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sans

Gayeté
(Montaigne, Des livres)

Ex L i b r i s
José M i n d l i n

V
O L I V E I R A LIMA
DA ACADEMIA B R A Z I L E I N A •

DOM JOÃO VI
NO BRAZIL

1808 - 1821

PRIMEIRO VOLUME

RIO DE JANEIKO
Typ. do Jornal do Com mcreio, de Rodrigues & C.

1908
Trabalhos do auctor

Pernambuco, seu desenvolvimento histórico — Leipzig, 1894.


Aspectos da litteratura colonial brazileira — Leipzig, 1896.
Sept ans de République au Brésil — Paris, 1896.
Nos Estados Unidos, Impressões politicas e sociaes — Leipzig
1899.
Memória sobre o Descobrimento do Brazil e negociações diplomá-
ticas a que deu origem - Rio de Janeiro, 1900.
O Reconhecimento do Império—Rio de Janeiro-Pariz, 1901.
N o Japão, Impressões da terra e da gente — Rio de Janeiro, 1903.
Relação dos Manuscriptos de interesse para o Brazil existentes no
Museu Britannico de Londres — Rio de Janeiro, 1903.
• Elogio acadêmico de F. A. de Vernhagen — Rio de Janeiro, 1903*
O Secretario d'El-Rey, peça histórica — Rio de Janeiro-Pariz, 1904.
O papel de José Bonifácio no m o v i m e n t o da Independência —
S. Paulo, 1907.
O padre M a n o e l de Moraes — S. Paulo, 1907.
Pan-Americanismo, Bolivar-Monroe-Roosevelt — Rio de Janeiro-
Pariz, 1908.
Cousas diplomáticas — Lisboa, 1908.
Gustavo Beyer — S. Paulo, 1908.
ÍNDICE
ê

ÍNDICE DOS CAPÍTULOS

PAGS.
Introducção — Situação internacional de Portugal
em 1808 3
I A partida 37
II A illusão da chegada. O que era a nova
corte 71
III O que era o resto do Brasil 107
IV O p r i m e i r o ministério e as primeiras provi-
dencias 167
V Emancipação intellectual 229
VI A rainha D. Carlota 261
VII As i n t r i g a s platinas 283
VIII A regência hespanhola 333
IX Relações commerciaes do B r a s i l . Os tra-
tados de 1810 363
X O t r a f i c o de escravos 414
XI O imperialismo e a situação m i l i t a r . To-
mada de Cayenna 437
XII No congresso de Vienna 463
XIII Elevação do B r a s i l a reino 519
XIV A discussão da Guyana 555

ÍNDICE DAS GRAVURAS

Conde de Linhares >5


1(

Rainha D. Carlota 2 5 9

Conde da Barca 5 1 7
I
4

»-

PREFACIO
Baseado, como é, este trabalho em grande
parte sobre documentos originaes e inéditos, que
constam da enumeração final e se encontram em
archjvos nacionaes e estrangeiros, cabe-me ex-
pressar meu reconhecimento aos Srs :
Joaquim Pires Machado Portella, antigo dire-
ctor do Archivo Publico, que me indicou os papeis
d'esse deposito aproveitados na obra ;
Dr. Gabriel de Piza, ministro do Brazil em
Pariz, que para m i m solicitou do Ministério dos
Negócios Estrangeiros de França a permissão de
consultar a correspondência diplomática alli guar-
dada ;
Louis Farges, chefe da secção histórica do
archivo do Quai d'Orsay, e outros funccionarios
que amavelmente me acolheram e serviram ;
Dr. Jansen do Paço, chefe da commissão in-
cumbida da reorganização do archivo do Ministério
das Relações Exteriores, e Mario Behring, da secção
dos manuscriptos na Bibliotheca Nacional, que
com a maior gentileza me auxiliaram nas pesquizas
feitas nas suas respectivas repartições ;
Thompson, embaixador, e Dawson, secretario
da embaixada dos Estados Unidos no Brazil, que
me facultaram compulsar os documentos da antiga
legação.
Com agradecimento e saudade relembro os
nomes do venerando director geral da Secretaria do
Exterior, visconde de Cabo Frio, que me auctorizou
em 1903-04 a consultar o archivo do Ministério,
e do meu fallecido e bom amigo Edward I . Renick,
omcial maior do Departamento de Estado de Was-
hington em 1896, o qual me deu franca entrada no
archivo do Ministério Americano.

M. de Oliueira Lima.

Engenho Cachoeirinha, 13 de Maio de 1907.


NOTA SOBRE OS RETRATOS

Os retratos, cujas reproducções acompanham esta


obra, f o r a m todos executados em vida (dos respectivos per-
sonagens, excepção feita do de Linhares, que data de 1843.
O de Dom João V I é uma gravura franceza e o de Dona
Carlota Joaquina uma gravura portugueza, ambas da epo-
cha. Pradier, a quem se deve os trez bellos retratos de
Barca, Palmella e Marialva, abertos em Pariz em 1818,
era u m dos artistas mandados v i r ao Brazil pelo monarcha.

1 — El Rei Dom João VI, desenho de Camoin e gravura


de Huet.
• — A Rainha Dona Carlota Joaquina, p i n t u r a de T r o n i
2

e gravura de Aguilar.
3 — Conde de Linhares, l i t h o g r a p h i a de Caggini.
4 — Conde da Barca, gravura de Pradier, Pensionista de
S. M. P. e Sócio da R. A. de Bellas Artes do R i o de
Janeiro.
5 — Conde de Palmella, p i n t u r a de Grégorius e gravura de
Pradier.
6 — Marquez de Marialva, p i n t u r a de Madrazzo e gravura
de Pradier.
A
M E M Ó R I A HONRADA

DE

MEU PAI
E AOS

MEUS MESTRES PORTUGUEZES

JAYME MONIZ

Z. CONSIGLIERI PEDROSO M. PINHEIRO CHAGAS


G. DE VASCONCELLOS ABREO THEOPHILO BRAGA
F. ADOLPHO COELHO A. DE SOUZA LOBO
i

ti

c
D. JOÃO VI NO BRAZIL

1808—1821

D. J. — 1
INTRODUCCÃO

SITUAÇÃO INTERNACIONAL DE PORTUGAL EM 1 8 0 8

Dom João VI foi sem duvida alguma no Brazil, e ainda


jé, u m r e i p o p u l a r . D a dynastia n a c i o n a l c o n t i n u a elle a ser
o favorito. D o m P e d r o I impõe-se pela sua energia e bra-
vura; Dom P e d r o I I i n s p i r a mais veneração e f e r v o r pela
sua elevação m o r a l e acrisolado p a t r i o t i s m o , mas c o m Dom
João V I o s e n t i m e n t o p u b l i c o f a z menos cerimonia. O l h a - o
c o m u m a t e r n u r a em que e n t r a m u m a c e r t a dose de reconhe-
cimento, u m p o u c o c h i n h o de compaixão e uns toques de p r o -
tecção.
O . elemento c u l t o da opinião, este e n t r o u ha m u i t o a
considerar c o m razão, e ainda que mais i n s t i n c t i v a m e n t e do
que conscientemente, Dom João V I como o verdadeiro
fundador da nacionalidade b r a z i l e i r a , u m t i t u l o que o I n s t i -
t u t o Histórico consagrou ao a b r i r o seu concurso p a r a a nar-
ração do r e i n a d o a m e r i c a n o d'aquelle m o n a r c h a .
Encontra-se, sem que se faça m i s t e r g r a n d e esforço de
indagação, o p r i m e i r o j n o t i v o de u m a tão extensa populari-
dade, n a sincera a m i z a d e t e s t e m u n h a d a pelo soberano p o r t u -
4 DOM JOÃO VI NO BRAZIL

g u e z á sua p r i n c i p a l colônia, n o apego c o m que a e l l a se


p r e n d e u , n a i n t i m a correspondência que l o g o se estabeleceu
entre a sua personalidade e o meio. Si menos b e m l h e f i c a -
ram p o r isso q u e r e n d o n a metrópole, m a i o r f o i a sympathia
que desde então cercou o seu n o m e na a n t i g a possessão, con-
v e r t i d a em R e i n o pela sua presença.
Predilecção tão m a r c a d a pelo B r a z i l t r o u x e c o m e f f e i t o
em P o r t u g a l a D o m João V I sérios dissabores. E r a c o m t u d o
um f a c t o p e r f e i t a m e n t e n a t u r a l , u m a conseqüência essencial-
m e n t e h u m a n a . F u g i d o do v e l h o R e i n o ante a b r u t a l i n v a -
são dos Francezes, e h a v e n d o s o f f r i d o em Lisboa durante
q u i n z e annos a repercussão r e l a t i v a m e n t e modesta mas em
todo o caso penosa, das perturbações políticas e das t r a n s f o r -
mações sociaes de que P a r i z estava sendo o g r a n d e t h e a t r o
europeu, o P r i n c i p e R e g e n t e sentio dilatar-se-lhe a a l m a á
vista d'essa plácida e pomposa n a t u r e z a t r o p i c a l , e especial-
m e n t e em presença do p r o f u n d o socego da sua n o v a c a p i t a l ,
que só mais t a r d e se a l v o r o t a r i a ao echo da revolução p o r t u -
gueza. A o e f f e i t o sedativo que u m c l i m a brando e quente
pode exercer sobre as organizações l y m p h a t i c a s c o m o a sua,
acerescia pois a t r a n q u i l l i d a d e m o r a l , a confiança do gover-
nante. Horríveis visões d e i x a r a m p o r -uma v e z de p o v o a r as
horas de l e i t u r a e de sesta em que o R e g e n t e se c o m p r a z i a
sobre o l a r g o sofá que, em f r e n t e ao oratório, l h e o f f e r e c i a
o remanso da sua fresca p a l h i n h a no q u a r t o de v e s t i r do
Paço da cidade.
T u d o q u a n t o até então constituirá a sua a t m o s p h e r a de
eleição, elle f o r a e n c o n t r a r n o B r a z i l . E n c o n t r o u as cerimo-
nias de corte, t a l v e z burlescas p a r a o desabusado r a d i c a l de
hoje, mas e x t r a o r d i n a r i a m e n t e gratas ao coração de u m mo-
narcha do século X V I I I . Encontrou os sermões resoando
eloqüentes sob a abobada dos templos, d o m i n a n d o c o m suas
DOM JOÃO VI NO BRAZIL 5

o b j u r g a t o r i a s a multidão p r o s t r a d a nas naves, l i s o n j e a n d o


c o m suas allusões discretas, q u a n d o não c o m seus l o u v o r e s
empolados, o a m o r próprio do soberano, c u j a f i g u r a o p o v o
e n t r e v i a n u m a t r i b u n a da capella-mór a t r a v e z de u m a n u -
n e m a r o m a t i c a de incenso, e m festas realçadas pelos accordes
suggestivos da musica sacra mais melodiosa que a devoção
religosa e o s e n t i m e n t o artístico p r o d u z i r a m no nosso c o n t i -
nente. E n c o n t r o u o t r a t o q u o t i d i a n o , de u m a c o r d i a l i d a d e
que a magestade de u m dos i n t e r l o c u t o r e s p r o h i b i a ao o u t r o
de m u d a r em f a m i l i a r i d a d e , c o m u m m u n d o de acadêmicos
i m p r e g n a d o s de l e t t r a s clássicas, de monges preoccupados
de boa pitança t a n t o q u a n t o de boa p h i l o s o p h i a , de f i d a l g o s
seduzidos pelas cavalhadas e touradas mais do que pelos t o r -
neios intellectuaes.
T u d o isto r e v i v e u para elle no R i o de J a n e i r o , e r e v i v e u
descançadamente. P a r a mais n'um scenario de enfeitiçar,
abrilhantado por u m sol incomparavel, avivado pelos tons
calidos das flores selvagens que e s m a l t a m o verde uniforme
das florestas quasi impenetráveis, b a n h a d o de u m a aragem
tcpida, p r o p i c i a á deliciosa v i d a sedentária que f a z i a o des-
espero da desenvolta i n f a n t a hespanhola, a q u a l as conveniên-
cias dynasticas t i n h a m dado p o r esposa ao príncipe affectuoso
e pacato, avesso não só aos campos de b a t a l h a como até aos
enfados dos desalojamentos, c h a m a d o e n t r e t a n t o a cíngir a
coroa p o r t u g u e z a num dos m o m e n t o s mais agitados e crí-
ticos da h i s t o r i a do m u n d o c u l t o .
Em verdade não l h e h a v i a m f a l t a d o , ao pobre Dom
João, íntimos desgostos n e m cuidados de governança. L o g o
apoz as p r i m e i r a s affirmações revolucionárias em França,
gelando de p a v o r os m o n a r c h a s absolutos, representantes
do d i r e i t o d i v i n o , a apparição do m a l incurável que d u r a n t e
v i n t e e q u a t r o annos a f f l i g i o a excellente R a i n h a D o n a Ma-
6 DOM JOÃO VI NO BRAZIL

r i a I , a g g r a v a n d o c o m os uivos da l o u c u r a , pesadelo do f i l h o
extremoso, as c o n t i n u a d a s e amargas reflexões do Regente.
Em seguida o v e r g o n h o s o c o m p o r t a m e n t o de D o n a Carlota
J o a q u i n a , t r a i d o r a como cônjuge, c o n s p i r a d o r a como prin-
ceza, desleal sempre e sem interrupção. Sua perfídia che-
gara ao p o n t o de querer em 1806 d a r p o r demente o m a r i d o
p a r a assumir o poder c o m u m a alcatéa de f i d a l g o s cupidos,
os quaes se t e r i a m v i s t o roubados p o r q u a n t o o i n t e n t o de
B e u r n o n v i l l e , o agente diplomático f r a n c e z c u j o dedo a n d a v a
n'esta t r a m a como nas sizanias da r e a l família hespanhola,
era f a z e r passar o g o v e r n o de P o r t u g a l ás m ã o s do príncipe
da Paz, e n t r a n d o n o j o g o o R e i da H e s p a n h a n a qualidade
de t u t o r n a t u r a l do seu neto, o Príncipe da B e i r a , u m a v e z
r e p e l l i d a D o n a C a r l o t a pelo p a i z como i n d i g n a da regência.
P a r a coroar tão t r i s t e v i v e r , a humilhação e o v i l i p e n d i o
que a fraqueza a c a r r e t a v a todos os dias ao R e i n o d a p a r t e
dos gabinetes estrangeiros.
Tem sido em e x t r e m o censurada a dírecção impressa
no f i n a l do século X V I I I á política p o r t u g u e z a , verberadas
a hesitação e a d u p l i c i d a d e da d i p l o m a c i a do R e i n o . Uma
era porém o r e s u l t a d o da o u t r a . P o r v e n t u r a não se h a l e -
vado s u f i c i e n t e m e n t e em c o n t a a posição delicadíssima de
uma nação c u j a d e b i l i d a d e a f a r i a f a t a l m e n t e g r a v i t a r na
o r b i t a de i n f l u e n c i a de o u t r a potência mais f o r t e , c u j o r e g i -
men a d m i n i s t r a t i v o era o autocratico, e c u j o ímmenso im-
pério c o l o n i a l , tão vasto q u a n t o vulnerável, estava no mais
c o m p l e t o desaccordo c o m os meios de acção de que a metró-
pole d i s p u n h a p a r a o d e f e n d e r e o m a n t e r . E r a Portugal
portanto uma nação cujas tradições a l e v a v a m a c o m b a t e r
as idéas da Revolução e cujos interesses a c o m p e l l i a m a pro-
curar g a r a n t i r a i n t e g r i d a d e do seu domínio, não apenas
e u r o p e u como transatlântico; n u m a p a l a v r a , que e r a sa-
DOM JOÃO VI NO BRAZIL 7

c u d i d a ínstinctiva e s i m u l t a n e a m e n t e nos braços da Hespa-


n h a e nos da I n g l a t e r r a , nos do p a i z essencialmente reaccio-
n a r i o e nos do p a i z essencialmente marítimo, a q u e l l a a mo-
n a r c h i a que a b r i g a v a a Inquisição, esta a potência que d o m i -
n a v a o Oceano.

A a m i z a d e i n g l e z a p o r t a l f o r m a representava u m axio-
raa necessário p a r a os homens de E s t a d o de P o r t u g a l que,
nas negociações p a r a a paz c o m a França, em 1 8 0 1 , o que
elles mais a peito t i v e r a m s a l v a g u a r d a r f o i a n e u t r a l i d a d e
p o r t u g u e z a , incompatível c o m q u a l q u e r h o s t i l i d a d e que pu-
desse ser t e s t e m u n h a d a á G r ã B r e t a n h a . N a s u l t i m a s ins-
trucções ( 1 ) mandadas ao m a r q u e z de N i z a , q u a n d o a n d o u
em missão diplomática p o r São Petersburgo, sob p r e t e x t o de
c u m p r i m e n t a r o C z a r pelo t i t u l o que recebera de G r ã o M e s t r e
da O r d e m de M a l t a , de facto p a r a s o l i c i t a r os bons officios
imperiaes nas negociações pendentes, era f a c u l t a d o ao enviado
acceitar a condição de fechar os p o r t o s portuguezes aos na-
vios de g u e r r a e corsários das potências belligerantes, m a n i -
festando assim o R e i n o a mais p e r f e i t a n e u t r a l i d a d e . Não
se l h e p e r m i t t i a c o m t u d o a d m i t t i r a condição de fechar os
portos aos I n g l e z e s sem m o t i v o especial, porque seria ex-
por-se o p a i z a u m a g u e r r a r u i n o s a p a r a suas colônias da
A s i a , África e A m e r i c a e p a r a seu commercio. D'este depen-
dia aliás, n a phrase das instrucções, a sua subsistência abso-
luta: um b l o q u e i o de L i s b o a e P o r t o r e d u z i r i a pela f o m e o
Reino, visto f a l t a r a P o r t u g a l pão p a r a o sustento de mais
de q u a t r o mezes do anno.

T a m b é m a i n f l u e n c i a b r i t a n n i c a em P o r t u g a l constituía
u m a feição a d q u i r i d a e já p e c u l i a r da política p e n i n s u l a r , da-
tando o seu i n i c i o do t e m p o das pelejas continentaes dos

(1) Instrucções de 21 de Abril de 1801, n o Archivo Publico


do R i o de J a n e i r o .
8 DOM JOÃO VI NO BRAZIL

reis de I n g l a t e r r a pelo tbrono da França, quando D o m João,


o Mestre d'Aviz, despozou D o n a F i l i p p a de Lancastre. E'
m u i t o sabido que sob os Braganças, durante o reinado de D o m
Pedro I I , essa influencia, que tomara vigor com o enlace de
D o n a Catharina, filha de D o m João I V , com Carlos I I de
I n g l a t e r r a e a conseqüente cessão de T a n g e r e Bombaim,
revelou-se decisivamente no tratado commercial chamado
de M e t h u e n , desbancando a influencia franceza que o au-
x i l i o m o r a l de Richelieu e M a z a r i n o á causa da independên-
cia portugueza e o consórcio do monarcha com a astuta p r i n -
ceza de Nemours, discípula política de L u i z X I V , t i n h a m
tornado preemínente.
Por seu lado a alliança castelhana, impossível emquanto
durara em Madríd a dynastia austríaca, que visava á rean-
nexação de P o r t u g a l , fízera-se viável com a ascensão dos
Bourbons, posto que substituíssem as desconfianças os a t t r i -
tos, e que por amor da I n g l a t e r r a o D u q u e d'Anjou hou-
vesse até sido combatido, em.beneficio do A r c h i d u q u e d'Áus-
tria, por D o m João V, cuja f i l h a mais tarde se u n i u ao Prín-
cipe Real de Hespanha, ao passo que o Príncipe Real portu-
guez despozava uma infanta hespanhola.
A l i iança dynastica significava então sem sombra quasí
de duvida alliança política, e t a l orientação exterior, sympa-
thica a Castella, pela qual pugnava com tamanha obstina-
ção D o n a M a r i a V i c t o r i a de Bourbon, mulher de D o m José,
só podia ter ganho incremento com o afastamento do go-
verno do marquez de Pombal, por natureza e calculo i n -
fenso a toda alliança, sobretudo a que envolvesse idéa de pro-
tecção e rara seria, no caso de Portugal, a que não suppozesse
semelhante idéa. Os primeiros effeitos da maior intimidade
hispano-portugueza f o r a m logo evidentes, no próprio anno
do fallecímento d'El-Rei D o m José, nos tratados de 1777-78,
DOM JOÃO V I NO BRAZIL 9

que fc regulavam a questão dos limites americanos, mas que,


mercê da cláusula de alliança defensiva, t o r n a r a m obrigatória
a p o s t e r i o r participação p o r t u g u e z a na c a m p a n h a do Rus-
silhão.

A s considerações da supposta a m i z a d e hespanhola e da


disfarçada protecção b r i t a n n i c a não desculpam p o r certo a
petulância, a f a n f a r r o n i c e , c o m que o m i n i s t r o L u i z P i n t o
(Balsemão) acolheu a França l i b e r a l ; não p e r d o a m especial-
mente os esforços empregados p o r este h o m e m de.Estado, a
quem se i m p u n h a antes uma reserva a i n d a que hostil,
para levantar na E u r o p a uma cruzada contra o constitu-
cionalismo de 1 7 9 1 , acceito e j u r a d o p o r L u i z X V I . M a s
quando as conquistas moraes da Revolução entraram a
m i n a r os t h r o n o s seculares; q u a n d o os l i v r o s que P a r i z ex-
p o r t a v a começaram a i n c e n d i a r os cérebros; q u a n d o as con-
versações de cafés e p a r t i c u l a r m e n t e as sociedades secretas
p r i n c i p i a r a m a i n s t i g a r as vontades, que papel c u m p r i a ao
m i n i s t r o de u m r e i absoluto senão o de oppor u m dique á
maré ameaçadora, r e p r i m i r as aspirações, castigar as acções ?
N ã o se e r g u e u a E u r o p a depois do 10 de A g o s t o de
1792 contra a Republica proclamada em Pariz ? Não lan-
çara antes d'isso B r u n s w i c k o seu famoso m a n i f e s t o ? Não
$e t i n h a m d e c i d i d o as potências de leste a c o a d j u v a r os emi-
grados de C o b l e n t z e não m a n d a r a m soldados seus a esta-
c a r e m em V a l m y e a c a h i r e m em Jemmapes ? Q u e t a n t o é
pois que P o r t u g a l , onde r e i n a v a h a v i a século e meio uma
dynastia nacional, tendo reatado pela consangüinidade a
tradição m o n a r c h i c a do p a i z independente, recebesse com
h o r r o r a n o v a da execução de L u i z X V I e, a d h e r i n d o á p r i -
m e i r a coalisão pelo t r a t a d o de L o n d r e s de 26 de Setembro
de 1793, expedisse navios seus a enfileirarem-se n a esquadra
b r i t a n n i c a e mandasse u m a divisão a u x i l i a r j u n t a r - s e ao exer-
10 DOM JOÃO VI NO BRAZIL

c i t o hespanhol, fazendo h o n r o s a m e n t e de 1793 a 1795 a cam-


p a n h a do Russilhão ?
O sentimento de s o l i d a r i e d a d e m o n a r c h i c a , activado
pelos numerosos e m i g r a d o s francezes que em Lisboa instin-
c t i v a m e n t e s e r v i a m de agentes de Pitt c o n t r a as vistas mais
i n t e l l i g e n t e s o u pelo menos mais sensatas do d u q u e de L a -
fões, espirito c u l t i v a d o pelas viagens e pelas l e i t u r a s , venceu
o do r e s t r i c t o interesse n a c i o n a l . A c a m p a n h a do Russilhão
c o n t r i b u i o não pouco p a r a a r r u i n a r o já p o b r i s s i m o P o r t u g a l ,
quer pelas despezas p r o p r i a m e n t e de g u e r r a , e g u e r r a dis-
tante, que o r i g i n o u , quer pelo m o t i v o que f o r n e c e u aos cor-
sários francezes p a r a prezas marítimas. D e 1794 a 1801 o
c o m m e r c i o do R e i n o s o f f r e u prejuízos avaliados em mais de
200 milhões de francos, quasi t u d o em cargas v i n d a s do
Brazil.

Lafões e Seabra não se t i n h a m no e m t a n t o esquivado


? ic7tr err tcn^po rè??<h?r as v m t p r e h s que ? n e u t r a l i d a d e
estava t r a z e n d o á Suécia, D i n a m a r c a e Estados U n i d o s ( 1 ) ,
o duque assim d e s m e n t i n d o a n t i c i p a d a m e n t e o f r a c o conceito
de estadista em que a f f e c t a v a t e l o a facção i n g l e z a , c o n f o r m e
:

se e n c o n t r a pouco depois e s p i r i t u o s a m e n t e m a n i f e s t a d o p o r
D. R o d r i g o de Souza C o u t i n h o n'uma c a r t a ao Príncipe Re-
gente ( 2 ) . NPella se e x p r i m i a da seguinte f o r m a o futuro
conde de L i n h a r e s a respeito do seu a n t a g o n i s t a , n u m des-
peito de p o l i t i c o a g g r a v a d o por uma antipathia pessoal,
mesmo p o r q u e a f i d a l g a indifferença de Lafões d e v i a t e r o
condão de i r r i t a r a boliçosa n a t u r e z a de D. R o d r i g o : " D i -
gne-se V. A. R. v e r que o D u q u e n u n c a e s t u d o u matérias
políticas senão a t o i l e t t e de a l g u m a s senhoras que c o r t e j o u
"— ———
(1) Histoire de Jean VI, Roí dc Portugal etc. P a r i s et Letozte
1827. '
(2) C a r t a de Novembro de 1799. A r d i . Pub. do R i o de J a n e i r o .
DOM JOÃO VI NO BRAZIL 11

e que n u n c a f o i r e c o m m e n d a v e l senão pelas viagens que f e z


c o r r e n d o a Posta e representando Tragédias e Comédias em
sociedades galantes."

Combatendo a Revolução, é força c o n v i r que a coroa


p o r t u g u e z a estava c o m t u d o no seu papel. Si a Hespanha, an-
t e p o n d o sempre a todos os conchavos o seu sonho de u n i d a d e
ibérica, e persistentemente disposta a c o m p r o m e t t e r e a n n u l -
l a r o único obstáculo p e n i n s u l a r a tão t e n t a d o r a miragem,
mais t a r d e a b a n d o n o u c o m descaro o a l l i a d o e assignou sósi-
n h a em Basiléa a paz i n f a m a n t e de 1 7 9 5 — c o n t r a quem
depõe semelhante proceder senão c o n t r a o g o v e r n o de Ma-
d r i d ? P o r t u g a l viu-se c o m p e l l i d o , pelas circumstancias em
que o d e i x o u o abandono da Hespanha, a i n v o c a r c o m p u e r i l
astucia uma neutralidade tão problemática que, segundo
declarava o próprio gabinete de Lisboa, a força de antigos
t r a t a d o s de a m i z a d e c o m a G r ã B r e t a n h a o o b r i g a v a a vio-
l a r abertamente. N o a n d a r das espinhosas negociações as-
sentes sobre u m a base p o r t a l m o d o frágil, não podia o R e i n o
d e i x a r de recolher desconsiderações e a t t r a h i r i n j u r i a s . E'
esta a sorte inevitável dos paizes pequenos e fracos, até q u a n d o
lhes assiste o d i r e i t o .
D e m a i s , e n t r a r a P o r t u g a l n'esse p o n t o a p e r c o r r e r quiçá
o mais d i f f i c u l t o s o passo diplomático dos seus annaes de
nação débil e de independência i n v e j a d a ; c o n s t r a n g i d o de
u m a b a n d a a i m p l o r a r , p a r a obter a benevolência da França,
a mediação da Hespanha, c u j a manhosa evolução política,
em sentido favorável ao Directorío, então se estabelecia f r a n -
camente ( 1 ) ; receioso, p o r o u t r o lado, de o f f e n d e r o me-
l i n d r e b r i t a n n i c o e s o f f r e r - l h e nas colônias o r a i o vingador,
de fulminação plausível v i s t o que o R e i n o consentira em alie-

(1) 19 de Agosto de 1796.


12 DOM JOÃO V I NO B R A Z I L

n a r a l i b e r d a d e mesmo de f i r m a r ajustes de p a z sem prévio


assentimento d a I n g l a t e r r a .
Em 1 7 9 6 retirou-se P o r t u g a l d a coalisão e a p r o v e i t o u o
armistício de L e o b e n n o anno ímmediato p a r a t r a t a r c o m o
D i r e c t o r i o os seus ajustes. A situação tornara-se critica e
q u a l q u e r solução parecia e n c e r r a r graves perigos. L o g o que
a H e s p a n h a d e c l a r a r a a g u e r r a á G r ã B r e t a n h a , e x i g i r a que
P o r t u g a l fizesse causa c o m m u m c o m ella e c o m a França, sob
pena de castigal-o, chegando p a r a t a l f i m a reunir-se um
e x e r c i t o castelhano na fronteira luzitana. Portugal prepa-
rou-se n a t u r a l m e n t e p a r a resistir á insólita pretenção, con-
f i a n d o a direcção das suas forças m i l i t a r e s ao Príncipe de
W a l d e c k , ao mesmo t e m p o que o a l m i r a n t e J a r v i s (lord
St. V i n c e n t ) e n t r a v a c o m sua esquadra n o T e j o n o i n t u i t o
de p r o t e g e r Lisboa, p a r a este f i m desembarcando as tropas
inglezas que v i n h a m d a Corsega. A p e z a r de todos os prepa-
r a t i v o s bellicos não cessava e n t r e t a n t o o gabinete portuguez
de occupar-se d a p a z c o m a França, si b e m que sem q u e r e r
a n n u i r ás imposições francezas que a c o n d i c i o n a v a m ( 1 ) .
A s negociações logo iniciadas em M a d r i d sob o i n f l u x o
do príncipe da P a z e as u l t e r i o r e s negociações h a b i l m e n t e
c o n d u z i d a s p o r Antônio de Araújo ( f u t u r o conde da B a r c a
e então m i n i s t r o n a H o l l a n d a ) em P a r i z d e r a m e m r e s u l t a d o
u m t r a t a d o assignado a 2 0 de A g o s t o de 1 7 9 7 c o m o m i n i s -
tro das Relações E x t e r i o r e s Delacroix. Estas negociações
t i n h a m sido d i f f i c u l t a d a s e até i n t e r r o m p i d a s pelo j u s t o de-
sejo d a c o r t e de L i s b o a de permanecer f i e l á a m i z a d e b r i -
tannica, sem t o d a v i a p o r isso incorrer no desagrado d a
França o u suscitar a violência da H e s p a n h a , mas o d i p l o m a t a
p o r t u g u e z l o g r a r a aproveitar-se da necessidade de d i n h e i r o

(1) F. Schoell, Histoire des traités de paix } Tomo V.


DOM JOÃO VI NO BRAZIL 13

que a m a i o r i a do D i r e c t o r i o e x p e r i m e n t a v a p a r a l e v a r a cabo
a revolução d o 18 F r u c t i d o r .
O C o n s e l h o dos Q u i n h e n t o s mostrara-se infenso á con-
venção. S o b r e v i n d o porém o golpe de Estado e a deportação
dos representantes taxados de m o n a r c h i s m o , obteve Araújo
a approvação do seu tratado', considerado m u i t o v a n t a j o s o
pelos entendidos e m assumptos diplomáticos, excepto n o que
toca á desistência dos d i r e i t o s portuguezes sobre a G u y a n a
ao n o r t e do Calçoene, pois que nada concedendo economica-
m e n t e á França e até e x c l u i n d o do R e i n o os pannos f r a n -
cezes, m a n t i n h a pelo c o n t r a r i o os velhos privilégios do com-
m e r c i o b r i t a n n i c o em P o r t u g a l ( i ) . A convenção A r a u j o -
D e l a c r o i x , r a t i f i c a d a em P a r i z a 12 de Setembro, não o f o i
t o d a v i a e m P o r t u g a l d e n t r o do t e m p o estipulado, p o r estar
o Reino sempre á espreita de que a sorte das armas desse
f i n a l m e n t e a p a l m a á I n g l a t e r r a , de accordo c o m t a l espe-
rança s u b o r d i n a n d o p o r vezes a sua acção diplomática á da
G r ã B r e t a n h a , n'outras r e t o m a n d o a liberdade de discussão.
A I n g l a t e r r a chegara de resto a declarar q u e consideraria
semelhante ratificação u m acto de hostilidade, occupando
de previsão a esquadra b r i t a n n i c a o f o r t e de São Julião d a
Barra.
Perante as tergiversações portuguezas, o Directorio,
consolidado n o seu poder i n t e r n o , d e u o t r a t a d o p o r n u l l o ,
o r d e n a n d o ao m i n i s t r o p o r t u g u e z que sahisse d o território
da R e p u b l i c a . Antônio de Araújo desobedeceu c o m t u d o á
intimação, buscando os meios de r e c o n c i l i a r o seu g o v e r n o
c o m o d a França, mesmo desafiando o r e s e n t i m e n t o d a I n -
g l a t e r r a , visto a conclusão da p a z de C a m p o F o r m i o deixar
l i v r e s os exércitos francezes e ser de receiar u m a invasão ar-

(1) Martens, .Recueil cies traités, e t c Tomo V I .


14 DOM JOÃO V I NO BRAZIL

mada do Reino. T a l invasão era agora igualmente temida


pela Hespanha por motivo da passagem infallivel pelo seu
território das tropas devastadoras, esforçando-se por isso
quanto podia para que não fosse alterada a paz.
Sob pretexto de que não mais o revestia o caracter di-
plomático, acabou A r a ú j o por ser preso no Templo, por
causa das indiscreções de uns agentes seus que accusavam um
pouco alto o Directorio de venalidade, gabando-se de, me-
diante a sabia distribuição de alguns milhões em diamantes
brazileiros, adrede vindos de Portugal, o fazerem acceitar
mesmo uma ratificação tardia. Esta chegou finalmente, tra-
zendo a data de I de Dezembro, mas j á se vio considerada
sem effeito ( i ) .
Foi sempre manifesta a tendência predilecta do Príncipe
Regente de proceder de harmonia com a tradicional alliada,
cujo egoísmo no emtanto a cada passo se evidenciava. N'essa
tendência o acompanhava sinceramente a mor porção dos
seus conselheiros. Apenas alguns homens de Estado, desgos-
tosos com a palpável indífferença ingleza e seduzidos pelas
reformas sociaes, cujo espirito n aquelle momento a F r a n ç a
symbolizava, inclinavam-se de preferencia para um franco
accordo com este paiz, no secreto anceio, que D o m J o ã o bem
percebia, de que a alliança republicana, determinasse em Por-
tugal importantes modificações políticas.
Lafões, Corrêa da Serra, Seabra, a quem D o m J o ã o
despedio e exilou em 1799 como mentor demasiado auctori-
tario, representavam a corrente franceza; Balsemão, Ponte
de Lima, os futuros condes de Linhares e Galvêas a costu-
mada influencia ingleza. Excepção feita de Linhares, por-
quanto Galvêas não passava de um fatuo pouco instruído e

(1) F. Schoerl, ob, cit.


DOM JOÃO V I NO B R A Z I L 15

vicioso, os homens de v a l o r achavam-se incomparavelmente


mais no p r i m e i r o campo. A h i se não e n c o n t r a v a pelo menos
um imbecil como Ponte de L i m a do q u a l se c o n t a que,
q u a n d o em t e m p o do g o v e r n o e f f e c t i v o de D o n a M a r i a I ac-
c u m u l a v a t r e z pastas c o m a assistência ao despacho, t i n h a por,
habito antes das suas audiências bi-hebdomadarias entrar
f a r d a d o e c o m a v a r a de m o r d o m o - m ó r n a m ã o n a sala de
r e t r a t o s dos antepassados, a pedir-lhes a benção e a n n u n c i a r -
lhes que em n a d a desmerecera de tão i l l u s t r e s avoengos pois
que estava f e i t o m a r q u e z ( e r a antes visconde de V i l l a N o v a
da C e r v e i r a ) , m o r d o m o - m ó r e p r i m e i r o m i n i s t r o do m a i o r
soberano do m u n d o ( i ) .
T u d o , porém, contribuía p a r a que vingasse a o r i e n t a -
ção ingleza. A n n o s antes de i n i c i a d a a g u e r r a peninsular,,
já as forças anglo-luzas c o m b a t i a m hombro com hombro.
A s s i m , em t r o c a dos seis m i l soldados destacados p a r a Por-
t u g a l pela G r ã B r e t a n h a em 1797, na previsão da g u e r r a
quasi certa c o m a Hespanha, t o m o u a esquadra luzitana
p a r t e na b a t a l h a n a v a l do cabo de São V i c e n t e , na q u a l os
I n g l e z e s d e r r o t a r a m os Hespanhoes. L o g o depois, em 1799,
por occasião da expedição de B o n a p a r t e ao E g y p t o e das
luctas n o Mediterrâneo, p r e s t o u a q u e l l a mesma esquadra ao
a l m i r a n t e N e l s o n reaes serviços, bloqueando M a l t a , já que
p o r involuntária tardança d e i x a r a de g a n h a r alguns dos l o u -
ros de A b o u k i r .
Também o primeiro ministério do Príncipe Regente
f o r a na sua m a i o r i a inglez: c o m p r e h e n d i a Balsemão nos ne-
gócios estrangeiros; P o n t e de L i m a na f a z e n d a ; M a r t i n h o
de M e l l o n a m a r i n h a e Seabra no reino. A p o z a v i c t o r i a
do cabo de São V i c e n t e accentuara-se a i n d a mais o predo-

(1) Mello Moraes, Corographia histórica, etc. do Império do


Brazil, 1863, Tomo I , Segunda parte.
16 DOM JOÃO V I NO B R A Z I L

minío britannico na administração portugueza, sendo as for-


talezas do Reino occupadas por tropas inglezas e aquarte-
lando-se na própria Lisboa batalhões a soldo da G r ã Breta-
nha, aliás reduzidos no momento critico para P o r t u g a l , isto
é, por occasião da guerra com a Hespanha em 1801, quando
o soccorro britannico se l i m i t o u a 300.000 libras e quatro
fracos regimentos de emigrados francezes.
P o r t u g a l f o i o bode expiatório de certas combinações
bellico-diplomaticas nas quaes vai buscar sua origem a curta
guerra de 1801, guerra que a França impellio a Hespanha a
declarar ao visinho, no duplo i n t u i t o de castigar P o r t u g a l
pelo seu afastamento e de forçar a I n g l a t e r r a , endividada
e vencida, a ajudar o alliado, ou então apressar as negocia-
ções para uma paz tornada indispensável á auctoridade ainda
não completamente f i r m a d a do P r i m e i r o Cônsul. O exercito
portuguez estava n u m pé miserável e era commandado por
u m soldado de mais de 80 annos, a quem a gotta obrigava
a só calçar botas de velludo, ao passo que os Hespanhoes
f o r a m ajudados pelo general Leclerc, cunhado de Bonaparte
e um dos bons militares da Revolução, e contaram a seu
favor até as intrigas e delongas do ministro Balsemão. N e m
a paz de Amiens melhorou o duro tratado que Luciano Bona-
parte impuzera a Cypriano Ribeiro Freire e pelo q u a l eram
cedidas á França 60 milhas de costa na Guyana, ficavam
equiparadas nas alfândegas do Reino as mercadorias fran-
cezas ás inglezas, pagava P o r t u g a l uma indemnização de
25 milhões de francos, sendo 5 para o bolsinho de Luciano
( 1 ) , e promettia fechar os portos aos navios britannicos.

(1} Informação do e m b a i x a d o r d*Hespanha ao m i n i s t r o r u s s o em


P a r i z , r e p r o d u z i d a n a correspondência do m a r q u e z de N i z a p o r occa-
sião da sua missão a São P e t e r s b u r g o . A r c h i v o P u b l i c o do R i o de
Janeiro.
DOM JOÃO VI NO BRAZIL 17

Sobre esta phase melindrosa da política externa por-


tugueza fornece seguras explicações um despacho de D. João
de A l m e i d a M e l l o e Castro ao marquez de Niza, quando
este andava tratando de obter a intervenção do Czar, ligado
a P o r t u g a l por u m tratado de alliança defensiva, a f i m de
serem restituidos ao Reino os territórios usurpados na Eu-
ropa e na America, a saber, Olivença e parte da Guyana,
como despojos de uma guerra " que se nos moveo em odio
da fidelidade e exemplar perseverança com que tão exem-
plarmente sustentamos as rellaçoens da nossa alliança". O
alludido despacho começa por agradecer a mediação imperial
e os serviços prestados pelos ministros de Estado príncipe
Kourakin e conde de Kotschwbey, e passa a communicar
que a França e a Grã Bretanha estavam ajustando paz em
Amiens, assistindo ás conferências u m plenipotenciario por-
tuguez ( D . Joseph M a r i a de Souza) " para sollicitar a exe-
cução lítteral do artigo 6- dos preliminares concluídos entre
a Grã Bretanha e a França no I de O u t u b r o , pelo qual se
o

estipulou a reintegração dos Estados da M o n a r c h i a Portu-


gueza, estipulação que, sendo a que S. A. R. esperava que
houvesse de servir de baze a paz de Portugal, se verificou
depois não ter sido mais do que huma promessa ineficaz,
constando que por h u m artigo secreto, ajustado entre os Ple-
nipotenciarios da Grande Bretanha e da França, se ajustára
que os Tratados concluídos em Badajós no dia 6 de Junho,
que S. A. R. f o i constrangido a ratificar pelos motivos, que
a V. Ex.- são constantes, deviam servir de baze a paz de Por-
tugal, de sorte por esta inexperada e desmerecida transação
se acha a Coroa de S. A. R. exposta a ficar despojada da
* Praça e Território de Olivença occupada pelos Espanhoes, e
perder na America o importante Território que medeia entre
o R i o de Vincent-Pinzon e o R i o A r a w a r y , occupação que
D. J, — 2
18 DOM J O Ã O V I NO BRAZIL

pode v i r a ser de funestissimas conseqüências para esta Mo-


narchia, visto que por ella conseguem os Francezes não só
avisinharem-se das mais importantes colônias do B r a z i l , mas
também apropriarem-se a navegação do Amazonas. ' ( I )
Por occasião da supremacia incontestável da influencia
ingleza, D. João de Almeida, que era ministro em Londres,
tinha tomado cargo dos negócios estrangeiros e, pelo falleci-
mento de M a r t i n h o de M e l l o , D. Rodrigo de Souza Couti-
nho, ministro em T u r i m , dos negócios da marinha. E m 1799,
quando o Príncipe D o m João, separando-se ruidosamente de
Seabra, o bom discípulo de Pombal, se resolveu a exercer
mais directamente ou pessoalmente o poder supremo, deu a
Balsemão o reino e, pela morte de Ponte de L i m a , mudou
D. Rodrigo para a fazenda, confiando a m a r i n h a ao vis-
conde de Anadia, ministro em B e r l i m . F o i este o momento em
que, debaixo da acção do Regente, se f u n d i r a m as duas fac-
ções politicas, a ingleza e a franceza, sendo Antônio de
Araújo mandado para a Prússia como ministro e Corrêa da
Serra, como conselheiro de embaixada, para Londres.
Com a guerra de 1801, a paz de Badajoz e o tratado
de M a d r i d o partido francez cresceu naturalmente de i n -
fluencia, e esta augmentou de anno para anno, á medida que
se ia accentuando a ingerência de Bonaparte nos negócios da
Península. O generalissimo- Lafões incorrera no desagrado
regio pelo modo cynico por que se deixara sovar pelos
soldados do príncipe da Paz e arrebatar uma praça forte,
para mais filiando, no próprio dizer, a sua falta de capacidade
m i l i t a r no sangue dos Braganças, que de tão perto lhe gy-
rava nas veias. D. João de A l m e i d a e D. R o d r i g o porém, os
corypheus da anglophilia, tiveram de afinal deixar o mi-

(1) Despaicho de 29 de Novembro de 1801. Aroli. Tub, do Rio


de Janeiro.
DOM JOÃO VI NO BRAZIL 19

n i s t e r i o , o p r i m e i r o diz-se que a exigências do enviado f r a n -


cez, g e n e r a l Lannes, fazendo-o o Príncipe seu e m b a i x a d o r em
V i e n n a . T e n d o e n t r e t a n t o m o r r i d o Balsemão, D. D i o g o de
Noronha ( V i l l a V e r d e ) e n t r o u p a r a o reino, Antônio de
Araújo p a r a os negócios estrangeiros e L u i z de Vasconcellos
(Figueiró) p a r a a fazenda.
O pendor p a r a a I n g l a t e r r a não desappareceu todavia
n'estas pequenas evoluções de corte, antes c o n t i n u o u a ser a
feição permanente, si b e m que dissimulada, da política p o r -
tugueza. E m 1806 mesmo, q u a n d o o R e i n o se sentio, apoz
a rápida e memorável c a m p a n h a da Prússia, destroçada esta
nação em Iena, n a inadiável necessidade de a d h e r i r ao blo-
queio c o n t i n e n t a l , decretado em B e r l i m aos 2 1 de N o v e m b r o ,
o u de ser absorvido pelo já o m n i p o t e n t e Napoleão, a i n d a se
r e v e l o u f i r m e a s y m p a t h i a do g o v e r n o p o r t u g u e z pela alliança
b r i t a n n i c a , s e n t i m e n t o e s t i m a v e l n a sua tenacidade, posto
que interesseiro n a sua razão d e t e r m i n a n t e . E' m i s t e r t e r
bem presente que n'essse instante não só p r e p o n d e r a v a na
c o r t e de L i s b o a o p a r t i d o f r a n c e z , como Napoleão, v i c t o r i o s o
pelas armas sobre todos os seus i n i m i g o s , havendo até b a t i d o
a Rússia n a c a m p a n h a da Prússia O r i e n t a l e da Polônia,
j u n g i r a pela seducção das suas p a l a v r a s na e n t r e v i s t a de
E r f u r t ao seu c a r r o de t r i u m p h a d o r o próprio Imperador
Alexandre I .
Era um extraordinário e irresistível f a c t o r que t i n h a
e n t r a d o d e f i n i t i v a m e n t e em j o g o , p a r a não d a r tréguas ás
hesitações portuguezas, p r o v o c a r soluções bruscas e pesar
c o m sua v o n t a d e decisiva sobre a m a r c h a dos acontecimentos
no Reino. Si, como é verdade e como reconhecem os escri-
ptores mais conceituados da França e do estrangeiro que se
o c c u p a r a m de Napoleão, o g r a n d e traço, o característico do-
minante dos planos do h o m e m que m o d e l o u a organização
20 DOM JOÃO VI NO BRAZIL

européa nos quinze primeiros annos do século X I X , f o i o


abaixamento da I n g l a t e r r a — da mesma forma que a feição
capital da política dos Bourbons fora o abaixamento da Casa
d\Austria, pelo menos até que a Pompadour e Choiseul lhe
alteraram este aspecto — , P o r t u g a l estava de primeira m ã o ..•
sem remissão condemnado. Como alliado tradicional da mo-
narchia ingleza e como conhecida feitoria do commercio bri-
tannico, paiz algum com effeito devia considerar-se mais
destinado a ser incluído no systema napoleonico de exclusão
do Reino U n i d o sob o duplo ponto de vista m e r c a n t i l e t e r r i -
torial. Para que u m t a l systema se tornasse efficaz, isto é, para
ferir commercial e industrialmente de morte a G r ã Bretanha,
a exclusão tinha forçosamente que abranger toda a Europa,
e si não aspirava a ser mais do que continental, era porque
para tanto não dava o poderio naval da França.
P o r t u g a l via assim posto e inadiável diante de si o d i -
lemma angustioso. Abarbada com difficuldades, não lhe
dando o odio de Napoleão u m anno de descanço, a I n g l a t e r r a
descurara a protecção devida e indispensável á conservação
portugueza, embora não abandonasse por completo o amigo
e fiel alliado. Longe d'isso, as ameaças de T a l l e y r a n d a l o r d
Landerdale no anno de 1 8 0 6 sobre invasão e p a r t i l h a de Por-
tugal foram, no dizer do conde do Funchal, embaixador em
Londres, maduramente pesadas na corte de St. James. T o -
mou o governo inglez precauções para a defeza do paiz amea-
çado, destacando parte da esquadra para Lisboa, mandando
generaes e offerecendo dinheiro ao Príncipe Regente. Si este
o não acceitou e desprezou as outras formas do auxilio, f o i
para não quebrar m u i t o abertamente a famosa neutralidade,
que agora tinha de exercer-se benevola á França. Veremos
como houve até o governo de Lisboa, coitado, que acceder
sorrateiro, obedecer constrangido, consentir doblemente e
DOM JOÃO VI NO BRAZIL 21

aos poucos nas medidas ordenadas contra o trafico britannico


e as pessoas e bens dos Inglezes.
A essa I n g l a t e r r a comtudo, depois das longas guerras
dos fins do século X V I I I e princípios do século X I X , das
quaes sahíra com as finanças avariadas, o systema tributário
hypertrophiado, o pauperismo avolumado, o credito gasto,
ficara-lhe restando a supremacia marítima, condição do des-
envolvimento mercantil, suffocando embora a nação o ex-
cesso da sua producção industrial, sem bastantes mercados
consumidores por effeito do bloqueio ideado por Bonaparte,
apezar da extensão das suas relações commerciaes a outros
continentes e do proveitoso contrabando introduzido na Ame-
rica Hespanhola. P o r t u g a l arriscara-se pois a uma calamidade,
tendo de optar entre dous males: soffrer as conseqüências do
despeito britannico ou do arreganho francez, igualmente
ambiciosos e cobiçosos ambos. Quando Napoleão e Alexandre
d i v i d i r a m entre si em T i l s i t t , a 8 de J u l h o de 1807, o mando
do N o r t e e do Sul, do O r i e n t e e do Occidente, obrigou-se
o Czar a forçar as cortes de Stockolmo e Copenhague a fe-
charem seus portos e declararem a guerra aos Inglezes, si
estes se recusassem a f i r m a r a paz com a França, do mesmo
modo que procederia o Imperador dos Francezes com rela-
ção a Portugal, marcando para tanto ao Reino u m curto
prazo.
A megalomania napoleonica só violentada se circumscre-
vera á Europa. E m 1801 o sonho grandioso do P r i m e i r o
Cônsul não se cifrava em projectar o seu domínio sobre os
paizes limitrophes da França para o lado de leste: a Hollanda,
os feudos ribeirinhos do Rheno, a Suissa, a Itália sobretudo
de que elle já se apossára metade quasi. O plano de Bona-
parte visava então além da reconstrucção do Império do Oc-
cidente e da hegemonia da Europa. A b r a n g i a m suas idéas
22 DOM JOÃO VI NO BRAZIL

o desalojamento dos Inglezes do Oriente, começando p c i


estabelecerem-se os Francezes, a caminho das índias, no
E-gypto — onde Kleber u m anno antes restaurara a f o r t u n a
das armas republicanas e a f f i r m a r a o vigor da tutela consular
— , logo convertendo o Mediterrâneo n'um lago franccz.
e bem assim a reconstituição no N o v o M u n d o do magnífico
império colonial perdido aos bocados sob os últimos Bourbons.
F o i com este segundo f i t o que o P r i m e i r o Cônsul man-
dou a São Domingos em Dezembro de 1801, para reconquis-
tar a ilha e crear nas A n t i l h a s u m forte centro de attracção,
a grande expedição naval e m i l i t a r commandada por Leclerc,
que a febre amarella a l l i victimou. F o i também com seme-
lhante f i t o que fez a Hespanha ceder-lhe, a troco da Toscana
transformada em reino da E t r u r i a e posta provisoriamente
sob o sceptro de u m quasi infante hespanhol, toda a L o u i -
siania, a saber, o enorme território na A m e r i c a do N o r t e a
oeste do Mississipi até as M o n t a n h a s Rochosas e entre o Ca-
nadá e o México, que pouco depois vendeu aos Estados U n i -
dos por uma bagatella, quando se v i u em apuros pecuniários
e verificou a sua impotência naval. F o i finalmente com se-
melhante f i t o que Bonaparte impoz a P o r t u g a l a nova f r o n -
teira septentrional do B r a z i l , encorporando na G u y a n a Fran-
ceza a Guyana Brazileira.
O artigo V I dos preliminares da paz entre a G r ã Bre-
tanha e a França, assignados em Londres a 1 de O u t u b r o de
1801, rezava que P o r t u g a l teria direito á perfeita integri-
dade dos seus domínios e possessões. Ficara porém estipu-
lado, por u m artigo secreto já mencionado, que o referido
ostensivo artigo não levantaria obstáculo aos arranjos cele-
brados entre as cortes de M a d r i d e Lisboa para a rectificação
das suas fronteiras na Península, nem aos celebrados entre
os governos de França e P o r t u g a l para a delimitação das
DOM JOÃO VI NO BRAZIL 23

suas f r o n t e i r a s nas G u y a n a s , c o m t a n t o que esta delimitação


não excedesse a f i x a d a pelo t r a t a d o assignado em Badajoz
no d i a 6 de J u n h o .
A i n d a assim m a l se p o d i a c o n t e r a ambição t e r r i t o r i a l
franceza. C o n t a Cypriano Ribeiro Freire n u m o f f i c i o da-
t a d o de M a d r i d aos 16 de Setembro de 1 8 0 1 , r e l a t i v o ás
conferências que p a r a os ajustes d e f i n i t i v o s da paz p o r t u -
gueza a n d a v a t e n d o c o m L u c i a n o B o n a p a r t e e G o d o y , que o
embaixador francez, m a u g r a d o accusar o R e i n o de m á fé,
evidenciada n a e n t r e g a i n t e n c i o n a l de domínios seus, como a
M a d e i r a , á I n g l a t e r r a , p a r a esta poder r e c l a m a r da França
compensações, assegurava t e r o b t i d o de seu irmão o P r i m e i r o
Cônsul, a q u e m T a l l e y r a n d i n s t i g a v a e m sentido opposto, não
f i c a r incluído o f o r t e de M a c a p á d e n t r o dos l i m i t e s da G u -
yana F r a n c e z a ( 1 ) . C o m o é sabido, o l i m i t e convencionado
passou a ser o A r a g u a r y na paz de A m i e n s , breve i n t e r v a l l o
p a r a repouso no gigantesco d u e l l o da França e da I n g l a t e r r a ,
que só p o d i a cessar q u a n d o u m dos combatentes ficasse posto
f o r a de combate.
Preoccupações de o r d e m mais p o s i t i v a que as de g r a n -
deza política, de conseqüências mais promptas que as de
pujança c o l o n i a l , n'uma p a l a v r a , de n a t u r e z a utilitária e i m -
m e d i a t a , p e j a v a m no m o m e n t o d'essa paz a m e n t e de Bona-
parte. A G r ã B r e t a n h a baseara sobre a ruína das outras ma-
r i n h a s mercantes e a absorpção das colônias de o u t r a s na-
ções o seu a l m e j a d o monopólio do c o m m e r c i o marítimo. O
c o m m e r c i o tornara-se aliás p a r a e l l a à p r i m e i r a necessidade
da sua v i d a econômica e o o b j e c t i v o c a p i t a l da sua a c t i v i -
dade que de agrícola, como era no século X V I I I , se t r a n s f o r -
m a r a em i n d u s t r i a l , mercê d a reconstituição das grandes p r o -

(1) Bib'lio'the»ca N a c i o n a l do R i o de J a n e i r o , Papeis d a Coll&c-


ção L i n h a r e s , l a t a 4.
24 DOM J O Ã O V I NO BRAZIL

priedades de luxo e do forçado êxodo dos camponezes para


as agglomerações urbanas. D e tão copiosa fonte de provento
entendia Bonaparte que se não aproveitassem sós os Inglezes
e, para principiar a concorrência, pretendia refazer como
alicerce a velha marinha franceza, destruída nas recentes
infelizes campanhas oceânicas, de que T r a f a l g a r seria o
remate.
A I n g l a t e r r a bloqueava-o de facto no continente, impe-
dindo-lhe a expansão transmarina, e supprimia em beneficio
próprio a competição do commercio dos neutros, razão pela
qual bombardeou Copenhague em tempo de paz. Bonaparte
por sua vez, emquanto lhe falhavam ou escasseavam os meios
de executar a projectada exclusão no elemento onde a I n -
glaterra insolentemente dominava, entrincheirava-se no con-
tinente e buscava vedar a approximação d'elle ao commercio
britannico.
Por isso qualquer paz que em 1801 se pudesse ter con-
cluído entre as duas potências historicamente rivaes, não
seria somente instável como estaria prenhe de futuras amea-
ças. A I n g l a t e r r a carecia de refazer suas forças e fiscalizar
suas relações mercantis, mas a paz permanente não podia
constituir para ella u m ideal. A lucta tinha os seus lucros
indirectos e o Reino U n i d o sahiria afinal da epopéa napo-
leonica mais rico, não obstante uma divida de milhares de
milhões, do que quando rompera as hostilidades, visto terem
o seu commercio e industria alcançado uma plethora, a que
faltava unicamente uma boa circulação para florescer o or-
ganismo. Q u a n t o á França contemporizava para recomeçar,
porquanto sentia perfeitamente que não poderia prosperar
nem sequer viver com segurança, emquanto subsistisse a
f o r t u n a da sua r i v a l ( I ) .
(1) Arbert Sorel, L'Europv vt la RéMutiQn, passim.
DOM JOÃO VI NO BRAZIL 25

A' Hespanha, que continuava a gyrar na orbita de at-


tracção da política franceza, andava attribuido u m duplo
papel n'esse drama europeu: coadjuvar os esforços da mari-
nha de guerra franceza, que em T r a f a l g a r tragicamente sos-
sobrariam juntamente com os da sua alliada, e contribuir
para expulsar de P o r t u g a l os Inglezes, que ahi faziam ninho
de corsários e interrompiam a longa linha de costa do que
depois se chamou o bloqueio continental, a qual ia por uma
violenta curva da Itália M e r i d i o n a l á A l l e m a n h a Septen-
t r i o n a l , da bahia de Nápoles á foz do Elba.
Em 1800, ao tempo em que A l q u i e r negociava sob a
inspiração de T a l l e y r a n d , e assignava os tratados retroce-
dendo a Louisiania e collocando em Florença o Príncipe de
Parma, esposo da infanta d ' H e s p a n h a — u m inesperado co-
r o l l a r i o das intermináveis guerras do século justamente findo,
dos estrenuos tentames de Carlos I I I para o estabelecimento
da dynastia dos Bourbons em Parma, Placencia e T o s c a n a —
combinava Berthier com o governo de M a d r i d o abasteci-
mento do exercito do Egypto e a expedição contra Portugal,
a qual, é mister reconhecer, desagradava ao rei Carlos I V ,
que de m á vontade annuio á sua execução, pois razão alguma
o induzia pessoalmente a atacar seu genro, o Príncipe Re-
gente de Portugal. Já não tinha iguaes escrúpulos D. M a n o e l
Godoy, príncipe da Paz, cujas aspirações á realeza se tinham
concretizado no velho reino de Affonso Henriques, que
n u m a mais larga aspiração nacional toda a Hespanha cobi-
çava annexar, e que tenazmente se defendia como podia, com-
batendo e encolhendo-se, desafiando e mentindo, condescen-
dendo e intrigando.
D e nada lhe valeriam no emtanto os sacrifícios, de re-
cursos e de dignidade. Pela sua vacillação, repugnância
mesmo, em subscrever aos mandados do conquistador da Eu-
26 DOM JOÃO VI NO BRAZIL

r o p a p a r a o seqüestro das p r o p r i e d a d e s e detenção dos subdi-


tos inglezes, expressos nas instrucções ao r e p r e s e n t a n t e d i -
plomático i m p e r i a l em L i s b o a , mereceu o g o v e r n o portuguez
que pelo t r a t a d o de F o n t a i n e b l e a u , a 27 de O u t u b r o de 1807,
acabasse Napoleão a sua p a r t i d a c o m r e t a l h a r o território do
Reino, reservando-se, em deposito segundo d i z i a , a mais f o r -
mosa p a r t e e sacudindo as sobras ao príncipe da P a z e á
R a i n h a da E t r u r i a .
Reconhecia d'est'arte b e m cedo a H e s p a n h a a sabedoria
de u m dos seus numerosos rifões populares, ao v e r i f i c a r a
i n u t i l i d a d e , pelo menos i m m e d i a t a , dos seus arrancos da cam-
panha de 1 8 0 1 e das numerosas c o n t r a r i e d a d e s que l h e c u s t a r a
a caprichosa a m i z a d e t e s t e m u n h a d a á França. Restava-lhe, é
verdade, a consolação de pensar que o csphacelo de P o r t u g a l
e a r e t i r a d a da família de Bragança p a r a o B r a z i l só p o d e r i a m
contar-se como p r o b a b i l i d a d e s favoráveis a u m a f u t u r a reu-
nião da Península debaixo do sceptro castelhano. Q u a n d o
passasse a t o r m e n t a , t e r i a i d o a pique a d y n a s t i a p o r t u g u e z a ,
e f i c a d o c o m a m ã o n o leme da sua embarcação, prompta
a acolher os náufragos, a d y n a s t i a hespanhola. D ' o u t r a banda
porém a t r a n s f e r e n c i a da séde da m o n a r c h i a p o r t u g u e z a para
o N o v o M u n d o , n a p r o x i m i d a d e das possessões hespanholas,
d'ora em d i a n t e l i m i t r o p h e de dous vice-reinados e de u m a
c a p i t a n i a g e n e r a l , representava p a r a essas u m a ameaça palpá-
v e l , e o destino cedo m o s t r o u q u a n t o e n c e r r a v a m de r e a l os
receios provocados pelo hábil golpe político que f o i 2 trasla-
dação da c o r t e de L i s b o a p a r a o R i o de J a n e i r o .
P o r m e i o da concessão, g r a t a á vaidade hespanhola, da
occupação de vários pontos do Reino, m a n i f e s t a v a Napoleão
o i n t e n t o de e n t r e t e r os desígnios de c o n q u i s t a a l i m e n t a d o s
pela sua a l l i a d a c o n t r a o v i s i n h o P o r t u g a l . Estava-se porém.
na p r i m e i r a phase apenas da evolução p s y c h o l o g i c a pela q u a l
DOM JOÃO VI NO BRAZIL 27

l o g o e m seguida o I m p e r a d o r , n a expansão da d e l i r a n t e am-


bição que o cegara e c u j a m o r b i d e z T a l l e y r a n d tão f i n a m e n t e
s o n d o u em E r f u r t , p r o c u r a r i a enfeudar in totum á sua famí-
l i a obscura a Península g l o r i o s a de C o l o m b o , G a m a , M a g a -
lhães e P o m b a l .
Q u a n d o P r i m e i r o Cônsul, Napoleão pensara em agru-
p a r os irmãos em r o d a de si, f o r m a r c o m elles a sua g u a r d a ,
distribuir p o r elles os grandes serviços do Estado, entre-
g a n d o a José as relações exteriores, a L u c i a n o a a d m i n i s t r a -
ção i n t e r n a , a L u i z o e x e r c i t o e a J e r o n y m o a m a r i n h a . Go-
r a r a a combinação p o r c u l p a dos próprios interessados, que
se não p r e s t a v a m de boa m e n t e aos papeis secundários o u
t i n h a m de obedecer ás exigências das suas idiosyncrasias. José,
i n t e l l i g e n t e d i s s i m u l a d o e i n d o l e n t e , n u n c a se resignou, como
primogênito, a não ser o chefe do clan dos Bonapartes, capi-
taneando esse bando de a v e n t u r e i r o s q u e se apossara da E u -
ropa. L u c i a n o , o mais talentoso da família, p e r d i a p o r t r e f e g o
e p a l r a d o r : a presumpção e a agitação que o d i s t i n g u i a m , não
e n c o n t r a n d o pasto bastante nos lugares subalternos a qüe o
v e r d a d e i r o heroe do 18 B r u m a r i o se v i a c o n f i n a d o , f i z e r a m
d'elle u m perenne descontente. A doença c o n v e r t e r a Luiz
num incurável hypocondriaco, e J e r o n y m o n u n c a passou de
um amável l i b e r t i n o (i).
A o sentar-se no t h r o n o , B o n a p a r t e s o n h o u c o m a r e s u i -
reição de u m a R o m a i m p e r i a l , núcleo e c e n t r o de u m a porção
de estados tributários, governados no mesmo espirito, sob as
mesmas leis e p o r príncipes da mesma casa, g r a v i t a n d o como
satellites em v o l t a da França. T a l é a razão da fundação do
grão-ducado de B e r g e do r e i n o de W e s t p h a l i a outorgados
a M u r a t e a J e r o n y m o , e da collocação de José e L u i z nos

(1) F. Masson, Napoléon et sa Famille, passim.


28 DOM JOÃO VI NO BRAZIL

reinos de Nápoles e da H o l l a n d a , o primeiro u m estado ma-


rítimo debruçado sobre o Mediterrâneo, perto do Egypto, a
caminho do Oriente, facilmente influenciado pelos Inglezes,
que se serviam do porto de Nápoles como desembarcadoiro e
entreposto; o segundo uma republica transformada em mo-
narchia, para o que estava preparada pelo stathouderaVo, si-
tuada do outro lado da foz do Escalda, com as costas viradas
para a I n g l a t e r r a e por onde esta melhor i n t r o d u z i a no con-
tinente seus productos mercantis e seus armamentos anti-
francezes.
Pouco t a r d o u n'esta gradual absorpção a v i r a vez da
Hespanha, e si mais cedo não chegou foi porque, com sacri-
fício dos interesses dynasticos nacionaes, o gabinete de Ma-
d r i d acompanhou geralmente desde a paz de Basiléa a d i -
recção da política franceza. A attitude dúbia do governo
hespanhol em 1800, por occasião de ser accordada a campa-
nha contra P o r t u g a l , que pouco mais f o i afinal do que uma
guerre en dentelles, travada ao som de fanfarras alegres, e
de ser celebrada em 1801 a paz de Badajoz, e sobretudo as
intrigas de Godoy immediatamente antes de Iena e T i l s i t t ,
abrindo ouvidos ás suggestões da Rússia e da Prússia e ca-
balando com estas potências contra a França, f i z e r a m entre-
tanto o Imperador alterar ou apressar suas resoluções sobre
a Península e persuadiram-no da conveniência de estabelecer,
não só em Lisboa como em M a d r i d , dynastias parentes,
A Casa de Bragança ha m u i t o estava sentenciada no
foro i n t i m o de Napoleão como amiga da I n g l a t e r r a , e Godoy
não cessava de enredar em P a r i z para assegurar sua f u t u r a
fortuna, que bem próxima lhe parecia. Demais, sabia ser
odiado do Príncipe das Asturias, o qual por seu t u r n o i n t r i -
gava em proveito da própria ambição, procurando pôr-se sob
a dependência do Imperador e para isto buscando casar cem
BOM JOÃO VI NO BRAZIL 29

uma princeza da família Bonaparte, mesmo com Stephanie


Tascher, sobrinha de Josephina (i).
Certo do seu objectivo essencial, Napoleão hesitava
comtudo quanto ao modo de resolver em todos os seus por-
menores o complicado problema hespanhol. Pelo tratado de
Fontainebleau ( 2 7 de O u t u b r o de 1807) dividira-se Por-
tugal em trez partes: o Entre-Douro e M i n h o , formando a
L u z i t a n i a Septentrional, cabiam á Rainha Regente da E t r u -
ria em troca da Toscana; A l e m t e j o e Algarves passavam
para o príncipe da Paz que, por intermédio do embaixador
Izquierdo, offerecia dinheiro, mais milhões, e soldados,
muitos soldados, com repetidos protestos de lealdade; Beira,
T r a z os M o n t e s e Estremadura, o grosso do paiz, ficavam,
tidas em seqüestro, para a dynastia de Bragança, caso a I n -
glaterra restituisse á Hespanha G i b r a l t a r e bem assim as co-
lônias conquistadas durante as hostilidades, e cuja perda re-
presentava para a nação dos Filippes o mais liquido dos lucros
auferidos com a alliança franceza. Repartiam-se as colônias
portuguezas entre a França e a Hespanha, assumindo o R e i
da Hespanha o t i t u l o de Imperador das Duas Américas.
O reino da L u z i t a n i a Septentrional e o principado dos
Algarves seriam hereditários e, na falta de successão legitima,
d'eiles se disporia por investidura do Rei da Hespanha, de
maneira a nunca se reunirem debaixo de uma só cabeça nem
os annexar a coroa hespanhola. A protecção da Magestade
Catholica também se extenderia, na hypothese de restituição
na paz geral, ao reino bragantino, não podendo o soberano
portuguez, ou antes, soberano da Beira, Estremadura e T r a z ,

( 1 ) F . Masson, ob. cit., Napoleão pensou n a f i l h a de Luciano,


fruicto do seu primeiro casamento, p a r a esposa do herdeiro hespanhol,
depois F e r n a n d o V I I .
30 DOM JOÃO VI NO BRAZIL

os M o n t e s fazer guerra ou paz sem consentimento do seu


suzerano.
Procedendo d'este modo, o Imperador dos Francezes pa-
recia proteger Godoy, satisfazendo-lhe as aspirações sobera-
nas, e amimar Carlos I V , augmentando-lhe o poderio u l t r a -
marino. T o d o o seu i n t u i t o era porém começar pelo lado mais
escabroso da questão, assegurando a l i v r e passagem das
tropas de invasão de P o r t u g a l , as quaes, escusado é dizer, não
poderiam utilizar-se da via marítima. A boa fé não constituía
o traço capital d'essa natureza e, por isso, as contemplações
que apparentava com os alliados não tinham o cunho de uma,
sinceridade inquestionável. N e m lhe devia a Hespanha ver-
dadeiras attenções. Longe d'isso, ao tratar a u l t i m a paz com
a I n g l a t e r r a , Napoleão abandonara ao seu destino a posses-
são de Porto Rico, occupada pelas armas britannicas, e em
tempo promettera as Baleares a Fernando I V de Nápoles em
troca da Sicilia.
O offerecimento de P o r t u g a l a Luciano é outra prova
evidente, si mais precisas fossem, da duplicidade do Impera-
dor. Com effeito, por occasião da sua estada na Itália ( i ) , ao
dar-se a u l t i m a tentativa de reconciliação com Luciano, cuja
attitude se mostrava intransigente, e assim se manteve na
questão do casamento com M a d a m e Jouberthou — o qual
Napoleão annuia em reconhecer morganaticamente, não con-
cedendo á esposa foros de princeza, mas indo até ao extremo
de reconhecer-lhe os filhos tidos de Luciano e consentir em
que o casal vivesse j u n t o no estrangeiro,- elle como príncipe
soberano e príncipe francez, ella com u m t i t u l o de nobreza
— o throno dos Braganças f o i posto á disposição do irmão
rebelde, que o rejeitou por devoção á esposa.

(1) Novembro e Dezembro <de 1807, Isto é, depois do tratado de


Fontaine'bleau. F. Masson, ob. -cit.
DOM JOÃO VI NO BRAZIL 31

A esse tempo, comtudo, já Napoleão occupava a E t r u r i a


por v i r t u d e das estipulações do tratado de 27 de O u t u b r o ,
que o obrigava a dar o norte do Reino a M a r i a L u i z a de
Bourbon ( 1 ) e o sul a Godoy. Com justa razão hesitara
este sobre o melhor caminho a seguir na consideração dos
seus interesses. Dos dous lados o solicitavam com empenho.
Depois de Iena, Napoleão, baseado na alliança em vigor,
reclamou d'elle contingentes, que se puzeram em marcha, a
adhesão ao bloqueio continental e a reunião da esquadra hes-
panhola á franceza. Por seu lado, depois de Eylau, o ministro
da Rússia prometteu-lhe, em troca do concurso, a restituição
de G i b r a l t a r e a cessão de uma parte de Portugal, promessas
que para serem cumpridas exigiriam entretanto a annuencia,
voluntária ou forçada, da Grã Bretanha. Friedland e T i l s i t t .
decidiram do rumo dos acontecimentos immediatos, com pre-
juízo do ambicioso valido hespanhol, cuja queda estava im-
minente.
Já terminara J u n o t em Lisboa o seu passeio t r i u m p h a l
e não só Napoleão se esquivava a tornar publico e muito mais
a dar cumprimento ao tratado de 27 de Outubro, como pre-
parava publicações vilipendiando Fernando e Godoy, com o
f i m de impopuJarizal-os, ao mesmo tempo que continuava a
despejar sobre a Hespanha escolhidas tropas franceza.-. T r e z
corpos de exercito logo se congregaram, e a breve trecho

(1) Esta pobre princeza, retirada em Nice <x>m uma pequena


pensão de Napoleão, que a d e s p o j a r a do t l i r o n o que possuía, do que l h e
dera e do que l h e prom-ettera em solemne documento, m a n d a v a a 26 de
F e v e r e i r o de 1810 p e d i r ao- Príncipe Regente D o m João que a t i r a s s e
do seu q u a s i c a p t i v e i r o , m a n d a n d o buscal-a p a r a a c o m p a n h i a d'elle
no R i o de J a n e i r o , como s i ao i n f e l i z m a r i d o não baistasse s u p p o r t a r
de c a s t e l h a n o o gênio i r r e q u i e t o de D o n a C a r l o t a J o a q u i n a e a i n d a
quizesse a u g m e n t a r sua confusão domestica com a presença d'essa
R a i n h a n o e x i l i o . ( A r c h i v o do Ministério das Relações E x t e r i o r e s do
B r a z i l , onde se acham, além de m u i t o s documentos o r i g i n a e s , como os
r e l a t i v o s aos esponsaes do P r i n c i p e R e a l D o m Pedro, todas as segun-
das vias d a .correspondência diplomática de 1808 a 1821.)
32 DOM JOÃO VI NO BRAZIL

rompia M u r a t , como lugar tenente imperial, a fronteira hes-


panhola.
N o cérebro de Bonaparte entrara a germinar o projecto
de collocar em M a d r i d também u m parente, apoz recuar até
o Ebro os limites da França. Removia os Pyrineus da mesma,
f o r m a que removera o Rheno por meio do reino de Westpha-
lia, ahi ultrapassando a fronteira n a t u r a l do grande rio his-
tórico e a l l i a das montanhas tradicionalmente hostis, para
trasbordar pelas planícies prussiana e hespanhola. O seu an-
tigo sonho colonial, que parecera para sempre desfeito com a
alienação da Louisiania, igualmente se refrescava e tomava
novo alento com a perspectiva da acquisição simultânea de
parte das extensas colônias hespanholas, onde n u m a d'ellas
pelo menos, era n a t u r a l que L i n i e r s sustentasse o rei francez,
o Rei seu compatriota.
Encobrindo por cautela seus verdadeiros desígnios, ia
Napoleão invadindo e occupando a Hespanha, emquanto que
fazia aconselhar a Carlos I V e ao príncipe da Paz a fuga
para a America, a imitação do astuto exemplo fornecido pela
casa reinante de Portugal. O plano n'este caso era tão so-
mente o de desmoralisar aos olhos da impulsiva e leal popu-
lação hespanhola a realeza nacional, pois que ordem era dada
ao almirante francez em Cadiz para obstar á viagem. Nem
podia convir ao Imperador, que tão pérfido se mostrava,
senão preservar illeso e integro, na sua fidelidade dynastica
á distancia, o vastíssimo dominio colonial hespanhol, do qual
nestas condições mais facilmente se apossaria pelu fjrça
mesmo dos factos consummados u m usurpador estrangeiio,
do que si tivesse a contrarial-o no próprio terreno t a fra-
gmentar, pelo menos, a unidade do Império o seu legitimo
soberano. Os acontecimentos mostraram depressa como, ape-
zar de faltar a animação da presença de um príncipe nacional,
DOM JOÃO VI NO BRAZIL 33

as colônias se recusaram a subscrever á deposição dos Bour-,


bons, proclamando-se independentes.
A H e s p a n h a c o m a p a r t e até o E b r o , a saber, o nordeste
a menos, e com reservas n o tocante ás colônias, parecia não
s e d u z i r bastante m o n a r c h a a l g u m do séquito i m p e r i a l . F o i
p r i m e i r o o f f e r e c i d a a José, R e i de Nápoles, que a r e c u s o u ;
em seguida a L u i z , R e i dos Paizes Baixos, que i g u a l m e n t e
a e n g e i t o u p o r espectaculosa f i d e l i d a d e aos seus subditos h o l -
landezes, dos quaes se a r v o r a r a c o n v e n c i d a m e n t e e m pastor ;
depois a J e r o n y m o , R e i de W e s t p h a l i a , que não poude aco-
l h e r a proposta p o r ser protestante a m u l h e r , C a t h a r i n a de
W u r t e m b e r g , e não q u a d r a r esta q u a l i d a d e c o m o intenso
s e n t i m e n t o religioso da população hespanhola; f i n a l m e n t e de
novo, em A b r i l de 1808, a José que a acceitou, d'esta vez
sem restricções continentaes e c o m todas as colônias.
L u c i a n o estava n a t u r a l m e n t e fóra de questão p o r causa
da sua a t t i t u d e i r r e c o n c i l i a v e l na e n t r e v i s t a de M a n t u a c o m
o I m p e r a d o r , mas José, p o r c o n t a própria — pois que os i r -
m ã o s de Napoleão se d a v a m ao l u x o de f a z e r t a m b é m polí-
tica p o r c o n t a própria — offereceu-lhe sem r e s u l t a d o P o r t u -
g a l , q u a n d o i a a c a m i n h o de Bayona, onde se r e a l i z a r i a o
celebre e n c o n t r o p r e p a r a d o p o r M u r a t no seu interesse pes-
soal, e n o d e c o r r e r do q u a l Napoleão d e s p o j a r i a o R e i abdi-
cador, o f i l h o p r o c l a m a d o e t o d a a família r e a l hespanhola
dos seus legítimos direitos.
E' de c r e r que L u c i a n o em quaesquer c i r c u m s t a n c i a s
recusasse P o r t u g a l p o r i n s i g n i f i c a n t e . N'aquelle t e m p o em
que os reinos mais appetecidos a n d a v a m quasi sem donos, á
discreção da família B o n a p a r t e , n f n g u e m q u e r i a o pequeno
P o r t u g a l , sobretudo sem a q u i l l o que constituía a sua i m p o r -
tância, e e r a o império c o l o n i a l que a Casa de Bragança,
transplantando-se para o B r a z i l , t i v e r a a arte de conservar
D J. — 3
34 DOM JOÃO VI NO BRAZIL

para a dynastia. M u r a t igualmente regeitou in limine o offe-


recimento do throno portuguez, preferindo Nápoles, já que
não pudera ter a Hespanha: apenas Soult o ambicionaria
muito, ao commandar a segunda invasão de P o r t u g a l .
Napoleão persuadira-se que a occupação m i l i t a r e a
transformação política da Hespanha seriam emprezas facil-
limas, inclinando-se todas as resistências ante a magia do
seu nome glorioso. E m vista, porém, das difficuldades que
por todos os lados surgiam — a insurreição popular, a descida
dos Inglezes e outras — embaraçando a sua acção, então
m u i t o reclamada na Europa central e oriental, e da momen-
tânea m á vontade de José, desejoso, na sua irresolução e
apathia, de regressar para a deleitosa Nápoles, pensou nova-
mente Napoleão em recuar as fronteiras da Hespanha até
o E b r o e com o grosso da Península, incluindo P o r t u g a l in-
teiro, f o r m a r u m reino unido para o Príncipe das Asturias,
rei de direito, o qual despozaria uma das suas sobrinhas e
passaria assim de Bourbon a Bonaparte. José receberia al-
gures a sua indemnização t e r r i t o r i a l , que aliás rechassou, não
querendo afinal trocar de reino e preferindo, mettido em
brios, vencer e ficar, posto que como r e i hespanhol, indepen-
dente e liberto de toda vassalagem ao Imperador.
A toda essa gente deixava o Regente de P o r t u g a l o
campo l i v r e para a contenda. U m mez, dia por dia, depois de
assignado o convênio de Fontainebleau, embarcava D. João
Carlos de Bragança para a A m e r i c a do Sul, a conselho do
governo britannico e escoltadas as suas naus por navios b r i -
tannicos. N ã o podia o governo portuguez repudiar por forma
mais patente as medidas hostis á I n g l a t e r r a , que havia suc-
cessivamente adoptado sob o receio da temível cólera napo-
leonica. D e seu lado a I n g l a t e r r a mandava restituir as pro-
priedades portuguezas aprezacfes pelos navios de guerra ou
* DOM JOÃO VI NO BRAZIL 35

corsários inglezes nos annos de 1806 e 1807, curto espaço


de tempo em que as negociações mesmo assim não estiveram
interrompidas, pois nunca chegou a existir entre os dous t r a -
dicionaes alliados verdadeiro estado de guerra. N e m podia
acontecer diversamente quando eram de conveniência os laços
que prendiam P o r t u g a l e a G r ã Bretanha, e eram communs
seus interesses em contrario á absorvente ambição do Impe-
rador dos Francezes.
CAPITULO I

A PARTIDA

Retirando-se para a America, o Príncipe Regente, sem


a f i n a l p e r d e r mais do que o que possuía n a E u r o p a , escapava
a todas as humilhações s o f f r i d a s p o r seus parentes castelha-
nos, depostos á força, e além de dispor de todas as p r o b a b i l i -
dades p a r a a r r e d o n d a r á custa da França e da H e s p a n h a
i n i m i g a s o seu território u l t r a m a r i n o , mantinha-se na ple-
n i t u d e dos seus direitos, pretenções e esperanças. E r a como
que u m a ameaça v i v a e constante á manutenção da i n t e g r i -
dade do systema napoleonico. Q u a l q u e r negligencia, q u a l q u e r
desaggregação seria logo aproveitada. P o r isso é m u i t o mais
j u s t o considerar a trasladação da corte p a r a o R i o de Ja-
n e i r o como u m a i n t e l l i g e n t e e f e l i z m a n o b r a política do que
como u m a deserção cobarde.
D e resto não f o i ella a d o p t a d a r e p e n t i n a m e n t e como um
recurso e x t r e m o e i r r e f l e c t i d o , e não assumiu mesmo desde
começo a feição d e f i n i t i v a p o r que veio a realizar-se. A fra-
queza de P o r t u g a l no m e i o de tantas potências i n c o m p a r a v e l -
mente superiores e em face das repetidas complicações euro-
péas, já h a v i a f e i t o conceberem aquelle pensamento o m a i o r
d i p l o m a t a e o m a i o r estadista do R e i n o depois da restauração.
38 DOM JOÃO VI NO BRAZIL

D. L u i z da C u n h a e Pombal. A i n d a antes, a ida para o Bra-


z i l fora aconselhada ao P r i o r do Crato por occasião da irre-
sistível invasão do duque d'Alba, e t i n h a m D o m João I V , a
Rainha D o n a L u i z a de G u z m á n e o padre Antônio V i e i r a
acariciada semelhante idéa diante da persistente guerra de rei-
vindicação hespanhola. Pode dizer-se que era u m alvitre
amadurecido, porquanto invariavelmente lembrado em todos
os momentos difficeis atravessados pela independência nacio-
nal. A partir então da crise jacobina e depois napoleonica,
esteve t a l plano diariamente na tela da discussão.
Em 1803, por exemplo, d i r i g i a D. Rodrigo de Souza
Coutinho ao Príncipe Regente uma memória sobre a mu-
dança da séde da monarchia na qual se encontram as seguin-
tes judiciosas palavras: " Quando se considera que P o r t u g a l
por si mesmo m u i t o defensável, não he a melhor, e mais
essencial parte da M o n a r q u i a ; que depois de devastado por
huma longa e sanguinolenta guerra, ainda resta ao seu Sobe-
rano, e aos seos Povos o irem crear h u m poderoso Império
no B r a z i l , donde se volte a reconquistar, o que se possa ter
perdido na Europa, e donde se continue huma guerra eterna
contra o fero inimigo, que recusa reconhecer a Neutralidade
de huma Potência, que mostra desejar conservala ";
e como para D. Rodrigo a idéa de retirada andava associada
com a da mais vigorosa e tenaz resistência contra a tyrannia
franceza, não se peja de denominar nobre e resoluta determi-
nação o que é vulgarmente tido por u m movimento de pa
pico: " Quaesquer que sejão os perigos, que acompanhem
huma tão nobre, e resoluta determinação, os mesmos são
sempre muito inferiores aos que certamente hão de seguir-se
da entrada dos Francezes nos Portos do reino, e que ou hão
de trazer a abdicação de V. A. R. á sua Real Coroa, a abo-
lição da M o n a r q u i a , ou huma oppressão fatal, qual a que
DOM JOÃO VI NO BRAZIL 39

geralmente se diz, que experimentão os Napolitanos e a dila


ceração dos vastos domínios da Coroa de V. A. R. nas ilhas
contíguas a Europa, na America, na África, e na Asia, pro-
curada pelos Inglezes, para se indemnizarem da falta dc
commercio com P o r t u g a l e para se apropriarem as produçoens
de tão interessantes domínios ultramarinos, que temerão os
Francezes queirão fazer seos, e assim o exigão de h u m So-
berano, que conservarão prezo, e pelo qual farão sanccionar
tudo, o que quizerem, e lhes convier, ou dirão que assim o
fizerão, ainda que não possão conseguir semelhantes con-
cessões " ( i ) .
Externando-se d'esta maneira, D. Rodrigo fazia até gala
de uma conversão comprobatoria da sua intelligencia, a qual
promptamente assimilara as vantagens de uma idéa que, ao
ser-lhe desvendada de chofre dous annos antes, sorrira tão
pouco no primeiro momento ao seu coração de ferrenho Por-
tuguez que, i r r i t a d o , a accusava de haver sahido da roda es-
trangeirada do duque de Lafões, o seu duende. N ã o devia,
segundo elle desde então opinava, um t a l alvitre ser exe-
cutado, para honra mesmo da nação, senão depois de bem
provada a inutilidade da resistência m i l i t a r .
O espirito superior de D. Rodrigo estava aliás longe
de ser o único a perfilhar uma idéa que, por ser immediata
e salvadora, acudia a muitas mentes e achava repetidas ma-
nifestações. D. Pedro, marquez de A l o r n a , igualmente a
f o r m u l o u , pelo tempo em que ainda a não abrigara D. Ro-
drigo, ao escrever ao Príncipe Regente sobre os prepara-
tivos da guerra contra a Hespanha e a França em 1801
e pôr em relevo a fraqueza e desorganização dos recursos
militares de Portugal. N a Beira havia apenas 8.000 homens,

(1) BLbl. Nac. do Rio de Janeiro, Papeis da Collecção Linhares,


lata 2.
40 DOM JOÃO VI NO BRAZIL

não contando as praças de Almeida e Monsanto, e no Alem-


tejo não passavam as forças de 6 a 7.000 homens. Repu-
tando n'estas condições impossível a defeza e querendo re-
cordar ao Regente que não mais existiam as razões, datando
do século X V I , pelas quaes os Francezes n u t r i a m maior
interesse na conservação de P o r t u g a l e sobretudo no aba-
timento da Hespanha, A l o r n a explicava com energia e pre-
cisão o seu pensar: " A balança da E u r o p a está, tão mu-
dada que os cálculos de ha 10 annos sahem todos errados
na era prezente. E m todo o caso o que he percizo he que
V. A. R. continue a reinar, e que não succeda á sua coroa,
o que succedeo á de Sardenha, á de Nápoles e o que talvez
entra no projecto das grandes Potências que succeda a todas
as coroas de segunda ordem na Europa. V. A. R. tem hum
grande Império no B r a z i l , e o mesmo inimigo que ataca
agora com tanta vantagem, talvez que trema, e mude de
projecto, se V. A. R. o ameaçar de que se dispõe a h i r ser
Imperador n'aquelle vasto território adonde pode facilmente
conquistar as Colônias Hespanholas e aterrar em pouco
tempo as de todas as Potências da Europa. P o r t a n t o he per-
cizo que V. A. R. mande armar com toda a pressa todos os
seos Navios de guerra, e todos os de transporte, que se acha-
rem na Praça de Lisboa — que meta nelles a Princeza, os
seos Filhos, e os seos Thezoiros, e que ponha tudo isto pronto
a p a r t i r sobre a B a r r a de Lisboa, e que a pessoa de V. A. R.
venha a esta F r o n t e i r a da Beira aparecer aos seos Povos,
e acender o seo enthuziasmo. T a l v e z que esta aparência im-
ponha ao inimigo. Se não impuzer, e nos atacarem, apezar
de tudo brigaremos como desesperados; talvez que por ex-
cesso de f u r o r cheguemos a ser victoriosos, apezar de nos
faltarem os meios — mas se formos vencidos, sempre pode-
mos cobrir a retirada de V. A. R., e então V. A. R. parte
DOM JOÃO VI NO BRAZIL 41

com toda a sua Família para os seos Estados do B r a z i l , e a


Nação Portugueza sempre ficará sendo Nação Portu-
gueza, porque ainda que estas cinco Províncias padeção
algum tempo, debacho do j u g o estrangeiro: V. A. R.
poderá crear t a l poder que lhe seja fácil resgatalas, man-
dando aqui h u m soccorro, que j u n t o com o A m o r nacional
se liberte de tudo. D i z e m que he m a l visto todo o homem
que aconcelhe isto a V. A. R. mas como assento que he a
melhor coiza que lhe posso dizer, digo-lha. E V. A. R. fará
de m i m o que quizer, porque em tudo e por tudo sou seo, e
se V. A. R. tomar este partido, o que lhe posso segurar he,
que se me não matarem n'esta guerra, deicharei tudo quanto
cá tenho, e para lá o vou servir." ( i )
N o estrangeiro enxergava-se o f u t u r o sob u m aspecto
idêntico, como portàdor das mesmas exigências. E m 1806,
as demonstrações hostis da França contra P o r t u g a l tornan-
do-se m u i t o evidentes, f o i despachado para o Reino em mis-
são especial l o r d Rosslyn, acompanhado de l o r d St. Vincent
e do general Simcoe, levando instrucções de Fox, então á
testa dos negócios estrangeiros, para apontar o perigo immi-
nente ao gabinete de Lisboa, o qual até esse momento asse-
gurara sua neutralidade á força de dinheiro e á custa de fa-
vores á importação das lãs francezas, e offerecer auxilio para
a defeza sob a forma de gente, dinheiro e munições. Caso
P o r t u g a l não quizesse decidir-se por uma vigorosa e e f f i -
ciente resistência, l o r d Rosslyn deveria suggerir a mudança
para o Brazil, promettendo a G r ã Bretanha ajudar o pro-
jecto ( 2 ) .

(1) C a r t a de 30 de Maio de 1801, no Arch. Pub. do R i o de


Janeiro.
(2) M a r i a Granam, J o u r n a l of a Voyage to B r a z i l , e t c , London,
1824/
42 DOM JOÃO VI NO BRAZIL

D e s p r e z a n d o P o r t u g a l q u a l q u e r dos a l v i t r e s , r e s t a v a á
I n g l a t e r r a a g i r pela força, desembarcando tropas sob o com-
m a n d o do g e n e r a l Simcoe, que occupassem as f o r t a l e z a s d o
T e j o ao mesmo t e m p o que a esquadra b r i t a n n i c a aprezasse
os navios portuguezes. T ü d o se f a r i a c o m a declaração de
que se não t r a t a v a de c o n q u i s t a e sob p r e t e x t o de tratar-se
de a u x i l i o , p o r q u a n t o não e r a l i c i t o á I n g l a t e r r a p e r d e r esse
t e r r e n o único p a r a a sua l u c t a c o n t i n e n t a l , n e m sobretudo
c o n s e n t i r que se tornasse i n f e n s a ao seu p o d e r i o n a v a l e mer-
c a n t i l a costa p o r t u g u e z a .
A invasão não estava porém a i n d a n'esse m o m e n t o , que
se soubesse pelos menos, d e c i d i d a pelo I m p e r a d o r dos F r a n -
cezes, e os p r e p a r a t i v o s de g u e r r a c o n t r a P o r t u g a l não ap-
pareciam adiantados como o a c r e d i t a v a e q u e r i a f a z e r crer
o g o v e r n o b r i t a n n i c o ; pelo que a c o r t e de Lisboa, c o m as
maiores instâncias (at the earnest entreaty) d i z M r s . G r a -
ham, conseguio que tropas de desembarque e esquadra de
soccorro fossem r e t i r a d a s do T e j o . P r o s e g u i a o e n t r e m e z da
n e u t r a l i d a d e e d a adhesão ao b l o q u e i o c o n t i n e n t a l até er-
guer-se o p a n n o p a r a o p r i m e i r o acto da tragédia d a oc-
cupação.
E n t r e t a n t o i a sazonando a idéa d a trasladação. N u m a
memória c o n f i d e n c i a l e n t r e g u e a C a n n i n g , q u a n d o pela p r i -
meira v e z Secretario d'Estado dos Negócios E s t r a n g e i r o s ,
p o r D. D o m i n g o s de Souza C o u t i n h o , a 10 de S e t e m b r o de
1807, p a r a p r o t e s t a r c o n t r a q u a l q u e r idéa de occupação da
ilha da Madeira—desígnio que t r a n s p i r a r a e f o i c o m ef-
f e i t o executado a 2 4 de D e z e m b r o d o mesmo a n n o — cri-
t i c a o representante p o r t u g u e z n a c o r t e de St. James a op-
p o r t u n i d a d e de semelhante m e d i d a , n a occasião j u s t a m e n t e
e m que o Príncipe R e g e n t e de P o r t u g a l estava c o g i t a n d o
de abandonar o paiz natal e i r f u n d a r u m novo Império
DOM JOÃO VI NO BRAZIL 43

( to evacuate his native country and found a new Empire).


A incerteza versava apenas sobre a realização immediata do
projecto. L o r d H o l l a n d , escrevendo a D. Domingos ( F u n -
chal) interessantes e affectuosas cartas intimas, perguntava-
lhe por essa epocha si seria afinal levado ou não a cabo o
pensamento, e si teria o Príncipe Regente tempo de effectuar
sua retirada como soberano — segundo veio a acontecer —
ou como f u g i t i v o (i).
A idéa da trasladação passou nos últimos tempos por duas
phases distinctas. A o precipitarem-se os acontecimentos em
1807, o Conselho d'Estado reunido na A j u d a a 30 de Se-
tembro deliberou, por proposta de T h o m a z Antônio V i l l a -
nova Portugal, chanceller-mór e valido do Príncipe Regente,
que fosse para o B r a z i l o Príncipe da Beira com as infantas
e tropas de defeza a preparar a aposentação da corte, a qual
seguiria o mesmo rumo quando se perdessem todas as espe-
ranças de paz. A presença entre os Brazileiros do herdeiro
da coroa teria, julgava-se com algum acerto, o condão de
despertar o enthusiasmo colonial, appellando para a lealdade
d'esses subditos até ahi criados longe da dynastia. Obstar-se-
hia assim a u m fácil golpe de m ã o britannico, idêntico ao
que não havia m u i t o se verificara em Buenos Ayres, e a
qualquer tentativa de occupação franceza no f u t u r o , em-
preza bem mais problemática mas tanto mais tentadora
quanto era o B r a z i l uma base de operações ideal para o
ataque dos Inglezes, no caminho da Asia pelo Cabo da Boa
Esperança.
Outras razões m i l i t a v a m em favor do projecto aven-
tado. Entendiam uns ser mais commoda e expedita a viagem
do Príncipe da Beira — que porventura v i r i a a ser a única

(1) Bibl. Nac. do Rio de Janeiro, Collecção Linhares, lata 12


(Papei® particulares do conde do Funchal, de 1806 a 1810.
44 DOM JOÃO VI NO BRAZIL

a effectuar-se — do que a remoção immediata de toda a


família real, com uma demente, u m chefe mais apathico do
que activo de gênio, e u m bando de crianças. Pensavam outros
que seria esse o melhor meio de reconciliar o Regente com a
travessia, logo que chegasse o momento opportuno, fazendo
o f i l h o predilecto vezes de chamariz. Receiavam ainda outros
que a súbita e completa trasladação da corte descontentasse
e amotinasse a população do Reino, ao passo que, presen-
ciada aos poucos, a ella melhor se acostumariam ou mais de-
pressa se resignariam os desertados. A acreditarmos em
M e l l o Moraes ( i ) , a proclamação aos habitantes do B r a z i l
referente á i d a do Príncipe da Beira chegou a ser redigida,
ainda que não distribuída.
A idéa nunca fora de resto do agrado do Príncipe Re-
gente, que a principio a j u l g o u ou f i n g i u julgal-a uma traição
praticada no i n t u i t o de salvar a dynastia mediante a sua im-
molação aos Francezes. T h o m a z Antônio quasi por isso
perdeu para sempre o seu valimento. Ouvidos por ordem da
coroa a respeito os juízos de vários desembargadores e pro-
curadores, do fiscal da j u n t a dos trez estados e do da real
fazenda do ultramar, consideraram uns recommendavel o
a l v i t r e ; lembraram outros cortio lugar de refugio, pela menor
distancia, a ilha T e r c e i r a ; opinaram finalmente outros pela
inconveniência do recurso e mesmo sua illegalidade, prohi-
bindo as leis do Reino a sahida do herdeiro da coroa. C o m
o parecer d'estes últimos foi que concordou D o m João por-
que era o que elle próprio desejava — i r e m ou ficarem todos,
principalmente i r e m todos depois que se convencera de que
seria rematada loucura ficar esperando a deposição e o ca-
(1) Ob. cit. As informações «Teste prolixo e fecundo escriptor
de historia foram bebidas n'um archwo copioso, Importante e fidedigno
como o organizado por Antônio de Menezes Vascomcellos Drummond,
si bem que se achem confusamente aproveitadas e até deturpadas.
DOM JOÃO VI NO BRAZIL 45

ptiveiro. Como muito bem escrevia H i p p o l y t o no seu fa-


moso periódico:... ( i ) "se não tivesse o vasto Império
do B r a z i l , deveria ( o Príncipe ) i r para fora, ainda que
fosse para as Berlengas, ainda que se conservasse no mar
sobre a vella, em suas esquadras; fora das garras dos tyran-
nos, em qualquer parte que se ache, he o Soberano de Por-
tugal, sem se ver obrigado a assignar os documentos de re-
nuncias nullas, que para salvar as vidas assignaram os So-
beranos da Hespanha. "
Os rumores da viagem em projecto, confirmados pelos
constantes preparativos da esquadra nacional, chegaram na-
turalmente á França e antes d'isso á Hespanha, cujos gover-
nos t r a t a r a m de persuadir os diplomatas portuguezes junto
a elles acreditados que semelhante resolução era desneces-
sária. D. Lourenço de L i m a , embaixador em Pariz, a quem
o Imperador já annunciara o rompimento em Fontaine-
bleau com uma das suas phrases concisas e bruscas, veio a
mandado de T a l l e y r a n d para insinuar aos ministros do Prín-
cipe Regente que Napoleão se contentaria com uma appa-
rencia do seqüestro e que as negociações proseguiriam: na
verdade o enviaram engodado para ganhar tempo e per-
m i t t i r a chegada á fronteira das tropas alliadas. Outro
tanto veio contar o conde da Ega, embaixador em Madrid,
também i l l u d i d o pelo príncipe da Paz e pelo embaixador
francez Beurnonville.
Antônio de Araújo — que por isso f o i mais tarde ac-
cusado de traidor, pretendendo seus desaffectos fazel-o par-
t i l h a r do absoluto desfavor em que cahiram D. Lourenço e
Ega, compellidos até a viver pobremente no e s t r a n g e i r o — ,
ao expedir as ordens para o seqüestro dos bens britannicos
que elle aliás projectava de facto illusorio, chegou, quei-

(1) Correio Braziliense de Agosto 'de 1800, n. 15


46 DOM JOÃO VI NO BRAZIL

mando os últimos cartuchos diplomáticos, a despachar para


P a r i z o marquez de M a r i a l v a . Conta-se ( i ) que o novo
embaixador p a r t i r a carregado de plenos poderes e de dia-
mantes com que serenar Napoleão e até solicitar, em prova
de boa amizade, a m ã o de uma f i l h a de M u r a t para o Prín-
cipe Real, effectuando-se o consórcio quando os noivos che-
gassem á idade própria. M a r i a l v a regressou porém de Bayona
na impossibilidade de c u m p r i r a sua missão, pois de perto
permanecia inflexível a attitude imperial. A o governo por-
tuguez cumpria não vacíllar mais, e na verdade havia-se en-
tretanto chegado ás resoluções definitivas.
D. Rodrigo, com a sua natureza irrequieta e trasbor
dante de activida.de, tinha estado urgindo para que se pre-
parasse uma solução qualquer, já que a debilidade do Reino,
em contraste com a robustez m i l i t a r do inimigo, não permit-
t i r i a pensar n u m a guerra senão infeliz. N ã o era vergonha
alguma, escrevia elle n'uma das innumeras memórias com
que costumava expressar seus abundantes pensamentos, au-
sentar-se u m soberano temporariamente dos seus Estados.
D e facto, si lançarmos os olhos para a E u r o p a de 1807,
veremos u m extraordinário espectaculo: o R e i da Hespanha
mendigando em solo francez a protecção de Napoleão; o
Rei da Prússia foragido da sua capital occupada pelos sol-
dados francezes; o Stathouder, quasi r e i da H o l l a n d a , refu-
giado em Londres; o R e i das Duas Sicilias exilado da sua
l i n d a Nápoles; as dynastias da Toscana e Parma, errantes; o
Rei do Piemonte reduzido á mesquinha corte de Cagliari,
que o gênio de publicista do seu embaixador na Rússia, Jo-
seph de M a i s t r e , bastava entretanto para tornar famosa; o
Doge e os X enxotados do tablado político; o C z a r cele-

(1) Histoire ãe Jean VIj etc.


DOM JOÃO VI NO BRAZIL 47

b r a n d o entrevistas e j u r a n d o a m i z a d e p a r a se segurar em
Petersburgo; a Escandinávia prestes a i m p l o r a r u m her-
d e i r o d e n t r e os marechaes de B o n a p a r t e ; o Imperador do
Sacro Império e o próprio Pontífice R o m a n o obrigados de
q u a n d o em v e z a desamparar seus t h r o n o s que se d i z i a m
eternos e i n t a n g i v e i s .
O s Braganças não p o d i a m de certo p r e t e n d e r fados mais
clementes. C a r e c i a m de o l h a r f r i a m e n t e p a r a o f u t u r o , tão
pouco p r o p i c i o que se estava r e v e l a n d o ás velhas casas r e i -
nantes. A inacção tornara-se u m recurso impossível: não a
permittiria a marcha do cyclone. Indispensável se f i z e r a
a d o p t a r u m a dada n o r m a de proceder — que não p o d i a ser
senão a remoção para outra parte da monarchia, já
que esta t i n h a a f e l i c i d a d e de possuir domínios u l t r a m a r i n o s
— e t r a t a r c o m t e m p o d a sua execução, p a r a se não c u i d a r
de t u d o á u l t i m a h o r a e c o m precipitações prejudiciaes.
O conselho de D. R o d r i g o não d e i x o u de ser o p p o r t u -
n a m e n t e seguido. N e m de o u t r a f o r m a se explica que tivesse
h a v i d o tempo, n u m a t e r r a clássica de i m p r e v i d e n c i a e mo-
rosidade, p a r a depois do a n n u n c i o da e n t r a d a das tropas
francezas n o território n a c i o n a l , embarcar n u m a esquadra de
o i t o naus, q u a t r o fragatas, t r e z brigues, u m a escuna e quan-
t i d a d e de c h a r r u a s e o u t r o s navios mercantes, u m a c o r t e i n -
t e i r a , c o m suas alfaias, baixellas, quadros, l i v r o s e jóias. E r a
u m sem n u m e r o de " effeitos assim públicos como p a r t i c u l a -
res, que se não d e v e m d e i x a r expostos á rapacidade do i n i -
migo " ( phrase de D. R o d r i g o ) , mas que mesmo c o m a
m a i o r r a p i d e z de processos de h o j e não se e n f a r d a m e car-
r e g a m de u m m o m e n t o p a r a o u t r o .
Basta d i z e r , pelo que toca á p r o p r i e d a d e r e a l , que vie-
ram p a r a o B r a z i l todas as pratas preciosissimas cinzeladas
48 DOM J O Ã O V I NO BRAZIL

pelos G e r m a i n ; toda a formosa bibliotheca organizada por


Barbosa Machado, milhares de volumes reunidos com i n -
telligencia e amor, que constituiriam o núcleo da nossa pri-
meira l i v r a r i a publica; até o prélo e typos ( estes verdade
é que dizem estavam ainda por desencaixotar ) mandados
v i r de Londres para uma imprensa destinada ao serviço do
Ministério de Estrangeiros e G u e r r a e que Antônio de
Araújo trouxe comsigo na nau Meduza (i).
Apezar dos repetidos protestos de honestidade com que
J u n o t acompanhava a remessa, de Lisboa para a mulher, em
Pariz, de collares de pedras preciosas que dizia não serem
producto da pilhagem de guerra mas comprados com o seu
dinheiro, vê-se que não f o i pequeno o seu desapontamento
ao encontrar vazios e bem vazios os cofres do Paço. "Quanto
aos diamantes brutos e talhados da coroa de P o r t u g a l , escre-
via elle á duqueza, levaram tudo, até u m pedaço de crystal
que te recordarás de haver visto no gabinete de historia na-
t u r a l de Lisboa, lapidado á imitação perfeita do famoso dia-
mante de Portugal" ( 2 ) .
N ã o ha duvida que o embarque f o i apressado pela i n -
vasão, que até á u l t i m a se procurara evitar o u pelo menos
postergar, tanto que só pouco antes da partida se transportou
a família real de M a f r a para Lisboa com parte do pessoal
dependente da corte. H a v i a longo tempo que a partida estava,

(1) F o i este material que, por inspiração do conde de Linhares,


serviu para fundar a 13 de Maio de 1808 a Impressão Regia, com o
f i m de i m p r i m i r legislação, papeis diplomáticos das varias repartições
e "todas e quaesqner outras obras, e derramar a mstrucção publica."
A p r i m i t i v a stède da typographia offi-cial f o i á r u a do Passeio (onde
está hoje o eJdificio do Pedagogium) e administrou-a até 1832 uma
j u n t a , p r i m e i r o formada do dezembargador José Bernardes de Castro.
portuguez e de dous brazileiros, o f u t u r o marquez de Maricá e o f u t u r o
visconde de Cayrú, com substitutos (Memória sohre Imprensa, por José
Veríssimo, no Livro do Centenário, v o l . I ) .
(2) Mémoires de l a Duchesse d'Abrantes, Tome V I I .
DOM JOÃO VI NO BRAZIL 49

senão divulgada, planeada, assente em principio e até certo


ponto preparada, dependendo naturalmente a sua execução
da attitude do governo imperial. Si alguma precipitação
houve na realização do projecto, f o i porque eram sempre
fulminantes as resoluções de Napoleão e, no caso de Portu-
gal, tentou-se embahir a dynastia para obstar á sua desloca-
ção para outro continente. U m Christiano M u l l e r , que
poucos mezes antes tinha sido encarregado de fazer o i n -
ventario dos papeis, livros, mappas e estampas de Antônio
de Araújo, escrevendo de Lisboa para Londres a D. D o m i n -
gos de Souza Coutinho, ( i ) conta-lhe que na noite de 25
para 26 de Novembro o foram acordar para mandar encai-
xotar immediatamente todo o pertencente á Secretaria d i s -
tado, ao que elle procedeu, remettendo no dia immediato 37
caixotes grandes para bordo da Meduza, debaixo da chuva
copiosa que caracterizou o tempo procelloso da partida da
família real.
São dignas de registro as peripécias que precederam de
perto o embarque para o B r a z i l . A esquadra britannica sob
o commando do afamado marinheiro sir Sidney Smith sahiu
de Cawsand Bay, com carta de prego e envoltos seus movi-
mentos no maior sigillo, na manhã de 11 de Novembro de
1807, chegando á foz do T e j o , ao que se diz, com uma ma-
ravilhosa viagem ( 2 ) . A h i f o i o almirante primeiro infor-
mado do encerramento dos portos portuguezes ás procedên-
cias inglezas, medida hostil com a qual no emtanto se ac-

(1) Biibl. Nac. do R i o de Janeiro, Collecção L i n h a r e s , l a t a 11


( P a p e i s particulares do comde do F u n c h a l , 1806 a 1810.)
(2) L i e u t . C o u n t T h o m a s 0'.Neill, A conovse and accurate ac-
count 0/ the proceedings of the squadron under the convmand of Rear
Admirai Svr W. Sidney Smith in effecting the escape, and escorting the
royal family of Portugal to the Brazils. London, 1809. O auctor data
a chegada de 14, devendo n'este caso forçosamente haver engano n a
d a t a da partida.
D. J . — 4
53 -DOM JOÃO VI NO BRAZIL

commodou a I n g l a t e r r a , reconhecendo a impossibilidade para


P o r t u g a l de resistir á terrível pressão do Imperador dos
Francezes. Sabemos que, fiel a tradicionaes compromissos e
mais agradecido ao R e i Jorge pela sua condescendência, o
Príncipe Regente de P o r t u g a l não queria absolutamente
ír além d'aquella medida de uma animosidade pode dizer-se
negativa, nem sobretudo j u n t a r sua esquadra ás esquadras
franceza e hespanhola. Sabemos também que força lhe fora,
não obstante, proseguir no caminho por onde o arrastavam
as exigências imperiosas de Napoleão e iniciar contra os sub-
ditos inglezes as violências pessoaes, ordenando sua detenção
e o seqüestro dos seus bens.
Antônio de Araújo, cuja situação era a f f l i c t i v a mesmo
porque, apezar de todos os prenuncios e antecedentes, o tra-
tado de Fontainebleau constituio uma surpreza para a im-
previsão nacional, pretendeu ainda continuar a política for-
çada de tergiversação, propondo que se adherisse ao seqües-
tro, indemnizando-se porém ás occultas os Inglezes que
d'elle fossem victimas. A anemia do Thesouro não podia
todavia fazer face á sangria que t a l evasiva determinaria
de pancada, e entretanto crescia a confusão, clamando os con-
selheiros da facção ingleza pela guerra patriótica, abando-
nando os Inglezes u m paiz onde já não enxergavam garan-
tias, e subindo a t r i n t a por cento o desconto do papel-moeda.
Por seu lado o enviado britannico, l o r d Strangford, accen-
tuava o rompimento retirando as armas inglezas do palácio
da sua residência e transferindo-se a 18 de Novembro
para bordo do London, navio almirante da esquadra de sir
Sidney Smith, a qual então estabeleceu o bloqueio da capital
portugueza.
Chegavam ao mesmo tempo a Lisboa as primeiras noti-
cias da passagem das tropas napoleonicas pela f r o n t e i r a do
DOM J O Ã O V I NO BRAZIL 51

Reino, que alguns conspiradores de tendências francezas


quizeram, segundo se conta, esconder do Príncipe Regente,
interceptando as communicações dos commandantes da fron-
teira com o palácio de M a f r a , onde acampavam aquelles t r a i -
dores, no i n t u i t o de fazerem surprehender a família real
pelo general J u n o t ( I ) . Factos occorridos pouco tempo
antes confirmam amplamente a supposição de deslealdade
da parte de algum do pessoal que cercava D o m João, sobre
o qual exercia fascinação a gloria, ou appello a corrupção
do Imperador dos Francezes. Os despachos do governo
inglez, mandados de bordo por sir Sidney Smith a 22 de
Novembro, tiveram comtudo a propriedade de t i r a r as u l -
timas illusões ao Príncipe Regente, que á vista d'elles de-
cidiu de repente passar para a A j u d a . E m menos de cinco
minutos, escreve 0 ' N e i l l com u m exaggero bem irlandez,
setecentas carroças carregadas estavam a caminho de Lisboa,
onde iam ter lugar os Conselhos d'Estado que decidiram a
trasladação.
O gabinete de St. James levou adiante o seu jogo. A'
frente da repartição dos negócios estrangeiros achava-se
Cánning, cuja ulterior carreira prova á saciedade que era
o homem das resoluções opportunas e acertadas. A mudança
da familia real portugueza para o B r a z i l estava em princi-
pio decidida havia tempo, mas pode dizer-se que f o i Canning
quem verdadeiramente a i n d u z i u na occasião precisa. Por
ordem do seu chefe baixou l o r d Strangford a terra no dia 27,
com bandeira de parlamentar e tendo previamente solicitado
uma audiência do Príncipe Regente, para repetir directa-
mente a este o que já, dias antes, communicára ao governo
portuguez, a saber, que os dous únicos meios de fazer le-

(1) 0\Neill, ob. cit.


52 DOM JOÃO VI NO BRAZIL

vantar o bloqueio seriam a entrega (surrender) da esquadra


portugueza á I n g l a t e r r a ou a sua utilização em transportar
a corte para o R i o de Janeiro. D a alternativa era esta se-
gunda parte a que o governo britannico acolheria com maior
gosto, e a que se achava de antemão assegurado o apoio das
suas forças navaes (i).
N a entrevista com l o r d S t r a n g f o r d deliberou o Prín-
cipe Regente m u i t o avísadamente adherir ao segundo alvitre
que as circumstancias de resto lhe impunham inadiavelmente.
Para mais affirmava-lhe o enviado britannico que o seu Rei
protegeria a retirada da dynastia de Bragança, esquecendo
por completo os actos de hostilidade de P o r t u g a l , uma hos-
tilidade passageira ainda que não apparente apenas, visto
haver-se até desguarnecido de tropas o interior do paiz para
guarnecer a costa, com receio dos Inglezes. Por isso, d i z
Mrs. G r a h a m que acharam os Francezes desoccupados os
desfiladeiros portuguezes.
A o fazer-se publica em Lisboa a partida imminente da
família real para o B r a z i l , foram grandes a anciã e a con-
fusão, conforme relata o o f f i c i a l da marinha britannica
0'Neill, testemunha ocular posto que não inteiramente
digna de fé d'esse acontecimento memorável. N ã o faltariam
decerto scenas dilacerantes. M u i t a gente quiz embarcar á
força, fallando C V N e i l l na sua imaginosa narração em se-
nhoras de distincção que se afogaram ao entrarem pela agua
a dentro para alcançarem botes que as transportassem para
bordo dos navios de guerra, onde não havia aliás mais l u g a r
para os fugitivos. O que deve ser verdade é que m u i t a da
gente, não tendo tido o mesmo ensejo que a família real de
preparar-se para a longínqua viagem, partia com a roupa

(1) Despachos de lord Strangford transcriptos na obra de Mrs.


G r a h a m e Mcmoirs of Admirai Sir Sidncy Smith, L o n d o n , 1830, 2 vols.
DOM JOÃO VI NO BRAZIL 53

do corpo, e que os navios estavam tão abarrotados que dos


dependentes dos f i d a l g o s da c o m i t i v a , o m a i o r n u m e r o não
e n c o n t r a v a sequer onde d o r m i r . T e r i a o dispersar sido t a l que
se c o n t a que o Príncipe Regente, ao chegar ao caes com o
i n f a n t e hespanhol e um criado, n u m c a r r o fechado e sem
libre da corte, c o m o l h e f e r a aconselhado para evitar as
demonstrações do s e n t i m e n t o p o p u l a r avesso á r e t i r a d a , não
e n c o n t r o u p a r a o receber personagem a l g u m e, a f i m de não
p a t i n h a r na lama, teve que atravessar o charco sobre p r a n -
chas m a l postas, sustentado por deus cabos de policia.
Estes p o r m e n o r e s do e m b a r q u e de D o m João são dados
pela d u q u e z a de A b r a n t e s , c u j o d e p o i m e n t o não é comtudo
c o m p l e t a m e n t e merecedor de c r e d i t o , e c o n t r a s t a m com a
versão de uma g r a v u r a i n g l e z a coeva, a q u a l reveste a par-
t i d a de t o d a a solemnidade, destacando-se o coche do Paço
e n t r e magotes de gente da corte e do povo que com respeito
o circumda. Além da madeira e do cobre receberem sem
protesto quaesquer b u r i l a d a s , os I n g l e z e s e r a m interessados
n'esta v a r i a n t e p o r q u a n t o o seu g o v e r n o f o r a no momento
decisivo o mais f o r t e advogado da trasladação.
Os chronistas portuguezes guardam sobre os transes
da p a r t i d a da corte u m silencio curioso. L a m e n t a m - n a todos,
censuram-na m u i t o s , desculpam-na alguns raros, mas calam
no g e r a l as peripécias que a a c o m p a n h a r a m . U m a descripção
quasi única f e i t a pelo visconde do R i o Secco, p a r t i c u l a r do
R e g e n t e e a q u e m este i n c u m b i r a especialmente dos aprestos
da travessia, não deixa e n t r e t a n t o d u v i d a s sobre os genuínos
sentimentos da população da capital e abonam a versão
A b r a n t e s em d e t r i m e n t o da versão ingleza. " O muito nobre
e sempre l e a l P o v o de Lisboa, não p o d i a familiarisar-se com
a idéa da sahida d'El-Rey para os Domínios Ultramari-
nos. . . V a g a n d o t u m u l t u a r i a m e n t e pelas praças, e ruas, sem
<

54 DOM JOÃO VI NO BRAZIL

acreditar o mesmo, que via, desafogava em lagrimas, e im-


precações a oppressão dolorosa, que lhe abafava na arca do
peito o coração inchado de suspirar: tudo para elle era
h o r r o r ; tudo magoa; tudo saudade; e aquelle nobre cara-
cter de soffrimento, em que tanto tem realçado acima
dos outros Povos, quasi degenerava em desesperação ! E r a
neste estado de frenesim popular, que elle (o visconde do
Rio Se eco) no seu regresso para o caes de Belém f o i invol-
vido em huma nuvem de verdadeiros filhos, que desacorda-
damente lhe pedião contas do seu Chefe, do seu Príncipe,
do seu Pai, como se elle fora o auetor de h u m expediente,
que tanto os flagellava ! A nada se poupou para serenar a
multidão; desculpas officiosas, protestações sinceras de que
elle nada influirá para taes suecessos, preces, rogos, tudo era
perdido para h u m Povo, que no seu excesso de dor o caracte-
risava de instrumento do seu martírio, sem se abster de o
sentenciar de traidor ! E l l e não f o i para o seu quartel :
levou-o a torrente; e no meio dos impropérios avistou a guar-
da que lhe fora destinada; e reclamando a sua protecção tra-
tou de serenar o povo, protestando-lhe que tanto era inno-
cente do que lhe accumulavão que lhe assegurava de não em-
barcar visto acabar de ser nomeado Quarteleiro de
Junot " (i)
A 27 de N o v e m b r o annuira o Príncipe Regente ás i n -
stâncias de l o r d Strangford, o qual parece ter querido apro-
veitar-se das angustias do momento — que elle porventura
não anticipara tamanhas — para fazer, m u i t o á ingleza e
provavelmente por conta própria, o seu bocado de diplomacia

(1) Exposição analytrca, e justificativa da condu-cta, e vida pu-


blica do visconde do Rio -Seicco, desde o d i a 25 de Novembro de 1807,
em que Sua M<agestaide Fidelissima o incumbio dos arrandamentos ne-
cessários da sua retirada para o Rio de Janeiro, até o dia 15 de Septem-
bro de 1821, publicada por elle mesmo. Rio de Janeiro, 1821.
DOM JOÃO VI NO BRAZIL 55

assustadora. Apparentou, ao que consta, o enviado britannico


só querer consentir na retirada do Príncipe Regente si este
promettesse abrir logo ao commercio os portos do B r a z i l ,
ceder ura á I n g l a t e r r a e estabelecer uma t a r i f a aduaneira
insignificante para as mercadorias. Si o não conseguio, f o i
em parte porque Antônio de Araújo se não deixou i n t i m i d a r
e reagiu contra a cilada, e em parte também porque se en-
contrava no porto de Lisboa uma esquadra russa comman-
dada pelo almirante Siniavin. Esta esquadra, não obstante
a alliança existente entre os dous Impérios, recusou todavia
mais tarde, a acreditarmos nas queixas de Junot, fornecer-lhe
auxilio para combater a insurreição portugueza patrocinada
pelos Inglezes, sem no emtanto conseguir escapar á captura
pela esquadra ingleza quando o porto de Lisboa deixou de
ser pelo governo britannico considerado neutro.
A 28 publicava o Príncipe Regente de bordo a sua de-
claração e a 29 singrava a esquadra para o B r a z i l , assistindo
á partida, refere o despacho do almirante sir Sídney Smith,
a força franceza que no mesmo dia occupara a capital e se
apinhava nos morros para contemplar, raivosa e impotente, a
desapparição no horizonte da preza mais cobiçada.
0'Neill insere na sua relação u m incidente ao qual
não teria por certo faltado vibração dramática, mas que, não
se achando confirmado em historia alguma ou por outro
compilador de memórias da epocha, nem mesmo pela prolixa
e bisbilhoteira duqueza de Abrantes, deve ser considerado
fructo da sua fantasia celtica. N a r r a o Irlandez que Junot,
vindo a marchas forçadas adiante do grosso das suas tropas,
chegara a Lisboa a tempo de obter do Regente uma audiên-
cia que se teria realizado a bordo da nau Príncipe Real, na
manhã de 28 de Novembro, com assistência de D. RodriVo
de Souza Coutinho, a quem a approximação política da I n -
56 DOM J O Ã O V I NO B R A Z I L

glaterra Ia restítuír o valimento. A' pergunta de J u n o t sobre


as razões do embarque da corte e á sua estranheza da des-
confiança que semelhante acto denunciava, D o m João ha-
veria respondido que não podia deixar de n u t r i r descon-
fianças de quem assim mandava invadir o seu paiz, e encar-
regado J u n o t de declarar ao Imperador dos Francezes que
o Regente de P o r t u g a l desdenhava a alliança ambiciosa e a
protecção traiçoeira d'aquelle que não trepidava em dura-
mente qualificar de dishonourable man ( a expressão fica em
inglez porque corre exclusivamente por conta do conde T h o -
mas 0 ' N e i l l ) .
A esquadra britannica esperava f o r a da barra a f i m de
comboiar a esquadra nacional, e de m u i t o lhe valeu no tem-
poral que logo á sahida do porto momentaneamente a dis-
persou. Serenado o mar, os Inglezes forneceram os navios
portuguezes do m u i t o indispensável que ainda lhes f a l t a v a ;
executaram-se alguns reparos urgentes de avarias causadas
pela borrasca; destacou-se para I n g l a t e r r a uma das naus por
incapaz, indo no seu lugar a Martim de Freitas e acompa-
nhando aquella a chalupa Confiance, commandante Yeo,
despachada pelo almirante para levar ao governo britannico
as noticias da partida (I).
Lord S t r a n g f o r d acompanhou a f r o t a anglo-lusa até
o dia 5 de Dezembro, na altura entre M a d e i r a e Açores,
voltando então para I n g l a t e r r a , donde pouco depois embar-
caria directamente para o R i o de Janeiro. T a m b é m sir Sidney
Smith somente p a r t i r i a mais tarde, a 13 de M a r ç o no Fou-
droyantj seguido pelo Agamemnon, chegando ao R i o a 17
de M a i o de 1808.

(1) Memoirs otf Admirai Sir Sidney Smith, etc.


DOM JOÃO VI NO BRAZIL 57

Apezar da assistência i n g l e z a , as i n c o m m o d i d a d e s a
b o r d o dos navios portuguezes f o r a m , como e r a n a t u r a l , con-
sideráveis, s o b r e t u d o p a r a as senhoras. E' s u f f i c i e n t e r e f e r i r
que a b o r d o da Príncipe Real i a m 1.600 pessoas no c a l c u l o
de 0 ' N e i l l . Descontando-se mesmo metade, pode-se i m a g i -
n a r a b a l b u r d i a que r e i n a r i a n a nau. M u i t a da gente d o r m i a
no t o m b a d i l h o , o que em l a t i t u d e s tropicaes não é u m po-
s i t i v o d e s c o n f o r t o , mas o peor estava e m que e r a m poucos
os viveres. R e l a t a n d o estes pormenores, o official britan-
nico encarece r e p e t i d a m e n t e a a t t i t u d e do Príncipe R e g e n t e
que as informações m i n i s t r a d a s l h e p i n t a r a m m u i t o delibe-
rado, c a l m o e assente em t u d o , como q u e m m e d i a p e r f e i t a -
m e n t e o alcance do acto que estava p r a t i c a n d o . Este acto
c o m e f f e i t o não e r a apenas de segurança pessoal: t r a z i a i m -
portantíssimas conseqüências políticas.
P a r a o B r a z i l o r e s u l t a d o da m u d a n ç a da c o r t e i a ser,
em q u a l q u e r sentido, u m a transformação. A política estran-
g e i r a de P o r t u g a l , que e r a essencialmente européa n o cara-
cter, tornar-se-hia de repente americana, a t t e n d e n d o ao equi-
líbrio político do N o v o M u n d o , visando ao engrandecímento
t e r r i t o r i a l e v a l i a m o r a l da que desde então d e i x a v a de ser
colônia p a r a assumir foros de nação soberana. E á n o v a na-
c i o n a l i d a d e que assim se constituía, f o i o acto do Príncipe
R e g e n t e n o e x t r e m o p r o p i c i o pois que l h e d e u a ligação que
f a l t a v a e c o m que só u m f o r t e poder c e n t r a l e m o n a r c h i c o
a poderia dotar.
D W a r t e o mostrou comprehender perfeitamente, com o
senso p h i l o s o p h i c o que d i s t i n g u e os historiadores allemães, o
professor H a n d e l m a n n , da U n i v e r s i d a d e de K i e l , ao ponde-
r a r n o seu excellente t r a b a l h o ( 1 ) que até então represen-
t a v a o B r a z i l n a d a mais do que u m a unidade geographica

(1) Geschichte vou Brasilieii, B e r l i n , 1860.


58 DOM JOÃO VI NO BRAZIL

formada por províncias no fundo estranhas umas ás outras;


agora porém i a m essas províncias fundir-se n u m a real uni-
dade política, encontrando o seu centro n a t u r a l na própria
capital, o R i o de Janeiro, onde passavam a residir o Rei, a
corte e o gabinete.
Observam as memórias do almirante sir Sidney Smith
que, para o governo francez, u m motivo havia de fazel-o es-
timar a trasladação da família de Bragança e compensar, no
seu conceito, o despeito de vel-a escapar á sorte commum
das caducas casas reinantes: pelo menos se obstava com t a l
deliberação a que as colônias portuguezas cahissem nas mãos
da G r ã Bretanha. O almirante é o primeiro a reconhecer
que essas colônias estariam de facto perdidas para a metró-
pole si D o m João não emigrasse para o B r a z i l . Os Inglezes
occupal-as-hiam sob pretexto de as defender e, quando isto
não acontecesse, a independência da America Portugueza se
teria effectuado ao mesmo tempo e com m u i t o menos resis-
tência do que a da America Hespanhola. Retirar-se o Prín-
cipe Regente para bordo da esquadra portugueza ou b r i -
tannica e d'ahí contemplar o desenrolar dos acontecimentos,
não resolvia absolutamente o problema que as circumstancias
da Europa convulsa lhe t i n h a m creado. Cada nova invasão
do Reino — e f o r a m trez — daria origem a uma nova re-
tirada, que já seria uma fuga, e entretanto o B r a z i l se anar-
chisaria, sem governo que o fosse e sem razão determinante
para do seu seio brotar u m governo próprio. D o m João fez
pois a única cousa que podia e devia fazer.
A o pisar em terras brazileiras, com o pessoal e os ac-
cessorios que o acompanhavam, o Príncipe Regente exclamou
sem ambages que n e l l a s v i n h a f u n d a r u m novo império.
Dados o scenario e os actores, que espécie porém de monar-
chia podia elle crear entre ncs ? A q u e l l a somente a que com
DOM JOÃO VI NO BRAZIL 59

e f f e i t o deu nascimento, uma monarchia hybrida, mixto de


absolutismo e de democracia: absolutismo dos princípios,
t e m p e r a d o pela b r a n d u r a e bondade do príncipe, e demo-
cracia das maneiras, c o r r i g i d o o abandono bonacheirão pela
a l t i v e z i n s t i n c t i v a do soberano. F o i esta a espécie de realeza
levada ao seu auge e t o m a n d o em consideração a d i v e r s i d a d e
do m e i o político, pelo I m p e r a d o r D o m Pedro I I , persona-
g e m em m u i t o s traços parecido c o m o avô.
De Dom João V I se não p o d i a n a verdade esperar
cousa d i f f e r e n t e , visto p o r u m l a d o o o r g u l h o da aristocra-
cia t r a n s p l a n t a d a , mais i n t i m a m e n t e ligada com a família
real, cujos s o f f r i m e n t o s c o m p a r t i l h a r a e de c u j a confiança
gosava, educada nas máximas do d i r e i t o d i v i n o e machu-
cada pela sua a c t u a l r e l a t i v a modéstia de recursos em con-
traposição á gente ábastada da t e r r a ; e dada p o r o u t r o a des-
pretenção, que não excluía u r b a n i d a d e n e m deferencia, gerada
no i n t e r c u r s o menos cerimoníoso e mais d i r e c t o dos graúdos
locaes c o m os vice-reis representantes da s u p r e m a auctori-
dade da metrópole. O s B r a z i l e i r o s estavam pois inconscien-
t e m e n t e preparados para a monarchia constitucional, assim
como os P o r t u g u e z e s t i n h a m p o r seus sentimentos e interes-
ses que se m a n t e r i n s t i n c t i v a m e n t e aferrados á m o n a r c h i a
absoluta. Q u a n d o annos depois, ao cabo do r e i n a d o ameri*
cano de D o m João V I , se deu o m o v i m e n t o g e r a l e impe-
tuoso de adhesão do R e i n o u l t r a m a r i n o ao p r o g r a m m a revo-
lucionário de Lisboa, encarnado l e g a l e o r d e i r a m e n t e -nas
C o r t e s de 1820, os B r a z i l e i r o s a i n d a seriam arrastados pela
chimera l i b e r a l , ao passo que os P o r t u g u e z e s e r a m instiga-
dos pelo ideal da recolonização. Desde a chegada e n t r e t a n t o
da c o r t e que, antes de degenerar n u m c o n f l i c t o político,
uma hostilidade t h e o r i c a se f o r a levantando onde as c i r -
cumstancias tinham cavado u m fosso de a n t i p a t h i a pessoal.
60 DOM JOÃO VI NO BRAZIL

Os acontecimentos levavam cTisso a m a i o r culpa, sendo


c o m t u d o inevitável o seu effeito. D a n t e s , em pleno período
colonial, eram rarissimos os titulares, de que só se conhe-
ciam os do velho Reino, que v i n h a m occupar cargos da ad-
ministração: p o r isso mesmo mais se os respeitava. A g o r a , a
distribuição de mercês imaginada pelo Príncipe Regente em
obediência aos impulsos do seu coração generoso e aos dicta-
mes dos seus cálculos de governo, despertando ambições e
concorrências, servilismos e invejas, i a alterar sensivelmente
a situação, e c o m ella os costumes.
O s indivíduos ennobrecidos, agraciados c o m hábitos e
commendas, entenderiam não lhes q u a d r a r mais commerciar,
sim viver das suas rendas ou, m e l h o r ainda, obter empregos
do Estado. Avolumar-se-hia d'esta f o r m a o n u m e r o dos func-
cionarios públicos, c o m grande despeito e p r o n u n c i a d o ran-
cor dos emigrantes burocratas do Reino, que t i n h a m acom-
panhado a família real o u chegavam seduzidos p o r essas
collocações em que as fraudes m u l t i p l i c a v a m os ganhos lícitos,
m u i t o pouco remuneradores ( i ) .
N'este terreno e no m i l i t a r , observa o historiador inglez
— u m dos mais sérios e penetrantes commentadores dos suc-
cessos do B r a z i l — é que os ciúmes dos Portuguezes encon-
t r a r i a m os melhores motivos para fazer explosão. N o exer-
cito, todavia, attenta a superior qualidade das suas tropas
disciplinadas e aguerridas, conservariam elles a supremacia
e c o n t i n u a r i a m monopolizando todos os postos acima de
capitão, o que p o r seu t u r n o era de n a t u r e z a a provocar des-
contentamento entre os Brazileiros.

(1) J o t a Armitage, The History of Brazil, from the period of


the arrival of the Braganzá Family m I8O18, to the abdieation of Don
Pedro the first in 1831. Lonf&on, 1836.
DOM JOÃO V I NO BRAZIL 61

T i n h a o R e i p o r sina, ao que se p o d i a j u r a r , a r r o s t a r
situações d i f f i c e i s , o r i u n d a s de u m a epocha essencialmente
de transição, e c o m o t a l de aguda perturbação. A beneme-
r e n c i a de D o m João V I aos nossos olhos consiste em t e r en-
v i d a d o os seus esforços mais sinceros e, é l i c i t o dizer, mais
felizes p a r a e n c a m i n h a r para seus novos destinos soberanos
e que se d e v a n e a v a m gloriosos, a g r a n d e t e r r a , a colônia
vasta e a m o r p h a que l h e dera asylo.
O f u n d a d o r do R e i n o U n i d o não p o d i a p o r si mesmo
revelar-se em t o d a a força da p a l a v r a u m creador, pois que
não e r a u m espirito que de i n i c i a t i v a própria regulasse seus
actos p o r ideaes preconcebidos, e destes não discrepasse, ze-
lando com energia a sua o r i g i n a l i d a d e . D e facto, porém,
assim se t o r n o u , pela n a t u r a l perspicácia e sensato o p p o r t u -
n i s m o c o m que soube, n u m meio estranho ao que l h e era
f a m i l i a r , adaptar-se, a si e ás instituições, ás condições pre-
dominantes. Nem a sua obra, sujeita a analyse, d i f f e r e ex-
t r a o r d i n a r i a m e n t e da que e m a n a r i a de u m r e f o r m a d o r nato.
Um a u c t o r h o u v e n o século X V I I I que, p o r s o f f r e r
agora u m certo desdém, não d e i x o u de representar u m papel
importantíssimo n a orientação das ideas renovadoras d'a-
q u e l l e século gerador das transformações modernas. F o i elle
o abbade R a y n a l , c u j o n o m e anda o f f u s c a d o pelos de D i -
derot, M o n t e s q u i e u e Rousseau, mas que t a n t a influencia
q u a n t o estes exerceu sobre as imaginações do seu tempo. A s
considerações de R a y n a l apparecem especialmente reflecti-
das e m todas as publicações que t r a t a m de assumptos colo-
niaes; a sua m a r c a i m p r i m i u - s e p a r t i c u l a r m e n t e em todas as
intelligencias preoccupadas, nos próprios começos do sé-
culo X I X , com a imminente emancipação política do N o v o
Mundo. Em L i n h a r e s , o estadista, como em Armitage, o
62 DOM JOÃO VI NO BRAZIL

historiador, como em T o l l e n a r e , o viajante de commercio


( i ) , poderíamos facilmente traçar a ascendência espiritual
do abbade philosopho.
O quadro por este auctor celebre esboçado do f u t u r o
grandioso do B r a z i l e dos meios indicados para realizal-o,
merece ser lembrado porque, si D o m João V I o não cumpriu
exactamente, fez m u i t o para se approximar do programma
traçado; fez quanto ao seu temperamento timorato, de de-
cisão lenta, e ao seu respeito pelas normas tradicionaes da
administração portugueza era dado fazer n'esse caminho.
Eis como escrevia, com bastante ignorância dos detalhes mas
grande magestade de phrase, o abbade R a y n a l : " O Brazil
converter-se-ha n u m dos mais formosos estabelecimentos do
globo (nada para isto lhe f a l t a ) quando o tiverem libertado
d'essa multidão de impostos, d'esse cardume de recebedores
que o h u m i l h a m e opprimem; quando innumeros monopó-
lios não mais encadearem sua actividade; quando o preço
das mercadorias que lhe trazem não mais f o r duplicado pelas
taxas de que andam sobrecarregadas; quando os seus pro-
ductos não pagarem mais direitos ou não os pagarem mais
avultados que os dos seus concorrentes; quando as suas com-
municações com as outras possessões nacionaes se v i r e m de-
sembaraçadas dos entraves que as restringem; quando lhe
tiverem aberto as índias Orientaes e p e r m i t t i d o extrahir do
seu próprio seio o metal que exigiria esta nova ligação. . . "
A* receita econômica formulada em seguida sabe a todas
as theorias de l i v r e industria e l i v r e cambio do século de

(1) Auctor das Notes dominicalcs, conservadas inéditas na Bi-


bliotheca de Santa Genoveva em Pariz, reveladas e aproveitadas por
F. Denis, e mandadas recentemente copiar, bem como traduzir e publi-
car, na parte relativa a Pernamíbuco, pelo Inst. Anch. e Geog. do Re-
cife. A residência brazileira de Tollenare f o i em 1817-18, o que o tornou
espectador e memorisía da m<allograda revolução pernambucana.
DOM JOÃO VI NO BRAZIL 63

T u r g o t e A d a m Smith, e Raynal, misturando lúcidas con-


siderações sociológicas com erradas informações de factos,
a condimenta com sábios conselhos para abolir a Inquisição,
reduzir a influencia do clero, a que elle pertencera, distri-
buir em sesmarias as terras da Coroa, e abrir o paiz á immi-
gração estrangeira, em vez de appellar somente para o na-
t u r a l crescimento da população é para uma m u i t o problemá-
tica catechese dos selvagens: " U m meio mais seguro de
augmentar o volume da producção seria receber, no
B r a z i l , todos os estrangeiros que quizessem dedicar-se á sua
cultura. U m a infinidade de Americanos, Inglezes, France-
zes, Hollandezes, cujas plantações se acham esgotadas, e
muitos Europeus devorados da mania, tornada tão commum,
de fazer f o r t u n a rápida, para lá transportariam sua activi-
dade, sua industria e seus capitães. Estes homens emprehen-
dedores i n t r o d u z i r i a m na colônia u m melhor espirito, e do-
tariam novamente a raça degenerada dos Portuguezes co-
loniaes (créoles) de uma fibra que elles ha m u i t o per-
deram. " ( i )
Culpar Dom João V I de não haver sido muito mais
do que u m monarcha bem intencionado e taxar de modesta
a sua obra reformadora, seriam duas graves injustiças de
que os Brazileiros não podem assumir a responsabilidade,
tanto mais quanto no estrangeiro se teve immediatamente a
comprehensão nitida do valor do emprehendimento. Nas
instrucções do duque de L u x e m b u r g o ( 2 ) , ao ser despa-
chado para o B r a z i l , depois da segunda restauração dos
Bourbons, como embaixador do Rei L u i z X V I I I , mencio-

(1) Histoire Philosoiphique des E^afolissements et d u Commerce


des Européens dans ies Deux Indes. Amsterdam, 1770.
(2) Archiv-o do Ministério dos Negócios Estrangeiros de
França, Códices referentes a Portugal e Brazil, 1815-21.
64 DOM JOÃO VI NO BRAZIL

na-se a importância política grangeada pela antiga colônia,


attribuindo-se ao governo do R i o de Janeiro desígnios ma-
nifestos de levar a secção u l t r a m a r i n a da monarchia a "oc-
cupar na A m e r i c a M e r i d i o n a l o lugar que os Estados U n i -
dos occupavam na do N o r t e , e aproveitar-se d'essa espécie
de deslocação das colônias do N o v o M u n d o para estabele-
cer sobre ellas o seu ascendente. "
Quando o contrario houvesse sido, que mesquinhos
apparecessem auctor e peça, a explicação estaria talvez tanto
na interpretação incolor dos comparsas quanto no limitado
poder imaginativo do dramaturgo. Matéria ha que pela
sua fluidez escapa facilmente aos reagentes. Como seria pos-
sível ao Rei, caso mesmo lh'o consentisse a legitima altivez
.da coroa, renegar a sua arraigada concepção de governo pa-
ternal, si, tendo-o por piloto, viera a nau do Estado ancorar
no meio de uma sociedade acostumada a obedecer, atreita na
sua generalidade á dependência e á lisonja, ao ponto de
fincarem u m joelho em terra os transeuntes ao approxi-
mar-se a carruagem do vice-rei, e se descobrirem ao lerem
um edital ou passarem por uma sentinella ? Como seria
dado ao soberano proseguir uma política definida e liberal —
si de u m esforço hercúleo e perseverante fosse capaz o seu
caracter que u m escriptor de historia do tempo m u i t o bem
definiu bondoso e honesto mas fraco e crédulo (gutmuthig
und redlich aber schwachgemuthet und leichtglaubig) (i)
— n u m meio que afinal espreitava toda condescendência da
sua parte para aventar exigências desencontradas e dar largas
á sua discórdia, precursora da desaggregação ?
E como também deixaria de ser intrigante a nova
corte sí, cm addição aos defeitos transportados da da me-

t i ) Dr. E m e s t M ü m c h , Geschichte von Brasilicn, Dresden, 1829.


DOM JOÃO VI NO BRAZIL

t r o p o l e , n'ella r e f e r v e r a m a i n v e j a e o despeito e n t r e as
duas p a r c i a l i d a d e s , a r e i n i c o l a e a n a c i o n a l , sendo cada
graça d o R e i comrnentada, discutida e quasi invariavel-
mente m a l interpretada ? T ã o aberta e v i o l e n t a m e n t e se
o f a z i a que, p o r occasião das festas da exaltação de Dom
João V I ao t h r o n o , escreveria o consul-encarregado de
negócios de França, c o r o n e l M a l e r : " A p e z a r de todas as
líberalidaues de S. M . o n u m e r o dos descontentes e quei-
xosos é m u i t o a v u l t a d o , t e n d o d u r a n t e a n o i t e sido a f f i x a -
dos p a s q u i n s m u i t o v i r u l e n t o s ás p o r t a s da gente de posi-
ção e de a l g u n s estabelecimentos públicos, r i d i c u l a r i z a n d o
em versos l a t i n o s e p o r t u g u e z e s a escolha das pessoas favo-
recidas. E' de p r e s u m i r o descontentamento será mais v i v o
a i n d a em L i s b o a , p o r q u a n t o o exercito e este R e i n o teem
sido bem i m p o l i t i c a m e n t e esquecidos até agora n a d i s t r i b u i -
ção das h o n r a r i a s e das recompensas, e os P o r t u g u e z e s não
saberão, n e m poderão v e r a sangue f r i o que elles não são
sequer considerados como os irmãos cadetes dos B r a z i l e i r o s ,
ou dos seús irmãos que h a b i t a m este h e m i s p h e r i o " (i).
O descontentamento seria e m q u a l q u e r hypothese idên-
tico p o r q u e repousava sobre u m a antinomia irreconciliavel
e f u n d a m e n t a l , não passando de u m p r e t e x t o o ser o monar-
cha menos pródigo de mercês p a r a c o m o v e l h o R e i n o numa
dada occasião, o u mesmo o parecer d a r p r e f e r e n c i a ao B r a z i l
em qualquer partilha. A distribuição sem m e d i d a das hon-
r a r i a s f o i aliás precisamente u m dos modos mais efficazes
pelos quaes Dom João involuntariamente democratizou
ou talvez melhor desprestigiou e enfraqueceu a realeza,
franqueando este m a n a n c i a l e deixando-o perder-se, n u m a

(1) Officio de 20 de F e v e r e i r o de 1818, no Arch. do Minist. dos


Neg. E s t r . de França.
D. J . — 5
66 DOM J O Ã O V I NO BRAZIL

terra em que o intercurso tinha por principal alicerce o


favor do que mandava e patriarchalmente fazia gyrar a
sociedade em redor do seu solio, arrastando na sua orbita
um cortejo de adherentes.
Brazileiros e Portuguezes, exhibindo igual afan na cor-
tezania, davam apenas expressão á sua i n t i m a rivalidade, já
não faliando na poderosa attracção que se desprendia da
vida palaciana. Conta o ministro americano Sumter, o p r i -
meiro acreditado no Rio de Janeiro, em A b r i l de 1809, e
que chegou ao B r a z i l em J u n h o de 1810, que os fidalgos
só aspiravam a cargos no Paço, chegando a haver d i f f i c u l -
dade no encontrar um ministro para mandar para os Esta-
dos Unidos.
O representante da Republica do N o r t e v i u desde a
chegada bastante claro para distinguir a feição transitória
e o caracter europeu que a nobreza do Reino pretendia
emprestar sem remissão á nova corte, " contemplando-a
, meramente como um ermo {wilderness) que tinha seu valor
para ponto occasional de refugio, mas era de todo indigno
de ser feito sede do Império" ( 1 ) . N o que Sumter se enga-
nava a começo — e a curta estada de u m mez desculpa o
seu erro — era em n u t r i r duvidas sobre si esse sentimento
de hostilidade á terra chegava até o Príncipe ou partia d'elle,
collocando-o em qualquer dos casos na triste conjunctura
de estar cercado por subditos animados de interesses diver-
gentes. " Os Europeus que com elle emigraram, escrevia
o ministro ( 2 ) , dependem da sua munificencia para uma
subsistência que só lhes pode ser fornecida ás custas dos

(1) C a r t a de 23 de J u l h o de 1810, no A r c h i v o do Departamento


d? E s t a d o de Washington.
(2) C a r t a cit.
DOM J O Ã O VI N Ò BRA2IL 67

Brazileiros. Os v a l i d o s já são, ao que se d i z , i m p o p u l a r e s


p o r este m o t i v o e semelhante indisposição de que são a l v o
poderá v i r a f f e c t a r a r e a l f a m i l i a . ,,

T o d a s estas e r a m c i r c u m s t a n c i a s a c o n c o r r e r p a r a que
o fermento do descontentamento depressa corrompesse o
respeito t r a d i c i o n a l e alterasse a q u e l l a p r i m e i r a impressão
de vaidosa satisfacção que M ü n c h ( i ) tão bem condensou
nas seguintes p a l a v r a s : " O R e g e n t e e a família r e a l encon-
t r a r a m os B r a z i l e i r o s j u b i l o s o s c o m u m a m u d a n ç a das cousas
que á mãi pátria a c a r r e t a v a miséria e humilhação, mas a
elles trazia importância e florescência". Pelo p r i s m a de-
feituoso do desagrado decompoz-se a visão r i s o n h a dos
factos e m cores desbotadas. A s s i m , a t e m p e r a r a vaidade
i n s p i r a d a pelos progressos alcançados, pelo l u s t r e da corte,
pela presença dos estrangeiros, s u r g i r a m os temores de ex-
travagâncias, pouco habituaes n o estreito r e g i m e n colonial;
pairaram os receios de dispendios exaggerados que arrui-
nassem as esperanças de p r o s p e r i d a d e ; condensaram-se os
alarmes de complicações e ataques, que sacudissem o Brazil
no vórtice europeu. O sincero e retribuído a f f e c t o do mo-
narcha, a satisfacção de t e r no seu seio o g o v e r n o do I m -
pério, a consciência de todos os m e l h o r a m e n t o s realizados,
a perspectiva de u m g r a n d e f u t u r o , não i m p e d i r i a m que ap-
parecessem saudades platônicas do t e m p o i d o , em que n a d a
v i n h a p e r t u r b a r a pacatez, a serenidade e a confiança que
também são encantos da existência t a n t o i n d i v i d u a l como
collectiva.
O velho viver brazileiro tinha na verdade os seus
attractivos. U m a das affirmações mais r e p r o d u z i d a s , mais
exploradas e mais falsas da nossa h i s t o r i a é sem d u v i d a a da

(1) O.bra cit.


68 DOM JOÃO VI NO BRAZIL

antiga oppressão colonial, que se d i z ter sido pouco menos


do que uma desalmada escravidão. O Sr. João Ribeiro re-
compoz m u i t o bem esta feição, supprimindo o que n'ella
havia de desproporcionado. Seguindo este escriptor nacio-
nal (i), dotado de personalidade de concepções e de um
critério philosophico apurado na convivência espiritual dos
mestres allemães, a famosa tyrannia á qual esteve sujeita
a possessão brazileira não f o i em nada maior do que a que
pesou sobre a metrópole mesmo. N u m a e n'outra vingavam
pelo menos idênticas regalias e operavam idênticas restric-
ções. A epocha na Europa, posterior ás descobertas e ao
Renascimento, pode chamar-se de despotismo político e, na
própria A m e r i c a do N o r t e , as tentativas para o seu estabe-
lecimento por parte da mãi pátria — pois que na organiza-
ção privativa de cada uma das colônias não escasseavam
traços de intolerância, especialmente religiosa — f o r a m que
provocaram a resistência e engendraram a separação.
T a n t a razão assistia ao B r a z i l para se queixar como a
Portugal, e como prova de que o j u g o da metrópole não
era tão consummado como se pretende fazer acreditar, basta
recordar o papel importante desempenhado na vida colonial
pelos Senados das câmaras, os quaes ás vezes até substituíam
nas capitães os governadores. E' de resto u m axioma da
historia da civilização peninsular que na lucta contra os
fidalgos a monarchia agiu de braço dado com o povo. " Os
progressos do absolutismo real favoreceram o bem estar do
B r a z i l em mais ampla medida do que o faria o systema feu-
dal que nos primeiros tempos retalhou o paiz entre os ab-
solutismos minúsculos, mas dobradamente ferozes, dos do-
natários."
m i j

( 1 ) H i s t o r i a d i d a c t i c a do B r a z i l , R i o de J a n e i r a
DOM JOÃO VI NO BRAZIL 69

N o Conselho U l t r a m a r i n o , expressão a mais acabada da


administração c e n t r a l i z a d o r a do t h r o n o , recebiam os i n -
teresses coloniaes o exame e sobretudo a protecção que tor-
n a v a m indispensável os abusos dos governadores e os atten-
tados dos agentes subalternos do poder, commettidos em
sociedades ainda informes e v a r r i d a s pelo sopro das paixões
m a l contidas. Si no século X V I I I quasi se obliteroú no
B r a z i l a v i d a communal, os motivos f o r a m a descoberta das
minas e a conseqüente decadência da v i d a agrícola creando
u m estado de instabilidade e de desordem, o avesso do de
equilíbrio e legalidade com que t i n h a m podido m e d r a r as
liberdades municipaes. Q u a n d o mais tarde estalaram as
revoluções emancipadoras, já não era a tradição nacional
que se reatava, mas s i m eram ideas estrangeiras que se ado-
ptavam.
Estas idéas cosmopolitas e humanitárias revestiram com-
t u d o logo, pelas condições da sua applicação, base sobre que
operavam — u m a população comparativamente rústica e
adstricta ao exclusivismo político — , tendência mesmo do
destino e tradições locaes que v i e r a m encontrar e despertar
da sua lethargia, u m aspecto particularista e pode dizer-se
accentuadamente nativista. N e m no B r a z i l se deu verda-
deiramente u m encontro de systemas, antes u m embate de
interesses, os dos Brazileiros em opposição aos dos P o r t u -
guezes: p o r outras palavras, os systemas encobriam os i n -
teresses.
Por interesse, não p o r preconceito, t i n h a m já sido an-
t e r i o r m e n t e lavradas todas as prohibições industriaes e com-
merciaes que conservaram estacionaria a possessão, cortan-
do-lhe o desafogo econômico e entregando-a ligada de pés e
mãos aos monopolistas do Reino, na f o r m a da concepção
70 DOM JOÃO VI NO BRAZIL

mercantil dominante, a que se não f u r t o u a própria G r ã


Bretanha nas suas relações coloniaes. A vinda da família
real foi o p r i m e i r o signal de independência para o productor
brazileiro e conseguintemente — pois que uma vez entrado
n'esse caminho não seria possível parar mais — o prenuncio
da total autonomia, de que ficara dado o rebate.
A lealdade dynastica teria contra si tudo entre nós:
raça, meio e momento. Estas influencias combinadas decidi-
r i a m da orientação, pesando afinal mais do que a primeira
censação de enternecimento e desvanecimento. O echo da
Revolução repercutia no l i t t o r a l brazileiro, o que quer dizer
que se tinham abalado as velhas crenças políticas e religiosas.
Com o seu temperamento escarninho, a população f l u m i -
nense, entre a qual D o m João V I pessoalmente se quedaria
para sempre gosando da mais sincera estima, não se deixaria
deslumbrar pela pompa real. O affecto não toldaria, para
os nacionaes capazes de se enthusiasmarem pelas reformas
sociaes e de se porem á frente de u m movimento libertador,
a visão intelligente dos successos, e os toma-larguras — nome
pelo qual o povo f o i logo baptizando os fâmulos da ucharia
real, com suas casacas abertas de longas abas pendentes—
esses experimentaram no ridículo que os envolveu, a força
do espirito zombeteiro e demolidor que havia de constituir
nosso característico moral, f o i o nosso bem e é a nossa fra-
queza.
CAPITULO I I

A ILLUSÃO DA CHEGADA. 0 QUE ERA A NOVA CORTE

O desembarque da família real portugueza no Rio


J a n e i r o , aos 8 de M a r ç o de 1808, f o i mais do que u m a ce-
rimonia official: f o i uma festa p o p u l a r . O s habitantes da
capital brazileira corresponderam b i z a r r a m e n t e ás ordens
do vice-rei conde dos A r c o s e s a u d a r a m o Príncipe Regente,
não simplesmente como o e s t i p u l a v a m os editaes, respeitosa
e carinhosamente, mas com a mais tocante effusão. Dom
João poude f a c i l m e n t e divisar a satisfação, a reverencia e
o a m o r que a n i m a v a m os seus subditos transatlânticos nos
semblantes d'aquelles que em agglomeração compacta se
a l i n h a v a m desde a r a m p a do caes até a Sé, que então era
a e g r e j a do Rosário; os sacerdotes paramentados de p l u -
viaes de seda e o u r o , incensando-o, ao s a l t a r da galeota, c o m
hyssopes de o u r o , t a n t o q u a n t o os escravos h u m i l d e s que de
precioso só p o d i a m ostentar n u m riso f e l i z as suas dentadu-
ras nacaradas.
Marchando gravemente debaixo do i m p o n e n t e pallio
escarlate, cujas varas s u s t e n t a v a m o j u i z de f o r a e os verea-
dores da câmara; pisando a areia branca e v e r m e l h a derra-
m a d a nas ruas do t r a j e c t o de m i s t u r a c o m hervas que em-
b a l s a m a v a m o a r ; o u v i n d o as f a n f a r r a s alegres, os repiques
72 DOM JOÃO V I NO B R A Z I L

de sinos estridentes, os foguetes jubilosos e as salvas de ar-


t i l h a r i a atroadoras; vendo cahir em v o l t a de si uma chuva
persistente e odorifera de folhas e flores, " lançadas pelas
mãos da formosura e da innocencia" como escreve o chro-
nista — desappareceram momentaneamente do espirito do
Príncipe as afflicções do l a r sombrio e maculado, attenua-
ram-se as angustias do Reino invadido e subjugado.
N ã o eram para o B r a z i l menos fundados os motivos
de júbilo. A mudança da corte, effectuada sob a égide
da esquadra britannica, vinha m u i t o a propósito n'aquelle
momento serenar os ânimos dos habitantes, alarmados com
a perspectiva de ataques inglezes como o que acabava de
soffrer Buenos Ayres, e tão justamente para receiar que,
ao ser publicado o decreto de 20 de O u t u b r o de 1807 contra
as pessoas e bens dos subditos de Jorge I I I , fora por brigues
especiaes mandada ordem aos governadores da Bahia e Per-
nambuco e ao vice-rei no R i o de Janeiro para fortificarem
do melhor modo suas cidades e adoptarem medidas de de-
feza. N ã o é pois de admirar que a alteração d'estas cir-
cumstancias terroristas determinasse u m a relaxação que nas
differentes capitanias, mesmo do interior, se t r a d u z i u por
banquetes, serenadas, minuetes e mascaradas festivas (1).
M a w e que, vindo do R i o da Prata, estava em S. Paulo
quando o Príncipe Regente chegou á Bahia, d i z que a no-
ticia f o i a l l i recebida com intensa alegria, occasionando pro-
cissões, foguetorios e outras demonstrações mais ou menos
ruidosas. A j u n t a o viajante mineralogista que "o Império
B r a z i l e i r o f o i considerado estabelecido " ( 2 ) .

(1) Historia do Brazil desde 1807 aité ao presente. Lisboa, 1817-


34. Tomo V I I .
(:2) John (Maw.e, T r m w l p m the iinlftSrior of B^íazM, tfalrtiicularly
Ui the ijold tmã diamond districts, etc, London, 1812.
DOM JOÃO VI NO BRAZIL 73

Q u ã o differente para D o m João esta chegada t r i u m -


phal, que nem perturbavam os gritos de resistência da Rai-
nha doida, cujos nervos pareciam ter-se acalmado na longa
viagem marítima e segundo 0 ' N e i l l . ( i ) chorava placi-
damente de emoção, do triste embarque em Lisboa, onde
si a elle próprio o protegera dos apupos da multidão o pres-
tigio ainda vivo da realeza, ao seu ministro Araújo o invecti-
varam e apedrejaram ( 2 ) como réo da deserção causada
pela publicação no Moniteur de 11 de Novembro do iní-
quo tratado de esbulho.
No R i o de Janeiro impressões mais lisonjeiras sobre-
punham-se na alma sensível do Príncipe a essas recordações
pungentes. Magistrados, funccionarios, monges, rodeavam-no
num grupo numeroso e luzido, sobre que tremulava o es-
tandarte do Senado da câmara e brilhava a cruz do Cabido,
erguida entre dous cirios. A limpidez do ceu coruscante, o
tom respeitoso da recepção burocrática e a transparência
do enthusiasmo nacional revelando-se pelos hymnos dos clé-
rigos, pelos cânticos dos músicos postados n u m coreto, pelos
vivas dos soldados e dos populares, deviam por força pren-
der os sentidos do festejado e embalar-lhe a alma n'uma
doce conformidade de impressões physicas e moraes. Con-
ta-se que, ao passo que a Princeza D o n a Carlota chorava
convulsa, magoado o seu orgulho com essa degradação para
rainha colonial, D o m João caminhava sereno, deixando
fundir-se sua melancolia ao calor da sympathia que o estava
acolhendo.

(1) 0'Neill seguio n'um navio com despachos depois da par-


tida da esquadra anglo-luza, m-s-s como f o i directamente ao Rio de
Janeiro, a h i .chegou antes do Principe Regente, assistindo ao seu de-
sembarque que qualifica de tocante.
(2) Münch, ob. c i t .
74 DOM JOÃO VI NO BRAZIL

A cidade até, escondendo debaixo das faustosas col-


chas de damasco as singelas paredes rebocadas e caiadas das
suas casas acanhadas, disfarçando a exiguidade das suas
ruas com as f l a m m e j antes bandeiras, ás g r i n a l d a s e as lanter-
nas que de lado a lado as enfeitavam,fazia-lhe o effeito de u m a
capital regia, digna emula, aos seus olhos, d'essa o u t r a c i -
dade de São Salvador, da q u a l o Príncipe Regente chegava
encantado, da situação, das dimensões, da riqueza, da cordia-
lidade dos habitantes, e onde o commercio local l h e offe-
recera m a n d a r l e v a n t a r u m magnífico palácio real, comtanto
que ahi estabelecesse a corte.
T o d a v i a o R i o de Janeiro, c u j a importância política
só datava propriamente de u m século, depois de começada
a exploração das minas, e de c u j o aformoseamento apenas
t i n h a m cuidado m u i t o mais t a r d e os vice-reis transferidos
da Bahia, L u i z de Vasconcellos e Rezende especialmente,
ainda era u m a mesquinha séde de monarchia. A s ruas es-
treitíssimas, lembrando mourarías; as vivendas sem quaes-
quer vislumbres de architectura, a f o r a possíveis detalhes de
bom gosto, u m p o r t a l o u u m a v a r a n d a ; os conventos nume-
rosos, mas simplesmente habitaveis, excepção feita dos de
São Bento e Santo Antônio, situados em eminências e mais
decentemente preparados; as egrejas, l u x o de toda cidade
portugueza, freqüentes porém inferiores nas proporções e
na decoração de t a l h a dourada ás da Bahia, provocando
por isso entre a devoção e caridade dos fieis u m estimulo de
obras de embellezamento, cujos resultados já appareciam
nos nobres edifícios em construcção da Candelária e de São
Francisco de P a u l a ; o plano da cidade p o r fazer, cruzan-
do-se quasi todas as congostas n u m v a l l e mais largo, sem
calculo, sem precauções mais do que a de a h i conservar no
DOM JOÃO VI NO BRAZIL 75

desenho u m arremedo de taboleiro de xadrez, espraiando-se


o resto das moradias, ao Deus dará, pelas outras cam-
pinas sitas ao sopé dos morros escarpados.
E m resumo era o Rio, tomado n o conjunci'0, u m a espé-
cie de Lisboa, i r r e g u l a r e ainda assim banal, c o m os do-
cumentos artísticos de menos e u m a frondosissima vegetação
a mais. O Cattete e Botafogo, isto é, os quarteirões desafo-
gados, os bairros limpos e aprazíveis de hoje, 110 passavam
então de arrabaldes, somente encerrando casas de campo.
Q u a t o r z e annos depois, quando em O u t u b r o de 1822 os
A n d r a d a s t i v e r a m seus primeiros arrufos c o m D o m Pedro I
e pediram sua demissão de ministros, havendo a cidade fi-
cado alvoroçada, José Bonifácio deixou sua habitação do
Rocio e retirou-se para u m a pequena casa no caminho velho
de Botafogo, onde o f o r a m buscar n u m a estrepitosa excur-
são I m p e r a d o r e Povo. O terreiro de Sant'Anna descre-
viam-no os contemporâneos como " u m areai em grande
parte coberto de herva rasteira." O Passeio Publico repre-
sentava o único m i m o da população, a não quererem os f l u -
minenses engrossar a multidão dos aguadeiros, que sentados
sobre os barris esperavam sua vez, e embasbacar d i a e noite
diante dos chafarizes pomposos de que j o r r a v a a l y m p h a
mais crystallina, t r a z i d a do alto p o r u m vis';);o aquedueto.
A l a r d e a n d o os brazões dos proconsules da metrópole, esses
chafarizes c o m m e m o r a v a m em correcto l a t i m \ grandeza dos
administradores aos quaes deviam sua erecção.
A' noite a illusão do Príncipe — illusão p o r v e n t u r a u m
t a n t o intencional pois que a realidade, impondo-se subse-
qüentemente á excitação acclamadora, e mesmo os contra-
tempos da f o r t u n a nunca a l o g r a r a m desmanchar — mais
se teria fortalecido graças ao espectaculo tentador que das
76 DOM JOÃO V I NO BRAZIL

janellas do Paço se descortinava. N o vasto largo fronteiro


uma arcaria t r i u m p h a l se erguia, com seus adornos de py-
ramides, vasos e emblemas, e no centro, por baixo das armas
luzitanas e de escolhidos versos de Virgílio, sobresahia
dentre a ílluminação de milhares de copinhos de cores um
painel figurando a entrada no porto da nau que conduzira
D o m João.
O retrato mesmo do Príncipe Regente destacava-se
num medalhão no acto de receber de u m indio, personifi-
cação do B r a z i l , os thesouros da natureza tropical e o cora-
ção nacional transbordante de affecto. O particularismo já
se sentia robusto bastante para ensaiar a idealização de que
o Romantismo faria a breve trecho uma bandeira, não só
política como litteraria. O indío, symbolo da nacionalidade
independente, logo depois f i g u r a r i a vendado e manietado,
com u m gênio, certamente o da liberdade, na posição de o
desvendar e desagrilhoar, no emblema de uma l o j a maço-
nica de Nitherohy, de que era irmão Antônio Carlos e que
a policia dispersou por sediciosa.
N'aquella occasião, porém, não se pensava senão com
sinceridade na honra insigne de possuir no B r a z i l a corte
portugueza, não se agia senão por lealdade dynastica para
com os recemvindos. Extendiam-se as luminárias a todos
os cantos da cidade, fazendo pairar sobre o montão da
casaria u m r u b r o clarão festivo, e aos ouvidos do Príncipe
chegava de todos os lados o r u m o r confuso da multidão pra-
zenteira. Este som inconfundível de júbilo confirmava os
descantes e as declamações que na real presença esfuzilavam,
mais fulgurantes e sobretudo mais demoradas que as giran-
dolas de foguetes cortando com suas lagrimas de fogo a
vasta escuridão da bahia. A claridade tênue das estrellas
DOM JOÃO VI NO BRAZIL <77

e o s c i n t i l l a r mais v i v o de constellações novas p a r a os au-


gustos olhos, d e i x a v a m e n t r e t a n t o esboçarem-se em r e d o r os
c o n t o r n o s dos m o r r o s revestidos de basto a r v o r e d o , a c u j o s
pés v i n h a m rolar as vagas, num incessante movimento
r h y t h m i c o , que f r a n j a v a de espuma as praias d i s t i n g u i n d o - s e
alvacentas e n t r e a massa negra das m o n t a n h a s e a chapa
m e t a l l i c a do mar.
A impressão physica e x p e r i m e n t a d a em pleno d i a não
p o d i a no e m t a n t o dizer-se em certo sentido i n f e r i o r á rece-
b i d a de noite. Si a cidade propriamente, a agglomeração
h u m a n a , l u c r a v a c o m ser v i s t a á l u z fantástica das i l l u m i -
nações, a n a t u r e z a p o r certo p r e f e r i a ostentar suas galas ao
sol, sob o mais l u m i n o s o firmamento da creação, de um
a z u l tão p r o n u n c i a d o quão pronunciado se desdobrava o
verde da vegetação, quando o não e n c o b r i a m aqui e
além os grossos flocos das nuvens apinhadas em desenhos ca-
prichosos, o u se não t r o c a v a a sua. t o n a l i d a d e v i b r a n t e pela
u n i f o r m i d a d e plúmbea do ceu de tempestade t r o p i c a l .
Um R e i n a v e r d a d e p r e s t a r i a o único t r i b u t o d i g n o de
admiração á esplendida b a h i a c o m a sua i r r e g u l a r i d a d e de
l i n h a s ; c o m o seu recorte em pequenos golfos, cabos e en-
seadas; c o m a sua profusão de ilhas, a l g u m a s áridas, pella-
das, quasi calcinadas o u feitas de penhascos, h u m i d a s e f l o -
ridas o u t r a s c o m o ramalhetes o r v a l h a d o s ; c o m os seus mon-
tes alterosos ao longe, t e r m i n a n d o em cabeços esguios e p r o -
d u z i n d o o e f f e i t o de e n c e r r a r as águas n'um receptaculo de
florestas, c u j o s supportes de g r a n i t o p a r d o eram avivados
por l i s t r a s de a r g i l l a v e r m e l h a . Semelhante t r i b u t o Dom
João V I o não regateou á colônia p o r elle elevada a r e i n o
e t r a n s f o r m a d a em séde d a m o n a r c h i a p o r t u g u e z a , e não f o i
sem as mais p r o f u n d a s saudades que, treze annos depois, se
78 DOM JOÃO V I NO B R A Z I L

v i u compellido, por uma revolução rugindo ameaçadora na


velha descurada metrópole, a abandonar as hospitaleiras
plagas do B r a z i l e regressar a P o r t u g a l , sumido no hori-
zonte n u m momento. de desespero nacional e de novo en-
trevisto em sobresaltos de pavor pessoal (i).
Luccock teve uma verdadeira intuição d'esse estado
d'alma do soberano ao escrever ( 2 ) as seguintes palavras,
a propósito da diligencia empregada pelo gabinete de Lon-
dres e particularmente por l o r d S t r a n g f o r d para, depois
da paz geral, promover o regresso para a E u r o p a da dy-
nastia que elles próprios t i n h a m decidido a exilar-se: "O
f r i o e fleugmatico político dq N o r t e raramente calcula o
effeito das bellas paizagens sobre o espirito humano; pois
de contrario não esperaria que a corte de P o r t u g a l deixasse
sua nova residência. Esta influencia é silenciosa mas pode-
rosa; seu operar é universal e perpetuo, renovado por cada
sol nascente e ajudado por cada l u a r refulgente. E l l a ha
aqui freqüentemente combatido o estimulo do interesse e
destruído a persuasão do argumento, e é geralmente mais
efficiente nos espíritos que menos se apercebem do seu exer-
cício. A suggestão da natureza tem contribuído para tornar
a corte portugueza desejosa quasi de alterar a sua designa-
ção, e os estrangeiros favorecem-lhe esta inclinação, fallando
da corte do R i o e não mais da de Lisboa." R o t du Brésil,
nunca de o u t r a f o r m a se referia a D o m João o cônsul geral
de França, Lesseps, na sua correspondência o f f i c i a l para
Pariz.

(1) Esta descripção da chegada da família real ao Rio f o i dada


n'um artigo do auctor na revista fluminense Kosmos, anno I , que aqui
é quasi l i t t e r a l m e n t e reproduzido.
02) J. Luccock, Notes on Rio de Janeiro and the southern parts
of Brazil London, 1820.
DOM JOÃO VI NO BRAZIL 79

O B r a z i l parecia t e r então a boa f o r t u n a de ser que-


r i d o de toda a gente, o que se explica facilmente. N a se-
g u n d a metade do século f i n d o aconteceu o u t r o t a n t o com o
Japão: em ambos os casos o que se deu f o i o termo de u m a
longa curiosidade a f i n a l satisfeita, gerando-se d'esta satis-
facção u m a fácil sympathia. C o m m u i t o mais razão aliás
no nosso caso visto que no B r a z i l , quasi de todo cerrado p o r
dous séculos aos estrangeiros, si estes encontravam menos
attractivos de civilização artística, só poderiam em compensa-
ção deparar com u m f r a n c o e generoso acolhimento p o r parte
de gente da mesma raça, que não n u t r i a desconfianças de
suzerania porquanto já t i n h a tutela, e d u p l a — a domestica e
a b r i t a n n i c a — , e precisava para emancipar-se politicamente
de ensinamentos de todo o gênero.
O accesso á t e r r a maravilhosa e mysteriosa f o i aprovei-
tado com todo o a r d o r creado pelo espirito scientifico mais
desenvolvido e mais disseminado que, sobretudo no domínio
n a t u r a l e no terreno geographíco, se estava manifestando
tão característicamente na epocha posterior á dos Encyclo-
pedistas. O R i o de Janeiro em p a r t i c u l a r tornou-se d u r a n t e
o reinado de D o m João V I u m ponto de encontro de es-
trangeiros distinctos. E n t r e os próprios representantes das
nações européas contavam-se homens de merecimento como
Chamberlain, o cônsul geral britannico, que mais tarde
exerceu não pequena i n f l u e n c i a sobre a marcha dos aconte-
cimentos políticos, e v o n L a n g s d o r f f , o cônsul geral russo,
que havia sido o valioso chronista da viagem em redor do
globo do commodorò russo Krusenstern.
A m b o s estes funccionarios tinham-se deixado seduzir
pelos encantos da natureza local, sendo v o n L a n g s d o r f f
proprietário de u m a fazenda na R a i z da Serra, onde c u l t i -
80 BOM^JOÃO VI NO BRAZIL

vava m u i t a mandioca, e possuindo Chamberlain, que era


além d'isso um. entomologista fanático, uma plantação de
café no prolongamento do aqueducto da Carioca. D o mesmo
modo u m refugiado ou antes emigrado político, o conde
Hogendorp, veio morar o mais rusticamente possível nas
Laranjeiras, e o p i n t o r T a u n a y escolheria para sua residên-
cia e de sua família uma cabana ao pé da cascata da T i j u c a .
O governo — e para que t a l effeito se produzisse basta-
ria que se enxertasse na boa disposição do soberano a ascen-
dência illustrada, p r i m e i r o de Linhares e depois de Barca
na administração — começou, n'esse meio quasi virgem sob
o aspecto econômico, a apreciar a importância da collabo-
ração estrangeira e a utilizal-a em differentes campos, es-
pecialmente no das sciencias naturaes e no da industria.
C o m semelhante auxilio lucrava a terra em todos os sen-
tidos, principiando pelo de tornar-se conhecida por meio
das freqüentes communicações insertas a respeito nas folhas
diárias e revistas européas, e das muitas obras que sobre
ella entraram a ser publicadas. N'estes livros se encontra
naturalmente em larga escala o elemento descriptivo sug-
gerido pela novidade e formosura do espectaculo, mas em
boa parte também o elemento technico, nomeadamente an-
thropologico e botânico, que curiosamente se allia á ex-
pressão litteraria.
A s collecções transportadas para a E u r o p a constituíam
u m meio seguro de propaganda ao mesmo tempo que uma
rica fonte de estudo. O príncipe M a x i m i l i a n o , que veio em
1815 e v i a j o u com os naturalistas Freireiss e Sellow, carre-
gou para o seu castello de N e u w i e d u m herbário com 5.000
plantas brazileiras, alem dos insectos e outros exemplares
da fauna, inclusive u m pequeno botocudo. O casamento em
DOM JOÃO v i NO BRAZIL 81

1817 da archiduqueza L e o p o l d i n a com o herdeiro da coroa


mais f a r i a a u g m e n t a r e mais directo t o r n a r i a o interesse
germânico, sempre grave e exhaustivo. C h e g a r a m a acom-
panhar a Princeza duas missões scientificas: a austríaca, de
que f a z i a m p a r t e os naturalistas N i k a n , N a t t e r e r , P o h l e
Schott, e a bávara, d i r i g i d a p o r Spix e M a r t i u s , os mais
illustres exploradores do B r a z i l , c u j a v i d a — a de Spix
extinguio-se em 1826, a de M a r t i u s porém prolongou-se até
1868 — f o i desde então devotada ao mais aturado, mais
consciencioso e mais comprehensivo estudo do nosso paiz sob
os pontos de vista zoológico, botânico, medico e ethnologico.
A colheita de Spix e M a r t i u s , com que se apresentaram de
regresso á pátria perante o seu regio protector, M a x i m i -
liano José, abrangia alem de u m a parelha de indios, 85 es-
pécies de mamíferos, 350 de aves, 130 de amphibios, 116 de
peixes, 2.700 insectos, 80 arachnideos e crustáceos e 6.500
plantas ( 1 ) .
Esses dous intrépidos viajantes, que p e r c o r r e r a m quasi
todo o B r a z i l desde 24.* de L a t . s u l até o equador e, ao longo
da linha, do Pará á f r o n t e i r a o r i e n t a l do Peru, c o l l i g i n d o
u m a i n f i n i d a d e de preciosas informações geographicas, e t h -
nographicas, estatísticas e historico-naturaes, receberam da
capital brazileira, nove annos depois da chegada da família
real, u m a impressão assaz lísonjeira, apenas estranhando o
grande v o l u m e da população de côr e o ruidoso resfolegar
da cidade. Elles assim se e x p r i m e m : " Q u a l q u e r pessoa que
considerasse ser este u m novo continente, descoberto ha
apenas t r e z séculos, e que imaginasse p o r isso deparar-se
aqui com u m a natureza ainda i n t e i r a m e n t e rude, p u j a n t e

(1) Oscar Caonstatt. Kritisches Repertorium der Deutsch-Bra-


sManchen LUertaUir. B.erlin, 1902.
D. J. — 6
82 DOM JOÃO V I NO BRAZIL

e por avassalar, acreditaria, pelo menos no que toca á capi-


t a l do B r a z i l , achar-se n'outra parte do m u n d o ; tanto tem a
influencia da civilização da velha e esclarecida Europa con-
seguido apagar n'este ponto da colônia o cunho da selva-
geria americana, para lhe dar em troca o aspecto de uma
mais alta cultura. A língua, maneiras, architectura e i n -
f l u x o das producções da industria de. todas as partes do
mundo, dão ao R i o de j a n e i r o uma apparencia européa ( i ) .
I n t e l e c t u a l m e n t e , não ficava com certeza o R i o muito
distanciado de Lisboa. M a u grado a desigualdade do appa-
relho de acquisição mental — o B r a z i l , como é sabido, não
possuía estabelecimentos de ensino superior — a instrucção
regulava a mesma, entre as classes educadas é claro, das
quaes alguns membros t i n h a m feito estudos na metrópole e
outros eram verdadeiros auto-didactas. O Príncipe Regente
não tinha que estranhar por esse lado a mudança, e o seu
espirito não soffreria isolamento no novo meio.
Dom João V I não era o que hoje em dia chamaríamos
u m cerebral, mas era uma pessoa deveras intelligente e com
certo gosto, até pronunciado, pelas cousas espirituaes. Apre-
ciava como entendedor u m bom sermão, t i n h a como toda
a família queda pela musica ( 2 ) , gostava de fossar a toda

(1) von Spix and von Martius, Traveis m Brazil, m the years
1817-1820. London, 1824, Tomo I .
(2) Quando depois da p a r t i d a d a s i n f a n t a s p a r a Cadiz a 2 de
J u l h o de 1-816, o duque de L u x e m b u r g o e o coronel M a l e r foram v i s i t a r
o R e i n a i l h a do Governador, fazendo a excursão n'um dos escaleres
da f r a g a t a de guerra Hermione, que- t r o u x e r a ao R i o de J a n e i r o o em-
baixador do R e i Christianiissimo, Dom João se não conteve que não
exprimisse aos v i s i t a n t e s o seu sentimento de os não haver acompa-
nhado a banda de bordo. (Correspondência do R i o no A r c h . do Min.
dos Neg. E s t r . de França.) Dom João ia, com alguma freqüência p a r a
o convento da i l h a do Governador e t i n h a até por costume a h i p a s s a r
a semana santa.
DOM JOÃO VI NO BEAZIL 83

hora nos maços de papeis d'Estado e não só tinha chiste,


como sabia e soia fazer cousas engraçadas. Nas annotações
á sua própria noticia biographica sahida á l u z n'um diccio-
nario francez de contemporâneos, refere Antônio de Mene-
zes Vasconcellos D r u m m o n d que, depois da revolução per-
nambucana de 1817, u r d i d a como é corrente em lojas ma-
çonicas, entraram as sociedades secretas, até então de certo
modo toleradas, a ser vigiadas de perto, perseguidas e dis-
solvidas, creando-se no Rio, para punição dos culpados, u m
j u i z o da Inconfidência. N a espécie de terror produzido por
esse assomo de violência da parte do governo paternal que
estava sendo o brazileiro, muitos mações denunciaram-se a
si mesmos, entre elles o conde de Paraty, camarista e grande
valido do Rei, que d'elle nunca se separava. O castigo que
o monarcha, resentido, lhe i n f l i n g i o f o i o de entrar para a
O r d e m T e r c e i r a de São Francisco da Penitencia e conser-
var-se no Paço durante todo o dia do juramento com o ha-
bito de irmão. O marquez d'Angeja, outro mação confesso,
resgatou sua falta entregando toda a prata da sua casa para
servir as necessidades do Estado ( 1 ) .
Q u e m sabe proceder para com dependentes com tama-
nha indulgência e, sendo soberano, se mostra capaz de tanto
espirito nas relações com personagens, da sua corte, não é
certamente u m ente vulgar, e de facto D o m João compensava
pela agudeza mental, bom senso e fácil assimilação o que lhe
escasseava propriamente em conhecimentos que ninguém
se occupara em incutir-lhe. Ò s estrangeiros sempre lhe fize-
ram justiça. Beckford, o intelligentissimo e mordaz Beck-
f o r d , estampou a seu respeito conceitos lisonjeiros, que
se sentem dictados pela sinceridade, e Luccock até o defende

(1) Annaes da Bibl. Nac. do Rio de Janeiro, r o l . X I I I .


84 DOM JOÃO V I NO B R A Z I L

da increpação de apathía, dotando-o de m u i t o mais sensibi-


lidade e energia de caracter do que l h e andam geralmente
attribuidas pela tradição v u l g a r ou pela paixão política.
" O Príncipe Regente, escreve elle, achou-se collocado em
circumstancias desconhecidas e singularmente penosas e a
ellas se sujeitou com paciência, agindo, quando se rebellou,
com vigor e promptidão." Si se deixou algumas vezes levar
por conselheiros tímidos ou destituídos de franqueza, aco-
lytos aduladores e hypocrítas que são figuras inevitáveis em
redor dos governantes, não obrou em semelhantes casos por
estupidez, perversidade òu cynismo. "Este soberano, d i z
um commercíante francez, era geralmente querido, tanto
era bom e benevolente " (i).
N ã o conheço despacho algum, ostensivo, reservado ou
confidencial, de embaixador, ministro ou encarregado de ne^
gocios estrangeiros para seu governo, que se r e f i r a com
menos respeito ou com menos elogio a D o m João V I . E é
curioso verificar que nenhum mesmo tenta fazel-o, de leve
que seja, ridículo, quando os Portuguezes d'elle quizeram
legar u m typo burlesco. N ã o era apenas a deferencia innata
para com a realeza que assim tornava cortezã a penna facil-
mente satyrica dos diplomatas: era também e principalmente
a circumstancia de, em justiça, nada encontrarem no soberano
de grotesco e sim m u i t o de attrahente e não pouco que en-
carecer. M a l e r , que lhe era sinceramente affeiçoado, como
devia pois que d'elle recebeu constantemente provas de atten-
ção e benevolência, não se f u r t a a exaltal-o. O duque de L u -
xemburgo, cujas razões para isso não eram tão fortes, ao
passo que censura, n u m tempo em que já se sentia a falta

(1) V. A. (lenclrin, Récit historique exact et sincere, par mer et


par terre, de quatre voyages faits au Brésilj au Ghilí, etc. Vérsail-
les, 1856.
DOM JOÃO VI NO BRAZIL 85
0

do espirito vigoroso de Linhares, a inércia da corte, a carên-


cia de planos de administração do governo, a reserva que
trahia indecisão do elemento aristocrático, refere que o R e i
era amado do seu povo por accessivel, affavel e bondoso.
Traços da sua f i n u r a abundam na correspondência
inédita de varias legações. O duque de L u x e m b u r g o teve a
sua audiência de despedida a 18 de Setembro de 1816 e
p a r t i u a 21. Conversando depois d'isto e pela primeira vez
com o encarregado de negócios M a l e r ácerca da expedição
ao R i o da Prata para occupação da Banda O r i e n t a l — ex-
pedição sobre a qual se guardou toda reserva, a ponto de
manter absoluto silencio a propósito a anodina Gazeta do Rio
de Janeiro—Dom João observou com o seu sorriso entre
malicioso e bonacheirão: "Os Francezes f a l i a r a m e escre-
vinharam m u i t o em tempo sobre fronteiras ou limites natu-
raes: tratava-se sempre, de u m lado, do Rheno e do outro,
dos Alpes; ora o que é o Rheno comparado com o R i o da
Prata ? ' A o que o representante francez respondeu com
o espirito da sua nação que a " belleza e a amplidão d'esse
grande r i o deviam dispensar todo e qualquer commentario e
eram por si sufficientemente eloqüentes para que pudessem
ser passadas sob silencio, sendo assim m u i t o lógico concluir
que limites alguns existiriam mais naturaes que o citado R i o
da Prata, e parecendo aliás que os missionários das margens
do Rheno t i n h a m conseguido proselytos em todos os mundos
possíveis." Esta u l t i m a reflexão fez o monarcha r i r de tout
son cceur, d i z o officio ( 1 ) .
A sua sensibilidade não era de refolhos. T i n h a até a
l a g r i m a fácil e freqüentes são as occasiões de que ficou me-

(1) Ofificio de 22 de Setembro de 1816, no Arich. do Min. dos


Neg. E s t r . de França.
86 DOM JOÃO VI NO BRAZIL

m o r i a , nas quaes não soube o u não q u i z esconder o seu


pranto. C h o r o u ao f a l l a r com Maler na morte da M ã i ;
c h o r o u q u a n d o p a r t i r a m as P r i n c e z a s suas f i l h a s p a r a Hes-
panha; chorou ao a p e r t a r nos seus braços o m a r q u e z de
A g u i a r , já m u i t o a l q u e b r a d o e e n f e r m o , q u a n d o reappare-
ceu na c o r t e apoz u m m e z de ausência p o r doença.
A sua a c t i v i d a d e t a m b é m a c o m p r o v a m insuspeitos do-
c u m e n t o s diplomáticos. A correspondência f r a n c e z a refere
p o r e x e m p l o que c o r r e n d o , n o decurso das negociações re-
l a t i v a s a Montevidéo, o boato de t e r e m os Hespanhoes i n -
vadido as f r o n t e i r a s de P o r t u g a l , Dom João, apezar de
doente da p e r n a — a erysipela q u e l h e e r a h a b i t u a l — , ao
chegar o b r i g u e de L i s b o a fez-se t r a n s p o r t a r e m cadeirinha
de São Christovão á .beira m a r , p a r a mais depressa receber
os despachos e i n t e r r o g a r o o f f i c i a l de b o r d o sobre as occor-
rencias e novidades no v e l h o Reino. Verdade é que por
causa d'aquelle boato sonhara o R e i , segundo contou a
M a l e r , cousas a f f l i c t i v a s , v e n d o l o r d S t r a n g f o r d de regresso
ao R i o a t r a n s m i t t i r - l h e , desde a p r i m e i r a audiência, commu-
nicações em e x t r e m o desagradáveis.
A sua curiosidade, u m a c u r i o s i d a d e l e g i t i m a de gover-
n a n t e que não descura seus encargos, levava-o a sophismas
cômicos. Q u a n d o o n a v i o corsário Independência, do go-
v e r n o não reconhecido a i n d a de B u e n o s A y r e s , veio ao R i o
de J a n e i r o t r a z e r despachos p a r a o R e i , o g o v e r n a d o r da
f o r t a l e z a de Santa C r u z l h e não p e r m i t t i u a e n t r a d a no
p o r t o pelo f a c t o de t r a z e r hasteado um pavilhão official-
m e n t e desconhecido, e t a m b é m o m o n a r c h a se n e g o u a rece-
ber o c o m m a n d a n t e , ao i r elle a São Christovão f a z e r en-
t r e g a dos papeis de que e r a p o r t a d o r : " mas p a r a satisfazer
DOM JOÃO VI NO BRAZIL 87

sua curiosidade, informa Maler, contentou-se Dom João


com ver o o f f i c i a l e ouvil-o fallar par V e m b r a s u r e d'une
porte ".
Assim conseguia andar sempre m u i t o bem informado
do que ia succedendo nos lugares onde a coroa tinha i n -
teresses. F o i elle o primeiro a communicar a M a l e r que o
conde de A l i s b a l reunia de facto forças em Cadiz para uma
grande expedição sul-americana, quasi certamente dirigida
contra o R i o da Prata, mas que essas tropas eram o que os
Francezes bem exprimiam pela palavra délabrées. A nin-
guém de resto confiava D o m João a tarefa de abrir e ler
os despachos que chegavam endereçados aos vários ministé-
rios, sendo ajudado nos trabalhos do gabinete pela infanta
M a r i a Thereza, a f i l h a mais velha e sua predilecta — talvez
porque não tinha grande certeza da paternidade dos últimos
filhos da Rainha D o n a C a r l o t a — que cedo enviuvou do
infante d'Hespanha. N ã o só conseguia andar excellentemente
informado como exigia sel-o, e no tratar das cousas publicas
animava-se e tomava u m calor que se não compadece com a
sua reputação corrente de indifferença.
Igualmente se não compadece com o seu renome de
avaro, não ha muito reproduzido ( i ) , o facto relatado na
correspondência franceza de haver o R e i mandado pagar do
seu bolsinho, em segredo porém, apparentando terem sido
satisfeitas do inventario do defunto, as despezas do enterro
no mosteiro de São Bento, e as dividas deixadas pelo núncio
Marefoschi, aliás de família abastada, fallecido de uma
apoplexia na noite de 16 para 17 de Setembro de 1820 e
que apenas deixara em caixa 500 francos (8o$ooo).

(1) Artigo do Sr. Mario B e h r i n g — U m dia de D. João VI—no


Eosmos, de Dezembro de 1904.
38 DOM JOÃO VI NO BRAZIL

Um dos indícios do natural vivo, sagaz e magnânimo do


soberano é que, si não l o g r o u cercar-se sempre e exclusiva-
mente da melhor gente, nunca deixando a sua roda de fami-
liares de andar permeiada de indivíduos menos recommenda-
veis, tampouco desdenhou systematicamente o elemento mais
digno. Preferiu-o mesmo na m o r parte dos casos, collocando
quasi invariavelmente gente honesta nos altos postos da
administração e sabendo tão bem elevar u m homem publico
em quem reconhecesse superioridade de vistas ou amor ao
trabalho, como distinguir u m artista no qual atinasse com
talento ou mesmo com aptidão. F o i seu protegido o pintor
José Leandro, uma d'essas vocações coloniaes sem aprendiza-
gem e até ahi sem destino quasi, que tantas vezes o retratou
e em 1817 executou o reputado painel da família real ren-
dendo graças á V i r g e m do Carmo, e ao pardo José Maurício
coube mais de uma vez deleitar com sua inspiração de com-
positor o apurado ouvido real, na Capella e também no Paço,
conforme n u m a tela deliciosa o f i x o u H e n r i q u e B e r n a r d e l l i
com o seu admirável pincel.
P i n t o r e musico eram ambos legítimos productos bra-
zileiros, e não os únicos de valor. Os mosteiros com seus
ocios musculares, suas facilidades para estudo, seus estímulos
de convivência, t i n h a m afagado a inclinação pelas occupa-
ções mentaes, despertada entre uma sociedade com tradi-
ções de c u l t u r a trazidas do meio donde emigrara, logo que
a lucta propriamente physica serenou e entrou a haver tempo
para outras preoccupações mais altas. N ã o se organizavam
somente nos claustros procissões sumptuosas ou caricatas:
discutiam-se planos scíentificos e floresciam lucubrações ar-
tísticas. Os conventos do R i o abrigavam toda uma Aca-
demia.
DOM JOÃO V I NO BRAZIL 89

No dos Carmelitas á Lapa (i) viveram no primeiro


quartel do século X I X , a par de outros monges instruídos,
frei Pedro de Santa Maríanna, mathematico que, mais co-
nhecido sob o seu t i t u l o de bispo de Chrysopolis, f o i depois
o preceptor m u i t o querido de D o m Pedro I I ; f r e i Custodio
Alves Serrão, dado á physica e á chimica, e f r e i Leandro
do Sacramento, botânico de mérito. N o convento franciscano
de Santo Antônio a pleiade de religiosos de valia era m u i t o
mais larga. Abrangeu, de 1809 a 1811, o grande botanista
f r e i José M a r i a n o da Conceição Velloso, com o seu hábil
desenhista frei Francisco Solano, o que i l l u s t r o u a Flora
Fluminensis; e durante muitos annos, além de u m bando
de theologos, médicos, entalhadores, e outros prestimosos
irmãos, trez eloqüentíssimos prégadores — frei Francisco de
S. Carlos, o qual era também musico e poeta, frei Fran-
cisco de Santa T h e r e z a de Jesus Sampaio ( 2 ) e, primus
inter pares, o famoso Mont'Alverne.
A nenhum destes espíritos, desenvolvidos no meio co-
lonial e aos quaes faltara portanto o desafogo do culto am-
biente europeu, se poderia applicar a cáustica e feJiz expres-
são que sobre o conde de Pombeiro, u m dos fidalgos educa-
dos da corte de D o n a M a r i a I , externava D. Rodrigo de
Souza Coutiriho n u m a das suas cartas ao Príncipe Regente:
" Digne-se lembrar-se V. A. R. que o conde de Pombeiro,

(1) .Esta ordem passara em 1811 da rua dos Rarbonos, para onde
t i n h a vindo do Largo do Paço ao chegar a família real e annexar o
seu convento, a ter sua séde na Lapa, perto do mar, tomando conta
de um seminário para ensino de l a t i m , canto-chão, 'exercidos de coro
e pratica de exercidos espiritu-aes de ordenandos, fundado em 1761 por
um sacerdote paulista e que se extinguio por f a l t a dos rendimentos
competentes.
(2) O commerciante francez Gendrin ( ob. cit. ) descreve o père
Samt-Paillo como de grande corpulencla, falLando francez, j o v i a l e
multo respeitado, fazendo-lhe cortejo quatro frades. Chama-o Vhomme
le plus savan-t du Brésil.
90 DOM J O Ã O V I NO BRAZIL

tendo bebido péssimo leite quando estudou na Universidade,


depois não leu senão brochuras, e que sabe ainda menos que
o conde de Villaverde, pois tendo menos talento, de tudo
que leu sem methodo e sem o digerir fez u m chãos na sua
cabeça totalmente incoherente" ( i ) .
Aquelle carinho pelas cousas intellectuaes andava natu-
ralmente limitado a u m circulo de ecclesiasticos e seculares,
e não abrangia por certo o grosso da população livre, entre-
gue a occupações mais positivas, amontoada nas suas casas
pequenas, baixas e feias, desprovidas de commodidades, fal-
tas mesmo de aceio escrupuloso, d'antes até isoladas do movi-
mento exterior de transformação pelas gelosias de madeira,
que só não vedavam o espreitar suspicaz. O Príncipe Re-
gente, por p r u r i d o hygienico e esthetico como pretendem os
louvaminheiros, ou com medo ás emboscadas como querem
os maldizentes, ou simplesmente por espirito de novidade,
mandou logo nos primeiros mezes da sua residência no R i o
de Janeiro substituir por janellas de vidraça essa u l t i m a re-
cordação dos mucharabis árabes. A ordem era singelíssima,
antes uma postura municipal do que uma resolução de ad-
ministração suprema, mas pode dizer-se que por meio d'ella
completou Dom João uma revolução nos costumes nacio-
naes. Com as lufadas do ar a que as rótulas deixaram de
oppor a sua meia resistência varreram-se prejuízos atraza-
dores, abrindo-se de par em par as habitações da nova capi-
tal da monarchia ás innovações nos usos e nas idéas, que a
connexidade com o V e l h o M u n d o ia ínfallivelmente acar-
retando.
N o anno de 1808 vegetava toda a população fluminense
cercada de esplendores naturaes; esmagada por assim dizer

(1) Aroh. Puib. do Rio de Janeiro.


DOM JOÃO VI NO BRAZIL 91

pela g r a n d e z a do s c e n a r i o ; a p i n h a d a n u m a superfície habi-


t a d a m u i t o pequena, que b a l i z a v a m pântanos e m a t t a s i g u a l -
m e n t e hostis; sem passeios freqüentados, t i r a d o aos d o m i n g o s
o do u m b r o s o aqueducto da Carioca; acotovelando um
mundo de escravos, ciganos e m e n d i g o s sórdidos. O s mais
ricos mesmo não t i n h a m distracções que contassem, pois que
estas se c i f r a v a m nas palestras de lojas onde á n o i t i n h a ,
antes da ceia e depois de r e t i r a d a s das p o r t a s esguias as
mercadorias empoeiradas, se j o g a v a com furor o gamão;
e nas reuniões n o t h e a t r o , o v e l h o casarão de M a n o e l L u i z
ao pé do Paço, acanhado, sujo, quente, m a l v e n t i l a d o , pouco
i l l u m i n a d o a azeite p o r u m l u s t r e de m a d e i r a e arandelas
de f o l h a de F l a n d r e s , c o m u m a o r c h e s t r a deficiente e es-
pectaculos de u m r e a l i s m o crú e grosseiro. E r a m r u i n s peças
desempenhadas p o r peores actores, nas quaes e n t r e t a n t o já
se p r e n u n c i a v a m as ousadias da revolução n a c i o n a l pela ex-
hibição á l u z da r i b a l t a de maus caracteres e n t r e o próprio
clero.
Os violinos profanos a l t e r n a v a m os seus sons c o m os
do órgão da v i s i n h a capella do C a r m o , da q u a l f a z i a Dom
João a sua sala de opera f a v o r i t a . N a que passou a denomi-
nar-se então C a p e l l a R e a l , dispoz-se o palco p a r a a e x h i b i -
bição das v i r t u o s i d a d e s dos maestros rivaes, M a r c o s P o r t u -
g a l e padre José Maurício. Estes dous distinctos composi-
tores f o r a m n a t u r a l m e n t e c o n v e r t i d o s nos idolos rivaes das
suas respectivas facções: d a n a c i o n a l o gracioso repentista
f u l o , c u j a admirável organização m u s i c a l l e m b r a a de M o -
z a r t pela abundância da m e l o d i a e pelo senso da h a r m o n i a ;
da estrangeira o sábio e presumido, pomposo e festejado
italianizador d a opera portugueza. Si l h e falhassem estas
distracções de m e l o m a n o , não saberia m u i t o b e m em que em-
02 DOM JOÃO VI NO BRAZIL

pregar suas horas vagas o excellente Príncipe, privado pela


etiqueta de i r , como costumava o vice-rei, ás casas das pessoas
gradas; mettido em mesquinhos palácios entre sete filhos
quasi todos pequenos e todos malcreados, uma velha louca,
uma mulher de péssimo gênio e maneiras vulgarissimas e uma
chusma de fâmulos mexeriqueiros ou tediosos. O seu viver
não era por certo na intimidade uma delicia, apezar de a l -
guns parentes menos chegados, uma t i a bondosa, irmã da
Rainha, uma cunhada devota, discreta e meiga, a viuva do
Príncipe Real D o m José, e u m sobrinho hespanhol, que
falleceu precocemente, o infante D o m Pedro Carlos de
Bourbon, reunirem suas virtudes e affectos para lhe darem
uma illusão das alegrias de família.
N ã o obstante o meio social insipido, já a população
fluminense nada tinha de tristonha, sendo alegre, expan-
siva, excitavel e ruidosa: effeito porventura, entre outras
causas, do clima da cidade, quente e comtudo variável, reve-
zando-se as brizas frescas e leves com as pesadas e suffocan-
tes calmarias de tempestade, e succedendo-se os dias estimu-
lantes, de u m ceu secco, n u m t o m árido de cobalto, aos dias
amollecedores, de extrema humidade condensada em vapores
que se despregam das serras para v i r e m pairar oppressiva-
mente sobre a baixada, em uma l i m i t a d a parte da qual se
encurralava n'aquelle tempo a capital. C l i m a , em resumo, até
o momento assaz saudável, visto que as doenças mais fre-
qüentes no R i o não eram outras senão as communs aos tró-
picos e as derivadas da f a l t a de prophylaxia publica ( a l i m -
peza da cidade estava toda confiada aos u r u b u s ) e pessoal:
febres, ataques biliosos, dysenterias, bexigas, lymphatites,
morphéa e syphilis. Apenas o calor prolongado, quasi cons-
tante, somente i n t e r r o m p i d o durante grande parte do anno
DOM JOÃO VI NO BRAZIL 93

pelas chuvas refrigerantes, fazia o clima extenuante, e isto


mesmo era corrigido por certa elasticidade do ar, graduado
pelas virações marítima e t e r r a l ( i ) .
O citado escriptor inglez, negociante no R i o de Ja-
neiro durante dez annos, de 1808 a 1818, e que no seu l i v r o
nos deixou o quadro mais completo e interessante da capital
americana de D o m João V I , refere-se longamente, com o
espirito de conforto da sua raça, ao passadio da população
no anno da remoção da corte para o B r a z i l . Segundo elle,
das carnes a de vacca era invariavelmente de m á qualidade
por motivo da magreza e cançaço do gado, viajado ou melhor
enxotado de enormes distancias, sem occasião para pastar e
refazer-se; o carneiro pouco abundante e usado quasi que ex-
clusivamente pelos Inglezes, para quem eram os animaes
abatidos com mais limpeza e cuidado do que no matadouro
o f f i c i a l as rezes destinadas á população nacional; a vitella
somente conhecida no Paço, para cujo consumo se immola-
vam novilhos; o porco mais commum e mais apreciado, em-
bora pouco recommendavel pela sua classe inferior. D o ex-
cellente peixe que vive nas águas brazileiras, não eram mui-
tas as variedades que se encontravam frescas no mercado,
custando as melhores alto preço e vindo as demais salgadas.
E m contraposição á caça, que era rara, certamente por falta
de caçadores, abundavam as aves de criação domestica. D e
legumes e frutas — as tropicaes, porquanto o cultivo das
uvas, por exemplo, tinha sido defeso por Portugal, para não
ficar prejudicado o seu melhor negocio — havia considerável
copia. O leite finalmente era tão r u i m quanto a manteiga,
esta toda ella importada.

(1) Luccock, Oib. cit.


94 DOM J O Ã O V I NO BRAZIL

A recriminação n'este ponto é freqüente. J o h n M a w e ,


que a pedido do conde de Linhares se dispuzera a adminis-
t r a r a real fazenda de Santa Cruz, escreve que ao a l l i che-
gar nem café encontrou para beber, apezar de estar n u m a
plantação de café posto que m u i t o m a l tratada, só logrando
conseguir horas depois u m pedaço de carne magra e m a l
cozida, e que na m a n h ã immediata teve que esperar pelo
almoço até 10 horas por se não poder obter u m caneco de
leite, comquanto cobrissem as ricas pastagens sete a oito m i l
cabeças de gado. Escrevendo ao aventureiro Contucci ( i ) ,
a 12 de Setembro de 1810, soltava o secretario i n t i m o da
Princeza D o n a C a r l o t a este symptomatico g r i t o do estô-
mago: " E n esta ocasion, cansado ya de comer m a l , me he
tomado l a livertad de pedir a V. M.A el favor para que se
sirva r e m i t i r m e l o que indica l a a d j u n t a nota, l o que
ni con dinero se halla aqui."
O D r . José Presas não era o único. Os diplomatas
estrangeiros queixavam-se á p o r f i a de ser a vida entre nós
não só destituída de confortos como excessivamente dispen-
diosa, sem que principalmente houvesse correspondência entre
o que gastavam e o que alcançavam. A carestia da vida é
uma preoccupação c o m m u m entre os diplomatas, mas n'este
caso plenamente justificada, assistindo-lhes bastante razão
no considerarem exorbitantes os preços por que t i n h a m de
pagar tudo no R i o de Janeiro. U m a excursão a Santa Cruz,
quinze léguas distante da capital, custava, no calculo de
M a l e r , 400 francos: por isso, não tendo ainda recebido
seus ordenados ao tempo do convite de D o m João para que
fosse passar alguns dias na antiga fazenda dos Jesuítas^ v i -
ra-se compellido a declinar a honra. " N ã o são infelizmente,

(1) Papeis Contu'cci, no Ardi. do Min. das Itel. Ext. do Brazil.


DOM JOÃO VI NO BRAZIL 95

ajuntava elle, os cavallos e as viagens as únicas cousas de


uma carestia inconcebível: tudo é do mesmo geito. N ã o ha
cantinho do universo onde se seja peor alimentado e peor
alojado e por preços tão excessivos."
Por uma casa térrea fóra da cidade pagava o mesmo
encarregado de negócios de França 8oo$ooo por anno, que
eram então 5.000 francos, competindo-lhe as despezas de
custeio e concertos. D'esta própria casa se v i u M a l e r mais
tarde privado por tel-a adquirido a Rainha que a ambicio-
nava para tomar ares. D o n a Carlota, como é sabido, gostava
m u i t o de mudar de ares e n'este i n t u i t o possuía diversas v i -
- vendas nos arrabaldes da cidade. O cônsul queixou-se porém
amargamente ( 1 ) de ter assim que deixar, com suas qua-
t r o irmãs, uma habitação onde effectuara bemfeitorias,
entre ellas u m pomar de arvores tropicaes e arvores da Eu-
ropa, inclusive pecegueiros.
Como a corte empregava grande numero de criados,
tornara-se o serviço doméstico escasso e conseguintemente
caro. U m carro, ou para melhor dizer uma suja traquitana,
custava 26 francos por meio dia e 50 francos pelo dia todo. -
N a d a era barato. N ã o admira que os gêneros importados, e
m u i t o pouco era o que se não importava, fossem dispendiosos,
pois que sobre elles pesavam avultados fretes e grandes d i -
reitos aduaneiros, mas o que mais curioso resulta é que os
artigos .da terra, como o assucar e café, custassem o mesmo
quasi que em Lisboa. A própria agua — inútil é observar
que a não havia canalizada em casa — pagava-se a i franco
o barril.

(1) OíSficio de 2 de Outubro de 1818 no Arch. do Min. dos Neg.


E s t r . de França.
96 DOM JOÃO V I NO B R A Z I L

A introducção de u m novo elemento reinol e de farto


elemento estrangeiro, aquelle mais refinado e este mais pro-
gressivo, f o i gradualmente modificando para melhor as con-
dições de vida no R i o de Janeiro, sem que porém pudessem
ellas jamais ter attingido no tempo de D o m João V I o as-
pecto geral de facilidade, regularidade e grandeza que deve-
ria caracterizar a capital e séde de uma t a l monarchia.
D e onde derivaria comtudo a corte portugueza, para em-
prestar uma outra apparencia á vida até então acanhada e
um tanto tosca da cidade dos vice-reis, uma elegância que
ella própria verdadeiramente não possuía ? Por isso o
viver fluminense não variou tanto quanto se poderia imaginar
com a trasladação da família real, perdendo até em troca
de certa presumpção adiantada que assumiu, uma boa parte
do seu antigo encanto provinciano.
A o tempo de L u i z de Vasconcellos, quando se construio
no sitio mais fresco da cidade u m Passeio Publico no gosto
amaneirado do século, com seus tanques e repuxos, suas py-
ramides de granito com inscripções e suas estatuetas allego-
ricas, as famílias tomaram por costume a l l i se reunirem
ás noites, especialmente de luar. Entoavam-se modinhas e
lundus com o acompanhamento das ondas quebrando-se üc
mansinho contra o paredão do terraço, cujo parapeito eia
guarnecido de vasos de flores, e o divertimento acabava por
alegres comezainas ao relento ( I ) .
A chegada em forte pelotão da f i d a l g u i a do Reino pre-
j u d i c o u semelhante feição despretenciosa da existência social
do R i o de Janeiro, sem substituil-a por nada de m u i t o me-
lhor. A famosa ucharia, ninho da criadagem real estabele-
cido atraz do Paço, derramou pela cidade o f a r t u m das iuas

(1) J. M. de Macedo, Um passeio pela cidade do Rio de Janeiro.


DOM JOÃO VI NO BRAZIL 97

intrigas, imrnoralidades e sizanias, tornando-se a instituição


em certo sentido typica da nova ordem de cousas. D e i x a r a m
quasi de desferir-se nas violas os doces accordes ao ar livre
que cfantes embalavam o somno dos jacarés de mestre Va-
lentim. A s reuniões entraram a ser menos consoantes com o
clima e também menos francas, mais exclusivas, de certo
mais affeetadas. " E u sei que em sua casa (de u m t a l Fra-
goso) ha assembléas ou partidas nocturnas, mas he cousa
sem estrondo, e isto he quasi geral em todas as casas, onde
ha algum par de patacas, por não haverem outros enterte-
nimentos "(i).
A f o r a alguns pormenores de luxo pouco discretos, a
corte brazileira nunca primou pela pompa. Então porém,
accusava no conjuncto maior desleixo, e de principio chegou
mesmo a ser miserável. Longe da Capella Real, onde os dou-
rados e as harmonias lhe lisonjeavam a vista e o ouvido,
Dom João devia forçosamente soffrer no seu brio de sobe-
rano com presenciar essa mesquinhez. Os seus coches dos
primeiros tempos eram ridículos: podiam antes chamar-«e
pobres berlindas. A Princeza Real, mais enérgica e v a r o n i l
que o marido, preferia muito sahir a cavallo a ser sacudida
pelas ruas m a l calçadas e pelas estradas esburacadas n u m a
sege incommoda. O Príncipe, a guiarmo-nos por u m desenho
do n a t u r a l deixado por Henderson ( 2 ) , ensaiou espaire-
cer n u m carrinho aberto que elle próprio guiava, de u m
feitro único, entre o c a r n r d e guerra romano com o anteparo

(1) Carta de ls de Dezembro de 1813, de Luiz Joaquim dos


Santos Marrocos á sua família em Lisboa. Marrocos f o i em-pregado
na Chanicellaria-mor do Reino e, ao que parece, esteve tam/bem ligado
ao serviço da l i v r a r i a regia. A sua correspondência familiar, constante
de 171 cartas, f i g u r a entre os manuscritptos da Rbliotheca do Real
Palácio da A j u d a em Lisflboa.
(2) History of Brazil, London, 18 21. O auctor f o i depois cônsul
geral na Colômbia.
D, J, — 7
98 DOM JOÃO VI NO BRAZIL

para traz e a tina de banho, de que se perdeu o modelo.


As carruagens dos fidalgos d i f f e r i a m m u i t o das que descre-
via Ruders, capellão da legação sueca em Lisboa ( i ) , pu-
xadas por quatro e seis cavallos, com dous e quatro lacaios,
batedores e escudeiro armado de sabre, nas quaes a nobreza
do Reino punha o melhor do seu l u x o espaventoso.
Pelo tempo adiante, com a estabilidade e o a f f l u x o de
forasteiros, attrahidos pela ambição de lugares e ganhos, ou
por mera curiosidade e defastio, é que tudo lucrou, a appa-
rencia geral da cidade assim como a dignidade da corte. A
cidade, suffocada de começo entre mattas, aos poucos as iria
clareando até que, reduzindo-as ás que revestiam os morros,
lhes i n c u m b i r i a a única missão de sombrearem o rutilante
horizonte. O progresso se t r a d u z i r i a por cem formas: por
novas ruas, mais limpeza nas velhas, para onde era costume
inveterado atirar todas as immundicies que as chuvas tropi-
caes se encarregavam de dispersar, edifícios condignos, e
certa garridice de jardins, e flores enfeitando as varandas,
corrigindo as ruins exhalações contra as quaes anteriormente
só o uso do rapé protegia. N ã o só por isto. Desenvolvendo-se
a breve trecho consideravelmente a cidade ( M a l e r registra
que de 1808 a 1818 se construíram no R i o 600 casas e 150
chácaras), crescendo extraordinariamente o movimento do
porto, augmentando correlativamente o commercio da praça,
sobretudo dando mostras de permanecer acampada na Ame-
rica a corte portugueza, entrou o R i o não só a tomar com
rapidez u m notável incremento de c u l t u r a como a exercer
uma acção social sobre toda a colônia. Este effeito centri-
peto de civilização pode ser considerado u m dos mais bené-
ficos resultados da trasladação da séde da monarchia, o qual

(1) Rcisc ãunch Portuyall, Berlin, 1S0S.


DOM JOÃO VI NO BRAZIL 99

ficou mesmo quando com alguma rusticidade dos primeiros


afagos se p e r d e u p a r t e da effusão da h o s p i t a l i d a d e tão b i z a r -
r a m e n t e o f f e r e c i d a á família de Bragança.
No aspecto da c o r t e a alteração f o i p r o n u n c i a d a . A o
passo que n u m dos p r i m e i r o s dias de g r a n d e g a l a passados
no R i o , o a n n i v e r s a r i o da R a i n h a , f o r m a v a m t o d o o c o r t e j o
seis seges abertas puxadas p o r m u l a s e guiadas p o r negros
pouco aceiados, poucos annos depois se v i a m nas occasiões
de beija-mão r o d a r m u i t a s carruagens decentes, a l g u m a s até
esplendidas, atreladas c o m cavallos finos e c o n d u z i d a s p o r
lacaios brancos de libré.

F o i neste m o m e n t o que Spix e M a r t i u s v i r a m a c o r t e


do R i o de J a n e i r o e, ajudados pelo seu o p t i m i s m o de sábios
allemães, d'ella receberam a agradável sensação que t r a d u -
z i r a m em tantas palavras de sympathia. A gente r i c a pre-
occupava-se c o m d a r o t o m , a elegância e n t r o u p a r a a o r d e m
d o dia, e o esmero no t r a j a r e apego ao c e r i m o n i a l c h e g a r a m
ao p o n t o que os empregados da alfândega a n d a v a m no ser-
viço u n i f o r m i z a d o s , empoados, de chapéo armado, f i v e l l a s
e espadim á cinta. Este r i g o r f o r m a l i s t a só se d e n u n c i a v a
fora de casa, pois que n a i n t i m i d a d e nem o permittia o
c l i m a , n e m a g e r a l m o d i c i d a d e dos recursos.
O mesmo empregado publico que n a repartição e r a
visto f a r d a d o e e m p e r t i g a d o ; o u o s o l i c i t a d o r encartado que
de l o n g a e s u r r a d a casaca preta, collete bordado, grandes fi-
vellas de b r i l h a n t e s falsos a p e r t a n d o nos joelhos os calções,
e meias de algodão, se aggregava aos collegas n a esquina das
ruas do O u v i d o r e da Q u i t a n d a , f o r m a n d o diariamente u m
g r u p o c o m p a c t o de gente de l e i , que pelo n u m e r o d a v a que
pensar do espirito chicanista da população; o u o boticário
c u r a n d e i r o que m a n i p u l a v a suas drogas p o r t r a z de u m pre-
100 DOM JOÃO VI NO BRAZIL

tencioso balcão pintado de cores vivas — qualquer d'estes,


até o fidalgo da terra, si procurado em casa, o que não era
uma occurrencia banal, antes u m acto requerendo justifica-
ção, seria encontrado inteiramente á vontade, com a barba
crescida, o cabello despenteado, a camisa com as mangas
arregaçadas e a f r a l d a muitas vezes solta por cima dos cal-
ções, as pernas nuas e tamancos nos pés.
Gozando a fresca onde soprasse a viração, bebendo
agua dos seus moringues postos na corrente de ar, trauteando
modinhas ou lendo o Patriota, elle, o homem que na r u a era
todo cumprimentos e zumbaias, fugia instinctivamente da
sua sala de visitas, na frente da casa, aposento quadrado,
com o tecto e as paredes decoradas de filetes claros, tendo
por única mobília u m oratório com santos do Porto, um
sofá de palhinha e algumas cadeiras, e para o qual dava a
alcova cheia de bahús de sola, mais uma cama e uma com-
moda. A família concentrava-se toda na sala de traz, espé-
cie da que nas casas allemãs chamam BerUnerziramer, onde
t i n h a m lugar as refeições, sobre uma mesa ou no chão, co-
mendo-se com facas ou com a m ã o ; executavam cabriolas
as crianças educadas com caprichos e sem roupas, e se con-
servava todo o dia, de pernas cruzadas sobre uma esteira, a
dona da casa, rodeada das mucamas, costurando, fiando, fa-
zendo renda, armando flores de seda e papel, batendo bolos
gostosos.
Estes hábitos de segregação não excluíam os prazeres
occasionaes da convivência, quando parentes, hospedes e
amigos se sentavam nas casas de tratamento e por motivo
de anniversarios ou de festas religiosas, dos dous lados de
uma lauta mesa servida com porcelanas e crystaes inglezes
e carregada de viandas, vinhos e guloseimas. Costumava rei-
DOM JOÃO VI NO BRAZIL 101

nar durante e apoz taes banquetes, a que de ordinário só


compareciam senhoras casadas, a cordialidade mais franca
e por vezes mais ruidosa, a par de certa falta de apuro nas
maneiras, como os costumes vulgares de limpar a faca na
toalha e de comer com a bocca quasi dentro do prato.
A influencia feminina não era sufficientemente sugges-
tiva sob o ponto de vista social para afinar, como moderna-
mente tem acontecido nos Estados Unidos, aquellas manei-
ras masculinas, que de resto eram idênticas ás do velho
Reino. As nossas mulheres de interior, com seus hábitos t r o -
picaes, de cabeção e sem meias, apezar de espertas, faceiras,
tagarellas, laboriosas e bonitas, já promptas a se emancipa-
rem como tudo mais no Brazil, exerciam poder sobre os sen-
tidos mas não sobre os sentimentos dos maridos em geral,
e tampouco actuavam na sua indifferença pelas cousas da
vida politica sobre o desenvolvimento moral dos seus filhos.
Com os annos a sua própria vivacidade soffria dos effeitos
da reclusão, e o lidar constante com os escravos, relação
caracterizada de um lado pela prepotência e do outro pela
abjecção, embotava-lhes o espirito, do mesmo modo que lhes
embotava as formas esbeltas a falta absoluta de exercício,
pois que a cadeirinha representava a sua quasi única maneira
de locomoção.
Árdua era por tudo a tarefa que em a nova corte se
impunha ao Príncipe Regente e aos seus ministros, isto é,
ao pessoal dirigente de uma nação habituada a receber para
qualquer effeito do alto o santo e a senha, o impulso para as
boas cousas assim como a tolerância para as ruins. N e m o
aspecto exterior, a physionomia da cidade constituía tanto
o que lhes devia trazer cuidado, si bem que alguns viajantes
a qualificassem de uma das mais porcas agglomerações hu-
102 DOM JOÃO VI NO BRAZIL

manas existentes sob o céo e fatalmente destinada a viveiro


de pestes; escrevendo u m (Telles, com singular previsão, que
apezar do ar singularmente puro, o qual havia até então
obstado ao desenvolvimento das epidemias, a febre amarella
batia ás portas e, uma vez entrada, sua devastação seria tre-
menda entre uma população debilitada pelo c l i m a ardente e
pelos prazeres não menos ardentes.
O mais grave, porém, era o lado espiritual, a forçosa
elevação de u m meio onde a ausência do sentimento de res-
peitabilidade cívica tinha determinado uma verdadeira anar-
chia moral. N ã o se dariam talvez mais furtos nem mais
assassinatos do que n'outras capitães, sendo mesmo a falta de
segurança i n d i v i d u a l u m traço social m u i freqüente n'aquel-
les tempos. Porventura occorressem até menos no B r a z i l ,
mas o certo é que a propriedade e a v i d a t i n h a m ahi muito
menos valor. A propriedade estava á mercê do poder publico
e exposta a uma notável f a l t a de probidade nas relações
particulares, ao ponto de opinar Luccock que, salvo raris-
simas excepções, não se podia ter confiança na gente da terra.
A vida andava dependente do t i r o de garrucha do primeiro
assassino alugado por u m i n i m i g o covarde. A policia era
mais do que deficiente, e além d'isso >apathica para o que não
fosse crime político. Os roubos e homicídios contavam tam-
bém com certa indulgência quasi tão criminosa quanto o
próprio crime, porque não era f i l h a da bondade, sim da
indolência e se extendia a todos os vícios, bem patentes por
não saber a hypocrisia dissimulal-os.
A hypocrisia, que os Inglezes denominam a sombra da
virtude, é u m traço pouco peculiar á raça latina, mas no
B r a z i l a sua carência não significava infelizmente franqueza
e rijeza de caracter. Denunciava pelo contrario escassez de
DOM JOÃO VI NO BRAZIL 103

sólidas qualidades, a inconsciencia do mal, a falta de uma


alavanca moral que não fosse a pura superstição religiosa, a
ignorância commum n'uma sociedade que não só não tinha
ainda ao seu alcance os meios de se illustrar, como revelava
geral antipathia ao ensino e limitada sêde de angariar conhe-
cimentos. A s excepções, mesmo numerosas, não invalidam a
regra.
A epocha de D o m João V I estava comtudo destinada a ser
na historia brazileira, pelo que diz respeito á administração,
uma era de muita corrupção e peculato, e quanto aos cos-
tumes privados uma era de muita depravação e frouxidão,
alimentadas pela escravidão e pela ociosidade. Seria preciso
que soprasse o forte vento regenerador da Independência
e dispersasse essas nuvens carrancudas, para se entrever uma
nesga do firmamento azul. Mesmo em reacção ao existente,
o ideal da pureza liberal e democrática se anteporia no con-
ceito da nova geração e seria o responsável pelo desinteresse
e pelo devotamento á causa publica que em larga escala
acompanhariam o nosso movimento emancipador, o qual se
pode concretizar nos Andradas, prototypos de saber, hones-
tidade e espirito progressivo.
Para semelhante resultado contribuiria não pouco a
acção estrangeira, em seu conjuncto altamente benéfica e,
mercê das circumstancias, tão marcada que chega a ser u m
traço predominante e distinctivo d'este período nacional. A o
descreverem a Bahia no curso da sua viagem, observaram
Spix e M a r t i u s ( i ) que entre a gente abastada da terra, da
qual constituíam os senhores de engenho o elemento mais rico
e preponderante, se manifestava grande aversão a continuar a
mandar educar os filhos em Portugal, tanto com receio das

(1) Reise in Brasüien, München, vol II.

v
104 DOM JOÃO VI NO BRAZIL

ruins companhias quanto dos maus costumes. Reconhecia-se,


e os viajantes por sua vez facilmente reconheciam os casos
d este gênero em evidencia, a superior influencia do norte da
Europa, mais efficaz sem comparação não só pelo lado ma-
terial, o do senso do conforto e do gênio pratico, como pelo
lado espiritual, o do desenvolvimento intellectual e sanea-
mento moral. T i n h a aquella aversão também m u i t o de po-
lítica, correspondendo a u m crescente sentimento de autono-
mia, que Spix e M a r t i u s já não achavam igualmente j u s t i -
ficado; nem por isso, porém, repousava menos sobre uma sã
discriminação.
E' mister comtudo notar que a acção estrangeira pos-
suio mais de indirecta que de directa, sendo antes u m effeito
geral dos tempos, da mudança das condições coloniaes, da
propaganda inconsciente do exemplo, do que o resultado do
trato intimo dos dous elementos. D e facto poderiam os Ingle-
zes haver exercido uma influencia mais pronunciada ainda,
si não fosse pela sua sobranceria u m tanto humilhante, pelo
desdém tão seu de se associarem com estrangeiros, os que
consideram sobretudo m u i t o inferiores. Estes de seu lado,
resentindo-se do acolhimento glacial, preferem manter-se á
distancia. E r a m os Francezes reputados mais civis e affaveis:
a recente Revolução com suas tragédias e horrores deter-
minava, no emtanto, com relação a elles, u m sentimento a
u m tempo attrahente e repellente. ( i )
D a t a em todo caso, no B r a z i l , do reinado de Dom
João V I a política liberal para com os estrangeiros, a mais
antiga affirmação da concepção de que o homem é cidadão
do mundo. U m dos primeiros decretos do Príncipe Regente

(1) T o l l e n a r e , Notes Dominicales.


DOM JOÃO V I NO BRAZIL 105

(i) concedia aos estrangeiros que se viessem estabelecer n a


colônia o d i r e i t o a datas de terras p o r sesmaria, n a mesma
f o r m a p o r que e r a m concedidas aos subditos p o r t u g u e z e s ;
o que e r a o m e l h o r meio de c h a m a r braços e energias p a r a
desenvolver a a g r i c u l t u r a estacionaria, a mineração deca-
dente e a i n d u s t r i a em perspectiva, a q u a l t a n t o se q u e r i a
f o m e n t a r que l o g o se i s e n t a r a m de direitos as matérias p r i m a s
que servissem de base a quaesquer m a n u f a c t u r a s ( 2 ) .
Razões múltiplas e s o b r e t u d o a f a l t a de correspondência
e n t r e esse p r o g r a m m a p r o g r e s s i v o e a atmosphera social do
B r a z i l , o b s t a r a m a que a immigração fosse desde o seu i n i c i o
um f a c t o r i m p o r t a n t e do nosso a d i a n t a m e n t o , mas o inques-
tionável é que então se i n a u g u r o u u m a n o v a o r d e m de cou-
sas. Q u e menos do que r e v o l u c i o n a r i a se pode c h a m a r uma
política que i a d o t a r o B r a z i l de todos os órgãos pelos quaes
se exercem n u m a c o m m u n i d a d e as funcções j u d i c i a r i a s , admi-
n i s t r a t i v a s e econômicas taes como tribunaes, j u n t a s , conse-
lhos e bancos, j n s u f f l a n d o - l h e d'este m o d o v i d a independente?
E, t o d a v i a , a revolução seria conservadora, pois que presi-
d i r i a ás r e f o r m a s i n t e n t a d a s pelo t h r o n o u m certo, u m forte
socialismo de Estado, m u i t o parecido c o m o paternalismo,
num t e m p o e n u m meio aliás e m que e r a elle absolutamente
indispensável, mesmo p o r q u e a a c t i v i d a d e i n d i v i d u a l , além
de i n e x p e r i e n t e n o empregar-se isolada e desajudada, tro-
peçava em m i l embaraços creados e l e v a n t a d o s pelo próprio
Governo.

(1) 25 de Novembro de 1808.


(2) Alvará de 28 de Abril' de 1809.
CAPITULO III

0 QUE ERA 0 RESTO DO BRAZIL

Ao tempo da chegada de Dom João VI, era o Rio de Ja-


neiro capital mais no nome do que de facto. A residência da
corte f o i que começou a bem accentuar-lhe a preeminencia,
foi que a consagrou como centro político, intellectual e mun-
dano. N ã o só a população da cidade, a qual, posto escassa,
enchia á cunha sua area limitada e quasi transformava em
colmeias suas vivendas apertadas, cresceu muito, passando de
50.000 almas, que contava em 1808, a mais de no.OOO,
numero attingido em 1817; como formou-se uma classe que
dantes não existia e que é indispensável n u m a sociedade bem
organizada sobre a base hodierna, de burguezes ricos, deri-
vando seus proventos do commercio estrangeiro, o qual
d'antes também não existia, e familiarizando-se cada dia
mais com as idéas e cousas da Europa.
E' m u i t o d i f f i c i l calcular com exactidão a população de
uma cidade como o R i o de Janeiro n u m a epocha em que não
existiam estatísticas. E para prova basta observar as grandes
variantes dos escríptores coevos. Assim, o o f f i c i a l de marinha
inglez Sir G. K e i t h , commandante do brigue de guerra
The Protector, tocando no B r a z i l em 1805, a caminho do
108 DOM JOÃO VI NO BRAZIL

Cabo de Boa Esperança ( i ) , orçou o numero dos brancos em


37.000, o que não differe m u i t o do calculo posterior de Spix
e M a r t i u s , mas avaliou o dos pretos em 629.000, muitos
d'elles libertos. Dir-se-hia que perdera a noção do calculo, ao
debater-se naquelle mar de tinta. Luccock, m u i t o melhor i n -
formado, dá para o tempo depois da chegada da família real o
algarismo de 60.000 habitantes, dos quaes 12.000 escravos,
sem contar uma população de cerca de 16.000 estrangeiros,
população fluctuante, pois que esses eram na maioria de
arribação ou sem domicilio enraizado. O Padre L u i z Gon-
çalves dos Sanctos ( 2 ) avalia, para o mesmo numero de
60.000, mais de metade composta de escravos.
E' de notar que no orçamento do viajante britannico
f i g u r a m não só os adultos dos dous sexos como as crianças,
entre as quaes era grande a mortalidade pela difficuldade da
acclimação e falta de sciencia e cuidado no tratamento das
doenças. O calculo da população escrava differe m u i t o nos
dous auctores citados por u l t i m o , mas o razoável em qual-
quer caso é a d m i t t i r que dous terços do t o t a l dos habitantes
eram formados por gente de cor, l i v r e o u escrava. D e 1808
a 1817 chegaram, segundo Spix e M a r t i u s , nada menos de
24.000 Portuguezes, fazendo portanto subir m u i t o a pro-
porção dos brancos.
Proporção quasi igual deve ser fornecida pelos estran-
geiros, entre elles mechanicos e artesãos inglezes, fundidores
suecos, engenheiros allemães, artistas e manufactores france-
zes. N o anno de 1820, calculava Henderson em 150.000 al-
mas a população do R i o de Janeiro, que outra avaliação mais

(1) A voyage to South A m e r i c a and the Cape of Good Hope,


1/on'don, 1810.
(2) Memórias p a r a s e r v i r á h i s t o r i a do R e i n o do B r a z i l , etc.
Lisboa, 1825, v o l . I .
DOM JOÃO VI NO BRAZIL 109

modesta e menos verídica f i x a v a em 80.000 p a r a o anno de


1821.

Uma cousa estava f o r a de d u v i d a , como já f i c o u no-


t a d o : o convívio c o m os elementos estrangeiros. Seria aliás
impossível que se verificasse t a l p h e n o m e n o de introducção
no systema de gentes de o u t r a s tantas nacionalidades, dando-
se apenas u m a m i s t u r a de sangues n a circulação e não se
a l t e r a n d o c o m a physica a p h y s i o n o m i a m o r a l . E r a antes f o r -
çoso o e f f e i t o e n e m esperou p a r a se f a z e r sentir o appareci-
m e n t o da n o v a geração. D e certo m o d o revelou-se logo, so-
b r e t u d o nas artérias próximas do coração, onde t o d a a seiva
d'essa transfusão a f f l u i a .
O s grandes proprietários ruraes, de S. P a u l o e Minas
especialmente, viram-se n a t u r a l m e n t e a t t r a h i d o s pelo b r i l h o
da c o r t e r e a l e pela seducção das honras, títulos e d i g n i d a -
des de que a l l i se e n c o n t r a v a o m a n a n c i a l : e n t r a r a m p o r t a n t o
a freqüentar esse Versalhes t r o p i c a l sito em São Christovão.
A h i se despiam de alguns preconceitos, a l i j a v a m certas velha-
rias de espirito e p r e s t a v a m ouvidos aos novos Evangelhos.
T a l v e z ao mesmo t e m p o contrahissem vícios. O e f f e i t o da
instituição s e r v i l sobre que se baseava a nossa organização
social, era tão poderoso e p o r f o r m a t a l amollecera a f i b r a
b r a z i l e i r a , e n r i j a d a nas luctas c o n t r a a n a t u r e z a , que, con-
f o r m e o b s e r v a r a m c o m critério Spix e M a r t i u s , m u i t o mais
do que o gosto das artes, sciencias e i n d u s t r i a s , f e z o c o n t a c t o
e u r o p e u desenvolver-se n o R e i n o u l t r a m a r i n o o gosto do con-
f o r t o , do l u x o e dos encantos da v i d a social.
P a r a este gosto de u m a existência mais r e f i n a d a d e v i a m
mesmo acha-se de p r e f e r e n c i a preparados os Brazileiros
por um notável a p u r o de m a n e i r a s em sociedade, apuro
c u l t i v a d o nos lazeres da v i d a c o l o n i a l , de h o r i z o n t e s estreitos
110 DOM JOÃO VI NO BRAZIL

mas de formalismos educadores a meio da sua maior despre-


tenção. Verdade é que o R e i e seu governo se não poupa-
r a m esforços para dotar a nova sede da monarchia do lus-
tre de que ella ainda tanto carecia, e si mais completo êxito
não obtiveram seus tentames, deve a culpa ser attribuida
sem hesitação ás condições do meio sobre o qual, apezar das
excepções e restricções apontadas, pesavam a tornal-o algum
tanto refractario, o atrazo e o obscurantismo que se não lo-
gram sacudir em poucos annos.
Podia, por exemplo, no anno de 1817 u m presbytero
como Ayres do Casal, espirito educado na colônia mesmo,
publicar uma obra tão valiosa como a sua Corographia, cuja
utilidade ainda se não desvaneceu e representa o fundamento
estimavel dos nossos ensaios d'esta sciencia: tão importante
era a obra que Henderson nada mais fez do que traduzil-a,
posto que sem accusar o plagio, ao editar o seu denominado
trabalho histórico. Como poderia, porém, o geral da popula-
ção fluminense secundar ou mesmo dar o devido valor aos
serviços da colônia de artistas de mérito e reputação que o
conde da Barca mandou contractar em P a r i z pelo marquez
de M a r i a l v a para fundarem a Academia do Rio, e incutirem
e derramarem o gosto das bellas-artes na expressão mais
acabada a que t i n h a m ellas chegado na pátria de D a v i d e de
Géricault ? E m 1816, anno em que chegaram Lebreton,
Debret e os outros, ainda percorriam indios nômadas o dis-
t r i c t o de Campos, e na própria bahia do R i o estava instal-
lada a missão de S. Lourenço.
Q u e dizer das extensões enormes sobre que imperava
o sceptro portuguez c u j a projecção para os lados do Occidente
só na formidável cordilheira andina parecia q u e r e i esbarrar,
DOM JOÃO V I NO BRAZIL 111

em sua marcha avassaladora de regiões ferazes e bravias ? A o


abrir-se officialmente ao mundo, em 1808, achava-se o Bra-
z i l em grande parte percorrido, pode mesmo dizer-se até
certo ponto explorado, mas quasi nada estudado. Os bandei-
rantes paulistas queriam arrecadar índios e ouro: não se
interessavam pela zoologia nem pela botânica, mais do que
pela caça que podiam comer e pelas hervas que os podiam
curar. Explorações de caracter scientifico não as havia syste-
maticamente organizadas. U m Alexandre Rodrigues Fer-
reira era u m f r u t o raro da própria iniciativa, não tanto da
iniciativa official. A colônia foi portanto para os sábios euro-
peus u m verdadeiro mundus novas, que elles se commette-
r a m a investigar.
A s communicações da capital com as capitanias visi-
nhas pela via terrestre eram relativamente difficeis e irregu-
lares, apezar de existirem caminhos soffriveis para São Paulo
e para M i n a s e dos sertanejos, inclusive os de Goyaz, se não
incommodarem com as viagens as mais prolongadas, de
muitos mezes de duração, feitas para venderem seus produ-
ctos e realizarem suas compras. Essas communicações eram
todas executadas por tropas de mulas e, fora do estreito
campo mercantil em que laboravam, os habitantes do inte-
rior pouca ou nenhuma curiosidade experimentavam sobre
o que occorria á beira-mar, segregados por completo, em
corpo e espirito, de u m mundo que estava caminhando a pas-
sos tão largos para melhor destino. Conta Luccock que na
sua viagem a M i n a s encontrou dous mercadores de Cuyabá,
os quaes lhe confessaram que até bem pouco, (provavelmente
até a chegada da família real e abertura do B r a z i l aos estran-
geiros) se não tinha ouvido f a l i a r no seu canto de mundo
de guerras européas, suppondo elles que somente existiam
112 DOM JOÃO V I NO B R A Z I L

dous povos—Hespanhoes e Portuguezes, sendo tudo mais


gentio.
T u d o no B r a z i l , considerado na sua generalidade, se
encontrava falho, r u d i m e n t a r e indeciso, e a ignorância vul-
gar apenas se modificaria no tocante aos indivíduos de certa
classe, dando a situação dos demais nos nossos dias uma justa
idéa da que seria n^quelles tempos.
Os limites mesmo do paiz eram m u i t o incertos, conti-
nuando em plena actividade a expansão portugueza, sobre-
tudo para o Sul e Sudoeste, no f i t o de assenhorear-se dos
ricos terrenos de alluvião da margem direita do Paraguay e
Paraná e das duas margens do U r u g u a y , e ficar com toda a
região a leste do estuário do P r a t a e com tão excellente
fronteira. A população hespanhola da Banda O r i e n t a l diffe-
ria pouco no aspecto da população gaúcha do R i o Grande: os
mesmos homens musculosos e trefegos, montados em ligeiros
cavallos e mettidos em amplos ponchos. N ã o lhe era, porém,
affeiçoada. A velha antipathia de raça fallava sempre alto
nessas terras onduladas e bem regadas, com bellas mattas e
muitos campos, onde crescia algum trigo, pastava m u i t o gado
e se levantavam poucas cidades, sendo n'ellas mais freqüentes
as casas de taipa que as de t i j o l o , e mais numerosas as im-
mensas estâncias, com raras habitações isoladas, do que os
aldeamentos.
Para os Portuguezes a antiga Colônia do Sacramento
cujo f u t u r o t i n h a por garantias seguras o c l i m a e a f e r t i l i -
dade, e que D o m João V I ia de novo incorporar na monarchia
brazileira, valera sobretudo como u m admirável ponto de
contrabando para as possessões hespanholas, no qual se t i -
nham chegado a empregar mais de 30 navios. Mercadorias
na Importância de milhão e meio de piastras desciam assim
DOM JOÃO VI NO BKAZIL 113

até Buenos Ayres e iam até o Chile e Peru (1), envez dos ao

jgeneros-legalmente importados da Hespanha. C o m a entrega


da Colônia ao governo de M a d r i d e o simultâneo povoa-
m e n t o da capitania intermedia do R i o G r a n d e , o antigo
c o n t r a b a n d o marítimo tornou-se em boa parte terrestre,
fazendo-se pela l i n h a da f r o n t e i r a em l u g a r de simplesmente
atravessar o estuário, e não cessando d'este modo aquelle l u -
•cro portuguez, que mais tarde passou a brazileiro.
A cidade do R i o G r a n d e era o mercado e praça de
g u e r r a do B r a z i l m e r i d i o n a l , apezar da barra perigosissima
e do deserto de areia que a separava da costa. C o n t a v a em
1809 quinhentas casas e cerca de 2.000 habitantes, e do seu
p o r t o sahiram em 1808 cento e cincoenta navios mercantes,
quasi todos brigues de 100 a 2 0 0 toneladas de carga, metade
e m direcção ao R i o de Janeiro (2). N o aspecto todas as cida-
<les da costa b r a s i l e i r a se pareciam, d i f f e r i n d o o espectaculo
offerecido ao v i a j a n t e na sua respectiva situação topographica.
O scenario v a r i a v a segundo a disposição dos mesmos bastido-
res: singelas egrejas brancas de p o r t a l verde e u m par de
modestas torres quadradas, raros edifícios leigos dignos de
n o t a e u n i f o r m e m e n t e despidos de estylo, residências de can-
t a r i a e de taipa lado a lado, u m ou mais fortes de alvenaria
c o m a patina do tempo, de ordinário já pouco efficientes e
ás vezes de todo inoffensivos, apparentando comtudo prote-
ger os habitantes confiados á sua guarda.
A condição m i l i t a r da capitania era superior á da ca-
p i t a l . Pelo menos a impressão que se desprendia quanto á
segurança das f r o n t e i r a s surgia mais t r a n q u i l l i z a d o r a do que
.a offerecida pelas defezas do R i o de Janeiro contra a even-

(1) K e i t h , ob. c i t .
(2) Luccock, ob. cit.
114 DOM JOÃO VI NO BRAZIL

t u a l i d a d e d e q u a l q u e r invasão. C o n s t a v a a guarnição do Rio*


G r a n d e de dous r e g i m e n t o s de l i n h a , sendo u m de S. P a u l o ,
ao todo 7 0 0 homens que se detestavam c o r d i a l m e n t e , de
accordo c o m o seu b a i r r i s m o ; a l g u m a a r t i l h e r i a l i g e i r a ; um
r e g i m e n t o de milícias e u m c o r p o de c a v a l l a r i a , r e c r u t a d o s
ambos nas estâncias, nos quaes s e r v i a m sem excepção todos
ps gaúchos v a l i d o s c o m os seus laços e bolas, que lhes eram.
mais úteis do que os mosquetes, m o b i l i z a n d o - s e esta t r o p a
de segunda l i n h a c o m a m á x i m a presteza e o f f e r e c e n d o ao
i n i m i g o a resistência do n u m e r o e do v a l o r . O b a t a l h a r con-
stante d'essa secção do p a i z t i n h a a g u e r r i d o o e s p i r i t o da po-
pulação, t o r n a d o enérgica a administração e até destra a
policia, t a n t o mais necessária q u a n t o a e x h u b e r a n c i a dos-
t e m p e r a m e n t o s apaixonados fazia freqüentes os homicídios
p o r disputas e ciúmes.
M e r c ê do c l i m a europeu, a immigração p o r t u g u e z a a h i
a u g m e n t a v a expontânea e g r a d u a l m e n t e e, d e v i d o ao estado
ultimamente anarchizado do R i o da P r a t a , assenhoreado
pelos I n g l e z e s e onde i a m p r i n c i p i a r longas e tremendas
dissensões políticas, crescia o b e m estar da província c o r r e l a -
tivamente com o desenvolvimento do seu c o m m e r c i o , q u e r
marítimo c o m o u t r o s p o r t o s do l i t t o r a l , q u e r t e r r e s t r e atra-
vez das f r o n t e i r a s . Segundo o d e p o i m e n t o de L u c c o c k , a
v i d a n o R i o G r a n d e n a d a t i n h a de desagradável ao t e m p o
d'El-Rei D o m João V I . A convivência parecia mesmo m a i s
f r a n c a do que no R i o , mais disposta a gente a d i v e r t i r - s e ;
do que r e s u l t a v a ser n'essa, c o m o n W t r a s capitanias, a ani-
m a ç ã o social s u p e r i o r á da c a p i t a l .
Em casa do vigário — u m excellente t y p o dos nossos pa-
dres de então, padres ardentes, tropicaes, c o m m u i t o a d i a n t a -
m e n t o nas idéas, m u i t a b o n d a d e n o coração e m u i t a frou-
DOM JOÃO V I NO BRAZIL 115

xidão na moral— davam-se partidas de jogo e dança, a que


concorriam cavalheiros de peitilhos bordados, casacas de ala-
mares e botões de prata, colletes de chita e calças de algo-
dão branco, e senhoras de sapatinhos de cor, mantilha hes-
panhola e enfeites de flores e pyrilampos nos cabellos es-
curos. Eram estas senhoras no geral bonitas, bem conver-
sadas, gosando de mais liberdade e tendo por isto mesmo mais
desembaraço, mais sentimento de responsabilidade e mais
instincto de sociabilidade do que as suas patrícias fluminenses.
A alegria d'ellas dava-se sobretudo largas no 'entrudo,
quando escolhiam para alvo das limas de cheiro os próprios
graves Inglezes do commercio, que corriam a refugiar-se
fora dos seus ataques desapiedados.
Pela planície fácil e pelos suaves outeiros acampava
a sociedade pastoril que ainda hoje predomina: gaúchos ex-
pansivos, de vozes estridentes, fallando muito, gesticulando
muito, sobre cujos hombros esvoaçavam ponchos enfeitados,
e em cujas casas de madeira e barro alternavam rudes ins-
trumentos de lavoura com os arreios de couro cru dos ca-
vallos de montaria e dos bois que, em juntas de seis e oito,
puxavam os duros carros de modelo portuguez.
O couro cru, denunciando a industria capital da cria-
ção de gado, servia, molle, de assento nos bancos muito bai-
xinhos e largos; inteiro, de colchão nas camas; retezado
sobre pausinhos, de reposteiro ou guarda-vento nas portas
das pousadas; recortado, de manta nos dorsos dos animaes
que transportavam os compradores do sertão e de além
da fronteira. Podemos figurar-nos esses mestiços de euro-
peu e indio, vestidos uns de briche, faixa de cor, chapéu
conico de feltro ou de palha, faca á cinta, bolsa com petre-
chos de fumador sobre o hombro, e, no calcanhar a espora
116 DOM JOÃO V I NO B R A Z I L

atada por uma t i r a de couro; outros de jaquetão azul com


moedas de prata a guisa de botões, collete de couro e botas
molles; outros ainda de lenço ao pescoço, suspensorios sobre
a camisa e a ponta do pé descançando no estribo de chifre.
Viajavam assim léguas e léguas sem f i m , atravez de
uma região despovoada, pois que povoada se não podia cha-
mar uma terra onde eram tão raros, tão disseminados e tão
insignificantes os núcleos de população. Só quando se ap-
proximavam do l i t t o r a l occupado e os olhos dos cavalleiros
passavam, de descançar na grama verde, a f i t a r a clara
areia movediça das dunas, é que as caravanas entravam a
deparar com maiores agglomerações de seres humanos, que
as recebiam hospitaleiramente. Envolvia-as então uma pai-
zagem de prados onde pastavam, ao lado de alguns reba-
nhos de carneiros, enormes manadas de bois que se subju-
gavam a laço com pasmosa destreza; de pomares e hortas
com pecegueiros e legumes da Europa, devastados porém
pelas formigas e gafanhotos; de campos onde c o r r i a m po-
tros que se domavam fazendo-os arrastar u m couro crú, a
u m tempo os familiarizando com ruidos estranhos, obrigando
a u m passo regular e certo e acostumando a precaverem-se
contra difficuldades na marcha, no i n t u i t o de tornal-os ani-
mais dóceis e seguros.
Até ahi os animaes avistados teriam sido perdizes,
veados assustadiços que também se caçavam a bola, onças,
cotias, pacas, coelhos e lebres, emas de passo altaneiro e
veloz, tamanduás, javalis seguidos das crias, patos e outras
aves aquáticas das muitas lagoas, chegando por u l t i m o aos
urubus adejando sobre a fressura do gado m o r t o para fabrico
do xarque, em proporção tal que u m único fazendeiro abateu
num anno 54.000 rezes.
DOM JOÃO V I NO B R A Z I L 117

A o u t r a cidade i m p o r t a n t e da c a p i t a n i a e sua c a p i t a l
f i c a v a , e d i f i c a d a em declive, ao n o r t e da l a g o a dos Patos,
25 m i l h a s a c i m a da f o z do J a c u h y . A p e z a r de d a t a r de
pouco tempo, como de resto t o d a a capitania, f u n d a d a para
encher o c l a r o e n t r e L a g u n a e a Colônia do Sacramento,
P o r t o A l e g r e começava a prosperar como c e n t r o m e r c a n t i l .
E n t r e t a n t o a região s e p t e n t r i o n a l s e r v i d a p o r e l l a achava-se
ainda, e m g r a n d e p a r t e do i n t e r i o r , nas terras mais elevadas
do p l a n a l t o que n'esse p o n t o e n t r a a descer para o s u l mas
sem pressa de chegar ao m a r , d o m i n a d a pelos Carijós. Exe-
c u t a v a m estes índios correrias ferozes, c o n t r a as quaes e r a m
as pequenas colônias estabelecidas defendidas por fortins
e estações m i l i t a r e s . A g u e r r a de retaliação mostrava-se
implacável, usando os brancos do laço, das armas de f o g o
e dos cães de f i l a .
D e São P e d r o do S u l passava-se para o l a d o do n o r t e
a Santa C a t h a r i n a , p o r m a r , c o r r e n d o occasionalmente o
risco dos pampeiros, o u mesmo p o r t e r r a . D a segunda ma-
n e i r a p o d i a effectuar-se a viagem, p o r t r a j e c t o conhecido, em
quatro dias, c o m cavallos bastantes para esfalfar quatro
e cinco p o r d i a , t r o t a n d o uns soltos, sem carga, assim se r e -
fazendo emquanto os o u t r o s t r a n s p o r t a v a m o passageiro
e a bagagem. D e L a g u n a p a r a a p a r t e do c o l i t i n e n t e f r o n -
teira á ilha torna-se o c a m i n h o nemoroso e m o n t a n h o s o ,
apresentando p r e n u n c i o s da g r a n d e c o r d i l h e i r a m a r g i n a l , e
c r u z a u m a região a b u n d a n t e em índios e animaes selvagens.
M a i s p a r a o n o r t e , ao approximar-se de São Francisco, o
t e r r e n o faz-se mesmo h u m i d o e pantanoso.
O s índios o c c u p a v a m sem d i s p u t a os montes, e o l i t t o -
r a l a n d a v a resguardado d'elles p o r m e i o de pequenos reductos
m i l i t a r e s á distancia de 7 a 2 0 m i l h a s da costa. N ã o con-
118 DOM JOÃO VI NO BRAZIL

tava Santa Catharina, pouco depois da chegada do Prín-


cipe Regente, mais do que 3.000 habitantes distribuídos por
uma v i l l a e sete aldeias, e a vida resentia-se &a maior falta
de conforto, não obstante o clima delicioso, as flores abun-
dantes e formosíssimas e a extrema fertilidade do solo, o
q u a l já produzia cereaes, legumes, mandioca, tangerinas,
assucar, café, linho e nos alagados arroz, ao mesmo tempo
que se cortava m u i t a madeira das suas mattas frondosas e
se apanhava m u i t o peixe nas suas águas vivas.
D i z comtudo J o h n M a w e , que esteve em Santa Ca-
tharina em Setembro de 1807, que a apparencia geral da
v i l l a e as maneiras dos habitantes apresentavam uma deci-
dida (striking) superioridade sobre as terras platinas donde
elle chegava. O commercio na verdade era quasi nullo,
mesmo porque a producção local m u i t o pouco excedia o con-
sumo, mas o Desterro era em todo caso ponto freqüente de
escala e aguada para as embarcações que do norte se d i r i -
giam para Montevideo e Buenos Ayres. A h i se encontra-
vam sempre artífices para qualquer reparo e abastecimento
para qualquer urgência, de provisões alimentícias bem se
entende, pois que a producção i n d u s t r i a l se c i f r a v a nas li-
nhas e redes para as extensas pescarias que abrangiam a das
baleias e constituíam a principal occupação dos hospitaleiros
habitantes da ilha, e n u m a s jarras para agua e utensílios
culinários de barro vermelho, que se exportavam para o Rio
de Janeiro e para o R i o da Prata.
M a w e dá para a ilha e dependências o algarismo de
30.000 habitantes, o que é uma prova mais do quanto podem
variar esses cálculos a esmo feitos sem as indispensáveis es-
tatísticas. Este auctor é aliás propenso a augmentar, pois
aue orça a população do R i o n'essa epocha em 100.000 a l -

1
DOM JOÃO V I NO B R A Z I L 119

-mas. Graças á escassez d a gente e á quasi n u l l i d a d e do t r a -


fico, possuía a p r o p r i e d a d e m u i d i m i n u t o v a l o r , offere-
cendo-se p o r m i l cruzados ( 1 2 5 libras esterlinas) u m a casa
de campo c o m j a r d i m e plantações bem tratadas, e podendo
a d q u i r i r - s e p o r cem dollares u m a habitação decente c o m roça e
p o m a r não l o n g e da v i l l a , onde os preços e r a m de resto cor-
respondentes.

Pode dizer-se que p a r a as bandas do s u l a c a p i t a n i a do


Rio de J a n e i r o t r a j a v a as vestes da v i u v e z depois da ex-
pulsão dos Jesuítas, antigos proprietários da e n o r m e fazenda
de Santa C r u z , como t a m b é m o t i n h a m sido do E n g e n h o
N o v o , nas immediações da c a p i t a l . A f a z e n d a estava agora
occupada pela coroa, decahida porém da sua p r i m i t i v a pros-
p e r i d a d e que d'antes se d e n u n c i a v a pela f a r t u r a da pro-
ducção agrícola, assim c o m o se r e v e l a v a a i n d u s t r i a dos pos-
suidores pelos canaes abertos e n t r e os rios navegáveis, per-
m i t t i n d o t r a n s p o r t a r e m canoas até o m a r as mercadorias
a e x p o r t a r . Referindo-se a semelhante propósito ao poder e
esplendor da O r d e m e á sua admirável organização política,
escrevia Luccock, protestante dos mais intransigentes e
cheios de preconceitos, que " f a l l a n d o g e r a l e desapaixonada-
mente, é l i c i t o a f f i r m a r ser o b r a d a C o m p a n h i a de Jesus
tudo quanto no B r a z i l se encontrasse b e m engenhado e
executado, h a v e n d o a prosperidade e f e l i c i d a d e c o m m u m de-
c l i n a d o desde a sua dispersão."
Mawe f o r n e c e interessantes p o r m e n o r e s sobre o g r a u
de abandono da f a z e n d a de Santa C r u z depois de passar para
a administração regia, chegando — esta informação é de L u c -
cock — o desleixo ao p o n t o de se t o r n a r preciso fazerem-se
requisições aos m o r a d o r e s da visinhança, l a v r a d o r e s labo-
riosos e affaveis que de b o m g r a d o e m p r e s t a v a m ao R e i , mas
120 DOM JOÃO VI NO BRAZIL

não eram por via de regra indemnizados pelos seus serven-


tuários e feitores. Si desapparecera a abundância promovida
pelo trabalho, conservava-se a terra bonita: montanhosa
nalguns pontos, n'outros dotada de várzeas férteis, banha-
das por muitos cursos d á g u a e cobertas de grama virente.
A caça pullulava sob a forma de pacas, pombos, veados e
outras numerosas espécies, e pássaros da mais brilhante plu-
magem contrastavam com as habitações miseráveis da gente,.
como si a natureza se risse do homem.
Resentia-se este trecho de território fluminense da
falta de communicações com o centro, em que o tinham dei-
xado cahir, não lhe aproveitando para esse f i m o poderoso
Parahyba, cuja corrente rápida por entre margens abruptas
se dirige para sudoeste e depois para nordeste, recebendo'
numerosos tributários. Ainda assim a producção abrangia.
café, anil e assucar. Este constituía igualmente o principal
producto das várzeas não menos entremeadas de montanhas
que se extendem para oeste da capital na direcção da serra-
dos Órgãos. Das menos afastadas vinhão para a cidade o
leite para consumo dos habitantes e o capim para o. gado; das
mais distantes sahiam outrosim café, arroz, milho, mandioca,
lenha e carvão de madeira.
Carros de bois ou de mulas, canoas ou tão simples-
mente negros carregadores transportavam esses artigos cul-
tivados em propriedades de fácil rendimento, cujos donos
concentravam as safras dos moradores semi-nomadas e sobre-
tudo dos lavradores mais sedentários, dividindo-se os lucros
conforme o accordo prévio. Era geral tornarem-se depressa.
proprietários os lavradores, que andavam muito protegidos
pela lei, a qual obrigava os senhores a pagarem as bemfei-
torias, salvando assim os rendeiros de vexames e espoliações-

j
DOM JOÃO VI NO BRAZIL 121

A propriedade tinha portanto ahi, ás vistas dos vice-reis, to-


mado um caracter menos aristocrático e menos feudal. E n t r e
•os senhores, para quem no dizer dos viajantes estrangeiros a
moda não era de todo uma desconhecida e a limpeza che-
gava a ser familiar, existia a convivência facultada pelas
promptas communicações. Trocavam-se freqüentes visitas de
uns para outros engenhos, apezar das rivalidades e invejas
tão costumeiras entre visinhos ruraes e ahi alimentadas, mais
do que pela solidão, pelo clima doentio, que tornava os indi-
víduos biliosos e írritaveis.
Para leste e norte, onde predominava o solo de argilla
vermelha, variava a configuração da capitania entre baixa-
das, serros e lagoas, encerrando districtos povoados, com
culturas e pastagens, e trechos inteiramente silvestres, nos
quaes apenas floresciam macacos, papagaios e arapongas. O
districto de Campos, no delta do Parahyba, raso e quente,
era e continua a ser a melhor várzea d'essa latitude para o
cultivo da canna de assucar, n'ella existindo em 1801, se-
gundo a estatística do padre Ayres do Casal, 280 engenhos.
A esse tempo não faziam mais do que começar na capitania
as plantações de café, substituindo com sua folhagem l u -
zente a folhagem escura das velhas mattas.
O porto do interior para o norte e bem assim das capi-
tanias de M i n a s Geraes, Goyaz e M a t t o Grosso para o R i o
de Janeiro e vice-versa d'esta cidade para aquellas regiões,
era o da Estrella, no fundo da enorme bahia onde desa-
guam numerosos rios. Aos poucos annos de residência
da corte no B r a z i l e connexo desafogo do paiz, tornou-se
ahi devéras considerável o movimento, todo local, de sa-
veiros, canoas e balsas, empregadas em pescarias, trazendo
provisões para o mercado do Rio, combustível e madeiras de
122 DOM JOÃO VI NO BRAZIL

construcção, e levando os carregamentos destinados ao ser-


t ã o . O seu conjuncto emprestava a necessária animação a
essa soberba paizagem de águas verdes e irrequietas, roche-
dos, massas graniticas, mangues, mattas frondosas e, no
ultimo plano, verdejantes montanhas de grande elevação,
freqüentemente envoltas em grossas nuvens.
N ã o é de espantar que fosse o porto da Estrella desti-
nado a um lugar cheio de animação e bulicio, como ficou,
quando ás vezes 500 mulas, divididas por lotes de 7, com um
tocador para cada lote e um arrieiro para cada tropa, esta-
vam em linha para receberem nas cangalhas os fardos. O
movimento era todo de carga e descarga, pois que a villa em
si nunca passou de uma longa rua de casebres.
O caminho de Minas cortava a serra onde fica actual-
mente Petropolis, tendo as tropas de galgar vagarosa e pe-
nosamente a subida que a via férrea hoje facilita. Eram
aliás as minas que tinham tido o effeito de tornar explorado
o interior do Brazil, estabelecendo communicações terrestres
até M a t t o Grosso. Si se não internassem as bandeiras á
busca do ouro e também á caça do indio, o enorme littoral
brazileiro bastaria para uma mais fácil fixação e mais rápida
lavoura dos immigrantes do Reino. Mesmo depois de aberto
e até certo ponto povoado o sertão, as communicações f l u -
viaes se usaram todavia de preferencia, sendo no extremo
d i f f i c i l manter em condição de transito estradas ou melhor
atalhos de tamanha extensão, desdobrando-se sobre montes,
por valles e atravez de florestas. As mercadorias de expor-
tação desciam geralmente por agua até os portos de desem-
barque, e as propriedades ruraes só tinham até valor quando
situadas perto dos rios navegáveis, ou então quando en-
cerravam em seu sub-solo mineraes, quer dizer, ouro.
DOM JOÃO VI NO BRAZIL 123

As estradas para São Paulo e M i n a s eram no emtanto


t a s t a n t e freqüentadas graças ao progresso das duas capita-
nias, achando-se em ambas desbravadas e relativamente habi-
tadas as zonas marginaes, aquém das vastas solidões onde
erravam hordas numerosas do gentio. N a estrada de M i n a s
cruzavam-se as caravanas a miúdo, havendo dias, refere
Luccock, de passarem 400 mulas carregadas. D e quando em
vez encontrava-se o correio d'El-Rei sòb a f i g u r a de u m
negro de chapéu armado e jaquetão azul com gola encarnada,
para maior presteza transitando a pé e levando ás costas
u m sacco com a correspondência. T a l era o respeito pelos
serviços officiaes e t a l a segurança individual, que ninguém
o assaltava para desencaiminhar valores. Já se conheciam
comtudo as cartas registradas com o fito de assegurar melhor
a entrega, que era muito mais demorada do que descurada,
i n d o cada u m reclamar suas cartas de accordo com a lista
a f f i x a d a na porta da repartição, onde era cobrado o porte.
Como paizagem é o caminho variadissimo: a própria
f l o r a varia com a zona atravessada. Perto do mar, nos bre-
jos, é ella tão particular como depois apparece a alpina, e
mesmo cada u m dos grandes rios possue, no dizer de Spix
e M a r t i u s , sua f l o r a especial que lhe acompanha o curso
<e o distingue, fornecendo a cada região a tonalidade das suas
formas vegetaes peculiares.
A variedade da viagem mais lhe encarecia o encanto. O
percurso é uniformemente bonito, todo elle accidentado, com
uma riqueza animal e florestal de deleitar os naturalistas,
€ golpes de vista esplendidos de deleitar qualquer viajante,
sobretudo na travessia do r i o Parahyba, rolando com impe-
tuos>idade sobre u m leito de pedra as suas águas barrentas, e
na gradual subida da serra da M a n t i q u e i r a , desdobrando
124 DOM JOÃO VI NO BRAZIL

fidalgamente os seus maravilhosos taboleiros verdes. Spix:


e Martius deixaram entre as suas impressões, cuja consciên-
cia não é prejudicada pela fantasia antes posta em realce
pela sinceridade, a mais suggestiva descripção de uma f l o -
resta virgem, d'essas que se encontram de preferencia nx
zona do littoral, onde se exhibe pasmosa a pujança da vege-
tação e a vida pulsa até sobre os gigantes vegetaes cahidos e
mortos.
Os dous illustres naturalistas como que evocaram gra-
phicamente diante do leitor curioso dos princípios d ) sé-
culo X I X , cujas sensações de paizagem não estavam ainda
gastas, os jacarandás de folhas leves, o ipê de folhas doura-
das, o pau d'alho de casca aromatica, a araucária de gra-
ciosos contornos, as palmeiras de folhas farfalhantes e a>
parasitas "cem as quaes as velhas arvores se arrebicam como-
novas." Fizeram-no não só ouvir todos os ruidos da matta,,
das primeiras ás ultimas horas — os gritos dos macacos e da
preguiça, o ccaxar das rãs, o chiar estridente das cigarras, o
zumbido das vespas, o doce bater de azas dos beija-flores —
como ver as cores brilhantes das borboletas e dos bezouros >

o frio mozaico da pelle dos lagartos e das cobras, as sombras.


medrozas dos veados e das pacas.
De par com as bellezas naturaes, não deixam Spix e
Martius, infatigaveis como foram, de salientar os incom-
modos e difficuldades das excursões de outr'ora, n u m meio
pouco conhecido e r^um clima hostil ao menos pela novidade.
As caravanas descançavam nos ranchos ou telheiros, abertos
aos quatro ventos ou cem dous muros em angulo recto.
Como transportavam nas cangalhas das mulas tudo de
quanto careciam, achando-se o trabalho perfeitamente divi-
dido entre os tropeiros, estavam dispensadas de supprirem-se
DOM JOÃO VI NO BRAZIL 125

nas modestas vendas annexas aos ranchos e, nas m e l h o r guar-


necidas das quaes, se e n c o n t r a v a m a l g u m a s g a r r a f a s de r u i m
vinho do R e i n o e peor c e r v e j a i n g l e z a , q u e i j o da terra,
xosca secca, beijús, t o u c i n h o , latas de m a r m e l a d a de M i n a s ,
f u m o , aguardente, alguns covados de f a z e n d a de lã o u a l -
godão, raras peças de cambraia, meias de algodão, f i t a e
c a i x a s de rape.

A h o s p i t a l i d a d e dos fazendeiros e m o r a d o r e s era to-


d a v i a sem excepção quasi. F a z i a esta sociedade g a l a de pre-
dicados amáveis, c o m m u n s ás sociedades p r i m i t i v a s : o aga-
salho desinteressado, o sentimento de h o n r a no acolhimento
<e defeza do hospede, o escrúpulo n a g u a r d a e restituição de
qualquer objecto confiado em deposito. A confiança res-
p o n d i a á confiança nas relações de indivíduo p a r a indivíduo,
n ã o nas relações do indivíduo p a r a o Estado. N e s t a s parecia
l i c i t o o d e f r a u d a r , m o r m e n t e em M i n a s , onde o systema de
suspeição, o r i g i n a d o n a extracção do ouro, de que o g o v e r n o
p e r c e b i a o q u i n t o , e dos diamantes, que e r a m monopólio da
coroa, e s t i m u l a r a semelhante f a l t a de honestidade dos c i -
dadãos. A suspeição g e r a r a o espirito desconfiado e facil-
m e n t e subversivo, que passara a ser o f u n d a m e n t o do ca-
r a c t e r da população severamente f i s c a l i z a d a e severamente
punida.
Ser c o n t r a b a n d i s t a e r a p o r isso u m a aspiração v u l g a r ,
.a q u a l satisfazia o u t r o s i m a v a g a disposição errática, própria
de gente que de b o m g r a d o f u g i a ao t r a b a l h o r e g u l a r , e
levianamente se c o m p r o m e t t i a a executar tarefas que em
s e g u i d a a b a n d o n a v a sem preoccupação de responsabilidade.
O h a b i t o da v i d a selvática; a s u p e r i o r destreza em evitar
os perigos, c o m b a t e r os i n i m i g o s , guiar-se nas m a t t a s ; a
costumeira deserção l o c a l de m i n a s esgotadas p o r veios e
126 DOM JOÃO VI NO BRAZIL

Jazidas de m a i o r producção e de t e r r a s cançadas p o r o u t r a s


exhuberantes de seiva — tudo se c o m b i n a v a para ajudar
a q u e l l a disposição n ô m a d a .

C o n t a v a M i n a s Geraes e m 1817, no c a l c u l o de Spix e


Martius, 500.000 habitantes. A ser exacto o orçamento,
não f a r i a em 1 8 0 8 considerável differença p a r a menos o a l -
garismo. P o r m o t i v o da crescente i m p r o d u c t i v i d a d e das minas-
de o u r o , achava-se a vasta c a p i t a n i a , riquíssima aliás em q u a s i
t o d a a sorte de metaes, em transição p a r a u m a phase agrí-
cola, p a s t o r i l e e m b r y o n a r i a m e n t e i n d u s t r i a l . Já produzia
mesmo a l g u m assucar, couros e algodões, em r a m a e tecidos.
M i n a s e mineração c o n t i n u a v a m no emtanto a c a p t a r as.
attenções, absorver as f o r t u n a s e p r e n d e r as actividades. A
p r i n c i p a l occupação dos f i l h o s da t e r r a mais desprotegidos
da sorte era a i n d a l a v a r cascalho e b a t e r areia p a r a rebuscar
o o u r o , que se i a depositando ás oitavas n o R e g i s t r o para,
quando houvesse c e r t a quantidade junta, pesar-se o todo
e poder-se negociar o c e r t i f i c a d o de deposito — verdadeira
circulação f i d u c i a r i a — sobre a base do v a l o r provável na
fundição, a q u a l se e n c a r r e g a v a de t r a n s f o r m a r e m barras
o o u r o em pó.

A s barras, c o m as armas reaes, a p r o v e n i e n c i a , o peso


e a q u a l i d a d e estampadas, c i r c u l a v a m t a m b é m até chega-
r e m ao R i o e serem cunhadas e m peças de 6 $ 4 0 0 e 4 $ o o o , as
quaes não t i n h a m t o d a v i a curso l e g a l n a c a p i t a n i a o r i g i n a -
r i a m e n t e p r o d u c t o r a do m e t a l , c o r r e n d o e m seu l u g a r notas
especiaes, v a r i a n d o de c a p i t a n i a p a r a c a p i t a n i a . C o m tantas
prohibições é n a t u r a l que fosse g r a n d e o c o n t r a b a n d o , apezar
de p e r c o r r e r e m c o n t i n u a d a m e n t e a r a i a p a t r u l h a s de c a v a i -
l a r i a , e não m e n o r a v e n d a c l a n d e s t i n a do o u r o , c u j a c o m p r a
devia ser exclusiva do Estado.
DOM JOÃO VI NO BRAZIL 127

A extracção do metal occorria não só em Minas, mas


mesmo na capitania do R i o de Janeiro, no leito do Para-
hybuna. A l l i era porém o seu verdadeiro terreno. T a m b é m
as grandes propriedades ruraes persistiam sem remuneraçãa
nem sequer destino, mercê do elevado preço dos escravos
e mormente da difficuldade na conducção dos. gêneros, con-
tentando-se com p r o d u z i r m i l h o e outros cereaes para con-
sumo da família e algum gado para venda. A polycultura
seria entretanto favorecida pelo clima, em muitos pontos
europeu.
A' medida que se sobe para o planalto, a temperatura
vai baixando e a vegetação mudando. A par de muitos re-
presentantes da f l o r a do l i t t o r a l , apparecem os pinheiros, o
buxo, o aloes, as giestas, toda a flora do meio dia da Europa
— arvores que perdem as folhas, cujas flores são crestadas.
pelas geadas e cuja tonalidade verde é mais clara e mais
alegre. U m a vez chegando-se aos campos polvilhados de ar-
bustos, entremeados de morros escarpados, cortados por som-
brios córregos, de uma physionomia revolta e de uma geo-
logia complicada, o clima torna-se secco, tônico, revigorante..
Dormia-se então bem sobre os saccos cheios de palha de
m i l h o que serviam de camas nas casas desprovidas de maio-
res confortos. D e dia, o sol dardejava sem piedade e, ba-
tendo em cheio sobre as capellinhas brancas encastoadas na
paizagem, fazia na l i m p i d e z da atmosphera sobresahir os
tons variados e garridos dos trajes das mulheres dirigindo-se
com seus guardasoes de cores vivas para as romarias e as
festas.
Das cidades de M i n a s Geraes era V i l l a Rica a mais
typica, mas São João d T l - R e i a mais bonita, alegre e pros-
pera, com seus 6.000 habitantes e suas feições habituaes de
128 DOM JOÃO V I NO B R A Z I L

v i l l a p o r t u g u e z a : egrejas b e m caiadas, que a h i s u b i a m ao


n u m e r o de t r e z e e a r v o r a v a m preterições estheticas, ornadas
de m u i t a s p i n t u r a s executadas p o r artistas locaes; casa de
g o v e r n o espaçosa; cadeia b e m á v i s t a ; excellente Misericór-
d i a sustentada mais que t u d o pela c a r i d a d e p a r t i c u l a r . C i -
d a d e de lojistas e f u n c c i o n a r i o s , c o m m e r c i a l e burocrática
( p o i s que sua única i n d u s t r i a e r a a dos chapeos de abas
largas, e a do districto em r e d o r a l g u n s algodões b a r a t o s )
não possuía São João d'El-Rei mais do que u m movimento
pacato e nas suas ruas pouco c o n c o r r i d a s cresceria o capim
s i fossem mais l a r g a s ; a e s t r e i t e z a é que as f a z i a parecer
m a i s freqüentadas. C o m t u d o servia de entreposto mercan-
t i l , o mais considerável da província, n o t e m p o da estada
de S p i x e M a r t i u s , recebendo p a r a distribuição p o r uma
area vastíssima do i n t e r i o r m a n u f a c t u r a s inglezas, as quaes
depois da a b e r t u r a dos p o r t o s f o r a m d i a r i a m e n t e g a n h a n d o
t e r r e n o , p o r causa da sua m e l h o r apparencia e preço mais
baixo, e c u j o consumo f o i parallelamente augmentando á
m e d i d a que, a i n d a que r e l a t i v a m e n t e , crescia o gosto pelas
c o m m o d i d a d e s . O s tecidos de lã c o n t i n u a v a m e m t o d o o caso
a v i r de P o r t u g a l , e o u t r o s se f a b r i c a v a m nos interiores
mesmo de M i n a s .
A vida em São João e r a b a r a t a e as f o r t u n a s accumu-
lavam-se, não h a v e n d o quasi em que gastar. C i f r a v a - s e o
luxo dos negociantes em terem em volta da cidade, nas
eminências, suas casas de campo com jardins alindados á
m o d a do t e m p o e pomares c o m f r u t a s tropicaes e européas,
i n c l u s i v e m u i t o s parreiraes. A s distracções não passavam de
p a r t i d a s de j o g o e dança, aliás m u i t o agradáveis p o r q u e a
escassez dos recursos da instrucção se não r e f l e c t i a de m o d o
a l g u m em i n c i v i l i d a d e de maneiras, sendo a gente n o gerai
DOM JOÃO VI NO BRAZIL 129

bem humorada, até jovial e independente. Notava-se pouca


-mendicidade, carência s y m p t o m a t i c a de d i g n i d a d e , f a r t u r a
e generosidade. P e l a visinhança, n a própria comarca, abun-
d a v a m as herdades, as pequenas l a v o u r a s ; p a r a oeste fica-
vam as grandes pastagens, onde se c r i a v a bastante g a d o ;
p a r a nordeste, de São João a V i l l a R i c a , l o b r i g a v a -se uma
região m o n t a n h o s a , i n t e r c a l a d a de desoladas r a v i n a s e de
p l a n u r a s c o m l a r g o h o r i z o n t e , n a q u a l o solo r e g o r g i t a v a de
metaes e a l t e r n a v a m as m a t t a s c o m as rochas.
V i l l a R i c a e r a o avesso de São João: s o m b r i a e quasi
m y s t e r i o s a .sob o seu ceu transparente, c o m trechos miserá-
veis e o u t r o s vestidos de certa grandeza, como o l a r g o em
que se l e v a n t a v a m o palácio do g o v e r n a d o r , o paço do con-
celho, a prisão e o t h e a t r o . E n c e r r a v a umas duas m i l casas,
•dispostas em degraus c o m suas h o r t a s e j a r d i n s em terraços,
e habitadas p o r u m a população c o m p l e x a e desigual, t o d a
e l l a p o r e m doente da febre do ouro. A f a l t a de segurança
era a h i p r o v e r b i a l . O s assassinos t r a b a l h a v a m nas ruas como
galés, de g r i l h e t a ao pé, segundo os v i a m os viajantes, o que
quer dizer que c o r r e n t e m e n t e não escapavam ao castigo,
m a s p a r a a t t i n g i r a t o t a l i d a d e dos ladrões não chegava n e m
a c a v a l l a r i a m i l i c i a n a , r e c r u t a d a nas suas f i l e i r a s e n t r e os
h a b i t a n t e s mais pobres, e c u j o s officiaes a f f e c t a v a m o seu
a m o r ás patentes e a sua negligencia pela profissão, c o n f i r -
m a n d o o n e n h u m p e n d o r b r a z i l e i r o p a r a as cousas m i l i t a r e s .
A própria combinação de imponência e de pobreza, attestada
(

a p r i m e i r a pelos chafarizes monumentaes, pelos edifícios de


c a n t a r i a , pela vastidão das -accommodações officiaes, pelas
e g r e j a s b e m ornamentadas, visível a o u t r a nos casebres de-
p e n d u r a d o s dos m o r r o s p o r onde , desciam t o r r e n t e s , e nos
j m u i t o s f a r r o u p i l h a s , jndiçaya^jagonia^da mineração.
130 DOM JOÃO VI NO BRAZIL

No distrícto em redor da cidade a faina apparecia»


aínda grande, revolvia-se a terra pelos mesmos processos.
primitivos, toda a gente — hospedeiros, lojistas, vagabundos.
— c a t a v a ouro ou andava interessada nas descobertas. E r a
o jogo do bicho do tempo, a avidez do lucro immediato cr
colossal, sem gradação e quasi sem esforço. Os resultados.
porém não mais correspondiam á exploração e, despeitados,.
irritados, desvairados, esses bandos de desesperados, de va-
dios e de malfeitores, ao ouvirem rumores longínquos de-
novas minas, desertavam a tradicional capital do ouro para
irem á aventura, fixando-se uns pelo caminho, morrendo
outros á mingoa ou victimas dos caboclos, internando-se a
maior parte e ajudando sem querer o desbravar e o povoar
da capitania.
Marianna constituía com suas 500 habitações a t e r -
ceira v i l l a em importância de Minas Geraes, edificada n'uni
terreno accidentado, abafado por montes mais altos, com
alguns prados verdes em redor. Jardins nos quaes se combi-
navam especimens da f l o r a da zona tropical e da f l o r a d a
zona temperada, sorriam entre as suas casas brancas e ajuda-
vam a impressão que se recebia do seu aspecto aceiado, t r a n -
quillo e feliz de cidade ecclesiastica, e que teria realizado suas
aspirações de cidade universitária do Brazil si se houvesse.
tornado effeçtivA o desígnio attribuido a Pombal, de collocar
em São João. d'El-Rei a capital da monarchia portugueza.
Viviam nas. iipmçdiações índios mansos que pareciam ter-se.
afeito ao meio pacato de Marianna,. d i f f e r i n d o dos que ron-
davam com intçntos de saquear, obrigando os viajantes a.
acautelarem-se e até as pessoas do sexo feminino a andarem.
armadas, ao nordeste de V i l l a Rica, , e. que inversamente p a ~
DOM JOÃO V I NO BRAZIL 131

reciam ter-se contagiado de ferocidade perto d'aquella po-


pulação desordeira.
N e n h u m a egreja encerrava comtudo a cidade diocesana
de M i n a s como a de Congonhas, com suas pinturas, doura-
dos, obcas de talha, mármores e pedras polidas, imagens
milagres e, no adro, os celebres Prophetas do Aleijadinho*
Esta é que se erguia como a verdadeira cathedral, como,
na phrase de Luccock, o L o r e t o para onde a f f u i a m a d i r i g i r
preces os numerosos doentes de morphéa e papeira, como o cen-
t r o mystico d'essa região quasi f r i a sob o ceu dos trópicos, de
horizontes esbranquiçados e estrellas scintillantes, em que
a fascinação do ouro, a miragem dos caldeirões repletos dc
pepitas, se ia paulatinamente desvanecendo, ao mesmo tempo
que se ia abrindo tempo e formando occasião para uma me-
lhor observação dos seus defeitos sociaes, que eram alguns,
e das suas bellezas naturaes, que são muitas. D e M a r i a n n a
e Congonhas para São João d'El-Rei, e na direcção da f r o n -
teira do R i o por Barbacena — que então só tinha 350 casas,
muitas d'ellas no emtanto boas, e cuja população se oecupava
em tecer algodões e n'outras industrias caseiras — tinha-se,
nas constantes subidas e descidas, a repetição dos panoramas
grandiosos em que rios de águas volumosas correm entre
valles verdejantes ou massas de granito e de quartzo, n u m
amphitheatro de montanhas azuladas.
São Paulo, para onde as tropas se dirigfam do R i o mar-
ginando e depois galgando a serra do M a r , offerecia um
espectaculo todo em contraste com o de M i n a s Geraes: o
que a l l i se deparava era na essência uma collectividade agrí-
cola. A s agglomerações humanas, excepção feita de São
Paulo e Santos, os velhos pontos de desembarque e de colo-
nização, não possuíam na maioria a importância das p r i n -
132 DOM JOÃO V I NO BRAZIL

cipaes da capitania mineira, mas surgiam mais freqüentes,


menos distantes, testemunhando uma geral prosperidade.
N ã o contava entretanto grande porção dos aldeiamentos \a
mesmo das villas, mais do que ephemeras casas de taipa sem
pretenções a definitivas e menos ainda a formosas, do que
resultava uma sensação de sociedade p r i m i t i v a ou rudimen-
tar, m u i t o mais do que de provisória. Esta u l t i m a nota não
seria aliás descabida, porque o gosto nômada e a feição
inquieta estavam bem no caracter da população aventurosa
da qual t i n h a m sahido os bandeirantes que devassaram os
sertões, venceram os rios e revolveram o interior do B r a z i l ,
e cujos parentes mais sedentários se cruzavam agora pelas
estradas com os barometros e herbários de Spix e M a r t i u s .
Estes viajantes os descrevem montados em ardegas mulas,
com o chapeo de castor redondo e de abas largas, jaqueta
e calças de algodão escuro, botas de couro afivelladas abaixo
do joelho e grande faca na cinta ou mais freqüentemente no
cano da bota, deixando ver o vistoso punho de prata.
Os districtos ruraes, quer os de montanhas, quer os de
planície, davam uma impressão de colonização intencional,
denunciando diligencia e u m resultado positivo colhido da
c u l t u r a dos cereaes, do assucar e do café e da criação de
gado vaccum, cavallar e sobretudo muar. Os campos em
si, esses famosos campos de barro vermelho, eram fertilissi-
mos e suggeriam riqueza, uma riqueza menos l u x u r i a n t e do
que a equatorial, porém mais segura e saudável na sua pompa
mais discreta. Impressão igualmente favorável dava a popu-
lação, que em 1808 era de 200.000 almas e em 1815 attin-
g i r a somente 215.000, sendo n u l l a a immigração si bem que
grande o numero dos nascimentos e pequena a mortalidade.
Notava-se nas gentes de todas as camadas bastante m i s t u r a
DOM JOÃO Y I NO BRAZIL 133

de sangue índio, proveniente de antigos e communs casa-


mentos, e nas camadas inferiores enxergava-se algum sangue
negro, que depois se tornaria mais vulgar. Já então se apre-
sentavam no emtanto typos m u i t o variados, que iam do
branco ao cafuso, passando pelo mameluco. Os verdadeiros
Paulistas, isto é, os descendentes de brancos — Portuguezes,
ou Hespanhoes que ahi tinham affluido do R i o da Prata e
do Paraguay em varias occasiões — com certa proporção de
cruzamento indígena, eram geralmente quanto ao physico
altos, espadaúdos, musculosos, com traços enérgicos, olhos
vivos e cabello preto corredio, e quanto ao moral francos,
altivos, facilmente irasciveis, impetuosos, corajosos, obstina-
dos, industriosos, soffredores e propensos ás aventuras. Sim-
ples e despretenciosa era por assim dizer toda a gente no
B r a z i l colonial, mas em São Paulo parecia que essa singeleza
andava realçada por uma sinceridade mais á f l o r d'alma,
costumando-se sempre dizer o que se pensava, sem que t a l
candura fosse f i l h a da rudez.
N a capital, que ao tempo da visita de Spix e M a r t i u s
tinha 30.000 habitantes — o que é porventura exaggerado
pois M a w e em 1808 calculava entre 15 e 2 0 . 0 0 0 — e já apre-
sentava u m aspecto de limpeza e regularidade, existia gosto
pelos estudos, mesmo abstractos, sendo cultivada a philosophia
e conhecidas, posto que por meio de resumos defeituosos, as
obras de Kant. Os viajantes allemães observaram nos Paulis-
tas educados poder reflexivo e gênio inventivo. N o seu dizer
era a vida patriarchal. Nas residências urbanas (as ruraes
podiam chamar-se primitivas) não se encontrava sombra de
luxo, ao envez do que acontecia no N o r t e — B a h i a , Pernam-
buco e M a r a n h ã o — o n d e se timbrava na ostentação. N a s
mobílias simples e pesadas das casas de São Paulo reflectiam-
134
DOM J O Ã O V I NO B R A Z I L

se a ausência de aspiração a elegâncias, a escassez do i n t e r -


c u r s o e u r o p e u e a v i v e z a do espirito n a c i o n a l . N a s próprias
reuniões, em que se tocava e c a n t a v a mais do que se j o g a v a ,
a escolha m u s i c a l r e c a h i a sobre as m o d i n h a s e o u t r a s delicio-
sas canções de o r i g e m p o p u l a r e sabor l y r i c o , que celebra-
v a m o amor, o ciúme e a saudade.

São P a u l o não e r a então a t e r r a das grandes escrava-


rias que p o s t e r i o r m e n t e f o i , q u a n d o p r i n c i p i o u a grande
c u l t u r a de café. Contavam-se bastantes pretos, mas não se
importavam m u i t o s . A p e n a s São P e d r o do S u l e o R i o Ne-
g r o os recebiam e m m e n o r escala: esta c a p i t a n i a p o r q u e n'ella
os índios, m u i t o abundantes, substituíam n o serviço dos pou-
cos senhores os africanos, e a q u e l l a p o r q u e o seu c l i m a tem-
perado e a n a t u r e z a do t r a b a l h o r u r a l p e r m i t t i a m a f r a n c a
participação dos brancos. O s escravos c u s t a v a m mesmo m u i t o
caro n o e x t r e m o s u l e os que h a v i a , mais se occupavam, p o r
c o n t a dos donos, em o f f i c i o s de que se sentia g r a n d e f a l t a ,
c o m o de sapateiro, l a v a d e i r a , etc.

Também a criação representava e m São P a u l o mais


a i n d a do que a a g r i c u l t u r a , a p r i n c i p a l occupação dos habi-
tantes. Suas i n d u s t r i a s cifravam-se n o f a b r i c o de algodões e
lãs grosseiras e d e chapeos brancos d e castor, a f o r a o f a -
brico caseiro de rendas e o cortimento das pelles, tendo
sido posta de l a d o p o r c o m p l e t o a mineração, e m o u t r o s tem-
pos f e b r i l m e n t e t e n t a d a ( i ) . O m e i o t a m p o u c o e r a de en-
t i b i a r os t r a b a l h o s braçaes, d a n d o o solo d a costa f r u t a s t r o -
picaes, mas a i m m e n s a região a l t a as f r u t a s européas, e
sendo s o b r e t u d o fresca e r e v i g o r a n t e a c o m a r c a do s u l que
tinha p o r séde da o u v i d o r i a Curitiba e que, a c t u a l m e n t s

(1) Spix e M a r t i u s e Mawe, obs. cits. Castor deve certamente


significar f e l t r o oa outro m a t e r i a l felpudo.
DOM JOÃO V I NO B R A Z I L 135

r e p a r a d a da a n t i g a c a p i t a n i a de São P a u l o , constitue o Es-


rtado do Paraná.

Uma t e r r a de tão favoráveis condições pelo que d i z res-


;peito ao c l i m a , á u b e r d a d e e ao caracter da gente, não p o d i a
^deixar de i r p r o g r e d i n d o p o r si, apezar de d e m o r a d o o au-
g m e n t o da população pela carência de t o d o m o v i m e n t o i m -
m i g r a t o r i o e de limitadíssimas as aspirações d'essa c o m m u n i -
<dade agrícola e p a s t o r i l , onde as idéas adiantadas não c i r -
culavam quasi f o r a da c a p i t a l e as ambições políticas não
se t i n h a m a i n d a manifestado. C o m effeito São P a u l o , que
em 1807 e x p o r t a v a 4 9 6 contos, cinco annos depois, em 1813,
«exportava 6 6 6 contos e i m p o r t a v a 766. N o s gêneros expor-
t a d o s contavam-se, como parcellas mais i m p o r t a n t e s , 578.OOO
;arrobas de assucar c o n t r a 9.223 apenas de café, e 11.263 ca-
beças de gado suíno c o n t r a 1.402 de gado v a c c u m ; algaris-
mos que p o r certo não f a z i a m p r e v e r o d e s e n v o l v i m e n t o que
mais tarde tomariam aquelle c u l t i v o nas encostas de São
P a u l o e esta criação nos campos do Paraná. N a s importações
j n c l u i a m - s e p r i n c i p a l m e n t e 3.445 pipas de v i n h o , 37.669 a l -
queires de sal e 4.447 arrobas de xarque, gêneros todos de
;alimentação. O u t r a s necessidades seriam secundarias, e de-
viam sel-o n u m a sociedade occupada c o m bem raras exce-
pções e m f a b r i c a r assucar, p l a n t a r m i l h o , f e r r a r bois bravos,
v i g i a r as manadas de m i l h e i r o s de animaes, laçar e abater
rezes p a r a as xarqueadas e d o m a r potros ariscos.
V e g e t a v a m as capitanias i n t e r i o r e s de G o y a z e Matto
-Grosso, u m a v e z passada a phase de producção a u r i f e r a que
n a p r i m e i r a m e t a d e do século X V I I I havia determinado o
seu m u i escasso povoamento. A o i n v e r s o das terras de São
P a u l o , o n d e os indígenas t i n h a m diminuído enormemente,
.andavam aquellas o u t r a s terras entregues muito mais aos
136 DOM JOÃO VI NO BRAZIL

bugres, pela maior parte bellicosos e ferozes, do que aos


colonizadores brancos. Com difficuldade trocavam seus p r o -
duetos com os das capitanias do l i t t o r a l e com as raras ma-
nufacturas européas de que mostravam carecer, por meio
de tropas que atravessavam penosamente os sertões minei-
ros, alcançando M a t t o Grosso pelo planalto goyano, ou, )k
menos freqüentemente, de embarcações que, vencendo os
obstáculos da navegação, entre elles 113 cachoeiras, attin-
giam de São Paulo pelo Tietê, Paraná e depois pelos a f f l u e n -
tes do Paraguay a região onde por algum tempo se locali-
zara a fábula do E l Dorado. As communicações para o norte-
com o Grão Pará, de Goyaz pelos rios Tocantins e A r a -
guaya ou de M a t t o Grosso pelos rios Guaporé e M a d e i r a ,
tão preconizadas pelo governo da metrópole para exploração-
integral do interior da possessão e efficiencia da defeza
contra os Hespanhoes do Pacifico e do Prata, não tinham
quasi surtido resultado, sendo de todo abandonadas como»
vias regulares e mesmo como desígnio de administração, até
que a mudança da corte para o B r a z i l lhe veio dar novo*
incremento.
Antes de trasladada a sédc da monarchia, já D. Ro-
drigo de Souza Coutinho afagava aliás, como u m dos seus-
planos favoritos, a creação de u m vasto systema de commu-
nicações pelo dilatado interior do B r a z i l , para tanto apro-
veitando a sua admirável rede f l u v i a l , cujos embaraços
não entravam em linha de conta, como não costumam en-
t r a r com os sonhadores os impedimentos ás suas utopias. E r a
uma verdadeira e grandiosa conquista do hinterland aquella.
com que sonhava D. Rodrigo, igual á que no século X I X os
Americanos do N o r t e realizariam no seu continente p o r
meio das vias férreas, dos barcos a vapor e dos milhões de
DOM JOÃO VI NO BRAZIL 137

immigrantes europeus, mas que no nosso paiz tinha fatal-


mente de mallograr-se pela insufficiencia da gente e exi-
guidade dos recursos empregados. Os Americanos foram
enxotando os indios, reconhecidamente refractarios á civi-
lização: só se condoeram d'elles quando tornados inoffensi-
vos pelo seu quasi desapparecimento. E n t r e nós fallava-se
quixotescamente de civilizar os indios mansos dos sertões
de Goyazes e Pará " e domesticar todas as nações gentilicas
e barbaras.
C o m D. Rodrigo, e n'isto se differençava elle do com-
mum dos sonhadores, as cousas nunca corriam o perigo de
ficar em projecto. O seu defeito, u m nobre defeito, era o
querer dar immediata realização a quanto devaneava, des-
curando ás vezes os meios pela absorpção mental na grandeza
do seu objectivo. N ã o raro comtudo a execução seguia o pen-
samento. L o g o em 1809, agindo por ordens da corte, man-
dava o governador de Goyaz, D. Francisco de Assis Mas-
carenhas, no i n t u i t o de encurtar a distancia por terra entre
o R i o de Janeiro e o Pará e facilitar os correios, abrir na
sua capitania uma estrada de 121 léguas ( d o Registro de
Santa M a r i a ao Porto Real do Pontal na comarca do n o r t e ) ,
construindo pontes nos ribeirões, pondo canoas nos rios cau-
dalosos e invadeaveis, mantendo cavalgaduras nos postos. O
facto é que o correio expedido pelo governador do Pará com
a nova da conquista de Cayenna já transitou por essa es-
trada, que do Registro de Santa M a r i a continuava até V i l l a
Rica.
Como para haver commercio é necessário haver mer-
cadorias, ordenava ao mesmo tempo o Príncipe Regente
que no fertilissimo terreno goyano se promovesse a planta-
ção de trigo e de outros cereaes para consumo local e sup-
138 DOM JOÃO VI NO BRAZIL

primento do Pará. E' claro que para o transporte de gêne-


ros e pessoas se appellava sobretudo para a extraordinária
distribuição hydrographica do B r a z i l : "rios que desaguão
no T o c a n t i n s e por este até o Pará, e mesmo até ao Mara-
nhão pela nova estrada, que Sua A l t e z a mandou abrir pelo
sertão, desde o T o c a n t i n s até ao Itapicurú, e por elle abaixo
até á sua foz. Assim, dentro de poucos annos, haverá entre
estas duas Províncias marítimas, e a central de Goiaz hum
grande, e activo commercio com avultados interesses recí-
procos, e facilmente se povoarão aquellas terras abençoadas,
cuja fertilidade promette huma a g r i c u l t u r a sem restricção, e
immensa ,,
(i).
E m obediência a semelhante plano, que era em resumo
o de cimentar o systema político brazileiro com a facilidade
das communicações internas — um plano que era muito,
que fora sempre de D. Rodrigo, mas que teve de ser aban-
donado pelo deshabitado do sertão , desenvolvimento da na-
vegação costeira que o vapor mais tarde ajudaria podero-
samente, e importância m u i t o maior do l i t t o r a l , graças mesmo
á attenção concentrada na corte — pen^ou-se em obras g i -
gantescas, sem todavia existirem recursos proporcionados a
intenções, nem sobretudo a extensões tamanhas. Os rios T o -
cantins e Araguaya e os tributários do Amazonas seriam
mandados explorar na idéa de animar aquellas communica-
ções com o alto sertão brazileiro, e em particular se melhora-
ria a navegação que de V i l l a Bella se d i r i g i a ao Amazonas
pelos rios Guaporé, M a m o r é e M a d e i r a , não havendo muito
a esperar da navegação do Cuyabá e ligação com o systema
norte do Arinos, Tapajós e Amazonas, pelas muitas cachoei-
ras do A r i n o s e multidão de indios bárbaros e indomáveis.

(1) Padre L u i z G. dos Sanctos, ob. c i t .


DOM JOÃO VI NO BRAZIL 139

Nao era outra a concepção de intima connexão do


c e n t r o inatacável por inaccessivel, inexplorado e uberrimo,
com o extremo norte ameaçado pelos Francezes de Cayenna,
que D. Rodrigo acariciava por motivos de defeza nacional
antes de fazel-o por motivos de grandeza nacional, e já con-
vencidamente manifestara em 1801 ao insinuar ao Príncipe
Regente ( 1 ) a nomeação de u m vice-rei em lugar de u m
simples governador do Pará, com o predomínio effectivo
na administração do Maranhão, Matto Grosso e Goyazes,
ao mesmo tempo que suggeria uma serie de medidas defen-
sivas e econômicas ( 2 ) .
Procurando dilatar, robustecer e consolidar o Estado
do Maranhão independente do do B r a z i l propriamente dito,
firmava-se D. Rodrigo n u m a divisão administrativa de que
lhe não cabia a responsabilidade, e que se fizera por moti-
vos de commodidade de governo mais do que por argúcia
política de prevenir a cohesão da enorme colônia, j u n t o á
q u a l desapparecia em dimensões e reserva de recursos o d i -

(1) Carta de 29 de Dezembro, no Arch. Pub. do Rio de Ja-


neiro.
(2) "1.° Expedir com brevidade e segredo em 1 ou 2 fragatas
m i l homens com hum pequeno trem de peças e obuzes para servirem
em forma de a r t i l h e r i a ligeira a cavallo, postando os homens na ilha
de Joannes e mais ilhas vizinhas ás boocas do Amazonas, j u n t o ao
A r i g u a r i , ou perto do Macapá, ou ainda nos pontos mais' essenciaes
üa nova linha que v a i estaibelecer-se, procursndo também fazel-os casar,
estabelecer em sítios sadios e que sejão também partes importantes
de defeza, formando huma espécie de colônias militares.
2.° Povoar com constância aquelles dominios com degradados
robustos e mulheres que os acompanhem.
3.° Recommendir muito ao novo Governador os preciozos Es-
tabelecimentos que S. A. R. tem organizado e principiado quaes são :
I , o das conrmunicaçoens do Pará com Matto Grosso pelas ca-ohoeiras
o

tio Rio Madeira, e do Pará com Goyazes pelos Tocantins e Tapajoz;


2 , o do reconhecimento das Barras do Rio Amazonas, e sua guarda
o

com embarcaçoens l i g e i r a s ; 3 , o mantenimento do arsenal do Pará,


o

•e a continuação de construcçoens de Navios e Fragatas, mantendo


também sempre huma M a r i n h a ligeira, e em actividade; 4 , a conti-
o

nuação dos cortes de madeira na mesma regularidade, para enriquecer


140 DOM JOÃO V I NO B R A Z I L

m i n u t o e empobrecido Portugal. Quando a monarchia tras-


ladou para a America a sua sede, é que as inconveniências;
d'aquella divisão appareceram e se experimentou a necessi-
dade de apertar os laços que deviam prender a u m centro»
único todos os esparsos núcleos de povoamento e de desenvol-
vimento. D. Rodrigo e o seu Príncipe não se esquivaram-
então a esse programma.
A parte entre a capitania do R i o de Janeiro e a cidade*
de São Salvador, isto é, o Espirito Santo e o sul da Bahia
constituíam u m trecho pouco povoado e portanto pouco*
cultivado. A s pujantes florestas a pequena distancia da costa
ou mesmo no l i t t o r a l f o r m a m u m dos característicos da pai-
zagem, ao mesmo tempo que f o r m a v a m um obstáculo á
colonização outrosim contrariada pelos bugres. Um dos
esforços mais tenazes, senão dos mais felizes do governo de
D o m João V I no sentido de desbravar a terra brazileira, ia
justamente localizar-se n'este ponto, buscando-se com em-
penho abrir communicações do m a r para M i n a s Geraes..

aquelle vasto Domínio com vantagem da Real Fazenda; 5 , o aumento»


o

das novas culturas que se tem a l i propagado e furtadas habilmente


ao governo de Cayenna ; 6 , a continuação da correspondência secreta
o

que se tem seguido atégora com Cayenna- para poder com tempo parar
e obstar a qualquer golpe que os Framcezes possão projetar contra os
Estados de V. A. R. daiquelle lado, tirando também partido para rou-
bar todas as novas culturas que os Francezes possão a l i introduzir.
4.° Para dar meios a execução de tão grandes planos, e de ob-
jectos tão essenciaes para a segurança e conservação do Brazil, au-
mentar as Rendas do Governo do Pará com as sobras do Maranhão, e
;ünda quando assim seja. necessário com as sobras do Seara.''
('Carta cit.)
Annos antes, em 1796 já D. Rodrigo mostrava interessar-se
profundamente pe]a defeza do Brazil, "que vejo muito arriscada sobre
tudo navendo sabido que os Francezes que tomarão as ultimas 4 em-
barcaçoens sMnformarão miudamente do estado do B r a z i l , e das Forças:
terrestres e m a r i t i m a s que V. A. R. a l i tinha." A necessidade da es-
quadra na America era tanto mais urgente quanto embarcações f r a n -
cezas se achavam infeste indo as costas do B r a z i l e tomando pequenos
navios que sabiam da Bahia e Pernambuco, "parecendo que levavão
as prezas a Cayenna." (Arch. Pub. do Rio de Janeiro.)
DOM JOÃO VI NO BRAZIL 141

Eram porem tamanhas as difficuldades que, quando o go-


vernador Francisco A l b e r t o R u b i m construio uma estrada
«de mais de 22 léguas desde o u l t i m o morador do r i o Santa
M a r i a até perto da margem do r i o Pardo, houve que lhe por
guarnições de trez em trez léguas pyr causa dos indios Bo-
tocudos.
E m carta regia de 4 de Dezembro de 1816 recommen-
«daria não obstante o soberano a conclusão dessa estrada
<e que outras se fizessem para reduzir a c u l t u r a o vasto
•sertão, aproveitar suas riquezas e facilitar as relações de
•commercio, ao mesmo tempo civilizando-se os indios bravos
<:om reprimirem-se suas correrias. Para tal f i m isentavam-se
de direitos por dez annos os gêneros transportados do Espi-
r i t o Santo para M i n a s Geraes pelas estradas que se abrissem
ou pelos rios que se achassem navegáveis, pagando apenas
os impostos á beira mar; e isentavam-se do dizimo os gêne-
ros cultivados no sertão, dividido o terreno e concedido por
sesmarias ou distribuído pelas cartas de datas para lavra do
o u r o das minas. N o desejo ardente de conseguir estes resul-
tados de progresso, desde 1811 se declarara conquistadas
aos indios, desbravadas e entregues, ou melhor restituidas
a industria particular para que as aproveitasse, as terras do
r i o Doce e affluentes.
Sem a completa sujeição dos indígenas ociosa se tor-
n a r i a qualquer seria tentativa de caracter pratico no inte-
r i o r , pois que elles o percorriam de frechas e arco na mão,
•exterminando mesmo a caça que devia servir de primeira
alimentação aos colonos e levando a devastação até ás po-
voações fundadas pelos brancos. O terror justamente inspi-
r a d o pelos assaltos e depredações dos Botocudos, que domi-
n a v a m as margens d'esse pequeno systema f l u v i a l e t i n h a m
142 DOM JOÃO V I NO B R A Z I L

destruído as fazendas uma vez fundadas á beira dos rios


Doce e Belmonte, era a principal razão de só serem habita-
das na costa a capitania do Espirito Santo e a comarca ba-
hiana de P o r t o Seguro e de não contarem com sua sahida
mais n a t u r a l as comarcas mineiras do Sabará e Serro d a
Frio. A philanthropia do Correio Braziliense condemnou
severamente a guerra feroz aos Botocudos emprehendida p o r
ordem do conde de Linhares, mas sem o emprego da força
para avassallar esses selvagens rebeldes, é licito p e r g u n t a r
como se conseguiria renovar com escravos, immigrantes, bes-
tas, bois e o mais apparelho de trabalho, as 144 fazendas
outr ora estabelecidas n'aquella região. Entretanto, feita a
guerra, informava o capitão general conde da Palma ao mi-
nistro Linhares ( 1 ) que a duas das divisões militares creadas
t i n h a m a f f l u i d o para cima de 3.000 pessoas com fazendas o u
para se occuparem na mineração.
D e M i n a s se vinha á Bahia pela estrada do T e j u c o
(Districto D i a m a n t i n o ) a Cachoeira, umas 250 léguas, em
caravanas de 64 cavallos ou mulas. O caminho, posto que
ainda freqüentado, já andava menos concorrido que o de
V i l l a Rica ao R i o de Janeiro. E r a comtudo seguro, l i v r e
de bugres e abundante é m caça para abastecimento das t r o -
pas. A v i l l a da Cachoeira constituía u m entreposto consi-
derável de algodão, couros, chifres, farinha, assucar, café
e f u m o da região atravessada, podendo assim dividirem-se as
zonas de producção: perto da Cachoeira, assucar para ca-
chaça, tabaco e mandioca; no sertão, gado; ao chegar a
M i n a s Geraes, algodão e café. Constituía também o t e r m i n o
da estrada u m centro de contrabando do ouro em pó e dos

(1) 29 de Janeiro de
DOM JOÃO V I NO B R A Z I L 143

diamantes, exercendo a fraude em larga escala os próprios


soldados que ciosamente prohibiam o accesso do D i s t r i c t o
Diamantino.
Não admira pois que, mau grado as serias interdicções
e punições, rondassem não poucos especuladores a visinhança
do T e j u c o sob vários disfarces e pretextos diversos. O ne-
gocio era rendoso e como t a l tentador, si bem que arriscado.
Para o governo a concorrência offerecia gravidade. Vendia
elle em Londres ao tempo de D o m João V I 60.000 quilates
de diamantes a 60 francos o quilate bruto, o que dá
3.600.000 francos ou menos de trez milhões líquidos. Os
diamantes de contrabando compravam-se porém na Europa
pelo terço ou quarto do seu valor. O ouro trazido por
fraude era ao contrario pago no R i o com u m prêmio de 3
a 5 por cento acima do preço official pelo qual pagava o fisco
as barras em peças amoedadas. Este ouro em barras já tinha
pago o q u i n t o : o ouro em pó que sahia da província lucrava
portanto 20 por cento, ganhando além d'isso com ser m u i t o
mais fácil de transportar, mais apto a ser falsificado e mais
difficíl de contrastar ( 1 ) . T a l gênero de contrabando exer-

(1) Tollenare, Notes Dominicales. O auctor orça a producção do


ouro brazileiro ao tempo da sua estada no reino u l t r a m a r i n o (1817)
em 30.000 marcos, o que, a 750 francos o marco, representa 22 y mi- 2

lhões de francos. As colônias hespanholas dariam 40.000 marcos, a


Europa 5.000 e a Asia 2.000, um t o t a l pois de 77.000 marcos ou perto
de 58 .milhões de francos. O calculo não differe muito do de Humboldt,
que avaliava então a producção do ouro do mundo em 66 milhões e a
da prata em 193, ao todo 260 milhões.
iDaíva portanto o quinto ao governo portuguez 5.600.000 francos,
a que se devem a j u n t a r 1.400.000 de direitos sobre o fabrico das moe-
das. Sommando estes sete milhões com os trez da venda exclusiva dos
diamantes, resulta uma renda de dez milhões, da qual ha que deduzir
o custeio da administração. Apezar da prohibição da sahida de metaes,
o ouro emigrava para a Inidia e sobretudo para a Inglaterra, sendo
gradualmente substituída por pia»stras a circulação em ouro, calculada
no B r a z i l por Tollenare em 20 milhões. As portuguezas de 6.400 réis
já se vendiam no Rio com 7 e 8 por cento, de prêmio.
144 DOM JOÃO V I NO BRAZIL

cía-se muito mais entretanto em Santa Catharina e no Rio


da Prata, pela via de São Paulo, do que pelo caminho que
do centro conduzia á Bahia.
A fama do fausto da Bahia transpoz os limites portu-
guezes e d elle chega a encontrar-se o echo nos trabalhos
philosophicos do abbade Raynal, ao mesmo tempo que da
indolência da população amolledda pelo bem passar. Os
habitantes abastados, conta imaginosamente mas não menti-
rosamente o famoso escriptor, usavam de magníficas mobí-
lias e cobriam-se de jóias, quando outras não fossem sob a
forma de cruzes, medalhas, rosários e bentinhos, vestindo
mesmo de gala os escravos que os transportavam nos seus
palanquins cobertos de velludo e fechados com cortinas de
seda. Tollenare, testemuha presencial, falia de tudo isso, das
damas reclinadas nas suas liteiras, das negras carregadas de
ouro, com suas camizas de cambraia bordada, suas saias de
algodão de ramagens, seus turbantes na cabeça, de uma vida
muito original, muito sensual e muito aprazível passada
n u m a cidade pittoresca e em lindos arrabaldes. O francez
não tem palavras bastantes para enaltecer a belleza do Re-
côncavo, que appellida de romântico, descrevendo-o com
deleite igual áquelle com que o percorria, com suas pequenas
angras, seus penhascos e grutas sobre que esvoaçavam bandos
de gaivotas, sua vegetação frondosa recobrindo até os flan-
cos dos rochedos, sua navegação muito animada de pesca-
dores nos seus barcos, baleeiras e canoas de transporte
de viveres e mercadorias.
A população era muito variada e o numero dos brancos
inferior ao das outras raças. Raynal, cujas estatísticas são
menos que problemáticas, calculava para a cidade 40.000
brancos, 50.000 indios e 68.000 negros: queria elle dizer
4

DOM JOÃO VI NO BRAZIL 145

para a capitania, mostrando em todo caso não ser estranho á


grande superioridade numérica das raças inferiores.
A riqueza da Bahia p r o v i n h a não somente das fontes
ordinárias do algodão e do assucar, como do c u l t i v o do f u m o
e da pesca da baleia. O f u m o representava u m a parcella i m -
portante da exportação de P o r t u g a l para o resto da E u r o p a
e f i g u r a como t a l insistentemente nos respectivos tratados
de commercio, mas e n t r a r a a ser tão t r i b u t a d o á sahida do
Reino para o estrangeiro que os consumidores, diante da
elevação do preço, t i v e r a m que se afastar. Sendo porém
supprimidos estes nocivos direitos e ficando apenas de pé
a taxa da armazenagem, a exportação novamente cresceu,
crescendo proporcionalmente os lucros do p r o d u c t o r bra-
zileiro. G r a n d e quantidade do tabaco em pó, de qualidade
i n f e r i o r , i a para África a servir no trafico, com elle com-
prando-se escravos. A s qualidades superiores, de envolta com
a i n f e r i o r eram sobretudo reexportadas para Gênova, Hes-
panha, H a m b u r g o e França. E m P o r t u g a l existia u m es-
tanco regio, mas a venda para f o r a permanecera n a t u r a l -
mente franca.
A pesca da baleia também constituirá exclusivo de uma
companhia de Lisboa, que possuía suas armações na Bahia,
na i l h a de Itaparica, e n u m a enseada entre a cidade e o
cabo de Santo Antônio, e a u f e r i r a lucros bem maiores que
o preço do monopólio. O s Americanos, com seu espirito
então aggressivo de l i v r e concorrência, t i n h a m comtudo
chegado a esses mares nas suas baleeiras e m a l ferido o p r i v i -
legio da companhia portugueza, c u j a actividade andava pelo
c o n t r a r i o forçadamente restricta ás paragens tradicionaes.
A pesca tornara-se a f i n a l l i v r e , cessando o regimen de con-
trato. C o m o seu faro de commerciante, calculou T o l l e n a r e
D, J. — 10
146 D Ò M JOÃO VI NO BRAZIL

o producto das baleias, de que se harpoavam mais de 200 nos


melhores annos, em mais de dous milhões de f r a n c o s — m a i s
de 10.000 francos por b a l e i a — , vendendo-se a carne orçada
em 2.000 arrobas, e o azeite orçado em 20 a 30 pipas de 70
canadas. As despezas representavam menos de dez por cento.
A Bahia desenvolveu-se m u i t o durante o reinado de
D. João V I porque teve a boa fortuna, entre outras, de pos-
suir á sua frente u m capitão general — o mesmo conde dos
Arcos que estava como vice-rei no R i o e para a l l i f o i man-
dado quando a família real se trasladou para o B r a z i l — que
timbrava em gastar em obras de utilidade e beneficio publico
os rendimentos da sua capitania. Pouco dinheiro vinha por
isso d'ella para a capital, ao passo que Caetano Pinto, o
capitão general de Pernambuco, costumava remetter fiel-
mente para o R i o o producto completo da tributação local,
pelo que d i z T o l l e n a r e 30 contos por mez. E' evidente que
em taes condições trabalho algum de monta se emprehendia
em Pernambuco. U m e outro governador eram censurados,
um pela sua inacção e mesquinharia, o outro pela sua nimia
diligencia e prodigalidade, mas com o segundo ao menos l u -
cravam os povos confiados á sua direcção. Spix e M a r t i u s ,
encarecendo o estado em que encontraram a Bahia, faliam o
melhor possível da administração do conde dos Arcos, re-
cordando que estabeleceu casas de educação, m o n t o u cordoaria
e fabrica de vidros, deu animação aos estaleiros, extendeu a
alfândega, reparou as casas da fundição, levantou uma
praça de commercio, ergueu fortes, construio um passeio
publico, organisou o t r e m de artilheria, o reducto e os arma-
zéns militares, augmentou os regimentos de l i n h a e de milí-
cia, policiou a cidade, favoreceu a pesca e protegeu a cultura
do fumo. O progresso era tão marcado que na ilha de Itapa-
DOM JOÃO VI NO BRAZIL 147

rica, ao tempo da estada de Tollenare, existia mesmo mon-


tado u m engenho de assucar a vapor, tendo o R e i concedido
uma recompensa honorífica ao introductor d'esse melhora-
mento pela sua intelligente iniciativa.
T o l l e n a r e , que em tudo preferia a Bahia a Pernambuco,
tece fartos elogios a muitas cousas, entre ellas ao theatro
espaçoso, commodo e fresco, cujos espectaculos, compostos
de dramas burguezes, farças picantes e occasionalmente pe-
ças sacras, não eram destituídos de interesse. A j o v i a l socia-
bílidade, que ao Francez devia ser grata, constituía u m traço
característico da sociedade bahiana, mais exhibido ainda do
que nas noitadas do seu theatro, que só nas recitas de gala
se enchia inteiramente, nas constantes partidas de jogos de
cartas, de prendas e de loto, e nos jantares succulentos,
cerimoníosos e luxuosos uns, despretenciosos e não menos
gostosos outros, para saborear os quaes se enfiava antes da
comida o casaco de b r i m fornecido pelo dono da casa ( 1 ) .
Em todas as capitães de província f o r a m geraes por esse
tempo no B r a z i l o augmento da edificação e o desenvolvi-
mento das artes, mais porventura na Bahia do que em qual-
quer outra pelo notável crescimento da sua riqueza, denun-
ciado pela annual subida do movimento commercial. A s im-
portações, que em 1806 eram (segundo u m mappa annexo
á correspondência de D. Rodrigo de Souza C o u t i n h o ) ( 2 ) do
valor de 3.600 contos, em 1813 tinham subido a 7.052 contos
e em 1816 attingíam 9.084 contos, entrando os escravos por
2.500 contos e seguindo-se em importância os v i n h o s —
quasi 900 contos — e as chitas — quasi 800. As exportações,
constantes principalmente de assucar, aguardente, fumo,

(1) Spix e Martius, ob. cit.


(2) A.rch. Publ. do Rio de Janeiro.
148 DOM JOÃO VI NO BRAZIL

algodão, café, arroz, couros e madeiras, tinham decrescido


nos primeiros annos do reinado americano de D. João V I ,
talvez por se generalizar mais o trafico brasileiro, mas to-
maram novo impulso e passaram de 3-205 contos no anno de
1813 a 6.156 no de 1816, uma differença bem mais consi-
derável que nas importações. E m 1816 representavam o tra-
fico local a entrada de 519 embarcações e a sahida de 431.
Por isso escreviam Spix e M a r t i u s ser a Bahia a mais rica e
activa praça de commercio do paiz.
A do Rio, com suas novas instituições de credito, suas
transplantadas especulações e seus incipientes jogos de bolsa,
offereceria o moderno typo mercantil. Conservava a outra
mais a tradição nos negócios como em toda a economia. E r a
o empório da velha c u l t u r a do assucar: no anno de 1808, o
da passagem da família real, sahiram do seu porto nada
menos de 26 a 27.000 caixas de 40 a 45 arrobas cada uma,
producto dos 511 engenhos da capitania. E r a também o cen-
t r o do commercio de escravos, onde a f f l u i a m os carregamen-
tos de Africanos, cujo valor regulava 140 a 150 m i l réis
cada um, e onde se detinham os alforriados, negros do ganho
e negras quitandeiras. Para estas m a n u f a c t u r a v a m os ouri-
ves da terra boa parte das correntes, brincos, fivellas e outros
adornos de extensa procura, pois que igualmente os com-
pravam m u i t o os sertanejos de visita á cidade. T a n t o mais
numerosos eram elles quanto do l i t t o r a l bahiano partiam
importantes vias de communicação com o i n t e r i o r : a estrada
que pela Conquista e r i o Pardo ia a M i n a s , a que pelo rio
de Contas se dirigia a Goyaz e M a t t o Grosso, para onde se
descia do Joazeiro pelas villas de Pilão Arcado, B a r r a do
Rio Grande e U r u b u , na l i n h a do S. Francisco, e a que,
passando pelo Joazeiro, alcançava as capitanias do Norte,
DOM JOÃO VI NO BRAZIL H9

.Pernambuco, Piauhy e Maranhão, e outras em ramifica-


ção, ( i )
Todas estas circumstancias contribuíam para emprestar
á Bahia a feição particular, pittoresca e excêntrica que era
tão sua. A variedade de raças e condições determinava appro-
xímações e sobretudo contrastes notáveis. Pode dizer-se que
essa communidade apresentava o mesmo espectaculo desen-
contrado na sua original mistura que os dous viajantes alle-
mães observaram nas gravuras do vestibulo da egreja da
Conceição, onde ao lado de Blucher se viam Leda e o Cysne,
e ao lado da Resurreição do Senhor a entrada dos Alliados
em Paris. " C o m o n u m a mágica, escreveram elles, o obser-
vador attonito alli contempla representantes de todas as
epochas, de todos os continentes, de todas as cathegorias, a
completa historia do desenvolvimento da espécie humana,
com seus mais levantados esforços, suas luctas, culminancias
e também estorvos que obrigam a recuos para o passado, e
este espectaculo único, que nem mesmo Londres e Pariz se
acham em condições de exhibir, ganha em interesse pela se-
guinte ponderação: o que trará o quarto século a uma terra
que nos trez decorridos já pudera abrigar todas as tendências
e graus de cultura atravez dos quaes o gênio da humanidade
conduzio o Velho M u n d o no espaço de milhares de annos ?"
D e São Salvador alcançavam-se pois os campos do
Piauhy cortando em diagonal o sertão bahiano até encontrar
o São Francisco e atravessado este no Joazeiro, proseguindo
pelo sertão pernambucano para entrar no systema f l u v i a l da
capitania do gado, cujas catingas, formosas quando em flor,
eram intercaladas de bosques de carnaubeiras onde pousa-
vam araras azues. Apparece esse sertão cortado de cadeias

( 1 ; Spix e M a r t i u s , ob. c i t .
150 DOM JOÃO VI NO BRAZIL

de montanhas na visínhança das quaes é o clima menos secco


e regular, pelo que o denominam os tabaréos agreste, em
contraposição ao mimoso, que é mais calido e constante.
Predomina o p r i m e i r o no Piauhy, ao passo que o segundo
prevalece no sertão pernambucano. T o d a a região interior é
comtudo igualmente exposta a seccas prolongadas, e de certo
esta inconstância contribue para dotar de maior actividade
e superior resistência a população sertaneja, naturalmente
aventurosa.
D o p r i m e i r o bandeirante que se f i x o u no Piauhy, Do-
mingos Affonso, t i n h a m os Jesuítas da Bahia herdado t r i n t a
fazendas de criação de gado vaccum e cavallar que, pela
expulsão da Ordem, passaram para o domínio da Coroa, a
qual as explorava. E r a m as conhecidas fazendas reaes, espa-
lhadas pelo território da capitania e cujo rendimento estava
longe de ser avultado, apezar da importância das proprie-
dades, orçando Spix e M a r t i u s em 1818 o das tres inspe-
cções em 18 contos, representados por 3.000 bois a 6.000 réis,
preço médio. M u i t a s rezes eram abatidas para consumo do
pessoal das fazendas e muitos novilhos se perdiam pelas her-
vas venenosas, picadas de insectos, mordeduras de cobras e
morcegos e voracidade das onças.
Spix e M a r t i u s percorreram também aquelle caminho
do Joazeiro a Oeiras que p r i m e i r o f o i , como o u t r o qualquer
do B r a z i l , trilhado pelos missionários, em seguida pelos ban-
deirantes, e então o estava sendo pelos vaqueiros e negocian-
tes de escravos. Excepção feita de raros proprietários abasta-
dos, reinava entre seus numerosos aggregados lastimosa po-
breza nas margens do poderoso r i o cruzado pelos dous incan-
çaveis scientistas para sua exploração septentrional. A s cheias
periódicas do São Francisco causavam, como as do Nilo,
DOM JOÃO V I NO BRAZIL 151

immediata prosperidade, logo, porém, combatida por um sol


abrazador, e tornavam particularmente doentia essa secção,
onde abundavam as sezões e os soffrimentos hepaficos. Uma
certa industria pastoril, um pouco de f u m o e bastante sal
das lagoas serviam, posto que não chegando no valor para a
troca por gêneros de primeira necessidade importados de
M i n a s Geraes.
A cachoeira de Paulo A f f o n s o dividia completamente
o trafico f l u v i a l , sendo as chamadas navegação de cima e de
baixo de todo independentes e supprindo-se os habitantes do
trecho intermédio na v i l l a da Cachoeira, servida pela via
terrestre. N o seu curso oriental o São Francisco separava a
capitania de Sergipe, uma quasi dependência geographica e
econômica da Bahia, de "Alagoas, que era ainda em 1808
uma comarca de Pernambuco, e por inteiro lhe pertencia
pela colonização, pela producção e pelos interesses.
Pernambuco já decahira da sua preponderância de
capitania que mantivera com aristocrática bravura e aris-
tocrática lealdade a integridade do domínio portuguez na
America. Estava, porém, em plena importância econômica,
sendo por excellencia a terra do assucar e do algodão. Nas
suas várzeas humidas e nas suas collinas ricas de vegetação
de perto da costa, que os recifes annunciavam e de que no
alto mar as jangadas leves davam o primeiro rebate, escra-
varias numerosas povoavam os engenhos de assucar; nas
terras altas, seccas e desprovidas de mattas, sertanejos ves-
tidos de couro pastoreavam seus rebanhos de gado, emquanto
lavradores enfardavam o algodão de que sahiam, para a I n -
glaterra quasi exclusivamente, 80 a 90.000 saccos por anno,
pesando, termo médio, cada sacco 160 libras. N o porto do
Recife ancoravam sempre muitos navios, inclusive os que fa-
152 DOM JOÃO V I NO BRAZIL

z i a m commercio c o m a índia Portugueza, transportavam


negros da costa a f r i c a n a e t r a z i a m f a r i n h a de t r i g o , moveis
e outras m a n u f a c t u r a s dos Estados U n i d o s , levando em re-
tribuição assucar, melaço e aguardente, ( i )
A cidade, de 25.000 habitantes em 1809, era cheia de
l u z , repleta de algazarra. O s seus t r e z bairros, ligados por
.pontes, lançadas sobre os largos rios serenos, c o m m u n i c a v a m
u m a sensação alegre, derivada sem d u v i d a da alegria do
clima, pois que o aspecto geral não passava de pronunciada-
mente provinciano, sendo mesquinhos quasi todos os edifí-
cios, vulgares os conventos e templos, n u l l o o movimento
feminino. A animação que h a v i a revelava-se toda ella mer-
cantil, fornecida pelos negociantes e negros carregadores,
mas era indubitavel. Demais, a prosperidade tinge de cor de
rosa t u d o em que toca.
Já então as residências Se espalhavam sob a f o r m a de
chácaras pelos arredores, notando-se a mesma tendência de
f u g i r , passado o a r d o r do d i a e do negocio, dos pittorescos
bancos de areia que f o r m a v a m a a n t i g a Mauricéa, para as
margens arborisadas dos rios sinuosos que entre elles vinham
desaguar mansamente. A q u e l l a s casas não t i n h a m pretenções
architectonicas, mas envolviam-se e m f r a g r a n t e s pomares,
abrigavam-se á sombra de mangueiras, jaqueiras colossaes,
toucavam-se de rosas, cravos e jasmins. Já existia então
também o mesmo núcleo de Inglezes, que n a f i d a l g a educa-
ção t r a d i c i o n a l da melhor classe da população enxertavam
certa franqueza e liberdade de b o m t o m . A convivência,
quiçá m a i o r e mais agradável do que n'outro qualquer ponto
do B r a z i l , denunciava-se a m p l a m e n t e pela dança, musica e
jogo, suas expressões habituaes. A s procissões e solemnidades

(1) Ilcnry Kostcr, Traveis in Brazil, Londorv, 1816.


DOM JOÃO V I NO BRAZIL 153

do culto na cidade—algumas de resaibo theatral como o Des-


cimento da Cruz, representado ao vivo por personagens de
carne e osso— ; as festas de egreja com o realce profano de
jogos, arraial, patuscadas e fogos de artificio nos subúrbios,
attrahiam todas grande concurrencia sem indicarem infalli-
velmente fervor religioso. Constituíam antes meras diver-
sões a que a população andara sempre afeita.
Olinda, completamente deposta dos foros de capital,
servindo quasi somente de estação de recreio, continuava a
ser a cidade dos conventos, si bem que se achasse em pro-
gressivo e rápido abandono a vida monastica. Refere Koster
que no seu tempo j á passava por uma cousa rara a cerimonia
da entrada em ordem regular de um noviço, educando-se de
preferencia os rapazes para o commercio, o exercito ou qual-
quer outra profissão secular e esvasiando-se gradualmente os
mosteiros. Eram de resto os frades os primeiros a não se
attribuirem grande respeitabilidade, sendo mesmo o geral do
clero reconhecidamente dissoluto.
Apezar da incontestável valia econômica de Pernam-
buco, não se pode dizer que fosse de opulencia ou sequer de
fartura a apparencia, quer agrícola, quer social, da região
pela qual se extendia a capitania general. Koster percor-
reu a cavallo, mais em busca de saúde que de impressões
exóticas, todas as capitanias nortistas até o Ceará, e da lei-
tura das suas descripções sinceras e despretenciosas como as
que mais o forem, deriva-se uma sensação melancholica. As
récuas de matutos encontrados pelos caminhos, tangendo os
magros cavallinhos que transportavam suas cargas escassas;
as choupanas indigentes ao lado de raros casarões, cujos pro-
prietários viviam mais fidalga do que intelligentemente e
com mais fausto do que conforto; as plantações muito pouco
154 DOM JOÃO V I NO BRAZIL

variadas; os engenhos de modelos absolutamente primitivos;


o manifesto atrazo agrícola e industrial, tudo se congregava
para dar a idéa, que mais accentuada hoje nos fere, de po-
breza fundamental, contra a qual em vão contendiam as
illusões de uma prosperidade fictícia dependente exclusiva-
mente do braço escravo, subidas occasionaes e passageiras de
preços e os esforços de resistência já quasi passiva do sen-
timento de grandeza heróica.
O clima francamente tropical, escancarando os case-
bres de taipa, sem ladrilho, nem portas, nem janellas, que
agachavam seus tectos de palha diante do solar do engenho,
rebocado e caiado de branco, com grossas paredes que repel-
liam o sol; dispensando as camas, substituídas por esteiras
ou pelas redes muitas vezes extendidas, nas noites de claro
luar, entre dous postes do alpendre, tornava o aspecto da vida
mais incerto ainda do que no Sul, onde a estação fria enxo-
tava a gente para o interior das habitações. O calor sem tre-
goas dava a esta terra brazileira um tom mais decidido de
acampamento nômada, ao mesmo tempo que diminuía a taci-
turnidade dos seus habitantes, cujo moral—quer dizer igno-
rância, noção exaggerada de pundonor e fatalismo—se não
differençava sob os outros pontos do dos caipiras de São
Paulo e Minas e do dos gaúchos do Rio Grande.
Observaram Spix e Martius que o mineiro lembrava
muito mais o alegre pernambucano do que o tristonho pau-
lista. O orgulho e a sobriedade seriam traços communs a
todos os Brazileiros de descendência mais ou menos européa,
mas eram pelos dous viajantes consideradas qualidades pri-
vativas dos pernambucanos e extensivas aos mineiros, a incli-
nação por uma forma romanesca de viver e a predilecção
pelos vestuários e productos estrangeiros, quer dizer, o espi-
DOM JOÃO V I NO B R A Z I L 155

r i t o de a v e n t u r a e o de novidade, a f a n t a s i a i m a g i n a t i v a e a
fácil r e c e p t i v i d a d e m o r a l .

Em P e r n a m b u c o d e r i v a r i a m em boa p a r t e estas q u a l i -
dades das condições da v i d a , c u j a i n c e r t e z a c o m o que se r e -
f l e c t i a n o contraste, m u i t o característico da região, e n t r e as
várzeas férteis, regadas pelos rios, e os taboleiros arenosos
e áridos, de vegetação crestada pelas seccas que periodica-
m e n t e assolam o sertão v i c t i m a n d o homens e animaes. A s
a l t e r n a t i v a s de abundância e privação, marcadas pelas chu-
vas o u pelas longas estiadas, independentes p o r t a n t o do es-
forço i n d i v i d u a l , t i n g i a m n a t u r a l m e n t e de despreoccupação,
de indifferença, o caracter do p o v o que o r a v i a em r e d o r de
si a f a r t u r a , o r a e n x e r g a v a a miséria, sem poder c o n t r i b u i r
no m í n i m o p a r a m o d i f i c a r - l h e as c i r c u m s t a n c i a s . T u d o , f a c i -
lidades de v i d a , b e m estar, repouso, dependia tão somente
n'essa z o n a das variações climatericas.
A s chuvas p o d i a m t r a z e r a f e r t i l i d a d e e mesmo a abas-
tança. R i q u e z a , porém, r i q u e z a v e r d a d e i r a , c o n t i n u a , i n c o n -
t r o v e r s a , não a possuia semelhante extensa secção que, n o
seu littoral u b e r r i m o , p r o d u z i a apenas u m assucar muito
m a l f a b r i c a d o — p o i s que os m e t h o d o s defeituosos p o r que e r a
o b t i d o só p o d i a m f o r n e c e r u m p r o d u c t o bastardo — do q u a l
já se q u e i x a v a m os i m p o r t a d o r e s europeus e que apenas
achava c o n s u m o p o r q u e não existia então o assucar de beter-
raba, e nos seus altos taboleiros o algodão que as fabricas
inglezas r e c a m b i a v a m m a n u f a c t u r a d o em tecidos, a p u r a n d o
o m e l h o r do l u c r o . E quanto mais p a r a o N o r t e se cami-
nhava, menos condições de r e a l p r o s p e r i d a d e se i a m descorti-
nando. A b a f a m a l g u n s valles sob u m a vegetação l u x u r i a n t e
que espelha a f o r t u n a , mas na p a i z a g e m s e r t a n e j a de campos
e serrotes, é a inconstância que de ordinário se m i r a nas l a -
156 DOM JOÃO VI NO BRAZIL

gôas, salobras algumas cFellas, que fazem as vezes de rios


de águas perennes e onde vai beber um gado não raro magro
e doente. Koster descrevia o aspecto geral da capitania do
Rio Grande do Norte, por exemplo, como "o de uma região
mediocremente productiva ao sul de Natal, e de todo estéril
ao norte dessa cidade, com excepção das margens do Po-
tengy e das terras visinhas".
Contrastando com este scenario de seccas periódicas,
extendendo-se pelo sertão do Ceará até alcançar o do Piauhy,
terras cujo povoamento se fora entretanto fazendo regular-
mente, posto que distinguindo os seus habitantes um fácil
espirito migratório, desdobrava-se a vastíssima planura ama-
zônica. Annunciava-a a capitania do M a r a n h ã o , uma terra
caracteristicamente tropical banhada por grossos rios, pelos
quaes e pelos igarapés que os ligavam desciam em pequenas
canoas, na falta de estra"das terrestres, os variados productos
do solo, abrangendo desde o assucar, o algodão e o arroz até
o fumo, o café e os cereaes.
O M a r a n h ã o não via de facto circumscripto á capital
o seu incremento agrícola e d'ahi econômico e social. Caxias,
o antigo arraial das Aldeias Altas, contendo no seu termo
30.000 almas e devendo sua prosperidade á cultura do algo-
doeiro, iniciada no século anterior pela Companhia do Mara-
nhão e G r ã o P a r á , e á energia dos seus habitantes, muitos
d'elles reinicolas, era um dos raros pontos florescentes do in-
terior do Brasil: chegava a exportar 25 a 30.000 saccos de
cinco a seis arrobas cada um. A capitania toda ella ou pelo
menos a parte entre mattas occupada pelas fazendas, pelas
missões, pelas egrejas e pelos povoados á margem do Itapi-
curú, dava uma certa impressão de abastança. A sua popula-
ção orçava, como a da Bahia, pelas 200.000 almas, almas
BOM JOÍO V I NO BRAZIL 157

christãs deve entender-se, porque das pagas não se poderia


fazer calculo.

E r a São L u i z do Maranhão, com seus numerosos filhos


do R e y n o e seus não menos numerosos filhos d'Africa, u m
centro que se havia de breve revelar tenaz e violentamente
luzitano na cor política e nas tendências imaginativas;
mesmo porque o elemento portuguez, preponderante na admi-
nistração, no commercio e em toda a vida activa, facilmente
sobrepujava o elemento nacional, reduzido comparativa-
mente em numero e mollemente conchegado nas plantações
sobre o remanso do trabalho escravo. Spix e M a r t i u s , que
foram os únicos viajantes estrangeiros a transitar n'essa
secção extremo septentrional do paiz, a qual cuidadosamente
estudaram como as demais, observaram não só t a l antago-
nismo mais pronunciado e mais promissório de difficuldades,
como a feição refinada e culta da sociedade local, distin-
guindo-se em particular o sexo feminino pela sua indepen-
dência mental e educação esmerada.
Parecia o Pará a melhor comprovação de que o B r a z i l
d'aquelles tempos era o negro. N a ausência de outro traba-
lhador, era elle o esteio de toda riqueza. O Maranhão
crescia, com o mesmo clima e recursos quiçá não iguaes aos
do Pará, pelo grande numero de escravos que importava e
que Spix e M a r t i u s calculavam em 1818 em 80.000. A ex-
tincta Companhia de Commercio favorecera aliás m u i t o a
agricultura, não só fornecendo empréstimos aos lavradores,
como cedendo a baixo preço os negros trazidos pelo trafico.
A o lado o Pará vegetava, com seu solo feracissimo, seus ma-
gestosos rios navegáveis, seus variados artigos de producção
n a t u r a l , suas communicações francas com as visinhas terras
hespanholas, sem braços, porém, para valorisar todas essas
158 DOM JOÃO V I NO B R A Z I L

condições de fortuna, pois que a fonte quasi única de traba-


lho provinha dos descimentos em que se empregava parte
da pequena guarnição do R i o N e g r o e de que resultava a
introducção de obreiros remissos e indóceis.
A impressão de Spix e M a r t i u s , ao receberem permissão
para visitar detidamente o Grão Pará e subir o Amazonas
e quaesquer dos seus tributários até as fronteiras, f o i a de
irem penetrar n u m a terra incógnita. Até ahi o B r a z i l se lhes
apresentara bastante imperfeito, mas existia do Sul ao Norte
e do l i t t o r a l ao centro, apezar das soluções de continuidade,
a base de uma nacionalidade de a l g u m modo homogênea,
deparava-se com o material de uma c u l t u r a de caracter
mais europeu do que exótico. Tratava-se agora comtudo de
uma exploração apenas iniciada atravez de uma dilatada
região, cujo aspecto quasi não d i f f e r i a nos começos do sé-
culo X I X do que tinha sido no século X V I I , habitada por
numerosas tribus indígenas e com raros povoados que, com
suas denominações saudosamente portuguezas, figuravam de
atalaias perdidas da civilização. A própria natureza mudava
u m tanto de apparencia. Os coqueiros ralos, cujas hastes f i -
nas balizam no N o r t e o horizonte sem o cerrarem, eram sub-
stituídos por uma vegetação toda ella mais densa, mais es-
cura, mais pujante, e com tudo isso menos hospitaleira.
A s primeiras paginas do u l t i m o volume das viagens de
Spix e M a r t i u s , dedicado á região amazônica, respiram deci-
dido pantheismo poético, t r a d u z e m os transportes da absor-
pção quasi mystica no seio da natureza creadora.
Calculava-se a população da Amazônia, no anno de
1820, em 83.500 habitantes civilizados ou contados como
taes, sendo 68.500 no Pará, e 15.000 no R i o Negro. A ci-
dade de Santa M a r i a de Belém pela sua relativa antigui-
DOM JOÃO VI NO BRAZIL 159

dade, posição quasi marítima, situação de entreposto de todo


gênero para as extensas terras regadas pelo poderoso sys-
tema f l u v i a l de que formava a chave, e condição de u l t i m o
núcleo de povoação da costa subindo-se para o norte, offe-
recia alguma importância, que o marquez de Pombal gran-
demente procurara estimular. Pelo lado da população o
traço característico do centro do antigo Estado do Grão
Pará era a forte proporção de índios, não só aldeiados e
occupados na pesca e na agricultura como no serviço do-
méstico e exercendo mesteres diversos, sobretudo de remado-
res e carregadores. Elles como que i m p r i m i a m a toda a
communidade o cunho do seu espirito a u m tempo passivo e
rebelde, esquivo ás leis e regulamentos da administração e
resignadamente fatalista. A população de descendência euro-
péa, em grande parte de origem insulana, distinguia-se pelo
seu socego e abstenção de paixões. Spix e M a r t i u s relevam a
sua fleugma a par da vivacidade do pernambucano, do gênio
pratico do bahiano, da fina urbanidade do maranhense, da
cortezia cavalheirosa do mineiro e do h u m o r bondoso do
paulista.
A riqueza da região é t a l pela variedade dos gêneros
de consumo que, não obstante a pouca industria dos Pa-
raenses de então, em grande parte dependentes para seu com-
mercio exterior dos productos agrícolas e extractivos de r i o
acima — Cametá no Tocantins, Gurupá, Santarém no Ama-
zonas e capitania do R i o N e g r o — os trapiches offere-
ciam regular movimento. A borracha, que começava apenas
a ser extrahida por pobres seringueiros e alguns raros fazen-
deiros, provinha das mattas nas proximidades da cidade e na
ilha de Marajó, onde existia também a industria p a s t o r i l :
o gado era porém de qualidade inferior pelas condições c l i -
160 DOM JOÃO VI NO, BRAZIL

matericas de excessiva humidade, exposição ás chuvas tor-


renciaes e ás nuvens de mosquitos, t e r r o r inspirado pelos
jacarés e outras circumstancias desfavoráveis á criação.
A o tempo da estada de Spix e M a r t i u s já os soldados
de policia usavam grosseiros casacos tornados impermeáveis
pela spplicação de u m a tênue camada de borracha que se
deixava seccar ao sol, e os próprios dous exploradores os
u t i l i z a r a m nas suas jornadas em paragens em que tinham
sido bem antès precedidos pelo seu compatriota, o jesuíta
Samuel F r i t z . C o m effeito, da F o r t a l e z a da B a r r a do Rio
N e g r o subiram elles pelo Solimões até Ega, a antiga
missão d'aquelle jesuíta depois chrismada em Teffé, attin-
gindo Spix o presidio de T a b a t i n g a na f r o n t e i r a e no Rio
N e g r o a v i l l a de Barcellos, e alcançando M a r t i u s no Japurá
a cachoeira do A r a r a c o a r a na f r o n t e i r a da N o v a Granada,
para ainda j u n t o s subirem até certo ponto o M a d e i r a e vi-
sitarem os indios M u n d u r u c ú s e Maués.
A F o r t a l e z a da B a r r a , para onde f o r a transferida de
Barcellos em 1809 a capital da que ia ser província de São
José do R i o N e g r o , encerrava 3.000 almas no l u g a r — que
nem v i l l a era — e termo, pois que d'esta gente parte não
residia nas modestas habitações urbanas, de tectos de palma
comquanto providas algumas de moveis importados: vivia
nas fazendas e pescarias da m a r g e m do rio, congregando-se
somente por occasião de a l g u m a festa de egreja. O lugar,
c u j a excellencia topographica levou Spix e M a r t i u s a vati-
cinarem o grande p o r v i r de M a n á o s , t i n h a então suas au-
ctoridades civis e militares, mas não t i n h a ainda medico,
nem boticário, nem mestre de primeiras lettras. P o r falta
de numerário, o d i z i m o e outras contribuições pagavam-se
em gêneros da terra, potes de manteiga de ovos dç tarta-
DOM JOÃO VI NO BRAZIL 161

ruga, f a r i n h a de mandioca, criação, f u m o , guaraná e cas-


tanhas do Pará.
O a d m i n i s t r a d o r G a m a L o b o a h i estabelecera nos fins
do século X V I I I u m a fiação de algodão e uma olaria, em-
pregando os indios mansos a pequeno salário por conta do
governo, declinando todavia depressa ambas as fabricas. U m
pouco mais de animação m o s t r a v a m as cordoarias de piaçaba,
cujas amarras e cabos se usavam no arsenal do Pará e se
exportavam para as A n t i l h a s , e c u j a matéria p r i m a era em
parte comprada aos Hespanhoes da f r o n t e i r a em São Carlos
do R i o N e g r o .
A população de todo o B r a z i l assemelhava-se a f i n a l de
norte a sul e de leste a oeste. Pode dizer-se que era homo-
gênea pela apparencia resultante das mesmas origens e c r u -
zamentos, pelas industrias pouco variadas e distribuídas p o r
zonas determinadas, e pelas feições salientes do caracter.
Por este lado a u n i f o r m i d a d e dentro da diversidade, indis-
pensável para m a n t e r a cohesão de uma sociedade que tendia
a e v o l u i r e c u j a actividade se dispersava em occupações d i f -
ferentes, dava u m desmentido á latente inclinação separa-
tista que t i n h a estado alimentando durante o período colo-
n i a l a directa dependência a d m i n i s t r a t i v a das capitanias em
relação á metrópole distante.
N a s cidades os elementos que a v u l t a v a m eram o com-
merciante, o religioso e o servil, t a n t o dos serviços domésti-
cos como dos de u t i l i d a d e publica. E r a m de cor e muitos
d'elles escravos os vendilhões que de camisa, ceroulas e
saiote de algodão grosso, o f f e r e c i a m pelas portas cambadas
de caranguejos e sirys em cordas, como o eram os remadores
que, com o jaquetão de baeta posto p o r cima dos seus risca-
dos, t r a n s p o r t a v a m em canoas para algumas villas as pipas
D, J. — U
162 DOM JOÃO V I NO BRAZIL

cTagua precisas para bebida e limpeza dos habitantes, ou os


artesanos que, de troncos nus, sovelavam calçado, recorta-
vam sola para selins e batiam folha de flandres nas lojas
e officinas escuras.
Nos campos, j á se sabe, encontravam-se os lavradores,
proprietários ou aggregados, os mineiros e os criadores de
gado: a gente do sul, plantadores ou caçadores de ouro, com
escravos bastantes para o trabalho rural, as lavagens de
areias e cascalho e os transportes em carros e sobretudo em
bestas, serviços também executados por numerosos homens
livres; a gente do norte, senhores de engenho e cultivadores
do littoral e terras immediatas, com fartas escravarias; os
vaqueiros dos sertões, com limitadas turmas de escravos.
Predominavam os homens livres entre este elemento pastoril,
assim como entre os pescadores jangadeiros e canoeiros de
toda a costa.
Em toda essa symphonia de bureis castanhos, gangas,
casacas azul ferrete, madapolões encardidos e couros molles,
as notas mais claras e estridentes eram as fornecidas, dentre
as capas de panno de cor, pelos timões femininos de viva
seda lavrada, de velludo carmezim ou azul luminoso; as mais
sombrias e tristes pelos de baeta azul escura ou preta que,
com suas mangas dependuradas de que se não fazia uso, en-
volviam todo o corpo e cobriam até a cabeça.
N o moral da população nacional são concordes todos
os exploradores e viajantes estrangeiros em destacar dous
traços que lhe deviam ser communs — a cortezia e a hospi-
talidade. Moradores das cidades como dos campos testemu-
nhavam para com os forasteiros delicadeza e agasalho, si
bem que se resentissem promptamente de desattenções e exhi-
bissem fácil e até feroz ciúme.
DOM JOÃO VI NO BRAZIL 163

Em resumo transmittía o Brazil então como hoje ainda,


a impressão de u m a sociedade em formação, sem caracterís-
ticos accentuados e fixados. Fóra da estreita f a i x a da costa,
e a h i mesmo, dava o u t r o s i m a sensação de u m a t e r r a que
a g u a r d a p a r a ser f e c u n d a d a e c u m p r i r seu destino o esforço
do homem. T i n h a este esforço que ser gigantesco p o r q u e a
própria e x h u b e r a n c i a da v i d a a n i m a l e v e g e t a l representa
um a t r a z o p a r a a sua realização, e e m q u a n t o elle se não
exercia p e r m a n e c i a m p o r p o v o a r e p o r desbravar as exten-
sões sem f i m , campos risonhos e férteis e n t r e m o n t e s e n r u -
gados e alterosos e m a t t a s frondosas e i n q u i e t a d o r a s sobre
rios caudalosos e revoltos. E r a t o d a u m a n a t u r e z a p o r ven-
cer, e para mais indomável a q u e m não dispuzesse das ener-
gias proporcionadas. O p a i z nas suas condições d o m i n a n t e s
não p o d i a offerecer grandes o p p o r t u n i d a d e s , sendo falhas
as suas ligações, de tão d i f f i c e i s e arriscadas, e e m p e r r a d o
o seu progresso, de tão árduo e penoso.
E n t r e o M a r a n h ã o e São V i c e n t e , a p a r t e t r a d i c i o n a l
e histórica, v i v i a a n o v a n a c i o n a l i d a d e de u m a agricultura
r u d i m e n t a r nos methodos ( i ) , escassa n a variedade, cada
dia de mais d i f f i c i l collocação p o r q u e a extensão da pro-
ducção não a n d a v a n a razão d i r e c t a da extensão do con-
sumo, e não e r a m constantes as crises coloniaes que f a v o r e c i a m
o assucar, n e m contínuos os períodos de g u e r r a anglo-ameri-
cana que f a v o r e c i a m o algodão. O café, m a n a n c i a l de f u -
t u r a abundância, a i n d a se não espalhara, n e m como c u l t i v o ,

(1) A u g u s t e de S a i n t - H i l a i r e (Voyage dons les provinces de Rio


de Janeiro et de Minas Geraes) surprehendeu-se, ao v e r em 1816 o
p r i m e i r o engenho de assucar f l u m i n e n s e , da ausência a b s o l u t a de aper-
feiçoamentos n o f a b r i c o , como os i n t r o d u z i d o s h a v i a m u i t o n a s colô-
n i a s francezas. E' inútil a j u n t a r que os proicessos então i n v e n t a d o s
p a r a c l a r i f i c a r e d e s c o l o r a r o assucar, e r a m de todo desconhecidos n o
Brazil.
164 DOM JOÃO VI NO BRAZIL

nem como extracção. Para o interior o traço principal j á dei-


xara de ser o mineiro, apparecendo muito crescido o numero
dos vadios, indivíduos que esperavam a sorte de outra oc-
cupação rendosa e entretanto não desprezavam muitos d'elles
o officio de malfeitor ( i ) . A feição não se tornara por com-
pleto pastoril, por mais aconselhada que fosse esta tendência
pela natureza dos terrenos altos, de pastagens excellentes, e
pelas exigências crescentes da alimentação em epocha de
custosos abastecimentos. O u t r a industria só em embryão
existiria. E m qualquer terreno prevaleciam o atrazado, o
incompleto, o provisório.

(1) Marrocos falia n'uma das .suas cartas do 1811 de levas de


200 ou mais facinorosos trazidos de Manas Geraes e outras terras.
CAPITULO I V

0 PRIMEIRO MINISTÉRIO E 'AS PRIMEIRAS. PROVIDENCIAS


:

E' a x i o m a t i c o que, t e n d o acabado p o r f r a n c a m e n t e r e -


p u d i a r a t u t e l a f r a n c e z a que l h e a n d a r a i m p o s t a pelos acon-
tecimentos, e p r o c l a m a r sem rebuço suas sinceras predilec-
ções b r i t a n n i c a s , o Príncipe Regente, ao o r g a n i z a r o seu p r i -
m e i r o ministério b r a z i l e i r o , d a r i a n'elle e n t r a d a aos estadis-
tas mais a b e r t a m e n t e devotados á I n g l a t e r r a . A s s i m f o i que
a D. Rodrigo de Souza C o u t i n h o c o n f i o u os negócios es-
t r a n g e i r o s e a g u e r r a , as pastas de Antônio de Araújo, de
quem já em 1811 se f a l i a r i a e n t r e t a n t o de n o v o para o
l u g a r de m i n i s t r o ( 1 ) ; a m a r i n h a ao visconde da A n a d i a , e
a D. F e r n a n d o de P o r t u g a l , f u t u r o m a r q u e z de A g u i a r , o
remo, c o m a presidência do erário regio e o cargo de m i n i s -
tro assistente ao despacho, que eqüivalia ao de p r i m e i r o m i -
n i s t r o , c o m precedência sobre os collegas e conhecimento dos
assumptos de todas as pastas.
Passava D. R o d r i g o c o m razão pelo p r i n c i p a l e cory-
pheo do p a r t i d o inglez, f o r m a n d o c o m Barca e Palmella,

(1) Carta de Marrocos de 24 de Outubro.


168 DOM JOÃO V I NO BRAZIL

cada u m no seu campo, a trindade dos mais distinctos ho-


mens d'Estado portuguezes do primeiro quartel do século
X I X . N ã o era absolutamente u m hypocrita intrigante como
Balsemão, nem um ambicioso trefego como Seabra, nem
um n u l l o enfatuado como Ponte de Lima. E r a sobretudo
u m homem de trabalho e essencialmente u m homem de bem,
dotado de bastante illustração e de m u i t o patriotismo, com
grandes idéas para tudo, posto que u m tanto confusas e com
fraca relação ao meio em que se movia ou antes aos meios
de que podia lançar mão, precipitado talvez, colérico, mesmo
violento por prompto a ouvir lisonjas e seguir suggestões,
mas sabendo abordar intelligentemente todos os assumptos
de administração para os tratar em memórias o u de viva
voz com f o r m a fluente e conhecimento de causa. D'est'arte,
premunido pelo estudo e na maneira apaixonada que lhe era
pessoal, procurava constantemente acertar no intuito de ele-
var a nação.
Q u a n d o ministro no estrangeiro, u m pouco em desac-
cordo com os hábitos diplomáticos, não havia questão para
a qual não voltasse o melhor da sua attenção. T u d o tinha o
condão de interessal-o profundamente. Nos papeis que deixou
( i ) deparam-se-nos, a par de notas de historia política euro-
péa e resumos dos conflictos diplomáticos de que P o r t u g a l foi
parte, apontamentos sobre as matérias mais dissemelhantes:
caixas econômicas, barreiras, c u l t i v o da batata e da amoreira,
fabrico da seda, problemas de hydraulica, modo de fazer pão.
Preoccupavam especialmente o seu espirito as matérias eco-
nômicas, então na ordem do dia, debaixo da influencia de
A d a m Smith e de T u r g o t . N a pátria mesmo u m modelo

( 1 ) O A r c h i v o p a r t i c u l a r do conde de L i n h a r e s f o i em grande
p a r t e a d q u i r i d o em leilão p e l a Biibl. NÍUC. do R i o de J a n e i r o .
DOM JOÃO VI NO BRAZIL 160

bem recente se l h e offerecía, o grande Pombal, que p o r u m


m o m e n t o g a l v a n i z a r a o Reino ao contacto do seu gênio, e
de c u j a vida, actividade, reformas e feitos se encontram n a
collecção L i n h a r e s recordações freqüentes.
D. R o d r i g o não só t r a b a l h a v a como fazia os outros
trabalharem, obrigando todos os que o cercavam a esforça-
rem-se em pról da regeneração publica, e para isto repellindo
os ociosos e os corrompidos. Sem as qualidades exteriores
de seducção de Barca o u de P a l m e l l a , era menos superfi-
cial e m u i t o mais inteiriço do que o primeiro, m u i t o menos
sceptico e mais audaz do que o segundo. A superficialidade
em questão deve todavia entender-se de opiniões, não de co-
nhecimentos, pois que a variada instrucção do conde da
Barca era notória, ao passo que da de D. R o d r i g o houve
quem dissesse c o m malícia que consistia em saber a p r i m e i r a
l i n h a de todos os artigos da Encyclopedia. O amável Antô-
nio de Araújo n e m prejuízos políticos possuía, sendo p o r
índole e p o r educação u m liberal, quando ao contrario D.
R o d r i g o , si ostentava intellectualmente u m certo liberalismo
— mesmo porque para se ser r e f o r m a d o r tem-se que ser
innovador — praticamente se revelava de tão a u c t o r i t a r i o
u m absolutista puro.
Q u e r i a sinceramente o bem do povo, mas comtanto
que l h e fosse outorgado pela coroa e que o progresso mate-
r i a l não invadisse e desmanchasse o arcabouço político, o
q u a l se devia ciosamente conservar. N'este sentido era o
conde de L i n h a r e s h o m e m que chegava a escrever ao Prín-
cipe Regente ( i ) considerar perfeita l o u c u r a dos Governa-
dores do Reino dizerem haver consultado sobre o modo de

(1) C a r t a de 16 de Agosto de 1809, no Arch. Pub. do R i o de


Janeiro.
170 DOM JOÃO VI NO BRAZIL

taxação os tribunaes, "para supprirem as Cortes como se entre


nós fosse necessário convocar Cortes para lançar qualquer
imposto." E accrescentava com sua habitual vivacidade, a
mesma vivacidade que lhe não p e r m i t t i a medir os obstáculos
aos emprehendimentos, por vezes gigantescos, a que se aba-
lançava: " E s t a lembrança dos Governadores deve ser for-
temente rebatida, e u m t a l principio pode ter as mais serias
conseqüências para a autoridade de V. A. R. e para a Mo-
narquia, e quem o lembrou he mais T r a i d o r do que aquelles
que á cara descoberta attacam a Monarquia."
T o d o elle era pois pelos moldes de governo pessoal
e autocratico, que não constituíam no emtanto, é preciso bem
frizar, as verdadeiras tradições da monarchia, na sua ori-
gem tão popular quanto a ingleza, segundo se não cançava
de relembrar de Londres o Correio Braziliense. A idéa fun-
damental de D. R o d r i g o em matéria administrativa parecia
ser a de accelerar extraordinariamente o movimento sem
mudar o systema do machinismo, apenas augmentando-lhe
as peças e carregando demasiado a pressão. N a lida não oc-
corria ao precipitado engenheiro indagar si a velha e carco-
mida armação agüentaria a refrega.
Verdade é que o machinismo podia m u i t o bem ficar na
antiga, acontecendo não passarem os melhoramentos do tra-
çado. N ã o faltava quem accusasse o conde de Linhares de
agitar-se continuadamente para nada p r o d u z i r afinal. H i p -
polyto José da Costa por exemplo, que f o i sempre pressuroso
em proclamar a assiduidade ao trabalho, a. inteireza e a
probidade do estadista, lembrava ( I ) que tendo elle, quando
chamado de T u r i m para assumir o ministério da marinha,
delineado como seu p r o g r a m m a o levantar os créditos de

(1) Correio Braziliense, vol. V I I I (n. 48, Mayo de 1812).


DOM JOÃO V I NO B R A Z I L 171

Portugal como grande potência marítima, devendo o Brazil


fornecer madeiras e canhamo para as construcções navaes,
deixara a pasta ao cabo de quatro annos sem ter mandado
fazer u m só vaso no arsenal de Lisboa, nem lavrado u m só
regulamento tendente a c o r r i g i r o governo do B r a z i l .
D'este ministério passara para o Erário " a ver se a l l i
realizava as abundancias de dinheiro, que pedia sempre
quando estava na Repartição da M a r i n h a , e que quando
lho não davam attribuia isso a falta do M i n i s t r o da Fa-
zenda". A j u n t a v a H i p p o l y t o , com o seu espirito de sal u m
tanto grosso, que na administração do que ia ser no B r a z i l
conde de Linhares se enchera o almirantado portuguez de
tão numerosos empregados quanto o inglez e se expedira
"uma infinidade de leys, alvarás, decretos e avizos, que
sempre precizavam de outros para sua explicação, havendo
t a l cego em Lisboa que se enriquecera só a vender as leys
que publicava D. Rodrigo."
Num gabinete á moderna, D. Rodrigo levaria com
sua f e b r i l actividade os companheiros a reboque, mas no
tempo dos conselhos brazileiros de D o m João V I não estava
ainda descoberta a solidariedade ministerial. Cada u m dos
ministros governava por si e o R e i governava a todos. Os
collegas de Linhares não eram todavia figuras de papelão.
A n a d i a podia dizer-se uma utilidade, sobre ser u m homem
culto, e a D. Fernando de Portugal, tendo sido de 1801 a
1806 vice-rei no R i o de Janeiro, onde só deixara saudades,
e depois presidente em Lisboa do Conselho U l t r a m a r i n o ,
não lhe faltava familiaridade com os altos postos da admi-
nistração, nem conhecimento pratico da colônia. Demais
sempre passou a justo t i t u l o por homem bom, avisado e
prudente, porventura timorato e pacatão, sem altos planos
172 DOM JOÃO V I NO B R A Z I L

de governo, porém serio e a seu modo zeloso no cumpri-


mento dos seus deveres officiaes.
Confirma-se esta impressão, derivada dos factos his-
tóricos, pela l e i t u r a da parte da sua correspondência que
nos f o i conservada ( i ) . N u m a carta, por exemplo, dirigida
ao Príncipe Regente em 31 de O u t u b r o de 1809, a propó-
sito de nomeações pendentes para Lisboa, encontram-se as
seguintes phrases que ajudam a pôr em relevo o seu caracter
maduro, sizudo, vacillante mas não destituído de argúcia:
" Convenho na reflexão que f a z o P r i n c i p a l Souza, que se
deve attender unicamente ao merecimento, mas a difficuldade
consiste em designar quaes são os beneméritos para os Em-
pregos de que se trata em circumstancias tão árduas; » a
experiência mostra, que ainda a respeito daquelles que tem
talentos, e merecimentos, e outras boas qualidades discor-
rem os homens ás vezes com bastante variedade."
Ninguém seria capaz de dizer m a l d'esse parfait hon-
nête h o m m e , como o appellidou M a l e r ( 2 ) , pois que reunia,
na expressão do representante francez, todas as qualidades
do coração, n u t r i n d o pelo seu soberano uma dedicação que
só era igualada pelo seu desinteresse, e sendo ambos estes
predicados em grau inexcedivel. O que M a l e r não descobria
em A g u i a r era o conjuncto de dotes de espirito e de conheci-
mentos indispensáveis para a sua alta posição o f f i c i a l . "No to-
cante a isto, elle se acha inteiramente abaixo dos deveres
do seu cargo. Começa porque suas forças physicas at-
tenuadas pela idade não l o g r a r i a m defrontar com o ex-
pediente corrente, e como na organização das reparti-

(1) Arich. Pub. do Rio de Janeiro.


(2) Officio cifrado de 14 de Outubro de 1815, no Arch. do Min.
dos Neg. Estr. de França.
DOM JOÃO V I NO BUAZIL 173

ções não se regularam a divisão das secções e a distribuição


do trabalho e como, por outro lado, se não escolhem muito
os officiaes de secretaria, os negócios arrastam-se."
L u x e m b u r g o recebeu de A g u i a r a impressão de uma
pessoa de timidez tal que muitas vezes degenerava em temor
pueril, pretendendo referir tudo ao despacho e de nada que-
rendo assumir a responsabilidade, sendo ao mesmo tempo
incapaz de suggerir ao R e i qualquer determinação que a
sua própria natureza não tinha aptidão para formar. N u n c a
comprehendeu, escrevia o embaixador de L u i z X V I I I , que
n'uma nota approvada pelo monarcha houvesse outra ne-
cessidade alem da de subscrever o seu nome como ministro
(i). Qualquer discussão com semelhante conselheiro tor-
nava-se de todo ponto ociosa, rematava o duque, em grande
parte despeitado por não poder obter as vantagens com-
merciaes que a França invejava á I n g l a t e r r a no mercado
brazileiro e sobretudo não ver geitos de conseguir a resti-
tuição da Guyana Franceza, antes de concluídos em P a r i z
os arranjos especiaes e assignadas as convenções para as
quaes o marquez de M a r i a l v a e o cavalheiro B r i t o tinham
recebido plenos poderes.
" O conde de A g u i a r he o paralisador de tudo, e
para tudo tem obstáculos e duvidas", escrevia outro des-
peitado, o funccionario Marrocos, n u m a das cartas ( 2 ) em
que manifesta as suas pretenções a maior ordenado, ração e
condecoração. A nenhum homem publico é comtudo lícito
aspirar a necrológio mais honroso do que o traçado pelo en-
carregado de negócios M a l e r ( 3 ) no dia immediato ao do

(1) Oiffi>ciü de 30 de Ju]ho de 1816, iUdem.


( 2 ) 11 de J a n e i r o de 1812.
(3) Officio d€ 25 de J a n e i r o de 1817, ibidem.
174 DOM JOÃO VI NO BRAZIL

fallecimento do respeitável fidalgo, por quem D o m João V I


professava tão particular estima e em quem depositava con-
fiança tão i l l i m i t a d a que, contra a própria opinião do interes-
sado — o qual comprehendia que por f i m lhe faltava energia
physica para se occupar de u m ministério, quanto mais de
quatro, e da presidência de varias juntas, do commercio,
agricultura, navegação, erário, etc. — fora cumulando sobre
elle emprego e mais emprego, cada qual mais oneroso. Seria
de certo porque lhe reconhecia a perfeita integridade ( i ) .
" Depois de ter sido governador geral em São Salvador e
vice-rei no R i o durante treze annos e primeiro ministro nove
annos, morre sem legar uma choupana á viuva, sem deixar
sequer uma mobília decente. Sei positivamente que não se
achou em casa dinheiro sufficiente para o custeio do funeral.
T a n t a virtude, tamanho desprendimento seria formosíssimo
em qualquer paiz, mas no B r a z i l , Monsenhor, é admirável,
é incrível ! " M a l e r fecha com estas palavras o seu singular
elogio fúnebre d'aquelle a quem distingue com os epithetos de
" patriarcha tão raro quanto veneravel, e coração o mais
nobre e o mais leal."
O alto pessoal político que agora rodeava o Príncipe
Regente era portanto bem superior, no conjuncto e indivi-
dualmente, aos personagens que por u l t i m o em P o r t u g a l o
cercavam ao despacho: u m L u i z de Vasconcellos, que um
insulto apoplectico tornara rrçeio imbecil e que o auctor ano-
nymo da Histoire de Jean V I descreve ganancioso, igno-

(1) E-sta integridade tornava A g u i a r m u i t o insensível ás im-


portunações dos pretendentes, mesmo e sobretudo quando se concre-
tizarvam em mimos. "Einpenhos para o Conde não os ha ; e todos
fogem d'-elle, e querem antes f a l l a r com o Diabo, como ha dias me
disse o Confessor de S. A. R. Fr. Joaquim de S. José, Ouço dizer que
a única pessoa, a quem o dito Conde attende e respeita, he a Antônio
de Araújo; " (Carta de Marrocos de 4 de Março de 1812).
I

BOM JOÃO VI NO BRAZIL 175

rante, guloso, apresentando por principal recommendação ao


cargo de secretario da fazenda o enthesourar numerário nos
cofres reaes, resultado que seria em extremo louvável si não
fosse alcançado com retardar os vencimentos dos empre-
gados públicos e os pagamentos aos credores do Estado. E r a
voz corrente que para si próprio não deixava de mostrar-se
menos cupido e avarento o antigo vice-rei do B r a z i l , a quem
o R i o de Janeiro deveu incontestáveis melhoramentos e que
Silva A l v a r e n g a cantou como:

Egrégia flor da lusitana gente,


N o b r e inveja da estranha,
D e antigos reis preclaro descendente,
L u i z , a quem se h u m i l h a quanto banha
D o grão tridente o largo senhorio,
Desde o amazonio até o argenteo r i o .

Pelo menos escrevia d'esta egrégia flor com menos en-


thusiasmo D, Rodrigo ( i ) , referindo-se á nova j u n t a do
Erário, que lhe assegurara pessoa sensata que nenhum dos
seus membros sabia contar, e eram todos indivíduos a quem
ninguém confiaria u m só real, excepto a Luiz de Vasconcel-
los pelo muito dinheiro que trouxe do Rio de Janeiro. D i z
porém Jacome R a t t o n ( 2 ) , o qual era homem de negócios e
conhecia admiravelmente a sociedade portugueza do seu
tempo, que a riqueza accumulada, segundo era fama geral
no B r a z i l pela economia de L u i z de Vasconcellos, não ap-
pareceu, nem antes nem depois da sua morte.
D e V i l l a Verde, o o u t r o ministro do Príncipe em Lisboa
além de Antônio de Araújo, escrevia com graça na mesma

(1) Carta cit. ao Príncipe Regente de Novembro de 1799, no


Anoli. Puto. do R i o de J a n e i r o .
(2) Rcooixlações.
176 DOM JOÃO V I NO B R A Z I L

carta o m o r d a z D. R o d r i g o " que nunca l e u na sua Vida


u m l i v r o inteiro, que f o i a fábula de toda a Europa, onde
era conhecido como jogador, e com o ridículo epitheto — Le
gros D. Diégue — e que nada entende de negócios políticos."
Parece effectivamente que le gros D. Diegue, antigo embai-
xador em M a d r i d e em Roma, não passava m u i t o de um
jogador de profissão com alguma habilidade e finura, talvez
fosse mais acertado dizer com bastante manha e perfídia,
mas com pouca instrucção e menores escrúpulos, ambicioso
e venal. A duqueza d'Abrantes d'elle nos deixou uma es-
plendida caricatura com o seu ventre desconforme, a sua
respiração offegante e ruidosa, o seu appetite voraz e o seu
consumo insaciável de agua gelada.
Os negócios entravam a ser confiados a intelligencias
mais cultas e mãos mais destras e enérgicas. O gabinete do
R i o de Janeiro continha duas pessoas summamente dignas
e da maior compostura, afora u m ministro de talento muito
acima do ordinário e de toda a seriedade. A duqueza de
Abrantes, que não peccava por n i m i a indulgência, assim se
externa sobre A g u i a r e L i n h a r e s : ( i ) H a v i a então (1807)
em Lisboa dous homens m u i t o capazes de executar cousas no-
táveis no interesse da nação. U m era D. Fernando de Por-
tugal, o outro D. Rodrigo de Souza. Este u l t i m o sobretudo
possuía mais ainda do que o talento, aquillo que n u m dia
de perigo pode unicamente salvar o Estado. E r a verdadei-
ramente patriota . M a d a m e J u n o t não se mostrou
JJ
menos
gentil para com o visconde da Anadia, a quem qualifica de
u m d'esses homens de que a gente se sente feliz em fazer
o conhecimento. N o R i o era u m solitário, quasi u m misan-
thropo, soffrendo com as desgraças da pátria ausente, pouco

(1) Mémoires, Tomo V1I1I.


DOM JOÃO V I NO B R A Z I L 177

sympathico á pátria de refugio, sem esperanças de assistir


a um f u t u r o melhor e procurando consolar-se das amargu-
ras do presente, que prognosticara, com os encantos das
artes, das quaes cultivava com esmero uma, a musica (i).
A g u i a r buscava desenfado na l i t t e r a t u r a : u m dos p r i -
meiros livros impressos no R i o de Janeiro, n# typographia
trazida pela mudança da corte, f o i a sua traducção do i n -
glez do Ensaio sobre a Critica, de Pope. Já não teria portanto
D. Rodrigo pretexto para escrever como o fizera nove annos
antes ( 2 ) que " tremia pela conservação da sagrada pessoa
do príncipe e da monarquia, quando via que o príncipe digna-
va-se ouvir sobre matéria tão d i f f i c i l e que exige tantas luzes,
qual o estabelecimento de u m systema federativo para a se-
gurança da sua Real Coroa trez homens como o D u q u e
(Lafões), o conde de V i l l a Verde, e o conde regedor (Pom-
beiro), que são hospedes em todos os conhecimentos de his-
toria, Memórias e Transacções que desde a paz de West-
phalia até aos nossos dias f o r m a m o D i r e i t o Publico da Eu-
ropa."
D a firmeza de D. Rodrigo pode-se em particular tão
pouco duvidar como da sua abundância de noções. Por occa-
sião das imposições de Napoleão relativas ao bloqueio con-
tinental, quando Antônio de Araújo só procurava o modo
de comprazer ao Imperador dando-se disfarçadamente tempo
aos negociantes inglezes para liquidarem suas casas e trans-
portarem seus bens, fora elle o único conselheiro d'Estado
a encarar desassombradamente a hypothese de guerra com a
França, para isto apromptando-se 70.000 homens e lançando-
se m ã o de 40 milhões de cruzados. Nos conselhos de 18 de

(1) Mémoires, Tomo V.


(•2) C a r t a cit. de Novembro de 1799.
178 DOM JOÃO V I NO BRAZIL

Agosto, em M a f r a , e de 29 de Setembro de 1807, na Ajuda,


desenvolveu D. R o d r i g o de Souza Coutinho com sincera
eloqüência o seu parecer ( 1 ) . Si n'elle, em vista da falta
de todo preparo m i l i t a r do Reino, opinava pela remoção im-
mediata da família real para o B r a z i l , pretendia que se ado-
ptasse m u i t o mais nobremente o proceder inverso do que
foi seguido. Entendia D. R o d r i g o que, antes de emigrar
sob a pressão das circumstancias, o Príncipe Regente decla-
rasse a guerra á França, ao mesmo tempo que repudiava a
forçada annuencia dada ás cláusulas de detenção e seqüestro;
não que fosse o Regente para a A m e r i c a dar o signal do
rompimento das hostilidades, na perfeita segurança da sua
pessoa, o que achava justo, não achando porém leal nem
decoroso que, embora no f i t o de t i r a r pretexto á conquista,
ordenasse antes de embarcar aos magistrados das villas
extremenhas que fornecessem quartéis aos soldados france-
zes, e ao marquez d'Alorna, governador do Alemtejo, que
tratasse as tropas alliadas como amigas.
A' sua fogosa imaginação sorria a perspectiva de uma
franca repulsa, seguida de u m a franca lucta, que elle com-
prehendia todavia impossível. N o foro da consciência do
ríspido estadista nunca poderiam encontrar misericórdia os
culpados d'essa humilhação, e culpados eram aquelles a
quem cabia a obrigação de cuidar das cousas da guerra e se
t i n h a m engolfado nos prazeres da paz. P o r isso abominava
Lafões, o polido fidalgo octogenário que e Príncipe Regente
teimara em conservar á frente do exeréito para o deixar
bater vergonhosamente pelos Hespanhoes. D. Rodrigo nunca
o poupou em sua usual sarcástica franqueza, que ministros

(1) Dooum. do Arch. Dnimmond, publicados por A. J. de Mello


Moraes n a Chorog. do Imp. do Brasil, Tomo I .
DOM JOÃO VI NO BRAZIL 179

de monarChias constitucionaes nem todos i m i t a r i a m depois,


e si houvesse sido attendido, não se teria offerecido ao i n i -
migo o grotesco espectaculo das pernas gottosas do genera-
lissimo, m a u grado as dores cruciantes, apertando no galope
as ilhargas do ginete, o qual apresentava aos soldados do
príncipe da Paz não a fina cabeça, mas a l u z i d a garupa.
Verberando por esse tempo como u m attentado contra
a real auctoridade a sem-cerimonia com que Lafões expedia
avisos de pagamentos ás thesourarias geraes da tropa, com-
mentava acremente D. R o d r i g o : " Se V. A. R. permitte ao
D u q u e que abra os seus Tesoiros, em breve nada ficará no
Erário, pois que aquelles que ò rodeião não s'esquecem que
tem 83 annos, e querem aproveitar todos os instantes da
sua vida. Digne-se V. A. R. lembrar-se que aquelle mesmo
ministro que tanto t e m representado contra a Democracia,
e os Demagogos, he o mesmo que lembra a V. A. R., com
o devido acatamento, que não se pondo freio ás idéas, e
vistas aristocráticas do Duque, ha de V. A. R. vêr que elle
perde a M o n a r q u i a , assim como desorganisou o E x e r c i t o "
( 1 ) . E a verdade é que da obra severamente disciplinadora
do conde de Lippe, pouco ficara sob o relaxamento do gar-
rido m i l i t a r acadêmico que movia guerras nos salões e exe-
cutava piruetas nos campos de batalha.
O ruinoso tratado que foi conseqüência da i n f e l i z cam-
panha, a chamada paz de Badajoz, levou ao paroxysmo o
desespero patriótico de D. Rodrigo. "Antes quizemos sa-
crificar tudo do que tentar uma defensa gloriosa, ainda
quando fosse i n f e l i z . . . esquecendo-nos da nullidade con-
fessada da Espanha, que declarava ter já reduzido o Exercito

(1) Oarta de 25 de Abril de 1801, no Arch. Pub. do Rio de


Janeiro.
D. j . — 12
180 DOM JOÃO V I NO B R A Z I L

de vinte m i l homens e estar sem recursos alguns" ( i ) . Pediu


formalmente sua demissão e por ella insistiu, recusando-se
até a subir á real presença antes de lh'a ser concedida.
" Procuro a V. A. R., sem que o seu benigno coração haja
de sofrer violência, h u m meio de mostrar á Espanha e Fran-
ça que despede h u m ministro de sentimentos tão contrários
ás vistas de ambos os governos, no momento em que vai
unir-se de interesse com elles, não dando esta resolução
sombra á G r a m Bretanha, pois que não pode ignorar o mo-
tivo por que V. A. R. se digna acceitar-me a minha de-
missão."
N'esta mesma carta increpava elle o Príncipe Regente
por não se ter defendido até a ultima extremidade, até ao
ponto de " transportar a capital do Império (se necessário
assim fosse) para o B r a z i l antes do que acceitar condições
duras, e ignominiosas." N ã o era então a primeira vez que
D. Rodrigo pensava na colônia americana, pois que cuidara
anteriormente em zelar-lhe a existência, integridade e pros-
peridade. L o g o no inicio da sua carreira de estadista, preoc-
cupara-se extraordinariamente com o estado precário da de-
feza do B r a z i l , escrevendo que este negocio lhe não deixava
um momento de tranquillidade, por temer u m golpe de mão
dos Francezes. "Se V. A. R. fosse servido ordenar ao seu
M i n i s t r o em Londres que solicitasse doze ou dezoito naus
de linha, que viessem para o porto de Lisboa incorporar-se
com seis naus de l i n h a de V. A. R., então poderião expedir-se
para o R i o de Janeiro cinco ou seis naus de linha com algu-
mas fragatas, que d'ali cobririão o B r a z i l , visto que do Rio

(1) Carta de 7 de Outubro de 1801, no Ar<eh. Pu.b. do Rio de


Janeiro.
DOM JOÃO VI NO BRAZIL 1S1

de Janeiro se v a i á Bahia em oito ou quinze dias, e ao R i o


Grande no mesmo tempo, com pouca differença" ( i ) .
A solicitude administrativa de D. Rodrigo timbrava em
a t t i n g i r todos os assumptos a que se applicava a sua i n t e l l i -
gencia de uma extrema versatilidade. N o B r a z i l , onde era
vasto e quasi virgem o campo das reformas, elle havia de
dedicar-se a m i l assumptos de uma vez, tratando até de
desenvolver a criação de ovelhas para beneficio da industria
de lanificios, melhorar a raça cavallar com a importação de
animaeç andinos, e acclimar vigonhos e alpacas das regiões
montanhosas do Pacifico (2). E sempre fôra este o seu
modo de proceder na vida publica, misturando novidades
problemáticas com resoluções atiladas. Assim u m aviso de
22 de N o v e m b r o de 1796, expedido ao governador do Pará
D. Francisco de Souza Coutinho, seu irmão, dispõe — e o
ministro apenas havia tomado conta da pasta — o que hoje
ainda não possue methodicamente o B r a z i l : o estabeleci-
mento de u m systema f i x o para os cortes regulares de madei-
ras das mattas e de u m plano para assegurar a sua reproduc-
ção, bem como promover a sua exportação para os outros pai-
zes da Europa ( 3 ) .
O peor é que dos excellentes planos de D. Rodrigo nern
a décima parte se executava, não tanto porque faltassem ao
auctor vigor e constância para os levar até ao f i m , como
porque lhes era o meio hostil, por excesso de apathia, natu-
r a l e voluntária. E m redor do Príncipe, na nova como na
antiga corte, escasseavam os homens de entendimento e

(1) C a r t a de 30 de Setembro de 1TO6, no Anch. Pub. do R i o


de J a n e i r o .
(2) C a r t a s de F. Contucci, no A r c h . do Min. das R e i . E x t . do
Brazil.
;
( 3) Ar<ôh. Pub. do R i o de Janeiro.
182 DOM JOÃO VI NO BRAZIL

honestidade. N o R i o de Janeiro p u l l u l a v a u m mundo de


ineptos e parasitas. " A q u i , Deus louvado, exclamava Mar-
rocos, he huma ignorância soffrega, ou huma soffreguidão
m a t e r i a l " ( i ) . E r a gente essa, que em grande parte tinha
emigrado de Lisboa pretextando lealdade e devoção á pes-
soa do Regente e reclamava agora fartos meios de subsis-
tência, em troca dos que lembrava haver abandonado no
Reino á cobiça franceza. A s cartas de M a r r o c o s quasi só
se referem a empregos concedidos, pretendidos, creados, sug-
geridos, disputados. Até o anno de 1819 a folha das pen-
sões annuaes pagas do bolsinho do soberano, que tanto valia
então dizer o Erário, subia a mais de 164 contos, devendo
nós para estimação duplicar o valor da moeda. A o discri-
minar a população do Rio, Luccock conta u m m i l h a r de em-
pregados públicos e outro milhar de dependentes da
corte ( 2 ) .
N u n c a talvez como n'esses dias se desvendou tanto em
P o r t u g a l o i n t i m o accordo, feito todo de interesse e de depen-
dência, que então ligava a realeza absoluta e as classes pri-
vilegiadas. O Príncipe Regente não desmentiu as tradições
da coroa, antes se portou por occasião da retirada para o

01) Canta de 11 de Janeiro de 1812.


02) Por esta estatística eram 500 os legistas, 200 os médicos e
2.000 os lojistas, o que prova que si prosperava o negocio, também
medrava a chicana. Não deixava igualmente de ter f o r t u n a a religião,
existindo no Rio um exercito de 700 religiosos, entre regulares e se-
culares, 'muito melhor retribuído do que a genuina instituição militar.
Note-ise que Dom João V I , sendo supersticioso, nada t i n h a de beato,
nem obedecia á influencia do elemento monastico. A sua biographâa
anonyma de 1827 chega a dizer que elle não prezava em extremo os
frades e não mostrava fervor na pratica dos deveres religiosos, des-
corando mesmo a confissão. O seu cultivo do canto-chão era apenas
uma face da sua paixão peLa musica e a sua convivência com monges
uma manifestação do seu espirito affavel e tolerante. O Padre Luiz
Gonçalves dos Sanctos dá para a capital o numero de 320 religiosos.
n'uma epocha comtudo anterior áquella em que o commeaiciante inglez
reuniu a s suas valiosas notas.
DOM J O Ã O V I NO BRAZIL 183

B r a z i l , para com aquelles que q u i z e r a m p a r t i l h a r da sua


sorte, d a m a n e i r a mais generosa. A s s e g u r o u pensões aos
t i t u l a r e s e mais f i d a l g o s da r e g i a c o m i t i v a ; concedeu um
posto de accesso aos officiaes da a r m a d a que t i n h a m s e r v i d o
a trasladação; c o l l o c o u em novos l u g a r e s n a colônia os o f f i -
ciaes do e x e r c i t o que p a r a e l l a se m u d a r a m ; d i s t r i b u i o be-
nefícios e empregos, vagos o u creados adrede, pelos eccle-
siasticos e c i v i s da t u r b a - m u l t a m i g r a n t e . " A s s i m , não h o u v e
huma só pessoa de tantas, que se e x p a t r i a r a m voluntaria-
m e n t e pelo a m o r de seu soberano, que não recebesse das suas
liberaes m ã o s a recompensa de tão g r a n d e sacrifício, segundo
a condição, p r e s t i m o e capacidade das mesmas" (i).
O s habitantes do R i o de J a n e i r o , bem como os d a Ba-
hia, t i v e r a m o seu quinhão mais modesto na a m p l a semen-
t e i r a de dignidades, honras, mercês e o f f i c i o s a que p r o c e d e u
o Príncipe Regente. Diffícilmente porém c o m p e n s a r i a m em
m u i t o s casos essa pródiga exhibição de amor e sollicitude pa-
terna, c o n f o r m e a q u a l i f i c a o padre L u i z Gonçalves, os
sérios vexames que a g r a n d e n u m e r o de habitantes da capi-
t a l b r a z i l e i r a a c a r r e t a r a a trasladação da corte. T o r n a r a m - s e
proverbiaes os i n c o m m o d o s s o f f r i d o s pelos mais abastados,
o u m e l h o r pelos alojados mais a commodo, t e n d o que ceder
suas residências, p o r imposição p r e v i a do vice-rei conde dos
A r c o s , aos nobres, clérigos, m i l i t a r e s e b u r o c r a t a s do acom-
p a n h a m e n t o r e a l , e se r e f u g i a r nos subúrbios o u em casas
acanhadíssimas.
V e r d a d e é que a b o n h o m i a n a c i o n a l se não a l t e r o u c o m
semelhante applicação do r e g i m e n das aposentadorias, pare-
cendo ser de todo p o n t o exacto o que c o n t a m os chronistas

(1) Padre Luiz Gonçalves dos Sanctos, ob. cit.


184 DOM JOÃO V I NO BRAZIL

do tempo, a saber, que a cessão das casas f o i feita no geral


da melhor vontade, com uma encantadora franqueza, por-
ventura por alguns com m i r a interesseira, mas por muitos
com o prazer i n t i m o de serem úteis, cada u m na sua es-
phera, á família real exilada e ao seu séquito. Chegou a libe-
ralidade ao ponto de proprietários comprarem trastes e ob-
jectos de valor para melhor adorno das habitações que dei-
xavam com suas carruagens, bestas e escravos, para uso e
maior luzimento dos emigrados a cuja disposição ficavam.
Só no artigo fidalgos, não eram poucos os que de Lisboa
t i n h a m sa'hido para i r e m f o r m a r no R i o de Janeiro a corte
do Príncipe foragido. U m duque, o de Cadaval, fallecido
na Bahia, onde adoeceu na passagem da esquadra; sete mar-
quezes, os de Alegrete, Angeja, Bellas, L a v r a d i o , Pombal,
T o r r e s Novas e Vagos ; as marquezas de São M i g u e l e Lu-
miares; os condes de Belmonte, Caparica, Cavalleiros, Pom-
beiro e Redondo. A f o r a os planetas, u m m i l h a r de satelli-
tes, monsenhores, desembargadores, médicos, açafatas, re-
posteiros, outros empregados da real casa, sem fallar na
t r i b u dos Lobatos, do serviço particular e da maior privança
de D o m João, de quem constituíam a camarilha, juntamente
com o padre João, seu afilhado, e seu secretario, o esperto
brazileiro José Egydio ( I ) .
Ao que parece, aquella gente abusou da bizarra hospi-
talidade com que a receberam os habitantes mais endinhei-
rados do Rio de Janeiro e da qual f o i também alvo o Prín-
cipe, a quem o negociante Elias Antônio Lopes doou a quinta
da Boa Vista, em São Christovão. O m i m o não podia ser
senão acolhido com agrado porquanto deixava m u i t o a dese-

(1) Depois visconde e marquez de Santo Amaro.


DOM JOÃO VI NO BRAZIL 185

j a r o alojamento no Paço da cidade não só sob o ponto de


vista do conforto, mas mesmo do espaço sufficiente para a
numerosa família real e seus cortezãos e fâmulos, apezar
do ex-palacio dos governadores e vice-reis haver annexado
com passadiços o convento do Carmo, a antiga casa da Câ-
mara e cadeia. A generosidade de Elias Lopes foi u m tanto
commercial, pois que o doador mais tarde apresentou a
conta ao presenteado; os religiosos de São Bento gastaram
porém sem segunda intenção para mais de cem m i l cruzados
no palacete de recreio que, com destino a D o m João, prepa-
raram na ilha do Governador.
Estas installações eram indícios de que a corte se de-
morava no B r a z i l . Entretanto, pretextando com razão não
acharem casas para alugar, iam os fidalgos ficando n'aquellas
em que de principio se t i n h a m aboletado, offerecendo pagar
boas rendas, que algumas vezes ficavam em promessa e ou-
tras eram benevolamente recusadas pelos senhorios. M e l l o
Moraes cita os casos do conde de Belmonte, que assim mo-
r o u dez annos na residência do patrão-mór, e da duqueza de
Cadaval, que residiu igual tempo ou quasi na chácara do
coronel Alves da Costa, ao f i m da r u a da Lapa. Deram-se
mesmo abusos peores. Casos houve em que uma habitação,
tomada a t i t u l o de aposentadoria, era sublocada p o r maior
preço, embolsando o supposto hospede a differença, e até
se tornando occasionalmente o próprio senhorio o inquilino
do seu inquilino ! ( i )
Taes factos, que se deram mas não f o r a m por certo tão
communs quanto o querem deixar perceber alguns historia-

(1) A abolição do direito de aposentadoria, que viera a ser


extremo impopular, f o i incluída entre as mercês feitas por ]
João V I por owesião da sua coroacão, em Fevereiro de 1818,
186 DOM JOÃO V I NO B R A Z I L

dores sem critica, deviam considerar-se as naturaes conse-


qüências de u m regimen social em que a aristocracia e o
clero, mais vivendo da monarchia do que para a monarchia,
já não constituíam as classes protectoras do povo, mas sim as
classes parasitas da nação. Assim occorria havia muito, e
nada ahi ha que estranhar. D a nobreza do reino escrevia em
1805 a duqueza de Abrantes, molhando em desprezo a penna
maliciosa, que não continha elemento a l g u m de que se pu-
desse t i r a r partido em tempos calamitosos, quando viesse
a pátria a perigar. Chegava a embaixatriz de França a du-
vidar de que a expressão pátria encerrasse valor para seme-
lhante gente.
Os acontecimentos a não desmentiram. Compunha-se
com effeito de nobres, com alguns prelados, a embaixada
que f o i a Bayonna pro9ternar-se diante de Napoleão, em-
quanto o povo se armava de cacetes e chuços para a resis-
tência ao exercito invasor. Fidalgos de alta linhagem, como
D. Lourenço de L i m a , embaixador em P a r i z , e o conde da
Ega, embaixador em M a d r i d , sabemos como se v i r a m ac-
cusados, sem lograrem defender-se satisfactoriamente, de
terem conspirado em favor das machinações francezas contra
o seu legitimo soberano. P o r isso andaram longos annos refu-
giados nas cortes do norte, D. Lourenço até ameaçado em
Londres de i r para a cadeia por dividas, do que o l i v r o u a
amizade de F u n c h a l e depois a de Palmella, de cujos auxílios
por f i m v i v i a ( 1 ) . T ã o convencido ficara o Príncipe Re-
gente da aleivosia d'aquelles fidalgos que sempre chamava
o conde da Ega desgraçado ( 2 ) , e sobre D. Lourenço pro-
ferio as seguintes palavras a propósito do perdão do marquez

(1) CoiT.e,siponidencia no Arch. do M i n . dais Rei. Ext. do Brazil.


(.2) Carta de Marrocos d 13 de A b r i l de 1813.
e
DOM JOÃO VI NO BRAZIL 187

de Loulé, por quem se interessara vivamente o coronel


M a l e r : "Esse traidor veio a todo o galope a Lisboa para me
enganar e sacudir como Fernando na armadilha de Bona-
parte " ( i ) .

Accresce que a corte portugueza, sobre ser composta de


elementos no geral de questionável valia, tratava o R i o de
Janeiro, quanto lh'o consentiam, como terra conquistada,
encarando-a sempre como um ponto de residência obrigada,
porem ephemera, e desagradável. Ralados de saudades de
Lisboa, os nobres detestavam commummente a capital bra-
zileira. A f o r a o Príncipe, poucos eram os que estimavam o
B r a z i l ou que lhe faziam sequer justiça. T a l amo, t a l criado.
Marrocos pode dizer-se que reflectia fielmente a opinião dos
fidalgos que o protegiam, e suas cartas, espelho dos ditos
azedos que fermentavam nas conversas portuguezas, trazem
um testemunho irrefutável d a q u e l l e estado de espirito, que
não é injusto appellidar de collectivo.
Achava M a r r o c o s o ar do R i o infernal, cheio de mp-
lestias "pelos vapores crassos e corruptos do terreno e humo-
res pestiferos da negraria e escravatura"; comparava a c i -
dade de São Sebastião com o peor bairro de Lisboa, que era
o de A l f a m a , ou fazendo-lhe muito favor, com o B a i r r o A l t o
nos seus districtos mais porcos e immundos ( 2 ) ; dizia ser
" o clima mais pestifero do que o de Cacheu, Caconda, Mo-
çambique, e todos os mais da Costa de Leste, andando sem-
pre o S. Viatico por casa dos enfermos, de dia e de noute
as Igrejas continuamente dando signaes de defuntos ", e ha-
vendo elle pouco antes sabido que só na egreja da M i s e r i -

(1) Oifficio de 6 de Setembro de 1818, no A r c h . do Min. dos


Neg. E s t . de Blrança.
(2) C a r t a de 24 de Outuibro de 1811.
188 DOM JOÃO V I NO BRAZIL

cor-dia t i n h a m sido enterradas no anno de 1811 para cima


de 300 pessoas naturaes de Lisboa ! ( 1 )
Confessando que preferia vegetar m u i pobre em Lisboa
a viver no R i o com grandes riquezas, e para mostrar que

(1) C a r t a de 27 de Fevereiro de 1812. N'este capitulo da mor-


talidade e dos máos ares da t e r r a parecia nunca se esgotar a sua bilis.
A 3 de A b r i l de 181i2, desanimado com seus ataques de cabeça, escrevia
ao p a i : " I s t o me desconsola quanto é possivel, pois vejo morrer no
dia as dúzias! Tem sido t a l o contagio, que em 'poucas semanas tem
morrido mais de m i l pessoas; e S. A. R. retirou-se para a sua chácara
de S. Christovão com tenção de passar para Santa Cruz, mas não se
efifectuou esta, por se sa'ber que tamíbem a l l i havia o mesmo conta-
gio A q u i he o que se ouve ; e quando se encontra qualquer pes-
soa, se não pergunta se tem saúde, mas sim de que se queixai" Os
gastos da convalescença da " u l t i m a doença " estavam-no arruinando,
queixava-se elle: " Custa-me cada copinho m u i pequeno de Jaleia de
substancia 1.920 rs. e cada g a r r a f a de vinho de Champagne 2.500 rs... "
Com a irmã era menos respeitoso o seu desafogo. Escrevia-lhe a
31 de Março de 18112 : " Daqui só te posso mandar informações fasti-
diosas : a terra he a peior do Mundo; a gente he indignlssima, soberba,
vaidosa, l i b e r t i n a ; os animaes são feios, venenosos, e m u i t o s ; em fim
eoi crismei a terra, chamanldo-lhe terra de sevandijag; porque gente e
brutos todos são sevaandijas."
Ao darem as vantagens alcançadas na Peninsula sobre os Fran-
cezes visos de probabilidade ao regresso próximo da côrte, o mau
humor do pobre rato de bibliotheica, ainda m e t t i d o entre os Manus-
criptos da Coroa, com fumiaças de bibliographo e sem grandes espe-
ranças de romper victo;riosa<inente a chusma dos pretendentes hostis,
aperreado pelo calor, pelas saudades da vida lisboeta e sobretudo pelas
decepções, expandia-se feroz : "(Deus queira appnoximar já esse instante
para nossa maior satisfação e descanso, que me parece não terei em
minha vida outro maior. E u estou tão escandalizado do Paiz, que delle
nada quero, e quando daqui salhir, não me esquecerei de limpar as
botas ás bordas do Oaes. para não levar o mínimo vestígio desta terra,
tão benéfica, que mem aos sens perdoa : e eu com a maior parte dos
queixosos lhe pagaremos com grande usura os bons efíeitos de sua con-
dição.
'Meu Pay, quando se t r a t a das más qualidades do B r a z i l he para
m i m matéria vasta em odio e zanga, sahindo f o r a dos limites da pru-
dência ; e julgo que até dormindo praguejo contra elle. Podia o Sr.
D. Luiz da Cunha se fosse vivo, jactar-se da sua combinação política
sobre o estabelleclmento da nossa Monarquia no centro do B r a z i l , por-
que puerilmente e r r o u : o grande M i n i s t r o de Estado, Mr. P i t t , se
existisse, que cara não f a r i a vendo posto em execução o seu plano mo-
derno sobre o comimercio do B r a z i l , e achando que a Nação Britan-
nica he a primeira que experimentou vantagens negativas com este
Paiz, que lhe faz dar á costa grandes casas de Negocio, em prêmio de
suas delicadezas políticas?" (Carta de 17 de Novembro de 1812).
DOM JOÃO V I NO B R A Z I L 189

não era o único a assim pensar, contava o rabujento archi-


vista uma engraçada anecdota passada com D. Francisco
d'Almeida. Perguntando o Príncipe Regente a esse fidalgo
recém-chegado á côrte que tal achava o paiz, respondeu elle
com o maior desembaraço: Senhor, eu sempre ouvi dizer aos
papagaios d'America — Papagaio real... para Portugal — .
" Palavras estas, commenta Marrocos, que têm feito descar-
regar uma grossa chuva das mais horrorosas pragas dos Bra-
zileiros e Brazileiras sem esperança de armisticio. ,,

A impaciência do regresso dava frenesis a esses emi-


grados postiços, e de azedume os roera desde que tinham
posto pé em terra. Como a Rainha doida, elles v i v i a m men-
talmente em Lisboa e em Queluz. Comtudo, sendo pre-
ciso dotar o acampamento com ares de côrte, mesmo porque
ninguém podia de seguro prever o tempo que duraria a ty-
rannia do Corso sobre a Europa, trataram os nobres de m i -
tigar as suas saudades refazendo em tudo e por tudo a capi-
tal desertada, transformando o R i o n u m a copia, por mais
imperfeita que sempre a achassem, da querida Lisboa. A ad-
ministração, por motivos menos pessoaes e mais elevados, lhes
secundou o intento ao applicar os planos que trazia nas suas
pastas. A s mesmas repartições portuguezas superiores foram
estabelecidas no B r a z i l , com o mesmo espirito de rotina bu-
rocrática e o mesmo pessoal indolente e cupido, erguendo
porém a colônia da sua postura de dependência e dando-lhe
foros de soberania. A s mesmas instituições judiciarias, m i l i t a -
res, escolares, f o r a m creadas, com as mesmas falhas e vícios,
mas com effeitos salutares sobre a economia m o r a l de u m
paiz segregado até então de tudo quanto importava em
autonomia intellectual e personalidade jurídica interna-
cional.
190 DOM JOÃO VI NO BRAZIL

Outras vantagens mais, e excellentes, lucrou immedia-


tamente a colônia com a honra que, no entender da côrte
de Lisboa, a sua temporária assistência dispensava á capital
brazileira. Tornou-se livre a industria, como livre se tornou
o commercio graças ás circumstancias do momento de que
se valeram os esforços de José da Silva Lisboa. F o i o futuro
visconde de Cayrú quem de facto na passagem do Príncipe
Regente pela B a h i a — o n d e arribou a 22 de Janeiro e donde
singrou a 26 de Fevereiro—obteve por intermédio de D. Fer-
nando José de Portugal a decretação de uma tão revolucio-
naria medida.
A carta regia de 28 de Janeiro de 1808 abriu os portos
do B r a z i l a todas as importações de fora realizadas directa-
mente, sujeitas ao pagamento de direitos alfandegários no
valor de 24 por cento, cem distincção dos navios nacionaes ou
estrangeiros em que fossem transportadas. M a i s tarde o al-
mirante da esquadra britannica Sir SidneySmith e o cônsul
inglez Sir James Gambier obtiveram, pelas suas instâncias
exercidas antes da chegada de l o r d Strangford, que a essa
taxa única e indiscriminadamente cobrada, quer as mercado-
rias fossem para consumo no próprio lugar, quer se desti-
nassem a reexportação, com uma uniformidade que gravava
extraordinariamente o commercio, se appensasse muito racio-
nalmente uma taxa alternativa de transito de 4 por cento.
Nos mesmos navios nacionaes ou estrangeiros tornou-se legal
a exportação tributada de productos brazileiros por conta de
qualquer, filho da terra ou de fora, excepção feita do tradi-
cional pau-brazil e dos artigos estancados ou de monopólio.
As manufacturas passaram a ser legaes por virtude de
outra carta regia, disposição esta que eqüivalia a descerrar
DOM JOÃO V I NO B R A Z I L 191

a p o r t a ao c a p i t a l b e m c o m o ao t r a b a l h o estrangeiro, sem
differença de n a c i o n a l i d a d e o u de credo religioso, e a lançar
os alicerces da i n d u s t r i a b r a z i l e i r a ao mesmo t e m p o que se
lançavam os do seu c o m m e r c i o e x t e r i o r .
A celebrada a b e r t u r a dos p o r t o s nacionaes constituio
em v e r d a d e u m a m e d i d a a l t a m e n t e s y m p a t h i c a e l i b e r a l , mas
não se pode d i z e r que representasse u m a desinteressada e
i n t e n c i o n a l c o r t e z i a do Príncipe R e g e n t e aos seus subditos
u l t r a m a r i n o s . E r a antes u m a precaução econômica necessá-
r i a e inadiável p o r q u a n t o , estando n a occasião fechados p o r
m o t i v o da invasão e occupação f r a n c e z a os p o r t o s de Por-
t u g a l , que s e r v i a m de entrepostos e d i s t r i b u i d o r e s dos p r o -
ductos coloniaes, p a r e c e r i a simples loucura manter igual-
m e n t e fechados os p o r t o s do B r a z i l e assim condemnar a
u m a c o m p l e t a p a r a l y s i a o m o v i m e n t o de exportação e i m p o r -
tação n a colônia.
O m o m e n t o e r a azado e favorável á producção bra-
z i l e i r a . O e m b a r g o a m e r i c a n o d e t e r m i n a r a m a i o r p r o c u r a em
L o n d r e s e p o r t a n t o a subida dos preços de vários dos nossos
principaes gêneros, a começar pelo algodão. P e l o mesmo mo-
t i v o crescera o f u m o cinco vezes de v a l o r , e o u t r o t a n t o
acontecera ao a r r o z . T a m b é m o sebo a n d a v a a l t a m e n t e co-
tado, cerca de cento p o r cento e mais de a u g m e n t o , p o r ser
a r t i g o que c o s t u m a v a v i r d a Rússia, nação c o m a q u a l se
achava a I n g l a t e r r a então e m g u e r r a , p o r a l l i a d a d a França.
O próprio assucar, c u j o v a l o r diminuíra m u i t o pela impos-
s i b i l i d a d e de r e e x p o r t a l - o p a r a o c o n t i n e n t e da E u r o p a em
v i r t u d e do b l o q u e i o napoleonico, além da chegada de grandes
cargas das índias O r i e n t a e s e Occidentaes e do f a c t o de
p a g a r pesados d i r e i t o s todo o que não p r o c e d i a das colônias
inglezas, s u b i r a nos últimos tempos no m e r c a d o b r i t a n n i c o
192 DOM JOÃO V I NO B R A Z I L

por causa 'da procura dos distilladores de licores espirituosos,


prohibrdos de distillarem grãos comestíveis. A diminuição nas
taxas determinara augmento na venda do café apezar de,
não sendo producto colonial inglez, soffrer prohibição de
transacção para o consumo e ser somente franca a transac-
ção de exportação, não fazendo pois concorrência ao chá
da IndiaV Dos productos brazileiros apenas o anil não offe-
recia vantagens n'aquella epocha por sua qualidade muito
inferior e abundância do deposito existente; pois os couros
mesmo, comquanto os houvesse no momento em larga quan-
tidade e estivessem por isso baratos, representavam bom ne-
gocio, e bem assim a aguardente de canna, as drogas e o
cacao, comtanto que l i m p o de impurezas (i).
Nem a providencia da f r a n q u i a dos portos brazileiros
aproveitava então á marinha mercante portugueza, sim á in-
gleza, e f o i realmente decretada m u i t o para compensar das
suas perdas os alliados do Reino, senhores do mar e únicos
para quem n'aquella data tinha valor a concessão, a qual
contrabalançou de algum modo o prejuízo resultante dos
portos peninsulares trancados ao seu commercio. A peor
conseqüência da medida f o i de todo modo para Portugal
porquanto, não sendo paiz manufactureiro e consumindo rela-
tivamente pouco dos gêneros coloniaes, o que excluía um in-
tercâmbio regular, vivia economicamente das commissões, dos
fretes e do lucro do entreposto para os outros paizes. A In-
glaterra, como nação i n d u s t r i a l que já começara grande-
mente a ser, não experimentou os mesmos damnos immedia-
tos com a emancipação dos Estados Unidos, podendo sus-
tentar seu trafico mercantil. D o B r a z i l f o i o maior ganho,

(1) Correio Braziliense n. 7, Dezembro de 1808.

4
DOM JOÃO VI NO BRAZIL 193

visto que a l i b e r d a d e do c o m m e r c i o o r i g i n o u p a r a os seus


p r o d u c t o s u m a u g m e n t o de 4 0 a 6 0 p o r cento ( 1 ) .
O u t r a política estaria em desaccordo c o m o tempo. A
regência e r e i n a d o de D o m João V I , a saber, a transição do
século X V I I I p a r a o século X I X , f o i o período p o r excel-
lencia da florescência da economia política como scien-
cia theoríca e pratica. A carta r e g i a datada da Bahia
aos 23 de F e v e r e i r o de 1808, creando no R i o de Janeiro
uma cadeira dessa sciencia em beneficio de José d a S i l v a
L i s b o a , o nosso p r i m e i r o e copioso t r a t a d i s t a de d i r e i t o mer-
c a n t i l , d e c l a r a v a ser a b s o l u t a m e n t e necessário o estudo da
economia, sobretudo na conjunctura que o B r a z i l atraves-
sava " e em que o f f e r e c i a a m e l h o r occasião de se p o r e m e m
p r a t i c a m u i t o s dos seus princípios p a r a que os B r a z i l e i r o s ,
mais . instruídos, c o m mais v a n t a g e m pudessem servir o
Rei "

A o mesmo t e m p o que a i n d u s t r i a e o commercio, l i v r e se


t o r n a v a t a m b é m a a g r i c u l t u r a . Q u a n d o se e f f e c t u o u a mu-
dança da côrte, prevalecendo a i n d a o detestável sestro das
prohibições, que t a n t o c o n t r i b u i o p a r a o pernicioso exclusi-
vismo da producção b r a z i l e i r a , conservavam-se defesas va-
rias c u l t u r a s dignas de serem ensaiadas e fomentadas. O caso
o c c o r r i a , e n t r e outras, c o m a v i n h a , no i n t u i t o de l i v r a r de
entraves o p r i n c i p a l r a m o de c o m m e r c i o da metrópole, a
q u a l , sem concorrência possível, i a e x p o r t a n d o p a r a a colô-
n i a os seus a r t i g o s de i n f e r i o r q u a l i d a d e , c u s t a n d o a encon-
trar-se n o R i o , no d i z e r de L u c c o c k , u m a g a r r a f a de b o m
vinho.
Desde a l g u n s annos de resto que se c o m p r e h e n d e r a
e n t r e os estadistas d o R e i n o não p o d e r e m f i c a r as cousas n o

(1) Tollenare, o;b. c i t .


194 DOM JOÃO V I NO B R A Z I L

pé em que estavam. Seria impossível i r por mais tempo e


por completo contra as idéas predominantes. Já em 1801 es-
crevia D. R o d r i g o ( 1 ) que os alliados ( a I n g l a t e r r a sobre-
t u d o ) t i n h a m dilacerado o Príncipe "e se dispõem talvez
agora a t i r a r para o f u t u r o partido em qualquer caso da des-
graça de V. A. R. propondo-se gozar da abertura dos portos
do B r a z i l , que na Paz G e r a l lhes ha de ser commum, e da
entrada das manufacturas de algodão que vai conceder-se á
França, dando-se h u m f a t a l golpe á nossa industria."
O arraigado proteccionismo nacional, que Pombal ze-
lara e D. R o d r i g o queria então preservar, não desmente o
facto de achar-se na moda, pelo menos dentro dos limites de
cada paiz, a liberdade econômica. E o espirito do ministro
era bastante rasgado para, uma vez exercendo sua acção no
meio e sobre assumptos da colônia, coadjuvar francamente a
boa vontade do Regente em quaesquer medidas que não
fossem de caracter político, e das quaes pudessem resultar
para o B r a z i l proveito material e adiantamento. N o serviço
do seu Príncipe o ministro dos Negócios Estrangeiros e da
G u e r r a do primeiro gabinete brazileiro t i n h a aliás por norma
ir além das preoecupações de caracter pessoal e deixar-se
guiar por princípios e opportunidades; e tão convencida era
sempre sua política como eram suas antipathias. " Portugal
ha de ganhar mais, exclamava elle depois de se encontrar
no R i o de Janeiro, com o augmento que ha de ter o Brazil
depois dos liberaes princípios que V. A. R. mandou esta-
belecer, do que antes ganhava com o systema restricto e
colonial que existia; P o r t u g a l ha de ser sempre o deposito
n a t u r a l dos gêneros do B r a z i l , e o deposito ha de ser muito
maior; P o r t u g a l ha de ter melhor, e maior consumo para as
(1) Carta ao Príncipe Regente de 7 de Outuibro, no Arcb. Pub.
do Rio de Janeiro.


DOM JOÃO VI NO BRAZIL 195

suas producções e fabricas do que antes tinha; e finalmente


o exemplo do succedido em I n g l a t e r r a depois da separação
dos Estados Unidos que Smith predisse ha de também v e r i f i -
car-se em Portugal. " ( i )
Assim evoluía a mentalidade de D. R o d r i g o : nem me-
rece de justiça o nome de estadista aquelle que t i m b r a em
manter-se emperrado nas suas opiniões. A inconstância nem
sempre é fraqueza e a incoherencia algumas vezes é intel-
ligencia. Os reformadores vêem, porém, muitos dos seus pla-
nos falharem. N ã o basta que não duvidem do êxito de em-
preza alguma, nem que se não possam taxar de desarrazoa-
das suas idéas: é preciso ainda e sobretudo ter ao alcance os
meios de realização. E m projectos nunca era D. Rodrigo
tomado de surpreza, ainda que o dar-lhes execução pudesse
esfriar aquelles que com elle carregavam as responsabilidades
da administração.
Nos fins de 1808, por exemplo, sentia-se no mercado do
R i o de Janeiro f a l t a de carne, motivada não somente pelo
brusco augmento da população mais consumidora do gênero—
15.000 pessoas, ao que se refere, acompanharam a côrte—,
como pela secca e pelas especulações tendentes a levantar o
preço da venda a retalho, com duplo detrimento dos criado-
res e do publico. Consultado sobre o caso, não vacillou D.
R o d r i g o em achar-lhe adequada solução: abre-se u m cami-
nho de São Paulo para o R i o G r a n d e pelo paiz das Missões
e não faltarão rezes para o abastecimento da cidade ( 2 ) .
A máxima fundamental da política de D. Rodrigo era
agir. C h o r a r em lugar de obrar quando o perigo é mani-

(1) Carta ao Prmcipe Regente de 16 de Agosto de 1809,


ibiãem.
(2) C a r t a a D. F e r n a n d o de P o r t u g a l de 20 de Dezembro de
1808, ibiãem.
D. J . — 13
196 DOM JOÃO V I NO B R A Z I L

festo, he p r o v a d ' i m b e c i l l i d a d e " , escrevia elle a D. F e r n a n d o


de P o r t u g a l ( i ) a propósito das lamúrias de Salter, u m dos
g o v e r n a d o r e s do R e i n o n a ausência do Príncipe. D e m a i s o
proceder o G o v e r n o obsta a que p r o c e d a m os governados.
" S. A. R. está c o n v e n c i d o que o único m e i o d'evitar o
péssimo e f f e i t o idas cortes em E s p a n h a he ganhar o affecto
do Povo com justas concessoens, e avançando aquelles estabe-
lecimentos úteis c o m que os D e m a g o g o s hão de querer depois
fazer-se valer. A l é m dos grandes meios propostos nas I n s t r u -
çoens (aos G o v e r n a d o r e s do R e i n o )
creio q u e a abolição da Inquisição e da C o m p a n h i a do D o i r o
seriam objectos que h a v i a m de p r o d u z i r h u m a sensação geral,
e d i v e r t i r os ânimos dos Povos da idéa de Constituiçoens pelo
bem que l h e havião de f a z e r s e n t i r e pelo respeito que gran-
gearião ao G o v e r n o . "

P o r isso é que D. R o d r i g o , ao passo que creava com a


Intendencia u m v e r d a d e i r o e i n q u i s i t o r i a l ministério da poli-
cia, acerbamente d e n u n c i a d o n o Correio Braziliense como
vexatório p a r a a l i b e r d a d e c i v i l do cidadão e inútil n o impe-
d i r a disseminação das novidades políticas, r e i n t r o d u z i a na
colônia a imprensa, c u j a ephemera existência, e m tempo do
conde de B o b a d e l l a , a côrte de L i s b o a c e i f a r a sem piedade.
C e r t a m e n t e a s e m i - o f f i c i a l Gazeta do Rio de Janeiro,
d i r i g i d a p o r F r e i T i b u r c i o da R o c h a ( 2 ) e que, sujeita á

(1) Carta de 1 de Novembro de 1800, ibiãem.


^ (2) Mello Moraes, ob. cit. Diz porém José Silvestre Ribeiro
(Historia dos estabelecimentos scientificos, litterarios e artísticos de
Portugal, Tomo I V ) que o primeiro j o r n a l brazileiro pertencia e era
redigido pelos .ofifkraes da secretaria dos negooio,s estrangeiro-s, a re-
partição a que presidia D. Rodrigo, o que me pare-ce mais veridrco.
Em Janeiro de 1811 auotorizava o conde dos Arcos na Babia a publi-
cação sob censura do periódico A Edadc dc Ouro, igualmente bi-bebdo-
madario,
DOM JOÃO VI NO BRAZIL 197

censura, começou a publicar-se n o d i a I O de Setembro de


1808, não p o d i a c o m p e t i r em importância c o m o periódico de
Londres, no qual Hippolyto se b a t i a v a l e n t e m e n t e pelos
progressos de P o r t u g a l , a p o n t a n d o sem hesitação os abusos
e r e c o m m e n d a n d o as m e l h o r e s r e f o r m a s sem a b a n d o n a r o seu
e s p i r i t o d e moderação. A folha fluminense no seu pequenino
f o r m a t o , de q u a r t o de f o l h a de papel almasso, c o n t i n h a " os
actos, decisões e ordens do G o v e r n o , a c o m m e m o r a ç ã o dos
a n n i v e r s a r i o s natalicios da família r e a l e a das festas n a
Côrte, odes e panegyrícos ás pessoas reaes, e p o r descargo de
consciência dos redactores a n o t i c i a dos principaes aconteci-
mentos da g u e r r a p e n i n s u l a r , que lá i a m resoar aos o u v i d o s
da côrte, l o n g e dos perigos e das calamidades de P o r t u g a l " .
( 1 ) C o n t i n h a t a m b é m os annuncios das composições l i t t e r a -
rias que s a h i a m á l u z , pois a acanhada Gazeta não só servio,
m a u g r a d o as suas deficiências de r e p o r t a g e m e t a l v e z mesmo
mercê d'essas deficiências, p a r a e s t i m u l a r o gosto pelas n o t i -
cias do estrangeiro, a b r i n d o mais l a r g o h o r i z o n t e á l e i t u r a
n a c i o n a l , como a t y p o g r a p h i a m o n t a d a p a r a a sua impressão
e dos papeis officiaes p e r m i t t i o a publicação de varias obras
de p r o p a g a n d a i n t e l l e c t u a l , e n t r e ellas u m a de José da S i l v a
L i s b o a sobre o c o m m e r c i o f r a n c o do B r a z i l .
D. R o d r i g o era u m enthusiasta de semelhante propa-
ganda, cujos últimos resultados l h e escaparam. O seu l e m m a
f o r a sempre r e f o r m a r de cima, t r a n s f o r m a r sem s u b s t i t u i r ,
m e l h o r a r sem r e v o l u c i o n a r . P o r isso e r a a I n t e n d e n c i a de
P o l i c i a destinada no seu conceito, mais a i n d a do que a z e l a r
a segurança p u b l i c a , a defender as idéas absolutistas. D'estas
se m o s t r a v a D. R o d r i g o sincero apologista, n u t r i n d o forte

(1) J . S. Ribeiro, ob. cit,


198 DOM JOÃO VI NO BRAZIL

desconfiança d e espiões f r a n c e z e s ( i ) , d a q u a l até s e resen-


tio o m i n i s t r o a m e r i c a n o c h e g a d o a o R i o e m 1 8 1 0 .
Insinuações d o s m i n i s t r o s i n g l e z e h e s p a n h o l , S t r a n g -
ford e C a s a Irujo, acirraram a s espontâneas s u s p e i t a s do
c o n d e d e L i n h a r e s , q u e o l h a v a d e e s g u e l h a p a r a as republi-
c a s e e m p a r t i c u l a r e n x e r g a v a ide as francezas n a d o s E s t a -
dos U n i d o s e n o s e u enviado. A s severas visitas d a s embarca-
ções e q u a r e n t e n a s e s t a b e l e c i d a s p a r a a s procedências ameri-
c a n a s , c o m o p r e t e x t o d e r e s g u a r d a r e m a s a ú d e p u b l i c a , ti-
n h a m p o r m a i s v e r d a d e i r o i n t u i t o , c o m o d e r e s t o o confes-
sava u m a nota d e L i n h a r e s , i m p e d i r a e n t r a d a clandestina
de emissários d e P a r i z q u e p e r t u r b a s s e m a p a z b r a z i l e i r a .

(1) N ã o que fosse D. Rodrigo .systema.tica.mente hostil aos es-


trangeiros como taes, senão aos que se lhe afiguravam jacobinos. Tão
longe estava de ser u m n a t i v i s t a , que no seu ministério em Lisboa
fez confiar a reorganização da policia a um emigraJdo francez, o mar-
quez de Nouvion, com cuja gestão augmentou consideravelmente a se-
gurança da capital ( H a u t e f o r t , Coup (Voeil sur Lisbonne et Maêrid
en 1814). Não t e r i a comtudo sido estraniha a e-sse aspeicto a presença
das tropas inglezas desde a primeira invasão.
Contra Nouvion e outros offiiciaes realistas francezes ao ser-
viço de P o r t u g a l houve entretanto em Lisboa, um movimento nativista,
patrocinado, pela I n g l a t e r r a em o>dio á França, achando-se á frente
d'elie um prinicipe inglez, o duque de Sussex. Esse movimento, que se
deu no Campo d'Ourique aois 25 de JuLho de 1803, tomou a feição
de um motim m i l i t a r , de regimentos contra regimentos, e ao que pa-
rece denunciava entre parte da t r o p a sentimentos liiberaes, pois se-
gundo as cartas, n'um curknso portuguez afranoezado, de Nouvion a
D. Rodrigo (Arch. Pub. do R i o de Janeiro), os ;soldados de Gomes
f r e i r e , o mesmo depois sentenciado por Beresford, cantavam quadrais
como esta, de fraca inspiração :
" Estas cantigas são inventadas,
do Regimento de Freire Andrade
(São cantadas com estilo
de lá ré o Liberdade."
Nouvion m ouvia do castello de São Jorge, onde o tinham
posto a recato.
1N0 B r a z i l f o i u m outro emigrado, Napion, encarregado por L i -
nhares de i n s t a l l a r a fabrica de pólvora; um Allemão, Eschwege,
chamado a importantes funcções de administração scientifica; um
Inglez, Mawe, togado para aoceitar a gerencia de uma propriedade
real. Os exemplos abundam.
DOM JOÃO VI NO BRAZIL 199

Contra o rigor differencíal para com os navios chega-


dos dos Estados Unidos e que representava, com suas demo-
ras propositaes nas visitas e aggravarnento de taxas, u m em-
baraço ao commercio americano, protestou o ministro Sumter
e obteve melhoria, não tanta comtudo que cessasse de quei-
xar-se para o Departamento em W a s h i n g t o n da pouca cor-
dialidade com que era tratado. Limitava-se o agasalho a visi-
tas officiaes dos ministros e conselheiros de Estado: pro-
vavelmente, dizia elle, por ser eu de paiz democrático.
Sumter era o primeiro a reconhecer quão reduzido se offere-
cia o intercurso social da capital brazileira; mas a melhor
prova de que não menos singular l h e parecia a frieza de-
monstrada no seu caso está em que, segundo se vê pela cor-
respondência de M a l e r , que cuidadosamente apontava estas
cousas, acabou o representante americano por só m u i t o rara-
mente comparecer ás festas da côrte.
Além da sua tara republicana, não lhe dava grande pé
no circulo governamental da nação alliada da ingleza, a i n i -
mizade então vivíssima entre a G r ã Bretanha e as suas anti-
gas colônias emancipadas. Sabemos quanto D. Rodrigo era
anglophilo e quanto por outro lado convinha á I n g l a t e r r a
afastar todo o concorrente perigoso para sua expansão mer-
cantil. Os Estados Unidos não gosavam por tudo isso senão
de uma sympathia medíocre j u n t o á côrte do R i o de Janeiro.
"Deveis ter presente, escrevia Sumter ao Secretario de Es-
tado Robert Smith, ( i ) que faz parte da disciplina dos allia-
dos da I n g l a t e r r a não se satisfazerem com que não sejam os
neutros inimigos d'ella; antes pretendem absolutamente que
sejam seus amigos."

(1) Arch. do Depart. d'E,stado de Washington.


200 DOM J O Ã O V I NO B R A Z I L

D e muitas, da maior parte das transformações a que anda


associado no B r a z i l o nome de D o m João V I e com que
ficou assignalada a transferencia da côrte portugueza, não é
temerário dizer que f o i Linhares o inspirador. E m 1812,
guando elle falleceu aos 56 annos ( 1 ) e f o i levado para o
claustro do convento de Santo Antônio, já a cidade e a so-
ciedade fluminenses apresentavam u m aspecto diverso.
Continuava, é claro, o mesmo governo de monarchia
paternal, de justiça mais caseira do que funccional, de arbí-
t r i o institucional que era para todos tyrannico no sentido
etymologico da palavra, tradicionalmente extendendo sua
munificencia á agricultura, á industria, ás sciencias, ás ar-
tes, poupando aos pobres humilhações com as leis sumptua-
rias, cevando os nobres e ao mesmo tempo escudando o povo
contra os abusos dos chatins e as extorsões dos monopolistas.

(1) Correraim sobre a morte de Linhares differentes versões,


sendo a miais crivei que fosse ella resultante de uma febre maligna.
Attribuiram-n'a porém alguns a veneno propinada pelos inimigos que
o ministro se fizera oppondo-isie a malversações. Menos verosimil é
ainda a historia, que também se conta, de haver Linhares ingerido ve-
neno aipoz uma desfeita recebida do Principe Regente, o qual, em
desaccordo com o séu m i n i s t r o no tocante aos privilégios da Compa-
n h i a do A l t o Douro perante os favores concedidos pelo tratado de
commercio aoun a I n g l a t e r r a , celebrado em 18\10, se teria encolerizado
ao ponto de descarregar-lhe uma bengalada.
Dom João V'I não era absolutamente pessoa para se entregar
a violências de t a l natureza sobre os fidalgos da sua côrte, e essa
historia deve ter-se extraviado de uma coliecção de -casos relativos
ao pai do grande Frederico da Prússia, que era quem costumava con-
verter a bengala em argumento f i n a l das suas conversas. A historia
da bengalada, por outros contada como tendo sildo dada no ministro
inglez, que por certo mais a provocaria do que o respeitador Linhares,
entrou comtudo para o cyclo das anecdotas populares referentes a
Dom João V I , entre as quaes p r i m a m as de f a l t a de aceio e eobardia.
•Elias não são no geral mais exaltas da que a mor parte das impu-
tadas a Bocage ou a Quevedo : apenas provam a popularidade do mo-
narcha, do repentista e do satyrico.
:Marro'cos só incidentemente se refere ao fallecimento de L i -
nhares, tendo-.se talvez perdido a carta em que noticiava com porme-
niores a triste occoirrencia.
DOM JOÃO V I NO B R A Z I L 201
»

D. R o d r i g o v i a j a r a e vivera na Europa de além dos P y r i -


neus, formando o seu espirito, no tempo em que os sobera-
nos timbravam pela maior parte em imitar o Imperador
José I I , ensaiando o socialismo de Estado a que se quer
agora chegar pelo processo inverso, partindo da plebe a i n t i -
rnação em vez de descer do throno a protecção.
F o i pois Linhares por inclinação e por educação pra-
tica seguidor d'esse systema que havia sido o pombalino, e
envolvia m u i t o espirito reformador no que d i z respeito ao
bem estar nacional e m u i t a tendência regalista no tocante ás
relações com a Egreja. A acção do ministro de D o m João V I
foi entretanto, não por mais comprehensiva ou vigorosa,
mas de certo por se haver exercido em epocha mais fecunda
e em meio mais 'ductil, menos ephemera do que a do minis-
tro de D o m José. A pequena reacção, parodia á que se seguio
á queda de Pombal, reacção de beatos e de velhacos que preten-
deu i n u t i l i z a r a obra de Linhares, não conseguio vingar,
nem mesmo invocando a terrifica visão revolucionaria da
A m e r i c a Hespanhola. O pensamento novo l o g r o u resistir:
elle inspirara mais confiança e mais dignidade á sociedade
sobre a qual operara no sentido progressivo. Os resultados
já eram visíveis: 1812 differia sensivelmente de 1808.
As cousas ecclesiasticas, a que tão importante papel com-
petia então, tinham melhorado, para isto contribuindo sem
duvMa as virtudes do novo Bispo, D. José Caetano de Souza
Coutinho, mais do que ainda as suas bellas pastoraes, das
quaes no habito de m a l dizer, Marrocos escarnecia grosseira-
mente, chamando-lhes uma porcaria—apezar de ser m u i t o
obrigado ao prelado, "porque me faz m u i t a festa, e me v i z i -
tou na L i v r a r i a , por não saber a minha casa." ( 1 ) Exami-

(1) Carta de 26 de Outubro de 1811.


202 DOM JOÃO VI NO BRAZIL

nava-se c o m mais r i g o r o c o m p o r t a m e n t o dos clérigos; cui-


dava-se c o m mais zelo da decência d o culto, compromettida
pelas freqüentes desavenças e demandas de confrarias contra
curas e vigários c o n t r a cabidos; animava-se a formação de
irmandades, mesmo de negros, que assim se t o r n a v a m bem
irmãos dos brancos pelo menos d i a n t e de C h r i s t o , ganhando
a exterioridade religiosa c o m a solidariedade das devoções.
Encontravam-se pois aos poucos annos menos immorali-
dade e mais respeito n a funcção religiosa, menos combativi-
dade e mais disciplina entre os fieis, t a l v e z mesmo no espirito
menos superstição e mais conceito evangélico, si bem que
não tivesse ficado desprezado o lado do c e r i m o n i a l , alcan-
çando pelo c o n t r a r i o verdadeiro esplendor. A Capella Real
passou a reflectir as magnificencias da P a t r i a r c h a l de Lis-
boa, de cujas regalias se v i o em grande parte dotada. Logo
no anno da sua chegada elevou o Príncipe Regente a monse-
nhores os cinco dignitarios do cabido da Sé (deão, chantre,
thesoureiro-mór, mestre-escola e a r c e d i a g o ) , aggregando-lhes
u m arcipreste, e a u g m e n t o u o n u m e r o dos capitulares e de
todo o pessoal, d i v i d i n d o os conegos em duas cathegorias,
presbyteros e diaconos, e concedendo-lhes o uso do roquete,
capas magnas roxas e murças encarnadas. ( i )
D a pompa do c u l t o derivou-se u m effeito salutar sobre
os habitas domésticos, mais se relaxando a reclusão feminina.
Attralhidas pela grandeza desusada das cerimonias, entra-
r a m as mulheres a freqüentar c o m m a i o r assiduidade ainda
as egrejas e, p o r conseqüência, a comparecer nos diverti-
mentos profanos que constituíam o ordinário acompanha-

(1) Monsenhor Pizarro, Memórias do Rio de Janeiro Tomo VIII,


}

1822.
DOM JOÃO VI NO BRAZIL 203

m e n t o p o p u l a r das festas sacras: e n t r e elles sobresahiam os


leilões de prendas offerecidas p a r a serem vendidas ao mais
a l t o l i c i t a n t e em beneficio da caixa do t e m p l o . C o m o amiu-
darem-se as sahidas, desenvolveu-se o gosto pelo vestuário,
s u r g i o c o m elle a preoccupação da moda, e o convívio g e r a l ,
ao passo que crescia em f r a n q u e z a , em expansão n a t u r a l e
destituída de malícia, g a n h a v a u m a n o t a de distincção.
O Príncipe R e g e n t e t a m b é m espalhou o gosto, n'elle
pessoal e m u i t o p r o n u n c i a d o , pelas representações scenicas.
Freqüentando seguidamente o t h e a t r o c o m a família r e a l ,
não se p o d i a senão esperar que o acompanhasse a côrte, e
assim, sob p r e t e x t o de u m passatempo i n t e l l e c t u a l , se estabe-
leceu u m p o n t o de reunião m u n d a n a accessivel a m u i t a gente.
O s camarotes e r a m em boa p a r t e occupados p o r senhoras cia
t e r r a , e até l u c r o u o b o m gosto p u b l i c o c o m a l i v r e c r i t i c a
no palco dos costumes e vezos nacionaes.
O soberano c o m p r e h e n d i a c o m a sua sagacidade a a l m a
do seu m i n i s t r o , que de certo m o d o v i b r a v a de accordo com
a própria, e p o r isso o p a t r o c i n a v a , sentindo-se até f e l i z de
e n c o n t r a r u m a v o n t a d e f i r m e que desse expressão p r a t i c a ás
suas idéas e concretizasse os seus pensamentos. Também
D. R o d r i g o entregou-se de corpo e a l m a á tarefa. R e f o r m a -
ram-se a p o l i c i a , a t r o p a de l i n h a e a milícia; melhorou-se o
a r m a m e n t o ; augmentaram-se as fortificações das f r o n t e i r a s ,
e aprofundou-se pelo estudo o c o n h e c i m e n t o do t e r r e n o de
embate e v e n t u a l das forças m i l i t a r e s .
N o v a s c u l t u r a s f o r a m tentadas e novas p l a n t a s i n t r o d u -
zidas, creando-se n o J a r d i m Botânico da lagoa de Rodrigo
de F r e i t a s u m v i v e i r o , e n t r e o u t r a s , das chamadas arvores
de especiarias ( c a n e l l a , cravo, p i m e n t a , noz-moscada, etc.)
e da p l a n t a do chá. A b r i g a v a Lin'hares a esperança de p r o -
DOM JOÃO VI NO BRAZIL

pagar esta u l t i m a c u l t u r a quiçá ao ponto de supprir todo o


mercado europeu, que recebia de m u i t o mais longe o seu
fornecimento. Seis m i l pés estavam plantados em 1817, que
davam u m producto forte mas pouco aromatico, ainda gros-
seiro e com gosto de terra no dizer de Spix e M a r t i u s .
O plano não gorou, todavia, por imprestabilidade dos terre-
nos, antes por causa da subida dos salários determinada por
t a l ou q u a l animação industrial, e da morosidade dos centos
de Chinezes importados, m u i t o provavelmente dentre a ralé
de Cantão, impondo-se assim o dilemma de sahir o chá
m u i t o caro com o trabalho nacional, o u ser necessário fazer
v i r maior quantidade de Chins para fabrical-o em proporção
razoável para o consumo local e estrangeiro. O que faltou,
porém, sobretudo para que vingasse aquella c u l t u r a f o i a
animação que lhe emprestavam os enthusiasmos de Linhares.
Para propagar a c u l t u r a da vinha, importaram-se
80.000 bacellos, que o Príncipe Regente mandou distribuir.
L o g o em 1809, pela resolução regia de 27 de J u l h o , fora a
J u n t a do Commercio do B r a z i l e domínios ultramarinos auc-
torlzada a estabelecer prêmios, pelas sobras do seu cofre, ás
pessoas que fizessem acclimar, em qualquer dos estados e
possessões de Portugal, arvores de especiaria f i n a da índia,
e que introduzissem ou melhorassem a c u l t u r a de outros
vegetaes, extranhos e indígenas, preciosos pelo seu uso na
pharmacia, na t i n t u r a r i a e em outras artes. N'esse mesmo
anno teve a J u n t a opportunidade de conferir uma medalha
de ouro ao chefe de divisão L u i z de A b r e u , o qual, tendo
estado prisioneiro de guerra na i l h a de França ou M a u r i c i a
— donde sabiam os navios francezes a depredarem o commer-
cio portuguez com a índia e C h i n a — f o i quem, ao ser resga-
DOM JOÃO VI NO BRAZIL 205

tado e regressar p a r a a pátria, t r o u x e do J a r d i m R e a l vege-


taes e sementes que f l o r e s c e r a m no nosso h o r t o . ( i )
F o i deveras copiosa a o b r a a d m i n i s t r a t i v a dos p r i m e i r o s
annos do g o v e r n o p r o p r i a m e n t e americano de D o m João V I .
A c a r i d a d e p u b l i c a , que já se dispensava c o m bondade e
e f f i c i e n c i a n a Misericórdia e no H o s p i t a l M i l i t a r , passou a
ser m e l h o r e x e r c i d a a i n d a m e d i a n t e a fundação de u m a Casa
de Expostos e a organização de u m s u p e r i o r c o n f o r t o nos
hospitaes existentes.
Os processos judiciários a d q u i r i r a m m a i o r p r e s t e z a ; o
c o r r e i o extendeu-se a todas as c a p i t a n i a s ; estabeleceu-se o
telegrapho aéreo na costa; iniciaram-se os seguros contra
f o g o e c o n t r a naufrágios; abriram-se l i v r a r i a s ; regulamen-
taram-se a catechese dos indios e o t r a f i c o dos escravos.
A s finanças p r o s p e r a r a m c o m os estancos mais remune-
radores, a m e n o r i m p r o b i d a d e e o m a i o r v i g o r da acção o f f i -
c i a l . A l a r g o u - s e a alfândega; f a c i l i t a r a m - s e o m o v i m e n t o das
embarcações, a a r m a z e n a g e m e despacho das m e r c a d o r i a s
e o p a g a m e n t o dos direitos a d u a n e i r o s ; e n t r a r a m a c o n s t r u i r -
se nos estaleiros navios não só de g u e r r a como mercantes,
p a r a o que se o r d e n o u a remissão de m e t a d e dos direitos de
e n t r a d a sobre os objectos empregados n a construcção n a v a l ;
começaram a fabricar-se nos arsenaes de m a r i n h a brazilei-
ros petrechos náuticos, taes como velas e cordas, p a r a o que
se f i z e r a m no R i o G r a n d e do S u l plantações de canhamo.
'Cresceu m u i t o o c o m m e r c i o ; diminuíram as vexações e os
monopólios a elle a t t i n e n t e s ; ouviram-se os p r i m e i r o s vagidos
das i n d u s t r i a s de tecidos e m e t a l l u r g i c a ; desenvolveu-se e t o r -

(1) D'este modo se introduziram na flora brazileira a mos'ca-


deira, a campino reir a, o aba «cate, o cravo da índia, a canelleira e a
chamada arvore de carvão. De Cayenna, onde já estavam acclimadas,
vieram também exemplares das mesmas espeicie>s.
206 DOM JOÃO VI NO BRAZIL

nou-se u m quasi nada menos empírica a a g r i c u l t u r a ; passou a


mais confortável a vida material, melhorando consideravel-
mente o passadio, a começar pelo pão, e o aceio na venda dos
comestíveis; surgiram artífices e até varredores de ruas.
F o r a m particularmente numerosas as providencias, pau-
tadas pelo critério econômico liberal, tendentes a fomen-
tar a agricultura e a industria. A especiaria colhida nas plan-
tações do B r a z i l ficou isenta em 1810 do dizimo e de to-
dos os direitos por dez annos. I g u a l isenção se decretou no
mesmo anno para os fios de algodão, e tecidos e estamparias
de algodão, seda ou lã de fabrico brazileiro. Já pelo alvará
de 28 de A b r i l de 1809 se tinham isentado de direitos as ma-
térias primas importadas para emprego nas manufacturas na-
cionaes. Aos Portuguezes que emigrassem para o B r a z i l e
quizessem fixar-se como agricultores, mandou-se em 1811
distribuir lotes de terras, instrumentos de lavoura e gado e
dar mesada nos primeiros tempos. A c o l h i m e n t o franco e
benevolo se extendeu aos estrangeiros vindos para se dedi-
carem á lavoura, e bem assim aos que professassem as artes
liberaes e mechanicas. Concederam-se privilégios aos inven-
tores ou introductores de alguma nova machina ou novo in-
vento nas artes.
A melhor recompensa do estadista que os escriptores es-
trangeiros coevos são unanimes em acatar e elogiar, coube-
lhe por certo quando no theatro do T e j u c o , em pleno dis-
tricto diamantino, se celebrou a sua apotheose por occasião
da chegada do m o r r o do P i l a r , a 25 léguas de distancia, do
primeiro ferro f u n d i d o na fabrica a l l i erigida pelo intendente
dos diamantes por ordem do conde de Linhares. Cavalleiros
louçãos f o r a m ao encontro dos carros puxados por juntas de
bois, acompanhando-os entre applausos ao Príncipe Regente,
DOM JOÃO VI NO BRAZIL 207

cuja effigie encimava os carros no meio de varias allegorias


á mineração, cornucopias de abundância, cyclopes b a t e n d o o
ferro e um gênio calcando a i n v e j a .
O proteccionismo o f f i c i a l não se c o m m e t t e u todavia
a exaggeros, abstendo-se o G o v e r n o dè conceder favores p r o -
hibitivos de concorrência, que p e r m i t t i s s e m o e x c l u s i v o a
fabricas de "objectos t r i v i a e s e manifestos p a r a não d a r l u g a r
a estancos e monopólios", que seriam u m a p r i m e i r a apparição
na nossa economia dos poderosos syndicatos da l i v r e indus-
t r i a actual. A intimidade com a Inglaterra, uma fatalidade
política da q u a l i a r e s u l t a r o i n f e l i z t r a t a d o de 1810, ve-
dava q u a l q u e r t e n t a t i v a d'aquella n a t u r e z a que envolvesse
um estorvo á conquista m e r c a n t i l b r i t a n n i c a ; e p o r o u t r o
lado, apezar de se d i z e r que era g r a n d e o n u m e r o de braços
inertes pelo f a c t o de não possuírem m u i t o s dos nacionaes
t e r r a s n e m meios de se a p p l i c a r e m á a g r i c u l t u r a , p a r a a q u a l
se r e q u e r pelo menos u m pequeno c a p i t a l , e apezar de ser
realmente g r a n d e a abundância das matérias p r i m a s como
algodão, lã, f e r r o , k a o l i n o e o u t r a s , a i n d u s t r i a se não des-
envolveu proporcionalmente aos esforços da administração
e á política a d o p t a d a p a r a sua animação.
A propensão p a r a a l a v o u r a e c o m m e r c i o era t r a d i c i o -
nal; g r a n d e o apego dos habitantes dos campos ao seu am-
b i e n t e ; mais a p r o p r i a d o o t r a b a l h o escravo ás plantações
que ás f a b r i c a s ; escassa, disseminada e p o r demais i n c u l t o a
classe donde e x t r a h i r operários l i v r e s ; a v u l t a d o o custo e
d i f f i c i l o t r a n s p o r t e transatlântico dos m a c h i n i s m o s ; em des-
accordo o m e i o c o m o r e g i m e n i n d u s t r i a l que suppõe u m es-
t a d o social mais adiantado. E r a m estas o u t r a s t a n t a s razões
p a r a c o n t r a r i a r u m a t a l expansão, si não bastasse a do mencio-
n a d o t r a t a d o , que até teve como r e s u l t a d o a desapparição de
208 DOM JOÃO VI NO BRAZIL

certas industrias tradicionaes diante da invasão de manufa-


cturas estrangeiras, mais acabadas e mais baratas do que os
productos caseiros da terra. D e que valeriam ao lado d'essa
conquista pratica os esforços acadêmicos da J u n t a do Com-
mercio, A g r i c u l t u r a e Fabricas, aliás provida de rendimentos
próprios sob a f o r m a de impostos especiaes para sua sus-
tentação, aulas, propaganda, recompensas, acquisição de ma-
chinas e sementes, melhoramento de canaes e estradas para
facilitar o commercio interno e mais execução do seu for-
moso programma?
Com os favores exaggerados concedidos á Grã Breta-
nha ceifou o Governo o melhor das esperanças que se po-
diam derivar d'aquelle devaneado renascimento, u m renasci-
mento que succedia a uma noite mais escura do que a me-
dieval porque no seu seio nada se havia elaborado. A indus-
t r i a brazileira requeria ser edificada desde os alicerces, visto
ter sido pautada pela eliminação de toda concorrência colo-
nial a política econômica da metrópole portugueza, ou me-
lhor a política econômica européa até os fins do sé-
culo X V I I I .
O cultivo da amoreira se vedara para que não viesse a
fabricar-se a seda; o da oliveira, para que não viesse a fabri-
car-se o azeite; o sal se l i m i t a r a como especial concessão á
venda para o consumo l o c a l ; ao t r i g o do R i o Grande, ainda
em 1780 se fechava o mercado brazileiro, só sendo tolerado
na capitania que o c u l t i v a v a ; a ourivesaria, como industria,
era severamente interdicta na região productora do ouro,
para não f u r t a r ao quinto real e á taxa da cunhagem o mi-
neral extrahido. A própria tecelagem á mão, que em Minas
Geraes tomara incremento, se prohibia, abrindo-se em 1785
uma excepção para o algodão grosseiro de uso entre os escra-
DOM JOÃO VI NO BRAZIL 209

vos, mas sendo, nos começos mesmo do século X I X , destruí-


dos na praça publica quaesquer teares que se introduzissem
e deportados para Lisboa os seus possuidores, para que a l l i
soffressem a acção da justiça, ( i )
Esta política tão estreita, com relação ao commercio
e á industria, provinha m u i t o do espirito de interesse e não
menos do espirito de desconfiança. A principio, no século da
descoberta, era dado a todos os estrangeiros visitarem com-
mercialmente o B r a z i l e até aos catholicos ahi se estabelece-
rem: apenas, para que ficassem importantes vantagens aos
Portuguezes, lhes eram cobrados 10 por cento addicionaes
nos direitos de importação e lhes era defeso traficarem com
os indios. F o i durante o domínio dos Philippes que se fe-
chou aos estrangeiros a entrada no B r a z i l . Sob os Bragan-
ças, apoz a Restauração, nos tratados celebrados com a G r ã
Bretanha, em 1654, e
com as Províncias Unidas, em 1661, se
facultou, com certas exclusões, o commercio com a colônia
americana, passando, porém, as mercadorias por P o r t u g a l e
ahi pagando os respectivos direitos. Inglezes e Hollandezes
descuraram a regalia tanto porque nas suas possessões exis-
tiam os chamados gêneros coloniaes que o B r a z i l fornecia,
como porque não passavam afinal os negociantes portugue-
zes de intermediários d'elles, visto comprarem-lhes as manu-
facturas com que traficavam. D e facto era, sob bandeira por-
tugueza, u m commercio britannico, uma exportação de pro-
ductos britannicos adquiridos a credito.
Com o descobrimento das minas no l i m i a r do século
X V I I I e valia m u i t o maior alcançada pela colônia no meio
de u m ambiente geral de exclusivismo, tornaram-se mais se-
veras as restricções econômicas, pretendendo até P o r t u g a l

(1) Handelmann, Geschichtc von Bmsilien, B*erlín, 1860.


210 DOM JOÃO VI NO BRAZIL

obter da Inglaterra e da Hollanda no Congresso de Utrecht


uma renuncia dos seus direitos exarados nos tratados em
vigor. N e n h u m resultado obteve a diplomacia de Tarouca e
D. L u i z da Cunha, comquanto estivesse a Inglaterra de
qualquer modo em condição vantajosa pela dependência de
P o r t u g a l da sua ascendência financeira. Por isso fechou ella
os olhos a violações dos tratados, que deram ensejo a recla-
mações hollandezas, ás quaes houve que fazer testa, em-
quanto as prohibições seguiam seu caminho e se extendiam
dos districtos mineiro e diamantino a toda a região brazi-
leira, donde se v i r a m na pratica ciosamente excluídos todos
os estrangeiros. Pouco antes da passagem do Príncipe Re-
gente, soffrera o I n g l e z L i n d l e y , na Bahia, prisão e con-
fisco da sua embarcação por suspeito de fazer commercio de
contrabando. ( I )
Agora, com a presença da côrte e a remodelação dos
ideaes de administração, mudara tudo e proseguira impávido
o governo na sua tarefa legisladora, que tinha por objecto
confessado gerar uma industria nos centros e espalhar a
agricultura por todo o paiz. Obedecendo a estes moveis,
isentou dos dízimos aquelles que fossem trabalhar terras
até então occupadas pelos indios; concedeu moratórias aos
devedores á Real Fazenda, que se fossem estabelecer n'essas
mesmas terras; a r b i t r o u prêmios aos fazendeiros que se dis-
tinguissem no bom tratamento e se esforçassem pela civi-
lização dos indios; decretou punição para as fraudes na ex-
portação do assucar, em detrimento do progresso e renome
d'esta importante industria nacional; creou uma infinidade de

(1) Hándetoann, ou. cit.


BOM JOÃO VI NO BRAZIL 211

villas novas e de novas comarcas judiciarias; mandou melho-


rar portos como o do Recife, para conservar limpo o fundo e
l i v r e a entrada de bancos de areia.
Para o aformoseamento da capital propriamente, é na-
t u r a l que se dirigisse solicita a attenção do governo no seu
empenho pelos melhoramentos. O arsenal f o i augmentado;
começado o vasto q u a r t e l do Campo de Sant'Anna e es-
boçado na mesma praça outro j a r d i m publico; transfor-
mada em <novo Erário a antiga Casa dos Pássaros, na rua
da Lampadosa (actual do Sacramento), onde o vice-rei L u i z
de Vasconcellos projectara fundar um Museo de Historia
N a t u r a l ; animou-se por meio da isenção de décimas a edi-
ficação da cidade nova, ligando o Campo de Sant'Anna, li-
mite da velha, com a real q u i n t a de São Christovão. T o d o
este terreno, que era alagadiço, assim como o que fica por
traz dos morros da Gamboa, Sacco do Alferes e Ponta do
Caju (n'esta elevação se estabelecera o almirante inglez
com a estação de signaes para a esquadra sob seu com-
m a n d o ) estavam sendo deseccados e atterrados e iam-se gra-
dualmente cobrindo de habitações.
Nem mais se l i m i t a v a a população no seu desafogo
a acompanhar até a l l i pela borda as sinuosidades da bahia:
espraiara-se mesmo pelo o u t r o lado, na Praia Grande e
São Domingos — que se communicavam com a parte orien-
t a l e mais importante da capitania do Rio de Janeiro e
cujos caminhos conduziam até Espirito Santo e P o r t o Se-
guro — , e pelas ilhas que ficavam á vista d'essas duas mar-
gens fronteiras no seio da enorme bahia. D a banda da c i -
dade os arrabaldes mais distantes povoavam-se aos poucos
mas successivamente. O Rio Comprido, o Pedregulho, l u -
gares todos que pouco antes eram ermos e agrestes, conti-
D. J . — 14
2Ji> DOM JOÃO VI NO BRAZIL

n h a m aos cinco annos da residência da côrte no R i o de Ja-


neiro boas casas e bonitos j a r d i n s . T i n h a dado incremento a
essa zona a assídua assistência do soberano na propriedade
da Boa V i s t a que do alto de uma pequena eminência domi-
nava a planície, d'antes d i v i d i d a em mattas e paúes e falha
de segurança, agora roçada, drenada, em parte a j a r d i n a d a e
occupada.
D o lado de Botafogo i a sendo não menos sensível o
accrescimo de vivendas, tendo passado m u i t o s dos nobres
e da gente abastada da t e r r a a residir em roda da actual
egreja da G l o r i a , fundada em 1720 como pequena capella
que a R a i n h a D o n a C a r l o t a reconstruio em 1818. A prefe-
rencia dos moradores que desertavam os antigos bairros,
cujas ruas apertadas mais barulhentas e incommodas se tor-
n a r a m ainda desde que p o r ellas f o i p e r m i t t i d o vender, re-
cahiu p r i m e i r o sobre o Cattete e as lindas praias que capri-
chosamente se desenrolam desde a L a p a até a enseada de
Botafogo. N'ellas se l o c a l i z a r a m os banhos de m a r e nas
suas immediações se preparou o p r i m e i r o campo de corridas
de cavallos, d i v e r t i m e n t o logo i n t r o d u z i d o pelos Inglezes.
P r i n c i p i a v a m os fluminenses a d a r o devido v a l o r ás
extraordinárias bellezas naturaes d'esses prolongamentos do
R i o de J a n e i r o á beira m a r e sobre os morros, em que os
Jesuítas com o seu r a r o senso topographico t i n h a m possuído
duas installações, u m a na T i j u c a , e a o u t r a não longe da
lagoa R o d r i g o de Freitas. A Gávea e o J a r d i m Botânico,
pontos depois tão favoritos, enchiam-se então rapidamente
de casas de campo, levantadas no formoso valle, coberto de
l u x u r i a n t e vegetação e b o r r i f a d o pelas torrentes das monta-
nhas, que se p r o l o n g a á sombra do alteroso Corcovado, tendo
DOM JOÃO VI NO BRAZIL 213

por incomparavel tela de fundo o mar sem fim e por basti-


dores os m o r r o s verdes de f o r m a s desiguaes e os cones de
g r a n i t o escuro o u branco, até d e f r o n t a r c o m a soberba T i -
j u c a , c u j a f l o r e s t a conservava p u r o t o d o o seu romântico
encanto apezar de já i r apresentando n a base signaes e v i -
dentes do d e r r a m a m e n t o da população.
N ã o f o i p o r certo L i n h a r e s q u e m sósinho f e z t u d o isso,
muito embora executasse um regio programma. F o i elle
porém a m o l a p r i n c i p a l do m e c h a n i s m o que accelerou o p r o -
gresso da colônia emancipada e que e r a r e g u l a d o pelo b o m
senso do m o n a r c h a . - L i n h a r e s de t o d o tempo só a c r e d i t o u em
efficaz d e s e n v o l v i m e n t o m o r a l baseado no bem estar mate-
r i a l , p a r a o q u a l p o r isso c o n v e r g i a o m e l h o r do seu esforço.
Já sabemos que u m dos seus p r i m e i r o s cuidados consistiu
em p r o m o v e r a a b e r t u r a de estradas, indispensáveis p a r a f a -
c i l i t a r e m as communicações e p o r t a n t o as transacções mer-
cantis, e u n i r e m as d i f f e r e n t e s regiões do B r a z i l pelo i n -
teresse que e x p e r i m e n t a v a m necessariamente todas em collo-
car seus p r o d u c t o s mais desembaraçadamente nos portos de
p r o c u r a e mais depressa receber as m a n u f a c t u r a s da E u r o p a .
E' o b v i o que d'est'arte a u g m e n t a v a o v a l o r das propriedades
distantes, crescia o consumo dos gêneros e se f o r n e c i a em-
prego a actividades que o r e c l a m a v a m .
Pode dizer-se que depois do ministério de L i n h a r e s ,
p o r e f f e i t o da sua i n i c i a t i v a , é que as communicações regu-
lares p o r v i a de t e r r a se e x t e n d e r a m no B r a z i l , n a direcção
leste-oeste, de Cabo F r i o a V i l l a B e l l a , e n a direcção n o r t e -
sul, do E s p i r i t o Santo ao R i o G r a n d e . D a n t e s se v i a j a v a

commercialmente desde o p o r t o de Santos até Cuyabá pela


v i a f l u v i a l : do p o r t o de São F e l i x desciam canoas até o
214 DOM JOÃO VI NO BRAZIL

rio Paraná e d'este passavam para outros cursos d'agua


que as levavam a M a t t o Grosso (I).
N'esta ordem de preoccupações fora creado no R i o de
Janeiro pelo decreto de 7 de A b r i l de 1808, isto é, u m mez
escasso decorrido da chegada da familia real, um archivo
central " para n'elle se reunirem e conservarem todos os
mappas e cartas, tanto das costas como do interior do B r a z i l ,
e também de todos os domínios ultramarinos portuguezes,
mandando-se-lhe aggregar engenheiros e desenhadores, os
quaes examinariam as cartas das diversas capitanias e t e r r i -
tórios do B r a z i l e exporiam o seu juízo sobre a authentici-
dade e exactídão das mesmas, ou sobre a necessidade de
serem corrigidas, o u levantadas de novo. Esses mesmos func-
cionarios e o seu director publicariam uma obra semelhante
ao Manual Topographico francez, expondo os melhores me-
thodos de aperfeiçoamento das medidas geodesicas, e da
construcção e levantamento de cartas de grandes ou de pe-
quenos territórios; e pelo andar do tempo, procurariam i n -
t r o d u z i r uma classe de engenheiros gravadores, que podes-
sem publicar os trabalhos do mesmo archivo. Conservariam
outrosim todos os planos de fortalezas, fortes e baterias;
todos os projectos de estradas, navegações de rios, canaes,
portos; tudo o que dissesse respeito á defeza e conservação
das capitanias marítimas, ou fronteiras; e tudo o que fosse
relativo a projectos de campanha, ou a correspondências de

( 1 ) A c a r t a r e g i a de 5 de Setembro de 1 8 1 1 , d i r i g i d a ao go-
v e r n a d o r e capitão g e n e r a l de Goyaz, c o n t i n h a a aipprovação do Prín-
cipe Regente ao p l a n o de e s t a b e l e c i m e n t o de u m a sociedade de com-
m e r c i o e n t r e a q u e l l a c a p i t a n i a e a do Pará ; c o n f e r i a privilégios aos
•accionistas ; p r o v i d e n c i a v a sobre os i n d i o s e e s t a t u i a sobre a navega-
ção do r i o T o c a n t i n s e o u t r a s artérias f l u v i a e s . M a i s d e c r e t o s e c a r t a s
regias se p o d e r i a m c i t a r t r a g a n d o da navegação i n t e r i o r , que f o i u m
dos problemas tornados m a i s a p e i t o pelo bem i n t e n c i o n a d o e s t a d i s t a .
DOM JOÃO VI NO BRAZIL 215

generaes, que podesse servir-lhes para elaborar alguma me-


mória, que devessem fazer subir á presença do soberano" ( i ) .
Si traçarmos um quadro chronologico do alto pessoal
governativo que rodeou D o m João V I no Brazil e formou
os seus reduzidos gabinetes de trez ministros para seis pastas,
veremos que coincidem os característicos das phases com as
differentes influencias individuaes que preponderaram na.
côrte do Rio de Janeiro entre 1808 e 1821. Os quatro pri-
meiros annos, de 1808 a 1812, pertencem decididamente a
Linhares e á sua febril actividade reformadora. Os dous
annos immediatos são annos de relaxamento, de descanço
apoz a lufa-lufa das mudanças administrativas, judiciarias
e sociaes. Cabem a Aguiar, que Marrocos irreverentemente
trata de cabeça de ferro pelo que chama sua difficil pene-
tração e devia antes dizer sua difficil sensibilidade de mi-
nistro, e a Galvêas, o Doutor Pastorinha da Rainha Dona
Carlota e fidalgo de costumes desregrados, aos quaes fazem
allusão as cartas de Marrocos e vários escriptores do tempo.
Anadia falleceu moço no f i m de 1809; durante 1810 ac-
cumulou Aguiar o exercicic da pasta da marinha, da qual
em 1811 tomou conta o conde das Galvêas que em 1812
igualmente recolheu a herança de Linhares, gerindo os trez
ministérios até fallecer em Janeiro de 1814.

(1) J o s é Silvestre Ribeiro, ob. cit., Tomo I V . A ' bibliotneca da '


Companhia dos guartlas-marinhas f o i , segundo este paciente investiga-
dor portuguez, encorporsido o rico espolio de escriptos m a r í t i m o s de
que fazia parte a preciosa collecção geo-nydro-topographica salva por
José Maria Dantas Pereira na occssião da i n v a s ã o franceza, constante
de mais de m i l cartas e planos, e pertencente â Sociedade Real Marí-
tima, M i l i t a r e Geograpnica fundada em Lisboa em 1798 por inspira-
ção de D. Rodrigo. Como secretario da marinha fundou elle t a m b é m
a Academia transferida para o Rio e a c u j a bibjiotheca pertencia a
outra parte do mencionado espolio. Dantas Pereira tentou sem êxito
c i t a r na capital brazileira uma. Sociedade Naval, p a r a engrandeci-
mento da marinha e n a v e g a ç ã o .
210 DOM JOÃO V I NO BRAZIL

Os trez annos seguintes, 1814 a 1817, assígnalados na


Europa pela queda de Napoleão, restauração dos Bourbons
e implantação da Santa Alliança, a saber, pelo que se con-
siderava o anniquilamento dos princípios da Revolução, são
entretanto os da v o l t a ao poder do conde da Barca, tão acoi«
mado de francez. Foram-lhe confiadas suecessivamente as
pastas de Galvêas, para que lhes imprimisse o cunho da sua
superioridade u m tanto negligente e do seu talento não tão
activo quanto versátil.
Os annos restantes do reinado americano de Dom
João V I são dominados pela f i g u r a e política de desembar-
gador de T h o m a z Antônio V i l l a N o v a Portugal, versado
em jurisprudência, versado em economia política, credor de
toda estima, porém pé de boi, inferior ás circumstancias com
que tinha de arcar, pessoalmente honestíssimo mas explorado
pela roda que o incensava, e de u m portuguezismo intransi-
gente. Bem o mostrou acompanhando para Lisboa o seu R e i
e protector, a quem sinceramente queria, quando com o
Príncipe D o m Pedro e os nacionaes ávidos da completa li-
bertação do B r a z i l ficava u m aristocrata como o conde dos
Arcos, o qual, em 1818, recebeu de T h o m a z Antônio, para
isto deixando o governo da Bahia, a pasta da marinha que o
desembargador dirigia desde a morte de Barca occorrida em
Junho de 1817.
T h o m a z Antônio também teve a seu cargo os negócios
estrangeiros e a guerra quasi desde então até a chegada em
1820 do conde de Palmella, o qual logo em 1817 fora es-
colhido para esse duplo ministério por causa dos serviços
prestados no Congresso de Vienna, continuando no emtanto
na embaixada de Londres, onde, e em Pariz, havia questões
pendentes da maior relevância, para cuja feliz solução eram
DOM JOÃO VI NO BRAZIL 217

condições preciosas o tacto e o fraquejo do relacionado di-


p l o m a t a . D e J u n h o de 1817 ao f i m do mesmo anno precedeu
a T h o m a z Antônio n a gerencia d'aquellas pastas o diplo-
m a t a João P a u l o B e z e r r a , que apezar da sua m a n i f e s t a i n -
v a l i d e z occupava desde o começo do anno os ministérios
do reino e erário, pertencentes ao m a r q u e z de A g u i a r que,
já m o r i b u n d o , apenas conservou a assistência ao despacho.
N o s annos de 1818 a 1 8 2 1 , T h o m a z Antônio r e u n i u
assim sob a sua direcção o reino, o erário, os negócios es-
trangeiros e a g u e r r a , tendo mesmo chegado u m momento,
nos começos de 1818, em que c o m também accumular a
m a r i n h a o desembargador c o n c e n t r o u em si todo o mecha-
nismo g o v e r n a t i v o , tornando-se o m i n i s t r o universal dum
rei absoluto. E r a p o r seu l a d o preciso que este R e i tivesse
a l g u m v a l o r p a r a que, p r e p o n d e r a n d o no seu conselho, o r a
um m i n i s t r o enérgico e i n n o v a d o r como L i n h a r e s , o r a u m
i n d i f f e r e n t e l i b e r t i n o como Galvêas, o r a u m d i l e t t a n t e i n t e l -
lectual e político de h o r i z o n t e s largos como Barca, o r a u m
espirito acanhado e r o t i n e i r o como A g u i a r , o r a u m homem
de l e i apegado ás praxes forenses e de c u r t a visão diplomática'
como T h o m a z Antônio, o progresso se mantivesse n u m a es-
cala apreciável, d e n u n c i a n d o uma acção mais o u menos
constante, mais o u menos vigorosa, porém u n a e directa
sobre a m a r c h a que t o m a v a m os acontecimentos. T a l f o i o
papel do m o n a r c h a que f u n d o u a n a c i o n a l i d a d e b r a z i l e i r a :
atravez dos m i n i s t r o s agia a coroa, c u j a direcção suprema
apresentava as modalidades diversas dos agentes que encar-
n a v a m o i m p u l s o do m o v i m e n t o de transformação c o n t i d o na
obra a d m i n i s t r a t i v a .
Naturalmente Dom João V I via-se m e l h o r compre-
h e n d i d o p o r uns m i n i s t r o s do que p o r outros, e os p r e z a v a
218 DOM JOÃO V I NO BRAZIL

mais ou menos segundo o grau de identificação das suas


vistas respectivas. U m ministro como Linhares, renovador
e ao mesmo tempo aferrado ao systema absolutista, convi-
nha-lhe particularmente. N i n g u é m mais do que esse rei pu-
sillanime, estimava levar por diante os seus projectos e pos-
suía um geito muito d'elle de fazer prevalecer sua vontade
sem hostilizar violentamente as dos seus conselheiros, que
conservava quasi sempre enciumados e divididos para mais
facilmente governar. O filho D o m Pedro, tão impetuoso e
voluntarioso, f o i incomparavelmente mais influenciado pela
camarilha do que jamais o havia sido o pai.
Tampouco o dominava a velha nobreza, que até não se
lhe dava de humilhar concedendo títulos a plebeus enricados
pelas suas ligações com o Estado, conforme aconteceu em
Lisboa com Quintella e Bandeira, e no Brazil com Azevedo
e Targini, agraciados com os títulos de visconde do Rio
Secco e barão de São Lourenço ( i ) . Dissimulando a sua
obstinação sob apparencias muito brandas e cedendo sempre
que o apertavam seriamente, mesmo porque era intelligente
e perspicaz em demasia para teimar até a ultima, f o i D o m

(1) Tendo T a r g i n i , depois de ennobrecMo', começado a as-


signar-^se com as íáMaes B. L., safoiinse um do.s muitos pasquins que
a propósito d'essias mercês se publicaram, com o seguinte commentario
poético, que Marrocos reproduz n a s u a canta de 29 de F e v e r e i r o de
1812 :
1.° .Furta Azevedo no Paço,
T a r g i n i rouba no Erário ;
— E o Povo afflicto c a r r e g a
iPezada cruz ao Calvário.
2.° B . L . no Calvário
B o m Ladrão ;
L . B. no Erário
Ladrão B r u t o ;
P o i s qne f a z ?
F u r t a ao Publico.
DOM JOÃO V I NO BRAZIL 213

João na essência um rei absoluto mas na forma um rei


constitucional.
No Brazil chegou a accentuar sem querer esta feição,
democratizando-se exteriormente em certo aspecto de accordo
com o meio afim de agradar os seus subditos americanos, para
os quaes não eram incompatíveis a despretenção do inter-
curso regio e a ambição de distincções mais marcadas do que
a simples admissão ás mesuras da côrte e aos meneios do so-
berano, pelos fidalgos portuguezes julgada àssaz recom-
pensa para a nossa ralé de fortuna. A fortuna porém, per-
mittindo a alguns Brazileiros darem luzimento á nova côrte,
quando os nobres portuguezes andavam na maioria de algi-
beiras vazias — pois que a tradição do affecto real e a recom-
mendação da expatriação voluntária, com privação dos bens
patrimoniaes, eram razões que podiam levar o throno
a sustental-os, mas não bastavam para enriquecel-os — consti-
tuía justamente o motivo que impellia aquelles nacionaes a
pretenderem favores correlativos com os seus avuitados bens
e graças harmônicas com a importância mais crescida que
se attribuiam.
Toda a habilidade de D o m João V I foi impotente para
impedir que semelhante rivalidade fosse degenerando, na
calida atmosphera política do tempo, em sentimento sepa-
ratista. Os fidalgos portuguezes tinham começado por mos-
trar a sua sobranceria egoísta na questão das aposentadorias,
complicada com a prescripção do aluguel das lojas dessas
habitações particulares para maior facilidade de u n j commer-
cio que a trasladação da côrte e a abertura dos portos esta-
vam fazendo avolumar. O despeito d'alguns, o receio neu-
tros de expoliações novas, a carestia da vida sensível para os
menos abastados, foram provocando a retirada de um bom
DOM JOÃO VI NO BRAZIL

numero de pessoas importantes da terra para suas fazendas,


e o retrahimento de muitas na capital mesmo, assim gerando
u m instincto collectivo de segregação que poucos annos leva-
ria a manifestar-se por uma irreconciliavel desunião.
Os Brazileiros, observava com justeza o inglez Luc-
cock, são no geral independentes, violentos e politicamente
mal educados. A inclinação á independência, .que entre a
classe inferior se manifestava pela impostura e por um
falso respeito humano que levava até a gente do povo a re-
putar degradante o sobraçar pacotes e carregar utensílios
de trabalho, revestia entre a classe superior u m aspecto mais
abstracto e mais elevado que devia fatalmente conduzir ao
rompimento entre as duas desproporcionadas porções da mo-
narchia luzo-brazileira. Apenas D o m João V I , pelo seu bom
senso e pela sua affabilidade, servida por uma extraordiná-
ria memória e pelo conhecimento dos pequenos factos ou
incidentes relativos ás pessoas com quem se encontrava e
se entretinha, possuía condições preciosas para se populari-
zar, como o conseguio, apezar da antipathia despertada por
alguns dos seus servidores.
A sua permanência no B r a z i l teria porventura retar-
dado a Independência da mesma f o r m a que a completa se-
paração da A u s t r i a - H u n g r i a é actualmente demorada pelo
respeito que cerca a f i g u r a dolorosa de Francisco José. Tam-
pouco se esquivava D o m João V I de caminhar com os tem-
pos, cedendo das suas prerogativas soberanas, por mais
que lhe fossem caras e que lhe fosse grato preserva-las il-
lesas. A penetração porém do seu entendimento e a sua capaci-
dade de comprehensão dos problemas administrativos predis-
punham-no, j u n t o com a astucia peculiar á sua família, a
acceitar, ainda que n'alguns casos com certa resistência, os
DOM JOÃO V I NO BRAZIL 221

alvitres de concessões successivamente obtidas da sua bene-


volência.
Com todos os melhoramentos de ordem material e
mesmo de ordem moral introduzidos com a mudança da
côrte, uma cousa ficava no emtanto faltando para que o
progresso nacional se firmasse e mantivesse sobre uma base
solida com ser consciente: era a liberdade civil, que conti-
nuava a não vigorar na indispensável plenitude para os sub-
ditos do Príncipe Regente. Hippolyto não se cançava de
bradar de Londres contra o governo militar das capitanias
que proseguia não obstante a trasladação para o Rio de Ja-
neiro da sede da monarchia, confiando-se a administração
de províncias ultramarinas, que eram verdadeiros reinos,
a officiaes muitos delles de baixas patentes e quasi todos de
qualidades taes que, no dizer do Correio Braziliense, a al-
guns se não confiaria em Portugal o governo da menor
aldeia.
Outro e poderoso obstáculo ao goso d aquella liberdade
civil estava na organização e poderes da policia. Em defeza
do absolutismo da coroa, para fins políticos portanto, lhe
dera o marquez de Pombal uma feição arbitraria e prepo-
tente, até illegal pois que era contraria ás velhas leis do
Reino a annullação da funcção judiciaria, e os avisos do
celebre ministro de D o m José chegavam a destruir decisões
dos tribunaes supremos. N o Rio de Janeiro o auctoritarismo
da funcção policial apoiou-se em nova legislação, a saber
em actos emanados das novas secretarias d'Estado.
A provisão de 4 de Outubro de 1808, simultânea com
tanta reforma esclarecida, mandava que não fossem admit-
tidos a despacho livros nem papeis impressos sem licença da
Mesa do Desembargo do Paço, corte soberana e especial
DOM JOÃO VI NO BRAZIL

creada na capital brazileira para se occupar de assumptos


judiciários e decidir processos civis e criminosos, expedindo
graças e privilégios, concedendo revisões de causas, restitui-
ções de bens, etc. O edital de 30 de M a i o de 1809, do
próprio Intendente geral, mandava que se não desse mesmo
publica noticia ou aviso de obras estrangeiras sem trazel-as
primeiro á Secretaria da Policia, admittindo-se expressa-
mente as denuncias em segredo e sendo punidos os delin-
qüentes com multas e prisão. Ponderava H i p p o l y t o com
justa razão a este propósito que o Intendente assim agia
como legislador, quando era u m principio tradicional das
Ordenações do Reino que o magistrado o u j u i z nem pudesse
extender a sancção da lei c r i m i n a l aos casos semelhantes,
devendo restrictamente limitar-se aos casos especificados na
lettra da lei.
O cargo de Intendente geral da Policia f o i confiado
a u m magistrado de elevada cathegoria e reconhecida ener-
gia, o desembargador e ouvidor geral d o crime Paulo Fer-
nandes Vianna, o qual deixou mais do que os apontamentos
sobre sua gerencia que constituem u m a valiosa folha de ser-
viços ( 1 ) , uma reputação invejável na memória popular.
" O Intendente de Policia, d'elle escrevia M a l e r ( 2 ) , é u m
Brazileiro a quem não f a l t a m zelo e actividade; mas
ninguém o secundando, velho e enfermo, com uma reparti-
ção m a l organizada, não pode sósinho pôr as cousas na
ordem desejável. Cada dous dias t e m uma conferência com
o R e i que o estima muito, como repetidamente m'o tem
testemunhado."

(1) iltOTista T r l n r a i s a l , Tomo L V


( 2 ) Officio de 18 de Junino de 1817, Ibiãem.
DOM JOÃO VI m BRAZIL 223

Estabelecera-se a Intendencia n o B r a z i l c o m o mesmo


regimento, jurisdicção é poderes com que f o r a fundada em
P o r t u g a l p o r alvará de 25 de J u n h o de 1760, quando se
d i v i d i r a m as funcções propriamente policiaes das da justiça
contenciosa si bem que sem u m a discriminação equitativa e
menos ainda liberal. N a s attribuições policiaes do tempo ca-
biam de resto não poucos serviços de edilidade e mesmo de
administração geral, taes como o abastecimento de agua da
capital, a construcção de pontes e calçadas, estradas e ca-
naes, a illuminação publica e a colonização. Refere até Paulo
Fernandes V i a n n a que p a r t i u d'elle a idéa de m a n d a r v i r
casaes de açorianos para colonos, pagando-lhes o cofre da
Intendencia as passagens e a todos se dando habitações, ter-
renos, ferramentas, carros e bois o u cavalgaduras. T a m b é m
era do I n t e n d e n t e o plano g e r a l de immigração portugueza
approvado pelo Príncipe Regente em D e z e m b r o de 1810,
para aproveitar n a l a v o u r a brazileira os expatriados p o r
motivo das repetidas devastações francezas.
Si, m a u grado os favores ministrados, não deu o ensaio
resultados completamente satisfactorios, não pode a culpa
ser imputada á pouca liberalidade da policia, s i m á natureza
d'essa emigração estipendiada e recompensada: " ainda que
em nenhuma parte, observa o Intendente, prosperassem os
colonos tanto como n a capitania do E s p i r i t o Santo pelas
inconstancias de seus gênios e pouco amor ao t r a b a l h o . "
Justamente porque n o E s p i r i t o Santo t i n h a m elles que l u c t a r
m u i t o mais pela vida.
O cofre da Intendencia t i n h a bastantes fundos á sua
disposição pela razão de p r i m a r Paulo Fernandes V i a n n a
como caixa. A s grandes festas publicas pelas quaes ficou
memorável o reinado americano de D o m João V I , não custa-
224 DOM J O Ã O VI NO BRAZIL

ram u m real ao Erário, correndo seus gastos pela policia,


que obtinha taes recursos pecuniários agenciando subscri-
pções e angariando activamente donativos entre a classe
rica. O I n t e n d e n t e a f f i r m a v a "ser u m dever da policia trazer
o povo entretido e p r o m o v e r o a m o r e respeito dos vassallos
para c o m o soberano e sua real dynastia." T a m b é m l h e pa-
recia dever da policia, ao mesmo tempo que t a x a r os abasta-
dos, amparar os indigentes; pelo que, entre outras providen-
cias, m a n d o u no local da N o v a Sé, onde hoje fica a Escola
Polytechnica, l e v a n t a r pequenas casas nominalmente arren-
dadas á pobreza.
I g u a l m e n t e se exerceu a generosidade dos amigos do
Intendente no tocante ao aquartelamento das trez compa-
nhias de i n f a n t e r i a e u m a de cavallaria ( i ) , que f o r m a v a m
o corpo da guarda real d a policia organizada p o r decreto
de 13 de M a i o de 1809, segundo anniversario natalicio
do Príncipe Regente passado n o B r a z i l . P o r conta da mesma
munificencia p a r t i c u l a r corria igualmente o pagamento dos
soldos das praças d'essa divisão m i l i t a r i n c u m b i d a de vigiar
a cidade, r e p r i m i r os crimes, cohibir o contrabando, extin-
g u i r os incêndios, e mais serviços de segurança i n d i v i d u a l e
commodidade da população ( 2 ) .
E r a coronel do corpo de policia José M a r i a Rebello e
m a j o r o famoso V i d i g a l , v i v o ainda n a recordação f l u m i -
nense, m u n i d o da chibata c o m que s u r r a v a sem escrúpulos
os capoeiras que e n t r a r a m a infestar e a m o t i n a r c o m suas
maltas a pacata cidade, associados aos embarcadiços ebrios

(1) A comipanihia de cavallaria foi postada no Campo de Santa


A n n a e as trez de infanteria no Vallongo, A j u d a e Prainha. Outra
companhia de cavallaria, mais tarde creada, aquartelou-se em Mata-
porcos (Mello Moraes, Brazil Remo e Brazil Império, T o m o 1 ) .
(i2) Elysio de A-raujo, Estudo Histórico sobre a polida da Ca-
pital Federal de 180>8 a 1831, «primeira parte, R i o de Janeiro, 1898,
DOM JOÃO VI NO BRAZIL 225

da crescente navegação estrangeira. A tradição pinta o


major apparecendo inesperadamente nos batuques, empol-
gando os vagabundos que, depois de castigados, eram levados
a assentar praça, e rastejando admiravelmente os criminosos.
Comtudo os furtos no R i o eram freqüentes e cada dia
se iam tornando mais, assim como as brigas invariavelmente
assignaladas com facadas, á medida que augmentava em nu-
mero a ralé desordeira. O representante francez escrevia
num de seus officios ( i ) que não possuindo a policia por-
tugueza bastante actividade nem meios sufficientes de des-
empenhar o seu papel, acontecia serem raramente punMos
os delictos commettidos pelos nacionaes e, pelo que toca aos
estrangeiros, contentar-se a administração com expulsar
aquelles cujo comportamento se l h e tornava suspeito. O
facto é que as devassas encontravam grandes difficuldades e
os crimes offereciam então muito maior probabilidade de
ficarem impunes, apezar de toda a habilidade de V i d i g a l .
T a n t o estavam porém mais em harmonia com a falta de edu-
cação do povo e as idéas correntes os processos summarios
do major e seus acolytos, que em 1821, depois do 26 de Fe-
vereiro e conseqüente substituição de Paulo Fernandes
Vianna por Pereira da Cunha, peoraram muito as condições
policiaes da cidade, a qual ficou anarchizada, soltando-se
as maltas de capoeiras que, armados de navalhas e ás cabe-
çadas, espalhavam o terror nas festas e nos ajuntamentos
populares.
Nas attribuições da Intendencia continham-se encar-
gos de hygiene, o que não obstou que por decreto de 28 de
Julho de 1809 se creasse o lugar de provedor-mór da saúde
da côrte e Estado do B r a z i l , tendo por officio fiscalizar as

(1) 1G de Agosto de ISIS, ibiilem.


±2i i DOM J O Ã O V I NO B R A Z I L

procedências dos portos suspeitos, estabelecer quarentenas,


evitar o consumo de gêneros alimentícios corrompidos, etc.
N o p r i m e i r o medico da real câmara, D r . M a n o e l V i e i r a da
Silva, recahiu a nomeação do funccionario i n c u m b i d o de
f u n d a r esse nítido esboço dos serviços de p r o p h y l a x i a pu-
blica, que hoje apresentam tão notável desenvolvimento c
f o r a m então accentuados no nosso meio p o r disposições cotn-
plementares.
Assim o alvará de 22 de J a n e i r o de 1810 encerrava
solicitas providencias para a armazenagem e boa conservação
do t r i g o v i n d o em surrões, a f i m que ficasse p r o t e g i d o logo
depois do desembarque e não prejudicasse, estragando-se, a
saúde p u b l i c a ; para o exame e v i s t o r i a da carne abatida nos
matadouros, ás vezes de rezes atormentadas pela f a l t a de
alimentação nas longas viagens do sertão para a c a p i t a l ;
para a conseqüente designação de pastagens nos caminhos
atravessados pelas boiadas a f i m de descançarem e se refaze-
r e m ; para a boa qualidade das drogas vendidas nas boti-
cas ( 1 ) .
Seriam a irresponsabilidade da policia e o despotismo dos
governos militares razões bastantes para H i p p o l y t o escrever
no seu periódico — a propósito de u m r u m o r i n f u n d a d o , que
achara todavia echo nos jornaes inglezes e constava de cartas
vindas do R i o de Janeiro, de pensar a côrte n o anno de 1810
em transferir-se para a i l h a da M a d e i r a — que o B r a z i l ,
u m a vez fechados de novo os portos ao commercio estran-
geiro, f i c a r i a na mesma anterior condição colonial, porque
as outras reformas nada v a l i a m e nada s i g n i f i c a v a m em-
quanto pesasse sobre a t e r r a aquella atmosphera de arbitra-
riedade ? E' verdade que a v i d a m u n i c i p a l c a h i r a n a colônia

(1) Padre Luiz Gonçalves dos Sanctos, ou. cit.


DOM JOÃO VI NO BRAZIL 227

n'uma grande apathia, desapparecendo aquelles tumultos


ainda que locaes, aquellas opposições a medidas impopulares
e a governadores e auctoridades odiosas, aquelles violentos
assomos de independência que davam lugar a se crer que um
pouco da vida autônoma dos burgos medievaes se transpor-
tara da Europa com o feudalismo medieval.
Essa situação durara até meados do século X V I I I .
Agora, o juiz ou procurador do Povo só apparecia nas oc-
casiões de festa, tendo descido ao nivel de um mero func-
cionario communal sem importância nem papel político cu
administrativo. O próprio juiz ordinário, si bem que eleito
pelos municipes, mais se distinguia pela sua subserviência ao
poder do que pela sua hombridade na defeza dos interesses
confiados á sua guarda ( i ) . O receio do redactor do Cor-
reio Braziliense era no emtanto infundado, exaggerada a
sua nota terrorista. Para fazer vingar as reformas intenta-
das e as conduzir ás ultimas conseqüências, uma força se
despertara, que residia na emancipação intellectual levada
a effeito.

(1) Hamdelmaim, ob. cit.


D. J. — 15
<
CAPITULO V

EMANCIPAÇÃO INTELLECTUAL

As condições da instrucção publica no Brazil colonial


dos começos do século X I X e r a m r e c o n h e c i d a m e n t e d e f i -
cientes: pode m e s m o dizer-se q u e e r a m n o g e r a l quasi n u l l a s ,
tendo recebido u m d u r o golpe c o m a expulsão dos Jesuítas,
os quaes n o R i o e B a h i a e n s i n a v a m g r a t u i t a m e n t e , além
das m a t h e m a t i c a s elementares, g r a m m a t i c a l a t i n a , p h i l o -
sophia, t h e o l o g i a dogmática e m o r a l e r h e t o r i c a , c o n f e r i n d o
aos a l u m n o s , q u a n d o t e r m i n a v a m o curso, o d i p l o m a de
mestre e m artes (magister in artibus), e nas o u t r a s partes
d t B r a z i l o n d e e x i s t i a m collegios d a O r d e m , o u m e s m o sim-
ples hospícios, e n s i n a v a m p r i m e i r a s l e t t r a s e g r a m m a t i c a
latina ( I ) .
N o R i o de J a n e i r o o q u e h a v i a de m e l h o r c o m o esta-
belecimentos de educação, antes d a chegada d a côrte, c i f r a -
va-se nos dous seminários de São José e de São J o a q u i m ,
f u n d a d o s e m 1 7 3 9 pelo bispo D. f r e i Antônio d e G u a d a l u p e
e q u e se f u n d i r a m e m 1 8 1 7 . P r e p a r a v a m esses seminário
clérigos e f u n c c i o n a r i o s públicos, s e r v i n d o ao m e s m o t e m p o

(1) Fernandes Pinheiro, Ensaio sobre os Jesuítas.


230 DOM JOÃO VI NO BRAZIL

a Egreja e o Estado, ensinando para o que desse e viesse


l a t i m e canto-chão, especialidade aliás a u l t i m a do seminário
de São Joaquim, menos leigo e destinado a órfãos desvali-
dos. Por isso era ahi a educação toda gratuita. N o de São
José, cujos alumnos nem todos pois se destinavam á religião,
pagavam uns e outros recebiam instrucção sem ônus algum,
acolhendo-se os pobres do mesmo modo e ao mesmo t i t u l o
que os ricos.
O prográmma dos estudos no seminário de São José
abrangia grego, francez, inglez, rhetorica, geographia, ma-
thematica, philosophia e theologia. Os professores, e com
mais razão ainda os do seminário de São Joaquim, perten-
ciam quasi sem excepção ao estado ecclesiastico. E r a mesmo
de justiça que assim acontecesse, visto n u m a sociedade como
a brazileira de então monopolizarem quasi os religiosos o
saber.
A trasladação da côrte rasgou logo novos horizontes
ao ensino. Fundou-se no real hospital m i l i t a r da Bahia uma
aula de c i r u r g i a e outra no hospital m i l i t a r do Rio, ambas
com u m curso de cinco annos, a f i m de f o r m a r e m cirurgiões
práticos que não existiam absolutamente fora das cidades
do l i t t o r a l e andavam substituídos pelos curandeiros. M e s m o
nos centros mais importantes da costa se não encontraria
porventura, para acudir a chamados fora dos hospitaes, u m
medico que tivesse feito u m curso regular. Os próprios ci-
rurgiões que havia não eram formados em P o r t u g a l , onde a
Universidade de Coimbra comprehendia uma faculdade de
M e d i c i n a e o hospital de São José, em Lisboa, fazia vezes
de escola medica.
As operações mais fáceis costumavam no B r a z i l ser pra-
ticadas pelos barbeiros sangradores, e para as mais difficeis
DOM JOÃO VI NO BRAZIL 231

recorria-se a indivíduos mais presumpçosos porém n o geral


igualmente ignorantes de anatomia e pathologia realmente
scientificas, apezar de terem prestado u m exame perante o
j u i z commissario, delegado do Cirurgião-mór do Reino, o u
do representante do Physico-mór si se tratava de aspirante a
medico. O s cirurgiões, médicos e boticários eram a d m i t t i d o s
a essa prova c o m q u a t r o annos de pratica n'um hospital o u
n'uma pharmacia. Remettiam-se para P o r t u g a l os autos dos
exames, assignados pelos juizes e examinadores, e os candida-
tos requeriam consoante elles suas cartas ( i ) .
C o m o e n t r e t a n t o eram estes os únicos profissionaes,
vinham os doentes de longe, em carros de bois o u em redes,
atravessando expostos ás intempéries u m sertão sem estra-
das, a f i m de c o n s u l t a r n a cidade u m pratico que, si se tor-
nava conhecido e ganhava fóros de proficiente, o devia ao
seu estudo pessoal exclusivamente. Depois do medico, único
auctorizado a verificar moléstias internas, diagnosticar a
doença, o t r a t a m e n t o incumbia ao boticário, o q u a l tratava de
curar segundo as receitas exaradas em formulários p o r t u -
guezes velhos de dous séculos. T a m b é m quando, apoz a
abertura dos portos, chegava a qualquer v i l l a do interior u m
estrangeiro, geralmente negociante o u naturalista, suppunha-
se logo que soubesse c u r a r e corria gente de todos os lados
a consultal-o ( 2 ) . Spix e M a r t i u s assim esgotaram a sua
provisão de remédios. O s forasteiros inspiravam mais con-
fiança do que os cirurgiões regionaes, aos quaes, n o caso de
andarem munidos p o r v i a de exame de u m a provisão do
Physico-mór do Reino o u do seu delegado, era licito, n a au-
sência dos médicos, c u r a r de medicina.

(1) M e l l o M o r a e s , CJwr. Hist., T o m o I I .


(2) Luccock, ob. cit.
232 DOM JOÃO VI NO BRAZIL

A íntroducção da sciencia medica ou pelo menos do


ensino medico no B r a z i l deve-se a u m pernambucano, o D r .
José Corrêa Picanço (depois barão de Goyanna) o qual,
apoz fazer estudos em Lisboa, os fora completar a Pariz e
ahi se casara com uma f i l h a do celebre professor Sabatier,
sendo, de regresso a P o r t u g a l , successivamente nomeado
lente de anatomia e cirurgia na Universidade de Coimbra,
I - cirurgião da real casa e Cirurgião-mór do Reino. F o i
n'esta dupla qualidade que acompanhou á sua pátria a fa-
mília real, propondo ao Príncipe Regente na passagem pela
Bahia, onde apenas existia u m seminário, a creação de uma
escola de cirurgia, effectivamente mandada organizar pelo
Aviso de 18 de Fevereiro de 1808. Só cm 1816 no emtanto
obteve a referida escola, por empréstimo do hospital m i l i t a r ,
os primeiros instrumentos para dissecação dos cadáveres,
sendo n'esse mesmo anno que as duas cadeiras primitivas,
fundadas e logo providas, se desdobraram effectivamente
em cinco aulas o u annos ( 1 ) , regularizando-se o ensino me-
dico de accordo com o plano do Physico-mór honorário Ma-
noel L u i z Alvares de Carvalho, bahiano de nascimento, for-
mado em Coimbra, medico da real câmara e director dos es-
cudos de medicina no B r a z i l . E m 1817 aggregou-se uma ca-
deira de chimica, regida pelo professor de C o i m b r a Sebas-
tião N a v a r r o de Andrade, ao programma anterior que abran-
gia anatomia, physiologia, pharmacologia, hygiene, patholo-
gia, therapeutica, operações e obstetrícia.
F o i igualmente M a n o e l L u i z Alvares de Carvalho o
organizador ( 2 ) , no hospital da Santa Casa da Misericórdia,
da escola medica do R i o de Janeiro, creada como a da Bahia

(1) 'Carta Regia de 29 de Dezembro de 18-15.


(2) Decreto de 1 de Abrü de 1813.
DOM JOÃO VI NO B R A Z I L 233

em 1808, a instâncias de frei Custodio de Campos Oliveira,


leigo professo da ordem de Christo, em Thomar, e cirur-
gião-mór do exercito e armada. Uma terceira escola de medi-
cina, promettida ao Maranhão na carta regia de 29 de
Dezembro de 1815, é que nunca chegou a ser estabelecida.
No intuito de dar solidez aos estudos de medicina man-
dava uma carta regia do anno de 1810 que fossem praticar
em Edimburgo e Londres trez alumnos dos mais hábeis do
curso do hospital do Rio para se aperfeiçoarem no seu ramo
de conhecimentos e, como professores da faculdade, virem a
dar á sciencia medica brazileira todo o. preciso desenvolvi-
mento. As intrigas dos correspondentes da Unirersidade
de Coimbra, determinadas pelo ciúme de independência in-
tellectual da colônia, e apoiadas pelo Physico-mór do Reino
barão de Alvaiazere e também pelo Cirurgião-mór conse-
lheiro Picanço, despeitado com não ter sido nomeado director
dos estudos médicos e cirúrgicos, annullaram porém de
facto os estatutos redigidos pelo lente de hygiene pathologica
Dr. Vicente Navarro de Andrade (1). Só mais tarde, corrí-

«A*
(
Í }
£ futuT
°
° de Inhomirim, juntamente com Domingos
bara

Boiges de Barros ( f u t u r o visconde da Pedra Branca), chegara poireo


antes ao Rio vindo dos a t a d o s Unidos, para onde emigrara de Por-
tugal. Segundo diz Moreira de Azevedo n'uma noticia sobre a Facul-
dade de Medicina do R i o (Rev. Trimmsal) entraram Picanço e os

alr^To^ -* 10
P o r t u
^ e z e s
' a
*ao P e r m i t t i r que funcionassem a«

™i* J«
6
J"""** e m t o a r a
Ç a i l
' > Portanto a concessão pela es-
d <

eola de diplomas de cirurgiões formados e obrigando os estudantes


logo que terminavam o 3° anno, a dirigirem seus r e q u e r i m e n t o nó
Cii-urgiao-mor afim de obterem as r e s p e t i v a s cartas de approvados
em cirurgia. Esta graduação os collocava naturalmente n'um plano
•inferior aos outros, preferidos como mais competentes e a u t o r i z a d o s
a curarem também de medicina nas localidades privadas de medico.
A esses era ahás facultado prestarem os exames que se exigiam aos
médicos e alcançarem a f o r m a t u r a e grão de doutor em medicina me-

fSLSSS em la «m S d PlinaS
^ ™°* ^ >--P*1
234 DOM J O Ã O V I NO BRAZIL

gidos e ampliados mais de uma vez aquelles estatutos de


1812, f o i possível executal-os integralmente e dotar o curso
nacional de estudos médicos de toda a indispensável própria
dignidade ( 1 ) . No emtanto, mesmo em tempo de Dom
João V I , a escola do R i o f o i cumprindo a missão a que se
(destinava, educando, entre outros, rapazes vindos das colônias
portuguezas da África para se habilitarem como facultati-
vos e voltarem a clinicar nas suas tetras, e moços pobres
pensionados pelo governo, os quaes ficavam obrigados a
servir nos regimentos de linha.
O conde de Linhares, para quem a integridade nacio-
nal era mais do que uma preoccupação, constituía uma ob-
cessão, não descançou emquanto não estabeleceu na sede da
nova côrte uma academia de guardas-marinha em substi-
tuição da que fundara em Lisboa. Organizou-a no hospício
do mosteiro de São Bento com todos os instrumentos, livros,
modelos, machinas, cartas e planos que possuía em Portugal,
sendo em 1809, por virtude de uma das providencias subse-
quentes, creado u m observatório astronômico para uso da
companhia dos guardas-marinha. L o g o depois f u n d o u uma
academia m i l i t a r , aggregando-se d'este modo por completo
ao cultivo das sciencias exactas o ensino das profissionaes, a
technica da guerra e a arte da defeza.
Nos tempos coloniaes funccionara no R i o uma aula de
fortificação, mandada estabelecer em 1699, e em 1793, du-
rante o vice-reinadó do conde de Rezende, abrira-se no Arse-
nal de G u e r r a (então Casa do T r e m ) uma aula para preparo
dos soldados e officiaes de l i n h a e milícias. A Academia M i -
l i t a r creada pela carta regia de 4 de Dezembro de 1810

(1) Mello Moraes, Ckor. Hist.


DOM JOÃO V I NO BRAZIL 235

e a b e r t a aos 2 3 d e A b r i l d e 1 8 1 1 , f e c h o d a s p r o v i d e n c i a s
tomadas p o r Linhares n o sentido de r e f o r m a r o exercito
d o B r a z i l , d a r - l h e d i s c i p l i n a e instrucção, r e p r e s e n t a v a p o -
r é m a l g u m a c o u s a d e m u i t o m a i s c o m p r e h e n s i v o . N a própria
expressão o f f i c i a l — v i s a v a a " e s t a b e l e c e r u m c u r s o r e g u l a r
das sciencias exactas, d e observação, d e t o d a s as q u e c o n t e e m
applicações aos e s t u d o s m i l i t a r e s e práticos, c o n s t i t u t i v a s d a
s c i e n c i a m i l i t a r e m t o d o s os seus d i f f i c e i s e i n t e r e s s a n t e s r a -
mos, e a f o r m a r hábeis o f f i c i a e s d e a r t i l h e r i a e e n g e n h a r i a ,
e a i n d a m e s m o o f f i c i a e s d a classe d e e n g e n h e i r o s geogra-
phos e topographicos, q u e possam t a m b é m t e r o u t i l e m p r e g o
de d i r i g i r o b j e c t o s a d m i n i s t r a t i v o s d e m i n a s , c a m i n h o s , p o r -
tos, canaes, p o n t e s , f o n t e s e calçadas."
A A c a d e m i a M i l i t a r f o i i n s t a l l a d a n o l a r g o de São
F r a n c i s c o d e P a u l a , o n d e se a n d a r a c o n s t r u i n d o a Sé N o v a ,
c u j o s a l i c e r c e s e m a i s m a t e r i a l a b a n d o n a d o se a p r o v e i t a r a m
p a r a essa o b r a ( 1 ) . O s p r o f e s s o r e s d a instituição f l u m i n e n s e
g o s a v a m d o s m e s m o s privilégios, i n d u l t o s e f r a n q u e z a s q u e
possuíam os l e n t e s d e C o i m b r a , e e r a m t i d o s e h a v i d o s c o m o
m e m b r o s d a faculdade de m a t h e m a t i c a d a U n i v e r s i d a d e :
assim o estatuirá j u d i c i o s a m e n t e o m i n i s t r o p a r a d a r a m a i o r
importância á s u a creação c u j o c u r s o c o m p l e t o a b r a n g i a sete
annos. E s t u d a v a m - s e n o p r i m e i r o a n n o a r i t h m e t i c a , álgebra,
analyse geométrica, t r i g o n o m e t r i a r e c t i l i n e a e d e s e n h o d e f i -
g u r a ; n o s e g u n d o , álgebra, c a l c u l o d i f f e r e n c i a l e i n t e g r a l e
geometria descriptiva; n o terceiro, mechanica, h y d r a u l i c a e

(1) A Academia Militar, á q u a l -chegou a estar reunida durante


um anno (1832-33) a A c a d e m i a de Marinha, transformou-se mais
tarde (1-858) n a E s c o l a C e n t r a l e por fim (1874) n a E s c o l a Polyte-
chnàca d-e hoje, funocionando no primitivo local. Vide Dr. Moreira de
Azevedo, O Rio de Janeiro, Sua historia, monumentos, e t c , 1877,
voí. I I .
236 DOM JOÃO VI NO BRAZIL

desenho de paizagem; no quarto, trigonometria espherica,


óptica, astronomia, geodesia e physica; no quinto, tactica t
fortificação de campanha, chimica, philosophia chimica e de-
senho m i l i t a r ; no sexto, fortificação permanente, ataque e
defeza das praças e mineralogia; no septimo, artilheria, mi-
nas militares, theoria da pólvora da artilheria, zoologia, bo-
tânica e desenho de machinas de guerra. T u d o isto afora os
exercícios práticos, as línguas franceza e ingleza e a es-
grima ( i ) .
A organização e regulamento d'esta Academia M i l i t a r ,
com toda a sua exhibição de conhecimentos mathematicos e
indigestão das matérias accumuladas no programma extenso,
copioso e vistoso, são da lavra do próprio Linhares, cujo
fraco consistia em passar por homem de sciencia, como de
facto o era no meio de uma nobreza na sua grande maioria de
uma deplorável ignorância. N a d a comtudo melhor justifica
do que aquelle pomposo projecto a alcunha de Doutor Tra-
palhada ou Doutor Bar afunda que lhe puzera a espirituosa
Rainha D o n a Carlota. Depois, onde achar gente sufficiente
e assaz habilitada para dar immediata execução a u m plano
assim grandioso ? T u d o por isso ficava incompleto e falho,
sem correspondência exacta entre o resultado pratico e a
concepção creadora.
Si as escolas de medicina experimentaram difficuldades
serias para lograrem preencher os illustrados intuitos da
sua fundação, não foi m u i t o mais afortunada no seu próximo
destino a Academia M i l i t a r . A freqüência que logo teve não
pode taxar-se de d i m i n u t a pois que offereceu u m numero

(1) José Silvestre Ribeiro, ob. cit.


DOM JOÃO V I NO BRAZIL 237

médio de 120 alumnos, mas não se p u z e r a m em pratica p o r


demasiado completos os estatutos, nem se v e r i f i c a r a m p o r
indolência os exercícios práticos, nem se deu p o r incompe-
tência o devido desenvolvimento á theorla das construcções,
nem se attendeu p o r negligencia á organização dos compên-
dios ( 1 ) .
O impulso entretanto estava dado. A decisão pertinaz
de u m ministro, f i r m a d o no bom senso arguto do seu sobe-
rano, rompera ás machadadas a espessa crosta de gelo austral
que isolava das sementes liberalmente espalhadas o terreno
inculto, porém cheio de húmus, onde ellas podiam germinar.
E os exemplos m o s t r a m como logo f r u c t i f i c a r a m . E m Per-
nambuco, onde desde o bispo Azeredo C o u t i n h o funcciona-
vam u m seminário de estudos secundários e ecclesiasticos,
u m collegio de meninas estabelecido com u m legado do deão
da C a t h e d r a l e u m quasi systema de escolas primarias, abria-
se aos 6 de J u n h o de 1814 u m curso de estudos mathemati-
cos, recitando o discurso de inauguração o D r . Antônio F r a n -
cisco Bastos, oppositor da faculdade de mathematica de Coim-
bra, lente e director dos estudos militares da capitania. O se-
minário anteriormente existente encerrava no seu p r o g r a m m a
línguas vivas e mortas, philosophia, rhetorica, geographía,
historia universal e sagrada, desenho, mathematicas elemen-
tares, historia n a t u r a l e theologia.
N o Rio, a A u l a de Commercio simultaneamente creada
com a Academia M i l i t a r , viu-se m u i t o mais freqüentada
ainda, sendo de resto n a t u r a l que sobrdevasse o espirito mer-
cantil ao bellico, que nunca f o i accentuadamente caracterís-
tico nosso. F o i professor d'essa A u l a , nomeado em 23 de Ja-
neiro de 1810, José Antônio Lisboa, o q u a l cursara os èstu-

(1) Moreira de Azevedo, ob. cit.


238 DOM JOÃO VI NO BRAZIL

dos de mathematica no Real Collegio dos Nobres da capital


portugueza e em seguida visitara P a r i z e Londres (i).
Por occasião da elevação do B r a z i l a Reino, dous annos
antes da acclamação de D o m João V I , os negociantes do
Rio de Janeiro, aos quaes parece que deviam dizer pouco
os assumptos intellectuaes, escolheram todavia a offerta ao
monarcha de uma bella somma de dinheiro para ser appli-
cada a fins de educação geral, como o melhor meio de com-
memorar aquelle auspicioso evento, tão grato que até cha-
mou á capital deputados das câmaras municipaes das provín-
cias, pressurosos de agradecerem a considerável mercê feita
á nação. Deveriam, na intenção dos offertantes, ser os ren-
dimentos do capital doado, perpetuamente empregados em
estabelecimentos que promovessem a instrucção nacional.
Por u m decreto adrede promulgado deliberou o Rei —
que o f o i justamente de nome no anno de 1816 — que as
fundações dotadas com aquella dádiva se erigissem no R i o
de Janeiro mesmo, para que d^ellas pudessem utilizar-se com
preferencia os descendentes dos subscriptores, unindo-se ás
cadeiras das sciencias que então já existiam, as novamente
creadas, por maneira que viesse a formar-se u m Instituto
Acadêmico comprehendendo o ensino das sciencias e be-las-
artes e sua applicação á industria. D e u este projecto lugar,
por tão comprehensivo, a que tenha repetidamente sido ap-
pellidado Universidade o delineado I n s t i t u t o Acadêmico.
Por seu lado o governo recorria a todas as providencias
no sentido de bem servir a causa da instrucção publica. As-

(1) E m 1813 não se a c h a v a m por contra estabelecidais ainda as


a u l a s de commericio creadas n a B a h i a e em Pernambuco pelo mesmo
Alvará com força de lei de 15 de J u l h o de 1809, pois que e r a publi-
cado um edital d a J u n t a do Commercio, ábaimamdo a concurso p a r a pro-
vimento dos lugares os candidatos a lentes.
DOM JOÃO VI NO BRAZIL 239

sim, obedecendo á consulta da M e s a do Desembargo do


Paço, em 1811 isentou do recrutamento os estudantes ma-
triculados nas aulas officiaes ( 1 ) e c u j a freqüência e apro-
veitamento fossem testemunhados pelos professores res-
pectivos.
A d q u i r i d o pelo governo o chamado gabinete de historia
n a t u r a l do barão O h e i m ( 2 ) , que era antes u m a collecção
mineralogica descripta p o r W e r n e r , f o i arranjado n u m es-
boço de museu, dispondo-se ao mesmo tempo os diamantes e
outras curiosidades remettidas do D i s t r i c t o D i a m a n t i n o pelo
intendente F e r r e i r a da Gamara. D'elle proveio o actual
M u s e u N a c i o n a l e aliás se evolvera do r u d i m e n t o que rece-
bera do publico attonito o nome de Casa dos Pássaros, p o r
causa de uns poucos exemplares ornithologicos empalhados
que encerrava.
A essa nova instituição scientifica, fundada p o r decreto
de 6 de J u n h o de 1818, f o i dado p o r f i m "propagar os co-
nhecimentos e estudos das sciencias naturaes no reino do
B r a z i l que encerra em si milhares de objectos de observação
e exame, e que podem ser empregados em beneficio do com-
mercio, da i n d u s t r i a e das artes, que m u i t o desejo favorecer,
como grandes mananciaes de riqueza " F o i o seu p r i -
meiro director f r e i José da Costa Azevedo, lente de minera-
logia e director do gabinete mineralogico e physico da Aca-
demia M i l i t a r , começando desde então a ahi serem reunidas
amostras de mineraes e collecções de ethnographia nacional,
taes como múmias de indios, utensílios e armas selva-
gens, etc.

(1) I n c l u i a - s e n a isenção a casa p a r t i c u l a r de educação f u n d a d a


pelo p a d r e F e l i s b e r t o Antônio de F i g u e i r e d o M o u r a .
(2) Ou Olham.

\
240 DOM JOÃO VI NO BRAZIL

Dir-se-hia que tudo se animára ao sopro scientifico.


N'uma sociedade que hontem só lograria distinguir-se pelo
atrazo, de u m momento para outro ouviram-se conferên-
cias philosophicas ( i ) , concederam-se patentes de inven-
ção, analysaram-se águas mineraes para serem consumidas
e exploradas, ensaiou-se a introducção de typos de faunas
estranhas como o camello da Arábia e a cabra da índia. N o
centro, longínquo de C u y a b á chegou a organizar-se e m 1817
u m a companhia de mineração a exemplo da que no mesmo
anno se organizou em M i n a s G e r a e s pelas instâncias de
E s c h w e g e ( 2 ) . E a melhor prova de que o anterior em-
pirismo cedia o passo á investigação scientifica está em que
por decreto de 2 5 de J a n e i r o de 1812 se f u n d a v a n o R i o
u m laboratório pratico, "tendo e m consideração as muitas
vantagens, que devem resultar, e m beneficio dos meus fieis
vassallos, do conhecimento das diversas substancias, que ás

(1) As conferências ou prelecções .philosophieas, abertas em


1813 na sala do Real Collegio de São Joaquim, t i n h a m por thema a
theoria do discurso e da linguagem, o tratado das paixões e o sys-
tema do mundo, abrangendo portanto lógica, gramimartioa, rhetorica,
esthetica, ethica, direito n a t u r a l , ontologia, sciencias mathematicas,
'astronômicas e physioas, e theologia natural. Foram obra do illustre
Silvestre Pinheiro Ferreira, publicista-, jurisconsulto, economista e phi-
losopho do maior mérito, um dos raros homens de quasi universal
erudição, n»o dizer de um dos seus biographos (José Silvestre- Ribeiro,
01b. cit.) Talvez influísse na i n i c i a t i v a de Silvestre Pinheiro Ferreira
o desejo de prestar serviços ao desenvolvimento i n t e l l e c t u a l do B r a z i l ,
assim recobrando as boas graças do Principe Regente, cujo favor per-
dera por se haver recusado no anno anterior (1812) a i r negociar
pazes entre Buenos Ayres e Montevidéo, a menos de lhe ser reconhe-
cido caracter publico ou diplomático. Esta f o i a commissão confiada
ao agente Rademaioker. I n f o r m a m as cartas de Marrocos de 29 de
Agosto e 7 de Outubro que o agente recalcitrante f o i -mesmo por isso
degradado para a i l h a da Madeira, sendo perdoado depois de já estar
a bordo pela intervenção de lord Strangford e pelos esforços da pró-
p r i a consorte.
(2) Da transformação que para os trabalhos de mineração se
derivou da acção o f f i c i a l em tempo de Dom João V I dá conta histó-
r i c a e scientifica o recente e valioso trabalho do Sr. Pandi-á Calogeras
•—As Minas do Brazil e sua Legislação. Rio, 1904, 2 vols.

»
DOM JOÃO V I NO BRAZIL 241

artes, ao commercio e industria nacionaes podem subminis-


trar os differentes produetos dos trez reinos da natureza,
extrahidos dos meus domínios ultramarinos."
Onde era desconhecida a producção typographica, en-
traram de repente os prelos a dar á luz numerosos trabalhos,
No tempo que medeia entre as Observações commerciaes e
econômicas de Silva Lisboa (1808) e as Memórias do Rio
de Janeiro de Monsenhor Pizarro (1820), sahiram da
Impressão Regia obras didacticas, de moral, de philosophia
aristotelíca, poéticas, dramáticas, mercantis, clinicas, náuti-
cas, de todo o gênero. Si bem que não existindo liberdade de
imprensa, uma revista "litteraria, política e mercantil" assaz
interessante — O Patriota — foi editada nos annos de 1813
e 1814, diffundindo pelas classes alta e media a instrucção
que nas suas paginas era fornecida por homens do valor de
Silvestre Pinheiro Ferreira, José Bonifácio de Andrada e
Silva, Domingos Borges de Barros, Marianno J. Pereira
da Fonseca (futuro marquez de Maricá) e outros.
Não havia porém censura que obstasse á franca circula-
ção do Correio Braziliense, onde se criticava com talento
toda a marcha da política portugueza e todos os processos
da sua administração. Em Portugal a Regência, mais rea-
lista do que o Rei, vedara esse periódico, que no Rio era
Dom João V I o primeiro a ler com assiduidade ( 1 ) . E si
em Lisboa nos fins do século X V I I I eram perseguidos sem
piedade quaesquer livros francezes — uma denominação
k . . .

( 1 ) P a r a com)ba«ter o e f f e i t o d'essa p u b l i c a ç ã o em p a i z e s t r a n -
geiro, s u b v e n c i o n a v a a e m b a i x a d a p o r t u g u e z a de L o n d r e s o Investi-
gador Portuguez, que d u r o u de 1 8 1 1 a 1819 ( o Oorreio d u r o u de 1808
a 182:2) e f o i p r i m e i r a m e n t e d i r i g i d o pelos D r s . B e r n a r d o J o s é de
A b r a n t e s e C a s t r o e V i c e n t e Pedro Nolasco e C a s t r o . D e p o i s de 1814
d i r i g i o - o o conhecido e s c r i p t o r , t r a d u c t o r de T á c i t o , m a i s t a r d e emi-
grado l i b e r a l Jo-sé L i b e r a t o F r e i r e de C a r v a l h o , a d q u i r i n d o e n t ã o o
periodko maior independência.
242 DOM JOÃO VI NO BRAZIL

que abrangia todas as publicações estrangeiras — , no B r a z i l


eram tão illudidas as interdicções oppostas ás ideas impressas
importadas de ijóra que, Luccock é quem o a f f i r m a , ao
tempo da residência da côrte portugueza eram m u i t o lidos
V o l t a i r e e Rousseau, a saber, os emancipadores do pensa-
mento latino, e não eram desconhecidos nas traducções os
auctores inglezes e allemães, Shakspeare e Pope, Gessner e
Klopstock.
E n t r e o sexo feminino mesmo f o r a m sensíveis os pro-
gressos realizados pela educação. E n t r e esse sexo era natu-
ralmente a ignorância mais extensa e marcada, quasi que se
limitando a instrucção das senhoras mais distinctas a sa-
berem rezar, contar de cor e perceber a linguagem das flo-
res, por outra os meios de correspondência Gom os santos e
com os namorados. Debret já falia porém n'um collegio de
meninas aberto no convento da A j u d a , ao lado do recolhi-
mento, e n'outros collegios, leigos, com professores, onde
se ensinavam língua portugueza, arithmetica, cathecismo,
bordado e costura. Emigrados francezes davam por esse
tempo licções particulares do seu idioma e de geographia.
M a i o r incremento só tomaria a educação feminina depois de
1820, quando se v u l g a r i z o u o conhecimento do francez e se
tornou grande a freqüência dos collegios de meninas, nos
quaes passaram a ser cultivadas prendas como o canto, a
dança e o desenho ( 1 ) .
Somente gorou o projecto de uma Universidade —
projecto acariciado pelo Rei, que chegou a convidar José
Bonifácio para director d'ella, mas não igualmente favore-
cido por todos os seus m i n i s t r o s — p e l a tenaz opposição do
ainda preponderante elemento portuguez, o qual assim re-

( 1 ) D e b r e t , Voyage Pittoresque et Historíque au Brésil, YOI. I I I .


DOM JOÃO VI NO BRAZIL 243

ceiava ver desapparecer uma das principaes bases sabre que


a metrópole assentava a sua superioridade. Na colônia exis-
tiam capacidades, bem se sabia no velho Reino, tanto melhor
quanto o século X V I I I portuguez fora intellectualmente
de metade brazileiro. O que faltava em absoluto era univer-
salidade de educação, justamente o que aquelle desígnio as-
pirava a introduzir no nosso meio espiritual.
Em compensação Dom João V I e o conde da Barca,
inimigo político de Linhares e seu digno emulo na intelligen •
cia e na cultura, deram princípio a uma Academia de Bellas
Artes ( i ) , organizada com artistas francezes de mérito e
reputação contractados por intermédio do marquez de Ma-
rialva, embaixador em Pariz depois da restauração dos Bour-
bons, o mesmo casquilho de quem Garrett escreveu que,
apoz morto, as hetairas parisienses disputaram para recorda-
ção anneis do cabello. Ha até quem julgue, e Debret o insi-
nua, que a primeira idéa da Academia nasceu das conversa-
ções de Alexandre de Humboldt com aquelle diplomata e
illustre fidalgo portuguez, que em França soubera constituir-
se um circulo' de artistas, sábios e homens de lettras, para
ajudar e soccorrer os quaes estava sempre generosamente
franca a sua bolsa.
Barca era aliás bem capaz de ter elle só tido a lem-
brança, si Dom João V I não fosse o amador esclarecido que
desde Lisboa se revelara na protecção dispensada a artistas
nacionaes, e também estrangeiros como o famoso gravador
Bartolozzi. Esse gentilhomem affavel e distincto, tão com-
pletamente do seu fim de século, tão filho daquelle período
de transição; esse bibliomano por tantos annos valetudinario ;
esse aristocrata sem pretenção e sem preconceitos, com uma

(1) Foi primeiro chamada Escola ,de Sciencias, Artes e Offlcios.


D. J. — 16
244 DOM JOÃO VI NO BRAZIL

expressão tão aguda no seu fino rosto comprido, mostra-


va-se por igual devotado ás artes, ás sciencias e ás industrias.
N a sua casa encontrava-se sempre hospedado a l g u m profis-
sional: ou o cavalheiro Neukomm, discípulo favorito de
H a y d n e compositor da real capella,' o u u m pintor italiano
agarrado não se sabia onde, ou algum dos muitos mechaini-
cos, gravadores ou outros artistas para quem elle obtinha
pensões do Thesouro a f i m de aperfeiçoarem na Europa os
seus talentos e aptidões naturaes. Refere Debret que n'um
pateo da casa do intelligente ministro existia uma officina
para fabrico de porcelana; n'uma dependência funccionava
u m laboratório de chimica para melhoramento, entre outras
industrias, da distillação da aguardente de canna; n u m de-
posito j a z i a m as peças incompletas d u m a machina a vapor
mandada v i r de Londres. Logo em seguida á chegada da
côrte ao B r a z i l , emquanto D. Rodrigo tomava pressurosa-
mente conta das pastas que o seu r i v a l gerira no Reino e que
por seu t u r n o d'elle v i r i a a herdar, f u n d o u Barca (então
ainda simplesmente Antônio de Araújo) uma Sociedade de
animação á industria e mechanica,. a qual até 1822 se re-
sentiu da apathia geral para emprehendimentos de seme-
lhante natureza, que fora trazida do Reino na esquadra da
emigração e contaminava todos os serviços públicos, para-
lysando esforços individuaes vigorosos e tornando m u i pouco
fructuosas tentativas promissivas como aquella.
O grupo de artistas importados de P a r i z e desembar-
cados no R i o em Março de 1816, era d i r i g i d o por Lebreton,
secretario perpetuo da classe de Bellas-Artes do I n s t i t u t o de
França, e compunha-se de J. B. Debret, pintor d historia; J,

Nicolas A. T a u n a y , pintor de gênero e de paizagem; outro


Taunay, Augusto, esculptor e irmão do p i n t o r ; Grandjean
DOM JOÃO VI NO BRAZIL 2á5

de M o n t i g n y , architecto; François Ovide, professor de me-


cânica; Simon Pradier, abridor ou gravador em talha fina,
e François Bonrepos, ajudante do esculptor Taunay.
O governo francez não podia oppor-se, mas não v i u
com olhos m u i t o favoráveis essa emigração de capacidades
artísticas organizada pelo embaixador de Portugal. Maler
no R i o chegou a pensar que se tratava de u m exílio disfar-
çado de indivíduos affectos ao Império, mas o próprio M i n i s -
tério de Estrangeiros, negou que houvesse tal, a f f i r m a n d o
ser voluntária a expatriação e não se acharem os artistas em
questão visados pela policia ou ameaçados pelas leis de segu-
rança da monarchia restaurada ( i ) . " E' provável, escrevia
o ministro, que alguns d'elles cederam ao afastarem-se da
França, a u m vago sentimento de inquietação, e imaginaram
que além mar encontrariam mais tranquillidade. Outros
foram apenas levados para o B r a z i l pela esperança de se
estabelecerem e fazerem fortuna, j u l g a n d o que n u m a occa-
sião em que as producções artísticas gosam porventura entre
nós de menor procura, seus talentos seriam melhor aprecia-
dos na sua nova residência. H a sem duvida lugar de crer
que uma parte d'esses cálculos resultará fallaz e que esses
viajores deplorarão, apoz algum tempo de demora no Bra-
z i l , ter deixado u m paiz mais adiantado nas artes e por con-
seguinte mais de feição a assegurar-lhes os recursos que elles
desejam."
N ã o se enganava o Ministério francez. O desígnio da
côrte do R i o tanto tinha de sympathíco quanto de ousado e
algo mesmo de incongruente, pois que o povo no B r a z i l ca-
recia muito mais de ensino industrial que de artístico. As
bellas-artes necessitam apoiar-se sobre as artes mechanicas,

(1) Despacho de 25 de A b r i l de 1816, ibiãem.


246 DOM JOÃO VI NO BRAZIL

quando não o edifício fica sem alicerces: não se pode iniciai


uma construcção pela cumieira. E ' verdade que com os ar-
tistas vieram alguns operários francezes — um ferreiro, um
serralheiro, um curador de pelles e eurtidor, dous carpintei-
ros de carros — c o m o f i m de desenvolverem as industrias
( i ) , mas não era dado aos artistas esperarem de braços cru-
zados que se fizesse a educação profissional do publico e que
n'elle se incutisse depois o gosto mais apurado das cousas
em que a technica se combina com a imaginação e o senti-
mento. Comtudo, para florescerem, precisam as bellas-artes
de uma atmosphera adequada e de um meio propicio: sem
luz e sem calor bastantes como poderiam as plantas vingar ?
Onde porem encontrar semelhante correspondência, que por
ser moral não era menos indispensável que a physica, no
Brazil d'aquella epocha, com ocios mas sem fortunas, e so-
bretudo sem um gosto vivo pelos objectos d'arte, os quaes
fariam as delicias de raros entendidos e o estimulo de raras
vocações, mas entre a quasi totalidade não podiam rivalizar
no interesse que despertavam com a admiração mais primi-
tiva, mais ingênua e mais immediata das bellezas naturaes,
j á por si própria de espíritos com certa educação ?

(1) A E s c a l a e r a aliás n ã o só de a r t e s c o m o de o f f i c i o s , f u n -
dada p o r u m espírito -em t o d o s e n t i d o e q u i l i b r a d o como o ide (Barca
p a r a " d l i f t f u n d i r a instrucção e c o n h e c i m e n t o s indispensáveis aos ho-
mens destinados, t a n t o aos empregos públicos d a administração do
Estado, como ao progresso d a a g r i c u l t u r a , m i n e r a l o g l a , i n d u s t r i a e
•comnuerck) ; de que r e s u l t a a subsistência, comrnodidade. e civilização
dos pioivos, m a i o r m e n t e neste c o n t i n e n t e , c u j a extensão não t e n d o a i n d a
o d e v i d o e c o r r e s p o n d e n t e n u m e r o de braços indispensáveis ao amanho,
e a p r o v e i t a m e n t o do t e r r e n o , p r e c i s a dos g r a n d e s soccorros d a está-
t i c a p a r a a p r o v e i t a r os p r o d u c t o s , c u j o v a l o r e p r e c i o s i d a d e podem v i r
•a f o r m a r do B r a z i l o m a i s r i c o , e o p u l e n t o dos r e i n o s c o n h e c i d o s : f a-
z-endo^se p o r t a n t o necessário aos h a b i t a n t e s os exercícios mecânicos,
c u j a p r a t i c a , perfeição e 'Utilidade d e p e n d e m dos c o n h e c i m e n t o s theo-
r i c o s dajquellas artes, e d l f f u s L v a s luz?es das sciemcias n a t u r a e s , phy-
sicas, e e x a c t a s . . . . . "
DOM JOÃO VI NO BEAZIL 247

Citara Humboldt a Marialva o exemplo de uma Aca


demia análoga no México como de natureza a animar as
esperanças de uma t a l fundação. T o d a v i a essas esperanças
acabaram a l l i por não fructificar, assim como no B r a z i l f o i a
historia da Academia uma historia melancholica. O falleci-
mento quasi immediato de Barca, o seu Mecenas; aquillo
que Debret i n t i t u l a o geral systema de mediocridade, a
saber, a indifferença pela tentativa, posto que tão suggestiva,
por parte mesmo dos que se reputavam mais illustrados; a
surda hostilidade dos poucos artistas nacionaes, tanto mais
presumidos quanto a si próprios deviam o desenvolvimento
dos seus talentos, que consideravam naturalmente inexce-
diveis; por f i m as discussões e dissensões políticas que se abri-
ram com a insurreição pernambucana de 1817 e se prolon-
garam com a revolução liberal de P o r t u g a l em 1820 e o
movimento nacional da Independência de 1821 e 1822, re-
tardaram até 1826, depois do Império proclamado, reconhe-
cido e meio pacificado, a abertura da Escola em que tanto se
confiara, ou pelo menos tinham confiado seus iniciadores
para a formação do gosto brazileiro, para a elevação do ní-
vel mental do novo Reino, cuja erecção em 1815 fomentara
o espirito patriótico e pode dizer-se que entrara a modelar o
caracter nacional.
Foi como si houvesse começado uma era nova na exis-
tência política do B r a z i l . Principiou desde então o paiz a
ter, não mais a supposição mas a consciência da sua impor-
tância. A s capitanias estavam d'antes separadas, algumas eram
até hostis. Acontecia o mesmo que na America do N o r t e
durante o regimen de dependência colonial. O que lá fize-
ram a guerra de libertação e a obra do Congresso tão feliz-
mente continuada por Washington, aqui o fez a Coroa com
248 DOM JOÃO VI NO BRAZIL

a sua generosa i n i c i a t i v a , que c o n s a g r o u u m estado de cou-


sas creado pelas c i r c u m s t a n c i a s históricas, independentes da
sua vontade, mas t a m b é m pelas múltiplas e esclarecidas me-
didas, f i l h a s da sua acção. A m u d a n ç a da côrte t r a n s f o r m a r a
c o m e f f e i t o o R i o de J a n e i r o >no c e n t r o do Império A m e r i -
cano, no que L i s b o a e r a p r e v i a m e n t e p a r a esses f r a g m e n t o s
geographicamente annexos e m o r a l m e n t e esparsos da monar-
chia p o r t u g u e z a , agora províncias u n i d a s de u m R e i n o quasi
autônomo.
Foi m e d i a n t e a constituição d'essa e n t i d a d e a d m i n i s t r a -
t i v a q u e a enorme possessão transatlântica, e s p i r i t u a l m e n t e
emancipada pelos esforços directos, si t a r d i o s da metrópole,
e n t r o u a o f f e r e c e r n o seu c o n j u n c t o u m a p e r s o n a l i d a d e de
sentimento. O f a l l e c i m e n t o d a R a i n h a no anno de 181Ó e a
acclamação do n o v o soberano no de 1818, actos capitães da
v i d a d a nação sob o r e g i m e n m o n a r c h i c o , passaram-se l o g o
depois de f u n d a d o o R e i n o no seu seio e, r e p r e s e n t a n d o m o t i -
vos de convergência das manifestações publicas, s e r v i r a m i n -
s t i n c t i v a m e n t e de elos que p r e n d e r a m as populações b r a z i -
leiras. Esses acontecimentos f o r a m celebrados em cada uma
das antigas capitanias, f a z e n d o a f f l u i r de todos os lados ás
cidades e v i l l a s , p a r a assistir aos festejos o u ás c e r i m o n i a s fú-
nebres, gente q u e v i b r a v a sob idênticas impressões. A uni-
formidade das sensações precedeu e determinou a unifor-
m i d a d e das vontades.
Percorrendo-se a f o r m o s a o b r a de D e b r e t e e n c o n t r a n d o
relembradas nas suas curiosas l i t h o g r a p h i a s as grandes ceri-
m o n i a s da côrte do R i o de J a n e i r o n o p r i m e i r o q u a r t e l do
século f i n d o — acclamações, funeraes", casamentos—vê-se g r a -
phicamente o n d e e c o m o se cònstituio o s e n t i m e n t o n a c i o n a l
da t e r r a . Sua expansão t e r i a que c o n t i n u a r até completar-se
DOM JOÃO VI NO BRAZIL 249

essa formação, si bem que o elemento o f f i c i a l julgasse, com


a elevação honorífica, remate de tantos melhoramentos effe-
ctivos, ter dado inteira satisfacção ao impulso de progresso po-
lítico, conseqüência do progresso material, e preenchido to-
das as aspirações moraes da ex-colonia.
C o m este estado geral soffreu mais do que aproveitou
a Academia de Bellas-Artes, ainda que a situação devesse em
these favorecer os seus desígnios originários. Nos dez annos
decorridos de 1816 a 1826 o palácio da Academia, de cuja
construcção fora encarregado Grandjean de M o n t i g n y , não
logrou, por falta de meios postos á disposição do architecto,
passar do andar térreo com u m pavilhão o u templo grego
no centro. O bello grupo de artistas, ainda augmentado com
a chegada, pouco depois dos passageiros da Calpê, -dos escul-
ptores irmãos Ferrez, u m ornamentista e o outro gravador
de medalhas, já o dispersara entretanto a sorte, não obstante
as providencias do Governo.
A f i m de prender esses artistas ao B r a z i l , D o m João V I
ao mesmo tempo que os desonerava de obrigações officiaes
até inauguração da Escola, estipulou a cada u m a pensão
alimentícia de 5.000 francos (12.000 a Lebreton, director
do Instituto B r a z i l e i r o ) sob obrigação de permanecerem
seis annos no paiz, que tantos se julgava tempo mais do que
sufficiente para a organização da Academia em que elles
deviam proeminentemente figurar. A referida pensão conti-
nuaria a ser-lhes arbitrada em França, si para lá decidissem
regressar, perdendo, bem se entende, todo o direito aos orde-
nados que mais tarde d e v e r k m caber-lhes na qualidade de
professores.
A liberal provisão do R e i não poude obstar ao desba-
rato do risonho projecto. Lebreton, desanimado com o f a l -
250 DOM JOÃO VI NO BRAZIL

lecímento de Barca e desgostoso c o m as intrigas de que estava


sendo alvo, retirou-se para u m a casinha n a P r a i a do Fla-
mengo, então u m verdadeiro arrabalde de recreio, e dedi-
cou-se á l i t t e r a t u r a , m o r r e n d o tristemente em 1819. M a l e r ,
que era u m antigo emigrado de 1792, detestava cordialmente
Lebreton, bonapartista conhecido e que como t a l f o r a p r i -
vado em França do seu cargo perpetuo n a reorganização do
I n s t i t u t o : n e m f o i com o applauso d'elle que a A c a d e m i a Bra-
z i l e i r a se delineou no R i o sob a direcção de ex-secretario da
Secção de Bellas-Artes de Pariz. N o R i o conservou o repre-
sentante francez constantemente a vista sobre o seu compa-
t r i o t a emigrado, accusando-o de conservar n a pátria rela-
ções criminosas e suspeitando-o de receber cartas e boletins
redigidos n u m espirito de p a r t i d o cego e odiento. ( 1 ) I n -
felizmente, segundo refere, não podia M a l e r surprehender
essa correspondência porque a protegia o barão de São L o u -
renço, cuja i n f l u e n c i a era tão considerável.
O gravador P r a d i e r p a r t i r a entretanto para França,
a f i m de proceder em pessoa á execução das gravuras que ti-
n h a m de v u l g a r i z a r alguns dos q u a d r o s — r e t r a t o s do R e i e
do Príncipe, embarque das tropas para Montevidéo, des-
embarque da A r c h i d u q u e z a L e o p o l d i n a , acclamação de D o m
João V I — c o m os quaes ia D e b r e t preenchendo suas funcções
officiaes. A o mesmo tempo augmentava o p i n t o r da côrte
seus proventos c o m os pannos e scenarios que fazia para o
theatro de São João e com a marcação dos bailados allegori-
cos imaginados pelo emprezario d'essa sala de espectaculos
para festejar, mediante pingues compensações d o bolsinho do
soberano, os anniversarios reaes e os acontecimentos memorá-
veis da dynastia e da monarchia.

(1) Corresp. no Arch. do Min. dos Ne-g. E s t r . de França.


DOM JOÃO VI NO BRAZIL 251

A meio da sua estada em França, de que resultou a l -


guns bons retratos gravados, de Barca e P a l m e l l a entre ou-
tros, f o i P r a d i e r dispensado pelo novo director da Escola,
o p i n t o r p o r t u g u e z H e n r i q u e José da Silva, a quem o barão
de São Lourenço, seu protector, m a n d a r a v i r de Lisboa e
fizera nomear para aquelle cargo, que accumulava c o m a ca-
deira de desenho, depois da m o r t e de Lebreton, sem o u t r o
t i t u l o mais, no dizer u m t a n t o suspeito de Debret, do que
ser pobre e p a i de doze filhos. Simultaneamente era o se-
cretario francez da A c a d e m i a substituído por u m outro, por-
tuguez.
Queixaram-se os artistas francezes de que f e r v i l h a r a m
desde então mais activamente contra elles as intrigas p o r t u -
guezas, e f o i este o m o t i v o pelo q u a l logo se r e t i r o u para
França o p i n t o r T a u n a y . C o m effeito o novo director, no
p r u r i d o m u i t o nacional de r e f o r m a r mesmo o que ainda não
entrou a funccionar, começou p o r s u p p r i m i r cadeiras e por-
tanto eliminar professores francezes, como o gravador em
talha fina, dous alumnos de architectura que ao mesmo tempo
ensinavam, e o p r o f essor de mechanica. ( i ) T h o m a z Antônio,
homem de bem, cheio de excellentes intenções, que a mal-
dade da sua roda de aduladores e a insufficiencia dos seus ta-
lentos para a administração lhe não p e r m i t t i a m realizar, quiz
reparar o m a l c o m os palliativos próprios do seu tempera-
mento, fazendo os artistas francezes collaborarem c o m suas
razões e propostas n a r e f o r m a de que elles só t i n h a m tido

(1) Ces éléves, refere Debret (a quem se eleve o histórico dos


primeiros tempos da Academia, d a qual f o i magna pars) étaient mai-
tres de l a coupe du t r a i t -et de r a p p a r e i l des pierres. O pobre François
Ovide, professor dispensado de mechanica, julgada incompatível com
as bellas-artes, deixou-se ficar mesmo no Rio ao serviço de proprie-
tários ricos do oam<po, estabelecendo serrarias, trabalhando no moinho
d'.agua de São Ohrisitovão, montando machinas hydraulioais, até que
a morte o levou em 18(34.
252 DOM JOÃO V I NO BRAZIL

conhecimento pelas desconsiderações e suppressões q u e ella


e n c e r r a v a n o que lhes d i z i a respeito. O m i n i s t r o f o i , porém,
mais u m a v e z de e n c o n t r o á perenne inércia das r e p a r t i -
ções. O d i r e c t o r p o r t u g u e z , b e m conhecendo que não e r a a
energia o característico p r i n c i p a l de T h o m a z Antônio, não
cumprio as ordens recebidas, o t e m p o foi-se passando, vie-
ram as agitações revolucionárias, e e m A b r i l de 1 8 2 1 r e -
gressava a côrte p o r t u g u e z a para Lisboa, votando ao aban-
dono os f i g u r a n t e s d'esse b e l l o t e n t a m e n a r t i s t i c o , os perso-
nagens d'esse v e r d a d e i r o sonho d a Renascença. A Academia
de B e l l a s - A r t e s ideada pelo R e i , p o r u m g e n t i l h o m e m faus-
tuoso e p o r u m estadista affeiçoado ás cousas do espirito,
só c o n s e g u i r i a a b r i r suas p o r t a s depois de acalmada a exci-
tação patriótica, q u e assignalara a emancipação p o l i t i c a e
d i s t i n g u i r a a implantação de u m a r r e m e d o de systema consti-
t u c i o n a l que aos poucos t e r i a q u e i r assumindo o aspecto da
realidade.
O incontestável progresso m a t e r i a l e m o r a l da colônia,
praticamente emancipada desde que a côrte portugueza
n'ella se f i x a r a , posto q u e c o m a intenção g e r a l de c o n s t i t u i r
apenas u m prolongamento provisório da de L i s b o a , c o m o
mesmo pessoal, os m e á m o s hábitos, as mesmas tradições, o
mesmo caracter, f o r a g r a d u a l m e n t e produzindo um effeito
inesperado, o u que pelo menos não e n t r a v a s e g u r a m e n t e nas
c o n j e c t u r a s e esperanças de D o m João V I e dos seus m i n i s -
tros L i n h a r e s e B a r c a : o de d i s t a n c i a r e s p i r i t u a l e p o l i t i c a -
m e n t e os subditos dos dous continentes, t a n t o oú mais q u a n t o
os h a v i a d i s t a n c i a d o a n a t u r e z a , desdobrando a m p l a m e n t e as
águas d o Oceano, i m a g e m do abysmo que de f u t u r o teria,
nas aspirações nacionaes d a epocha, que d e s u n i r f u n d a m e n t a l -
mente Portuguezes e B r a z i l e i r o s . T u d o aliás i a c o n c o r r e n d o
DOM JOÃO VI NO BRAZIL 253

para semelhante resultado, como a fatalidade da tragédia


antiga. Era o destino das cousas a crear na côrte nova a
nova nacionalidade.
Podia a atmosphera palaciana ser carregada de desprezo
pelos nacionaes, excepção feita do Príncipe (i) ; a educação
ia dia a dia dilatando a perspectiva intellectual e empres-
tando ambição e dignidade aos subditos americanos da mo-
narchia. Podiam as reformas do ensino ser inquestionavel-
mente mais de these e no papel do que reaes e effectivas,
entravando a rotina as rodas do carro e roubando á marcha
a velocidade; os livros estrangeiros tinham entrado a cir-
cular grandemente, disseminando as idéas liberaes e ope-
rando necessariamente sobre o franco desenvolvimento das
mentalidades, ao mesmo tempo que os livros nacionaes se
tornavam em avultado numero accessiveis a toda a gente
pela livre freqüência em 1814 da Bibliotheca Real, a prin-
cipio apenas facultada a alguns privilegiados. (2)

(D E' con'hecida, e Debret a repete, dando-lhe portanto au-


t n e n t i c i d a d e , a p h r a s e p r o n u n c i a d a ao p a r t i r p e l a R a i n h a D o n a Car-
l o t a . de que, mercê de Deus, i a r e v e r t e r r a s h a b i t a d a s por gente.
( 2 ) Nia B a h i a a b r i r a o confie .dos A r c o s a 4 de A g o s t o de 1 8 1 1
a Biibliotheoa P u b l i c a . A Biibliqtheoa Real, i n s t a l l a d a n o R i o de Ja-
n e i r o no h o s p i t a l dos T e r c e i r o s C a r m e l i t a s , v i s i n h o ao Pala-cio R e a l
eompunha-se o r i g i n a r l a m e n t e de 60.000 v o l u m e s e t i n h a então encor-
p o r a d a u m a r i c a collecção dos m a n u s c r i p t o s annexos ás l i v r a r i a s d a
A j u d a e do In.fantado, bem como dos chamados M a n u s c r i p t o s da C o r o a
que em L i s b o a se c o n s e r v a v a m n a s Necessidades em a r e h i v o separado
e n o R i o f o r a m g u a r d a d o s n'um próprio n a c i o n a l d a r u a d o O u v i d o r .
(Todos estes m a n u s c r i p t o s v o l t a r a m em 1 8 2 1 com Dom João V I , ou
em 1822 com o b i b l i o t h e c a r i o f r e i J o a q u i m Damaso, ao q u a l eram' an-
t i p a t h i c a s as tendências p a r a a separação.
m M a l e r c o n t a n a sua correspondenicia o f f i c i a l que obstou á no-
meação de u m Sr. Huet-Perdoux, a n t i g o livreiro-imp.ressor em Orleans,
p a r a d i r e c t o r d a B i b l i o t h e c a Real, receando 'que, aproveitando-se das
suas funcçôes, as quaes esteve p a r a conseguir á força de g e i t o e hy-
pocrisia, elle inundasse o B r a z i l de p a m p i i l e t o s políticos i n c e n d i a r i o s .
M a l e r p o r t o d a a p a r t e v i a sempre j a c o b i n o s e bonaparHstas. De resto,
segundo^rezam seus offiicios, o I m p e r a d o r d'Áustria m a n d a r a p r e v e n i r
D o m João V I que tivesse os o l h o s sempre ahertos sobre os Francezes
254 DOM JOÃO V I NO BRAZIL

Mais instruídos e mais lidos em casa, começaram os


Brazileiros igualmente a viajar em mais crescido numero, a
visitar o Norte da Europa, a avaliar com segurança da diffe-
rença dos governos que alli comprehendiam, contrastando
com uma Itália entregue ao despotismo austríaco e ao carbo-
narismo patriótico, uma Inglaterra evolvendo-se franca-
mente para uma base democrática das suas instituições mo-
narchico-aristocraticas. N o seu paiz, entretanto, apezar da
disseminação da cultura, permaneciam os primeiros lugares
privilegio do elemento reaccionario, dos Portuguezes, ficando
assim para os Brazileiros sem realidade as suas maiores aspi-
rações e sem estimulo especial o seu fervor pelos conhecimen-
tos. Ao lado de muita reforma u t i l e de muito projecto bené-
fico, continuava ao mesmo tempo a exercer-se a rapacidade
de validos e funccionarios transplantados, os quaes, na im-
possibilidade de tudo alcançar a vista real, tratavam o novo
reino como teriam tratado a antiga colônia, como terra con-
quistada.
Os Brazileiros moços, sobretudo, cujos hombros se não
tinham vergado sob o peso da servidão colonial, ou cujos

domiciliados no Rio-, pois que sabia existir no seu numero gente muito
perigosa, a qual convinha vigar de perto. Inquieto com a advertência
recehida, o Rei externou-se até certo ponto a respeito com o repre-
sentante da França, recommendando-lhe diligencia, o que era aliás
quasi escusado.
Natural devia ser a presença de republicanos e imperlalistas
foragidos com a Restauração e certamente abundava a classe dos aven-
tureiros, attrahidos pelo fulgor da corte. ITm dVlles, o coronel Cailhé,
•antigio soldado da Revolução, depois official ao serviço de Portugal,
aggregado como escudeiro á pessoa de 'Carlos TV dMTespanha apoz a
abdicação d'este rei, de facto espião ao soldo de Napoleão e jogador de
profissão, estabeleceu no Rio uma roleta que teve de fechar diante das
reclamações dos pais de família, havendo-lhe comtudo corrido tão pro-
veitoso o negocio que elle e seus associados offereceram, em troca do
privilegio da banca, mandar vir de França e sustentar á sua custa
um corpo de bomheiros.
Maler conta também as historias de uma supposta filha do
general Piohegru, que com tal pretexto arrancou alguns auxilias da
DOM JOÃO VI NO BRAZIL 255

espíritos pelo m e n o s n ã o m o s t r a v a m as conseqüências d o


isolamento m e n t a l , n ã o p o d e r i a m resignar-se a q u e d a r e m
sem destino político n a s u a sociedade regenerada, c u l t i -
v a n d o a poesia, a m u s i c a e os exercícios corporaes, em-
quanto se d e s s o r a v a o s e u gênio subtil, m u r c h a v a m seus i m -
pulsos ardentes e se e s g o t a v a a esmo s u a a c t i v i d a d e n u m
c l i m a debilitante e m que, s e g u n d o b e m escreveu D e b r e t ,
a funcção i m a g i n a t i v a cresce n o sentido i n v e r s o d a e n e r g i a
physica, d o m i n a n d o as f a c u l d a d e s enervadas.
P o u c o p o d e r i a e m todo o caso d u r a r esse ostracismo
de u m a n a c i o n a l i d a d e . O s nacionaes que, a f f r o n t a n d o a ma-
l e v o l e n c i a reinícola, c o n t i n u a r a m a freqüentar a côrte n o
mesmo pé e c o m os m e s m o s direitos q u e os emigrados, a
breve trecho r e c l a m a r i a m o q u e lhes e r a o u j u l g a v a m ser-
lhes devido e m matéria de distincções e, e m s e g u i d a a estas,
de co-participação e f f e c t i v a n a administração, e m t u d o
agindo c o m o ímpeto e violência d a s u a n a t u r e z a m e n o s con-
vencional, m a l r e f r e a d a , s e m m u i t o s refolhos, n e m capacidade
de resignação consciente, n e m tradições m o d e r a d o r a s de edu-
cação política. E p o r q u e n ã o g o v e r n a r i a m elles a s u a pátria,

família real, e de uma Mme. de Ramchoup, esposa de um ex^consul


geral de França na Suécia, a qual f o i amante de Napoleão no mo-
mento da campanha do Egypto, quando o marido era official do exer-
cito, e se acha assim catalogada no inventario amoroso de Masson.
(Grande trabalho dava ao coronel Maler a fiscalização das rela-
ções com Santa Helena, donde ás vezes chegavam embarcações a bus-
car fornecimentos. Mme. B e r t r a n d e outras pessoas da casa do Im-
perador prisioneiro faziam então aos officiaes d'esses navios encom-
mendas do que mais careciam, esboçando-se por intermédio d'elles
relações entre os exilados de Longwood e ós bonapartistas fanáticos
do Rio, beijando alguns d'estes com transporte conforme relata horro-
rizado Maler, um chinelo velho da grande marechale que lhes viera
ás mãos para medida de calçado. "Que V. Ex. se não alvorote porém,
exclamava ao Ministro o encarregado de negócios ; além de eu andar
informado p a l a w a por palavra do que occorre na cidade, a vigilância
é perfeita a bordo d'a!quellas embarcações mercê das minhas relações
com o encarregado de negócios da Inglaterra, nada sendo portanto
descurado." (Off. de 18 de Junho de 1815.>

/
256 DOM JOÃO VI NO BRAZIL

não se collocariam á testa dos negócios que l h e d i z i a m res-


peito, si tanto v a l i a m quanto os de além-mar ?
A l g u m a da gente que nascera n a ex-colonia e p o r esse
tempo n'ella vivia, [ I l u s t r a r i a qualquer nação independente;
accrescendo q u e si é l i c i t o dizer-se de u m José Bonifácio
que f o i essencialmente o producto da educação coimbrã e de
viagens pelos centros illustrados d a Europa, outros se encon-
t r a v a m cujas facilidades não t i n h a m sido as mesmas e con-
stituíam productos mais o u menos puramente, mais o u me-
nos genuinamente coloniaes. José da Silva Lisboa, p o r exem-
plo, formou-se em C o i m b r a e a l l i leccionou hebraico e grego,
porém n a Bahia passou o m e l h o r da sua v i d a como profes-
sor de philosophia e de grego e depois como secretario da
mesa de inspecção. ( i ) A sua erudição e a m p l a visão revo-
l u c i o n a r a m todavia o direito m e r c a n t i l p o r t u g u e z ( 2 ) , da
mesma f o r m a que a sciencia de M e l l o F r a n c o deu u m a nova
orientação entre nós á medicina e que a inspiração do Padre
José M a u r i c i o , o qual nunca sahio da t e r r a n a t a l , dotou a
musica b r a z i l e i r a de u m tocante poder de emoção.
A excellencia da matéria p r i m a ficara desde m u i t o bem
provada n a possessão, sendo de prever que, c o m o desenvol-
v i m e n t o da instrucção, a producção peculiar ao meio subiria
de nivel e i g u a l a r i a as manifestações dos outros centros, se-
não n a intensidade e n a importância dos resultados, pelo
menos n o caracter. T a l f o i o effeito das reformas emprehen-
didas na phase de remodelação que se extende de 1808 a

(1) Apoz mudar-se para o Rio, foi Silva Lisboa deputado da


J u n t a do Commercio, A g r i c u l t u r a e Navegação; encarregado de orga-
nizar o regimento dos cônsules e de elabora-r um projecto de Código
do Commercio ; finalmente, passado 1821, inspector dos estabelecimen-
tos litterarios, membro do Supremo T r i b u n a l de Justiça, deputado e
senador do Império.
(2) Os Princípios úe Direito Mercantil foram pela p r i m e i r a vez
editados em l$fr&
DOM JOÃO VI NO BRAZIL 257

1821, quando a instrucção perdeu n o B r a z i l o seu aspecto


empírico e foi ganhando o t o m scientifico.
O u t r o característico então a d q u i r i d o foi o leigo. A n t e -
riormente era o ensino colonial todo religioso: as próprias
sciencias profanas eram quasi exclusivamente ministradas
por ecclesiasticos e em estabelecimentos ecclesiasticos. A s
aulas regias a que deram o r i g e m as preoecupações seculares
derivadas da reacção anti-jesuitica, t i n h a m sido totalmente
eclypsadas pelas aulas dos conventos e casas maiores de algu-
mas communidades como a Congregação do Oratório. Cos-
t u m a v a m os estudantes destas aulas religiosas dar prova pu-
blica das suas habilitações em solemnes conclusões de philo-
sophia, arguindo e defendendo em portuguez e l a t i m theses
escolhidas pelos mestres e preparando-se com mezes de estudo
e sabatinas regulares para semelhante debate acadêmico. A s
provas t i n h a m ás vezes l u g a r nas egrejas para que a ellas
pudesse assistir, n u m meio mais suggestivo, u m mais crescido
auditório, e a musica lhes emprestava u m ar festivo e fasci-
nador, com o qual não l o g r a v a m de certo competir os insi-
pidos exames leigos. ( 1 )
T u d o isto m u d a r a com o novo espirito do ensino bra-
zileiro. A emancipação intellectual de uma m i n o r i a restricta,

(1) A pequena já citada historia do Brazil, contemporânea


d'estes a c o n t e c i m e n t o s e que descreve taes .solemnidades i n t e l l e c t u a e s ,
de u m sabor m u i t o m e d i e v a l n a sua i n t i m a associação de instrucção
e religião e a t e n a selecção dos t e m p l o s p a r a t a b l a d o d'essas e x h i b i -
ções philosophicas, esboça a este propósito u m q u a d r o m u i t o seductor
das condições coloniaes do ensino elementar. Pelo que diz, e r a elle
m i n i s t r a d o em todas as cidades, q u a s i todas a s v i l l a s e m u i t a s povoa-
i

ções p o r m e s t r e s públicos e p a r t i c u l a r e s , i n d o a l g u n s n o u l t i m o ca-


r a c t e r a g a n h a r sua v i d a nos campos e sertões. O f a c t o v e r d a d e i r o po-
rém é, e H a n d e l m a n n o recorda, que os fazendeiros abastados do i n -
t e r i o r q u a n d o e n c o m m e n d a v a m u m g e n r o p a r a a cidade, p e d i a m e n t r o
o u t r o s r e q u i s i t o s que soubesse l e r , p r e n d a no seu meio s u m m a m e n t e
escassa. O estado a c t u a l da i n t e l l i g e m c i a n a c i o n a l em seu c o n j u n c t o
i n d i c a b a s t a n t e o que t e r i a sido o d'aquelles tempos.
258 DOM JOÃO VI NO BRAZIL

pode mesmo dizer-se ínfima, estava feita antes da chegada


da côrte: restava propagal-a, quando não entre a grande
massa, refractaria a estudos mais sérios e c u j a situação mate-
r i a l não comportava c u l t u r a , pelo menos entre as camadas
de cima, ás quaes competia a funcção directiva. Esta f o i a
obra, em t a l dominio, dos treze annos do reinado americano
de D o m João V I .
CAPITULO VI

A RAINHA DONA CARLOTA

A simples menção d'este nome traz á imaginação um


cortejo de caprichos dissolutos e de intrigas políticas. Um
dos maiores, senão o maior estorvo da vida de D o m João V I
foi certamente a Rainha que os interesses dynasticos, então
mais identificados com os políticos, lhe t i n h a m dado por
esposa e que não só lhe ennodoou o nome, como pela sua
irrequieta ambição augmentou quanto poude as complica-
ções da monarchia portugueza, fazendo de tempo a tempo
andar n u m a roda viva a diplomacia d'aquella epocha. A ra-
zão está em que D o n a Carlota Joaquina nunca se resignou a
ser aquillo para que nascera — uma Prínceza Consorte. Sen-
tia em si sobeja virilidade para ser ella o Rei.
A natureza de facto enganou-se fazendo com t a l alma
d'esta f i l h a dos Bourbons uma mulher, ou antes, lhe f o i o
fado supinamente inclemente, reduzindo-a á inacção e á im-
262 DOM JOÃO VI NO BRAZIL

potência quando a dotara para querer e dominar, ver e resol-


ver por si, para ser uma Izabel d'Inglaterra ou uma Catha-
rina da Rússia. Por uma triste ironia, no emtanto, nem
sequer lhe f o i dado mandar na sua casa, onde todos tinham
mais voz do que ella, em cujo espirito primavam n'um grau
notável os predicados que se conveio denominar masculinos:
a energia, a actividade, a vontade.
Os traços varonis e grosseiros do seu rosto, o seu gê-
nero de preoccupações, o seu próprio impudor, denotam que
em D o n a C a r l o t a havia apenas de feminino o invólucro. A
alma poderia chamar-se masculina, não tanto pelo desejo
immoderado de poder e pelo cynismo quanto pela pertinácia
em alcançar seus fins e pela dureza. Os filhos herdaram-lhe
a vida, o excesso de vigor animal, que ella nunca conseguio,
porém, inocular no marido, pacifico e commodista. Tampouco
logrou impor-lhe sua orientação política ou alistal-o até o f i m
no serviço das suas pretenções soberanas. Para que se exercesse
efficazmente a sua influencia domestica precisaria ser se-
cundada pela helleza physica que de todo lhe faltava, ou
.por maneiras brandas e sinceramente carinhosas que eram
avessas ao seu temperamento boliçoso e desbragada educa-
ção.
E' incontestável que a própria apparencia lhe não dava
entrada auctorizada no bello sexo. A estatura era muito
baixa, disforme a figura, irregulares as feições, ainda afeia-
das pela exhuberancia capillar da face, em volta da bocca de
lábios finos. A physionomia era comtudo expressiva, lendo-se-
lhe nos olhos rasgados e negros a vivacidade e a decisão,
assim como no queixo pontudo a malícia e a perfídia. N ã o
menos originaes do que os traços eram alguns dos seus há-
bitos: se sahia, por exemplo, a cavallo, escânchava-se sobre
DOM JOÃO VI NO BRAZIL 263

o animal. Sua linguagem soia ser mais do que livre: era por
vezes obscena, e m u i t o s dos seus actos resentiam-se de uma
extrema vulgaridade. Conta Presas ( i ) que u m dia, ten-
do-se D o m M i g u e l encharcado c o m a agua de u m alguidar,
a R a i n h a não teve m ã o e m si e, descalçando o sapato, a p p l i -
cou ao I n f a n t e e n d i a b r a d o a correcção de que se t e r i a lem-
brado q u a l q u e r r e g a t e i r a de mercado. Q u e não v a l e u de
m u i t o a correcção, p r o v a m - n o as c o n t i n u a s travessuras, que
f i c a r a m proverbiaes, do f u t u r o R e i l e g i t i m o , o q u a l nos ver-
des annos, passados em São Christovão, se d i v e r t i a em beliscar
as irmãs e a t i r a r c o m dous canhõesinhos, presente do a l m i -
rante i n g l e z , sobre os visitantes do Palácio.
O traço c o n v e n c i o n a l m e n t e f e m i n i n o de D o n a Carlota
era o a m o r das jóias e vestidos, o fraco pelo l u x o . N ' e l l a não
havia meiguices de m u l h e r : apenas accessos de volúpia em
que prostituía o t h a l a m o e a coroa. T a m b é m o m a r i d o , em
quem e n t r e t a n t o não escasseavam nobres sentimentos, não sof-
f r i a q u a n t o a isso do m a l de u m a sensibilidade em extremo
delicada. Segundo o f a m i l i a r Presas, e r a elle "mas zeloso de
su a u t o r i d a d que de su augusta esposa". E razão l h e assistia
porque esta p r o c u r o u , d u r a n t e o reinado, s u b s t i t u i l - o no
mando, l e g a l o u i l l e g a l m e n t e . Q u a n d o c o m p r e h e n d e u que
nada alcançaria em P o r t u g a l , p o r ser p r i n c e z a estrangeira e
para mais hespanhola, c o m q u a n t o pessoalmente sympathisada,
v o l t o u suas vistas, á mercê das circumstancias, p a r a a Hes-
panha e depois p a r a a A m e r i c a H e s p a n h o l a , volvendo-as p o r
f i m de n o v o p a r a o R e i n o , que ella f e z estrebuchar em con-
vulsões políticas, servindo-se como agente da reacção do I n -
fante D o m M i g u e l , seu f i l h o p r e d i l e c t o e dócil i n s t r u m e n t o .

(1) Dou «José Presas, Memórias secretas de la Princesa dei


Bmsil, actnM Reina viitlda de PorfiugaZ, la Senora Dona Carlota Joa-
quina de Borbon. Bundeos, 1830.
264 DOM JOÃO VI NO BRAZIL

T r e z annos antes da ida para o B r a z i l , em 1805, che-


gara a ambição de D o n a C a r l o t a Joaquina a tomar corpo na
mais v i l conspiração contra o Regente. Certos incommodos
do Príncipe tinham-lhe trazido vertigens e m a l estar, se-
gundo explica o autor da Histoire de Jean V I , e juntando-se
a impressões moraes depressoras, bem comprehensiveís em
quem se via colloeado entre uma mãi allucinada e uma mu-
lher impudica, augmentaram o seu n a t u r a l retrahímento.
N ã o q u i z mais caçar nem sequer montar a cavallo e votou-
se a uma existência perfeitamente sedentária. T r o c o u Que-
luz por M a f r a , onde os frades o encheram de attenções, mas
ainda ahi enfastiando-se do canto-chão e das comeízanas, mu-
dou-se para o Alémtejo, indo habitar o solar da familia em
V i l l a Viçosa, levantado em meio de charnecas desoladas e
povoado de tristes visões, que sorriam umas e outras ao seu
espirito atribulado.
Espalharam então perversamente que estava doido como
D o n a M a r i a I , que a hypocondria de que soffria não era
senão a primeira phase da terrível enfermidade, e parte da
nobreza, a mais apegada ás idéas antigas e a mais impa-
ciente de organizar uma oligarchia em proveito próprio, pen-
sou em destituir D o m João e confiar a regência á Princeza
do B r a z i l , a qual soubera fazer-se estimada não só da aristo-
cracia como da plebe. O segredo da conspiração transpirou
todavia. O Príncipe, que havia melhorado com os ares seccos
e quentes de V i l l a Viçosa, teve u m assomo de vigor, filho do
instincto da conservação, e regressou subitamente para Lis-
boa onde, guiado por V i l l a Verde, que f o i o salvador da si-
tuação, desterrou alguns dos fidalgos traidores e demittío
u m lote de empregados, a f f i r m a n d o sua auctorídade minada
e cortando o vôo á consorte.
DOM JOÃO VI NO BRAZIL 265

T a e s acontecimentos não e r a m c o m t u d o de n a t u r e z a a
cural-o da m e l a n c h o l i a , que antes se a g g r a v o u c o m o occor-
r i d o , tornando-o desconfiado até da família. T o d o o anno de
1806 residio D o m João n o palácio de M a f r a , que occupa u m a
ala do i m m e n s o convento, d i s t r a h i n d o os pezares c o m assistir
aos o f f i c i o s n a capella, f o r m o s a nos seus mármores esculpi-
dos, e d a r passeios n a tapada, soberba n a sua rústica s i m p l i -
cidade. M e s m o em 1807, r a r a m e n t e v i n h a de Q u e l u z á Bem-^
posta: f o i m i s t e r a m u d a n ç a p a r a o R i o de J a n e i r o , p a r a l h e
r e s t i t u i r o gênio satisfeito e f a z e r reapparecer sua f i n a bo-
nhomia.
Desde aquelles successos separara-se, porém, completa-
mente de D o n a C a r l o t a J o a q u i n a , c o m q u e m v i v i a n u m es-
tado de c h r o n i c a desavença desde 1793, t r e z annos passados
do casamento, d u r a n d o a r u p t u r a até a m o r t e em que pese
ás expressões de exaggerada t e r n u r a — q u e r i d i n h o do meu co-
ração e o u t r a s de i g u a l j a e z — c o m que a i m p u d e n t e persistia
em mimosear o m a r i d o nas suas interesseiras epístolas. ( 1 )
N'este caso era p u r a hypocrisia, mas não se pode d u v i -
dar que ella possuísse u m coração accessível ao affecto. F o i

(1) V i d e as c a r t a s a u t o g r a p h a s conservadas n o A r c n i v o Pu-


blico do R i o de J a n e i r o , n'uma d a s quaes se desculpa D o n a C a r l o t a de
ter a b e r t o p o r descuido u m a c a ^ t a do maireohal L s n n e s pára o Prín-
cipe Regente, a q u a l j u r a v a aliás n ã o h a v e r l i d o , logo percebendo o
eng?no. L a n n e s era a m i g o pessoal de D o m João, c u j a s s y m p a t h i a s
c a p t a r a p o r occasião d a s u a segunda embaixada, tão c o n c i l i a d o r a
q u a n t o b r u t a l f o r a a p r i m e i r a . F o i o m a r e c h a l q u e m celebrou com B a l -
semão o t r a t a d o de 1 8 0 4 pelo q u a l , t e n d o n o v a m e n t e e s t a l a d o a g u e r r a
entre ?,• I n g l a t e r r a e a França, P o r t u g a l c o m p r o u p o r 15 milhões o
iseu d i r e i t o á n e u t r a l i d a d e .
D o m João f i c a r a gostando t a n t o d'elle q u e c o s t u m a v a d i z e r
que não têrla a b a n d o n a d o P o r t u g a l , s i ã f r e n t e do e x e r c i t o i n v a s o r
viesse L a n n e s em vez de J u n o t . P o r seu l a d o r e c u s a r a L a n n e s esse
coramnu(jo j u s t a m e n t e p o r ser p u b l i c o o p l a n o i m p e r i a l de d e s p o j a r
os Braganças do t h r o n o . T a n t o m e l h o r o d e v i a o m a r e o h a l saber q u a n t o
u m dos f i n s da sua a n t e r i o r e m b a i x a d a fôra, n o dizer de J. A c c u r s i o
das Neves {Hist. ãa invasão dc Portugal) organizai- u m p a r t i d o f r a n -
cez p a r a lançar os alicerces da f u t u r a soberania de Napoleão.
256 DOM JOÃO VI NO BRAZIL

mesmo mãí extremosa, sendo sua filha favorita a Infanta


D o n a A n u a M a r i a , mais tarde duqueza de Loulé. Q u i z tam-
bém com exaltação e vaidade ao f i l h o D o m M i g u e l , vendo-se
n'elle moralmente reproduzida, por elle comprehendida e
por intermédio d'elle vingada. O interessante é que, com suas
faltas, ambos foram personagens populares. O povo gosta
sempre dos que lhe f a l i a m á imaginação pela alacridade phy-
sica ou pelo desassombro loquaz: tem por isso u m fraco pelos
athletas e pelos tribunos.
T a m b é m , ao que nos^evela a correspondência de D o n a
Carlota, não havia protectora mais desvelada. Constante-
mente importunando os ministros, pedia, rogava, suppli-
cava, impunha favores para os seus afilhados, com estes con-
stituindo uma roda sua dedicada que, mestre consummada
na arte das intrigas, sabia perfeitamente quanto poderia v i r
a ser-lhe u t i l para quaesquer desígnios. C o m esses amigos era
generosa na medida da sua antes magra dotação de Princeza
herdeira, a qual rendia nas suas mãos porque não lhe faltava
ao mesmo tempo o talento do calculo e da economia. A i n d a
assim não lograva evitar ter que empenhar sua palavra, que
nestes assumptos pecuniários valia entretanto menos do que
n'outros, sendo quasi nullo o seu credito, mesmo porque care-
cia de muito dinheiro para sustentar sua cathegoria de sobe-
rana de facto e promover seus projectos diplomáticos.
N o próprio modo de submetter-se a essas privações rela-
tivas, dava comtudo mostras de dignidade porque esta era
espontânea, derivava do seu caracter orgulhoso e imperioso,
com faces de verdadeira rainha. N ã o cedia uma pollegada
dos seus direitos; não tolerava u m menoscabo da sua posi-
ção; não deixava uma só vez de insistir pelas distincções a
que tinha j u s ; não perdoava o m i n i m o desrespeito. N ã o raro
DOM JOÃO VI NO BRAZIL 267

deu a sua intransigência n'esta matéria origem a questões


que e n c h e m p a g i n a s dos l i v r o s d e r e g i s t r o d a v e l h a S e c r e t a -
r i a d e e s t r a n g e i r o s e até t i v e r a m repercussão nas c o l u m n a s
do Times, n ã o d u v i d a n d o o e m b a i x a d o r P a l m e l l a r e s p o n d e r
sob p s e u d o n y m o aos c o m m u n i c a d o s desfavoráveis a l l i i n -
sertos.
E r a , p o r e x e m p l o , e n t r e os n a c i o n a e s usança á q u a l n ã o
o u s a r i a m e s q u i v a r - s e , d e s m o n t a r e m d a s suas c a v a l g a d u r a s o u
apearem-se das suas c a r r u a g e n s p a r a s a u d a r , de chapéu n a
m ã o e d o r s o c u r v a d o , q u a n d o n ã o >para se a j o e l h a r , n a pas-
s a g e m d e pessoa d a família r e a l q u e andasse t o m a n d o a r d e
c a r r o o u a c a v a l l o . O s e s t r a n g e i r o s a c h a v a m e m d e m a s i a ser-
v i l o a c t o c o m p l e t o d e r e s p e i t o c o m o se c o s t u m a v a p r a t i c a r ,
j u l g a n d o demonstração b a s t a n t e o d e s c o b r i r e m - s e m a r c a d a -
m e n t e ; m a s os cadetes q u e r o d e a v a m o a u g u s t o passeante,
si a ç u l a d o s — c o m o e r a o caso c o m D o n a C a r l o t a , rauito ciosa
das suas attribuições e p r e r o g a t i v a s — p r e t e n d i a m c o a g i l - o s a
i m i t a r e m os n a c i o n a e s . N'esse a f a n n e m as i m m u n i d a d e s o f f i -
ciaes r e s p e i t a v a m , o b r i g a n d o á força, o u p e l o m e n o s s o b
ameaças, r e p r e s e n t a n t e s diplomáticos e c o m m a n d a n t e s d e v a -
sos d e g u e r r a a a c q u i e s c e r e m c o m o h a b i t o t r a d i c i o n a l .
N e m t o d o s esses m i n i s t r o s e o f f i c i a e s t i v e r a m o expe-
d i e n t e d o m i n i s t r o a m e r i c a n o S u m t e r o q u a l , c o m o espi-
r i t o p r a t i c o d a s u a raça, f o r n e c e u n'este a s s u m p t o o m e l h o r
modelo. I n s u l t a d o u m d i a pelo m o t i v o alludido, e m v e z
de r e c o r r e r a reclamações t e d i o s a s q u e c o n s u m i a m t e m p o e
só d a v a m e m r e s u l t a d o l e v e s c a s t i g o s p a r a os delinqüentes,
n a m e l h o r h y p o t h e s e , d e ser c o n c e d i d a reparação; a r m o u - s e
S u m t e r d e u m p a r d e p i s t o l a s e, n ' o u t r a occasião e m q u e
f o i p r o v o c a d o , forçou os cadetes a r e c u a r e m s o b p e n a d e
f a z e r f o g o s o b r e elles. N o v a e peremptória o r d e m d e aggres-
268 DOM JOÃO VI NO BRAZIL

gão da Rainha Dona Carlota, invariavelmente animosa


tanto quanto orgulhosa, não conseguio i n s u f f l a r coragem
nos guardas, e o facto teve p o r u l t i m o effeito levar o Rei,
sempre conciliador, a ordenar que se não exigisse mais, de
estrangeiro algum, maiores provas de deferencia para c o m a
família real p o r t u g u e z a do que aquellas que estivessem af-
feitos a. testemunhar ao seu próprio soberano ( i ) .
N a correspondência de M a l e r encontra-se freqüente-
mente referencia á insolencia da escolta de cavallaria e dos
lacaios a cavallo que acompanhavam as pessoas reaes. O i n -
cidente Sumter acha-se relatado exactamente como o n a r r a
o cônsul Henderson — esse incidente aliás correu m u n d o —
e c o m elle outros m u i t o s da mesma espécie. A s s i m parece
que n e m mesmo l o r d S t r a n g f o r d , apezar do seu caracter de
m i n i s t r o da côrte alliada e da consideração pessoal de que
gosava, l o g r o u .escapar a graves semsaborias de semelhante
natureza. Chega o encarregado de negócios francez a con-
tar, citando para confirmação a informação do seu collega
britannico e a notoriedade da occorrencia, que aquelle altivo
l o r d em 1814 recebeu em plena estrada algumas chicotadas
vibradas pelo estribeiro de u m a das Princezas p o r se não
querer c o n f o r m a r c o m a ridícula tradição. ( 2 ) .
N o mesmo m e z de O u t u b r o em que M a l e r officiava, a
26, f o r a o secretario da H o l l a n d a , C r o m e l i n , publicamente
ameaçado e m a l t r a t a d o pelos fâmulos do Príncipe Real, e
"depois de o u v i r os insultos mais porcos, apezar de t e r de-
clarado o seu nome e sua cathegoria, c o m p e l l i d o a descer do
cavallo." L a m e n t a n d o tão obsoletas pretenções, o coronel
M a l e r não c u l p a expressamente, n o seu respeito de velho

(1) Henderson, A History of the Brazil, e t c , London, 1821.


(2) Officio de 30 de Outubro de 1817, ibidem.
DOM JOÃO VI NO BRAZIE, • 2tí9

cortezão, a Rainha Dona Carlota d'essas scenas "tão pouco


consentaneas á dignidade, aos sentimentos e á civilização
mesmo de uma côrte européa"; mas tem pressa de ajuntar,
em abono do Rei, "que o seu séquito pessoal, composto de ele-
mentos idênticos, nunca praticara, de conhecimento d'elle,
quaesquer violências para com os estrangeiros" — os quaes,
segundo escreve o commerciante Gendrin (i), saudavam
sempre o mais affectuosamente e até estrepitosamente o po-
pular monarcha.
Por vezes iam bem longe aquellas violências, j u s t i f i -
cando que o representante francez, escrevendo para seu go-
verno, denominasse o B r a z i l ce triste pays. A esposa do mi-
nistro americano Sumter — nêe de Lage, i n f o r m a M a l e r —
porventura em cobarde desforço do acto de seu esposo, f o i
aggredida a pedradas, que a feriram bastante, ao passar no
seu coche por uma r u a m u i t o freqüentada, sem que se rea-
lizasse prisão alguma. D o u t r a feita, o commodoro Bowles,
chefe da estação naval ingleza no R i o da P r a t a e M a r do-
Sul, foi posto abaixo ás pranchadas do cavallo que montava
por ter querido, em companhia do encarregado de negócios
do seu paiz, evitar o encontro do coche da Rainha.
Tendo sido apresentada queixa f o r m a l ao ministro
T h o m a z Antônio e havendo-se o commodoro retirado para
bordo da nau capitanea — fragata La Créole — aguardando
satisfação, mandou D o m João V I que os dous cadetes, au-
ctores do u l t r a j e juntamente com u m soldado da escolta,
fossem a bordo offerecer suas desculpas perante o estado
maior reunido, seguindo-se a esta reparação formal u m jan-
tar de reconciliação dado pelo o f f i c i a l inglez ( 2 ) .

(1) Ob. cit.


(2) Corresp. de Matei- no Arch. do Min. dos Neg. Esti- de
Franga.

t
270' DOM JOÃO V I NO BRAZIL

O pobre R e i por modos diversos tinha que soffrer dos


desatinos da consorte a qual, nas palavras do residente Luc-
cock ( i ) , levava demasiado longe — to a disgusting extent,
a u m ponto revoltante — o seu resentimento, tornando-o afi-
nal pouco temido (little regarded) mercê do próprio excesso,
que não poderia desafogar-se por u m crime em cada dia e
tinha de refugiar-se em crises de hysteria.
A' hysteria de D o n a C a r l o t a deve-se porventura a t t r i -
buir a epilepsia do Príncipe Real, á qual se encontram va-
rias referencias na correspondência official do coronel M a l e r .
A primeira vez em que se f a z ahi menção da enfermidade
#

do herdeiro da coroa é por occasião da conhecida revista


na Praia Grande das tropas que partiam para a expedição
platina ( 2 ) . O beija-mão, effectuado em seguida na tenda
de campanha erguida para o desfilar, prolongou-se até depois
das quatro da tarde, "mas f o i m u i t o desagradavelmente i n -
terrompido por u m accidente epiléptico que fez cahir sem
sentidos S. A. R. o Príncipe herdeiro, sendo infelizmente já
a sexta vez que elle experimenta esses cruéis ataques que o
privam de todo conhecimento. Transportaram-no para a
casa mais próxima, que era a residência do marechal gene-
ral lord Beresford, a f i m de melhor poderem acudir-lhe.
S. M . e a real família f o r a m logo visitar S. A. e ás seis
horas foi. possível leval-o de carro para seus próprios apo-
sentos."
O casamento de D o m Pedro com D o n a Leopoldina
quasi se não realizou por t a l motivo, entre outros mais.
Reproduzindo o boato corrente em Lisboa do adiamento,
pela côrte de Vienna, do enlace projectado, o cônsul geral

(1) 07). cit.


(2) Officio» de 16 de Maio de 1816, iUdem.
DOM JOÃO V I NO BRAZIL 271

Lesseps a t t r i b u e a d e m o r a e o r o m p i m e n t o do compromisso,
no d i z e r de u m a pessoa e m relações d i r e c t a s c o m o R i o de
J a n e i r o e q u e l h e m e r e c i a confiança, ás informações t r a n s -
m i t i d a s p a r a a E u r o p a p o r u m emissário c o n f i d e n c i a l d'a-
q u e l l a côrte ( i ) . "Um m e d i c o allemão, de v i a g e m pelo
B r a z i l e p a r t i c u l a r m e n t e e n c a r r e g a d o p e l o I m p e r a d o r d'Aus-
t r i a de t r a n s m i t t i r - l h e p o r m e n o r e s sobre o Príncipe, tão des-
favoráveis n o t i c i a s a p r e s e n t o u da sua saúde, d a sua m o r a l i -
dade e dos seus hábitos q u e S. M . i m m e d i a t a m e n t e procurou
os meios de i m p e d i r , apezar de já d e c i d i d a , u m a união tão
pouco c o n v e n i e n t e , c u j o r e s u l t a d o seria o sacrifício de u m a
interessante P r i n c e z a . A exactidão d'estas informações sobre
o h e r d e i r o d a c o r o a é c o n f i r m a d a pelas de todas as pessoas
que t i v e r a m ensejo de freqüentar a côrte d o R i o de J a n e i r o . "
U m dos m a i s i n d i s c r e t o s nas suas expansões, m e s m o e m
desabono de D o m João V I , f o i o d u q u e de L u x e m b u r g o
d u r a n t e sua estada e depois d o seu regresso do R i o . D ^ l l a s
se fez echo o e m b a i x a d o r austríaco e m P a r i z , barão de V i n -
cent, p o r c u j o intermédio s u b i r a m até a A r c h i d u q u e z a , che-
gando mais t a r d e ao c o n h e c i m e n t o d a família r e a l p o r t u -
gueza, q u e o e m b a i x a d o r f r a n c e z a descrevia c o m as cores
miais i n g r a t a s , i n s i s t i n d o s o b r e t u d o e m q u e e r a D o m P e d r o
i n t e i r a m e n t e f a l t o de todos os princípios de educação. M a l e r ,
ao d a r c o n t a d essas i n t r i g a s de côrte, observa que o R e i c o m
sua h a b i t u a l circumspecção q u e a t t i n g i a a dissimulação, j a -
mais l h e d e r a a perceber n a d a d'ísso, n ã o o b s t a n t e t r a t a l - o
com m u i t a confiança.
O t r a t o c o m D o n a C a r l o t a J o a q u i n a t a n t o p o d i a ser
em e x t r e m o agradável c o m o a l t a m e n t e desagradável, s e g u n d o
lhe c a h i a e m s y m p a t h i a o u d e s f a v o r a pessoa c o m q u e m t r a -

(1) Officio de 2 de Maio de 1817, ibiãem.


DOM JOÃO VI NO BRAZIL

tava. Assim o general barão de T h u y l l , m i n i s t r o russo che-


gado a 13 de Setembro de 1819 n o trez mastros Agamemnon
e, segundo M a l e r , pessoa m u i t o delicada mandada a desfa-
zer a m á impressão causada pelo proceder do embaixador
B a l k - P o l e f f , teve que se m u d a r de u m a casa que tomara
perto de u m a das residências de D o n a C a r l o t a e em que gas-
tara 40.000 francos para mobilal-a e a r r a n j a r o j a r d i m ,
por não poder mais s u p p o r t a r os desacatos da criadagem e
da soldadesca da Rainha, apezar de se haver queixado sem
azedume, antes confidencialmente e c o m todo o espirito con-
ciliador compatível com a sua d i g n i d a d e offendida. N a forma
do costume, a R a i n h a em vez de abrandar, acirrava seus de-
pendentes.
E' força porém crer que D o n a C a r l o t a era capaz de
exhibir qualidades de seducção, de certo mais intellectual
que physica, visto ser tão desgraciosa. V i v a , espirituosa, en-
redadora, faceira, quando queria, até ultrapassar a decência,
mas sabendo também affectar pudores e d i g n i d a d e de mulher,
o facto é que conseguio que vários homens de merecimento
jungissem n'um m o m e n t o dado os próprios interesses aos
seus, e que outros se prestassem a servil-a c o m zelo e dedica-
ção. D o s trez maiores ministros de D o m João V I , L i n h a r e s
nunca l h e mereceu as boas graças e t i n h a a propriedade de
enfastial-a: chamava-o também el torbellino p o r estar sem-
pre em movimento, attendendo a u m a multidão de negócios,
e só em u l t i m a e x t r e m i d a d e l h e pedia qualquer obséquio.
Sobre Barca no emtanto escrevia ella a T h o m a z Antô-
nio depois de fallecido aquelle: "E sempre l h e quero dizer
que E u não sou capaz de pedir couzas que não se me devão;
e que se a m i n h a consciência f o r a de m a n g a larga, que no
I

DOM JOÃO VI NO BRAZIL 273

tempo de Araújo (apezar de ser como hera), que Eu estaria


a estas horas com a minha caza n'outra figura, e com huma
Mezada de 200 ou 300^000 cruzados como as Rainhas
D. M a r i a n n a d'Austria e D. M a r i a n n a V i c t o r i a tinhão fora
a sua caza, porem eu não quiz sem ter todas as clarezas: mas
elle teimou muitas vezes c o M i g o que dissesse o quanto hera,
e que bastava a M i n h a pallavra, que não precizava mais
nada." ( 1 )
Podia ser que Barca promettesse mais do que tencio-
nava c u m p r i r : estaria isso na sua natureza, a darmos cre-
dito ao duque de Luxemburgo, o qual escrevia para P a r i z
ter encontrado o ministro m u i t o coulant na questão da res-
tituição da Guyana, apparentemente porém, pois adquirira a
certeza de que em conselho elle opinava n u m sentido intei-
ramente opposto. E' comtudo preciso não perder de vista
que o embaixador de França andou todo o tempo irritado
com o pouco êxito da sua missão. M a l e r por seu lado, que
faz os mesmos conceitos sobre a doblez diplomática de Barca,
nem tinha especial sympathia pelo homem, suspeito aos seus
olhos de reaccionario de idéas nimiamente liberaes, nem se
podia reconciliar com a guerra de Montevidéo, de que lan-
çava toda a responsabilidade sobre esse estadista, o qual teria
voltado ao poder, apoz seus annos de ostracismo, "devorado
de ambição, querendo á fina força fazer fallar de si na
Europa."
N a opinião de M a l e r , só aquelle político familiarizado
ou talvez corrompido pelas idéas revolucionárias haveria
sido capaz de i r até ao ponto de t i r a r partido da santa união
de duas augustas Princezas ( 2 ) para melhor embalar e

(1) Códice de Cartas na BiM. Nac. do Rio de Janeiro.


(2) As duas filhas de Dorn João V I que em 1816 desp-osaram
Fernando V I I e o I n f a n t e Doan Carlos, seu irmão.
274 DOM J O Ã O V I NO BRAZIL

adormecer o R e i d'Hespanha. O encarregado de negócios de


França achava de resto que n'esse negocio da occupação da
B a n d a O r i e n t a l , t i n h a o conde da B a r c a b u r l a d o t o d a a
gente. " S i possível fosse r e v e r e n c i a r o t a l e n t o de enganar,
não seria l i c i t o nessa epocha recusar u m t r i b u t o de a d m i r a -
ção á arte c o m que o conde da B a r c a conseguio d u r a n t e dous
mezes consecutivos separar o R e i do seu d i g n o a m i g o A g u i a r ,
o soberano do seu m i n i s t r o de confiança, e ao mesmo tempo
ludibriar (donner le change) ambos" ( i ) .
Accrescenta o representante f r a n c e z que o " v i r t u o s o e
i n t e g r o " m a r q u e z de A g u i a r l e v a n t a r a os maiores obstáculos
aos desígnios i m p e r i a l i s t a s do seu c o l l e g a Araújo, c o m quem
v i v e r a até a h i n a m e l h o r i n t e l l i g e n c i a p a r t i c u l a r e o f f i c i a l ,
m o r r e n d o i n c o n s o l a v e l de os não t e r p o d i d o f r u s t r a r . " F u i
t e s t e m u n h a de que os seus últimos m o m e n t o s f o r a m pertur-
bados pelos tristes olhares que elle lançava sobre essa g u e r r a
já i n i c i a d a e de que elle não l o g r a v a perceber n e m o fito
n e m os m o t i v o s verdadeiros." A reflexão pode f a z e r h o n r a
ao caracter, mas não á sagacidade de A g u i a r .
Os casamentos hespanhoes — força é reconhecer —
t a m b é m não peccavam da o u t r a p a r t e pela e x t r e m a candidez.
O s seus negociadores f o r a m agentes do g o v e r n o da Restau-
r a ç ã o — o general V i g o d e t e o padre C i r i l o — e a idéa oc-
c u l t a de M a d r i d f o i sem d u v i d a a de c a p t a r a cooperação
p o r t u g u e z a p a r a a pacificação p e l a força d a A m e r i c a Hespa-
nhola. D o m João V I aproveitou-se h a b i l m e n t e da o p p o r t u -
n i d a d e p a r a c o l l o c a r duas f i l h a s do bando, que e r a numeroso,
e n g o d a n d o a benevolência hespanhola c o m essa n o v a ligação
de família e m a n d a n d o e n t r e t a n t o , n a realização d'um p r o -

(1) Off. de 10 de Junho de Ii817, ibiãem.


BOM JOÃO VI NO BRAZIL 275

jecto maduro, que tanto tinha sido de Linhares como podia


agora ser de Barca, t o m a r posse d e f i n i t i v a da B a n d a O r i e n -
t a l , o n d e o c a u d i l h o A r t i g a s estava campeando e exercendo
g r a n d e p r e s t i g i o sobre a multidão, s o l i c i t a d a pelos ideaes d i -
vergentes da emancipação política e da lealdade c o l o n i a l .
D e P a l m e l l a é sabido que se não c o n t e n t o u c o m s e r v i r
i n t e l i g e n t e m e n t e as ordens do g o v e r n o do R i o n a missão
que nos annos de 1809 a 1812 o reteve em Hespanha, acre-
ditado perante a J u n t a C e n t r a l de Sevilha e depois perante
as Cortes C o n s t i t u c i o n a e s de C a d i z . E r a essa missão, pode
dizer-se t o d a no interesse de D o n a C a r l o t a J o a q u i n a , pois
que o j o v e n d i p l o m a t a l e v a v a como instrucções o b t e r a abro-
gação da l e i salica, o conseqüente reconhecimento dos d i r e i -
tos eventuaes da P r i n c e z a do B r a z i l ao t h r o n o d'Hespanha
e, f i n a l m e n t e , a acceitação da mesma P r i n c e z a como Regente
d u r a n t e a crise da occupação f r a n c e z a e o c a p t i v e i r o em Va-
lençay do R e i F e r n a n d o V I I e do I n f a n t e D o m Carlos. P a l -
m e l l a f o i mais longe do que isso, sendo dos p r i m e i r o s que
devanearam p a r a a sua soberana u m f u t u r o i m p e r i a l , ver-
dade é que c o m p a r t i l h a d a tão a l t a posição pelo m a r i d o que
ella t i n h a em h o r r o r .

N ã o e r a isto exactamente o que D o n a C a r l o t a preten-


dia. A g r a n d e ambição da sua v i d a f o i governar, porém go-
v e r n a r e l l a só, sem peias e sem participações. P a r a r e a l i z a r
este desejo f o i que t r a b a l h o u , cabalou, i n t r i g o u , se cançou de
p e d i r e de ameaçar, não recuando deante de m e i o a l g u m , e
só alcançando i m p o p u l a r i z a r - s e q u a n d o i n i c i a r a seus esforços
num ambiente favorável. E r a D o n a C a r l o t a a f i l h a primo-
gênita do soberano desthronado, v i c t i m a lastimosa de b a i -
xezas e prepotencias, áquelle t e m p o vegetando t r i s t e m e n t e
em M a r s e l h a : como t a l ella acordava u m a commiseração r e -
276 DOM JOÃO VI NO BRAZIL

flexa que logo originava a sympathia. N e m ella se descuidou


de jogar arteiramente com essa sua condição, pretendendo
já reinar em M a d r i d depois da renuncia de Bayonna e da
usurpação franceza; já ser Regente durante o seqüestro dos
irmãos; já subir, pelo menos, a I m p e r a t r i z da America Hes-
panhola, cuja lealdade dynastica se manifestara ruidosamente
contra o R e i José, mas trazia como conseqüência f i n a l a
independência das colônias.
N ã o lhe sendo possível governar como Rainha ou Re-
gente na Península, como I m p e r a t r i z ou Rainha além mar,
contentava-se com a regência da America Hespanhola, com
a do R i o da Prata que fosse, comtanto que n u m a dada ex-
tensão de território pudesse exercer auctoridade própria, dis-
tincta, autônoma, sem contas a dar áquelle estafermo odioso,
cuja vista lhe era insupportavel até na meza, preferindo to-
mar as refeições na câmara, sósinha o u com a pequenina
I n f a n t a D o n a A n n a de Jesus M a r i a . M e s m o depois de pre-
parado o palácio da Boa V i s t a para residência habitual de
Dom João, continuaram D o n a C a r l o t a e as Infantas meno-
res, de quem ella nunca se separava, a viver no Paço da ci-
dade, indo diariamente todas á missa das nove a São Chris-
tovão e voltando as Infantas ao galope das bestas para jantar
ás quatro com o pai, emquanto a Rainha se dirigia de carro
para uma das suas casas de recreio, das Laranjeiras ou do
Rio Comprido, parando occasionalmente a palestrar com a
sua i n t i m a amiga a viscondessa de V i l l a Nova.
O temperamento ardente, apaixonado e certamente
poético, pois que estimava a natureza e saboreava o amor,
de D o n a Carlota Joaquina, soube assim t i r a r a maior van-
tagem da sua residência n u m a terra de que absolutamente
DOM JOÃO^VI NO BRAZIL 277

não gostava porquanto lhe pareceu sempre, socialmente, u m


theatro mesquinho para a realeza tradicional que ella repre-
sentava, pela Casa de que descendia e pela Casa a que se
alliara. As suas habitações de recreio, as suas petites maisons
foram por isso levantadas em dous pontos dos mais graciosos
e românticos de uma cidade rica em pontos de v i s t a ^ o p u -
lenta de formosas situações, todas ellas differentes, domina-
doras umas, constituídas por morros verdejantes d o n d e se
despenham cascatas, occultas outras em valles sombrios atra-
vessados pelos riachos joviaes.
N ã o se lhe dava porém, a D o n a Carlota Joaquina, de-
sertar aquelles retiros de saudosas recordações e essa natu-
reza de poderosa suggestão, transplantando seus gosos phy-
sícos e moraes para um outro scenarío. Nas Juntas de Sevilha
e de Cadiz, nas Cortes hespanholas, nos Cabildos e A y u n -
tamientos americanos, fizeram-se com t a l i n t u i t o ouvir seus
protestos, rogos e cavillações. D e tudo se serviu. N a d a lhe
era pessoalmente mais antipathico do que o projecto de ca-
samento de sua f i l h a mais velha D o n a M a r i a Thereza com
o Infante d'Hespanha D o m Pedro Carlos, o sobrinho d i -
lecto de D o m João V I , educado desde os mais tenros annos
na côrte portugueza e a quem o Príncipe Regente, logo que
chegou ao B r a z i l , nomeou almirante da esquadra portugueza.
D o n a Carlota detestava-o, e quando lhe contaram que á
meza o marido atiçava o namoro d'esse príncipe, que Presas
descreve ignorante, grosseiro, desconfiado, de linguagem
ordinária e não raro indecente, mandando-o trocar frutas
com a I n f a n t a , punha-se furiosa e desabafava em impropé-
rios, chamando D o m João de alcoviteiro. O casal nem por
isso foi menos feliz nos dous annos que durou o seu enlace.
Dom Pedro Carlos era o que os Inglezes dizem muito uxo-
278 DOM JOÃO VI NO BRAZIL

riouSj e é f a m a que de t a n t o veio a m o r r e r (i). Dona


C a r l o t a só se r e c o n c i l i o u e n t r e t a n t o c o m o casamento, que
tão auspicioso se a f i g u r a v a a D o m João ao a t t e n t a r na m u t u a
affeição dos noivos, quando, absorta nos seus sonhos de
poderio, r e f l e c t i u n a approximação de dynastias, e u n i d a d e

( 1 ) As c a r t a s de M a r r o c o s referem-no francamicnte. "O Senhor


I n f a n t e D. P e d r o C a r l o s t e m passado m u i t o doente, creio que p o r ex-
cesso de seu exercício c o n j u g a i ; e p o r isso fizerão s e p a r a r os cônjuges,
e s t a n d o t a m b é m a Sr a. D. M a r i a T h e r e z a doente " ( C a r t a de 3
de A b r i l de 1 8 1 2 ) . " .S. M. R. e miais Família R e a l gozão de saúde, se-
g u n d o o estado r e l a t i v o da constituição de cada h u m : menos o Sr.
I n f a n t e D. P e d r o Carlos, a quem o n o v o estado c o n j u g a i t e m f e i t o
não pequena impressão n o seu s i s t e m a nervoso, porém espera-se o seu
b o m r e s t a b e l e c i m e n t o . " ( C a r t a de 23 de M a i o de 1 8 1 2 ) .
A 26 c o m t u d o f a l l e c i a o I n f a n t e em São Ohristovão. " H o j e se
faz o seu f u n e r a l com a p o m p a m a i s b r i l h a n t e e l u z i d a que he possí-
v e l . . . S. A. R. o r d e n o u que se fizessem ao d i t o Sr. todos os obséquios,
como se fosse pessoa R e i n a n t e , e p o r isso he l u t o g e r a l . . . " ( C a r t a
de 29 de M a i o de 1 8 1 2 ) . Os serviços f o r a m com e f f e i t o dos mais
impressivos. Pouco antes se celebrara com g r a n d e e s p l e n d o r o b a p t i -
zado do I n f a n t e D o m Sebastião, p r i m e i r o n e t o do Príncipe Regente,
executam d o-'se todas as m i n u d e n c i a s do r i t u a l l i t u r g i c o n'um scenario
de p r a t a s e de a l c a t i f a s da índia, e a g o r a ás pressas e dolorosamente
se substituíam as expansões f e s t i v a s pelas m o r t u a r i a s , trocando-se
pelas decorações negras e r o x a s os adornos b r a n c o s e c a r m e z i n s e t o -
m a n d o a eça e as t o c h e i r a s o l u g a r das credencias e da p i a b a p t i s m a l .
O f u n e r a l aicha-se m i u d a m e n t e n a r r a d o n a o b r a do p a d r e L u i z
Gonçalves dos Sanctos, que é u m a c b r o n i c a p e r f e i t a d'estas e o u t r a s
soleinnidades de côrte. F o i , p e l o que a h i se descreve, u m a c t o m i l i t a r ,
c i v i l e r e l i g i o s o v e r d a d e i r a m e n t e regio. N o p r e s t i t o s o b r e s a h i a m os
nobres e m a i s pessoas g r a d a s com l o n g a s capas p r e t a s e ciiapeus
desabados de que p e n d i a m c o m p r i d o s fumos, m o n t a d o s em cavalios
cobertos de a m p l a s m a n t a s n e g r a s e seguidos dos seus l a c a i o s de l i b r e ,
o s t e n t a n d o n o braço esquerdo os telizes com os r e s p e c t i v o s brazões
das famílias que s e r v i a m e a l u m i a n d o a e s t r a d a c o m brandões ac-
cesos. P r e c e d i a m o coche fúnebre p u x a d o p o r o i t o machos ajaezados de
l u c t o , e onde e r a o ca>rxão posto e t i r a d o pelos grandes do Reino, os
capellães e conegos t a m b é m a c a v a l l o e c a r r e g a n d o toichas nas mãos.
L o g o a t r a z encorpo.ravam-se, depois de f e i t a s as continências n a pas-
sagem do cadáver, as forças da guarnição que f o r m a v a m alas no
p e r c u r s o do s a h i m e n t o .
IN'este como nos o u t r o s e n t e r r o s reaes effeictuados n o R i o de
J a n e i r o , da R a i n h a D o n a M a r i a I e de sua irmã D o n a M a r i a n n a , os
o f f i c i o s de d e f u n c t o s — r e s p o n s o r i o s , landes, absolvições e encommenda-
ç ô e s — e r a m celebrados p o r todo o estado ecclesiastieo da cidade : com-
m u n i d a d e s r e l i g i o s a s dos conventos, clero das freguozias, collegiadas
de São P e d r o e da Misericórdia. O corpo f i c o u d e p o s i t a d o no convento
de Santo Antônio dos Caipuchos.
DOM JOÃO VI NO BRAZIL 279

de interesses que d'ahi parecia advir para o continente ame-


ricano hespanhol-portuguez, o qual, graças a essa nova união
das duas famílias reinantes da Península, poderia mais fa-
cilmente encaminhar-se para ficar de todo collocado debaixo
do influxo de um só throno, gerado pelas duas coroas, uma
d'ellas repousando sobre a sua cabeça senhoril.
Era o que por seu lado Palmella de algum modo estava
sonhando. U m momento houve em que o representante da
côrte do Rio na anarchizada Hespanha, desilludido do f u -
turo da Península — a qual si lograsse desenvincilhar-se do
jugo francez, permaneceria inevitavelmente, pelo que se
podia prever, debaixo da tutela ingleza — pensou na com-
pleta americanização das dynastias de Bragança e de Bour-
bon ( i ) , n'esse momento fundidas pelo consórcio de Dom
João com Dona Carlota, que assim creariam para seus des-
cendentes um colossal império ultramarino formado pelas
possessões das duas coroas, ábrangendo toda a America M e -
ridional e Central e quasi metade da Septentrional.
O espirito romântico de Chateaubriand acariciaria an-
nos depois o mesmo sonho, fragmentado porém, porquanto
visava a collocar alguns príncipes da Casa de Bourbon á
frente das differentes colônias j á emancipadas. O plano de
Palmella, contemporâneo da emancipação, correspondia antes
á centralização da auctoridade, invocada por Dona Carlota
em suas cartas como indispensável para a operação de um
bom governo e que na Hespanha, até se organizar a Junta
Central na qual mergulharam as provincíaes, ficara olvidada
entre o ardor do movimento nacionalista que alli tende sem-
pre a se tornar federalista, de accordo com a tradição histó-
rica e a realidade das divisões ethnographicas e sociaes.

( 1 ) D . M a r i a A m a l i a Vaz de C a r v a l h o , Tida do Duque de Pal-


mella, L i s b o a , T o m o I .
280 DOM JOÃO VI NO BRAZIL

Palmella convenceu-se em Cadiz que a Princeza do


B r a z i l jámais lograria ser feita sem grande pugna Regente
da Hespanha: acreditava, porém, que nada seriamente ten-
taria impedil-a de ser acclamada n'essa mesma qualidade —
successora, conforme era, do "desthronado e talvez morto
Fernando V I I " — na A m e r i c a onde se encontrava. D'este
modo evitar-se-hia o desmembramento que a usurpação es-
trangeira em M a d r i d e a desordem da Hespanha liberal an-
davam prognosticando para as colônias americanas, e dava-
se seu verdadeiro destino á monarchia portugueza trans-
plantada n'um momento de subversão histórica, e que por um
feliz acaso reunia sob o docel do seu throno os legítimos re-
presentantes das duas dynastias peninsulares. Mantinha-se
assim além mar a tradição histórica, mediante a consolida-
ção n u m a só de ambas as pátrias. Fechava-se, apoz mais
de trez séculos, o cyclo das navegações, tocando suas conse-
qüências extremas: realizava-se uma União Ibérica transa-
tlântica; concretizava-se no N o v o M u n d o o velho ideal que
parecia sepultado com D o m João I I e Filippe I I .
N'esta sua concepção, que se pode qualificar de gran-
diosa, impelliam Palmella considerações positivas e praticas
que condiziam com o seu animo pouco inclinado a idealis-
mos políticos. Segundo finamente observa a citada escriptora
que d'elle traçou uma admirativa biographia, percebia o d i -
plomata portuguez perfeitamente que á I n g l a t e r r a não con-
v i n h a m de f o r m a alguma 'esses impérios cerrados, governados
arbitrariamente para seu proveito exclusiyo por metrópoles
longínquas; que a epocha estava chegada em que não mais
se os permittiria. Senhora dos mares, que como t a l se havia
tornado, queria a G r ã Bretanha mercados variados e aber-
tos. N e m outro seria o motivo da suggestão de C a n n i n g a
DOM JOÃO VI NO BRAZIL 281

M o n r o e , q u a t o r z e annos depois da missão P a l m e l l a n a Hes-


panha.
Justamente a Inglaterra transformava o seu secular
instrumento agrário n u m formidável apparelho industrial,
por meio do q u a l e n t r a v a n o c a m i n h o da sua s u r p r e h e n d e n t e
expansão. A collocação da n o v a e m u l t i p l i c a d a producção
passou pois a ser u m a consideração i m m e d i a t a e de importân-
cia m á x i m a , e o p r o b l e m a americano u m dos mais graves
por isso do século que então estava na aurora (i), assim
como v a i v o l v e r a sel-o do século que p r i n c i p i a agora, já que
o século d e c o r r i d o l h e não d e u c o m suas combinações apres-
sadas e de fracos alicerces u m a solução satisfactoria, apenas
u m desfecho que as circumstancias se e n c a r r e g a r a m de mos-
t r a r provisório.
P o r v i r t u d e da acção deliberada de u m e da consciente
declaração do o u t r o , C a n n i n g e M o n r o e tentaram ageitar
o f u t u r o e reservar o c o n t i n e n t e m e r i d i o n a l , c u j a c o n s t i t u i -
ção política f i z e r a m d e f i n i t i v a , para a expansão econômica
das gentes anglo-saxonícas, e m p r e z a t a n t o mais fácil q u a n t o
mais desligado estivesse o feixe latino-americano. A' I n g l a -
t e r r a não c o n v i n h a p o r t a n t o u m único império hispano-por-
tuguez, mesmo c o m m e r c i a l m e n t e f r a n c o que fosse. P a l m e l l a
obteve exarar o reconhecimento dos direitos eventuaes de
D o n a C a r l o t a ao t h r o n o d'Hespanha, concessão e m s u m m a
platônica, n u m t r a t a d o assignado c o m a Regência nos come-
ços de 1810, e que e s t i p u l a v a t a m b é m a t r o c a perpetua de
Olivença p o r territórios n o R i o da P r a t a e a cooperação de
u m exercito p o r t u g u e z de 12.000 homens na c a m p a n h a da
independência peninsular. O g o v e r n o b r i t a n n i c o t o d a v i a , que
de facto estava p r o t e g e n d o as duas nações peninsulares e

(1) D. Maria Amadla Vzz de Carvalho, ob. cit.


282 DOM JOÃO VI NO BRAZIL

as convertera na base essencial das suas operações militares


contra Napoleão, é que nunca sançcionou o referido tratado,
o qual ficou por esta razão sem effeito. E do mesmo modo
que, deixando de referendar aquelle reconhecimento de di-
reitos eventuaes á coroa de uma Infanta d^espanha, de-
nunciava não ser-lhe agradável a forma tradicional da união
ibérica, tampouco se revelaria no minimo o gabinete de
Saint James disposto a admittir de bom grado a união sob
a forma ultramarina.
Do lado do Príncipe Regente de Portugal era pouco
crivei que houvesse n'este ponto indomável opposição a te-
mer. Sempre opportunista e mais perspicaz do que o julga-
vam seus próprios conselheiros, mostrou-se elle de prompto
inclinado a trocar aquelles direitos hypotheticos da consorte,
que a principio parecera sustentar, por alguma cousa de
mais solido e substancial e de mais immediato proveito —
um accrescímo de território para as bandas do sul por exem-
plo, envolvendo a reencorporação de Montevidéo, idéa sem-
pre cara ao seu coração de príncipe que sangrava pelo sangue
que a Portugal custara a malfadada Colônia do Sacramento.
CAPITULO VII

AS INTRIGAS PLATINAS

E' fora de duvida que Dom João VI esteve a começo


de accordo com o projecto que teria a dupla vantagem de
livral-o da presença nefasta da mulher, enxotando-a com
todas as honras para Buenos Ayres e com alli enthronizal-a
dando applicação á sua damninha actividade, e ao mesmo
tempo extender com essa parceria distante a sua importância
dynastica, pois que no f u t u r o o império hispano-americano,
arredado da solução da independência, a qual para mais era
contagiosa e poderia propagar-se ao B r a z i l , reverteria para
a successão de D o n a Carlota, que era a sua própria. N ã o
contaria elle com tamanha resistência do governo britannico,
mais propenso a favorecer a emancipação das possessões hes-
panholas, aos projectos de D o n a Carlota Joaquina, nascidos
da justa persuasão de que o domínio colonial da Hespanha
tinha entrado em franca desaggregação e que mais valia con-
serval-o para uma nova dynastia Bourbon-Bragança do que
abandonal-o ao vórtice republicano.
T o m a r a pois D o m João docilmente neste assumpto
as licções da esposa, a qual com tanto mais acerto político
procedia aspirando a reinar na America Hespanhola, quanto
284 DOM JOÃO V I NO BRAZJL

se podia considerar irrealízavel uma restauração em M a d r i d


do prisioneiro de Valençay, parecendo Hespanha e Portugal
fadados a permanecerem sob a tutela estrangeira, franceza
ou ingleza, segundo o desenlace da contenda peninsular. O
outro lado do Atlântico estava entretanto a salvo do delírio
de omnipotencia de Napoleão, cujo poder naval ficara des-
truído em Trafalgar. Por isso os Inglezes, assim que o Im-
perador dos Francezes collocou o irmão no throno da nação
sua alliada, formaram logo o plano de reconquistar Buenos
Ayres, tendo o almirante sir Sidney Smith (I) chegado até ao
Rio em 1808 para a execução d'essa empreza. Havendo
porém rebentado em Hespanha a revolta popular (2) contra
o usurpador e tendo-se installado a Junta Nacional de Se-
vilha, os inimigos da véspera deram-se as mãos e deixou de
subsistir para os Inglezes o pretexto do novo ataque.
Os homens pacatos teem suas velleidades bellicosas. Es-
creveu com sobeja razão Alphonse Daudet, ao delinear o seu

(1) O almirante britannico, que era um intimo amigo da Prin-


ceza do Brazil, protegeu abertamente os seus projectos ambiciosos,
desa^vindo-se até por t a l motivo com lord Strangford que, além de
cumprir as instrucções do seu governo, hostis a qualquer união ibérica,
não podia perdoar a sir Sidney o rico presente recebido do Príncipe
Regente sob a forma de uma chácara situada do outro lado da bahia
não longe da Armação, pelo serviço inestimável de t e r auxiliado tão
eficazmente a trasladação da família real. T a m b é m Dona Carlota
o mimoseara com uma espada de guarda de brilhantes e um annel de
brilhantes. Foram as intrigas do ministro inglez que levaram Dom
João a obter de Londres a retirada do almirante. Interrogando com-
tudo sir Sidney na audiência de despedida o Príncipe Regente sobre
os motivos do seu aicto de desagrado, o muniu este, ao que se conta,
de desculpas e de uma carta desmentindo as aocusações formuladas na
primeira.
(2) Bem popular se lhe pode chamar, segundo o coníessam os
próprios aristocratas. Depois de r e l a t a r que m u i poucos eram os of-
ficiaeis a seguirem o exemplo dos soldados no bandearem-se para o
Rei Fernando, a j u n t a o marquez de Ayerbe que foram raros os gran-
des que tomaram parte activa no movimento nacional, limitando-se a
procurarem aplacar o povo. (Memórias sohre l a estância de D. Fer-
nando V I I en Valençay y el principio de l a guerra de l a Indepen-
dência.
DOM JOÃO VI NO BRAZIL 285

typico Tartarin de Tarascon, que em todo homem coexis-


tem o leão e o coelho, o instincto das aventuras e o instincto
doméstico, o espirito de fantasia e o espirito de socego: n a s

variação das proporções é que deve residir a variação dos


temperamentos. N ã o fazia D o m João V I excepção a essa
regra psychologica e, o que melhor é, com favonear os de-
sejos regios da consorte, satisfazia ambos os sentimentos em
conflicto i n t i m o : o prosaico, libertando-se da megera que
o atormentava, e o idealista, realizando u m velho sonho real
portuguez, o de reunir as descobertas debaixo do mesmo
sceptro.
Assevera o Hespanhol Presas, pelo próprio Príncipe
Regente posto ao serviço de D o n a Carlota para i r promo-
vendo o grande negocio, que, afigurando-se-lhe perdidas as
esperanças sequer da soltura do monarcha legitimo, resol-
vera D o m João apresentar a esposa ás colônias hespanholas
e ao mundo como a n a t u r a l herdeira no u l t r a m a r da coroa
de São Fernando. A q u e l l e aventureiro, que de Buenos Ay-
res fora dar com os ossos no B r a z i l e a quem os aconteci-
mentos guindaram a secretario intimo da Princeza contra
a qual mais tarde exerceria a sua tentativa de extorsão pe-
cuniária, de que resultou a publicação das Memórias Se-
cretas, teria sido confiada a redacção do alludido manifesto,
assim como a traducção, por conta do almirante sir Sidney,
fundamente interessado no plano, das proclamações e outros
documentos emanados da J u n t a de Sevilha, no intuito de
serem disseminados pela America Hespanhola e estimularem
o patriotismo colonial, com o que aliás só podiam lucrar os
projectos emancipadores do governo britannico.
Previne-nos com m u i t a razão o escriptor Paul Groussac
contra o perigo dos depoimentos singulares, lembrando-nos
286 DOM J O Ã O V I NO BRAZIL

qúe é hoje u m l u g a r c o m m u m da critica, assim como do


processo judiciário, a escassa fé que merece o testemunho
único, p o r mais sincera e i m p a r c i a l que seja a testemunha.
Nossos sentidos e nossas reminiscencias são outras tantas
fontes de erro, e somente pela analyse comparativa e prova
contradictoria se l o g r a extrahir a partícula de verdade en-
volta na massa enganadora. O u t r o principio corollario do
primeiro, é, no dizer do eminente auctor argentino, o de
não acceitarmos, mesmo condicionalmente, qualquer opinião
interessada senão na parte que pareça contraria, o u pelo
menos indifferente ao seu interesse. Presas offerece todas
as condições negativas: é u m a testemunha i n d i g n a de credito,
a quem n e n h u m .impulso levantado instigava e que só agia
com a m i r a no lucro. Contucci o accusava ( i ) de contar
quanto se passava ao plenipotenciario hespanhol Casa I r u j o ,
o que deve ser tanto mais verdade quanto fazia absoluta-
mente o mesmo esse o u t r o aventureiro com quem Presas
aliás se correspondia.
N'este ponto, comtudo, o cotejo das informações per-
mitte-nos orientar com certa segurança: os depoimentos
são vários e alguns insuspeitos. A s intrigas platinas f o r a m u m a
realidade. E' inquestionável que D o n a C a r l o t a Joaquina
procurou assiduamente captar a boa vontade das colônias
hespanholas; que, sem caracter propriamente official, pois
pelo casamento perdera os direitos de i n f a n t a hespanhola, e
pela força das circumstancias assumira a nação a direcção
dos seus destinos, iniciou u m a copiosa correspondência com
auctoridades e pessoas influentes não só de Buenos Ayres

(1) Cartas de 1809 a 1810, no Arch. do Min. das Rei. Ext. do


CBrazil.
DOM JOÃO VI NO BRAZIL 287

c o m o de M o n t e v i d é o , C h i l e , P e r ú e até M é x i c o ; q u e sus-
tentou essa propaganda epistoLar nos annos de 1808 e 1809
particularmente, sob pretexto de zelar os interesses da sua
casa reinante, effectivamente os seus próprios; que fez dis-
tribuir profusamente por todas aquellas partes uma procla-
mação concebida na linguagem emphatica do tempo e da
occasião, reivindicando os seus direitos renunciados, porém
indestructiveis (1) ; que chegou mesmo a induzir o conde de
Florida Blanca a publicar em Murcia, com toda a auctori-
dade do seu nome e do seu passado, um manifesto indican-
do-a como a necessária herdeira; finalmente que de todos
os modos preparou sua ida para Buenos Ayres, onde promet-
teu ir celebrar, de conformidade com os antigos usos da mo-
narchia, as Cortes que unicamente lhe podiam conferir a

(!) A referida proclamação dizia n'a]guns dos seus períodos:


14
U m systema de governo c o l o n i a l sem metrópole, e sem soberano ef-
fectivo, a quem recorrer, como a c e n t r o de u n i d a d e he u m absurdo
que repugna a t o d a a sãa política; h uma v e r d a d e i r a A n a r c h i a que
e

e x p o r i a as Américas a ser d i v i d i d a s em t a n t o s Reis como t e m de Vice-


R e i s ; em t a n t c s R e g u l o s como g o v e r n a d o r e s , e em o u t r o s t a n t o s
facciosos q u a n t o s são os h o m e n s a t r e v i d o s , de que abundão, e f a l t a n d o
aos p r i m e i r o s aquelle gráo de força e resipeito que so o b t i n h a m pelo
poder da Metrópole da q u a l d e p e n d i a m os prêmios, e donde se recea-
v a m os castigos, t u d o se c o n v e r t e r i a em u m cáhos, e viríamos a ser
a preza do p r i m e i r o , que se nos apresentasse, ao q u a l nos veríamos
talvez obrigados a a d m i t t i r como u m b e m f e i t o r , que serenasse nossas
t n t e s t i n a s dissenções, e p a r t i d o s , o que he de t e m e r que aconteça á
desgraçada H e s p a n h a . . . : p a r a que f i n a l m e n t e se cheguem a v e r
c u m p r i d o s os votos da A m e r i c a , não e n c o n t r a a sua f i d e l i d a d e o u t r o
meio efficaz, v i r t u o s o e honroso senão aicceitar com o m a i s v i v o reco-
n h e c i m e n t o o p r e c i o s o dom, que a p i e d a d e do Ceo nos a p r e s e n t a tão de
perto, no m o m e n t o do nosso m a i o r aperto, pondo-nos debaixo da imme-
d i a t a protecção, e governo da A u g u s t a Irmãa do nosso m u i t o amado
Soberano F e r n a n d o V I I , a S e n h o r a I n f a n t a D. C a r l o t a J o a q u i n a de
Bourbon, aoclamando-a p a r a a Regência Soberana deste Império (pois
somente ella, e seu respeitável nome d e s v i a t o d a a idéa, que não seja
a mais j u s t a , e d i g n a do generoso sangue que a i l l u s t r a ) p a r a que
debaixo de nossos f o r o s , e a n t i g a s L e i s Pátrias o a d m i n i s t r e e desde
já o vá o r g a n i z a n d o : o sustente, e o d e f e n d a com a e n e r g i a própria
do seu R e a l animo, e s i n g u l a r e s v i r t u d e s , e o conserve i n t a c t o p a r a
o e n t r e g a r como u m d e p o s i t o sagrado a seu d i g n o Irmão, nosso Rey
D. F e r n a n d o , "
288 DOM JOÃO V I NO B R A Z I L

desejada investidura e legitimar a forçada accessão ao


throno.
Sondados os ânimos aos quaes a p p e l l a r a , p u d e r a a P r i n -
ceza do B r a z i l v e r i f i c a r que a idéa da sua regência f o r a bem
a c o l h i d a no R i o da P r a t a pelos notáveis em g e r a l , e sur-
gira como uma solução quasi p o p u l a r , repudiando-a com
vehemencia pode dizer-se que apenas o vice-rei Jacques L i -
niers, esse o f f i c i a l f r a n c e z de f o r t u n a a q u e m a b r a v u r a pes-
soal e o notável serviço da expulsão dos I n g l e z e s de Buenos
Ayres tinham valido aquella elevada posição. A lealdade
dynasticá e r a u m elemento c o m que se p o d i a a i n d a c o n t a r de
seguro nas colônias e, além d'isso, dos que já s o n h a v a m com
a independência e que mais t a r d e , descoroçoados de terem-na
c o m D o n a C a r l o t a , a estabeleceram c o m a r e p u b l i c a , m u i t o s
j u l g a v a m então ser mais fácil emanciparem-se c o n s t i t u i n d o
u m a m o n a r c h i a que não desafiasse o g r a n d e p o d e r i o conser-
v a d o r do R e i do B r a z i l , cem vezes s u p e r i o r ao do R e i de
Portugal.
T r e z causas i n d i c a o c o n f i d e n t e Presas como podendo
ter influído sobre o Príncipe R e g e n t e p a r a o d e t e r m i n a r e m
bruscamente a r e t i r a r a permissão, já dada á esposa, de em-
barcar p a r a o R i o da P r a t a : as i n t r i g a s dos seus v a l i d o s que,
t e m e n d o a n a t u r e z a r a n c o r o s a e v i n g a t i v a de D o n a C a r l o t a ,
não q u e r i a m a b s o l u t a m e n t e enxergal-a no poder, dispondo
de a u c t o r i d a d e e de meios de acção e s o b r e t u d o de retalia-
ção; a i n f l u e n c i a persistente de l o r d S t r a n g f o r d que, inter-
p r e t a n d o f i e l m e n t e as vistas do gabinete i n g l e z e as aspira-
ções do c o m m e r c i o britannico, trabalhava de socapa pela
independência da A m e r i c a H e s p a n h o l a ; p o r f i m o receio que
se a p o d e r o u de D o m João, o q u a l não p r i m a v a pelo denodo,
de q u e a m u l h e r , valendo-se da força a d q u i r i d a , pudesse dar
DOM JOÃO VI NO BRAZIL 289

largas ao seu odío conjugai e tentar mesmo despojal-o do


throno. Q u e m tiver presente o episódio de 1805 e se recor-
dar de que, depois do regresso para Lisboa, f o i a Rainha
a alma damnada das conjurações absolutistas contra D o m
João V I , não poderá alcunhar de vãos e chimericos os temo-
res então alimentados pelo Príncipe Regente.
Dom João tinha pois razões para saber quem era a
esposa, e esta por seu lado conhecia admiravelmente o ma-
rido que enganava. Bem conscia era do quão irresoluto e ma-
treiro tinha o animo: na pittoresca expressão de uma carta
d'ella a Presas, " el príncipe en estos negócios tiene dos
caras." D o m João costumava reflectir tanto, pesar tão minu-
ciosamente os prós e os contras das suas resoluções, que a
vontade acabava muitas vezes por deixar de servir-lhe os
planos. E r a porém u m H a m l e t doseado de lago, tragédia e
ferocidade á parte. E' provável que si D o n a Carlota alcan-
çasse sentar-se no throno da America Hespanhola, a ambi-
ção e o resentimento a levariam a procurar governar tam-
bém a America Portugueza; mas não é menos provável que
o Príncipe, ainda que desilludido de u m primeiro ensaio
tentado de afogadilho por Linhares, entrasse a entrever a
possibilidade de definitivamente arredondar os seus domi-
nios patrimoniaes, aproveitando a confusão e o esphacelo
do império hespanhol. Buenos Ayres, no alvor da sua inde-
pendência, albergou tanto u m emissário de Napoleão a L i -
niers no intuito dé obter a submissão do vice-reinado do
Prata á dynastia franceza, como u m enviado de confiança
mandado pelo Regente de P o r t u g a l a estudar em seu dissi-
mulado beneficio a situação política vigente.
D e facto, sem que D o n a C a r l o t a d'isso tivesse conhe-
cimento, mandou D o m João em 1809 ao R i o da Prata,
290 DOM JOÃO VI NO BRAZIL

como emissário, p a r a o i n f o r m a r das v e r d a d e i r a s occorren-


cias e do estado das dissensões, o m a r e c h a l de campo F r a n -
cisco X a v i e r C u r a d o . A l é m da p a r t e política, incluía a i n -
cumbência u m a p a r t e commercíal, de p r o c u r a r estabelecer
u m accordo que, c o m d a r l i v r e introducção n o R i o da P r a t a
aos produetos inglezes i m p o r t a d o s p o r v i a do B r a z i l , apro-
veitasse s i m u l t a n e a m e n t e aos dous alliados, a u m como pro-
d u e t o r o u m a n u f a c t o r , ao o u t r o como intermediário o u com-
missario. A l i b e r d a d e m e r c a n t i l s o r r i a porém m u i pouco aos
abastados m o n o p o l i s t a s de Buenos A y r e s como Alzaga e
outros, quasi todos de nascimento europeu, e f o r a a sympa-
t h i a , de resto t o d a platônica, m o s t r a d a p o r Líniers ás pro-
postas d'esta n a t u r e z a v i n d a s do R i o , u m dos m o t i v o s que
determinaram o r o m p i m e n t o do c a b i l d o c o m o vice-rei i n -
t e r i n o , sobretudo depois que elle resolvera e n v i a r á côrte
b r a z i l e i r a em J u n h o de 1808, u m a n n o p o r t a n t o antes da
missão C u r a d o , o seu p a r e n t e D. Lázaro de R i v e r a , com
instrucções p a r a c o n c l u i r o entábolado accordo commercial,
c o m que se p r o c u r a r i a f u g i r ao buscado accordo político.
P o r todos estes m o t i v o s despertou apprehensões nos cír-
culos locaes, de tendências d i v e r g e n t e s m u i t o embora, a via-
gem do marechal portuguez, a quem de resto o Príncipe
R e g e n t e p r o m e t t e u , d i a n t e das reclamações de D o n a Car-
l o t a , f a z e r regressar. A r g u m e n t a v a a P r e t e n d e n t e , não sem
j u s t e z a , que a presença d'aquelle e n v i a d o p r o v o c a r i a em
Buenos A y r e s desconfianças de annexação, que não eram
descabidas, sendo t a m b é m de t o d o p o n t o c o n t r a r i a ás leis
da m o n a r c h i a hespanhola, as quaes v e d a v a m aos governantes
u l t r a m a r i n o s e n t r e t e r e m relações directas c o m representan-
tes de príncipes o u potências estrangeiras, não se a d m i t t i n d o
sequer cônsules n a A m e r i c a .
DOM JOÃO VI NO BRAZIL 291

Nem n o R i o da P r a t a se p o d i a m enganar q u a n t o ás
ameaças que p a r a a i n t e g r i d a d e do domínio hespanhol repre-
sentava a trasladação p a r a o B r a z i l da sede da m o n a r c h i a
p o r t u g u e z a , c o m suas vistas n u n c a abandonadas de expan-
são p l a t i n a , sempre "á espreita da occasião o p p o r t u n a p a r a se
manifestarem. A v i n d a da família r e a l a q u i causou a mais
profunda sensação, escrevia ao generalissímo príncipe da
P a z o vice-rei L i n i e r s , e são manifestos os receios de encor-
poração ( i ) . Accrescentava o valoroso F r a n c e z que, como
meio de ' a f o g a r em seus começos o desalento, e d a r aos
espíritos o v i g o r necessário n u m a crise tão extraordinária
como d i g n a da m a i o r attenção", t r a t a r a l o g o de c i m e n t a r a
confiança da colônia nos próprios recursos m i l i t a r e s , os
quaes elle c o m t a m a n h o êxito a p r o v e i t a r a e e m p r e g a r a c o n t r a
os I n g l e z e s v i n d o s do Cabo e que se t i n h a m apoderado de
Buenos A y r e s ; mas que a sua situação era mais do que d i f -
f i c i l , sem d i n h e i r o e quasi sem armas, e c o m soldados inexpe-
rientes. E n t e n d i a p o r isso não dever oppor u m a recusa i r -
r i t a n t e á approximação p a c i f i c a t e n t a d a do R i o , sempre que
a n o v a côrte mostrasse respeitar a a u t o n o m i a hispano-pla-
tina.
N e s t e mesmo i n f o r m e ( 2 ) d i z i a L i n i e r s t e r recebido
cartas do g o v e r n a d o r de P o r t o A l e g r e e do então b r i g a d e i r o
C u r a d o , a u c t o r i z a d o pelo Príncipe Regente p a r a t r a t a r sobre
os meios de c o n t i n u a r o recíproco c o m m e r c i o e n t r e os habi-
tantes das províncias do P r a t a e os vassallos portuguezes e
americanos, "na f o r m a que se está p r a t i c a n d o c o m bandeiras
simuladas." A côrte do R i o de J a n e i r o não perdia, pelo
que se vê, t e m p o em a j u s t a r suas relações c o m as possessões

(1) British Museum, ManuscTiptos Addicio-naps, n. 32608, (um


dos Códices da Collecção P a r i s h ) .
(2) De 31 de Maio de 1808.
292 DOM JOÃO VI NO BRAZIL

que t o c a v a m a f r o n t e i r a m e r i d i o n a l do B r a z i l . D o m João p o r
si c a m i n h a v a cautelosamente, a b r i n d o o passo a mais fecun-
dos resultados c o m uma intelligencia de caracter pratico,
que não assustava e p o d i a passar p o r u m a demonstração
amigável.
O conde de L i n h a r e s , porém, sempre mais apressado
em u l t i m a r seus planos, como que a d i v i n h a n d o que a m o r t e
o espreitava de p e r t o , quasi s i m u l t a n e a m e n t e escreveu para
Buenos A y r e s u m a c a r t a reservada concitando essa colônia
á rebellião, desacreditando a constituição política f o r m a d a ,
que trahia uma situação h y b r i d a , s a l i e n t a n d o o abandono
dos estabelecimentos hespanhoes no u l t r a m a r pelo a n n i q u i l a -
m e n t o da respectiva m o n a r c h i a sob a acção da intervenção
franceza, e c o n v i d a n d o o vice-reinado a submetter-se á pro-
tecção p o r t u g u e z a ( i ) . E r a u m f r a n c o a p p e l l o á separação
da Hespanha e não menos f r a n c o appello á annexação
a Portugal. O m i n i s t r o * do Príncipe R e g e n t e p r o m e t t i a a
conservação dos privilégios existentes, a isenção de novos
impostos e, c o m a segurança de u m c o m m e r c i o l i v r e , o es-
q u e c i m e n t o apelos I n g l e z e s da sua recente expulsão e a re-
nuncia a toda a idéa de reconquista.
Até que p o n t o estaria L i n h a r e s auctorizado pelo go-
v e r n o b r i t a n n i c o a f a l i a r assim, elle o c a l a v a ; p a r t i a entre-
t a n t o de premissas certas p a r a chegar a t a l conclusão, imagi-
n a n d o c o m acerto que os I n g l e z e s se abster iam. desde então
de atacar, mesmo no u l t r a m a r , os seus novos alliados da
Península, e que os interesses britannícos p u g n a v a m pela
l i b e r d a d e de t r a f i c o . Caso aliás, este m o d o suasorio não re-
cebesse a c o l h i m e n t o favorável e não se evitasse p o r t a n t o a
effusão de sangue, o m i n i s t r o estava disposto a não recuar

(1) B r i t i s h Museum, Cod. c i t


DOM JOÃO VI NO BRAZIL 293

ante semelhante contingência: manejando o argumento da


ameaça, mais decisivo politicamente que o das blandicias,
declarava elle que "S. A. R. se veria obrigado a obrar, de
concerto com o seu poderoso alliado, com os fortes meios
que a Providencia depositou em suas mãos."
O imperialismo — pois que podemos com propriedade
adaptar esta denominação modernizada á aspiração de ex-
tensão t e r r i t o r i a l que D o m João V I acalentou e realizou,
com relação ao B r a z i l , nas suas fronteiras norte e sul — foi
n'esse momento histórico e no continente americano a mola
da política da Casa de Bragança e motivo de temor para a
Casa de Bourbon. Esta era a razão principal pela qual o
governo de M a d r i d nunca mostrara vontade que a côrte
de Lisboa se mudasse para o R i o de Janeiro, convindo-lhe a
deserção do Reino mas recriando com justificada previsão a
concentração do poder m i l i t a r e político de P o r t u g a l na v i -
sinhança das suas possessões americanas. Por seu lado T h o -
maz Antônio V i l l a N o v a P o r t u g a l quando em 1807, antes
de declaradas por Napoleão rotas as hostilidades e de deci-
dida a trasladação para o B r a z i l , advogara a ida do Prín-
cipe da Beira, recommendara que acompanhasse a regia crian-
ça força sufficiente, apparentemente para prevenir ataques
ultramarinos da Inglaterra, que a cordialidade das relações
officiaes com a França podia então fazer antever; na reali-
dade para, desnorteando o Imperador dos Francezes, deter
na Península o auxilio hespanhol promettido ao exercito
invasor, offerecendo-lhe a ameaça de uma campanha no R i o
da Prata.
A empreza de engrandecer o domínio portuguez na
America não era fácil, porque contra ella mais que tudo
se levantava a tradicional e viva antipathia entre as duas me-
D. J . — 19
294 DOM JOÃO VI NO BRAZIL

tropoles peninsulares. A encorporação de qualquer dos vastos


domínios hespanhoes assim t r a r i a em si u m germen perni-
cioso para a nação oonquistadora, depositado pela lealdade,
ainda apreciável, d'essas possessões para com a sua mãi pátria,
sobretudo tratando-se de uma absorpção portugueza.
Palmella farejou como arguto diplomata que seme-
lhante lealdade, aquillo para que usam os Inglezes o termo
loyalty, seria a determinante causa immediata do rompi-
mento que se p r o d u z i u com a subida ao throno hespanhol do
Rei forasteiro. F o i isto quando, seduzido u m momento pela
sua chimera igualmente imperialista, pretendeu o represen-
tante portuguez promover com tamanho enthusiasmo os i n -
teresses de que a Princeza do B r a z i l lhe confiara a gestão
e cuja feliz composição constituía, no dizer d'elle, a única
cousa que poderia conservar unidas as colônias hespanholas
combinadas com as portuguezas, e particularmente salvar as
tradições da monarchia de Carlos V, as quaes, abafadas na
sua sede européa, assim achavam guarida na America (i).
Com effeito, faltando-lhe por motivos vários esta base
tradicional, o movimento nacionalista de Buenos Ayres to-
maria a breve trecho a cor demagógica que lhe deviam ne-
cessariamente v i r a emprestar, além da carência de direcção
dynastica local pela ausência forçada de D o n a C a r l o t a Joa-
quina, a distancia da metrópole, a confusão que n'esta rei-
nava, a desorganização m i l i t a r da colônia, as idéas liberaes,
finalmente, que andavam no ar. N ã o que a Hespanha anar-
chizada cessasse de pensar nas colônias que representavam
o melhor do seu patrimônio. N o mesmo anno da missão
Curado, pelos meados de 1809, chegava ao R i o a corveta

(1) Oáficio de D. Pedro de Souza Ilolsteún cit. na obra de


D. Maria Amalia Vaz de Carvalho.
DOM JOÃO V I NO-BRAZIL 295

de guerra Mercúrio conduzindo o m a r q u e z de Casa I r u j o


na qualidade de plenipotenciario de F e r n a n d o V I I , despa-
chado pela J u n t a C e n t r a l que dizia representar e agir em
nome do monarcha hespanhol compellido á abdicação e se-
qüestrado em França.
O objectivo de Casa I r u j o t i n h a forçosamente que ser
a preservação da integridade dos domínios do seu amo, li-
vrando-os ao mesmo tempo da cobiça portugueza e da at-
tracção exercida pela m i r a g e m independente. A o Príncipe
Regente o que sobretudo interessava — e para isso m a n d a r a
ao R i o da P r a t a u m h o m e m da sua confiança — era em parte
o inveiso, mas n'outra parte o mesmo, pois que lhe cumpria
defender o seu império americano do v i r u s contagioso da
rebeldia.
P a r a bem se precaver, força lhe era a j u i z a r p r i m e i r o do
poder dos partidários em Buenos A y r e s do systema repu-
blicano que, pelo que se dizia, cogitavam até de fazer propa-
ganda no B r a z i l , incitando seus habitantes a constituirem-se
pelo regimen democrático. E' facto que os republicanos pla-
tinos, comprehendendo perfeitamente que obstáculo impor-
tava para elles a proximidade da côrte portugueza e que pe-
rigo envolvia o poderio que d'ahi derivara o colosso brazi-
leiro, se esforçaram desde logo p o r fomentar no B r a z i l u m
m o v i m e n t o análogo: ameaça que D o m João V I sempre
avaliou n a sua j u s t a significação e que mais tarde l h e offe-
receria o mais forte d'entre os suspirados pretextos para a
occupação de Montevidéo. E n t r e t a n t o a Princeza, constan-
temente a r b i t r a r i a e i n t r o m e t t i d a , i a em beneficio próprio
movendo no R i o infatigavel perseguição aos agentes e cor-
respondentes d'aquelles revolucionários, que em contraposi-
ção de interesses recebiam protecção do m i n i s t r o britannico.
296 DOM J O Ã O V I NO B R A Z I L

Enganava-se por conseguinte o vice-rei Liniers quando,


qualificando tão duramente o proceder ambicioso do minis-
t r o Linhares, repellido aliás pelas auctoridades municipaes
de Buenos Ayres, que chega a escrever que até na política de
T u n i s e d ^ A r g e l seria uma t a l conducta vista com execra-
ção, lançava contra a côrte brazileira a increpação de servir
conscientemente de instrumento do gabinete de Saint James,
"poniendo a los ingleses en estado de balancear l a f o r t u n a de
Europa con l a dominacíon americana" ( i ) . A' G r ã Bre-
tanha convinha antes por todos os princípios a autonomia
sul-americana, que ía necessariamente resultar da desaggrega-
ção começada, á sombra da qual tratava D o n a C a r l o t a Joa-
quina esperançosamente de adiantar o seu jogo, que não
f a l t o u muito .que ganhasse graças aos t r u m f o s que lhe che-
gavam.
O primeiro homem de talento e de valor que no R i o
da Prata abraçou a sua candidatura, D. M a n o e l Belgrano,
o fez no i n t u i t o não só de bem assegurar, por meio de uma
solução pratica, o desligamento do vice-reinado do Prata
da Hespanha então napoleonica, como de crear para a colô-
nia elevada a estado uma situação de ligação toda pessoal
com o seu soberano, de todo differente da antiga dependên-
cia da metrópole e seus archaicos conselhos. Belgrano e os
que o acompanhavam — Castelli, Pueyrredon, M a r i a n o Mo-
reno entre outros — na porfiada propaganda em p r o l da
candidatura da Princeza do B r a z i l , preferindo obedecer a
uma I n f a n t a da casa hespanhola legitimamente reinante a
pôrem-se ás ordens de adventicios políticos, francezes usur-
padores, liberaes da mãi pátria ou conservadores da colônia,
cogitavam de uma monarchia constitucional, forma que lhes

(1) Britisti Museum, Cod. cit.


DOM JOÃO VI NO BRAZIL 297

parecia a mais fácil de c o n c i l i a r e m a tradição c o m o pro-


gresso, de t o r n a r e m possivel a emancipação, "alcançando a
independência sem sacrifícios e operando u m a revolução i n -
cruenta."
N u m a reunião de p a t r i o t a s f o r a B e l g r a n o a u c t o r i z a d o
a negociar n'esse sentido c o m a P r i n c e z a do B r a z i l , o que
elle l e v o u a cabo d u r a n t e u m anno, de 1 8 0 8 a 1809, p o r
intermédio do f r a n c i s c a n o C h a m b o , de Presas, de C o n t u c c i
e do agente do p l a n o n o próprio R i o de J a n e i r o , D. Satur-
nino Rodriguez Pena, o q u a l i g u a l m e n t e e mais que t u d o
almejava p o r u m a pátria independente e livre. Q u e esta
n u n c a o seria, porém, c o m D o n a C a r l o t a J o a q u i n a , digna
irmã de F e r n a n d o V I I n a dissimulação e n a prepotência,
l o g o o p r o v a o f a c t o da P r e t e n d e n t e , ao mesmo tempo que
proseguia n a i n t e l l i g e n c i a , d e n u n c i a r a L i n i e r s o emissário
dos patriotas como t r a i d o r . O vice-rei, f i q u e notado, não se
subordinava á usurpação f r a n c e z a n a Hespanha, n e m se
prestava a f a v o r e c e r projectos de desunião, quer em bene-
ficio dos f i l h o s da colônia, quer em p r o v e i t o dos m e t r o p o l i -
tanos a h i residentes: contentava-se c o m inclinar-se ante as
auctoridades de facto que d i z i a m g o v e r n a r em nome do R e i
n a c i o n a l d u r a n t e o seu i m p e d i m e n t o .
A s idéas de l i b e r d a d e não e n c o n t r a v a m absolutamente
echo no coração da f i l h a de M a r i a L u i z a , a q u a l aspirava
ao governo absoluto, q u e r e n d o c i n g i r a coroa sem c o n d i -
ções ( 1 ) . B e l g r a n o e P u e y r r e d o n que, preso como conspira-
dor e o b r i g a d o a refugiar-se n o R i o , conheceu e t r a t o u a
Princeza, não p o d i a m d e i x a r de convencerem-se elles pró-
prios da i n f e l i c i d a d e d a sua escolha p r i m i t i v a , arrefecen-
do-se seu enthusiasmo e substituindo-o u m c u r t o período de

(1) Mitre, Vida de Belgrano, Tomo I .


298 DOM JOÃO VI NO BRAZIL

desalento antes de definitivamente adoptada a solução repu-


blicana.
Demais, do que se deprehende de uma phrase da au-
to-biographia de Belgrano, a Princeza do Brazil não fez
caso bastante de Pueyrredon ( i ) , dispensando-se de ter com
o futuro dictador as cavillações e doçuras de que certamente
fez abundante gasto com Rodriguez Pena para que este a
taxasse ( 2 ) de mulher singular e mesmo única, disposta a
todos os sacrifícios em prol dos seus semelhantes, amável,
generosa, alheia a despotismos, digna, virtuosa, illustrada,
um conjuncto de divinas qualidades, nas suas palavras tex-
tuaes " la heroina que necesitamos, y la que seguramente
nos conducirá al más alto grado de felicidad."
Mais tarde passaria por proceder anti-patriotico haver
sido partidário da candidatura que tinha justamente tido
por f i m evitar que a America participasse da sorte da Hes-
panha, isto é, acabasse sob o domínio estrangeiro. N o em-
tanto, si n'aquella occasião tivesse Dona Carlota conseguido
ir ao Rio da Prata, houvera sido acclamada com delírio,
senão pelos Hespanhoes ao menos pelos nacionaes, bastando

(1) "Acaso miras políticas rnfluyeron á que 1 a Infanta no lo


ateaudiera, n i hiciera aprecio de ei" (Auto-biogr. no Appendice do
Tomo I da ob. cit. de Mitre). Pueyrredon partiu de Buenos Ayres
para o Rio, "afim de se por aos pés da Princeza Carlota", a 13 de
Agosto de 1809 a bordo do bergantiim Narciso, de propriedade de F.
Contuoci, (Carta do mesmo a Linhares, no Arch. do Min. das Rei.
Ext.) A 4 de Novembro do mesmo anno annunciava o fértil Contuioci
a partida de D. José Maria Campos "para instruir a S. A. R. la P.
N. S de estos acaecimiientos."
(2) Carta para Buenos Ayres de 4 de Outubro de 1808, publi-
cada por Mitre entre os documentos que formam o Appendice do
Tomo I da Vida de Belgrano. Segundo refere Contuoci n'uma das suas
cartas conservadas no Archivo do Ministério das Relaçõe-s Exteriores
do Rio de Janeiro (Papeis avulsos), D. Saturnino Rodriguez Pena
estava recebendo do Príncipe Regente uma pensão de 500 pesos an-
nuaes, circumstzncia que de algum modo contribuiria para as suas
disposições enthusiasticas.
1
DOM JOÃO VI NO BRAZIL 299

o clero para a apregoar pelas ruas e praças como a legítima


successora do irmão captivo ( i ) , e n'ella se encarnando as
incipientes aspirações separatistas.
O destino assim o não quiz, e pouco provável seria a
sua permanência no poder, quando mesmo o tivesse empol-
gado. Belgrano em todo caso t r a b a l h o u por ella c o m o i n -
teiro ardor da sua natureza expansiva e chegou a p r o c u r a r
conquistar para o r o l dos partidários da Princeza Liniers, a
esse tempo ameaçado de substituição de ordem e por auctori-
dade da J u n t a C e n t r a l de Sevilha, onde i n t r i g a r a m seus
inimigos, despeitados com o fracasso do m o t i m hespanhol de
I- de Janeiro de 1809, suffocado pelo vice-rei graças ao
concurso efficaz do regimento de patrícios ao mando de
D. C o r n e l i o Saavedra.
L i n i e r s é que não acquiesceu em permanecer illegal-
mente no poder, encabeçando a resistência nacional contra
o novo vice-rei Cisneros, despachado de Sevilha, e entrando
na combinação de emancipação f i g u r a d a pela Princeza do
B r a z i l , cuja causa estava sendo advogada c o m êxito e se
reanimara, apoz uns mezes de desanimo, pelos esforços do
seu emissário e favorito D. Felipe Contucci ( 2 ) .
O movimento, patrocinado m u i t o embora pelos chefes
militares locaes, indignados contra a J u n t a C e n t r a l da me-

ti) Depoimento de D. Comelio Saavedra, publicado no refe-


r i d o Apip. do T o m o I d a Vida de Belgrano. C o n c o r d a m ' d e resto m u i t o s
testemunhos. C o n t u c c i escrevia a L i n h a r e s a 18 de Setembro de 1809 :
"•Muito, Senhor Conde, he o p a r t i d o que t e m a q u i a Semhora Princeza,
já não h a pessoa que desconheça os seus d i r e i t o s , e a não d e s e j e ;
menos o G o v e r n o e os seus Sectários, os quaes só q u e r e m seguir a sorte
da Metrópole, e assalta o d e s c a r a d a m e n t e a todos >que defendem esta
j u s t a causa. H e preciso, Exmo. Senhor, cautela." ( A r c h . do M i n . das
Rei. E x t . do B r a z i l ) .
( 2 ) M i t r e , ob. cit. F o r m i g a v a m aliás emissários e confidentes,
n'uma g r a n d e azafama. C o n t u c c i e r a u n i d'esses m u i t o s a v e n t u r e i r o s
que se c o s t u m a v a então e m p r e g a r como agentes clandestinos e que não
r a r o se t o r n a v a m f a c t o r e s consideráveis das negociações diplomáticas
300 DOM JOÃO V I NO BRAZIL

tropole, que se mostrara parcial aos rebeldes hespanhoes de


i de Janeiro, não logrou assentar. O conhecimento que
9

d'elle se espalhou, porventura por delação, provocou reacção


official da parte das auctoridades ainda constituídas e, não
podendo ir a Princeza pessoalmente reaccender as coragens e
impedir as defecções, a marcha da libertação na sua tra-
jectoria fatal encaminhou-se para a solução democrática.
Entre os meios a que recorreram para vulgarizar sua
idéa os propagandistas da candidatura da Infanta Dona
Carlota, contava-se um fantasiado dilogo entre um Caste-
lhano da gemma e um Hispano-americano, no qual se pas-
sava revista ás differentes hypotheses do destino futuro do
vice-reinado platino, ou melhor das possessões hespanholas
no Novo Mundo. Arredava-se por antipatriotica a hypo-
these da sujeição á dynastia napoleonica. Criticava-se amar-
gamente a da republica nos seguintes dizeres: "Nos faltan
Ias bases principales en que ha de cimentar-se, como U . no
ignora, quales son los conocimientos, y Ias riquezas reales,
y verdaderas; de aqui naceria la división constante entre
Europeos y Americanos, y la ambicion dei mando, despues
de una guerra civil la mas sanguinária, y cruel nos pondria
en estado de ser subjugados, o por quien tiene legítimos de-

e dos resultados obtidos. Atraiçoan-do facilmente a parte que os em-


pregava, por vezes mesmo servindo com zelo as duas partes contra-
rias, olhavam sobretudo para o seu interesse pessoal. Esse Contucci,
por exemplo, meio espião, meio m i l i t a r , um condoittiere anachronico
mas com toda a immoral.idade de um c o n t e m p o r â n e o do Renascimento,
recebia i n s t r u c ç õ e s de Dona Carlota e carteava-se com Presas, ao
mesmo tempo ,que se correspondia a calda momento com o conde de L i -
nhares, -cujas vistas platinas, irmanadas embora na apparencia, diver-
giam no p r o p ó s i t o das de sua Ama. Algumas das cartas remettidas
â Princeza iam abertas para que Linhares d ellas tomasse conheci-
,

mento, feohando-as antes de as entregar conforme r e c o m m e n d a ç ã o de


Contucci, a f i m de Dona Carlota continuar na i g n o r â n c i a de que a
sua c o r r e s p o n d ê n c i a transitava d'aquella f o r m a pela Secretaria
(T/Estado.
BOM JOÃO VI NO BRAZIL 301

rcchos á l a Representacion de l a Soberania, o por quien


viendra con el t i t u l o de patrocinamos." Desdenhava-se a
continuação da auctoridade dos vice-reis: " P o r l o que res-
peta a que el Gefe actual continue gobernando hasta l a
buelta de Fernando 7 es pensamiento que solo puede tener
fi

lugar en cabezas m u i vacias: bastará que consideren que el


Vassallo quedaria sin recursos para l a prosecucion de sus
Derechos, y que ademas l a Soberania no puede existir en sus
manos, en un caso en que se deve contemplar que Ias auto-
ridades caducan, y que solo pueden sostenerse por quien re-
presenta a l a nacion en fuerza de su institucion, y leyes."
Restava a única hypothese possível: " L o único que
puede hacernos felices es reconocer a l a I n f a n t a D. C a r l o t a
Joaquina de Borbon, por Regenta de estos Domínios... ha-
ciendo reviver en estos domínios l a Espana con su constitu-
cion y leyes, esto es, seguiendo l a M o n a r q u i a espanola baxo
el gobierno representativo que le constituye con arreglo a
los fundamentos primordíales de Castílla." E interrogando o
Castelhano se não surgiria com t a l solução o perigo de fica-
rem sendo Portuguezes os Hespanhoes das colônias, respon-
dia promptamente o Americano: " M a l podemos ser P o r t u -
gueses, si l a Espana revive en todos sentidos, y si nosotros
guardamos los fueros y privilégios de nuestra nacion, y asi
como los Castellanos no fueron Aragoneses, ní estos Castel-
lanos, porque l a Reyna de Castílla Isabel, casó com el Rey
de Aragón Fernando, asi tampoco nosotros seremos Portu-
guezes porque nuestra I n f a n t a está casada con el Príncipe
Regente de P o r t u g a l , y B r a s i l : supongo que bien clara-
mente l o expuso en su manifiesto, que apoyó el mismo P. Re-
gente."
302 DOM JOÃO VI NO BRAZIL

Ainda o Castelhano formulava uma ultima obje-


cção ao governo de D o n a Carlota, provocada pelo facto i n -
questionável de intrigarem os Inglezes pela independência
das colônias hespanholas, e portanto virtualmente pela solu-
ção democrática: "Verdad es, y estoi persuadido de lo mismo;
pero acaso los Ingleses se opondran" — a o que o seu inter-
locutor replicava com vivacidade "que es u n temor vano, i
injurioso á l a I n g l a t e r r a ; esta se ha sacrificado por nosotros
y por nuestra Dinastia, y no seria regular, antes es opuesto
a toda razon el que veniese a batallar en America en contra
de aquellos que protegio en Europa: si adoptasemos quales-
quiera otro partido, que no sea este entonces si, que seria en
el campo con nosotros, y sufririamos todo el peso de una con-
quista, despues de haber hollado Ias más sagradas obliga-
00068". ( i )
O dialogo em questão encerra uma allusão histórica
que exprime fielmente o fundo do pensamento do conde de
Linhares n'estes assumptos platinos e offerece a razão da sua
concordância com o projecto ambicioso de D o n a Carlota
Joaquina, emquanto lhe pareceu viável: é o simile de Fer-
nando e Izabel. Aragonezes e Castelhanos conservaram-se na
verdade distanciados, no goso da sua autonomia respectiva
durante a união conjugai e administrativa dos seus dous so-
beranos, mas para se approximarem e f u n d i r e m sob a sua
descendência. Carlos V já foi o monarcha da Hespanha una
e indivisa: assim, na visão de D o m João de Bragança, o seu
f i l h o ou neto poderia v i r a ser o Imperador da America
unificada pela reunião das possessões das duas metrópoles
peninsulares, graças aos esforços de u m estadista de gênio,

(1) Este dialogo f o i remettido em manuscripto á Princeza do


B r a z i l pelo seu agente Contucci, e encontra-se entre os Papeis avulsos
do Arch. do M i n . das Rei. E x t .
DOM JOÃO VI NO BRAZIL 3U3

m a i o r do que R i c h e l i e u , pois que a sua acção se extendería


a c o n t i n e n t e e meio.

Nem seria p a r a t a n t o preciso f a z e r r e s u r g i r e m as tene-


brosas i n t r i g a s de F e r n a n d o de Aragão c o n t r a a f i l h a amea-
çada de demência. A o r d e m n a t u r a l dos acontecimentos de-
t e r m i n a r i a f a t a l m e n t e o r e s u l t a d o anticipado, "pues que a l
f i n l a empreza — c o n f o r m e se expressava C o n t u c c i ( i ) —
tiene p o r o b j e c t o a d o r n a r con Ias quinas los Leones y Cas-
tillos y d a r a l suelo americano el g r a d o de f e l i c i d a d de que
es capaz l a prudência humana". H a v i a apenas a differença,
esta porém c a p i t a l , de que c o m a fusão de Aragão e C a s t e l l a
lucravam estes dous pequenos e populosos reinos europeus,
que assim s e n t i a m extendidos os seus domínios exíguos e os
seus recursos modestos, ao passo que encorporação da enor-
me e despovoada America- H e s p a n h o l a , c o m seus núcleos se-
parados e distínctos, n a A m e r i c a Portugueza muito mais
compacta e u n i d a , se r e a l i z a r i a , ao envez da união ibérica,
antes e m p r o v e i t o do i m p e r i a l i s m o l u z i t a n o , que p a r a seme-
l h a n t e f i m se acobertava c o m os suppostos direitos da P r i n -
ceza do B r a z i l .

O a v e n t u r e i r o que de 1808 a 1812 f o i u m dos c o n f i -


dentes políticos do conde de L i n h a r e s , sabia f a z e r s c i n t i l -
l a r o f u t u r o aos olhos fascinados do seu p a t r o n o : " N o h a i
obstáculos que vencer, ó son casi ningunos, y ello es cierta
que es d i g n a de qualesquiera sacrifícios: D e todos se v e r a
resarcída n u e s t r a N a c i o n ( 2 ) con l a i m p o r t a n t e adquisicion
de unos ricos domínios, q u i e n seguramente solo f a l t a l a m a n o
dírectora de V. E. p a r a llevarlos a su m a i o r explendor.

(1) Carta a Linhares de 2 de Junho de 1809, ibidem.


( 2 ) C o n t u c c i dizia-se p o r t u g u e z , escrevendo alternadamente
n'esite i d i o m a e e m hespanhol, p o s t o que i g u a l m e n t e m a l em ambas as
línguas.
304 DOM JOÃO VI NO BUAZIL

Talves no se ha presentado a ningun monarca una ocasion


como esta tan favorable para hacerse Seríor de unas posi-
ciones inmensas, y de unos Vassalos puestos ya en estado de
una elevaeíon sublime, y de causar un gran respeto en todas
Ias naciones dei globo, con tan poca costa y cuidados y pro-
tegiendo un acto sagrado de justicia". D e facto, pouco lhe
importava no fundo que governasse com independência a
Princeza D o n a Carlota, ou que não passasse de uma vice-
rainha cujo soberano fosse o monarcha portuguez. O essen-
cial era retirar lucros dos serviços reaes ou imaginários e
para isto o melhor caminho sempre f o i a lisonja. Proseguia,
pois, C o n t u c c i : "V. E. l o sabe y no me atrevo a seguir im-
portunandolo. Creame V. E. u n Portuguez amante de m i
pátria, y al mismo tiemipo de los Domínios Espaííoles y
Americanos por los lazos que me unen a ellos, y que hoy con-
templo que no son con los dei Brasil sino u n mismo Estado;
puesto que se que l a alma de este negocio es V. E..." ( i )
Desde a chegada da côrte ao B r a z i l que Contucci prodi-
galizava os seus bons conselhos a quem tinha gosto e in-
teresse em escutal-os. E' de 1808 a carta em que elle diz a
D. Rodrigo, trazendo mais achas para a fogueira: "Todos
os negócios que se apresentarem a V. E. dos governos destas
províncias (indistinctamente) nunca nos poderão fazer
conta. Elles terão apparencía de pureza, hé porém ficção,
medo, e maneiras de que usão em iguaes círcumstancias, mas
quando estas varíão, sabem sem vergonha e sem respeito
faltar aos seus mais sagrados deveres. V. E. não o duvida,
eu vivo aqui ha 7 annos... V. E. conseguirá o que quizer
destes paizes, se manda com Império." ( 2 )

(1) Carta datada de Buenos Ayres aos 16 de Junho de 1809,


nos Papeis avulsos do Arch. do Min. das Hei. E x t .
(2) Iuidem.
DOM J O Ã O V I NO B R A Z I L 305

N ã o se deu comtudo bem D. R o d r i g o c o m o systema


da intimidação, n e m as cartas de C o n t u c c i podiam jámais
t r a d u z i r sinceridade. O que t i n h a m era o talento de anda-
rem sempre afinadas pelo diapasão do destinatário, consti-
tuindo n a sua abundância e variedade o reflexo conjuncto
de todos os modos de sentir da epocha no tocante ao pro-
blema momentoso do f u t u r o da A m e r i c a Hispano-Portu-
gueza. O ladino aventureiro .não só costumava acompanhar
seus enredos de mimos, remettendo exemplares novos para
a collecção mineralogica do Príncipe Regente, perdizes para
a meza de D o n a Carlota, cestas de peras para a meza de D.
Rodrigo, como sabia tocar em cada espírito a corda mais vibra-
til, protestando constantemente não querer prêmio algum
pelos seus serviços. "Trata-se de servir a Pátria, e o Sobe-
rano, e eu só exijo, o que he de absoluta necessidade, para le-
var ao f i m com felicidade u m negocio de tanta grandeza'' ( I ) .
Nos gastos indispensáveis teria elle de certo o cuidado de i n -
cluir a sua propina, e a todos entoaria a mesma canção com
as variantes precisas para a tornar perfeitamente adequada.
Contucci estava em contacto e em correspondência com
todos os interessados no negocio, cujos fios era elle o uníco
a ter por completo nas mãos. Lel-o é ler a historia i n t i m a
d'esse momento histórico pelo que diz respeito á candidatura,
objecto das intrigas em acção. A Belgrano, partidário então
decidido da Princeza, escrevia elle ( 2 ) , para o animar, n u m
tom dithyrambico, assegurando-lhe, e aos demais amigos,
que "brebemente gosarán Ustedes de aquella felicidad, por
cuyo logro han echo t a n senalados sacrifícios; y yo desde
ahora doy a Ustedes l a enhora buena por l a f o r t u n a que se

(1) Carta de 19 de Junho de 1810, ibidem.


(2) Carta de 13 de Março de 1810, ibidem.
DOM JOÃO VI NO BRAZIL

ha t e n i d o en u n asunto t a n g r a v e como este, e que U s t e d ha


sabido m a n e j a r c o n t a n t a descricion y honor, asi como Ias gra-
das p o r haberen r e p a r t i d o c o n m i g o de l a i m m o r t a l gloria
que se h a n a d q u e r i d o en ser los p r i m e i r o s que en este nuebo
emisferio h a n r e n d i d o el debido h o m e n a j e a l a L e g i t i m a A u -
t o r i d a d , que l a P r o v i d e n c i a h a t e n i d o a bien g u a r d a r para
g o b e r n a r sugetos t a n respetables p o r sus talentos y a m a b i l i d a d
como l o son Ustedes".
T ã o d u c t i l devia ser o seu espirito i t a l i a n o , que entre-
t i n h a C o n t u c c i relações c o m o próprio L i n i e r s , que elle sa-
bia p e r f e i t a m e n t e ser h o s t i l a D o n a C a r l o t a , a q u e m buscaria
a t t r a h i r á justa causa e sobre q u e m escrevia a L i n h a r e s :
(i)."El Virey ha j u r a d o g r i t a n d o , que h a r i a d e g o l l a r
em médio de l a p l a z a a l p r i m e r o que ablase de esa Seno-
r i t a , (S. A. R. l a Princesa N . S.) T i e n e sus espias, que pre-
d i c a n en f a b o r d e i m a i o p l a n de G o b i e r n o , en q u e hablé a
V. E. los dias pasados; mas creo que n a d a conceguirá, porque
el p a r t i d o p o r N . A. R. l a P r i n c e z a N . S. es grande, e en-
t r a n en e l Ias personas mas i l u s t r a d a s de estos Reinos".
P a r a bem a v a l i a r a importância de todas estas múlti-
plas i n t r i g a s , concertadas umas e o u t r a s desconchavadas, é
m i s t e r conservar sempre em m e n t e o que c o n c o r d a m em
observar os d i f f e r e n t e s h i s t o r i a d o r e s que s u p e r i o r m e n t e se
o c c u p a r a m de semelhante phase da gestação sociológica da
n a c i o n a l i d a d e a r g e n t i n a : a saber, que a idéa da independên-
cia não s u r g i o i m m e d i a t a m e n t e n e m do episódio quasi r o -
mântico da r e c o n q u i s t a de Buenos-Ayres, occupada pelas t r o -
pas inglezas do G e n e r a l W h i t e l o c k e , n e m mesmo dos p r i -
m e i r o s c o n f l i c t o s e n t r e E u r o p e u s e Creoulos, e n t r e partidá-
rios e x t r e m a d o s de F e r n a n d o V I I e amigos da J u n t a de

(1) Carta de 4 de Novembro de 1809, ibiãem


DOM JOÃO VI NO BRAZIL 307

governo nacional, pois que as juntas locaes, productos da fer-


mentação popular, se tinham ido extendendo ao ultramar.
E' de ver que a principio os lances da epopéa se desen-
rolaram ás escuras, longe e m u i t o na ignorância do que
realmente se estava passando na Península, lembrando a
Paul Groussac, pelo cahir cego e inconsciente da pancadaria,
a aventura de D. Q u i x o t e e Sancho Pança na venda, quando
" a l ventero se le apago el candil". O que entretanto já exis-
t i a — e com isto não contava Napoleão, quando por uns mo-
mentos dispensou sua attenção ao R i o da Prata, mandando
Sassenay a seduzir L i n i e r s ; nem contava D. Rodrigo de
Souza Coutinho quando, por j u l g a r fora de duvida a com-
pleta sujeição da monarchia hespanhola á França, remetteu
ao Cabildo de Buenos Ayres a sua carta comminatoria de
submissão; nem contava a Princeza do B r a z i l quando pre-
tendeu impor-se á lealdade dynastica das populações hispano-
americanas—era u m vigoroso sentimento de altaneria e pun-
donor entre essas nações em embryão. Ameaças não surtiam
facilmente effeito com ellas, muito pelo contrario; tanto
que além da resposta i r r i t a d a logo dirigida pelo Cabildo a
D. Rodrigo, se pensou então em Buenos-Ayres n u m a invasão
do R i o Grande por forças de Montevidéo, como retalia-
ção da a f f r o n t a recebida, ( i )
F o i mesmo em virtude de attitude semelhante, com que
foi colhido de surpreza, não a esperando em vista da limita-
ção de recursos da colônia e das difficuldades extremas por
que estava atravessando a Hespanha, que D. Rodrigo tran-
sitou para caminho menos directo e se decidio a coadjuvar a

(1) P. Groussaic, Biografia de Santiago Liniers, Tomo III dos


•Anales de la Biblioteca, Publicacion de docnmientos relativos aí Rio
de la Plata. Buenos Ayres, 1904.
DOM J O Ã O V I NO BRAZIL

Princeza D o n a Carlota. Procurou em todo caso o ministro


portuguez meios sinuosos de fazer vingar os apregoados d i -
reitos de sua Ama, com os quaes lhe convinha especular, re-
servando para melhor opportunidade o proseguir no seu
verdadeiro projecto, que era o de uma annexação pura e sim-
ples. Assim encarou o gabinete do R i o a idéa de i r ao R i o da
Prata, em vez de D o n a Carlota, o I n f a n t e D o m Pedro Car-
los, munido dos plenos poderes de sua tia para o f i m de alli
estabelecer uma regência, evitando d'este modo o movimento
revolucionário que se dizia e de facto se achava imrni-
nente. (i).
Sir Sidney Smith, m u i t o mais sincero do que Linhares
em todo este negocio, porquanto o instigava de preferencia
a preoccupação dos interesses pessoaes da Princeza do B r a z i l ,
foi quem nunca cessou de i n f l u i r para a presença da própria
D o n a Carlota no R i o da Prata, na certeza de que somente
por esta forma se lograria aproveitar para t a l f i m dynastico a
separação que se ensaiava n'aquella colônia, ainda sob color
de manter a união com o R e i legitimo. E m Buenos-Ayres
entrou a breve trecho a funccionar uma Junta, consentida
pelo vice-rei Cisneros e que se acobertava com o nome do
monarcha desthronado, exactamente como a que em Monte-
vidéo organizara o governador D. Javier E l i o a f i m de se
subtrahir á supremacia moribunda dos vice-reis e l i v r a r a
sua praça do delírio da rebellião.
D o n a C a r l o t a comprehendeu sem esforço que a conse-
qüência mais do que provável da formação da J u n t a de
Buenos Ayres, dada a sua attitude, seria a independência pla-

(1) Communâcação de D Rodrigo de Souza Ooutinho a Sir


Sidney Smith em 30 de Novemlbro de 1808, mos Livros de Registro da
Secretaria dos Negócios 'Estrangeiros.
DOM JOÃO VI NO BRAZIL 309

tina, e por isso, com a annuencia desconfiada e paulatina do


Príncipe Regente e até quanto lh'o permittiam seus mingua-
dos recursos, tratou de soccorrer a praça de Montevidéo,
baluarte da legitimidade e dos seus direitos, d'esta deriva-
dos. Fel-o quer com armas, quer com um prelo e typos desta-
cados da Impressão Regia afim de se habilitarem os realis-
tas a responder com artigos de jornaes ás catilinarias dema-
gógicas editadas da outra banda do Prata, ( i )
_ Previsões de Dona Carlota muito depressa se tinham
A s

realizado. E m i S i o mesmo declarou-se Buenos Ayres inde-


pendente e deliberou invadir e sujeitar a Banda Oriental,
fazendo com talar seus campos, surgir a figura sanguinária
do caudilho patriota Artigas, a um tempo sublevado contra
a Junta de Buenos Ayres e contra os commandantes da
praça leal. A situação transformou-se então por completo
num verdadeiro embroglio. O Príncipe Regente, no seu de-
sejo de mostrar então acceder sempre aos«conselhos britannicos,
promettera a lord Strangford não mais intrometter-se nos
negócios do Rio da Prata, deixando assim de por uma forma
indirecta instigar a rebellião nacionalista com alimentar as
dissenções locaes. A ' socapa, porém, ia sustentando os mane-
jos da consorte e fazendo causa commum com ella, acabando
até por destacar do Rio Grande do Sul, em soecorro de M o n -
tevidéo, a principio tropas auxiliares e por f i m o próprio go-
vernador D . Diogo de Souza (depois Conde do Rio Pardo)
á testa das forças disponíveis.

(l)iEscreven'do a Contuicci a 12 de Setembro de 1810, referia


o Secretario Presas âcenca da remessa do prelo e typos: "Ya havia
visto vencido el dmposible de la imiprenta la que logra de maestro
amigo el Exm. Snr. Conde Linhares mediante todo el .poderoso em-
peiío de mi Ama y Snra. quien la pidio al Príncipe de un modo que
no se la pndo negar." E ajumtava cynicamente o philosopbo: "Todo
peno de mi Ama Shra. quien la pidio al Príncipe de un modo que
Rei. Ext.)
D. J. — 20
310 DOM JOÃO VT NO RRAZTL

Dona Carlota tudo ensaiou ao seu alcance para combater


a tentativa dos de Buenos A y r e s contra a cidade f i e l . Con-
venceu negociantes do R i o da excellencia da especulação de
m a n d a r e m gêneros alimentícios para abastecimento da praça
ameaçada e já quasi sitiada e, como I z a b e l a Catholica, man-
dou vender e r i f a r as jóias para applicar o producto ás des--
pezas da guerra. O essencial da defeza residia comtudo no
auxilio m i l i t a r portuguez.
N a idéa occulta de D o m João, a Princeza, e seus direitos,
e os interesses da dynastia hespanhola, deviam todavia ser-
v i r de mero disfarce desfructando elle ao cabo o ganho certo
>

da sua energia no i n t e r v i r ; si mais não fosse, c o m espantar o


espectro da republica que teimava em perseguil-o quando
elle pensava ter posto o oceano de permeio entre o seu solio
e essa sombra inquietadora. T a m b é m a Princeza, reque-
rendo do m a r i d o por intermédio de Linhares u m a demonstra-
ção positiva de soccorro, agia tão somente no sentido da sua
conveniência, ainda que affectando mover-se em proveito da
Hespanha e dos irmãos.
C o m que armas poderia aliás contar, a sôfrega D o n a
C a r l o t a , senão c o m as da duplicidade, desprovida de amizades
sólidas, n u m meio quasi todo hostil, tendo até tido o dissa-
bor de ver b a r r a f o r a o seu f i e l sir Sidney, a quem, em
M a r ç o de 1812, f o i mandado fazer companhia o confidente
Presas, expulso também p o r exigências de l o r d S t r a n g f o r d ,
que l o b r i g o u no i n t r i g a n t e secretario u m i n i m i g o do seu
governo ? C o m effeito, si fora, nos domínios sobre que pre-
tendia exercer jurisdicção, v i a D o n a C a r l o t a a sua candida-
t u r a de cor t r a d i c i o n a l acolhida sem f a v o r unanime, nem
mesmo geral, havendo alguns addictos no apoial-a mas muitos
DOM JOÃO VI NO BRAZIL 311

apostados e m c o n t r a r i a l - a , d e n t r o da sua côrte m e s m o contava


a a r d e n t e P r i n c e z a não poucos i n i m i g o s e adversários r e s o l u -
tos, i m p e l l i d o s u n s p o r despeitos pessoaes e o u t r o s p o r p r e -
occupações patrióticas.
D. R o d r i g o de S o u z a C o u t i n h o , p o r e x e m p l o , n u n c a
p o d e r i a f a v o r e c e r sem r e s e r v a taes planos, q u a n d o ao q u e
r e a l m e n t e v i s a v a e r a a aproveitar-se das d i f f i c u l d a d e s e m q u e
se d e b a t i a a m o n a r c h i a h e s p a n h o l a a f i m de a r r e d o n d a r o i m -
pério p o r t u g u e z p e l o m e n o s c o m a b a n d a s e p t e n t r i o n a l d o
P r a t a , p a r a isto c o n v i n d o - l h e , á s o m b r a dos d i r e i t o s de
D o n a C a r l o t a , a n i m a r e f o m e n t a r a s i z a n i a existente n o vice-
r e i n a d o de B u e n o s A y r e s desde o episódio da c u r t a occupação
i n g l e z a , e especialmente desde a subversão d y n a s t i c a e m
M a d r i d . E D o n a C a r l o t a t i n h a p e r f e i t a consciência de quão
pouco seguro a l l i a d o e r a D. R o d r i g o .
N a conversação,- o c c o r r i d a n o R i o , c o m o conde de L i -
niers, irmão de S a n t i a g o — o q u a l , t e n d o e m i g r a d o d i s f a r -
çado p o r v i a de L i s b o a , f o i r e c o n h e c i d o e d e t i d o n a c a p i t a l
b r a z i l e i r a , c o m o m e i o d a côrte p o r t u g u e z a e n t r a r e m m e l h o r
i n t e l l i g e n c i a c o m o vice-rei, c u j a proclamação fôra j u l g a d a
a l a r m a n t e p o r i r r e c o n c i l i a v e l — o m i n i s t r o do Príncipe Re-
gente n e m a m a i s l e v e r e f e r e n c i a f e z á c a n d i d a t u r a d a P r i n -
ceza, então e m p l e n a a c t i v i d a d e . E n t r e t a n t o o conde de L i -
niers r e f e r i o verbatim p a r a B u e n o s A y r e s a sua c u r i o s a entre-
vista, ( i )
L i n h a r e s desmanchou-se e m promessas e ameaças. Res-
p o n d e u f r a n c a m e n t e o c o n d e de L i n i e r s q u e o irmão estava
apenas disposto a m a n t e r c o m o g o v e r n o do R i o as m e l h o r e s
relações, p r o t e g e n d o o c o m m e r c i o p o r t u g u e z n o R i o da
P r a t a e b e m assim as pessoas e p r o p r i e d a d e s dos P o r t u g u e -

(1) B r i t i s h Museum, Cod. cit.


312 DOM JOÃO V I NO BRAZIL

zes, mas repellindo qualquer preterição a mudança de domí-


nio. N ã o mais existir a Hespanha, como declarara D. Ro-
drigo, parecia-lhe u m a a r r o j a d a metaphora política, e para
oppor ás forças combinadas de P o r t u g a l e I n g l a t e r r a , de que
D. R o d r i g o fazia alarde, possuía a colônia recursos suffi-
cientes.
N ã o q u i z de resto o Francez ficar atraz n a jactaneia.
Aos Paulistas afamados, manifestou elle, não seriam segura-
mente inferiores n a certeza da p o n t a r i a os caçadores de
onças e contrabandistas platinos, dispondo Buenos Ayres,
além d'esse valioso elemento i r r e g u l a r e da sua infantaria,
artilheria e cavallaria pesada e ligeira, da importantissima
contribuição de guerreiros indígenas offerecida pelos caci-
ques dos pampas, c o m u m contingente montado, excellente
para i m p o r t u n a r o i n i m i g o e prival-o de abastecimentos, sob
pena de serem alcançados e aprisionados seus destacamentos
forrageadores. ( i )
O conde de L i n i e r s indica L i n h a r e s como aferrado á
sua idéa, apezar dos esforços que empregara para d'ella o
dissuadir, fazendo-lhe sentir os perigos de u m a lucta armada
e, mesmo no caso de ser a solução favorável á bandeira por-
tugueza, a f r o n t e i r a assolada, as populações annexadas re-
beldes ao j u g o , as cem difficuldades a compor. N e m sempre,
porém, o m i n i s t r o do Príncipe Regente fallava n o mesmo
t o m arrogante. P u n h a antes o seu m o t i v o de accordo com as
circumstancias que l h e dictavam u m proceder necessaria-
mente dúbio, o r a parecendo auxiliar zelosamente a Princeza
quando de facto a ludibriava, o r a disfarçando suas intenções
hostis sob palavras de paz. P o r isso f o r m a l m e n t e o mere-

c i ) British Museum, Co€. cit.


DOM JOÃO V I NO BRAZIL 313

pava o vice-rei L i n i e r s n u m a c a r t a m u i t o d i g n a d i r i g i d a a
D o n a C a r l o t a , patenteando a deslealdade da missão do mare-
chal C u r a d o — m a i s espião do que negociador, reza o do-

c u m e n t o ( i ) — p a r a a q u a l se t i n h a m invocado falsamente
desígnios commerciaes.
Na sua correspondência o f f i c i a l para Hespanha ( 2 )
explicava Santiago L i n i e r s que recebera o enviado portu-
guez porque do c o n t r a r i o se e x p u n h a a u m i n s u l t o publico,
q u a n d o i n f e l i z m e n t e carecia de t e m p o p a r a o r g a n i z a r u m
p l a n o defensivo do vice-reinado. O d i n h e i r o espalhado em
Montevidéo pelo emissário r e f e r i d o a j u d a r a t o d a v i a a sub-
levação l o c a l contra a sua a u c t o r i d a d e , escrupulosamente
leal á J u n t a que estava representando l e g a l e e f f e c t i v a m e n t e
o poder do soberano seqüestrado; e t a n t o c o n v i n h a á côrte
do R i o de J a n e i r o f o m e n t a r a divisão p l a t i n a , que p o r esse
tempo a l l i se t r a t a v a de o b r i g a r o g e n e r a l D. Pascual Ruiz
H u i d o h r o a regressar p a r a a E u r o p a a f i m de não assumir o
seu g o v e r n o de Montevidéo e assim a n n u l l a r a separação
provocada p o r E l i o .
A missão R i v e r a , em que o vice-rei assentara, a q u a l i f i -
cava elle e n t r e t a n t o de pacifica, destinada a t o r n a r saliente
a differença da missão C u r a d o e d a o b r a pérfida de L i n h a r e s ,
chamando p a r a a sua confrontação a attenção da justiça do
Príncipe Regente, e m q u a n t o g a n h a v a tempo p a r a i r t o m a n d o
as medidas adequadas á defeza da extensa f r o n t e i r a p l a t i n a
e mesmo m o v e r u m g e r a l ataque c o n t r a a f r o n t e i r a b r a z i -
l e i r a ; o u então, n o caso de invasão, crear u m a diversão
cahindo sobre o R i o G r a n d e do Sul. E' certo que denotava

(1) Carta de 30 de Janeiro de 1309, publicada na revista La


Biblioteca, dirigida por P a u l Groussac, Buenos Ayres, Maio de 1897,
anno I I , n. 12.
(2) Britislh Museum, Cod. cit.
314 DOM JOÃO V I NO BRAZIL

tino e previdência a collocação no R i o de Janeiro de u m re-


presentante da colônia logo depois da chegada da família real,
para conhecer e possivelmente obstar ao que infallivelmente
se ia tramar contra a integridade platina.
N o exercício das suas prerogativas de vice-rei, o man-
dava L i n i e r s contra a representação f o r m a l do Cabildo de
Buenos Ayres. Esta corporação m u n i c i p a l considerara justa-
mente o acto da trasladação da côrte como ameaçador para
a preservação do domínio castelhano n o R i o da P r a t a e de-
monstrativo da i n t i m a alliança entre P o r t u g a l e I n g l a t e r r a ,
de c u j o commercio sul-americano queria o governo portu-
guez dar mostras de favonear a expansão, depois de haver
offerecido os seus bons officios para sustar possíveis hostili-
dades britannicas contra as possessões hespanholas da costa
oriental ( i ) . Bastavam, n a opinião do Cabildo, a i n i m i -
zade secular e p r o f u n d a entre a Hespanha e a G r ã Bretanha
e a cordialidade que se ostentava entre esta potência e P o r t u -
gal, para que a própria côrte de M a d r i d , si n e l l a conti-
nuassem os Bourbons, se furtasse a m a n d a r u m representante
diplomático para o B r a z i l . A verdade é que o m a r q u e z de
Casa I r u j o , p r i m e i r o m i n i s t r o hespanhol n o R i o de Ja-
neiro, só chegou ao seu posto quando a Hespanha, desilludida
com o seu breve idyllio napoleonico, se afastou da França
para se lançar nos braços da I n g l a t e r r a e, j u n t a s com Portu-

(1) Instrucções do vice-rei Liniers a D. Lázaro Rivera na


revista La Biblioteca, Agosto de 1897, anno I I , n. 15.
Pelo tratado de commercio de 1810 consentiria o< governo do
Príncipe Regente em que todos os 'portos dos dominios portuguezes
onde pudessem funccionar alfândegas, fossem portos francos para a
recepção e reexportação de todos os artigos de producção ou manu-
factura britannica. Com v i s t a no commercio do R i o da P r a t a se de-
clararia especialmente pelo artigo X X I I iporto franco o de Santa Ca-
t h a r i n a — " a f i m de f a c i l i t a r , e animar o legitimo commercio não so-
mente dos vassallos da Grande Bretanha, mas também dos de Por-
tugal, com outros Estados adjacentes aos seus próprios dominios."
DOM JOÃO VI NO BRAZIL 315

g a l , e n c e t a r e m a i n o l v i d a v e l c a m p a n h a p e n i n s u l a r que l e v o u
W e l l i n g t o n a T o l o s a e mais t a r d e p e r m i t t i o W a t e r l o o .
E r a L i n i e r s o p r i m e i r o a oppor-se c o m i n q u e b r a n t a v e l
f i r m e z a a t u d o q u a n t o fosse a l t e r a r , e m b e n e f i c i o d i r e c t o o u
i n d i r e c t o de P o r t u g a l , a o r d e m de cousas o r i u n d a das c o n d i -
ções hespanholas, p o s t o q u e p r o f u n d a m e n t e perturbadas.
N ã o é p o r t a n t o de espantar q u e fosse elle r a d i c a l m e n t e i n -
fenso e m q u a n t o g o v e r n o u , a saber, e m q u a n t o o não o b r i -
g a r a m a r e t i r a r - s e d o g o v e r n o , ás vistas egoístas d a P r i n c e z a
D o n a C a r l o t a , p o r mais q u e esta o pretendesse captar. A n t e s
de apparecer n a liça c o m o p r e t e n d e n t e s e r i a m e n t e disposta a
f a z e r v a l e r seus d i r e i t o s a f u t u r a R a i n h a de P o r t u g a l , sa-
bemos c o m q u a n t o desassombro o vice-rei de B u e n o s A y r e s ,
f o r t e m e n t e apoiado n o C a b i l d o q u e o i n s t i g a v a á r e p u l s a ,
r e j e i t a r a o o f f e r e c i m e n t o de L i n h a r e s de t o m a r P o r t u g a l
sob a sua protecção a colônia d e s a m p a r a d a e m v i s t a d a sub-
jugação d a H e s p a n h a p e l a França ( i ) , e congraçal-a c o m a
G r ã B r e t a n h a , o n d e a c o n q u i s t a d e f i n i t i v a do R i o d a P r a t a
despertara o mais v i v o e n t h u s i a s m o e a c i r r a r a os appetites de
riquezas tão p r e d o m i n a n t e s .
T a m p o u c o , não o b s t a n t e ser F r a n c e z de n a s c i m e n t o e
;

a n d a r ro deado de Francezes, a t t e n d e r a S a n t i a g o L i n i e r s ás
l

seducções d o m a r q u e z de Sassenay, m a n d a d o de B a y o n n a p o r
Napoleão e m missão ao R i o d a P r a t a , q u a n d o se d e r a m a
abdicação de C a r l o s I V e a desistência de d i r e i t o s dos seus
f i l h o s . F o i essa missão m o t i v o até p a r a o vice-rei resolver
c o m os m e m b r o s d o Ayuntamiento f a z e r p r o c e d e r sem mais

(1) Escreve o general Mitre na Historia de- Belgrano que por


essa occasião chegou L i n i e r s a pensar m u i t o a serio em i n v a d i r o
B r a z i l e r e n o v a r as proezas castelhanas de D. F e d r o Cebaílos. Já ve-
r i f i c a m o s comtudo, pelas próprias declarações o f f i c i a e s do vice-rei,
que se não a c h a v a -elle com elementos p a r a e x e c u t a r tão a u d a c i o s o
p r o j e c t o , a menos de n'elle se r e e n c a r n a r o e s p i r i t o de D. Quixote.
316 DOM JOÃO VI NO BRAZIL

demora á acclamação de Fernando V I I ( i ) , a quem Elio,


em Montevidéo, se dizia mais directamente ligado e mais
estrictamente fiel, si bem que não dispensando igualmente a
auctoridade de pendor autonomico e o poder intermediário de
uma Junta. D e resto seu fito verdadeiro, na opinião ex-
pressa de Presas, era dar L i n i e r s por i n f i e l e succeder-lhe
no governo geral do vice-reinado.
O facto é que nesse malfadado embroglio platino cada
qual procurava enganar o outro, adversário ou amigo, todos
afinal se enganando a si mesmos. N u n c a houve uma mais
completa journée des dupes. Elio, a quem as Cortes de Cadiz
elevaram afinal ao vice-reinado, dando-lhe Vigodet por suc-
cessor no governo de Montevidéo, servia-se do apoio moral
da côrte portugueza para combater a J u n t a da capital pla-
tina ao próprio tempo que, por conselho também de Casa
I r u j o , não aceitava o offerecimento, o qual já em 1810 lhe
era feito, de u m contingente de 700 homens para guarnecer
a sua praça e investir a de Buenos Ayres, temendo que o soc-
corro desse em conquista.
Linhares protestava que o Príncipe Regente se desin-
teressava das dissensões intimas do R i o da Prata, ainda que
reservando sua sympathia para qualquer combinação gover-
nativa que guardasse a fidelidade devida ao R e i d'Hespa-

(1) E' muito extraordinário que a fidelidade testemunhada por


L i n i e r s á sua pátria a d o p t i v a e ao seu R e i l e g i t i m o , desprezando c s
insinuações de Napoleão, p o r quem p r o f e s s a v a aliiâs a m a i o r admiração,
seja razão p a r a o h i s t o r i a d o r M i t r e , l e v a d o p o r exaggerados precon-
ceitos n a t i v i s t a s , o apodar de i r r e s o l u t o , f a l h o em determinação e des-
tituído da coragem d e c i s i v a que conduz aos grandes f e i t o s . O b r o u pois
m u i t o a c e r t a d a m e n t e o Sr. P a u l Grouss^c restabelecendo nos seus es-
t u d o s 'sobre L i n i e r s ( r e v i s t a La Biblioteca e Atuilcs da B i b l i o t h e c a de
B u e n o s A y r e s ) a v e r d a d e i r a f i g u r a m o r a l do heroe da Reconquista,
o q u a l p r o c e d e u em t o d a s estas emergências com r e s e r v a e l e a l d a d e
/ d i g n a s de u m p a l a d i n o f e u d a l . Os ensaios do Sr. .Groussac sobre o seu
c o m p a t r i o t a de berço p o d e r i a m ser suspeitos de n i m i a s y m p a t h i a , s i os
não c o m p r o v a s s e m t a n t o s d o c u m e n t o s annexos.
DOM JOÃO V I NO BRAZIL 317

n h a : apenas, na phrase do m i n i s t r o , " adoptará os meios q u e


j u l g a r necessários p a r a i m p e d i r que a c h a m a da g u e r r a c i -
v i l se não extenda aos seus domínios". E n t r e t a n t o a idéa f i x a
de D. R o d r i g o era a reconquista da m a r g e m septentrional-
o r i e n t a l do P r a t a , o l i m i t e n a t u r a l , c o m q u a n t o apparentasse
proteger as pretenções de D o n a C a r l o t a ao p o n t o de m a n d a r
dous emissários ao Paraguay, a conferências c o m o governa-
dor Velasco e o u t r o s altos personagens locaes, de que resul-
t a r a m a proclamação da regência da P r i n c e z a do B r a z i l .
O peor c o m t u d o , p a r a os projectos do m i n i s t r o p o r t u -
guez, f o i que não p e r d u r o u o t r i u m p h o . A s s i m como em
Buenos A y r e s as i n t r i g a s entre agentes do R e i deposto, do
R e i u s u r p a d o r e do Príncipe cobiçoso, supposto p r o t e c t o r da
I n f a n t a ambiciosa sua esposa, r e d u n d a r a m em c o m p l e t o be-
neficio dos partidários da emancipação política; em Assum-
pção a resolução dos m a g i s t r a d o s p r o d u z i o t a l decepção e
reacção t a m a n h a que o g o v e r n a d o r f o i expulso e se orga-
n i z o u u m a J u n t a de que e r a secretario o ao depois m u i f a -
moso F r a n c i a . P o r v e n t u r a se desvendou q u a l q u e r conchavo
secreto pelo q u a l a P r i n c e z a do B r a z i l , em t r o c a dos servi-
ços do m a r i d o no a j u d a l - a a obter a governança das colônias
platinas, o u então a regência hespanhola p a r a a q u a l ao
mesmo tempo se a n d a v a cabalando em C a d i z , se p r o m p t i f i -
cara a fazer-lhe concessões t e r r i t o r i a e s á custa dos vastíssi-
mos domínios americanos da coroa de Hespanha. Pelo me-
nos a f f i r m a Poinsett, agente c o m m e r c i a l dos Estados Uni-
dos em Buenos A y r e s (i), que o m o v i m e n t o favorável á
J u n t a o c c o r r i d o no P a r a g u a y e que se podia t e r como o
r e f l e x o do incêndio revolucionário do P r a t a , f o r a motivado

(1) Carta de 30 de Maio de 1811, ao ministro no Rio, Sumter,


no Departamento d'Estado de Washington.
318 DOM JOÃO VI NO BRAZIL

pcia descoberta de uma correspondência entre os Europeus


(o partido hespanhol) e a Princeza do B r a z i l , pendente
a entregar aquella província interior do vice- reinado a Por-
tugal.
D e resto o plano intimo de Linhares não se v i a n'a-
quella occasião ajudado, nem pelo estado miserável da fa-
zenda publica, que acabava de ser momentaneamente restau-
rada com u m empréstimo britannico de 600.000 libras es-
terlinas (de que existiam adiantamentos) com garantia dos
rendimentos da ilha da M a d e i r a e de parte do producto
dos monopólios dos diamantes, pau-brazil, m a r f i m e urzela,
nem pela lastimável situação naval e m i l i t a r , achando-se os
bons elementos empenhados em repellir as aggressões france-
zas, para o que era pouco o melhor dos recursos portuguezes.
Por isso aconselhava H i p p o l y t o de Londres, por meio do seu
periódico, o Príncipe Regente a organizar primeiro o go-
verno interno c i v i l brazileiro, que sem paradoxo o tornaria
militarmente muito mais poderoso, para pensar em occupar
por força das armas as colônias hespanholas que namorava
e a que se j u l g a v a com direito por parte da I n f a n t a sua
consorte, herdeira dos títulos á successão na America da dy-
nastia destituída na Europa.
O critério de H i p p o l y t o em matéria de imperialismo
seria sensato, mas carecia de afoiteza e mesmo de previsão.
O u t r a vez dava elle curso no Correio Braziliense á opinião
de que, si o governo do R i o n u t r i a tenção de extender a sua
fronteira sul até o Prata, poderia fazer concessões no norte
aos Hespanhoes, entregando-lhes os territórios além do Ama-
zonas: como si para se tornar o B r a z i l participe do estuário
platino devesse abrir m ã o do domínio da bacia amazônica,
installando os Castelhanos n'uma das margens da grande
DOM JOÃO VI NO BRAZIL 310

artéria, de c u j a occupação como r i b e i r i n h o s f o r a constante


política p o r t u g u e z a e x c l u i r os estrangeiros.

Em situação mais c r i t i c a do que L i n h a r e s , e c o m este


o B r a z i l , achava-se t o d a v i a a J u n t a de Buenos A y r e s que de
todo substituirá n o g o v e r n o os vice-reis L i n i e r s e Cisneros,
e que visava a independência sem o q u e r e r confessar aber-
tamente, p o r não dispor a i n d a dos meios de t o r n a l - a effectiva.
C o n t r a ella se c o n v e r t e r a o R i o de J a n e i r o pela força n a t u -
r a l das c i r c u m s t a n c i a s n u m foco de reacção. A J u n t a de
Buenos A y r e s não reconhecia a a u c t o r i d a d e de C a d i z : Ca-
d i z porém f i c a v a longe. D e p e r t o , da c a p i t a l b r a z i l e i r a , é
que l h e p o d i a m v i r os peores golpes. D'ahi desfechava Casa
I r u j o suas circulares, que m a n d a v a d i s t r i b u i r profusamente
pelas possessões hespanholas, fazendo n o t a r que desde m u i t o
a n d a v a m as colônias do R i o da P r a t a m i n a d a s pela divisão
e pelos partidos, c o n t a n d o n o seu seio espíritos ardentes e
inquietos, a l l u c i n a d o s p o r theorias seductoras. A o remetter
para o D e p a r t a m e n t o d'Estado estes documentos, escrevia o
m i n i s t r o S u m t e r c o m p h i l o s o p h i a que o m u n d o a n d a v a então
tão bem r e l a c i o n a d o c o m a l i n g u a g e m e o desenvolvimento
das revoluções, que sem custo se p e r s u a d i r i a que a q u e l l a
gente mais se d e i x a r i a g u i a r n a continuação pelas c i r c u m s t a n -
cias do que pelas promessas feitas.
P e r i g o m u i t o m a i o r e r a no e m t a n t o o a n n u n c i a d o soc-
corro portuguez a Montevidéo, o q u a l se a f i g u r a v a j u s t a -
mente á J u n t a de B u e n o s A y r e s a própria r u i n a , o u pelo
menos a perda d'aquella praça e da m a r g e m septentrional
do P r a t a . P a r a a t o d o o transe o e v i t a r , a p p e l l o u ella para
o g o v e r n o do Príncipe Regente e sobretudo p a r a o m i n i s t r o
britannico. A este s u g g e r i r a m os p a t r i o t a s que seria para a
Inglaterra uma política suicida repôr os recursos da Ame-
3-31 DOM JOÃO V I NO BRAZIL

rica nas mãos da Hespanha e acenar.am c o m a brilhante


perspectiva das francas relações mercantis entre as Provín-
cias do P r a t a e o Reino U n i d o , cujos promettedores interes-
ses commerciaes n'essa região andavam compromettidos pelo
bloqueio estabelecido por E l i o , o q u a l convinha tanto mais
por isso romper,
A attítude da I n g l a t e r r a f o i de facto o obstáculo ca-
pital á realização immediata das pretenções portuguezas.
Sumter i n f o r m a n u m officio que para conter Buenos Ayres
havia na f r o n t e i r a tropas bastantes ( 8 a 10.000 homens re-
zavam seus apontamentos) e que a Hespanha não estava
em condição, todo o m u n d o o sabia, de defender o seu pa-
trimônio. O governo portuguez pareceu u m instante disposto
mesmo a prestar concurso m a t e r i a l á manifestação dos sen-
timentos legalistas e unitários no C h i l e e Peru, em opposição
ás vistas separatistas e autonomicas de Buenos Ayres ( i ) ,
l i v r e depois de reclamar a paga dos serviços prestados.
L o r d S t r a n g f o r d teve ensejo de responder a varias com-
municações da Junta. A resposta de 16 de J u n h o de 1810,
na qual o m i n i s t r o louva a moderação e lealdade dynastica
testemunhadas pelos seus correspondentes mas se escusa de
coadjuvar-lhes em qualquer ponto as intenções políticas,
prevenia o espirito dos Buenarenses contra os Francezes,
alliados naturaes dos povos sublevados, e garantia as inten-
ções pacificas da côrte portugueza emquanto a colônia se
conservasse dentro da apregoada legitimidade. A l g u n s me-
zes depois, nos começos de 1811, o diplomata offerecia á
J u n t a , a f i m de se reconciliar Buenos A y r e s c o m as outras
Províncias do P r a t a e especialmente c o m Montevidéo, a

(1) Archivo do Departamento d''Estado de Washington.


DOM JOÃO VI NO BRAZIL 321

mediação da Inglaterra que, convém ter presente, estava


então i n t i m a m e n t e l i g a d a á H e s p a n h a n a l u c t a européa con-
t r a a França. O o f f e r e e i m e n t o encontrou-se porém c o m u m a
recusa, d e c l a r a n d o os p a t r i o t a s q u e o m o m e n t o lhes não pa-
recia o p p o r t u n o p a r a bons o f f i c i o s , n e m mesmo c o m relação
á ligação das possessões u l t r a m a r i n a s c o m a metrópole; em
differentes c i r c u m s t a n c i a s seriam elles acolhidos c o m satis-
facção, p o r q u e a I n g l a t e r r a e sua política i n s p i r a v a m a m a i o r
confiança.
N o f u n d o o que a J u n t a esperava c o m razão era g a n h a r
a p a r t i d a entabolada, não e n x e r g a n d o v a n t a g e m n o exercer-
se q u a l q u e r intervenção, mesmo amigável, que não tivesse
por base o reconhecimento da independência da colônia —
" m e d i d a de justiça, não de f a v o r " — mas que não chegara
ainda ao t e m p o de ser f o r m a l m e n t e manifestada. N'aquella
occasião a prudência, em g r a n d e p a r t e d i c t a d a pela falta
de u n i f o r m i d a d e de vistas e n t r e os seus membros, a q u a l se
traduziria ainda p o r dilatadas dissensões, aconselhava á
J u n t a a f i d e l i d a d e apparente a F e r n a n d o V I I , posto que se
accrescentando desde l o g o u m a s y m p t o m a t i c a declaração de
que as Províncias do P r a t a desejavam " d i r i g i r p o r si os seus
negócios sem mais passarem pelo risco de expor os seus
meios á rapacidade de m ã o s infiéis, como e r a m as dos ad-
m i n i s t r a d o r e s hespanhoes." N a c a r t a a L i n h a r e s de 16 de
M a i o de 1 8 1 1 ( 1 ) d i z i a mais a J u n t a que j u l g a r a necessá-
r i o convocar os representantes do povo, p a r a d i s c u t i r e m as
questões levantadas e s e g u r a r e m os interesses da nação, e
que sem o consentimento de semelhante congresso, prema-
t u r o seria i n i c i a r q u a l q u e r negociação c o m a Hespanha.

(1) P u b l i c a d a n o Correio Braziliense, v o l . V I I . T a m b é m se en-


c o n t r a m n'este perloldi'co as duas respostas mencionadas de l o r d
Strangiford e o u t r o s d o c u m e n t o s annexos.
DOM JOÃO VI NO BRAZIL

A intervenção armada de Portugal deu-se p o r f i m


q u a n d o menos se p o d i a l o g i c a m e n t e esperar pois que, pelo
mesmo o f f i c i o de 6 de J u n h o de 1 8 1 1 que a prescrevia a
D. D i o g o de Souza, capitão g e n e r a l do R i o G r a n d e do S u l ,
m a n d o u a i n d a o g o v e r n o do R i o á J u n t a de Buenos A y r e s
u m o f f e r e e i m e n t o de mediação. N e m e r a o p r i m e i r o no dizer
de M i t r e : q u a n d o começou a insurreição nos campos do
U r u g u a y c o n t r a os Hespanhoes de Montevidéo, D. Diogo
de Souza, o q u a l estava á testa das forças de observação col-
locadas na fronteira portugueza, o f f e r e c e u a B e l g r a n o sua
mediação p a r a u m a r r a n j o pacifico.
B e l g r a n o n a occasião c o m m a n d a v a as tropas nacionaes,
mais p r o p r i a m e n t e se d e v e r i a d i z e r buenarenses, apoz sua
i n f e l i z c a m p a n h a do P a r a g u a y , mas l o g o f o i destituído do
commando militar e do cargo de v o g a i da J u n t a governa-
t i v a pela revolução conservadora, r e a l i z a d a em beneficio de
D. C o r n e l i o de Saavedra a 5 e 6 de A b r i l de 1811. Accei-
t a r a elle c o m t u d o a proposta de mediação sem a nada se
c o m p r o m e t t e r de d e f i n i t i v o , e c o n t i n u a r a entrementes acti-
v a n d o as operações m i l i t a r e s c o n t r a a praça de Montevidéo
que a côrte do R i o se dispoz p o r f i m a soecorrer positiva-
mente.

Dona C a r l o t a , segundo em pessoa o asseverava em


c a r t a sua a E l i o , f o i q u e m r e c l a m o u insistentemente e acabou
p o r obter esta solução v i o l e n t a , a q u a l j u l g a v a , em t a l ponto
c o m e x t r e m a candidez, dever r e s u l t a r v a n t a j o s a ás suas pre-
tenções ameaçadas pelas velleidades de separação d o , R i o da
P r a t a da f i d e l i d a d e t r a d i c i o n a l á m o n a r c h i a hespanhola. A
Princeza estava porém destinada a ser a v i c t i m a p r i n c i p a l
da c o m p l e x a mystificação em a n d a m e n t o , visto que seme-
DOM JOÃO VI NO BRAZIL 323

lhante intervenção se destinava a ser tão somente exercida


em beneficio de Portugal.
Com toda sua bonhomia, não deixou o Príncipe Re-
gente passar esta magnífica occasião de ludibriar a esposa
enganosa. E si assim não era, porque se mandavam as tropas
portuguezas tomar posse de Montevidéo, que seguia o par-
tido da Hespanha, e não de Buenos Ayres, que jogava com a
hypothese da emancipação, e porque se limitava o ataque
ao território de aquém Uruguay, quando os títulos da I n -
fanta eram tão validos á margem septentrional como á mar-
gem meridional do Prata ? M a n d a n d o portanto, em nome
do Príncipe Regente e apezar de todas as solemnes promes-
sas de neutralidade, salvar "com os golpes mais decisivos" a
praça sitiada pelos insurgentes e pacificar á força o t e r r i -
tório "desta banda do Uruguay", Linhares, m u i t o embora
protestando uma vez mais não querer encorporar P o r t u g a l
território algum, tinhà desmascarado suas baterias. Dona
Carlota podia desde logo haver rezado orequiem pelas suas
ambições a Rainha ou Regente por direito próprio.
O pedido de soccorro fora aliás ao cabo formulado por
Elio porquanto no próprio Uruguay, isto é, aquém do rio,
começara a lavrar com intensidade a sublevação protegida
pela J u n t a de Buenos Ayres, surgindo em plena l u z no seu
papel de devastador e de patriota o legendário Artigas. O
auxilio prestado, mercê do appello dirigido, concedia-se —
declarava-o Linhares na sua carta á J u n t a de 30 de M a i o
de 1811 — p o r q u e se o devia a u m alliado de P o r t u g a l como
era S. M. Catholica, mas melhor seria, e elle offerecia sin-
ceramente este bom conselho, fazerem as colônias as pazes
entre si e abrirem negociações com a Hespanha, represen-
tada pelos seus órgãos nacionaes: a coroa portugueza nada
324 DOM JOÃO VI NO BRAZIL

mais a l m e j a v a do que v e r cessar os m o v i m e n t o s anarchicos


da f r o n t e i r a . P a r a t a l f i m e c o m t a l esperança é que offere-
cia o g o v e r n o do R i o sua mediação, apoiada nas tropas ex-
pedicionárias.
O vice-reinado p l a t i n o f i c a r i a n o e m t a n t o , dada a pa-
cificação de h a r m o n i a c o m as vistas p o r t u g u e z a s , i n t e r i n a -
mente fraccionado, portanto enfraquecido, governando G
U r u g u a y o vice-rei, de nome, E l i o , o P a r a g u a y o g o v e r n a d o r
Velasco ( s i lh'o p e r m i t t i s s e a J u n t a l o c a l ) , e o resto das
Províncias do P r a t a a J u n t a de Buenos A y r e s , a q u a l para
resolver sobre o f u t u r o , d i z i a carecer de escutar a delibera-
ção dos representantes convocados. Debaixo d'esta condição,
envolvendo a divisão das jurisdícções n'essa vasta região e
tornando assim mais fácil p a r a P o r t u g a l a acquisíção da
preza cobiçada, as forças do R i o G r a n d e não a u x i l i a r i a m
E l i o , que, c o m p r e h e n d e n d o a f i n a l c l a r a m e n t e o p e r i g o que
soprava da c a p i t a l .brazileira, c o n s e n t i u n u m armistício com
Buenos A y r e s , suspendendo-se p o r accordo dos antagonístas
ante a ameaça e s t r a n g e i r a de absorpção, o sitio de u m a das
praças e o b l o q u e i o marítimo da o u t r a .
O armistício f o i accordado n o R i o e celebrado em M o n -
tevidéo a 20 de O u t u b r o de 1 8 1 1 . S t r a n g f o r d e Casa I r u j o
não t i n h a m , é de ver, deixado passar sem protesto a i n t e r -
venção m i l i t a r portugueza n o R i o d a P r a t a , si bem que
fosse esta a p p a r e n t e m e n t e para cooperar com os realistas
de Montevidéo c o n t r a os revolucionários de B u e n o s Ayres
e t a m b é m os revolucionários do U r u g u a y ao m a n d o de D.
José R o n d e a u . P a r a e v i t a r discussões diplomáticas e entre-
tanto ganhar tempo, o seu g r a n d e expediente, f o i que o
Príncipe R e g e n t e acceitou e m a n d o u propor em Londres
DOM JOÃO VI NO BRAZIL 325

pelo seu embaixador D. Domingos de Souza Coutinho,


irmão de D. Rodrigo, previamente á reencorporação da co-
lônia em esphacelo na monarchia hespanhola, uma mediação
conjuncta dos governos britannico e portuguez, solicitada
pelos patriotas de Buenos Ayres ao mesmo tempo que o ar-
mistício.
N o memorandum de D. Domingos procurava-se attra-
hir a I n g l a t e r r a com a idéa dos lucros a auferir da liberdade
commercial em Buenos Ayres, ao passo que se engodava a
Princeza com a idéa, parece que adrede renovada para i r -
ritar Strangford, de presidir ella ao conselho de Regência,
um conselho hypothetico, reconhecendo outrosim o governo
britannico os seus direitos eventuaes de I n f a n t a d'Hespanha
á coroa real. Os chefes de Montevidéo e a J u n t a de Buenos
Ayres, cujo representante no R i o era D. M a n o e l Sarratea,
assentaram no accordo, de tão palpável m á fé que D o n a
Carlota, tão interessada na sua celebração, d'elle só teve
conhecimento pela communicação feita por E l i o de achar-se
Montevidéo l i v r e dos inimigos; e que Buenos Ayres de
novo declarou guerra á praça leal, logo que regressaram
para o R i o Grande as tropas portuguezas, vindas para des-
troçar as forças invasoras e os bandos rebeldes que tinham
conseguido dominar parte do território oriental. A breve
trecho recomeçavam as hostilidades não só em terra como
também no estuário e no oceano, quando foram destruídas
as pequenas forças marítimas de Montevidéo.
O accordo buscara comtudo satisfazer todos os nego-
ciadores e todos os interessados. Assim, estatuia a liberdade
commercial do Prata, objectivo immediato da Grã Bretanha;
inseria o armisticio, favorável a Buenos Ayres, cujos arran-
cos eram superiores aos recursos e cujos destinos tinham sido
D. J. — 21
326 DOM JOÃO VI NO" BRAZIL

subversivamente transferidos das mãos da J u n t a para as de


um t r i u m v i r a t o ; admittia tacitamente a mediação de Por-
tugal e da I n g l a t e r r a n u m a acção conjuncta que despojava
da sua significação a intervenção portugueza isolada, pro-
clamando-se effectuada para concertar a integridade da
monarchia hespanhola num pacto indissolúvel, o que era
o fito dos Europeus de Montevidéo; f i r m a v a a sonegação
expressa d'esta praça e da Banda O r i e n t a l á influencia
preponderante ou melhor ao império de Buenos Ayres, re-
sultado de toda conveniência portugueza. A D o n a Carlota,
motivo essencial das intrigas em acção, ficava a esperança
platônica da presidência da regência hespanhola, sua pri-
meira e u l t i m a ambição n'este longo e agitado episódio.
Montevidéo salvou-se momentaneamente da conquista;
Buenos Ayres arredou para sempre o espectro da recoloni-
zação; a I n g l a t e r r a frustou, definitivamente pensava ella,
as ambições platinas do seu alliado; P o r t u g a l f i r m o u o pri-
meiro passo no caminho da realização do seu plano colo-
nial mais querido. D o n a Carlota é que não tinha razão para
ficar satisfeita, pois acertadamente j u l g a v a que o momento
teria sido opportuno, quando D. Diogo de Souza acampava
além da fronteira, Buenos Ayres se esgotava em convulsões
políticas e Goyeneche t r i u m p h a v a no A l t o Perú sobre os
patriotas, para restabelecerem os Portuguezes, em proveito
da sua Princeza, o domínio integro da Hespanha no R i o
da Prata. N a própria praça de Montevidéo a secundava
n'estas vistas, que em summa eram as que mais se approxi-
mavam dos interesses da metrópole, que em tudo isso anda-
vam bastante alheios, o partido irreconciliavel, denominado
empeànaão, dirigido pelo redactor da Gaccta f r e i Cirilo
DOM JOÃO VI NO BRAZIL 327

Alameda (1) e que, tornando impossível qualquer conciliação


com A r t i g a s e as suas forças em campo, p e r m i t t i r i a m uma
opportunidade melhor á nova e mais feliz intervenção por-
tugueza poucos annos depois.
E l i o logo depois p a r t i u para a Hespanha, não tendo
materialmente sobre que exercer sua f i n a l auctoridade de
vice-rei. Onde não havia invasor ou rebelde, havia P o r t u -
guez, pois que as tropas do R i o Grande, não tendo de facto
vindo a apagar o incêndio senão a occupar o immovel, pro-
seguiram algum tempo estacionadas em Maldonado, onde
as surprehenderam e detiveram os sobrevindos eventos pací-
ficos, e na Colônia do Sacramento. O grosso da expedição
alcançara M a l d o n a d o pelo Jaguarão e o Cebollati, e uma
divisão operara pelo lado do Arapey M i r i m , avançando des-
tacamentos sobre Japeyú no R i o Negro e até Paysandú. Os
encontros que se deram foram de f o r t u n a diversa, cahindo
prisioneiro o chefe das forças portuguezas do R i o Negro,
desbaratadas por O j e d a ; retirando-se outras forças portu-
guezas do Arapey para aquém do G u a r a i m diante da oppo-
sição encontrada, e tomando por contra os invasores a po-
voação de Paysandú, bizarramente defendida pelo capitão
nacionalista Sancho Bicudo ( 2 ) . Contucci, para não perder
o habito de allegar serviços, gabou-se por esse tempo n u m a
das suas cartas a Linhares (3). de ter feito abortar u m plano
pelo qual A r t i g a s mandara estacionar tropas de emboscada
no R i o Negro, a f i m de penetrarem pela fronteira brazileira
quando as forças de D. D i o g o de Souza se approximassem

(H) Francisco Bauzâ, Historia de la Doininacion Espanola en


el Uruguay, Montevidéo, 1822, Tomo I I I .
(2) Bauza, ob. cit, Tomo I I I . Este trabalho é escripto muito
do ponto de vista uruguayo, mas ministra informações e documentos
interessantes.
(3; Papeis avulsos no Arch. do Min. das Rei. Ext. do Brasil,
328 DOM JOÃO VI NO BRAZIL

do U r u g u a y , e o b r i g a r e m estas a r e t r o c e d e r e m p a r a a c u d i r
ao próprio território e m q u a n t o A r t i g a s , c o m reforços que
esperava de Buenos A y r e s , se apoderava da cidade de M o n -
tevidéo.
V o l v e u pois t u d o ao seu equilíbrio instável. O s aconte-
cimentos só n a superfície c o n t r a d i c t o r i o s do R i o da P r a t a ,
i n s t i n c t i v a m e n t e v i s a n d o todos á solução s e p a r a t i s t a ; t a l v e z
u m a mais exacta apreciação, p o r p a r t e do gabinete do R i o ,
do que p o r lá i a occorrendo e do m o d o de s e n t i r das popu-
lações; p o r certo a pressão mais f o r t e d a d i p l o m a c i a i n g l e z a
em opposição a q u a l q u e r juncção americana das colônias pe-
n i n s u l a r e s ; mais que t u d o a f a l t a de recursos f i n a n c e i r o s e a
deplorável situação m i l i t a r f o r a m s i m u l t a n e a m e n t e e s f r i a n d o
o a r d o r posto pelo g o v e r n o portuguez n'este negocio, até
que a presença dos voluntários reaes viesse despertar u m a n o v a
emulação, t r a d u z i n d o - s e p o r o u t r a acção m i l i t a r mais directa
e mais v a n t a j o s a .
N o s annos de 1812 a 1816, do ministério de L i n h a r e s
ao de Barca, o p r o b l e m a p l a t i n o f o i deixado dormitar. O
Príncipe Regente, que em 1808 p r o t e s t a v a frouxamente
n a d a querer e m p r e h e n d e r no S u l sem o c o n s e n t i m e n t o da
Inglaterra e da H e s p a n h a — a i n d a que e x c l u i n d o sempre
o caso "não esperado, e que não parece próximo" de a l l i
estalar um movimento que o obrigasse a t o m a r medidas
enérgicas de precaução " p a r a a t a l h a r o m a l e segurar o j u s t o
domínio da coroa d'Hespanha" ( 1 ) — e m 1813 desinteres-
sava-se p o r c o m p l e t o do r o m p i m e n t o já d e f i n i t i v o e n t r e as

(1) Exipressoes da nota do iconde de Liminares a Lord Strangtíord,


de 28 de Novembro de 1808, no L i v r o de Registro Correspondência da
Secretaria para Agentes estrangeiros diplomáticos e consulares e Minis-
térios, 180S 22. (iAr>ch. do Min. das Rei. Ext. do B r a z i l ) .
j
DOM JOÃO VI NO BRAZIL 329

Províncias r e v o l t a d a s do P r a t a e a sua metrópole, apre-


goando a isenção da côrte b r a z i l e i r a nas notas d i r i g i d a s á
legação hespanhola no R i o , c o n f i a d a a p a r t i r d'esse anno e
apoz a c u r t a gerencia i n t e r i n a de D. José M a t h i a s de L a n -
durubú, a c r e d i t a d o p o r Casa I r u j o , a D. J u a n d e i C a s t i l l o
y Carroz.

Entraram então a ser desprezadas todas as reclama-


ções da P r i n c e z a C a r l o t a , cujos direitos f o r a m de u m a v e z
arredados, f a z e n d o P o r t u g a l gala de seguir uma política
irmã da da G r ã B r e t a n h a . O Príncipe Regente declarava
observar "uma p r u d e n t e n e u t r a l i d a d e " que o gabinete b r i t a n -
nico lhe propuzera seguir; ponderando embora cavillosa-
mente — "emquanto novas circumstancias não obrigassem
a a d o p t a r o u t r a s medidas' p a r a p r e v e n i r a defesa e segu-
rança destes E s t a d o s " ( i ) . F o r a m estas c i r c u m s t a n c i a s que
mui poucos annos depois, favorecendo-as as condições b r a -
zileiras, f o r a m invocadas p a r a j u s t i f i c a r o accesso imperia-
lista que se m a n i f e s t o u e buscou satisfazer sua sede t e r r i t o -
r i a l em p r o v e i t o ímmedíato da coroa p o r t u g u e z a .
No f u n d o t o d a esta gestão t i m b r a v a pela f a l t a de pro-
bidade, e c o m tanta deslealdade d i f f i c i l m e n t e se l o g r a r i a
chegar a resultados permanentes e benéficos, a e d i f i c a r a l -
g u m a cousa de solido sobre o t e r r e n o já de si traiçoeiro da
política, no q u a l se p e n e t r a v a sem o v i g o r de resolução e a
abundância de meios bastantes para s u p p r i r e m a ausência
de o u t r a s condições. A começar pela razão a d d u z i d a para a
p r i m e i r a intervenção p o r t u g u e z a , que t a m b é m fundamenta-
r i a a segunda, não se a n t o l h a á l u z da lógica m a i o r contra-
senso do que querer p a c i f i c a r fronteiras atiçando g u e r r a .

(.1) Nota do conde das Galvêas a lord Strangford, de 28 de


Setembro de 1813, no L i v . de Reg. cit.
330 DOM JOÃO VI NO BRAZIL

H i p p o l y t o f a z i a a respeito a j u s t a reflexão que, s i o f i t o


como se p r o p a l a v a , e r a p o r p a r t e de P o r t u g a l , e v i t a r o con-
t a g i o das idéas e das praticas subversivas, mais simples e
razoável parecia ser não a u g m e n t a r m a t e r i a l m e n t e a super-
fície em c o n t a c t o e sobretudo não a g g r a v a r c o m os vexames
que i n f a l l i v e l m e n t e u m a g u e r r a o r i g i n a v a , os desgostos que,
a e x i s t i r e m , c o n d u z i r i a m pelo seu i m p u l s o único ao desforço
armado.

E não f o r a m pequenos aquelles vexames, m o r m e n t e na


c a p i t a n i a contígua ao t h e a t r o da l u c t a . São até os corres-
pondentes do Correio Braziliense que f a l i a m nos l a v r a d o r e s
obrigados ao serviço m i l i c i a n o em p a i z estrangeiro, c o m os
f i l h o s r e c r u t a d o s p a r a a t r o p a de l i n h a e os bois, cavallos
e carros requisitados pela i n t e n d e n c i a m i l i t a r . T e m p o s de-
pois, em 1817, i n d o Spix e M a r t i u s a São P a u l o , n o t a r a m
a i m p o p u l a r i d a d e da g u e r r a então accesa e que teve como re-
s u l t a d o o d a r ao B r a z i l , a i n d a que p r o v i s o r i a m e n t e , o seu
l i m i t e n a t u r a l pela b a n d a do s u l . O b s e r v a n d o que o serviço
d'essa campanha, cujas a g r u r a s e doenças f o r a m considerá-
veis, t a m b é m pesou m u i t o sobre os P a u l i s t a s que t i v e r a m
de c o n t r i b u i r c o m 4.000 homens, dos quaes u m regimento
de milícia, p a r a os 12.000 da u l t i m a expedição, r e f e r e m os
viajantes allemães que s o b r e v i e r a m no emtanto, antes de
seguirem as forças p a r a o U r u g u a y , numerosas deserções,
refugiando-se m u i t o s dos soldados e r e c r u t a s c o m suas f a -
mílias nos sertões da c a p i t a n i a e e m M i n a s Geraes.
Havendo motivos locaes de queixa, não os sanava a
expedição que se d i z i a repressora da a n a r c h i a no p a i z visi-
nho. Si p o r c o n t r a , se sentia f e l i z n a sua dependência e l i -
m i t a d a f o r t u n a o povo do R i o G r a n d e , mais se c o n s o l i d a r i a o
DOM JOÃO VI NO BRAZIL 331

seu s e n t i m e n t o de felicidade e c o m elle a sua f i d e l i d a d e ante


o espectaculo desolador das terras assoladas pela desordem
demagógica. N e m seria c o m b a t e n d o as idéas novas que se
lhes i m p e d i r i a a propagação, s i m i n d o ao e n c o n t r o d'ellas
com m e l h o r a m e n t o s e r e f o r m a s . A s nações estrangeiras c o l l i -
gadas que p r e t e n d e r a m i r apagar na França o r a s t i l h o revo-
lucionário, p e g a r a m em vez d'isso f o g o na explosão que r e -
d u z i u varias d'ellas a escombros. O s Francezes uniram-se
para defeza do seu território v i o l a d o e i n t e g r i d a d e ameaçada,
e c o m a invasão c o n t r a r i a se i n i c i o u a p r o p a g a n d a d e m o l i -
d o r a de que Napoleão f o i o agente inconsciente.
O e f f e i t o não v a r i o u c o m a m u d a n ç a de hemispherio.
D e facto, não se apressando o g o v e r n o do Príncipe Regente
em a c o m p a n h a r a p a r e passo o v e r t i g i n o s o progresso dos
tempos, a g u e r r a do S u l c o n t r i b u i o antes para pôr o B r a z i l
no diapasão do espírito de rebeldia. Si a p r i m e i r a i n t e r v e n -
ção houvesse c o m t u d o realizado o motivo que apparente-
mente a i m p e l l i a e p o d e r i a desculpal-a- cabalmente, a saber,
i m p o r a auctoridades recalcitrantes o reconhecimento, pouco
depois p r o c l a m a d o em C a d i z , dos direitos de D o n a C a r l o t a
de B o u r b o n e Bragança, t e r i a sido curioso o contraste da
Hespanha, c o m suas colônias, g o v e r n a d a constítucionalmente
de accordo c o m a l i b e r a l l e i orgânica v o t a d a nas C o r t e s de
1812, e de P o r t u g a l , c o m seu império, f i e l ao seu absolutismo
tradicional. Como conciliaria u m d i a o Príncipe da B e i r a
Dom P e d r o essa opposíção de regimens t r a v a d a sob a sua
coroa única ? M u i t o p r o v a v e l m e n t e p o n d o em p r a t i c a o que
effectivamente f a r i a com relação a P o r t u g a l , q u a n d o em
182Ó o f a l l e c i m e n t o de D o m João V I o t o r n o u h e r d e i r o da
coroa p o r t u g u e z a : o u t o r g a n d o u m a c a r t a de liberdades con-
stitucionaes, n i v e l a n d o p o l i t i c a m e n t e todas as fracções da
332 DOM JOÃO VI NO BRAZIL

sua d i l a t a d a m o n a r c h i a ; a menos que a M ã i , a R a i n h a D o n a


C a r l o t a , l h e não tivesse p o u p a d o o t r a b a l h o , a n t i c i p a n d o nos
próprios domínios a V i l l a f r a n c a d a e e s t r a n g u l a n d o á nas-
cença a o d i a d a Constituição, cujas idéas e l l a sempre perse-
g u i r i a de m o r t e .
CAPITULO VIII

A REGÊNCIA HESPANHOLA

N a Península Ibérica, ou com mais propriedade no can-


tinho a sudoeste onde se havia refugiado, longe do fragor
das armas francezas e inglezas, a soberania nacional, agi-
taram-se pelas mesmas causas as mesmas influencias durante
todo o tempo em que na America se u r d i a m as intrigas pla-
tinas. D o n a C a r l o t a aspirava á Regência da Hespanha, como
fonte de poder para os seus domínios ultramarinos; Palmella,
representando a côrte brazíleira e o jogo de Linhares, se-
cundava as ambições da Princeza, de accordo com os i n -
teresses nacionaes; a Inglaterra, pela voz de Wellesley, guer-
reava os projectos da I n f a n t a e contrariava as vistas do
governo portuguez.
Este bem conhecia que em Londres se encontrava o
empecilho mais serio á execução dos seus planos. E m sua
correspondência official, já aos 23 de J u l h o de 1810, o mi-
nistro americano no B r a z i l , T h o m a s Sumter, attribuía á
falta de animação por parte do gabinete britannico o aban-
dono das pretenções de D o n a C a r l o t a Joaquina, quando sem
vacillar aventava que a côrte portugueza desejava, tanto por
33á DOM JOÃO V I NO B R A Z I L

m o t i v o s de boa política c o m o de o r g u l h o n a c i o n a l , recobrar


a f r o n t e i r a do R i o da P r a t a . N o que elle se enganava era
em i m a g i n a r que o g o v e r n o do Príncipe Regente, tão com-
pletamente inteirado da orientação b r i t a n n i c a na matéria,
encarasse a ingênua hypothese de s o l i c i t a r a I n g l a t e r r a a
a u x i l i a l - o no u l t i m a r p a c i f i c a m e n t e em seu beneficio a em-
p r e z a em questão, que o representante da administração de
Madison julgava com razão f a v o r e c i d a p o r u m a circum-
stancia t a l como a a n t i p a t h i a e n t r e Montevidéo e Buenos
Ayres.

E s t a a n t i p a t h i a l h e parecia c o m t u d o mais s u p e r f i c i a l do
que p r o f u n d a e, desconfiando como t o d o A m e r i c a n o de então
da sua a n t i g a metrópole, não se l h e a f i g u r a v a p o r c o n t r a
fácil p r o g n o s t i c a r i n f a l l i v e l m e n t e os desígnios da G r ã Bre-
t a n h a sobre as colônias hispano-americanas, caso assumisse
a direcção d'estas ( i ) pela p r o v a d a incapacidade da H e s p a n h a
e os estorvos levantados á acção p o r t u g u e z a n o R i o da P r a t a .
N ã o se f u r t o u no e m t a n t o a côrte do R i o a t e n t a r c o n v e r t e r
o gabinete de Saint-James á sua política no t o c a n t e á Regên-
cia hespanhola, o q u e até certo p o n t o eqüivalia á regulação
da f r o n t e i r a do P r a t a .

( 1 ) E i s o t e x t o p r e c i s o do despacho de S u m t e r : " I t i s desirable


to t h i s c o u r t n>o d o u b t b o t h fr-om m o t i v e s o f n a t i o n a l p r i d e a n d sound
p o l i c y t o w i s h t o r e g a i n t h e R i v e r P l a t e as t h e i r b o u n d a r y t o t h e
soutih: therefore i t is n o t improbable t h a t t h e B r i t i s h Governement
m a y be s o l i c i t e d t o use t h e i r i n f l u e n c e t o o b t a i n t h i s m u c h i n an
a m i c a b l e w a y a n d i t i s expected t h a t t h i s m a y t h e m o r e easily be done
because t h e people o f Montevidéo a n d those of B u e n o s A y r e s dislike
each o t h e r a n d disagree a t t h i s t i m e i n t h e i r m e a s u r e s — t h o u g h i t is
c o n j e c t u r e d by some t h a t t h e d i f f e r e n c e i s m o r e i n t h e course t h a n i n
A m e r i c a n c o l o n i e s — i f she can g a i n t h e d i r e c t i o n o f t h e m ; i n a n y w a y i t
m a y be t h e u l t i m a te designs o f G r e a t B r i t a m r e s p e c t m g t h e Spanish-
A m e r i c a n c o l o n i e s — i f she can g a i n t h e d i r e c t i o n o f t h e m ; i n a n y w a y i t
w i l l t h e u become a q u e s t k m o f i n t e r e s t as w e l l as o f f r i e n d s h i p w h a t
m a n n e r she s h a l l a c t b e t w e e n t h e m a n d t h e P r i n c e Regent." ( A r c h . do
D e p a r t . d'Est. de W a s h i n g t o n . )
DOM JOÃO V I NO BRAZIL 335

A nota de 30 de A b r i l de 1810, do cavalheiro de Souza


Coutinho ao marquez de Wellesley, ministro dos Negócios
Estrangeiros da G r ã Bretanha, assim collocava o problema
da candidatura : " L'accord intime des Portugais et des
Espagnols avec la Grande Bretagne est indispensable
au succès de cette grande cause, qui promet à la Pe-
ninsule le rare privilege d'être, á Tavenir, la seule partie
du Continent exemte de la Tyrannie française, et i l semble
que cet accord ne pourrait guères être plus solidement main-
tenu que lorsque 1'on verrait à la tête de la Regence d'Es-
pagne une Princesse qui, à ses Droits eventuels de succession
au Throne d'Espagne, joint les avantages d'avoir été éle-
vée en Portugal et d'avoir acquis à Tecole de Son Auguste
Epoux, les moyens de cherir et d^pprécier Talliance de la
Grande Bretagne; une Princesse qui se trouverait, par con-
sequent, depouillée de tous ces anciens prejugés contraires au
Commerce, reciproquement avantageux, des sujets britanni-
ques avec les differentes parties de la Monarchie Espagnole,
dont une Politique, retrecie dans ses calculs parait avoir
etonnamment retarde ^Etablissement ,,
(1).
Não deixava a nota de encarar, como o devia fazer por
tratar-se do maior obstáculo talvez, pelo lado castelhano, á
realização das pretenções de governo da Princeza do Brazil,
a hypothese da reunião no futuro das duas coroas peninsu-
lares sobre uma só cabeça. D . Domingos abordava nestes
termos a difficuldade: " I I semble q u i l ne serait pas d i f f i -
cile de prevoir le cas possible de la reunion des deux M o -
narchies en une seule tête, et de regler d'avance ce qui con-
viendrait pour fixer la succession aux deux Thrones de

(1) A r o h . do M i n . d a s R e i . E x t . , C o r r e s p . d a L e g . de Londres,
Ostensivos e Confidenciaes, 1810.
336 DOM J O Ã O V I NO BRAZIL

P o r t u g a l et cPEspagne, soit dans l a m ê m e ligne, ou dans


deux lignes collaterales Bien des Personnes ont pense
en Europe et au Brésil qu u n t e l arrangement serait fort
á desirer et qu'il p o u r r a i t être le sujet d'un T r a i té á faire
en Espagne entre le Plenipotentiaire de S. A. R. d'une part,
et le Gouvernement Espagnol de Tautre sous la.garantie im*
mediate de l a G r a n d e Bretagne."
E' evidente que todos este arranjos propostos ou trata-
dos pela rama se baseavam sobre a continuação indefinida
do captiveiro de Fernando V I I e seus irmãos. 1810 não fazia
prever 1814: o anno immediato a W a g r a m não deixava des-
cortinar-se o anno anterior a W a t e r l o o . E m 1811, desillu-
dido da miragem platina por algum tempo, e para sempre
até na f o r m a por que ella primeiro se lhe antolhara, pensou
Dom João, quiçá com inteira sinceridade, em alcançar para
D o n a Carlota a Regência da Hespanha, permanecendo elle
no B r a z i l ( 1 ) e convertendo-se de vez em r e i americano,
bem longe da consorte intrigante. Palmella trabalhava então
tanto para a Princeza como para o Príncipe, em cujo animo
se aninhara a chimera da união ibérica peninsular, feita para
começar ao sabor das susceptibilidades patrióticas e das con-
veniências matrimoniaes dos cônjuges, de facto desquitados,
e que mais tarde se u l t i m a r i a , como a que em tempo d'El-
Rei D o m M a n o e l se mallograra, em proveito do herdeiro
da coroa portugueza, representante da dynastia de Bragança.
Por seu lado D o n a C a r l o t a Joaquina, vendo organizada
na Hespanha a resistência nacional á oppressão estrangeira
e funceionarem em Cadiz as Cortes, tratava a serio da sua

(1) Em 1816 afifirmava Debret estar publicamente resolvida


11 permanência da côrte na capital brazileira.
DOM JOÃO VI NO BRAZIL 337

Regência, correspondendo-se com deputados e geraes das


ordens religiosas a t a l respeito,e a t u d o se c o m p r o m e t t e n d o em
cartas tocaditas como e l l a d i z i a , isto é, repassadas de a m a b i l i -
dade e de persuasão. A p r o p o s t a do deputado D. P a b l o Va-
liente concernente a esta c a n d i d a t u r a , f o r m u l a d a no seio da
assembléa n a c i o n a l em meados de 1 8 1 1 , f o i porém recebida
com morras, sendo a l t o e b o m som relembradas as vergonhas
domesticas e políticas associadas c o m o nome da R a i n h a Mãi
M a r i a L u i z a , e tendo o representante p o p u l a r de sahir do
edifício escoltado pela t r o p a e i r p a r a b o r d o de u m n a v i o ,
a f i m de escapar á sanha dos contrários.
M u i t o s e r a m os interesses que p e l e j a v a m c o n t r a a r e -
gência hespanhola da P r i n c e z a do B r a z i l : a própria repu-
tação da P r e t e n d e n t e , as ambições i n d i v i d u a e s despertadas
pela n o v a o r d e m de cousas e n t r e os políticos partidários do
constitucíonalismo r a d i c a l que i m p l a n t a r a m , as illusões re-
publicanas, o p a r t i d o dos B o u r b o n s de Nápoles, a facção i n -
gleza e a a n t i - i n g l e z a que, u m a e o u t r a , d e n u n c i a v a m aquella
c a n d i d a t u r a como c o n t r a r i a ás suas preferencias oppostas.
M a i s que t u d o o g o v e r n o b r i t a n n i c o , si b e m que acabando
por se não oppor ao reconhecimento platônico dos incontes-
táveis direitos de successão ao t h r o n o de seus maiores r e i v i n -
dicados pela I n f a n t a , não achava o p p o r t u n a n e m conveniente
a sua regência, sendo em p r i n c i p i o infenso á união ibérica
sob q u a l q u e r f o r m a . E t a l união sabemos que em algum
tempo c o n s t i t u i o o pensamento dominante do g o v e r n o do
R i o e que f o i a m o l a occulta, mas que a cada m o m e n t o b o l i a
fazendo m o v e r o m a c h i n i s m o da sua política p a r a beneficio
de P o r t u g a l . L i n h a r e s chegava c l a r a m e n t e a i n s i n u a r , n u m a
memória destinada ao gabinete de Saint-James, que se não
inventaria melhor contrapeso p a r a o poder a l a r m a n t e da
338 DOM JOÃO VI NO BRAZIL

França imperialista do que a fundação no futuro de uma


monarchia peninsular unida e pujante.
A I n g l a t e r r a soccorria-se comtudo de quanto pretexto
engendrava a imaginação dos seus diplomatas e estadistas
para obviar á extensão do domínio portuguez no Novo
M u n d o , directa, por aggressão no R i o da Prata, ou indirecta,
pela installação de D o n a Carlota como auctoridade própria
e constituída. A D. Domingos de Souza Coutinho explicava
por exemplo l o r d Wellesley que, acceitando mesmo como
contraria ás leis fundamentaes da monarchia castelhana a
lei salica, introduzida por Philippe V com as usanças e idéas
francezas apezar de se haver obrigado por juramento a ob-
servar e guardar as tradições nacionaes, o reconhecimento
dos direitos eventuaes da Princeza do B r a z i l representava
u m ponto m u i t o delicado, com o qual se podia dar offensa
á côrte de Palermo ( i ) , intimamente alliada á de Londres
pelos seus interesses communs.
As Cortes de Cadiz a d m i t t i r i a m aliás a boa procedência
dos direitos dos Bourbons de Nápoles, collocando em ter-
ceiro lugar na linha de successão, depois dos Infantes e de
D o n a Carlota Joaquina, a I n f a n t a D o n a M a r i a Izabel, her-
deira das Duas Sicilias.
Um episódio interessante e característico da confusão
do momento é que, ligado por matrimônio á Casa de Nápo-
les e descendente de L u i z X I V tanto quanto Fernando V I I ,
machinou o duque d'Orleans, depois R e i dos Francezes,
aquillo que mais tarde machinaria seu f i l h o , o duque de
Montpensier: subir ao throno da Hespanha. Chamara-o a

(1) Corresp. da Leg. em Londres, anno de 1810, no Anch. do


Min. das R e i . E x t .
DOM JOÃO VI NO BRAZIL 339

Regência hespanhola, antes da reunião das Cortes, como m i -


l i t a r de certo r e n o m e que t o m a r a p a r t e nas p r i m e i r a s v i c t o -
rias francezas da Revolução — V a l m y e Jemmapes — e se
achava fóra da a c t i v i d a d e , e t a m b é m como i n i m i g o n a t u r a l
e pessoal de Napoleão para, s e r v i n d o de b a n d e i r a de g u e r r a
c o n t r a o invasor, a t t r a h i r a si desertores do e x e r c i t o impe-
r i a l e pôr-se á testa d'essas forças estrangeiras, p a r a elle na-
cionaes, podendo p o r isso sobre ellas exercer prestigio.
Este acto da Regência s o f f r e u decidida impugnação da
parte do m i n i s t r o i n g l e z W e l l e s l e y , irmão do m i n i s t r o dos
Negócios E s t r a n g e i r o s d a G r ã B r e t a n h a e de l o r d W e l l i n -
gton, c o n s t i t u i n d o u m a anticipação, até c o m o personagem
p r i n c i p a l , do caso dos casamentos hespanhoes. Arrependeu-se
porém a Regência q u a n d o já era tarde. L u i z P h i l i p p e che-
gou a C a d i z em A g o s t o de 1 8 1 0 e, em correspondência ao
appello que l h e f o r a d i r i g i d o , s o l i c i t o u l o g o o c o m m a n d o de
uma divisão, i n i c i a n d o , e m q u a n t o a g u a r d a v a a commissão
m i l i t a r , as suas i n t r i g a s civis em p r o l dos direitos do r a m o
dyna^tico b o u r b o n i c o a que se u n i r a pelo casamento. P o r t u -
gal se não descurou de j u n t a r os próprios esforços aos da
I n g l a t e r r a a f i m de desviar esse n o v o c o n c o r r e n t e que come-
çava t r a b a l h a n d o pela família n a p o l i t a n a e nomeadamente
pelo cunhado, o Príncipe das D u a s Sicilías, para, q u a n d o hou-
vesse alcançado ascendência g u e r r e i r a , t r a b a l h a r pela sua
candidatura pessoal. O r e s u l t a d o da acção c o m b i n a d a dos
enviados b r i t a n n i c o e p o r t u g u e z f o i que, reunidas as Cortes
na i l h a de Leão aos 2 4 de Setembro, d e r a m o r d e m de p a r t i d a
ao duque d'Orleans, o q u a l e m b a r c o u p a r a P a l e r m o a 3 de
O u t u b r o a b o r d o de u m a embarcação hespanhola ( 1 ) .

(1) Corresp. de D. Pedro de Souza Holstein, Oaídiz, 1810-11, no


Arch. do Min. das Rei. Ex.
340 DOM JOÃO VI NO BRAZIL

O empenho do f u t u r o conde de P a l m e l l a em arredar


hospede tão i m p o r t u n o , c u j a intelligencia, valor e ardileza
a historia s u f i c i e n t e m e n t e registra, tanto maior devia resul-
tar quanto era análoga sua missão, d ella dependendo o seu
f u t u r o diplomático, pois f o r a m os talentos patenteados em
Cad iz que o levaram rapidamente ao Congresso de Vienn t
e á embaixada de Londres. P u g n a v a Souza H o l s t e i n quasi
publicamente em p r o l da candidatura da Princeza do Bra-
z i l . Recommendara-a a Linhares á sua habilidade ao mesmo
tempo que, tendo já conseguido seduzir em meio l o r d Stran-
gford, procurava com sua habitual insistência convencer o
governo britannico das vantagens indiscutíveis da combina-
ção que offerecia.
N a t u r a l m e n t e asseverava elle nos documentos diplomá-
ticos endereçados para Cadiz e para Londres, que a regência
de D o n a C a r l o t a seria eminentemente favorável aos interes-
ses britannicos de todo gênero, p e r m i t t i n d o u m a acção m i l i -
tar conjuncta, efficaz e talvez decisiva contra Napoleão;
e garantindo facilidades para os arranjos financeiros impos-
tos pelas despezas de guerra que, avultadas como eram, es-
tavam mercê do descalabro e miséria dos reinos peninsulares
recahindo quasi que exclusivamente sobre o thesouro inglez.
Aos Hespanhoes tentavam L i n h a r e s e P a l m e l l a persua-
dir de que seus interesses c o r r i a m idênticos aos dos Portugue-
zes, advertindo quanto lhes seria u t i l receberem subsidios
e soccorros da G r ã B r e t a n h a para debellar o i n i m i g o com-
m u m e, de accordo as trez potências, pacificarem a America
Hespanhola revolta, em troca do commercio l i v r e que as co-
lônias por seu lado igualmente reclamavam e contavam le-
galizar. A Hespanha com seus únicos recursos não lograria
fazer frente a uma tão complicada e desanimadora situação,
DOM JOÃO VI NO BRAZIL 341

em casa e no u l t r a m a r . O s o f f k i o s de P a l m e l l a no decorrer
da sua missão p i n t a v a m com cores bem negras o estado da
metrópole: a f a l t a completa de dinheiro, a desorganização
do exercito, o Francez imperando insolente do E b r o ao Gua-
d a l q u i v i r , m a u grado a resistência nacional, as Cortes per-
dendo tempo e gastando-se com debates acadêmicos emquanto
as colônias se separavam e fragmentavam.
v

O governo da Regência, anti-estrangeira como era,


tinha-se i m p o p u l a r i z a d o . Governos desta natureza, em epo-
chas tão agitadas, consomem-se m u i t o depressa, rapidamente
perdem o prestigio, para o q u a l lhes f a l t a a auctoridade da
tradição, e o federalismo básico da Hespanha, denunciando-se
pela formação das múltiplas j u n t a s regionaes, não ajudava
mesmo a consolidação de u m poder central que não fosse
fundado sobre o direito divino, sobre a seducção da religião
ou, á moda renovada, sobre o consenso politico das vontades
livremente representadas. Tratava-se pois para P a l m e l l a de
j o g a r com essas disposições e alliciar os deputados ás Cortes,
que i a m decidir das reformas e dos destinos do grande i m -
pério hespanhol, para p r o p u g n a r e m pelas pretenções de D o n a
C a r l o t a Joaquina, indicando-as e fazendo-as valer e accei-
tar como o meio único de salvar a monarchia e principal-
mente resgatar as províncias da America.
N o anno anterior já o plenipotenciario portuguez, con-
quistando as boas graças do p r i m e i r o Secretario d'Estado
D. Francisco de Saavedra, chamara ás idéas do seu governo
a J u n t a C e n t r a l de Sevilha, a qual, reconhecendo a l e g i t i m i -
dade dos direitos da Princeza do B r a z i l , v i r t u a l m e n t e revo-
gara a lei salica. N ã o poderia caber t a n t o em suas prerogati-
vas revolucionárias, si se não houvesse dado o facto, p r i m e i r o
revelado pelo conde de F l o r i d a Blanca na proclamação da
DOM JOÃO VI NO BRAZIL

J u n t a de M u r c i a , das C o r t e s hespanholas t e r e m em tempo


de C a r l o s I V , no anno de 1789, v o t a d o a abrogação da re-
f e r i d a l e i , conservando-se porém secreta a deliberação por
causa das ligações dynasticas e políticas então existentes entre
a H e s p a n h a e a França — a l e i salica e r a u m dos artigos
do credo dos B o u r b o n s — e f i c a n d o o R e i depositário do
documento, que aliás n u n c a appareceu. M u i t o s dos deputados
presentes ás C o r t e s de 1789 t e s t e m u n h a r a m c o m t u d o a sua
veracidade, e o S u p r e m o Conselho da H e s p a n h a e índias re-
conheceu-lhe a a u t h e n t i c i d a d e ( 1 ) .
Q u a n d o o exame sereno dos successos e a psychologia
dos personagens não a u c t o r i z a s s e m bastantemente o histo-
r i a d o r a a f f i r m a r que o f i m a l v e j a d o pela política p o r t u -
gueza p o r esse t e m p o e r a a reunião das duas monarchias
peninsulares, c o m suas possessões, sob o sceptro dos B r a g a n -
ças, n e n h u m a d u v i d a r e s t a r i a a respeito apoz a l e i t u r a da
correspondência o f f i c i a l do m i n i s t r o em C a d i z , " O maior e
mais resplandecente Império do m u n d o , a h i se d i z i a , poderia
s u r g i r d e n t r e as r u i n a s e os incêndios desta Revolução." E
t a n t o se a p a i x o n o u o d i p l o m a t a p o r t a l g r a n d i o s o p r o j e c t o
que, ao mostrar-se o g o v e r n o do R i o acobardado pela r e l u -
ctancia do g o v e r n o de L o n d r e s e pelas i n t i m a t i v a s de Stran-
g f o r d , e disposto a m e r c a d e j a r os d i r e i t o s da P r i n c e z a do
B r a z i l , escrevendo L i n h a r e s a Souza H o l s t e i n que, no caso
da I n g l a t e r r a se o p p o r i n v e n c i v e l m e n t e ao reconhecimento
desses direitos, tratasse de negociar e obter a l g u m a j u s t a e
razoável compensação d'elles, o f u t u r o conde de P a l m e l l a

( 1 ) C o n s t a m estes pormenore-s históricos de uma Memória pre-


p a r a d a p o r P a l m e l l a p z r a ser distribuída em p r o p a g a n d a nas Cortes
de Cadiz ( A r c h . do M i n . das Rei. E x t . ) ^
DOM JOÃO VI NO BRAZIL 343

J u l g o u a suggestão s u m m a m e n t e p r e j u d i c i a l , além de i m p r a -
ticável pela segura inadmissão p o r p a r t e do gabinete b r i -
tannico.

Pensava de certo L i n h a r e s que a acquisição, consentida


pela G r ã B r e t a n h a , da m a r g e m s e p t e n t r i o n a l do P r a t a i n -
d e m n i z a r i a P o r t u g a l dó abandono voluntário dos m a l para-
dos direitos da esposa do Príncipe Regente. P a l m e l l a achava
porém que semelhantes direitos e r a m pelo c o n t r a r i o em de-
masia validos p a r a sobre elles ^se dever t r a n s i g i r , e que a
perspectiva do próximo império luzo-hispanico se o f f e r e c i a e m
demasia b r i l h a n t e p a r a a ella se r e n u n c i a r l e v e m e n t e : mais
acertado se l h e a f i g u r a v a p r o s e g u i r no c a m i n h o encetado
e que c o n d u z i a á reunião das duas monarchias, a q u a l l h e
parecia i n f a l l i v e l , com a sobrevivência da dynastia hespa-
n h o l a á crise n a c i o n a l , e a imposição pela opinião p u b l i c a
hespanhola do r e s u l t a d o visado pela política p o r t u g u e z a .
A resolução p r i m e i r o proposta do R i o de J a n e i r o t i n h a
p o r si, p r i m e i r o a i m m e n s a v a n t a g e m de a n n u l l a r todos os
infernaes planos de B o n a p a r t e tendentes a p r i v a r a H e s p a n h a
da sua dynastia, o f f e n d e n d o o mais gravemente a nação nos
seus s e n t i m e n t o s tradicionaes de lealdade. Depois, p a r a a segu-
rança do p a i z e g a r a n t i a do seu desenvolvimento, quão sen-
sível differença não i a do g o v e r n a r u m a p r i n c e z a que, no
caso de sobrevír desgraça ao legítimo soberano, era a própria
n a t u r a l successora da coroa, a g o v e r n a r u m a entidade, em-
b o r a c e n t r a l i z a d o r a , que apenas p o r delegação, o u então p o r
usurpação, p o d i a representar a pessoa do m o n a r c h a .
Opinava P a l m e l l a que, somente n a hypothese de se
despedaçar a m o n a r c h i a hespanhola, c o m p e t i r i a aos homens
d'Estado portuguezes " t i r a r o p a r t i d o que podesrcm de:ra
344 DOM JOÃO VI NO BRAZIL

dissolução de h u m tão grande corpo político": o que signi-


ficava occuparem immediatamente a B a n d a O r i e n t a l , "alle-
gando p o r m o t i v o a sua defensa, e i n c u m b i n d o aos seus M i -
nistros o cuidado de j u s t i f i c a r essa medida, porque será sem-
pre sem d u v i d a m u i t o mais conveniente o ter que d a r razões
de h u m a semelhante resolução, depois de executada, do que
o esperar consentimentos de outras Potências para a exe-
c u t a r " ( i ) . N e m o u t r a havia de ser a maneira de proceder
adoptada pelo governo çortuguez em 1816 e m a l previa
Palmella, ao escrever as phrases citadas, quantos trabalhos
lhe causaria até 1820 o problema da restituição o u conserva-
ção de Montevidéo.
Já ao tempo da sua missão em Sevilha e Cadiz, tivera
elle que se esforçar p o r destruir as impressões transmittidas
pelos vice-reis de Buenos A y r e s e c o n t r a d i z e r as i n f o r m a -
ções do m i n i s t r o Casa I r u j o , apresentando a queixa f o r m a l
do Príncipe Regente c o n t r a as suspeições de L i n i e r s e de
Cisneros no tocante á côrte do R i o e c o n t r a seu proceder
para c o m os Portuguezes estabelecidos em Buenos Ayres, e
ao mesmo tempo j u s t i f i c a n d o a concentração de forças n j
R i o G r a n d e com dal-as como penhor de u m apoio do qual
se podia v i r a valer a Hespanha, attento o crescente esta-
do revolucionário das suas colônias. C o m essas tropas é que
esteve para operar de combinação, em 1808, a esquadra de
sir Sidney Smith, agindo o a l m i r a n t e t o d a v i a n'este caso
não tanto p o r conta própria e para favonear as velleidades de
D o n a C a r l o t a , como sob instrucções do A l m i r a n t a d o e por
despique patriótico, para resgatar os revezes de Popham,

(1) Officio de Souza H o i s t e i n a L i n h a r e s , Cadiz 28 de Abril


de 1810, no Arch. do Min. das Rei. E x t .
DOM JOÃO VI NO BRAZIL 345

Beresford e Whitelocke; ainda assim contra os desígnios e


até os desejos manifestados pelo m i n i s t r o S t r a n g f o r d .
N o s pontos em questão f o i o representante portuguez
completamente bem succedido, alcançando que o governo
da Regência hespanhola accedesse sem reservas á permanên-
cia das tropas de observação na f r o n t e i r a m e r i d i o n a l do Bra-
z i l e reprovasse, ao ponto de lhe dar substituto mais accommo-
dado, a a t t i t u d e de Casa I r u j o , o q u a l se obstinava em enten-
der-se c o m o governo colonial de Buenos A y r e s para a ma-
nutenção dos interesses da metrópole e acertava no prever
e denunciar a política imperialista de D o m João V I . E'
mesmo possível que a Regência agisse d'essa f o r m a não
tanto p o r f a l t a de meios de acção, posto que t a l f a l t a fosse
uma realidade, quanto por acreditar na sinceridade do even-
t u a l a u x i l i o portuguez, f u n d a d a na irmandade das conveniên-
cias políticas dos dous paizes, c u j a p r i n c i p a l preoccupação
deveria consistir em r e p r i m i r qualquer m o v i m e n t o sedicioso
nas suas respectivas possessões americanas. D e facto toda a
ambição da Hespanha se cifrava, com sustentar-se a monar-
chia nacional, era salvarem-se as colônias, affectando este ob-
jectivo especialmente os interesses de C a d i z p o r ser a praça
marítima do paiz mais em contacto com as terras do N o v o
Mundo.
N a s Cortes de C a d i z t i v e r a m assento deputados da
A m e r i c a e esta assembléa, diversamente do que mais tarde
succedeu c o m a de Lisboa, mostrou-se sympathica á causa
das communídades u l t r a m a r i n a s , não se revelando sequer
infensa, entre outros desiderata d'essas populações, á liberdade
de commercio. Tornara-se mesmo mister advogar t a l liber-
dade p o r ser impossível pôl-a de lado quando se fizera indis-
pensável l i g a r inteiramente os interesses mercantis da G r ã
346 DOM JOÃO V I NO BRAZIL

Bretanha com a preservação da monarchia hespanhola em


ambos os hemispherios. A s Cortes Constituintes pareciam
aliás dominadas por grandes ideaes, e Palmella acompanhava
assiduamente e sympathicamente a sua obra de regeneração
política, financeira e m i l i t a r . Sobre as próprias sessões se-
cretas andava elle excellentemente informado, bem como so-
bre a marcha dos negócios que lhe estavam particularmente
confiados, sendo os agentes do B r a z i l , a quem o Príncipe
Regente mandou para t a l f i m escrever, o conselheiro d i s -
tado D. Benito H e r m i d a e o decano do Conselho de Cas-
tella D. José Colon (i).
E' evidente que, trabalhando por Portugal, trabalhava
Palmella pela Princeza do B r a z i l , que era o pretexto e todo
o fundamento da acção portugueza, na qual ao Príncipe Re-
gente não coube o papel inglório e inepto que lhe anda attri-
buido, entre outros por Groussac ao pintal-o tão destituído
de intenção quanto de vontade. M u i t o pelo contrario o fito
de D o m João V I f o i constantemente um, o de engrandecer
o seu domínio, pelo menos até o Prata, e para o conseguir
intrigou, tergiversou, labutou e até, em 1816, se libertou d i -
plomaticamente de Strangford, o qual desde começo, no in-
tuito de melhor servir a Inglaterra, favorecia a causa
dos emigrados platinos, ou p o r outra a causa da inde-
pendência, que alguns delles já então perseguiam sob
color da defeza dos direitos de D o n a Carlota. Saturnino Ro-
driguez Peíía entrava por exemplo no numero ( 2 ) e, por
descobril-o, o quiz a Princeza remetter preso para Buenos
Ayres, consignado a Liniers, pouco depois d'elle a haver

(1) Corresp. de D. Pedro de Souza Holstein, Cadiz 1810-11, 110


I r c h . do Min. das Rei. E x t .
(2) P. GrTOUssflc, Est. cit., sobre Santiago Liniers.
DOM JOÃO V I NO BRAZIL 347

hyperboliea e enganosamente a p p e l l i d a d o de h e r o i n a da
America.

A I n g l a t e r r a não p r o t e g i a a i n d a assim t a n t o a causa


p l a t i n a das aggressões portuguezas, convém n o t a r , como se
p r e c a v i a c o n t r a os A m e r i c a n o s , t e m e n d o que estes, n a t u r a l -
m e n t e sympathicos a u m a revolução da mesma n a t u r e z a da
sua, fizessem cabedal de u m prompto reconhecimento da i n -
dependência da n o v a r e p u b l i c a , p a r a f i r m a r e m na America
Latina o seu predomínio m o r a l , antagônico aos interesses
do c o m m e r c i o b r i t a n n i c o .
D o n a C a r l o t a c o n t a v a t o d a v i a partidários mais directos
e mais desinteressados do que os que no P r a t a especulavam
c o m o seu nome, p o n d o a m i r a n'outro objectívo. A s i n s t r u c -
ções do Ayuntamíento d a cidade de M o n t e r e y , no n o v o r e i n o
de Leão no México, dadas ao seu deputado ás Cortes, f o r a m
t e r m i n a n t e m e n t e em f a v o r da regência da I n f a n t a d'Hes-
p a n h a ; o u t r a s instrucções as i m i t a r a m , e não f a l t a v a sobre
t u d o n'aquella e nas o u t r a s colônias q u e m se rejubilasse c o m
a perspectiva da f i n a l m u d a n ç a p a r a o seu seio da sede da
secular m o n a r c h i a p o p u l a r . N ã o bastavam e n t r e t a n t o , para
vingar a empreza, boas vontades isoladas, sem união o u
l i n h a d i r e c t r i z . F a l t a r a m - l h e o u combateram-na o u t r o s ele-
mentos poderosíssimos.
F a l t o u - l h e o concurso de sír Sidney S m i t h , que c o m o
enthusiasmo do seu t e m p e r a m e n t o e o prestigio dos seus
serviços i n s t i g a v a o Regente, acenando-lhe c o m a perspectiva
de u m a m e l h o r f r o n t e i r a no S u l , no que a P r i n c e z a concor-
dava, como concordava sem maior sinceridade em tudo
q u a n t o , sem q u e b r a m a n i f e s t a da vaidade, fosse de m o l d e a
c o n c o r r e r p a r a a satisfacção da sua aspiração i m m e d i a t a de
poder.
348 DOM JOÃO VI'' NO BRAZIL

Faltou-lhe cada d i a mais o apoio das communidades


coloniaes hespanholas, que se i a m desligando da metrópole
sem se aggregarem umas ás outras, e cujos proceres se iam
transformando todos em precursores na lucta contra a re-
sistência conservadora, não sendo de surprehender que a
muitos dignitarios locaes não "sorrisse despojarem-se de boa
mente das posições occupadas por mercê, como as dos vice-
reis, o u adquiridas nas perturbações nacionaes, como
as das juntas ou audiências investidas do governo, para
p e r m i t t i r e m a ascensão de uma I n f a n t a já meio alheiada da
dynastia e sem talentos especiaes de administração.
Faltou-lhe por f i m o apoio decidido das Cortes de
Cadiz, onde era antes considerável o n u m e r o dos que a hos-
t i l i z a v a m , mesmo entre aquelles que chegaram até ao ponto
de l h e reconhecerem os direitos incontestáveis, e úteis para
se poder repellir toda intrusão dynastica, sem todavia que-
rerem tornal-os effectivos ( i ) . P r e f e r i a m esses deixar go-
vernar os inexperientes homens d i s t a d o que, desembara-
çados d a u l t i m a imbecil tutela real e de todos os entraves
do obsoleto regimen alterado, estavam c o m t u d o conduzindo
a barca publica atravez de tantas tormentas com felicidade
cada d i a mais palpável á medida que se i a fortalecendo a
f o r t u n a das armas hespanholas, quasi perdida em princípios
de 1810, depois da invasão da A n d a l u z i a , e que as exigências
de outras campanhas européas, julgadas mais urgentes ou
formidáveis, i a m determinando a retirada dos melhores regi-
mentos francezes.
D e v e m igualmente ser contados, como elementos a con-
t r a r i a r e m D o n a C a r l o t a e o m i n i s t r o Souza Holstein, afora

(1) P. Groussac, est. cit.


9
DOM JOÃO VI NO BRAZIL 340

os ciúmes patrióticos, os ciúmes interesseiros dos que também


ambicionavam, e com ardor não menor, a regência da Hes-
panha, tanto mais q u a n t o o provisório podia tornar-se defi-
n i t i v o . E r a então o tempo dos grandes planos, das grandes
chimeras e das grandes partidas, quando se j o g a v a m coroas,
povos e raças sobre, o taboleiro político. N a d a parecia i m -
possível, nada improvável, nada d i f f i c i l . U m tenente corso
estava feito I m p e r a d o r da E u r o p a ; os seus irmãos, havia
poucos annos esfomeados, os seus marechaes, havia poucos
annos soldados rasos, repimpados em thronos seculares; as
nações passavam de m ã o para m ã o como notas de banco,
creavam-se federações e fragmentavam-se continentes.
T o d o s os obstáculos enumerados, desde o isolamento
da Princeza até as miragens dos constituintes de 1812, por
poderosos que apparecessem, eram no emtanto venciveis, e
P a l m e l l a n u t r i a mesmo a opinião que os levantados em
C a d i z se t e r i a m galgado, si não fosse a opposição da I n g l a -
terra. Esta era que guardava em suas mãos a organização
da regência nacional e, sem poder oppor embargos propria-
mente ao reconhecimento dos direitos da primogênita de
Carlos I V , tampouco o ajudando, adoptara u m a reserva
hostil no tocante á realização do que semelhante reconheci-
mento c o m p o r t a v a como deducção n'aquelle momento.
A posição do m i n i s t r o W e l l e s l e y acha-se definida com
exactidão nas seguintes palavras de u m dos officios de Pal-
m e l l a : " D e v o porem fazer-lhe a justiça de dizer, que elle
não t e m feito relativamente aos direitos de successão, ne-
n h u m a opposição o f f i c i a l , nem manifesta; mas devo igual-
mente dizer, p o r amor a verdade, que a mínima palavra que
elle tivesse p r o n u n c i a d o a f a v o r deste negocio, ainda sem
ser o f f i c i a l m e n t e , teria p r o v a v e l m e n t e já decedido o seu
350 DOM JOÃO V I NO B R A Z I L

bom êxito, pois entre muitos, o seu silencio a este respeito


pode passar por huma tácita desaprovação" ( i ) .
N ã o era que a frieza quasi inimiga do Inglez no assum-
pto que tanto tinha D. Pedro de Souza H o l s t e i n a peito, o
fizesse desanimar, antes o incitava a proseguir no que elle
chamava a guerra luterana, a saber, i n f l u i r pelos escriptos
de propaganda sobre a opinião publica, no sentido de desfa-
zer prejuízos nacionaes e populares; e por outro lado in-
sistir na campanha mais efficaz da corrupção, distribuindo
presentes para se i n f o r m a r do que occorria nas sessões se-
cretas, obter copias dos papeis importantes e predispor a
votação de harmonia com os interesses de P o r t u g a l e Brazil.
Para D o n a C a r l o t a a chave da situação passara por
esse tempo a encontrar-se em Hespanha. A h i é que seus
interesses precisavam ser promovidos e sustentados. N o Rio
da Prata, desde o 25 de M a i o de 1810, a partida estava senão
perdida, gravemente compromettida. Assim o comprehendera
o atilado Contucci e o expuzera n u m a memória dirigida ao
conde de Linhares, valendo-se dos seguintes termos : ( 2 )
" H o u v e h u m tempo em que o partido favorável aos interes-
ses de S. A. R. a Princeza Nossa Senhora era o mais nu-
meroso, não por reflexão, ou por amor á antiga e veneravel
Constituição Hespanhola; porem por h u m conjuncto feliz
de circumstancias que fazião coincidir os interesses de
S. A. R. com os interesses, e paixoens dos particolares então
violentamente agitadas. As intrigas do novo Vice Rey (Cis-
neros), e de R u i z Huidobro, e as desgraças da Península

(1) Officio a Linhares, de 24 de Abril de 1811, no Arch. do


Min. das Rei. E x t .
(2) E'sta memória, sem data, encontra-se entre os Pap. Av. do
Min. das Rei. Ext. Deve ser de 1810, pois que 1808 e 1809 foram os
annos em que a candidatura da Princeza do B r a z i l maiores probabili-
dades teve de vingar.
DOM JOÃO V I NO B R A Z I L 351

desbaratarão i n t e i r a m e n t e este p a r t i d o . O da Independência


t o m o u o ascendente: o sistema- democrático representativo
proposto pela J u n t a C e n t r a l veio a ser h u m a opinião l e g a l
e justificada, e h u m c r i m e o a d h e r i r á a n t i g a Constituição
Monárquica. Segundo as u l t i m a s noticias de Buenos A y r e s ,
ainda que discrepem m u i t o , aquelles habitantes sobre a f o r m a
e o m o d o de f u n d a r h u m n o v o r e g i m e n , concordão em hum
ponto essencial quasi todos, que he o de e x c l u i r os justos d i -
reitos reclamados p o r S. A. R. a P r i n c e z a Nossa Senhora."
De ameaçados, t i n h a m os de Buenos A y r e s passado
mesmo a ameaçar, pela p r o p a g a n d a dos princípios que não
pela força das armas, e L i n h a r e s t a n t o não desprezava a
contingência que, c o n f o r m e resulta de notas autographas
do próprio m i n i s t r o appensas á citada memória, c o n f i a r a a
Contucci uma missão secreta da m á x i m a importância, q u a l
a de l e v a r c o m êxito a e f f e i t o a acclamação de D o n a Car-
l o t a J o a q u i n a . D e v i a o a v e n t u r e i r o p a r t i r na certeza de ser
apoiado pelas tropas do R i o G r a n d e do S u l e de Santa Ca-
t h a r i n a , as quaes c o m r a p i d e z a c u d i r i a m em soccorro do
C a b i l d o o u do g o v e r n a d o r de Montevidéo — q u a l q u e r que
p r i m e i r o reclamasse a assistência d'ellas — e m q u a n t o se não
despachavam do R i o , sem r o m p e r a alliança ingleza, outras
tropas e a l g u m a força n a v a l .
O caso não e r a porém mais de a c t i v a r apenas o e n g r a n -
decimento do poder p o r t u g u e z : tratava-se de defender tam-
b é m e s o b r e t u d o o existente, de conservar a i n t e g r i d a d e dos
domínios do Príncipe R e g e n t e sob o r e g i m e n transplantado.
C o n t u c c i , c u j a memória p r o v o c a r a o u respondia ao encargo,
assim expressava os seus receios, reaes o u simulados, de
u m a crise r e v o l u c i o n a r i a : "O sistema democrático adoptado
pela A m e r i c a Hespanhola pode sernos tão i n c o m o d o como
352 DOM JOÃO VI NO BRAZIL

a dominação franceza. Os Hespanhoes Republicanos estando


em perpetuo receio do uzo que S. A. Real possa fazer dos
seus justos Direitos não perderão ocazião de prejudicamos,
debilitamos, e offendernos de facto, e nas allianças e rela-
çoens políticas que contráhirem. E quem pode prever os
últimos resultados dos delírios da Democracia ? "
Para o agente de Linhares e de D o n a C a r l o t a o remédio
só podia v i r da metrópole, si é que era tempo ainda de em-
pregal-o: " O perigo sendo tão imminente e grave he de
esperar que S. A. R. não perca u m instante em reclamar a
Regência de toda a M o n a r q u i a Hespanhola durante a au-
sência de seus Augustos Irmaons. A ocasião não pode ser
mais propicia. P o r agora não existe governo reconhecido se-
não o antigo. Se se consente a organização de qualquer
ajuntamento de onde emanem ordens, que possão conside-
rarse como a expreção da vontade geral, a cauza de S. A. R.
perderá i n f i n i t o na opinião dos Povos. "
O espirito de Contucci não apparentava comtudo dei-
xar-se abater pela perspectiva do perigo de uma reacção libe-
r a l da America Hespanhola contra o absolutismo da Ame-
rica Portugueza, ao ponto de renunciar aos planos gran-
diosos que elle próprio havia, porventura mais do que nin-
guém, ajudado o conde de Linhares a architectar. Longe
d'isso, elle entrava, logo depois de manifestar as suas appre-
hensões, n u m a exposição repassada de megalomania e que,
destituída mesmo que seja de sinceridade, lança l u z sobre o
espirito portuguez de imperialismo, então predominante nos
conselhos do Governo: "... porem a reclamação (dos di-
reitos de D o n a C a r l o t a ) para que não seja dezairada deve
apoiarse sobre uma força respeitável, e pronta a obrar em
cazo de negativa sem a menor dilação. C o m isto não quero
DOM JOÃO VI NO BRAZIL 353

dizer que os Exércitos Portuguezes hajam de conquistar a


America, porem aberta a porta, e captivado o amor e con-
fiança de huma parte tão issencial da nação hespanhola, o
restante se concluirá com os mesmos Hespanhoes. H e n r i -
que I V quando Rey de N a v a r r a era E l l e mais poderoso
com respeito a França, do que agora seja o Brasil com res-
peito a America? P o r nossa parte não necessitamos mais que
a firmeza e constância daquelle Rey, e huma coragem igual
á justiça da nossa cauza. Se esta trionfa, todas as disputas e
zelos de limites terminarão: se encontra obstáculos inven-
cíveis nas Províncias remotas, mudar-se-hão em direitos de
conquista os de successão nas Províncias que estão em nosso
alcance. Feitas domínio particular de S. A. R. e administra-
das por leys próprias conseguir-se-ha conservalas athé ao
tempo em que hajão de reunirse em huma só cabeça !" ( i )
Linhares, que tinha as responsabilidades do poder e,
apezar da sua megalomania, uma visão intelligente dos
acontecimentos, já começava a não j u l g a r possível tanto e
contentar-se-hía com a encorporação da margem septentrional
do Prata, não mostrando repugnância, desde o dia 25 de
M a i o se pode dizer, a entrar em relações com a J u n t a revo-
lucionaria de Buenos Ayres. Para este f i m até se servio de
um dos seus numerosos agentes confídenciaes, u m Carlos
José Guezzi, motivando as queixas de Casa I r u j o , que não
podia naturalmente levar a paciência que o governo portu-
guez assim tratasse com rebeldes, virtualmente reconhecen-
do-os, contra a auctoridade do R e i Catholico.
As queixas do representante hespanhol, transmittidas
para a metrópole, determinaram o representante portuguez

{l) Mem. cit.


354 DOM JOÃO VI NO BRAZIL

em C a d i z a p r o t e s t a r u m a v e z mais, e m n o m e do Príncipe
Regente, as suas benevolas intenções p a r a c o m o monarcha
p r i s i o n e i r o , e o seu desejo de pôr em execução q u a l q u e r desí-
g n i o para, de accordo c o m S. M . B r i t a n n i c a , f a z e r cessar
a revolução de Buenos A y r e s . Quanto ao intermediário
G u e z z i , e r a o f f i c i a l m e n t e r e p u d i a d o sem c e r i m o n i a n e m re-
serva, a p p e l l i d a n d o D. P e d r o de Souza H o l s t e i n esse emulo
de C o n t u c c i de " m e r a m e n t e u m e x p l o r a d o r que o G o v e r n o
do B r a z i l se j'ulgou, p a r a a sua própria segurança, obrigado
a conservar em Buenos A y r e s , depois d a revolução daquelle
P a i z tão v i s i n h o " ; tendo apenas recebido p o r missão, quando
p a r a lá o despacharam do R i o de J a n e i r o , " d e s m e n t i r as vozes
que se t i n h a m a l i esparzido c o n t r a as pacificas intenções do
P. Regente de P o r t u g a l , d e c l a r a n d o que S. A. R. não
teve em t e m p o a l g u m intenções hostis c o n t r a n e n h u m a parte
dos Estados de S. M . C a t h o l i c a ". ( i )
Na realidade as n u t r i a a côrte do R i o c o m afan, e
como resistir á tentação de aproveitar-se das difficuldades
da eterna r i v a l si e r a t a l a penúria do erário hespanhol para
rebater q u a l q u e r incursão u l t r a m a r i n a , que o ordenado do
m i n i s t r o Casa I r u j o l h e estava sendo a d i a n t a d o no B r a z i l
pelo thesouro p o r t u g u e z , o q u a l se v i a , aliás, sem espe-
ranças de r e c o b r a r essas sommas? O d i n h e i r o de que dispu-
n h a a Regência n e m chegava p a r a pagar o soldo á guarnição
de C a d i z , g a r a n t i a das C o r t e s e das l i b e r d a d e s nacionaes,
não podendo a mesma Regência f u r t a r - s e ao p e j o de pedir
pequenas q u a n t i a s emprestadas ao m i n i s t r o b r i t a n n i c o . ( 2 ) .

•(1) Nota de 19 de Fevereiro de 1811, a D. Euzeibio de Bardaxi e


Azara, na Corresp. de Cadiz. (Arch. do Min. das Rei. Ext.)
(2) Corresp. de Cadiz, iMdem.
DOM JOÃO VI NO BRAZIL 355

Si as difficuldades theoricas no tocante aos direitos de


Dona C a r l o t a Joaquina tinham que ser resolvidas em Cadiz,
e n este sentido é que lá se encontrava a chave da situação,
peores difficuldades, as praticas, sabemos como surgiram no
próprio terreno onde devia incidir sua regência, terreno
que estava longe de seguro para a proclamada candidatura
da Infanta. O grupo hespanhol mesmo, de A l z a g a e outros
que tinham intentado o movimento gorado de I 9
de Janeiro
de 1809 contra o vice-rei Liniers, não era partidário da
Princeza, porquanto aspirava a constituir uma J u n t a local,
a exemplo das da Hespanha, com a qual daria a u m tempo
expansão aos seus preconceitos anti-americanos e plena satis-
facção ao seu espirito de governo municipal, em these depen-
dente da metrópole, mas de facto autônomo, apenas tinto de
uma lealdade distantemente platônica. A mallograda suble-
vação de cor hespanhola para deposição do heroe estrangeiro
da Reconquista nacional fora uma verdadeira demonstração
anti-franceza, portanto patriótica na sua forma regional e
tradicional na sua orientação geral, com u m cunho todavia de
particularismo arisco. N ã o acharia n'ella lugar a Pretendente,
que tão somente podia especular com o sentimento monar-
chico ou antes dynastico, reflectindo-se e sobrepondo-se ao
espirito colonial, antes que este se considerasse com forças
para entrar pelo caminho da separação, assumindo a posses-
são e os seus directores a consciência e as responsabilidades
dos seus destinos.
Contucci comprehendia admiravelmente a situação e
enxergava com clareza, como quem conhecia todos os pontos
de vista, que só do lado creoulo seria possível v i r a base e
derivar-se o apoio de que carecia a candidatura de D o n a Car-
lota, ainda mesmo quando a reconhecessem legal e a accla-
356 DOM JOÃO VI NO BRAZIL

massem as Cortes de Cadiz. N a a l l u d i d a e extensa memória


endereçada ao m i n i s t r o L i n h a r e s escrevia elle:
" N ã o posso dispensarme de dizer que concidero como
impocivel r e u n i r h u m concentimento universal e unanime
dos habitantes de Buenos Ayres, Devese forçosamente cami-
nhar o u c o m o apoio do G o v e r n o e M a g i s t r a d o s , o u c o m o dos
crioulos. M a s contemporizando c o m os dous partidos irre-
conciliaveis de interesses, se malograrão todas as propostas.
A prudência do Commissario ( q u e fosse enviado a Buenos
A y r e s ) deverá calcular q u a l de estes dous partidos he o mais
seguro e i n f l u e n t e
N ' o u t r a memória ( i ) apontava C o n t u c c i com abun-
dância de razões o m e l h o r meio a seguir n o seu entender,
que era o de a u x i l i a r justamente o p a r t i d o mais débil, o par-
tido em embryão da libertação americana, o q u a l ainda podia
por convicção o u conveniência abraçar como solução media
a realeza local de D o n a C a r l o t a J o a q u i n a de Bourbon. O
aventureiro aconselhava sem d u v i d a o mesmo que aconselha-
r i a u m h o m e m honesto.
Buenos Ayres reconhecera successivamente differentqs
auctoridades, mas C o n t u c c i explicava bem que não era isso
" d e v i d o á u n i f o r m i d a d e de sentimentos o u de interesses;
pois huns estão prontos a reconhecer qualquer dinastia seja
Franceza, Hespanhola o u M u s u l m a n a , com tan to que achem
nella a concervação dos seus postos e impregos, e a continua-
ção das restricçoens coloniaes; outros dezejão h u m Governo
que dê esperanças de r e f o r m a r a administração, e proscrever
toda a espécie de restricçoens. Este u l t i m o p a r t i d o he o mais
numerozo, porem sem i n f l u e n c i a em razão da discrepância

(1) Arcíh. do Min. das Rei. Ext.


DOM JOÃO VI NO BRAZIL 357

dos seus planos, e progectos. A q u e l l e , m u i t o i n f e r i o r em nu-


mero, prevalesse em razão da união, e identidade das vistas,
e interesses, e da sua r i q u e z a : o Governo, e os Comercian-
tes formão este p a r t i d o dominante. Os A g r i c u l t o r e s , os ho-
mens de letras, e os Eclesiásticos formão aquelle sem i n f l u e n -
cia. A t u r b a segue os impulsos de quem os paga com dinheiro
e não com palavras
A m b o s os partidos estavam, no dizer de Contucci, f o r a
da constituição hespanhola, o que j u s t i f i c a r i a qualquer i n -
tervenção portugueza, a q u a l sob a f o r m a de mediação entre
os dous agrupamentos rivaes, deveria exercer-se fazendo de
preferencia esperar reservadamente protecção ao partido mais
fraco — " i n t r a n d o quanto seja pocivel no seu modo de
pençar, e e x c l u i n d o toda a idéa de conquista, ou de divisão
de território ".
A confiança era indispensável para cimentar a i n t e l l i -
gencia desejável. " E manifestando de novo, como em o u t r o
tempo se praticou, a f i r m e , e decidida resolução da Côrte do
B r a z i l de manter o resto da M o n a r q u i a dentro da l i n h a con-
stitucional; reunirá necessariamente debaixo das suas ban-
deiras h u m grande n u m e r o de Proselytos, e sem exforços ex-
traordinários poderá a Nossa Côrte tomar o ascendente que
corresponde á sua situação, e a importância das suas políticas
relaçoens: porem isto só pode t e r l u g a r no momento actual
em que não t e m authoridade reconhecida que os governe.
T o d o o perigo está na demora e na índecizão. . . Deve-se
esperar que Montevidéo seja o p r i m e i r o que reconheça a
Regência e contribua a decidir Buenos Ayres, ou, ao menos,
a manter em respeito os que sejão oppostos a nossa
Cauza". ( i )

(1) Alem. cit.


D. J . — 23
358 DOM JOÃO VI NO BRAZIL

Não seria demasiada, no j u i z o do agente político da


côrte do R i o de J a n e i r o , t o d a a h a b i l i d a d e , o u descabida toda
a prudência nas regras p o r que se d e v e r i a m p a u t a r occupação
e regência. " D e v e f i c a r i n t e n d i d o que todas as proclamações
serão concebidas no p u r o espirito c o n s t i t u c i o n a l e p o r este
m o d o evitarão a ambigüidade, que pode ser s i n i s t r a m e n t e i n -
terpretada. A b a n d e i r a hespanhola, a f o r m a de G o v e r n o , os
Empregados, as mesmas Milícias não devem ser em parte
a l g u m a molestadas, o u m o d i f i c a d a s , l i m i t a n d o s e a fazer re-
conhecer as povoaçoens da banda o r i e n t a l do R i o da P r a t a ,
a Regência em n o m e de F e r n a n d o V I I e n t r e g a n d o ás Câ-
maras, e C o m a n d a n t e s da f r o n t e i r a d c u i d a d o de m a n t e r a
o r d e m , e o socego n a campanha". N e m se deveria perder
q u a l q u e r ensejo de r e i t e r a r , sempre que fosse o p p o r t u n o , a
intenção do Príncipe R e g e n t e de não consentir " n a separa-
ção da mais m i n i m a p a r t e dos Domínios Hespanhoes ".
O s conselhos de C o n t u c c i s e r i a m excellentes a seguir,
si t a n t a cousa não existisse p a r a os i n v a l i d a r : si á disposição
da I n g l a t e r r a , c o n t r a r i a ao engrandecímento t e r r i t o r i a l da
m o n a r c h i a p o r t u g u e z a e q u e f e z p e r d e r a esta a mais favo-
rável occasião talvez, da sua h i s t o r i a de r e a l i z a r o seu sonho
i m p e r i a l i s t a , se não aggregassem, i g u a l m e n t e infensos, os
g r u p o s antagonistas de Buenos A y r e s e o f e r v i d o sentimento
dynastico, mas hespanhol, do g o v e r n a d o r dissidente de M o n -
tevidéo. V i m o s como E l i o teve que acceitar da côrte dp R i o
o a u x i l i o c o n t r a os rebeldes da o u t r a m a r g e m , mas tão pouco
a d m i t t i a elle i n t r i g a s separatistas da metrópole e de sabor
e s t r a n g e i r o no território sobre que e x e r c i a a u c t o r i d a d e , que
p o r sua o r d e m f o i preso em 1811 e remettido para Cadiz a
bordo da f r a g a t a Proserpina o agente político G u e z z i , a
q u e m a Regência a l l i m a n d o u s o l t a r e pôr á disposição do
DOM JOÃO VI NO BRAZIL 359

ministro Souza Holstein, quando por este foi reclamada a


sua libertação.

O u t r o obstáculo com que não pareciam uns e outros


contar, e que entretanto representou papel importante n'este
negocio, era a altivez irreductivel de D o n a Carlota Joaquina.
Linhares assegurava em 1811 que a f u t u r a Regente em tudo
obraria de accordo com a I n g l a t e r r a e submetteu-lhe mesmo
o rascunho de uma memória destinada ao Príncipe Regente
da G r ã Bretanha, em que annunciando tencionar permane-
cer por tempo indeterminado no B r a z i l e nomear governado-
res do Reino hespanhol para o administrarem na sua ausên-
cia, declararia a Princeza ser também sua f i r m e intenção
agir sempre de perfeita harmonia com o governo britannico,
entregando o indisciplinado exercito nacional ao commando
e preparo de W e l l i n g t o n e seus officaes e recorrendo a pro-
cessos de credito que tornassem menos pesados os sacrifícios
pecuniários inglezes. Assim se collocariam as cousas militares
da Hespanha no mesmo feliz pé em que se achavam as de
Portugal e fiscalizariam as rendas publicas para se não mal-
baratarem os recursos a empregar na defeza, ficando esta-
belecida no Guadalquivir a mesma tutela que reinava no
Tejo.
D o n a C a r l o t a não acquiesceu, porém, em tomar compro-
missos tão formaes e incompatíveis com o seu sentimento de
decoro publico, não querendo i r além de declarações muito
vagas de que conservaria a união existente com P o r t u g a l e
Inglaterra. Vendo, outrosim, que todo o fito do governo do
Príncipe Regente era jogar com o seu nome e direitos, man-
tendo-a todavia inactiva e impotente no R i o de Janeiro, for-
çando-a até a uma quasi abdicação em favor de políticos de
Cadiz, mandou pelo ex-secretario Presas, quando este teve
DOM JOÃO VI NO BRAZIL

de embarcar para Hespanha a exigências de L o r d Strangford,


insinuar ao General Ballesteros que fizesse proclamar pelo
exercito a sua almejada regência.
Presas não encontrou, comtudo, em Cadiz maduro o
plano, nem sequer bem germinada a idéa, posto que adheris-
sem á candidatura da I n f a n t a deputados e outras pessoas de
posição; que naquelle mez de M a r ç o de 1812, em que o
secretario deixou o Paço, houvesse D o n a C a r l o t a sido pelo
tenaz trabalho de Palmella declarada herdeira immediata aos
irmãos, e que, para attingir o seu f i m principal, se prestasse
ella então á comedia de acceitar e applaudir a Constituição.
T a n t o se exhibira Palmella entre os que mais patrocinavam
a pretenção do poderio da Princeza do B r a z i l , que o fez L o r d
Strangford remover, em castigo da sua feliz diplomacia,
para a embaixada de Londres, até ahi occupada pelo conde
do Funchal, irmão de Linhares. T e n d o este fallecido no
começo de 1812, faltara o seu valimento e desapparecera a
sua protecção para D. Domingos lograr sustentar-se no posto,
que tanto prezava que a r r a n j o u meio de n'elle se conservar
uns annos mais, sob pretextos vários.
Com Palmella foram-se de Cadiz as ultimas esperanças
dá I n f a n t a de assumir qualquer senhorio. E assim viveu
D o n a Carlota, como tantos dos seus contemporâneos, de so-
nhos, de illusões e de surprezas, apurando, como único resul-
tado palpável dos seus desígnios ambiciosos, assim como o foi
dos grandiosos projectos insuffiados por D. Rodrigo ao Prín-
cipe Regente, o duplo casamento das Infantas' portuguezas
com o Rei Fernando V I I e seu irmão D o m Carlos. D e s t a r t e
seria pelo menos a sua descendência que subiria ao throno que
ella tão ardentemente cobiçara: mas até n'isto lhe f o i o destino
adverso, porque o f i l h o de D o m Carlos, mercê da revogação
DOM JOÃO V I NO BRAZIL 361

da lei salica que a D o n a C a r l o t a devia a p r o v e i t a r , n u n c a pas-


sou de u m p r e t e n d e n t e i n f e l i z , e a successão da coroa hespa-
n h o l a r e v e r t e u em f a v o r da f i l h a de u m terceiro casamento
de F e r n a n d o V I I c o m u m a B o u r b o n de Nápoles.
A regência o u r e i n a d o da P r i n c e z a do B r a z i l era u m a
hypothese demasiado possível e demasiado próxima p a r a que
pudesse sobretudo s o r r i r aos que, sob c o l o r de g u a r d a r e m
f i d e l i d a d e ao R e i l e g i t i m o , pensavam c o m soffreguidão na
c o m p l e t a emancipação, u m resultado porventura j u l g a d o i r -
r e a l i z a v e l na metrópole, mas que f o r a previsto p o r estadistas,
economistas e publicistas como A l b e r o n i , T u r g o t e Raynal,
e que a separação da A m e r i c a I n g l e z a t o r n a r a provável com
fornecer u m exemplo palpável. A q u e l l a soffreguidão mais
f o r t e parecia de 1808 a 1810, antes dos factos consummados
no sentido da separação, apezar da a n a r c h i a m o r a l das popu-
lações e das desordens das facções.
Então as d i f f i c u l d a d e s de execução do ousado p r o j e c t o
indicavam a c a n d i d a t u r a de D o n a C a r l o t a como u m recurso
precioso; assim como subsequentes embaraços, provenientes
do restabelecimento da dynastia hespanhola e da restauração
bourbonica em França c o m o a c o m p a n h a m e n t o da reacção
m o v i d a pela Santa Alliança, f i z e r a m v o l t a r á t o n a e alas-
trar-se pela persuasão a solução m o n a r c h i c a , m u i t o acariciada
por B e l g r a n o e pelo D i r e c t o r R i v a d a v i a , o p r i m e i r o sob a
f o r m a romântica e pseudo-nacionalista de u m descendente
dos Incas a casar c o m u m a I n f a n t a p o r t u g u e z a , o segundo
na f o r m a mais p r a t i c a e i n t e l l i g e n t e de u m príncipe d a Casa
de B o u r b o n .
CAPITULO IX

RELAÇÕES COMMERCIAES DO BRAZIL. 08 TRATADOS DE 1810

Com a mudança da côrte e a conseqüente abertura dos


portos brazileiros ao commercio universal, é evidente que va-
riaram por completo as condições mercantis da colônia. Dan-
tes, no regimen de monopólio da metrópole, os negociantes
portuguezes, em l i v r e concorrência ou por estancos, fixavam
a seu talante o preço dos gêneros ultramarinos e pagavam-
n'os com artigos europeus pelo preço que elles próprios,
únicos intermediários, igualmente determinavam. Era um
contrato em que uma das partes carregava com todos os ônus
e a outra com todas as vantagens.
N o B r a z i l , aliás, se vivia economicamente muito como
na China, produzindo a terra tudo de que carecia a popula-
ção. Exceptuavam-se, todavia, os braços e as manufacturas
de luxo. Importavam-se os primeiros da África e as segundas,
as poucas que permittiam a concepção geral de conforto e os
meios do commum dos consumidores, do Reino. N e m para
Portugal residia o valor das colônias no gasto das suas manu-
364 DOM JOÃO V I NO BRAZIL

facturas ou no emprego da sua navegação e dos seus braços


supérfluos, como o aconselharia uma sã economia política.
Os trabalhadores não superabundavam em Portugal, sendo
todos os do B r a z i l negros escravos; a navegação era nacional,
isto é, portugueza, mas só até á metrópole, ahi baldeando-se
os gêneros coloniaes para navios estrangeiros, geralmente i n -
glezes, que os conduziam ao seu f i n a l destino; as manufa-
cturas que as colônias compravam e usavam, longe de serem
producto da industria do Reino, vinham de ordinário na
mesma forma do estrangeiro, do norte da Europa para
Lisboa, onde eram reexportadas.
O lucro que P o r t u g a l tirava das possessões estava, pois,
todo nos direitos cobrados pela metrópole sobre as expor-
tações para as colônias e as importações destas colônias,
m u i t o mais do que nos proventos industrial e marítimo. Era
uma exploração econômica, em vez de ser uma remuneração
financeira que aproveitasse a todos os elementos da organiza-
ção mercantil. Os impostos directos pagos pelo commercio
brazileiro, ou melhor, o commercio estabelecido no Brazil,
e que indirectamente recahiam sobre os consumidores nacio-
naes, como não podia deixar de acontecer pela falta de con-
correntes nas transacções coloniaes, subiam a 150 0/0 no cal-
culo feito por Luccock, que f o i negociante da praça do Rio
depois da franquia dos portos. Q u e r isto simplesmente dizer
que P o r t u g a l recebia 250 libras por cada 100 libras man-
dadas sob a forma de material de escambo ou antes de
venda e de trabalho, além dos ganhos apurados nos fretes,
juros do capital empregado, monopólios e estancos, etc.
C o m o todo e qualquer productor, o B r a z i l precisava de
vender para poder comprar: mais do que qualquer outro,
porém, visto ser essa sua única riqueza, colher para logo
DOM JOÃO V I NO BRAZIL 365

e x p o r t a r , e m l u g a r de p r o d u z i r p a r a i r a c c u m u l a n d o . A i n d a
h o j e assim acontece, p o r q u e vivemos do excesso immediato
da nossa producção agrícola e e x t r a c t i v a . D o m João V I poude
a b r i r as p o r t a s ao t r a f i c o geral, promover portanto a ri-
queza, mas não l h e assistia o poder de crear m i l a g r o s a m e n t e
uma f o r t u n a publica.

O B r a z i l e n t r o u a negociar d i r e c t a m e n t e , posto que não


negociasse c o m seus próprios capitães n e m empregasse seus
próprios navios mercantes, que u n s e o u t r o s f a l l e c i a m . Ape-
nas, q u a n d o a navegação d e i x o u de ser exclusiva, d e i x o u a
p a u t a de ser p r o h i b i t i v a , c o m o o era n u m paiz m u i t o e m b o r a
sem q u a l q u e r i n d u s t r i a . P o r e f f e i t o do decreto de 1808 pas-
saram os 4 8 0/0 percebidos nas Alfândegas nas importações
a 2 4 0/0, e mesmo depois de 1 8 1 0 a 15 0/0 para os Inglezes,
mais favorecidos de facto do que os Portuguezes, os quaes,
além de m u i t o menos apparelhados para os negócios e sem
i n s t r u m e n t o s de t r a n s p o r t e , p a g a r a m até 1818 16 0/0 sobre
as suas importações n o B r a z i l .
O R i o de J a n e i r o tornou-se n a t u r a l m e n t e , n a t r a n s f o r -
mação da existência m e r c a n t i l da colônia, o g r a n d e entre-
posto b r a z i l e i r o . A h i a f f l u i r a m as mais variadas mercadorias
para consumo l o c a l , distribuição pela costa, sobretudo entre
B a h i a e Montevidéo, mas mesmo p a r a o n o r t e , e collocação
nos sertões mais remotos, n'um g r a n d e d e s e n v o l v i m e n t o do
c o m m e r c i o que a n t e r i o r m e n t e exi-stia a p a r de m u i t o con-
trabando.
Em 1817 e 1818, q u a n d o Spix e M a r t i u s r e c o l h i a m
suas impressões, o R i o estava sendo mais do que L i s b o a
t h e a t r o de especulações e campo de a c t i v i d a d e commercial.
D e P o r t u g a l l h e chegavam vinhos, azeites, f a r i n h a de t r i g o ,
sal, vinagres, bacalhau, azeitonas, lãs, presuntos e paios, f r u -
366 DOM JOÃO V I NO B R A Z I L

tas seccas, chapéos, algodões, sapatos, pólvora ( I ) , cordame,


etc.; da índia e China, directamente, porcelanas, musselinas,
sedas, chá, canella, camphora, e t c ; do Reino U n i d o , fazen-
das, metaes, gêneros alimentícios e mesmo vinhos hespanhoes
por via de G i b r a l t a r ; da França, artigos de luxo, quinquilhe-
rias, moveis, livros e gravuras, sedas, manteiga, licores, velas,
drogas; da H o l l a n d a , cerveja, vidros, linho e genebra; da
Áustria, que commercialmente abrangia o -norte da Itália
e o sul da Allemanha, relógios, pianos, fazendas de linho e
seda, velludos, ferragens, productos chimicos; do resto da
Allemanha, vidros da Bohemia, brinquedos de Nuremberg,
utensílios de ferro e latão; da Rússia e Suécia, utensílios de
ferro, aço e cobre, couro, alcatrão, breu, vigas; da Costa
d'Africa, isto é, tanto de A n g o l a como de Moçambique, negros
(20.000 no anno de 1817), ouro em pó, m a r f i m , pimenta,
ebano, cera — de que as egrejas consumiam carregamentos—
azeite de dendê, gomma arábica; de Cabo Verde, sal e
enxofre.
Para as colônias africanas e asiáticas de Portugal, o
Rio de Janeiro representou durante o reinado americano de
D o m João V I o que antes representava Lisboa. O commercio
portuguez com a índia e China localizou-se na praça do Rio,
de onde se faziam as reexportações para Lisboa e outros pon-
tos europeus, e também para o resto da America, pois que,
por causa das difficuldades da situação política no Prata, o
próprio trafico para Buenos Ayres e Montevidéo se operou
algum tempo pela capital brazileira.

(1) No anno mesmo da chegada da família real fundou-se no


Rio a f r b r i c a de pólvora dirigida pelo brigadeiro e inspector de arti-
lheria Napion, Piemontez muito versado em metallurgia, que já em
Lisboa se oocupara do fabrico de explosivos e viera para Portugal
na compannia de D. Rodrigo de Souza Coutinho quando findou a mis-
são d'este diplomata em Turim.
DOM JOÃO V I NO B R A Z I L 367

O commercio brazileiro com a Asia era, comtudo, por


si mesmo valioso. Segundo as estatísticas do Correio Brazi-
liense, as importações da Bahia, por exemplo, foram no anno
de 1808, no tocante á Europa, inclusive P o r t u g a l e fabricas
privilegiadas, da importância de 1.000 contos, e no tocante •
á Asia da importância de 373 contos. N o anno immediato
elevaram-se as primeiras importações a 2.000 contos e as se-
gundas a 443 ( 1 ) .
As principaes exportações do Rio, as que lhe eram pe-
culiares, comprehendiam assucar, cultivado nas baixadas
perto do mar, mormente á roda da Capital e nos districtos de
Cabo F r i o e Campos, e de que se exportaram, no anno typico
de 1817, 680.000 arrobas; café, cultivado mais para o i n -
terior, na zona accidentada, e cuja producção progredia
muito, exportando-se em 1817 9.567.960 libras e em 1820
H-733-540 libras; algodão, que m u i t o d'elle vinha, comtudo,
de M i n a s Geraes, e fumo, que em parte vinha do Espirito
Santo.
Para consumo e reexportação para dentro e fora do
paiz desembarcavam entretanto no porto do R i o de Janeiro
couros, chifres, xarque, sebo, toucinho, cebolas, arroz, feijão,
queijos, farinha de trigo e de mandioca, algodão, assucar e
aguardente do R i o Grande do Sul e de São Paulo; sola, cebo-
las, alhos, peixe secco e louça de barro de Santa Catharina;
legumes, peixe, productos florestaes, lenha e carvão, pau-bra-
sil, cocos, tabaco dos pequenos portos ao norte do Rio —

(1) Os artigos da Asia e China, 011 por outra, das terras d'além
do Cabo da Boa Esperança, importados em navios portuguezes, paga-
vam 16 por cento como os do Reino. POT favor especial porém,' os da
índia e Aifrica Oriental pagavam 8 por cento em P o r t u g a l e Brazil,
tenido livre franquia nos outros portos da Asia e China. I g u a l isenção
receberam em 1810 as mercadorias exportadas de Maicao t m navios
portuguezes.
ws DOM JOÃO VI NO BRAZIL

São João do Parahyba, Macahé, Caravellas, Victoria, e t c ;


toneis de gamelleira e cal de Cabo F r i o ; cal e louça de barro
da I l h a Grande; fumo, tucum e escravos da Bahia; sal, sa-
litre e artigos europeus de Pernambuco; pelles, couros, xar-
que, farinha de trigo — o mesmo que do R i o Grande do Sul
— de Buenos Ayres e de Montevidéo. Fazia-se essa nave-
gação costeira em embarcações de u m ou dous mastros, con-
struídas nos estaleiros dos portos maiores, de cujos arsenaes
sahiam até fragatas de guerra.
Por terra não era o trafico da Capital com as capitanias
da costa e do interior menos extenso e remunerador, vindo
do R i o Grande do Sul e de São Paulo gado em pé, vaccum,
cavallar e muar; de M i n a s algodão em rama, café, fumo ( i ) ,
pedras preciosas, queijos, rapadura e tecidos muito baratos
de algodão; de Goyaz e M a t t o Grosso ouro em pó e em
barras e diamantes.
Para o interior do B r a z i l as principaes exportações do
R i o eram pannos, ferragens, sal, vinhos e cocos; para as
possessões africanas fazendas, assucar, aguardente, fumo,
arroz e farinha; para a índia parte do numerário em barras
de ouro e piastras hespanholas, que em poucos annos se ele-
vou a perto de 800.000 libras esterlinas.
A superioridade das exportações sobre as importações
determinava a entrada de dinheiro da Europa, mas a pro-
cura de ouro na Europa durante a serie de guerras continen-
taes e depois a procura do metal no Extremo Oriente, se-
gundo rezam os fastos financeiros, occasionaram-lhe subida
no valor, chegando o prêmio a 16 e 17 0/0. C o m esta drena-
gem, o esgotamento das minas, o desenvolvimento das rela-
(1) No anno de 1820 mandou a capitania de Minas para o Rio
70.467 arrobas de algodão, 20.000 arrobas de caifé e 54.2&1 arrobas
de fumo.
DOM JOÃO VI NO BRAZIL 369

ções mercantis e o accrescimo da riqueza publica e particular,


não mais bastava para o meio circulante do B r a z i l e Portugal
o quinto do ouro extrahido em M i n a s Geraes, que era
o u t r o r a sufficiente. A grande contracção resultante na cir-
culação monetária fez por vezes subir o j u r o das letras a
20 e 22 0/0, sendo de 12 0/0 o j u r o usual para contas abertas
entre negociantes. Devido á carência de numerário acharam
então entrada no B r a z i l muitas piastras mexicanas, que va-
liam 750 réis, e o Thesouro comprava para recunhar e emit-
tir á taxa de 960 réis ( u m peso), o que as fez artificialmente
subirem a 915 réis. Descarte pagava o Thesouro por 22 —
valor intrínseco do ouro — o que lhe não renderia mais do
que 17. ( 1 ) -
Pelo tempo em que viajavam Spix e M a r t i u s e de
accordo com o mappa por elles deixado relativo ao anno de
1817, o total das exportações do R i o de Janeiro subia em
valor a 5.400 contos, produzindo de direitos para o The-
souro não longe de 150 contos, porque, além dos 2 0 / 0 co-
brados sobre todo producto exportado e calculados sobre o
preço do mesmo no mercado, existiam as taxas especiaes, de
160 réis pela caixa de assucar, 80 réis por arroba de café, 100
réis por bala de algodão, 20 réis pelo couro e 20 réis pelo rolo
de fumo. A exportação do algodão sommava 320.000 arrobas
em 40.000 balas ou fardos, representando em 1817 o valor
de 2.560 contos; a de couros valia no mesmo anno 614 con-
tos, equivalentes a 512.000 peças, e a de fumo 180 contos,
equivalentes a 18.000 rolos ou pacotes.
Quanto a preços, o médio do assucar, entre o branco
fino e o mascavado, era de 200 réis por arroba; a arroba de
café custava 2$400 réis; 8$ a de algodão; i $ 2 0 0 o couro de

(1) Luiocock, ob. cit.


370 DOM JOÃO VI NO BRAZIL

boi e 6$ os 50 kilos de tabaco. Naturalmente os preços oscil-


lavam conforme a m a i o r o u m e n o r p r o c u r a do gênero, e a
p r o c u r a dava-se m a i o r q u a n d o o c c o r r i a m certas c i r c u m s t a n -
cias extraordinárias. A g u e r r a de 1812, p o r exemplo, entre
a I n g l a t e r r a e os Estados U n i d o s , f o i de g r a n d e proveito
p a r a o B r a z i l , c o m o o seria depois a g u e r r a c i v i l de 1861-
1865, i m p e d i n d o a r e g u l a r exportação do algodão americano
para o mercado britannico.
Em ambas as occasiões o nosso algodão subio considera-
velmente, podendo dizer-se que d u r a n t e o r e i n a d o de Dom
João V I c o n s t i t u i o , graças aos c o m p r a d o r e s inglezes, o p r i n -
c i p a l a r t i g o da exportação b r a z i l e i r a , o que m e l h o r corres-
p o n d i a aos esforços empregados pelo g o v e r n o p a r a proteger
o c o m m e r c i o n a c i o n a l , r e f l e c t i d o s n a J u n t a creada em 1808
e r e f o r m a d a em 1816. F o i t a m b é m este o anno em que o
R e i m a n d o u estudar, em conferências de peritos presididas
pelo conde da B a r c a o u pelo m a r q u e z de A g u i a r , os meios
de estabelecer c o m p l e t o u m systema de relações commerciaes
que já f u n c c i o n a v a de facto, mas e r a c o n v e n i e n t e f o m e n t a r
e n t r e os d i f f e r e n t e s domínios p o r t u g u e z e s , t e n d o p o r núcleo
o R i o de J a n e i r o . E r a p o r o u t r o l a d o idéa p r i v a t i v a de M a -
cáo f a z e r n o B r a z i l o entreposto das m e r c a d o r i a s >da China,
e n c o n t r a n d o os estrangeiros no R i o a q u i l l o q u e costumavam
i r buscar a Cantão.
Num sentido não a j u d a v a m os p r o d u c t o r e s brazileiros
e vendedores portuguezes os beneméritos esforços do go-
v e r n o , e é que, p a r a g a n h a r e m u m a s patacas a mais, adulte-
r a v a m c o m freqüência os gêneros, m i s t u r a n d o areia com o
assucar, sementes c o m o algodão, o u t r a s substancias extra-
nhas c o m o a r r o z ( 1 ) . Estava-se na infância da arte da f a l -

(1) Correio Brazilienêe.


DOM- JOÃO VI NO BRAZIL 371

síficação; era o empirismo da velhacaria; não passava de um


e f f e i t o de trapaçaria e ao mesmo tempo de ignorância, mas
em todo caso p r e j u d i c a v a a l t a m e n t e o renome da exportação
nacional.

Igualmente se d e r a m alguns abusos de confiança ao


introduzir-se o regimen de c r e d i t o m e r c a n t i l , a n t e r i o r m e n t e
desconhecido n a p r a t i c a . N o s tempos coloniaes quasi se não
f a z i a negocio a l g u m a c r e d i t o , n e m se p u n h a c o m m u m m e n t e
d i n h e i r o a j u r o s no B r a z i l : enthesourava-se no pé de meia e
vendia-se contado. N e m se f o r m a v a idéa exacta do v a l o r e
i n f l u e n c i a do c a p i t a l , o u se emprestava sobre cauções, o u se
descontavam letras. Somente e m 1810 f o i l e v a n t a d a a p r o h i -
bíção para todo o c o m m e r c i o marítimo de d a r dinheiros o u
o u t r o s f u n d o s a risco pelo prêmio que pudessem a j u s t a r os
seguradores. E x i s t i a m , n a t u r a l m e n t e , em todo o t e m p o d i v i -
das; davam-se declarações de obrigações p o r c o n t r a t o s e su-
jeições a penhoras o u execuções; o que, porém, não h a v i a era
operação a l g u m a c o m m e r c i a l baseada p r o p r i a m e n t e sobre o
credito. D i z L u c c o c k que o f i a d o r de u m c o n t r a t o o u de
uma obrigação só e r a forçado a pagar depois de declarado
insolvente o devedor, e que algumas, não raras vezes no seu
conhecimento, escapavam os bens de ambos a todo e q u a l q u e r
r i g o r da lei.
D o t e m p o de D o m João V I d a t a a fundação do p r i n c i -
pal estabelecimento de c r e d i t o b r a z i l e i r o , o q u a l c o m f o r t u n a
v a r i a t e m atravessado o nosso século de v i d a autônoma pres-
t a n d o serviços á economia nacional, posto que n e m sempre
isenta a sua administração de abusos e malversações. O
Banco d o B r a z i l f o i enchido de m i m o s pelo g o v e r n o que o
o r g a n i z o u . P a r a a u g m e n t a r os favores de todo gênero que
lhe f o r a m dispensados, de facto para t o r n a r mais solida a
372 DOM JOÃO V I NO BRAZIL

instituição, ordenou o Príncipe Regente que o dinheiro dos


orphãos, das ordens terceiras e das irmandades, o qual antes
se p u n h a a render nas mãos de particulares, fosse de então em
diante entregue ao Banco, passando-se mesmo logo para a
sua caixa aquelle que na occasião estivesse com particulares.
O Banco pagaria os capitães nos prazos convencionados e os
j u r o s nos dos costume, ficando para garantia d'essas quantias
sob hypotheca os fundos da caixa de reserva do estabele-
cimento.
M a i s se dispoz que fosse de n e n h u m effeito toda a pe-
nhora, o u execução fiscal, o u eivei, feita nas acções do
Banco, e que os seus bilhetes se recebessem como dinheiro
nos pagamentos realizados á fazenda real e os distribuísse
da mesma f o r m a o Erário Regio nos pagamentos das despe-
zas do Estado. E m 1812, pelo alvará de 2 0 de O u t u b r o ,
era o Banco do B r a z i l favorecido com cem contos annuaes
de imposições adrede creadas por espaço de dez annos sobre
seges, lojas, armazéns, officinas e navios. A r e a l . fazenda
d'este modo e n t r a v a como accionista para a u x i l i a r o estabele-
cimento m o n t a d o debaixo de tantas esperanças; mas das en-
tradas realizadas nos cinco primeiros annos não queria re-
ceber l u c r o algum, destinando t u d o q u a n t o l h e pudesse
caber para proveito dos accionistas particulares.
C h e g o u o Banco a inspirar grande confiança. Conta
T o l l e n a r e ( 1 ) que os Inglezes do Recife, com o f i m de ex-
p e r i m e n t a r e m a sua solidez, j u n t a r a m trez milhões de cru-
zados em notas e apresentaram-n'as a troco, sendo immedia-
tamente satisfeitos, o que robusteceu m u i t o no momento o
credito do estabelecimento. T o l l e n a r e , como esperto nego-
ciante, divisava, porém, o defeito capital da instituição.

£1) Ms. das Notes ãominicales.


DOM JOÃO V I NO BRAZIL

N ã o se deve esquecer, p o n d e r a elle nas suas reflexões


semanaes, que os bancos só alcançam tantos privilégios dos
governos p o r q u e se c o m p r o m e t t e m , pelo menos t a c i t a m e n t e ,
a conceder-lhes g r a n d e c r e d i t o ". E, c o m effeito, o próprio
governo acabou p o r quasi a r r u i n a r o B a n c o do B r a z i l , c u j a
gerencia estava, aliás, longe de ser u m m o d e l o de r e g u l a r i -
dade e probidade.

E' sabido que p a r a o regresso da família real para


P o r t u g a l f o i o B a n c o posto a saque. P o u c o antes de embar-
car, a 23 de M a r ç o de 1 8 2 1 , t i n h a o R e i de m a n d a r consi-
derar dividas nacionaes os desembolsos do B a n c o nas suas
transacções c o m os cofres públicos, o u adiantamentos effe-
ctuados para supprir as urgências do Estado, declarando
responsáveis para c o m essas dividas as rendas do R e i n o do
B r a z i l e o u t r o s r e n d i m e n t o s , e m a n d a n d o e n t r a r para a caixa
do B a n c o os b r i l h a n t e s lapidados que se achassem no Erário.
Quasi naufragou então o estabelecimento, levado a pique
pelos próprios que t a n t o o t i n h a m favoneado.
A honestidade não era, como já houve ensejo de recor-
dar, u m traço caracteristico da sociedade b r a z i l e i r a em t e m p o
d'El-Rei D o m João V I . Indivíduos honestos, e no m á x i m o
grau, c e r t a m e n t e se e n c o n t r a v a m , mas não c o m a desejável
freqüência. N o Thesouro refere Luccock ser t a m a n h a a
f a l t a de escrúpulos que c o r r e n t e m e n t e se d e d u z i a m prêmios
— u m a vez chegou a forçada reducção a 17 0/0 do t o t a l —
sobre as q u a n t i a s pagas o u sacadas. Note-se que taes prêmios
não e r a m exigidos pelo fisco, mas e x t o r q u i d o s pelos empre-
gados p a r a d a r e m a n d a m e n t o a u m expediente que se t o r n a r a
s u m m a m e n t e moroso e c o m p l i c a d o sob essa c o m m a n d i t a de
f u n c c i o n a r i o s infiéis. V e r d a d e é que, ao passo que as p r o d i -
galidades da u c h a r i a se p a g a v a m p o n t u a l m e n t e , esses func-
D. J. — 24
374 DOM JOÃO VI NO BRAZIL

cionarios da nação andavam com atrazo de nove a doze


mezes nos seus salários, sendo m u i t o s assim compellidos a
dependerem da fraude para a sua subsistência ( I ) .
Para os fornecimentos era preferido quem mais desse
de luvas. N o s annos immediatamente anteriores á partida
da côrte para Lisboa, as cousas sob este aspecto peoraram
m u i t o no dizer do mencionado negociante inglez. E r a m
notórios os escândalos, freqüentes as concussões, e a advo-
cacia a d m i n i s t r a t i v a p u l l u l a v a , trabalhando sem rebuço os
agentes ou corretores, que nos negócios em que o Estado
t i n h a parte se i n t e r p u n h a m com o f i m de receberem corn-
a i issões.
N o domínio c o m m e r c i a l o acto mais i m p o r t a n t e e de
mais graves conseqüências do reinado americano de D o m
João V I foi o tratado de 1810, arrancado á condescendência
anglophila de D. R o d r i g o de Souza C o u t i n h o ao cabo de
dous annos de laboriosas conversações e tenazes esforços por
parte do representante britannico. E r a L o r d Stra-ngford um
desses diplomatas do typo de L o r d S t r a f f o r d de Redcliffe,
Sir R o b e r t M o r i e r e L o r d Cromer, que a I n g l a t e r r a cos-
t u m a e x p o r t a r para certos paizes; que teem mais de protecto-
res do que de negociadores, e que impõem com mais brutali-
dade do que persuasão o reconhecimento egoísta dos interes-
ses dos seus concidadãos e da sua nação.
N e m fazia elle mais do que obedecer á política do seu
governo. O Reino U n i d o deixara de occultar seus fins,
que já se podiam q u a l i f i c a r de francamente ímperialistas.
N'um discurso famoso, p r o n u n c i a d o na C â m a r a dos Com-
muns, desvendara o grande P i t t o f i t o capital da expansão

(1) Corresp. do Maler no Arch. do Min. dos Neg. Est. de


Franga.
DOM JOÃO VI NO BRAZIL 375

britannica, fazendo-se o Pedro o E r e m i t a da nova cruzada


que visava, em vez de conquistar aos infiéis o sepulchro do
Christo, a conquistar sobre os restantes fieis a supremacia
m e r c a n t i l do globo. S t r a n g f o r d era de tempera a participar
da campanha: estava perfeitamente talhado para o seu posto
e possuía a consciência da sua força, derivada do próprio
valor e do valor das circumstancias portuguezas. D V l l e es-
crevia o m i n i s t r o americano Sumter, com eloqüente laco-
nismo, que era " pessoalmente odiado, politicamente temido,
respeitado e obedecido " ( i ) .
D o Príncipe Regente dizia o representante dos Estados
Unidos, na mesma occasião, que era pessoa de boas intenções
e que não descurava aquillo que se j u l g a v a ser o interesse
nacional, mas que o seu espirito ductil e opportunista tras-
bordava de confiança pela I n g l a t e r r a . N ã o era, comtudo,
tanta a confiança que o fizesse abdicar da sua personalidade
de opiniões. C o m mais exactidão descrevia Sumter o estado
d^alma do m i n i s t r o Linhares, o qual pelos mesmos racionaes
motivos pensava de igual maneira. " E' u m homem de i n t e l l i -
gencia, com vistas profundas no que diz respeito a interesses,
política e recursos do seu paiz; percebendo, porém, que este
não pode sustentar-se isolado e concebendo u m a justa idéa
da ascendência britannica, ao mesmo tempo reconhecendo
que o u t r o qualquer no seu l u g a r não faria melhor e poderia
fazer peor, estabeleceu u m a transacção entre o seu patrio-
tismo e a sua ambição, e n esta posição se conserva".
O tratado de 1810 foi franca e inequivocamente favorá-
vel á G r ã Bretanha, si bem que diga o preâmbulo ter elle por
fito "adoptar u m systema liberal de commercio, fundado so-

(1) Carta ao Secretario d'Estado Robert Smith, de 3 de Se-


t e m b r o de 1810, rto A r c h . do Dejpart. d'Est. de W a s h i n g t o n .
376 DOM JOÃO VI NO EKAZIL

bre as bases da reciprocidade, e m u t u a conveniência, que pela


discontinuação de certas prohibições, e direitos prohibitivos,
podesse procurar as mais sólidas vantagens de ambas as par-
tes, ás producções e i n d u s t r i a nacionaes, e dar ao mesmo
tempo a devida protecção tanto á renda publica, como aos
interesses do commercio justo, e legal/'
N ã o era empreza fácil a conclusão de u m tratado equi-
tativo entre o B r a z i l e a I n g l a t e r r a pelo que toca ás relações
mercantis. Interesses havia que eram irreconciliaveis. H i p -
polyto expoz lucidamente as condições do caso. E m primeiro
lugar alguns dos gêneros brazileiros, como o assucar e o
café, entravam em concorrência com as producções das colô-
nias inglezas e por este facto estavam v i r t u a l m e n t e excluí-
dos do mercado b r i t a n n i c o ; outros não encontravam na I n -
glaterra consumo considerável, o contrario do que acontecia
com os vinhos e azeites portuguezes, cuja avultada exporta-
ção carecia a metrópole de zelar.
Depois, pela sua situação geographica, distancia dos
centros de intrigas políticas, m a g n i t u d e t e r r i t o r i a l , dispersão
dos núcleos de povoação, não era o B r a z i l u m paiz que t i -
vesse de receiar pela sua independência tanto quanto acon-
tecia com P o r t u g a l , sempre ameaçado de absorpção pela v i -
sinha Hespanha: d'ahi a dispensa que lhe cabia de fazer fa-
vores commerciaes por motivos políticos. A l é m de que, quaes-
quer favores concedidos o seriam em detrimento do f u t u r o
eventual das industrias brazileiras, pois, sendo ainda muito
pouco conhecidos no próprio B r a z i l os productos naturaes
da terra, impossível se tornava dizer si muitos d'elles não se
prestariam a fins industriaes.
Finalmente o regimen exclusivo outorgado ás manufa-
cturas da G r ã Bretanha arredava a contingência de entabo-
DOM JOÃO VI NO BRAZIL 377

larem-se outras ligações mercantis, com os Estados Unidos


por exemplo, cujas industrias entravam por esse tempo a
florescer e p o r v e n t u r a estariam no caso de alimentar o mer-
cado brazileiro c o m alguns artigos mais em conta o u mais
apropriados ás suas exigências ( i ) .
O ministro americano chegara com as melhores inten-
ções, de promover o desenvolvimento do commercio do seu
paiz, e logo de começo n u t r i a certas esperanças, achando
que o acolhimento cordial que tivera na p r i m e i r a hora provi-
nha tanto da satisfacção n a t u r a l a uma côrte de ver augmen-
tada a representação diplomática n ella acreditada como do
interesse no alargamento do trafico nacional. "As circum-
stancias e ligações actuaes, accrescentava elle, devem fazer
quaesquer outras considerações afora estas parecerem em de-
masia indistinctas para exercerem m u i t a impressão sobre u m
governo que, como a m o r parte dos outros nos nossos tem-
pos, anda obrigado a cogitar mais de expedientes que de pla-
nos permanentes para longínquas vantagens" ( 2 ) .
O t r a t a d o celebrado c o m l o r d S t r a n g f o r d prompto
veio porém ceifar todas as esperanças americanas. Commen-
tando-o ( 3 ) , apoz remettel-o n u m a copia impressa a 17 de
O u t u b r o — . n'esta data ajuntando não poder dar conta do
seu effeito sobre a opinião publica, porquanto todas as
classes da população t i n h a m estado entretidas durante os seis
dias anteriores em corridas de touros ao ponto de tudo esque-
c e r e m — ponderava Sumter judiciosamente: "Tendes obser-
vado que o f i t o e effeito principaes dos actuaes convênios
são extender ao B r a z i l o antigo systema de connexão entre

(1) Correio Braziliense, passim.


(2) Carta de 23 de Julho de 1810, no Arch. do Depart. d'Est.
de Washington.
(3) Officio de 8 de Novembro de 1810, iuidem.
378 DOM JOÃO VI NO BRAZIL

Portugal e Inglaterra, e restabelecer os tratados abrogados


pouco antes da trasladação do príncipe".
O ministro dos Estados Unidos já então não desco-
nhecia circumstancia alguma das que acompanharam essa
trasladação. Soubera de certo que a intimação napoleonica de
divorcio da I n g l a t e r r a fora f o r m u l a d a aos 12 de Agosto de
1807, e a resposta de P o r t u g a l fora combinada com o gabi-
nete de Saint-James por intermédio de D. Domingos de
Souza Coutinho. Soubera mais que o Regente somente con-
sentira em fechar os portos aos Inglezes a 22 de O u t u b r o
— quatro dias apoz o exercito invasor francez ter entrado na
Hespanha por v i a de Bayonna — depois d'elles liquidarem
suas propriedades em Portugal, com prazo i l l i m i t a d o para o
pagamento dos direitos de sahida, e ao mesmo tempo que
partia para Pariz, carregado de poderes e de diamantes, o
marquez de M a r i a l v a , a quem ia confiada a tarefa de aplacar
a i r a do terrível Imperador, e de pedir para o Príncipe
Real D o m Pedro a m ã o de uma f i l h a do antigo estribeiro
M u r a t . Soubera finalmente de quão longe datava e quão
estreita se fizera a relação estabelecida entre Portugal e a
Grã Bretanha.
Portugal, quando em 1640 se libertara da Hespanha,
concedera, para as attrahir, vantagens commerciaes a outras
nações que aliás de qualquer modo o apoiariam, por estar
no seu interesse a decadência da Hespanha e portanto a in-
dependência do Reino. A ruína da industria portugueza
pode dizer-se que data verdadeiramente, outras circumstan-
cias a ajudando, das exigências que uma t a l política de con-
cessões provocou das partes contrarias. T e n d o comtudo a
França, no afan de proteger as suas A n t i l h a s recentemente
adquiridas, excluído no anno de 1664 do mercado nacional,
DOM JOÃO V I NO BRAZIL 379

em f a v o r do próprio monopólio, o assucar e o f u m o b r a z i l e i -


ros, a côrte de L i s b o a , onde então d o m i n a v a o espirito vigo-
roso de C a s t e l l o M e l h o r , r e t a l h o u p r o h i b i n d o a e n t r a d a n o
R e i n o de mercadorias francezas.
D e u isto azo a que G ê n o v a se apoderasse do mercado
p o r t u g u e z p a r a as suas sedas, e que a I n g l a t e r r a visasse ao
mesmo r e s u l t a d o n o tocante ás lãs, a i n d a que c o m menos f o r -
t u n a visto em 1681 começarem os Portuguezes a utilizar
i n d u s t r i a l m e n t e a lã dos seus carneiros ( i ) . Successos polí-
ticos v i e r a m n o e m t a n t o p r e p a r a r a posição a l v e j a d a pelo
commercio britannico. A subida de P h i l i p p e V, príncipe
f r a n c e z e f o r t e m e n t e sustentado p o r L u i z X I V , ao t h r o n o
da H e s p a n h a f e z P o r t u g a l receíar de n o v o pela sua i n t e g r i -
dade c o m ver-se desamparado da França, e levou-o a lan-
çar-se nos braços da G r ã B r e t a n h a . O celebre t r a t a d o de
• M e t h u e n , em 1703, que deu ás m a n u f a c t u r a s inglezas de lã
o monopólio do mercado p o r t u g u e z e m a t o u no R e i n o esta
i n d u s t r i a , f o i o p r o d u c t o de semelhante phase diplomática.
C o m o a I n g l a t e r r a pouco r e l a t i v a m e n t e consumia dos
productos agrícolas do Reino, houve o saldo que ser pago
c o m o u r o do B r a z i l e assim f o i a q u e l l a nação progressiva-
mente açambarcando todo o t r a f i c o c o m P o r t u g a l , para a h i
exportando seu t r i g o , sua q u i n q u i l h e r i a , munições, navios
e até capitães, os quaes, tomados em L o n d r e s a 3 o u 3 ^
por cento, e r a m emprestados em L i s b o a a j u r o de 10 p o r
cento. O próprio c o m m e r c i o i n t e r i o r passou em boa p a r t e
para as casas da feitoría i n g l e z a , c o m seus correspondentes
nas varias províncias. O ouro que sahia não e r a somente
para p a g a m e n t o do excedente das exportações inglezas sobre
as importações p o r t u g u e z a s : carregavam-no t a m b é m os na-

(1) Raymal, ob. cit.


380 DOM J O Ã O V I NO BRAZIL

vias de g u e r r a b r i t a n n i c o s , p o r c o n t r a b a n d o , pois que t a l ea


portação e r a l e g a l m e n t e defesa.

A s s i m se f o i accentuando, excepção f e i t a do lampejo


pombalino, a decadência econômica do Reino, simultânea
com a sua decadência política e mesmo i n t e l l e c t u a l , e se
c o n v e r t e n d o a I n g l a t e r r a n a c a i x a e depois p r a t i c a m e n t e na
suzerana de P o r t u g a l . N u n c a t o d a v i a f i c o u tão m a r c a d a esta
relação de dependência como no t r a t a d o de 1810, negociado
no R i o de J a n e i r o e do q u a l escreveu P a l m e l l a ( 1 ) t e r sido
"na f o r m a e n a substancia o mais lesivo e o mais desigual que
j a m a i s se c o n t r a h i u e n t r e duas nações independentes" ( 2 ) :
a começar pelos m o t i v o s que i m m e d i a t a m e n t e o determina-
ram e a f i n d a r nas conseqüências que n'elle se o r i g i n a r a m .
O m o t i v o c a p i t a l f o i o g r a n d e prejuízo i n c o r r i d o pelos
negociantes inglezes que, depois da a b e r t u r a dos portos bra-
z i l e i r o s , m a l apreciando p o r u m l a d o as possibilidades do
m e r c a d o que se lhes o f f e r e c i a , e p o r o u t r o l a d o c o m as f a b r i -
cas e armazéns repletos de m e r c a d o r i a s mercê das guerras
c o n t i n u a d a s e da organização do b l o q u e i o c o n t i n e n t a l , remet-
teram para a A m e r i c a do S u l t u d o q u a n t o p o d i a c o n s t i t u i r
a r t i g o de negocio, conta-se que até patins. N ã o achando mui-
tas das consignações p r o m p t a collocação, b a i x a r a m seus pre-
ços de metade, ao passo que os gêneros b r a z i l e i r o s alcançavam

(1) Apontamentos auto-biographicos inéditos até publicação, em


l a r g a proporção, n a Vida do Duque de Palmella p e l a Snra. D. M a r i a
A m a l i a V a z de C a r v a l h o .
02) F o i o próprio duque de P a l m e l l a o encarregado, em 1835 e
depois em 1842, p e l o g o v e r n o l i b e r a l , v i c t o r i o s o em P o r t u g a l , de negociar
o u t r o s t r a t a d o s com a I n g l a t e r r a , nos quaes alcançou a abolição de
m u i t a s cláusulas h u m i l h a n t e s e o e s t a b e l e c i m e n t o de u m r e g i m e n mais
e q u i t a t i v o e m a i s honroso. O t r a t a d o p o l i t i c o de 1842, de amizade,
c o m m e r c i o e navegação, f o i p o r elle u l t i m a d o , e p a r a o especial de
commericio d i z o i l l u s t r e n e g o c i a d o r t e r estado f i r m e m e n t e resolvido
a não m a i s a d m i t t i r d i r e i t o s ad valorem, posto que v a r i a n d o segundo
a n a t u r e z a do p r o d u c t o e não u n i f o r m e s como em 1810. (Apont. cit.)
DOM JOÃO V I NO BRAZIL 381

preços dobrados, mesmo p o r q u e os navios empregados em


t r a z e r as m a n u f a c t u r a s b r i t a n n i c a s careciam de fretes de
t o r n a viagem.
C o m o r e s u l t a d o , e a i n d a não dos peores, deve-se r e g i s t r a r
a g r a n d e devastação das m a t t a s do l i t t o r a l p o r e f f e i t o da per-
missão, dada aos I n g l e z e s no t r a t a d o , de n'ellas c o r t a r e m ma-
deiras de construcção p a r a as suas embarcações. A madeira
carregada p a r a a I n g l a t e r r a o f o i não somente para uso nos
estaleiros, como p a r a todas as applicações possíveis no p a i z
de destino e n'outros paizes. E n t r a r a m a a b u n d a r em Lon-
dres os moveis de jacarandá e de v i n h a t i c o "e os navios da
mesma nação, que em o u t r o tempo forão de p i n h o , e de ou-
tras madeiras fracas, e pouco duráveis, agora já erão de
v i n h a t i c o , pao d'arco, e s i m i l h a n t e s madeiras m u i t o fortes, e
duradouras" (i).
Q u a n d o em 1808 o Príncipe f r a n q u e o u os portos bra-
z i l e i r o s ás nações amigas, era o u t r o s i m u m p r i v i l e g i o que
concedia á I n g l a t e r r a , não somente p o r ser a única então da
E u r o p a em estado de m a n t e r e p r o t e g e r u m a possante m a r i -
nha mercante, como pela razão m u i t o simples de estar quasi
todo o c o n t i n e n t e sob o j u g o de Napoleão, quer como prote-
gido, quer como a l l i a d o , o que não passava de u m equivalente
do p r i m e i r o t e r m o . M a i s tarde, p o r occasião da grande pa-
cificação p r e s i d i d a p o r M e t t e r n i c h , é que os p o r t o s b r a z i l e i -
ros f o r a m r e a l m e n t e abertos a t o d o o c o m m e r c i o i n t e r n a c i o -
n a l : o decreto de 18 de J u n h o de 1814 já se não f u n d a v a
sobre restricções especiosas. Esses annos entre 1808 e 1814
foram p o r t a n t o de v e r d a d e i r o monopólio m e r c a n t i l para a
G r ã B r e t a n h a e s e r v i r a m - l h e para occupar suas posições es-
tratégicas e c o n q u i s t a r o mercado. A principio não tinha

(1) H i s t . de P o r t . cit.
382 DOM JOÃO VI NO BRAZIL

concorrentes e, quando surgiu a possibilidade destes appa-


recerem, estava ella armada do vantajoso tratado de 1810,
tão hostil pelo seu exclusivismo ás outras nações e tão pre-
j u d i c i a l á própria metrópole do B r a z i l .
A política de isolamento professada no Reino era de-
baixo de certos pontos de vista atrazada e damninha, mas
ainda era o que amparava na sua decadência o commercio
portuguez. H o j e , com as modificações impostas pelo espi-
rito do século, denominamos proteccionista t a l política, que
nos Estados Unidos tem dado os resultados conhecidos. A
abertura dos portos e o tratado Linhares-Strangford deram
áquelle commercio um golpe fatal, accentuando-se o seu de-
perecimento quando, em 1815, entrou o mundo culto a gosar
novamente dos benefícios da paz.
Em 1805 tinham entrado no porto do R i o de Janeiro,
sob o regimen do velho monopólio, 810 navios portuguezes;
em 1806 entraram 642, em 1807 subiu o numero a 777,
sendo quasi igual — 765 — em 1808, para attingir em 1810,
sob o effeito combinado da liberdade mercantil e da concen-
tração na capital brazileira dos interesses econômicos do im-
pério, o algarismo de 1214. Pois dez annos mais tarde, em
1820, apenas 57 embarcações portuguezas, procedentes de
Lisboa e das quaes 28 somente de trez mastros, fundeavam
na bahia de Guanabara, elevando-se t a l numero a 212 si
ajuntarmos os navios sob pavilhão portuguez vindos da índia,
África e outros paizes da America do Sul.
São óbvios os motivos de semelhante decadência. A o
passo que os gêneros coloniaes entraram a baixar depois da
paz geral, mercê da crescente producção de Cuba e dos Es-
tados Unidos, fazendo as exportações d'estas terras temível
concorrência ao nosso algodão, ao nosso assucar e ao nosso
DOM JOÃO VI NO BRAZIL 383

f u m o , e i n i c i a n d o u m estado d e cousas q u e p o d e dizer-se até


h o j e se p r o l o n g a , as p o b r e s m a n u f a c t u r a s do Reino viram-se
a f a s t a d a s e m p r o v e i t o das s u p e r i o r e s m a n u f a c t u r a s b r i t a n n i -
cas, p e l a reducção q u e ás u l t i m a s f o r a c o n c e d i d a . I g u a l m e n t e
e x e r c e u essa reducção p e r n i c i o s o e f f e i t o s o b r e c e r t a s i n d u s -
trias e c u l t u r a s incipientes no reino u l t r a m a r i n o , tare como d a
seda, d o a n i l , d a c o c h o n i l h a , d o c a n h a m o , d o t r i g o , dos t e c i -
dos d e algodão, d o s c o r t u m e s e das s a l i n a s , q u e a metrópole
a n t e r i o r m e n t e i m p e d i r a e q u e á s o m b r a d a f r a n q u i a de 1808
t i n h a m c o m e ç a d o a m e d r a r sob b o n s auspicios.
E m v i s t a p o r u m l a d o das c i r c u m s t a n c i a s econômicas
p r e d o m i n a n t e s , e p o r o u t r o d a s condições políticas geraes
e m q u e se a c h a v a m as d u a s potências c o n t r a c t a n t e s e m r e l a -
ção u m a á o u t r a — si b e m q u e n o m o m e n t o p r e c i s a m e n t e d o
i n i c i o das negociações precisasse a I n g l a t e r r a m u i t o , p o r m o -
tivo do bloqueio continental, do mercado brazileiro, e grande
n u m e r o de officiaes inglezes requeressem i r servir e m P o r t u -
gal, tendo bastantes m i l i t a r e s portuguezes a c o m p a n h a d o a
côrte e s e n d o n ã o p o u c o s dos q u e f i c a r a m t a x a d o s d e fran-
cezes—não p o d i a o t r a t a d o c o m a I n g l a t e r r a d e i x a r d e r e -
p r e s e n t a r p a r a P o r t u g a l u m a capitulação e p a r a o B r a z i l
u m a i n f e r i o r i d a d e . D e f a c t o assim succedeu.
A s condições e x a r a d a s n o convênio d e 1 8 1 0 s i g n i f i c a -
v a m a transplantação d o p r o t e c t o r a d o b r i t a n n i c o , c u j a s i t u a -
ção p r i v i l e g i a d a n a metrópole se c o n s a g r a v a n a nossa es-
p h e r a econômica e até se c o n s i g n a v a i m p r u d e n t e m e n t e c o m o
perpetua. A f a l t a d e genuína r e c i p r o c i d a d e e r a a b s o l u t a e
dava-se e m t o d o s os t e r r e n o s , p a r e c e n d o m e s m o d i f f i c i l i m a
de estabelecer-se p e l a carência d e a r t i g o s q u e se e q u i l i b r a s -
s e m n a necessidade d o c o n s u m o , s e n d o m a i s precisos n o B r a z i l
os a r t i g o s m a n u f a c t u r a d o s i n g l e z e s d o q u e á I n g l a t e r r a as
384 DOM JOÃO VI NO BRAZIL

matérias primas brazileiras. Dava-se ainda a desigualdade na


importância que respectivamente representavam suas exporta-
ções para os paizes productores, constituindo a I n g l a t e r r a o
mercado quasi único do B r a z i l , ao passo que aquella nação
dividia por muitos paizes os seus interesses mercantis; e
dava-se finalmente na natureza dos meios de transporte com
que chegavam os gêneros aos mercados, não podendo com-
petir u m fardo de algodão descido de M i n a s em costa de
mula, com uma peça de tecido carregada por excellente es-
trada de Manchester a Londres ou Southampton ( i ) .
Como, d'este modo, impor taxas proporcionaes e equiva-
lentes para balançar a situação, isto é, os favores aduaneiros
que u m tratado de justa reciprocidade devia assegurar ás
duas partes ? H i p p o l y t o lembrava bem que em tudo levava
vantagem o negociante inglez, na justiça e severidade com
que no seu paiz se fazia a cobrança dos direitos, quando no
B r a z i l estava a p o r t a sempre aberta a todos os abusos e
malversações, prejudicando a uns a condescendência crimi-
nosa exhibida para com o u t r o s ; e também na conquista real
e effectiva que para aquelle representavam a protecção e a
tolerância exaradas no tratado para a sua pessoa e religião,
quando taes regalias eram communs na I n g l a t e r r a para todas
as nacionalidades e credos e nada i n t r o d u z i a m de novo. O
subdito portuguez domiciliado na I n g l a t e r r a gosava, exacta-
mente como o nacional britannico, da " s i n g u l a r excellencia
da constituição do paiz", mas o subdito inglez, que viesse
residir em P o r t u g a l ou domínios, ficaria l i v r e das arbitra-
riedades praticadas freqüentemente pela administração e po-
licia e a que andavam sujeitos os naturaes.

(1) Correio Braziliense, pas&im.


í)OM JOÃO V I NO BRAZIL 385

P o r u l t i m o , c o m o e r a m idênticos os d i r e i t o s e equiva-
lentes os addicionaes a i m p o r , q u e r fossem os gêneros t r a n s -
p o r t a d o s e m n a v i o s p o r t u g u e z e s , q u e r e m n a v i o s inglezes —
assim se c o n s i d e r a n d o t a n t o os construídos nos dous paizes
respectivos c o m o os apresados e l e g a l m e n t e c o n d e m n a d o s ( I )
— l u c r a v a e v i d e n t e m e n t e c o m semelhante disposição a ma-
r i n h a m e r c a n t e b r i t a n n i c a , já a n t e r i o r m e n t e e s u p e r i o r m e n t e
apparelhada para o trafego. A s auctoridades portuguezas -
e r a m , de resto, as p r i m e i r a s a pôr tropeços á l i v r e e f r a n c a
navegação das embarcações nacionaes. H a j a visto o caso
do Tigre, n a v i o sahido de L o n d r e s p a r a o M a r a n h ã o e m
1810 e que, depois -de c a r r e g a d o p a r a a t o r n a viagem, f o i de-
t i d o pelo g o v e r n a d o r D. José T h o m a z de M e n e z e s p o r
não poder o mestre d o barco satisfazer a exigência l e g a l
m a n d a n d o v i a j a r c o m capellão e cirurgião, pela simples razão
de se não e n c o n t r a r ecclesiastico o u f a c u l t a t i v o n a c a p i t a n i a
ou disposto e e m p r e h e n d e r a travessia ( 2 ) .
N ã o p a r a v a m a h i as f l a g r a n t e s desigualdades d o con-
vênio. O s v i n h o s p o r t u g u e z e s , q u e constituíam a g r a n d e i m -
portação b r i t a n n i c a , c o n t i n u a r a m a gosar d o d i r e i t o d i f f e -
r e n c i a l q u a n d o t r a n s p o r t a d o e m embarcações inglezas, o f f e -
recendo a I n g l a t e r r a c o m o e q u i v a l e n t e a P o r t u g a l o t r i b u t a r
este m a i s as lãs q u e não fossem t r a n s p o r t a d a s e m embarcações
p o r t u g u e z a s , o q u e estava b e m l o n g e de c o r r e s p o n d e r effe-
c t i v a m e n t e a u m f a v o r r e c i p r o c o p o r q u e as lãs t a m b é m e r a m
todas t r a n s p o r t a d a s e m n a v i o s b r i t a n n i c o s .

(1) O tratado não encerrava expressamente esta especificação


com relação aos navios inglezes, mas f o i dada t a l inteiligencia por
uma nota do marquez de Wellesley ao cavalheiro de Souza Coutinho,
de 17 de Junho dè 1810.
(2) Correio Braziliense.
386 DOM JOÃO VI NO BRAZIL

Também na Asia — e a esse t e m p o já v i m o s que não


era destituído de importância o intercâmbio e n t r e Brazil,
índia e C h i n a — a I n g l a t e r r a apenas concedia a P o r t u g a l o
t r a t a m e n t o da nação mais f a v o r e c i d a , e m q u a n t o P o r t u g a l se
o b r i g a v a a não f a z e r regulação a l g u m a que pudesse ser i n -
conveniente ou prejudicial ao c o m m e r c i o e navegação dos
I n g l e z e s nos portos, mares e domínios que pelo t r a t a d o lhes
eram franqueados. N e m e r a esta a mais palpável contra-
dicção em matéria de reciprocidade, c u j a f a l t a n a d a teria
comtudo de estranhavel si se reconhecesse desassombrada-
m e n t e que as vantagens commerciaes e o u t r a s attribuidas
aos I n g l e z e s t i n h a m p o r f i m corresponder ao apoio efficaz,
sob a f o r m a de soccorros de tropas e de empréstimos de d i -
n h e i r o , que P o r t u g a l estava recebendo da G r ã Bretanha
para garantia e salvaguarda da sua existência como nação i n -
dependente.

Sendo t o t a l a desigualdade, não era e n t r e t a n t o appa-


r e n t e m e n t e completa. A s s i m , p o d i a m segundo o t r a t a d o es-
tabelecer-se os I n g l e z e s em qualquer ponto dos domínios
portuguezes, possuir bens de r a i z , a b r i r l o j a s de r e t a l h o ou
de atacado e v i a j a r l i v r e m e n t e , da mesma f o r m a que os Por-
tuguezes nos domínios britannícos; ao passo que os outros
estrangeiros só p o d i a m a d q u i r i r em I n g l a t e r r a bens afora-
dos p o r 9 9 annos n o m á x i m o , não lhes e r a l i c i t o abrirem
lojas em L o n d r e s e, p a r a desembarcarem, estavam sujei-
tos á inspecção e dependentes desde a Revolução Franceza
do A l i e n O f f i c e , o q u a l possuía a f a c u l d a d e de negar licença
sem processo legal.
Estas restricções a d m i n i s t r a t i v a s , s i bem que lhes fos-
sem i g u a l m e n t e infensas a l e t t r a e o espirito do t r a t a d o , e
DOM JOÃO V I NO BRAZIL 387

que p o r dez I n g l e z e s idos a estabelecer-se n o B r a z i l fosse


um Portuguez estabelecer-se na Inglaterra, não foram to-
davia publicamente revogadas, como seria mister tratando-se
de derogação de leis e tratados. Em theoria, senão na pratica,
seguiram os ônus recahindo sobre os subditos portuguezes
sem maior reclamação da legação ou embaixada em Londres,
cuja recommendação se fizera mesmo precisa para qualquer
Portuguez obter da policia ingleza licença de residir nos
domínios b r i t a n n i c o s ( i ) .

• -j. i1}
9 AUen Bil
h abr-ogado depois da paz geral immediata á
os CeTV* °
N a í P O l e ã e
^ ^ a u ,
m F
f o i resLbeleeido d u r a n ^
os Cem D i a s e mezes seguintes. Acerca da p r e t e n s a isenção p o r t u g u e z a
das suas disposições, escrevia C y p r i a n o R i b e i r o F r e i r e , m i n i s t r o em
L o n d r e s n a ausência d o e m b a i x a d o r P a l m e l l a , destacado n o Congresso
de \ i e n n a , ao m a r q u e z de A g u i a r em d a t a de 1 de O u t u b r o de 1 8 1 5 :
" P e l o que toca ao A l i e n B i l l , devo. i n f o r m a r a V. Ex. que, quan-
a o s e h i a a t r a t a r d e l l e em P a r l a m e n t o , f a l l e i a este Ministério p a r a que
as suas cláusulas se n ã o intendessem p a r a com os Vassalos P o r t u g u e -
zes r e s i d e n t e s em I n g l a t e r r a o u que houvessem de t r a n s i t a r , sa-hir
o u e n t r a r neste Reyno, o u p a r a que neste B i l l se i n t r o d u z i s s e a l g u m a
excepçao ou modificação a seu f a v o r , a t t e n t a a l e a l d a d e do c a r a c t e r
p o r t u g u e z , a h a r m o n i a e x i s t e n t e e n t r e as d u a s Naçoens, a cauz*
commum em qu e se achavão empenhadas, e as estipiüaçoens
positivas e expressas dos Tratados subsistentes, que segu-
r a v a o aos Vassalos iPortuguezes o l i v r e e inquestionável direito
de v i a j a r e m e r e s i d i r e m e m I n g l a t e r r a sem o mais leve i m p e d i m e n t o ou
obstáculo; reforçando esta m i n h a requisição com as ponderaçoens que
m parecerão p r u d e n t e s e o p p o r t u n a s , não o b s t a n t e p r e v e r a resposta
e

que p o d e r i a receber, e que f o i , que q u a n t o acabava de ponderar, e as


estipula çoens d o s t r a t a d o s , p o r s i invioláveis, se lhes suspendia o sen
v i g o r e força q u a n d o a segurança e existência d a nação i m p e r i o s a m e n t e
o reiqueria, e cada Potência t i n h a o d i r e i t o indisputável de assim o
j u l g a r , t e n d o p a r a isso cauzas s u f f i c i e n t e s , como suecedia a I n g l a t e r r a
com a suspensão mesmo do seu habe<is-\corpus; que o Alien Bill e r a
g e r a l a respeito de t o d a s as naçoens, n o q u a l se não p o d i a fazer ex-
cepçao de a l g u m a sem oiftfender a todas as o u t r a s ; que o seu e f f e i t o
e r a temporário e m q u a n t o as c i r c u m s t a n c i a s urgentíssimas prescre-
vessem a necessidade, e que assim mesmo se p r o c e d e r i a com t o d a a
amizade e contemplação n a sua execução. Eri-av e r d a d e pelo q u e res-
p e i t a a Portuguezes, t e m h a v i d o n o meu t e m p o t o d a a attenção e i n -
dulgência possível; e de M y l o r d B a t h u r s t , M i n i s t r o e S e c r e t a r i o de
Estado, encarregado dos Negócios E s t r a n g e i r o s d u r a n t e a ausência
de l o r d C a s t l e r e a g h , acabo de receber a N o t a c i r c u l a r i n c l u z a pela q u a l
me p a r t i c i p a h a v e r e m cessado do d i a 23 de Setembro em d i a n t e as
Restricçoens do d i t o Alien Bill.-' (Corresp. da Leg. em L o n d r e s , 1815-,
no A r c h . do M i n . das Rei. E x t . )
388 DOM JOÃO VI NO BRAZIL

Por outro lado os navios portuguezes que estavam,


aquelles que demandavam as praias inglezas, na proporção
de 20 para 200 navios britannicos que se d i r i g i a m para o
B r a z i l , continuaram a pagar na I n g l a t e r r a direitos de sca-
vage e outros somente pagos pelos navios estrangeiros —
tendo elles no emtanto sido em tudo equiparados aos nacio-
naes — sob pretexto de que eram direitos municipaes, não
podendo intervir n'isso o governo britannico. O odioso do
facto estava mais que tudo em que as taxas sommadas, pagas
n'este capitulo pelos Portuguezes (tonelagem, pilotos, cer-
tidão de medida, pharóes, diques, e t c ) , eram de muito su-
periores ás que pagavam os Inglezes no B r a z i l .
Para cumulo, sendo tão mesquinha a producção dos
estaleiros do Reino e por contra fabricando os britannicos
todas as unidades das suas marinhas de guerra e mercante,
não se consideravam navios portuguezes, com t i t u l o portanto
aos favores da reciprocidade, os que fossem de construcção
estrangeira, embora constituindo a maior parte da marinha
mercante do Reino: "e isto até, commentava Hippolyto,
com effeito retrogrado, comprehendendo os que estavam já
comprados, e naturalizados Portuguezes, segundo as leys de
Portugal, ao tempo que se fez o tratado."
Segundo o tratado os monopólios — afora os da Coroa
que eram os do m a r f i m , pau-brazil, urzela, diamantes, ouro
em pó, pólvora e tabaco manufacturado — não teriam mais
valor para os Inglezes, isto é, os não obrigariam mais d'ahi
por diante, existindo para elles, e para elles somente, perfeita
liberdade de commercio, não consentindo P o r t u g a l em com-
panhia alguma que lhes restringisse ou embaraçasse a fa-
culdade de mercadejarem, e cessando no seu interesse todos
os privilégios, mesmo os da Companhia de Vinhos do A l t o
DOM JOÃO VI NO BRAZIL 389

D o u r o , creação de P o m b a l c o m que se reanímara no R e i n o


a c u l t u r a da v i n h a .
Poucos annos depois do convênio e n t r a r em v i g o r , ob-
servava o negociante T o l l e n a r e ( i ) que a f r a n q u i a dos por-
t o s — deveria também d i z e r o accordo de 1810 — preju-
dicara m u i t o a companhia, sendo i g u a l m e n t e possível que
não fosse e x e m p l a r a sua administração. O s i m p o r t a d o r e s ti-
n h a m e n c o n t r a d o v a n t a g e m em m a n d a r e m v i r vinhos da Hes-
p a n h a e o u t r o s lugares, de p r e f e r e n c i a aos do P o r t o , de sorte
que nos depósitos se a c c u m u l a v a m r u i n o s a m e n t e as colheitas.
Em 1 8 1 6 T o l l e n a r e v i u nos armazéns, sem venda, mais de
80.000 pipas.

Conservara a Companhia o privilegio da exportação


p o r t u g u e z a p a r a o B r a z i l , mas cessara o monopólio da i m -
portação b r a z i l e i r a c o m a l i b e r d a d e de t r a f i c o , e c o m a abo-
lição dos favores exclusivos p o r e f f e i t o do t r a t a d o desappa-
receram o u t r a s regalias. A C o m p a n h i a , que a d i a n t a v a d i -
n h e i r o aos l a v r a d o r e s a u m a t a x a moderada, antes c o m p r a v a
as colheitas pelo preço que ella mesma f i x a v a , e t i n h a só-
sinha o d i r e i t o de f a b r i c o e v e n d a dos vinhos chamados de
feitoria. O l u c r o do E s t a d o residia especialmente n a manu-
tenção das boas qualidades dos productos, l i v r e s das a d u l -
terações a que p o d e r i a m sujeital-os os l a v r a d o r e s isolada-
mente, conservando-se p o r t a n t o a l t o o c r e d i t o da exportação
nacional, que á poderosa C o m p a n h i a c o n v i n h a z e l a r .
A s causas e processos dos I n g l e z e s c o r r i a m p o r j u i z o p r i -
v a t i v o , de nomeação dos interessados, como já acontecia no
R e i n o e h o j e occorre n a C h i n a , estipulando o a r t i g o X do
t r a t a d o c o m m a n i f e s t a i r o n i a , senão de intenção pelo menos
de e f f e i t o , que em compensação d'esse d i r e i t o de e x t e r r i t o -

(1) Ms. das Notes Dominieales.


D. J. — 25
390 DOM JOÃO VI NO BRAZIL

rialidade se observariam eserupulosamente as leis pelas


quaes eram asseguradas e protegidas as pessoas e proprieda-
des dos vassallos portuguezes residentes nos domínios do
Rei da G r ã Bretanha "e das quaes eíles ( e m c o m m u m com
todos os outros estrangeiros) gozão do beneficio pela reco-
nhecida eqüidade da jurisprudência britannica, e pela sin-
gular excellencia da sua Constituição" ( i ) .
O artigo X I V do tratado referia-se á prohibição de
engajamento n u m a nação, de desertores da o u t r a nação, de-
vendo os magistrados locaes assistir na apprehensão dos mo-
ços e marinheiros desertores dos navios eventualmente an-
corados no porto estrangeiro. Simultaneamente versava so-
bre extradição de criminosos, fixando como de índole a de-
terminaram semelhante medida i n t e r n a c i o n a l a alta traição,
falsidade e "outros crimes de u m a natureza odiosa" — ex-
pressão, commentava H i p p o l y t o nas suas excellentes consi-
derações a respeito, m u i t o vaga e sem realidade de significa-
ção pois que, si n a I n g l a t e r r a estatuiria sobre o caso e em
perfeita independência u m t r i b u n a l de justiça, em Portugal
estaria t a l interpretação á mercê do arbítrio de u m Secre-
tario d'Estado, sobre o qual exerceria o representante inglez
sua poderosa pressão. N a G r ã Bretanha o governo não se
sentia superior ás leis, emquanto que n o B r a z i l u m aviso
ministerial t i n h a o privilegio de destruir na pratica toda
e qualquer legislação.
Por isso mais u m a vez era sensível a desigualdade do
convênio. T a m b é m n o capítulo d a tolerância religiosa e da
liberdade de consciência, que igualdade podia estabelecer-se
( 1 ) Correio Braziliense. O j u i z conservador da nação b r i t a n n i c a
só em 1S32 f o i a b o l i d o no B r a z i l p e l a Regência q u a n d o sanecionou o
Código do Processo C r i m i n e i , p r o t e s t a n d o a i n d a assim a I n g l a t e r r a
( V i d e A v i s o de H. H. C a r n e i r o Leão em P e r e i r a P i n t o , Apontamentos
para o Direito Internacional, v o l . I ) .
BOM JOÃO V I NO BRAZIL 391

entre os Inglezes, que obtinham a faculdade de erigir suas


capellas, sem forma exterior de templos nem sinos muito
embora, e proceder livremente ás cerimonias do seu culto ou
cultos sem serem inquietados ou perseguidos, e os Portugue-
zes aos quaes, concedendo aquella tolerância e liberdade em
matéria espiritual, nenhum favor novo outorgava o governo
britannico ?
A disparidade mais flagrante consistia sobretudo no
facto da Inglaterra somente garantir commercialmente a
Portugal o tratamento todo platônico da nação mais favore-
cida, quando os productos inglezes iam gosar nos portos
portuguezes, si importados por Inglezes, de um favor singu-
lar e exclusivo. Apoz o tratado, pelo regimen de virtual pri-
vilegio do commercio britannico, ficou sendo o seguinte o es-
tado legal das relações mercantis do B r a z i l : livres, as mer-
cadorias estrangeiras que j á tivessem pago direitos em Por-
tugal, e bem assim os productos da mor parte das colônias
portuguezas; sujeitas á taxa de 24 por cento ad valorem as
mercadorias estrangeiras directamente transportadas em
navios estrangeiros; sujeitas á taxa de 16 por cento as mer-
cadorias portuguezas, e também as estrangeiras, importadas
sob pavilhão portuguez; sujeitas á taxa de 15 por cento as
mercadorias britannicas importadas sob pavilhão britannico,
ou portuguez. Esta ultima disposição ainda foi posterior ao
tratado, tomada por decreto de 18 de Outubro de 1810 (o
tratado de commercio e navegação era de 19 de Fevereiro
e igual data trazia o de paz e amizade) para não prejudicar
mais a navegação mercante do Reino, contra a qual todavia
se attentava gravemente pela disposição anterior.
Serviriam de base principal á pauta as facturas juradas
dos gêneros e os seus preços correntes no paiz importador.
DOM JOÃO VI NO BRAZIL

Impuzera lord Strangford como condição sine qua non—


mais depressa, d e c l a r a v a L i n h a r e s na memória apresentada
ao Príncipe R e g e n t e sobre a conveniência e vantagens do
t r a t a d o , r o m p e n d o todas as negociações do que cedendo cousa
a l g u m a n'esse p o n t o — a admissão nos domínios portuguezes
de todas as m a n u f a c t u r a s inglezas i n d i s c r i m i n a d a m e n t e , com
manifesto prejuizo das fabricas privilegiadas do R e i n o e
p o r t a n t o da i n d u s t r i a p o r t u g u e z a . G o s a v a m , é verdade, taes
fabricas e c o n t i n u a r i a m gosando n o B r a z i l da isenção de d i -
reitos de e n t r a d a e em P o r t u g a l da f r a n q u i a de matérias p r i -
meiras, mas em quantos casos p o d e r i a m ellas c o m p e t i r , em
q u a l i d a d e e preço do p r o d u c t o , c o m as excellentes e vastas
fabricas inglezas ? E n t r e t a n t o , apezar d'aquella f r a n q u i a
i n d i s t i n c t a , f i c a v a pelo a r t i g o X X do t r a t a d o vedado i n t r o -
duzirem-se n a I n g l a t e r r a — a não ser p a r a reexportação e
sujeitos a encargos de a r m a z e n a g e m , dique, medições e peso,
t a n t o n a chegada como no despacho p a r a f o r a — productos
dos mais i m p o r t a n t e s do B r a z i l , o assucar e o café entre
outros.
A par de tantas desigualdades havia, a guisa de com-
pensação, disposições de u m a r e c i p r o c i d a d e cômica, como a
do a r t i g o X X I > que dava g r a v e m e n t e ao Príncipe Regente
de P o r t u g a l a f a c u l d a d e de i m p o r d i r e i t o s prohibítivos sobre
o assucar, café e o u t r o s gêneros coloniaes a serem i m p o r t a d o s
das possessões b r i t a n n i c a s , f o r m u l a n d o - s e assim a hypothese
um t a n t o extraordinária de e n t r a r e m em concorrência com
os nacionaes semelhantes a r t i g o s estrangeiros, de que no Bra-
z i l existia s u p e r a b u n d a n c i a p a r a o c o n s u m o local.
Também no t r a t a d o simultâneo de paz e amizade se
c o n t i n h a como disposição m u i t o l i b e r a l e proveitosa que a
DOM JOÃO VI NO BRAZIL 393

Inquisição n u n c a seria i n t r o d u z i d a n o B r a z i l , onde até então


não f o r a creada, c o n f o r m e acontecera em Goa, i n d o os j u d e u s
b r a z i l e i r o s d a r pasto e a b r i l h a n t a r os autos de fé de Lisboa.
Em 1810, porém, já essa instituição d o século X V I estava
p r a t i c a m e n t e e x t i n c t a , mesmo em P o r t u g a l , onde não tar-
d a r i a a desapparecer de t o d o como u m a das p r i m e i r a s medi-
das da revolução t r i u m p h a n t e de 1820, não conseguindo
g a l v a n i z a l - a a reacção u l t e r i o r .
D e i x a v a , pois, de ser positiva para apparecer irrisória
semelhante v a n t a g e m , encerrada n o meio de u m convênio
pelo q u a l a côrte e m i g r a d a r e n o v a v a em sua n o v a séde os
t r a t a d o s da alliança que desde q u a t r o séculos existia entre
as duas nações, desmanchada apenas u m momento debaixo
da pressão napoleonica, mas l o g o reatada, obrigando-se
mesmo P o r t u g a l pelo a r t i g o I V do t r a t a d o de p a z e amizade
"a i n t e i r a r as perdas e defalcações de propriedade, s o f f r i d a s
pelos vassallcs do r e i da G r ã B r e t a n h a em conseqüência das
medidas que a coroa de P o r t u g a l f o r a c o n s t r a n g i d a a t o m a r
no mez de N o v e m b r o de 1807."
C o m o de t u d o q u a n t o f a z n o domínio i n t e r n a c i o n a l , cos-
t u m a a I n g l a t e r r a avisadamente t i r a r cabedal, não c o n t e n t e
c o m as m u i t a s concessões do t r a t a d o de commercio, f o i n'a-
quelle o u t r o t r a t a d o de p a z — convênio p o l i t i c o e não mer-
cantil — que l o r d Strangford arranjou maneira de i n s e r i r
uma cláusula f a c u l t a n d o á I n g l a t e r r a , em recompensa dos
grandes serviços prestados á família r e a l p o r t u g u e z a pela
m a r i n h a r e a l i n g l e z a , o r e f e r i d o p r i v i l e g i o de " f a z e r com-
p r a r , e c o r t a r madeiras p a r a construcção dos seus navios de
g u e r r a , nos bosques, florestas e m a t t a s do B r a z i l (exce-
p t u a n d o nas florestas reaes, que são designadas p a r a uso da
m a r i n h a p o r t u g u e z a ) , j u n t a m e n t e c o m permissão de poder
394 DOM JOÃO VI NO BRAZIL

fazer construir, prover o u reparar navios de guerra nos


portos e bahias daquelle Império" ( i ) .
Os restantes artigos do tratado de commercio e navega-
ção diziam respeito á nomeação e approvação dos cônsules;
reciprocidade no tratamento e honras dispensadas aos embai-
xadores e ministros dos dous paizes; estabelecimento de pa-
quetes para fomento das relações mercantis ( 2 ) ; privilegio
extendido aos negociantes inglezes de serem assignantes
para os direitos que t i n h a m de pagar nas alfândegas portu-
guezas, sem reciprocidade porque nas alfândegas inglezas
não era conhecido semelhante favor, n e m mesmo para os
nacionaes; enumeração do que, consoante o direito das gen-
tes e a interpretação accordada, constituía contrabando de
guerra; restituição dos salvados, assumpto em que a velha le-
gislação portugueza era mais liberal e h u m a n a do que a i n -
gleza, a qual ainda e m certos casos reconhecia direitos reaes
e territoriaes, isto é, dos donatários das terras, aos bens nau-
fragados; punição de piratas; finalmente direito ás partes
contractantes de revisão do tratado ao cabo de 15 annos.
Até t e r m i n a r a nova discussão, n'esse caso de appello á
revisão, ficaria suspensa qualquer cláusula a que se fizesse
objecção e de que se desejasse alteração. Isto não abolia com-
tudo a perpetuidade das obrigações e não extinguia portanto
expressamente as vantagens de que se encontrasse de posse a
parte aquinhoada oü j u l g a d a t a l pela outra, podendo aquella
com boa razão pedir equivalência pela sua desistência ou re-

(1) Correio Braziliense.


( 2 ) P o r e f f e i t o de u m a convenção assignada pelo conde de

L i n h a r e s e p o r l o r d S t r a n g f o r d aos 19 de F e v e r e i r o de 1 8 1 1 — u m anno
d e c o r r i d o da celebração do t r a t a d o — organizou-se u m serviço de pa-
quetes mensaes e n t r e F a l m o u t h e R i o de J a n e i r o , sendo o p o r t e de
cada c a r t a 3/8 ( t r e z s h i l l i n g s e o i t o d i n h e i r o s ) . O g o v e r n o p o r t u g u e z
c o b r a v a o p o r t e sobre t o d a a correspondência, menos a o f f i c i a l , v i n d a
do* domínios b r i t a n n i c o s .
DOM JOÃO V I NO BRAZIL 395

nuncia de favor. E esta compensação seria fatalmente conce-


dida porque, como H y p p o l i t o escrevia ao rematar seus j u d i -
ciosos commentarios ao tratado ( i ) , u m a nação fraca e de-
pendente como P o r t u g a l , negociando c o m a poderosa Ingla-
terra, sua protectora pela força das circumstancias, não l o -
graria escapar ao j u g o pêlo subterfúgio da suspeição indefi-
nida da cláusula posta em debate.
Os effeitos immediatos do tratado, não obstante sua
palpável injustiça, f o r a m benéficos para o B r a z i l no sentido
que ahi fizeram baixar o preço da vida. P o r isso ponderava
o ministro T h o m a s Sumter ( 2 ) que "em resumo e tudo con-
siderado, Portuguezes e Inglezes j u l g a v a m (elle próprio con-
cordando) ser o tratado favorável ao B r a z i l " . A 21 de M a i o
explicava porque, n W t r a communicação. O commercio do
B r a z i l c o m a I n g l a t e r r a estava sendo, nas circumstancias
predominantes, m u i t o lucrativo para a primeira parte, achan-
do-se os portos brazileiros inundados de mercadorias britan-
nicas que eram vendidas m u i t o baratas, por atacado segundo
o systema de venda inglez, e pagando-se os productos expor-
tados do paiz por preços mesmo superiores aos que devia
p e r m i t t i r a tabeliã vigente no Reino U n i d o , simplesmente
pelo facto dos negociantes inglezes no B r a z i l , geralmente li-
gados com casas de commissões e armadores, zelarem os l u -
cros d'estes sócios em detrimento dos seus consignatarios. Che-
gava o representante dos Estados Unidos a a f f i r m a r que a
I n g l a t e r r a não derivava u m lucro positivo do seu trafico
commercial com o B r a z i l .
N o emtanto o tratado entregou aos Inglezes o exclu-
sivo de taes relações mercantis. T o l l e n a r e , m a u grado o seu

(1) Correio Braziliense, n. 29, Outubro de 1810.


(2) C a r t a de 5 de F e v e r e i r o de 1811, no Arch. do Depart. d i s -
tado de Washington.
396 DOM JOÃO VI NO BRAZIL

f a r o do o f f i c i o , m e n c i o n a nas suas observações que, a não ser


p a r a a l g u m a modista, costureira, selleiro, f a b r i c a n t e de car-
ros, d i s t i l l a d o r e a r m e i r o - s e r r a l h e i r o , e t a l v e z p a r a algum
professor de línguas, de musica o u de desenho, não descobria
no R e c i f e o p p o r t u n i d a d e s de v i d a p a r a Francezes; a não ser
t a m b é m que, dispondo de u m pequeno c a p i t a l p a r a a c o m p r a
da t e r r a e dos negros, quizessem* i r p l a n t a r algodão a t r i n t a
leguate p a r a o i n t e r i o r . O s engenhos de assucar requeriam
grande c a p i t a l , e no c o m m e r c i o existia, p a r a empregados,
grande d i f f i c u l d a d e -de collocação p o r q u e o serviço se f a z i a
sem caixeiros, c o m u m h o m e m de confiança e a l g u n s traba-
lhadores braçaes, e p a r a logistas, u m f u t u r o m u i t o problemá-
tico, visto os armazéns p r e f e r i r e m todos as m e r c a d o r i a s i n -
glezas, já conhecidas e demais f a v o r e c i d a s pela t a r i f a , e os
exportadores inglezes já t e r e m seus consignatarios habituaes.
E r a m estas as naturaes conseqüências da posição con-
q u i s t a d a pelos Inglezes, c o n s t i t u i n d o além d'isso o t r a t a d o de
1810 um obstáculo a apertarem-se quaesquer laços commer-
ciaes c o m o u t r o s paizes. U m dos f i n s da missão L u x e m b u r g o
em 1816 f o i precisamente buscar os meios de p r o m o v e r o
t r a f i c o e n t r e a França e o R e i n o U n i d o de P o r t u g a l e Bra-
z i l , nada logrando obter o duque embaixador porque Barca
l o g o l h e d e c l a r o u que o g o v e r n o p o r t u g u e z p r e t e n d i a , antes
de pensar em conceder novos favores, r e g u l a r sobre u m plano
u n i f o r m e as relações m e r c a n t i s das d i f f e r e n t e s partes da mo-
n a r c h i a e n t r e si. Só depois se p o d e r i a m r e g u l a r essas rela-
ções c o m as potências européas p o r meio de t r a t a d o s de com-
m e r c i o , queixando-se a t a l propósito o m i n i s t r o de Dom
João V I de que o convênio de 1810, " i m p o s t o pela I n g l a -
t e r r a " , i m p o s s i b i l i t a r a o c o m m e r c i o do B r a z i l c o m o resto da
DOM JOÃO VI NO BRAZIL 397

Europa, collocando-o i n t e i r a m e n t e nas mãos dos Ingle-


zes. ( i )

Consolava-se o e m b a i x a d o r de L u i z X V I I I d o seu m a u
êxito t h e o r i c o c o m o a n t e r i o r e m a i o r m a l l o g r o dos I n g l e z e s
na p r a t i c a , r e p e t i n d o o que já sabemos ser verdade sobre não
haver c o r r e s p o n d i d o o B r a z i l , como m e r c a d o p a r a m a n u f a -
t u r a s européas, ás esperanças n'élle depositadas c o m a aber-
t u r a dos p o r t o s e a trasladação da côrte, sendo no geral
pouco felizes as l i m i t a d a s especulações tentadas. "Os porme-
nores que a este respeito r e c o l h i collocarão V. Ex. em posi-
ção de j u l g a r si não será p r u d e n t e e n t r a v a r esse i m p u l s o
d a nossa i n d u s t r i a e d i r i g i l - o n u m sentido em que e l l a se
ache menos exposta ás perdas que a g u a r d a m os negociantes
indiscretos q u e a avidez arrastará ao B r a z i l sem t e r e m previa-
mente tomado as informações e os conselhos da expe-
riência ( 2 ) .
P o r u m lado, pois, .não era tão g r a n d e m a l que as van-
tagens de t r a t a m e n t o a que a i n d u s t r i a f r a n c e z a aspirava l h e
fossem regateadas, o u m e l h o r recusadas. " P o r o u t r o lado,
a j u n t a v a L u x e m b u r g o , o systema a d u a n e i r o em v i g o r é p o r
f o r m a t a l odioso, e vexatório, que a f o r t u n a dos negociantes
andará sempre c o m p r o m e t t i d a e m q u a n t o não f o r e m dados
aos cônsules nos t r a t a d o s os meios de protegel-os c o n t r a seme-

(1) Arch. do Min. dos Neg. Est. de França. A França aggra-


v a r a a sua tributação sobre os gêneros coloniaes i m p o r t a d o s p o r v i a
de P o r t u g a l , assim fazendo recrudescer o m a l estar econômico do
Reino europeu, a esse t e m p o t a m b é m a g g r a v a d o p o r m o t i v o dos corsá-
r i o s de A r t i g a s que n a v e g a v a m e a p r e s a v a m sob esta b a n d e i r a revo-
l u c i o n a r i a , não passando n a r e a l i d a d e de corsários americanos. A'
modo de retaliação*, P o r t u g a l restabelecera n'um i n t u i t o p r o t e c c i o n i s t a ,
a prohibição das sedas, e n t r e o u t r a s existentes antes de 1792, epocha
á q u a l se regressava d i p l o m a t i c a m e n t e desde o m o m e n t o em que t i n h a m
sido abrogados os t r a t a d o s posteriores. Apenas em 1826 f o r a m pelo
Império do B r a z i l concedidas á França e em 1828 extendidos ás o u t r a s
nações os 15 p o r cento de d i r e i t o s pagos pelas importações inglezas.
( 2 ) O f f i c i o de 16 de Setembro de 1816, ao duque de R i c h e l i e u .
398 DOM J O Ã O V I NO BRAZIL

lhantes abusos. Este ponto é porventura mais importante do


que o da diminuição dos direitos; a avaliação legal das mer-
cadorias modificou tanto a enormidade das taxas, que o l u -
cro ainda seria immenso si não tivessem os negociantes que
luctar contra os privilégios dos Inglezes, os quaes alcançaram
ser melhor aquinhoados do que os próprios Portuguezes. Re-
sultou desta u l t i m a circumstacia uma espécie de animosi-
dade que poderá ser nos m u i t o vantajosa quando possuirmos
:

um bom tratado de commercio e que u m Ministério menos


indolente e mais esclarecido i m p r i m a uma melhor direcção
aos negócios do B r a z i l . "
O momento, todavia, não era dos peores, pois que es-
tava Barca com os negócios estrangeiros, tendo deixado as
trez pastas de reduzir o velho A g u i a r "que nem a rã esma-
gada com a pata do boi", e não se havendo ainda recorrido
ao "estuporado" J. Paulo Bezerra, ( i )
E' facto que a avaliação, segundo notava Luxemburgo,
alterava extraordinariamente o r i g o r da tarifa, o qual podia
converter-se em lenidade si fosse baixa aquella avaliação. A o
occupar-se com os novos tratados de P o r t u g a l com a Ingla-
terra, observava Palmella ( 2 ) que "a experiência tinha de-
monstrado, emquanto vigorou o tratado de 1810, o incon-
veniente que para nós resultava de u m methodo, que dava l u -
gar a fraudes incessantes na factura dos gêneros; fraudes
em virtude das quaes o direito de 15 por cento ficava sendo
nominal e não se percebia de facto d'elle mais que a metade
ou ainda menos. Q u a j i d o nas nossas Alfândegas se queria
obviar a taes fraudes, isso dava logo lugar a reclamações di-
plomáticas."

(1) Cartas de Marrocos de 25 de Janeiro e 22 de Fevereiro


de 1814.
(2) Apontamentos auto-^biographicos.
DOM JOÃO VI NO BRAZIL :>!)!)

T a m b é m , como os 15 por cento cobrados aos Inglezes


eram orçados de accordo c o m os preços estipulados n a pauta
e não t a n t o conforme o valor corrente dos gêneros, do de-
clínio dos preços poderia ás vezes resultar que os direitos
aduaneiros representassem realmente 25 por cento. P o r isso
tinha havido desde as negociações u m a troca de concessões.
A I n g l a t e r r a abolira as taxas sobre mercadorias armazena-
das nos seus portos para reexportação, e o B r a z i l diminuirá
consideravelmente a avaliação segundo a qual se arrecada-
vam nas suas alfândegas os direitos sobre as importações i n -
glezas.
D o s artigos exportados pela França muitos se não
achavam n a t u r a l m e n t e na pauta vigente, a qual. era defei-
tuosa, de sorte que eram avaliados pelos peritos. Estes, des-
denhando as facturas e tomando por base o preço da venda a
retalho nas lojas do Rio, sem se quererem recordar de que
taes preços já occasionalmente estavam sobrecarregados em
48 por cento, pelas próprias avaliações anteriores, assim se
cobrando u m a taxa sobre a taxa mesma, t r i b u t a v a m aquelles
artigos em 4 0 por cento algumas vezes, e outras vezes em
quantia até superior ao valor real da mercadoria. ( 1 ) N e m
assistia aos Francezes a faculdade, alcançada pelos Inglezes
no t r a t a d o de 1810, de em casos taes abandonarem as suas
importações á alfândega pelos preços por esta arbitrados.
Dir-se-hia que o t r a t a d o não esquecera pormenor a l g u m
vantajoso ao commercio i n g l e z ; e, comtudo, u m tanto des-
i l l u d i d o dos ganhos previstos pela sua diplomacia e espe-
culando c o m a protecção que aos interesses políticos da mo-
(1) A r c h . do M i n . dos Neg. Est. de França. A 10 de A b r i l de
1820 respondia o m i n i s t r o T h o m a z Antônio ás reclamações de M a l e r
p r o m e t t e n d o p a r a breve u m a p a u t a a d u a n e i r a que a c a b a r i a com as
avaliações a r b i t r a r i a s , demorando-a apenas a extensão crescente do
c o m m e r c i o e os progressos da i n d u s t r i a g e r a l e das artes.
400 DOM JOÃO VI NO BRAZIL

narchia portugueza andava dispensando, p r e t e n d e u o go-


v e r n o b r i t a n n i c o nos annos i m m e d i a t o s e p o r intermédio da
legação n o R i o , obter c o m a abolição da C o m p a n h i a Geral
da A g r i c u l t u r a das V i n h a s do A l t o D o u r o , extremamente
defendida por D o m João V I , a l i b e r d a d e absoluta e incondi-
c i o n a l — l i v r e e i r r e s t r i c t a permissão como d i z i a a versão o f f i -
c i a l — p a r a os subditos inglezes de negociarem, e x p o r t a r e m e
f a b r i c a r e m vinhos, v i n a g r e s e aguardentes.
Ao g o v e r n o p o r t u g u e z não c o n v i n h a absolutamente a
caducidade da sua concessão. O s processos da C o m p a n h i a
e r a m t a l v e z vexatórios bastante p a r a o p r o d u c