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Teoria da historiografia da escravidão

1 – As comemorações dos Quinhentos Anos do Descobrimento da América e do Brasil,


os governos Lula e Dilma, os incentivos da Petrobras, a legislação sobre obrigatoriedade
da história da África, a descoberta do pré-sal e correspondente revalorização geopolítica
do Atlântico Sul, a catalogação dos documentos da escravidão, a fundação da editora
Companhia das Letras são fatores que contextualizam a última vaga dos estudos sobre a
escravidão no Brasil. Estamos em uma situação de transição e separação. Um governo
desvairado e uma pandemia nos proporcionaram níveis de angústia ameaçadores dos
padrões sustentáveis de tratamento da realidade. A investigação da experiência
americana e brasileira são imperativos são renovados na terra dos cem anos de solidão.
2 – Uma ampliação da produção dos melhores programas de pós-graduação brasileiros,
assim como ampliação da internacionalização dos estudos sobre a escravidão (através
de financiamento de projetos de pesquisa interinstitucionais com a redemocratização)
também é elemento indutor desse processo. Internacionalmente a pesquisa sobre a
escravidão e o tráfico negreiro foi iniciada pelo trabalho das missões, impulsionada pelo
movimento abolicionista, pela descolonização, pelo movimento dos direitos civis e
pelos influxos dos estudos subalternos e identitários. Interesses econômicos (o controle
das mercadorias), políticos (a cobrança de impostos), humanitários (a denúncia da
escravidão) se cruzam criando documentação, recepção, produção e instituições que
alimentam um dos campos acadêmicos mais importantes e ativos.
3 – No Brasil dos anos setenta, o debate entre os estudos orientados pela categoria de
modo de produção escravista e os que se orientavam pela abordagem do sistema
colonial moderno dividiu e estimulou a pesquisa sobre a história da escravidão.
Uspianos, cepalinos e dependentistas apresentavam uma leitura que dirigia a atenção
para o regime das trocas internacionais. Os marxistas defendiam uma explicação
orientada pela lógica do que denominavam como o “modo de produção escravista”.
4 – Nos anos noventa e 2000 há uma nova transformação categorial: a) o conceito de
identidade insiste nas pesquisas sobre as rebeliões e nas lutas por afirmação cidadã; b) a
cunhagem do conceito de “segunda escravidão” (não a escravidão dos impérios
modernos, mas aquela que sofre os influxos da Revolução Industrial); c) a micro-
história com seus intentos de construir abordagens macrossociais de ponta fina; d) a
tropologia incorpora os avanços da filosofia da linguagem e da teoria literária e
demonstra o papel classificador das metáforas e de produção do conhecimento das
narrativas; e) a mestiçagem retorna como problema diante da reconstrução que a história
das instituições, do direito, das ideias e dos discursos realiza mostrando chamando a
atenção para as camadas de valor e ação que preservam a sobrevivência de valores do
antigo regime na modernidade e a continuidade de associações, comunidades e
organizações; f) o pensamento histórico renova-se com a atualização da hermenêutica
(como investigação da alteridade) e da neuro-ciência (memória, imaginação e
inteligência constituidoras de esquemas de categorização). É necessário pensar como se
pensa em cada época a sociedade: conceitos de ser como unidade e mudança,
conhecimento como linguagem codificada, fala como prática de sistema, interpretação
como pergunta normalizada, memória como construto imagético atual, imaginação
como figuração substitutiva, inteligência como capacidade de solução de problemas,
consciência como intencionalidade, compreensão como capacidade empática situada,
inconsciente como parte constituinte da formação das intenções e representações são
elementos da reconstrução da vida com sentido. Quem aprende a reconstruí-la aprende
também a produzi-la conscientemente. Os estudos sobre a escravidão são uma espécie
de educação histórica humanista: questionam e querem interferir na constituição dos
estratos consciente e pré-consciente da ação e representação humanas na modernidade.
5 – A documentação cartorial e judicial de cunho narrativo se junta aos registros
eclesiais e administrativos e é acompanhada pela formulação de novos conceitos
oriundos da crítica que a micro-história dirige aos Annales. A história social necessita
de uma ponta fina que acompanhe os processos e dê sentido para o entendimento das
macro-transformações. É necessário respeitar a pluralidade de estratos de tempo
(planos, durações e origens distintas, mas com funcionamento simultâneo) para
compreender e interpretar os momentos e lugares das sociedades, ordens políticas e
culturas que os sistemas escravistas produziram. A teoria dos tempos históricos é a saída
diante da ameaça de subjetividade (o problema da narração) e infinidade
(interdisciplinaridade como dispersão) que pesa sobre a História. Movimentos históricos
sofrem influência de âmbitos temporais distintos. O potencial de representação depende,
semanticamente, da escolha das fontes pois cada uma é coordenada por distintas
categorias temporais. Como cada tipo de fonte exige procedimentos de acesso distintos
e a isto se junta as limitações impostas pelo quadro conceitual e pelas estratégias de
ordenação e exposição do conhecimento obtido, o que se produz é a necessidade de
coordenar e explicitar todas essas camadas de tempo, ou camadas categoriais.
6 – A longa duração nos faz descobrir a universalidade desse sistema de controle e
produção de trabalho. A média duração impõe o saber das mudanças conjunturais
oriundas das relações entre regiões e funções no conjunto da crescente compressão
tempo-espaço que caracteriza a economia capitalista nas suas várias fases. O saber do
acontecimento nos deixa atento para a existências e as temporalidades. Padrões de
experiência e percepção podem ser assim também catados. Mais que isso, a História
passa a investigar totalidades no sentido da integração de várias camadas e dimensões
do fazer e acontecer humanos.
7 – Com Hegel se pode pensar a dialética do senhor escravo e como uma sociedade
montada em torno de valores de ilusória aristocracia degrada a humanidade. Com La
Boetie podemos pensar as vantagens da passividade e os prazeres da submissão. Com
Freud aprendemos sobre as situações que integram patologicamente dor, crueldade,
projeção e delírio. Mas os regimes fascistas nos ensinaram como todo um povo pode
ritualizar o seu desejo por dominação, paz e prosperidade sustentando regimes
totalitários. Há muito o que aprender estudando escravidão.
8 – A escravidão como cerne da formação da sociedade brasileira está ainda no centro
do debate político. Mais que o patrimonialismo e o populismo ela é a referência para os
debates que, na historiografia, se confundiram com a localização do caráter nacional,
com o estudo da sociabilidade que os latifúndios da agricultura monocultora criou, com
a localização da religiosidade das irmandades de ajuda mútua do catolicismo vernacular,
com a pesquisa sobre a recorrência das violentas relações na história do Brasil e com a
reconstrução da estrutura política oligárquica, excludente e racista. A historiografia da
escravidão produziu ênfases no tratamento de cada um desses temas. Essas ênfases
dependem de fontes, conceitos, procedimentos e estratégias, mas as teses se alinham em
torno da defesa de princípios que retornam aos problemas da maior ou menor
resistência, negociação, passividade ou atividade da população escrava. A discussão
sobre a escravidão é a discussão sobre o povo brasileiro. O que se descobriu sobre isso é
que a pesquisa da escravidão exige um tratamento especializado de pontos, momentos e
problemas específicos. As generalizações aqui duram pouco. Precisamos dela porque
precisamos explicar o Brasil. Jessé Souza, José de Souza Martins, Lilia Schwartcz,
Laura de Mello e Souza e Laurentino Gomes hoje apenas atualizam o que no passado
era tratado por Roberto da Matta, Darcy Ribeiro, Wanderley Guilherme dos Santos,
Werneck Sodré, Caio Padro, SBH, Capistrano, Euclides da Cunha, Rio Branco, Silvio
Romero, Joaquim Nabuco, Varnhagen, Von Martius, Januário da Cunha Barbora, José
Bonifácio. A história da historiografia brasileira com José Honório, Arno Wehling,
Manoel Salgado, Temístocles Cézar, Estevão Martins, Sara Albieri, Thiago Nicodemo,
Fernando Nicolazzi, Valdei Araújo, Arthur Assis, Pedro Spindola, Sérgio da Mata tem
se dedicado a reconstruir e criticar o discurso da nação e do povo em uma discussão que
se estende no tempo e não parece ter fim. Ela depende, sobretudo, da relação passado,
presente e futuro. Em um campo que aproxima história intelectual, filosofia da história,
história da ciência, epistemologia das ciências humanas, ensaio e literatura, a história da
historiografia, ao abordar os discursos de identidade e orientação presentes em uma
política da história, exige o tratamento inventarial e multidimensional e essa é uma
tarefa infinita.
9 – Escravidão: resistência, negociação, passividade. Martins, joao josé, movimento
negro acadêmico.
10 – transfiguração étnica: Darcy.
11 – escravidão indígena.
12 – Freyre, caio prado, euclides.
13 – identitarismo, racismo, culturalismo: hebe matos, lilia schwartcz, laura de mello e
Souza, slenes, jjreis, novaes, cpjr.
14 – cronistas e a sociedade estamental, documentação e a escravidão africana,
hierarquia na senzala: narrativa, cartório, judiciário, imprensa, literatura (espanha, maria
lemke,
15 – hermenêutica do brasil.
16 – Laurentino (a dor).
17 – a construção da nacionalidade
18 – a terceira escravidão (JSMartins)
19 – Saidiya Hartman perder a mae uma jornada pela rota atlântica da escravidão.
Consciência negra e imaginação da liberdade. Cultura moderna com a mesma
magnitude do terror que a produziu.
20 – dor e sofrimento, pesquisa e reconstrução, viagens escravas (o arquivo do tráfico).
21 – escravidão: de dilema liberal à racialização (hebe mattos).
22 – Silvia hunold Lara.
23 – Schwartz (não havia) e Hespanha (havia): o antigo regime nos trópicos.
23 – comparar os impérios. Diversidade de centros e agências plurais.
24 – história global e impérios vistos desde baixo Maria Bicalho e Maria de Fátima
Silva Gouvea.
25 – 16 e 17 é diferente do 18. Revolução francesa, pombal. Alto custo exigia
negociação.
26 – Escravos vindos de partes distintas que variavam em momentos distinto. Mais
pesquisa.
27 – Dicotomia analítica e diversidade categorial: escravidão em branco e preto e
escravidão distribuidora de cotas imateriais. Heranças de toda sorte. Como entender
estamento e hierarquia entre egressos do cativeiro. Como ex-escravos ou escravos
podem fazerem-se senhores em ambiente de naturalização dos estratos e reciprocidade
desigual. Giovanni Levi, Carlo Giszburg, João Fragoso e Antonio Miguel Hespanha
renovaramm a interpretação da sociedade escravista. Fundaram uma nova epistemologia
da história social. Ao invés de abandonar o acidental e concentrar-se no repetitivo,
integrá-lo, entendendo-o como a ponta fina dos macroprocessos. Trata-se de parar de
medir agregados e só observar a longa duração. Importa sair da era que se legitima
apenas pelas séries, indicadores simples e evoluções. História científica não é apenas
validação empírica de hipóteses controladas proceduralmente. Com isso forja-se fraca
reflexão ontológica e desvios metodológicos acompanhados de absolutismos
categoriais. A solução é aplicar o princípio da variação: a escala de observação produz
efeitos de conhecimento. Estratégias, tramas e formas são alteradas e essas mudanças
precisam ser incorporadas à pesquisa. Só a monografia, com seu espaço unitário,
prático, probabilístico e concreto, não basta. Comportamentos, experiências, identidades
devem ser integrados e a abordagem holística dos comportamentos (influência da
antropologia inglesa) encaminhada. Fundamental é a tese da imersão de Karl Polanyi:
os seres humanos e suas relações estão imersos em instituições. A história as constituiu
e a história pode reconstituir os modos de suas operações. Assim engendramos uma
epistemologia das ciências humanas que compreende e interpreta diversidades e está
melhor capacitada para reconstruir camadas e dimensões da vida social. O que temos
como desafio é a monografia de múltiplas camadas e dimensões.
28 – A historiografia da escravidão produziu mudanças na interpretação da história do
Brasil e na própria disciplina. Senão vejamos: a) Emilia Viotti versus Werneck Sodré:
oeste versus vale é melhor que a contraposição burguesia urbana, abolicionista-
republicana, contra aristocracia rural, monarquista e escravista; b) abriu a leitura do
brasil para os processos transatlânticos ao substituir o esquema criado por Frei Vicente,
Southey, Varnhagen, Capistrano e SBH de centrar nas relações com o Estado
metropolitano e monáquico o foco narrativo da constituição do país; c) forçou a
comparação com outros impérios coloniais; d) enriqueceu a leitura da sociedade
mostrando condicionantes oriundos tanto do antigo regime como da dinâmica de
desenvolvimento da economia capitalista; e) criou um campo de estudos onde todas as
questões relevantes e recorrentes da teoria da história foram testadas com utilização de
procedimentos renovados e conceitos cada vez mais elaborados; f) sobretudo
demonstrou a fecundidade da convivência da diversidade de referenciais lógicos e
empíricos, métodos qualitativos e quantitativos, objetos apreendidos em curta, média e
longa duração e a complementaridade das escalas macro e microscópicas. O importante
é o problema escolhido e o sistema crítico das variáveis (ontológicas, epistemológicas,
teóricas, procedurais, estéticas e políticas) que estão presentes em qualquer investigação
científica das coisas humanas.
29 – Lilia, Marquese, Laura, Maria Odila, Emília Viotti, Sérgio Buarque (inventor da
tese oeste versus vale, influenciado por Weber), Malheiros Dias (Centenário,
colonização portuguesa do brasil 3 vls.), Capistrano de Abreu/1853-1927 (sob o influxo
do darwinismo social, assim como Silvio Romero, Euclides da Cunha, Tobias Barreto e
Oliveira Viana), Francisco Adolfo de Varnhagen/1816-1878 (monarquista, escravista,
historicista), os indianistas românticos (Gonçalves, Alencar, Macedo), Southey/1774-
1843, Frei Vicente/1564-1639, André João Antonil-1649-1716, os cronistas
(Camões/1524-1580, Pero de Magalhães Gândavo/1540-1580, Gabriel Soares/1540-
1591, Fernão Cardin/1549-1625).
30 – Varnhagen é o depositário e fonte de mitos da história do brasil: carnaval, canibal,
degredo, nomadismo, branqueamento, escravismo suave. O capítulo XIV, do volume 1
da HGB é nesse sentido exemplar, pois trata da escravidão e do desterro. Citando Vieira
ao se referir aos escravos como peças, Varnhagen ensina as vantagens que estes
obtinham da relação com “gente mais polida” e com a “civilização do cristianismo”.
Claro que o “gênio alegre” e os dotes musicais de seu canto “monótono, afinado e
melodioso” ajudavam. O historiador do Império é prático, quer ajudar a construir uma
nação. Uma postura propositiva apresenta uma estratégia realista e reconstrói a rede de
relações que, em cada momento de nosso passado, realizou a solução católica, tropical e
ibérica da colonização. Da África temos a bunda, a malagueta, o dendê e o mocotó, são
palavras-chave entre muitas outras. Algo atrapalha o seu “pouco pudor” e sua “tenaz
audácia”. Mas o Brasil dos primeiros séculos sofre também de desmoralização,
irreligiosidade, insubordinação e contrabando. E ainda havia as invasões de franceses e
holandeses. A defesa da terra impunha o frouxo convívio com criminosos. A cavalaria
estava morta, a conquista impunha a cobiça. Mas nem tanto ao mar: Roma nascera do
rapto e estupro das sabinas. O trabalho de reconstrução objetiva das relações que
criaram o Brasil estava limitado pela percepção do presente nacional. Um jovem
imperador era o seu principal leitor. Uma geração de literatos românticos o criticavam
de perto. Sua importância reside no esforço de compreensão da civilização brasileira
que referenciou os esforços posteriores de Capistrano de Abreu e Sérgio Buarque de
holanda. A subjetividade Varnhagen aparece em toda a sua obra, suas categorias são as
de seu espaço de experiência e sua escrita dá forma a seu horizonte de expectativa.
31 – Escravidão e capitalismo: mpescravista colonial vesus sistema econômico mundial.
O lugar da escravidão na acumulação primitiva de capital depende de variáveis tais
como a fase veneziana, a fase holandesa, a expansão ibérica, o papel do noroeste
europeu, a economia global, o crédito internacional, o capitalismo comercial, o
capitalismo industrial, o mercantilismo, a economia atlântica, os impérios coloniais
modernos, numa palavra, da história do capitalismo.
32 – O problema de fundo é o da convivência de exclusão e miscigenação. Freyrianos e
marxistas se distinguem na avaliação da sociedade que nasceu da escravidão. A escola
paulista (florestan, fhc, beiguelman, viotti, ianni e seus alunos) insiste na relação entre
escravismo e relações raciais desiguais e excludentes. Os freyrianos chamam a atenção
para a especificidade do escravismo em uma sociedade estamental e católica. Aprende-
se com as duas: conceitos, procedimentos, estratégias de representação, pressupostos e
princípios orientam qualquer pesquisa e os resultados devem ser avaliados em função de
uma série de variáveis todas elas indicadoras de interesses e contextos produtores de
conhecimento.
34 – A combinação de história da moral, micro-história e história das mentalidades
compôs uma história sem medo da ambiguidade teórica. Com Mott, Mello e Souza e
Vainfas compara-se história da família e reconstrução do uso dos prazeres, mentalidade
popular e saber erudito, códigos (sistemas de valores e leis), condutas (moralidades) e
éticas (modelos de relação consigo) da época da escravidão. Intentos de reforma do
sistema combinam-se com projetos de cristianização.
35 – A demografia do tráfico e o estudo da família escrava com instrumentos
cliométricos e procedimentos quantitativos constituem outra vertente da historiografia
da escravidão. Surge daí saberes sobre práticas das religiosidades recriadas, sobre a
hierarquia na senzala, a relação entre crioulos e africanos e destes com o mundo dos
brancos. Essas pesquisas mostram as distinções, estratégias e condições de resiliência e
recriação da vida nas condições da diáspora e tem um valor renovador semelhante
àquele proporcionado pelo uso de fontes cartoriais, eclesiásticas, judiciais e policiais.
36 – As melhores revisões bibliográficas são as de Roussel-Wood (Africans and
Europeans: bibliography and perceptions of reality/1982), Stuart Schwartz
(2001/Escravos, Roceiros e Rebeldes), Stanley Stein (O Tráfico de Escravos no
Atlântico/2004) e Rafael Marquese (Os Tempos Plurais da Escravidão no Brasil/2020).
37 – A sociedade do antigo regime deve ser compreendida também a partir da sua auto-
representação. Os sistemas políticos são auto-referenciais: eles funcionam ao
legitimarem-se (Luhmann). A história das mentalidades atualizou o papel dos modelos
mentais de justificação. O funcionamento da sociedade e das instituições políticas do
antigo regime só é possível a partir da imagem corporativa que o constituía. Retorna o
argumento weberiano: as ordens e interesses materiais condicionam o funcionamento da
sociedade, mas eles próprios são idealmente, vale dizer, simbolicamente constituídos.
Reduções materialistas ou idealistas são apenas diferentes formas de determinismo,
reducionismo e mecanicismo que empobrecem as ciências humanas. As melhores
revisões bibliográficas são as de Roussel-Wood (Africans and Europeans: bibliography
and perceptions of reality/1982), Stuart Schwartz (2001/Escravos, Roceiros e Rebeldes),
Stanley Stein (O Tráfico de Escravos no Atlântico/2004) e Rafael Marquese (Os
Tempos Plurais da Escravidão no Brasil/2020). A “virada de Hespanha” nos estudos
sobre tráfico negreiro não foi o último movimento no debate. Depois dele tivemos a
reação dos “tempos múltiplos” no estudo sistema colonial moderno e do tráfico
negreiro. Aqui trata-se de localizar modelos e fases, sobretudo, ênfases que concretizam
avanços em uma discussão que está longe de ter um fim.

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