tráfico de Pessoas, em
Brasília, mensurando com demais Estados a realidade e aspirações
de políticas efetivas nas áreas mais vulneráveis.
Ainda no primeiro semestre de 2017, a ação conjunta de
órgãos do SEJUDH (a Coordenadoria de Enfrentamento ao Tráfico
de Pessoas e Trabalho Escravo - CTETP, o Comitê Estadual de
Enfrentamento ao Tráfico de Pessoas – COETRAP, e a Comissão
Estadual de Erradicação ao Trabalho Escravo – COETRAE) alcançou
os municípios de Portel e Breves. Localizados no extremo norte do
Estado do Pará, na região da Ilha do Marajó, tais cidades já
participaram de uma rede de origem e destino do tráfico ilegal de
pessoas. O objetivo do Fórum Paraense de Educação para o Campo
realizados nas respectivas cidades foi desenvolver e fortalecer o
“atendimento em rede das demandas relativas à vivência de

4
Secretaria de Estado de Justiça e Direitos Humanos. II Seminário de Enfrentamento
ao Tráfico de Pessoas: interlocução entre as Políticas para o fortalecimento da rede.
Disponível em < http://www.sejudh.pa.gov.br/setp/>
138
situação de Tráfico de Pessoas e Trabalho Escravo, além de
monitorar a implantação da municipalização do atendimento às
vítimas de tráfico de pessoas nos municípios elencados”5.
Entre os meses de abril e junho do referido ano, foi
desenvolvido um ciclo de capacitações do Projeto Direitos Humanos
em Cena. Ocorrido em instituições penais da região metropolitana
de Belém, é um projeto que exige sensibilidade, pois promove
divulgação e esclarecimento de temas delicados como trabalho
escravo e tráfico de pessoas com servidores que vivem em contato
direto com os detentos. Desenvolvido em parceria entre a Secretaria
de Estado de Justiça e Direitos Humanos (SEJUDH), a Secretaria de
Estado de Educação (SEDUC) e a Superintendência do Sistema
Penitenciário do Estado do Pará (SUSIPE), a proposta principal foi
fortalecer ações de prevenção contra o tráfico de pessoas 6.

3.3 VITIMOLOGIA NO TRÁFICO ILEGAL DE PESSOAS


A discrepância social desencadeia uma série de fatos que
culminam em insegurança e exclusão. Os mais vulneráveis carecem
de assistência e acesso à justiça e as condições para subsistência
divergem em grande escala dos mais ricos (ELBERT, 2002). Enquanto
há um consenso sobre uma violência social delitiva nas periferias
que agrava a realidade de um grupo vulnerável ao tráfico ilegal, há a
falta de rentabilidade de políticas públicas realistas e coerentes que
desmantele esses “centros de exclusão”. Para Alberto Elbert,
“programas da política criminal não podem seguir tomando como
base filosófica a utopia iluminista em suas versões do século XIX”
(2002, p. 336).
Nesse diapasão, menciona-se a Vitimogenia Social como um
dos fatores que propiciam a continuidade do fenômeno do tráfico

5
Secretaria de Estado de Justiça e Direitos Humanos. Disponível em:
<http://www.sejudh.pa.gov.br/municipios-do-marajo-recebem-acao-de-articulacao-
para-enfrentamento-ao-trafico-de-pessoas-e-trabalho-escravo/#more-8536>
6
Secretaria de Estado de Justiça e Direitos Humanos. Disponível em: <
http://www.sejudh.pa.gov.br/capacitacao-em-casas-penais-prioriza-a-prevencao-ao-
trafico-de-pessoas/#more-8594>
139
ilegal. De uma forma sintética, “a sociedade cria vítimas” (SANTOS,
1976, p.161). O indivíduo é vitimizado nas relações/fatos sociais que
contribuem para exclusão ou deixam de contribuir à “efetiva
proteção dos direitos humanos”, permitindo que as vítimas tornem-
se “mais vulneráveis às investiduras dos traficantes” (BARBOSA,
2010, p. 35).
A realidade da rede do tráfico de pessoas incluiu ainda uma
complexa questão vitimológica, exposta por Hans Von Henting,
representado pela “contrariedade ao bom senso, tamanha
instabilidade demonstrada pelo indivíduo ao agir” (HENTING, 1979,
apud OLIVEIRA, 1996, p. 84). Inicialmente, tendo como maioria
recrutadores do sexo masculino, o tráfico de pessoas apresentou,
em 2008, em sua maior parte, aliciadoras que formavam uma teia de
conexões. São mulheres que, antes vítimas do tráfico ilegal, acabam
tomando partido na organização criminosa (algum privilégio por
relacionamento conjugal na hierarquia, envolvimento afetivo com
algum membro da organização etc). Essa rede que transforma
mulheres exploradas (vítimas) em aliciadoras (criminosas) compõe a
complexidade da dualidade causa-estado desses indivíduos,
“formado por aspectos desconhecidos da personalidade,
manifestam-se bruscamente, transformando determinado indivíduo
em criminoso ou em vítima, sem limites precisos entre um e outro”
(OLIVEIRA, 1996, p. 84).

3.4 DAS POLÍTICAS NACIONAL E ESTADUAL DE ENFRENTAMENTO


AO TRÁFICO ILEGAL DE PESSOAS
As políticas públicas existentes nas fronteiras do Estado e do
país são direcionadas também ao enfrentamento do problema do
tráfico ilegal, e seus diversos fins, e contam com iniciativas locais e
internacionais. A legislação penal também promove ferramentas
jurídicas concretas que, em conjunto com a cooperação
internacional, busca criar políticas que cheguem às vítimas e
rompam com organizações criminosas do fenômeno. Em todos
esses âmbitos, independente da hierarquia do ordenamento
jurídico, “It is frequently difficult to establish whether there were

140
elements of deception and/or coercion, and whether these were
sufficient to elevate the situation from one of voluntary
undocumented migration, to trafficking7 (SALT, 2000, p. 4).
Em ambiente internacional, é necessário mencionar o
principal instrumento de melhor consenso sobre a conceituação do
que é compreendido por tráfico ilegal de seres humanos. O
Protocolo de Palermo, documento adicional à Convenção das
Nações Unidas Contra o Crime Organizado Transnacional (do qual o
Brasil é signatário), foi aprovado em dezembro de 2000, e
compreende que:
A expressão “tráfico de pessoas” significa o
recrutamento, o transporte, a transferência,
o alojamento ou acolhimento de pessoas,
recorrendo à ameaça ou uso da força ou a
outras formas de coação, ao rapto, à
fraude, ao engano, ao abuso de autoridade
ou à situação de vulnerabilidade ou à
entrega ou aceitação de pagamentos ou
benefícios para obter o consentimento de
uma pessoa que tenha autoridade sobre
outra para fins de exploração sexual,
trabalho ou serviços forçados, escravatura
ou prática similares à escravatura, a
servidão ou a remoção de órgãos
(BRANCO, 2009, p. 14)

A partir da Convenção de Palermo, notou-se avanços gerais


na perspectiva de proteção aos Direitos Humanos que, segundo
Pereira, “não são direitos naturais, pois são atemporais, resultando
de conquistas históricas e, portanto, não decorrem de algo natural”

7
Muitas vezes, é difícil estabelecer se existem elementos de engano e/ou coerção, e
se estes foram suficientes para elevar a situação de uma migração voluntária
indocumentada, para o tráfico (SALT, J. Trafficking and human smuggling: a European
perspective. International Migration:International Organization for Migration, v.38, p.
31-56, 2000, tradução nossa)
141
enfatizando que a primeira dimensão no estudo do tema “trata dos
direitos civis e políticos” e a segunda dimensão “é a que trata dos
direitos sociais, culturais e econômicos” (PEREIRA, 2015, p. 50).
Conforme é realizada uma reflexão acerca da efetiva busca por
sustentabilidade e desenvolvimento humano no período
contemporâneo, a Política Nacional de Enfrentamento ao Tráfico de
Pessoas, consolidada pelo Decreto n. 5.948/2006 (geradora,
posteriormente, dos princípios contidos no primeiro e no segundo
Plano Nacional de Enfrentamento ao Tráfico de Pessoas), absorve
uma base tríplice de prevenção, repressão à prática delituosa, e um
enfoque especial às vítimas desse tipo de delito (BRANCO, 2009, p.
29).
As demais ramificações executivas e de planejamento,
oriundas da Política Nacional mencionada, como a Estratégia
Nacional de Segurança Pública na Fronteira, representam um real
esforço por estabelecimento de Postos Avançados de Atendimento
Humanizado ao Migrante e por cooperação jurídica internacional.
Esta última, infelizmente, ainda apresenta “casos que se repetem
constantemente (...) onde a questão da cooperação fronteiriça [na
fronteira Brasil/Paraguai] para fins de enfrentamento ao tráfico de
pessoas é absolutamente falha” (PEREIRA, 2015, p. 127). No Estado
do Pará, pode-se mencionar como instrumento de cooperação
internacional entre o governo do Suriname e do governo do Estado
(junto a organização civil), a Declaração de Belém, em que “afirmam
a importância da cooperação entre os dois países para garantir a
melhoria da situação dos migrantes, especialmente das mulheres,
em ambos os países”8
Comitês e Coordenadorias Estaduais de Prevenção e
Enfrentamento ao Tráfico de Pessoas têm um papel ainda mais
específico e, na prática, são mais realistas com as particularidades de
cada região. No caso do Comitê Estadual de Prevenção e

8
Escritório das Nações Unidas sobre Drogas e Crimes (UNODC, em inglês United
Nations Office on Drugs and Crime). Declaração de Belém. Disponível em: <
https://www.unodc.org/documents/lpo-brazil//noticias/2009/05-
maio/Declaracao_de_Belem.pdf>
142
Enfrentamento ao Tráfico de Pessoas, do Estado do Mato Grosso,
por exemplo, há desdobramento de “informações sobre indícios de
aliciamento ou deslocamento de mulheres para exploração sexual”
nos quais “são compartilhadas com as frações de inteligência das
forças policiais e com a ABIN para o processamento e planejamento
das operações de repressão”9. O órgão articula e mobiliza a
sociedade e é composto por representantes de organizações da
sociedade civil, Poder Público Estadual e Federal10. No Estado do
Pará, o Núcleo de Enfrentamento ao Tráfico de Pessoas do Estado,
colegiado à Secretaria de Estado de Justiça e Direitos Humanos, e
implementados pelo Programa Nacional de Segurança Pública com
Cidadania, como unidades administrativas executam ações de
prevenção ao tráfico, de responsabilização de seus autores e
atenção às vítimas. As principais funções essenciais do Núcleo são
“articular, estruturar e consolidar, a partir dos serviços e redes
existentes, uma rede estadual de referência e atendimento às
vítimas do tráfico de pessoas”11. Consolidada pela Portaria n. 41, de
2009, Núcleos de Enfrentamento ao Tráfico de Pessoas e Postos
Avançados também representam um sistema de referência e
atendimento às vítimas do tráfico de pessoas.

4 CONSIDERAÇÕES FINAIS
O fenômeno social do tráfico ilegal de pessoas foi apontado
como estudo extenso, pois abrange esferas antropológicas, políticas,
econômicas, históricas, culturais, psicológicas e estruturais. O breve
estudo criminológico do fenômeno permitiu a compreensão de

9
Secretaria de Estado de Justiça e Direitos Humanos do Estado do Mato Grosso.
Disponível em: <http://www.sejudh.mt.gov.br/cetrap-comite-estadual-de-prevencao-
e-enfrentamento-ao-trafico-de-pessoas>
10
Secretaria de Estado de Justiça e Direitos Humanos do Estado do Mato Grosso. I
Simpósio Regional de Enfrentamento ao Tráfico de Pessoas. Disponível em:
<http://www.sejudh.mt.gov.br/-/5273923-governo-realiza-1-simposio-regional-de-
enfrentamento-ao-trafico-de-pessoas>
11
Ministério da Justiça. Núcleos de Enfrentamento. Disponível em:
<http://www.justica.gov.br/sua-protecao/trafico-de-pessoas/redes-de-
enfrentamento/nucleos-de-enfrentamento>
143
doutrinas que interpretam a realidade da vítima e os impulsos dos
agentes criminosos. Uma visão panorâmica do tema buscou impedir
a cristalização de ideias, preconceitos e teorias simplistas sobre as
causas e os fatores da continuidade dessa violação de Direitos
Humanos.
Ao considerarmos o delito de aliciamento de pessoas para
exploração em suas diversas formas (fins de exploração sexual ou
trabalho análogo à escravidão, por exemplo) compreendemos a
conduta típica, antijurídica, na qual o sentimento prevalecente é de
que o responsável precisa sofrer sanção. Contudo, o artigo mostrou
que, embora o crime seja, em realidade, transnacional e de difícil
alcance das suas raízes, por vários fatores, é essencial ater-se por
alguns momentos na vítima.
As violações das quais o indivíduo foi privado (restrição à
vida, lazer, saúde, educação, convivência familiar e comunitária,
dentre outras reservas) aumentam a propensão à “delinquência
residual”, em outras palavras, a vítima torna-se criminosa, em
especial quando não há um amparo às vítimas ou a exclusão dessas
a qualquer auxílio, processo relacionado à explanada Vitimogenia
Social. A vulnerabilidade das vítimas é sua motivação à emigração, o
que cria verdadeiros centros de aliciadores preparados à coação de
indivíduos marginalizados.
As políticas públicas mencionadas são apenas o escopo
inicial das muitas iniciativas, governamentais ou de ação civil, que
importam ao problema do tráfico ilegal alguma discussão
construtiva em que busca solucionar gradativamente as dificuldades
regionais. Se o Brasil preserva um vasto território geográfico e busca
continuamente amparar seu território com proteção aos cidadãos e
migrantes construindo ordenamento jurídico e assistência social que
garanta o mínimo existencial dos indivíduos, o Estado do Pará
também se insere com muitos agentes determinados a pouco a
pouco desenvolver um plano estadual de enfrentamento ao tráfico
que seja eficaz, maduro e realista e que, efetivamente, combata o
fenômeno do crime organizado transnacional do tráfico de pessoas.

144
REFERÊNCIAS

BARBOSA, Cíntia Yara Silva. Tráfico Internacional de Pessoas. 1. Ed.


Porto Alegre: Nuria Fabris, 2010

BRANCO, Maurício Gil Castelo. Ação supranacional da policia federal


na repressão ao Tráfico de mulheres do Brasil para o Suriname a
partir de Belém/PA. Trabalho de Conclusão de Curso em Gestão de
Políticas de Segurança Pública. Academia Nacional de Polícia.
Brasília, 2009

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de Estado de Justiça e Direitos Humanos.

_______. Lei nº 8.069, de 13 de julho de 1990. Estatuto da Criança e do


Adolescente. Disponível em: <
http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/L8069.htm> Último acesso:
15 de jun. 2017

_______. Código Penal, 43. Ed. São Paulo: Saraiva, 2005

_______. Ministério da Justiça. Relatório Nacional sobre Tráfico de


Pessoas: consolidação dos dados de 2005 a 2011. Brasília: 2012.

_______. Secretaria Nacional de Justiça. Portaria n. 41. Disponível em:


< http://www.justica.gov.br/sua-protecao/trafico-de-pessoas/redes-
de-enfrentamento/portaria-41-alteracao-09-11-2009.pdf> Ultimo
acesso: 15 de jun. 2017

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opção da mobilidade social: os imigrantes bolivianos na cidade de
São Paulo. Cadernos PROLAM/USP, São Paulo, v.1, p. 129-143, 2006

DESIMONI, Luis María. El derecho a la dignidad humana. 1. Ed.


Ciudad de Buenos Aires: Abaco, 2015

145
ELBERT, Carlos Alberto. Criminologia Latino-Americana. Vol. 2. São
Paulo: Editora São Paulo, 2002

LEONARDI, Victor Paes de Barros. Entre Árvores e Esquecimentos:


história social nos sertões do Brasil. 1. Ed. Brasília: Paralelo 15, 1996

LEONARDI, Victor Paes de Barros. Fronteiras amazônicas do Brasil:


saúde e história social. 1. Ed. Brasília: Paralelo 15, 2000

OLIVEIRA, Frederico Abrahão de. Manual de Criminologia. 2. Ed.


Porto Alegre: Sagra-Luzzatto, 1996.

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Assembleia-Geral n. 55/25. Disponível em:
<https://www.unodc.org/lpo-brazil/pt/crime/marco-legal.html>
Último acesso: 15 de jun. 2017

PEREIRA, Cícero Rufino. Direitos Humanos Fundamentais: o tráfico


de pessoas e a fronteira. 1. Ed. São Paulo: LTr, 2015

PINHEIRO, Jorge A. De Medeiros. Metodología de la Investigación y


la Enseñanza de Apuntes. 1. Ed. Belém: Universidade Federal do Pará,
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International Migration:International Organization for Migration,
v.38, p. 31-56, 2000

SANTOS, José Wilson Seixas. Pequeno Dicionário de Criminologia. 1.


Ed. São Paulo: Pró-Livro, 1976

146
PERFIL DAS VÍTIMAS DE ACIDENTES DE TRÂNSITO ATENDIDAS
PELO HOSPITAL METROPOLITANO DE URGÊNCIA E EMERGÊNCIA,
DE ANANINDEUA-PARÁ

Adriano Roberto de Souza Ferreira


Edson Marcos Leal Soares Ramos

RESUMO: Objetiva-se descrever o perfil das vítimas de acidentes de


trânsito atendidos no serviço hospitalar de emergência do Hospital
Metropolitano de Urgência e Emergência, da cidade de Ananindeua-
PA, no período 2013-2015. Como metodologia, realizou-se estudo de
epidemiologia descritiva com abordagem quantitativa das vítimas
de acidentes de trânsito atendidas no serviço de emergência do
Hospital Metropolitano de Urgência e Emergência. Foram
registrados 23.950 atendimentos a vítimas de acidentes de trânsito,
a maioria do sexo masculino (74,71%), com idade entre 20 e 39 anos
(54,87%). O meio de locomoção mais frequente foi a motocicleta
(46,56%) e 4 municípios (Belém, Ananindeua, Castanhal e Marituba)
geraram mais da metade (54,84%) de toda a demanda. O dia da
semana com maior ocorrência foi o Domingo (23,99%). Conclui-se
que entre as vítimas, predominaram motociclistas jovens adultos e
do sexo masculino. Os resultados desta pesquisa podem subsidiar
ações intersetoriais de prevenção de acidentes de trânsito
adequadas ao perfil frequente das vítimas, diminuindo demanda de
acidentes de trânsito no Hospital Metropolitano de Urgência e
Emergência.

PALAVRAS-CHAVE: Epidemiologia; Hospitalar; Emergência.

ABSTRACT: It aims to describe the profile of the victims of traffic


accidents attended at the emergency hospital of the Hospital
Metropolitano de Urgência e Emergência, in the city of Ananindeua-
PA, in the period 2013-2015. As methodology, it was adopted the
descriptive epidemiology study with a quantitative approach of the
victims of traffic accidents attended at the emergency service of the

147
Metropolitan Emergency and Emergency Hospital. It concluded that
the total of 23,950 visits were made to victims of traffic accidents,
the majority of whom were male (74.71%), aged between 20 and 39
years (54.87%). The most common mode of transportation was the
motorcycle (46.56%) and 4 municipalities (Belém, Ananindeua,
Castanhal and Marituba) generated more than half (54.84%) of the
total demand. The day of the week with the highest occurrence was
Sunday (23.99%). The young and adult motorcyclists predominated
among the victims. The results of this research can support
intersectoral actions to prevent traffic accidents that are adequate to
the frequent profile of the victims, reducing the demand for traffic
accidents at the Metropolitan Emergency and Emergency Hospital.

KEYWORDS: Epidemiology; Hospitalar; Emergency.

1 INTRODUÇÃO
Os acidentes de trânsito (AT) representam um grave
problema de Saúde Pública, contribuindo para a redução da
qualidade e expectativa de vida, principalmente entre os jovens.
Estudos da Organização Mundial de Saúde (OMS) revelam que a
cada ano cerca de 1,3 milhão de pessoas perdem a vida, e outras 50
milhões são lesionadas em vias públicas de todo o mundo. Desse
total de mortes, quase a metade (46%) são pedestres, ciclistas ou
motociclistas, considerados os integrantes mais vulneráveis no
trânsito, justificando a necessidade de maiores pesquisas sobre o
assunto (OMS, 2011; 2013; 2015).
No período de 2013 a 2015, no Estado do Pará, 4720 pessoas
perderam a vida (DATASUS, s/d) e, somente no serviço de
emergência do Hospital Metropolitano de Urgência e Emergência
(HMUE), outras 23.950 foram atendidas em decorrência de AT. O
HMUE é um hospital integrante do Sistema Único de Saúde (SUS)
que, devido às especialidades oferecidas, é considerado um centro
de referência regional em atendimento de ortopedia/traumatologia,
atendendo diversos municípios do Estado do Pará e Estados
vizinhos.

148
Essa expressiva quantidade de vítimas de AT corresponde a
29,07% do total de pacientes atendidos pelos HMUE no mesmo
período, demonstrando a significativa demanda que os AT
representam para os serviços de emergência, além da notável carga
social, traduzida pelas sequelas e altos custos para a sociedade
(BRASIL, 2015; OMS, 2013).
Para a Polícia Rodoviária Federal (PRF), AT é todo
acontecimento não premeditado do qual resulte danos materiais
e/ou pessoais, envolvendo veículo na via pública (PRF, 2016). Pelas
características de sua ocorrência, os estudos sobre AT tornam-se
importante especialmente pela alta possibilidade de intervenção,
pois, sabe-se que a maioria dos atendimentos em emergências
decorrentes de AT poderiam ser evitados com a adoção de medidas
preventivas (BARROS et al., 2003). Nesse sentido, a geração de
informação sobre AT é fundamental para subsidiar a tomada de
decisão em setores como saúde, educação e fiscalização.
Assim, o presente estudo tem como objetivo descrever o
perfil das vítimas de AT atendidos no serviço de emergência do
HMUE, em Ananindeua, Estado do Pará, fornecendo subsídios para
o planejamento e desenvolvimento de ações efetivas de prevenção e
controle para a redução dos AT (CARDOSO, 2002) e consequente
diminuição da demanda de atendimento de AT pelo HMUE.

2 MÉTODO
Realizou-se um estudo epidemiológico analítico com
abordagem quantitativa dos registros de vítimas de AT atendidas
pelo HMUE, a partir de relatório gerenciais disponibilizados pela
Direção Geral do hospital. O recorte temporal foi o período de 1° de
janeiro de 2013 a 31 de dezembro de 2015, com a amostra da
pesquisa sendo composta por 23.971 registros de atendimentos.
Em seguida, fez-se a qualificação (limpeza) da base de dados
com exclusão dos registros duplicados. Utilizando a plataforma
Excel, foram comparadas as variáveis sexo, data de nascimento, dia
do AT, município do AT e meio de locomoção, identificando-se os
pares em duplicidade. Considerou-se como duplicidade a existência

149
de mais de uma notificação da mesma vítima para o mesmo AT,
classificando como duplos os pares em que todas as variáveis
analisadas estivessem idênticas.
Foram excluídos 13 registros identificados como duplicados
e 8 que foram identificadas como vítimas de acidentes aéreos com a
amostra final do banco de dados sendo composta por 23.950
atendimentos específicos de AT. Ocorrências com a mesma vítima,
mas, em AT diferentes não foram consideradas duplicidade,
permitindo que as múltiplas ocorrências de um indivíduo não
fossem excluídas da análise (SOUTO et al., 2016).
Para a distribuição das idades foram excluídas 30
ocorrências em que a data de nascimento informada era posterior à
data de ocorrência do AT e para distribuição dos municípios de
ocorrência do AT analisou-se apenas aqueles com mais de 300
ocorrências registradas no período analisado. O meio de locomoção
motocicleta englobou todos os AT onde o paciente foi identificado
como condutor ou passageiro de ciclomotor, motocicleta, motoneta
e triciclos; o meio de locomoção veículo engloba as vítimas
identificadas como passageiro ou condutor de automóvel,
caminhonetes, caminhoneta, caminhão e ônibus; ciclista se relaciona
com as vítimas condutoras ou passageiros de bicicletas e, pedestre,
refere-se a vítimas de atropelamento (DENATRAN, 2006).
Na análise, utilizou-se a estatística descritiva para a
caracterização das variáveis avaliadas com os resultados sendo
apresentados na forma de frequência simples e percentual, em
tabelas, com base na literatura científica (BUSSAB; MORETTIN, 2013;
RAMOS et al., 2008).

3 RESULTADOS
No período analisado, o HMUE atendeu vítimas de AT
oriundas de 159 municípios do Estado do Pará e Estados vizinhos, tal
diversidade de municípios atendidos é justificada pela Carta de
Direitos dos Usuários da Saúde que preconiza o atendimento
incondicional de urgência e emergência em qualquer unidade do
SUS (BRASIL, 2006), porém, possivelmente devido à localização do

150
HMUE (Figura 1), mais da metade dessa demanda (54,84%) é
oriunda de 4 municípios paraenses pertencentes à Região
Metropolitana de Belém (RMB): Ananindeua, Belém, Castanhal e
Marituba (Tabela 1).
Em 74,71% dos casos a vítima é do sexo masculino e o dia da
semana com maior registro de atendimento é o domingo (23,99%).
Mais da metade dos casos envolveu indivíduos com idade entre 20 e
39 anos (54,87%) enquanto que, nas faixas etárias das extremidades,
observou-se os menores índices: de 0 a 9 anos (5,73%) e aos 60 anos
ou mais (4,72%) (Tabela 1). Quanto ao meio de locomoção, a
motocicleta foi o que mais gerou vítimas de AT (46,56%), seguida
pelos veículos (29,36%) e pedestres (18,44%), sendo a bicicleta o
meio que menos gerou atendimentos (5,64%) (Tabela 1).

Figura 1 – Mapa de localização da malha rodoviária da Região Metropolitana de


Belém.

Fonte: dados dos autores.


Homem e motociclista (36,24%) é o perfil com maior
registro de atendimentos enquanto que mulher e ciclista (1,68%) é o
menor. Com relação à variável faixa etária, a maior parte das vítimas
com faixa etária entre 10 e 49 anos estava em motocicletas quando
se acidentaram, enquanto que as faixas de 0 a 9 e maior ou igual a

151
60 anos possuem como maior frequência registros de
atropelamento.

Tabela 1 – Quantidade de vítimas de acidentes de trânsito atendidas pelo HMUE,


entre janeiro de 2013 e dezembro de 2015, por sexo, município, faixa etária, dia da
semana do acidente e meio de locomoção.
MOTOC
ICLETA VEÍCULOS PEDESTRE BICICLETA TOTAL
n (%) n (%) n (%) n (%) n (%)
Sexo
8680
(36,24% 5222(21,80 3041 949 17892
Homem ) %) (12,70%) (3,96%) (74,71%)
2472
(10,32% 1809 1375 402 6058
Mulher ) (7,55%) (5,74%) (1,68%) (25,29%)
Município
2316 2058 1350 348 6072
Belém (9,67%) (8,59%) (5,64%) (1,45%) (25,35%)
1637 1418 1098 350 4503
Ananindeua (6,84%) (5,92%) (4,58%) (1,46%) (18,80%)
645 422 213 1338
Castanhal (2,69%) (1,76%) (0,89%) 58 (0,24%) (5,59%)
499 308 150 1221
Marituba (2,08%) (1,29%) 264 (1,10%) (0,63%) (5,10%)
Faixa Etária
241 170 614 345 1370
0-9 (1,01%) (0,72%) (2,56%) (1,44%) (5,73%)
1628 847 662 3452
10-19 (6,80%) (3,54%) (2,77%) 315 (1,33%) (14,43%)
4217
(17,62% 2349 156 7464
20-29 ) (9,82%) 742 (3,11%) (0,65%) (31,20%)
2872 1911 704 174 5661
30-39 (11,99%) (7,99%) (2,95%) (0,74%) (23,67%)
1408 1011 626 160 3205
40-49 (5,88%) (4,22%) (2,62%) (0,68%) (13,40%)
50-59 530 501 492 116 (0,49%) 1639

152
(2,21%) (2,09%) (2,05%) (6,85%)
254 549 1129
>= 60 (1,06%) 241 (1,01%) (2,29%) 85 (0,36%) (4,72%)
Dia da
Semana
3101
(12,95% 1565 844 236 5746
Domingo ) (6,53%) (3,52%) (0,99%) (23,99%)
2142 1124 658 204 4128
Segunda-feira (8,94%) (4,69%) (2,75%) (0,85%) (17,24%)
1069 754 180 2515
Terça-feira (4,46%) (3,15%) 512 (2,14%) (0,75%) (10,50%)
989 779 177 2458
Quarta-feira (4,13%) (3,25%) 513 (2,14%) (0,74%) (10,26%)
980 738 163 2391
Quinta-feira (4,09%) (3,08%) 510 (2,13%) (o,68%) (9,98%)
1132 837 586 178 2733
Sexta-feira (4,73%) (3,49%) (2,45%) (0,74%) (11,41%)
1739 1234 793 213 3979
Sábado (7,26%) (5,15%) (3,31%) (0,89%) (16,61%)
Fonte: Direção Geral do HMUE. Elaboração dos autores.

Tabela 2 – Quantidade de vítimas de acidentes de trânsito atendidas pelo HMUE,


entre janeiro de 2013 e dezembro de 2015, por municípios com mais de 300 registros
no período.

Município de Ocorrência n (%)


Belém 6072 (25,35%)
Ananindeua 4503 (18,80%)
Castanhal 1338 (5,59%)
Marituba 1221 (5,10%)
Benevides 774 (3,23%)
Abaetetuba 559 (2,33%)
Barcarena 515 (2,15%)
Santa Isabel 434 (1,81%)
Tailândia 402 (1,68%)
São Miguel do Guamá 347 (1,45%)
Santa Bárbara 331 (1,38%)

153
Bragança 326 (1,36%)
Capitão Poço 311 (1,30%)
Moju 304 (1,27%)
Fonte: Direção Geral do HMUE. Elaboração dos autores.

4 DISCUSSÃO
Entre as vítimas de AT atendidas pelo HMUE, no período de
2013 a 2015, os adultos jovens (20-39 anos) e o sexo masculino
foram as principais vítimas. A motocicleta foi destaque como o meio
de locomoção que mais gerou vítimas e o domingo foi o dia da
semana em que mais ocorreram atendimentos dessas vítimas. Esses
resultados, de forma geral, confirmam os dados sugeridos pela
literatura.
De acordo com Bastos et al. (2005), as vítimas de AT
atendidas pelo Serviço Integrado de Atendimento ao Trauma e às
Emergências (SIATE) de Londrina eram aproximadamente 75.2% do
sexo masculino. Tal predominância de vítimas do sexo masculino
também pode ser observada nos estudos de Souto et al. (2016) com
vítimas atendidas em unidades sentinela de Pernambuco, Soares et
al. (2012) com vítimas atendidas pelo Serviço de Atendimento Móvel
de Urgência (SAMU) em João Pessoa-PB, Cabral et al. (2011) com
vítimas de AT na cidade de Olinda e finalmente o trabalho de Santos
(2008) com vítimas de motocicleta na cidade de |Teresina-PI.
Portanto, estes estudos indicam que pessoas do sexo masculino,
jovens e motociclistas são as vítimas mais frequentes do trânsito,
resultado também obtido em outras pesquisas (LEGAY et al., 2012;
MALVESTIO; SOUSA, 2002; BARROS et al., 2003; MAGNANO et al.,
2011).
A maior frequência de vítimas de AT ligados à utilização de
motocicletas pode ser relacionada com o aumento da utilização
desse meio de locomoção no deslocamento da residência para o
trabalho e vice-versa e ao crescimento da frota desse tipo de
veículo. Pordeus et al. (2010) afirmam que a utilização da
motocicleta como instrumento de trabalho, tem repercutido no
perfil dos atendimentos de emergência de um hospital em

154
Fortaleza-CE. Essa utilização pode ser atribuída à rapidez, fácil
circulação e baixo custo desse veículo (ANJOS et al., 2007; MARÍN-
LEÓN et al., 2012). Tal hipótese é reforçada pelo considerável
aumento registrado na frota de motocicletas que, no Estado do Pará
aumentou 45,09% no período de 2013 a 2015 (DENATRAN, s/d).
Por outro lado, o predomínio de jovens do sexo masculino
em AT com motocicletas também pode ser atribuído, segundo
alguns autores, à imaturidade própria da idade, à autoconfiança e à
tendência em desafiar limites, fazendo da motocicleta sinônimo de
liberdade, emoção e adrenalina, tornando quase que heroico o ato
de transgredir leis e viver perigosamente (ANDRADE; JORGE, 2000;
BASTOS et al., 2005; QUEIROZ; OLIVEIRA, 2003; VIEIRA et al., 2011).
Sugere-se uma reflexão sobre como nossa sociedade está
construindo a personalidade desses jovens, com reflexo direto dos
padrões de conduta no trânsito e no dia a dia.
Mesmo os ciclistas estando em quarto lugar entre as vítimas
de AT atendidas pelo HMUE, sugere-se muita atenção a esse perfil,
pois juntamente com os pedestres, eles formam o grupo de maior
vulnerabilidade no trânsito, de modo que, parte considerável dos AT
envolvendo ciclistas e pedestres ocasiona, diretamente, o óbito dos
envolvidos (BARROS et al., 2003). Nesse sentido, os idosos (>= 60) e
as crianças (0 a 9) foram as principais vítimas de atropelamento,
corroborando com os estudos de Bacchieri e Barros (2011), Silva et
al. (2011) e Gawryszewski et al. (2009).
Quanto ao dia da semana da ocorrência do AT, observou-se
que a maior frequência foi registrada aos domingos (23,99%),
possivelmente este dado está relacionado ao hábito local de
deslocamento para lazer em balneários e clubes nesse dia da
semana. Soares et al. (2012). Ao analisar as vítimas de AT atendidas
pelo SAMU no município de João Pessoa, indicou-se resultado
similar, com 19,4% dos AT ocorrendo aos domingos, porém, os
pesquisadores não apontaram uma provável causa para essa
ocorrência. Resultado diferente foi observado na pesquisa de Souto
et al. (2016), que concluiu com sendo a quarta-feira (16,6%) o dia de
maior frequência de AT, de acordo com o autor essa ocorrência

155
estaria relacionada com uma maior concentração de atividades
laborais nesse dia da semana.
O resultado desse estudo identificou o grupo mais exposto
aos AT como sendo: jovem adulto, sexo masculino e motociclista,
confirmando a vulnerabilidade desse meio de locomoção. Essas
informações são fundamentais para o desenvolvimento e
implementação de ações que possibilitem a prevenção e redução de
AT, com consequente decréscimo na demanda de atendimento
desses eventos no HMUE.
Sugere-se como ações específicas para esse grupo de risco,
programas de educação para o trânsito e um aumento na
fiscalização e controle por conta das autoridades. Nesse sentido, a
integração entre os órgãos de trânsito das esferas municipal,
estadual e federal é de extrema importância, além do envolvimento
das instituições de ensino, empresas que utilizam serviços de
motociclistas e representantes das categorias profissionais
envolvidas com esse tipo de transporte, buscando ampliar a
discussão e definir estratégias mais especificas de intervenção.
Como limitação do presente estudo, cita-se que as vítimas
atendidas pelo HMUE podem não ser representativas de todos os
acidentes da região no período analisado. Entretanto, as
informações obtidas sobre o perfil das vítimas e dos AT podem
contribuir para fundamentar, implementar e desenvolver programas
de prevenção dos AT e suas consequências. Espera-se que os
resultados observados sirvam de estímulo para realização de outras
pesquisas que possam complementar e confirmar o conhecimento
alcançado.

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Brasil. Rev. Saúde Pública. 2000.

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Centro de Referência ao Trauma de Sergipe. Rev. esc. enferm. USP,
São Paulo, v. 45, n. 6, p. 1359-1363, Dec. 2011.

160
CONTROLE SOCIAL INFORMAL E CRIMINALIDADE NA PÓS-
MODERNIDADE

Michele Maria Brito da Ponte Souza


Mayara Roberta Araújo Rocha
Julita Paes Barreto Dos Santos Chaves
Luís Fernando Cardoso e Cardoso

RESUMO: Este artigo analisa historicamente as consequências da


pós-modernidade no Brasil para o controle social informal, que
englobam as alterações nas relações sociais no núcleo familiar e as
políticas de Estado destinadas à família. Com base no conceito de
controle social informal de David Garland, no período da pós-
modernidade, discute-se as modificações políticas, econômicas e
sociais ocorridas a partir de 1970, para traçar a relação entre o
afrouxamento do controle social informal exercido pela família e o
aumento da criminalidade. Para alcançar os objetivos propostos, foi
utilizada a pesquisa de abordagem qualitativa com análise crítico-
dialética, as técnicas empregadas foram a documental e a
bibliográfica. Entre outros resultados do exame das consequências
da pós-modernidade, foi possível associar algumas transformações,
que culminaram no denominado “afrouxamento do controle
informal”, à Segurança Pública.

PALAVRAS-CHAVE: Núcleo familiar. Políticas de Estado. Segurança


pública.

ABSTRACT: This article analyzes historically the postmodernity


consequences in Brazil for informal social control, which
encompasses changes in social relations in the family nucleus and
state policies aimed at the family. Based on David Garland's
conception of informal social control in the postmodern period, it
discusses the political, economic, and social changes that have taken
place since 1970, to trace the relationship between the loosening of
informal social control exercised by the family and the increase in

161
the criminality. In order to reach the proposed objectives, we used
the qualitative research with critical-dialectical analysis; the
techniques used were the documental and the bibliographic. Among
other results of the examination of the consequences of
postmodernity, it was possible to associate some transformations,
which culminated in the so-called "informal control loosening", to
Public Security.

KEYWORDS: Family nucleus. State Policies. Public security.

1 PROBLEMATIZAÇÃO
A pós-modernidade trouxe consigo mudanças profundas no
âmbito político, econômico, social e até religioso. Os reflexos dessas
mudanças podem ser notados, por exemplo, na segurança pública,
com o aumento da criminalidade no Brasil. Alguns questionamentos
a respeito desse tema logo surgem. O presente artigo aborda aquilo
que parece estar intimamente relacionado ao crescimento
exacerbado da criminalidade no Brasil, que são as alterações nas
formas de controle social, mas especificamente do controle
informal.
A análise do período pós-moderno, que se inicia,
historicamente em 1970, objetiva discutir como a pós-modernidade
acarretou notáveis mudanças no conjunto de grupos que
conhecemos por controles informais, focando o grupo familiar.
Nesse sentido, faz-se necessário entender a dinâmica de um
grupo específico, que é a família na pós-modernidade, e examinar a
relação entre a decadência do controle social atribuído a esse grupo
e a violência no Brasil. Identifica-se, desse modo, as mudanças
ocorridas na relação entre o Estado e a família, dando-se destaque
ao papel que é imposto às famílias e às consequências da pós-
modernidade.
Há uma certa discordância acadêmica sobre o conceito de
pós-modernidade. Neste artigo, adotar-se-á o termo pós-
modernidade para que seja mais claro o entendimento quanto ao
período tratado. De acordo com Garland (2008), o conceito seria o

162
de “modernidade tardia”, com base nas transformações que
marcaram profundamente o mundo a partir da década de 70 do
século XX. Mudanças de cunho econômico, político, social, religioso
e, claro, histórico.
Pode-se citar ainda que Anthony Giddens, Beck, Ulrich e
Scott Lasch (1995)1 falam em “modernidade reflexiva” e Zygmunt
Bauman (2001)2 em “modernidade líquida”, e assim por diante
(PASTANA, 2012). Mas, o fato é que, para todos esses autores, a pós-
modernidade começa a partir de 1970. Há ainda autores como
Singly (2007), que consideram tal período como contemporâneo.
Mas, inegavelmente, abstraindo-se a nomenclatura, todos destacam
as peculiares formas de controle social da pós-modernidade.
Os controles sociais classificam-se em formais e informais,
de acordo com Garland (2008). O controle formal é aquele aplicado
pelas instituições do Estado tem suas ações normalmente pautadas
pelo princípio reativo. O controle informal seria a forma de controle
oriunda da família, da Igreja, da comunidade e afins. Tanto no
controle formal quanto no informal há a vigilância constante e a
iminência de punição em caso de transgressões de leis, bem como
de certas “moralidades” (GARLAND, 2008).
O Estado demonstra ser limitado quanto à capacidade de
garantir segurança. Daí a necessidade de a sociedade civil associar-
se – processo que se originou nos EUA e na Grã-Bretanha. O
controle do crime foi moldado por duas forças sociais: a primeira
seria o modo de organização social da pós-modernidade; a segunda
seria a economia de mercado. Assim, o processo penal da pós-
modernidade, conduzido pelo discurso jurídico da
instrumentalidade do processo, preocupa-se bem mais com os
resultados do que com a segurança. A pós-modernidade estaria
atrelada a uma série de riscos, inseguranças e problemas
relacionados ao controle (GARLAND, 2008).

1
Ver GIDDENS, Anthony; BECK, Ulrich; LASCH, Scott. Modernização reflexiva: política,
tradição e estética na Ordem Social Moderna. São Paulo: Ed. Unesp, 1995.
2
Ver BAUMAN, Zygmunt. Modernidade líquida. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2001.
163
Ressalta-se que houve uma divisão de responsabilidades
entre o Estado e o setor privado, por meio do aumento de indústrias
privadas voltadas para a segurança pública, e uma reorganização
social devido à nova estrutura em construção. É o que Garland
(2008) denomina “estratégia da responsabilização”, segundo a qual
o Estado incentiva a ação de atores e de organizações não estatais.
O objetivo é que haja um complemento no controle do crime
exercido pelo Estado, pulverizando-se a responsabilidade pelo
controle do crime para além do Estado. O que não significa que o
Estado abriu mão do monopólio do controle do crime, permitindo
que a iniciativa privada também se aliasse aos esforços contra o
crime, essa foi uma estratégia para mitigar inúmeros problemas de
segurança pública (GARLAND, 2008).
A discussão sobre o papel do Estado no controle da
violência faz-se pertinente ao passo que a iniciativa privada
aumenta a vigilância social, mas o controle informal vai na
contramão desse processo. Com efeito, observa-se que a
reconfiguração familiar tende ao afrouxamento do controle
informal.
O século XX trouxe consigo intensas alterações no campo do
trabalho – leia-se “econômicas” –, e isso foi uma das consequências
dos avanços tecnológicos. Nesse contexto, vimos a reconfiguração
do mercado de trabalho, que passou a absorver a força de trabalho
da mulher, impactando assim o núcleo familiar tradicional. Além
disso, as políticas de Estado contribuíram para a perda de
autonomia da família no contexto social.
Importa salientar que as alterações no núcleo familiar, como
a entrada da mulher no mercado de trabalho em razão do advento
do industrialismo, trouxeram consigo impactos que vão além da
economia e da política, desencadeando uma ruptura no controle
informal que a mulher exercia, começando no contato mais próximo
com os filhos. A chegada da globalização e os avanços tecnológicos,
igualmente legados da pós-modernidade – que não são o foco do
trabalho –, estão entre as alterações trazidas pela pós-modernidade

164
que também contribuem para o afrouxamento do controle informal
exercido pela família.
Afinal, qual a relação entre as alterações do mundo do
trabalho, a reestruturação familiar e os controles sociais? A resposta
é o controle informal, que é o objeto deste artigo. O cerne da
questão são as consequências do processo de reestruturação do
núcleo familiar que contribuem para o afrouxamento no controle
informal e sua relação com o recrudescimento da criminalidade dos
jovens do Brasil.

2 DESCRIÇÃO DO MÉTODO E PROCEDIMENTOS METODOLÓGICOS


APLICADOS AO ESTUDO
Para alcançar os objetivos propostos, a pesquisa utilizou o
método crítico-dialético, que consiste em uma crítica das
contradições da realidade, concebendo-se essa realidade como
essencialmente contraditória e em permanente transformação.
Medeiros e Rodrigues (2016) referem-se a esse método
como “método de Marx”, porque sua gênese é baseada nos escritos
de Karl Marx, embora não se tenha “cristalizado no tempo”, nem se
restringido às obras de Marx. Essa abordagem possibilita o
tratamento crítico-analítico das sociedades contemporâneas, mais
precisamente das sociedades capitalistas (MEDEIROS; RODRIGUES,
2016).
Assume-se que a dialética é uma forma de pensar e de agir,
que parte da realidade contraditória, permitindo que o sujeito seja
participante de uma realidade, bem como agente colaborador do
processo de transformação, no qual, inevitavelmente, tudo existe.
Nesse sentido, o sujeito e o objeto são elementos participantes de
uma determinada realidade, estando, portando, segundo Celos
(2005, p. 8) “[...] unidos numa simbiose indissolúvel”, diferentemente
do entendimento dos positivistas, que veem o sujeito e o objeto
separados dentro da realidade. Estão, assim, ambos (sujeito e
objeto) em constante e consequente transformação (CELOS, 2005).
Escolheu-se a crítica dialética por se tratar de um método
que assume que não há problemas definitivamente resolvidos:

165
compreende o pensamento como algo que não pode avançar em
linha reta, dependendo assim de verdades parciais para a obtenção
de um significado no conjunto, conjunto que só pode ser alcançado
pelo progresso no conhecimento das verdades parciais
(GOLDMANN, 1991). De modo que, somente por meio da junção de
diversos elementos presentes na pós-modernidade, será possível
construir uma reflexão coerente sobre as contradições da realidade,
na qual a dialética está empenhada em desenvolver crítica.
Como características da crítica dialética, destacam-se o
espírito crítico e autocrítico e a atitude contestatória. De acordo
com Konder (2000, p. 86), a dialética “[...] intranquiliza os
comodistas, assusta os preconceituosos, perturba
desagradavelmente os pragmáticos ou utilitários...”. Lakatos e
Marconi (2003, p. 100) definem as leis fundamentais da dialética
como “ação recíproca, unidade polar ou ‘tudo se relaciona’;
mudança dialética, negação da negação ou ‘tudo se transforma’;
passagem da quantidade à qualidade ou mudança qualitativa; e
interpenetração dos contrários, contradição ou luta dos contrários”.
Para esta pesquisa, entre as leis fundamentais dialéticas, a
mais adequada é a dialética de ação recíproca; de acordo com
Lakatos e Marconi (2003, p. 101), diferentemente da metafísica, que
concebe o mundo como um conjunto de coisas estáticas, a dialética
vê o mundo como um conjunto de processos, tal como Engels.
Destarte, nada existe isoladamente, mas como parte de um todo
unido, coerente e inter-relacionado reciprocamente (LAKATOS;
MARCONI, 2003).
A abordagem utilizada é qualitativa, na busca de definir
“como” o processo de afrouxamento do controle informal exercido
pela família, e inerente à pós-modernidade, está relacionado com o
aumento da criminalidade no Brasil, preocupando-se em
compreender os fenômenos tomando como referência o mundo dos
símbolos ou significados.
A técnica de pesquisa é do tipo documental – baseada em
dados primários (censos do Instituto Brasileiro de Geografia e
Estatística (IBGE) do século XX, Relatório sobre Desenvolvimento

166
Humano do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento
(PNUD), de 1998, e dados de 2015 divulgados pelo Ministério da
Justiça) – e também bibliográfica, englobando dados secundários
(com referencial teórico específico, apoiando-se, principalmente, em
Garland (2008) e seus conceitos de controle informal e pós-
modernidade).
Os dados primários e secundários apresentados pela
pesquisa são descritos e confrontados, buscando-se averiguar se
encontram assento na realidade. Tudo para que os objetivos
propostos sejam alcançados, bem como para que seja possível obter
um diagnóstico mais completo da realidade em discussão.

3 ANÁLISE E EXPOSIÇÃO DOS RESULTADOS


3.1 A RECONFIGURAÇÃO DO NÚCLEO FAMILIAR APÓS 1970
É acertado compreender os controles sociais como
construções sociais que visam dominar todas as esferas da vida dos
indivíduos. É preciso, porém, ressaltar que, a partir de 1970, há uma
mudança considerável no que tange aos controles informais, como a
entrada da mulher no mercado de trabalho, que modificou a
estrutura familiar. Além disso, as alterações na legislação
propiciaram o surgimento de uma sociedade de direitos individuais.
Portanto, é possível afirmar que há uma reconfiguração nas
estruturas sociais, jurídicas e criminais.
Assim como os controles, a família também é uma
construção social em que cada indivíduo desempenha uma função
preestabelecida. A sua formação é um fato natural no meio social e,
hodiernamente, dá-se de forma espontânea; no entanto, é o direito
que lhe confere estruturação, delegando aos pais o dever de
cuidado, educação e proteção dos filhos, para construírem sua
identidade sociocultural, preparando-os para serem cidadãos “de
bem”. Afinal, como base da sociedade e do Estado, a família
desempenha o papel imprescindível de agente socializador.
Para Lima (2001, p. 62),
“[...] a partir do padrão de organização da
família burguesa, como ‘célula mater da

167
nação brasileira’, impunha-se traçar o
destino, estabelecer os valores morais, o
perfil das relações interfamiliares, a lógica
dos comportamentos, a serem adotados
pelos setores populares. [...]”.

Nas últimas décadas, tem sido bastante discutida a ideia de


crise da instituição familiar. De acordo com Cortez (2008, p. 303),
“os termos crise da justiça, do direito e da família representam a
crise dos modelos adotados diante das necessidades atuais, porque
efetivamente a justiça, o direito e a proteção da família nunca
estiveram ao efetivo alcance da população brasileira”.
O que fomenta este debate são as transformações sociais,
como os altos índices de divórcio, que podem ser comprovados, de
acordo com o IBGE (2006, p. 160-168), em uma publicação sobre
estatísticas do século XX: em 1958, os processos concluídos de
desquite totalizavam 2.922, as separações judiciais alcançaram
41.376 em 1982; já em 1994, só os processos de divórcio concluídos
na 1.ª instância atingiram a cifra de 95.971.
Consequentemente, a ideia de declínio do casamento –
reforçada pelas estatísticas de divórcio, pela redução da taxa de
natalidade, entre outras causas – ocasionou a compreensão de crise
na entidade familiar, apesar da remodelação do padrão familiar.
[...]. De fato, o que observamos não foi o
enfraquecimento da instituição familiar,
mas o surgimento de novos modelos
familiares, construídos a partir desses
fenômenos sociais, mas, principalmente,
das transformações nas relações entre os
sexos, vistas de uma perspectiva igualitária,
mediante maior controle de natalidade, a
inserção massiva da mulher no mercado de
trabalho etc. [...] (PEIXOTO; CICCHELLI,
2000, p. 9).

168
Com a primeira e a segunda Revolução Industrial, a
atividade laboral foi redefinida, extraindo famílias pobres da
produção doméstica ou artesanal, inserindo-as no ambiente fabril.
Nesse período, entre a segunda metade do século XVIII e o início do
século XX, a estrutura familiar sofreu uma enorme modificação,
rompendo com as funções apenas domésticas e maternas de
milhares de mulheres, que foram insertas3 no mercado de trabalho.
Cabe ressaltar que as três fases da Revolução Industrial
alteraram o mundo do trabalho, impactando diretamente o modo
de vida de famílias não só no Brasil. Com as exigências cada vez
maiores, os indivíduos, além de trabalhar fora para ajudar na renda
familiar, são obrigados a qualificar-se com frequência para garantir
melhores salários e colocações, o que demanda, portanto, um
tempo maior para atividades com fins econômicos.
A situação no Brasil (e no resto do
continente) é um pouco distinta,
especialmente por causa do seu processo
tardio de industrialização e por causa das
turbulências no cenário político no período
que vai da segunda metade da década de
sessenta até meados da década de oitenta
do século XX. É justamente a partir da
redemocratização que tem como um dos
marcos a promulgação da Constituição da
República de 1988, que o tratamento penal
dos conflitos sociais começa a se tornar
mais severo (GARLAND, 2008, p. 12).

Os movimentos feministas também repercutiram na


entidade familiar. À medida que as mulheres foram sendo inseridas
no mundo do trabalho, ocupando seu espaço na sociedade
patriarcal, lutando e conquistando direitos, a entidade familiar

3
Essa inserção foi propiciada pelo fato de que as máquinas não careciam de força
física para serem operadas, o que abriu espaço para o emprego de indivíduos sem
força muscular, como mulheres e crianças.
169
reorganizou-se para acomodar essas mudanças. A mulher
abandonou a função precípua de casar e tornar-se dona de casa e
mãe, ganhando independência financeira, direitos de cidadania, e
maior decisão quanto ao próprio corpo.
De acordo com D’Alonso (2008), há um considerável
aumento na participação feminina no mercado de trabalho
brasileiro a partir da década de 70. O Relatório sobre
Desenvolvimento Humano, de 1998, do PNUD revela, segundo
D’Alonso (2008), que as mulheres brasileiras nesse ano já
representavam 44% da força de trabalho no país, número superior
ao de outros países como Venezuela (42,1%), México (38,4%), Chile
(36,6%), Argentina (34,3%), Grécia (26,5%) e Espanha (24,3%).
Singly (2007) divide a história da família contemporânea em
dois períodos. O primeiro período, denominado “família moderna 1
ou da primeira modernidade”, durou meio século, indo do início do
século XIX até meados de 1960. Nesse período, a vida familiar era
centrada no grupo, as crianças eram a figura central, e os adultos
estavam a serviço da vida familiar e de seus filhos. Para tal, ao
homem incumbia a tarefa social de trabalhar fora e ser o chefe da
família, provendo-a de aportes econômicos. A mulher assumia a
tarefa de cuidar do lar e da educação dos filhos.
O segundo período, denominado “família moderna 2 ou
pós-moderna”, teve início em 1960 e sofre influência da mudança da
“modernidade europeia”, incutindo no seio familiar o processo de
individualização. Nesse período, Singly (2007) entende que há uma
redefinição da vida familiar sob a perspectiva das relações entre os
sexos: diminuição sensível da dependência objetiva da mulher;
manutenção dos investimentos profissionais e domésticos
diferenciados segundo o sexo; fuga dos papéis sexuais que surgiram
com o compromisso conjugal.
A família contemporânea, de acordo com Singly (2007),
possui características muito distintas da família antiga, mas a função
de reprodução biológica e social, bem como o ideal de manter e
melhorar a posição familiar no espaço social mantém-se e são
repassados às novas gerações. Para esse autor, a família

170
contemporânea percebe-se menos como instituição e delineia-se
mais em razão das relações internas estabelecidas no seio familiar.
Outro fator que se destaca na nova configuração familiar
são as relações menos hierarquizadas, tanto entre os casais quanto
entre pais e filhos. O que não significa ausência de conflitos. Apesar
desse caráter privado que a entidade familiar aparenta ter – lugar
em que seus membros repousam suas individualidades –, ela
também possui um caráter público, sofrendo uma intervenção
estatal justificada por um sistema legislativo.
Este seria o paradoxo da família moderna: quanto mais
privada ela é, mais pública se torna. Cabe evidenciar que há uma
conexão entre esse duplo movimento da entidade familiar: a
importância dada à qualidade das relações interpessoais e à
socialização na esfera privada deve-se à influência da esfera pública,
em razão de uma maior intervenção estatal (SINGLY, 2007).
De acordo com Passetti (2003, p. 31-32), “vivemos numa
sociedade de controle que se afirma, antes de tudo, como sociedade
de difusão de direitos”. Isso resulta em um investimento no aparato
legal que protege e controla, normatizando condutas almejadas e
regulamentando as dinâmicas da vida dos sujeitos.
Para Cortez (2008, p. 287), a relação entre o Estado e a
família alicerça-se nos interesses estatais de controlar a sua “célula
social por excelência”. O Estado exerce esse controle por intermédio
da legislação, do Judiciário, das polícias, entre outros mecanismos, a
fim de controlar os sujeitos que possuem identidades dissonantes
em relação ao padrão social identificado como legítimo.
No âmbito familiar, diversos são os mecanismos legais que
disciplinam as relações entre pais e filhos e entre os casais. A própria
legislação da criança e do adolescente disciplina uma série de
diretrizes de proteção que devem ser cumpridas pelos pais sob pena
da perda definitiva ou temporária do poder familiar 4.

4
O poder familiar representa uma mudança significativa no direito das famílias,
prestigiando a “igualdade” entre homens e mulheres, substituindo o antigo pátrio
poder, oriundo do direito romano, instituto que significava um direito absoluto do
pai sobre seus filhos (DIAS, 2010).
171
Nesse sentido, a família contemporânea tem, de um lado,
uma maior dependência em relação ao Estado e, do outro, uma
maior independência em relação ao círculo de parentes, em razão
da ruptura do casamento arranjado, o que permite a escolha pessoal
do cônjuge; há ainda uma maior independência entre homens e
mulheres em relação às suas famílias (SINGLY, 2007).
Essas questões são um grande desafio que a família
moderna enfrenta em sua estrutura. O controle da entidade familiar
não mais é um direito incontestável do pai, do mesmo modo que
não há mais o controle de parentes na constituição e no cotidiano
das famílias, sendo substituído pelo controle do Estado.
Outro ponto essencial para essa individualidade está ligado
à ideia de salário, que dá autonomia aos sujeitos, com ganhos e
gastos individuais. A lógica das sociedades de consumo é refletida
em campanhas publicitárias que vendem produtos a crianças,
jovens, mulheres e homens, individualizando-os em segmentos
específicos de mercado. Tilly e Scott (1978) entendem que essa
individualização enfraquece a dimensão coletiva da vida social.
Para Singly (2007), esse individualismo é um agente
desestabilizador do núcleo familiar, pois a autonomia individual dos
sujeitos insere-os em uma complexa dinâmica de compatibilização
entre as vidas pessoal, de trabalho e de família, a vida conjugal
sendo repartida entre zonas comuns e zonas protegidas. Há certa
tensão entre independência e dependência, entre indivíduo e grupo.
Contudo, a família é a instituição que tem o condão de auxiliar o
indivíduo na sua construção enquanto pessoa autônoma.
Os próprios arranjos familiares, hoje, são distintos, há uma
redução do núcleo familiar, composto pelos cônjuges e por seus
filhos, também em menor número, visando proporcionar-lhes os
melhores aportes para a sua formação e capacitação profissional.
Essa preocupação educativa é um dos pilares dessa família.
Outra forma de controle estatal sobre as famílias é a
inclusão dos filhos no ambiente escolar, intervindo na formação do
capital cultural desses sujeitos. Singly (2007) diagnostica que o
papel da família na socialização infantil é cada vez menor na família

172
moderna, em decorrência da invenção da escola e do hábito de
enviar crianças em tenra idade para esse espaço social longe do
convívio com seus pais. Dessa forma, a escola retira da família parte
de sua responsabilidade educativa e socializadora.
Bock, Furtado e Teixeira (2002, p. 261) informam que, “ao
transmitir a cultura e, com ela, modelos sociais de comportamento e
valores morais, a escola permite que a criança ‘humanize-se’,
cultive-se, socializa-se ou, numa palavra, eduque-se”. Nessa
perspectiva, a escola, assim como a família, atua na formação da
criança autônoma, influenciando a construção de seu pensamento
com tendências a legitimar o sistema vigente e suas instituições de
forma habitual, preparando-a para determinados papeis no mundo
do trabalho.

3.2 AFROUXAMENTO DO CONTROLE INFORMAL E AUMENTO DA


CRIMINALIDADE
A reconfiguração do núcleo da família acarretou novos
comportamentos para os atores sociais no contexto da segurança
pública. Esses comportamentos, ressalte-se, só foram possíveis no
período compreendido como pós-modernidade.
De acordo com Hobsbawm (2000, p. 136), trata-se de um
“declínio dos valores coletivos e com o crescimento de uma
sociedade extremamente individualista”.
Para Santos (2004), as questões sociais sofrem alterações
desde o século XIX, e os vínculos sociais são um dos pontos mais
criticados nessas relações. Sobre isso, Santos (2004, p. 4) afirma:
“trata-se de uma ruptura do contrato social e dos laços sociais,
provocando fenômenos de ‘desfiliação’ e de ruptura nas relações de
alteridade, dilacerando o vínculo entre o eu e o outro”. Aplicando-se
essa afirmação à realidade pós-moderna da qual estamos tratando,
essa ruptura do contrato social tem relação direta com a família. A
partir do momento em que a pós-modernidade avança, há uma
remodelagem sistêmica, que se inicia com a família e o modo como
os atores envolvidos nesse contexto reagem à nova realidade social.

173
Mas qual a relação dessa reconfiguração familiar com o fenômeno
da criminalidade?
É preciso evidenciar que o presente artigo não insinua que o
modelo de família patriarcal seria o mais apropriado para a
manutenção do controle informal em relação à configuração
familiar pós-moderna.
A discussão centra-se no fato de que a pós-modernidade é
marcada por mudanças sociais profundas – e a família está na base
de tudo isso. Não se pode negar que a criminalidade tem
aumentado consideravelmente a cada ano – em termos gerais. Por
isso, propomos discutir alguns pontos relevantes desse fenômeno.
Para Adorno (2001, p. 1), a sensação de medo e de
insegurança tem aumentado desde a década de 70 do século XX,
propiciada por uma “aceleração do crescimento de todas as
modalidades delituosas”. O autor explica:
Esse crescimento veio acompanhado de
mudanças substantivas nos padrões de
criminalidade individual bem como no
perfil das pessoas envolvidas com a
delinquência. Recente estudo sobre as
tendências do homicídio, para o país em
seu conjunto, constatou que: a) o número
de homicídios causados por armas de fogo
vem crescendo desde 1979; b) esse número
cresce mais que a população. No Distrito
Federal, em 1980, a taxa de homicídios era
de 13,7 por cem mil habitantes; em 1991,
isto é, onze anos após, saltou para 36,3
(ADORNO, 2001, p. 1).

Dados divulgados em junho de 2015 pelo Ministério da


Justiça, referentes ao primeiro semestre de 2014, apontaram o
Brasil como a quarta maior população carcerária do mundo:
Em números absolutos, o Brasil alcançou a
marca de 607.700 presos, atrás apenas da

174
Rússia (673.800), China (1,6 milhão) e
Estados Unidos (2,2 milhões). Quando se
compara o número de presos com o total
da população, o Brasil também está em
quarto lugar, atrás da Tailândia (3º), Rússia
(2º) e Estados Unidos (1º). Segundo o
ministério, se a taxa de prisões continuar
no mesmo ritmo, um em cada 10 brasileiros
estará atrás das grades em 2075 (BRASIL,
2015a).

Segundo Adorno (2001), a população encarcerada cresceu


168% no Brasil somente entre 1980 e 1992, o que fez com que a taxa
de encarceramento passasse de 138 por cada 100 mil habitantes para
329 durante esse período. Dados do Ministério da Justiça (BRASIL,
2015a) indicam que, no período de 2004 a 2014, a cada 100 mil
habitantes a taxa de encarceramento aumentou 61,8%.
Como já dito, o Estado, por meio da legislação, estabelece
uma série de normas visando regulamentar as relações no âmbito
familiar. Ao prescrever que a proteção integral da infância e
juventude é dever de todos (Estado, família e sociedade), abre-se
espaço para que famílias que não cumpram esse preceito sofram
intervenção estatal, o que acaba por retirar parte da autonomia dos
pais ou responsáveis legais.
Assim como o mercado de trabalho, os novos modelos de
escola também resultam em uma drástica alteração na dinâmica
familiar. Os controles informais familiares, até então, funcionavam
de modo a coibir certos comportamentos desviantes, em razão de
uma maior intervenção familiar na vida dos filhos, inclusive da
família estendida (avós, tios etc.) e da vizinhança.
Nas sociedades pós-modernas, os indivíduos reorganizam-
se em todos os níveis das atividades cotidianas para não se
tornarem vítimas da criminalidade, e dessa forma criam habitus
novos que os distanciam do outro, o que acaba por contribuir para a
cultura da individualidade, da indiferença. Isso extrai uma parcela

175
significativa da vida em sociedade, que é o ideal de comunidade, de
convívio coletivo, de integração.
Santos (2004, p. 7) adverte:
[...] estaríamos diante de uma crise da
modernidade tardia, na qual a privação
relativa combina-se com o individualismo,
transformando-se em uma comparação no
interior da divisão do trabalho e entre
aqueles que estão no mercado e os
excluídos, conformando uma grande
vulnerabilidade social, pobreza e miséria.

Pode-se acrescentar que as rupturas no controle social


tradicional devem-se, em algum grau, também aos meios de
comunicação, que passam a fazer parte da socialização dos
indivíduos desde cedo e a ditar certos padrões culturais.
Sobre isso, Garland (2008) acredita que, a partir de 1970, as
divisões sociais foram aprofundadas por meio da política, tratando-
se de um novo contexto social, em que os velhos problemas sociais,
tais como violência, crimes de rua e abuso de drogas, pioraram, em
especial nas áreas onde as discrepâncias econômicas e sociais eram
mais profundas. O crime então passou a ser encarado como um
problema de indisciplina, de falta de autocontrole ou de controle
social, portanto, um comportamento inerente a indivíduos perversos
que necessitavam de controle e de punição.
O atual estado do controle do crime não deriva somente do
aumento da criminalidade e do desaparecimento da fé no
previdenciarismo penal, mas é resultado de uma “série de respostas
à adaptação às condições culturais e criminológicas da pós-
modernidade”, segundo Garland (2008, p. 413).
De acordo com Brasil (2015b, p. 32), o número de jovens
encarcerados em 2012 estava na cifra de 266.356 contra 214.037 de
não jovens. Esses dados evidenciam que a criminalidade tem
seduzido a juventude, seja pela sensação de impunidade instalada
em nosso país – embora os números de encarcerados saltem a cada

176
ano –, seja pela cultura do consumismo, da individualização, pela
pouca ou nenhuma instrução de valores por intermédio da família,
da escola.
Sobre isso, Santos (2004, p. 6) aponta como características
da “modernidade tardia”, entre outras coisas, “a disseminação das
violências, a ruptura de laços sociais e a ‘desfiliação’ de algumas
categorias sociais, como a juventude, uma das grandes vítimas da
civilização”.
De acordo com a hipótese levantada neste artigo, embora
todos esses fatores devam ser levados em consideração, um peso
diferenciado deve ser atribuído à mudança do controle exercido
pela família, que, na configuração pós-moderna, deixa de exercer a
mesma vigilância e influência sobre seus membros, o que possibilita
que outros grupos e instituições insiram-se na dinâmica das
atividades cotidianas, ocupando o espaço que antes era da entidade
familiar. Isso faz com que a família seja reestruturada e passe a
exercer outras funções, que não estão relacionadas com o controle
informal.
Por isso, considera-se o afrouxamento do controle informal
exercido pelo núcleo familiar como um dos gatilhos do assustador
crescimento da criminalidade experimentado pela pós-
modernidade.
Por conseguinte, os “impactos da
modernidade tardia sobre as taxas de
crime foram multidimensionais: aumento
das oportunidades para o crime; redução
dos controles situacionais; aumento da
população em risco; redução da eficácia
dos autocontroles sociais como
consequência das mudanças na ecologia
social e nas normas culturais (GARLAND,
2008, p. 90).

Até 1970, as taxas de criminalidade eram consideradas


estáveis nos países desenvolvidos. Políticas de controle do crime

177
que se baseavam no ideal de reabilitação viam o criminoso como
necessitado de um tratamento correcional, de acordo com Garland
(2008). Portanto, a solução do crime, entre outras coisas – como o
amparo da família do criminoso –, estava pautada pela reabilitação.
A prisão seria o último recurso.
Mas, a partir de 1970, ocorre o que Garland (2008) chama
“declínio do ideal de reabilitação”: os esforços do Estado não são
mais para que o preso seja “recuperado”, mas apenas para que seja
excluído socialmente e punido. O Estado assume uma conduta
extremamente punitiva. Essa mudança de postura pós-moderna do
Estado para com os criminosos, aliada à reconfiguração do núcleo
familiar, que agora não controla mais os indivíduos pertencentes
àquele grupo como outrora, passam a impactar diretamente os
níveis da violência.

4 CONSIDERAÇÕES FINAIS
Este artigo limita-se a discutir o afrouxamento dos controles
sociais, notado mais drasticamente no seio familiar, que é a base do
controle informal. Reforçada pela cultura do individualismo – certa
ou errada, o que não está em questão aqui –, a intervenção mínima
do Estado é legitimada, impondo certas responsabilidades,
principalmente no âmbito de direitos sociais, à família, ao mesmo
tempo que diminui sua autonomia, ao robustecer a autonomia
individual de seus membros na direção de seus destinos.
O ponto relevante foi elucidar de que forma ocorreu o
afrouxamento do controle informal exercido pela família. Vimos
que, com a pós-modernidade, o processo de globalização trouxe
novas necessidades econômicas e culturais que, consequentemente,
alteraram a vida social em diversas esferas, entre as quais o núcleo
familiar, por meio das intervenções do Estado na vida familiar, da
entrada da mulher no mercado de trabalho, da nova dinâmica das
escolas, das novas tecnologias, etc.
Com o advento da pós-modernidade, o Estado passa a
assumir uma postura diferente com relação à família, por meio de
políticas que visam reforçar a intervenção ou a proteção de modelos

178
hegemônicos de entidades familiares. Infere-se daí que o padrão da
família juridicamente protegido é fruto de um modelo estabelecido
por conveniências políticas, sociais ou religiosas, não havendo
atenção para com todos os arranjos familiares existentes ou até
havendo o intuito de excluí-los.
As sucessivas mudanças legislativas que tiveram início na
segunda metade do século XX no Brasil culminaram com o advento
da Constituição Federal de 1988. Desde então, diversas leis têm
tentado adequar-se às novas perspectivas da família e da sociedade.
A intervenção na instituição familiar resulta da necessidade
estatal de mantença do status quo. A família desempenha um papel
importante na educação formal e informal do indivíduo,
proporcionando-lhe os aportes necessários ao seu desenvolvimento
biopsicossocial, transmitindo-lhe valores morais e humanistas,
estabelecendo laços de afetividade com o próximo. A transmissão
dos valores morais e humanitários de uma dada sociedade para as
novas gerações é um fator imprescindível para alimentar a ideologia
de vida em comunidade e para a mantença da ordem social.
No entanto, a família pós-moderna é individualista, e seus
membros também têm uma individualidade maior, cujo elemento
central é sua capacidade de escolha. Nesse contexto, percebe-se que
os indivíduos possuem uma maior autonomia sobre os rumos de sua
vida, tanto na esfera individual quanto na familiar. Isso é propiciado
por um sistema de valores que autoriza a autonomia dos sujeitos,
bem como por sua recusa em manter determinados costumes
sociais ditos ultrapassados, como os papéis de marido e esposa,
desempenhados no ambiente familiar nos moldes das gerações
passadas, o controle individual sobre o corpo, que permite o uso de
métodos contraceptivos; entre outros fatores.
A consciência coletiva vai perdendo o sentido. O próprio
sentido de coletividade parece ter caído no esquecimento. O “só se
importar consigo mesmo” acabou gerando um certo abismo nas
relações sociais pós-modernas; essas relações começam pela família,
que é a primeira instituição da qual o indivíduo faz parte.

179
A partir do momento em que a mulher passa a trabalhar
fora de casa, automaticamente passa menos tempo com seus filhos,
pois agora precisa dar conta também da vida profissional. Os filhos
passam a ser confiados a terceiros, creches, jardins, escolas. Dessa
forma, a família abandona em parte o que era e é sua função
precípua de educação e de socialização de seus filhos. O próprio lar,
em razão da dinâmica da vida moderna, torna-se, em muitos casos,
dormitório de pais e filhos, perdendo seu espaço recreativo na vida
familiar; cada vez mais, à medida que os filhos atingem maior
autonomia, buscam entretenimento fora de casa ou em ambientes
virtuais.
Estamos falando de uma geração jovem, oriunda da pós-
modernidade. Uma geração que cresceu e naturalmente pôde ver –
sem generalizações – mães escolhendo ser independentes
financeiramente, livre escolha de parceiros, lares com pais
divorciados legalmente, liberdade de gênero, Lei da Palmada,
Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) etc.
O cenário parece ideal para o desenvolvimento desses
sujeitos, menos quando olhado na perspectiva do controle informal,
que teve sua dinâmica de vigilância e de intervenção familiar
modificada – o que neste artigo é considerado um dos fatores do
crescimento exacerbado da violência.
É óbvio que a reorganização familiar pós-moderna não pode
ser apontada como culpada pelo crescimento da violência, mas seria
leviano deixar de salientar que tal reconfiguração do núcleo familiar
– graças a conquistas de movimentos sociais e a políticas de Estado
– no que diz respeito ao controle informal trouxe consequências
para a segurança pública.
Do mesmo modo, não há como dizer até que ponto o
afrouxamento do controle informal foi determinante para a
criminalidade, pois se trata de uma história do tempo presente, e,
como já nos advertiu Eric Hobsbawm (2013), há uma imensa
dificuldade em escrevê-la. Porém, o ambiente acadêmico é o espaço
destinado a esse tipo de discussão. De fato, trata-se de um tema
ainda carente de certa atenção – seja pela academia, seja pelo

180
Estado, seja pela sociedade –, mas de imensa relevância, já que,
desde a formação das primeiras sociedades, os controles sociais são
parte da “arte de governar” e seu reflexo social.

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183
UM RETRATO DAS MULHERES QUE CUMPREM PENA NO CENTRO
DE REEDUCAÇÃO FEMININO DE ANANINDEUA

Amanda Ferreira Rocha


Cristiane do Socorro Loureiro Lima
Dayse do Socorro Borges Fonseca
Luiz Augusto Mota Nunes de Carvalho
Silvia dos Santos de Almeida

RESUMO
O presente artigo busca traçar o perfil das condenadas custodiadas
no Centro de Reeducação Feminino de Ananindeua no Estado do
Pará. Para tal, utiliza-se da pesquisa documental e bibliográfica,
assim como, da análise estatística de dados, a partir de uma
abordagem quantitativa dos dados amostrais coletados junto ao
Sistema INFOPEN-PA agregando-se aos resultados informações
carcerárias fornecidas por órgão oficiais, discussões e conclusões
alcançadas em outras pesquisas científicas, contribuindo para que se
conheçam as particularidades e necessidades das mulheres
custodiadas na referida casa penal onde se constatou, entre outros
resultados, que a maioria das custodiadas são negras e pardas e
cometeram o crime de tráfico de drogas.

PALAVRAS-CHAVE: Perfil. Condenadas. Informações Carcerárias.

ABSTRACT
The present article aims to outline the profile of those convicted in
custody at the Ananindeua Female Reeducation Center in the State
of Pará. For this purpose, documentary and bibliographic research is
used, as well as statistical data analysis, based on a quantitative
approach to sample data collected in the INFOPEN-PA System,
adding to the results of prison information provided by official
departments, discussions and conclusions reached in other scientific
research, contributing to the knowledge of the particularities and
needs of the women in custody in that prision. Among other results,

184
that most of the custodians are black and committed the crime of
drug trafficking.

KEYWORDS: Profile. Convicted. Incarceration Information.

1 INTRODUÇÃO
O Brasil possui a terceira maior população carcerária do
mundo, incluindo pessoas em prisão domiciliar, no ranking dos 10
países com maior população prisional, ficando atrás apenas dos
Estados Unidos e China, de acordo com dados do Departamento
Penitenciário Nacional-DEPEN, do Ministério da Justiça e Cidadania.
(INFOPEN, 2014). A população carcerária do Brasil é de 715.592,
incluindo pessoas em prisão domiciliar, de acordo com o
Departamento de Monitoramento e Fiscalização do Sistema
Carcerário e do Sistema de Execução de Medidas Socioeducativas –
DMF (DMF, 2014), vinculado ao Conselho Nacional de Justiça – CNJ.
Nesta população de presos estão homens e mulheres. Esta mesma
fonte também aponta que o Pará possui população carcerária de
13.179 presos, incluindo pessoas em prisão domiciliar.
A população carcerária do Brasil vem apresentando
crescimento contínuo, tendo a taxa de aprisionamento nacional
crescido 119%, entre 2000 e 2014 (INFOPEN, 2014) e, quando se
observa a população carcerária por sexo, constata-se que o número
de mulheres presas1, cresceu mais que a de homens encarcerados,
sendo mais que o dobro do crescimento de encarceramento
masculino, conforme é apontado no Plano Nacional de Política
Criminal e Penitenciária de 2015. Para este Plano o crescimento
expressivo de encarceramento feminino é reflexo do endurecimento
das penas para o crime de tráfico de drogas.
O crescimento expressivo de mulheres encarceradas,
sobretudo pelo cometimento do crime de tráfico de drogas,
também se apresenta como realidade no Estado do Pará fato que
chamou atenção e motivou a busca de um perfil das presas

Serão utilizadas como sinônimas as palavras preso (a) e detento (a), referindo-se às
1

pessoas que se encontram em uma casa penal sob a custódia do Estado.


185
condenadas2 custodiadas no Centro de Reeducação Feminino de
Ananindeua – CRF Ananindeua. Além deste centro, segundo dados
do INFOPEN-PA, existem outras 10 casas penais que atendem
mulheres, além do núcleo de monitoração eletrônica, para aquelas
que estejam cumprindo medidas alternativas à prisão, e do Hospital
de custódia e tratamento psiquiátrico, que atende as internas do
sistema prisional. Em todo estado do Pará há 853 (oitocentos e
cinquenta e três) presas, quer seja condenada ou presa provisória3 e,
somente no CRF Ananindeua existe um total de 476 presas,
incluindo também as provisórias (INFOPEN/PA, 2017).
A reincidência constitui tanto um problema prático do
sistema carcerário nacional – segundo o IPEA (2015), a taxa de
reincidência é de 26% (vinte e seis por cento) para a população
carcerária feminina – quanto metodológico e acadêmico, posto que
existem ao menos quatro conceitos referentes ao termo:
reincidência genérica; reincidência legal; reincidência penitenciária e
reincidência criminal. O sistema INFOPEN-PA adotou a reincidência
penitenciária, ou seja, aquela dependente da existência de ao menos
dois crimes: o primeiro crime, que deve haver sentença penal
condenatória com trânsito em julgado4, e o segundo crime,
posterior ao trânsito em julgado da sentença referente ao primeiro
crime, conforme informações constantes no referido sistema. Será,
nesse sentido, a abordagem do presente estudo.
O CRF Ananindeua é a unidade que atende o maior número
de presas no Estado e está localizada na Rua do Caixaparah,
Alameda Jardim Estrela, s/n, no município de Ananindeua. Foi
inaugurado em 1977 (SUSIPE-PA, 2016), possui capacidade para 480
detentas do regime fechado, semiaberto e provisório e no dia 22 de
março de 2017 abrigava 470 detentas, segundo informações pelo

2
São condenadas as mulheres recolhidas ao cárcere que possuem sentença penal
condenatória, ou seja, condenação em primeiro grau de jurisdição.
3
Aquelas que “não tiveram condenação em primeiro grau de jurisdição” (MINISTÉRIO
DA JUSTIÇA E CIDADANIA, 2016).
4
O trânsito em julgado da sentença penal condenatória é quando não há mais
possibilidades de recursos contra a decisão penal que condenou o réu.
186
Sistema INFOPEN-PA, tendo Carmen Lúcia Gomes Botelho como
atual diretora.
Diante deste cenário, o objetivo deste artigo é traçar o perfil
das presas condenadas do Centro de Reeducação Feminino de
Ananindeua, observando cinco variáveis: tipo penal, cor da pele,
idade, município de nascimento e reincidência, para que possa servir
de base para adoção adequada de políticas de combate ao crime e
de seu público alvo, bem como das atividades que serão ofertadas
às detentas no interior do cárcere, conferindo maior visibilidade a
essas mulheres.

2 METODOLOGIA
As informações foram coletadas do banco de dados do
sistema informatizado (INFOPEN) da Superintendência do Sistema
Penitenciário do Estado do Pará – SUSIPE, fornecidos aos autores
mediante solicitação formal (ofício 041/2017-PPGSP) onde foram
disponibilizadas todas as informações aqui adiante descritas e que
deram ensejo aos cálculos apresentados.
O método de abordagem utilizado foi o da pesquisa
quantitativa em que há uma análise numérica do comportamento da
população observada, nesse sentido:
Diferentemente da pesquisa qualitativa, os
resultados da pesquisa quantitativa podem
ser quantificados. Como as amostras
geralmente são grandes e consideradas
representativas da população, os
resultados são tomados como se
constituíssem um retrato real de toda a
população alvo da pesquisa. A pesquisa
quantitativa se centra na objetividade.
Influenciada pelo positivismo, considera
que a realidade só pode ser compreendida
com base na análise de dados brutos,
recolhidos com o auxílio de instrumentos
padronizados e neutros. A pesquisa

187
quantitativa recorre à linguagem
matemática para descrever as causas de
um fenômeno, as relações entre variáveis,
etc. A utilização conjunta da pesquisa
qualitativa e quantitativa permite recolher
mais informações do que se poderia
conseguir isoladamente. (FONSECA apud
GERHARDT; SILVEIRA, 2009 p.33).

Para a realização do presente estudo, utilizou-se como


instrumentos de coleta de dados: a pesquisa documental que “tem
como fonte documentos em sentido amplo, ou seja, não só
documentos impressos [...] nesses casos, os conteúdos dos textos
ainda não tiveram nenhum tratamento analítico” (SEVERINO, 2013,
p. 123) e a pesquisa bibliográfica “feita a partir do levantamento de
referências teóricas já analisadas, e publicadas por meios escritos e
eletrônicos, como livros, artigos científicos, páginas de web sites.”
(GERHARDT; SILVEIRA, 2009, p. 37).
O tipo de pesquisa realizada foi análise estatística de dados,
assim, significa que “implica processamento de dados, por meio da
geração (normalmente mediante o emprego de técnicas de cálculo
matemático), da apresentação (os dados podem ser organizados em
gráficos ou tabelas) e da interpretação”. (GERHARDT; SILVEIRA,
2009, p. 81-82).
O Centro de Reeducação Feminino de Ananindeua-PA (CRF
Ananindeua) abrigava no dia 22 de março de 2017 um total de 211
(duzentos e onze) mulheres condenadas, conforme o relatório
gerado pelo Sistema INFOPEN-PA. Para se lograr êxito nos objetivos
do presente artigo, trabalhou-se com o censo da população de
detentas condenadas, conforme ensina Carvalho e Campos (2008),
obtendo-se o total de211 (duzentas e onze) condenadas.
Com fulcro de melhor representar a realidade carcerária do
CRF Ananindeua trabalhou-se com um censo conforme lição de
Ferreira (2009), onde as condenadas foram agrupadas conforme os

188
seguintes crimes: tráfico de drogas5, roubo6, homicídio7, dano8,
furto9 e os demais crimes ou tipos penais10 foram desconsiderados
na análise por corresponderem a um número variado de delitos com
pouca incidência, em geral apenas uma ou duas.
Quando se analisou a categoria de interesse cor da pele,
utilizou-se o censo das condenadas do CRF Ananindeua, divididas
em 4 (quatro) estratos – parda, negra, branca e amarela. Ademais,
foram calculadas: a média aritmética das idades, segundo Vieira
(2008); a moda dos locais de nascimento, conforme Carvalho e
Campos (2008) e para a reincidência criminal utilizou-se a sua média
e o terceiro quartil de acordo com Bussab e Morettin (2002),
calculados sobre o censo das condenadas.

3 DISCUSSÃO E RESULTADOS
3.1 OS CRIMES COMETIDOS
No Gráfico 01 constata-se a incidência predominante em
cinco tipos penais ou crimes – tráfico de drogas, roubo, homicídio,
furto e dano.

5
Para este artigo considerou-se tráfico de drogas as condutas descritas nos arts. 33 e
35 da Lei nº 11.343/2006.
6
Neste estudo, o roubo é aquele descrito no art. 157do Código Penal Brasileiro.
7
Entendeu-se como homicídio a prática das condutas do art. 121 do Código Penal
Brasileiro.
8
Dano é a conduta tipificada nos arts. 163 a 166 do Código Penal Brasileiro.
9
No presente trabalho, o furto é aquele descrito no art. 155 do Código Penal
Brasileiro.
10
“Fatos descritos como crime” (MIRABETE, 2012, p.32).
189
O crime de tráfico de drogas, aqui entendido como aquele
descrito nos artigos 33 e 35 da Lei nº 11.343/2006, corresponde a
42,38% do total das infrações penais cometidas pelas detentas
condenadas do CRF Ananindeua, já os delitos de roubo, furto e dano
representam, respectivamente, 24,83%, 8,94% e 10,60% do total de
crimes e se forem somados os percentuais dos quatro crimes –
tráfico de drogas, roubo, furto e dano – conclui-se que 86,75%
dessas detentas condenadas incidiram em delitos que possuem um
viés patrimonial – embora o crime de tráfico de drogas não seja tido
como crime patrimonial “sua prática constitui-se em uma forma
tradicional de comércio, onde se identifica um produto consumível
que agrega uma demanda crescente” (CORTINA, 2015, p. 766) – seja
para provento próprio e de suas famílias ou para a satisfação do
consumo estimulado pela sociedade.
As prisões femininas estão superlotadas de
mulheres mães, madrastas ou mocinhas
sonhadoras que se perderam na ilusão do
lucro fácil e no desejo de consumir a
qualquer custo. Mulheres que desejam
fazer parte de um mundo vendido pelas
novelas e pelos comerciais de televisão,
ambicionando pertencerem ao centro. O
190
cárcere, no entanto, é a realidade.
(BARROS; PINHEIRO, 2015, p. 245)

Em estudo semelhante realizado por Valquíria Pereira


Ferreira e outros (2014) igualmente se constatou que a necessidade
de prover o lar foi um dos fatores responsáveis pelo ingresso da
mulher no mundo do tráfico de drogas, assim, “o dinheiro
representou a condição necessária para a mulher manter e proteger
os que estão sob sua responsabilidade. [...] Não importando sua
origem ilegal, [pois] possibilita a manutenção da sua família”.
(FERREIRA et al., 2014, p.2261). O sentimento de poder e status que
permeiam o ambiente do tráfico de drogas também seduzem essas
mulheres:
A sensação de poder e o status
experimentados por pessoas envolvidas
com o tráfico de drogas também foram
mencionados como motivadores para o
ingresso nessa atividade ilegal. Estudos
envolvendo população carcerária feminina
no Nordeste e Sudeste do Brasil,
corroboram essa realidade. É a relação de
gênero que fundamenta a participação das
mulheres no tráfico de drogas,
representando uma possibilidade de
conferir a elas um poder reconhecido
apenas aos homens. Invisíveis socialmente,
constroem suas identidades criminosas
como forma de resistência à posição
marginalizada, na tentativa de se
aproximarem dos homens e do poder
usualmente associado a eles. (FERREIRA et
al., 2014, p.2261)

Esse percentual de incidência na prática do crime de tráfico


de drogas, embora um pouco abaixo do valor nacional, é o delito de

191
maior incidência entre as mulheres condenadas que cumprem pena
no CRF Ananindeua, segundo dados do Levantamento Nacional das
Informações Carcerárias (LNIC) do Ministério da Justiça e Cidadania
(dezembro, 2014), 64% das mulheres foram condenadas ou
aguardam julgamento por tráfico de entorpecentes.
Fatores como parentes no tráfico,
facilidade de acesso às drogas,
dependência econômica e afetiva do
traficante, ameaças, desemprego,
necessidade de meios para prover o
sustento familiar e a obtenção de poder,
também têm encontrado associação com o
envolvimento e a permanência das
mulheres no tráfico de drogas. Pesquisa
realizada em 2010 com mulheres
encarceradas, encontrou que 66,9% destas
tinham ou já tiveram um ou mais familiar
preso por tráfico de drogas, incluindo o
companheiro (FERREIRA et al., 2014,
p.2256).

Apesar da população carcerária feminina ser inferior à


população carcerária masculina, “a média brasileira é 5,8% de
mulheres presas para 94,2% de homens” (LEVANTAMENTO
NACIONAL DAS INFORMAÇÕES CARCERÁRIAS - LNIC, dezembro de
2014, p.39), no Estado do Pará, ainda segundo o Levantamento
Nacional (dezembro, 2014), a média é de 94,04% de homens para
5,96% mulheres. O percentual de incidência no crime de tráfico de
drogas para o total de pessoas presas no Brasil é de 28% (LNIC,
dezembro de 2014, p.40), número significativamente inferior ao
encontrado na população carcerária feminina, conforme já exposto.
Alguns autores têm sustentado que essa diferença se dá em virtude
do papel que as mulheres, via de regra, desempenham no tráfico de
drogas.

192
Modernamente, estudos têm demonstrado
que a mulher não assume o protagonismo
nos crimes de tráfico ilícito de
entorpecentes, mas desponta como o que
vulgarmente se conhece como sendo uma
“mula” do tráfico, vale dizer, uma pequena
traficante/transportadora e possuidora de
drogas para a venda a terceiros. (COELHO;
NETO, 2016, p.88).

Portanto, diante desse quadro em que as mulheres – em


especial as condenadas do Centro de Reeducação Feminino de
Ananindeua – têm majoritariamente praticado o crime de tráfico de
drogas, faz-se necessária a intervenção do Poder Público para que
atue de forma preventiva e educativa junto a esse grupo de risco,
porque o encarceramento feminino continua ligado à exclusão
social, a divisão familiar e ao abandono infantil, “já que as mulheres
ainda são as principais responsáveis pela criação de filhos, gera
abandono e outras mazelas sociais decorrentes do aprisionamento
de mulheres que são as provedoras da casa”. (ARAÚJO; ALBANO,
2016, p. 48).

3.2 A COR DA PELE


As informações obtidas a partir da base de dados do
INFOPEN-PA, quanto à característica de interesse cor da pele
apresentaram quatro variáveis – negra, parda, amarela, branca. Esses
dados foram levantados para o censo de presas condenadas,
originando o Gráfico 02.

193
No censo coletado entre as presas condenadas do CRF
Ananindeua – 211 (duzentas e onze) mulheres – 141 (cento e
quarenta e uma) mulheres são pardas, correspondendo a 66,81% do
total; 42 (quarenta e duas) mulheres são negras, representando
19,91% das condenadas; 22 (vinte e duas) mulheres são brancas, ou
seja, o equivalente a 10,43% da população prisional; 2 (duas)
mulheres são amarela, representando 0,95% do todo e 4 (quatro)
mulheres não constam a característica cor da pele no sistema,
referente a 1,90% das condenadas do CRF Ananindeua.
Segundo informações do Levantamento Nacional das
Informações Carcerárias (LNIC) do Ministério da Justiça e Cidadania
(dezembro, 2014), no Estado do Pará 83,06% dos presos são negros
e pardos; 13,51% são brancos, 2,78% são amarelos; 0,11% são
indígenas e 0,545 outros. Em relação às mulheres o Levantamento
Nacional das Informações Carcerárias INFOPEN Mulheres de junho
de 2014 constatou que 68% das presidiárias são negras (aqui não
houve diferenciação entre negras e pardas); 31% das detentas são
194
brancas; 1% das mulheres são amarelas e, indígenas e outros
possuem o percentual de 0%. No Estado do Pará, o LNIC INFOPEN
Mulheres (junho, 2014) apontou que 88% das mulheres no cárcere
eram negras (não fazendo diferenciação entre negras e pardas) e
12% eram brancas; amarelas, indígenas e outros tiveram o
percentual de 0%.
Destacam-se os números referentes às mulheres pardas
(66,81%) e negras (19,91%), que juntas totalizam 86,72% das
detentas condenadas, apontando para uma seletividade do público
alvo do direito penal, fenômeno que se irradia para as sociedades
latino-americanas, conforme se pode observar:
A mesma lógica criminalizadora e
estigmatizante que foi iniciada na
colonização dos territórios é continuada
nas sociedades-latinoamericanas, há uma
histórica tradição do extermínio como
tecnologia punitiva e mecanismo de
controle social, os corpos, sobretudo de
pobres e mestiços, indígenas e negros
(antes das tribos, campos e senzalas, e
depois das favelas), das marginalizadas e
conflitivas periferias urbanas ou zonas
rurais continuam como alvos da
seletividade penal. (ANDRADE apud
ARAÚJO; ALBANO, 2016, p. 46).

A população brasileira de pretos e pardos, conforme dados


do último censo demográfico realizado pelo IBGE, corresponde a
55% dos brasileiros, segundo relatório do IPEA (2015), enquanto que
entre a população de condenadas do CRF Ananindeua corresponde
aos já mencionados 86,72% do total.
Este fato tem sido objeto de muitos
estudos, que têm demonstrado a existência
de um filtro racial nas abordagens e prisões
efetuadas pelas polícias brasileiras, que de

195
forma seletiva e racista colocam como
“clientes” preferenciais jovens, negros e
moradores da periferia sob custódia
(Ramos, 2002; Adorno, 1996; Cano, 2010).
(IPEA, 2015, p.24).

Observando a característica de interesse cor da cútis 11 na


amostra referente às condenadas pelo crime de tráfico de drogas
(Tabela 1), pode-se perceber que o percentual de negras e pardas é
ainda maior, correspondendo a 90,20% do todo.
Tabela 1: Distribuição de detentas condenadas por tráfico de drogas,
no CRF Ananindeua, em relação à cor da pele, em março 2017.
Cor Quantidade Percentual
Parda 71 69,61%
Negra 21 20,59%
Branca 8 7,84%
Amarela 1 0,98%
Não Informado 1 0,98%
Total 102 100,00%
Fonte: Tabela formulada pelos autores a partir dos dados do
INFOPEN-PA, 22 de março de 2017.

O delito de tráfico de drogas apresenta-se como o centro do


processo repressivo policial, atingindo, principalmente, a população
feminina de cútis negra ou parda, se somando ao papel social
desempenhado por essa mulher, o que pode ser percebido nos
demais países da América Latina.
O mercado clandestino de entorpecentes
se aproveita do papel social que a mulher
carrega, em sua grande maioria, não-
branca, moradora da periferia e de áreas
marginalizadas da cidade, e agrava sua

Cor da cútis e cor da pele serão utilizados como sinônimos.


11

196
situação de vulnerabilidade. Na América
Latina, os planos de ajustes, flexibilização e
liberalização dos direitos sociais
provocados pelas políticas neoliberais
vitimizaram principalmente as mulheres
latino americanas. (ARAÚJO; ALBANO,
2016, p. 48).

“Como não é possível punir a todos pelos crimes cometidos,


elegem-se alguns crimes como prioritários, aliados a um perfil de
pessoas com mais probabilidade de compor a clientela desse
sistema, para serem perseguidos e punidos” (CORTINA, 2015, p.764).
Portanto, o encarceramento de jovens negras é o resultado de um
processo histórico de seletividade penal, oriundo do modelo de
colonização implantado nos países da América Latina e que requer
uma atenção estatal para que não continuemos a repetir esse ciclo
pernicioso de exclusão social e criminalização em função da cor da
cútis.

3.3 A IDADE
O Centro de Reeducação Feminino de Ananindeua/PA
recebe apenas mulheres maior de idade, ou seja, mulheres com mais
de 18 anos, nos termos do Código Penal Brasileiro.

Art. 27 Os menores de 18 (dezoito) anos


são penalmente inimputáveis, ficando
sujeito às normas estabelecidas na
legislação especial. (NUCCI, Guilherme de
Souza, 2008, p.281).

O perfil dos sujeitos da pesquisa, no que diz respeito à


idade, apresenta-se, de acordo com os dados coletados, na sua
maioria, na faixa etária entre 25 e 37 anos de idade, correspondendo
a 47% possui entre 26(vinte e seis) e 38 (trinta e oito) anos.
Constatou-se, também, que a média de idade das 211 (duzentos e

197
uma) presas condenadas do CRF Ananindeua era de 31 (trinta e um)
anos. A menor idade identificada foi de 19 (dezenove) anos e a
maior idade foi de 66 (sessenta e seis) anos.
Ao analisar a categoria de interesse idade relacionando com
os tipos de crime, observou-se que do total de mulheres
condenadas daquele centro, 128 (cento e vinte e oito) desse grupo,
foram condenadas por tráfico e possuíam média de idade de 32
(trinta e dois) anos, enquanto que para as condenadas por roubo
essa média cai para 27 (vinte e sete) anos; as internas que
cometeram crime de furto tiveram a média de idade de 24 (vinte e
quatro) anos, já para as condenadas por crime de homicídio a média
de idade ficou em torno de 32 (trinta e dois anos), em relação aos
crime de estupro a média de idade foi de 31 (trinta e um) anos e ao
estrato convencionado “outros”, que é composto por todos os
outros crimes que não apresentaram incidência expressiva,
conforme já explicado, obteve-se média de idade de 45 (quarenta e
cinco) anos, como se pode observar na tabela 2 a seguir.

Tabela 2: Média de idade das condenadas do CRF Ananindeua em


relação ao crime cometido, em março de 2017
Tipo Penal Média de Idade
Tráfico 33
Roubo 27
Homicídio 32
Estupro de Vulnerável 31
Furto 24
Outros 45
Geral 32
Fonte: INFOPEN-PA, 22 de março de 2017.

De acordo com os dados do INFOPEN (2014), no Brasil, o


perfil das pessoas encarceradas aponta para uma maioria de jovens.
Mostra este levantamento que 55% das pessoas privadas de
liberdade têm até 29 (vinte e nove) anos. No CRF Ananindeua a
pesquisa revelou que a média da idade das presas condenadas é de
198
31 anos, ou seja, esta média aponta que tanto as informações
obtidas para o perfil das presas do CRF Ananindeua, quanto os
dados nacionais, a maioria das pessoas encarceradas é formada por
jovens.
Neste sentido, em estudo realizado por Cortina (2015),
aponta-se que o perfil das mulheres encarceradas constante no
banco de dados do Núcleo de Pesquisa em Direitos Humanos
(NUPEC) agrega variantes comuns, tais como: 66% dessas presas
estavam desempregadas no momento da prisão; 60% possuíam
baixo grau de escolaridade; 91% possuíam filhos/as.
Ainda segundo Cortina (2015), o perfil das mulheres presas
por tráfico, em Criciúma-SC, atende a seleção discriminatória do
sistema penal, pois submete à prisão mulheres jovens, mães de mais
de um filho/a, com poucos anos de escolaridade, pobres, com relato
de abuso de droga e chefes de família monoparentais, que praticam
um crime de matriz patrimonial. Na esteira desse entendimento:
A baixa renda mensal das mulheres deste
estudo, inferior a um salário mínimo,
refletem a condição de vida da população
em situação de exclusão social, na qual
prevalecem o subemprego e a baixa renda,
sendo consensual em estudos incluindo
população carcerária brasileira. A falta de
perspectiva e o desemprego fortalecem a
atividade econômica ligada ao tráfico de
drogas no Brasil porque criam
oportunidade de lucro às pessoas sem
acesso ao mercado de trabalho
formal(FERREIRA et al, p.2260)

A média de idade das pessoas encarceradas no Brasil, assim


como a média de idade das presas condenadas do CRF Ananindeua.
O objeto desta pesquisa é correspondente à idade da população
economicamente ativa e, nesta fase da vida, os jovens buscam
emprego, formar família, buscam realizações pessoais de toda

199
ordem, porém, a falta de oportunidades, na sociedade, para a
obtenção dessas finalidades, pode ser uma porta de entrada para o
mundo do crime.
De acordo com dados do INFOPEN Mulheres (2014)
Analisando-se o perfil das mulheres
privadas de liberdade por faixa etária por
Unidade da Federação, percebe-se que o
perfil etário da mulher encarcerada repete
o padrão nacional jovem em quase todos
os estados, com a grande maioria das
mulheres privadas de liberdade abaixo dos
34 anos, ou seja, em pleno período
economicamente ativo da vida. (p.23)

Complementando esse pensamento, Chesnai (1999) informa


que grande número de crimes são cometidos sob o império da
necessidade, pela pobreza e desemprego, diz ainda, que a sociedade
brasileira é uma das mais desiguais.
O desemprego ou a ausência de renda
levam à tentação da ilegalidade, visto ser
fácil, por vezes, conseguir ganhos
astronômicos à margem da lei [...].
[...]A sociedade brasileira é uma das mais
desiguais, uma das mais estratificadas que
existem. Aqui se encontra a mais extrema
pobreza ao lado da mais fabulosa riqueza
(CHESNAI., 1999, p.55).

Em diversos trabalhos científicos, inclusive, no presente


artigo, assim como em relatórios de órgãos oficiais, apontam para
uma população carcerária que tende a ser de jovens, por este
motivo, utilizando-se de um viés de transversalidade e levando-se
em consideração que os jovens presos são parte da população
economicamente ativa, buscou-se explorar a associação da
característica idade, que revelou ter predominância de jovens

200
encarcerados, com a taxa de desocupação. Para isto foram
empregados parâmetros do Instituto Brasileiro de Geografia e
Estatística – IBGE extraído da Pesquisa por Amostra de Domicílios
(PNAD) – IBGE, divulgado em 22 de fevereiro de 2017. E isto fica
ainda mais claro se for observada a taxa de desocupação.
O IBGE traz informações de taxa de desocupação no
trimestre outubro, novembro e dezembro, de 2013 a 2016, extraídas
da base de dados da PNAD contínua. No Brasil, em 2013 a taxa de
desocupação era de 6,2%, passou em 2014 para 6,55%, em 2015
chegou a 9,0% e continuou subindo em 2016 passou para 12,0%,
atingido a maior taxa da série. No Pará não foi diferente, pois a taxa
de desocupação também vem crescendo partindo de 6,0 % em 2013
e chegando a 12,7% em 2016.
Estes dados da elevação da taxa de desocupação pode ser
um facilitador para o aumento da violência e, consequentemente,
para a elevação do índice de encarceramento, pois sem ocupação a
pessoa está em condição de vulnerabilidade podendo ser seduzido,
ou mesmo recrutado para o crime, posto que em uma sociedade
capitalista as pessoas precisam de renda para sobreviver.

3.4 O LOCAL DE NASCIMENTO


A partir da metodologia já descrita, quando foi analisada a
categoria de interesse município de origem levando-se em
consideração todos os municípios identificados, contatou-se que, do
conjunto de mulheres condenadas do CRF, que de acordo com os
dados extraídos do INFOPEN/PA e disponibilizado pela SUSIPE
perfazem 211 (duzentas e onze) internas com condenação. Deste
grupo, 98 (noventa e oito) mulheres, o equivalente a 46%, nasceram
na cidade de Belém-PA. No entanto, se compararmos a quantidade
de condenadas oriundas do interior do estado do Pará, percebe-se
que 89 (oitenta e nove) encarceradas são oriundas de município do
interior do estado do Pará, correspondendo este número a 42% da
população carcerária do CRF Ananindeua, naquele momento. O
gráfico abaixo representa o local de nascimentos das mulheres
encarceradas do CRF Ananindeua, no dia 22/03/2017.

201
*Da amostra pesquisada, 9 (nove) registros não possuíam informações,
correspondendo a 6%.

Considerando que o CRF Ananindeua recebe mulheres de


todo o estado, constatou-se que o percentual de condenadas
nascidas no interior não supera o de mulheres nascidas na capital do
Estado do Pará, contudo, observou-se que há número significativo
de mulheres originárias de localidades longínquas em relação à
região metropolitana de Belém e este distanciamento de seus
municípios de domicílio, muitas vezes, pode favorecer para perda
em maior ou menor grau de contato das encarceradas com suas
famílias. Corroborando com esse entendimento Coelho e Neto
(2016) afirmam que a mulher ao ser aprisionada, via de regra, perde
o contato com os filhos e é abandonada por seu companheiro ou
marido, sendo ainda etiquetada como péssima mãe e má
companheira ou esposa.
A extensão territorial do estado do Pará, embora não se
possa precisar, pode nos ajudar a compreender um dos possíveis
motivos desse abandono, pela família, das encarceradas. O Pará é o
segundo maior estado do país com uma extensão territorial de
1.248.042,515 km², maior até mesmo que alguns países, a exemplo
202
de Angola, de acordo com o portal oficial do governo do estado do
Pará e com um sistema viário e aquaviário precariamente integrado,
dificultando a presença familiar durante as visitas carcerárias. Os
mesmos resultados também foram obtidos em estudos realizados
em outras regiões do Brasil:
Recife e sua Região Metropolitana foram
os locais de maior procedência das
mulheres encarceradas (76,55%), resultados
semelhantes foram mostrados em estudos
realizados em outras regiões brasileiras. É
possível que o crescimento econômico das
regiões metropolitanas e capitais de
Estados intensifique o comércio de drogas
ilícitas e facilite o acesso a estas,
constituindo-se um potencial atrativo para
maior envolvimento da população no
tráfico de drogas. Ademais, com o
crescimento econômico, os empregos
ficam mais selecionados, amplia-se a
necessidade de maior especialização
profissional, fato que exclui uma parte
populacional significante e favorece o
desemprego. (FERREIRA, et al., 2014,
p.2260)

Fazendo a análise conjunta da característica de interesse


local de nascimento com o delito de maior incidência entre as
condenadas, qual seja o tráfico de drogas, do total de 128 (cento e
vinte e oito), condenadas, 52 (cinquenta e duas) delas nasceram em
Belém, 59 (cinquenta e nove) nasceram no interior, 7 (sete)
nasceram em outro estado e 10 (dez) não possuem informação
dessa natureza. Apesar da pobreza não ser fator determinante para
o cometimento de crime, ela aliada a outros fatores como
desemprego, desigualdade social podem possibilitar o recrutamento
de jovens para o atrativo mundo do tráfico de drogas, pois esse

203
crime possui um viés patrimonial e para ilustrar, apresentamos
incidência de pobreza nos principais municípios de origem das
mulheres condenadas do CRF, segundo o IBGE (Instituto Brasileiro
de Geografia e Estatística). Este instituto aponta que a incidência da
pobreza no município de Belém (município com maior número de
condenadas, no CRF Ananindeua, no dia pesquisado) possui a taxa
de incidência de 40,60%, Soure possui incidência da pobreza de
48,21%, em Ananindeua é de 43,01%, enquanto que no município de
Santa Isabel este índice é de 38,33%, estas taxas demonstram que
essas cidades, e também muitas outras do Estado do Pará possuem
índice de pobreza considerável.
Nesse sentido, Ferreira, et al. (2014) mostra que a baixa
renda mensal das mulheres, inferior a um salário mínimo, refletem a
condição de vida da população em situação de exclusão social,
prevalecendo o subemprego e a baixa renda, inclusive a população
carcerária brasileira, além de que a falta de perspectiva e o
desemprego fortalecem a atividade econômica ligada ao tráfico de
drogas no Brasil porque criam oportunidade de lucro às pessoas
sem acesso ao mercado de trabalho formal.
Desse modo, além da necessidade de políticas públicas
preventivas em nível local, observando as particularidades de cada
município. Também é importante que essas mulheres cumpram suas
penas o mais próximo possível de seus locais de origem para que se
evite uma segunda punição, o abandono familiar.

3.5 A REINCIDÊNCIA
Como já citado anteriormente, o CRF Ananindeua é o
estabelecimento prisional que possui a maior população carcerária
de mulheres no Estado do Pará, com 470 (quatrocentos e setenta)
detentas, no dia 22 de março de 2017, reunindo presas provisórias e
condenadas conforme as informações do INFOPEN-PA. Destas 470
detentas, 211 (duzentas e onze) estão na condição de condenadas. E
destas 211 detentas condenadas que estão atualmente cumprindo
pena, 128 (cento e vinte e oito) são reincidentes, o que
correspondem a 61% do total, conforme demonstrado na tabela 3.

204
Tabela 3: Distribuição das detentas condenadas reincidentes, no CRF
Ananindeua, em março 2017.
Situação da Presa Quantidade Percentual
Não reincidentes 83 39%
Reincidentes 128 61%
TOTAL 211 100%
Fonte: INFOPEN-PA, 22 de março de 2017.

Destas 128 (cento e vinte e oito) detentas reincidentes, 80


(oitenta) delas, ou seja, 62% cometeram, pelo menos, o crime de
tráfico de drogas, o que implica dizer que mais da metade das
reincidentes cometeu a infração penal de tráfico de entorpecentes.
O segundo crime de maior ocorrência entre as detentas foi o de
roubo, onde 47 (quarenta e sete) das 128 detentas reincidentes
praticou pelo menos o crime de roubo dentre as infrações que
deram ensejo a sua entrada no presídio.

Tabela 4: Distribuição das detentas reincidentes, no CRF


Ananindeua, por um dos crimes cometidos, em março 2017.
Percentual do total de
Crime Quantidade reincidentes
Tráfico de drogas 80 62%
Roubo 47 37%
Homicídio 21 16%
Furto 17 13%
Fonte: INFOPEN-PA, 22 de março de 2017.

O tráfico de entorpecentes é um crime cada vez mais


crescente no país e a explicação do aumento de incidência nesse
delito é bastante complexa e não encontra consenso entre os
pesquisadores, porém, conforme já abordado quando se discutiu a
questão dos crimes cometidos pelas internas condenadas do CRF
Ananindeua, vão desde a questão de relacionamento com parceiros

205
usuários ou traficantes ou ainda em razão de subempregos ou
desemprego, entre outros:
[...] o tráfico praticado por mulheres
reveste-se de inúmeras particularidades.
Trata-se de um tráfico próprio para o
sustento e, por muitas vezes, trata-se de
um tipo peculiar de tráfico, conhecido
como “tráfico no sistema”. Esse tráfico
dentro do sistema ocorre quando mães,
esposas e namoradas de detentos
adentram nas penitenciárias, através das
visitas, portando entorpecentes. Tal
conduta, habitualmente, ocorre em
decorrência dos subempregos/desemprego
dessas mulheres, que para sustentar suas
famílias acabam se expondo a tais
situações. Não raras vezes, essas mulheres
submetem-se a adentrar nos presídios
fornecendo drogas para proteger a
integridade de seu familiar – ora preso –
que para manter-se a salvo no cárcere tem
de fornecer droga para os donos do tráfico,
dentro da prisão. [...]
Além do tráfico no sistema e do tráfico de
subsistência, encontrado como opção
viável para manter-se em um mercado de
trabalho que não lhes proporciona
possibilidades de inserção, muitas das
mulheres respondem por tráfico de
pequeno porte, realizado para manter seu
vício. Assim, muitas vezes, por não haver
previsão legal para esse tipo de conduta,
usuárias, que acabam por traficar em
decorrência do vício, respondem com a
mesma severidade dirigida àqueles que

206
cometem tráfico de grande porte, hoje
equiparado aos crimes hediondos
(PEREIRA, Larissa Urruth, p 7-8.)

Entre as causas dessa reincidência no tráfico de drogas


elencam-se a dificuldade de reinserção na sociedade aliado ao o
reencontro quando da saída da prisão à mesma situação do tráfico
no endereço de moradia, etc.
Pesquisadores têm tentado sugerir
possíveis causas para justificar a
reincidência criminal na população
feminina. A falta de oportunidades das
egressas do sistema para conseguirem
emprego contribui para que voltem à
prisão. A discriminação social devido à
manutenção do estigma de ex-presidiária
pode, também, contribuir para a
reincidência no crime. (SCHERER ZAP et
al.2011, p. 61)

Sobre a dificuldade de reinserção social com condenados


homens e mulheres e a questão da reincidência destacou-se que:
A folha de antecedentes impede, em
grande parte dos casos, as pessoas de
conseguirem um trabalho, ainda que
informal. Oprimidos pela condição de
desempregados e com necessidades
próprias e da família para serem satisfeitas,
muito desses sujeitos optam por satisfazê-
las via retorno às práticas consideradas
ilícitas. (FERREIRA, 2011, p.516).

Nesse caso, as mulheres que tinham sido condenadas por


crime anterior diferente do tráfico de drogas, ao retornarem para o
convívio social voltaram a praticar condutas descritas como crime,

207
contudo, no tráfico de drogas, o que traduz mais um dado
preocupante em relação a esse tipo de ilícito12, pois pode refletir,
além das considerações já formuladas, a facilidade para a prática
desta atividade ilícita.
O encarceramento de mulheres em
decorrência do tráfico de drogas é fato
preocupante, considerando a velocidade
com que esse crime vem se expandindo no
Brasil e no mundo e suas consequências
para a sociedade. Entretanto, para explicar
o envolvimento dessa população no tráfico
de drogas, não se pode afirmar que uma
única causa o determine ou que variáveis
isoladas alcancem a magnitude do
problema. Faz-se necessário conhecer o
conjunto de fatores que o definem,
considerando um contexto que inclui os
aspectos cultural, econômico e social que
fomenta as desigualdades de gênero e,
consequentemente, a violência contra a
mulher, sendo essencial analisá-los sob o
olhar do respeito aos direitos humanos.”
(FERREIRA et al., 2014, p.2261)

Em relação à idade das reincidentes, de uma forma geral, na


tabela 5, constatou-se que idade média das detentas é de 33 (trinta
e três) anos, sendo que 66% das reincidentes têm até 34 (trinta e
quatro) anos de idade, ou seja, estão em idade economicamente
ativa. Observa-se ainda que 75% das detentas possuem até 37 anos
de idade (terceiro quartil).

Tabela 5: Distribuição de detentas reincidentes condenadas, no CRF


Ananindeua, em relação à idade, em março 2017.

12
O mesmo que crime. Também chamado ilícito penal.
208
Idade Quantidade Percentual
19 Ⱶ 24 20 16 %
24 Ⱶ 29 33 26 %
29 Ⱶ 34 28 22 %
34 Ⱶ 39 19 15 %
39 Ⱶ 44 9 7%
44 Ⱶ 49 6 5%
49 Ⱶ 54 7 5%
54 Ⱶ 59 4 3%
59 Ⱶ 64 0 0%
64 Ⱶ 66 2 1%
TOTAL 128 100%

Fonte: INFOPEN-PA, 22 de março de 2017.

Ao compararmos esse percentual com o resultado exposto


no Relatório INFOPEN-PA Mulheres (junho, 2004), em que constata
que a maioria das mulheres privadas da liberdade no país tem até
34 (trinta e quatro) anos, vemos uma coerência desses resultados
com os obtidos no Centro de Reeducação Feminino de Ananindeua,
no Estado do Pará, pois este estabelecimento penal possuía em 22
de março de 2017, mais da metade das detentas tinham idade até 34
(trinta e quatro) anos.

4 CONSIDERAÇÕES FINAIS
O objetivo do presente artigo era traçar um perfil das
detentas condenadas que estavam custodiadas no Centro de
Reeducação Feminino de Ananindeua quando foram coletadas das
informações, a partir de cinco características de interesse – crime
cometido, cor da pele, idade, local de origem e reincidência criminal.
As condenadas reclusas no Centro de Recuperação Feminino
de Ananindeua, em sua maioria, praticaram o delito de tráfico de
drogas. Foi possível notar que 86,72% das internas possuíam o tom
209
de pele negro ou pardo. Quando analisado o município de origem
constatou-se que a maioria das presidiárias nasceu em Belém,
capital do Estado do Pará, todavia em relação ao delito tráfico de
drogas há um equilíbrio entre o número de condenadas nascidas no
interior do estado e as nascidas na capital. O percentual de
reincidência entre as detentas do CRF Ananindeua mostrou-se
pequeno, no entanto, dentre as mulheres que reincidiram, o delito
de tráfico de drogas voltou a ocupar lugar de destaque.
Durante a realização da pesquisa, constatou-se a
necessidade da disponibilização de relatórios com uma quantidade
maior de filtros relacionados ao perfil dos internos do sistema
prisional do Estado do Pará. No mesmo sentido, detectou-se
carência da adoção de um padrão no conceito de reincidência para
estudos oficiais, obstando a comparação dos dados coletados com
informações nacionais e das demais regiões do país.
No que tange à atuação do Poder Público, verificou-se que,
devido ao elevado número de delitos praticados por mulheres ter
uma conotação patrimonial, faz-se necessária a implantação de
políticas públicas visando a inserção feminina no mercado de
trabalho, bem como o desenvolvimento mais incisivo de políticas
públicas de caráter educacional no tocante ao tráfico de drogas.
Para o desenvolvimento de pesquisas futuras que busquem
traçar um perfil das mulheres condenadas que estão custodiadas no
Centro de Reeducação Feminino de Ananindeua e para aprofundar o
perfil neste artigo já delineado, seria interessante a análise das
condições econômicas, da profissão, do grau de escolaridade e do
estado civil dessas detentas condenas.
Finalmente, destaca-se que ao se traçar o perfil da mulher
condenada, em especial a custodiada no CRF Ananindeua possibilita
o debate sobre o delicado tema do encarceramento feminino, seus
reflexos nas famílias, trabalho e condição social dessas mulheres.
Trata-se de um tema complexo e que possuiu como escopo
externalizar as relações que envolvem os elementos de composição
do perfil das apenadas daquele centro. Assim, salienta-se que a
importância deste trabalho está em contribuir primeiro para o

210
debate do tema e também inspirar diretrizes e políticas que
revertam o constante crescimento do aprisionamento feminino,
possibilitando uma estabilização ou mesmo diminuição dessa
realidade.

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Atlas, 2008.

215
O ESTADO PENAL E O ENCARCERAMENTO EM MASSA NA AMÉRICA
CONTEMPORÂNEA

Renata Almeida Danin


Luís Fernando Cardoso e Cardoso

RESUMO
No decorrer das quatro últimas décadas a América, lançou-se numa
experiência social e política sem precedentes. A substituição de um
Estado de bem-estar social por um Estado penal, no qual a
criminalização da marginalidade e a contenção punitiva das
categorias deserdadas confundem-se com política social. Enquanto
que os programas voltados para as populações vulneráveis foram
sempre limitado e isolados do resto das atividades estatais. Dessa
forma, a vocação disciplinar se afirma principalmente na direção das
classes inferiores e das categorias étnicas dominadas. Veremos, por
meio deste paper, a conjuntura do aprisionamento afro-americano
segundo Loic Wacquant.

PALAVRAS-CHAVE: Gueto; Encarceramento em Massa; Estado Penal.

ABSTRACT
Over the pass the last four decades, America had a new kind of
political and social experience. The replacement of the welfare state
by penalty state, the arise of criminalization and punishment of the
poor people wich the government now calls social politics. Although
the programs developed for the vulnerable population were always
limited. This way, the punishment state reachs directly the
underclasses. We will see in this paper the afro-american mass
incarceration in the United States of America by the Loic Wacquant
point of view.
KEYWORDS: Ghetto; Mass Incarceration; Penalty State.

1 PROBLEMATIZAÇÃO

216
Vários fatores devem ser considerados no que diz respeito à
desigualdade racial e aprisionamento na América contemporânea.
Desde 1989 e pela primeira vez na história da nação, afro-
americanos são maioria nas prisões, e este número só aumenta a
cada ano. Há quatro décadas, a composição de internos nas prisões
americanas mudou, no meio do século 70% dos prisioneiros eram
brancos, hoje em dia, 70% são negros e latinos. Embora não tenham
ocorrido mudanças nos padrões étnicos de atividade criminal
durante o período.
A taxa de encarceramento de afro-americanos tem
aumentado em níveis alarmantes comparados a outras sociedades, e
é mais alto agora que a taxa total de encarcerados na antiga União
Soviética ou na África do Sul no alto da luta contra o apartheid.
Em meados de 1999, quase 800.000 homens negros foram
detidos em penitenciárias federais, prisões estaduais e cárceres. Um
terço dos afro-americanos na casa dos 20 anos se encontra atrás das
grades ou em liberdade condiciona; em antigas cidades industriais
do norte, esta proporção chega a exceder muitas vezes os dois
terços.
A taxa de negros comparada à taxa de brancos aprisionados
tem crescido constantemente nas últimas décadas. Isto eleva a
desproporcionalidade racial e tem ligação direta com a política de
guerra as drogas, criada por Ronald Reagan e expandida
posteriormente sob o governo de George Bush e Bill Clinton
respectivamente. Em alguns estados, afro-americanos são
aprisionados 10 vezes mais se comparados à taxa de americanos
descendentes de europeus. No distrito de Columbia, por exemplo,
negros são 35 vezes mais prováveis de estarem atrás das grades do
que brancos.
A maioria dos analistas explica o súbito "enegrecimento" do
sistema carcerário que inclui prisões, prisões estaduais, prisões
federais e instalações privadas de detenção em termos de
tendências no crime e seu tratamento judicial (prisão, acusação e
sentença). Alguns consideraram variáveis não judiciais, como o
tamanho da população negra, fatores econômicos (taxa de pobreza,

217
desemprego, renda), o valor dos pagamentos de assistência social, o
apoio ao fundamentalismo religioso e o partido político dominante.
Mas, esses fatores, tomados separadamente e em conjunto,
simplesmente não podem explicar a magnitude, a rapidez e o
momento da recente racialização da prisão dos EUA, especialmente
porque as taxas de criminalidade foram estáveis e depois
aumentaram em demasia ao longo do último quarto de século.
Esta política de encarceramento em massa tem como
principais vítimas os jovens pobres e em sua maioria negros que são
usuários de drogas ou praticam pequenos furtos. Ao contrário do
que se é frequentemente noticiado na mídia, as prisões estão
repletas não de criminosos violentos, mas sim de pequenos
delinquentes e usuários de drogas.
O problema deste artigo concentra-se em relacionar a
desigualdade racial e o encarceramento em massa nos Estados
Unidos dentro da perspectiva de Loïc Wacquant. O objetivo geral
visa compreender como a questão racial e social está diretamente
associada ao aprisionamento. O objetivo específico é identificar os
fatores sociais, raciais e políticos que fomentam o encarceramento
em massa e contribuem para a formação do atual Estado Penal
estadunidense.

2 METODOLOGIA
Nosso objeto de estudo é a política de Encarceramento em
Massa e o Estado Penal na América contemporânea por meio da
discussão racial. Trata-se de pesquisa de natureza exploratória, com
abordagem qualitativa realizada por meio de revisão bibliográfica
das obras de Loïc Wacquant.

3 ESTADO PENAL AMERICANO CONTEMPORÂNEO


Pretende-se sair do paradigma crime, punição e examinar o
papel mais amplo do sistema penal como instrumento para
gerenciar grupos despossuídos e desonrados. O desenvolvimento de
uma visão sobre as formas de dominação etno-racial nos Estados
Unidos e o incômodo aumento no encarceramento negro nas

218
últimas quatro décadas resulta da obsolescência do gueto como um
dispositivo para o controle de castas e a necessidade correlativa de
um aparelho substituto para manter os afro-americanos (não
qualificados) em uma posição subordinada e confinada fisicamente,
socialmente e simbolicamente (WACQUANT, 2009).
O gueto e o sistema carcerário em
expansão tornaram-se ligados em um
único sistema que atrai grande número de
homens negros jovens. Essa malha
carcerária emergiu de dois conjuntos de
mudanças convergentes: as forças
econômicas e políticas arrebatadoras
reestruturaram o "cinto preto" de meados
do século para tornar o gueto mais como
uma prisão. E a "sociedade do preso"
quebrou de forma que torna a prisão mais
como um gueto. A simbiose resultante
entre gueto e prisão impõe a
marginalidade socioeconômica e a mancha
simbólica de um subproletariado negro
urbano. (WACQUANT, p. 29, 2002, tradução
nossa).

Segundo Wacquant (2001), uma análise mais completa


revela que esse crescente uso da prisão para reforçar a divisão de
castas na sociedade americana faz parte de uma "ampliação" do
setor penal do Estado que, juntamente com a drástica redução de
seu setor de bem-estar social, visa reforçar um regime de trabalho
assalariado flexível e casual como uma norma de cidadania para
segmentos não qualificados da classe trabalhadora pós-industrial.
Esse emergente governo de pobreza envolve um mercado de
trabalho desregulado e um severo sistema punitivo. Há um sistema
de instituições de gênero que monitoram, treinam e neutralizam
populações supérfluas para o novo regime econômico e racial: os
homens são manuseados por sua ala penal, enquanto as mulheres e

219
as crianças são gerenciadas por um sistema renovado de assistência
social e trabalho projetado para reforçar o emprego casual e
precário.
Jonathan Simon, professor de Sociologia do Direito em
Berkeley, define com segurança a nova ordem do Estado penal
americano contemporâneo:
Na nova ordem do Estado penal, impera a
lógica do Estado mínimo, da proteção
mínima contra riscos econômicos e sociais,
da responsabilização individual. O direito
penal é aquele que, diante de um problema
social complexo, que resulta da interação
de muitos fatores muitas vezes históricos
ou sistêmicos, produz sempre uma
resposta baseada na responsabilidade
individual. (SIMON, p.53, 2007, tradução
nossa).

4 ENCARCERAMENTO EM MASSA DA POPULAÇÃO NEGRA E O


GUETO COMO PRISÃO ÉTNICO-RACIAL
A lei sobre a responsabilidade individual do trabalho,
rubricada por Clinton em 1996, consiste em abolir o direito à
assistência para as crianças mais desfavorecidas e substituí-lo pela
obrigatoriedade do salariado desqualificado e sub-pago para seus
pais. Afeta apenas um setor menor dos gastos sociais voltados para
as famílias pobres. O objetivo declarado desta lei é reabsorver não a
pobreza, mas a pretensa dependência das famílias assistidas em
relação aos programas sociais. Estas medidas são populares junto ao
eleitorado das classes médias brancas, pois a ideia fixa continua a
ser que a assistência aos pobres só serve para manter na ociosidade
e no vício os habitantes do gueto. No papel, a reforma visa fazer as
pessoas passarem da assistência ao emprego. Porém, não há
previsão de nenhum orçamento para formação profissional ou
criação de postos de trabalho.

220
A reforma revoga o direto à assistência de que as crianças
desfrutam e instaura uma duração máxima acumulada de cinco anos
de assistência por cada vida. Os estados e condados têm toda a
liberdade de ação para impor condições de atribuições dos auxílios
mais restritivas do que as enunciadas pela lei federal. Esta lei institui
um sistema de prêmios e penalidades financeiras encorajando os
estados a eliminar por todos os meios os assistidos. Os orçamentos
da assistência passam a ser determinados, atualmente, não em
função das necessidades das populações, mas por dotações fixas. A
nova legislação exclui do registro das verbas várias categorias
sociais, a exemplo dos imigrantes legais chegados a menos de 10
anos e crianças pobres sofrendo de deficiência física.
Assim, o crescimento hipertrófico da prisão
é um componente de uma reestruturação
mais abrangente do Estado americano para
atender às exigências do neoliberalismo.
Mas a raça desempenha um papel especial
neste sistema emergente. Os Estados
Unidos ultrapassam largamente todas as
nações avançadas na tendência
internacional para a penalização da
insegurança social. E assim como o
desmantelamento dos programas de
assistência social foi acelerado por uma
confusão cultural e política de escuridão e
imerecimento, também o "grande
confinamento" dos rejeitos da sociedade
de mercado, os pobres, os doentes
mentais, os sem-abrigo, os desempregados
e inúteis, podem ser pintados como uma
"repressão" bem-vinda sobre eles, aqueles
criminosos de pele escura de um grupo de
parias ainda considerados estranhos ao
corpo nacional. O sistema prisional reflete
e reforça a divisão racial da sociedade

221
americana e desempenha um papel
fundamental no modelo de um estado pós-
keynesiano. (WACQUANT, p. 25, 2002,
tradução nossa).

Wacquant relembra as mudanças ocorridas no sistema


penitenciário americano após a derrocada do estado de bem-estar
social. Essa brusca mudança no acesso a benefícios previdenciários,
que passou a ser mais difícil e criterioso, além de modificações na
legislação, que somados ao endurecimento penal passaram a ter
forte impacto no perfil do encarcerado americano, que nada mais é
do que um órfão do sistema de bem estar social e que se vê em
condição de vulnerabilidade social e mais suscetível a prática de
crimes que o levam diretamente ao cárcere. A prisão é a nova
instituição peculiar dos Estados Unidos, e na prática é um substituto
do gueto. Uma instituição peculiar visa confinar e controlar os afro-
americanos. A escravidão, o sistema Jim Crow (sistema legal de
segregação), o gueto e a prisão são exemplos de instituições
peculiares. Segundo Wacquant (2009), o gueto é um modo de
prisão-social, enquanto a prisão funciona à maneira de um gueto
judiciário.
O gueto é um dispositivo socioespacial que permite a um
grupo dominante explorar um grupo dominado. O gueto é uma
relação étnico-racial de controle e de fechamento composta de
quatro elementos: estigma, coação, confinamento territorial, e
segregação institucional. Gueto como prisão étnico-racial: põe na
gaiola um grupo desprovido de honra e amputa gravemente as
chances de vida de seus membros a fim de assegurar ao grupo
dominante monopolização dos bens e das oportunidades materiais.
O pensamento que corrobora neste raciocínio é o de
WACQUANT (2009), que afirma que não é a multiplicação de
incivilizados que faz um bairro se tornar violento, entretanto, é a
decadência econômica e a segregação que, ao minar as
possibilidades de vida, alimentam possíveis distúrbios. Desta
forma, o negro e pobre acaba abandonado à própria sorte, ficando

222
preso, muitas vezes, injustamente, ou até mesmo cumprindo uma
pena maior do que o crime supostamente cometido.
O encarceramento também tem um grande efeito no índice
de desemprego. Se por um lado mascara este índice, retirando à
força milhões de pessoas da “população em busca de um emprego”,
por outro só contribui para o seu crescimento. Como menciona
Wacquant (2002), um efeito do encarceramento é o de acelerar o
desenvolvimento do trabalho assalariado de miséria e da economia
informal, produzindo incessantemente um grande contingente de
mão de obra submissa disponível: os antigos detentos não podem
pretender senão os empregos degradados e degradantes, em razão
de seu status judicial. Isso é agravado quando pensamos, por
exemplo que, em alguns estados dos Estados Unidos, têm-se uma
base de fichas criminais que, muitas vezes, é disponível a indivíduos
e empresas, o que dificulta ainda mais a reinserção de ex-detentos
na sociedade e no mercado de trabalho. Mantém-se, assim, um
círculo vicioso: a miséria alimenta o sistema carcerário, que por sua
vez produz mais miséria.
A gestão da miséria nos Estados Unidos se confunde, muitas
vezes, com o controle de negros e latinos, e se expressa no
crescente encarceramento de parte dessa população. Os Estados
Unidos definem o cárcere como opção para governar os
desafortunados num país extremamente ligado ao consumismo.
Expandindo gastos públicos para confirmar sua administração penal,
gastando excessivamente em penitenciarias e prisões, prendendo
cada vez mais, midiatizando ações de segurança pública de forma a
demonstrar aos eleitores descontentes com o aumento da
criminalidade que o Estado faz sua parte em prender vagabundos e
desocupados (WACQUANT, 2009).
[...] o corte dos programas sociais retoma o
áspero caminho rumo à ascensão da
miséria e da violência ao hipertrofiar o
direito penal e sua força sancionadora,
buscando os locais de guetos e onde se
encontrarem as famílias mais pobres, que

223
passam a ser em maior número tendo em
vista a redução dos programas sociais do
Estado. A destruição do Estado social e a
hipertrofia súbita do Estado penal são dois
desenvolvimentos concomitantes e
complementares, ou seja, o
estabelecimento de um governo da
miséria. (WACQUANT, p. 85, 2009).

Devido a diversas críticas à política carcerária americana e a


atuação de grupos ativistas a exemplo do Black Lives Matter, que
pressionam a opinião pública e autoridades policiais, os Estados
Unidos vivenciam, atualmente, um pequeno decréscimo em sua taxa
de encarceramento, embora os números continuem alarmantes.
Figura 01: Evolução da População Prisional Americana, 1925 a 2015.

Fonte: Bureou of Justice Statistics Prisioners Series.

O Brasil ocupa o quarto lugar no ranking de países que mais


encarceram no mundo, seguindo os passos dos Estados Unidos e
levantando um forte alerta às autoridades quanto a este avanço, o
perfil da população selecionada pelo sistema prisional brasileiro é
224
bem específico e semelhante ao americano, uma vez que as maiores
vítimas deste sistema são os jovens (74% dos presos no país têm
menos de 35 anos) pobres e negros (67%). Quase 70% dos presos
não concluíram o ensino fundamental (WAISELFISZ, 2016).

Figura 02: Os 10 países com maior população carcerária no ano de


2014.

Fonte: Ministério da Justiça.

5 CONSIDERAÇÕES FINAIS
O Estado tende a cada vez mais monopolizar seu caráter
social em favor dos privilegiados, que são as empresas, possuidoras
de garantias e apoio inúmeros, bem como às classes superiores.
Contudo, isolou as classes inferiores da maneira a transformá-la na
mão de obra barata oriunda dos guetos e das pequenas
comunidades carentes. Deste modo, a reforma do sistema social
serve para vigiar e punir os grupos que se ajustam dominados por
uma classe que se encontra no topo da pirâmide, mas que somente
sobrevive graças ao esforço e ao sustento daqueles que estão na
margem desta construção. Esse mergulho na obra de Loïc Wacquant
nos dá subsídio para compreensão das altas taxas de
encarceramento estadunidense e esclarece a verdadeira causa do
problema, que não é simplesmente o aumento da criminalidade, e
225
sim a população pobre, carente e excluída como alvo para punição e
aprisionamento, executando uma verdadeira “limpeza social”,
retirando essa classe desprivilegiada das cidades e a aprisionando.
Este estudo ajuda a compreender melhor o crescimento das taxas de
encarceramento no Brasil, que também guarda semelhanças com o
cenário estadunidense, quando o perfil do prisioneiro brasileiro
também é o negro, jovem, morador de favelas, com baixa
escolaridade e excluído dos programas sociais de benefício
assistencial.

REFERÊNCIAS

APPOLINÁRIO, F. Dicionário de Metodologia Cientifica: um guia


prático para a produção de conhecimento científico. São Paulo:
Atlas, 2006.

SIMON, Jonathan. 2007. Governing Through Crime: How the War on


Crime Transformed American Democracy and Created a Culture of
Fear. New York: Oxford University Press.

WACQUANT, Loïc. “Deadly Symbiosis: When Ghetto and Prison


Meet and Merge”. Punishment and Society. V. 3, N. 1 P. 95-134. 2001.

______. “Deadly Symbiosis”. Boston Review. V. 27, N. 2 P. 23-31. 2002.

______. Punir os pobres: a nova gestão da miséria nos Estados


Unidos. Rio de Janeiro: Revan, 2009.

WAISELFISZ, JJ. Mapa da Violência 2016: Mortes Matadas por Armas


de Fogo. Rio de Janeiro, FLACSO/CEBELA, 2016.

226
VIOLÊNCIA DE GÊNERO NA INTERNET: REVENG PORN E SEUS
MECANISMOS DE DEFESA

Brenda Thayana Trindade Lopes


Evelyn Munarini Gualberto
Beatriz de Oliveira da Silveira Miléo Brasil

RESUMO
O presente artigo objetiva analisar a prática da “Pornografia de
Vingança” no ciberespaço e suas consequências para suas vítimas e
à sociedade, possibilitando uma maior reflexão à comunidade
acadêmica, acerca desta grave violação aos direitos humanos
relacionada ao ambiente virtual. Cotidianamente, a mídia noticia
casos de publicação não autorizada de conteúdo íntimo de terceiros
na internet, em que o autor do fato o faz seja para expor, humilhar
ou vingar-se da vítima, fazendo com que vídeos e imagens
“viralizem”, levando a conduta criminosa a qualquer lugar do
mundo, em tempo real. Por meio de um olhar epistemológico a
respeito do tema, discute-se os enfoques da criminalização deste
ato contra a dignidade humana, alcançado de forma desleal. A
metodologia adotada foi pesquisa bibliográfica, visando
contextualizar no mundo jurídico tal conduta ilícita. Constatou-se
que o Brasil precisa adequar-se não só sob o ponto de vista
legislativo, como também no que se refere à divulgação de
mecanismos de defesa e prevenção desta prática nefasta, a fim de,
se não prevenir, ao menos proporcionar aos ofendidos o verdadeiro
acesso à Justiça.

PALAVRAS-CHAVE: Pornografia da vingança; Direitos Humanos;


Internet; Ciberespaço.

ABSTRACT
This article aims to analyze the practice of "Revenge Pornography"
in cyberspace and its consequences for its victims and society,
227
allowing a greater reflection to the academic community about this
serious violation of human rights related to the virtual environment.
Every day, the media reports cases of unauthorized publication of
intimate third-party content on the Internet, in which the
perpetrator does so to expose, humiliate or avenge the victim,
causing videos and images to "viralize", leading to conduct crime
anywhere in the world in real time. Through an epistemological view
on the subject, it is discussed the approaches of the criminalization
of this act against the human dignity, reached of disloyal form. The
methodology adopted was bibliographic research, aiming to
contextualize in the legal world such illicit conduct. It was found that
Brazil needs to adapt not only from the legislative point of view, but
also as regards the dissemination of defense mechanisms and
prevention of this harmful practice, in order, if not prevent, at least
provide the offended access to justice.

KEYWORDS: Revenge pornography; Human rights; Internet;


Cyberspace.

1 INTRODUÇÃO
A disseminação não consensual de vídeos e imagens íntimas
da vítima, como represália, geralmente publicada na internet por ex-
companheiros, devido a não aceitação da separação é definida
como pornografia da vingança ou reveng porn.
É exatamente nesse contexto que temos verificado cada vez
mais em nossa sociedade a prática deste ato, onde a maioria das
vítimas são mulheres e os agressores, geralmente são ex-
namorados, ex-maridos, ou seja, os quais tiveram algum
relacionamento afetivo com a vítima. Desta forma, pretende-se
evidenciar o caráter de violência de gênero deste fenômeno e
apresentar mecanismos de defesa desta prática.
O presente trabalho encontra-se dividido em três seções. A
primeira trata-se sobre pornografia da vingança: a internet como
meio de disseminação. Apresentando uma breve definição sobre a

228
internet, crime virtual e pornografia da vingança. A segunda seção
refere-se à aplicação das leis no Brasil nos casos de violação da
intimidade através da divulgação indevida de material íntimo e suas
consequências. Por fim, a última parte encarrega-se de apresentar
mecanismo de prevenção e assistência no combate desta prática.

2 PORNOGRAFIA DA VINGANÇA: A INTERNET COMO MEIO DE


DISSEMINAÇÃO
De acordo com Barreto e Brasil (2016), a internet é
considerada uma ferramenta indispensável no cotidiano das
pessoas, a qual possibilita uma distribuição de informações e
conhecimento, o acesso a informações e todo tipo de transferências
de dados, além de uma grande variedade de recursos e serviços,
como e-mails, comunicação instantânea, compartilhamento de
arquivos como músicas e fotos, redes sociais, e uma infinidade de
outros temas.
A rede mundial de computadores ou
internet possui definição técnica, sendo: o
sistema constituído do conjunto de
protocolos lógicos, estruturado em escala
mundial para o uso público e irrestrito,
com finalidade de possibilitar a
comunicação dos dados entre terminais
por meio de diferentes redes (BARRETO;
BRASIL, 2016, p.12).

Além de nos proporcionar acesso às informações em tempo


real, e as mais variadas conexões, a internet nos proporciona
também perigos. Segundo Ferreira, Lima e Gonino (2016), vivemos
em uma era digital, em que o acesso à internet facilita e nos oferece
uma infinidade de possibilidades, porém apesar de ser considerada
uma ferramenta tecnológica de ampla utilização na sociedade
contemporânea, também é um cenário de insegurança,
apresentando diversos riscos.

229
Ao lado dos benefícios que surgiram com a
disseminação dos computadores e do
acesso à Internet, surgiram crimes e
criminosos especializados na linguagem
informática, proliferando-se por todo o
mundo. Tais crimes são chamados de
crimes virtuais, digitais, informáticos,
telemáticos, de alta tecnologia, crimes por
computador, fraude informática, delitos
cibernéticos, crimes transnacionais, dentre
outras nomenclaturas. (PINHEIRO, 2016,
p.1).

[...]o conceito de crimes tecnológicos: “são


aqueles que envolvem o uso de tecnologias
(computador, internet, caixas eletrônicos),
sendo em regra, crimes meio – ou seja,
apenas a forma em que são praticados é
que é inovadora. Tem como subespécie os
crimes virtuais, informáticos ou
cibernéticos (praticados pela internet),
onde, apesar de se concretizarem em
ambientes virtuais, os delitos trazem
efeitos no mundo real. (PINHEIRO, 2016,
p.16).

Deste modo, o ambiente virtual nos proporciona um


sentimento de liberdade plena, pois oferece uma sensação de
espaço sem fronteiras, possibilitando a prática de crimes complexos,
sendo perceptível que o aumento desses crimes é diretamente
proporcional aos avanços da tecnologia. Vale ressaltar que os
chamados crimes virtuais, que são caracterizados por delitos
praticados no meio virtual, podem ser enquadrados no Código

230
Penal Brasileiro e leis penais especiais e os infratores estão sujeitos
às penas previstas na Lei.
Como exemplo, podemos citar a pornografia da vingança,
que elenca esses tipos de delitos praticados no ciberespaço, a qual
consiste na veiculação de imagens/vídeos sexuais consentidos ou
não pela vítima, decorrente do rompimento da relação afetiva,
ocorrendo uma exposição da privacidade, gerando inúmeros
problemas, tanto físicos como emocionais.
É importante, a fim de compreender
a pornografia da vingança e suas
dimensões, contextualizá-la como
uma forma de violência de gênero,
sobretudo quando a maioria dos
casos de violação ocorre quando há
rompimento da relação afetiva por
iniciativa da mulher. (GUIMARÃES;
DRESCH, 2014, p.11).

Em alguns relacionamentos, os casais


se permitem filmar e/ou fotografar,
por ocasião de atos íntimos. Apesar
do vídeo ou fotografia ter o
consenso do casal naquele
momento, não o abrange para a
divulgação em público, havendo o
que pode chamar de contrato de
privacidade íntima. Mesmo assim,
com o término da relação, o contrato
é rompido e esses arquivos são
repassados ao público, como forma
de atacar ou ameaçar o parceiro.
(BRASIL; BARRETO, 2016, p.161)

De acordo com Citron e Frank (2014, p. 4, apud, GUIMARES;


DRESCH, 2014, p.11):

231
A maneira mais comum de haver tal
divulgação ocorre quando as
imagens são postadas em sites de
relacionamento, ou ainda de
oferecimento de serviços sexuais,
colocando as mulheres como garotas
de programa, juntamente com seus
dados pessoais e contato.
Consequentemente, iniciam-se os
contatos de estranhos, stalking e,
inclusive, ataques físicos.

Desta forma, constata-se que há uma interface entre


internet e pornografia, sendo uma espécie de lugar comum em
formulações sobre a rede. Conforme Parreiras (2012, apud, LINS,
2014, p.04-05) relata que
[...] diversos levantamentos
quantitativos realizados nos últimos
anos atestam o vínculo indissociável
entre ambiente virtual e conteúdos
pornográficos, indicando que parte
considerável dos acessos à rede
envolveria o consumo de
pornografia. Especialmente a partir
do advento da chamada 5 “Web 2.0”
– que permitiu ao usuário atuar,
também, como produtor de
conteúdo, gerando o aumento
substancial de materiais amadores,
como textos, vídeos, redes e mídias
sociais –, a internet seria um dos
lugares mais propícios para a difusão
de material pornográfico.

232
Com isso, pode-se observar que nos últimos anos, o
ambiente virtual tem operado interligado com o real, desta forma,
influenciando de forma direta e indireta na proliferação de
diferentes formatos de violência contra as mulheres.

3 A APLICAÇÃO DAS LEIS NO BRASIL NOS CASOS DE VIOLAÇÃO DA


INTIMIDADE POR MEIO DA DIVULGAÇÃO INDEVIDA DE MATERIAL
ÍNTIMO
Segundo Castro (2014, apud LINS, 2014, p.6)
A “pornografia de vingança”, no
contexto brasileiro, a partir dos anos
2010, aparece como mais um
elemento dessa tríplice fronteira
entre violência, internet e
pornografia. A questão é
apresentada, de maneira geral, como
novidade tecnológica da violência
sofrida pelas mulheres, cujas
circunstâncias exporiam não
somente os riscos aos quais as
mulheres brasileiras estariam
cotidianamente sujeitas, como o
espaço virtual seria especialmente
inóspito para mulheres, dada
inexistência de leis que levem em
consideração desigualdades de
gênero.

A divulgação feita de imagens e vídeos íntimos de mulheres


sem seu consentimento é considerada um ataque à dignidade
humana e uma forma de violência de gênero, especialmente em
uma relação íntima, capaz de trazer algum dano psicológico, moral
ou físico a mulher. "Assim sendo, perceptível que a criminalização
da pornografia da vingança é essencial, uma vez que se pode

233
visualizar, de forma cristalina, as consequências ao ato, infringindo
em penalidades palpáveis” (CITRON; FRANKS, 2014, p. 14).
No Brasil ainda não vigora nenhuma lei que trate
exclusivamente dessa prática originado da pornografia de vingança.
Porém, de acordo com Freitas (2014), há dois projetos em trâmite no
Congresso, que visam tornar crime a prática desta conduta. O
projeto de lei 6630/2013 é um deles, o qual é de autoria do
deputado federal Romário.
Segundo Guimaraes e Dresch (2014, p.9, apud FREITAS, 2014,
p.8):
Em ambos os projetos (PL 6630/2013 e
6831/2013) as sanções são definidas em
patamares de um a três anos de detenção
(primeiro projeto) ou de reclusão (segundo
projeto). Já o projeto de lei nº 6713/2013, de
autoria do deputado Eliene Lima, do
PSD/MT, tem redação do tipo penal bastante
genérica, prevendo-se apenas a punição de
um ano de reclusão, mais multa de vinte
salários mínimos, para aquele que ‘publicar
as chamadas postagens pornográficas de
vingança na internet’.

O projeto de lei do 5555/2013, do deputado João Arruda


(PMDB-PR), tem como objetivo a criação de mecanismos para o
combate à violação da intimidade da mulher, praticada por meio da
internet ou em outros meios de propagação de informação, na
forma de divulgação de material íntimo e informações pessoais sem
seu consentimento.
Na Constituição Brasileira de 1988, em seu art. 5º, inciso V, é
assegurado o direito à inviolabilidade da intimidade e da vida
privada, assim como o direito à liberdade, o qual está assegurado no
caput do artigo. Desta forma, o Estado deve promover efetiva
proteção aos direitos fundamentais, evitando que ocorra a violação

234
da intimidade sexual e da privacidade de quem quer que seja,
sobretudo de grupos historicamente vulneráveis.
Segundo Guimarães e Dresch (2014), no Direito Civil a
violação da intimidade por meio da divulgação indevida de material
íntimo gerará o dever de reparação do dano moral e material. A
responsabilidade tem caráter reparatório e indenizatório ao
indivíduo lesado pelo sujeito que produziu o dano. No entanto,
referente ao dano moral, esse caráter se torna impossível de
quantificar, visto que o resultado e consequências da online revenge
porn são irreversíveis.
Quando se trata de violação da
intimidade e da privacidade, a vítima
poderá pleitear o direito à proteção
constitucionalmente assegurada para
obter a determinação judicial de
obstar a continuidade da exposição
pública e de invasão em sua vida
íntima, como exemplo, obtendo a
ordem judicial de retirada de
circulação, por parte do provedor da
internet, dos vídeos e/ou fotos (isso,
certamente, não impede que
arquivos copiados pelas pessoas não
voltem a circular por meio de
mensagens direcionadas – e-mail’s
ou por telefone celular)
(GUIMARÃES; DRESCH, 2014, p.14).

Segundo Guimarães e Dresch (2014), no direito penal a


divulgação de material íntimo pode ser enquadrada de acordo com
o estatuto repressivo vigente, nos crimes de difamação e/ou injúria,
variando caso a caso.
O delito de difamação está previsto no Art.139 do Código
Penal, que consiste em difamar alguém, imputando fato ofensivo a
sua reputação, tendo como pena a detenção de três meses a um ano

235
e multa. Segundo Bittencourt (2013, p. 352 apud GUIMARAES;
DRESCH, 2014, p. 16) “A difamação é imputar a alguém fato ofensivo
à sua reputação, e por reputação se entende a estima moral,
intelectual ou profissional de que alguém goza no meio em que
vive.”
Considerando, ainda, que para haver
crime a reputação do indivíduo
perante a sociedade deve ser lesada;
é fundamental que o fato
desonroso chegue a conhecimento
de terceiros, pois aí é que a
honra do indivíduo será atingida
perante a coletividade na qual está
inserido. Nos casos de divulgação de
material íntimo, não há maiores
dificuldades em enquadrar este
ponto. (GUIMARÃES; DRESCH, 2014,
p.16).

Enquanto que o delito de injúria está previsto no art. 140 do


Código Penal, o qual consiste em ofender a dignidade ou o decoro
de alguém, tendo como pena cominada de um a seis meses de
multa. De acordo Bittencourt (2013, p.360 apud GUIMARAES, B.L;
DRESCH, M.L, 2014, p. 16), “[...] o tipo penal protege a honra
subjetiva, que pode ser definida como a “pretensão de respeito à
dignidade humana”.
O crime consuma-se quando o
indivíduo – e basta ele próprio, não
terceiros – tenha conhecimento da
ofensa. Contudo, é evidente que em
se tratando de divulgação de
vídeos, áudios e imagens na
internet, o conhecimento de
terceiros será alcançado. Caso o
agente envie as imagens apenas para

236
a vítima, ameaçando de torná-las
públicas, o crime será o de ameaça,
previsto no art.147 do Código Penal,
cujo bem jurídico tutelado é a
liberdade individual (GUIMARÃES;
DRESCH, 2014, p.17).

Diante disso, tendo em vista a gravidade da conduta dos


sujeitos do ato delituoso e dos transtornos causados às vítimas
decorrente da violação dos direitos fundamentais em específico à
intimidade e à privacidade, nos casos que envolvem a divulgação
indevida de material íntimo, entende-se que tal prática deve ser
criminalizada, com a criação de uma nova lei específica a essa
conduta, ou pela inclusão de forma qualificada em um tipo penal já
existente em nosso ordenamento jurídico.

4 MECANISMOS DE PREVENÇÃO E ASSISTÊNCIA ÀS VÍTIMAS DE


PORNOGRAFIA DA VINGANÇA
Há diversos mecanismos de prevenção e assistência às
vítimas de pornografia da vingança para o enfrentamento a
condutas ofensivas à mulher. O primeiro remete-se ao cuidado com
a exposição de conteúdo íntimo e suas informações pessoais, como
uma forma de proteção a sua privacidade, e, o segundo, é voltado à
importância do Marco Civil da Internet (Lei n. 12.965/2014) como
forma de auxílio à vítima de pornografia da vingança e o combate à
disseminação de conteúdo indevido no ambiente virtual.
O primeiro passo para evitar ser uma
vítima de pornografia de vingança é
ter em mente os cuidados básicos
com sua segurança pessoal e suas
informações. Assim, devem ser
evitadas fotos, ou filmagens com
nudez ou sexo, uma vez que nem
todos os relacionamentos são
duradouros, e quando essa relação

237
termina, os arquivos podem ser
utilizados como “explosivos” para
ofender a reputação de uma pessoa
(BRASIL; BARRETO, 2016, p.179).

Barreto e Brasil (2016) afirmam “É importante ressaltar que


não é o terminal nem o software que possibilitarão a segurança para
evitar que o equipamento seja invadido, pois onde houver a figura
humana haverá a vulnerabilidade de um conteúdo vir a ser
exposto”. Como por exemplo, evitar capturar fotos íntimas suas e do
seu parceiro, se o fizer, apagá-lo imediatamente, bem como não
armazenar conteúdos íntimos que possam ser conectados em rede,
assim como não compartilhar imagens e/ou vídeos em aplicativos
de mensagens instantâneas como por exemplo o “WhatsApp”.
Como mecanismo de assistência às vítimas de pornografia
de vingança, pode-se citar o marco civil. De acordo Barreto e Brasil
(2016):
O marco civil da internet estabelece, em
seu art. 21, a obrigatoriedade por parte do
provedor de aplicações de internet de
excluir o conteúdo gerado por terceiro que
viole a intimidade de outrem, contendo
cenas de nudes ou de atos sexuais de
caráter privado quanto essa
responsabilização será subsidiária, ou seja,
só ocorrera caso o provedor deixe de agir
de forma diligente após ser notificado pelo
praticante ou seu representante legal.
(BRASIL; BARRETO, 2016, p.167).

Além disso, possibilita investigar, processar e punir quem faz


a postagem e quem a dissemina. Antes da existência do marco civil,
os instrumentos de fiscalização eram mais fracos, dissociados de
amparo legal, mas, com sua criação, a impunidade tende a diminuir.
Essa previsão de retirada do conteúdo ofensivo sem que se recorra

238
ao poder judiciário é considerado um grande avanço no que diz a
respeito à proteção da vítima.
Pode-se citar como exemplo o Facebook, o qual lançou uma
ferramenta para “combater” esta prática, de modo que se uma
imagem imprópria for compartilhada por meio do site, o usuário
terá a opção de denunciá-la, e esta será revisada por um profissional
qualificado, o qual determinará se ela viola ou não os padrões da
comunidade.
Segundo Barreto e Brasil (2016, p.174) “A denúncia no
Facebook pode ser feita diretamente no link “denunciar” que fica
próximo à foto ou ao vídeo, bem como através do acesso a link
específico, preenchendo os dados solicitados e indicando a URL do
conteúdo infringente”. Vale ressaltar que caso o conteúdo seja
considerado explícito, a imagem será removida e automaticamente
a conta que a compartilhou poderá ser desativada, bem como,
também dispõe de uma tecnologia a qual impede que a imagem se
espalhe pelas outras empresas.
Neste compasso, há a existências de organizações que
defendem e promovem os direitos humanos na internet. Como por
exemplo, SaferNet1 que é uma organização não governamental que
registra as queixas de vítimas de pornografia da vingança e auxilia
na remoção do conteúdo na internet.
Segundo Brasil e Barreto (2016):
A ferramenta possibilita ao
denunciante acompanhar o
andamento da denúncia formulada e,
caso haja procedência nesta, a
equipe de analistas faz a colheita de
todas informações úteis a comprovar
a atividade ilícita e as encaminhar a
Polícia Federal ou ao Ministério
Público Federal quando o conteúdo é

1
Disponível em: http://new.safernet.org.br/. Acesso em: 20/07/2017.
239
hospedado no Brasil (BRASIL,
BARRETO, 2016, p. 134).

A organização não governamental “Marias da Internet”2,


tem como fundadora uma vítima de pornografia de vingança, e tem
como orientar juridicamente e apoiar psicologicamente as vítimas
de disseminação não autorizada de material íntimo, tendo em vista
que crimes deste gênero acabam gradativamente com a vida dessas
vítimas. A organização disponibiliza profissionais especializados em
crimes virtuais, como advogados, peritos digitais e psicólogos para
auxiliar as vítimas da pornografia de vingança, sendo esse trabalho
voluntário.
Assim, apesar dos mecanismos existentes para o
enfrentamento deste tipo de conduta, é necessário maior
esclarecimento da sociedade, inclusive acerca da conscientização
para o não compartilhamento do conteúdo íntimo de terceiro,
estimulando-se a alteridade e sororidade. A divulgação de boas
práticas é um dos elementos centrais para combater as ações
criminosas e mitigar suas consequências.

5 CONSIDERAÇÕES FINAIS
Por fim, o presente trabalho propôs uma análise acerca da
pornografia da vingança, mostrando os diferentes aspectos entre
gênero, violência e internet, suas interrelações e reflexos na
sociedade. Demonstrou as causas e consequências atribuídas às
vítimas dessa prática, bem como evidenciou a forma como esses
atos de violência são percepcionados pelas mulheres. Deste modo,
também foram apresentados mecanismos de prevenção e auxílio,
que são grandes suportes para o enfrentamento e amparo nos casos
de reveng porn na sociedade. Diante da gravidade da conduta e dos
danos causados, entende-se que além da criminalização da conduta,
a pena deverá ser mais gravosa por meio de leis mais rígidas, para a
efetiva proteção da vítima, refletindo no tratamento aos agressores,

2
Disponível em: http://www.mariasdainternet.com.br/. Acesso em: 20/07/2017.
240
de modo a serem intimidados e repreendidos pelo estado, como
forma de inibir que venham a violar direitos humanos das mulheres
na internet, preservando a inviolabilidade da privacidade e
intimidade destas.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

BARRETO, Alessandro; BRASIL, Beatriz. Manual de Investigação


Cibernética: à Luz do Marco Civil da Internet. 1. ed. Belém: Editora
BrasPort, 2016. p.240.

FREITAS, Kamila Katrine Nascimento de. A Pornografia de Vingança


e a culpabilização das vítimas pela mídia. Intercom – Sociedade
Brasileira de Estudos Interdisciplinares da Comunicação XVII
Congresso de Ciências da Comunicação na Região Nordeste. Natal -
RN. 2015. Disponível em:
<http://www.portalintercom.org.br/anais/nordeste2015/resumos/R4
7-2316-1.pdf>. Acesso em: 15 set. 2015.

GUIMARÃES, B.L; DRESCH, M.L. Violação dos direitos à intimidade e


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em:
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eitos_a_intimidade_e_a_privacidade_como_formas_de_violencia_de_g
enero_0.pdf>. Acesso em: 20 de jun. 2017.

LIMA, Camilla; FERREIRA, Karoline; GONINO, Tatiane. SEXTING, A


VIOLÊNCIA VIRTUAL CONTRA A MULHER: Um estudo de caso com
uma jovem de Três Lagoas – Mato Grosso do Sul. Disponível em:
<http://www.aems.edu.br/conexao/edicaoanterior/Sumario/2016/d
ownloads/3.%20Ci%C3%AAncias%20Sociais%20Aplicadas%20e%20
Ci%C3%AAncias%20Humanas/071_Publicidade%20-
%20Sexting,%20a%20Viol%C3%AAncia%20Virtual....pdf>. Acesso
em: 18 de jun.2017.

241
LINS, B.A. A internet não gosta de mulheres? Gênero, Sexualidade e
Violência nos debates sobre "Pornografia da Vingança", 2014.
Disponível
em:<http://www.egov.ufsc.br/portal/sites/default/files/a_internet_n
ao_gosta_de_mulheres.pdf>. Acesso em: 20 de jun. 2017.

PINHEIRO, Emeline Piva. Crimes Virtuais: Uma análise da


criminalidade informática e da reposta estatal. Disponível em:
http://www.egov.ufsc.br/portal/sites/default/files/emeline.pdf.
Acesso em: 20 de jun.2017.

242
PERFIL DOS CRIMES DE TRÁFICO DE DROGAS DENUNCIADOS PELO
MINISTÉRIO PÚBLICO NO MUNICÍPIO DE BENEVIDES-PA NO ANO
DE 2015: UMA ANÁLISE CRÍTICA

Roberto Magno Reis Netto


Clarina de Cássia da Silva Cavalcante
Wando Dias Miranda
Herick Wendell Antônio José Gomes

RESUMO: É fato público e notório que, sob o discurso de combate


às drogas, diariamente, diversas pessoas são presas e encarceradas
no seio do território nacional. Inúmeras, aliás, são as hipóteses
teóricas levantadas em relação ao fracasso da guerra às drogas.
Especial destaque, entretanto, ganha a hipótese levantada por D’élia
Filho (2014) a respeito da atuação de mecanismos de seletividade
penal. Sob esta pretensão, o presente estudo objetivou testar os
principais postulados teóricos levantados pelo autor, em sua obra,
verificando sua adequação à realidade local do Município de
Benevides-PA, pertencente à Região Metropolitana de Belém,
Estado do Pará. O estudo se pautou num método hipotético-
dedutivo, realizando uma abordagem qualitativa e quantitativa por
intermédio de uma pesquisa documenta. Ao fim, confirmou-se a
hipótese de que postulados seletivos guiam a atuação local da
repressão ao tráfico, em face dos dados analisados.

PALAVRAS-CHAVE: Tráfico de Drogas. Seletividade Penal. Município


de Benevides – Pará.

ABSTRACT: It is a public and notorious fact that, under the drug-


fighting discourse, every day, several people are arrested and
imprisoned within the national territory. Numerous, moreover, are
the theoretical hypotheses raised regarding the failure of the drug
war. Special emphasis, however, wins the hypothesis raised by D'élia
Filho (2014) regarding the performance of mechanisms of criminal
selectivity. The present study aimed to test the main theoretical

243
postulates raised by the author, in his work, verifying its suitability
to the local reality of the Municipality of Benevides-PA, belonging to
the Metropolitan Region of Belém, State of Pará. hypothetical-
deductive method, conducting a qualitative and quantitative
approach through a documentative research. At the end, it was
confirmed the hypothesis that selective postulates guide the local
action of repression to the traffic, in face of the data analyzed.

KEYWORDS: Drug trafficking. Penal selectivity. Municipality of


Benevides - Pará.

1 INTRODUÇÃO
É fato público e notório que, sob o discurso de combate às
drogas, diariamente, diversas pessoas são presas e encarceradas no
seio do território nacional. Conforme levantamento do Conselho
Nacional de Justiça (CNJ, 2017), em janeiro de 2017, o maior
quantitativo de presos provisórios respondendo a processos
criminais nos tribunais estaduais da federação (29% do total de
221.054 encarcerados), correspondia ao contingente de acusados
sob algum dos tipos penais elencados pela lei 11.343/06 - a lei
antidrogas.
Entretanto, a despeito do alto investimento realizado no
âmbito nacional e internacional em torno da declarada guerra às
drogas, o problema ainda parece muito distante de qualquer efetiva
solução (RODRIGUES, 2004; SAVIANO, 2014), dentre outros motivos,
por conta das altíssimas cifras que o mercado ilegal do tráfico de
drogas movimenta a cada ano (LABROUSSE, 2010; CAMPOS, 2014;
SAVIANO, 2012; 2014).
Inúmeras, aliás, são as hipóteses teóricas levantadas em
relação ao fracasso da guerra às drogas, ganhando destaque teses
como a da naturalidade do vício (ARAÙJO, 2012), do vício e
comércio como fruto de uma sociedade consumista (WEIGERT,
2010), ou, ainda, de uma função assessória do tráfico numa política
de estigmatização e controle populacional (WACQUANT, 2015).

244
Especial destaque, entretanto, ganha a hipótese levantada
por D’élia Filho (2014) a respeito da atuação de mecanismos de
seletividade penal, como engrenagens de engessamento do
combate ao tráfico real, por meio de um atingimento isolado das
camadas mais pobres da população envolvida com esta atividade.
Segundo esse autor (D’ÉLIA FILHO, 2014) a atuação concreta
da lei antidrogas, em terras brasileiras, atingiria somente de forma
excepcional os médios e grandes traficantes (denominados, em
diversos momentos de sua obra, como oligopolistas do tráfico),
recaindo corriqueiramente sobre pessoas pobres e estigmatizadas,
naturalmente excluídas das fileiras da sociedade de consumo do
Século XXI, às quais, obviamente, o tráfico surgiria como uma
verdadeira alternativa laboral/econômica. A teoria é reforçada,
ainda, através de dados comparativos referentes a prisões e
apreensões em zonas com perfil econômico diferenciado do Rio de
Janeiro (D’ÉLIA FILHO, 2014).
A coerência dos argumentos apresentados pelo autor, assim
como, sua adequação aos postulados de outros estudos relevantes
quanto à temática do tráfico de drogas (LABROUSSE, 2010;
CAMPOS, 2014; RODRIGUES, 2004; SHECAIRA, 2014), por sua vez,
torna tentadora a testagem de seus postulados em contextos
diferentes daquele onde se originou o estudo (a megalópole do Rio
de Janeiro – RJ).
Sob esta pretensão, o presente estudo objetivou testar os
principais postulados teóricos levantados por D’élia Filho (2014) em
sua obra, verificando sua adequação à realidade local do Município
de Benevides-PA, pertencente à Região Metropolitana de Belém,
Estado do Pará.
Questionou-se: o perfil das denúncias realizadas pelo
Ministério Público do Estado do Pará com base na lei antidrogas, ao
longo do ano de 2015 na Comarca de Benevides-PA, revela
características compatíveis com postulados de seletividade penal
apontados por D’élia Filho em sua obra Acionistas do Nada: Quem
são os traficantes de drogas (2014)?

245
Partiu-se da hipótese, desenvolvida a partir da experiência
pessoal dos pesquisadores com o estudo criminal no Estado do Pará,
de que a hipótese levantada por D’élia Filho (2014) seria confirmada
no âmbito local (questão que será retomada nas considerações
finais).
Assim, o trabalho se desenvolveu sob a seguinte
estruturação: a) Uma segunda seção (após a introdução) que se
ocupou da discussão dos postulados teóricos que embasaram a
hipótese acima; b) Uma terceira seção, que, brevemente, se ocupou
da discussão dos contornos metodológicos do estudo; c) Uma
quarta seção, que se ocupou da análise e discussão dos resultados
encontrados; e, finalmente, d) as considerações finais do estudo.

2 TRÁFICO DE DROGAS E SELETIVIDADE PENAL


De maneira semelhante a Saviano (2014) e Rodrigues (2004),
D’élia Filho (2014) afirmou que o tráfico de drogas é uma realidade
presente em todos os extratos sociais, sendo, no entanto, encarado
(e enfrentado) de maneira diferente em cada um daqueles.
Justamente em razão disso, destacou que os números do
tráfico jamais poderiam ser analisados de uma forma dissociada do
contexto político, econômico e social no qual se originam, uma vez
que a atuação diferenciada das forças de segurança se encontraria
distorcida por uma cifra oculta determinada por questões maiores
que a política criminal em si (D’ÉLIA FILHO, 2014).
Em verdade, inspirado em Zaffaroni e Batista (2003 apud
D’ÉLIA FILHO, 2014), o autor apontou que a atuação do sistema
penal brasileiro seria determinada por um processo de dupla
seletividade penal, no qual a criminalização primária de condutas
abstratas (feita de maneira objetiva e – aparentemente – neutra na
legislação) seria complementada, na prática, por uma criminalização
secundária de pessoas e casos reais (realizada pelos órgãos policiais
e pelo sistema judiciário, que, por seu mister escolheriam quem
prender, acusar, processar e condenar) (D’ÉLIA FILHO, 2014).
Assim, de forma compatível com as análises realizadas por
autores como Garland (2008) e Wacquant (2015), D’élia Filho (2014)

246
concluiu que a atuação penal, sobretudo das instituições policiais,
seria guiada por critérios de estigmatização de determinados
segmentos populacionais, especialmente, aqueles pertencentes às
áreas mais pobres das cidades, bem como, às camadas sociais
alijadas das fileiras do mercado formal de trabalho.
A teorização faz total sentido, sobretudo, se analisada sob
um viés territorial.
Sampaio (2015), por exemplo, denunciou em seus estudos a
violência que acompanha o processo de urbanização e a
apropriação do espaço urbano como bem de consumo, o que, por
sua vez, importaria numa segregação cada vez maior da população
mais pobre dos centros urbanos que conglobam as redes de bens e
serviços interessantes ao mercado.
Estas áreas nobres, por conseguinte, seriam objeto de uma
especial proteção pelo poder público, sobretudo, para manter sua
valorização, tornando-as, portanto, um paraíso presente a todos
aqueles capazes de pagar por seus benefícios (BAUMAN, 2001).
Como consequência desta apropriação do espaço como bem
de consumo, constatou-se a segregação de grandes contingentes
populacionais incapazes de se inserir naquelas redes, e, com isso, a
gênese de grandes bolsões de pobreza em áreas relativamente
próximas aos centros urbanos, responsáveis pela absorção da mão
de obra ativa (trabalhadores formais) e de um exército de mão de
obra de reserva (ou seja, desempregados e trabalhadores informais),
aptos a mover as engrenagens dos grandes centros (OLIVEIRA,
2015).
Esses bolsões, por seu valor econômico reduzido, seriam
naturalmente privados de serviços públicos eficientes quanto à
salvaguarda de direitos mínimos dos cidadãos ali presentes
(SAMPAIO, 2015). Com isso, as organizações culturais e espaciais
passariam a ganhar contornos diferenciados que, com o auxílio da
mídia (sobretudo a sensacionalista), difundiriam a obtusa confusão
entre a ideia de diferente e a ideia de perigoso (OLIVEIRA, 2015).
Além disso, a falta de investimento e de uma presença
contundente do Poder Público, decerto, torna essas áreas periféricas

247
passíveis de ocupação por outros poderes (como o das organizações
criminosas do tráfico de drogas e milícias), que ali passam a
consolidar seu território através de práticas contrárias ao sistema
legal.
Nascem os estereótipos, e, com eles, um clamor impensado
sobre ações mais severas nestas regiões, que, conforme afirmou
Haesbaert (2014), criam barreiras artificiais e simbólicas que
fragmentam a cidade.
No que tange ao tráfico de drogas, essa segregação sócio-
espacial (SAMPAIO, 2015), associada ao discurso oficial de guerra às
drogas (RODRIGUES, 2004), resultou numa verdadeira atuação
seletiva do Estado, predominantemente, sobre os varejistas do
tráfico que residem nestas áreas (para os quais o tráfico surge como
uma oportunidade de satisfação pessoal numa comunidade
determinada pelo consumo [BAUMAN, 2001]).
Esta repressão, por sua vez, ao invés de combater o tráfico
de drogas, acaba por apenas escassear os revendedores e tornar as
vias de acesso mais dificultosas, sem, no entanto, atingir os
empresários responsáveis pelo processo produtivo e de
comercialização internacional das drogas (D’ÉLIA FILHO, 2014). Em
outras palavras, as drogas se tornam mais caras (justamente por
serem proibidas e demandarem mais custos e se tornarem um
objeto mais complexo para ser adquirido/consumido) e a repressão
retroalimenta a economia da droga e os lucros obtidos pelos
oligopolistas (RODRIGUES, 2004; D’ÉLIA FILHO, 2015).
Em paralelo, danos muito maiores, associados tanto ao
consumo de substancias regularmente consumidas (como bebidas e
cigarros), quanto, a outras condutas criminosas mais graves (como a
lavagem de dinheiro e corrupção, em todas as suas formas),
acabaram por ser negligenciadas pelos órgãos integrantes do
sistema judiciário.
Em suma, afirmou o autor que esse processo de
estigmatização acabaria por resultar numa punição seletiva de
varejistas, que, em verdade, corresponderiam a cidadãos excluídos
do mercado formal de trabalho, especialmente, pobres, moradores

248
de áreas menos valorizadas das comunidades e, em sua maioria,
negros (D’ÉLIA FILHO, 2014), afinal, a questão racial também seria
importante mecanismo integrante do crivo estigmatizador da
pobreza (WACQUANT, 2015).
Trata-se, portanto, de uma hipótese bastante alarmante a
respeito da atuação das instituições de repressão criminal,
sobretudo, aquelas vinculados aos órgãos policiais (D’ÉLIA FILHO,
2014), evitando, assim, um correto enfrentamento dos problemas
inerentes ao tráfico de drogas.
Justamente em razão disso, como mencionado ao início, é
tentador, em termos científicos, comparar os postulados acima
destacados com outras realidades externas ao contexto originário (a
cidade do Rio de Janeiro).
E, justamente, foi esta motivação que deu origem ao
presente estudo.
Adotando a teoria destacada como paradigma analítico, nas
próximas seções, após os pertinentes delineamentos metodológicos,
buscou-se verificar se a hipótese levantada por D’élia Filho (2014),
poderia espelhar uma realidade totalmente diferente daquela onde
se originou: a realidade de um município amazônico, pertencente à
Região Metropolitana de Belém-PA - O município de Benevides.

3 DOS MÉTODOS E TÉCNICAS UTILIZADOS NO ESTUDO


Inicialmente, insta salientar que o estudo adotou o método
hipotético-dedutivo, assim descrito por Marconi e Lakatos (2016)
como um procedimento de eleição de um problema de pesquisa,
seguido da conjectura de uma teoria (hipótese), sujeita, por
conseguinte, a testes para eventual falseamento, ou não.
No caso, o estudo compreende que, pelas características
inerentes ao tráfico de drogas e seu perfil mercadológico
(RODRIGUES, 2004) há uma forte verossimilhança na hipótese
levantada por D’élia Filho (2014) em seus estudos, pelo que se parte
da hipótese de que os crimes de tráfico de drogas denunciados no
município eleito para fins de testagem (Benevides-PA), certamente,

249
devem manter as mesmas características enunciadas (hipótese do
estudo).
Talvez, considerando algumas peculiaridades locais, seja
necessária a realização de um processo de adição ou introdução de
conclusões na teoria (MARCONI; LAKATOS, 2016), o que, por outro
lado, não descaracteriza os postulados enunciados na seção
anterior. Caso contrário, o falseamento da hipótese apontará novos
caminhos interpretativos, pelo que, de uma forma ou de outra, ser
atingirá a relevância do esforço científico em questão.
Por sua vez, o estudo se pautou numa abordagem
quantitativa e qualitativa (MARTINS; THEÓPHILO, 2016), uma vez
que toma por base tanto análises numéricas (auxiliando-se da
estatística descritiva), bem como, análises pautadas no conteúdo
dos dados colhidos em campo.
Adotou-se como técnica de coleta de dados a pesquisa
documental (MARTINS; THEÓPHILO, 2016), procedendo-se ao
levantamento de denúncias propostas pelo Ministério Público da
Comarca de Benevides-PA contra acusados pelos crimes previstos
na lei n. 11.343/2006 – a lei antidrogas, ao longo do ano de 2015 1,
perante o Fórum de Benevides-PA, cujo tramite passaria, a partir de
então, a ocorrer sob competência da Vara Criminal local2.
A escolha pelo Município de Benevides-PA, por conseguinte,
se deu em razão de seu pertencimento à Região Metropolitana de
Belém (Capital), bem como, por ser um município que na última
década abandonou a típica característica de cidade dormitório,
passando a absorver a expansão de negócios e habitação
proveniente do inchaço da Capital.

1
As denúncias diziam respeito a crimes ocorridos entre os meses de dezembro/2014 e
dezembro/2015.
2
Registra-se o agradecimento dos autores à Dra. Viviana dos Santos Couto Delaquis
Perez, que compreendendo a relevância do estudo e suas repercussões junto à justiça
criminal local, não tardou em fornecer os dados em questão (em posse de sua
promotoria), bem como, auxiliar no levantamento de outros (contidos noutras
promotorias). Sua postura, certamente, condiz com o dever ministerial de busca
incessante pela verdade e manutenção da ordem pública.
250
FIGURA 1 – LIMITES GEOGRÁFICOS DO MUNICÍPIO DE BENEVIDES-
PA, EM RELAÇÃO À REGIÃO METROPOLITANA DE BELÉM-PA

Fonte: IBGE (2017).


É sensível nesta cidade/comarca, por sua vez, o processo de
urbanização descrito por Sposito e Góes (2013), caracterizado pela
formação de espaços fechados (condomínios horizontais e/ou
verticais) em contraposição aos espaços públicos, paralelamente, ao
surgimento de zonas periféricas às quais a ideia de perigo passou a
ser associada de maneira cada vez mais intensa (de forma
semelhante ao argumentado por D’élia Filho [2014] e Haesbaert
[2014]).
Com o aumento populacional e de novos empreendimentos
(tanto na área da indústria como de serviços), a mesma passou a ter
maior circulação econômica, tornando-se, assim, uma cidade
interessante ao tráfico, por vários motivos: a) por ser rota à cidade
de Belém (e seu aeroporto internacional); b) por ter acessos
rodoviários e fluviais em sua extensão; c) pela nova população de
classe média que ali se instala progressivamente (que representa um
mercado em potencial para o tráfico); d) pelo endurecimento das
ações policiais em Belém-PA e Ananindeua-PA, que, por sua vez,
teria promovido um deslocamento do crime àquela cidade, dentre
outras razões argumentáveis.

251
A escolha pela análise de denúncias3, por conseguinte, se
deu, justamente, em razão do argumento elencado quanto à dupla
seletividade penal (D’ÉLIA FILHO, 2014): As denúncias já
protocoladas, certamente, diriam respeito a crimes já sujeitos ao
processo de seleção pelas forças policiais (segunda seleção), sendo
concernentes, portanto, ao produto da atuação discriminatória dos
órgãos do sistema judiciário.
Diante da ação da polícia, o Ministério Público somente teria
acesso a crimes já selecionados sob o crivo da alteridade enquanto
preconceito (OLIVEIRA, 2016), conforme critérios vinculados à
pobreza, raça e posição subalterna no mercado do tráfico, de acordo
com a hipótese sob testagem (D’ÉLIA FILHO, 2014).
Uma vez coletadas, as denúncias (correspondentes a uma
amostra de 80 documentos) foram submetidas a um processo de
dupla leitura: primeiramente, uma leitura flutuante (BARDIN, 2011),
para inicial contato com os objetos buscados em seu teor; e, num
segundo momento, uma leitura apurada, para classificação de
elementos e tabulação de dados.
Os dados foram tabulados conforme as seguintes categorias:
a) número do processo (para fins de buscas por ulteriores detalhes);
b) acusados (para melhor análise dos perfis individuais); c) cor do
acusado (para melhor análise dos perfis individuais); d) Sexo do
Acusado (para melhor análise dos perfis individuais); e) profissão do
acusado do crime (questão diretamente influente na hipótese do
estudo); f) Bairro (também diretamente influente na hipótese do
estudo); g) Coincidência entre local da prisão e sede da boca de
fumo (dado analisado de forma adicional); h) tipo penal de
enquadramento (para identificação do tipo de tráfico apurado); i)
correlação com outros crimes (questão influente na hipótese); j)
espécie(s) de droga(s) apreendidas (dado adicional à
argumentação); e, k) Presença de indicativos de consumo ou de
comércio (conforme critérios adiante enunciados).

3
A denúncia é um documento escrito que dá origem ao processo penal. Por ser um
pedido formal, é classificada, também, como petição inicial do processo criminal.
252
Após esta tabulação, os dados foram sujeitos a
procedimentos descritivos e comparativos, conforme os resultados
que se encontram dispostos na seção seguinte, sempre, voltados à
verificação dos postulados inicialmente descritos em torno dos
estudos de D’élia Filho (2014).

4 DOS RESULTADOS
Por uma opção didática e organizacional, os resultados da
pesquisa foram dispostos em subseções separadas, para melhor
compreensão dos leitores a respeito de cada ponto analítico sujeito
ao processo de verificação.

4.1 DO PERFIL DOS CRIMES DE TRÁFICO


O gráfico abaixo expõe o perfil dos crimes de tráfico
denunciados pelo Ministério Público em Benevides, ao longo do ano
de 2015.
GRÁFICO 1 – Tipos penais identificados nas denúncias por tráfico de
drogas (pautadas na lei n. 11.343/06) havidas no Município de
Benevides-PA, no ano de 2015.

Fonte: Dados fornecidos pelo Ministério Público do Estado do Pará


em Benevides-PA.

253
Como se constata, das 80 denúncias, 56 (70,00% do total)
foram classificadas sob a espécie criminosa prevista no art. 334, da
Lei n. 11.343/06, a espécie mais comum de enquadramento legal.
De forma estatisticamente menos relevante (p-valor<0,05),
constou-se que foram encontrados 21 casos (26,25% do total) com
enquadramento mútuo na espécie legal do art. 33
concomitantemente com o Art. 355, da mesma lei (associação para o
tráfico); 1 caso (1,25% do total) tipificado somente na hipótese de
associação (art. 35); 1 caso (1,25% do total) classificado na hipótese

4
Art. 33. Importar, exportar, remeter, preparar, produzir, fabricar, adquirir, vender,
expor à venda, oferecer, ter em depósito, transportar, trazer consigo, guardar,
prescrever, ministrar, entregar a consumo ou fornecer drogas, ainda que
gratuitamente, sem autorização ou em desacordo com determinação legal ou
regulamentar: Pena - reclusão de 5 (cinco) a 15 (quinze) anos e pagamento de 500
(quinhentos) a 1.500 (mil e quinhentos) dias-multa.
§ 1o Nas mesmas penas incorre quem: I - importa, exporta, remete, produz, fabrica,
adquire, vende, expõe à venda, oferece, fornece, tem em depósito, transporta, traz
consigo ou guarda, ainda que gratuitamente, sem autorização ou em desacordo com
determinação legal ou regulamentar, matéria-prima, insumo ou produto químico
destinado à preparação de drogas; II - semeia, cultiva ou faz a colheita, sem
autorização ou em desacordo com determinação legal ou regulamentar, de plantas
que se constituam em matéria-prima para a preparação de drogas; III - utiliza local ou
bem de qualquer natureza de que tem a propriedade, posse, administração, guarda
ou vigilância, ou consente que outrem dele se utilize, ainda que gratuitamente, sem
autorização ou em desacordo com determinação legal ou regulamentar, para o
tráfico ilícito de drogas. § 2o Induzir, instigar ou auxiliar alguém ao uso indevido de
droga: (Vide ADI nº 4.274) Pena - detenção, de 1 (um) a 3 (três) anos, e multa de
100 (cem) a 300 (trezentos) dias-multa. § 3o Oferecer droga, eventualmente e sem
objetivo de lucro, a pessoa de seu relacionamento, para juntos a consumirem: Pena -
detenção, de 6 (seis) meses a 1 (um) ano, e pagamento de 700 (setecentos) a 1.500
(mil e quinhentos) dias-multa, sem prejuízo das penas previstas no art. 28. § 4o Nos
delitos definidos no caput e no § 1o deste artigo, as penas poderão ser reduzidas de
um sexto a dois terços, vedada a conversão em penas restritivas de direitos, desde
que o agente seja primário, de bons antecedentes, não se dedique às atividades
criminosas nem integre organização criminosa. (Vide Resolução nº 5, de 2012)
5
Art. 35. Associarem-se duas ou mais pessoas para o fim de praticar, reiteradamente
ou não, qualquer dos crimes previstos nos arts. 33, caput e § 1o, e 34 desta Lei: Pena -
reclusão, de 3 (três) a 10 (dez) anos, e pagamento de 700 (setecentos) a 1.200 (mil e
duzentos) dias-multa. Parágrafo único. Nas mesmas penas do caput deste artigo
incorre quem se associa para a prática reiterada do crime definido no art. 36 desta
Lei.
254
do Art. 35 c/c Art. 40 (agravante imputada em razão da pessoa ter
sido presa em tentativa de tráfico interestadual, com o intermédio
da Polícia Rodoviária Federal, que detém uma barreira municipal); e,
finalmente, 1 caso (1,25% do total), tipificado com o Art. 33,
concomitantemente com os Arts. 35 e 34 6 (artifícios de
fabricação/produção).
Em relação a este último caso, uma observação deve ser
feita: trata-se de situação excepcional em que houve a intervenção
da Polícia Federal, que, após tomar ciência do transporte de
considerável carga de droga, perseguiu um veículo até Benevides-
PA, cidade em que estourou uma residência onde havia uma nítida
sede de refino e distribuição de entorpecentes. Trata-se de uma
situação atípica, em verdade, em relação a todas as demais, por se
atingir um grupo de traficantes incumbido da atividade de produção
e distribuição. Por outro lado, embora seja um caso relativamente
significativo em relação aos demais, a situação, entretanto, nem de
longe chega a caracterizar o que D’élia Filho (2014) denomina como
oligopólio do tráfico de drogas.
Por conseguinte, dos 80 casos, somente 15 (18,75% do total,
ou seja, uma diferença estatisticamente relevante de casos [p-
valor<0,05]) apresentou associação com algum outro crime externo
às disposições da lei n. 11.343/06. Dentre estes, em uma situação
houve a tentativa de corrupção dos agentes policiais (1,25% dos
casos); em 2, houve a caracterização de corrupção de menores, Art.
244-B7, do Estatuto da Criança e do Adolescente – o ECA, Lei n.

6
Art. 34. Fabricar, adquirir, utilizar, transportar, oferecer, vender, distribuir, entregar
a qualquer título, possuir, guardar ou fornecer, ainda que gratuitamente, maquinário,
aparelho, instrumento ou qualquer objeto destinado à fabricação, preparação,
produção ou transformação de drogas, sem autorização ou em desacordo com
determinação legal ou regulamentar: Pena - reclusão, de 3 (três) a 10 (dez) anos, e
pagamento de 1.200 (mil e duzentos) a 2.000 (dois mil) dias-multa.
7
Art. 244-B. Corromper ou facilitar a corrupção de menor de 18 (dezoito) anos, com
ele praticando infração penal ou induzindo-o a praticá-la: (Incluído pela Lei nº 12.015,
de 2009) Pena - reclusão, de 1 (um) a 4 (quatro) anos. (Incluído pela Lei nº 12.015, de
2009) § 1o Incorre nas penas previstas no caput deste artigo quem pratica as
condutas ali tipificadas utilizando-se de quaisquer meios eletrônicos, inclusive salas
de bate-papo da internet. (Incluído pela Lei nº 12.015, de 2009) § 2o As penas
255
8.069/90 (o que é até incomum, dada a preferência pela utilização
de jovens como aviões do tráfico [RODRIGUES, 2004], o que,
entretanto, poderia ser identificado em posterior estudo envolvendo
as representações com base no ECA); e, em 1 caso o tráfico foi
identificado após a ocorrência de um furto (1,25% do total).
Além daqueles, merece destaque que em 6 situações (7,5%
do total) houve a identificação do crime de porte ilegal de arma de
fogo (Art. 168, da Lei n. 10.826/03), ao passo que em 1 caso (1,25% do
total) houve a cumulação de porte ilegal com corrupção de
menores. Estas últimas ocorrências, ínfimas em relação ao total,
confirmam a afirmação de D’élia Filho (2014, p. 11-12) de que os
criminosos são “(...) autuados e presos pela conduta descrita como
tráfico de drogas (...), na grande maioria dos casos, detidos com
drogas e sem portar nenhuma arma”. Isso já denota uma primeira
confirmação da hipótese inicial do estudo.

4.2 DAS DROGAS APREENDIDAS E DAS CARACTERÍSTICAS


INERENTES À APREENSÃO
Por sua vez, a tabela abaixo demonstra as espécies de
apreensões de drogas relatadas no teor das denúncias analisadas.
TABELA 1 – Das espécies de drogas apreendidas, conforme
denúncias protocoladas pelo Ministério Público em Benevides, no
ano de 2015.

previstas no caput deste artigo são aumentadas de um terço no caso de a infração


cometida ou induzida estar incluída no rol do art. 1o da Lei no 8.072, de 25 de julho
de 1990. (Incluído pela Lei nº 12.015, de 2009).
8
Art. 16. Possuir, deter, portar, adquirir, fornecer, receber, ter em depósito,
transportar, ceder, ainda que gratuitamente, emprestar, remeter, empregar, manter
sob sua guarda ou ocultar arma de fogo, acessório ou munição de uso proibido ou
restrito, sem autorização e em desacordo com determinação legal ou regulamentar:
Pena – reclusão, de 3 (três) a 6 (seis) anos, e multa. (...).
256
Fonte: Dados fornecidos pelo Ministério Público do Estado do Pará.

Como se vê, as apreensões de Oxi (Subproduto da pasta


base de cocaína, mais barato que o Crack, por conglobar a mistura
de substancias mais triviais – e, mais nocivas ao organismo – como
cal e querosene [Pereira, 2012]) seja isoladamente, seja em conjunto
com outras substâncias, ainda representa uma porcentagem mínima
perto das demais no município: 14,25% do total de apreensões. Já as
apreensões de cocaína e maconha (drogas mais presentes no
cotidiano paraense) representaram (juntas ou separadas, e,
separadamente das apreensões de Oxi) 86,25% do total das
apreensões (diferença estatisticamente relevante [p-valor<0,05]).
Embora haja uma proximidade entre as apreensões de
cocaína (43,5% dos casos) e maconha (32,5% dos casos), é de se
ressaltar que a quantidade de apreensões da primeira (encontrada
em 34 denúncias de forma isolada, e, em 9, de forma conjunta com
a maconha, representando um total de 53,75% das denúncias
analisadas) constitui um dado bastante alarmante sobre o
município: o fato de que a cocaína não detém produtos base no
Brasil, bem como, no máximo é refinada nesta região (como foi
identificado no caso isolado relatado na subseção anterior),
confirma-se uma das suspeitas a respeito do papel do município no
mercado do tráfico, apontada no tópico metodológico, a respeito da
região configurar uma possível rota da droga, que, flexivelmente,
pode ser utilizada como moeda de pagamento pelos próprios
serviços de transporte para a região e, dela, para outros pontos da
escalada global (como o aeroporto internacional de Belém ou sua
257
zona portuária), sendo assim, comercializada como excedente no
local (afinal, o capital da cidade não permite sua classificação como
destino final de uma droga que atinge valores altos noutros
continentes [SAVIANO, 2014]).
Além disso, deve-se ressaltar que, as apreensões com
quantidades relativamente pequenas de drogas (aqui estimadas em
até 10g, seja de cocaína, seja de maconha) ocorreu somente em 5
(6,25%) dos 80 casos denunciados, que, apesar de terem originado a
propositura de denúncias pelo Ministério Público, após conclusão de
inquérito policial, ainda assim, poderiam configurar situações de
mero uso pessoal do entorpecente, ensejando, adiante aplicação
(conforme eventualmente apurado na instrução criminal) da norma
do art. 289, da lei 11.343/06.

4.3 DO PERFIL GEOGRÁFICO DOS CRIMES DE TRÁFICO DE DROGAS


EM BENEVIDES-PA.

9
Art. 28. Quem adquirir, guardar, tiver em depósito, transportar ou trouxer consigo,
para consumo pessoal, drogas sem autorização ou em desacordo com determinação
legal ou regulamentar será submetido às seguintes penas: I - advertência sobre os
efeitos das drogas; II - prestação de serviços à comunidade; III - medida educativa de
comparecimento a programa ou curso educativo. § 1o Às mesmas medidas submete-
se quem, para seu consumo pessoal, semeia, cultiva ou colhe plantas destinadas à
preparação de pequena quantidade de substância ou produto capaz de causar
dependência física ou psíquica. § 2o Para determinar se a droga destinava-se a
consumo pessoal, o juiz atenderá à natureza e à quantidade da substância
apreendida, ao local e às condições em que se desenvolveu a ação, às circunstâncias
sociais e pessoais, bem como à conduta e aos antecedentes do agente. § 3o As penas
previstas nos incisos II e III do caput deste artigo serão aplicadas pelo prazo máximo
de 5 (cinco) meses. § 4o Em caso de reincidência, as penas previstas nos incisos II e III
do caput deste artigo serão aplicadas pelo prazo máximo de 10 (dez) meses. § 5o A
prestação de serviços à comunidade será cumprida em programas comunitários,
entidades educacionais ou assistenciais, hospitais, estabelecimentos congêneres,
públicos ou privados sem fins lucrativos, que se ocupem, preferencialmente, da
prevenção do consumo ou da recuperação de usuários e dependentes de drogas. § 6o
Para garantia do cumprimento das medidas educativas a que se refere o caput, nos
incisos I, II e III, a que injustificadamente se recuse o agente, poderá o juiz submetê-
lo, sucessivamente a: I - admoestação verbal; II - multa. § 7o O juiz determinará ao
Poder Público que coloque à disposição do infrator, gratuitamente, estabelecimento
de saúde, preferencialmente ambulatorial, para tratamento especializado.
258
No que tange a um aspecto geográfico, tem-se que as
denúncias podem ser classificadas conforme áreas geográficas de
distribuição. Deve-se ressaltar que, por uma opção metodológica, a
distribuição diferenciou algumas localidades que, embora façam
parte de um distrito do Município (como é o caso do Murinim e da
Piçarreira), em verdade, são tratados como bairros, considerando
sua área geográfica bem definida e isolada.
GRÁFICO 2 – Concentração de denúncias de tráfico de drogas, por
área geográfica, havidas no Município de Benevides-PA, no ano de
2015.

Fonte: Dados fornecidos pelo Ministério Público do Estado do Pará.


O gráfico merece alguns esclarecimentos, ao passo.
Primordialmente, a forte presença de denúncias no Centro
da cidade (que pode ser elencado com uma área um pouco mais
desenvolvida em relação às demais), se dá em função da presença
de invasões (ou, aglomerados subnormais), bem como, bairros
populares em sua área, que, numa pormenorização dos casos,
acabaram por concentrar as ocorrências.

259
Por sua vez, o bairro apontado como campeão de
ocorrências (o Bairro do Maguari) concentrou grande parte de suas
denúncias numa área de uma invasão surgida, justamente, no ano
de 2015, a qual, atualmente, não mais existe, após reintegração de
posse efetivada com o auxílio da Vara Agrária no ano de 2016.
No mais, constata-se uma forte coincidência com áreas de
aglomerados subnormais, nos casos em que houve a identificação
da sede da atividade de tráfico (ou, conforme se prefira, da boca de
fumo), o que se evidenciou em 56,25% dos casos, ao passo que, nas
demais situações (43,75%), evidenciou-se a venda em praças ou em
áreas de grande tráfego (como a BR-316 e vias de significativa
circulação nas áreas acima discriminadas).
Com isso, confirma-se, novamente, a hipótese de D’élia Filho
(2014), a respeito da coincidência do tráfico em áreas mais pobres.
Não, porque o tráfico só exista nestas, senão, em razão de o tráfico
ser mais combatido em seu teor. A circulação comercial pelas vias da
cidade, aliás, acima mencionada, demonstra que a droga transita
pela cidade, certamente, atingindo todos os estratos sociais e
bairros ali presentes.
Inclusive, deve-se ressaltar que não houve qualquer caso de
identificação de tráfico dentro dos condomínios fechados da cidade,
o que, no dizer de Volochko (2015), não se dá em razão de uma
segregação que a lógica territorial dos espaços fechados impõe com
menor acesso à polícia e menor visibilidade criminal.
Como afirma D’élia Filho (2014), “a polícia não enxerga um
palmo além do espaço público”, o que, nos números acima, parece
encontrar guarida.

4.4 DO PERFIL DOS ACUSADOS DE CRIMES DE TRÁFICO DE DROGAS


EM BENEVIDES-PA.
Por fim, realizou-se uma análise a respeito dos acusados
identificados nas 80 denúncias coletadas, o que, justamente,
configurou um ponto central na verificação da hipótese em estudo
no presente trabalho.

260
Foram identificados 109 acusados, dos quais 93 eram do
sexo masculino (85,32%) e 16 do sexo feminino (14,68%). Entre
aquelas mulheres, apenas 4 (quatro) foram presas
desacompanhadas por homens, sendo que, em somente 1 (um) caso,
a acusada se encontrava em trânsito com drogas, ao passo que nos
outros 3 (três) as mesmas armazenavam as substancias ilícitas em
uma sede (residência). Nos demais casos, as mulheres foram
acusadas por fatos cometidos em conjunto com homens.
Num primeiro momento, os números relativos às mulheres
parecem caminhar em sentido contrário aos números nacionais que
apontam um recrudescimento do envolvimento daquelas com a
atividade de tráfico de drogas (QUEIROZ, 2016).
Porém, em comparação realizada a partir de dados do
sistema carcerário paraense (SUSIPE, 2017), constata-se que, para
cada mulher, há 5,4 homens presos, ao passo que em Benevides-PA,
para cada mulher, há 5,8 homens presos. Resta demonstrado, em
verdade, que há uma consonância entre o cenário local e o regional.
De todo modo, porém, recomenda-se um aprofundamento
de futuros estudos nesta perspectiva de gênero, para identificação
de eventualidades quanto aos números em questão.
Quanto ao aspecto cor da pele, no entanto, os dados
espelham claramente os indicativos de seletividade apontados por
D’élia Filho (2014), em seus estudos: conforme levantamentos
realizados com o auxílio do sistema INFOPEN, excetuados 23
acusados cuja cor não foi identificada nas denúncias (nem constam
em sistema - talvez, porque os denunciados não tenham sido presos
preventivamente), constatou-se um total de 6 (seis) brancos, 14
(quatorze) pretos e 66 (sessenta e seis) pardos, dentro de um
quantitativo de 86 (oitenta e seis) acusados autodeclarados.
Considerando o sistema classificatório, atualmente utilizado
pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE, 2013), que
congloba pretos e pardos sob a categoria negros, levando em conta
aspectos de classificação racial, tem-se que, entre os identificados,
80 acusados eram negros (93,02%) e somente 6 (6,98%) eram
brancos. Tais dados espelham uma desproporcionalidade não só em

261
relação à população paraense, como, à própria população carcerária
do Estado.
Conforme o Censo/2010 do IBGE (2013), 21,8% da população
do Estado do Pará se autodeclarou como pessoa de cor branca, 7,2%
de cor preta, 69,5% de cor parda e 1,5% de demais raças/cores.
Assim, o Pará apresentou o maior percentual nacional de pessoas
negras do país: 76,7%. Já conforme a Superintendência do Sistema
Penitenciário do Estado do Pará (SUSIPE, 2017), em junho/2017, sem
distinção quanto ao crime cometido constatou-se a prevalência de
63,87% de encarcerados pardos, 19,42% de negros, 14,32% de
brancos e 2,37% de outras etnias.
Em outras palavras, enquanto o percentual de presos revela
(conforme os critérios de raça do IBGE [2013]) um percentual de
83,29% de encarcerados negros, em Benevides-PA, o combate ao
tráfico levou ao cárcere 93,02% de negros.
Em contrapartida, enquanto no sistema carcerário há 14,32%
de encarcerados brancos (SUSIPE, 2017), percentual já baixo em
relação ao total da população paraense, que detém 21,80% de
pessoas autodeclaradas brancas (IBGE, 2013), em Benevides-PA,
constatou-se um percentual de somente 6,98% de acusados
autodeclarados brancos.
Veja-se o comparativo dos percentuais no gráfico abaixo.
GRÁFICO 3 – Comparativo, quanto ao aspecto raça, dos percentuais
de acusados nas denúncias analisadas, em relação à população
paraense e a população carcerária paraense.

262
2,37%
OUTRAS ETNIAS 1,50%
0%

14,32%
BRANCOS 21,80%
6,98%

83,29%
NEGROS (PARDOS+PRETOS) 76,70%
93,02%

ENCARCERADOS NO PARÁ ESTADO DO PARÁ AMOSTRA LOCAL (DENÚNCIAS DE TRÁFICO

Fonte: Ministério Público do Estado do Pará, IBGE (2013) e SUSIPE


(2017).
Os dados são mais expressivos ainda, em relação à hipótese
levantada por D’élia Filho (2014), se levada em conta a situação
relativa à ocupação dos acusados. Entre os 109 acusados, somente 8
(oito) tiveram profissão declarada nas denúncias.
Esse baixo índice de informações profissionais pode ser
explicado pelas seguintes hipóteses: a) ou a profissão não foi
declarada em qualquer momento do inquérito ou fase
investigatória, não integrando assim a denúncia – hipótese bastante
estranha e que, no mínimo, denota falha das instituições envolvidas
–; b) a profissão não se demonstrou interessante aos órgãos de
persecução criminal (a ponto de não ser sequer apurada); c) ou,
ainda, esta, simplesmente não existia, sendo assim, o acusado
classificável como desempregado ou/e não inserido no mercado
formal de trabalho.
No entanto, cabe o aprofundamento da questão em futuros
estudos.
Entre os que detiveram profissão identificada, constata-se
que todos apresentavam a condição, ou de estudantes, ou de dona
de casa, ou de profissionais comuns e livres da exigência de níveis
educacionais acima do médio (quando muito): 1 profissional do lar,

263
2 estudantes, 1 aposentado (sem profissão anterior identificada), 1
motorista (moto-taxista), 1 pedreiro, 1 serrador e 1 vendedor.
Este último dado aponta para o que D’élia Filho (2014, p. 30)
consignava, ao afirmar que “(...) o sistema penal exercita um poder
de vigilância disciplinar, de uso cotidiano, nas áreas carentes”, o
qual “(...) traduz o poder de controle exercido sobre as populações
pobres” (2014, p. 31), dificilmente atingindo membros do tráfico que
detenham um padrão mais elevado, em termos econômicos (e
políticos).
Em linhas mais diretas, D’élia Filho (2014, p. 129) assevera
que “(...) a repressão estatal se concentra na parte mais débil do
mercado ilícito, ou seja, naquelas pessoas que não podem oferecer
resistência aos comandos de prisão”.

5 CONSIDERAÇÕES FINAIS
Como tratado nas linhas acima, o tráfico de drogas se
afigura como uma atividade substancialmente presente em qualquer
extrato social, e que, em pleno século XXI, se comporta sob uma
estrita lógica de mercado, manifestando compartimentalizações
que, conforme apontado por D’élia Filho (2014), imunizam os
detentores do lucro num nível social mais elevado, expondo, de
outro lado, os pequenos traficantes-revendedores.
Com isso, o autor propôs (no contexto do Rio de Janeiro)
que a repressão da declarada guerra às drogas recairia
substancialmente sobre as populações mais afastadas das fileiras do
mercado formal e da economia, numa verdadeira política de
penalização da pobreza (D’ÉLIA FILHO, 2014).
Tal lógica, como demonstrado pelos dados acima, também
acabou por explicar a realidade punitiva do tráfico identificado no
Município de Benevides-PA, uma vez que, por intermédio da ação
seletiva praticada pelos órgãos do sistema judiciário apresentou os
mesmos aspectos de seletividade voltados a acionistas do nada, e,
apenas em um caso (e sob a interferência da polícia federal) acabou
por atingir um grupo que atuava acima da atividade básica de
revenda local de entorpecentes.

264
Disto tudo, é plausível a conclusão de que a repressão ao
tráfico ainda segue uma lógica meramente repressiva, que levou aos
gabinetes ministeriais e judiciais, tão somente, casos relativos a
pequenos traficantes de áreas pobres (e estigmatizadas), excluídos
do mercado formal de trabalho (e, a quem, o tráfico certamente se
afigurou como meio de viver ou sobreviver numa sociedade
impelida pelo consumo [BAUMAN, 2001]) e, nitidamente, marcados
por uma questão racial historicamente imbrincada nas práticas
político-administrativas (WACQUANT, 2015).
Confirmou-se, portanto, a hipótese do estudo.
Certamente, a despeito da clareza dos resultados do
comparativo, é prudente um aprofundamento dos dados, tanto em
termos históricos, quanto no que toca a certas variáveis de gênero e
relativas à posição social dos acusados, assim como, no que se
refere às práticas policiais para identificação dos reputados
criminosos.
Igualmente, recomenda-se aos órgãos envolvidos com a
persecução criminal local a adoção de técnicas de inteligência em
segurança pública para uma melhor compreensão do tráfico
municipal (integrado, como visto, a uma escala global), não somente
para seu efetivo combate, mas, sobretudo, para identificação de
áreas de consumo e, consequentemente, tratamento populacional
paralelo à consolidação de medidas educacionais, dentre outras
políticas públicas cabíveis (WEIGERT, 2010).
Afinal, o impulso consumidor de entorpecentes espelha
raízes muito mais profundas do que o simples desejo de embriaguez,
o que, uma vez ignorado (como tem sido comum) pela repressão,
decerto, apenas auxiliará no superencarceramento de frações
significativas da população, que encontrou no tráfico (talvez, da
mesma maneira que os vitimados pelo vício) uma maneira de
continuar caminhando numa sociedade de costumes cada vez mais
confusos e segregadores.

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Leme: Editora J. H. Mizuno, 2014.

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Jurisdição: Levantamento dos Presos Provisórios do País e Plano de
Ação dos Tribunais. 1. Ed. Brasília: CNJ, 2017.

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sociedade contemporânea. 1. Ed. Rio de Janeiro: Revan, 2008.

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Sindical Complexa e Ameaça Transnacional. 1. Ed. Leme: J. H.
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268
TRÁFICO DE DROGAS E SÉCULO XXI: UMA RECONSTRUÇÃO
GENEALÓGICA

Roberto Magno Reis Netto


Clay Anderson Nunes Chagas

RESUMO: O presente trabalho se propôs a realização de uma


genealogia do tráfico de drogas, na tentativa de desvelar as razões e
fundamentos das políticas proibitivas e intervenções repressivas,
bem como, entender os motivos político-econômicos que
determinaram seu surgimento histórico, que, uma vez conjugados,
ocasionaram a atual formatação do que se pode denominar como
tráfico de drogas. Para tanto, o estudo se valeu de uma pesquisa
bibliográfica e documental, pautada no método hermenêutico-
dialético. Como resultados, constatou-se que o tráfico de drogas,
em qualquer de seus possíveis níveis, representa um fato social que
reproduz a lógica capitalista que lhe originou, sendo análoga a uma
atividade comercial (uma empresa, um sujeito ou conjunto de
sujeitos atuantes no mercado) que lucra em função da proibição que
recaiu sobre a mesma (determinada por interesses econômicos e de
grupos hegemônicos dos Estados-Nação), em razão das
oportunidades que uma sociedade individualizada e preparada para
o consumo pode oferecer, e, decerto, que se vale de estratégias que
a ilicitude lhe impõe em busca da superação dos obstáculos que se
opõe a sua liberdade de ação.

PALAVRAS-CHAVE: TRÁFICO DE DROGAS. GENEALOGIA.


PROIBICIONISMO.

ABSTRACT: The present work proposes the realization of a


genealogy of drug trafficking, in an attempt to unveil the reasons
and foundations of prohibitive policies and repressive interventions,
as well as to understand the political-economic motives that
determined its historical emergence, which, in turn, have led to the
current formatting of what can be termed drug trafficking.

269
Therefore, the study was based on a bibliographical and
documentary research, based on the hermeneutic-dialectic method.
As a result, it was found that drug trafficking, at any of its possible
levels, represents a social fact that reproduces the capitalist logic
that originated it, being analogous to a commercial activity (a
company, a subject or group of subjects acting in the (which is
determined by the economic interests and hegemonic groups of the
nation-states), because of the opportunities that an individualized
and prepared society can offer, and, of course, a valley of strategies
that illicitness imposes on him in search of overcoming the obstacles
that oppose his freedom of action.

KEYWORDS: DRUG TRAFFICKING. GENEALOGY. PROHIBITIONISM.

1 INTRODUÇÃO
Neste início do Século XXI, o debate relativo ao tráfico de
drogas e ao combate de organizações criminosas que o exercem
vivencia uma difícil dicotomia que não pode ser ocultada por
qualquer análise: a despeito dos esforços públicos e privados
realizados (seja numa escala internacional, seja em níveis nacionais
ou locais) para enfrentamento dos problemas decorrentes do
comércio e consumo de substâncias capazes de alterar a
normalidade dos sentidos, ainda assim, há um notado aumento do
consumo e do tráfico, que desponta como uma das mais lucrativas
atividades econômicas do planeta.
Esta constatação, por sua vez, levanta dúvidas a respeito da
eficácia das medidas desenvolvidas até o presente momento para
combate dessa atividade, o que, por sua vez, traz à tona uma série
de outros questionamentos a respeito da verossimilhança do
próprio discurso oficial que envolve o tema, da classificação de
substâncias entorpecentes a seus critérios, da efetividade da política
de guerra às drogas – que tem se manifestado como política pública
hegemônica no enfrentamento do problema -, de alternativas às
políticas proibitivas, etc.

270
Retornar às origens do problema, em busca da
reconstituição de suas raízes e descontinuidades históricas,
portanto, coloca-se como uma atividade fundamental a ser firmada
por qualquer estudo que busque tratar do tema, sob pena de
constituir apenas mais uma análise meramente reprodutiva dos
discursos já consolidados e disseminados pelo senso comum.
Diante disto, o presente trabalho se propôs a realização de
uma genealogia do tráfico (FOUCAULT, 2015), na tentativa de
desvelar as razões e fundamentos das políticas proibitivas e
intervenções repressivas, bem como, entender os motivos político-
econômicos que determinaram seu surgimento histórico, que, uma
vez conjugados, ocasionaram a atual formatação do que se pode
denominar como tráfico de drogas.
A importância do debate se revela em múltiplas
perspectivas: primeiramente, num ponto de vista teórico, constituiu
um esforço de compreensão histórica das atuais características do
consumo e tráfico de entorpecentes. Sob um ponto de vista
acadêmico, representou a conjugação de teorias e estudos já
desenvolvidos em torno do tema, possibilitando uma aproximação
de seu atual estado da arte. E, finalmente, o estudo representou a
formatação uma base preliminar para posteriores análises em torno
do assunto, ou seja, um substrato analítico que permite, ao fim, a
continuidade de outros trabalhos científicos em torno de seu eixo-
central.
Para tanto, o estudo foi dividido em quatro seções: a) uma
primeira, que explica os necessários contornos metodológicos
adotados; b) uma segunda, que perfez uma aproximação do tema
diante das transformações mundiais do capitalismo, sobretudo, a
partir dos meados do Século XX; c) uma terceira, que explicou as
transformações político-econômicas que induziram às
transformações atuais do tráfico no mundo; e, d) uma última seção
que se ocupou dos caminhos político-econômicas que induziram as
transformações atuais do tráfico no Brasil.
Como é natural de se esperar na ciência social, deve-se
advertir que o estudo se atém a certos conjuntos teórico-

271
metodológicos específicos, que, obviamente, não se prendem a uma
ou outra posição política específica, embora, em alguns momentos,
a análise até possa se alinhar a certos posicionamentos e discursos
existentes (afastando-se, obviamente de outros).
Ainda assim, que fique claro: o estudo não se afilia a
qualquer corrente política atual sobre as drogas, senão, constitui
uma tentativa de reconstrução postulados sobre o tema (o que, por
óbvio, ocasionará uma aproximação com algumas daquelas teorias
que realizam esta mesma atividade teórica genealógica, como a
criminologia crítica, por exemplo). Isto é devidamente explicitado a
partir da metodologia adotada, conforme se vê no tópico seguinte.

2 DOS MÉTODOS E TÉCNICAS


Como questão de importante transparência teórica, é
importante frisar que o estudo adotou o método (ou seja, caminho
teórico, conjunto de proposições que especificam uma visão de
mundo [MEZZAROBA; MONTEIROS, 2014]) denominado
hermenêutico-dialético (MINAYO, 2002).
Este método toma a linguagem como elemento central da
análise das ciências sociais, considerando, entretanto, que o agir
comunicativo dos sujeitos (sejam eles objetos da pesquisa, outros
autores, ou, até mesmo, o próprio pesquisador) se dá sob uma
comunicação sistematicamente perturbada, ou seja, que é
influenciada por questões ideológicas e sociais, bem como, é
determinada por diferentes contextos de tempo-espaço, sendo
assim, passível de constituir uma linguagem privada de liberdade -
ou alienada (STEIN, 1983).
Esta constatação, por sua vez, torna imperiosa a
compreensão dos contextos históricos e estruturais dos discursos e
dados colhidos, bem como, determina uma crítica sobre os
resultados encontrados e sobre a própria posição científica adotada
pelo pesquisador, num movimento estritamente dialético (MINAYO,
2002). Objetiva, assim, pensar e repensar não só as hipóteses iniciais
de uma análise, mas, suas conclusões e, até mesmo, os pressupostos

272
subjetivos que influenciam a posição do cientista social (MINAYO,
2002).
Sua adoção, ao passo, justificou-se diante da necessidade já
enunciada ao início deste estudo: superar os discursos legais
consolidados em torno do tráfico de drogas, num verdadeiro
esforço de conhecimento de suas raízes e descontinuidades
históricas (FOUCAULT, 2015), o que, por sua vez, dependia de uma
crítica à história oficial do tráfico e de uma reanálise do substrato
teórico dos estudos existentes.
Por sua vez, o estudo se valeu de uma técnica de pesquisa
bibliográfica (uma vez que se debruçou sobre a literatura a respeito
do tema [MEZZAROBA; MONTEIROS, 2016]) e documental (já que
analisou documentos oficiais como relatórios, leis e notícias, ou seja,
suportes que carregam informações não trabalhadas sob um critério
necessariamente científico e que foram classificados e criticados
conforme o objetivo acima eleito [MARTINS; THEÓPHILO, 2016]).
A análise, por sua vez, confrontou as relações dissimétricas
de cada momento histórico de criação e consolidação das políticas
proibitivas, com estudos teóricos que revelavam suas razões ocultas,
buscando esclarecer os motivos pelas quais as políticas de
enfrentamento do consumo e comércio de entorpecentes se
mostraram ineficazes na atualidade.
Contudo, um esforço preliminar mais amplo, a respeito da
própria base de desenvolvimento do capitalismo e sua expansão,
afigurou-se necessário à explicação do caráter consumerista que
permeia o tráfico de drogas neste início de Século XXI.
Em razão disso, o tópico seguinte se desenvolveu como um
esforço de exposição de questões relativas à expansão do
capitalismo de consumo, desde meados do Século XX, e
consequências do mesmo na atualidade, como a individualização
dos cidadãos, a segregação da pobreza, o super-encarceramento
como política pública de enfrentamento ao crime e as estratégias de
resistência àquela política. Como se verá a seguir, estes fenômenos,
historicamente delineados no contexto da pós-modernidade, em
verdade, representaram a própria base em que se assentou a

273
atividade que hoje se pode, além de qualquer texto legal,
denominar tráfico de drogas.

3 SOCIEDADE E CRIMINOLOGIA DA ATUALIDADE


O século XX representou um dos mais importantes marcos
históricos para a compreensão da atualidade do tráfico de drogas,
das políticas estatais e fenômenos criminais que o circundam.
Segundo Araújo (2012) e Pereira (2012), embora o consumo de
substâncias capazes de alterar a normalidade dos sentidos seja um
fato tão longínquo quanto à própria história da humanidade, é
inegável que todo o debate em torno do comércio de drogas e da
política proibicionista adquiriu contornos diferenciados decorrentes
da expansão do modelo capitalista de consumo e das ideias
criminológicas vigentes desde a última virada de século
(RODRIGUES, 2004; D’ÉLIA FILHO, 2014).
Para tanto, é necessário voltar os olhos para um período um
pouco mais distante nesta série histórica, analisando as
transformações político-econômicas ocorridas a partir de 1950 –
determinantes à formação dos atuais padrões de tratamento do
crime.
Garland (2008) afirma que o período entre 1950 e 1973
registrou um breve progresso dos países-modelo da economia
liberal (especialmente, Inglaterra e Estados Unidos), com o advento
de inovações tecnológicas que permitiram o surgimento de técnicas
de produção em massa e, com isso, uma transformação dos hábitos
de consumo e comercialização. Este contexto, mais tarde, pautaria
um novo modelo global de produção, exportado a vários países,
inclusive, da América Latina (ANITUA, 2015).
Deste modo, “O capitalismo monopolista se reinventou na
forma de capitalismo de consumo” (GARLAND, 2008, p. 188), e, os
anos posteriores à Segunda Guerra Mundial assinalaram o
abandono do paradigma Fordista de produção, “fechado, integrado,
centrado na fábrica”, seguido da adoção um modelo mais aberto,
“descentralizado e intensivo em serviços” (WACQUANT, 2005, p. 69).

274
Concomitantemente, este progresso capitalista também
propiciou um consenso político a respeito de investimentos sociais,
até mesmo, em comunidades mais pobres, decorrente da inserção
de uma grande gama de cidadãos no debate democrático e do
mercado de consumo (ESPING-ANDERSEN, 1991), assim como, em
razão da ideia de que o aumento dos indicadores sociais eliminaria a
criminalidade e outros males. Este foi o ambiente de surgimento do
Welfare State (GARLAND, 2008), caracterizado por um notável
crescimento da máquina estatal para o atendimento de inúmeras
demandas sociais.
No entanto, esse momento de progresso não sobreviveu à
primeira metade da década de 1970 e ao advento de novas crises
econômicas que surgiriam no horizonte (especialmente, a crise
mundial do petróleo), ocasião em que se iniciou a ruína do
paradigma do Bem-Estar Social. Enfrentando a inflação e o
crescimento negativo, os Estados capitalistas (sobretudo, os EUA)
não mais seriam capazes de equilibrar o livre comércio com a
mesma eficiência.
Com isso, também se transformou a concepção das classes
hegemônicas a respeito da plausibilidade dos investimentos típicos
do Welfare State e sua reversão em prol da manutenção da máquina
de mercado. Diante desse quadro, abandonaram-se os
investimentos sociais, em prol de um liberalismo cada vez maior,
sem, no entanto, se promover qualquer mudança quanto ao modelo
de produção e consumo em massa surgido naquele período.
Produzir se tornou a palavra de ordem e reduzir os entraves se
tornou o objetivo da nova agenda econômica.
Associou-se à ideia de progresso a necessidade de
privatização e desregulamentação cada vez maior do mercado, sob
a ressuscitada crença neoliberal de que a livre competição
conduziria a sociedade a novos patamares evolutivos, não mais, a
partir de uma atuação coletiva, pública, senão, por intermédio do
esforço individualizado (BAUMAN, 2001, 2009), ocasionando o
progressivo surgimento de um Estado “Neo-Darwinista, que se
baseia na competição” (WACQUANT, 2015, p.31).

275
Consequentemente, para abarcar a nova lógica produtiva, as
relações de trabalho assalariado foram intensificadas em jornadas e
carga, flexibilizadas quanto aos vínculos e formas de contratação,
com forte descontinuidade dos trajetos e expectativas profissionais
(WACQUANT, 2015).
Neste mundo individualizado, onde todo o sucesso não
poderia decorrer de mais nada que não fosse o esforço pessoal, e,
mais ainda, onde a capacidade de consumo e os bens possuídos
traçariam os novos moldes de construção da personalidade de cada
um (BAUMAN, 2001, 2009), mudanças sociais significativas
passaram, também, a ocorrer.
Em decorrência disso, as famílias se transformaram: sob
relações de trabalho cada vez mais frágeis e flexíveis. Os homens
(pais) passaram a assumir maiores jornadas de trabalho ou duplo
emprego para sustento de um padrão de vida modal, ao passo que
as mulheres (as mães, historicamente tratadas como mão de obra
mais barata) se inseriam cada vez mais no mercado de trabalho
(GARLAND, 2008), também, em função de vitórias no campo dos
direitos civis (interessantes, obviamente, ao mercado) ainda
concernentes ao período do Welfare State. Com isso, as unidades
familiares se tornaram cada vez menores e constatou-se um
significativo enfraquecimento do relacionamento entre pais e filhos.
A tônica do consumo, por sua vez, que passaria a tomar o
espaço como um bem valioso e especulável (CARLOS, 2015),
ocasionou uma nova ecologia social nos centros urbanos. Ao
mesmo tempo em que a apropriação e comercialização territorial
propiciavam o lucro dos incorporadores e proprietários e a
circulação do capital, promovia, também, a supervalorização de
áreas, expulsando silenciosamente aqueles que não detivessem
condições de suportar o novo padrão de vida local (VOLOCHKO,
2015) num verdadeiro processo de remoção branca da população
mais vulnerável (OLIVEIRA J., 2014).
Este fenômeno gerou um distanciamento geográfico cada
vez maior das comunidades pobres, que passaram a ser
concentradas em bairros distantes (os subúrbios ou periferias),

276
longe dos centros de produtos e serviços, fenômeno responsável
por uma desconfiguração de laços comunitários (GARLAND, 2008;
BAUMAN, 2001; WACQUANT, 2005) e pelo rompimento de
sentimentos de pertencimento territorial (HAESBAERT, 2014),
reconstruindo-se uma identidade, daqueles contingentes
populacionais, a partir da ideia efetivada de exclusão sócio-
territorial (CLAVAL, 1999).
Por sua vez, o empoderamento de minorias (aspecto
positivo do Welfare State), proporcionou a rediscussão dos direitos
civis e uma intensificação do debate em torno dos direitos de
grupos historicamente discriminados (negros, homossexuais,
encarcerados, etc.). O ponto negativo está nessa exigência por
novos e múltiplos estatutos de direito, que importou num
enfraquecimento de códigos morais preexistentes (BAUMAN, 2009),
causando o afrouxamento de vínculos e a transformação dos sensos
comunitários anteriormente existentes (GARLAND, 2008). A ideia
tornava-se confusa e diferenciada, conforme cada grupo social.
A conjugação de tais transformações, somadas ao desejo de
consumo, cada vez mais incentivado pelo marcado (BAUMAN, 2001),
atingiria em cheio o âmbito da segurança pública, propiciando
maiores oportunidades para o crime, o aumento da população em
situação social de risco, a redução (ou eliminação) de controles
sociais informais e, diante do boom consumerista, o surgimento de
bens de consumo portáteis e de alto valor, facilmente sujeitáveis a
condutas criminosas (GARLAND, 2008).
Como resultado, houve um notável aumento da
marginalidade. Garland (2008, p. 203) ainda registra que “evidências
sugerem fortemente um liame causal entre a chegada da pós-
modernidade e a crescente suscetibilidade ao crime”, acompanhado
de um recrudescimento de “crimes contra o patrimônio, delitos
sexuais e relacionados às drogas”.
Deste modo, se entre as décadas de 1950 e 1970 o crime era
visto como uma consequência do conflito entre classes, típico de
uma criminologia crítica que o analisava como fruto de desníveis
sociais, nas décadas seguintes, ressurgiriam anteriores

277
posicionamentos conservadores e hostis, que, no momento do
declínio do Welfare State, rogariam o abandono dos investimentos
em reabilitação e combate das causas criminogênicas, seguindo-se
de um tratamento cada vez mais repressivo de condutas criminosas.
Não que as políticas do Welfare State tenham, em verdade,
propugnado avanços em prol da ressocialização de criminosos e da
diminuição de delitos (o que foi cientificamente negado nas décadas
de 1970 e 1980). Porém, como adverte Anitua (2015), o êxito do
período foi representado pela busca de uma fórmula política de
tratamento de problemas sociais e criminais.
De outro lado, também se deve ressaltar que a segurança,
no fim do Século XX, se tornou um produto disponível no mercado
de consumo, o que, somando-se aos fatores acima, ocasionou a
disseminação de empresas de segurança privada e um forte
movimento em prol da privatização de presídios, muito interessante
àqueles capazes de pagar (GARLAND, 2008; BAUMAN, 2008). Ao
passo que, como em qualquer outro campo comercial, estes novos
serviços necessitavam de uma estratégia de vendas, a qual, como
esperado, foi construída através da disseminação (com forte auxílio
da mídia) do medo e da alteridade enquanto preconceito (BAUMAN,
2008, 2009; OLIVEIRA J., 2014), que apenas retroalimentou as
políticas e teorias tradicionalistas, aqui mencionadas.
Assim, com o fim dos anos de crescimento econômico
favorável e diante dos fatores acima delineados, tornou-se mais
conveniente às elites políticas o retorno a um tratamento clássico do
delito, mais severo e gravoso, pautado em discursos
neoconservadores e neoliberais (ANITUA, 2015). Teorias pautadas no
controle social e na tolerância zero (década de 1970 em diante), ou
ainda em políticas de exceção ou emergência (marcantemente, no
século XXI) tomaram o lugar de qualquer visão (res)socializante da
figura do criminoso, renovando construções criminológicas que (à
imagem e semelhança da postura individualizada de sociedade do
século XXI) voltaram a tomar o crime como escolha exclusiva do
criminoso, que deve, assim, se sujeitar a todo o rigor penal (ANITUA,
2015).

278
As novas criminologias, portanto, ignorariam aspectos
sociais inerentes ao crime, simulando teorias que dissimulavam a
reversão de investimentos sociais e a estigmatização social. A
consequência natural deste processo foi a criminalização da pobreza
e da diferença, bem como, um super-encarceramento, que, em
termos práticos, atingiu e têm atingido somente os extratos sociais
não absorvidos pela economia de mercado do capitalismo
globalizado (GARLAND, 2008, WACQUANT, 2015).
Em defesa de uma segurança reputada pública, buscou-se a
identificação e neutralização da figura do “outro”, o inimigo
externo: o comunista, em tempos de Guerra Fria (FIGUEIREDO,
2005); o terrorista, ameaçador da democracia (ANITUA, 2015;
BAUMAN, 2008); o estrangeiro, especialmente, se adepto a religiões
não cristãs (BAUMAN, 2008); etc. Igualmente, promoveu-se a caça
ao inimigo interno, o anti-cidadão: o componente da underclass,
desempregado, sem-teto, mendigo, imigrante, e, assim,
potencialmente criminoso em sua desgraça (WACQUANT, 2005,
2015).
Institui-se uma política de Estado Prisional (GARLAND, 2008;
WACQUANT, 2015), que, da pior maneira possível, utilizou o direito
penal e o sistema judiciário para promover uma gestão populacional
dos problemas oriundos deste contexto de recrudescimento da
pobreza e desigualdade (sobretudo, os crimes): por meio do
encarceramento dos diferentes (sobretudo de jovens, pobres e
negros), ainda por cima, sem a tomada de qualquer contrapartida
paralela de natureza previdenciária ou social (ao menos, num nível
significativo). Aliás, o tráfico representa uma das principais razões
constitutivas destas prisões (conforme se demonstrará mais a
frente).
Além disso, foi nesse contexto pós-moderno, de uma
sociedade fragmentada, que o tráfico de drogas se renovou como
um fenômeno multifacetado, independente e simbiótico em relação
à figura do Estado, mas, ao mesmo tempo, alvo de uma repressão
interessante a muitos, inclusive, aos próprios traficantes (questão
que também será tratada a partir do próximo tópico).

279
Contudo, antes de se prosseguir na análise histórica da
construção das atuais imagens do tráfico de drogas, é importante
que se fale a respeito da posição do Estado-Nação Brasileiro, neste
contexto econômico e político da pós-modernidade.
Iniciamente, é assente que o Brasil sempre resguardou uma
postura patrimonialista e protetiva de interesses político-
econômicos de elites hegemônicas (até o século XIX,
predominantemente agrárias; no século XX, predominantemente
industriais e, por fim, nas últimas décadas, predominantemente
financeiras), o que foi determinante para a construção de certos
postulados científicos, econômicos e ideológicos até hoje adotados
no país (ALBUQUERQUE JÚNIOR, 2012).
Sem pretender adentrar nos múltiplos aspectos da formação
de cada região do país e suas peculiaridades administrativas, é fato
que o Brasil sempre buscou conformações culturais e referências de
ações político-econômicas nos programas adotados pelos países-
modelo da tradição neoliberal: desde sua emancipação até meados
do século XIX, é muito comum observar a adoção de paradigmas
pautados nos padrões Europeus (ALBUQUERQUE JÚNIOR, 2012). Já
ao longo do Século XX, nota-se uma forte conformação aos padrões
de vida e governo norte-americanos (SOUZA, 2015).
Sobretudo, a partir da segunda metade década de 1960 e do
advento do Governo Militar, houve uma forte participação norte-
americana na realização de investimentos financeiros e no auxílio à
elaboração de programas das mais diversas abrangências (políticos,
educacionais, científicos, territoriais, etc.) (SOUZA, 2015). Esta
participação, decerto, também se aplica ao campo da segurança
nacional (FIGUEIREDO, 2005), onde os modelos criminológicos em
muito se inspiraram nas construções tradicionalistas (de caráter
segregador e intolerante), acima assinaladas (SILVA, 2016). Os
modelos construídos na escala nacional, por sua vez, eram
adaptados pelos governos militares nas escalas regionais (estaduais)
e locais, sendo despiciendo se falar na repressão comum ao período
(FIGUEIREDO, 2005).

280
Mesmo após o processo de democratização, na década de
1980, quando a legislação brasileira passou a sofrer um processo de
adesão a valores ditos progressistas, o aparelhamento relativo à
segurança pública, ainda conservava práticas concernentes ao
período do Governo Militar, inclusive, no texto constitucional
(ZAVERUCHA, 2010).
Neste sentido, como afirmam Dorigo e Vicentino (1997) o
processo de abertura, instalou uma nova ordem política e
econômica, sem, no entanto, destronar as elites de véspera, que se
mostrou um costume histórico no país. Desse modo, mantinha-se,
no fim das contas, a já mencionada postura patrimonialista, que
necessitava, gradualmente, de um sistema policial eficiente a sua
proteção (motivo pelo qual, em pouco se transformou o paradigma
de segurança pública).
A partir disso, ao menos sob uma dupla perspectiva, o Brasil
se mostrou adepto aos modelos neoliberais do século XXI: em
primeiro lugar, como país patrimonialista, o Brasil aderiu à cultura
do consumo e produção em massa, bem como, aos processos de
transformação social destes decorrentes (SOUZA, 2015), o que é até
natural, na conjuntura de uma globalização histórica que não
respeita quaisquer limites formais ou informais inerentes às
fronteiras políticas e culturais dos Estados-Nação (BAUMAN, 2001;
SANTOS B., 2010).
Em segundo lugar, o país também consubstanciou em seu
sistema jurídico-penal os moldes criminológicos seletivos e
autoritários anteriormente discutidos, alinhando-se a uma política
prisional que promove a segregação e aprisionamento de vastos
contingentes populacionais não absorvidos pelo mercado de
consumo e de trabalho (SILVA, 2016).
Conseguinte, compreende-se que embora o Brasil
aparentemente tenha garantido certos direitos típicos do modelo do
Welfare State (o que é sensível no texto da Constituição Republicana
de 1988 e em diversas legislações), na prática, os benefícios jurídicos
não se mostraram acessíveis à maioria da população (DIAS, 2013),
ainda inserida em larga escala nos níveis da pobreza e da miséria.

281
Portanto, não houve superação do aspecto meramente simbólico da
lei, que, especialmente no campo penal, se apresenta apenas como
um discurso que legitima e esconde as crueldades seletivamente
perpetradas pelo sistema penal (SILVA, 2016).
Por fim, deve-se asseverar que, se por um lado o Brasil ainda
intenta viver a mesma lógica político-econômica dos Estados-Nação
do bloco liberal em que historicamente se inspirou, de outro, como
país em desenvolvimento que ainda dependente de maneira direta e
indissociável dos investimentos realizados pelos países ricos, o
mesmo sofre de maneira mais grave ainda os problemas relativos à
dificuldade de equilíbrio da balança econômica e da marginalização
da população, típicos da atual fase do capitalismo.
Desta forma, pode-se afirmar preliminarmente que o tráfico
de drogas do Século XXI e a proibição que se impôs ao mesmo, até
então, representou um importante instrumento de ação inerente às
políticas de criminalização de comunidades excluídas do mercado
formal. Mais ainda, como se verá a seguir, a proibição representou o
principal mecanismo de seguridade do monopólio de certas
substâncias nas mãos de grupos sociais hegemônicos.
Também se abordará, afora da ótica estatal, como a
proibição garantiu o efetivo sucesso das organizações criminosas do
tráfico, tornando, pela valorização da droga, a atividade muito
oportuna a investidores do mercado global e à gigantesca massa de
desempregados, especialmente, em países nos quais os efeitos das
transformações relatadas foram mais intensos ainda. Estas questões,
que revelam os aspectos não oficiais dos discursos proibitivos no
mundo e no Brasil, foram o alvo de análise das próximas seções
deste trabalho.

4 O TRÁFICO DE DROGAS NO CENÁRIO INTERNACIONAL DOS


SÉCULOS XX E XXI
A partir das relatadas dissimetrias inerentes ao Século XXI,
oriundas de processos iniciados na segunda metade do século XX, é
possível conceber que o consumo em massa e a individualização da
sociedade foram consideráveis consequências da consolidação do

282
capitalismo de consumo pós-moderno, as quais, conforme será
tratado neste tópico, também resultaram em importantes
transformações na atividade inerente ao tráfico de drogas,
sobretudo, por meio das políticas proibicionistas (enquanto ação
econômica instituída pelos Estados-Nação).
Contudo, deve-se destacar que a proibição do uso de
substâncias entorpecentes não é um fenômeno recente na história
da humanidade, senão uma construção histórica que adquiriu
contornos mais específicos a partir do Século XX.
Como bem advertiu Rodrigues (2004, p. 18), a política
proibicionista não representa um movimento estritamente jurídico,
senão, “terminais, pontos de condensação, cristalizações de ferozes
conflitos que se desenrolam no blasfond e irrompem no cenário
histórico”. Assim, embora as drogas sempre tenham sido um
fenômeno naturalmente marcante na história das civilizações, sua
proibição, de outro lado, surge como uma ação ligada a conflitos de
poderes internos e externos, sobretudo, no plano econômico, como
se passa a relatar.
Um primeiro marco proibicionista do uso de drogas surgiu
ainda no século I, em meados de 392 D.C., quando o catolicismo
assumiu o status de religião oficial do Império Romano, colocando-
se oficialmente contra qualquer prática religiosa não albergada pela
igreja, o que, nos séculos II e III, importou na edição de leis e
decretos proibitivos do uso de ervas e misturas ditas demoníacas,
em alinhamento à chamada era da caça às bruxas (ARAÚJO, 2012).
Entretanto, a mesma igreja que proibira o uso de
substâncias entorpecentes, contraditoriamente, aceitou o consumo
de vinho em suas celebrações, assim como, o uso de opiáceos
(derivados do ópio) e de outras ervas, por médicos dos períodos
medievais e, especialmente, por alquimistas - em razão de sua busca
pelo ouro (ARAÚJO, 2012), motivo que certamente foi considerável
para justificar a aceitação da exceção eclesial.
Desde então, a limitação ao uso de substâncias capazes de
alterar a naturalidade dos sentidos, por meio de mecanismos legais
e discursos oficiais reputadamente benevolentes à população,

283
manifestava a sua principal marca: a contradição, ou seja, por detrás
de um conjunto explícito de declarações de determinados atores
sociais (estatais ou não), constatavam-se, em muitos casos, exceções
iníquas e incompatíveis com a própria ideologia declarada.
No século XVII, mais adiante, constatou-se a proibição do
uso de Tabaco na Inglaterra e seus parceiros comerciais, assim
como, a proibição do Ópio, na China. Os reais motivos que
resultaram nestas proibições, igualmente, nem de longe se
mostravam altruístas ou voltados à saúde da população como
diziam os discursos oficiais (afinal, os produtos já eram
naturalmente consumidos naqueles países - o primeiro, desde sua
chegada da América na Europa, e o segundo, desde o Século VII, na
China).
Pesavam, muito mais, questões de natureza econômica
voltadas ao equilíbrio da balança e da dívida externa, gerada pela
saída de moeda aos fornecedores externos de cada país (ARAÚJO,
2012). Na época, a China se tornou o maior fornecedor de Ópio à
Inglaterra, que via suas libras se esvaindo para o estrangeiro e,
assim, passou a se valer da proibição para assegurar o valor de sua
moeda. O mesmo se deu com a China, maior importadora do chá
inglês (ARAÚJO, 2012), que, em contrapartida, passou a taxar o
comércio deste produto em seu território. A tensão gerada pelas
medidas, inclusive, ocasionou duas guerras entre estas nações.
À questão econômica externa, somou-se ainda outro
imperativo de ordem interna na Inglaterra (e, posteriormente, na
Europa Ocidental): Autores como D’elia Filho (2014) e Rodrigues
(2004) apontam que a expansão de um modelo de Estado Policial,
voltado à instituição de uma gestão tutelar sobre seus súditos e à
uma imposição das novas dinâmicas decorrentes da Revolução
Industrial, logo, constituiu-se como um fator determinante ao
sucesso do proibicionismo europeu.
O “controle do corpo e da alma” (FOUCAULT, 2015, p, 138) se
tornou elemento central para a nova gestão econômica, que
organizou dispositivos que assegurariam não apenas a sujeição do
cidadão ao sistema instituído, mas, o aumento constante de sua

284
utilidade produtiva. Buscava-se ao aumento real da capacidade
econômica do Estado, sob a estrita orientação de uma nova ciência
de governo, a ciência política (FOUCAULT, 2008). Impunha-se, dessa
forma, um modelo médico-jurídico de gestão dos corpos, muito
significativo ao entendimento do movimento proibicionista das
drogas (RODRIGUES, 2004).
A questão se tornou cristalina diante da proibição do álcool,
a seguir, na Inglaterra do século XVIII: a produção de Genebra (Gim),
inicialmente fomentada para fazer frente à produção de vinho
francês, acabou por gerar um problema de consumo desenfreado na
população (sobretudo, nos trabalhadores) da década de 1730
(SHECAIRA, 2014).
Invertendo suas prioridades, o país passou a promover uma
forte taxação do produto (por meio do Gin Act, de 1736) e, mais
adiante, proibiu sua comercialização, em 1758, também, em função
da crise de grãos instalada na Europa, à época (SHECAIRA, 2014), e,
sob influência de movimentos puritanos de inspiração protestante
que, intervindo na política, passaram a cobrar uma posição
abstencionista da sociedade e do Estado.
O problema inglês, em seguida, foi exportado aos Estados
Unidos no mesmo Século XVIII. E, junto ao incômodo produtivo do
consumo do álcool, também o foram os ditames de caráter puritano,
que, nos EUA, através do movimento da temperança, chegaram a
consolidar ligas bastante representativas e, até mesmo, um partido
político (ARAÚJO, 2012), conseguindo impor forte taxação à
produção de álcool ao longo dos séculos XVIII e XIX.
Mais adiante, com as fortes limitações econômicas sofridas
pelos EUA (e diversos outros países) em decorrência da Primeira
Guerra Mundial (razão econômica), os puritanos obtiveram sucesso
na luta pela proibição do Álcool como um todo: Em 1919 (por
intermédio da 18ª Emenda à Constituição Norte Americana), impôs-
se nos EUA o período histórico conhecido como Lei Seca (SHECAIRA,
2014).
Antes de se prosseguir, torna-se interessante registrar dois
antagonismos marcantes desta série histórica: preliminarmente, o

285
fato de cervejarias norte-americanas serem parceiras econômicas de
outras cervejarias alemãs foi suficiente, na época, para associação da
imagem do álcool a uma tentativa de degradação da nacionalidade
do país (SHECAIRA, 2014), aliando um forte elemento ideológico ao
aspecto jurídico da proibição.
Em segundo lugar, tem-se que, apesar da proibição do
consumo do Álcool, era corriqueiro naquele período histórico, o uso
de derivados da folha de Coca (da qual se extrai a Cocaína) e
Maconha (Cannabis Sativa ou Indica) nos EUA e na Europa, onde
estas substâncias eram livremente manufaturadas pela medicina,
inclusive, como princípios ativos de diversos remédios (até mesmo,
infantis), fato que foi determinante para a posterior consolidação de
grandes empresas farmacêuticas que exploravam tais produtos,
como a alemã Merck e a americana Park-Davis (ARAÚJO, 2012).
Registra-se, inclusive, a utilização de Xarope de Coca como
composto da fórmula originária da Coca-Cola (PEREIRA, 2012).
Com o advento da Lei Seca, milhares de bares foram
fechados, relegando o consumo de álcool à total clandestinidade.
Ao passo, a política proibicionista criou a imagem estereotipada do
alcóolatra, o inimigo da moral, a ser combatido pelos órgãos de
segurança estatais (SHECAIRA, 2014). Como resultado, o número de
homicídios e aprisionamentos subiu de maneira alarmante no país,
exigindo uma versatilidade cada vez maior dos traficantes de
bebidas (os gangsters), que passaram a associar o comércio de
álcool a outras atividades como a prostituição, jogos ilegais,
homicídios por encomenda e corrupção (ARAÚJO, 2012),
representando um exemplo histórico marcante de modelos
originários de organizações criminosas: as máfias (MINGARDI, 2014),
que, posteriormente, acabaram por migrar para outras atividades
ilícitas, até, anos mais tarde, se envolverem com o tráfico de drogas
(num ciclo de reinvenção de ações voltadas ao lucro, típico das
empresas capitalistas).
Na mesma proporção, registrou-se o aumento de
internações compulsórias de inúmeros consumidores de álcool em
centros de reabilitação ou hospitais (manicômios) da época, estes

286
últimos, destinados à camada mais pobre da população, numa nítida
política de isolamento seletivo das camadas indesejáveis do período
(ARAÚJO, 2012).
A proibição do álcool só veio cair por terra ao final da
década de 1930 (novamente por questões econômicas), em função
da imperiosa necessidade de arrecadação de impostos no contexto
da grande depressão de 1929. Conforme a política do New Deal,
implementada por Franklin Roosevelt, a taxação do Álcool passaria a
ser aceitável e interessante em razão das receitas que traria ao
Estado Norte-Americano (SHECAIRA, 2014).
Porém, ainda naquele mesmo período, paralelamente ao
proibicionismo do Álcool, já havia se iniciado no âmbito
internacional uma empreitada norte-americana em prol das políticas
de caráter proibicionista, motivada, agora, além da disseminação
dos ideais puritanos na política externa, pela necessidade de
enfraquecimento da economia europeia (RODRIGUES, 2004;
ARAÚJO, 2012).
O primeiro passo foi representado pela Conferência de
Xangai, em 1906, que propiciou uma aproximação comercial entre
China e Estados Unidos (ARAÚJO, 2012). Na prática, se tratava de
esforço conjunto pela proibição do consumo de ópio, que rendia
fortes lucros aos países liberais Europeus – adversários políticos e
econômicos dos Estados Unidos e da China, à época (RODRIGUES,
2004).
Estabeleceu-se, após a Conferência de Xangai, uma primeira
classificação de substâncias controladas dentro do ambiente
doméstico dos EUA (o food and drug act, também de 1906), a qual,
contudo, não restou aceita ou reproduzida pelos países Europeus,
em razão dos já mencionados lucros obtidos, como dito, a partir do
livre comércio do ópio (RODRIGUES, 2004). A resistência só veio a
ceder mais adiante, quando houve enfraquecimento político-
econômico dos países Europeus durante e após a Primeira Guerra
Mundial, que, por sua vez, conferiu maior força política (apesar do
enfraquecimento econômico) aos EUA (RODRIGUES, 2004).

287
Porém, de forma inesperada aos EUA, como contrapartida à
aceitação (forçada) do proibicionismo pelos países do Bloco
Europeu, estes passaram a cobrar uma maior extensão do rol das
substâncias proibidas, contrariamente à posição norte-americana (e
atingindo em cheio sua indústria farmacêutica, que obtinha fortes
lucros dos derivados da Coca e Marijuana).
O proibicionismo, assim, instituiu-se numa escala mundial
por meio de seguidas Convenções e Acordos Internacionais: A
Primeira Convenção Internacional do Ópio, em Haia, de 1911/1912
(marco da proibição do comércio e consumo da Morfina, Cocaína e
Heroína); A Conferência de Genebra de 1924 (que ampliou o
conceito de drogas, substancialmente) e o Acordo de Genebra de
1925 (que retomou e fortaleceu a postura proibitiva já adotada em
Haia) (RODRIGUES, 2004). Mais tarde, surgiria ainda a convenção de
Genebra de 1936 (sobre a qual se comentará adiante).
A grande lição deixada por esta série histórica situada entre
a proibição temporária do Álcool nos Estados Unidos e a
consolidação das políticas proibicionistas dos demais tipos de
entorpecentes no mundo (também, por influência norte-americana),
se atém a três fatos importantes (que registram, igualmente, duas
contradições aos discursos oficiais).
Preliminarmente, o período de proibição do Álcool não teve
sucesso em inibir o comércio de bebidas, e, contrariamente ao
esperado, supervalorizou o preço deste produto, tornando sua
comercialização significativamente interessante e lucrativa a grupos
criminosos com capacidade financeira e organizacional (como no
caso já mencionado das máfias) (RODRIGUES, 2004; PEREIRA, 2012;
MINGARDI, 2014; SHECAIRA, 2014).
Em segundo lugar, a proibição da utilização de matérias
primas pela indústria farmacêutica impeliu, mais adiante, a
investigação científica em torno do isolamento de princípios ativos
que, então, passaram a ser comercializados na qualidade de
remédios, em alinhamento ao discurso de proteção sanitária da
população. Esta mudança, mais tarde, colocaria a indústria
farmacêutica na qualidade de principal interessada e incentivadora

288
das políticas proibicionistas (e, como principal financiadora de
candidaturas que apoiassem esta política) (RODRIGUES, 2004).
E, por terceiro, a política proibicionista propiciou um salvo
conduto para forças de segurança a realizarem o aprisionamento de
grandes contingentes de consumidores, produtores e comerciantes
de bebidas, com apoio midiático, e, em diversas regiões
problemáticas do território norte-americano (RODRIGUES, 2004;
ARAÚJO, 2012). Deste modo, criar a ilegalidade de mercado
resultava em duas consequências implícitas: a instituição de um
discurso influente na balança econômica internacional e a instalação
de mecanismos de legitimação à atuação repressiva do Estado em
certas regiões de seu próprio território. Em ambos os casos, sob a
declarada ideologia de defesa da saúde e incolumidade.
A experiência demonstrou que, muito além de qualquer
defesa social, a estigmatização de consumidores, produtores e
comerciantes de drogas permitiria uma atuação militarizada legítima
do Estado, especialmente, em áreas mais pobres, onde a ausência do
poder público e de oportunidades sociais tornava mais propícia à
instalação de atividades criminosas (RODRIGUES, 2004).
Na prática, o discurso de proteção popular no campo da
saúde e da incolumidade pública disfarçariam bem o real propósito
das políticas proibicionistas: utilizar a vedação ao comércio de
certos produtos como estratégia de proteção à balança econômica,
que, em termos práticos, ainda concedia um bônus: a possibilidade
de utilização da legitimidade atribuída ao combate às drogas, para
intervir em zonas tidas como problemáticas no território dos
Estados-Nação.
Confirma-se essa tese a partir do surgimento da convenção
de Genebra, em 1936 (CARVALHO, 2014), que instituiu a pena de
prisão às atividades de produção, venda e compra das drogas ali
previstas. Esta convenção, apesar de alinhada com a escalada
proibicionista, não foi subscrita pelos Estados Unidos (tal qual
ocorreu em relação aos documentos internacionais elaborados em
Genebra em 1924 e 1925), justamente, em função da ampliação das
limitações inicialmente impostas ao campo da indústria

289
farmacêutica (correspondente a importante segmento da elite
hegemônica daquele país) e em função daquele país não depender
de qualquer convenção para legitimar as práticas repressivas que já
vinham se consolidando há tempos em seu respectivo território
(D’ÉLIA FILHO, 2014).
Nota-se que o interesse norte-americano, ao não subscrever
a convenção de 1936, não era a proteção dos interesses públicos
reputados em seu discurso oficial, senão, a estabilidade de sua
própria economia (e dos grupos ligados a ela).
A despeito disso, por outro lado, nem de longe se registrou
qualquer redução na repressão interna. No ano seguinte, os EUA
instituíram o Marijuana Act (1937) proibindo a produção, compra e
venda de Maconha (SHECAIRA, 2014) e, sobretudo, limitando seu
uso para fins científicos (ARAÚJO, 2012), já materializando as
políticas de monopolização do manejo de entorpecentes pela
indústria farmacêutica, como adiantado acima. Garantiu-se, por
outro lado, relativa liberdade quanto à comercialização de sintéticos
que, uma vez lançados, perpassavam por relativos lapsos de
legalidade, sendo proibidos tão logo outros mais potentes, já se
encontrassem patenteados junto à indústria farmacêutica, como no
caso das anfetaminas (ARAÚJO, 2012), garantindo o monopólio,
também, do lucro deste mercado.
Consequentemente, milhares de cidadãos foram
aprisionados (ARAÚJO, 2012), por conta da alta popularidade das
substâncias que passavam a ser classificadas. E, enquanto isso, os
órgãos de governo sempre se mostravam indiferente a quaisquer
provas científicas a respeito da real potencialidade econômica e do
menor risco inerente ao consumo de outras drogas mais populares,
como a Maconha e o LSD (ARAÚJO, 2012), sobretudo, quando seu
so veio a assumir uma conotação política vinculada a movimentos
contrários à ação capitalista e aos conflitos geopolíticos em que os
EUA se envolviam (RODRIGUES, 2004).
Por sua vez, a repressão, cada vez maior, acabou por
desabastecer um mercado que nada diminuía em demanda, o que,
decerto, impulsionou a produção e manufatura das drogas no seio

290
de países onde o controle pelos órgãos de segurança não era tão
efetivo, sobretudo, no próprio quintal dos EUA: o continente
americano (ARAÚJO, 2012).
Assim, no início dos anos 1970, o México e a Jamaica se
tornaram sedes da produção e tráfico de Maconha, sobretudo, em
função de uma estratégica proximidade em relação aos EUA
(RODRIGUES, 2004). Era o estopim necessário para a ampliação da
atuação política norte-americana no continente. E, de fato, não
tardou para que estes (e outros) países fossem alvo de intervenções
militarizadas e boicotes econômicos para adequação à política
internacional.
Aliás, desde a declaração da Guerra às Drogas pelo governo
Nixon (CAMPOS, 2014), na década de 1960, a intervenção
militarizada já era usada pelos EUA e nações aliadas como um
elemento político para estigmatização e combate de reputados
adversários políticos, sobretudo, do bloco comunista (SILVA, 2013).
Seguida da promulgação da Convenção Única de New York
de 1961, que estabeleceu novas diretrizes internacionais de
classificação das Drogas, pormenorizando (sob critérios
metodológicos não muito bem definidos) espécies e delineando a
atuação da Organização das Nações Unidas – ONU e dos países no
combate internacionais ao tráfico de Drogas, instituía-se uma
política internacional de gestão das drogas, que, na prática, se deu
através da atuação armada de países com poderio imperial.
Buscava-se, na prática, a legitimação de uma atuação internacional
contra as drogas, protagonizada pelo bloco americano, que, em
verdade, poderia se estender por diversos outros campos dos países
atingidos. Esta política, na década seguinte, apenas foi aplicada na
América.
Contraditoriamente, no mesmo contexto de Guerra Fria, o
tráfico foi utilizado como arma geopolítica norte-americana para
favorecer grupos aliados em diversas revoluções e revoltas noutros
países (SILVA, 2013; CAMPOS, 2014; LABROUSSE, 2010), situação em
que a atividade, apesar de declarada como nociva pelo discurso
oficial, passou a ser tolerada e até incentivada por órgãos de

291
governo (especialmente os de inteligência) sob a desculpa de
combate ao comunismo.
Com isso, a partir da década de 1960, o discurso de combate
às drogas foi associado a uma forte xenofobia e a políticas
repressivas, que importaram na gênese de novos inimigos internos e
externos (como, por exemplo, os negros pertencentes aos guetos
territoriais - associados ao tráfico de cocaína-, os imigrantes
mexicanos - associados ao tráfico de maconha, e, até mesmo,
cidadãos americanos, envolvidos com o movimento hippie e a luta
contra a guerra [ARAÚJO, 2012]) e externos (comunistas russos,
mafiosos italianos, etc.).
Após as primeiras intervenções no México e na Jamaica, por
conseguinte, a produção foi empurrada em direção à América
Latina, onde economias originariamente agrícolas de países como
Bolívia, Peru e Colômbia - nos quais as substâncias então proibidas
até resguardavam uma certa normalidade dentro da cultura local,
por conta das condições climáticas e de solo favorável -, passaram a
ser alvo de intervenções de grupos paramilitares em busca do
controle dos meios de produção, nas décadas de 1970 e 1980,
gerando, mais adiante, o surgimento de grandes grupos econômicos
que, no século XXI, representariam uma mostra dos oligopólios
internacionais das drogas, sobretudo, da produção e tráfico de
cocaína (RODRIGUES, 2004).
Neste período, a disputa pelo mercado ocasionou a eclosão
de conflitos territoriais internos que transbordaram em violentas
batalhas, com especial destaque para a Colômbia, onde a guerra
entre os Cartéis (inclusive, com envolvimento da esfera político-
administrativa do país), na década de 1980, acabou por chamar a
atenção da comunidade internacional (CAMPOS, 2014).
Já na década de 1990, com a posterior consolidação das
Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia – as FARC’s – e do
Exército de Libertação Nacional – ENL -, intensificou-se a
intervenção Norte-Americana no Conflito (obviamente, não por
força de interesses antidroga – discurso oficial, mas sim, por
questões políticas relativas ao combate à expansão da frente

292
comunista na América Latina), com a eliminação dos cartéis
originariamente ali existentes (ao menos, na forma primária).
Com a lição colombiana, as organizações do tráfico de
drogas ao redor do mundo compreenderam que o enfrentamento
direto ao Estado não se constituía como a melhor estratégia de
consolidação de seu poder, pelo que, alterando seu modus operandi,
iniciaram atuações mais discretas, simbióticas com o sistema
financeiro (em especial, paraísos fiscais de lavagem de dinheiro) e
com grupos políticos vinculados à esfera pública (LABROUSSE,
2010).
Diante disso, é possível afirmar que foi justamente a política
da repressão que ensinou uma trilha de sucesso às organizações
criminosas, atualmente, envoltas num altíssimo grau de
complexidade e aperfeiçoamento de suas redes e sistemas de
comércio e proteção. Contudo, este não foi o único impacto
decorrente da proibição.
Como afirma Rodrigues (2004), o controle sobre as drogas
se articulou como uma verdadeira política econômica, que, numa
dinâmica de governamentalidade, movimentou a indústria bélica
dos países envolvidos (sobretudo os EUA) e induziu investimentos
para determinados setores públicos e privados, dessa forma,
garantindo o favorecimento de grupos sociais predeterminados.
Afinal, a guerra enseja produção. E, naturalmente, há quem lucre
com isso: indústria bélica, órgãos militares, instituições de
inteligência, empresas privadas ligadas ao ramo da tecnologia da
informação, etc. Todos estes registraram grande lucros ao longo da
declara Guerra às Drogas (CAMPOS, 2014). Igualmente, não se deve
esquecer do favorecimento da indústria farmacêutica.
A partir das décadas de 1970, a publicação de novos acordos
internacionais a respeito do combate e classificação de drogas, já se
encontrava totalmente alinhada à estratégia de monopolização do
manejo e estudo de substancias capazes de alterar a normalidade
dos sentidos nas mãos das farmacêuticas (RODRIGUES, 2002).
Conforme afirmou Rodrigues (2002), este controle jurídico
sobre a manipulação das drogas, inclusive, foi aperfeiçoado e

293
consagrado nas mãos da indústria com o advento, em 1971, da
Convenção Única sobre Substâncias Psicotrópicas de Viena, que
ampliou (novamente, sob critérios questionáveis) a classificação dos
produtos proibidos, traçando diretrizes para estudo científico e
comercialização (que na prática, só poderiam ser efetivados por
grandes grupos econômicos de países desenvolvidos).
A proibição, nesta senda, mostrou-se uma medida lucrativa
aos grupos hegemônicos. E foi sob estes interesses, que as medidas
de guerra às drogas ganharam maior legitimidade e permanência
através de outros acordos subsequentes: a Conferência Internacional
sobre o Abuso de Drogas e Tráfico Ilícito, de 1977, que estabeleceu
medidas sobre o controle de substâncias proibidas e medidas de
combate ao tráfico; e, em 1988, com as adaptações à Convenção de
Viena (de 1971), que ampliaram as listagens de substâncias proibidas
e os mecanismos de combate ao tráfico. Desta forma, a repressão
atingiu seu auge nas duas últimas décadas do Século XX.
No entanto, a despeito dos altos investimentos
internacionais, é assente que a declarada Guerra às Drogas não
conseguiu combater, nem, tampouco, refrear o consumo e o
comércio de entorpecentes ao redor do globo.
Conforme dados da United Nations Office for Drug and
Crime - UNODC (2015), estima-se que, no mundo, 246 milhões de
pessoas com idade entre 15 e 64 anos (ou seja, 1 a cada 20
indivíduos), tenha feito uso de alguma droga ilícita no ano de 2013,
no mesmo passo em que o mercado internacional de drogas teria
movimentado uma cifra correspondente a 320 bilhões de dólares, só
no ano de 2009.
Em igual sentido, estima-se que mais de 1000 toneladas de
cocaína tenham sido comercializadas na Europa (cujos países, em
grande parte, fazem parte do bloco proibicionista), só no ano de
2004 (SAVIANO, 2014), tornando-o um (senão o) mais lucrativo
comércio do planeta no século XXI.
Este sucesso do tráfico, por conseguinte, é atribuível a
múltiplos fatores inerentes às transformações econômicas do Século
XXI. Como atividade comercial (afinal, é constituída por processos

294
de produção, manufatura e comercialização de produtos), é natural
que o tráfico também tenha aderido ao modelo produtivo em massa
inerente à sociedade de consumo do Século XXI, se expandindo nos
moldes das empresas capitalistas globais (CAMPOS, 2014). A própria
postura individualista das sociedades pós-modernas, aliás, incentiva
a tentação pelo consumo desenfreado de bens e substâncias,
mesmo as ilícitas (BAUMAN, 2001; BAUMAN, 2009).
Por conseguinte, a simbiótica associação entre vários
governos e organizações do tráfico de drogas, bem como, o
financiamento direto ou o favorecimento indireto de organizações
envoltas em conflitos geopolíticos (LABROUSSE, 2010; RODRIGUES,
2004; SILVA, 2013; CAMPOS, 2014), propiciaram o surgimento de
grandes oligopólios internacionais cuja atuação e complexidade
agora escapam ao controle e vigilância dos Estados-Nação mais
poderosos. À imagem e semelhança do mercado internacional
(conforme argumentado no tópico anterior), o tráfico impõe seus
interesses de maneira alheia às fronteiras nacionais, estatutos
jurídicos ou realidades locais (D’ÉLIA FILHO, 2014).
Ademais, a repressão, em si, é apontada como a maior
causadora da supervalorização do preço dos entorpecentes
(CAMPOS, 2014) e de sua presença nas grandes capitais centros
comerciais e econômicos do globo (UNODC, 2015), já que o preço
alto atribui à atividade uma possibilidade de lucro muito
interessante a pequenos ou grandes investidores.
Como consequência, o proibicionismo apenas “concentrou
as grandes redes de distribuição em poucas mãos, cada vez mais
impermeáveis” (WEIGERT, 2010, p. 37), ocultando as reais faces
(sociais) do problema das drogas e da falta de investimentos
assistenciais alternativo (ACSELRAD, 2011).
Desta forma, o tráfico de drogas do século XXI tende a
reproduzir a lógica capitalista de consumo e de produção em massa
inicialmente mencionada: formam-se grupos de caráter nacional ou
transnacional que atuam no controle do comércio, lavagem de
dinheiro e finanças da atividade, aos quais se destinam os massivos
lucros, e, de outro lado, amontoam-se os trabalhadores da droga:

295
agricultores, manufatureiros, comerciantes locais, normalmente,
aderentes à atividade em busca da alternativa financeira que não
lhes é oferecida pela legalidade do mundo individualizado e do
mercado formal de trabalho (D’ÉLIA FILHO, 2014).
Estes últimos, os pequenos acionistas da droga (que lucram
bem menos que os grandes empresários do tráfico), aliás, é que
acabam por se constitui os alvos concretos da política proibicionista
e sua repressão (D’ELIA FILHO, 2014).
Portanto, é possível afirmar: práticas econômicas
produziram o proibicionismo, que, por sua vez, conjugando-se às
transformações sociais ocorridas, desde meados do Século XX,
importaram na gênese da atual forma volátil e complexa das
organizações do tráfico de drogas.
Diante disto, é assente na literatura a falência das políticas
repressivas típicas do século XX (RODRIGUES, 2004; ARAÚJO, 2012;
D’ELIA FILHO, 2014; LEMGRUBER; RODRIGUES, 2014; SHECAIRA,
2014; CARVALHO, 2016; RODRIGUES, 2015), o que, por sua vez, causa
estranhamento a respeito da insistência de muitos Estados-nação do
mundo em sua manutenção, em pleno século XXI.
Não se confunda, no entanto, o teor da afirmação acima: o
questionamento aqui lançado, em torno da eficácia das estratégias
globais de combate às drogas, nem de longe constitui um incentivo
ao uso ou comércio de tal espécie de substâncias, que,
invariavelmente, se ligam à violência generalizada no globo e a
graves danos à saúde.
Pugna-se, entretanto, pela busca de novos paradigmas de
enfrentamento do problema, atualmente, tratado de modo seletivo
e hostil, dentro de uma política belicista e xenófoba, que pune
essencialmente classes pobres e permite o consumo legalizado de
outras drogas igualmente nocivas (como o álcool e o cigarro)
(ARAÚJO, 2012; RODRIGUES, 2004).
Em verdade, a realidade ocultada pelo discurso oficial da
Guerra às Drogas é muito mais grave. Conforme denunciou Anitua
(2015) e conforme já se afirmou acima, é evidente que a política de
Estado-Guerra gera subvenções estatais a determinados grupos que

296
oscilam na hegemonia econômica dos países-modelo do capitalismo
moderno e que permitem a ampliação da máquina judiciária e de
segurança pública (num contrassenso ao estado-mínimo liberal)
para uma melhor repressão dos inimigos sociais eleitos pela
criminologia (pós) moderna.
E os custos desse direcionamento e favorecimento, são
duplamente suportados pela população comum, preliminarmente,
por meio dos impostos decorrentes de suas rendas e atividades e,
num segundo momento, através da repressão que os atinge
(sobretudo, em suas parcelas historicamente estigmatizadas e
excluídas das fileiras do mercado de trabalho).
E mais: se hoje se alega um arrefecimento da Guerra às
Drogas, de outro lado, há a ampliação de uma Guerra ao Terrorismo,
cujos moldes e políticas interventivas não diferem da primeira,
mudando-se apenas os apontados malfeitores (ANITUA, 2015), num
verdadeiro círculo vicioso de exploração social.
A insistência nas políticas proibicionistas compõe, portanto,
uma clara estratégia econômica aliada ao moderno modelo de
repressão ao crime e à pobreza no Século XXI, conforme já
argumentado no tópico anterior.
Deste modo, repita-se: nos termos apontados por Garland
(2008) e Wacquant (2015), diante da ausência de políticas sociais e
previdenciárias eficientes, resta aos estados-nação tomar como
modelo de gestão das comunidades pobres (excluídas do mercado
de consumo, do emprego formal e geograficamente isoladas em
zonas marginalizadas), justamente, a repressão policial e o
encarceramento seletivo.
Para tanto, a luta contra as Drogas foi e ainda é uma
desculpa perfeita. Afinal, neste contexto de exclusão, o
envolvimento com atividades ilícitas é naturalmente potencializado
pela falta de oportunidades. E, sabendo-se que, mesmo em casos de
inocência, a imagem de alteridade e preconceito construída sobre o
cidadão estigmatizado (com o auxílio da mídia e do medo público)
certamente afastará questionamentos sobre a legitimidade da ação
estatal, a repressão às drogas se torna um prato cheio para uma

297
contenção governamental da pobreza (D’ÉLIA FILHO, 2014;
WACQUANT, 2015).
Enquanto isso, as classes sociais mais abastadas acabam
imunizadas em relação às políticas de encarceramento, em função
da seletividade penal da legislação antidrogas e do sistema
judiciário, assim como, pela dicotômica existência de um modelo
jurídico-penal (aplicável às classes mais pobres, estigmatizadas,
compostas por reputados inimigos sociais) e um modelo médico-
sanitarista (que identifica determinados sujeitos como cidadãos, e
assim, doentes, dispensando-lhes um tratamento médico muito
mais brando que as medidas de encarceramento) (CARVALHO, 2016;
ACSELRAD, 2011). De tal modo, se a Guerra às Drogas realmente
teve algum sucesso comprovado, o foi quanto ao aprisionamento de
grande parte da população, sobretudo, a mais pobre.
Igualmente, fez-se bem sucedida, também, quanto ao
pacote político modelo apto à exportação a diversos países de
tradição liberal, inclusive, países pobres e em desenvolvimento,
como o Brasil (dentre outros da América Latina), sob as comuns
ameaças concretas de imposição de sanções econômicas por parte
dos países-modelo da política neoliberal (WEIGERT, 2010).
Especificamente em relação ao Brasil, a já apontada postura
de alinhamento aos modelos político-econômicos norte-americanos,
sobretudo, a partir da década de 1960 (conforme já tratado),
garantiu a adesão do país à escalada proibicionista internacional. A
partir dessa perspectiva, como se verá no tópico seguinte, as
consequências deste alinhamento, somado ao contexto político
interno do país, foi determinante para o surgimento de um
fenômeno multifacetado e muito discutido no momento: as
organizações criminosas.
A seguir, promoveu-se uma breve análise de como o
combate às drogas se deu no Brasil e como as consequências desta
política, somadas às consequências territoriais da política liberal do
século XXI, criaram um campo fértil para o surgimento dos
territórios do tráfico no país.

298
5 DO PROIBICIONISMO BRASILEIRO E SUAS CONSEQUÊNCIAS
SÓCIO-TERRITORIAIS NO SÉCULO XXI
Assim como no restante do mundo, o Brasil também detém
suas imagens históricas do consumo de drogas e do proibicionismo
vinculado a razões políticas1. Embora a proibição do uso de
entorpecentes seja vislumbrada, legalmente, desde o Código Penal
Imperial de 1830 (que fazia alusão à nomenclatura venenos), foi
somente a partir de 1932 que se constatou um efetivo alinhamento
do Estado brasileiro à política proibicionista internacional, quando,
se acrescentou a pena de prisão àquele tipo de delito (CARVALHO,
2016).
Esta nova roupagem do controle sobre as drogas foi (à
imagem e semelhança do contexto internacional) progressivamente
implantada a partir do atendimento a interesses comerciais
vinculados ao monopólio da produção e administração de
medicamentos no país (RODRIGUES, 2015).
A influência médica, aliás, foi tão significativa, que o art. 281
do Código Penal de 1940, retomou a técnica da “norma penal em
branco” (de questionável constitucionalidade), na qual a proibição
genérica do uso de “estupefacientes” necessitava da atuação
complementar de outros órgãos governamentais (vinculados,
justamente, à classe médica) para definição de quais substâncias
seriam proibidas, ou não (CUNHA, 2013).
Com o impacto social desta alteração legal, e ainda, com a
ajuda dos contemporâneos meios de comunicação, constatou-se a
construção de uma preocupação social sobre a questão da droga
(RODRIGUES, 2015), que, facilmente, passou a ser explicada a partir

1
Destaca-se o consumo de caium pelos autóctones, anteriormente à colonização
portuguesa (FERNANDES, 2002); o consumo de cachaça, utilizada no processo de
descimento e pacificação dos índios e domesticação de escravos, posteriormente
proibida em razão da catequese, do vício que prejudicava as lavouras (FERNANDES,
2002; RICARDO, 2013) e dos prejuízos causados à venda do vinho português, o que a
levou a ser traficada, em troca de escravos (AVELAR, 2015); o consumo de maconha,
muito popular em comunidades pobres, até o início do século XX (CARLINI, 2006;
BRANDÃO, 2013).
299
de estereótipos criados sobre as figuras dos migrantes rurais, jovens
(sobretudo os pobres) e moradores de favelas (ZALUAR, 1994).
O discurso de luta contra um inimigo ganhava seus
contornos próprios no país. Adiante, com o advento do governo
militar (a partir de 1964), o modelo sanitarista que impulsionara a
política de drogas no Brasil se aliou a um modelo bélico-repressivo
(RODRIGUES, 2015). Num primeiro esforço de adequação da
legislação interna à Convenção Única de 1961 (repita-se,
considerando que o governo militar brasileiro detinha estreitos
laços com a política externa Norte-Americana), promoveu-se uma
reinterpretação e ampliação do conceito de crime de tráfico, nele
incluindo a atividade de cultivo (por meio da Lei nº 4.451/64) e
expandindo-se o rol das substâncias proibidas (através do Decreto-
Lei 159/67), com a inclusão das anfetaminas e alucinógenos.
Contudo, a alteração mais marcante foi instituída pelo
Decreto nº 385/68: a criminalização e penalização do uso de
substâncias entorpecentes, igualando, em termos práticos, as figuras
do traficante e do usuário no Brasil, como afirmam Carvalho (2016) e
Rodrigues (2015). A revisão das categorias em questão só ocorreu
três anos depois, com a instituição dos nomens juris de usuário,
dependente e traficante, por intermédio da Lei nº 5.726/71
(CARVALHO, 2016), sem a eliminação, entretanto, das imprecisões
práticas.
Em verdade, os aperfeiçoamentos legais apenas legitimaram
um conjunto de procedimentos que há tempos já era adotado no
país. Conforme apontou Batista, em estudo envolvendo
adolescentes, desde o final da década de 1960 a justiça brasileira já
levava em conta variáveis como “o estado de abandono, a etnia ou a
classe social [...] e reincidência”, para fins de “internação de jovens
que portavam pequenas quantidades de droga” (2003, p. 17),
critérios estes, certamente extensíveis à justiça penal como um todo.
Deste modo, atingindo-se no plano internacional o modelo
global de controle sobre as drogas encabeçado pelos EUA (por meio
da Convenção de Viena de 1971), uma nova adequação legislativa foi
promovida no Brasil, em seguida, por meio da lei 6.368/76, que

300
aperfeiçoou as previsões anteriores, guardando as maiores penas à
novel figura do narcotraficante (doravante, associado à figura do
comunista, a ser combatido pela política militar da Doutrina de
Segurança Nacional) (CARVALHO S, 2016).
Na prática, esta dicotomia dos modelos médico-jurídico e
jurídico-penal servia para promover uma ampla seletividade dentre
os alvos da atuação da repressão: os de classe média ou alta, eram
tratados como dependentes, doentes a serem curados; os demais,
sobretudo se pobres, migrantes ou negros, eram tratados como
criminosos (RODRIGUES, 2015).
Inclusive, mesmo após a democratização, o modelo dúplice
foi mantido, em função da permanência do tratamento
criminológico repressivo construído nas décadas anteriores. Nascia a
democracia, mas mantinha-se o sistema jurídico-penal autoritário
construído e instituído ao longo do período do Governo Militar
(CARVALHO, 2016). Assim, o aprisionamento seletivo se consagrou
como um nítido instrumento de gestão populacional no território
brasileiro.
O resultado prático desta política, por sua vez, não diferiu
daqueles denunciados nos estudos de Wacquant (2015): a)
constatou-se a construção de uma preocupação social sobre a
questão da droga (RODRIGUES, 2015), que, repita-se, promoveu a
estigmatização de estereótipos criados sobre os variados tipos de
cidadãos pobres (ZALUAR, 1994); e, b) produziu-se, em seguida, um
super-encarceramento, que, nos moldes ocorridos em países como
os EUA, também se tornou uma realidade brasileira, inclusive, com
nítidas tendências à privatização do sistema prisional (SILVA, 2016).
A verossimilhança da afirmação acima é sensível a partir dos
números do sistema penal, tanto no âmbito nacional, quanto no
âmbito local, do Estado do Pará, abaixo expostos.
Conforme dados estatísticos do Departamento Penitenciário
Nacional-DEPEN, de uma amostra de 234.524 presos colhida no ano
de 2014, constatou-se que 28,27% dos encarcerados no Brasil
respondiam por crimes classificáveis como tráfico de drogas,

301
números que ficavam atrás, somente, dos registros oficiais de presos
por crimes contra o patrimônio (40,49% do total) (BRASIL, 2014a).
No Estado do Pará, por sua vez, conforme dados da
Superintendência do Sistema Penitenciário - SUSIPE (2016), entre
janeiro de 1995 a maio de 2016, registrou-se um aumento da
população carcerária de 1182%, com um total de 14.789 presos.
Destes aprisionados, dentre os 13.059 homens, 17,64% respondiam
por crimes ligados ao tráfico de drogas, proporção que aumentava,
dentre as 746 mulheres presas, para um total de 64,5% (SUSIPE,
2016).
Porém, a despeito das prisões realizadas, nem de longe se
constatou uma diminuição nas ocorrências de tráfico de drogas.
Segundo a Secretaria Nacional de Segurança Pública – SENASP, em
2014, foram identificados 83.421 registros de crimes de tráfico, o que
fez o índice criminal da ocorrência (obtido pela divisão do número
total de ocorrências pelo valor de 100 mil habitantes) saltar de 18,5
em 2004, para 43,7 no ano da pesquisa (BRASIL, 2014a). Igualmente,
enquanto as apreensões de maconha (em quilos) cresceram 87%,
entre 2001 e 2007, as de ecstasy (droga sintética), por sua vez,
aumentaram 1.330% (BRASIL, 2014b).
Dessa forma, o super-encarceramento, além de tornar
economicamente inviável o sustento do atual modelo prisional
Brasileiro (e mundial, como informam Lemgruber e Rodrigues
[2014]), tem levado as cadeias brasileiras a uma situação de total
descontrole, e isso, sem desmantelar as redes que vinculam o tráfico
de drogas ao contexto do cárcere: conforme atestou a UNODC
(2015), a cada ano, constata-se um aumento significativo de presos
que se autodeclaram usuários de drogas. O interessante é a
ocorrência de tal afirmação no contexto de prisões que não
deveriam permitir o ingresso ou consumo de entorpecentes.
Porém, o pior dos problemas inerentes à relação tráfico-
cárcere ainda viria a eclodir no Brasil, ao final do século XX.
A política prisional encarceradora, as sucessivas crises
econômicas enfrentadas pelo país, o recrudescimento do
desemprego e a redução de oportunidades (DIAS, 2013), em

302
conjugação a todas as transformações políticas e sociais até então
apontadas no âmbito internacional e nacional, serviram como pano
de fundo para o nascimento de organizações criminosas vinculadas,
sobretudo, ao tráfico de drogas no Brasil.
O mais surpreendente, nesse ponto, é que o locus de
surgimento deste fenômeno, de maneira sui generis, foi, justamente,
o ambiente carcerário, ou seja, o interior dos muros dos próprios
locais escolhidos como ambientes político-administrativos de
contenção territorial do crime (AMORIM, 2011), numa infeliz ironia.
Conforme Dias (2013), em meados da década de 1970,
enquanto o Brasil ensaiava uma política prisional ressocializadora
(que só existiu no texto frio da lei), seu território foi
progressivamente inserido nos corredores e mercados consumidores
das redes internacionais de tráfico de cocaína. Ao mesmo tempo, a
estratégia pós-moderna de apropriação dos espaços urbanos como
bem de consumo e como mecanismo de segregação social
(VOLOCHKO, 2015), além de gerar uma primeira desterritorialização
precária das populações vulneráveis, relegando-as a zonas carentes
e desvalorizadas (HAESBAERT, 2014), ao se somar à política
criminológica já descrita, impôs a milhares de cidadãos uma
segunda desterritorialização mais precária ainda: a do cárcere
(SANTOS, 2007).
Como é natural de se esperar, o super-encarceramento
ocasionou a gênese de conflitos sócio-territoriais entre os diversos
agentes aprisionados, e ainda, entre estes e o Estado (RAFFESTIN,
1993). O ambiente do cárcere se tornou ainda mais hostil, para
qualquer um que nele transitasse (DIAS, 2013). Com isso, no bojo
desse ambiente violento e precário, a sobrevivência dos
aprisionados os forçou à tomada de estratégias de resistência, na
tentativa de consecução/preservação de direitos que compreendiam
possuir, numa escala mais crítica, em prol de um mínimo existencial
ou de sua própria vida (RIBEIRO, 2015).
Assim, diante de uma das mais graves formas de
desterritorialização (SANTOS, 2007) e em face não só de uma

303
quebra do sentimento de pertencimento ao lugar de origem2, mas
também, da submissão a um local de hostilidade e dominação, a
ideia de insubmissão e desrespeito à política estatal se tornou um
gérmen que passou a alimentar o ideário comum. Aos poucos
nasciam e se desfaziam diversas Facções dentro dos presídios que, a
princípio, demarcavam territórios como meio de autopreservação
coletiva, ou, simplesmente, de reprodução de relações de
dominação entre os próprios presos.
No entanto, em função das condenações com base na Lei de
Segurança Nacional - o Decreto-Lei 898/69, tornou-se corriqueiro o
convívio entre presos comuns e presos políticos, ligados a
movimentos genericamente enquadrados como comunistas
(AMORIM, 2011; DIAS, 2013). Não tardou para que os conhecimentos
dos presos políticos, de cunho ideológico e com ampla formação em
táticas de guerrilha e conflitos urbanos, acabassem por se conformar
aos ideários comunitários dos presos, propiciando o surgimento de
grupos cuja caracterização ia além da formatação das anteriores
facções.
Deste modo, a década de 1970 marcou o surgimento dos
chamados coletivos (grupos politizados e hierarquicamente
organizados) entre os presos, como estratégia de resistência
territorial (SANTOS, 2007, p. 92), voltada à busca pela melhoria das
condições nas prisões, cujos embriões foram atribuídos ao
(atualmente desativado) Presídio da Ilha Grande, no Rio de Janeiro
(AMORIM, 2011, 2013).
Progressivamente, o que era tomado como uma estratégia
de resistência vinculada à simples ideia de sobrevivência digna se
transformou num intento de dominação, que, por sua vez,
desembocou em violentos conflitos carcerários incontroláveis pelo
Estado em busca da hegemonia interna (AMORIM, 2011, 2013; DIAS,
2013).
Mesmo após a anistia política, em 1979, que permitiu a
libertação dos presos políticos condenados com base na Lei de

2
O que Haesbaert (2014) denomina de territorialidade simbólica.
304
Segurança Nacional, a conformação de ideários de unificação das
massas aprisionadas, de dominação dos presídios, e, sobretudo, de
enfrentamento estatal, já se tornara um processo sociológico
irreversível.
Após sucessivos conflitos internos no presídio da Ilha
Grande – Rio de Janeiro, nasceria, no ano 1980, o Comando
Vermelho – CV, sucessor da Falange Vermelha (AMORIM, 2011), e,
sob os mesmos moldes, nasceria na década seguinte o Primeiro
Comando da Capital - PCC (DIAS, 2013), no Estado de São Paulo.
Conjuntamente àquelas organizações, várias outras se
consubstanciariam dentro e fora do cárcere: Terceiro Comando,
Terceiro Comando Puro, Amigos dos Amigos, dentre várias outras
citáveis (AMORIM, 2011, 2013).
Foi questão de tempo para que os coletivos tivessem
contato com o processo de escalada dos novos mercados da droga
no país (especialmente, da cocaína), momento em que agregaram o
tráfico às suas atividades e iniciaram uma empreitada pela
dominação das redes territoriais locais e nacionais, bem como, a
interligação destas a redes internacionais de traficantes, com a
eliminação de rivais em verdadeiras guerras urbanas, seguidas do
enfrentamento direto ao Poder Público (AMORIM, 2011, 2013; DIAS,
2013).
Com isso, o tráfico brasileiro passou a ter uma característica
marcante: embora também tenha seus oligopólios não atingíveis
pela política criminal, o país desenvolveu organizações de
traficantes cujas lideranças e cúpulas de comando se encontram
aprisionados, e, mesmo nessa situação, comandam as atividades de
seus coletivos e controlam o comércio das drogas, até mesmo,
dentro das cadeias do território nacional.
Atualmente, a despeito dos esforços dos órgãos de
segurança pública, verifica-se que as estratégias utilizadas por estas
organizações criminosas (e, em muitos casos, até mesmo por
simples comerciantes de menor expressão) têm superado os muros
e grades do cárcere, e, com isso, promovido uma eficiente e
concreta interligação de agentes territoriais encarcerados às redes

305
territoriais externas do tráfico de drogas (RODRIGUES, 2004;
AMORIM, 2011, 2013; DIAS, 2013; D’ELIA FILHO, 2014). Portanto, a
técnica da prisão, na forma em que se apresenta atualmente, não
tem demonstrado qualquer sucesso prático na contenção da
atividade: O tráfico se impõe além das grades.

6 CONSIDERAÇÕES FINAIS
Superando os discursos oficiais, constata-se o tráfico de
drogas do Século XXI é um fenômeno originário de uma série de
transformações sociais típicas da pós-modernidade e das
consequências que as mudanças do capitalismo moderno
impuseram às sociedades dos países vinculados ao bloco neoliberal.
A ideologia de guerra às drogas sempre se mostrou
historicamente vinculada, no Brasil e no Mundo, a fatores políticos e
econômicos inerentes a grupos socialmente hegemônicos, bem
como, a interesses relativos ao equilíbrio da balança comercial e de
dominação internacional (nalguns casos, de caráter nitidamente
intervencionista – para não dizer imperialista). Em especial,
verificou-se que a própria política proibicionista acabou por
impulsionar o caráter lucrativo da atividade.
Este caráter interessado da política de enfrentamento ao
tráfico, por sua vez, foi determinante para a imprecisão das
legislações inerentes ao tema, e, sobretudo, para aplicação seletiva
das políticas de repressão praticadas pelos órgãos oficiais, que,
como de praxe, atingiram (e atingem) significativamente as parcelas
mais vulneráveis da população: pessoas pobres, estigmatizadas por
sua cor, idade ou território estabelecido (ou imposto pela exclusão).
Isso, somado à natural segregação gerada pelos interesses
do capitalismo pós-moderno, consagrou uma desterritorialização
precária que, em casos mais graves, impeliu verdadeiros
contingentes populacionais ao interior do cárcere. A estes cidadãos,
que viram no tráfico uma importante economia, restou a adoção de
estratégias de resistência para manutenção de um meio de
sobrevivência na sociedade de consumo, mesmo que marcadas pela
violência.

306
Especificamente no Brasil, este processo foi determinante à
formação de coletivos de criminosos que hoje se espalham e
disputam o domínio de redes territoriais do comércio de drogas no
país, sob o aval de oligopólios nacionais e transnacionais que gozam
de substancial imunidade em relação às políticas repressivas do
Estado - encarcerado pelos limites de sua própria soberania
territorial.
Em suma, conclui-se que o tráfico de drogas, em qualquer
de seus possíveis níveis – o dos grandes oligopólios, dos pequenos
traficantes, em suas redes transnacionais ou, até mesmo, dentro do
cárcere -, certamente, representa um fato social que reproduz a
lógica capitalista que lhe originou, sendo uma atividade comercial
(uma empresa, um sujeito ou conjunto de sujeitos atuantes no
mercado) que lucra em função da proibição que recaiu sobre a
mesma (determinada por interesses econômicos e de grupos
hegemônicos dos Estados-Nação), em razão das oportunidades que
uma sociedade individualizada e preparada para o consumo pode
oferecer, e, decerto, que se vale de estratégias que a ilicitude lhe
impõe em busca da superação dos obstáculos que se opõe a sua
liberdade de ação.
A ausência de compreensão destes pressupostos (ou sua
ignorância, intencional ou não) é, certamente, uma das principais
(senão a principal) razão do fracasso apontado em relação às
políticas de enfrentamento do problema.

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313
314
VENEZUELA: HACIA LA CONSTRUCCIÓN DE UNA DOCTRINA
MILITAR BOLIVARIANA DE SEGURIDAD Y DEFENSA INTEGRAL

Agustín Enrique León Navas

RESUMO
Existe uma Doutrina Militar Bolivariana para a formulação de uma
política pública de Segurança e Defesa Integral? Se a segurança e a
defesa integral são um instrumento de análise estratégica cujo
objetivo final é proteger os objetivos nacionais, quem deve formulá-
los? Estas são as questões que este artigo propõe responder, que
desvendariam a construção até hoje desta Política Pública de
segurança e defesa integral, por meio da análise de numerosos
documentos emitidos pelos governos federais da Venezuela. É
necessário estabelecer que uma política de segurança pública é um
instrumento político e, se for um instrumento, faz parte de um
conjunto de atividades de política pública. A Doutrina Bolivariana
para a construção da segurança e defesa (doutrina de segurança
nacional) será a ideia imanente e emancipatória que irá gerar uma
variável antagônica e discordante para a realização de seus objetivos
hegemónicos que pairam sobre nossa região. Nossa iniciativa
desenvolve a atividade da defesa de forma integral, reivindicando
soberania sobre nossos espaços e recursos.

PALAVRAS-CHAVE: Política de Segurança. Doutrina Militar.


Venezuela

RESUMEN
¿Existe una Doctrina Militar Bolivariana para la formulación de una
política pública en Seguridad y Defensa Integral? Sí la seguridad y
defensa integral son un instrumento de análisis estratégico que
tiene como fin último proteger los objetivos nacionales, ¿entonces a
quién corresponde formularlas? Esas son las preguntas que se
315
propone a responder este artículo, que desglasara la construcción
hasta el día de hoy de esta Política Pública en materia de seguridad
y defensa integral, por medio de la análises de inúmeros
documentos expedidos por los gobiernos federales de Venezuela.
Necesario es establecer que una política de seguridad pública es un
instrumento político y si es un instrumento entonces es parte de un
conjunto de actividades de políticas públicas. Una Doctrina
Bolivariana para la construcción de la seguridad y defensa (Doctrina
de la seguridad nacional) será la idea inmanente y emancipadora
que va a generar una variable antagónica y discordante para la
concreción de sus objetivos hegemónicos que se vislumbran sobre
nuestra región, nuestra iniciativa desarrolla la actividad de la
defensa de manera integral reivindicando la soberanía sobre
nuestros espacios y recursos.

PALABRAS-CLAVE: Política de Seguridad. Doctrina Militar. Venezuela

1 INTRODUCCIÓN
¿Existe una Doctrina Militar Bolivariana para la formulación
de una política pública en Seguridad y Defensa Integral? La
respuesta más elaborada que se pueda dar a esta pregunta está
contenida de forma esquematizada en la Propuesta del Candidato
de la Patria para la Gestión Bolivariana Socialista 2013-2019. Objetivo
1.6, acerca de: Programa de Gobierno (Gestión Socialista) 2013-2019.
Allí se establece:
Fortalecer el poder defensivo nacional para
proteger la independencia y la soberanía
nacional, asegurando los recursos y
riquezas de nuestro país para las futuras
generaciones (CHÁVEZ, 2012).

La respuesta más aproximada que se pueda indicar es que


existe una base doctrinalmente firme y capaz de sustentar la

316
construcción de un cuerpo de políticas públicas en materia de
Seguridad y Defensa Integral, en sus objetivos más estratégicos.
El “Plan Económico y Social de la Nación 2013-2019”
(Gestión Bolivariana) y el que finalizó exitosamente en 2007-2013,
dan resultados identificados claramente a la luz de los objetivos
nacionales planteados en la Constitución de la República Bolivariana
de Venezuela y el “Proyecto Simón Bolívar 2007-2013”, así como en
la Doctrina Militar Bolivariana como política y base fundamental
para la construcción de políticas públicas de Estado en Seguridad y
Defensa Integral de la Nación.
Necesario es aclarar que la Doctrina Bolivariana es un
compendio de ideas y postulados políticos, económicos, jurídicos y
militares que llevan una profunda carga ideológica determinante, a
partir de la vida y obra del Libertador de cinco naciones Simón
Bolívar, necesario para alcanzar una política integral de Seguridad y
Defensa.
En este sentido el Gobierno Bolivariano que inició con el
Presidente Hugo Chavez y continuado por el Presidente Nicolás
Maduro se ha planteado bajo los escenarios de cambios profundos
del sistema político y social venezolano una planificación a partir del
2 de febrero de 1999 que busca determinar primeramente en la
afirmación de su existencia y posteriormente en su consolidación
como sistema político aceptado por la mayoría del pueblo
venezolano.
El documento oficial «Proyecto Simón Bolívar en su Primer
Plan Socialista (PPS) del Desarrollo Económico y Social de la Nación
para el período 2007-2013» generó siete macro lineamientos
sociales, económicos y políticos, de los que se identificó cuál es la
doctrina imperante y garante del nuevo entramado institucional. La
Doctrina Bolivariana es decir los preceptos del Padre de la Patria
Simón Bolívar se están formulando como una política pública de
Estado, escapando de esta manera a una etérea y fugaz política de
gobierno que por su naturaleza es de carácter temporal.

317
En la Constitución de la República Bolivariana de Venezuela,
en el Art. 322, se expone claramente la conceptualización del Nuevo
Sistema de Seguridad Integral con suficiente amplitud:

La Seguridad de la Nación es competencia


esencial y responsabilidad del Estado,
fundamentada en el desarrollo integral de
ésta y su defensa es responsabilidad de los
venezolanos y venezolanas; también de las
personas naturales y jurídicas, tanto de
derecho público como de derecho privado,
que se encuentren en el espacio geográfico
nacional (REPÚBLICA BOLIVARIANA DE
VENEZUELA, 2000).

Sí la seguridad y defensa integral son un instrumento de


análisis estratégico que tiene como fin último proteger los objetivos
nacionales, ¿entonces a quién corresponde formularlas? Necesario
es establecer su connotación como instrumento político y si es un
instrumento entonces es parte de un conjunto de actividades de
políticas públicas.
Una Doctrina Bolivariana para la construcción de la
seguridad y defensa (Doctrina de la seguridad nacional) será la idea
inmanente y emancipadora que va a generar una variable
antagónica y discordante para la concreción de sus objetivos
hegemónicos que se vislumbran sobre nuestra región, nuestra
iniciativa desarrolla la actividad de la defensa de manera integral
reivindicando la soberanía sobre nuestros espacios y recursos.
La Ley Orgánica de la Seguridad de la Nación es la piedra
angular para la formulación operativa que fundamenta los objetivos
estratégicos del plan 2013- 2019. Esta Ley determina en su Art. 3° los
parámetros de la Defensa Integral, donde la define como:
Defensa integral, a los fines de esta Ley, es
el conjunto de sistemas, métodos, medidas
y acciones de defensa, cualesquiera sean su

318
naturaleza e intensidad, que en forma
activa formule, coordine y ejecute el Estado
con la participación de las instituciones
públicas y privadas, y las personas
naturales y jurídicas, nacionales o
extranjeras, con el objeto de salvaguardar
la independencia, la libertad, la
democracia, la soberanía, la integridad
territorial y el desarrollo integral de la
Nación (REPÚBLICA BOLIVARIANA DE
VENEZUELA, 2002).

La elaboración de los planes estratégicos y otras políticas


públicas que impulsa el Gobierno Central encuentra en esta y otras
leyes su fundamento operacional. El Plan Socialista o Plan Simón
Bolívar bajo la Nueva Geopolítica Nacional activa por medio de la
planificación estratégica del Estado la materialización de los
preceptos emanados de la Doctrina de Seguridad y Defensa Integral,
entendiendo a los diferentes Ejes de Desarrollo Territorial y las
zonas determinadas por la jurisprudencia para la implementación
del resguardo de la soberanía. Para ello, la Ley Orgánica de la Fuerza
Armada Nacional en todo su articulado, y la Ley Orgánica de
Seguridad de la Nación en el Art. 47 definen las Zonas de Seguridad
como: los espacios del territorio nacional, que por su importancia
estratégica, características y elementos que los conforman, están
sujetos a regulación especial, en cuanto a las personas, bienes y
actividades que ahí se encuentren, con la finalidad de garantizar la
protección de estas zonas ante peligros o amenazas internas o
externas. El Reglamento respectivo regulará todo lo referente a la
materia. De esta forma hemos descrito de manera muy superficial la
construcción de este tramado político-institucional sobre la
construcción de una Doctrina de Seguridad y Defensa Integral en la
República Bolivariana de Venezuela. A continuación desglasaremos
en este artículo la construcción hasta el día de hoy de esta Política
Pública en materia de seguridad y defensa integral.

319
Venezuela es el único país del mundo que vive una guerra
de cuarta generación, guerra asimétrica o guerra de alta densidad
digita desde hace 17 años. La llegada de un militar nacionalista y
patriota a la Presidencia de Venezuela supuso un quiebre definitivo
a más de 40 años de tradicionalismo bipartidista. El Presidente Hugo
Chavez Frías en 1999 cambió todo en el país, abrió nuevos
paradigmas del hacer política en Venezuela, política no destinada a
llamar a los antiguos políticos y seguir con la continuidad sino un
llamado a todo un pueblo a que desde las bases se construyera una
nueva Venezuela. Desde ese entonces el país no ha tenido paz en la
realización de sus metas, sin embargo el Presidente Chavez hizo en
Venezuela maravillas sociales que aun hoy se defiende con todas las
fuerzas ante una nueva arremetida de cambios derechistas en
Suramérica.
En febrero de 1999 lo primero que hace el Presidente es
lanzar una convocatoria a un proceso de referéndum consultivo para
una Asamblea Nacional Constituyente, y la siguiente novedad que
anunció fue la implementación de un plan de atención social
denominado Plan Bolívar 2000. El primer Plan General de la Nación
de carácter cívico-militar de la era Bolivariana entre 2000 – 2006.
Este plan incorporaba a las instituciones del Estado, pero su fuerza
principal es el llamado a las Fuerzas Armadas para su participación.
Para ese entonces Venezuela presentaba los peores índices sociales
y económicos de continente con un 80% de pobreza, 39% de
pobreza extrema, 15% de indigencia y un 50% desocupación.
Con este plan, el presidente Chávez buscaba varios
objetivos. El primero era brindar atención social al pueblo,
despojado de todo derecho a la salud, educación, alimentación, a la
asistencia del Estado y la atención de sus demandas.
El segundo fue involucrar al sector castrense con las
comunidades y romper el aislamiento creado alrededor de las
instalaciones militares, que a lo interno contaban con ciertos
privilegios como centros médicos exclusivos para personal
uniformado, espacios deportivos y recreativos y sistemas de

320
distribución de alimentos, mientras que en las barriadas cercanas no
contaban con estos beneficios.
Tercero y el más importante fue llevar la reconciliación entre
pueblo y Fuerza Armada. Esto pasaba por mostrarle tanto al pueblo
como a los oficiales y tropas que ambos son venezolanos. Se rescató
el principio fundamental del ideal bolivariano, que concebía al
pueblo como un gran ejército al servicio de la defensa de la
soberanía nacional y la independencia.
Como hombre militar conocía perfectamente las limitaciones
conceptuales, metodológicas y políticas de llevar una revolución
social sin el apoyo de las Fuerzas Armadas el cual muy
inteligentemente incorporó desde los cuárteles, la participación
Cívico – Militar. La Unión Cívico-Militar es el nuevo concepto político
y nuclear basado en la participación de la sociedad venezolana en la
construcción de sus destinos en base a las fuerzas sociales. De esta
idea han trascurrido los 17 años de la Revolución Bolivariana, el
pueblo trabajando con sus fuerzas armadas.
¿Qué significa el pueblo trabajando con sus fuerzas
armadas? Significa que el estamento militar en todos sus rangos
está comprometido en las realizaciones civiles y de Estado. Un
batallón del Cuerpo de Ingenieros del Ejército construyendo puentes
civiles, reparando vías, construyendo viviendas sociales, apoyando la
distribución de bienes y servicios civiles etc. A su vez el pueblo se
formas en las doctrinas militares de la defensa nacional, se arraiga
en el sentido de unión de estamentos como parte de una sociedad
conjunta o en un todo orgánico. Este concepto de Unión Cívico –
Militar es muy extraña de entender para cualquier analista foráneo
que conceptualmente tiene el paradigma de separación de
estamento de civiles con civiles y los militares con los militares a sus
cuarteles, porque ese es el paradigma universal, y lo que no logran
ver es que en Venezuela en su historia tiene una tradición muy
arraigada en que los miembros que integran sus fuerzas armadas
son personas de todos los orígenes sociales y especialmente de
origen humilde.

321
2 VENEZUELA Y EL DESARROLLO DE SU SEGURIDAD Y DEFENSA
INTEGRAL
Actualmente en el mundo se desarrolla una nueva realidad
política con la articulación de nuevos bloques y el impulso de
alianzas estratégicas; Venezuela así como América Latina no escapa
de esta realidad, los cambios dinámicos y de reordenamiento de los
Estados que vienen siendo impulsados por doctrinas de corte
nacionalista de izquierda, en contraposición de aquellas políticas
imperialistas emanadas desde EEUU y Europa que entendían a
Suramérica como una de las principales fuentes de materia prima y
biodiversidad para mantener su gran potencia industrial y
hegemónico sobre nuestro continente.
En el marco del proceso de cambios y confrontación que
vive la Nación, caracterizada bajo una dinámica de transformaciones
continuas, cuyas exigencias determinan la inserción y
profundización de una planificación que perdure en el Desarrollo,
Seguridad y Defensa Integral de los intereses máximos del Estado,
el accionar Bolivariano del mismo determinará las directrices del
nuevo concepto Militar Venezolano. En este aspecto, la Doctrina
Bolivariana adapta perfectamente, no solo desde el punto de vista
ideológico, a las necesidades del siglo XXI, sino a las estrategias y
tácticas que aun en nuestros días siguen vigentes en los diferentes
ámbitos que desplazan al país en un futuro determinado por las
asimetrías económicas y la escasez de recursos naturales. De esta
manera, habrá que considerar la Doctrina Bolivariana como un
compendio de elementos y postulados que llevan una profunda
carga ideológica, determinante y necesaria para alcanzar una
Política Integral de Seguridad.
En la actualidad vivimos en una sociedad caracterizada por
la dinámica indolente ante las necesidades primordiales del ser
humano, tendiente a la voracidad del consumo impuesta por la
lógica de la dominación y las estructuras establecidas por la
sociedad industrial avanzada (MARCUSE, 1964). Bajo estas
concepciones de imposición cultural y la determinación de instaurar
la unilateralidad del poder hegemónico de los EE.UU y el

322
establecimiento de una cadena de Estados Clientes1 a nivel
hemisférico a disposición de los intereses del establishment
norteamericano jugará un papel determinante en los intentos de
retomar o imponer nuevamente su hegemonía sobre nuestro
continente.
Implementando una estrategia que estipula la
remilitarización de la Diplomacia Norteamericana y la instauración
de un Nuevo Orden Internacional2, a través de Políticas de Estado
impuestas arbitrariamente en el teatro de operaciones global,
entrando en una línea de clara disimetría con los preceptos
económicos, políticos y sociales impulsados por la Doctrina
Bolivariana (EL UNIVERSAL, 2005).
Sin duda representando una doctrina emancipadora que va
a generar una variable antagónica y discordante para la concreción
de sus objetivos hegemónicos que se vislumbran sobre nuestra
región, nuestra iniciativa desarrolla la actividad de la defensa de
manera integral reivindicando la soberanía sobre nuestros espacios
y recursos.
La Doctrina Bolivariana ha renacido con el despertar de las
Naciones del Sur a través de los movimientos latinoamericanistas,
reivindicando así la igualdad en términos de Nación contra las
imposiciones de una relación asimétrica que venía interviniendo en
los destinos de nuestros pueblos con aquellos países
industrializados.

1
Término acuñado por el profesor Noam Chomsky: El hecho fundamental es que los
Estados Unidos organizó bajo su auspicio y protección un sistema neocolonial de
Estados Clientes regidos sobre todo por el terror y que están al servicio de una
pequeña elite empresarial y militar del propio país y del extranjero.
2
El Proyecto para el Nuevo Siglo Estadounidense o en inglés PNAC (Project for the
New American Century) es un grupo ideológico y político establecido en Washington
D.C.. Fue fundado en la primavera de 1997 como una organización sin ánimo de lucro
con el objetivo de promocionar "el liderazgo mundial de Estados Unidos”. Muchos
afirman que este proyecto propone la dominación suprema, militar y económica, de
la Tierra, el espacio y el ciberespacio por parte de Estados Unidos, así como el
establecimiento de la intervención en los problemas mundiales (Pax Americana).
323
La implantación de modelos militares ajenos a nuestra
realidad nacional fueron las recetas de un intercambio con visos de
cooperación que determinaban nuestras políticas sin tomar en
cuenta el desarrollo y la defensa de nuestros recursos naturales,
debido a la formulación de líneas que defendían el interés
norteamericano sobre el nuestro. La aplicación de esquemas de
guerra contra subversión minó el pensamiento de nuestros soldados
venezolanos a través de la Escuela de las Américas y el aval político
de nuestros decisores de la época, creando así un sistema de
coacción que establecería la dominación de EEUU sobre la fachada
del Caribe3 y nuestras riquezas.
La promulgación de la Constitución de la República
Bolivariana de Venezuela en 1999, determina un revés para aquellas
imposiciones doctrinarias por parte del hegemonía militar del
continente, dando nuevas atribuciones a nuestra Fuerza Armada
Nacional y la incorporación de la población de manera activa en el
Sistema de Defensa Integral de la Nación. El articulado que
comprende sus atribuciones señala su alcance y preceptos, estos se
complementan con la suma de los articulados que comprende la Ley
Orgánica de la Fuerza Armada Nacional Bolivariana y la Ley
Orgánica de la Seguridad de la Nación.
En base a esto el deber de la defensa estipulada en el
artículo 130 de la Constitución de la República Bolivariana de
Venezuela4 y el principio de corresponsabilidad entre el Estado y la
sociedad civil establecido en el artículo 3265 del mismo texto

3
Según informe emanado por la Corporación Rand a petición del Departamento de
Estado desclasificados en los años 80, se determinó que el entrenamiento y dotación
de equipos a Venezuela permitiría la disminución en la influencia cubana y soviética
en la región (http://www.rand.org/pubs/reports/2008/R2954.pdf)
4
Artículo 130CRBV. Los venezolanos y venezolanas tienen el deber de honrar y
defender a la patria, sus símbolos y valores culturales; resguardar y proteger la
soberanía, la nacionalidad, la integridad territorial, la autodeterminación y los
intereses de la Nación.
5
Artículo 326CRBV. La seguridad de la Nación se fundamenta en la correspondencia
entre el Estado y la sociedad civil para dar cumplimiento a los principios de
independencia, democracia, igualdad, paz, libertad, justicia, solidaridad, promoción y
conservación ambiental y afirmación de los derechos humanos, así como en la
324
determinan la actividad de defensa en todos sus ámbitos y
espacios, por ello nuestra nueva doctrina de defensa refleja la
integralidad de todos los elementos para alcanzar el desarrollo de
una política pública acertada en el resguardo de nuestro espacio
territorial, soberanía y máximos intereses nacionales.
La Ley Orgánica de la Seguridad de la Nación determina en
su artículo tercero (03) los parámetros de la Defensa Integral6,
estableciendo así el engranaje de una corresponsabilidad de todo el
Estado y la sociedad para efectivamente garantizar la Seguridad del
Estado7 en todo su espectro. La elaboración de los planes
estratégicos y otras políticas públicas que impulsa el Gobierno
Central encuentra en esta y otras leyes su fundamento operacional.
El Plan Socialista I o Plan Simón Bolívar bajo la Nueva Geopolítica
Nacional8 activa por medio la planificación estratégica del Estado la
materialización de los preceptos emanados de la Seguridad y
Defensa Integral entendiendo a los diferentes Ejes de Desarrollo

satisfacción progresiva de las necesidades individuales y colectivas de los


venezolanos y venezolanas, sobre las bases de un desarrollo sustentable y productivo
de plena cobertura para la comunidad nacional. El principio de la corresponsabilidad
se ejerce sobre los ámbitos económico, social, político, cultural, geográfico, ambiental
y militar.
6
Artículo 3 LOSN. Defensa integral, a los fines de esta Ley, es el conjunto de sistemas,
métodos, medidas y acciones de defensa, cualesquiera sean su naturaleza e
intensidad, que en forma activa formule, coordine y ejecute el Estado con la
participación de las instituciones públicas y privadas, y las personas naturales y
jurídicas, nacionales o extranjeras, con el objeto de salvaguardar la independencia, la
libertad, la democracia, la soberanía, la integridad territorial y el desarrollo integral de
la Nación.
7
Artículo 2 LOSN. La seguridad de la Nación está fundamentada en el desarrollo
integral, y es la condición, estado o situación que garantiza el goce y ejercicio de los
derechos y garantías en los ámbitos económico, social, político, cultural, geográfico,
ambiental y militar de los principios y valores constitucionales por la población, las
instituciones y cada una de las personas que conforman el Estado y la sociedad, con
proyección generacional, dentro de un sistema democrático, participativo y
protagónico, libre de amenazas a su sobrevivencia, su soberanía y a la integridad de
su territorio y demás espacios geográficos.
8
Ministerio del Poder Popular para la Planificación y Desarrollo, PROYECTO
NACIONAL SIMON BOLIVAR, PRIMER PLAN SOCIALISTA LÍNEAS GENERALES DEL
PLAN DE DESARROLLO ECONÓMICO Y SOCIAL DE LA NACIÓN 2007-2013.
325
Territorial9 y las zonas para la implementación del resguardo de la
soberanía, para ello la Ley Orgánica de la Fuerza Armada Nacional 10
y en la Ley Orgánica de Seguridad de la Nación establecen las Zonas
de Seguridad11 que bajo una visión geoestratégica implica el
planeamiento integral y la asignación de medios para alcanzar la
meta de un Desarrollo Territorial Desconcentrado.
En este mismo sentido es relevante señalar la importancia y
la incorporación de figuras que bajo este nuevo compendio de leyes
y planes estratégicos se le da a las Zonas de Seguridad Fronteriza12
que buscan regular y fortalecer la presencia del Estado en estas

9
Eje Norte-Llanero, Ejes de desconcentración Occidental, Oriental y Orinoco-Apure.
10
Decreto N° 6.239 con Rango, Valor y Fuerza, de Ley Orgánica de la Fuerza Armada
Nacional Bolivariana en su numeral 5, ESTABLECIMIENTO DE LAS REGIONES DE
DEFENSA INTEGRAL Y SU COMANDO MILITAR. Sobre la base de la concepción
estratégica de la Defensa Nacional, se reorientó el concepto de “Región de Defensa
Integral”, lo que trae como ventajas, entre otras, la unificación de la doctrina militar,
el planeamiento conjunto de las estrategias y tácticas necesarias a ser empleadas en
los casos de contingencias con la finalidad de garantizar la independencia, la
soberanía, la seguridad, la integridad del espacio físico y el desarrollo nacional; la
existencia de un mayor y mejor control sobre un área geográfica determinada; la
simplificación de manera efectiva de la interconexión cívico-militar en las tareas
tendientes a la materialización de las defensas de las Regiones Militares y la
cooperación mutua entre los miembros de la Fuerza Armada Nacional Bolivariana y la
sociedad en la realización de tareas conjuntas.
11
Artículo 47 LOSN. Se entiende por Zonas de Seguridad, los espacios del territorio
nacional, que por su importancia estratégica, características y elementos que los
conforman, están sujetos a regulación especial, en cuanto a las personas, bienes y
actividades que ahí se encuentren, con la finalidad de garantizar la protección de
estas zonas ante peligros o amenazas internas o externas. El Reglamento respectivo
regulará todo lo referente a la materia.
12
Articulo 49 LOSN. A los efectos de esta Ley, se entiende por Zona de Seguridad
Fronteriza, un área delimitada que comprende una franja de seguridad de fronteras,
así como una extensión variable del territorio nacional, adyacente al límite político-
territorial de la República, sujeta a regulación especial que estimule el desarrollo
integral, con la finalidad de resguardar las fronteras y controlar la presencia y
actividades de personas nacionales y extranjeras, quienes desde esos espacios
geográficos, pudieran representar potenciales amenazas que afecten la integridad
territorial y por ende la seguridad de la Nación.
326
áreas13, con el fin de contribuir a reforzar la independencia y
soberanía nacional, a través de políticas de integración y cohesión
sociopolítica de los factores que convergen en estos espacios,
asegurando una efectiva política de desarrollo territorial.
Recientemente la puesta en marcha de las Regiones
Estratégicas de Defensa Integral14 (REDI) contribuyen y refuerzan las
figuras antes mencionadas para darle operatividad y mayor
desplazamiento al Estado en aquellas áreas o zonas que su carácter
estratégico así lo determinen. Es importante resaltar la focalidad de
la activación de estos instrumentos, que junto a la articulación
orgánica con las comunidades organizadas y organizaciones de base
del poder popular15 articulan junto al Consejo Federal de Gobierno16
un cuerpo legítimo que promociona efectivamente la
corresponsabilidad de la sociedad civil en su conjunto para brindar
la seguridad, defensa y desarrollo integral nacional.
Otro ejemplo de incorporación activa de población en su
corresponsabilidad para la defensa es la conformación de la Milicia
Territorial y el Cuerpo de Combatientes17, muestra de ello es la
integración cívico-militar que caracteriza a nuestra nueva doctrina
de defensa. Basado y fundamentado en el artículo trescientos
veintiséis (326) de nuestra carta magna. Este nuevo componente
desarrolla las fortalezas de una población consciente de su papel
histórico emancipador para aportar a la estabilidad del modelo de
Democracia Protagónica Revolucionaria18, la independencia, libertad
y el poder originario del individuo como pilar fundamental del
nuevo modelo socialista venezolano.
También es importante resaltar el nuevo aspecto geopolítico
e internacional de nuestra doctrina militar, donde la integración con

13
Aquellas zonas denominadas en el Plan Simón Bolívar como Zonas de Integración
Fronteriza.
14
Artículo 23 de la Ley de Reforma Parcial del Decreto n° 6.239 con Rango, Valor y
Fuerza de Ley Orgánica de la Fuerza Armada Nacional Bolivariana.

18
Objetivo número III del Proyecto Nacional Simón Bolívar, Primer Plan Socialista.
327
otras naciones y el fortalecimiento de las relaciones con
Latinoamérica y el Caribe son un aval para garantizar la estabilidad y
seguridad colectiva de nuestra región19. La Nueva Geopolítica
Internacional20 en vista de mantener la integralidad política,
económica y territorial traza a Venezuela un papel preponderante
en la búsqueda de una América unida y consolidada a través de
mecanismos de integración basados en términos de intercambio
acorde con nuestras realidades políticas, económicas y sociales.

3 APLICACIÓN DE LAS DIRECTRICES DEL PLAN SIMÓN BOLÍVAR Y


PLAN DE LA PATRIA EN LA SEGURIDAD Y DEFENSA INTEGRAL
La Revolución Bolivariana ha trazado unas estrategias que
fortalece a la Nación en su desarrollo a través de las políticas
públicas. Estas políticas comprenden a una estrategia macro que
está plasmada en el Proyecto Nacional Simón Bolívar-Primer Plan
Socialista de la Nación y las diferentes ejecuciones, manifestaciones,
articulaciones políticas que derivan del mismo. Los preceptos
emanados de esta guía estratégica e inclusive de la Constitución de
la República Bolivariana de Venezuela dan a nuestra doctrina militar
el papel preponderante para elaborar estrategias, accionar
maniobras y tácticas que motoricen los objetivos plasmados para el
desarrollo fundamental de nuestra Seguridad y Defensa Integral, he
aquí a lo que se refiere Karl Von Clausewitz (2007)21 en su libro De la
Guerra donde “la dirección de la guerra equivale, por lo tanto, a la
preparación y la conducción del combate. […]”, en donde, “se
derivan de aquí dos actividades distintas: preparar y conducir
individualmente encuentros aislados, y combinarlos unos con otros

19
Artículo 153 de la Constitución de la República Bolivariana de Venezuela.
20
Objetivo número VII del Proyecto Nacional Simón Bolívar, Primer Plan Socialista
(Nueva Geopolítica Internacional).
21
Militar prusiano, uno de los más influyentes historiadores y teóricos de la ciencia
militar moderna. Es conocido principalmente por su tratado De la guerra, en el que
aborda durante ocho volúmenes un análisis sobre los conflictos armados, desde su
planteamiento y motivaciones hasta su ejecución, abarcando comentarios sobre
táctica, estrategia e incluso filosofía.
328
para alcanzar el objetivo de la guerra. La primera de estas
actividades es llamada táctica, la segunda se denomina estrategia”.
Este tipo de premisas planteadas como objetivo macro se
encuentran articuladas en los diferentes objetivos del Plan de la
Nación, trataremos de esta forma desglosar a continuación estas
estrategias que guían nuestra política pública en la materialización
de estos preceptos.

3.1 FORTALECIMIENTO DE LA MORAL E IDENTIDAD NACIONAL


En primera línea, sin duda, las principales estrategias del
Estado en todo su conjunto es “la refundación ética y moral de la
Nación Venezolana. Tal refundación supone un proyecto ético y
moral que cimenta sus raíces en la fusión de los valores y principios
más avanzados de las corrientes humanistas del socialismo y de la
herencia histórica del pensamiento de Simón Bolívar” 22, esto
significa la transición de viejos valores implantados por nuevos
valores que reimpulsan y fortalecen la identidad nacional, situación
que venía socavándose por el proceso de transculturización
asentado en el país durante la “democracia representativa” también
llamada la “Cuarta República” (1958–1998). En este enfoque se traza
como estrategia central la confrontación y la dialéctica
transformadora de los nuevos valores socialistas contra los viejos
códigos de conducta capitalista del Pacto de Punto Fijo. En este
sentido es bueno resaltar los objetivos claros de esta estrategia, la
creación de un Estado ético y moralmente constituido, con la
inclusión y formación de servidores civiles y militares que respondan
al momento político de transformación de la vieja estructura del
sistema capitalista implantado. En el caso de nuestra Fuerza Armada
Nacional Bolivariana la inclusión del esquema socialista con la
acentuación de los valores patrios contempla una visión ideológica
correspondiente a las doctrinas humanistas de cara a las
necesidades inmediatas de la población, o sea, la articulación de
nuestra fuerza armada a los planes centrales de recuperación y

22
Objetivo número I del Proyecto Nacional Simón Bolívar, Primer Plan Socialista
(Nueva Ética Socialista).
329
rescate de la sociedad venezolana, articulando junto a los demás
factores que conforman el Estado para asentar los pilares
fundamentales de los valores bolivarianos.
Todo este conjunto de medidas (mencionar las medidas)
significa la refundación de la República para el rescate de la
identidad nacional, se rescata y crea un compendio de valores para
dar un sentido de pertenecía que se ve conglomerado en los
fundamentos ideológicos del Árbol de las Tres Raíces (Bolívar,
Zamora y Rodríguez) y en las doctrinas humanistas de corte social
que se incluyen como constante permanente en la promulgación y
elaboración de políticas públicas del nuevo Estado Bolivariano.

3.2 LA CREACIÓN DE REDES DE ATENCIÓN Y PREVENCIÓN


INMEDIATA
Esta segunda línea se fundamenta en su accionar con la
primera, y es la “construcción de una estructura social incluyente,
formada por una nueva sociedad de incluidos, un nuevo modelo
social, productivo, socialista, humanista, endógeno, donde todos
vivamos en similares condiciones’’23, esto es, la materialización del
proceso de transición de la estructura social rentista hacia la
formación de relaciones económico-sociales inclusivas, que
comprenda la universalización de la identidad, alimentación, salud,
educación, vivienda y empleo. Esto implica la implantación de un
modelo de desarrollo que coloque al ser humano en el centro de su
aplicación y ejecución.
Dado que el tema de desarrollo en su aplicación práctica se
relaciona con la seguridad y la defensa, es prudente resaltar que
este salto hacia una nueva sociedad no se puede hacer sin la
inclusión aplicada a una nueva doctrina militar que incluya
socialmente en la práctica a los miembros que la conforman para la
satisfacción universal de sus necesidades y que estos junto a la
sociedad, comunidades y pueblo organizado acompañen de la mano
a las políticas preventivas aplicadas por el Estado en su conjunto.

23
Objetivo número II del Proyecto Nacional Simón Bolívar, Primer Plan Socialista
(Suprema Felicidad Social).
330
Estas políticas públicas van a representar uno de los pilares
fundamentales de nuestra seguridad integral destacando su labor en
la aplicación preventiva dentro de los ámbitos: social, político,
cultural y ambiental. Ejemplo de ello, son el éxito de las diferentes
Misiones24 implementadas en todo el territorio nacional, dando
presencia del Estado Bolivariano para el beneficio de la población y
construyendo a través de las mismas una estructura que responde a
las necesidades inmediatas de aquella población excluida por
gobiernos anteriores. Esta compleja estructura orgánica va a su vez
generar un alto despliegue nacional con el impacto político
necesario para cohesionar aquellos sectores excluidos entorno a un
proyecto país humanitario, socialista y bolivariano facilitando de
esta manera la movilización nacional25.
El despliegue de las diferentes misiones sociales crea en este
aspecto la estructura necesaria para la difusión de una política
pública preventiva, acumulando en su extensión una diseminación
articulada de la presencia activa del estado en todo el territorio
nacional, plataforma necesaria para la aplicación y desarrollo de la
Seguridad y Defensa Integral. Estas estructuras lejos de ser una
propuesta coyuntural a la problemática social van a representar un
brazo ejecutor de políticas preventivas, agrupando las inquietudes
sociales entorno a programas constituidos para satisfacer a la
población e incorporarla a la lucha contra las principales amenazas
del Estado Bolivariano.

24
Misión Barrio Adentro-Sector Salud (24.884.000 casos atendidos en 6.531
consultorios populares por 8.200 médicos especialistas en 106.014 operaciones) ,
Misión Educativa Robinson (Venezuela declarada zona libre de analfabetismo)
Productividad Agrícola y Soberanía Alimentaria (Instauración del Plan Nacional de
Semilla, Creación de Centros Agroindustriales y la promulgación de la Ley Orgánica
de Seguridad y Soberanía Alimentaria con los siguientes modelos productivos en
leyes: Ley de la salud Agrícola Integral, Ley de Créditos para el Sector Agrícola, Ley de
Pesca, Ley de Bosques, Ley de Acuicultura y Ley de Silos y Almacenaje).
25
Es el Proceso permanente, dinámico e integral planeado y dirigido por el Estado,
que busca concebir las acciones relativas a la obtención, preparación y asignación de
recursos y medios para hacer frente con éxito a las amenazas que el país encara en
determinadas circunstancias.
331
3.3 INSTAURACIÓN DE UN MODELO LEGÍTIMO QUE FORTALEZCA
LAS INSTITUCIONES DEL ESTADO
En la tercera línea estratégica tenemos la implantación del
modelo de democracia participativa y protagónica26, la entrega del
poder originario al individuo, sustentado en lo moral por el
consenso colectivo bajo los principios permanentes de justicia,
libertad e igualdad que fueron enarbolados por nuestro Libertador
Simón Bolívar. En este sentido, los lineamientos demarcan que “el
poder político será utilizado como palanca para garantizar el
bienestar social y la igualdad real entre todos los miembros de la
sociedad”27, entendiendo a la política participativa y protagónica
como instrumento para agrupar a la sociedad entorno a la exigencia
del resguardo de los derechos consagrados en la Constitución de la
República Bolivariana de Venezuela.
La idea de implantar un nuevo modelo de democracia
protagónica marca el punto de quiebre entre el viejo modelo de
legitimidad del estado burgués con la nueva visión ejercida del
Estado Revolucionario. Esto en la dinámica consensuada de aquellos
sectores excluidos durante la social democracia de los partidos de la
Cuarta República y la falta de legitimidad de los poderes e
instituciones que fueron socavándose al responder a un pacto de
conciliación de elites que margino y excluyo a las grandes mayorías
de los procesos de legitimación estructural del Poder Público
Venezolano. Esta nueva modalidad de participación refrendaría va a
marcan un cambio significante en las relaciones de poder del mismo
Estado, delimitando e implantado en la nación una mayor relevancia
y participación activa a la sociedad organizada28 en los procesos de
elaboración e implementación efectiva de las políticas públicas
emanada de los diferentes Poderes e instancias del Gobierno
Nacional.

26
Objetivo número III del Proyecto Nacional Simón Bolívar, Primer Plan Socialista
(Democracia Protagónica Revolucionaria)
27
Proyecto Nacional Simón Bolívar, Primer Plan Socialista: III-1 Enfoque, Venezuela,
2007, pág. 15, punto b.
28
Artículo 3 del Reglamento de la Ley Orgánica del Consejo Federal de Gobierno.
332
3.4 INCORPORACIÓN DE LAS FUERZA ARMADA NACIONAL
BOLIVARIANA EN EL AFIANZAMIENTO DE LA DEMOCRACIA
PROTAGÓNICA REVOLUCIONARIA
Un avance en lo político y muestra del proceso de inclusión
social de la democracia participativa es la incorporación de la Fuerza
Armada y sus integrantes en el proceso electoral, anteriormente los
miembros de esta institución se les tenia proscrito su participación
en el proceso de elección nacional, situación que llevó en mucho de
los casos a la marginación y exclusión de nuestro componente
armado de la vida social y política de la Nación. Esta situación se
prestó para implantarle al estamento militar de directrices foráneas
que limitaban la participación de nuestros soldados en el desarrollo
de una estrategia nacional que fuera consonó con las realidades
sociales del país, manipulando de esta forma al sector castrense y
circunscribiéndolo únicamente como un cuerpo de coacción política
dándole funciones de aparato represivo al servicio de una elite que
se alejaba cada vez más de la aprobación popular.
Ciertamente a raíz de los cambios impulsados por el
Gobierno Bolivariano el sector militar como ente político no
partidista29 impulsa a través de su participación en el proceso de
votación los principios de corresponsabilidad y unidad cívico-militar
que caracteriza a nuestra doctrina de Seguridad y Defensa Integral,
consagrando de esta manera la inclusión social con el ejercicio al
voto, y a su vez, afianzando el compromiso de resguardo y defensa
del sistema democrático, participativo y protagónico.

3.5 ORGANIZACIÓN DE MECANISMOS QUE ASEGUREN LA


DEMOCRACIA DIRECTA, PARTICIPATIVA Y PROTAGÓNICA
En este punto, es preciso señalar la incorporación de
mecanismos de participación directa de aquellos entes que
representan en su conformación y esencia elementos orgánicos
reflejados en colectivos organizados que ejercen a través de su

29
Artículo 328 de la Constitución de la República Bolivariana de Venezuela.
333
participación una presencia activa en la vida política de la Nación,
según lo señala el artículo ocho (8) de la Ley Orgánica de Seguridad
de la Nación en donde El Estado debe fortalecer, a través de sus
órganos gubernamentales, la institucionalidad democrática sobre la
base de la pluralidad política, la libre participación ciudadana en los
asuntos públicos, por medio de los mecanismos establecidos en la
Constitución y las leyes, apoyándose en los principios de
honestidad, participación, celeridad, eficacia, eficiencia,
transparencia, rendición de cuentas y responsabilidad en el ejercicio
de la función pública y en el principio de corresponsabilidad que
rige la seguridad de la Nación. Estos mecanismos impulsados por la
legislación Bolivariana dan una acertada vía de acceso a la
participación de población en su conjunto para la inclusión de
vastos sectores de las comunidades en la relación gobierno-
población, dando prioridad a las necesidades inmediatas de estos
sectores en específico.
El Consejo Federal de Gobierno como lo señala en su
artículo primero (1) la Ley Orgánica del Consejo Federal de Gobierno
diseña y ejecuta los lineamientos de la planificación y coordinación
de las políticas y acciones necesarias para el adecuado desarrollo
regional. Igualmente atiende al establecimiento del régimen para la
transferencia de las competencias de los entes territoriales, a las
organizaciones detentadoras de la soberanía originaria del Estado,
aplicando de esta manera los principios fundamentales de nuestra
doctrina de Seguridad y Defensa Integral30. En este sentido la
aplicabilidad de las Regiones Estratégicas de Defensa Integral (REDI)
van a impulsar junto a este organismo centralizado y la sociedad
organizada la normativa o políticas públicas necesarias para el
desarrollo de aquellos espacios del territorio nacional, que por su
importancia estratégica, características y elementos que los
conforman, están sujetos a regulación especial, en cuanto a las
personas, bienes y actividades que ahí se encuentren, con la
finalidad de garantizar la protección de estas zonas ante peligros o

30
Artículo 326 de la Constitución de la República Bolivariana de Venezuela.
334
amenazas internas o externas31; entendiendo que la población
organizada junto a sus Fuerzas Armadas es la única garante de la
soberanía y la integridad territorial.

3.6 AFIANZAR Y CERCIORAR LA ECONOMÍA REVOLUCIONARIA A


TRAVÉS DE ESTRATEGIAS DE DIVERSIFICACIÓN Y LA ADQUISICIÓN
DE CONOCIMIENTO
Como cuarta línea de acción es uno de los objetivos más
relevantes del Proyecto Nacional Simón Bolívar, conjuga el
desarrollo nacional con la corresponsabilidad en los ámbitos
económico y social plasmado en el artículo 326 de nuestra Carta
Magna. Esta estrategia impulsara el desarrollo endógeno mediante
el aprovechamiento progresivo de los recursos del país al aumentar
la inversión en actividades estratégicas que estimulen la inclusión al
sistema productivo de aquellos sectores de la población
marginados, creando de esta manera nuevos términos de
intercambio que aplaquen las disimetrías creadas por el sistema
capitalista implantado por el pacto de conciliación de elites de la
Cuarta República.
Este objetivo tiene como fundamento primordial alcanzar la
participación del Estado como regulador eficiente de la economía en
todo los rublos estratégicos, centrando sus esfuerzos en la
formulación de directrices orientadas al equilibrio macroeconómico,
a la eficacia en el plano fiscal, el rescate y la consolidación del
sistema financiero público y el respaldo a las misiones como
mecanismo de inclusión social y económica.
Bajo esta premisa se puede destacar la creación y el estímulo
de aquellos factores productivos que afiancen la Seguridad
Alimentaria de nuestra Nación, implicando “el dominio por parte del
país de la capacidad de producción y distribución de un conjunto
significativo de los alimentos básicos que aportan una elevada
proporción de los requerimientos nutricionales de la población”,
consolidando la Revolución Agraria a través de la lucha contra el

31
Artículo 47 de la Ley Orgánica de Seguridad de la Nación.
335
latifundio y la implementación de medidas que establezcan
parámetros para el aprovechamiento adecuado de aquellas tierras
ociosas o sin propiedad fundamentada.
Al mismo tiempo esta línea de acción beneficiara la
inversión nacional hacia el desarrollo de la ciencia y la adquisición
de tecnología innovadora para incrementar la capacidad de
respuesta ante las necesidades primordiales del país, potenciando
de esta manera las redes de conocimiento y de capacitación a través
de la transferencia tecnológica. Esto implica el diseño de políticas
que apunten el “conocimiento para el desarrollo endógeno y el
poder popular, orientado a la construcción de un modelo
económico que implica facilitar la potenciación de las capacidades
regionales generando conocimientos tecnológicos que permitan
crear redes productivas, microempresas y cooperativas articuladas
con la industria y las redes de comercialización, impulsando la
utilización de recursos productivos propios, la incorporación del
progreso técnico y el esfuerzo innovador, agregando valor a los
proyectos sociales y económicos de las comunidades organizadas y
los consejos comunales, redefiniendo los esquemas de la
institucionalidad en materia de ciencia y tecnología de acuerdo al
Proyecto Nacional Simón Bolívar” (GOBIERNO EN LÍNEA, n. d.).
En este sentido, siguiendo los objetivos trazados por el
Gobierno Nacional hacia la dotación, consolidación, renovación de
nuestra capacidad tecnológica y en respaldo a lo establecido en la
Ley Orgánica de la Fuerza Armada Nacional Bolivariana en su
artículo cuarto (4) numeral nueve (9), nuestro componente armado
deberá “Promover y realizar actividades de investigación y
desarrollo, que contribuyan al progreso científico y tecnológico de
la Nación, dirigidas a coadyuvar a la independencia tecnológica de
la Fuerza Armada Nacional Bolivariana”. Es así como el Ministerio
del Poder Popular para la Defensa ha acordado a través de múltiples
acuerdos de cooperación la adquisición de equipamiento con
transferencia de última generación en diversas áreas tecnológicas,
fortaleciendo e incorporando estas capacidades no solo para el
resguardo militar sino también destinadas a promover la actividad

336
económica diversificada en beneficio de la sociedad a portando de
esta forma al desarrollo en concordancia con la corresponsabilidad
cívico-militar que caracteriza nuestra doctrina de Seguridad y
Defensa Integral.

4 DESPLIEGUE DE LA DOCTRINA DE SEGURIDAD Y DEFENSA POR


MEDIO DE LA IMPLANTACIÓN DE UNA NUEVA GEOPOLÍTICA
NACIONAL
Siguiendo las directrices del Plan Simón Bolívar y el Plan de
la Patria, este objetivo dará cabida a la integración y articulación de
gran parte de las iniciativas impulsadas por el Gobierno Nacional
dando especial hincapié a las políticas inclusivas que profundicen la
integridad, independencia, soberanía y equidad socio-territorial de
nuestra Nación. Esta línea estratégica tiene como principal plano de
acción la implementación de políticas públicas que impulsen de
forma integral los diferentes Ejes de Desarrollo estipulados por la
Comisión Central de Planificación y el Ministerio del Poder Popular
para la Planificación y Finanzas, siendo estas focalizadas al
reordenamiento racional de los recursos y del territorio.
Este reordenamiento y desconcentración a través de los
diferentes polos estratégicos buscará de manera sistemática la
instauración del nuevo modelo socio-productivo endógeno, donde
emerjan nuevas relaciones de intercambió que estimulen el
desarrollo de las regiones y asienten permanentemente la presencia
del Estado ante las fachadas Andina, Amazónica y Caribeña en
concordancia con la creación de las Zonas de Integración Fronteriza
aplicando los principios establecidos por nuestra doctrina de
Seguridad y Defensa Integral. Esta premisa se apoyará a través de la
Ley de Orgánica de Seguridad de la Nación en su artículo cuarenta y
nueve 49 estableciendo la “A los efectos de esta Ley, se entiende por
Zona de Seguridad Fronteriza, un área delimitada que comprende
una franja de seguridad de fronteras, así como una extensión
variable del territorio nacional, adyacente al límite político territorial
de la República, sujeta a regulación especial que estimule el
desarrollo integral, con la finalidad de resguardar las fronteras y

337
controlar la presencia y actividades de personas nacionales y
extranjeras, quienes desde esos espacios geográficos, pudieran
representar potenciales amenazas que afecten la integridad
territorial y por ende la seguridad de la Nación”, y su despliegue
operacional se materializara por medio de los Comandos de Región
Estratégica de Defensa Integral en donde el articulo veinticinco
(25),numeral once (11) de la Ley Orgánica de la Fuerza Armada
Nacional señala que estas deberán “Coordinar con las instituciones
del sector público o privado, la participación de la Fuerza Armada
Nacional Bolivariana en la planificación del desarrollo de la región;
“así como en su defensa.

5 CONCLUSIONES
La Doctrina Bolivariana de Seguridad y Defensa Integral de
la Nación se encuentra en un estado primario, apenas nace para su
funcionamiento y perfección. Como Doctrina hay que convertirla en
una máxima expresión de vinculación a los efectos políticos,
militares e ideológicos. Nuestro temor es que se haga el aporte
desde distintos ámbitos de acción pero que su aplicabilidad se
vuelva letra muerta. Es ahora más que nunca que el Estado
Bolivariano maximice sus esfuerzos operacionales para poner en
práctica la Doctrina de Defensa Integral Bolivariana a medida que
esta va creciendo epistemológicamente.
Venezuela ha alcanzado progresos sociales enormes y
dispone de gigantescas riquezas petroleras y mineras, aunado esto
las crisis estructurales del capitalismo Mundial y a las invasiones por
parte del Imperialismo norteamericano a países petroleros, existe
condiciones que podrían ser utilizadas por nuestros enemigos
externos e internos que pueden poner en riesgo la existencia misma
de la Revolución Bolivariana. También la República Bolivariana tiene
la responsabilidad de prevenir y resguardar a los países miembros
del ALBA como también colaborar con nuestros mejores aliados
internacionales.

REFERENCIAS

338
CÁTALA, José Agustín. Simón Bolívar. Ideario Político 1891: Discurso
ante El Congreso de Angostura. Universidad Simón Bolívar, 1980.

CHÁVEZ, Hugo Rafael. Mensaje Anual del Presidente a la Nación:


Palacio Federal Legislativo, Colección. Caracas, 2009.

CLAUSEWITZ, Karl Von. De la Guerra: Fundación Editorial El perro y


la rana, 2007.

EL UNIVERSAL. Washington-Venezuela es una influencia negativa


para la región y la conducta del gobierno de Hugo Chávez es
"inaceptable", dijo Condoleezza Rice, secretaria de Estado designada
de Estados Unidos. Caracas, miércoles 19 de enero, 2005.

GOBIERNO EN LÍNEA. PAGINA DEL MINISTERIO DEL PODER


POPULAR PARA CIENCIA, TECNOLOGÍA E INDUSTRIAS
INTERMEDIAS.
http://www.mct.gob.ve/Controladores/controlador_programas.php?i
d_programa=347.

MANRIQUE, Miguel. La Seguridad en las Fuerzas Armadas


Venezolanas, Facultad de Ciencias Jurídicas y Políticas, Universidad
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MORGENTHAU, Hans. Política entre las Naciones, Editorial G.E.L,


1985.

MARCUSE, Herbert. El hombre unidimensional, Editorial Ariel, 1964.

REPÚBLICA BOLIVARIANA DE VENEZUELA. Constitución de la


República Bolivariana de Venezuela. 2000

339
REPÚBLICA BOLIVARIANA DE VENEZUELA 2002. Ley Orgánica de la
Seguridad de la Nación, Gaceta Oficial Nº 37.594, 18 de septiembre
de 2002.

REPÚBLICA BOLIVARIANA DE VENEZUELA. Líneas Generales del Plan


de Desarrollo Económico y Social de la Nación 2007-2013, Caracas,
septiembre de 2007.

REPÚBLICA BOLIVARIANA DE VENEZUELA. Reglamento de la Ley


Orgánica del Consejo Federal de Gobierno, Caracas, enero de 2010.

340
A Escola Superior Madre Celeste (ESMAC) e o Instituto Superior
de Educação (IES) foram credenciados por meio da portaria do
MEC Nº 2.928 de 2001, trazendo uma proposta inovadora e
criativa no que se refere ao ensino superior, credenciando-se
como a primeira instituição de ensino superior em Ananindeua.

A ESMAC desde a data de seu credenciamento, em 14 de


dezembro de 2001, vem se expandindo aceleradamente,
estabelecendo seu referencial na excelência da qualidade do
ensino e no brilhantismo nas atividades esportivas, com as
quais hoje se constitui em destaque nacional e internacional.

341
Nascido da união de três projetos de pesquisa existentes na
ESMAC (“Atividade de Inteligência e Segurança Pública”,
“Novos Paradigmas do Direito Civil e Processual Civil” e “Novos
Pesquisadores”), o observatorio Anákê assume o compromisso
com a realização de atividades de pesquisa e de iniciação
científica de discentes dos diversos cursos da ESMAC.
Ainda, o mesmo surge como parceiro de outros observatórios
e grupos de pesquisa, com o objetivo de disseminar e
democratizar a ciencia.

O Anánkê foi o maior incentivador interno da presente obra.

Coordenadores
Prof. Wando Dias Miranda
Prof. Roberto Magno Reis Netto
Prof. Itamar Rogério Pereira Gaudêncio

342
Desde 1977 no mercado, a Dígitro é reconhecida por satisfazer
efetivamente as necessidades do seu público alvo, com
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de comunicação corporativa, contact center, operações e
inteligência, proporciona maior competitividade e agilidade aos
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A Dígitro acredita que o compromisso de construir uma


sociedade melhor começa com iniciativas individuais. Por esse
motivo busca promover um ambiente de relacionamento
saudável, produtivo e feliz entre colaboradores, clientes, canais
e fornecedores. Valorizar e contribuir para o desenvolvimento
da Sociedade do Conhecimento, na qual está inserida, é a sua
fórmula de crescimento sustentável. Para isso, prioriza uma
relação de confi ança desde o relacionamento comercial até a
entrega de valor.

A Dígitro é apoiadora da presente obra.

343

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