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Dedico esta necrografia a mim mesma,


que, mesmo não querendo,
sempre estive ao meu lado.
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"Quando me julgo – nada valho;


quando me comparo, sou grande.
Enorme consolo."

Lima Barreto

"Fazes falta?
Ó sombra fútil chamada gente!
Ninguém faz falta;
não fazes falta a ninguém..."

Álvaro de Campos
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ÍNDICE

4 15/10 64 04/09
4 18/10 67 08/09
6 19/10 70 10/09
11 13/08 71 11/09
12 13/08 72 20/09
16 15/08 75 02/10
18 16/10 76 03/10
18 13/11 76 03/10
20 16/08 78 04/10
21 17/08 78 06/10
23 17/11 79 07/10
25 17/08 81 08/10
27 18/08 83 10/10
31 20/08 85 10/10
33 17/10 86 11/10
35 23/08 88 11/10
40 24/08 89 12/10
42 25/08 91 12/10
44 26/08 92 13/10
45 26/08 93 17/10
46 27/08 93 13/10
48 27/08 95 14/10
52 18/10 98 16/10
54 30/08 99 17/10
57 18/10 100 17/10
58 01/09 102 20/10
60 03/09 104 Notas
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15/10

– Confortável?
– Sim, eu sempre sinto-me confortável acorrentado.
– Então finalmente estamos todos satisfeitos. E você, hein, que tinha
dito que eu jamais conseguiria fazer algo que o agradasse...
– Pode me dizer por quanto tempo mais eu vou permanecer assim tão
satisfeito?
– Posso, mas não quero.
– Saiba que não há como você ganhar essa.
– Essa fala devia ser minha.
– Eu sei bem em que você se baseia para tirar suas conclusões tortas.
– E eu sei reconhecer quando alguém atingiu um grau tão alto de
desespero que já não diz uma palavra que faça sentido.
– Mas cadê seu desesperômetro?
– Hein???
– Seu medidor de desespero. Não, não precisa me responder, você
nunca foi bom em dar respostas mesmo... Nunca foi bom em coisa alguma.
– Eu não preciso te ouvir, posso sair daqui a hora que eu bem entender.
E você está se mordendo de raiva porque está aqui preso.
– Preso, sim, mas por pouco tempo. A qualquer hora meu pessoal vai
vir me ajudar.
– Seu pessoal? Você quer dizer, seus capangas imaginários que não
devem nem ter notado que você sumiu?

18/10

Do meu ponto de vista nada interessante poderia acontecer. Não


naquela tarde, insuportavelmente lânguida de tanto tédio; insuportavelmente
tediosa de tão lânguida. Cada gesto, cada pensamento, cada atitude (ou sua
ausência), tudo era aborrecedor.
Não, o problema não era comigo.
Inexplicavelmente poderíamos culpar todo o resto da humanidade, toda
essa gente que eu tanto abominava e que ainda abomino. Poderíamos culpar
qualquer um... Exceto a mim. E o mais intrigante de tudo isso é que, mesmo
agindo de tal forma, estaríamos sendo justos – não por eu ser eu, até porque
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minha imparcialidade é bastante acentuada, mas porque não podem me culpar


por nenhuma de minhas ações.
Contrariando a falta de opinião da maioria, é muito salutar ser justo de
vez em quando e, se essa tal maioria a que me refiro tivesse um grama de
decência praticaria mais e, com um pouco de sorte, acabaria por acostumar-se.
Naquele tempo eu tinha uma peculiaridade que de peculiar não tem muito:
sempre confundia tédio com descanso, mesmo sem saber o que uma coisa tinha
a ver com a outra. Costumava reclamar disso, mas não reclamaria, não naquele
dia. Precisava mesmo descansar e, no entanto, não o faria.
Perda de tempo! Preferia usar meu tempo para descansar desse
descanso supérfluo, assim estaria preparado para o momento em que finalmente
usufruiria o tão esperado descanso perene. Ainda penso assim. Enquanto isso
não acontecia, eu seguia num tumultuado desencontro de minha vocação,
vocação que jamais tive. Vocação para porcaria nenhuma. Talvez pudesse fazer
algo para encobrir minha completa falta de talento, mas sabia que não o faria.
Em contrapartida, meu auto-respeito me implorava que eu mantivesse o
pouco que restava de minha dignidade, por isso eu ainda me esforçava no
cumprimento da minha missão, a mais importante de todas, que consistia
unicamente em salvar a mim mesmo. Como se fosse fácil! Não era capaz de me
libertar de minha vil existência, que por sinal, não chegava ser tão vil assim, e
já tinha plena ciência disso. Em meus escassos intervalos de lucidez e tédio,
muito fazia e pouco aprendia...
Muito melhor do que nada fazer, ou nada aprender.
– Não sei, não poderia...
– Claro que sabe.
– Só o que sei é que não posso.
Minha história tinha começado pouco menos de trinta anos atrás,
quando o mundo ainda era quase habitável e dotado de uma certa
particularidade que o tornava menos abominável do que é hoje: ainda existiam
pessoas gentis e inconformadas, acredite. Tinha tido ao menos uma parcela de
sorte em minha vida, que deixara na infância, a de ter sido criado por pessoas
assim. Naquele tempo, isso era tudo o que uma criança poderia desejar, era até
mais do que isso, não fora muito infeliz.
Vivia então numa cidade tão aprazível quanto uma urbe interiorana e
não tão desagradável quanto uma grande metrópole, o que a tornava o lugar
perfeito para qualquer um, até mesmo pra mim. Nunca houve muito a fazer,
nenhum aspecto interessante a ser observado, nada grandioso ou ao menos
digno de nota. O local estava distantíssimo de ser emocionante como um filme
de ação e tão sem-graça quanto uma comédia romântica hollywoodiana.
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Tratava-se de uma simpática Ilha-Estado com um nome que mais


parecia ter sido surrupiado de algum planeta extra-solar, Litosferius, formada
por rochas vulcânicas com uma área total de 21.800 km². Tinha algo em torno
de 6000 habitantes e situava-se à oeste da Austrália, no Oceano Índico, acima
do Trópico de Capricórnio. A região onde eu morava chamava-se No Yolk
(conhecida como a Big Egg apesar de ter apenas uma área de 5500 km² e uma
seleta população de 2300 habitantes aproximadamente).
O clima arredio e os temíveis vulcões nos lembravam constantemente
que nenhum de nós estava ali de brincadeira. O Litoscânder é um dialeto
estranhíssimo e dificílimo derivado de antigas línguas denaristas, nunca se
soube ao certo, e tinha sido o principal idioma a ser falado por aqui, mas
acabou desaparecendo no início do século XIX.
Por ser uma república completamente independente e isolada, esta ilha
legalizou a eutanásia e todas as drogas que ainda são consideradas ilegais em
todos os outros antiquados países e implementou a pena de morte por
apedrejamento para crimes hediondos, mas a lei litosferina continua a
considerar, muito eticamente, o aborto como infanticídio e a pena para isso é
prisão perpétua, com direito a bola de chumbo amarrada a ambos os pés e
trabalhos forçados.
A primeira metade de minha existência... Completamente desperdiçada
por um bando de troços ignaros, sem o menor senso de confiança, sem
escrúpulos ou moral. Mas, não se sabe se felizmente ou não, eu era diferente.
Julgava-me ser. Agora, no entanto, já não posso fazer tal afirmação com tanta
segurança, a única que um dia tive direito, a única que já conquistei. Eu a
perdera por muito pouco. Poderia tê-la salvo, poderia ainda tê-la intacta, para
mim e, no entanto, não mais a possuía. De qualquer forma, sempre haveria
chance, mesmo uma mínima, de trazê-la de volta para mim.
Um homem do tipo que eu ainda pretendo me tornar não poderia ser
concebido sem sua amada auto-suficiência. Fugindo à compreensão de
qualquer ser que se diz pensante, sempre bastei a mim mesmo e, se isso não
significa minha vitória, tampouco representa a minha derrota. Ora, ao menos
minha alma não se encontrava corrompida como todas as almas de todos os
humanos existentes, embora ainda tenha problemas em admitir que eu possa ser
humano.
Todos os que...

19/10
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Tratava-se de uma figura totalmente kitsch, emblemática e inusitada,


interna e externamente. Jamais desgrudava de seus peixes, e sim, era
inegavelmente um caso a parte, para ser cuidadosamente estudado,
destrinchado. Um sujeito "atipicamente atípico", como uma conhecida nossa
costumava dizer, e que sempre aparentava uma alegria extasiante, mesmo sem
senti-la de fato. Chamava-se JJ (não me recordo seu nome real) e naquela tarde
chuvosa ele adentrou minha casa, falante como de costume, trazendo consigo
um aquário com dois peixes.
– Pensava que você mal esperaria que eu entrasse e já dispararia a falar
sobre o nosso ensolarado plano, mas me parece que você consegue me
surpreender ainda depois de dois um mês desde que eu o conheci. O que é uma
manobra inegavelmente notável, mas você não deve se gabar, meu camarada,
pois apesar disso parecer mesmo uma manobra espetacular, saiba...
Não conseguia prestar-lhe atenção e ele logo notou, mas ainda assim
continuava a falar, com seu jeito falsamente-teatral-ultrapomposo, mas
deliciosamente musicado.
– Meu aprazível, como vê, teria acontecido uma verdadeira catástrofe
se você tivesse feito o que pretendia. Se eu tivesse proposto algo assim naquela
época, teria feito sentido, não teria? Não precisa responder, você é transparente
como uma folha de papel de seda, não consegue evitar que os outros leiam seus
pensamentos. Sei o que você vai dizer e já lhe adianto que, em absoluto, não
concordo. Claro que a sua opinião, nessas questões, vale quase tanto quanto a
minha, mas não é só isso que está em jogo. É muito mais, somos nós e nosso
clube sem-título e o resto dele, que é constituído por nós mesmos. Se você,
meu camarada, já tivesse morrido, poderia perfeitamente permanecer vivo na
memória de cada um que te conheceu, alguns diriam baboseiras como essa se
você já tivesse debandado, mas não seria uma baboseira sem sentido, e sim
uma verdade, pois todos podem ler seu interior muito facilmente.
– Fico profundamente feliz em ouvir isso. – rebati, desanimadamente.
– Pode caçoar a vontade, mas eu estou certo, como sempre estive.
– Não é de agora que eu descobri que você adora me imitar.
– Receio que seja disso que todas as outras almas perdidas e até mesmo
você, ou ainda as que não se consideram perdidas precisam. Tudo é exatamente
o que parece ser, e vice-versa. Injusto e, por tudo isso, inaceitável. Não
podemos continuar a viver assim, e não diga que não.
– Imagino que você tenha alguma alternativa revolucionária quanto a
isso.
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– Quase. Ainda não está pronta, mas trabalho incansavelmente nela e


logo estará. Eu divulgarei minhas idéias (ou ao menos a sua maioria mais
degustável) em vídeo, para que até mesmo os analfabetos e intelectualmente
preguiçosos possam tomar conhecimento dessas valiosas informações que são
diariamente cuspidas por meu cérebro perfeito.
– Então você se tornará um desses filantropos malucos que passam a
vida a serem destratados por todos os que receberam seu auxílio? Eu, em seu
lugar, teria muito cuidado com isso.
– Detesto as pessoas, detestaria ajudá-las, mas prefiro ver a divulgação
de meus ensinamentos como uma forma de autopromoção puramente
egocentrista, somente isso, nada tão humanotário e antropobesta quanto você
pensa. É a verdadeira e única auto-ajuda que existe e que sempre existirá. A
ajuda que me ajudará e, com um pouco de sorte, prejudicará os outros ao fingir
ajudá-los.
– Egoisticamente generoso! Devo admitir que estou profundamente
tocado com sua sensibilidade, mais ainda com sua contrariedade.
– Eu também.
– Você tem uma visão muito equivocada de si. Perde muito com isso,
sabe? Por outro lado, admiro sua falta de preocupação. Nunca o vi reclamar do
aumento do petróleo, do utópico reajuste salarial ou da baixa do dólar.
– Deixando minha modéstia de lado, devo dizer que isso faz de mim
um ser único. Não me preocupo com dinheiro porque posso conseguir o
suficiente e o suficiente me basta, apesar de não bastar para a maioria.
– Isso não faz sentido para mim.
– Tenho a impressão de que nada do que eu digo realmente o faça.
Ele fez uma longa pausa e, em seguida, retomou:
– Enfim, como vão seus genitores, sua prole, hein? Como vão os seus,
meu caro?
Ele não tinha notado que, se havia alguém naquela sala que fosse extremamente
transparente, esse alguém era o falso enigmático JJ. Sempre que ficava sem
assunto, o que acontecia a cada três minutos e durava cinco segundos, ele
perguntava sobre pessoas imaginárias em comum.
– Hmm... Você me viu ontem.
– E estou vendo-o hoje. Pode parecer uma teoria sem sentido, mas
creio que os nossos olhos servem para que enxerguemos.
Reconhecendo que sua piada não tivera o menor efeito sobre mim, ele
continuou.
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– Sabe, até hoje me questiono se minha sorte está nascendo agora ou se


ela jamais nascerá. Mas as minhas conclusões, invariavelmente, são
inconclusivas.
– Mas o que se pode fazer?
– Continuar.
Não conseguimos segurar as gargalhadas. Ambos percebemos que
aquilo soara demasiado artificial, especialmente porque nenhum de nós
acreditava realmente nessa baboseira sobre seguir em frente, cínicos crônicos
que éramos.
JJ dirigiu-se para perto da janela e abstraiu-se de si mesmo por longos
segundos. Eu apenas o observava em silêncio. Seu trejeito, meu favorito, que
consistia em olhar para cima a fim de simular meditação, era o mais utilizado
por ele. Aquela figura alta e semidebilitada tinha algo implícito que sempre me
intrigara. Aquele rapaz que outrora tinha sido a pessoa mais enigmática que eu
conhecera era apenas um fracassado sem estudos cujo futuro era tão certo
quanto a existência de uma bactéria em Plutão.
Seus olhos castanho-escuro eram tão inacreditavelmente peculiares que
lhe arrepiavam cada vez que lhe lançava um simples olhar. Não, JJ jamais
lançava simples olhares a ninguém. Apesar de manter um inevitável e bem-
resolvido desprezo por cada figura humana que lhe aparecia pela frente, ele
jamais deixava de olhar cada uma delas com certa compaixão, mesmo uma
compaixão fria, tão típica dele. O curioso era que ele era a única pessoa que,
naquela época, eu considerava digna de compaixão.
JJ interrompeu meus pensamentos na hora certa, espalhando suas
palavras rapidamente pelos meus ouvidos, fazendo bom uso de sua voz
desentulhada.
– Bem, está na minha hora. Você voltará a ter a honra de minha
presença daqui a exatamente uma semana, para que esqueça de vez quem fui
até então. Partirei hoje, desta vez não à contra-gosto, para minha acre e
umbilical cidade com o objetivo principal de visitar meus inventores.
– E quais seriam os objetivos coadjuvantes?
– Os de sempre, meu caríssimo: encontrar uns drinques, uns perdedores
e uns sons.
– Se você tivesse me avisado com alguma antecedência eu teria
arrumado meus trapos e poderia usufruir o verão insuportável e as praças
lotadas daqueles interioranos desinformados.
– Que bom que não cometi tal injúria. Mas quero esclarecer que em
meu berço não há gente desse tipo. Por mais provincianescas que possam
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parecer, ainda assim são dignas de certa simpatia, por sua vaga e hilariante
desonestidade. E refiro-me especialmente aos velhotes.
– Sendo assim, retiro a segunda parte de minha afirmação.
– Perfeito, meu caro. Quem sabe quando eu estiver de volta, você não
retire a frase inteira.
– Veremos. E apostemos.
– Nada de apostas. Adeus. Como disse, volto dentro de uma semana.
Durante minha ausência, como é praxe, você fará o trabalho para o qual não foi
designado. – entregando o aquário a mim – Cuide de meus meninos, sim.
– Claro, é minha missão preferida nesse mundo.
– Deve ser bom não ter o que fazer.
– Você conhece bem a sensação.
– E você me conhece bem, camarada.
Dito isso, JJ partiu a passos largos, fechando imediatamente a porta
atrás de si.
Permaneci estacado por alguns minutos, com o aquário nas mãos.
Fiquei ali, de pé, mais algum tempo observando os adoráveis peixinhos se
movendo no pequeno recipiente e senti uma curiosa simpatia por aquela forma
de vida tão bonita e prática. Certamente um estilo superior à vida humana... se
bem que toda forma de vida é melhor que a dos humanos.
Por fim, descansei o pequeno aquário sobre a escrivaninha, certo de
que falaria sobre isso com Lissa acaso minhas tentativas de me tornar
seminormal houvessem se mostrado frutíferas. Como uma solução torta de
autoconsolo, decidi dar um giro para espairecer. Vesti rápida e
descuidadamente meu casaco índigo copyright, desci correndo os quatro lances
de escada que separavam minha morada da rua e, em poucos instantes já
enfrentava os doze graus de vento e a garoa fina que ensopava as calçadas.
Fui andando enquanto pensava sobre o que eu tinha feito, discordando
do modo como tinha tentado, inutilmente, manipular os fatos, de como
fracassei em direcionar os acontecimentos, imaginando que não deveria ter-lhe
pedido que fizesse um sacrifício tão grande...
Quase arrependido já...
Cinco minutos depois, trombei com uma amiga, minha única. Sempre
sorridente, disparou.
– Já sei porque você está com essa cara.
– Posso prever sua próxima frase.
– Falta de vitamina B1 no organismo. Eu já te avisei, você não
consome quase nenhum alimento integral, vai acabar ficando doente. Onde está
indo?
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– Tomar um levanta-velho. A menos que você tenha desenvolvido


algum cereal natureba que faça efeito imediato.
– Não, mas tenho uma opção melhor.
– Me levar para tomar sopa de ervilha?
– Não tire onda, isso é sério.
– Já sei: levedura de cerveja!
– Não tem B1.
– Mas tem B2, que também age contra a suposta depressão que você
afirmou que me atacou.
Elissa era seu nome. Eu a conhecia desde sempre, sempre a tinha
considerado excessivamente especial e já tínhamos feito algumas tentativas de
levar nossa relação a um grau mais sério, nenhuma com êxito. Aparentemente
ela se cansou de minhas tentativas de piada e eu me cansei do seu jeito neo-
hippie-ecochata-ovolactovegetariana-ultrapoliticamente-correta, mas inexpli-
cavelmente nada disso nos impediu de mantermos nossa amizade. Por mim,
nada de objeções.
Fomos a casa dela depois que ela me prometeu parar de falar sobre
vitaminas do complexo B. Chegamos após uns vinte insignificantes minutos de
caminhada. O que aconteceu depois disso permanece uma incógnita para mim.

13/08

– Acha que a gente pega essa?


– Claro que não. A oferta é muito baixa. Sabe quanto trabalho eu tive?
– Sei, eu o ajudei. Mas acho que ainda vale a pena. Quarenta mil lits¹!
Puxa, isso é muita grana.
– Mas não chega nem perto de cento e cinquenta.
– Ninguém vai pagar tudo isso por elas, nem nos seus sonhos mais
malucos.
– Então não vamos vendê-las.
– Isso é uma sociedade e você está tentando tomar todas as decisões
sozinho.
– Foi mal... É que você não está em condições de fazê-lo, camarada.
– Como não? Só porque me mantenho bem informado sobre o
mercado? Não sou como nenhum dos idiotas com quem você já trabalhou, não
pode me passar para trás.
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– Confie em mim, eu perderia muito mais do que você.


– Você devia seguir meu exemplo.
– Você quer dizer que eu devia andar na linha, fingindo que isso é um
negócio legal?
– Por que não?
– Só quero fazer o que é melhor para nós dois. Precisamos valorizar o
nosso trabalho, senão daqui a pouco vão querer que a gente trabalhe de graça.
Isso sem falar que precisamos cortar custos. Tivemos uma despesa enorme com
viagens nos últimos três meses.
– Mas, quanto a isso podemos nos despreocupar, pois eles me disseram
que pagariam os quarenta mil e ainda nos reembolsariam todos os gastos.
– Mas não escreveram isso no contrato.
– Nada estranho há nisso. Sabe que nesse ramo tudo é informal. Tem
que se acostumar logo ou então cair fora.
– Sem essa! Isso nunca. Eu nasci para fazer isso.
– É, admito que você leva jeito, tem o dom. Você é muito mais
competente do que qualquer outro dos meus parceiros.
– Acho que é hereditário.
– Porco sortudo. Não desperdice isso. Eu seria o primeiro a lamentar se
você saísse do negócio, perderia com isso tanto quanto você.
– Quanto a isso, pode esfriar. Eu nunca vou parar.
– Então vamos propor a eles sessenta mil pelas duas, fora os custos.
– Não! Não podemos abrir mão dos cento e cinquenta.
– Cento e cinquenta é inimaginável.
– Só se for para eles. A trupe do Ed me pagava 100 por pacotes como
esse.
– É, mas o Ed morreu e, do jeito que aconteceu, ele não poderia
comprá-las mesmo que ressuscitasse e saísse da tumba.
– Estou dizendo que ele era um cara justo, honesto, que sabia o valor
de tudo, ao invés de só ficar cuspindo preços a esmo. E ele nunca nos dava
calotes.
– É, ele era íntegro, mas já deu muitos calotes.
– Mas nunca bancou o esperto para cima de mim. No fim das contas, é
isso o que importa, não é? A lealdade. Não se faz nada sem ela.
– Lealdade... Gosto disso.
– E então? Eu sei que se propusermos oitenta, eles vão titubear, vão
chorar um pouco, mas aí a gente joga uma conversa mole para cima deles, que
acabam aceitando e todo mundo fica feliz.
13

– Lembre-se de que eles ainda não te conhecem, você não pode


começar com o pé esquerdo. Não vai querer tê-los como inimigos.
– Acha que eu sou doido?
– Se falarmos em mais de cem, eles vão pensar que sim. E aí nos
exterminam e pegam as garotas de graça. Olha, eu já estou no ramo há mais de
doze anos, ou oito... Sei lá quanto tempo faz, sempre me confundo com
números pares... Mas sei como a máquina funciona. Não devemos ser muito
ambiciosos com essa gente. Segura as pontas, é apenas a sua primeira vez, se
pegar mais leve com eles, pode ter certeza de que vai valer a pena e os teremos
como clientes assíduos até que eles juntem as canelas.
– Ou nós.
– Que seja, o que acontecer primeiro.
– Vamos fazer como você disse. Só espero que seus milhões de anos de
experiência não nos afundem.
– E como isso poderia ser uma desvantagem, ainda mais a ponto de nos
afundar?
– Os tempos mudam, meu mui caro. É preciso sempre se reciclar.
– Isso é ladainha de marketing, só para que novatos como você pensem
que estão com tudo.
– Tem toda razão, pessoas como eu gostam muito de pensar assim.

13/08

Procura-se um sucedâneo para mim, alguém que aceite desfazer-se da própria


personalidade e tomar a minha para si.
O bem-estar de muita gente depende disso.
Contato: vol@dist.com.li

Foi assim que anunciei, na Gazeta Litosferiana, apesar de saber que não
obteria resultados nem mesmo minimamente animadores... Resolvi que, como
não tinha alternativa, devia tentar, sem medo de ser infeliz.
À parte disso, ainda permanecia aquela sensação absolutamente gélida
e incomodativa de que algo não se encaixava, mas pensava que fosse apenas
parte do meu delírio etílico e tentei, mesmo sem êxito, parar de pensar naquilo.
A impressão estranhíssima de que algo estava para acontecer me
arrancava as forças, mas a pior parte era me sentir novamente como uma
14

criança, como se absolutamente nada do que eu fizesse tivesse real


importância...
Talvez a sensação não fosse tão estranha assim, e talvez fosse a
maneira mais apropriada de se sentir. Podia mesmo ser isso, pois eu passara
toda a vida me sentindo como se tivesse controle sobre o que me acontecia, e
então, naquele dia, de repente percebi que não estava com a razão. E notei
também que o fato de que aquilo me incomodasse tanto era porque talvez fosse
a verdade. A verdade é, quase sempre, incomodativa.
Mas que diferença faz? Nada há que se possa solucionar apenas com
esforço próprio, nada.
Bobagem...
Eu não devia estar pensando nisso, já deveria ter me esquecido, se
tratava de algo facilmente esquecível... Ora, então por que eu não conseguia?
Sobre o plano... Bom, hoje, ao acordar, decidi que, como o mundo
sofre uma piora constante, resolvi zarpar. Eu sei, eu sei, pode parecer mesmo
um monte de elucubrações babacas de um ser ainda mais babaca, e sei também
que esse assunto torra toda a nossa paciência, mas claro que...
Não, não é sobre isso que eu deveria estar falando.
Ou sim... Ora, por que não?
Estava me referindo a essas chateações infinitas e variadas, das quais
não se consegue fugir ou se esconder nem mesmo durante uns poucos minutos.
Ah, e não, não se trata de infantilidade, nem de uma decisão que se deu de uma
hora para outra, mas de algo que está além dessas frivolidades que a enorme e
grotesquenta maioria considera intrinsecamente humanas.
Não, não há razões, não há meios, então por que poderia ou deveria
haver vontade, em seu sentido mais puro?
A vida real (ou mesmo a ficção pseudo-real, ou seja, aquela que busca
imitar a realidade, mas que não é bem sucedida) não faz sentido porque não é
guiada por causa e efeito, como deveria ser, mas por efeito e causa e, em alguns
casos, por efeito sem causa, o que é igualmente trágico. Logo, a obrigação de
incutir algum traço de real decai sobre a pura ficção.
Por isso, e por tantos outros horríveis motivos, pensei bastante e tomei
uma decisão, com a qual passei a me sentir visivelmente menos infeliz.
Fiel ao meu lema, resolvi listar os prós e os contras (o lema: sempre
que tiver dúvida a respeito de alguma decisão que se precise tomar, faça uma
lista dessa, é a única garantia que temos de vamos tomar a decisão certa) de se
continuar a "viver" neste mundo e concluí que há muito mais contras do que
prós.
15

O único ponto a favor que sobreviveu à minha análise foi o seguinte: a


possibilidade que tenho de poder me dedicar a meus hobbies (lembrando que
esta jamais poderia se tornar uma vontade universal, já que quase a totalidade
dos viventes terrenos não tiveram a mesma sorte que eu tive).
Horrível e insuportável realidade – pleonasmo! Como poderia a
realidade não ser, por si só, horrível e insuportável? – e talvez por isso mesmo
seja assim tão deplorável e angustiante, e não chega nem mesmo a ser um
motivo lá muito forte.
Entretanto, muito pior do que isso só mesmo a listinha dos contras de
se permanecer neste mundo: ser obrigado a conviver com a hipocrisia, a
indiferença, o completo desrespeito do homem pelo homem, enfim, com a
ignorância elefantina dos "poderosos"; essa é quase tão ruim quanto: ter de
lidar com todas as chatices fisiológicas "normais" a que somos submetidos
desde o nosso nascimento; preocupações sociais e financeiras das quais muitos
jamais conseguem se livrar; ausência de sentido nesta porcaria de existência.
Eu sei, eu sei, mas isso nem mesmo precisava ter sido dito... E sei
também que bastaria um desses motivos para desejar desaparecer dessa
porcaria de lugar, mas isso comprova o que dizem, que pouca desgraça é
bobagem...
O terceiro item da lista, felizmente, não se aplica a mim, mas constitui
causa dos maiores e mais graves problemas universais, isso é inegável, por isso
eu o coloquei na lista.
Não, não, creio mesmo que, considerando todas as circunstâncias, não
poderia ser melhor ou ter acontecido em melhor hora. Sou mesmo muito
sortudo, tenho condições de fazer ambas as coisas, e outras mais que não
cogito, qualquer uma delas que eu escolha está de acordo com as minhas
posses, eu não precisarei me preocupar com nada disso.
Poderia agora mesmo mergulhar nessa sem maiores dificuldades, mas a
questão é bem mais complexa... A verdade é que eu não posso fazê-lo. Não por
enquanto, ainda há muito a ser feito. Digo, algo importante, não algo do tipo
doméstico e trivial, como lavar o carro ou quitar as dívidas... Se bem que eu
estou perfeitamente ciente de que são coisas como essas que nos levam para
frente, que nos fazem ter uma vida, mesmo ela não sendo realmente nossa.
Bom, começando do começo... ou quase. Não é tão fácil.
Houve um tempo em que eu achei que tinha sorte, o tempo em que
meus pais (Neusa e Orlando Marques) ainda residiam neste mundo. Não por
isso, nem por qualquer outro motivo desse tipo, mas porque eu tinha algo... Na
realidade, me faltava algo.
16

Explico: eu era como todas as outras pessoas, desinformado e


resignado com minha tosca condição humana, sem saber nada sobre nada e
fingindo saber tudo sobre todas as coisas. Sobre as coisas importantes, digo.
Por isso me considerava sortudo, por ser como qualquer um e por ignorar o
óbvio. De fato, esse não é apenas o melhor jeito de se viver, mas o único que
garante a existência da raça humana tal qual a conhecemos.
Além do mais, sempre segui os preceitos da minha própria doutrina
filosófica, o Distanismo (cuja denominação vem de distanásia, morte lenta e
dolorosa), baseada no princípio de que a felicidade plena e duradoura não
existe, mas existe apenas aquela felicidade efêmera que sentimos (se tivermos
sorte) ao nos depararmos com algum acontecimento positivo, que nos eleva a
alma, mesmo que não seja algo grandioso, transcendental. Enfatiza também a
idéia de que, se não quisermos nos decepcionar grave, desastrosa e
irremediavelmente, não devemos esperar nada de bom dessa vidinha
desgramenta, mas apenas aceitar como lucro o que vier – e praguejar contra o
que não vier.
Deve ter notado que a minha doutrina distanista se originou da
Disteleologia (que prega a ausência de finalidade nas coisas do universo) e
incentiva o fim voluntário da humanidade, num suicídio em massa, como única
forma de salvar o que resta desse planeta – pois foram os humanóides que
estragaram tudo – mas, se não notou, tanto melhor.
Sempre fui cético demais para acreditar que não acredito e sei que não
fui o primeiro a concluir tudo isso, mas ainda assim, para mim isso tem um
caráter de descoberta, algo de inédito. É interessante como a gente parece não
saber certas coisas e, então, termina por reaprendê-las, após "forçar" um
esquecimento repentino. A meu ver, minhas conclusões são inéditas, não
porque eu jamais as tenha visto por aí, mas porque me falta justamente sua
parte empírica. Provas já existem e, mesmo que não existissem, ainda assim eu
acreditaria, pois sempre tive o defeito de acreditar em quase tudo – exceto no
que, à maioria, parece crível.
Claro que, nem mesmo em meus tempos de infante, nunca cheguei a
acreditar na real existência de lendas, no pseudopoder de todos os ditos
afrodisíacos ou na teoria furada de que as pessoas são capazes de evoluir
mental e espiritualmente. Pensando bem, isso já representava um sinal de que,
em breve, eu concluiria as coisas que acabei de concluir. Mas isso não significa
que eu possa continuar a perder tempo.
Pensar demais está muito longe de ser uma característica básica da
natureza humana, como a imensa maioria (não-pensante, por sinal) afirma.
17

Viu? É por discordar, por absolutamente, por dolorosamente, por


involuntariamente discordar de parvoíces como essa que eu preciso fazer o que
me propus. Mas antes, claro, ainda preciso encontrar para mim um substituto à
altura. Não posso nem pensar em sair daqui sem deixar alguém que preencha a
lacuna que se instaurará quando eu finalmente me for. Para que não haja
dúvida, vou esclarecer os motivos pelos quais estou certo de que, com a minha
morte, deixarei uma fenda gigantesca nos anais da História humana.
Para tal, elaborei uma pequena lista (que deveria fazer inveja a muitas
"pessoas de bem", mas que, misteriosa e infelizmente, apenas provoca risos)
onde organizei os motivos por que o mundo ficaria irremediavelmente perdido
sem mim. No entanto, como estou perfeitamente ciente do quão ridículo é dizer
coisas assim na primeira pessoa, não lhes mostrarei minha lista.
Seu que sou imbatível em matéria de filantropia, mesmo jamais tendo
desejado ser, pois sempre doei sangue voluntariamente (também já doei minha
medula óssea e voltarei a doá-la tão logo encontrem alguém compatível e que
esteja precisando dela – contanto que não seja um zé-ruela pagodeiro ou algo
tão desagradável quanto) e, mesmo sendo a pessoa mais espirituosa que já
pisou neste planetinha, a mais culta, a mais talentosa, a que possui melhor
índole (aliás, em todas as empreitadas nas quais já me aventurei, ficou provado
que não há adjetivos no planeta para fazer justiça a meu caráter), mesmo sendo
tanto, sento tudo, alguns dos muitos invejosos espalhados por este universo
cruento ainda afirmam que não sou nada.
Eu, um nada???
Um nada que é tudo!
Ah! Se ao menos houvesse um narrador por aqui...

15/08

– Cheeega! Não aguento mais ouvir você dizer que seu precioso
"Deligma"² é o melhor seriado de todos os tempos.
– Só porque é a verdade.
– Não, não me venha com essa, meu bem. Você não quer acreditar na
verdade: que, pela primeira vez na vida, aqueles diretores de programação
malcriados fizeram algo do qual podem se orgulhar.
– Vol, como alguém poderia se orgulhar de tirar do ar o melhor seriado
de todos os tempos?
– Me diga então por que ele é o melhor?
18

– Porque tem uma aura de mistério vista só em duas outras séries, que
eu nem preciso dizer quais são; porque, mesmo sem ter completado nem a
primeira temporada, "Deligma" conseguiu muito mais adeptos do que qualquer
outra e não apenas fãs; porque consegue ser, concomitantemente consistente e
screwball, mesmo sem jamais ter sido classificada como tal.
– Ei, esse último aí não é um bom motivo.
– Como não?
– Screwball é um subestilo, não algo do qual se possa vangloriar.
– Claro que é! Como pode dizer que não? Muitas tentam, mas só uns
2% ou 3% conseguem. Ser engraçado não é tão difícil, mas ser absurdamente
engraçado é mérito para pouquíssimos.
– E outra: se a série tivesse conquistado uma milionésima parte dos
adeptos que você alegou, então não teria deixado de ser produzida tão
rapidamente.
– Foi mais uma injustiça que cometeram.
– Você fabricou essa informação.
– Num mundo perfeito, habitado por pessoas perfeitas, a consistência
dos roteiros e a originalidade dos temas abordados seriam características
devidamente apreciadas.
– Isso justifica tudo.
– Você foi o primeiro a dizer que a mediocridade embutida das massas
a impede de apreciar qualquer tipo de arte genuína.
– E continuo a concordar com essa minha afirmação. O público só
gosta do que é medíocre. E, quanto mais medíocre, quanto mais se assemelhar
a eles, tanto melhor!
– Ei, esse prédio não costumava ser verde?
– E espero que ainda seja.
– Não me parece que será por muito mais tempo... No momento, me
parece bem cinza.
– Como é?
– Alguns dos condôminos estão lá embaixo, revoltados, gritando e
carregando umas placas... Placas malfeitas estampando mensagens patéticas
como "Abaixo a coleta seletiva de detritos!" e "Pro inferno com a energia
solar!".
– Sério?
– Se seus odiáveis vizinhos continuarem nesse ritmo, logo vão destruir
o sistema de tratamento de água do prédio.
– Desgraçados!
– Alguém tem de detê-los.
19

– E somos nós. Para que serviríamos senão para entrar em ação em


casos assim?
– Vou pegar meu phaser e já volto.
– Essa não é a Lissa que eu conheço.
– Não dá pra viver em 1994 para sempre, por mais que a gente queira.
– Mas, Lissinha, o que piorou de lá pra cá, além de tudo?
– Eu estava só brincando. Vamos, já perdemos muito tempo.
– Tem um plano?

16/10

Devia parar de chorar, mas não podia fazê-lo enquanto a iminência


constante do pré-sofrimento continuasse a subvertê-la.
Por que? Ah, por quem... Essa é a pergunta?
Precisa me dizer quais as perguntas que eu devo fazer para que você
me diga que não as quer responder?
Mas eu não sabia... Além do mais, você não tinha me falado nada isso
ainda.
Eu não. De forma alguma!
Você é quem devia ser mais compreensivo, já estou sendo mais do que
devia.
Então tudo aquilo tinha um significado, um sentido? Mas e se eu não
quisesse cooperar?
Ohh, sim, não precisava nem ter dito.
Ninguém deveria ter esse direito... Mas é claro que as regras não são as
mesmas para todos.
Como podia não ter percebido?
Cortar... Mas cortar o que?
É o que parece. O que mais poderia ser? Você não acredita porque
ainda não os viu. Mas ouvir não é a mesma coisa. Mas é mais fácil simular.
Se você ao menos fizesse como os outros, parasse de ser tão
irritantemente parecido com você, já nos ajudaria muito.
Estava dizendo isso a ela.
Não, a ela não. Ainda.
Não, não precisa, sabe disso.
Então por que você continua a...?
20

Não sei qual o propósito disso, ou melhor, eu sei, e é exatamente por


isso que o aconselho a não fazê-lo.
O que vai perder? Certa vez eu perdi algo que jamais tive, mas a
situação era completamente diferente. No seu caso...
Certo, eu me calo.

13/11

─ Cansado?
─ É... Senta aí por uns minutos.
─ Mas teremos que voltar logo.
─ Estou cansado, estou exausto, na verdade. Não me parece que
estejamos fazendo progresso.
─ Eu não vejo as coisas da mesma forma. Basta olhar ao redor para ver
que progredimos muito.
─ Progredimos um pouco, mas ainda é menos do que precisamos. Isso
é capaz de desanimar qualquer um... mas não você, ao que parece.
─ É que eu vejo o copo meio cheio.
─ Mas é que quando eu ouço as estórias deles é tão difícil aceitar que
não possamos fazer mais, porque o que eles precisam é de muito mais do que
está ao nosso alcance. Ontem mesmo o Jonathan me contou sobre o que o
maldito sobrinho dele tinha feito. É revoltante, no mínimo.
─ E essa nem é a pior parte.
─ Não. Viu só?
─ Prefiro não ver. É assim que eu faço, torna tudo suportável, inclusive
minha vida com você.
─ Já tentei isso.
─ Tente mais. Desistir disso é o que você não pode nem pensar em
fazer.
─ Fizemos o que estava ao nosso alcance, e continuaremos, não?
─ Sim, mas é que às vezes penso que não vou mais agüentar.
─ Vol, é claro que agüenta, você não é como os outros.
─ Eu não esperava que fosse fácil, mas é que alguns deles parecem
sofrer tanto. Ver tanto sofrimento, a dor tão palpável, real...
─ Eu só não desisti porque você me ajudou.
─ Eu??? Como a ajudei?
─ Vindo até aqui.
21

─ Não sabia que era tão fácil assim ajuda-la.


─ Em alguns momentos uma presença é tudo o que a gente precisa para
fazer com que as coisas dêem certo.
─ Acha mesmo? E quanto a uma certa ausência?
─ Essa não ajuda em nada. Mas ainda penso que é necessário
continuar, até porque, veja essas pessoas...
─ Sim, não há alternativa.
─ Mas até que é bom que seja assim, senão não estaríamos aqui. E se
não estivéssemos, talvez eles tampouco.
─ Somos adultos. E responsáveis! Consegue acreditar nisso?
─ Está brincando? Acredito nisso desde que éramos crianças. Aliás,
desde que eu era criança. Você já nasceu adulta.
─ Que horror, Vol!
─ Não, não, é um elogio.

16/08

– Não, ele não precisa de mais nada, quer apenas o necessário.


– Ei, onde foi que você achou esse cara?
– Não vou lhe dizer. O fígado da filha dele deixou de produzir
proteínas e...
– Direto ao ponto, por favor.
– Estou indo. Eu sei que você acha que um problema num dos órgãos
apenas é pouco sofrimento, mas acontece que essa garota só precisa mesmo é
do transplante para ficar bem.
– Ótimo. E quanto ele está disposto a pagar?
– Quinze.
– O que? Quinze mil lits? Só isso?
– Para um sujeito que antes não ganhava nem um décimo disso por
mês, isso é muito bom para dois ou três dias de trabalho.
– Acho que nisso nós discordamos, meu caro. Eu tinha pensado em
vinte ou mais.
– Seu capitalista safado!
– Você não precisa me bajular só porque é meu patrão...
– Mas é que eu faço questão de estar sempre às ordens dos meus
subalternos.
22

– Voltando ao assunto – sim, porque tem mais: o que a gente faz com o
resto dos órgãos?
– Jogamos fora.
– Eu sei que você é esquisitóide, mas você precisa entender que, não
importa o quanto faturamos até então, não podemos jogar dinheiro no lixo!
– Acha que eu gosto disso?
– Não vai me perguntar se eu tenho alguma idéia melhor?
– Eu já ia fazer isso. Você tem alguma idéia melhor?
– Por enquanto não.
– Então vá logo fazer seu trabalho!
– Ainda não.
– Que foi agora? Já fiz isso antes, diversas vezes, e nunca fiquei com
peso na consciência ou qualquer outras dessas frescurites que parecem atacá-lo.
– Mas antes a gente precisa arranjar um jeito de dar um fim a esse
desperdício.
– Isso é impossível, não há jeito.
– Há dezenas de milhares de pessoas desesperadas nas filas! Só
precisamos entrar em contato com algumas dessas pessoas e, você sabe, uma
mão sempre lava a outra.
– Boa parte dessas pessoas não tem dinheiro nem mesmo para pagar
uma cirurgia, muito menos para comprar um órgão.
– Ah, qual é? Não vem com esse papo de perdedor, não, camaradinha.
Dinheiro para salvar a própria pele todo mundo arranja.
– Quase todo mundo. Se fosse fácil como você diz ser, ninguém
morreria de inanição.
– Aí já é outra estória... Quero dizer que nessas filas tem gente de todo
o tipo, de todas as classes. Muitas dessas pessoas ficariam imensamente felizes
em fazer uso dos nossos serviços.
– Certamente, mas não dá para negar que é muito arriscado. Primeiro
precisaríamos acessar os arquivos com os dados das pessoas que estão em
espera. Depois, teríamos que abordá-las e lhes dizer o que fazemos... Seria o
nosso fim, as chamadas autoridades sequer precisariam nos espionar. Se
houvesse um jeito, acha que eu já não o teria descoberto?
– É que você é muito acomodado.
– Isso é só aparência.
– Poderíamos agir como mafiosos. Se nos delatassem, nós os
apagaríamos. Organizaríamos verdadeiras chacinas, piores do que todas que já
se viu.
– Como apagaríamos alguém de dentro da prisão?
23

– Mente pequena, mente pequena!


– Se você se conformasse que não leva jeito para líder revolucionário,
seria eleito funcionário do mês todos os meses.
– Sou seu único funcionário.
– E ainda precisaria de muito empenho para conseguir se superar
sempre, indefinidamente.
– Mas aí eu deixaria de ser eu.

17/08 - Manhã

Tenho que falar num sussurro?


Tenho que tomar cuidado?
Não... Não me parece mais necessário, não mais.
Ultimamente, tudo tem estado recoberto por uma aura de um
pseudomistério, como se eu não pudesse continuar a ser eu sem que precisasse
me concentrar com muito afinco.
Passos na escuridão... Não, mas também não chega a tanto. Talvez, em
minha confusão, só tenha me arrebatado porque eu mesmo devo, em algum
momento, tê-la provocado.
Nada além de mim e, no entanto, há sim!
Nada fora do comum aconteceu, mas a intimidante impressão de raio
silencioso antes de trovão permanecia. Já não sabia como agir para que os
todos soubessem que eu ainda era eu. Todos agiam de maneira estranha quando
estavam perto de mim, mas talvez sempre tenham sido assim e eu só tenha
notado depois de muito tempo que já os conhecia. É difícil descobrir, acho que
impossível de se explicar.
Eu poderia segui-los, investigar o caso mais a fundo, mas não creio que
obtivesse êxito. Por que eu faria isso? Só para ver se consigo um pouco de
sossego? Mas, se isso não funcionasse, eu ficaria ainda mais preocupado por
meu único plano decente ter falhado. Ou poderia conseguir uma resposta, mas
ela, a verdade, poderia me desagradar ou pior, me despedaçar.
Não, sabia que precisava de algo melhor, algo infalível e, embora eu
acredite que qualquer plano meu poderia receber o rótulo de infalível, ainda
não consigo desconsiderar a possibilidade de que aquele não era, até porque
dependia da ajuda de outra pessoa que não eu, o que aumentava em umas mil
vezes as chances de algo sair errado.
24

Nada disso deveria importar e, em uma situação normal realmente não


importaria, mas importava justamente porque não tinha nada além daquilo com
que me ocupar. Eu poderia ter saído correndo e gritando, tentando resgatar
aquele que tinha prendido, ou que pensei ter prendido, ou poderia tê-lo
destruído de vez, mas é lógico que não fiz nada isso.
O que me incomodava naquele instante era que eu sabia que tudo
deveria estar normal; as coisas teriam voltado a entrar nos eixos acaso eu
tivesse feito tudo o que eu me prometi que faria. Não que isso importe tanto
assim, pois de todas as ações humanas, nenhuma é realmente importante, muito
menos essencial ao funcionamento natural do universo, mas o problema era que
importava para mim. Resolver aquilo era, naquele momento, uma prioridade,
mas em minha ânsia de resolver tudo, terminei por não resolver nada.
Claro que, olhando para trás, tão distante quanto posso me lembrar,
vejo que algumas modificações foram feitas, e foram modificações positivas –
ao menos algumas delas. Mas, ainda assim, não me sentia bem com o que tinha
feito.
Quando ele estava aqui, a vida parecia seguir como se espera que seja,
sem muitos baques ou mudanças desnecessárias, sem quase nenhuma reação
brusca. Aquela pasmaceira me faz falta, pois embora eu hoje possa desfrutar de
uma espécie de paz, parecida com a de outrora, ainda sinto que é bem diferente
do ideal ao qual estávamos acostumados.
Perder algo assim não poderia ser pior ou...
Poderia, e duas pessoas em especial poderiam fazê-lo... Só não tinham
feito ainda, talvez por não terem visto nisso um jeito de me atingir.
Muitas pessoas não costumam perder tempo, mas nos fazem perder o
nosso.
Ainda não entendo... Há tantos fatos que ainda não entendo.
Como ela pode gostar de algo assim? Não se trata apenas daquele
maldito seriado malfeito que por pouco não virou febre mundial... Aliás, roteiro
lotado de falhas e lacunas, mas ninguém parece notar. Como isso é possível?
Estranho seria se não tivesse acontecido; o oposto seria o aceitável e, por isso
mesmo, o que menos vezes é aplicado. Ainda assim ela parece ser atraída por
esse tipo de parvoíce, mesmo sendo tão esperta, quase brilhante em alguns
momentos mais inspirados.
Ah, as atuações! Não dá para levar a sério. Além de ser difícil acreditar
na trama incrivelmente bestalóide, ainda temos aí a questão das atuações. Um
diretor com o mínimo de talento que a função exige e com mais visão do que
aquele banana que escalaram, poderia, com muito esforço, fazer desta uma
série semicult, tratável e assistível, mas em mãos menos hábeis, isso se tornou
25

uma impossibilidade. A falta de talento do elenco, combinada com a


destalentosidade (acredite, essa gente não merece neologismo melhor que esse)
dos produtores e roteiristas e acrescida da mediocridade do público gerou um
monstrengo pior do que os gerados pela televisão durante os anos 80.
Mas eu deveria parar de falar dessa maldita série insossa com tom de
comédia e que não passa de um emaranhado de besteiras, porque eu já perdi
tempo demais com ela, muito mais do que essa lixeba merece.
Não falar mais nisso. Não falar mais nisso.
Não se trata apenas disso.
Não sei se poderia ter silenciado...

17/11

– Ainda acho que você deveria, Lissa.


– Não, besteira.
– Quer dizer que eu só digo besteiras?
– Não, quero dizer que você às vezes fala muita besteira.
– Mas não agora.
– Talvez... Mas isso não importa.
– Ora, como não? Quer dizer que você não tem importância para si
mesma?
– Se eu quisesse dizer isso, já teria dito.
– Pensei que gostasse de fazer rodeios antes de falar a sério.
– Já não sei mais do que gosto.
Silenciamos.
Sim, merecíamos aquele silêncio.
– Você está melhor hoje?
– Nada bem. Nunca mais estarei.
– Também não sei o que vou fazer sem o JJ? É muito azar morrer
graças a um mosh mal calculado.
– Muito azar para todos nós.
– Morte interessante. Triste e interessante.
– É, mas morte é morte.
Silêncio. Ambos pensando...
Não sabia sobre o que ela pensava. Costumava saber.
Ah, esses silêncios!
26

– Sempre o considerei frágil demais para viver e forte demais para


morrer.
– Eu também. Apesar de sempre ter aparentado ser um cara que se
esforçava para não ser muito mórbido, ele parecia ter passado a vida a esperar
que a morte viesse em seu socorro... Ao menos não precisou esperar tanto
quanto a maioria.
Mais uma enxurrada de silêncio.
– Estou cuidando dos peixes dele.
– Eu os vi, são lindos.
– Você os quer?
– Se os quero? – ela dirigiu-se para perto do aquário, o pegou e andou
rumo à porta – Vou levá-los já.
– Você já vai, Lissa?
– Já. Até amanhã.
– O que tem amanhã?
– Outro dia.
– Nem me lembre!
Lissa saiu, deixando o ar estranhamente mais pesado. Fiquei de pé, à
frente da janela, a observar a movimentação na rua. Creio que fiquei ali por
muito tempo, pois quando voltei a mim, já tinha escurecido quase por
completo. Não que houvesse algo interessante acontecendo, ou que eu me
interessasse por qualquer coisa que nada tivesse de interessante, mas
simplesmente por não ter mesmo o que fazer, ou o que pensar...
Engraçado isso, pois eu sempre estive, durante os primeiros anos de
minha vida, lendo alguma coisa (qualquer coisa, não me importava) e, quando
não era isso, estava ouvindo alguma coisa no rádio. Essas duas únicas
atividades, apenas elas, me tomavam todo o tempo. Nunca me sobrava mais do
que alguns poucos minutos durante o dia para me dedicar a algum esporte (e
vontade para isso, lembro-me, não era coisa que me faltava) ou a qualquer
atividade menos sedentária. Simplesmente não encontrava tempo...
E então, poucos anos depois, lá estava aquele sentimento de tédio, de
desconforto, de espera.
Espera?
Esperando um grande acontecimento?
Não sabia se estava querendo me lembrar de alguma coisa sobre JJ, ou
se queria pensar sobre a reação de Lissa ao saber da morte dele...
Pensei um pouco sobre isso – é, encontrei tempo – e concluí que ela
estava apenas tentando fingir-se forte, embora ela sempre tenha sido bastante.
Não via outra explicação.
27

Ah, sim, via sim, uma: era possível que ela pensasse que ele estava
melhor estando morto. Sim, isso explicaria muita coisa.
Durante o pouco tempo que passamos juntos, ele chegou a me falar
sobre como imaginava a sua morte (ele a idealizava, como eu, a morte era a
única coisa à qual ele era capaz de se dedicar... tão igual a mim!), e era
justamente dessa forma, o nada.
Claro, isso fazia sentido e fazia sentido também que ela concordasse
com ele a esse respeito.
Mas de que adianta concordar ou discordar de alguém quando se está
morto?
Morto como as notas de um antigo jazz, notas que não mais podíamos
controlar. Mesmo que pudéssemos pegá-las com as mãos, de alguma forma,
sem que percebêssemos, elas fugiriam por entre nossos embasbacados dedos.
Lissa sabia disso.
Uma morte necessária. A morte sempre foi e sempre será necessária
para que a essência de um ser não deixe de existir.

17/08 - Mais tarde

– Que espécie de sacripanta você é? Mas por que diabo você bateu
nela? O que deu em você? E por que trouxe a velha?
– Que perguntas são essas?
– Responda!
– A velha disse que não largaria a menina.
– Devia tê-la feito largar. Um ponto negativo para você.
– O que deu em mim? O de sempre.
– Mais um ponto negativo por isso.
– Por ficar parado no tempo?
– Não. Não é só pelo fato de que você não evoluiu desde que chegou,
mas porque involuiu.
– Por que bati nela? Ela é minha agora... Ao menos por enquanto.
– Mas acontece que ela não pára de chorar. Acha que meus ouvidos
ficam felizes com isso?
– Os meus também não, mas pelo que eu vi, não há como fazê-la parar.
– Sabia que só poderemos desligá-la amanhã à noite?
– Sério? Você devia ter me dito isso antes... Eu não sabia que ainda ia
demorar tanto. Por que me mandou pegá-la com tanta antecedência?
28

– Geralmente esse pessoal tem pressa, mas essa não é uma situação
corriqueira. Há algo psicoticamente diferente ali.
– Acha que ele pretende revendê-la?
– Ele me pediu apenas uma menina, nenhuma especificação e também
não me disse para quem era a encomenda. Pensei que fosse para algum
familiar, mas agora acho que não, ele não parecia nem um pouco preocupado
ou ansioso. De qualquer forma, não faz diferença. Depois de nos pagar tudinho,
ele que faça o que bem entender com elas, eu não me importo.
– Pois eu sim. Se esse sacana estiver comprando nossa mercadoria a
preço de banana e revendendo por aí pelo preço que quiser, estaremos acabados
antes que sua cabeça fria nos deixe perceber.
– Se ele estiver fazendo isso, azar dele. Logo será pego.
– E aí nos denunciará. Ou você acha que ele vai se foder sozinho?
– É um dos muitos riscos desse negócio. Se não fosse perigoso, se não
corrêssemos muitos riscos, teríamos muita concorrência, os preços
despencariam e se tornaria um ramo muito pouco lucrativo.
– Riscos, riscos... Temos que diminuir esses riscos. Se envolver com
gente assim é suicídio profissional, carinha. Como você sobreviveu até hoje,
para mim é um mistério. Mais que isso, é um verdadeiro milagre!
– Os bancos só faturam tanto por causa dos juros dos empréstimos.
Faliriam numa semana se deixassem de confiar em seus clientes.
– Os bancos não confiam nos clientes, nunca confiaram, e estão
certíssimos. Se emprestassem a qualquer um, aí sim faliriam ainda mais
rapidamente do que você pensa. Além do mais, a questão aqui é muito mais
complicada. Não podemos nos dar ao luxo de confiar em absolutamente
ninguém.
– Eu confiei em você, e ambos estamos nos dando muito bem. Mas, e
se eu não tivesse dado o primeiro passo, o voto de confiança de que você
precisava, o que teria acontecido conosco? Eu teria perdido todos os clientes
em potencial, pois sem você para fazer o trabalho braçal, não poderia mais
suprir a demanda. E você também não estaria em melhores condições,
provavelmente se tornaria um deprimente e deprimido garoto de programa ou
mesmo entraria para a política. Já imaginou o horror? Como eu disse, ou talvez
não tenha dito ainda, tudo é troca.
– Mas nessa troca, sempre há os que ganham mais, e há os que perdem
muito.
– Se ele fizer mesmo o que pensamos que faz, acaso seja apanhado, e
acaso venha a nos denunciar, isso não resultará em preocupação alguma para
nós. Não basta dizer, ele precisará provar que estamos envolvidos. Como acha
29

que ele fará isso? Ah, e você ainda se acha o máximo, uma espécie de
trimegisto do submundo real. Ora, você nem sabe tudo o que diz respeito ao
seu próprio trabalho. E você não me respondeu a primeira pergunta, mas creio
que seja desnecessário.
– Sabe, você não devia me tratar assim. E também não espere que eu
lhe explique o porquê.

18/08

Resolvi recuperar algumas telas às quais tinha negligentemente


manchado com tinta IKB. Não o fizera intencionalmente, se bem que, olhando
para aquelas figuras exóticas e lúgubres, parecia ter sido. Para minha tristeza, vi
que precisaria refazer boa parte delas, desde o início, mas isso não era tão mau
assim, pois copiar a si mesmo é sempre muito mais fácil do que copiar a
qualquer outra pessoa, e infinitamente mais fácil que criar, a partir do nada,
algo novo ou que seja assim considerado.
De qualquer forma, tratava-se de um hobby, então eu deveria sentir
prazer em dedicar-me a isso, não é mesmo?
Antigamente, pintar era, para mim, algo mágico e encantador, que me
elevava a um plano indefinivelmente mais elevado e "claro", onde as dúvidas já
não constituíam um problema de fato. E continuo a sentir assim a arte, mesmo
a minha ápterarte. Naquele tempo, minha arte era totalmente intuitiva, apesar
de já ter uma base teórica muito proeminente e que alicerçou o terreno para que
eu não começasse do zero e depois tivesse de derrubar tudo. Mas eu não era
totalmente ignorante, não mesmo, suponho que jamais tenha sido, mesmo em
criança. Ainda assim, há muitos anos, quase cheguei a um ponto em que tentei
me convencer de minha ilusória e indesejável ignorância e me tornei obcecado
em aprimorar minha técnica artística.
Hoje já não preciso recorrer a ninguém quando preciso saber se meu
trabalho tem valor, só a mim mesmo. E devo isso ao conhecimento da técnica
que, mesmo quando desacompanhado de talento natural (que todos com "alma
de artista" deveriam ter) é muito útil não só na escolha de seus mestres (aqueles
de quem você copiará até que encontre seu próprio estilo – ou pelo resto da
vida, como ocorre em muitos casos), como também é fundamental para que a
pessoa descubra se pode ou não fazer isso.
Olhando para aqueles quadros que eu tinha feito no ano anterior, já não
me enxergava neles. Não tinham alma, faltava vida, faltava brilho, faltava
30

tudo... Nem mesmo as cores estavam de acordo, tinham sido pessimamente


dispostas no espaço. Essa constatação, no entanto, não me desarmou. Dizer que
a obra tem de necessariamente refletir o artista é dizer uma meia verdade ou
mesmo uma completa mentira. As telas refletiam a mim na época em que eu a
fiz; não tinham deixado de fazê-lo apenas pelo fato de eu ter mudado um
pouco, até porque a minoria dos humanos muda muito durante sua vida. As
mudanças que ocorreram em mim parecem ter me tornado pior em certos
aspectos, aliás, em muitos, ao contrário do que aconteceu com os quadros.
Muitas das poucas pessoas que conheço diriam que estou muito bem, tanto
quanto sempre estive, ou que pareço até mais sadio hoje do que há um ano, mas
acertar é difícil, e numa constatação como essa, é quase impossível.
Meus outros quadros, os que eu tinha pintado seis anos antes (ou um
pouco menos, não espere que eu me lembre de coisas sem importância como
marcar a passagem do tempo), ainda hoje me parecem coerentes e equilibrados,
de uma beleza sóbria e objetiva, abuso de contrastes cromáticos (aqui, o abuso
é no pior dos sentidos) e sociais, tudo bem disposto na tela, as cores, tudo
pronto para a escola volística do re-renascimento. Correção: tudo estaria certo,
não fosse uma característica esquisita: a presença de figuras assimétricas em
meio a tantas cujos valores eram puramente classicistas, que eu, sendo um
pouco descuidado, tomava o cuidado de seguir à risca. Não ficava tão mal
quanto faço parecer, até que as telas tinham seu charme. Charme sim, mas e o
sentimento? Não, eu não considerava nada disso importante, embora
considerasse importante transpor os ideais barrocos por cima de valores
seminovos e sem personalidade, apesar de terem sido criados por mim, um
homem com uma personalidade de diamantes.
Misturas, misturas... Isso era tudo o que eu fazia, justo quando a única
mistureba sobre a qual eu deveria empreender minhas energias de artista mal-
sucedido era misturar tintas. A propósito, eu fazia isso também, embora com os
mesmos resultados ínfimos das misturas dos estilos. Aquelas variações dos tons
de marrom, preto, cinza escuro e azul marinho, todas atiradas a esmo nos
quadros faziam com que eu me arrependesse de ter me embrenhado pelas artes
plásticas.
Arte! Aquilo era arte? Sem chance! E eu sabia disso. Todos os dias, ao
olhar para aquelas assombrações espantosas, eu dizia a mim mesmo: "Deveria
jogá-los no lixo", mas meu outro eu me dizia que, seguindo por um caminho
sabidamente errado, eu encontraria a minha redenção artística. Deveria estar
mais preocupado em encontrar perdão por aqueles crimes hediondos que eu
tinha, conscientemente, cometido.
31

Não, eu já sabia que isso jamais aconteceria, que eu jamais seria


realmente um artista, nunca houve possibilidade de que isso fosse possível, e eu
sabia disso já naquele tempo. Então, o que era? O que acontecera? Mudar assim
não é nada bom... Uma mudança para pior já é inaceitável; várias, é
vergonhoso.
Sabia que a culpa era somente minha, pois eu tinha feito tudo aquilo
quando me encontrava em plana consciência de quem eu era, mas ainda não
consigo, hoje, me culpar. Sei que a culpa por ser um pintor ruim é minha,
sempre foi, pois jamais me dediquei tanto quanto deveria e sei que precisava ter
me dedicado.
Por que eu não conseguia aceitar então? Nenhum castigo me esperava,
então eu não precisava temer as trevas da negligência - e não as temia
absolutamente. Então...?
Mudar! Mudar assim...
Melhor seria permanecer estático no tempo e no espaço.
– Bob?
– Como é?
– Ah, por favor, de novo não!
– O que foi, Lissa?
– De novo essa patetice de ser quem não é. Você fez toda aquela
encenação ontem e fez tão bem-feito que eu quase caí. Mas, depois que eu
voltei para casa, pensei bastante sobre isso e vi que você realmente é você, e
não é o Bob. E não adianta fazer essa cara de quem não sabe do que estou
falando, porque foi você quem começou e é mais difícil me enganar do que
parece.
– Não sei o que dizer...
– Podia ter me dito que era um deligmista.
– Eu o que?
– Eu sei, foi divertido e gostei mais do Bob do que de você.
– Bom pra você! Imagino que, agora que finalmente arranjou um
namorado, mesmo sendo imaginário, vai parar de me perseguir.
– Vou fazer um esforço.
– Então, o que vocês vão fazer hoje?
– Quem está perguntando é o Vol ou o Bob?
– Quem é esse Bob?
– Ah, por favor, não recomece.
– Por que não? Você disse que era divertido.
– Era divertido quando você começava a encenação desde o instante
em que me encontrava, não depois de já termos travado um diálogo.
32

– Mas não estou encenando nada.


– Que saco! Se estivesse encenando ser o Bob, você poderia deixar de
ser um completo babaca e continuaríamos de onde paramos.
– E de onde você e o Bob pararam?
– Você não se lembra mesmo?
– LISSA!
– Não grite comigo.
– Então pare de me confundir! E pare de falar nesse cara, porque acho
que já o odeio.
– Ei, alguém aí arranje ácido fólico pra esse maluco.
Apesar da obsessão por nutrição, Lissa costumava ser uma pessoa tão
estupidamente normal que chegava a me dar nos nervos, mas ainda assim, eu
preferia a versão de antigamente. Nunca a tinha visto agir daquela forma, e só
conseguia pensar numa explicação para a mudança: ela queria chamar minha
atenção.
Sim, porque desde que a gente se conhecia, ela vinha tentando isso, de
diversos modos diferentes e em diversas fases de nossas vidas, mas sempre sem
alcançar resultados satisfatórios. Apesar disso, parecia-me que ela não pensava
em desistir. Aliás, um dos defeitos mais insuportáveis dela (não que ela os
tivesse aos montes, mas apenas alguns) era jamais se dar por satisfeita. De
todas as garotas ultranormais, ela certamente era a mais anormal que eu já tinha
visto. Sua normalidade de tempos atrás quase chegava a ser atraente,
absolutamente encantadora sob certa luz, o que muito me fascinava. Talvez
justamente por ser normal demais, ela tivesse escolhido estudar Nutrição (e
também por influência de sua família, que queria muito que Lissa tivesse uma
profissão normal, isto é, de verdade, segura, reconhecida) ao invés de Artes
Cênicas, como ela sempre quisera.
Apesar de vir de família abastada, Lissa sempre esteve a muitos
trilhões de quilômetros de distância de ser uma dessas ridículas e empiranhadas
patricinhas ultra-alienadas. Disso não se podia acusá-la, sem ser injusto, e
realmente não havia necessidade de fazê-lo. Especialmente por ter uma alma
generosa e índole prática que nos tornamos amigos e, posteriormente, amantes;
e sem seguida, amigos novamente. Além disso, ela sempre foi muito
carismática, e uma pessoa assim é sempre utilíssima de se ter por perto.
Pessoas carismáticas podem dominar o mundo, se quiserem.
Mas a cada dia me convenço de que ela não quer nada disso.
– Ele me disse que não era você, mas aí eu telefonei para cá no mesmo
instante em que falava com ele e adivinhe só: ninguém atendeu.
33

– Isso foi ontem? Eu saí à tarde. A que horas você ligou? Por que não
deixou recado?
– Me diga você. Saiu durante a tarde toda, e foi à Convenção
Deligmista, onde me encontrou.
– Só se eu fosse louco, extremamente idiota e estivesse muuuito
chapado.
– Certo, então quando eu o reencontrar hoje, às 21h, o trarei aqui para
descobrir o que já sei: que vocês são a mesma pessoa.
– Eu ficarei bem aqui, esperando você e seu amiguinho ilusório. Só que
você vai ter que me avisar cada vez que ele se movimentar, para evitar que eu
me sente em cima dele, ou algo bem pior.

20/08

Durante o tempo em que estive aqui sozinho, reproduzi mais duas telas
das que tinham sido manchadas de azul. A solidão sempre teve o poder mágico
de me tornar produtivo, mas imagino que isso ocorra com todas as pessoas que
passam muito tempo sozinhas. Não preciso de mais do que isso para me
inspirar... Nem de uma bela vista, nem de uma grande tragédia, nem de uma
grande alegria, nem mesmo preciso fazer alguma coisa fora do comum, apenas
o fato de ficar sozinho já me proporciona tudo o que é necessário para que eu
possa criar. Se bem que, para copiar a mim mesmo, não é preciso buscar
inspiração.
Enfim, enquanto esperava Lissa e seu abstrato namorado, aproveitei
também para rever em algumas fotos antigas. Aliás, não exatamente antigas,
mas de uns sete ou oito anos atrás. São melancólicas fotografias do mar, das
dunas, das pedras, de alguns animais nativos, enfim, de toda a linda costa sul-
litosferiana num típico dia nublado. Naquele tempo, eu bancava o fotógrafo
(esse era então meu hobby favorito) e não permitia que nenhum humano se
embrenhasse nas minhas imagens naturais. Nem mesmo tenho fotos de JJ. Por
melhor que ele fosse, ainda assim era apenas mais um humano, e como tal, não
merecia que gastássemos nem mesmo alguns poucos segundos observando sua
imagem. Só mais um ser humano entre tantos.
Além de ter como profissão ser ele mesmo 168 horas por semana, ele
era um artista de verdade, em todos os sentidos, um artista completo. Sempre
sabia onde buscar inspiração, a qualquer hora, em qualquer ocasião. Nada do
34

que ele fazia era por acaso, sempre planejava cada mínimo ato, apesar de
jamais ter conseguido realizar nem mesmo os planos mais básicos.
– Olha só que surpresa, você está bem aí!
– Já sei: sarcasmo.
Ah, qual é? Não era só porque ela estava com uma cara péssima que eu
ia perder a piada.
– Claro que você já sabe que eu levei o bolo.
– Sei sim, mas me permita fingir surpresa: "Não diga! O Bob te deu o
bolo???"
Suspirou, sentou-se e suspirou novamente, antes de dizer, com um
movimento de braços muito charmoso, apesar de desolado.
– Não sei mais o que fazer com você.
– Não sabe? Pois eu sei o que fazer com você: ácido fólico. Comeu
toda a sua escarola e os brócolis ou deu tudo para o cachorro?
Ela me atirou uma almofada, que passou a um metro de distância do
meu abajur verde favorito.
– Lissinha, meu amor, minha flor, permita-me ser um pouco piegas. A
culpa não é minha se sua teoria de que eu tenho dupla personalidade não se
comprovou.
– Você disse ao Bob para não ir, não foi?
– Birutinha bonitinha, estou quase convencido de que seu problema foi
causado por insuficiência de piridoxina.
– Já chega, Vol!
– Certo, certo... Olhe, por que você não vai para casa e fica do ladinho
do telefone. Já imaginou a catástrofe que seria se ele ligasse para explicar qual
foi o terrível contratempo que o impediu de ir ao encontro e você não estivesse
lá para atendê-lo?
– Não vai se livrar de mim se não me expulsar corretamente.
– Então vou ter de sujar minhas mãozitas?
– Se quiser fazer mais um dos seus trabalhinhos imundos, sim.
– Tudo bem, fique o tempo que quiser, mas como eu disse...
– Tem muitas verdades além dessa que pretendo esfregar na sua cara.
– Imagino que sim.
– E imagino também que ser tão cínico e desalmado dá muito trabalho
e torra toda a sua energia. Que tal descansar um pouco de si mesmo, hein?
– Uma massagem ajudaria bastante.
– Isso vem bem a calhar. Eu tenho na minha bolsa o cartão de uma
massagista muito competente... A menos que você prefira um outro tipo de
profissional.
35

– Acontece que eu prefiro um serviço amador, autodidata, como o seu.


– Sério? Pena que eu não estou disposta a isso.
– E veio fazer o que aqui, fofa? Tomar sua dose diária de salsaparrilha?
Ela suspirou novamente e, recostando-se, fechou lentamente seus belos
olhos. Ficou nesta posição durante vários minutos, achei que ela estivesse
dormindo. Levantei-me, fui até meu quarto, peguei um cobertor, joguei-o por
cima dela e fui dormir.
Quando acordei, já passava das dez da manhã!!! Amaldiçoei a mim
mesmo por ter perdido tanto tempo. Puxa, eu poderia jurar que tinha
programado a TV para me despertar às sete. O standby estava desligado, o que
indicava que tinha faltado energia elétrica durante a madrugada.
Fui até a sala, com a intenção de me desculpar com Lissa, mas ela já tinha ido
embora. Tinha deixado uma mensagem na secretária: "Bob, eu sempre soube
que você não me deixaria na mão. Depois dessa noite, você é quem merece
flores. Te vejo depois, te adoro!"
Só de pensar que ela era, até então, a única pessoa mentalmente sã na
minha vida...
Disquei o número do consultório de Lissa. Foi ela mesma quem
atendeu.
– Bom-dia, Bob. Dormiu bem?
– Vou ter que perguntar a ele. Lissa, que mensagem patética é aquela
que você me deixou?
– Não é para você, é para o Bob, por isso eu falei "Bob" antes de
começar a frase... Você não devia mexer nas coisas dos outros.
– Mas o número do telefone é meu, e os recados também...
– Claro que sim, Sr. Invejoso.
– Parece até que vocês incomodaram os vizinhos durante toda a noite.
– Ah, nos divertimos à grande, mas não fizemos tanto barulho assim.
– Forjou tudo isso por quê. Para me confundir? Não está funcionando.
– Sabe, um dos motivos porque amo tanto o Bob é que ele não tem
nenhum problema em admitir que me ama mais do que tudo e que não pode
viver sem mim.
– Isso só prova que ele é totalmente o oposto de mim. E, Lissa, eu não
a amaria nem que eu fosse outra pessoa.
A essa altura ela já tinha desligado, mas minha cólera tinha me
impedido de perceber...
Não entendo até agora por que eu estava tão enraivecido. Que
bobagem! Não importava o que tinha ou não acontecido, muito menos o que
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ela dizia que tinha acontecido. Sempre fomos amigos, eu sabia que não tinha
razão alguma para maltratá-la daquela forma.
Prometi a mim mesmo me redimir... Eu a buscaria no fim do dia, me
desculparia como pudesse e iríamos onde ela quisesse. Ela não só me
perdoaria, como se divertiria tanto comigo que esqueceria de uma vez aquele
pateta do Bob.

17/10

– Opa.
– E então?
– É isso aí.
– Isso o que?
– Você sabe.
– Não se for sobre o que eu não estou pensando que é.
– Não é sobre isso.
– Como sabe?
– Não reconhece um chute certeiro quando vê um?
– Às vezes, mas não esperava isso de você.
– Cala a boca.
– Só poderia mandar em mim se esse não fosse o meu cativeiro.
– Mas eu que estou preso nele.
– Mas sou eu quem tem a chave.
– Grande merda.
– E você nunca vai descobrir onde está.
– Que se dane! Jamais precisei de chaves.
– Eu também não preciso.
– Mas eu preciso beber alguma coisa.
– Não sei... Soube que durante a Idade Média, os prisioneiros políticos
só recebiam um pouco de água barrenta para beber a cada três dias.
– Não sou um prisioneiro político.
– Nem precisa dizer, não tem cacife para isso.
– E prefere mesmo viver no passado?
– Claro. Você não?
– É...
37

– Não, não responda, eu não quero saber. Só perguntei por força do


hábito. É que geralmente eu mantenho relações apenas com pessoas cuja
opinião me interessa.
– Eu também, por isso é tão difícil ficar aqui.
– Cuidado com o que diz, patetinha. A coisa pode ficar preta pro seu
lado.
– Você não me convence com esse papo de cara durão. Vem cá, me
fala quem está te ajudando.
– Ahn? Ajudando-me? Está vendo algum ajudante por aqui?
– Quis dizer nos bastidores. Não negue, eu sei que você jamais
conseguiria fazer tudo isso sozinho, não nesta vida.
– Isso é muito engraçado, muito mesmo, assim como tudo o que você
diz, palerma. Mas, eu recomendo que você deixe de querer ser o dono da razão,
porque aqui só quem pode estar certo sou eu.
– Motivo você tem, mas tantas outras pessoas também têm motivo de
sobra para quererem me matar ou surrupiar algum, e mesmo assim não o
fazem...
– Porque são covardes.
– Não... Acho que não é por isso. Bom, pode até ser e, sob esse ponto
de vista, o seu motivo até que me parece bem real, mas algo nessa estória não
me convence.
– Azar seu. Você também não me convence com esse seu jeito de
menino-sabe-tudo.
– Esse era eu há uns quinze anos; agora já sou um homem.
– Mas ainda esperneia quando te mostram que não tem razão.
– Não mais do que você.
– Ih, olha só a hora. Tenho um monte de coisas a fazer e, se eu me
lembrar, na volta te trago um troço para comer.
– Falando em horas, eu reparei no seu relógio novo. É muito bonito.
– É maneiro, né?
– É sim, minha namorada tem um igual.
– Quê?

23/08

Aconteceu ontem algo que me confundiu ainda mais.


38

Estava descambando rumo à casa da Lissa. Tudo corria normalmente e


eu afirmo, sem medo de errar, que nas últimas horas, não tinha engolido
nenhuma gota de álcool ou de qualquer outra substância entorpecente e ainda
assim, a última coisa da qual me recordo é de ter chegado lá. Depois disso,
mais nada.
Não me lembro do momento em que entrei, nem mesmo me recordo se
cheguei a entrar, ou se ela já tinha chegado a casa ou se eu fui até o consultório.
Provavelmente estou delirando, e deve ser esse o delírio mais consciente de que
já se teve notícia em toda a História humana.
Hoje, quando acordei, na casa dela, estava vestindo a mesma roupa de
ontem, e tinha tanto sono como se tivesse passado umas cinquenta horas
acordado. Nem mesmo Lissa, que estava lá hoje de manhã, parece saber o que
houve – caso tenha havido algo digno de nota.
Claro, provavelmente tinha sido tudo armação dela, que vinha fazendo
coisas assim desde que eu podia me lembrar – o que não era muito. Sou uma
pessoa muito racional, sempre fiz questão de o ser, não creio que coisas
completamente destituídas de sentido possam acontecer com alguém que não é
maluco de pedra ou algo parecido e que não haja quem possa explicá-las. A
menos que eu seja mesmo um perfeito imbecil, ou que tenha algum tipo raro de
amnésia...
Não, não, é evidente que não... Se há algum louco nessa estória,
provavelmente é Lissa! Foi ela quem começou com essa palhaçada de que eu
tenho um alter ego chamado Bob.
Puxa vida!
Sim, acabo de ver tudo mais claramente. Vendo por esse ângulo, tudo
passa a fazer mais sentido... Talvez ela tenha escolhido essa explicação por ser
a única que se encaixava nos acontecimentos e não por ser a explicação mais
adequada.
Mas, se Bob for mesmo eu, então isso significa que Lissa não é uma
grande mentirosa! Aliás, que eu não estou, ou que jamais serei maluco. Não
que isso seja algo ruim, mas algum dia eu posso ter pensado que era, ou que
seria... Que será!
É engraçado... Há certas coisas que passamos a vida toda a imaginar
que são absolutamente terríveis, mas quando finalmente temos o infortúnio de
"deixar" que elas aconteçam conosco, percebemos que tais fatos não nos
atingiram de forma tão destruidora quando pensávamos.
Não, não é engraçado. Não sinto vontade de rir, sinto apenas alívio,
mas presumo que seja porque ainda não pensei nas complicações que isso pode
me trazer. Sou obrigado a pensar de maneira quase matemática, que não chega
39

a ser um problema. Há muitos que pensam estar pensando, quando na verdade


estão apenas sendo tão ou mais irracionais do que lhes seria permitido num
mundo como esse. Dirigidas como um io-iô.
Bem, segundo Lissa, Bob surgiu há uma semana e, desde então, tem
causado uma espécie de tumulto silencioso e misterioso na minha vida, coisas
que ainda não sei quais consequências terão, ou mesmo se deveria me
preocupar com elas. Parece estar causando também uma grande revolução na
vida da única pessoa no mundo com quem me importo atualmente, com a
diferença de que ela parece estar apreciando muito a coisa toda.
O pouco que sei sobre Distúrbio de Personalidades Múltiplas me leva a
acreditar que o alter nasce poucos anos depois que o comandante (ou o
ortônimo, ortósio, ortógnato, ou seja lá qual a minha denominação neste caso),
não mais do que dez, suponho, com a missão de nos ajudar a lidar melhor com
nossos supostos fantasmas emocionais e assim podermos retomar nossas
medíocres vidinhas em uma espécie de semipaz. Pois bem, a teoria de que Bob
sou eu acaba de ir ralo abaixo.
Explico, e o faço com uma simples pergunta: a partir de que maldito
trauma Bob teria nascido?
Sempre levei uma vida tão pacata, tão deliciosa (especialmente durante
a infância) e, mesmo após a trágica e inesperada morte de meus amados pais,
não posso dizer que minha realidade piorou. Na verdade, melhorou um bocado,
devido à gorda herança que imediatamente veio parar em minhas gigantescas
mãos.
Legal, sem nenhum problema financeiro, nem no passado, nem no
presente e nem no meu futuro – não se eu puder evitar, como já o tenho feito.
Mas e quanto a problemas menores, como os sentimentais ou os físicos, de que
tanto a maioria das outras pessoinhas melodramáticas costumam se queixar?
Ora, esses também jamais forma o suficiente para me incomodar, não
sou tão fraco assim.
Portanto, se em nenhum momento de minha existência eu sofri
quaisquer tipos de violência a que tantos outros desafortunados estão
constantemente expostos, então é impossível que eu tenha qualquer assunto de
ordem psicológica pendente. Logo, só me resta usar a minha imaginação e
tentar descobrir o porquê de Lissa estar agindo tão estranhamente.
Talvez seja ela quem tem um alter ego...
É fato mais que conhecido que ela sempre foi caída por mim. Tivemos
já nossas muitas idas e vindas, mas nada que tenha dado nem um pouco certo.
De minha parte, não faço questão de manter um relacionamento sério com
absolutamente ninguém, mas é evidente que o mesmo não pode ser dito sobre
40

ela. Lissa sempre me pareceu inconformada com nosso rompimento (note que
não cheguei a romper com ela definitivamente, apenas me mostrei mais frio
que de costume, o que deve ter deixado a coitadinha ainda mais confusa) e,
talvez isso a tenha abalado muito mais do que eu julgava que pudesse.
Talvez por vingança ou como uma última e desesperada tentativa de
reacender nossa velha e carcomida paixão, ela tenha criado esse novo
componente que só surge em presença dela e que parece sempre encarnar em
mim quando eu deveria estar descansando. Isso, ao menos, explicaria a origem
da minha constante exaustão física, se bem que isso é muito mais
racionalmente explicável do ponto de vista de uma suposta hipersonia.
Não, não é possível que eu não encontre uma explicação perfeitamente
lógica para essas esquisitices que vêm acontecendo. Ah, sim, uma explicação
lógica, a meu ver, seria qualquer uma que não me incluísse na lista de futuros
residentes de sanatórios.
Como não estava chegando a nenhuma conclusão que me satisfizesse,
resolvi interrogar mais energicamente a possível fonte de toda aquela balbúrdia
mental.
Foi o que fiz naquele mesmo dia, horas depois, durante o almoço. Fiz
questão de encontrar-me com Lissa à luz do dia e em local público, pois assim
minhas chances de impedir que Bob surgisse eram maiores. E, acaso ele ainda
assim desse as caras, eu poderia neutralizá-lo com meus superpoderes, pois não
é apenas ele que os têm.
Para tal, cheguei com dez minutos de antecedência ao local onde tinha
marcado com ela e ofereci dez pratas (esse número! não que dez seja meu
número da sorte, ou algo assim, não, nada disso, nunca fui supersticioso, mas é
que foi esse o número solicitado) a um rapazinho que se encontrava ali e que
parecia não ter muito que fazer. Dei-lhe ordens expressas para que, se me visse
agindo de forma estranha (sim, eu especifiquei os atos estranhos, para que ele
não tivesse dúvida sobre como ou quando agir: quando eu passasse a atender à
alcunha de "Bob" era um deles), era para me dar um susto estratosférico ou
mesmo um pontapé, o mais forte que pudesse (contanto que não me atingisse
nem no rosto, nem na cabeça, nem no estômago, nem no antebraço direito, nem
nos calcanhares, nem na virilha, nem nas panturrilhas), de modo que me tirasse
imediatamente de qualquer transe sob o qual eu pudesse vir a sucumbir. Ele
pareceu compreender bem a situação, embora continuasse a sustentar um
suntuoso ponto de interrogação sobre sua cabeçazinhazinha.
Evidentemente não confiava muito nele, mas também já não podia
confiar em mim... Não tinha alternativa, portanto, a não ser fingir que confiava
41

nele e imaginar que tinha tomado todas as providências necessárias para pôr o
plano de Lissa abaixo, fosse qual fosse.
Pois bem, não demorou muito e ela surgiu. Rapidamente me avistou,
acomodou-se numa cadeira a meu lado e, daquele jeito que ela forjava tão bem,
disparou a falar.
– Eu devo admitir que fiquei surpresa com seu telefonema hoje. É
estranho que você queira me ver, já que me escorraçou da sua vida há poucas
horas. Afinal, você é o Vol ou o Bob?
– Vol.
– Percebe-se, pelas roupas amarrotadas e pelo jeito desleixado como
"penteou" os cabelos... Além do mais, Bob me olha como se eu fosse a única
mulher existente em todo o universo.
– Você gosta mesmo de falar dele, é só o que tem feito durante os
últimos dias.
– É sempre bom falar sobre pessoas agradáveis.
– Queria me desculpar com você, mas não sei ainda como.
– Eu também não sei como você vai fazer isso.
– O que vai querer?
– Tomates recheados com tofu. E, para beber, um suco de cenoura.
– Puxa, você sabe mesmo viver perigosamente! Não vai morrer nunca
se continuar assim, já pensou nisso?
– Já, e não me importo.
Chamei o garçom e pedi qualquer coisa para mim. Lissa repetiu seu
pedido, enfatizando que queria sua salada sem sal ou qualquer outro
condimento.
Continuei empenhado em minha missão de direcionar a conversa de
modo a me beneficiar.
– Lissa, o que você sabe sobre hipnose?
Sorrindo, com ar de quem sabe mais do que deseja dizer, ela
calmamente me respondeu:
– Sei o bastante, que é impossível hipnotizar uma pessoa ponto de
obrigá-la a fazer algo que não quer fazer, algo que fuja ao seu conceito pessoal
de certo e errado, de socialmente aceito e do que lhe causa constrangimento.
Está gravando?
– Hein???
– Fala logo, não vou ficar chateada. Sei onde você quer chegar.
– Eu não sou tão transparente assim.
– Quer mesmo continuar com isso?
– Continuar a bancar seu palhaço?
42

– Você jamais me permitiria ou a qualquer outra pessoa que fizesse


isso, só porque sabe que eu adoraria. Pensei que me encontraria com Bob, mas
olha só que decepção, agora tenho de aturar você.
– Não consegue disfarçar seu deleite.
– Porque não preciso. Olha, se você não veio me dizer nada que
interesse, não precisa ficar até o final.
– Não, por mim tudo bem, nada tenho de mais urgente ou importante a
fazer. Além do mais, sua presença não me incomoda. Sou indiferente a você.
– Vol, você me conhece há tanto tempo... Devia saber que mentiras não
podem me magoar.
– Não vim até aqui para alfinetá-la e sim para que me explique sua
teoria sobre Bob.
– Ah, agora está interessado!
– Se isso diz mesmo respeito a mim, então estou. Primeira pergunta:
Por que ele só aparece para você?
– Não é só para mim... Várias pessoas que te conhecem já o viram.
– Mesmo? Quem?
– Thomas, Luciano, Driele...
– Sério?
Então era verdade! Dois dias antes, Luciano tinha me abordado com
uma estória estranha, e estava visivelmente enraivecido. Disse-me (e a quem
mais quisesse ouvir) que jamais voltaria a falar comigo, por eu ter-lhe roubado
a única esperança... Não entendi nada... A que esperança ele se referia?
Agora fazia sentido: Lissa!
Sim, sim, sim, ele sempre tivera uma queda por ela (oh, nãããooo... isso
nunca acaba!), e tentava não demonstrar que ficara muito magoado por ela tê-lo
dispensado várias vezes a fim de permanecer livre para correr atrás de mim.
Noutro dia, quando ele a viu com Bob, deve ter pensado que era o traidor
safado.
– Se não acredita em mim, não deveria me interrogar.
– Mas Bob falou com alguém além de você?
– Claro, ele é muito comunicativo, ao contrário de você. Ele fala com
todo mundo que encontra.
– Não se faça de boba.
– Certo, ele não falou nada esclarecedor, nem mesmo a mim. Mas, se
você quer saber algo específico sobre ele, devia me perguntar diretamente ao
invés de fazer rodeios.
– Ele falou algo sobre mim?
– Quando estou com ele, não falamos de coisas sem importância.
43

– Nunca?
– Nunca. Mas se é tão importante para você, eu posso tocar no assunto
qualquer dia desses.
– Essa é outra questão que me incomoda. Parece-me que ele só surge à
noite. É um padrão?
– Possivelmente.
– Não está ajudando muito.
– Não tenho a menor intenção de ajudá-lo.
– Podemos parar com isso? Eu já lhe pedi desculpas.
– Nada disso, você tentou me pedir desculpas, mas não sabe como
fazê-lo, ou sabe, mas não considera que valha a pena.
Naquele instante, o garçom se aproximou com uma bandeja, trazendo
nosso almoço. Enquanto Lissa falava, fiquei olhando para o meu pedaço do que
eu pretendia que fosse uma torta de oxitocina.
– Talvez seja isso... Tempo. É provável que Bob só apareça quando
você já não tem mais nada que fazer.
– Faria sentido se eu fosse um completo desocupado, como 99% da
abominável população mundial.
– Quer que eu pergunte a ele?
– Vem cá, você quer que eu acredite que vocês ainda não falaram sobre
isso? Quero dizer, vocês já conversaram até mesmo sobre aquele seriado
bobalóide, então...
Começou a rir.
– Que foi?
Ainda rinchando, ela disse:
– Vol, tudo seria tão simples se você apenas parasse de lutar contra a
sua natureza. Percebeu que Bob ama as mesmas coisas que você finge
desprezar? Deligma, passeios ao ar livre, comida natural, uma certa garota...
Talvez seja por isso que seu inconsciente o criou: não para ajudá-lo a superar
um trauma (inexistente, no seu caso), mas para forçá-lo a finalmente se aceitar.
– Que teoria idiota!
– Minha teoria pode ser idiota, mas ao menos faz sentido.
– Eu só lhe pedi ajuda porque não tenho mais ninguém a quem
recorrer, você precisa me ajudar a entender essa coisa louca. De certa forma,
sinto que você é a responsável por tudo isso.
– Esse estranho usurpador que passou a habitar sua inocente e
desprotegida mente é sua própria imagem, seu outro eu sem as amarras a que
você se infligiu. Não precisa de mim nem de ninguém para se entender.
– Quer dizer então que nem para isso você serve?
44

– Com o tempo, se tivermos sorte, ele tomará completamente o seu


lugar e aí sim você voltará a ser o cara a quem eu tanto admirava.
Olhei para todos os lados e notei que o garoto tinha sumido.

24/08

– Não foi muito ético da sua parte pegar esse relógio.


– Nada do que faço é ético.
– Mas antigamente você fazia questão de manter as aparências.
– É que agora isso mudou. Não preciso mais viver de aparências. Posso
viver de verdade.
– As aparências nem sempre nos enganam. Não a mim.
– Ah, é uma beleza e deve ter custado caro. Pena que o modelo é
pequeno, bem feminino, senão eu ficaria com ele.
– Pode vendê-lo e comprar um relógio super-estiloso, como você
costuma dizer.
– É, eu bem que mereço.
– Não sei... Quis dizer que você devia comprar um relógio para mim.
Você não fez nada de mais. Atacar uma velhota e sequestrar uma menininha
não é uma missão exatamente dificultosa.
– Posso ser um covarde, mas ao menos eu não uso palavras como
"dificultosa".
– Já serviu o desjejum para a Naida?
– Fiz isso depois que soltei a velha.
– Argh, eu odiava a voz dela. Mas, por que você a libertou? Ela podia
render uma graninha. Não muita, mas alguma coisa renderia.
– Ela tinha um monte de doenças, achei que não daria para aproveitá-
la.
– Que doenças? Como sabe? Fez exames nela?
– Não...
– Mas que diabo você fez, seu néscio de uma figa?
– Certo, inventei tudo isso... Eu também odiava aquela voz.
– Eu já te disse para nunca deixar faltar fita adesiva.
– Eu comprei.
– Aquela é muito estreita, só um asno a compraria para esse fim.
– Eu vou acertar da próxima vez. Ainda não gosto da idéia de queimar
tanto dinheiro.
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– E o que acha que eu sou, um esbanjador? Eu também não gosto


nadinha disso, mas não temos escolha. No momento, você está sendo mais
esbanjador do que qualquer um com quem já trabalhei.
– Pô, se fizesse o que eu queria...
– Queria que antecipássemos nosso infortúnio.
– Parece que isso não tem mesmo como terminar bem.
– Contente-se com o fato de que descolamos muita grana e, de quebra,
salvamos algumas vidas.
– Salvar vidas! E que graça tem isso? Poderíamos ganhar muito mais e
com menos esforço se você deixasse de ser tão cagão. Passou a vida toda se
escondendo, não foi, meu caro?
– Mas que clichê hediondo! Por favor, não comece com isso.
– Parar por que, Caio? Só porque você não suporta a verdade?
– Só porque você não sabe o que diz.
– Engraçado... Noutro dia, você me disse que, apesar de ser tão jovem,
eu falava poucas bobagens.
– É que eu estava comparando-o com a imensa maioria, não foi um
elogio.
– Foi a exemplificação da realidade em tom elogioso. Obrigado.
– Não me agradeça, estou pensando em me livrar de você o quanto
antes.
– Não pode... Você só iria querer se livrar de um estorvo e eu não sou
um.
– Mas sabe imitar um quando quer.
– Não seja tão pedante, camarada.
– Pensei que você iria querer cortá-la.
– A quem?
– À velha. Você parecia tão descontrolado ontem.
– Não sei o que dizer sobre isso... Eu nunca me descontrolei assim
antes. Sinto-me ridículo, mas isso vai passar. Essa coisa mexe mesmo com a
cabeça da gente.
– Não entendo. Não aconteceu nenhuma mudança assim em mim.
– Não? Nenhuma? Acho que você não notou.
– Então abra meus olhos.
– Não posso fazer isso, não o conhecia antes. Mas eu apostaria que as
mudanças ocorreram também em você, não só no ambiente, depois daquela
tragédia. E posso afirmar isso com base no fato de que eu também já fui assim.
– Não diga que já foi como eu, porque isso é duro de acreditar.
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– Não, eu jamais conseguia ser como você, tão vazio e tão cheio de si.
Mas eu era um entusiasta. Fascinava-me todo o glamour inexistente desta
profissão que nem é uma profissão propriamente dita.
– Não devia dar atenção a isso.
– Eu sei, não dou, mas...
– Não, eu disse que eu não devia dar atenção ao que você diz.
– Ora, seu parvo!

25/08

Não me pergunte quem era ele, pois a mim não era nada familiar, de
modo que julguei ser um vendedor de enciclopédias ou algo tão pedante
quanto. Como insistisse, com o dedo fincado no botão do meu interfone,
resolvi atendê-lo. À contra-gosto, abri a porta e, antes que eu dissesse qualquer
coisa, um cara meio baixo e pseudodandista invadiu minha desolação. Com um
sorriso cínico, e estendendo a mão num cumprimento estranho, ele comentou:
– Lugarzinho bacana, vou gostar daqui. Deve ter custado uma nota
preta. A propósito, meu nome é NC. Tem um cigarro?
– NC?
– É. NC não são minhas iniciais, mas máscaras para minhas
verdadeiras iniciais... Eu escondo meu nome não com o intuito de bancar o sr.
Estiloso, mas sim por segurança, entende? Para evitar encrenca.
Não respondi. Ora, o que eu podia dizer?
– Eu vim por causa do anúncio.
– Anúncio?
– É, um anúncio para substituir um tal de Vol. Você é ele?
– Não, acho que você se enganou de endereço.
– Não me enganei porra nenhuma. É esse o endereço que você me
passou por e-mail.
– Não sei nada sobre isso.
– O Vol não mora aqui?
– Não, eu moro sozinho aqui.
– Mas que diabos! Não estou vendo nenhum cinzeiro...
– É porque não tem nenhum. Você iria substituí-lo em que tipo de
trabalho?
47

– Não sei. O desgraçado me disse que explicaria melhor quando eu


chegasse. Puta merda, mas como é que eu consigo me enfiar em tanta
enrascada assim?
– Difícil dizer, já que eu nem o conheço.
– Espero que isso não seja um problema.
– Problema é você estar aqui.
– Mas eu já vou.
– Adeus.
– Mas não sem antes fumar e beber alguma coisa.
– Não tem nada que o seu paladar vá apreciar, acredite.
– Então vamos a um bar.
– Eu jamais iria a lugar algum com você, nem que você fosse a única
pessoa na Terra.
– Ih, mas que mané!
– Suma!
– Tá bom. Mas você tem certeza de que ele não mora aqui?
– Procure nos outros andares.
Ele finalmente saiu e pude voltar a meus afazeres de sempre.
Já era para ela ter chegado, estava atrasada, mas como isso nunca tinha
acontecido, resolvi não me preocupar. Réus primários sempre têm mais
regalias.
Queria mostrar logo a ela a sequência de acordes (com todas as notas
tocadas em suspensão) que eu tinha feito naquele início de noite, tinha quase
certeza de que ela aprovaria.
Se ela chegasse logo...

26/08

Não, não creio que fosse possível...


Mas é que eu vinha dormindo tão pouco ultimamente, andava tão
cansado que era possível sim que eu tivesse dado a ele o endereço errado. Ele
parecia interessado na vaga...
Mas ele me disse que viria ontem e, no entanto, ainda não apareceu.
Possivelmente desistiu ou se perdeu por aí. Provavelmente era um imbecil
qualquer que me julga também ser um imbecil qualquer que ele possa substituir
apenas porque quer... Vá lá saber.
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Por essa eu realmente não esperava. Como pode ser tão difícil
encontrar alguém para uma missão que nem é tão complicada assim? Ora,
tenho certeza de que não estou exigindo demais, nada sobre-humano, embora
eu seja um humano sobrenatural. Além do mais, a grana que ofereci deveria
compensar qualquer contratempo que pudesse surgir.
Do tipo que permeia entre o possivelmente agradável e o simbólico.
Sempre pensei e continuo a pensar que uma das provas irrefutáveis de
que você está se transformando numa personagem de desenho animado é o fato
de passar a ter intervalos comerciais nos seus sonhos. No sonho que tive esta
noite, por exemplo, tinha uma campanha de incentivo à reciclagem de garrafas
de plástico. É dado conhecido que quase 90% das latinhas de alumínio são
recicladas, mas das garrafas de plástico, esse número é de apenas 25%.
Essas informações apareciam na campanha, que tinha um jingle que
incrivelmente não grudava na cuca, e do qual, evidentemente, não me recordo,
a não ser uma parte em que se recomendava que se amassasse as garrafas, não
apenas para diminuir-lhes o volume, como também para que lhes acrescentasse
mais peso.
Sim, eu sei, disso todo mundo sabe, mas acontece que, às vezes, a
verdade é muito mais do que a própria verdade.
Sentença!
Já foi anunciada?
E por que eu não a ouvi?
Você também não estava prestando atenção?

26/08

Elas não parecem ter gostado muito, mas que importava? Não podiam
esperar tratamento melhor que aquele... A sensação era quase como a de cuidar
de reféns: presos todos sob o mesmo amedrontador teto gotejante e
embolorado, todos compartilhando aquele mesmo ar carbônico bilhões de
vezes já respirado e inspirado; todos semiconscientes do perigo que um
representava para o outro; todos imaginando um desfecho cruel e assustador,
mas desejando um final sentimentalóide e lacrimejante; todos sendo o menos
humanos possível, e mais do que deveriam.
E eu, uma peça apenas, mas uma peça central. Muitos anos tinham se
passado daquele jeito, muitos anos repletos de situações gêmeas àquela. Tudo
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igual e diferente; tudo absolutamente real; todos prestes a se tornarem


imprudentes.
Eu não sabia que devia retomar meu curso, pois não me lembrava que
já tinha seguido por outro caminho antes daquele. Tudo resplandecia ao meu
olhar, apesar da crueza das paredes e das solas gastas dos sapatos que eu já
tinha posto de lado. Por que continuar?
– Boas novas! Eles aceitaram comprar as duas por noventa mil lits.
– Noventa! Nossa, que bom! Uau! Você não é tão patético quanto
fingia ser. Mas você tinha me dito que ia pedir menos.
– Noventa ainda é menos que cem.
– Mas tinha dado a entender que não pagariam nada acima de oitenta.
– Dá para esquecer disso e ficar feliz com o ótimo negócio que eu
fechei?
– Claro. Mas e o cara do fígado?
– Já lhe disse.
– Mas você está disposto a matar uma pessoa por apenas quinze mil
lits?
– Não, mas você tem de estar, é você quem tem de cuidar disso.
– Cínico.
– Parece-me que só os cínicos são capazes de falar a verdade sobre o
que quer que seja.
– Mas que comediante! E por falar em comédia, tem idéia de como
resolver o nosso probleminha de desperdício?
– Demitindo você.
– Sua resposta está errada, meu caríssimo. Tente de novo.
– Parar de pensar no problema costumava ser o único jeito de resolver
problemas impossíveis.
– Estava pensando que poderíamos congelar algumas peças. Só por
pouco tempo, até acharmos compradores.
– Ninguém iria querer órgãos estragados. Querem tudo fresco, como as
donas-de-casa dedicadas quando vão à feira.
– Não esperaríamos até que os troços se estragassem. Eu guardaria tudo
na minha casa, meu freezer é espaçoso, e poderia ficar de olho neles.
– Isso não daria certo na prática, por mais cuidadoso que você fosse.
– Sabe quanto jogaremos pelo ralo?
– Algo em torno de cinquenta e cinco mil.
– E acha que é uma decisão inteligente jogar fora mais de cinquenta mil
só para ganhar quinze?
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– Não, mas acontece que esses cinquenta mil são ilusórios. Percebeu
que eles se tornam zero se não agarrarmos os quinze?
– Não entendo sua relutância em agir do jeito certo num negócio
errado.
– Já falamos sobre isso.
– Mas não resolvemos nada, porque você não quer se arriscar.
– Chega! Você conseguiu me cansar. Achei mesmo que você servia
para o trabalho, mas tanto fez que provou que não. Está fora, vou procurar
outro para pôr em seu lugar.
– Nossa, isso é tão engraçado que eu vou adiar as risadas.
– Faça como quiser.
– E onde encontrará outro como eu?

27/08

6h30.
Batidas intermitentes e impertinentes na porta.
Minha enxaqueca mal podia acreditar que já era novamente manhã.
Batendobatendobatendo...
– ESPEEEEEEERAAAAAAAA!
Gritos geralmente resolvem situações assim, mas não naquele dia.
Lissa geralmente entrava se bater e ela era a única pessoa que me
visitava, e eu preferia que continuasse assim. Após a morte repentina de JJ, ela
era a única pessoa com quem valia a pena conversar.
Abri a porta e lá estava um sujeito com expressão antipática e apática,
que foi logo entrando.
– E aí, Bobão, como vai? Sabe, você está péssimo, parece que não
dorme há uma semana.
Cocei os olhos, bocejei longamente e levei as mãos à cabeça. Como
doía! Precisava imediatamente tirar aquele pateta do meu recinto.
– Você me acordou ao esmurrar a minha porta. E eu não te disse que
podia entrar, portanto, saia agora!
– Ora, ora, mas que sujeito mais bem-educado e receptivo! Você estava
menos desagradável no outro dia.
– Hein?
– Eu achei muito estranho o cara me dar o seu endereço, então pensei
que esse tal de Vol estava tentando pregar alguma peça no meu amigo Bobão.
51

Então era disso que se tratava! Lissa estava com a razão. Esse palhaço
apareceu aqui quando Bob tinha tomado meu lugar.
– Não sou seu amigo, e meu nome não é Bobão.
– Calma aí, é só um apelido carinhoso. Além do mais, eu vim lhe
oferecer a minha ajuda. Eu não entendi muito bem o que ele pretende com isso,
é um jeito estranho de se vingar por qualquer coisa que você talvez tenha feito,
mas de uma coisa eu não tenho dúvida: ele estava obviamente procurando
encrenca com você. E você, por sua vez, deveria lhe mostrar que é bobão só no
nome e lhe dar uma lição.
Minha chance de saber mais sobre Bob mais parecia uma chance de me
chatear até a morte.
– Senta aí, desculpa o meu jeito, é que e ando mesmo muito cansado.
– Não tem erro, não. A ressaca faz a gente querer se ensopar com umas
biritas de metanol só para poder se livrar de vez dos males do etanol.
Um grande psiquiatra! Grande matador!
– É.
– Ééé.
– Sabe, não me lembro bem que horas eram quando você veio aqui
naquele dia.
– Xiii, eu também não. Mas sei que foi logo depois de assistir à reprise
do episódio "Ah, Essa Maldita Câmera Está me Deixando Louco!!!" de
Deligma.
Oh, não! O mesmo seriado idiota que Bob e Lissa adoram e que foi
cancelado após três episódios, por não conseguir audiência suficiente para o
horário. Tudo de que eu precisava era de mais um fã deligmista patético...
– Naquela noite, eu ainda estava triste com a morte de um amigo.
– Ah, que chato. Mas, veja pelo lado bom, é uma pessoa a menos no
mundo para nos roubar o oxigênio, para produzir lixo, para disputar por nossos
empregos...
Dizendo isso, deu uma risadinha antipática, mas não tanto quanto ele.
Aliás, ele era a pessoa mais absurdamente antipática que eu já tive o
infortúnio de conhecer, e esse fato tornava quase impossível tratá-lo com o
mínimo de respeito. Não tanto pelas inúmeras asneiras que cuspia, mas porque
até seu cabelo desalinhado era antipático, seus olhos inquietos e inexpressivos
eram antipáticos, sua barba por fazer era antipática, suas unhas roídas eram
antipáticas, cada mísero aspecto de seu ser exalava antipatia.
Não era culpa dele, suponho, é que pessoas antipáticas usaram
ingredientes antipáticos para fazê-lo.
Antipático... grr...
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Mas eu era maduro o suficiente para saber que precisava aturá-lo por
tempo suficiente até descobrir mais sobre o trombadinha de vidas que tinha me
lesado.
– Sobre a vingança...
– Não, não, eu não quero me vingar. Provavelmente houve algum
engano.
– Não, eu sei que não houve engano algum, sei que ele estava tentando
te sacanear, provavelmente é uma conspiração.
– Talvez algum número trocado.
– Ah, deixa de ser mole, cara! Não é sua obrigação encontrar pretextos
para justificar a cafajestagem desse malandro.
– Geralmente faço bem mais do que a minha obrigação.
– Então vá se foder.
Levantou-se, rumou em direção à saída e eu, a muito custo, fui atrás.
– Não... Que é isso? Não seja assim tão sensível.
– Eu tentei te ajudar, tentei ser legal, mesmo contrariando a minha
natureza, mas agora desisti.
E o trocinho se foi, antes de me dar qualquer informação sobre Bob.
Fiquei a pensar que isso não era assim tão mau, pois talvez ele não
soubesse mesmo muito a respeito. Além do mais, Lissa me contaria qualquer
coisa que eu quisesse ou precisasse saber.

27/08

– É difícil entender... Fala logo por que.


– Por milhões de razões.
– E por que agora?
– Por que só agora parei para pensar sobre o assunto.
– Mas não me parece uma decisão lá muito inteligente, Vol. Não há
nada de errado com a sua vida, além de você, é claro.
– E de você também.
– Está me dizendo que quer morrer para se livrar de mim? E ainda
espera que eu acredite num dislate desse?
– Não.
– Então por que disse isso?
– Não perco nada tentando. Acontece que estou tão cansado de tudo
isso, Lissa.
53

– Cansado de sempre ter conseguido tudo com a maior facilidade?


Cansado de ter a seu lado a mulher mais culta, bela, espirituosa e interessante
que existe, sempre que você precisa e especialmente quando não precisa?
Cansado de ter todo o tempo livre para se dedicar ao passatempo que preferir?
– Não, sabe que não há como eu me cansar de nada disso. Estou
exausto de viver num mundo em que a maioria das pessoas não pode ter nem
um décimo do que eu tenho; e a minoria restante tem milhões de vezes mais do
que eu e nem se importa. É isso o que me cansa.
– Mas, meu amor, é um consolo saber que a maioria das outras pessoas
não seria capaz de usar sabiamente tudo isso, acaso tivessem acesso ao que
você e outros têm. Já pensou nisso, não?
– Já, mas e quanto aos que têm os recursos para ajudar quantas pessoas
quiserem e simplesmente não o fazem, porque seu egoísmo é ainda maior que
sua vaidade? Eu sei que esse disco já está riscado, mas é que eu passei a vida
toda tentando me conformar com isso e ainda não consegui. Não conseguirei
jamais.
– Eu sei, concordo, é realmente injusto, não dá para entender, nem
explicar de forma racional coisas assim, mas não temos escolha. Esse é o único
mundo onde se pode "viver".
– Não temos escolha... Não é verdade. Muitos não têm realmente uma
escolha, mas eu tenho.
– Não me obrigue a implorar, Vol.
– Não adiantaria.
– Reconsidere. Se não por mim, faça por todos aqueles que você já
ajudou e que ainda pode ajudar.
– Você sabe que pessoas como eu ajudam muito mais ao morrer.
– Nada disso. Você não faz parte dessa cambada, você é muito mais
útil vivo do que morto. JJ não está mais aqui, e é justamente por isso que você
precisa estar.
– É uma opinião, mas não muda nada.
– Você sabe que não precisa sempre tentar ser engraçado.
– Sei.
– Não concorde com todas as coisas sem importância que eu digo!
– Não.
– Vol!
– Lissa, eu só quero que todo esse sofrimento acabe.
– Nunca irá acabar, mesmo que você morra.
– Vai acabar para mim.
Com o rosto encharcado pelas lágrimas, ela gritou:
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– CERTO, VOL, ENTÃO FAÇA!


– Fico satisfeito que você concorde.
– Não concordo, só estava treinando. Não me deixe...
– Isso também é parte do treinamento? – abraçando-a – Minha querida,
não vamos nos separar, você sempre poderá visitar meu túmulo. Poderá
construir uma casa lá perto, e futuramente, poderá até ser enterrada ao meu
lado, se quiser.
– Espere ao menos mais algum tempo até que eu me "acostume" à
idéia. Faria toda a diferença.
– É impossível, sei que não suporto mais do que umas poucas semanas
nesse mundo grotesco.
– Isso soa muito ridículo. É absurdo! Toda essa conversa é absurda.
– Minha vida também é. Acha que eu não sei?
– Você não deveria sofrer pelos outros, é apenas empático demais, mas
não tem alma de artista, como Sarah Kane.
– Mas há muitas coisas que eu tenho que ela nunca teve.
Novamente fui obrigado a rir sozinho, Lissa não estava disposta a levar
o troço na esportiva, como imaginei que aconteceria. Continuava a
choramingar descontroladamente e foi naquele instante que notei que suas
lágrimas não eram meros artifícios para tentar me forçar a uma mudança de
idéia.
O fato de que ela me considerava muito mais do que um seminamorado
reserva quase me levou a reconsiderar minha decisão, ao menos até a próxima.
De qualquer forma, causar sofrimento a ela era algo que eu não podia
suportar, mas também não podia deixar que as coisas continuassem como
estavam.
Meus sentimentos por ela ainda constituíam enigmas para mim, talvez
por isso eu evitasse conversar sobre isso com ela. De fato, até aquele instante,
ainda não tinha conversado sobre isso nem mesmo comigo. Era só com ela que
eu mantinha uma amizade intensa e, por vezes, desgastante. Intensa porque eu
sabia que não podia imaginar meu ser sem ela. Desgastante porque parecia não
haver limites para a devoção que sentíamos um pelo outro – mas havia. Claro
que, para mim, era muito difícil acreditar que o que ela afirmava sentir era
verdadeiro, pois parecia exagero, apesar de que ela era mais sincera do que
qualquer humano poderia conseguir se tornar.
Várias vezes sentia que não a queria ter por perto durante todo o tempo,
mas todas as vezes em que ela sumia, eu só voltava a ficar em paz quando ela
voltava. Já tínhamos rompido e recomeçado tantas e tantas vezes que já não
sabia mais onde tudo tinha começado. Havia períodos no ano em que nos
55

dávamos muito bem, como se nossa disposição mútua estivesse em sincronia


com os ciclos da Lua. Nos sentíamos bem sendo amigos, mas...
Algumas vezes a necessidade que sentíamos de ter um ao outro de forma
dualista, mais completa, não só carnal, mas também espiritual, e com essas
mudanças não sabíamos lidar, pois não sentíamos as mesmas coisas ao mesmo
tempo. Eis o problema.
Para complicar ainda mais, eu não desejava nenhuma outra além de
Lissa e sabia bem qual o motivo. Simples, a única coisa simples nesta estória
toda: ela era a única pessoa que preenchia quase todos os requisitos da minha
lista, de modo que sua singularidade quase chegava a ser desconcertante.
Mesmo sendo "normal demais", sua singularidade me fascinava, aliás, era
justamente essa combinação ineditíssima que mais me atraía. Trejeitos como
dormir sempre abraçada a um dicionário (trejeito antigo, que ela abandonara na
infância) ou andar rapidamente mesmo nas raras vezes em que não tinha o
menor motivo para pressa se tornavam inexplicavelmente encantadores para
mim.
Minha teoria não era que Lissa era a única para mim, ou que eu a
amava demais, mas que todas as outras mulheres eram medíocres demais.
Física, intelectual e psicologicamente medíocres, ridiculamente insossas,
irritantes e vazias. Nada nelas é profundo, nem mesmo sua frivolidade, que
geralmente vai até os ossos. Não fazem idéia do que é realmente importante na
vida. Ficam incrivelmente tristes pelo fato de terem desmanchado o penteado
que demoraram cinquenta horas fazendo, mas não se importam com o
vergonhoso fato de que aproximadamente vinte e seis mil crianças morrem a
cada dia por falta de saneamento básico. E tudo isso é por culpa de pessoas
como elas, mas...
Tudo bem que andar descabelada por aí não vai ajudar a salvar
criancinhas, nem a curar os doentes, nem a criar postos de trabalho para
populações inteiras, mas ajudar a enriquecer essa gentarada que presta serviços
completamente inúteis à "alta sociedade" também não.
Lissa distava trilhões de anos-luz de todas as outras mulheres, por
entender a alma masculina melhor do que muitos homens (especialmente
melhor do que esses ultramodernex metidos a feministas...) e também por não
fingir sensibilidade, mas por tê-la inserida em seu ser. Uma sensibilidade que
não a tornava fraca, mas muito mais forte, forte o bastante para lutar contra
fatos como esse.
Um excelente exemplo disso é o fato de que, certa vez, pouco depois de
terminar o colégio, Lissa me convidou para acompanhá-la numa viagem a
Churondo³, que durou dois anos. Evidentemente eu aceitei sem pestanejar,
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mesmo sabendo que, assim como ela, também precisaria adiar minha entrada
na Universidade durante o tempo que durasse nossa "desventura". Nem é
necessário medir a revolução que fizemos por lá. Ao término do período
(sabíamos que era hora de voltar para casa porque, àquela altura, já estávamos
quase divorciados de nossas respectivas rendas), nos sentíamos satisfeitos e
frustrados, com a cruel certeza de que, não importaria o que fizéssemos, ainda
haveria muito mais a ser feito. O que tínhamos ainda a fazer era muito maior
que a força de um pequeno grupo de jovens revolucionários idealistas demais
para saber quando haviam perdido a batalha para o monstro do desrespeito, do
descaso e do desamor.
Enfim, Lissa não era perfeita, mas chegava tão perto disso, tanto mais
que qualquer outra jamais sonhou, que me arrebatava. Difícil falar sobre ela;
impossível ser indiferente; um sacrilégio parar. Tfu, parece até que sinto prazer
em complicar as coisas para o meu lado. Talvez seja isso mesmo.
– Se você fizer isso, jamais o perdoarei.
– Eu estarei morto, acha que me importarei?
– Certo, vou colocar de outra forma: farei tudo para que não consiga
levar esse plano patético adiante, e você sabe que eu tenho meios para fazê-lo.
– Querida, já lhe ocorreu que eu posso sumir e que você jamais voltará
a me ver?
– Ora, então tente.
– Cuidado, Lissa. Você é a única pessoa que me ama, e eu ainda não
decidi se me incomodaria em fazê-la sofrer.
Numa ocasião normal, ela apreciaria muito essa brincadeirinha
levemente sádica, e riríamos à grande da situação, mas não naquele momento.
Ela secou as lágrimas rapidamente, desvencilhou-se de mim e saiu sem
dizer palavra. Acho que isso era para me obrigar a me sentir mal e a correr atrás
dela.
Puxa, ela nem mesmo quis saber qual a data que eu tinha escolhido
para realizar meu intento, acaso conseguisse treinar meu sucessor até o fim do
prazo. Não tive dúvida sobre isso, logo que a idéia me ocorreu, veio
acompanhada da data em que conheci Elissa, sabia que ela gostaria de saber,
apesar de uma simples data não ser exatamente o que se pode dignar a notar.

18/10
57

Uma paisagem azul-acinzentada, transbordante de formas sinuosas e


límpidas, o pequeno sol violáceo, as grandes gaivotas, a terra fria, a caldeira
fervente, espaços vazios numa tela vazia. Não, tudo disposto displicentemente,
tão displicente como uma garota que distraidamente prende suas madeixas
salpicadas de luz num coque desfiado, com a mesma automaticidade com que o
pássaro rouba um ninho.
Não ficaria satisfeito com nada assim.
– Sei que se eu voltasse a...
– Mas você não fará isso.
– Mas é possível que eu queira fazê-lo.
– Não deveria ser.
Perguntaria-me se conseguimos?
Conseguir algo por conta própria... Conseguir redesenhar esta
existência. Divagações. Não. Nem tanto.
Mas eu sabia em que daria tudo aquilo, sabia que não poderia resgatar
o que quer que fosse preciso resgatar. Um passatempo. Um passado. Uma voz.
Uma luz. Por que tentar afinal? Mas não eram aquelas figuras cintilantes? Eu
sempre achei que deviam ser. Não havia misturas, estava tudo sempre tão
separado, e distante. Todas distantes umas das outras, e não havia nenhum tipo
de conexão entre elas, nada que pudesse ligá-las, dizer: "Esta é parecida com
aquela neste aspecto", ou coisa parecida. Tudo dividido, e feio. Desconexão
que se desconectava de si mesma, mesmo estando conectada a este mundo –
por isso era um fenômeno inacreditável. Inaceitáveis os fatos, as ondas que me
inebriavam, e as que já tinham deixado de me embriagar, e tantos fatos novos e
abomináveis. Não, não podia conceber tal crise, mas ela já tinha acontecido.
Começa desgraciosa e, depois, aos poucos, arranja para si
peculiaridades próprias e então... Torna-se ainda mais desgraciosa. A
desgraciosidade da minha subarte, da minha submissão à minha submissão, a
desgraciosidade que impregna em todo o absurdo, tudo isso acompanhando e
sendo acompanhado de outros acontecimentos desgraciosos, para formar um
quadro geral absolutamente desgracioso. Isso me obriga a concluir que o
pseudopoder da estética provém da ignorância, de um engano, de um erro
incorrigível.
Aliás, não, nada disso: ela provém da idéia ridícula de atribuir
propriedades inexistentes a algo completamente inútil para que, com isso, esse
algo se torne útil ou digno de atenção. É pena saber disso, pena ser o único que
sabe. Mudar uma realidade imutável... Mudar nunca foi meu forte.
Sentido? Ora, alguns princípios estéticos aqui, uma pitada de algo que
não se sabe se é bom senso ali e logo temos exatamente o que não queríamos.
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– Mas por quê?


– Pelo mesmo motivo que eu bancaria o palhaço para você.
– Dinheiro, é claro. Eu não esperava que você tivesse um motivo nobre.
– Achou que era pessoal?
– Não sei... Você é tão patético que minou temporariamente o meu
poder imaginativo.
– E você é meu prisioneiro, então cala a boca.
– Aproveite o seu silêncio. Eu até pagaria para vê-lo silenciar por um
ou dois minutos.
– Não pode me pagar nada, porque tá na pindaíba. E estaria mesmo que
não tivesse inventado um amigo imaginário que te roubasse toda a grana... Ou
nesse caso, inimigo imaginário.
– Não me restou muito, graças às extravagâncias de Bob, mas ainda
estou em melhores condições que você.
– Só até eu terminar isso.
– Eu não me animaria muito se fosse você... A maioria dos sequestros
termina em frustração para os "maus elementos" como você. Mesmo pessoas
muito mais inteligentes que você, embora qualquer um seja, se deram mal em
situações parecidas.
– Essa regra só vale para os estúpidos.
– Por isso mesmo que estou avisando-o.
– Ei!
– Que espécie de parvonáceo raptaria um cara que está a dois passos da
falência, hein?
– Não me engana com essa. Sei que sua namorada vai pagar.
– Devia saber que ela não tem a quantia que você pediu.
– Eu exigi, não pedi. E estou certo de que a família dela vai ficar
satisfeita em ajudar.
– Se tivesse pesquisado um pouquinho mais, saberia que a família ela
me detesta.

30/08

Há alguns dias eu o vi. Foi cabruft! e Paft!. Ele estava jogado no meio
de uma calçada, alguns metros próximo à minha casa e foi onde eu tropecei.
Não sabia se o xingava ou se sentia pena. Provavelmente estava chapadão, com
aqueles olhos esquisitóides...
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Resmungou algo que não pude entender e foi então que ele me disse:
– Ihh, cara, preciso de um lugar para ficar.
– Hein?
Não, é impossível transcrever toda a surpresa que eu sentia. Aquele ser
abominável que nada fizera a não ser me importunar, tinha resolvido que eu
precisava lhe dar um teto.
– Só por alguns dias até que eu me restabeleça.
– Não.
Repeti o "não" e me levantei em seguida.
– Não vai morar comigo. Assunto encerrado.
Mas não para ele.
– Que é isso? Eu fui despejado e estou te pedindo um favor. Vou
retribuir, acredite.
– Quando? Então você acredita mesmo em reencarnação? Sabe, é um
pouco difícil de entender, mas eu sei que com um grande esforço você pode
chegar lá. Anote aí: o meu "não" quer dizer "não"; e o meu "sim" quer dizer
"sim". Quer que eu repita?
– Não vai adiantar.
– Sou persistente.
– Eu também. Tem um cigarro?
Fitei uma vez mais aquela figura patética e descerebrada... E quase
falhei em pensar que podia ser eu.
Puxa vida, ele era um indivíduo tão desamparado e fracassado, mas a
culpa por ser daquele jeito não era dele. Se eu tivesse nascido com genes ruins,
numa família que não tivesse cuidado de mim, eu seria idêntico a ele, não
adianta bancar o hipócrita e negar isso. Um humano não deveria sofrer assim.
– Venha.
Ajudei-o a se levantar e o guiei rumo à nossa casa. Ah, e dei-lhe um
cigarro e também um isqueiro.
Não podia acreditar que aquele parvonáceo moraria comigo, mas não
podia aceitar que isso não acontecesse. O que se pode fazer quando se tem um
coração mais mole que manteiga derretida?
– Não sei como agradecer.
– Não se preocupe com isso, de você eu não espero nada.
– Mas devia, não sou quem você pensa.
Ao entrar, ele já foi se atirando em cima do sofá, ligando a TV e sendo
quem eu imaginava que era.
– Se você quiser ficar, terá de seguir as regras volísticas.
– Regras volísticas?
60

– Regras do Vol.
– Eu sabia! Você é o Vol! Seu sacana, tinha me dito que seu nome era
Bob!
– Eu disse?
– Várias vezes. O endereço estava certo.
– Espera... Seu nome é NC?
– Bom, essa é a sigla que eu uso para encobrir a verdadeira sigla do
meu verdadeiro nome. Sabe, questão de segurança.
– Segurança? Ah, deixa de ser besta.
– Certo, só porque você manda, chefe.
Desliguei a TV...
– Ei, eu ia zapear!
... Respirei fundo e...
– Vai, liga isso aí.
... E comecei a explicar-lhe o que nem mesmo eu entendia.
– Olha, eu sou o mesmo Vol que colocou o anúncio ao qual você
respondeu, mas no momento em que você chegou aqui, encontrou o Bob.
Ele pensou um pouco e, com os olhos arregalados como se tivesse
descoberto ouro num lixão, respondeu.
– Ah, já entendi. Bob é seu irmão-gêmeo.
– Não. Bob é meu alter ego.
– Alter ego?
Logo que ele parou de rir, eu continuei a explicação.
– Fui eu, Vol, quem respondeu à sua mensagem e quem te passou o
endereço daqui.
– E agora você é o Vol mesmo ou já se transformou no Bob?
– Se você continuar a rir, vou te expulsar sem me importar se minha
consciência me matará.
– Certo, eu paro.
– Você falou com ele quando esteve aqui pela primeira vez, por isso ele
disse a você que nada sabia sobre o anúncio.
– Agora estou entendendo.
– Ele é uma pessoa horrível em todos os sentidos e de todos os ângulos
que se observe, por isso estou tentando me livrar dele. Não está sendo fácil.
– E, não que seja da minha conta, mas você acha que com todos esses
problemas mentais que você tem, é uma boa hora para treinar um substituto?
– Acabei de descobrir mais um defeito em você. Mais dois e você está
fora.
61

– Não, não, eu falo pelo bem geral. É que o mundo já tem tantos
malucos, acho que não precisa ter mais. Olha, tudo bem, por mim, tudo ótimo,
eu vim em busca da vaga e não mudei de idéia.
– Ah, a vaga... Bom, você pode não ter mudado de idéia, mas eu mudei.
Você pode morar aqui, de graça, mas eu acho que você não é nada indicado
para o cargo.
– Não diga... Não me considera maluco o bastante?
– Não, não, é sério. Você deve ter notado que somos totalmente o
oposto.
– Sei, sei.
– Em resumo, você não serve. Pode ficar aqui alguns dias, mas é só. Eu
vou selecionar outros candidatos, conforme forem surgindo... Que foi, está
rindo de que?
– Papo furado. Estou rindo de você, da suas mentiras, do seu jeito, de
toda essa estória. Essa situação é completamente absurda, não sei como poderia
ser menos crível. É absurdo você estar procurando um substituto; é absurdo
querer achar alguém igual a você em qualquer esquina; é absurdo imaginar que
alguém que não seja um perdedor como eu vá se interessar por essa causa; já é
absurdo que você exista, que eu esteja aqui e que seu egocentrismo seja tão
acentuado; é absurdo que eu precise falar tudo isso. Absurdo!
Quando o panaca terminou com sua atarantação, percebi duas coisas:
que ele adorava cuspir obviedades como se fossem conjeturas jamais
imaginadas por mim ou por qualquer outro; e que, o que acontecesse dali por
diante, não seria boa coisa.

18/10

– E como vai hoje, caubói?


– Por que eu responderia? Você não deveria nem mesmo me dirigir a
palavra.
– Oh, e por que não devia fazer isso? Para evitar que o bebê chore?
– Não. É que, para falar comigo, é necessário antes aprender a falar.
– Rabugento.
– Ah, não enche!
– Posso te encher o quanto eu quiser, você é minha propriedade agora.
– Por pouco tempo.
– Os sonhos te ajudam a viver?
62

– Me ajudam a planejar.
– Planejar vinganças, contra mim? Que bonitinho! Não quer me contar
seu planozinho?
– Não, não gosto de pessoinhas xeretinhas.
– Gostos são mutáveis.
– Mas o bom gosto não.
– Então não vai colaborar para que a aura fique mais colorida?
– Depois de você.
– Não, você primeiro, faço questão.
– Devia fazer questão de ser menos tolo. Olha, devia saber que isso não
pode ir mais longe do que já foi.
– Quer apostar?
– Quero apostar na sua derrota. Que tal três a um?
– E qual será o prêmio?
– Não importa, porque você vai perder.
– Isso é uma questão de opinião. O prêmio será tudo o que lhe
pertence, inclusive o que mais lhe custou conseguir.
– Não sei o que seria isso. Sempre levei uma vida nietzschiana, sempre
tive tudo o que quis antes mesmo de querer.
– Sério? Tudo mesmo? Mas e quanto a mim?
– Nunca quis você, não atingi ainda esse grau de mediocridade.
– Pois para mim, a sua mediocridade é que fica muito evidente. E
pensar que você queria que eu seguisse à sua sombra.
– Era você quem queria isso, eu só lhe dei a chance, que foi por você
desperdiçada.
– Eu não desperdicei porra nenhuma. Você não passa de um fracassado
em pele de vencedor.
– E você é um perdedor em pele de perdedor. Mas não sei aonde esses
insultos irão nos levar.
– Então o espertalhão não sabe tudo?
– E nunca fingi saber.

01/09

Não sei, não me parece nada bom. É algo que foge ao meu controle,
como jamais tinha acontecido. Não há como eu me acostumar à idéia, nunca.
63

Mas é que, do jeito que os fatos se deram, não me restou alternativa. Eu não
poderia ter feito outra escolha.
NC? NC! NC...
Sabia que não devia, sabia que não queria e, no entanto...
Para entender isso é preciso desencavar exemplos das profundezas de
um dos mares do mundo dos exemplos, e não creio que iria tão longe assim.
Por total falta de opção não tão ruim, eu o "escolhi" para me substituir
e ainda não consigo acreditar que fiz isso – ou que terei de fazer. Ele não
preenche nenhum dos requisitos e nem ao menos o considero suportável e
tenho certeza de que ele fará um péssimo trabalho sendo eu.
Poderia dizer a mim mesmo que não custa tentar, mas sei que custa
muito, custa inclusive um tempo de que não disponho; poderia tentar me
convencer de que as pessoas mudam, mas eu venho fazendo isso desde que
nasci e jamais consegui êxito; poderia dizer assim mesmo que não sou um
perfeito idiota por tentar, mas isso seria igualmente difícil de acreditar.
Lissa, meu único consolo. Ela bem que poderia tomar meu lugar, é
certamente a pessoa mais indicada. Ela praticamente me transformou em quem
eu sou. Talvez isso explique o porquê de ela me amar de forma tão desmedida.
Sou sua mais perfeita invenção. É evidente que isso explica tudo. Mas,
infelizmente, nem chegarei a propor-lhe isso, pois sei que ela jamais aceitaria
abdicar de sua personalidade para abarcar a minha.
Logo, eu tinha que aprender a lidar com NC.
– Que tal?
Não sabia o que responder... Ele tinha acabado de me dar uma amostra
de que podia fazer quando se transformasse em mim e eu a reprovara.
Observando sua expressão de profunda preocupação, tentei me explicar:
– Olha, não se trata de se vestir como eu, ou de tentar imitar meus
gestos ultra-originais, mas de agir como eu em relação a grandes causas sociais
e ambientais.
E, observando sua cara de interrogação, tentei explicar-lhe a
explicação:
– Eu sempre me preocupei com o bem-estar alheio, trabalho com
preservação ambiental há anos, mantenho um canil permanente e também
trabalho como voluntário numa casa de repouso já há alguns anos. São coisas
assim que você terá de fazer, precisa continuar meu trabalho e, quando você
decidir morrer, não faça isso antes de arranjar um sucessor. A missão precisa
ser cumprida, mas não é trabalho para apenas uma pessoa.
– Mas você doa dinheiro para essas causas?
– Mensalmente.
64

– E você pretende me deixar toda a sua grana quando se matar, não é?


– Sim, para que você possa continuar a fazer o que eu fazia.
– Mas se você me der o dinheiro, significa que ele será meu e que,
sendo meu, poderei fazer o que eu bem entender com ele.
– Você quer saber se eu vou deixar que você gaste minha grana com
piranhas e heroína?
– É, em suma. Você me julga assim tão mal porque não precisa duns
tóxicos para ficar doidão, já nasceu assim.
– Você não poderá fazer o que quiser com o dinheiro, e se não quiser
aceitar, foda-se. Você não serve mesmo para ser eu. Deixe-me encontrar quem
sirva.
– Ei, ei, eu não disse que não concordava, só acho que a gente podia
rever as quantias das doações... A porcentagem é muito alta.
– Se eu pensasse o mesmo, já teria revisto o contrato. Não há nada a ser
modificado nele.
– Mas 65% ao todo é inaceitável.
– O restante é mais que o suficiente para que você viva como um rei
durante uns duzentos anos.
– Um rei pobretão.
– Um rei moderado, dedicado à espiritualidade, mentalmente
equilibrado, um rei caridoso o bastante a ponto de abrir mão do luxo ao qual
facilmente teria acesso, e tudo em prol de uma causa maior, mais importante do
que tudo, em nome do bem comum.
– Blablablá... Já estou quase desistindo. Não me avisou que eu teria que
suportar essa lengalenga.
– Pois agora está avisado de que esta lengalenga faz parte do trato. Ah,
por falar nisso, Lissa irá ajudá-lo a administrar meus bens.
– Quem? O que? Por que?
– Lissa, minha amiga, fã, ex-namorada, atual namorada do Bob. Ela é a
única pessoa em quem eu confio e ficará de olho em você. Todos os meus bens
estarão em nome dela tão logo eu me despeça desse mundinho inquerido.
– Mas... Aposto que ela é mais louca que você.
– Não, é bem menos.
– E eu ainda vou ter que aturá-la como minha carcereira?
– Se a chamar assim, terá problemas desde o início.
– Já os tenho.
– Pois vá se acostumando, pois de agora em diante, meus problemas
são seus problemas.
65

03/09

Ele não sabia ainda, mas acho que já imaginava que não tinha
aparecido mais nenhum interessado na tal vaga de sucessor volenesco. Claro
que ele nada tinha com isso, mas como era muito enxerido, sabia que não
demoraria a comentar algo sobre.
Aliás, por falar em "demorar", já fazia mais de uma semana que ele
tinha estacionado em minha casa, e ainda não dava mostras de que iria embora
algum dia. Não sabia como agir, pois eu mesmo tinha facilitado as coisas, tinha
criado aquela situação e nada do que eu fizesse poderia consertá-la...
No entanto, a certeza de que algo não poderia dar certo nunca me
impediu de tentar.
Eu sei, eu sei, é difícil entender, mais dificultoso ainda é explicar. Mas
acontece que ele é muito pouco "qualificado" para a tarefa.
Não, sei que não é difícil entender, é bem fácil, aliás, poucas coisas no
mundo são tão fáceis quanto entender isso.
Eu realmente estava disposto a nada exigir, o meu estado de profundo
desespero tinha levado meu senso de exigência para o além, mas contratar NC
para um trabalho tão importante estava já totalmente fora de cogitação.
Não neste mundo. Não nesta vida.
Poucos minutos após o início do treinamento, já sabia que não existia
ninguém menos indicado para me substituir do que ele. E o pior é que ele
parecia não ter notado isso (talvez por pensar que ainda não conhecia o Vol,
pois todas as ocasiões em que ele apareceu por aqui – e tinham sido muitas – eu
o recebia fingindo ser Bob, só de zoação) e, neste caso, ao menos nesse, a culpa
não era dele.
Uma coisa que vinha me incomodando deveras era o modo como ele
vinha agindo. Surgia de uma hora para a outra, sem jamais ter sido convidado.
Ontem mesmo, quando voltei da casa de Lissa... Ah, vamos contar desde o
início.
Tudo indicava que Bob tinha passado novamente a noite lá, com ela.
Ao questioná-la sobre seu relacionamento com Bob, ela se recusou
terminantemente a me dar quaisquer detalhes. Sua falsa pudicícia me chateava
tanto! E me chateava ainda mais o fato de que ela não sabia o quanto isso me
chateava.
66

Como ia esplendorosamente dizendo, ao voltar da casa da Lissa, para


meu completo desprazer, encontrei NC bem aqui. Estava sentado, com aqueles
grandes e maltratados pés apoiados sobre o meu pufe favorito.
Eu sei, tenho muitas favoritices (como invariavelmente Lissa costuma
enfatizar, invariavelmente rindo), mas é porque talvez eu tenha feito por
merecer. Além do mais, qualquer pessoa, por mais normal que seja
considerada, teria a mesmíssima reação que eu tive, disso estou certo, nem
tente me contradizer.
Não lhe perguntei como tinha entrado, apenas fiquei paralisado durante
meio segundo, observando seus olhos hipnotizantes hipnotizados pelos raios
catódicos da TV. Ele nem sequer me viu entrar, continuou a agir como se ali
fosse a casa dele, e foi então que me dei conta do quão doloroso pra mim seria
se aquilo se tornasse real.
Exageros, dizem, sempre fizeram parte de minha personalidade, e sou
obrigado a concordar com essa baboseira, por mais exagerada que ela seja...
Só porque ele se sentia em casa em qualquer casa isso não significava que
podia se transformar no Vol #2, mas era exatamente assim que ele parecia
pensar. E outra: para mim, era bem claro que Lissa não gostaria nem um pouco
dele, quando o conhecesse, e esse é um pré-requisito dos mais importantes para
ser eu.
Se ela não vivesse em função de me idolatrar, minha existência seria
ainda insossa e a dela... Melhor nem pensar mais nisso, embora a questão
afirmativa continue a nos azucrinar.
E ainda outra: tenho medo do que Lissa possa estar planejando. Sinto
que ela falou muito a sério quando disse que se vingaria de mim acaso eu
levasse meu plano de morte adiante. Eu sei, pode parecer covardia ou mesmo
falta de ocupação decente, e talvez seja mesmo algo assim, mas uma certeza eu
ainda tenho, e é a de que estou certo em me preocupar sobre isso. Lissa não é
assim tão indefesa ou frágil quanto parece, embora na maior parte do tempo eu
saiba que estou exagerando novamente a respeito de seus adjetivos.
Abandoná-la!
Às vezes, penso que ela só se preocupa consigo mesma, o que não seria
de todo mal se ela parasse de fingir que sou importante. Sei que sou essencial a
ela e ao resto do mundo (não, jamais conseguirei associá-la a esse mundo, vê-la
habitando-o como se fosse a coisa mais normal do... mundo), mas às vezes
seria bom se outra pessoa, além dela, me dissesse isso. Não se trata de carência
afetiva, de imaturidade, de infantilidade ou de qualquer outro nome que
queiram dar a isso, mas é um sentimento de abandono e de descaso que persiste
67

e do qual sei que só conseguirei me desvencilhar quando finalmente


desaparecer.
A maioria das pessoas deve se sentir assim vez por outra, e isso é até
suportável – imagino que essas mesmas pessoas possam estar pensando que
minha mania de redundância chegou a um ponto crítico, que não pode mais se
espalhar por nenhuma outra área, mas acreditem, pode sim –, mas comigo...
Não é assim.
Primeiro, não sinto isso apenas "de vez em quando", mas praticamente
o tempo inteiro, sempre lá, sempre me azucrinando, sempre me mortificando.
E, segundo, sinto que sinto (!) os sentimentos (!!!), os bons e os péssimos, num
grau ainda mais elevado que essa mesma e abominável "maioria" que se diz
normal.
Esse problema torna tudo ainda mais... problemático.
Ela não é pretensiosa assim, nem me conhece pouco a ponto de
acreditar que sua devoção por mim me fará mudar de idéia a respeito da
decisão mais importante da minha morte. Não sei, não sei mesmo o que a leva a
pensar dessa forma. De fato, nada há que seja importante o bastante para mudar
minha mente, mas ela...
Lissa está longe de ser uma pessoa persistente, ela geralmente tenta
fazer qualquer coisa apenas durante o curto período em que espera até que
possa desistir. Ela tenta não realizar nada, só o necessário, tenta sempre fazer
pausas entre uma desistência e outra, simples assim. Tem sido assim durante
toda a sua vida, não há como não perceber. Mas tenho motivos para acreditar
que ela fez da desistência seu passatempo favorito porque até então não tinha
encontrado nada que considerasse realmente digno de algum esforço a mais.
Ela ainda não sabe que eu, só para não perder o costume, pensei em
tudo e hoje mesmo irei contar-lhe sobre a idéia de contratar um sucessor.
Tenho certeza de que ela ficará absolutamente extasiada. Eu já lhe teria dito,
teria lhe contado tudo, acaso ela não tivesse sido acometida daquele chilique no
outro dia, logo que lhe contei sobre a auto-anulação.
Mas eu sei bem o porquê. Coitadinha, certamente imagina que eu não
me importo com ela, que minha missão número um na Terra é maltratá-la. Não
sei como explicar que coisas assim continuem acontecendo. Depois de tanto
tempo, depois de imaginar que, a essa altura, ela já conheceria intimamente
minha delirante alma e cada pensamento mais banal que eu tivesse fosse para
ela uma confirmação de seu próprio raciocínio. Inacreditavelmente nada disso
ainda ocorreu, vejo que estamos muito longe de interligarmos nossos
pensamentos, apesar de que nossa química, de um modo geral, é inegável.
68

Ainda assim, é inegável também que tenho razão em querer que ela me
entenda melhor.
Se eu a entendo? Ora, que pergunta, é evidente que sim. Seu ponto de
vista, sobre qualquer assunto, me é claro já antes mesmo que ela se decida a
falar-me. Não cheguei a esse ponto depois de muitos anos destrinchando-a, mas
sim prevendo sua previsibilidade. As mulheres, em sua maioria (infelizmente
Lissa se inclui nesse grupo, e é provavelmente a única vez que a veremos ao
lado da maioria), adoram fazer-se de complexas, maduras antes da hora,
chatíssimas quando não lhes seria permitido ainda ser...
Tudo isso sempre me irritou profunda e inaceitavelmente. Poucas,
pouquíssimas coisas são capazes de me irritar – até pelo fato de ser do sexo
masculino, pude me livrar com muita facilidade dessas frescurites que parecem
atacar especialmente as mulheres, como essa coisa que elas têm de se irritar
sem razão alguma –, é preciso que algo muito grave e horrível, tremendamente
grotesquento, horrorosamente absurdo aconteça para que eu me descontrole,
mas isso... Isso parece que chega lá no fundo.
Ah... (ah, deixe-me dizer "Ah..."), tantos problemas, tantas questões!
Como essa, por exemplo: Por que a vida deveria ser considerada como
algo importante? Por que deveria ser um assunto sério? Ora, se se trata apenas
da minha vida, a vida de mais um ser que se sente a estrela maior dessa
constelação (apesar de sua racionalidade doentia sempre o leva a crer que é
insignificante, tal como os outros), então por que as pessoas são tão hipócritas a
ponto de se contradizerem assim, sem motivo algum que o justifique?
Será que sou o único a questionar sobre esse assunto? O único que não
consegue fingir que tudo vai muito bem apenas porque está tudo muito bem
comigo?
Passei a vida toda a perguntar coisas assim, assim como 1% das
pessoas e, assim como elas, não parei de perguntar nem mesmo depois que
descobri que jamais obteria uma resposta, nem mesmo uma imitação de
resposta. Por que? Porque me parece impossível parar, não deve ser algo fácil,
então nem ao menos tentarei. Seria muita impertinência apostar quando se sabe
exatamente que não há chance de ganhar.
Já comentei sobre ela ser muito previsível?
Aliás, charmosamente previsível?
Pois ela já era assim desde muito antes de pousarmos os olhos um no
outro. Não consigo entender (quantas dificuldades!) como até mesmo uma
característica como essa, que mais deveria se parecer com um gravíssimo e
incorrigível defeito de fabricação, nela termina por se tornar uma qualidade tão
apreciável, tão fabulosa. Assim Lissa exemplifica com maestria uma frase da
69

senhorita Bullock, que explica que são exatamente nossos defeitos que nos
fazem belos.
Se fizermos as contas (evidentemente já as fiz) concluiremos que a
personalidade dela se constitui de 86% embasbacantes qualidades as mais
desejáveis e invejáveis, contra apenas 2% de defeitos que não suporto. O
restante é constituído por características que não se encaixam nem no grupo das
positivas, nem das negativas. Duvido que haja alguém no mundo inteiro que
reúna tantos e tão incríveis adjetivos e afirmo isso baseado nos resultados de
inúmeros testes sociológicos que fiz nos últimos cinco anos. Durante esse
período, analisei mais de setecentas mil pessoas e apenas 4% delas
conseguiram resultados semelhantes aos da minha Lissinha. Não é à toa que ela
se considera o sumo do supra-sumo, pois os números comprovam que ela
realmente chega muito perto disso.
E, se os resultados são mais que animadores para uns poucos, a sorte
muda para outros tantos. A grandíssima maioria dos patetas que analisei
(através de testes, entrevistas e observações) conseguiu apenas 18% de boas
qualidades e de 71% a 89% de defeitos gritantes e ultra-insuportáveis! Tudo
bem que o número total de pessoas que passaram pelo coolnômetro volenesco é
relativamente pequeno e os dados não poderiam ser entendidos em proporções
globais, mas com base neles é possível afirmar que apenas uma porcentagem
tão desastrosamente pequena da humanidade pode ser chamada de "humana"
em seu sentido mais amplo e lisonjeiro.

04/09

– Você não foi muito convincente no treinamento de ontem.


– Agora vai ficar me atazanando pelo resto da vida por causa disso,
vai?
– Só durante o tempo em que eu viver. Hoje nós trabalharemos na casa
de repouso.
– Mas o que você faz lá? Eu vou ter que fazer o mesmo? Bancar o
amigo de um bando de velhotes não é comigo.
– Bom, vai ter que ser. Se você continuar a me desrespeitar e a
reclamar a cada tarefa que eu lhe mande fazer, vou colocar o primeiro imbecil
que eu vir em seu lugar. Acho que não precisa me dizer qual sua opinião sobre
isso.
70

– Não, não, você já sabe qual é. Só preciso deixar de ser eu, abandonar
meu modo de pensar, discordar das minhas próprias idéias e passar a concordar
com as suas opiniões. Ah, e preciso passar a apreciar cada uma das atividades
chatas que você costuma fazer.
– Esse é o espírito.
– Eu não sei...
– Difícil acreditar.
– Acho que não consigo fazer isso... Pensei que fosse mais fácil. Sério,
eu gostaria muito de conseguir a grana que você está oferecendo, mas ainda
penso que... Olha só, esse treinamento... Não tive um bom resultado em nada.
Se você começar a me dar uma nota para cada atividade na qual eu tente
substituí-lo, eu vou terminar com uma coleção de zeros maior do que a que eu
consegui na escola.
– Ora, não desanime... Ou melhor, desanime sim, pois você está se
saindo muito pior do que eu imaginava que pudesse. E olha que as minhas
expectativas em relação a você já não eram grandes.
– Você é tão difícil de se contentar, é tão diferente de mim. Somos
opostos até quando não queremos ser. Você diz "assoalho", eu digo "céu"; eu
digo "ontem", você diz "ano que vem". Isso não tem como dar certo.
– Que exemplos mais chinfrins!
– Podem até ser, mas ao menos combinam comigo. E eu estou indo
embora. Para mim, chega de ser esculhambado por você.
– Ei, espere. Senta aí. O que foi? Eu posso ser mais flexível, só preciso
saber o que você gosta de fazer. Talvez eu possa implementar algumas coisas à
lista.
– Sério?
– Claro.
– Mas.. Nossa! Pensei que você jamais fosse concordar com algo
assim.
– Por que está surpreso, não é a primeira vez que você se engana.
– Sei lá, mas é estranho... Você sempre me pareceu ter uma mente tão
fechada, mas agora vejo que era uma grande injustiça pensar assim de você.
– Vamos, me conte suas idéias.
– Legal... Bom, desde que começamos o treinamento, eu me mudei
para cá, passei a comer o que você gosta de comer, a frequentar os mesmos
lugares que você gosta de frequentar, encontrar as poucas pessoas de quem
você gosta, enfim, não fizemos nada que eu gostasse de fazer. Eu sei que não
tenho lá muitos direitos, mas devo ter alguns, pois tenho muitos deveres e eles
sempre andam juntos, não é?
71

– Dá para encurtar a estória?


– Eu sinto falta de sair com meus amigos.
– Ahn???
– Por que essa cara?
– É minha cara de espanto. Não sabia que você tinha amigos.
– Você é um patife do pior tipo.
– Na verdade, sou um patife dos melhores.
– Você é o número 1 entre os piores.
– Obrigado.
– Continuando... eu acho que poderia ter um ou dois dias de folga por
semana para fazer o que eu quisesse, para agir como quisesse, dizer o que eu
quero dizer, enfim, para ser eu, só para aguentar o tranco.
– Não pode, não.
– Por que? Você me disse que seria mais flexível... que tinha uma
mente aberta. E agora não vai me dar nenhuma explicação?
– Não, não lhe devo nenhuma explicação.
– Mas o que eu te fiz? Eu não estou pedindo nada que possa ser
considerado absurdo.
– Claro que está, vamos esquecer esse assunto, você fala besteiras
demais. Lembre-me de não te deixar mais opinar sobre o que quer que seja de
agora em diante.
– Filho de uma puta desalmada! Eu vou embora e você nunca mais vai
me ver.
– Não me dê esperanças.
Ele ficou de pé, parado, e ficou assim por vários minutos.
– Que foi agora? Quer que eu me levante e te leve até a porta?
– Sabe que eu não tenho para onde ir e que eu preciso do trabalho.
– Sei e sei também que você não merece nada disso. Vá pedir ajuda a
seus amiguinhos de quem você tanto sente falta.
– Mas eu já disse que estou disposto a tentar.. Só preciso de mais uma
chance. Falei besteira, mas você sabe que isso faz parte da minha
personalidade, e sabe também que logo que eu termine o treinamento, eu terei
perdido também esse traço.
– Agora sim estou vendo ação. Tudo bem, você continua no cargo e eu
me esqueço que você reclama mais do que mocinha em acampamento. Se você
me prometer (e cumprir) que não vai mais dar a sua opinião a respeito de
absolutamente nada, eu posso fingir que você pode algum dia chegar a ser eu.
– Legal, eu prometo.
– Ótimo, vamos continuar então. Onde estávamos?
72

– No asilo de velhos.
– Primeira lição: Não se refira a eles por palavras como velhotes,
coroas ou tiozinhos, é muito degradante.
– Não me trate como criança.
– Então pare de agir como criança. Segunda lição: não tente bancar o
Bart Simpson e fazer alguma revolução. Eles realmente gostam das suas vidas
como elas são, tranquilas. É assim que querem que continue.
– Fica frio, eu não vou criar problemas. Só me fale o que eu preciso
fazer.
– Certo. Só precisa ficar quieto, imóvel como um envelope sem
endereço.4

08/09

Estávamos Lissa, NC e eu, em minha casa, bebendo e jogando


conversa fora. Depois de mais um dia de árduo treinamento, era disso o que
precisávamos.
Eu ainda não tinha chegado a uma conclusão sobre influenciar os
hábitos alimentares de NC, mas ao notar seu gosto por carnes mal-passadas, eu
percebi também que não gostaria nem um pouco de me ver assassinando
animais por causa de um mero bife.
Quando sugeri a ele que precisaria tornar-se vegetariano, ele quase teve
um infarto antes de responder:
– SEM CHANCE!
Ser enfático era coisa que não combinava com ele. Ser vegetariano
também não, mas eu precisava insistir.
– Você vai se tornar vegetariano, sim, a partir de agora. E se me
contestar, já sabe o que acontecerá.
Lissa interferiu, afinal, não podíamos esperar que ela não o fizesse:
– NC, ao contrário do que muitos desinformados dizem, a dieta
vegetariana é infinitamente mais saudável que qualquer outra. Não há diferença
na assimilação da proteína quando ela provém de fonte animal ou vegetal, tanto
faz de um tipo ou de outro. O planejamento de qualquer dieta, e não apenas da
vegetariana é que faz toda a diferença quando se fala em deficiência de ferro.
Isso sem mencionar que os vegan e os vegetarianos geralmente consomem
muito mais vegetais do que os onívoros e, como se sabe, a maioria dos vegetais
ajuda a prevenir doenças como os vários tipos de cânceres, por exemplo. Ah, e
73

por falar nisso, você sabia que tem 54% mais chances de ganhar um câncer de
próstata do que alguém como o Vol? 5
– Bom...
– Isso sem falar que a chance de ter câncer de intestino grosso é 88%
maior em você. E vejo que você está um pouquinho acima do peso. Se não se
cuidar, com o metabolismo lento que você tem, então em três anos ou menos
você se tornará obeso, pois as suas chances já são bem maiores só pelo fato de
ter passado a vida toda se alimentando de carne. E, mesmo que não chegue a
ficar obeso, terá muito trabalho para perder os quilos que já ganhou e os que
certamente ainda vai ganhar.
– Muitas pessoas se empanturram de carne a vida toda e não têm
nenhuma dessas doenças. É uma questão de sorte ou azar...
– E você vai dar chance ao azar? Tem de admitir que sua sorte não tem
feito muito bem seu serviço ultimamente.
Ele olhou para mim, depois para ela e, relutantemente, consentiu.
– É, não posso dizer que algum dia já tive sorte.
– Isso me lembra que, noutro dia desses, o Vol me disse que você
parecia ser demente, pois ele sempre precisava repetir as mesmas coisas umas
mil vezes antes que você entendesse. Eu sei que ele estava apenas tentando ser
engraçado, como sempre, embora eu quase tenha acreditado, pois você tem
triplas chances de desenvolver demência cerebral.
– Mas eu não sou demente!
– Eu sei disso, e também sei que você, como o cara esperto que é, já
sabe de tudo isso, dos riscos a que está constantemente se expondo. Só quero
dizer que entendo a sua resistência em aderir ao vegetarianismo.
– Entende?
– Claro que sim. Não é culpa sua se seu modo de pensar ainda é
primitivo.
– Primitivo? Olha, não pense que é só porque você é uma garota que eu
vou te poupar de umas pauladas, viu?
– Não, eu não quis ofendê-lo, nada ganharíamos com isso. Você já
parou para pensar que o fato de você resistir em se tornar vegetariano vem não
apenas da sua acomodação, mas também de uma mentalidade dos romanos da
época imperial? Eu explico: há mais de seis milênios o homem criava gado e a
maioria das pessoas cultuava o deus Mithra, um deus com forma de touro e que
simbolizava masculinidade e poder. Numa tentativa de conter o culto ao deus-
touro, a Igreja forjou uma descrição do diabo, que era idêntica à de um touro.
– E daí?
74

– Daí que você, inconscientemente, ainda pensa como os cristãos


idiotas daquela época.
– E você ainda pensa como os idiotas que viviam há seis milênios.
– Não, pois eu não cultuo os animais como deuses, como aquelas
pessoas faziam. Eu os respeito como os seres terrenos dotados de sentimentos
que são, se bem que não seria assim tão estranho se eu fizesse isso, pois
atualmente, na Índia, as vacas são sagradas e todos as respeitam por
acreditarem que elas são pessoas reencarnadas em forma animal.
– Você é boa.
– Sou ótima. Olha só, o Vol te considera um néscio, mas eu sei que
você é muito inteligente e especialmente por isso não consigo acreditar que
alguém tão inteligente como você possa contribuir com a hipocrisia da Igreja.
– Certo, eu odeio o modo como a Igreja sempre quis enganar e
controlar os fiéis.
– Foi o que eu pensei. Também detesto isso. E detesto ainda mais o
fato de exista tanta gente que considera normal matar animais apenas para lhes
tirar algo de que nem sentimos falta, como pele ou carne.
– Eu ouvi falar da crueldade com que tratam os animais de criação.
Mas eu não...
– Sujeitam esses animais a choques, a surras, a stress, a parasitas, a
marretadas, a degolações e ainda a outros tipos de torturas, desde o momento
em que nascem até a hora de sua morte.
– Que horror!
– As imagens e os gritos dos animais à morte são ainda piores.
– Chega! Não quero mais fazer parte disso. Eu sei que nunca tinha
pensado nisso mais a fundo, mas agora...
– Que bom que fez a escolha certa. Sempre que tiver vontade de comer
carne novamente, lembre-se que a humanidade só começou a matar animais
porque ainda não sabia como plantar alimentos, por isso, naquela época esse
ato era quase aceitável, apesar de monstruoso e desumano. Hoje, com a
variedade imensa de alimentos que temos à nossa disposição nos
supermercados, é absolutamente ridículo que ainda pensem que precisam de
carne para manter a vitalidade.
– Agora eu concordo que só os mal informados pensam assim. Mas,
você não inventou nada a respeito do câncer de próstata, não?
– Claro que não, NC. Alguma vez eu já menti para você?
Claro que não, ela não teve chance.
– Não, nunca mentiu.
– Então não tem motivo para não confiar em mim.
75

– Legal, então de agora em diante, eu vou tentar parar de comer carne.


Vou só tentar, na medida dos meus poderes. E não porque você está me
obrigando, Vol, mas porque quero iniciar uma nova era na minha vida. Viver
de forma saudável não é coisa de hippies trouxas como eu pensava.
– Não me surpreende. Pensar nunca foi o seu forte. – disse eu, só por
não ter nada melhor a dizer.
– Pois eu andei pensando, Vol... Se você me tirar o cigarro, então terei
que desistir de vez dessa coisa toda.
– Jamais o submeteria a tal tortura. Além do mais, fumar é ótimo. O
fato de você ser fumante só me beneficia.
– É? Como?
– Estatisticamente você morrerá antes do seu tempo, o que significa
que sobrará mais recursos para que outros depois de você o usem, talvez de
forma mais consciente.
– Ah, então você está contando com isso... Valeu, agora estou vendo
serviço.
– Pois eu não. Mesmo tendo se tornado um de nós, você continua a me
decepcionar.
– Nada do que eu possa fazer poderá agradá-lo.
– Eu sinto o mesmo.

10/09

– Não aguento mais você! Por que você tem sempre que fazer coisas
tão pedantes? Não tem outra ocupação a não ser bancar o intrometido metido a
humanitarista, ou seja lá como você chama isso? Acha que vai para o céu só
porque passou a vida toda sendo um idiota e deixando de aproveitar o que é seu
por direito?
– Não sou tão estúpido quanto você para acreditar em céu e inferno ou
em qualquer tipo de vida pós a morte. Morte é morte, apenas isso.
– Valeu pela aula, amigo, mas eu já aturei a sua chatice por muito
tempo.
– Não me diga que vai se demitir de novo? Por que não poupa a ambos
nós de mais essa situação patética, hein? Sabe, eu não estou disposto a aceitá-lo
de volta nem que me implore.
76

– Ei, como seu funcionário eu tenho direitos. São poucos, mas são
meus. Eu mereço ao menos um dia de descanso semanal e ao menos metade do
dia livre.
– O que? Folga? Você nem trabalha! Além do mais, eu nunca tirei
folga de mim.
– Mas eu preciso tirar folga de você.
– Você não poderá ser eu se continuar a fugir de si mesmo. Se você
tivesse algum juízo, tentaria fugir de você agora.
– Que é? Está querendo me confundir?
– Não, estou querendo que você faça o seu trabalho.
– Nunca!
– Não seja burro! Sei que estou lhe pedindo demais, que essa tarefa
excede a sua capacidade... Eu sei que ser eu não é nada fácil. Mas o que você
vai fazer quando sair daqui? Não sabe? Pois eu vou lhe dizer: você vai passar
um tempo perambulando por essas ruas assombrosas e assombradas antes de
topar com algum maluco que o matará e comerá suas tripas. O que sobrar da
sua carcaça será incinerado depois de três dias, pois ninguém reclamará o
corpo.
– Não me parece tão ruim assim, eu já estarei morto quando tudo isso
acontecer.
– Claro, que garoto esperto... E lembre-se também que você sempre
poderá contar com a sorte. Muitos encontraram a paz assim.
– Acho que é isso.
– Então, sua última chance. O que vai fazer?
– Se é pelo meu eterno mal-estar, e o de mais ninguém, diga a todo o
povo que mora na sua mente que eu fico.
– Mas vai ter que melhorar essas notas.
– Eu fugi da escola para não precisar passar por isso nunca mais.
– Eu sei, mas você está sendo avaliado a todo o momento e deveria ser
grato a mim por não fazer segredo das suas notas. Uma pessoa normal, ou seja,
hipócrita, jamais faria isso e depois o despacharia sem que você soubesse o
porquê.
– Sabe, pela primeira vez e acho que isso pode dar certo. Você tem
algumas coisas em comum comigo. Somos íntegros, nada hipócritas, muito
atraentes...
– NC, eu não o considero atraente.
– Ah, deixa de ser homófobo.
– Ah, deixa de papo furado.
– Está bem, fala aí por que tirei zero.
77

– Você passou seis horas lá no asilo e não fez nada. Deveria ter me
imitado, é para isso que eu lhe pago.
– Você me disse para não fazer nada.
– Disse-lhe para não fazer nada comprometedor.
– Eu não sei o que você considera comprometedor.
– E eu não sei como lhe explicar isso.
– Ah, sem essa! Você quer que eu faça um trabalho que nem sabe como
se faz. Que espécie de treinamento é esse?
– É um treinamento do tipo que você deveria me mostrar o porquê de
merecer estar participando dele.
– Então eu deveria saber o que você prometeu me ensinar?
– Claro que sim. E também não deveria fazer perguntas como essa, por
exemplo.
Não tem mesmo como isso dar certo.

11/09

– Comemore. A partir de agora, seu treinamento ficará mais fácil.


– Ueba!
– Opa, não comemore ainda. Hoje vamos doar sangue.
– Doar? Mas eu sempre achei melhor vender.
– Ainda existe quem compre isso?
– Não é totalmente legal, mas eu conheço um sujeito que compra.
– Não faltaria sangue nos bancos se pagassem aos "doadores". Mas,
enquanto não tomam uma decisão, devemos andar na linha.
– Eu tenho um problema com esse tipo de coisa.
– Se não quiser me acompanhar, não o obrigarei. Apenas não vou
querer te ver aqui quando eu voltar.
– Não acredito que você faz isso sempre.
– Quatro vezes ao ano, e me sinto muito bem.
– Não acredito.
– Não precisa, não espero reconhecimento, sou muito altruísta para
isso.
– Mas não está certo você me obrigar...
– Não pretendo obrigá-lo a nada.
– Mas vai me mandar de volta para a sarjeta se eu não for tirar um
pedaço de mim.
– Sim, mas não o obrigarei.
78

– Você nunca ouviu falar em direitos trabalhistas?


– Certa vez um sujeitinho qualquer me falou algo sobre isso, mas eu
logo me livrei dele. Mas não me pergunte como, pois eu não me lembro.
– Mas isso coloca em risco a minha saúde.
– Não seja tão ignorante, isso é irritante.
– Tenho medo de ser picado. E minha pressão vai cair se eu fizer isso.
– E daí? Qualquer um sabe lidar com um simples desmaio.
– Mas eu tenho medo. Não entende?
– Não. Seus sentimentos não me interessam, já devia ter percebido isso.
– Eu sei que eu deveria ir sem que você me obrigasse, pois você não
estará aqui para me mandar fazer isso e aquilo, mas essa tarefa eu não consigo.
Não depende só de mim...
– Vou contar do três ao zero e...
– Certo, eu vou.
Achei que tinha sido fácil demais, apesar de que não tinha sido nada
fácil.
Como sempre, eu estava certo. Antes que tirasse a amostra para o teste,
ele desistiu. Saiu correndo e gritando em desespero. Depois...
– Não dá, não dá! Não aguento mais isso. Fique você com seu
empreguinho e sua fortuna. Eu tô caindo fora de vez.
O que podia eu fazer diante dessa situação?

20/09

Não via Lissa há tanto tempo que nem sabia mais quem era eu.
Todas as minhas hipóteses sobre o que poderia ter-lhe acontecido eram
tão trágicas e envolviam tamanhas torturas físicas à minha menina que
simplesmente fugiam muito à realidade vigente. Por outro lado, não havia
motivo plausível que explicasse o fato de que ela ter desejado se afastar de
mim, então uma catástrofe era a hipótese mais crível até o momento.
Nossa última conversa tinha sido mortificante (para ela), mas não achei
que algo mais grave acontecera. Ela não atendia ao telefone, não aparecia nem
mesmo nos meus sonhos, e nem mesmo em sua casa ou no trabalho. Concluí
que ela tinha ido para a casa de seus pais, pois lá poderia não apenas se refugiar
do cara que lhe deu o fora como também teria com quem falar sobre o quanto
eu lhe fazia falta.
79

Era realmente uma pena que seus genitores morassem tão longe, senão
eu poderia encontrar disposição para ir até lá...
Se bem que seu desaparecimento vinha bem a calhar, pois só assim ela
continuaria a pensar que eu não me importava com ela. E, se eu atravessasse o
país para vê-la, ela decerto pensaria que eu a perseguia por preocupação.
Ah, claro. O que eu fiz quando encontrei aquele mentecapto invadindo
minha morada, era aí que tínhamos parado.
Antes de qualquer coisa, quero acrescentar que eu já tinha me
preparado para ser mais flexível e compreensivo com o panaca, mas quando ele
me lançou aquele olhar que demonstrava sua surpresa pelo fato de ter me
encontrado na minha própria casa (que crime hediondo eu fui cometer, meu
Deus!), não pude nem quis mais me controlar.
Em câmera lenta me aproximei dele e, após um soco que desencadeou
outro soco, que desenc...
Apesar dos inúmeros chutes e murros, devo admitir que não se tratou
de uma luta das mais excitantes, assim como os momentos seguintes, que
foram marcados por cenas em que eu aparecia em primeiro plano acompanhado
de bolsas de gelo e de curativos estampados.
Um adendo: Apesar de parecer, não sou um cara totalmente
desinformado a respeito das gírias de rua que a ralé costuma usar, mas ainda
assim, a quantidade e a variedade de palavrões e de outros pseudoneologismos
ultralicenciosos que o cretino disparou na minha cara foi realmente de matar. É
impressionante como ainda me impressiono com a criatividade das mentes
menos brilhantes.
Começar uma briga é superfácil, parar é mais do que dificultoso, é
quase impossível antes que ambos os envolvidos estejam completamente
exaustos. Ainda assim, como é sabido, jogar a toalha não é algo que se vê com
muita frequência.
Brigar é um ato positivo, pois só assim podemos falar certas verdades
que até então permaneciam entaladas. Esporadicamente, uma pequena
desavença pode ser sinônimo de recomeço. Sim, porque depois da
reconciliação, tudo volta ao normal... ou quase. E quando as coisas ficarem
pretas novamente, aí você já sabe que chegou a hora de desencadear outra
briguinha. Claro que tudo é por um bom motivo, afirma o professor Vol:
acertar as contas e restabelecer a paz.
Depois desses acontecimentos que me deixaram fisicamente semi-
incapacitado durante dois ou três dias, pensei que tinha deixado claro a NC que
ele jamais seria bem-vindo em minha casa, muito menos quando eu estivesse
presente. Infelizmente, o supernéscio tinha dificuldades elefantinas em
80

compreender o que quer que fosse a ele explicado. Além do mais, receio que
sua vontade de me importunar era tanta e as oportunidades tornavam a idéia tão
irresistível que ele simplesmente não podia lutar contra.
Apenas três dias após nossa desavença, ele estava de volta, com uma
bandeira que um dia fora branca, numa mão, e uma garrafa de apaga-tristeza na
outra.
Acrescento também, apenas para que fique registrado (pois acredito
que sempre há os que se interessam por passagens assim), que eu fui o grande
vencedor daquela luta tão rápida quanto desgraciosa.
– Ah, olha só, é meu inimigo menos querido!
– Trégua, trégua.
– Nada disso, fique aí fora.
– Mas eu trouxe um limpa-goela...
– E acha que, como numa república estudantil, uma garrafa é uma
senha para entrar?
– Deixa de ser xarope.
– Isso eu não conseguiria nem que quisesse. Olha aqui, seu acéfalo, eu
não quero mais perder sangue nem paciência com um sujeitinho como você,
ouviu? Você tem que entender que minha casa não é nem será sua. E não é só
pelo fato de que eu não suporto mais sua careta, nem seus trejeitos de
maloqueiro doido, nem sua voz horrivelmente estrondosa e mais um bilhão de
defeitos abomináveis que você carrega para onde quer que vá. Não quero você
perto de mim porque já é uma tortura ter que aturar uma pessoa normal, que
dirá alguém tão tolo e desdotado de simpatia como você?!
– Ei...
– Não, eu não acabei. Sei que uma passagem a mais ou a menos na sua
ficha criminal não fará diferença para você, mas ainda assim, creio que
precisarei bancar o cidadão preocupado e chamar os tiras se o vir rondando por
aqui mais uma vez. E se isso não o assusta, ou se não resolver meu problema,
então precisarei pedir ajuda ao meu companheiro aqui.
Naquele instante, levantei a camiseta e deixei à vista não somente meu
belo físico como também uma Smith & Wesson que certa vez surrupiara de um
ex-colega do FBI. O coleguismo acabou de vez quando ele soube do "roubo", e
de nada adiantou eu ter-lhe falado sobre minha inocência, com toda a
convicção que eu conseguia forjar...
NC, por as vez (que devia ser minha vez) pareceu confuso, mas não
surpreso ou amedrontado, como eu esperava que ficasse. Mas que decepção!
Ele não disse palavra, ficou apenas olhando para a arma, com certa curiosidade,
provavelmente pensando em me desarmar... Coitado.
81

Aquilo já estava me cansando, então eu simplesmente lhe desejei uma


infeliz vida e entrei em casa, bati a porta e fui dormir, pois já passava das dez e
eu não tinha nenhum compromisso urgente na manhã seguinte.

02/10

Sim, sim, sim, não é que após três semanas de suspense e drama,
mesclado com um pouco de comédia, minha Lissinha me esperava em minha
casa!!!
Uma coisa esquisita parecida com felicidade, misturada à apreensão e
ao êxtase, tomou conta do meu admirável ser de modo que corri em sua direção
e a abracei e a beijei e a esmaguei e ahhh...
– Minha Lissa, você está tão incrivelmente linda! O que houve? Por
que sumiu?
Mas não lhe dei tempo de responder e, não tão surpresa quanto eu
estava com a minha reação e, provavelmente deslumbrada por aquela efusiante
recepção, ela me deixou guiá-la até o sofá, onde pude matar aquela inexplicável
e tresloucada saudade que sentia.
Ela parecia feliz em me ver, e parecia desejar aquilo tanto quanto eu (o
que me parecia absurdamente espantoso, pois ela deveria me querer MUITO
MAIS do que algum dia eu pudesse vir a desejá-la), mas ainda assim eu a
sentia distante como ela jamais esteve. Não que estivesse tão modificada a
ponto de ter deixado de me idolatrar, mas parecia tão fria que quase me
congelou o espírito.
Estava tão louco para saber o que tinha ela feito durante aquele período
de loucura que experimentara, mas meu desejo era bilhões de vezes mais forte
que minha curiosidade.
Creio que contar todos os detalhes talvez me ajudasse a entender o que
tinha ocorrido, mas acontece que não me lembro de nada.
Sabia que não queria voltar a namorá-la, assim como desconfiava que
ela também não quisesse isso, pois devido à longa e pedante conversa que
tivemos quando decidimos romper pela quarta vez, tínhamos esclarecido tudo e
concordado que nossos poucos defeitos eram mutuamente insuportáveis. Mas,
o que eu sentia por ela naquele instante era tão forteincontrolávelarrebatador
que eu já não concordava mais comigo mesmo sobre as razões pelas quais nos
tínhamos separado. Ela talvez sentisse o mesmo, embora em proporção bem
maior.
82

03/10

Não sei se deveria parar... Sei que não deveria. Por mim. Nada podia
ser pior...
Eles sentiam-se assim, eu sabia - nunca fui tão desalmado ou pouco
empático quanto me julgavam. Não se tratava disso. Não parecia profundo, não
precisaria então me aprofundar naqueles pensamentos para descobrir. Tudo era
tão chocante que parecia normal. Seu cotidiano transformara-se em algo ao
qual não podiam acostumar-se. Por que? Por que?
Foi a primeira vez que fiquei chateado por saber a resposta e, mais
ainda, por ela ser tão simples. Não só simples, mas escandalosamente
vergonhosa. Não era nossa culpa, mas sabíamos que era! Não havia ali
ninguém a quem pudéssemos culpar com mais convicção do que a nós
mesmos.
Eles, no entanto, sabiam. Não faria diferença saberem ou não, tudo para
eles estava acabado.
Perto, bem perto... Dentro... Para desobstruí-la, para destruí-la.
Não, eu sabia que já estava chegando a hora de parar e sabia que o faria
sem rancor, mas ainda queria tirar as últimas lasquinhas que eram minhas por
direito, tal qual uma criança que, mesmo cansadíssima por ter brincado o dia
todo, ainda queria aproveitar os últimos raios de sol no parque para brincar
ainda mais.
Uma criança!
Não faz diferença. Sensibilidade é a mais "psicológica" das sensações,
em seu sentido mais restrito, disso eu sei. Sei porque, mesmo que especialistas
discordem veementemente, não podem dizer como eu devo me sentir. Uma
teoria que só se aplica a mim... Esse é o tipo de exclusividade que só serve
mesmo é para atrapalhar, afinal, como explicar um sentimento, seja ele bom ou
ruim?
Consolo. Isso seria um consolo, aquele do qual eu necessitava. Sensível
às dores alheias? Hmm, sai dessa! Mas o que se pode fazer quando a
indiferença recusa-se a dar as caras?
Recusar-se! Uma recusa das mais inapreciáveis, das menos
contornáveis. Por que comigo? Sei, tinha de acontecer a alguém. Mas sempre
comigo.
83

03/10

Ela me olhava fixamente e sorria, abraçada a mim, quase a me


esmagar. Eu ainda não acreditava que gostava tanto dela, pois antes que ela
sumisse, significava muito pouco para mim. Não sabia bem o que tinha
mudado e sabia que não conseguiria descobrir, mas...
– Vol, estou tão feliz.
– Eu também, querida.
– Bob me pediu em casamento.
CABRUFT!
– Ele fez isso??????
– Sei que é difícil de acreditar, mas ele fez sim. E eu aceitei.
– Aceitou?????
– Não devia estar traindo-o com você, que nem me merece.
– Mas Lissinha, o Bob sou eu!
– Ele é diferente. Foi ótimo o que você e eu tivemos, mas é muito
desgastante a nossa relação... Além do mais, me apaixonei por ele.
– Nada disso, você me idolatra! E isso não vai mudar.
– Nunca te idolatrei. E você devia me tratar melhor.
– Pensei que gostasse das nossas brincadeiras. Ah, Lissa, você me
decepciona a cada instante.
Levantei-me e comecei a me vestir. Ela continuava a sorrir, certamente
pensando no meu alter ego rival.
– Você estava com ele? O que fizeram durante essas três semanas?
– Por que eu lhe diria?
– Vamos parar por aqui, Elissa! Case-se com ele, faça isso agora, não
precisa mais perder seu tempo comigo. Espero que ele se divirta em sua
despedida de solteira um décimo do que você se divertiu comigo hoje.
– Patético!
– Eu????? E quanto a ele, que se apoderou do meu corpinho enxuto só
para te seduzir?
Como ela não respondesse, resolvi continuar, num tom mais ameno.
– Meu amor, por que isso agora? Por que precisamos nos separar? Por
que você deixou de me amar? Eu te quero muito mais do que ele pode vir a
querer.
– Você só me quer quando se depara com a ameaça de me perder. Ele
não me trata com um troféu, mas como uma mulher.
84

– Mas por que diabo você quer ser tratada dessa forma?
– Acho que me cansei de esperar pelo dia em que você melhorará suas
piadas.
– Você só está fazendo isso para me magoar.
– Vol, você é impossível de ser magoado.
Ela levantou-se, vestiu-se e foi embora. Temia não vê-la nunca mais
depois que se casasse com o traidor...
Não, algo me dizia que logo eles se separariam e ela voltaria,
implorando meu perdão.

04/10

Depois de ter passado o restante do dia de ontem me deprimindo,


resolvi que deveria encontrar algo com que me ocupar.
No entanto, não encontrei.
Não bastava ela ter acabado com todas as minhas inúmeras e imensas
chances de reconquistá-la, ainda tinha que me trair com o meu pior inimigo?!
Ainda hoje não consigo entender o que havia provocado aquela
mudança tão repentina. Hormônios femininos geralmente fazem as mulheres (e
os homens) enlouquecerem, mas aquilo já era um pouco demais.
Parar de pensar nisso...
Além de continuar exausto (culpa do Bobão, causador único de todo o
meu infortúnio), me sentia indefinidamente empanturrado. Tinha a impressão
de que Bob passara a noite toda desfalcando minha despensa, ou a de Elissa,
caso ele tenha passado a noite lá, o que é mais provável.
Parar de pensar...
Ninguém acreditaria que um plano mais que bem-feito terminaria desse
jeito. Eu bem que imaginava que não havia ninguém semelhante a mim neste
mundo grotesquento, mas queria acreditar que me lançara com desenvoltura
nessa aventura de escolher um meu sucessor à altura.
Eu poderia até tentar me resignar, acaso tivesse Lissa comigo, mas sem
ela é quase impossível. Talvez ela viesse mais tarde, para alegrar minha
tristeza, ou talvez viesse à noite, quando eu não mais estivesse.
Parar...
85

06/10

– Sabe de onde veio tudo isso?


– Sei, mas é uma longuíssima estória. Tudo começou assim: Bob
entrou num antiquário e...
– Espera aí, um antiquário?
– É, eu também tive dificuldade em acreditar, apesar de estar com ele.
Foi estranho, mas ele tinha me dito que pre-ci-sa-va de uma TV dos anos 60.
Aliás, de uma não, mas de seis.
– De seis televisores?
– É, para fazer uma espécie de pirâmide...
– E precisavam ser antigas?
– Ele queria dar um clima retrô à decoração. Disse-me que não
aguentava mais olhar para essas porcarias novas. Eu sei, é um motivo ridículo e
eu fiz o que pude para convencê-lo a mudar de idéia. Tentei distraí-lo com
outras coisas mais baratas, tentei até subornar o dono da loja para que não
vendesse nada a Bob, mas o cara viu que Bob pretendia gastar muito e preferiu
deixar rolar.
– E graças a esse oportunista, agora eu tenho uma linda e inútil
pirâmide de TVs antigas tomando mais espaço da minha sala.
– Eu insisti tanto em que saíssemos de lá, que Bob perdeu a paciência e
me disse que o dinheiro não era meu, que eu precisava aprender a não ser tão
intrometida.
– Você devia ter batido nele.
– Claro, com toda a minha força de semivegan magricela, eu sei que
podia acabar com a raça dele, se ele não fosse você.
Não podia suportar a raiva que sentia. Quanto mais ela me falava
daquele gastador hipócrita, mais eu desejava nunca ter nascido.
– No caminho de volta, ele ficou enraivecido e comprou 50 mil
calêndulas e as distribuiu naquele cemitério perto daqui. É claro, foi um gasto
excessivo, foi totalmente supérfluo, impulsivo e maluco, mas ficou tão lindo...

07/10

Incrível!
21h00!
Isso mesmo: 21 horas!
86

E eu ainda era eu!


Todos os meus problemas ridículos deixariam de ser ridículos, ao
menos durante aquela noite.
Claro que eu preferia, acaso tivesse algum controle sobre minha
maldita vida e pudesse escolher, preferia mesmo que meus problemas
deixassem de ser problemas, mas sabia que não estava em condições de
reivindicar.
Sorte! Depois de tanto azar, isso explicaria alguma coisa.
Mas, nem tudo era alegria. Três dias inteiros sem ver Lissa e já tinha
passado e repetido todos os estágios da loucura. Precisava revê-la e reavê-la.
Bob não tinha sido dotado do mesmo grau de bom senso que eu, então
era óbvio que ele não percebia sua inferioridade tanto em relação a mim quanto
com relação a Lissa. O que eu não entendia (ora bolas, mais essa!) era como
ela, minha deusa perdida e perdidiça, como ela não percebia que era ele que
não a merecia. Precisava fazê-la perceber.
Um erro.
Erro dela. Eu jamais erro, não sou tão humano assim.
Eu poderia tê-la tratado "melhor"? Não se eu quisesse continuar a ser
eu, mas ela parecia querer que fosse assim.
Se ele podia me controlar, então talvez, com algum esforço, eu pudesse
controlá-lo. Lissa merecia que eu fizesse um sacrifício por ela. Se era a ele que
ela pensava amar, então eu seria ele, ao menos até que ela percebesse a farsa.
Não, Bob, o irresistível não deixaria que ela percebesse a diferença, mas a
ajudaria a notar a semelhança.
Sabia que ele tinha marcado um encontro com ela naquela noite, podia
ver isso em meus olhos, e ela chegaria a qualquer momento. Tudo o que eu
precisava fazer era estar pronto quando Lissinha chegasse. No entanto, a
simples tarefa que outrora eu teria tirado de letra se tornara um tanto
irrealizável. Ter sido traído por mim mesmo deve ter significado um baque
forte demais até mesmo para mim, pois nada do que eu vestia parecia me dar o
que me faltava no momento.
Pela primeira vez na vida eu me questionava se estava desejável o
suficiente. A imagem no espelho evidenciava que, com sempre, a resposta era
sim, mas isso em nada me acalmava. Lissa me amaria mesmo que eu não fosse
assim quase como um deus greco-romano, mas isso não queria dizer que eu
poderia relaxar.
– Bob, já está pronto?
Quando foi que a sorrateira entrou?
– Já vou, querida.
87

Saí do quarto e lá estava ela, com um lindo vestido azul justíssimo.


Pelo visual, tinham marcado de ir à uma opereta...
– Amor, tem certeza de que quer ir à abertura daquela exposição chata
do Duchamp?
– AHNNN???
Duchamp! Mas era só esta desgraça a que me faltava!
Surpreendente, abominavelmente surpreendente!
Duchamp! Onde já se viu? Ou melhor, onde não se viu?
Por que diabo não combinaram de ir encher a cara num bar qualquer ou
simplesmente andar alegres pelas ruas alegres, a chutar as lixeiras para o alto?
Não, não: precisavam comparecer a uma festa chinfrim num museu decadente
o suficiente a ponto de expor as obras de um charlatão.
Lissa continuava a me fitar como se eu fosse Bob, então eu precisava
agir como tal.
– Estou tão ansioso, Lissinha fofinha!

08/10

Andei descobrindo inúmeras coisas abomináveis sobre Bob que me


aterrorizaram ainda mais. Por exemplo, na última vez em ele e Lissa saímos,
ela me disse que já tinha pensado no assunto e que sentia muito me
decepcionar, mas que não poderia jamais me acompanhar à festa de swing à
qual eu a tinha convidado!
Ora, ora, pensei eu.... Esse Bobalhão está tentando perder a minha
garota ou o que? Como pôde pensar em dividi-la com um bando de depravados
que também parecem estar loucos para se livrarem de suas respectivas
mulheres? Como???
Ah, tudo o que eu queria era me livrar dele! isso já me traria uma
sensação ilusória de paz ainda mais ilusória, mas para um cara como eu, que se
contenta com muito pouco, isso já seria mais do que o suficiente. Não aceitaria
de jeito nenhum dividir minha gata com um bando de marmanjos, não aceito
dividi-la nem comigo mesmo.
Sorte ela não ter aceitado, pois eu não saberia que espécie de pretexto
se usa quando não queremos comparecer a um lugar ao qual jamais quisemos
ir, mas que fingíamos querer.
Ah, como se precisasse, descobri mais essa: Bob, o filho de uma égua
desgramada, tinha torrado, apenas no último mês, quatro vezes mais do que eu
88

já gastara durante toda a minha vida! Puxa, naquele ritmo, eu estaria


mendigando antes mesmo que pudesse aprender a entonação mais corta-pulsos
de dizer "Dá um troco aí, tio".
A grana preta que meus doces genitores tinham me deixado me
garantiria uma mais que confortável situação financeira durante toda a minha
existência, mesmo que eu vivesse até os quatrocentos anos, mas com a
atrapalhação do sr. Beverly Hills, eu não viveria mais nem um ano.
Felizmente ou infelizmente, ainda não sabia, havia uma esperança:
Elissa. Precisava pedir a ela que freasse aquela mula gastadeira, que lhe
explicasse de modo que ele entendesse (missão impossível?) que meu dinheiro
não estava à disposição dele, ainda mais se ele continuasse a bancar o pseudo-
intelectual duchampianesco.
Tão logo a vi (ela se personificou para mim, sem que eu precisasse
fingir ser Bob) fui logo lhe perguntando em que lixeira ele tinha jogado meus
quase 600 mil lits.
– Ele comprou um Porsche 911.
– COMO?????
– Não pude evitar.
– Mas, Lissa, por que deixou que aquele cretino fizesse isso? Quer que
ele me leve à ruína?
– A culpa não foi minha. Eu não sabia que ele tinha comprado o carro,
só fiquei sabendo depois, quando ele foi me buscar no trabalho.
– Certo, vou me acalmar, vou me acalmar.
– Ainda podemos remediar isso.
– É, talvez sim... Onde está o carro?
– Não sei.
– Por que o filhote do demônio não o guardou na minha vaga?
– Pergunte a ele.
– Lissa, quando você o vir, quero que pegue o carro e o esconda num
estacionamento qualquer, onde Bob não saiba. Eu vou dar um jeito de vendê-lo.
– Você deveria convencê-lo a parar de gastar meu dinheiro.
– Vou tentar, mas ele é quase tão teimoso quanto você.
– Por favor, é preciso detê-lo o quanto antes.
– Eu vou te ajudar, Vol, mas por que se preocupar tanto? Não acha que
Bob é sábio o suficiente para aprender a usar o dinheiro de forma racional?
– Quantos litros você bebeu? Acha que eu tenho obrigação de sustentar
os vícios daquela Isabel Maturin reencarnada?
89

– Quis dizer que, depois que ele se acostumar ao fato de que tem grana,
seu deslumbramento vai passar e ele não verá mais graça em comprar um
monte de tralhas de que não precisa.
– Se tivesse sido apenas um deslize, eu poderia parar de bancar o
chiliquento, mas acontece que ele passou dos limites já várias vezes e
continuará a fazê-lo, disso eu tenho certeza.
– Você também passou dos limites, Vol.
– Eu???
– Você é como um obeso mórbido brigando com o médico por que ele
se recusa a fazer uma lipoaspiração em você, alegando com razão que no seu
caso seria uma operação supérflua. Não está agindo racionalmente.
– Eu sou a pessoa mais racional que já pisou nesta terra ingrata. Sei que
para tratar minha doença é preciso, em primeiro lugar, uma cirurgia de redução
de estômago, seguida de uma dieta horrível e de exercícios físicos horríveis
pelo resto da minha horrível vida!
– E isso seria...?
– Ele é o obeso, é ele que se empanturra mais do que portador da
Síndrome de Pradder-Willi ao fugir do spa.
– Eu sei que ele não parece tomar decisões inteligentes, mas...
– Ele nunca tomou uma decisão inteligente em toda a sua curta
existência. Como pode falar em inteligência com um retardado que
provavelmente acredita em vida fora do planeta?
– Na verdade, ele não acredita que exista algum ser pluricelular fora da
Terra, ou seja, ele não acredita que vida inteligente possa desenvolver-se em
outros planetas. Quando muito, apenas seres microscópicos primitivos...
– Pare! Não me fale mais sobre esse traste estúpido! Você já percebeu
como os gostos dele são execráveis? Como seu raciocínio é falho? Como pode
ter demorado tanto a fazê-lo? Você deve ter sido vítima de macumba ou de
algum outro feitiço, passa mais tempo com ele do que comigo. Já pensou sobre
isso? Como pode suportá-lo? Como pode não sentir a minha falta? Aliás, como
foi que encontrou tempo na sua agenda cheia para vir me ver agora?
– Vim porque pensei que teríamos uma conversa decente, e que eu não
precisaria ouvir esse monte de acusações infelizes, mas já estou indo.
– Elissa, por favor, fique. Não posso ficar sem você agora. Se aquele
imbecil voltar, tenho medo do que farei com ele.
– Não vá tentar matá-lo.
– Mas é certo que eu ficaria bem melhor sem ele.
– Mas eu não. Eu vou ficar, mas o que você espera que eu faça se ele
surgir?
90

– Quero que fale com ele e enfie umas boas doses de juízo por seus
ouvidos.
– Acha que eu consigo?

10/10

Abro os olhos, sinto dor. Fecho-os, sinto mais dor... A cabeça


esmagada, as pálpebras ainda pesadas, a respiração difícil.
Avisto Lissa sentada a um canto, lendo uma revista qualquer com a
devida atenção que aquela leitura merece.
– Ah... – jogando a revisteca de lado, aproximando-se da minha maca
– Você acordou.
– Por que estou num hospital?
– Bob sofreu um acidente.
– Fui eu que bati nele? Ou bati em mim?
– Não. Nenhuma das duas opções. Foi um acidente de carro.
– COM O MEU CARRO???
– Calma, não adianta nada ficar bravo agora.
– ELE ESPATIFA MEU CARRO E MINHA CABEÇA E VOCÊ
ESPERA QUE EU MANTENHA A CALMA?
– Você precisa urgentemente de muito ácido fólico. Vou falar para
incluírem cogumelos no seu jantar.
– Não é hora para contar piadas, muito menos para uma revanche!
Quero ver meu carro.
– Perda total. Foi difícil até para mim vê-lo daquele jeito, sei que você
não suportaria. Eu sinto tanto, Vol.
Inutilmente comecei a chorar. Paguei por um Porsche incrível que nem
cheguei a ver. Meia hora depois, abraçado a Lissa, pedi a ela que me contasse
como tudo tinha ocorrido.
– Estávamos na sua casa, vendo um filme, mas acho que até aí você se
lembra.
– Claro, o filme era "Curdled"6, um argumento muito pouco inspirado.
– Isso mesmo. Depois que o filme acabou, você cochilou e, quando
acordou, vi que não era mais você.
– Bob!
– Ele disse que não aguentaria passar a noite toda sem fazer nada e
perguntou se eu queria ir com ele assistir a uma luta livre. Eu disse que não
91

estava com disposição, mas ele falou que tudo bem, que iria sozinho. Como eu
precisava ficar de olho nele, fingi ter mudado de idéia e fui junto. Eu insisti em
que ele me deixasse dirigir, tentei convencê-lo a ir de trem, que é bem menos
poluente, mas ele não quis saber, que não ligava a mínima para o meio
ambiente. Foi então que eu percebi que tipo de monstro ele era.
– Finalmente!
– Encurtando a estória, ele pisou fundo e, antes que eu percebesse, já
estávamos a mais de duzentos por hora. De repente, poucos minutos depois,
batemos contra um carro temático carnavalesco. Eu só saí do acidente ilesa
porque pulei para fora do carro pouco antes que batesse. Bob também pulou,
mas se machucou mais gravemente.
– Esse desmiolado excrementoso é alguma espécie de homicida?
– Não... Ele apenas perdeu o controle.
– Não só do carro, pelo visto. Ele poderia ter matado você.
– Poderia mesmo, dirigindo daquele jeito.
– Afinal, ele não teve tempo para tirar a habilitação, teve?
– Não... Ele tem usado a sua e por isso você está suspenso até que
refaça todos os testes de trânsito.
– Não! Diga que isso não está acontecendo.
– Veja pelo lado bom: você é ótimo motorista, vai conseguir sua
habilitação de volta antes que comece a sentir falta. E ainda bem que o carro foi
pago à vista, assim você não tem que se preocupar com as mensalidades ou
com os juros.
– O que eu vou fazer, Lissa? Não consigo me livrar desse estorvo.
– Infelizmente eu também não. Queria estar num desenho animado para
poder arremessá-lo por um canhão, assim não precisaria vê-lo nunca mais.
– Mas se fosse um desenho animado, seria capaz que você o
encontrasse em casa quando voltasse.
– Mas eu poderia ainda chutá-lo de lá e, mesmo que ele voltasse, teria
aprendido uma lição.
– Fora esse, algum outro plano?
– Nenhum.
– Seria melhor para todos que eu morresse de uma vez, assim o levaria
comigo.
– Mas eu ficaria sem você... Não poderia nem mesmo aproveitar a
ausência do Bob. Foi preciso que eu saísse várias vezes com um perfeito idiota
para que percebesse que você é meu humano favorito e que provavelmente
sempre será.
– Você desmanchou o noivado?
92

– Tão logo o encontre, falarei sobre isso. Não posso aceitar o fato de
que ele não se preocupa com as gerações vindouras.
Ao menos uma coisa boa tinha surgido em meio àquele poço profundo
de desgraças.

10/10

– Quando você acha que aconteceu?


– Antes das seis. Isso é certo.
– Uma pena não termos conseguido impedir isso...
– Tanta gente carbonizada, tanto dinheiro desperdiçado...
– Sempre detestei bombeiros.
– Eles não teriam vindo mesmo que os tivéssemos chamado quando
ainda havia tempo.
– Teriam vindo, sim, mas nesse caso a cura seria pior do que a doença.
– E a culpa é deles?
– Não simplifique tudo.
– Teve um cara que ligou para a emergência pedindo que o ajudassem a
apagar o incêndio na sua plantação de maconha.
– Sei, sei... Concorrente seu no concurso de idiotices?
– Não, eu jamais me candidataria, sei que ninguém pode lhe roubar os
títulos de campeão.
– Quem poderia prever isso?
– Que diferença faz? É o nosso fim, camaradinha!
– Não é o nosso fim, é apenas um contratempo. Poderia ter acontecido
a qualquer um.
– E tinha de ser com a gente.
– Temos sido bons garotos, não?
– Desde que me lembro.
– Merecemos isso?
– Que pergunta!
– Então por que devemos entregar os pontos? Por que devemos
fraquejar? Reconstruir essa porcaria velha é mais fácil e barato do que parece.
Vamos usar as nossas poucas economias.
– E quanto à mercadoria?
– Está preocupado com isso? Parece que é você que tem uma mente
pequena... A gente arranja mais, tem tanto disso por aí.
93

– Não é você que vai ter de trabalhar dobrado...


– Eu vou te ajudar com as pesquisas.
– Não é bem isso o que me preocupa. Tem muita gente por aí, gente
demais, mas poucas pessoas preenchem os requisitos.
– Vamos pegar mais leve e os clientes que tratem de se adaptar. Vamos
avisar, a quem interessar, que faremos mudanças temporárias, só até nos
restabelecermos.
– É estranho, mas você tem razão. Nossa causa é nobre. Desgraçamos a
vida de uns poucos para salvar a de vários. Quem, hoje em dia, pode se gabar
de fazer algo assim?
– Quase ninguém. A maioria gasta suas vidas inteiras em trabalhos
burocráticos nojentos e ainda pensa que é útil.
– Palhaços!
– Não somos como eles.
– Somos abençoados.

11/10

Sentia-me estranhamente bem, mesmo após o terrível acidente que


Lissa descreveu. Sentia-me inteiro, apenas com inconvenientes dores na coluna
e na cabeça, se bem que eu deveria me sentir mais estranho se as dores não
fossem inconvenientes.
Não cheguei a ver o lindo Porsche, que aquele maldito desmiolado
comprou com o meu dinheiro, ainda não sei como farei para me vingar dele.
Não seria esse um grande problema se ele não fosse eu, mas a questão é bem
mais complicada.
Minha recuperação foi tão boa e rápida que fiquei apenas um dia
hospitalizado, nada mais que isso, o que foi um tremendo alívio, pois ao menos
em um aspecto eu sou como qualquer outro: também detesto hospitais. A
maioria das pessoas odeia o cheiro; outras têm medo das infecções; outras
ainda não suportam presenciar o sofrimento alheio, mas eu odeio hospitais por
uma razão distinta: não suporto o modo como os médicos agem.
Sempre se achando os reis do pedaço, sempre usando um tom
irritantemente professoral e supra articulado apenas para nos explicar como
somos culpados por estarmos doentes e os mil cuidados que devemos tomar
para evitar que fiquemos ainda mais doentes.
94

Isso sem mencionar o abominável costume que as enfermeiras têm de


sempre arrancar NOSSAS roupas do NOSSO corpo sem a NOSSA permissão.
Provavelmente elas não o fazem por mal, é para o nosso bem... Creio que é
algo que elas aprendem já na primeira aula. "Olá, vejo que você acaba de ser
atropelado, mas não se preocupe com nada, vamos te deixar nu em pêlo e você
logo melhorará."
Ora, desconfio que minha ignorância seja estratosférica, pois mesmo
que me explicassem como se eu tivesse um ano de idade, ainda assim eu não
entenderia como o fato de passar dias usando apenas aquela camisola fina e que
tem o incrível poder de permitir que nosso traseiro respire livremente pode
ajudar a curar fraturas e a cicatrizar feridas do tamanho de melancias.
Claro que poderíamos considerar a vida boa demais se este fosse o
único inconveniente de se estar internado, mas ninguém gostaria de tornar as
coisas fáceis demais para nós, não é mesmo? A maioria dos médicos se
empenha tanto em ser o mais insuportável que pode que eu chego a me
espantar ao imaginar como conseguem arranjar tempo para clinicar.
São insuportáveis ao nos receber ("Oh, sim, vejamos esta verruga
horrorosa..."); são insuportáveis ao nos examinar ("Não vou mentir para você,
isso não está nada bom"); são insuportáveis ao nos dar boas e más notícias
("Creio que teremos de operá-lo imediatamente. Enfermeira, por que meu café
está demorando tanto?"); são insuportáveis ao nos despachar ("Veja se não vai
arranjar outro meningococo, está muito em moda agora"); são insuportáveis ao
serem insuportáveis!
São absolutamente inautênticos, inacreditavelmente autólatras e
horrorosamente imutáveis! Ah, como odeio médicos!
E quanto àqueles que pensam ser engraçados e que ficam rindo das
próprias piadas? "Nossa, que cara a sua! Parece até que está doente,
huahuahua!"
Tsc, esse mal da desengraçatês (tirei essa do vocabulário de um deles)
ataca especialmente os psiquiatras, neurocirurgiões, dermatologistas,
oftalmologistas e clínicos gerais. Constatei isso durante o curto e longo período
que fiquei no hospital. Aliás, o fato de estar em tão boas companhias e ainda
assim conseguir se curar do que quer que sofra me intriga mais do que saber
que existem pessoas que precisam de dieta de engorda. Não, não, não, é
impossível me fazer acreditar nisso, não seja louco o bastante para tentar.
Ah, sortudos seríamos todos nós se tivéssemos que lidar apenas com os
doutores metidos a Mr. Beam... Geralmente ainda somos obrigados a nos
"tratar" com seres que fumam quantidades heróicas de cigarros ao mesmo
95

tempo em que nos avisam que "o cigarro contém mais de 4.700 substâncias
químicas, muitas delas cancerígenas".
Isso sem mencionar os deprimentíssimos psicanalistas que sempre nos
dizem as mesmas baboseiras que nossos amigos nos repetem há anos e,
psicóticos arquiloucos que são, ainda pensam que os levamos a sério. Pior
ainda são alguns cardiologistas que parecem saídos de um filme de horror para
adolescentes (os filmes de verão, brrr...), falando com aquela entonação de
trovão, nos assustando a cada vogal expelida. "Seu hipertenso suicida idiota,
vou te matar se não ficar longe desse saleiro assassino!" Aaargh!
Sabendo de tudo isso, Lissa foi me salvar, argumentando que apesar da
pseudo gravidade do acidente, não tinha sido assim tão assustador quanto os
incautos julgavam. Claro que os excelentes resultados de meus exames fizeram
bem sua parte, mas não devo desvalorizar o trabalho elissianesco.
Já em casa eu conseguia e não conseguia pensar em outra coisa que não
fosse um plano de vingança contra minha cópia abobada. Não poderia obrigá-lo
a trabalhar para me pagar o carro, pois duvido que ele conseguisse um
emprego; além do mais, ele jamais aceitaria isso; e além do além do mais,
nenhum trabalho decente lhe renderia tanto dinheiro durante o pouco tempo
que me restava de subvida. E, além do além do além do mais: obrigá-lo a se
esfolar de trabalhar, tal como qualquer ser humano normal o faz durante toda a
vida, seria para mim uma tortura do pior tipo, pois não posso me esquecer
sobre quem estamos falando.
Obrigá-lo a fazer uso de meios ilícitos para reaver minha grana estava
igualmente fora de cogitação, pois se as coisas fugissem ao controle (e tudo
parece sempre fugir ao controle de Bob), sei que eu mofaria no xadrez até que
mofasse de verdade. Sendo assim, concluí que não havia meios de fazê-lo
pagar sem que isso me prejudicasse também, e que o único jeito de me acalmar
seria pelo caminho árduo do esquecimento, que talvez me levasse à Terra da
Resignação.

11/10

– Mas e o resto?
– Depois.
– Pensei que o combinado tinha sido a metade agora e a outra metade
ao final.
– Tem certeza? Isso não ficou registrado na minha memória.
– E se eu lhe fizer lembrar?
96

– Talvez assim eu me lembrasse, mas lembre-se de que não pode me


manipular.
– Não preciso e não quero.
– Mas precisa de mim.
– E você precisa mais de mim.
– Por pouco tempo. Sabe, é mesmo uma pena.
– O que?
– Que você seja assim.
– Não exagere.
– Não preciso. Você é igual a todos.
– Eu? Não deveria me insultar se ainda precisa dos meus serviços.
– Acontece que você também precisa dos meus, como disse há menos
de cinco minutos.
– Não preciso, só o faço por comodidade.
– Antes de decidir transformar-se num estorvo, saiba que eu também
posso esquecer que tenho escrúpulos. Para isso, basta que alguém tente me
passar para trás.
– Essa deveria ser uma conversa amigável.
– Finalmente entramos num acordo.

12/10

– Minha bela, eu sei que a gente podia ter se machucado, mas isso não
aconteceu. E sabe por que? Porque eu sempre tenho tudo sob controle. Além do
mais, foi tão divertido, não foi?
– NÃO! NÃO FOI NADA DIVERTIDO!
– Ei, fale baixo, as pessoas estão olhando.
– E você se importa? Muitas pessoas olharam quando você bateu com o
carro do Vol!
– E daí? Um pouquinho só de exibicionismo nunca me igualará a esse
babaca.
– Não gostei da sua reação.
– Eu não poderia ter feito outra coisa.
– Poderia ter ficado comigo até o fim. Confiança, minha linda,
confiança.
– Jamais confiaria em você.
– Então como vamos manter um relacionamento?
97

– Não vamos.
– Ah, sai dessa!
– Por isso eu vim aqui, para desmanchar o noivado.
– Mas por que, meu amor? Foi por causa do acidente? Não, você não
pode ir agora, eu ainda preciso lhe explicar como as pessoas normais costumam
agir. Geralmente quando se rompe uma relação, você fica devendo uma
explicação razoável, chorosa e detalhada à outra pessoa.
– É que é tão óbvio.
– Não é tanto assim, senão eu saberia, sou fantasticamente inteligente.
– Não o suficiente para mim.
– Se não me acha grande coisa, por que é louca por mim?
– Nunca te amei... Mas achei que poderia vir a te amar se eu me
empenhasse, se você fosse uma pessoa mais fácil de lidar, mas vejo que não
vale a pena aceitar certas coisas.
– Aceitar certas coisas como viver?
– Uma vida falsamente perigosa não vai te dar um diploma de coolzice.
– Como espera que eu acredite nessa baboseira?
– E por que outro motivo acha que eu me separaria de você?
– Não me pergunte, essa pergunta não tem resposta.
– Você é patético e me pergunto como pude levar tanto tempo para
perceber isso. Uma semana é demais!
– Certo, agora sou eu que não quero mais você.

12/10 - Mais tarde

– Dá para abrir logo essa porta ou ainda continua emperrada como no


último mês?
– Não... A porta está legal.
– E o que foi então?
– É que eu desenvolvi uma certa fobia de elefantes depois que meu
sobrinho foi atacado por umas crianças que atiraram nele um pedaço de bolo
enfeitado de elefante.
– Ahn? O que isso tem a ver?
– É difícil dizer...
– Me deixe entrar.
– Entre.
– Continua uma bagunça esse lugar, hein...
98

– É.
– Por que não o arruma?
– Porque não costumo arrumar a bagunça alheia.
– Hmm...?
– Não por uma questão de orgulho, mas é que é quase impossível.
– Essa bagunça foi você que fez, é você que mora aqui, então a
bagunça é sua e de mais ninguém e você é responsável por ela.
– Obrigado por explicar tão bem.
– Mostre seu agradecimento limpando tudo e me pagando o aluguel
agora.
– É que...
– Não tem o dinheiro ainda? Olha, eu já te disse que não vou mais
esperar. Seus cinco prazos já se esgotaram e eu vou te jogar na rua com as suas
tralhas antes mesmo que você possa me enrolar com alguma estória de quando
você tinha cinco anos.
– O senhor não estava prestando atenção. A estória era sobre o meu
sobrinho, não sobre mim.
– Não quero saber! Arrume já suas coisas.
– Mas o JJ me disse que ninguém iria me interromper aqui...
– Pare de se referir a si mesmo na terceira pessoa ou vai acabar saindo
daqui sem a sua bagunça.
– Mas é disso que estou falando. Essa não é a minha bagunça, porque
eu não sou o JJ.
– Seu palhaço! Agora já chega!
– Não, não estou tentando fazê-lo de bobo. Eu não sou mesmo o JJ,
meu nome é Stan, irmão dele.
– Mas é tão parecido.
– Somos gêmeos.
– Mas, afinal, cadê o JJ?
– Ele não está.
– Então por que você está na casa dele?
– Ele me deixou ficar enquanto viaja.
– E para onde ele foi?
– Não me disse. Falou-me apenas que faria uma viagem a trabalho.
– Para viajar a trabalho é preciso antes arranjar um trabalho. Diga isso
a ele.
– Sim, claro, contanto que o senhor me repita tudo bem devagar. Não
tive tempo de anotar ainda.
– Está me zoando?
99

– Mas que idéia!


– Mas você tem certeza de que não é ele?
– O que eu posso fazer para convencê-lo de que eu sou eu?
– Nada.
– Seu desejo é um desejo que faço questão de realizar.
– Mas a semelhança é gigantesca!
– A vida é assim mesmo, gigantemente esquisita. A ciência geralmente
explica o que não é explicável pelo simples e feliz acaso, que no momento já
não me parece mais tão feliz assim.
– Malcriado...
– Ei, pensa que o que está dizendo é inédito?
– Foi o que eu disse.
– Já matei a sua curiosidade. Boa noite, então.
– Eu vou, mas diga a ele, ao JJ, que preciso do dinheiro do aluguel até a
semana que vem.
– Mas eu acho que ele não vai voltar assim tão depressa, não.
– É sua última chance ou vou te jogar para fora sem piedade.

13/10

– Sabe, eu não me importo de perder às vezes. Você comprovou minha


teoria de que na maior parte das vezes quem está errado ganha a discussão.
– Não seja tão chato. Devia estar preocupado com os nossos negócios.
– E para que? Para perder os cabelos, como um certo camarada que eu
conheço?
– Algumas mulheres acham isso muito charmoso.
– Não se deixe enganar, meu caro. As mulheres não estão à caça de
caras charmosos, só de caras ricos.
– Tenho uma notícia que vai arrasar de vez com seu bom humor,
molequinho insolente. O cara do fígado desistiu da compra.
– O que? Depois de toda aquela embromação?
– E o pior de tudo é que ele não foi o único. Não notou que os clientes
têm minguado a cada dia?
– Como poderia não notar? Na semana passada, tive de deixar meu
apartamento. Agora estou na casa da minha mãe.
– Que tristeza, amiguinho! Não guardou nenhum?
– Não.
100

– Devia ter pensado no futuro.


– Eu pensei, e justamente por isso estou nessa situação. Via meu
futuro, e era brilhante.
– Acho que você se esqueceu de se dedicar à manutenção da sua bola
de cristal.
– Não sei o que eu vou fazer se a situação não melhorar. Estou cheio de
dívidas.
– Talvez precise tomar outro rumo. Já considerou a hipótese?
– Outro rumo? Esse é o único caminho que eu conheço.
– Volta para a TV, Bob.
Isso é um improviso? Você esqueceu sua fala?

17/10

– Acha que vai dar certo?


– Se eu não tivesse certeza disso, acha que eu teria te enfiado nessa?
– Lógico.
– Não me conhece mesmo.
– Não me culpe, não tive tempo.
– Mas terá.
– Espero que sim, mas... Acha que ele fará o que planejou?
– Ele é o Vol.
– Droga!
– Por que se incomoda? Você mal o conhece.
– É, mas... Você sabe. Passei a vida toda fingindo ter um sósia que
resolvesse alguns dos meus problemas e justamente agora que estou tão perto
de ter um de verdade, ele vem com essa estória de que precisa desaparecer.
– Eu sei, é difícil aceitar mesmo para quem o conhece há mais tempo.
É terrível. Não sei como ele pode querer me deixar. Acho que eu aceitaria
melhor se isso acontecesse daqui a uns trinta anos, mas se o perder tão cedo
como ele planeja, aí eu sei que vou sucumbir.
– Não diga isso. Certas situações, mesmo as mais desagradáveis e
dolorosas, como essa, geralmente parecem tão assustadoras que acabamos
construindo uma certeza errônea de que não saberemos lidar com elas.
Finalmente quando acontecem, percebemos que não era tão difícil quanto
imaginávamos.
– Essa teoria é contestável.
101

– Mas isso importa?


– Não nesse instante. Sabe quem você me lembra?
– Sei sim.
E não é só na aparência. Isso parece coisa dele.

13/10

Não havia mesmo muito a fazer a partir de então. Eu estava


irremediavelmente quebrado; oficialmente, depois de ter ido ao banco e
comprovado que Bob, o playboy instantâneo, tinha roubado o que ainda restava
– o que era muito, acredite. Não sabia ainda se ele tinha gastado todo o
dinheiro, me deixando completamente falido, mas sabia que logo arranjaria um
jeito de me vingar. Mas, por enquanto, eu era apenas um rapaz
absolutabominavelmente arruinado, financeiramente falido...
Eu sei, uma redundância inaceitável, mas é que os pensamentos a
respeito de como resolver a minha degradante situação eram também
redundantes.
Não fosse a ajuda psicológica e financeira de Lissa eu estaria afundado
em garrafas e vômito, embebido em álcool e açoitado por uma depressão
infinita. Ah, ela é mesmo incrível. Tão dedicada a mim, sempre me fazendo
pequenas surpresas para ajudar a levantar o meu moral. Não sei de onde ela tira
tanta força, tanto tempo e tanta vontade para se dedicar a mim de forma tão
desmedida e desinteressada.
Sempre a considerei como meu bote salva-vidas, mas é como se o
modesto bote tivesse sido, o tempo todo, um tremendo iate dos mais luxuosos e
luxuriantes. Incrível descobrir, só então, que ela sempre tinha sido aquilo que
eu sempre quisera que ela fosse.
Atacado por minha abrupta condição de extrema pobreza, mesmo sem
ainda ter sofrido seus horrores infernosos, livrei-me da cegueira cortical que me
havia acompanhado durante toda a minha existência. Claro que, de uma forma
ou de outra algo assim acabaria acontecendo. Eu sabia que não precisava passar
por tantas provações para perceber a essencialidade de Lissa, mas ainda assim
era revigorante a sensação de enxergar de fato.
Se, por um lado, era muito bom saber que ela se preocupava comigo a
ponto de passar a trabalhar durante apenas meio período, por outro eu me sentia
exatamente como um humano comum: me sentia culpado. Claro que eu sabia
que não era culpa minha tudo o que me acontecera, mas tampouco era de Lissa.
102

E, ainda assim, ela se preocupava comigo.


Seu estilo quase maternal a tornava ainda mais doce, transbordante de
uma meiguice que remetia à das princesas de contos de fadas. Mesmo com
isso, ela era real e realista, ao contrário de tantas outras que passam a primeira
metade de suas vidas patéticas sendo ultra idealistas e, só quando finalmente
passam a sentir na pele as dores e infortúnios do mundo, é só então que elas
colocam seus feiosos pés no chão e encaram os funestíssimos fatos.
Mas Lissa jamais fora assim. Ela já tinha nascido com os dois pés no
chão e o mais inacreditável: sem perder a grandeza de sua alma.
Eu sei, tanto faz, mas para mim... Ora, isso tem real importância.
Se ela não fosse assim, tão perfeita, bem mais que o extranatural, de
nada adiantaria se dedicar tanto quanto ou mais, eu não a consideraria mais do
que qualquer outra, ela jamais teria significado nada para mim.
Mas, eu não devia estar falando tudo isso...
Devia sim, mas devia estar dizendo a ela.

14/10

– Então eu não irei à bancarrota?!


– Claro que não, Vol. Bob existe de verdade, as contas eram todas
falsas.
– Então eu posso me vingar do desgramado.
– Não... Você não vai querer fazer isso quando souber toda a verdade.
– Mas todas as contas eram mesmo falsas?
– Todas.
– Todas?
– Eu já não falei?
– Então eu não estou pobre?
– Não. Sua fortuna continua intocada.
– E o Porsche? E as flores?
– Bob jamais comprou carro algum. Você acreditou cegamente em
mim, nem quis ver o cemitério quando eu lhe falei das flores. Devo admitir que
me senti lisonjeada.
– Se você não fosse tão maravilhosa, não sei o que eu faria com você.
– E também não houve acidente.
– Não?
103

– Eu forjei sua internação subornando o diretor do hospital. Essa parte


não foi nada fácil ou barata.
– Mas, e quanto às dores terrificantes que eu senti?
– Hmm...
– Fala, Lissa.
– Isso eu não sei explicar-lhe. É estranhíssimo que você tenha sentido
tantas dores inexistentes.
– Mas... Como? Não, não, você não vai conseguir me convencer disso.
– Eu esperava que você ficasse tão grogue com o ópio que nem
desconfiasse do fato de não estar sentindo a dor que achava que tinha de sentir
após o acidente que você acreditava ter sofrido.
– Ópio! Então era por isso que eu me sentia bem, me sentia tranquilo
até demais, apesar de não conseguir me concentrar em nada do que tentava
fazer. E tinha tanto sono.
– Mas eu usei doses pequenas.
– Minha dor era psicológica?
– Sim... Não teria sido possível você sofrer os horrores da síndrome de
abstinência sem ter consumido grandes quantidades, do contrário, a explicação
seria essa.
– Não sei como foi que você não me disse isso antes.
– Estou dizendo agora.
– Devia ter me contado tudo isso antes.
– Nunca tinha visto você sendo tão dramático. Como vai tirar onda
comigo de agora em diante?
– Por que não me falou dele logo que o conheceu?
– Sabe que eu tinha planos mais elevados.
Silêncio.
Pois é... Depois de toda aquela patacoada, ela parecia não ter uma boa
explicação para mim.
– Você não esperava que eu desistisse do plano de treinar um meu
sucessor, não?
– Sabe que sim. Eu podia não acreditar, mas precisava tentar.
– Meu anjo, como pode não entender que o motivo por que eu me
empenhava tanto nesse plano era porque me preocupo em como você ficará
depois da minha morte.
– Ora, você fazia tudo aquilo por você. Queria alcançar a imortalidade
do jeito mais torto já posto à prova. E sabe que me sentirei muito pior quando
você se for.
104

– Não exagere. Você se sentirá triste durante algum tempo, um mês ou


dois, e depois você acabará percebendo que minha presença não é tão
necessária quanto você julgava, mesmo eu sendo uma pessoa tão singular.
– Custo a acreditar nisso. Além do mais, como eu poderei seguir em
frente tendo em meu encalço uma cópia perfeita de você?
– Pensei que seria melhor assim.
– De onde você tira essas idéias?
– Epa, depois. Agora você tem de responder às minhas perguntas.
Primeira: Como você fez tudo isso?
– Não foi tão simples quanto eu gostaria, mas não tão difícil quanto eu
imaginava. Comecei entupindo você de barbitúricos.
– Não bastava o ópio?
– Não sou de me contentar com pouco, você sabe.
– E por que então gosta tanto de mim?
– Porque se não gostasse, não teria feito o que fiz e nossas vidas
careceriam de condimentos.
– Aplaudirei ao final.
– Não sou uma pessoa ansiosa.
– Tampouco eu, mas continue.
– As drogas fizeram quase todo o trabalho.
– E quanto a Bob?
– Bob é, na verdade, JJ, Joseph Jay, e ele foi essencial nessa missão.
Ele aderiu ao meu plano logo que eu lhe contei. Tínhamos acabado de nos
conhecer, por acaso, durante a última convenção deligmista. Ele foi minha
única inspiração.
– Essa era a minha próxima pergunta.
– Logo que ele me apareceu, eu soube que o plano não tinha como dar
errado.
– Mas também não tinha como dar certo.
– Ao menos não foi um desastre total. E a culpa por isso foi toda sua.
– Minha? Mas por que será que eu não me sinto nem um pouquinho
culpado?
– Você não esperou na fila da empatia, não é mesmo? Estava tão
pequena que eu passei por ela duas vezes.
– Continue, sem mais embromações, por favor.
– Mas assim não vai ter graça... Bom, depois de me certificar de que
ele não era você, e sim um sósia tão perfeito quanto nos meus sonhos, eu
contei-lhe meu plano e ele aceitou logo de cara, como eu disse.
– Parece que não foi só a parte da drogas que foi fácil...
105

– E mesmo as partes difíceis foram bem divertidas.


– Não para mim. Você quase me enlouqueceu.
– Fiz tudo por você.
– Não sei se devo lhe agradecer.
– Enquanto você se decide, eu continuo a contar a estória. Logo eu e
Bob começamos a sair em público, para que conhecidos seus nos vissem
juntos.
– E comentassem sobre eu estar agindo de modo tão estranho.
– Deve ser mesmo muito estranho sair comigo.
– Algumas vezes é sim.
– Detalhes, Vol, detalhes. Como ele prestou atenção a todos os detalhes
e se empenhou bastante, logo você passou a acreditar que tinha mesmo "outro
você" morando na sua cabecinha.
– Ainda não acredito que caí nessa. Como conseguiu isso?
– É que eu sou fantástica.
– Tão fantástica que quase me obrigou a me internar num hospício.
– Estou certa de que uma temporada num lugar desses faria muito bem
a você.
– Os lapsos de tempo, a memória falha, além da hipersonia que você
provocou, os comentários enigmáticos de conhecidos meus tão confusos quanto
eu com as mudanças que não tinham ocorrido em mim... Tudo isso para que?
– Se eu não podia evitar que você morresse, ao menos o atrasaria.
– Mas, Lissa, eu tinha pressa. Você sabia disso, presenciou minha luta.
– Eu não tinha a menor pressa de perdê-lo.
– Nem eu a você, querida.
– Conversa fiada! Você tem me tratado como uma pateta qualquer
durante todo esse tempo em que tudo o que eu queria era ter você por perto.
Devia ter percebido que eu sempre quis a mesma coisa.

16/10

– Pare de chorar, por favor.


– Como eu poderia?
– Não entendi ainda por que a pressa.
– Então não ouviu o que eu falei. Eu disse que o Vol sumiu.
– Sumiu?
106

– Há dois dias que não o vejo. Não estava preocupada porque isso é
típico dele, mas há meia hora chegou essa carta. Foi escrita a mão, e nela o
desgraçado pede que eu pague o resgate
– E o papel é de má qualidade.
– Hmm... É, sim.
– Poucas palavras. Um sujeito sucinto.
– Nem imagina quanto.
– Então é só isso?
– E o que você esperava? Rosas vermelhas?
– Não devia ficar tão nervosa. O palhaço que fez isso, só está
interessado em dinheiro, não em machucar o Vol.
– Foi NC.
– Eu devia ter imaginado. Ele faria questão de receber o crédito pelo
serviço malfeito que vocês evitaram que ele realizasse.
– Mas ele acha que o Vol está falido... Como espera conseguir dinheiro
sequestrando alguém que está virtualmente duro?
– Pela carta, parece que ele espera que você pague do seu próprio
bolso.
– Eu farei isso com prazer, mas ainda me perturba o fato de NC ter
feito isso.
– Não, não deixarei que ninguém dê dinheiro a esse sequestradorzinho
de araque.
– Como não?
– Não será necessário. Mas é realmente perturbador. Ele poderia ter
sequestrado você... Sua família é rica, isso não é segredo para ninguém. O
dinheiro seria garantido...
– Não consigo formular nenhuma hipótese a esse respeito.
– Tampouco eu, que nem o conheço bem.
– Bob, isso é terrível! Vol deve estar morto a essa altura.
– Não, NC não faria uma idiotice tão grande. Sua mente pequena não
permitiria uma grande burrada, apenas uma pequenina.
– Mas eu me preocupo com a reação do Vol.
– Eu não. Ele tem uma idéia bem delineada de como quer deixar esse
mundo. O plano de deixar um substituto é a prova de que a obsessão dele não
permitiria que estragasse tudo por tão pouco.
– Não sei como você consegue me tranquilizar.
– Talvez porque você saiba que eu faria muito bem o trabalho dele.
– Nunca duvidei disso.
– E eu faria por um motivo muito mais nobre.
107

– Eu estou inclusa?
– Você é a estrela principal.
– Algum plano para salvar Vol?
– Só um. E é infalível.

17/10

Pensamentos enregelados recobertos pelo ar congelado.


A pergunta não é por quê, porque não há um porquê.
Será que o faria?
Não consegue parar de tremer, seus pêlos se arrepiam, seus olhos se
fecham, suas pernas já não obedecem, os ferimentos permanecem.
Abertas as feridas...
Poderia?
As lágrimas pousam sobre o abdome enrijecido, seu espírito não mais
se sustenta.
Pulsos e tornozelos acorrentados, arranhados.
A escuridão inebriante.
A goteira constante.
O cheiro de bolor.
E o frio e a fome.
Tudo isso só para mim!
Poderia mesmo?
Momentos como aquele me faziam pensar em como seria bom se todas
as decisões viessem acompanhadas de ações à altura.
Do que eu precisava? Muito mais do que desejo de vingança, coragem,
boa resistência física e de um bom plano, e só tinha, até o momento, o primeiro
item da lista.
– Como vai, prisioneiro?
– JJ!
– Eu mesmo, o único e verdadeiro. Consegue pôr os braços para frente?
– Não.
– Sem problema, mas vou levar mais tempo para cortar essa corrente.
– Como chegou aqui?
– Elissa me ajudou.
– Como sabia que eu estava aqui?
– Mesma resposta da pergunta anterior.
108

– Como ela sabia onde me encontrar?


– Ela te rastreou.
– Ela é ótima, não queria me perder de vista... Por isso eu amo aquela
lunática.
Antes que eu terminasse essa frase, JJ já tinha cortado ambas as
correntes e libertado de vez o único que tinha sido tapado o suficiente para se
deixar prender por alguém como NC.
– Cheguei na hora certa, não foi?
– Um pouco tarde, para ser sincero.
– Eu hein! Nunca o vi sendo sincero, Vol.
– Mais um poucos minutos nesse lugar e eu desataria a choramingar e a
gritar como uma menininha que teve a cabeça de sua Barbie arrancada. Mil
vezes obrigado, JJ.
– Calma, ainda não acabei. É hora da vingança.
– Contra mim? Mas não acha que eu já sofri o bastante para alguém
que não fez nada errado?
– É contra NC.
Apesar de me sentir quase que totalmente reestruturado, ainda estava
fraco como um pássaro ferido. A sede que sentia era de matar, precisava com
urgência de qualquer troço bebível, de um banho, de uma refeição ultracalórica
e da Lissa, nesta ordem. Ah, e claro, da vingança a que eu tinha direito, mas
isso vinha por último.
– Já tem um plano, não?
– Claro.
– E qual é a minha parte?
– Sentar-se e assistir.
– Mas então eu não serei o responsável por torturar o desgraçado que
me torturou?
– Isso mesmo. Descanse e observe.

17/10 Mais tarde

– Sua voz está diferente.


– Muitas coisas estão.
– Epa, espera aí. Você fez a barba? E como trocou de roupa?
– Do mesmo jeito que você.
– Como se soltou? E essa mochila aí, de onde saiu?
109

Como o diálogo não ia lá muito bem, resolvi parar de me esconder.


Já não continha as gargalhadas ao imaginar a expressão daquele infeliz
ao me ver em dobro.
– Vol?
– Eu sou Vol, ele é Bob.
– Mas... Bob não era o cara na sua cabeça?
– Eu pareço irreal?
– Então, vocês são gêmeos?
– Não, somos apenas parecidos.
– Sabiam disso? Fizeram tudo isso para me enganar.
– Não seja tão pretensioso, NC. Não teríamos tido tanto trabalho
apenas para confundi-lo. Essa é a tarefa mais fácil que já precisei realizar.
– Vocês são loucos.
– Espere para dizer isso quando eu terminar o que vim fazer.
Ao terminar de dizer a frase, Bob atacou NC de uma forma que eu não
julgava que um ser humano fosse capaz. Não acreditei no seu estilo de lutar,
solto e ao mesmo tempo firme, cambaleante e sóbrio. Em contrapartida, NC
não poderia lutar mais desastrosamente.
Bob parecia um leão feroz se vingando dos que atacaram seus filhotes.
Ele estava realizando tão bem minha vingança que não pude interferir, apesar
de sentir uma vontade inominável de devolver a NC o que ele tinha me dado.
Fiquei apenas assistindo e foi a luta mais divertida e interessante que já tinha
presenciado, incluindo as que eu tinha visto pela TV.
Ao término do semimassacre, NC estava irreconhecível, desmaiado no
chão. O modo como Bob o tinha amarrado, de cabeça para baixo, dependurado
num gancho, ajudava a torná-lo ainda mais digno de pena do que
anteriormente.
Sentando-se ao meu lado, ainda ofegante, Bob comentou:
– Não sei, mas nada disso me parece o suficiente.
Entendi de imediato o que ele queria dizer.
– Mas ainda assim é muito mais do que muitos já realizaram.
– Nada mal, Vol.
– Esse sou eu. Nada mal.
– A essa altura a polícia já está a caminho.
– Você não chamou os tiras antes porque queria se vingar.
– Claro. Nossa, você se parece mesmo comigo, camarada.
– Ou será que é você quem se parece comigo?
– Acho que ele nem consegue falar.
– É um alívio.
110

– E assim terá mais dificuldade em dar queixa da gente.


– Essa era a intenção.
– Sabe, eu gostaria de ser você.
– Eu também gostaria de ser você.
– Ora, o que o impede?
– Vai me treinar?
– E para que? Você nem precisa.
– Legal! Mas, vamos andando. Não queremos que nos encontrem aqui
quando chegarem.

20/10

– Mas sei que nunca mais me sentirei bem.


– Ora, que diferença isso fará?
– Nenhuma, você sabe. Mas, ainda assim, sei que me sentirei bem pior
do que tenho me sentido.
– Ah, Vol, o que seria de mim se você não visse tudo pelo lado trágico?
– Você seria menos infeliz... Ao menos teoricamente.
– Minha aposta é outra. Você não consegue entender a si mesmo, mas
eu o entendo.
– Vou me lembrar de construir uma estátua em sua homenagem por
causa disso.
– Eu também vou construir uma para você. Embaixo vou escrever:
"Nascido para morrer".
– Como queira.
– Você não devia reclamar tanto.
– Eu só estou reclamando porque me sinto no direito de fazê-lo.
– Claro, afinal, para que servem os amigos se não for para ouvir as
nossas reclamações?
– Sua definições são boas, receio que jamais serei assim.
– Bom?
– Não, isso eu sei que eu sou, desde que pisei nesse mundo insosso.
– Ahn...
– Sabe, talvez eu tenha feito isso para testá-la.
– Ao menos não sou a única...
– Ah, justo quando encontro o meu sucedâneo perfeito, uma desgraça
como essa acontece.
111

– Acha que ele era indicado só porque se parecia física e mentalmente


com você?
– Lissa, você está bem?
– Foi uma tentativa de piada, Vol.
– Ah, sim, neste caso, eu vou rir mais tarde.
Como seria a vida dali em diante? Como viveria sem ele?
Eu sabia como seria...
Seria como viver sem mim?

***
112

NOTAS

1 - Lit é a moeda oficial da Ilha de Litosferius, onde Vol reside. Cada lit
equivale a R$1,35.

2 - Deligma (Delicado Enigma) é uma série policial que ganhou muitos fãs em
Litosferius, mesmo tendo saído do ar após apenas três episódios. Talvez isso se
deva ao fato de que a série deixou sem solução vários dos mistérios que tinham
sido postos na roda.

3 - Churondo é um país subdesenvolvido situado à leste de Litosferius e onde a


mortalidade infantil é de 180 por mil nascidos.

4 - Citação do escritor americano Mark Twain (1835-1910);

5 - Informações extraídas do site da Sociedade Vegetariana Brasileira:


www.svb.org.br;

6 - "Curdled" (cujo título no Brasil é “Eles Matam e Nós Limpamos”): Longa-


metragem dirigido por Red Braddocke e que tem no elenco Angela Jones,
William Baldwin e Bruce Ramsay. Trata-se de uma comédia de humor negro
light (isto é, não exatamente engraçada, nem muito ácida) que conta a história
de uma garota obcecada por assassinatos que passa a trabalhar em uma empresa
que limpa vestígios de crimes e termina por cometer um homicídio, só pela
sensação de ter a vida de alguém nas mãos. Ops, contei o final...

***

SOBRE A AUTORA
113
Giselly Grix é um ser humano (por falta de opção), uma escriba falsamente especializada
em especializações, auto-intitulada sua nova sumidade nadística predileta, subMinerva
do séc. XXI, além de ser sua autofã nº1.
Visite os gisblogs altamente recomendados por ela mesma e deleite-se com toda a
transbordante genialidade que emerge deste poço de infinita ausência de imaginação:

www.LITERALIXO.zip.net

www.ROTEIROSCINEMATOGRAFICOSERRIMOS.blogspot.com