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1.

INTRODUÇÃO: o candidato deve contextualizar o tema e a indicação do seu


estado da arte (máximo de 3 laudas).

Tem-se por elementar que a materialização dos direitos humanos, considerando


tendo como paradigma a Declaração Universal dos Direitos Humanos (DUDH), seja
algo notório à humanidade. Entretanto, transcorridos 72 anos desde a data de sua
promulgação, em 1948, o conteúdo tipificado nos documentos delineadores desses
direitos fundamentais ainda carece de instrumentalidade efetiva.
Por sua vez, eEssa carência instrumental afeta diretamente os mecanismos de
proteção internacional, pois, em muitas situações, dificulta ou inviabiliza a
concretização efetiva dos direitos inerentes a própria pessoa humana. Dentro desseNeste
contexto, quando tais obstáculos instrumentais se manifestam em procedimentos penais,
o risco ao ser humano acusado é de tal forma muito danoso, justamente por lidar com a
liberdade de locomoção do indivíduo que pode ser preso por seus atos delituosos.
Assim, quando se verifica uma falha procedimental que afete mecanismos de
proteção de direitos humanos, tem-se uma primeira falha na eficácia dessas garantias.
Contudo, quando essa verificação se dá em um vício de caráter penal, haverá, portanto,
uma dupla penalidade ao indivíduo, tanto no caráter internacional quanto nacional, pois
ambos os mecanismos serão afetados.
Ora, um importante instrumento processual que visa evitar essas falhas é o
recurso, ou seja, a possibilidade de revisão de uma decisão judicial. Segundo Badaró
(ANO, p. 31) – pg. 31, “De uma maneira geral, em todos os sistemas processuais, há
recursos. Do ponto de vista axiológico, é uma forma de fazer prevalecer o valor da
‘justiça’ sobre a ‘segurança jurídica’. Mecanismos de correção do erro possibilitam o
aprimoramento da decisão, para que seja correta em seus aspectos fáticos e jurídicos e,
portanto, seja justa. Por outro lado, a segurança jurídica somente irá se impor em
momento posterior, esgotadas as possibilidades recursais, cristalizando-se no instituto
da ‘coisa julgada’”.
A DUDH não assegurou de forma explicita o direito ao recurso, embora tenha
previsto no art.11, §1º que “Toda pessoa acusada de um ato delituoso tem o direito de
ser presumida inocente até que a sua culpabilidade tenha sido provada de acordo com a
lei, em julgamento público no qual lhe tenham sido asseguradas todas as garantias
necessárias à sua defesa.”
Já o PIDCP, em seu art. 14.5 garante que “Toda pessoa declarada culpada por
um delito terá o direito de recorrer da sentença condenatória e da pena a uma instância
superior, em conformidade com a lei”. Não diferente, a CADH assegura em seu art.
8.2.h que toda pessoa acusada tem “direito de recorrer da sentença a juiz ou tribunal
superior”.
Evidente que o direito ao recurso é instrumento de garantia não ao Estado
acusador, mas sim mecanismo de corrigir eventuais erros judiciais imputados ao
indivíduo como pessoa em si, acusada de um delito. Uma verdadeira forma de
contenção do poder punitivo. Tanto é assim que tal cidadão só poderá ser considerado
culpado quando transitar em julgado o processo penal, ou seja, quando não houver mais
a possibilidade instrumental de recorrer.
Na prática, o que se percebe no sistema judicial brasileiro, são decisão decisões
quase que automáticas pela prisão a qualquer custo. Prendem primeiro para depois de,
passados muitos meses ou até mesmo anos da decretação da prisão cautelar do acusado,
para, o acusado, quem sabe, em fase recursal, receber o direito de recorrer em liberdade
e continuar apresentando os recursos cabíveis até que este instrumento não seja mais
legalmente cabível. Ora, se presume inocente até que haja o trânsito em julgado, sendo
imperiosa a possibilidade de poder recorrer livre, continuar produzindo provas em sua
defesa e exercendo suas garantias processuais.
Assim, no direito processual brasileiro, quando o legislador tratou dos requisitos
necessários a se prender alguém provisoriamente, conforme o art. 312 do CPP, exigiu
ao juiz demonstrar: 1) a prova da existência de um crime e indicioindício suficiente de
autoria (fumus comissi delicti); 2) o perigo gerado pelo estado de liberdade do imputado
(periculum libertatis).
O primeiro requisito é a demonstração da existência de um fato, com forte
aparência de tipicidade, de ilicitude e de culpabilidade, com razoes que conduzam a um
autor. Já o segundo requisito é o perigo que decorre do estado de liberdade do acusado,
como o risco pertinente aos vagos termos utilizados pelo dispositivo legal, quais sejam:
a ordem pública, a ordem econômica, a conveniência da instrução criminal ou para
assegurar a aplicação da lei penal.
Essa provisoriedade da prisão cautelar, não raramente, se estende durante toda a
instrução processual e perdura até a sentença. É nesse momento decisório de primeira
instância que o juiz deve avaliar novamente os requisitos que mantém o agente preso,
exteriorizando de forma fundamentada se ainda persistem concretamente fatos
contemporâneos que a justifique. Tampouco não poderá manter a prisão preventiva com
a finalidade de antecipação de cumprimento de pena. Não existindo tais requisitos, cabe
ao juiz permitir que o acusado seja posto em liberdade, a fim de exercer seu direito ao
recurso.
Entretanto, existe um problema crônico na direção das decisões judiciais que
mais parecem querer compor números de produção, a enfeitar estatísticas de eficiência
dos tribunais, do que efetivar as garantias processuais dos indivíduos. Essa efetivação é
dever (deveria ser) do juiz. Por exemplo, é muito comum que aos acusados estrangeiros
que cometem delitos em território brasileiro, seja exigido comprovação de residência
fixa e emprego lícito no Brasil para poderem recorrer em liberdade. Ora, tal exigência é
de tal forma incompatível com a real efetivação do direito ao recurso, eis que impõe à
pessoa que notadamente é advinda de outro país, inviável e muitas vezes impossível
qualquer comprovação de residência em território alheio ao seu de origem.
A referida exigência se faz de forma incoerente com um devido processo penal
constitucional sincrônico aos dispositivos de proteção internacional dos quais o Brasil é
signatário. A nossa CF não diferencia o brasileiro do estrangeiro, conforme seu artigo
5º, o que de certa forma demonstra a incoerência judicial, quando nega a possibilidade
do agente poder recorrer em liberdade, baseada em critérios objetivos que presumem
um risco de fuga do acusado estrangeiro, sem apontar elementos concretos que possam
deduzir seu periculum libertatis.

DUDH

Artigo 7
Todos são iguais perante a lei e têm direito, sem qualquer
distinção, a igual proteção da lei. Todos têm direito a igual proteção
contra qualquer discriminação que viole a presente Declaração e contra
qualquer incitamento a tal discriminação.

Artigo 8
Todo ser humano tem direito a receber dos tribunais nacionais
competentes remédio efetivo para os atos que violem os direitos
fundamentais que lhe sejam reconhecidos pela constituição ou pela lei.
PACTO SJCR

6. Toda pessoa privada da liberdade tem direito a recorrer a um


juiz ou tribunal competente, a fim de que este decida, sem demora,
sobre a legalidade de sua prisão ou detenção e ordene sua soltura, se a
prisão ou a detenção forem ilegais. Nos Estados-partes cujas leis
prevêem que toda pessoa que se vir ameaçada de ser privada de sua
liberdade tem direito a recorrer a um juiz ou tribunal competente, a fim
de que este decida sobre a legalidade de tal ameaça, tal recurso não
pode ser restringido nem abolido. O recurso pode ser interposto pela
própria pessoa ou por outra pessoa.

Artigo 25 - Proteção judicial

1. Toda pessoa tem direito a um recurso simples e rápido ou a


qualquer outro recurso efetivo, perante os juízes ou tribunais
competentes, que a proteja contra atos que violem seus direitos
fundamentais reconhecidos pela Constituição, pela lei ou pela presente
Convenção, mesmo quando tal violação seja cometida por pessoas que
estejam atuando no exercício de suas funções oficiais.

2. Os Estados-partes comprometem-se:

a) a assegurar que a autoridade competente prevista pelo sistema


legal do Estado decida sobre os direitos de toda pessoa que interpuser
tal recurso;

b) a desenvolver as possibilidades de recurso judicial; e

c) a assegurar o cumprimento, pelas autoridades competentes,


de toda decisão em que se tenha considerado procedente o recurso.

PIDCP
ARTIGO 2
3. Os Estados Partes do presente Pacto comprometem-se a:

a) Garantir que toda pessoa, cujos direitos e liberdades


reconhecidos no presente Pacto tenham sido violados, possa dispor de
um recurso efetivo, mesmo que a violência tenha sido perpetrada por
pessoas que agiam no exercício de funções oficiais;

b) Garantir que toda pessoa que interpuser tal recurso terá seu
direito determinado pela competente autoridade judicial, administrativa
ou legislativa ou por qualquer outra autoridade competente prevista no
ordenamento jurídico do Estado em questão; e a desenvolver as
possibilidades de recurso judicial;

c) Garantir o cumprimento, pelas autoridades competentes, de


qualquer decisão que julgar procedente tal recurso.

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