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NEPHILINS, ANJOS CAÍDOS OU

OS FILHOS DE SETE?
INTRODUÇÃO

Existe uma grande diferença entre doutrina Bíblica


e uma ideia ou preceito de homens. O Profeta
Jeremias comparou o Trigo e a palha para
demonstrar a diferença entre um e o outro.

“O profeta que tem um sonho conte o sonho; e


aquele que tem a minha palavra, fale fielmente a
minha palavra. Que tem a palha com o trigo?
diz o Senhor. Não é a minha palavra como fogo,
diz o Senhor, e como um martelo que esmiúça a
pedra?” Jr.23:28-29

O trigo, nas palavras do Profeta Jeremias era a


Verdade de Deus, a qual é absoluta, invariável e
imutável, portanto, em todo o tempo e em qualquer
lugar se pronunciará firme e constante. Mas a palha
é semelhante à verdade dos homens, a qual é
efêmera, é pueril e muda de tempos em tempos. O
conhecimento da verdade deve partir de princípios
investigativos que sejam coerentes, consensual,
lógico e principalmente, não contraditório.
Todavia, sempre devemos estar abertos para novas
descobertas acerca da verdade, ou para elucidação
de fatos novos nas Escrituras. Não que as
Escrituras mude de tempo em tempo, mas existem
assuntos que são revelados, porque estavam
ocultos, porém, sempre estiveram ali. É por isso
que a palavra “revelar” significa: Tirar o véu,
descobrir, desvelar, dar-se a conhecer ou
manifestar. No grego essa expressão vem do termo
αποκαλυπτω = apokalupto que significa: Trazer à
luz, tornar manifesto, expor o que estava oculto,
(Gl.3:23).

Essa é minha intenção quando entrar em alguns


assuntos que a priori aparentam ser polêmicos, mas
no final encontraremos meios de apaziguar os
ânimos e esclarecer os entendimentos. O papel da
Teologia na cultura atual é exatamente oferecer
diretrizes para a compreensão e interpretação da fé
cristã no tempo presente. O diálogo e a reflexão
Teológica propõe abertura para a possibilidade de
novas elucidações e melhores entendimentos das
Escrituras sem, contudo, ofuscar a interpretação
Ortodoxa (genuína).

O Apóstolo Paulo faz uma declaração que me


chama bastante a atenção:

“Porque nada podemos contra a verdade, senão


pela verdade.” 2Co.13:8
Paulo estava dizendo que os enganos, as mentiras e
as interpretações errôneas, devem ser combatidas
com a verdade, pois nada pode vencer a verdade.

Não devemos ferir uns aos outros, por causa de


algumas discrepâncias! Entretanto, quando essas
discordâncias forem abissais, ou seja, quando não
estiverem em consonância com a Palavra de Deus,
então, precisamos mostrar a Verdade com firmeza,
a fim de desfazer o engano. Mesmo assim, a
discordância deve ficar nos limites da fé e deve ser
ensinada com amor e mansidão, (2Tm.2:25).

Portanto, peço por gentileza, que o caro leitor


procure analisar toda argumentação antes de tirar
suas conclusões. É de grande importância e de
consenso que, antes de criticar um assunto, o leitor
se dê ao trabalho de ler a totalidade do material
disponível. Pretendo ser o mais Bíblico e imparcial
possível, para que não seja taxado de dogmático
nos pontos conflitantes que aqui defendo. No
tratamento de cada questão me basearei
primeiramente na Bíblia, depois em fontes que
julgo serem fontes sérias e fidedignas. Finalmente,
pretendo utilizar ferramentas que proporcione a
melhor análise e mais completa exegese dos textos.

O leitor tem o direito de questionar, mas deve


investigar cada proposição, com isenção, com
sinceridade e com responsabilidade. Às vezes nós
temos dificuldades de acatar uma ideia, se aquilo
que estávamos acostumados a ouvir sobre um
determinado assunto, não estiver compatível com
as nossas ideias. Mas isso geralmente é um
comportamento de quem não explora e nem
investiga as ideias, apenas ouve o que dizem sobre
elas.

Quando o nosso conhecimento acerca de uma


verdade ou doutrina não se fiam pelas verdades da
Palavra de Deus, mas estão amparados apenas nas
experiências dos outros, surge então uma teologia
estranha e deformada no meio da Igreja. Essas
coisas podem acontecer, quando a Liderança da
igreja não possui um discernimento adequado
acerca da Demonologia, a qual ensina e acredita
naquilo que os demônios e os bruxos dizem,
tornando-se assim, a base de sustentação dos seus
ensinos. Nós temos que ter como base dos nossos
ensinos a Palavra de Deus, baseando nossas vidas
nela, e, no Nome do Senhor Jesus. A Igreja não
pode se deixar impressionar por coisa alguma que
não proceda de Deus ou de sua palavra. Paulo
alertou aos Gálatas sobre tal perigo, (Gl.1:8).

É verdade que existem assuntos polêmicos e até


mesmo duvidosos, os quais não suportam um
cotejo detalhado na exegese bíblica. Espero com a
ajuda do Espírito Santo, poder discorrer sobre estes
assuntos com a devida e necessária
responsabilidade, sem prejudicar as verdades das
Escrituras.

I- A pecaminosidade do Homem nos dias de Noé


e a influência de Satanás na história do Dilúvio.

A História da Bíblia depois de Caim demonstra que


Satanás empenhou-se em tentar frustrar os planos
de Deus acerca do homem. Logo adiante vemos a
história de Noé. Em seus dias, a humanidade
aumentou muito na terra e com essa multiplicação
de pessoas o pecado também aumentou em
demasia. A imoralidade tomou conta das famílias e
as pessoas viviam uma vida de licenciosidades,
imoralidades nos casamentos, prostituições,
feitiçarias, infanticídios, zoofilias, parricídios,
assassinatos, adultérios, incestos, libertinagens e
idolatrias. Os homens esqueceram-se de que havia
um Deus que os criou com a finalidade de servi-Lo,
então passaram a viver dissolutamente e ignorando
o seu Criador. Nessa época, não havia um Livro
Sagrado que pudesse lhes dar orientações acerca de
um Deus Criador de todas as coisas, ou que lhes
desse um Norte acerca da vida com Deus ou acerca
da eternidade. Por isso, os homens viviam cada um
conforme queria segundo suas paixões e domínios
carnais. Nunca em toda história da humanidade
Satanás teve tanta possibilidade de enganar as
pessoas como naquela época. O Apóstolo Paulo se
refere a este período pré-diluviano como uma
época de escuridão e cegueira espiritual, pois as
pessoas mudaram a Glória do Deus incorruptível
em semelhança da imagem de homem corruptível,
e de aves, e de quadrúpedes, e de répteis,
(Rm.1:19-28). Note que Paulo não vê os homens
daquela época como pessoas inocentes, pois o
versículo 20 declara que desde a criação do Mundo,
os atributos invisíveis de Deus, o seu eterno Poder
e a sua Divindade, se entende claramente pelas
coisas que foram criadas, por isso os homens se
tornaram indesculpáveis diante de Dele. Portanto,
por causa de tanta perversidade e corrupção, o
Senhor decidiu que o mundo precisava ser
destruído.

II- Quem são os Filhos de Deus em Gênesis


capítulo 6?

Por causa da desobediência do homem, mais uma


vez Satanás conseguiu interferir nos planos de
Deus. A culpa recaiu sobre o homem, porque este
resolveu seguir os intentos do maligno, se
rebelando contra o altíssimo, (Gn.6:1-7). Há
muitas controvérsias sobre quem são os filhos de
Deus (Gn.6:2), nesse texto. Essa questão é muito
polêmica e divide um número enorme de
estudiosos em torno dessa questão. Diz o texto que
os homens começaram a se multiplicar na terra e os
Filhos de Deus viram que as filhas dos homens
eram formosas e tomaram para si todas as que
escolheram. Não vejo nada de grave e nem de
pecaminoso em que os filhos de Deus tomem para
si, das filhas dos homens as mais belas! Mas Deus
se indignou com isso! Por isso disparou:

“Não contenderá o meu Espírito para sempre


com o homem, porque ele também é carne.”
Gn.6:3b

Deus não queria mais lidar com aquela geração


perversa. Ele estava cansado de tentar mudar o
coração do homem. Sua paciência havia se
esgotado com a humanidade, por isso Ele estava
dizendo que o tempo de vida e de arrependimento
estava limitado a um período. A palavra hebraica
traduzida por contenderá procede do termo
hebraico ‫ דִּ ין‬diyn = Yadon = através da formação e
das raízes do verbo podem significar “permanecer
em desavença, ser humilhado” ou, remetendo-se ao
acádio, pode significar “proteger, servir de
proteção”. Em outras palavras, Deus estava
dizendo:
“O meu Espírito não vai mais proteger o homem,
porque vocês são feitos de carne, não são deuses e
nem são eternos.”

De agora em diante eles teriam um prazo de 120


anos para se arrependerem. Mas Deus estava
querendo proteger o homem de que? O que estava
ocorrendo de grave nesse cenário da história da
humanidade, que levou o Senhor a querer proteger
o homem e dar-lhe tempo e oportunidade de
arrependimento durante 120 anos? No versículo 5
somos informados que a maldade do homem se
multiplicou sobre face da terra e que toda a
imaginação dos pensamentos e do coração, era só
maldade constantemente. Isso revela de um modo
geral o perfil de imoralidade que tomava conta da
mente dos homens daquela época. Mas não
esclarece especificamente que tipos de pecados
foram cometidos pelo homem, que causaram horror
ao Espírito de Deus, a ponto de se arrepender-se de
ter criado o homem, então decidiu destruir o
Mundo daquela época.

“Então arrependeu-se o Senhor de haver feito o


homem sobre a terra e pesou-lhe em seu
coração.” Gn.6:6

A palavra “arrependeu-se” vem do vocábulo


hebraico ‫ = נָחַם‬naw-kham' que significa
“arrepender-se”, “sentir muita tristeza por causa
de” “mudar de ideia a respeito de”. 1 Isso
incomoda muitas pessoas, porque não soa bem para
um Deus a palavra arrependimento, visto que seu
significado atribui a Deus a ideia de transgressão,
porque o conceito comum de arrependimento está
relacionado com afastar-se de atos imorais.
Existem duas passagens no Antigo T. que
asseveram definitivamente, que Deus não mente e
nem se arrepende, como o homem, (Nm.23:19;
1Sm.15:29). Uma análise mais acurada das
passagens relacionadas acima demonstra que o
arrependimento divino, não brota da tristeza por
alguma má ação de Deus. Em um sentido
hermenêutico a expressão “arrependeu-se” é uma
figura de linguagem que se dá o nome de
Antropopatia. Um termo utilizado para atribuir a
Deus emoções humanas. Isso significa que o autor,
não tendo uma expressão adequada para explicar
esse comportamento Divino utilizou a palavra
“Arrependeu”. Porém devemos lembrar que Deus
é imutável, Onipotente, Único, Justo e Bom.
Portanto, nele não há alterações de humor do
mesmo modo que ocorre com um homem. Ele não
é um Deus Irascível ou Vingativo. Sua atitude
nesse caso se baseou em sua Sabedoria e Justiça. O

1 Dicionário Bíblico Strong Léxico Hebraico, Aramaico e


Grego de Strong, 2002
arrependimento nesse texto traz a ideia de
sofrimento e sentimento de pesar por parte de
Deus, não por Ele ter praticado um delito ou um ato
mal, mas porque o homem escolheu se distanciar
do Criador, e agora Ele, teria que punir a sua
criação.

Isso significa que Deus é um ser pessoal que se


sensibiliza com a sua criação por amá-la. Assim
sendo, sua atitude de bondade e de misericórdia
teve que mudar para atitude de Juízo e punição. Por
isso o texto declara que essa mudança de atitude, de
bondade para Juízo, pesou-lhe em seu coração.

III- Porque Deus resolveu destruir a


humanidade, juntamente com os Filhos de Deus
no Diluvio?

Vamos então analisar que mal tão perverso a


humanidade estava praticando naqueles dias de
Noé, para que Deus se arrependesse de ter criado o
homem e resolvesse destruir a terra. Alguns
Teólogos sugerem que o termo filhos de Deus (no
hebraico ha'elohim) se referem aos filhos de Sete,
o outro irmão de Abel e as filhas dos homens eram
as filhas de Caim, portanto, uma geração
pecaminosa e perversa. E que essa relação de união
matrimonial não poderia ser aprovada por Deus.
Daí pensarem que o texto, estava dizendo que os
Filhos de Deus ao tomarem para si as filhas dos
homens, pecaram nisso, transgredindo a vontade do
Criador. Acontece que, mesmo que eu queira ser
totalmente fiel à exegese e à boa interpretação
desse texto, não conseguiria extrair dele essa
informação. Além do mais, se os Filhos de Sete
são considerados os justos e verdadeiros Filhos
de Deus daquela geração, porque o
remanescente desse povo, especialmente as
mulheres e crianças, não entraram na Arca de
Noé?
Nós sabemos que na Arca entraram apenas Noé,
sua esposa, seus três filhos e suas respectivas
mulheres, ou seja, apenas oito pessoas daquela
geração.

Não encontramos nem em Gênesis e nem em lugar


algum da Bíblia, algum texto que contribua com
essa interpretação, citando que se tratam dos filhos
de Sete e das filhas de Caim no capítulo 6 de
Gênesis. No hebraico o texto consta como filhas
dos homens, (‫א ָדם‬,
ָ ‫ =בן‬Benote Adam) que
traduzido é: filhas de Adão 2 e não filhas de Caim,

2 Dicionário Bíblico Strong Léxico Hebraico, Aramaico e


Grego de Strong, 2002
como querem os defensores dessa teoria, os quais
afirmam que em outros lugares do Antigo
Testamento, já havia uma relação filial entre Deus
e os homens (isso não pode ser negado), citando os
seguintes textos:

“Filhos sois do SENHOR vosso Deus; não vos


dareis golpes, nem fareis calva entre vossos
olhos por causa de algum morto.” Dt.14:1

“Corromperam-se contra ele; não são seus


filhos, mas a sua mancha; geração perversa e
distorcida é.” Dt.32:5

Note que no texto acima, por causa do pecado,


Moisés declara que eles não eram Filhos de Deus.

“Se eu dissesse: Falarei assim; eis que ofenderia


a geração de teus filhos.” Sl.73:15

No texto acima o Salmista Asafe se referia aos


Anjos de Deus, pois ele não queria transgredir a
vontade de Deus com suas palavras, afim de não
ofender os Anjos (os teus filhos, no hebraico
banayka) que procede da raiz da palavra ‫בן‬ben
(aramaico) o mesmo que “bene” que significa
Filho, ou filhos de Deus [para anjos]. 3

“Quando Israel era menino, eu o amei; e do


Egito chamei a meu filho.” Os.11:1

Ao analisar os textos do capítulo 11 de Oséias


percebe-se que Deus estava utilizando uma
linguagem figurativa e não Literal. Quando disse:
Meu filho, ensinei Efraim a andar, tomando-o pelos
seus braços, atraí-os com cordas humanas, com
laços de amor e etc... Entretanto, no Novo T. já se
pode ver com nitidez, o tratamento que Deus
passou a dar à Igreja de Cristo que ganhou Status
de filhos de Deus, por causa de Abraão que era Pai
da Nação de Israel e por causa do sacrifício de
Cristo na Cruz do calvário, (Jo.1:11-12; Gl.3:26 e
29).
No Antigo T. a relação de Deus com o seu povo era
de amor, de compaixão e de misericórdia, por isso
em determinadas circunstâncias em que o povo
estava em verdadeira comunhão com o Senhor,
eram chamados de Filhos, mas quando
transgrediam, perdiam esse status de filhos, como
já vimos em Dt.32:5. Mas vejamos outras

3 Dicionário Bíblico Strong Léxico Hebraico, Aramaico e


Grego de Strong, 2002
passagens no Antigo T. que citam as palavras filhos
de Deus, porém, com outra conotação, ou de um
modo diferente, referindo-se a Anjos e não a
homens:

“Onde estavas tu, quando eu fundava a terra?


Faze-mo saber, se tens inteligência. Quem lhe
pôs as medidas, se é que o sabes? Ou quem
estendeu sobre ela o cordel? Sobre que estão
fundadas as suas bases, ou quem assentou a sua
pedra de esquina; Quando as estrelas da alva
juntas alegremente cantavam, e todos os filhos
de Deus jubilavam?” Jó38:4-7

Nesta conversa entre Deus e Jó há uma referência


incontestável, que nos remete ao tempo da criação
do mundo. Nesse contexto, a expressão “Filhos de
Deus” refere-se ao que chamamos de Anjos,
seres celestiais e espirituais criados. Portanto,
sempre que essa expressão ocorre no Antigo T. a
finalidade é fazer referência a Anjos.

“Então o rei Nabucodonosor se espantou, e se


levantou depressa; falou, dizendo aos seus
conselheiros: Não lançamos nós, dentro do fogo,
três homens atados? Responderam e disseram
ao rei: É verdade, ó rei. Respondeu, dizendo:
Eu, porém, vejo quatro homens soltos, que
andam passeando dentro do fogo, sem sofrer
nenhum dano; e o aspecto do quarto é
semelhante ao Filho de Deus.” Dn.3:24-25

Observamos na sequência, que Nabucodonosor


verificou que o quarto homem tinha um aspecto
diferente e especial, por isso, ele não só o chamou
de Filho de Deus, mas também, mais adiante, o
chamou enfaticamente de Anjo.

“Falou Nabucodonosor, dizendo: Bendito seja o


Deus de Sadraque, Mesaque e Abednego, que
enviou o seu Anjo, e livrou os seus servos, que
confiaram nele, pois violaram a palavra do rei,
preferindo entregar os seus corpos, para que
não servissem nem adorassem algum outro deus,
senão o seu Deus.” Dn.3:28

Nos capítulos 1 e 2 do Livro de Jó observamos


uma reunião distante de seres celestiais, onde
aparece um cenário semelhante ao Trono de Deus,
numa ocasião em que o Altíssimo parece estar
julgando algumas questões relativas aos homens e
nesse cenário metafísico, seus Anjos lhe traziam
questões acerca de suas atividades, para que fossem
resolvidas por aquele que estava assentado no
Trono. Note que nessa visitação seus Anjos são
denominados Filhos de Deus:
“E num dia em que os filhos de Deus (‫ בֵּן‬bene,
‫ אֱֹלהִּים‬filhos 'elohiym Deus) vieram apresentar-se
perante o Senhor, veio também Satanás entre
eles.” Jó1:6

“E, vindo outro dia, em que os filhos de Deus


vieram apresentar-se perante o SENHOR, veio
também Satanás entre eles, apresentar-se
perante o SENHOR.” Jó2:1

“Dai ao SENHOR, ó filhos dos poderosos, dai ao


SENHOR glória e força.” Sl.29:1

“Pois quem no Céu se pode igualar ao Senhor?


Quem entre os filhos dos poderosos pode ser
semelhante ao Senhor?” Sl.89:6

Um dos fragmentos do hebraico encontrado pelos


Beduínos em Setembro de 1952 na caverna 4 de
Qumran, refere-se ao Livro de Deuteronômio da
seguinte forma:

“Clamai alegremente, ó céus, com ele, e adorai-


o, ó filhos de Deus (benê ’elōhîm), e a ele tributai
poder, todos vós, filhos do Todo-Poderoso (benê
’ēlîm). Clamai de alegria, ó nações, e a ele
tributai poder, todos vós, Anjos de Deus (kol-
mal’akê ’ēl).” Dt.32:43
Esse texto é consideravelmente maior que o
hebraico no Talmude, mas pode ser o original.4 Em
algumas ocasiões os Anjos são chamados de deuses
no Antigo Testamento.

“Confundidos sejam todos os que servem


imagens de escultura, que se gloriam de ídolos;
prostrai-vos diante dele todos os deuses.” Sl.97:7

A palavra deuses nesse texto refere-se a Anjos


assim como no seu paralelo em Hebreus:

“E outra vez, quando introduz no mundo o


primogênito, diz: E todos os Anjos de Deus o
adorem.” Hb.1:6

No texto hebraico, a palavra Anjo deriva-se do


termo ‫ = מלאך‬mal’ak. No grego provém do
vocábulo  = aggelos que significam
mensageiros ou emissários.

IV- Os Filhos de Deus e a filhas dos homens.

Voltemos à questão sobre os Anjos em Gênesis


cap. 6. A união ilícita considerada pelo Senhor uma
abominação absurda, teria sido mesmo apenas

4 Nota extraída da Tradução: Bíble Works, Versão 9


porque os Filhos de Deus (de Sete) teriam tomado
para si as filhas dos homens (de Caim)? Vamos
analisar este assunto de modo transparente, sem
fugir da verdade:

“Havia naqueles dias gigantes na terra; e


também depois, quando os filhos de Deus
entraram às filhas dos homens e delas geraram
filhos; estes eram os valentes que houve na
antiguidade, os homens de fama. E viu o Senhor
que a maldade do homem se multiplicara sobre
a terra e que toda a imaginação dos
pensamentos de seu coração era só má
continuamente.” Gn.6:4-5

Observe que depois que os Filhos de Deus


mantiveram relações com as filhas dos homens, que
o Senhor viu que a maldade do homem se
multiplicara. Seus descendentes se tornaram
valentes, homens famosos. Antes, porém, vemos
que havia Gigantes na terra, (Gn.6:4), quem
eram esses Gigantes? A tradução de Gigantes,
procedente do termo hebraico ‫ = נְ ִפ ִילים‬neppilîm =
Nephilim, remonta o período anterior à criação da
Versão Septuaginta e significa: Os Caídos, aqueles
que caem sobre os outros, ou atacam os outros.
Tudo indica que esses indivíduos eram seres
maldosos, ou seja, eram enviados pelo Maligno, daí
o significado do termo, Caídos. Estes seres
gigantes, não eram comuns da terra, eram
espirituais e sobrenaturais, eles caíram em
desgraça, caíram do Céu e caíram na Terra.
Veja o Comentário de Norman Geisler em uma
Nota do seu Livro de Teologia Sistemática sobre o
texto em tela:

“Contudo, há outras possíveis interpretações da


passagem de Gênesis 6 (por exemplo, os “filhos de
Deus” são os crentes ou os gigantes da terra).
Além disso, mesmo que esta seja uma referência a
anjos, pode estar indicando os anjos caídos que se
apossam dos seres humanos, que, então, se casam
entre si.”5

O que este versículo (4) está demonstrando, é que


esses filhos de Deus, por serem seres sobrenaturais
(Anjos) caídos, mantiveram relações sexuais com
as mulheres, filhas dos homens; e geraram filhos,
estes foram heróis valentes e famosos naqueles
dias. Esta situação grave e perniciosa foi gerada e
projetada pelo diabo, que ensejava manchar toda a
raça humana e inviabilizar o nascimento do
Messias, a semente da mulher, o qual lhe esmagaria
a cabeça. Sem saber quem seria esse sujeito,

5 Teologia Sistemática Normam Geisler, página 965 / CPAD


2010
Satanás colocou em prática esse plano macabro.
Foi, portanto, por esse gravíssimo pecado da
humanidade, que levou o Senhor Deus a desistir do
homem e enviar o dilúvio sobre toda a terra.
Entendo que este assunto já amplamente debatido
pelos Teólogos, tem se tornado alvo de críticas e
descrença por boa parte dos crentes, entretanto, a
maioria dos críticos se negam a investigar
profundamente o caso e interpretam este texto de
modo inflexível e dogmático, sem se apoiar em
argumentos sólidos nas Escrituras. Estou
procurando ser imparcial e fiel às melhores
traduções, para podermos chegar ao verdadeiro
sentido dos fatos que levaram o Senhor Deus a
destruir a terra através do Dilúvio. Mas é claro que
existem objeções: A primeira delas é a declaração
do Senhor Jesus:

“Porque na ressurreição nem casam nem são


dados em casamento; mas serão como os anjos
de Deus no céu.” Mt.22:30

O texto diz que na eternidade os santos serão como


os Anjos: “Não se casam e nem se dão em
casamento”
Com isso, o texto não está dizendo que os Anjos
são assexuados (sem sexo), ou sobre seus gêneros.
Na verdade Jesus estava ensinando sobre a
ressurreição e sobre a imortalidade dos Anjos.
Comparando o texto de Mateus com o de Lucas,
(Lc.20:34-36) especialmente no v. 36 onde se lê:
“Porque já não podem mais morrer; pois são
iguais aos anjos, e são filhos de Deus, sendo filhos
da ressurreição.” Percebe-se a clareza da intenção
da fala do Senhor Jesus, que desejava explicar aos
Judeus acerca de seu engano e má interpretação da
Lei do Levirato. 6

Também é bom lembrar que o texto de Gênesis


cap. 6 refere-se a Anjos caídos e não a Anjos de
Deus. Estes, quando caíram na terra, se
transmutaram em seres carnais, um processo
conhecido como Epifania, no latim: epiphaneia,
uma palavra de origem grega epiphainein que
significa, manifestação ou aparição, a raiz da
palavra phainein, pode ser traduzida como mostrar,
fazer ou aparecer. É muito usada num sentido
religioso como sinônimo de uma manifestação
divina. Neste contexto, epifania seria o momento
ou a sensação de estar diante de Deus ou de alguma
de suas manifestações. Esses fenômenos ocorreram
algumas vezes na Bíblia, essencialmente no Antigo
T., (Gn.18:1-8).

6 Segundo a qual, se um homem casado morresse, um


parente próximo tomaria sua esposa, gerando filhos para o
marido falecido, (veja Dt.25:5-6).
A aparência e as atividades dos Anjos do Senhor
nesse estado metamórfico assemelham-se à dos
homens: Comeram, beberam, lavaram os pés
cansados e descansaram, conforme o texto
demonstra:

“Que se traga já um pouco de água, e lavai os


vossos pés, e recostai-vos debaixo desta árvore. E
trarei um bocado de pão, para que esforceis o
vosso coração; (vers. 4-5).

“E vieram os dois anjos a Sodoma à tarde, e


estava Ló.” Gn. 19:1

“E chamaram a Ló, e disseram-lhe: Onde estão


os homens que a ti vieram nesta noite? Traze-os
fora a nós, para que os conheçamos.” Gn. 19:5

Note neste último texto, que a aparência física dos


Anjos, era tão semelhante à dos homens, que os
Sodomitas queriam copular com eles. A palavra,
conheçamos no hebraico deriva-se do vocábulo ‫ידע‬
yada` {yaw-dah'}, literalmente: Descobrir sua
carnalidade (nudez). Tem o mesmo sentido de
Gn.4:1. Onde se lê:
“E conheceu Adão a Eva, sua mulher...”, onde
consta a mesma palavra ‫ ידע‬yada` {yaw-dah'}. 7

Outro texto que revela que a aparência dos anjos


em estado de epifania e que se assemelha à dos
homens:

“E sucedeu que, estando Josué perto de Jericó,


levantou os seus olhos e olhou; e eis que se pôs
em pé diante dele um homem que tinha na mão
uma espada nua; e chegou-se Josué a ele, e disse-
lhe: És tu dos nossos, ou dos nossos inimigos? E
disse ele: Não, mas venho agora como príncipe
do exército do SENHOR. Então Josué se
prostrou com o seu rosto em terra e o adorou, e
disse-lhe: Que diz meu senhor ao seu servo?
Então disse o príncipe do exército do Senhor a
Josué: Descalça os sapatos de teus pés, porque o
lugar em que estás é santo. E fez Josué assim.”
Js.5:13-15

Também nesse texto a aparência do Príncipe do


Exército do Senhor era tão parecida com a dos
homens, que Josué ficou confuso.

“És tu dos nossos, ou dos nossos inimigos?”.

7 Nota extraída da Tradução: Bíble Works, Versão 9


O texto em Gênesis cap. 18, como vimos, mostra
Abraão recebendo visitantes angélicos, que
claramente são reconhecidos por ele como o
próprio Deus. Dois deles foram para Sodoma,
porém um ficou e aceitou a intercessão do
Patriarca. Diz o v.33: “E foi-se o Senhor, quando
acabou de falar a Abraão...” Na mentalidade
judaica, ver o anjo do Senhor correspondia a ver o
Senhor que o enviou, como em Jz.6:22: “... vi o
Anjo do Senhor face a face”. Jacó assim se
expressou: “... vi a Deus face a face e a minha vida
foi salva”, Gn.32:30, depois de ter lutado com “um
homem”, v.24, onde os estudiosos da Bíblia
entendem que seria um anjo, pois a Bíblia diz que
ninguém nunca, jamais viu a Deus, (Jo.1:14). Os
pais de Sansão também receberam a visita do anjo
e temeram a morte, (Jz.13:20-22).

Os textos acima revelam uma situação


tecnicamente denominada Antropomorfismo, ou
seja, a manifestação do ser divino ou dos Anjos em
forma humana. Do mesmo modo que Deus e os
seus Anjos, satanás e seus agentes, ainda que
tenham caído do céu e perdido o seu brilho, não
perderam essa capacidade ou função de
Transmutação. Eu não quero parecer uma pessoa
que fica divagando sobre essas questões, como que
inventando histórias fantasiosas. Mas vamos aos
fatos que comprovam minha tese:
- Não há provas explícitas na Bíblia de que Anjos
não têm sexo, só se diz que eles não se casam,
como já vimos em Mt.22:30.

- A igreja primitiva via os B’nai Elohim como


Anjos até o final do 4º século. Entre os defensores
dessa tese, estão personagens importantes como:
Justino, Atenágoras, Cipriano e Eusébio.

V- Uma Definição exegética dos termos “Filhos


de Sete” em Gênesis 6:

- As literaturas Apocalípticas conhecidas como os


“Escritos Pseudepígrafes”, eram defendidas por
Philo, Josefo e Plínio. Nós sabemos através da
História, que o desenvolvimento da doutrina dos
Anjos, recebeu informações nos Livros I e II de
Enoque, no Livro dos Jubileus 3 p. 109, e nos
testemunhos de videntes.8 Entretanto, Celso e
Juliano o Apóstata, tinham o hábito comum de
atacar o cristianismo, assim como, Cirilo de
Alexandria repudiavam a posição ortodoxa. Julius
Africanus, contemporâneo de Orígenes, introduziu
a teoria de que os “filhos de Deus” mencionados
no Livro de Gênesis cap. 6 referem-se à linhagem
de Sete e que estes, estavam empenhados em

8 Vida nos Tempos de Jesus, o Messias, Alfred Edersheim,


Livro 3, Capítulo 2.
preservar a verdadeira adoração a Deus. Essa
Teoria, aparentemente mais atraente e menos
apimentada, prevaleceu na Igreja Medieval, e
muitos ainda a sustentam em suas defesas
atualmente. Essa visão, porém, é susceptível de
muitas indagações e carecem de provas mais
acuradas. O Livro de Gênesis não demonstra e nem
indica que os descendentes de Sete foram
distinguidos pela sua piedade, pois eles, não foram
isentos da culpabilidade que condenou o mundo
daquela geração, à destruição pelo dilúvio. Essa
interpretação cai em completa contradição, quando
vemos que exatamente o filho de Sete, Enos, foi
quem introduziu a apostasia neste mundo. O
relato desse episódio, infelizmente foi mascarado
por uma má tradução do texto em Gn.4:26, que
talvez por força da influência prevalente em defesa
desse conceito na época, foi que induziu os copistas
e eruditos a começaram a Traduzir esse texto com
este sentido. Temos conhecimento que na primeira
Tradução de João Ferreira de Almeida, o próprio
Almeida encontrou cerca de dois mil erros.9
Observando o texto no hebraico podemos notar
com clareza que no final, além de constar uma
expressão diferente da tradução JFA, consta

9 O Novo T. Interpretado vers. por vers., Russel N. Champlin,


5ª edição, 1986
também outra palavra. Vejamos a Tradução de
JFA:

“A Sete também nasceu um filho, a quem pôs o


nome de Enos. Foi nesse tempo, que os homens
começaram a invocar o nome do Senhor.”
Gn.4:26

Observe as palavras “começaram a invocar” No


original Hebraico consta inegavelmente a palavra
‫ קָ ָרא‬qara' que significa: Chamar, clamar, recitar,
ler, gritar, proclamar. Porém, ao lado desta
palavra, consta também inegavelmente, outro
verbo; e este foi ocultado do texto. O verbo procede
do termo ‫ חָ לַ ל‬chalal=khaw-lal' que traduzido
significa: Profanar, contaminar, poluir, começar. 10
Então a melhor Tradução para o final desse texto
seria:

“... Foi nesse tempo que os homens começaram a


profanar o Nome do Senhor com suas palavras.”

Aqui está um problema sério de tradução que eu


também tive dificuldades para aceitar, porque
sempre li esse texto, sem fazer uma sondagem
profunda no vernáculo. Então consultei um

10 Dicionário Bíblico Strong Léxico Hebraico, Aramaico e


Grego de Strong, 2002
professor de hebraico, o qual me declarou que a
última frase deste versículo (26), tem que ser
traduzida literalmente da seguinte forma:

“Naquele tempo os homens começaram a


profanar ou a contaminar o nome do Senhor.”

Suas informações vieram das fontes dos Targums


de Onkelos, Jonathan e do rabino Maimônides. Ele
me informou que sempre foi entendido no judaísmo
ao longo da era pré-Yeshua (a.C.) e no tempo de
a.D. Yeshua, que este versículo significa o início da
idolatria da humanidade. Então, comecei a olhar
para os Targums de Onkelos e Jonathan. Aqui está
o que eles dizem (nas traduções em inglês) sobre
Gn.4:26b

- A Definição de “Filhos de Sete” no Targum de


Jonathan:
“E Adão conheceu sua esposa novamente, no fim
de cento e trinta anos depois que Habel tinha sido
assassinado; e ela deu à luz um filho, e chamou o
seu nome Sheth; pois disse: O Senhor me deu outro
filho em vez de Habel a quem Kain matou. E a
Sheth também nasceu um filho, e chamou o seu
nome Enos.”

“Essa foi a geração em cujos dias eles


começaram a errar, e tornaram-se aos ídolos, e
começaram a invocar aos ídolos pelo Nome do
Senhor.”

- A Definição de “Filhos de Sete” no Targum de


Onkelos:
“E Adão conheceu ainda a sua mulher, e ela deu à
luz um filho, e chamou o seu nome Sheth; Porque,
disse ela, o Senhor me deu outro filho em vez de
Habel, a quem Kain matou. E a Sheth também
nasceu um filho, e chamou o seu nome Enos.

“Então, em seus dias os filhos dos homens


desistiram ou abstiveram-se de orar em nome do
Senhor.”

Para uma verificação mais detalhada, podemos


observar outros textos do Antigo T. onde a mesma
expressão, (khaw-lal') é traduzida com o mesmo
sentido de Gn. 4:26:

“Mas ele foi ferido por causa das nossas


transgressões, e moído por causa das nossas
iniquidades; o castigo que nos traz a paz estava
sobre ele, e pelas suas pisaduras fomos sarados.”
Is.53:5

A palavra ferido no original hebraico consta como:


‫ ָח ַלל‬chalal khaw-lal' e pode ser traduzido:
profanado, ferido conforme está no texto.
Outro texto:

“Porque introduzistes estrangeiros,


incircuncisos de coração e incircuncisos de
carne, para estarem no meu santuário, para o
profanarem em minha casa, quando ofereceis o
meu pão, a gordura, e o sangue; e eles
invalidaram a minha aliança, por causa de todas
as vossas abominações.” Ez.44:7

Onde novamente é vertida do hebraico a palavra


‫ ָח ַלל‬chalal=khaw-lal' e agora vemos literalmente a
expressão traduzida para profanar. Existem outros
textos onde a mesma palavra, trás essa tradução ou
sentido, mas para não ficar enfadonha essa
discussão, apenas vou indicá-los: Ex.20:25;
Ex.31:14; Dn.11:31 e Lv.21:4.

VI- O que dizem os Intérpretes e alguns Pais da


Igreja a respeito dessa questão.

Adam Clarke:
“A leitura marginal é: Então os homens
começaram a chamar pelo nome do Senhor. Essas
palavras são supostamente para significar que, no
tempo de Enos os verdadeiros seguidores de Deus
começaram a distinguir-se, e deve ser distinguido
por outros, pela denominação de filhos de Deus;
os do outro ramo da família de Adão, entre os
quais o culto divino não foi observado, destacando-
se pelo nome, filhos dos homens. Não se deve
ocultar o que muitos homens eminentes afirmaram
que começou a invocar, deve ser traduzido:
“Começou a profanar, ou então a profanação
começou, e a partir desta época datam a origem
da idolatria”

Do ponto de vista de Adam Clark, portanto, a


geração de Enos, oficialmente, constitui-se de os
primeiros idólatras, e a punição para sua loucura
não foi adiada por muito tempo. Deus fez com que
o mar ultrapassasse seus limites e a terra foi
inundada pelo Dilúvio. O contexto histórico logo
após os dias de Enos, não nos permite negar o
sentido óbvio da Tradução desse Texto, porque o
pecado da humanidade se alastrou de tal maneira,
que Deus resolveu destruir toda aquela geração.
-Agostinho, (século IV), entendia que a
diversidade de traduções é mais útil do que um
impedimento à compreensão, se os leitores
puderem somente discerni-las. Deve-se considerar,
também, que uma abordagem popular da tradução
não significa, propriamente, abertura às heresias ou
a pensamentos delirantes. A falsa ideia de que uma
tradução do texto fluente seja a majoritária e,
portanto, a mais correta, poderá na verdade, estar
reforçando ideologias e valores excludentes.
Quando, porém, se mesclam indistintamente a
Autoridade da Palavra Revelada, com uma
interpretação plana e explícita de uma doutrina,
veicula-se no texto traduzido, um encontro
insofismável com a verdadeira intenção do Autor.

-Judas, irmão do Senhor, em sua carta, cita o Livro


de Enoque como fato inspirado, ainda que o livro
não faça parte do Canon, porém, era um livro
largamente respeitado por autoridades Rabínicas e
autoridades cristãs, desde cerca de 200 a.C. até
cerca de 200 d.C.

“Tertuliano (160-230 d.C.), pensava, de modo


bem definido, que I Enoque é um livro inspirado e
chegou a admirar-se de que o mesmo tenha sido
preservado apesar do dilúvio.”11

“E aos anjos que não guardaram o seu


principado, mas deixaram a sua própria

11 Enciclopédia de Bíblia, Teologia e Filosofia, R. N.


Champlin, Ed. HAGNOS 1991.
habitação, reservou na escuridão e em prisões
eternas até ao juízo daquele grande Dia; Assim
como Sodoma e Gomorra, e as cidades
circunvizinhas, que, havendo-se entregue à
fornicação como aqueles, e ido após outra carne,
foram postas por exemplo, sofrendo a pena do
fogo eterno. E, contudo, também estes,
semelhantemente adormecidos, contaminam a
sua carne, e rejeitam a dominação, e vituperam
as dignidades.” Jd. Vers. 6-8

“E destes profetizou também Enoque, o sétimo


depois de Adão, dizendo: Eis que é vindo o
Senhor com milhares de seus santos.” Jd. Vers.
14

Entregue a fornicação ἐκπορνεύω = ekporneuo (ek-


porn-yoo'-o) Literalmente: para se prostituir,
entregar-se à fornicação. “Como aqueles”, quem
são aqueles? Os Anjos que não guardaram seu
Principado e foram após outra carne, como é dito
no texto anterior, (Vs. 6). Os estranhos
acontecimentos de Gênesis capítulo 6 são também
referidos no Novo T. na Epístola de Pedro, onde é
demonstrado os eventos que precederam o dilúvio
de Noé:
“Porque, se Deus não perdoou aos anjos que
pecaram, mas, havendo-os lançado no inferno,
os entregou às cadeias da escuridão, ficando
reservados para o juízo; E não perdoou ao
mundo antigo, mas guardou a Noé, a oitava
pessoa, o pregoeiro da justiça, ao trazer o
dilúvio sobre o mundo dos ímpios.” 2Pd.2:4-5

Pedro usa o termo inferno, no grego


= Tartaros, um termo pagão para
Hades, lugar de punição para os Anjos que se
rebelaram contra o Altíssimo, (Veja En. 20:2). Este
texto é um paralelo do sexto versículo da Epístola
de Judas, onde vemos que os Anjos caídos estão
guardados em cadeias eternas, na escuridão exterior
para o dia do Juízo de Deus, o Juízo do Trono
Branco, (Ap.20:11). É interessante notar que o
Apóstolo Pedro se refere ao período da queda dos
Anjos coincidindo com o período pré-diluviano.

VII- A Punição de Deus contra os Anjos que


Caíram nos dias de Noé.

“Porque também Cristo padeceu uma vez pelos


pecados, o justo pelos injustos, para levar-nos a
Deus; mortificado, na verdade, na carne, mas
vivificado pelo Espírito; No qual também foi, e
pregou aos espíritos em prisão. Os quais noutro
tempo foram rebeldes, quando a longanimidade
de Deus esperava nos dias de Noé, enquanto se
preparava a arca; na qual poucas (isto é, oito)
almas se salvaram pela água.” 1Pd.3:18-20

Nesse texto fica evidente que nosso Senhor ao


descer no Hades, (palavra que é tradução do termo
grego ταρταρόω = Tártaro, como descrito no Livro
de 2Pd.2:4), pregou aos espíritos, ou seja, aos
Anjos que ali estavam aprisionados. Este local é
distinto do inferno ou do Lago de Fogo, pois se
trata do lugar onde os Anjos que caíram nos dias de
Noé e como castigo foram lançados ali. O pecado
cometido por esses Anjos, como já explicamos, foi
tentar desumanizar a humanidade impregnando-a
de uma Natureza Semi-Anjélica, com a finalidade
de impossibilitar a encarnação do Verbo de Deus.
O Dilúvio foi, portanto, uma resposta de Deus para
purificar a raça Humana, que estava manchada por
esse mal. Mas o que foi que nosso Senhor foi
proclamar aos Anjos caídos? Não há uma resposta
clara nas Escrituras para isso. Mas pode-se deduzir,
baseando-se em alguns fatos:

-Em primeiro lugar observo que Cristo não foi ali


para proclamar a Salvação daqueles Anjos, como se
houvesse uma oportunidade de arrependimento
para aqueles espíritos aprisionados, pois não há
recurso algum na Obra expiatória de Cristo para
Salvação de Anjos, apenas de homens, (Hb.2:16).
Além do mais, isso é contradizente com o que
vemos em 2Pd.2:4, onde consta, que estes Anjos
estão sendo reservados para o dia do Juízo.

-Em segundo lugar, é provável que o Senhor Jesus


tenha descido ali, com a finalidade de proclamar
sua vitória aos Anjos caídos, pois estes tentaram
frustrar o plano de Deus no que tange ao
nascimento e encarnação do Filho de Deus, com
vistas ao cumprimento de suas promessas de
Redenção da Humanidade.
“A linguagem simbólica de cadeias e abismos, não
foi criada pelos autores da epístola de Judas ou de
Pedro. Tais descrições já existiam na Literatura
Rabínica do período pré-cristão. (veja Enoque
10:4-6; 19:1 54:5). São frequentes as alusões aos
Livros Apócrifos nos últimos livros do Novo
Testamento, como Tiago, 2 Pedro, Judas, as
epístolas Pastorais e a epístola aos Hebreus.”12

Judas refere-se a Anjos que não permaneceram na


sua posição original de Autoridade, mas violaram
as leis de Deus, por isso estão encarcerados,
aguardando o dia do Juízo. A rebelião desses

12 O Novo T. Interpretado vers. por vers., Russel N.


Champlin, 5ª edição, 1986.
Anjos, pois, não coincidem com a primeira rebelião
que levou a queda de Lúcifer, ou do Querubim
ungido. Aqueles se encontram soltos, perturbando
os moradores da terra, estes, porém, estão presos
até o Juízo daquele grande Dia.

Porque eles foram presos? O que de tão grave


fizeram, que o Senhor decidiu aprisiona-los? Eles
se rebelaram contra o Altíssimo, tentando obstruir
seus planos de Redenção, manchando a raça
humana, a criação de Deus. O Senhor não mudou
sua atitude para com aqueles Anjos, o tempo não
atenuou a gravidade dos seus pecados. Por isso eles
permanecem em prisões denominadas eternas. Para
evidenciar minhas colocações, eu cito aqui as
passagens do Livro de Enoque conforme foi citado
por Judas e Pedro:

“Portanto, deves abandonar o sublime e santo


céu, o qual permanece para sempre; deitastes
com mulheres; vos corrompestes com as filhas
dos homens; tomastes para ti esposas; agistes
igual aos filhos da terra, e gerastes uma ímpia
descendência. Sois espirituais, santos, e
possuidores de uma vida que é eterna; vos
contaminastes com mulheres, procriastes em
sangue carnal; cobiçastes o sangue de homens; e
fizestes como aqueles que são carne e sangue
fazem.” En.15:2-3 (Veja ainda En.18:13-16)

Isso é o que vemos no Livro de Enoque, e foi isso


que Judas e Pedro citaram, porém, de forma
sintetizada, porque o Livro descreve os detalhes
dos episódios como se estivesse passando por uma
visão longa sobre os fatos ocorridos nos dias de
Noé. Se essas citações são sem valor algum, porque
Judas as citou? E porque o Livro de Judas foi
incluso no Canon, mesmo que tenha citado o Livro
de Enoque?

“Investigar com critério aquilo que se vê e ouve é


respeitar a si mesmo e a sua própria inteligência.
Se alguém não respeita a sua própria inteligência,
não pode respeitar aquilo em que acredita. Não
deveríamos aceitar nada sem antes realizar uma
análise crítica dos fenômenos que observamos.”13

13 O Mestre dos Mestres / pag. 9, Augusto Jorge Cury - São


Paulo: Academia de Inteligência, 1999.
CONCLUSÃO

Toda a discussão que desenvolvi em torno deste


assunto, teve a finalidade de demonstrar ao caro
leitor, a seriedade e a importância que a Igreja deve
dar ao Tema: “Batalha Espiritual”, a fim de que
se saibam: Que satanás e seu exército, não estão
dormindo e nem estão de brincadeira nessa Batalha.
Assim como no passado, ele e seus Anjos algozes
trabalharam constantemente para destruir os planos
de Deus contra o seu povo, também ao longo da
história da Igreja devemos estar atentos à todas as
suas estratégias e artimanhas.

Autor ELIEL SANTOS


PHD em Teologia
BIBLIOGRAFIA

A Vida nos Tempos de Jesus, o Messias, Alfred


Edersheim, Livro 3.

Bíblia de Estudo Pentecostal, versão João


Ferreira de Almeida Revista e Corrigida, SBB
Rio de Janeiro Edição 1995.

Bíblia versão João Ferreira de Almeida, Revista


e Corrigida, SBB, Rio de Janeiro 1996.

Dicionário Bíblico Strong Léxico Hebraico,


Aramaico e Grego de Strong, SBB São Paulo
2002.

Enciclopédia de Bíblia, Teologia e Filosofia, R.


N. Champlin, Ed. HAGNOS São Paulo 1991.

Nota extraída da Tradução: Bíble Works,


Versão 9.

O Mestre dos Mestres; Augusto Jorge Cury; São


Paulo: Academia de Inteligência, 1999.

O Novo T. Interpretado vers. por vers., Russel


N. Champlin, 5ª edição, Editora Candeia, São
Paulo 1986.

Teologia Sistemática Normam Geisler; Editora


CPAD; Rio de Janeiro 2010.

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