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Universidade Veiga de Almeida Professora Cristina Prates

Castro Alves: a poesia condoreira

I- Castro Alves (1847-1871)


• Contemporâneo da crise do Brasil rural, do crescimento da cultura urbana e dos ideais democráticos.
• Cantor do negro, dos escravos, dos oprimidos.
• Representante da burguesia liberal: preocupação com o destino do homem em relação aos desajustamentos sociais.
• Divisão da obra: lírica amorosa, lírica social, poesia abolicionista, poesia negra e poesia existencial.
• Deu ao escravo não só o brado da revolta mas também uma atmosfera de dignidade lírica.
• Lírica amorosa: o amor como desejo e paixão, encantamento da alma e do corpo.
• Poeta dos amplos espaços: a natureza como imensidão, espaços abertos (os astros, o oceano, os Andes).
• Poética do dinamismo: movimento, cenários, diálogos.
• Captação plástica do ambiente.
• Poesia condoreira: oratória emocionada, dicção dramática, uso de apóstrofes, exclamações, excessiva pontuação.
• Recursos estilísticos
- Metáforas, Antítese, Hipérboles, Comparações, Enumerações, Gradações, Aliterações, Sinestesias,
Personificação
• Preferência pela ordem inversa.
- Hipérbatos, Anástrofes, Quiasmos, Hipálages.

II- Análise e Interpretação


Adormecida

Uma noite, eu me lembro... ela dormia


Numa rede encostada molemente...
Quase aberto o roupão... solto o cabelo
E o pé descalço do tapete rente.

‘Stava aberta a janela. Um cheiro agreste


Exalavam as silvas da campina...
E o longe, num pedaço de horizonte,
Via-se a noite plácida e divina.

De um jasmineiro os galhos encurvados,


Indiscretos entravam pela sala,
E, de leve oscilando ao tom das auras,
Iam na face trêmulos – beijá-la.

Era um quadro celeste!... A cada afago


Mesmo em sonhos a moça estremecia...
Quando ela serenava... a flor beijava-a...
Quando ela ia beijá-la... a flor fugia...

Dir-se-ia que naquele doce instante


Brincavam duas cândidas crianças...
A brisa, que agitava as folhas verdes,
Fazia-lhe ondear as negras tranças!

E o ramo ora chegava, ora afastava-se...


Mas quando a via despertada a meio,
Pra não zangá-la... sacudia alegre
Uma chuva de pétalas no seio...

Eu, fitando esta cena, repetia


Naquela noite lânguida e sentida:
“Ó flor! – tu és a virgem das campinas!
“Virgem! – tu és a flor da minha vida!...”
Castro Alves

III-

1º Movimento: 1ª e 2ª estrofes.
O eu lírico apresenta os elementos ainda dissociados em seus contextos mediante o afastamento espacial
referenciado pela janela: o interior – a mulher; o exterior – o jasmineiro.
Contraste entre o espaço interior como campo visualizado (desvelamento) e o espaço exterior velado pela
noite.

2º Movimento: 3ª, 4ª, 5ª e 6ª estrofes.


O elemento exterior (galho do jasmineiro) penetra o espaço interior e dá-se o início do desvelamento que
permite aproximar o elemento flor à mulher: “brincavam duas cândidas crianças”.

3º Movimento: Última estrofe.


O eu lírico aproxima de forma equivalente os elementos mulher e flor, através do quiasmo: flor: virgem;
campinas: vida, identificando-se com a natureza.

 Observações:
a) Sentimentalização da natureza: projeção do eu lírico na natureza: “galhos indiscretos.”, “trêmulos”.
b) O desvelamento da natureza pode ser tomado como processo de sublimação do desejo do eu lírico: “Naquela noite
lânguida e sentida” → A noite como expressão subjetiva do Espaço Lírico.

Interpretação:
1) Indique a figura de pensamento que se destaca na 3ª estrofe e interprete-a de acordo com sua funcionalidade no
poema.

Trata-se da personificação: na 3ª estrofe, o eu lírico personifica os galhos do jasmineiro (“indiscretos”, “beijá-la”),


propiciando a entrada da natureza no quarto da mulher, a fim de permitir o processo de identificação entre elas.
Somente na última estrofe, o eu lírico percebe que a essa relação expressa, de fato, o seu desejo pela amada, cuja
intimidade foi desvelada pela natureza. Isso se evidencia através do quiasmo encontrado nos dois últimos versos do
poema, nos quais o eu lírico se projeta para revelar, numa linguagem acentuadamente emotiva, os seus dois amores: a
mulher e a natureza.

2) A acentuada preferência de Castro Alves pela linguagem dinâmica pode ser comprovada no movimento pendular e
na construção rítmica.
Retire os versos que comprovam essa afirmação de modo exemplar.
“E o ramo ora chegava, ora afastava-se...” ou “Quando ela serenava... a flor beijava-a/Quando ela ia beijá-la... a flor
fugia...”
3) Compare, agora, as figuras femininas e a concepção do amor em Álvares de Azevedo e Castro Alves.
Em Álvares de Azevedo, temos a mulher virgem, idealizada e distante do poeta que rima amor e dor. Em Castro Alves,
adensa-se a sensualidade e a mulher, inclusive, demonstra, de forma espontânea, o seu desejo.
I- Interpretação de Textos
Texto I Texto II

Teresa (fragmentos) O “Adeus” de Teresa


Quando junto de mi Teresa dorme A primeira vez que vi Teresa,
Escuto o seio dela docemente: Como as plantas que arrasta a correnteza,
Exalam-se dali notas aéreas, A valsa nos levou nos giros seus...
Não sei que de amoroso e de inocente! E amamos juntos... e depois na sala
“Adeus” eu disse-lhe a tremer co’a fala...
Como dorme inocente esta criança!
Qual flor que abriu de noite o níveo seio, E ela, corando, murmurou-me: “adeus”
E se entrega da aragem aos amores,
Nos meus braços dormita sem receio. Uma noite... entreabriu-se um reposteiro...
E da alcova saía um cavaleiro
O que adoro em ti é no teu rosto Inda beijando uma mulher sem véus...
O angélico perfume da pureza; Era eu... era a pálida Teresa!
São teus quinze anos numa fonte santa “Adeus” lhe disse conservando-a presa...
O que eu adoro em ti, minha Teresa!
E ela entre beijos murmurou-me: “adeus!”
São os louros anéis e teus cabelos,
O esmero da cintura pequenina, Passaram tempos... sec’los de delírio
Da face a rosa viva, e de teus olhos Prazeres divinais... gozos do Empíreo...
A safira que a alma te ilumina. ...Mas um dia volvi aos lares meus.
Partindo eu disse – “voltarei!... descansa!...”
Enquanto dormes, eu te sonho amante, Ela, chorando mais que uma criança,
Irmã de serafins, doce donzela.
Sou teu noivo... respiro em teus cabelos Ela em soluços murmurou-me: “adeus!”
E teus seios ventura me revela...
Álvares de Azevedo Quando voltei... era o palácio em festa!...
E a voz d’Ela e de um homem lá na orquestra
Preenchiam de amor o azul dos céus.
Entrei!... Ela me olhou branca... surpresa!
Texto III Foi a última vez que vi Teresa!...
Castro Alves
Teresa
A primeira vez que vi Teresa
Achei que ela tinha pernas estúpidas
Achei também que a cara parecia uma perna
Quando vi Teresa de novo
Achei que os olhos eram muito mais velhos que o resto do corpo
(Os olhos nasceram e ficaram dez anos esperando que o resto do corpo nascesse)

Da terceira vez não vi mais nada


Os céus se misturaram com a terra
E o espírito de Deus voltou a se mover sobre a face das águas.
Manuel Bandeira
1- O texto I caracteriza a poesia amorosa da 2ª geração romântica. Assinale a afirmação que melhor identifica a
posição do eu lírico em relação à amada:

a) ( ) Não há o desejo físico pois a mulher só aparece em sonhos


b) ( ) Há o desejo físico mas a amada o rejeita
c) ( ) Não há o desejo físico pois o amor é associado à morte
d) ( ) Há o desejo físico mas o amor é idealizado
e) ( ) Não há o desejo físico pois o amor é platônico

2- Identifique o conjunto semântico que melhor traduz a imagem da mulher no texto I, ou seja, a amada de Álvares de
Azevedo na 1ª parte de sua obra Lira dos Vinte Anos quando ele próprio se denomina de Ariel

a) ( ) cabelos – seios – amante – donzela


b) ( ) santa – pureza – criança – angélica
c) ( ) seio – sonho – cabelos – perfume
d) ( ) cabelos – amante – seios – pureza
e) ( ) alma – cabelos – seios – cintura

3- No texto II, a repetição do substantivo “adeus” nos versos que funcionam como refrões significa:

a) ( ) o aspecto convencional da despedida


b) ( ) a estabilidade do sentimento amoroso
c) ( ) a progressão dramática das separações
d) ( ) a presença do amor realizado
e) ( ) a representação do amor inalcançável

4- Observando o poema de Castro Alves como um todo identifique a opção que comprova o fato de ser ele
considerado o poeta do movimento e dos cenários:

a) ( ) a presença de espaços amplos e a da linguagem grandiloqüente


b) ( ) o diálogo e a estrutura narrativa do poema
c) ( ) a sensualização da mulher e a ampla metaforização
d) ( ) a repetição das palavras e os verbos de movimento
e) ( ) o emprego das reticências e interjeições

5- A Teresa de Castro Alves apresenta-se como nova mulher em relação às musas da primeira e segunda gerações
românticas. Que verso do poema melhor comprova essa afirmação?

a) ( ) “A valsa nos levou nos giros seus...


b) ( ) “Era eu... Era a pálida Teresa!”
c) ( ) “Inda beijando uma mulher sem véus...”
d) ( ) “E a voz d’Ela e de um homem há na orquestra”
e) ( ) “E ela corando, murmurou-me: “adeus”.

6- No Romantismo, ocorre, com freqüência, o processo de sentimentalização através do qual o espaço externo
absorve a subjetividade do eu-lírico. Destaque a opção que confirma essa postura romântica:

a) ( ) “A valsa nos levou nos giros seus...”


b) ( ) “Passaram-se tempos... sec’los de delírio”
c) ( ) “Como as plantas que arrasta a correnteza”
d) ( ) “Quando voltei... era o palácio em festa!...”
e) ( ) “Preenchendo de amor o azul dos céus.”

7- Em “O adeus de Teresa” (Texto II), os pares semânticos “valsa”/ “sala” (1ª estrofe) e “orquestra” / “palácio”
(última estrofe) estabelecem:

a) ( ) a importância da musicalidade no poema


b) ( ) a ironia na identificação dos dois cenários
c) ( ) a festa como motivadora do encontro amoroso
d) ( ) a intenção de enfatizar o dinamismo dos anos
e) ( ) o desejo e a realização amorosa

8- No texto III, Manuel Bandeira retoma o poema de Castro Alves, empregando um tratamento novo, representativo
da atitude do Modernismo em relação ao Romantismo.
Assinale a opção que enuncia aquilo que o texto de Bandeira não faz em relação ao de Castro Alves:

a) ( ) substitui o extravasamento emotivo pela contemplação emocional


b) ( ) reduz os episódios formadores da história
c) ( ) assume perspectiva crítica em relação à mulher
d) ( ) suprime metáforas e comparações
e) ( ) altera os recursos rítmicos do original

9- No texto IV, as impressões do eu-lírico sobre Teresa causam estranheza porque:

a) ( ) privilegiam o corpo em detrimento dos olhos para enfatizar


b) ( ) a experiência tátil descrevem Teresa sob uma ótica romântica
c) ( ) põem, lado a lado, expressões incompatíveis no sentido denotativo
d) ( ) apresentam Teresa do ponto de vista religioso
e) ( ) estabelecem o fim do amor e do desejo masculino

10- Em Bandeira, os dois últimos versos remetem ao Livro de Gênesis, texto de abertura da Bíblia. Considerando o
contexto do poema, assinale a opção que atribui significado inadequado a essa alusão bíblica:

a) ( ) manifestação do arrebatamento amoroso do sujeito poético


b) ( ) identificação da experiência amorosa com anulação dos contrários
c) ( ) caracterização da experiência amorosa como vivência
d) ( ) suspensão do julgamento crítico do sujeito poético
e) ( ) manutenção da individualidade dos amantes

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D B C B C E B D C E

Quiasmo (a)
• Figura de linguagem da família das antíteses
• Do grego Khiasmós = dispor em cruz-, deriva da letra grega [x]
• Cruzamento de grupos sintáticos paralelos:
Ex: Cheguei. Chegaste
Tu vinhas fatigada e triste
e triste e fatigado eu vinha.(Olavo Bilac)

ABXBA
• Ling. Aliteração com fonemas iniciais, centrais ou finais da palavra (p.ex.: O doce re i me rece beu.).

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