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da democracia moderna e viável.


À análise de textos e pesquisas recentes,
Carole Pateman acrescenta uma pertinente re-
tomada de fontes clássicas como Rousseau e
Stuart Mill.

E TEORIA
Além do problema da participação em âm-
bito nacional, a autora apresenta dados e con-
clusões interessantes sobre o acesso de funcio-
nários às decisões em seu local de trabalho e em

DEMOCRÁTICA
outras esferas não governamentais.
Longe de ser uma demanda utópica, calcada
em fundamentos irreais, o tema de Pateman
conserva um espaço significativo na teoria da
democracia moderna, é passível de aplicação,
apesar de determinadas dificuldades, e consti-
tui leitura essencial num momento em que se
discute a inserção de trabalbadores nos proces-
sos decisórios das indústrias.

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[($25 ANOS
II
PAZ E TERRA
O termo "participação" tornou-se
parte do vocabulário político popular
a partir dos últimos anos da década de
60, quando vários grupos reivindica-
vam a implementação efetiva de direi-
tos que, em teoria, eram realmente
seus. Hoje o uso generalizado da pala-
vra, em referência a uma grande varie-
dade de situações, indica que qualquer
conteúdo preciso do termo se perdeu,
ainda que a questão permaneça
viva e aberta.
Neste livro, Carole Pateman de-
tém-se num problema essencial para a
teoria política boje. Qual o lugar da
"participação" numa teoria da demo-
cracia moderna e viável?
Para responder a essa pergunta, a
autora retoma teóricos clássicos como
Jean-Jacques Rousseau — considerado
por ela o teórico da participação por
excelência — e Jobn Stuart Mill, além
da obra de G. H. Cole, cientista-polí-
tico deste século, que desenvolveu
uma teoria da democracia participati-
va, inserida no contexto de uma socie-
dade industrializada.
Após analisar essas teorias, Carole
Pateman estuda a possibilidade de de-
mocratização das estruturas de autori-
dade nas indústrias. Verifica a ligação
entre a participação no local de traba-
Ino e em outras esferas não governa-
mentais, bem como a participação em
âmbito nacional.
São poucos os empecilbos práti-
cos para a instituição da participação
de trabalbadores, ainda que parcial,
nos níveis mais altos - mesmo consi-
CAROLE PATEMAN

PARTICIPAÇÃO E TEORIA
DEMOCRÁTICA

Tradução
Luiz Paulo Rouanet

PAZ E TERRA
p
© Cambridge University Press, 1970
Traduzido do original em inglês Participation and Democratic Theory
Revisão técnica: Anna Maria Quirino ÍNDICE
Preparação: Eliana Antoniolli
Revisão: Ana Maria O. M. Barbosa
Capa: Pinky Warner

Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP)


(Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil)
I. Teorias recentes da democracia e o "mito clássico " 9
Pateman, Carole II. Rousseau, John Stuart Mill e G.D.H. Cole:
Participação e teoria democrática/ Carole Pateman; tradução
de Luiz Paulo Rouanet. — Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1992. uma teoria participativa da democracia 35

Bibliografia.
in. O sentido de eficácia política e a
1. Autogestão 2. Democracia 3. Participação I. Título. participação no local de trabalho 65
IV. "Participação" e "democracia" na indústria 93
V. Autogestão de trabalhadores na Iugoslávia 115
92-0919 CDD-321.80 VI. Conclusões 737
índice para catálogo sistemático: Bibliografia 149
1. Democracia: Ciência política 321.80 índice remissivo 757
Sister
Direitos adquiridos pela de ° S
EDITORA PAZ E TERRA S.A
Rua do Triunfo, 177 '
01212 - São Paulo, SP
Tel. (011) 223-6522
Rua São José, 90 -II9 andar, cj. 1111
20010 - Rio de Janeiro, RJ
Tel. (021) 221-4066
que se reserva a propriedade desta tradução.

Conselho Editorial p 7 q Sn BC
P
Antônio Cândido
Fernando Gasparian aQ
Fernando Henrique Cardoso
1992
216756
Impresso no Brasil / Printed in Brazil
%'\0

TEORIAS RECENTES DA DEMOCRACIA E O


"MITO CLÁSSICO"

Nos últimos anos da década de 60, a palavra "participação"'


_ popular. Isso aconteceu na
onda dejeivindicações, em especial por parte dos_gstudantes, pela
abertura de novas áreas de participação — nesse caso na esfera da
educação de nível superior — , e também por parte de vários grupos
gue_gugriam, na prática, a implementação dos direitos_giüg_erajrrsê5s
najeoria^Na França, "participação" foi uma das últimas palavras de.
ordem utilizadas por de Gaulle em campanhas políticas; na Grã-Bre-
tanha, vimos a idéia receber a bênção oficial no Relatório Skeffing-
ton sobre planejamento, e nos Estados Unidos o programa antipo-
breza incluía fundos para o "máximo possível de participação" dos
afetados por ela. O uso generalizado do termo nos meios de comuni-
cação de massa parecia indicar que qualquer conteúdo preciso ou
significativo praticamente desaparecera; "participação" era empre-
gada por diferentes pessoas para se referirem a uma grande varie-
dade de situações. A popularidade do conceito fornece uma boa
razão para que se dedique alguma atenção a ele. Porém, mais impor-
tante do que isso, a recente intensificação dos movimentos em prol
de uma participação maior coloca uma questão crucial para a teoria
p~õTítica:
modérna.e_v.iáv-el2.
É um bocado irônico que a idéia de participação tenha se tor-
nado tão popular, particularmente entre os estudantes, pois entre os
teóricos da política e sociólogos políticos a teoria da democracia
mais aceita (aceita de maneira tão ampla que se poderia chamá-la de
doutrina ortodoxa) é aquela na qual o conceito de participação as-
sume um papel menor, Na realidade, não apenas tem um papel parecem ter se levantado quanto à possibilidade de se colocar esse
menor, como nas teorias de democracia atuais um dado predomi- ideal em prática.
nante é a ênfase colocada nos perigos inerentes à ampla participação Entretanto, por volta da metade do século, muitas pessoas
popular em política. Tais características derivam de duas preocupa- achavam que o ideal estava sendo questionado. A "democracia", de
ções principais de teóricos atuais que escrevem sobre a democracia, qualquer forma, ainda era o ideal; o que se tornara suspeita era a
sobretudo os norte-americanos. Primeira, sua convicção de que as ênfase na participação e, com ele, a formulação "clássica" de teoria
teorias dos seus predecessores mais antigos (os chamados "teóricos democrática. O colapso da República de Weimar, com altas taxas de
clássicos"), que acalentavam o ideal do máximo de participação do participação das massas com tendência fascista e a introdução de
povo, precisam de uma revisão drástica, quando não uma rejeição regimes totalitários no pós-guerra, baseados na participação das
massas, ainda que uma participação forçada pela intimidação e pela
pura e simples. Segunda, uma preocupação com a estabilidade; do
coerção, realçam a tendência de se relacionar a palavra "participa-
sistema político e com as condições ou pré-requisitos necessários
ção" com o conceito de totalitarismo mais do que com o de democra-
para assegurar tal estabilidade; essa preocupação origina-se da com-
cia. O fantasma do totalitarismo também ajuda a explicar a preocu-
paração que se faz entre "democracia" e "totalitarismo" enquanto as
pação com as condições necessárias à estabilidade num Estado
duas únicas alternativas políticas possíveis no mundo moderno.
democrático; outro fator nesse sentido era a instabilidade de tantos
Não é difícil descobrir de que modo a atual teoria democrática Estados no mundo pós-guerra, em especial as ex-colônias, que ape-
acabou por se implantar com esses fundamentos; sem o risco de uma nas em poucos casos mantiveram um sistema político democrático
simplificação excessiva pode-se dizer que ela resultou de um aconteci- nos moldes ocidentais.
mento intelectual do século XX, o desenvolvimento da sociologia polí- Se esse cenário provocou sérias dúvidas e reservas em relação
tica, e de um evento histórico, a emergência de Estados totalitários. às antigas teorias democráticas, então os fatos revelados pela expan-
No início do século, a dimensão e a complexidade das socieda- são da sociologia política no pós-guerra parecem ter convencido a
des industrializadas e o surgimento de formas burocráticas de orga- maior parte dos teóricos atuais de que suas dúvidas estavam plena-
nização, para muitos teóricos políticos de orientação empirista, pare- mente justificadas. Os dados obtidos em amplas investigações empí-
ciam levantar sérias dúvidas sobre a possibilidade de se colocar em ricas sobre atitudes e comportamentos políticos, realizadas na maio-
prática o conceito de democracia do modo como ele era geralmente ria dos países ocidentais nos últimos vinte ou trinta anos, revelaram
compreendido. Mosca e Michels foram dois dos teóricos mais co- que a característica mais notável da maior parte dos cidadãos, princi-
nhecidos e influentes a defender semelhante tese. Mosca dizia que palmente os de grupos de condição sócio-econômica baixa, é uma
toda sociedade precisava de uma elite no governo e, em seus últimos falta de interesse generalizada em política e por atividades políticas.
escritos, combinava essa teoria da elite com um argumento a favor E mais: constatou-se que existem atitudes não-democráticas ou auto-
de instituições representativas. Michels, com sua famosa "lei de ritárias amplamente difundidas também entre os grupos de condição
ferro da oligarquia" — baseada numa investigação sobre os partidos sócio-econômica baixa. A conclusão esboçada (quase sempre por
social-democratas alemães, que se dedicavam de maneira ostensiva sociólogos políticos travestidos de teóricos de política) é a de que a
aos princípios da democracia em suas próprias fileiras —, parecia visão "clássica" do homem democrático constitui uma ilusão sem
mostrar que era necessário fazer uma escolha entre organização fundamento e que um aumento da participação política dos atuais
(aparentemente indispensável no século XX) e democracia, mas não não-participantes poderia abalar a estabilidade do sisfema democrá-
ambas. Assim, emborajjemocracm,gnquanto governo do povojjgr tico, considerando-se a perspectiva das atitudes políticas.
meio do máximo de participação de todo o povo, ainda possa ser um Havia um outro fator a amparar o processo de rejeição das
ideal, sérias dúvidas, põ?fãs~è"mêvidêricíã^n nome da ciência social, antigas teorias democráticas: o argumento, que agora se tornava fa-

10 11
miliar, de que essas teorias eram normativas e "carregadas de valor", depois propor uma alternativa. (Esse modelo e a crítica que Schumpeter
ao passo que a teoria política moderna seria científica e empírica, fez a ele serão considerados depois.) Schumpeter pensava que "a maio-
firmemente assentada nos fatos da vida política. Mas mesmo assim ria dos estudantes de política" concordaria com suas críticas e também
poder-se-ia questionar se a revisão da teoria democrática deveria ou com sua teoria revisada da democracia que "é bem mais verdadeira em
não ter sido empreendida com tamanho entusiasmo por tantos escri- relação à vida e ao mesmo tempo resgata muito do que os defensores do
tores se esse mesmo problema do aparente contraste entre os fatos e método democrático realmente entendiam por esse termo" (p. 269).
atitudes da vida política e suas caracterizações em antigas teorias não Uma vez que a principal crítica de Schumpeter à "doutrina clássica" era
tivesse sido abordado e respondido por Joseph Schumpeter. Seu que o papel central de participação e tomada de decisões por parte do
prestigiado livro Capitalismo, socialismo e democracia (1943) de povo baseava-se em fundamentos empiricamente irrealistas, em sua
fato foi escrito antes da enorme quantidade de informação empírica teoria revisada o ponto vital é a competição dos que potencialmente
agora disponível em política, mas mesmo assim Schumpeter consi- tomam as decisões pelo voto do povo. Por isso, Schumpeter apresentouf
derou que os fatos mostravam a necessidade de uma revisão da teoria a seguinte definição do método democrático como moderna e realistaA
democrática "clássica" e forneceu tal teoria revisada. Mais do que "Aquele arranjo institucional para se chegar a decisões políticas, nolj
isso: ele colocou em evidência uma definição nova e realista de de- qual os indivíduos adquirem o poder de decidir utilizando para isso uma j?
mocracia, o que se revelou mais importante para as teorias posterio- luta competitiva pelo voto do povo" (p. 269). De acordo com essa!
res. Uma compreensão da essência da teoria de Sqhumpeter é vital definição, a competição pela liderança é a característica distintiva da
para uma apreciação das obras mais atuais sobre teoria democrática, democracia, permitindo que se diferencie o método democrático de
pois elas foram elaboradas dentro do parâmetro estabelecido por outros métodos políticos. Por esse método qualquer pessoa, em princí-
Schumpeter e basearam-se em sua definição de democracia. / pio, é livre para competir pela liderança em eleições livres, de modo que
O ponto de partida da análise de Schumpeíer_é um ataque à as liberdades civis costumeiras são necessárias.2 Schumpeter compa-
noção de teoria democrática enquanto uma teoria de meios e fins; rava a competição política por votos à operação do mercado (econô-
democracia, afirma ele, é uma teoria dissociada de quaisquer ideais mico): à maneira dos consumidores, os eleitores colhem entre as políti-
ou fins. "Democracia é um método político, ou seja, trata-se de um cas (produtos) oferecidas por empresários políticos rivais, e os partidos
detenninadotipo de arranjo institucional para se chegar_a_decisões regulam a competição do mesmo modo que as associações de comércio
políticas — legislativas e administrativas." Na medida em que se na esfera econômica.
afirma uma "lealdade sem compromissos" à democracia, supunha-se Schumpeter dedicou alguma atenção às condições necessárias
que o método cumprisse outros ideais, por exemplo o de justiça.1 para a operação do método democrático. Além das liberdades civis,
O procedimento adotado por Schumpeter na formulação de sua eram requeridos tolerância para as opiniões de outros e "um certo tipo
teoria democrática foi estabelecer um modelo daquilo que ele chamou de caráter e de hábitos nacionais", e não se poderia confiar em que a
de "doutrina clássica" da democracia para examinar suas deficiências e operação do próprio método democrático fornecesse tais condições.
Outra exigência era que "todos os interesses envolvidos" fossem vir-
l. Schumpeter, 1943, p. 242 (grifo de Schumpeter). Para convencer os leitores da validade de tualmente unânimes em sua lealdade aos "princípios estruturais da so-
seu argumento, Schumpeter propunha um "experimento mental". Imaginem um país que,
de modo democrático, perseguisse.judeus, bruxas e cristãos; não aprovaríamos tal prática só ciedade existente" (pp. 295-6). Contudo, Schumpeter não achava ne-
porque decidiu-se por ela de acordo com o método democrático, portanto, a democracia não cessário o sufrágio universal; ele pensava que as qualificações quanto à
pode ser um fim. Contudo, como faz notar Bachrach, semelhante perseguição sistemática
entraria em conflito com as regras de procedimento necessárias se quisermos chamar de
"democrático" o método político do país (Bachrach, 1967, pp. 18-20). Schumpeter tampouco 2. Mesmo admitindo a liberdade em princípio, Schumpeter pensava que, na verdade,!
deixa claro por que deveríamos esperar que justamente esse método político nos levaria, por era necessária uma classe política ou dominante para fornecer candidatos à liderança|
exemplo, à justiça. (p. 291).

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propriedade, à raça ou à religião eram, todas, perfeitamente compatíveis e prática democráticas", a orientação teórica funcionalista de Berel-
com o método democrático. son é bastante diferente da de Schumpeter, mas tem o mesmo obje-
f Najeoria de Schumpeter,.os únicos meiosdejarticipafcão-abertos tivo.4 Ele se propõe a examinar as implicações para a teoria demo-
ao cidadãojão o voto para o líder e^discujsãQ.. Ele pontifica que as crática "clássica" do "confronto" entre esta e a evidência empírica,
práticas usualmente aceitas (como "bombardear" representantes com fornecida em capítulos anteriores do livro. Com vistas a esse con-
cartas) são contrárias ao espirito do método democrático, pois, de fato, fronto, Berelson adota a estratégia de Schumpeter de apresentar um
argumenta ele, trata-se de tentativas que os cidadãos fazem para contro- modelo da "teoria clássica" — ou, mais precisamente, um modelo
lar seus representantes, e isso constitui uma completa negação do con- das qualidades e atitudes que essa teoria supostamente exige dos
ceito de liderança. O eleitorado "normalmente" não controla seus líde- cidadãos, tomados como indivíduos —, e este procedimento revela
res, a não ser quando os substitui por líderes alternativos nas eleições, que "certas exigências, em geral tidas como necessárias para o bom
de modo que "parece bom restringir nossas idéias sobre tal controle da funcionamento da democracia, não são encontradas no comporta-
maneira indicada em nossa definição" (p. 272). Na teoria de democracia mento do 'cidadão médio'".5 Por exemplo, "espera-se que o cidadão
de Schumpeter, a participação não tem um papel especial ou central. democrático se interesse e participe dos assuntos políticos", contudo
Tudo que se pode dizer é que um número suficiente de cidadãos parti- "em Elmira, a maioria da população vota, mas quase nunca revela um
cipa para manter a máquina eleitoral — os arranjos institucionais — interesse constante" (1954, p. 307). Assim mesmo, apesar desta e de
funcionando de modo satisfatório. A teoria concentra-se no número todas as outras deficiências na prática democrática, as democracias oci-
reduzido de líderes. "Amassa eleitoral é incapaz de outra coisa que não dentais sobreviveram; portanto, deparamo-nos com um paradoxo:
seja um estouro de boiada", diz Schumpeter (p. 283), por isso seus
Os eleitores isolados, hoje em dia, parecem incapazes de satisfazer as
líderes precisam ser ativos, possuir iniciativa e decisão, e a competição exigências de um sistema de governo democrático tal qual delineado
entre os líderes pelos votos constitui o elemento democrático caracterís- pelos teóricos políticos. Mas um sistema de democracia deve ir ao encontro
tico nesse método político. de certas exigências para que exista uma organização política. Os membros,
tomados individualmente, podem não satisfazer a todos os padrões, mas
É indubitável a importância da teoria de Schumpeter para as
assim mesmo o todo sobrevive e cresce (p. 312, grifos de Berelson). i
teorias democráticas posteriores. Sua noção de "teoria clássica", a
caracterização que ele fez do "método democrático" e o papel da
De acordo com Berelson, a apresentação desse paradoxo per-
participação nesse método tornaram-se quase universalmente aceitos
mite que se veja o engano dos autores "clássicos", e que se constate
em textos recentes sobre teoria democrática. Um dos poucos pon-
o porquê de suas teorias não fornecerem um quadro preciso do fun-
|tos em que os teóricos atuais divergem de Schumpeter é a questão da
cionamento dos sistemas políticos democráticos existentes. Ele argu-
; necessidade de a democracia ter um "caráter democrático" básico, e
menta que a teoria "clássica" concentra-se no cidadão isolado, igno-
! daí saber se a existência desse caráter depende do funcionamento do
rando virtualmente o próprio sistema político; e, quando o leva em
! método democrático. Vamos examinar quatro exemplos bem conhe- conta, considera as instituições específicas e não as "condições ge-
cidos sobre a teoria da democracia nos trabalhos recentes de Berel- rais para que as instituições funcionem como deveriam". Berelson
son, Dahl, Sartori e Eckstein. A ênfase na estabilidade do sistema
político é maior nessas obras do que na de Schumpeter, mas a teoria
democrática comum a todas elas descende diretamente do ataque 4. Ver também Berelson'(1952). Para algumas críticas dos aspectos funcionalistas da teoria
de Berelson, ver Duncan e Lukes (1963).
que este autor fez à teoria "clássica" da democracia. 5. Berelson, 1954, p. 307. Assim como a maioria dos outros autores que falam da teoria
No capítulo 14 de Votar (Voting, 1954), sob o título de "Teoria democrática "clássica", Berelson não diz em quais autores baseou seu modelo. No texto citado na
nota anterior, ele observa, a propósito da série de atitudes das quais traça um esboço, que, "se
todas não são exigidas em uma única teoria política da democracia, todas elas são encontradas em
3. (pp. 244-5) As teorias mais recentes não o seguem nesse ponto. uma ou outra teoria" (1952, p. 314). Porém, de novo, nenhum nome é fornecido.

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arrola as seguintes condições, necessárias "para que a democracia incorporar os mesmos valores atribuídos por alguns teóricos a cada
política sobreviva": deve-se limitar a intensidade do conflito, restringir indivíduo, tanto no sistema quanto nas instituições políticas que o
a taxa de câmbio, manter a estabilidade social e econômica, e é preciso constituem"! Assim sendo, não deveríamos, pois, rejeitar o conteúdo
que haja organização social pluralista, além de um consenso básico. normativo da velha teoria — que presumivelmente consiste da im-
l Segundo Berelson, os teóricos anteriores também supunham portância das atitudes que se exigem dos cidadãos isolados — , mas
| que seria necessária uma cidadania politicamente homogênea numa revisá-lo para se adequar à realidade presente.8
l democracia (homogênea quanto às atitudes e aos comportamentos). A teoria de Berelson fornece uma clara relação de parte dos
De fato o que se exige e o que se encontra é a heterogeneidade, principais argumentos de recentes obras sobre teoria democrática.
felizmente. Tal heterogeneidade é necessária, pois espera-se que Por exemplo, o argumento de que a moderna teoria de democracia
nosso sistema político desempenhe "funções contraditórias" e, assim deve ter uma forma descritiva e concentrar-se no sistema político
\ mesmo, funcione. E funciona devido ao modo pêlo qual as qualifica- vigente. Segundo esse Tjmtg^dejdsífl,-pode=se-peEceber-que-QS-altosi
ções e atitudes se distribuem entre o eleitorado; tal distribuição per-
mite que as contradições se resolvam, ao mesmo tempo que se man- ^ disso, a apatiaejg^desinteresse dajmaioria
^jüém
tém a estabilidade do sistema. Desse modo, o sistema revela-se cumprem um imp^rtantgjgajggl n£jri^aj[iujtoç,ãajda_estabilidade_dó __
igualmente estável e flexível, por exemplo, porque as tradições polí- sistema tomaj^comgjLmi todo. Portanto, chegj^jigjugumento de
ticas de grupos familiares e étnicos e a natureza duradoura das leal- que essa participação que ocorre de fato é exatamente a participação
dades políticas contribuem para a estabilidade, ao passo que "os elei- necessária para^um sistema dejdemocracia-e.stáv.el,
tores menos aptos a preencher os critérios individuais são os que Berelson não explicita quais as características necessárias para
mais contribuem quando medidos pelo critério coletivo da flexibili- que um sistema político possa ser descrito como "democrático", uma
dade... tais eleitores podem ser os que menos tomam partido e os vez que o máximo de participação de todos os cidadãos não é
menos interessados, mas cumprem uma função valiosa para o con- uma delas. Uma resposta a essa questão pode ser encontrada em dois
junto do sistema".7 estudos de Dahl, Uma introdução à teoria democrática (A Preface to
| Em suma, a participação limitada e a apatia têm uma função Democratic Theory, 1956) e Hierarquia, democracia e negociação
Lpositiva nò~colijünto dõ~slstema ao amortecer o choque dasjiscor- em política e em economia (Hierarchy, Democracy and Bargaining
p. dâncias._dQs..ajustes e das mudanças. in Politics and Economics, 1956a), e tal resposta segue de perto a
Berelson conclui argumentando que sua teoria não apenas é definição de Schumpeter.
realista e descritivamente precisa, mas também inclui os valores que Dahl não "confronta" teoria e fato do mesmo modo que Berel-
a teoria "clássica" conferia aos indivíduos. Ele diz que a atual distri- son; na verdade, Dahl não parece estar muito seguro se existe ou não
buição de atitudes do eleitorado "pode desempenhar as funções e algo como uma "teoria clássica da democracia". No início de Uma
introdução à teoria democrática, ele observa que "não há uma teoria
6. (1954, pp. 312-3) A conexão específica entre essas condições e a democracia não fica
democrática — existem apenas teorias democráticas".9 Em'um outro
muito clara; as três primeiras aparentemente seriam uma exigência, de modo quase tautoló- texto, no entanto, ele escreveu que "em alguns aspectos, pode-se
gico, para a manutenção de qualquer sistema político. Berelson acrescenta que continuará demonstrar a invalidade da teoria clássica" (1965a, p. 86). Sem dú-
explorando "os valores" do sistema político. O que ele faz, na verdade, é examinar as
"exigências do sistema"; ver a seção que inicia na p. 313.
7. (1954, p. 316) E difícil descobrir por que Berelson chama os itens que ele cita de 8. (1954, pp. 322-3) O ponto de exclamação refere-se evidentemente à passagem citada, que
"contraditórios". Sem dúvida devem ser difícies de se obter empiricamente aos mesmo beira o total absurdo.
tempo, mas é possível haver (e não é ilógico esperar) estabilidade e também flexibilidade, ou 9. (1956, p. I) Todavia ele também se refere a pelo menos uma "teoria tradicional" (p. 131).
existirem eleitores que expressem escolhas livres e autodeterminadas, ao mesmo tempo que Em oposição a isso, contudo, ver Dahl (1966), onde ele diz que nunca houve uma teoria
fazem uso das melhores informações e orientações dos líderes (ver pp. 313-4). clássica da democracia.

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vida, Dahl encara as teorias que ele critica em Uma introdução à minorias que podem mostrar sua influência nas decisões políticas e
teoria democrática (a "madisoniana" e a "populista") como inade- no conjunto do caráter políticojda sociedade (1956, pp. 133-4).
quadas para os dias atuais; e sua teoria da democracia como poliar- A teoria da poliarquia taníbém pode fornecer "uma teoria satis-
quia — Q governo das múltiplas minorias ^ é apresentada à guisa de fatória a respeito da igualdadeípolítica" (1956, p. 84). Mais uma vez,
uma substituição mais adequada para aquelas, enquanto uma teoria não se devem ignorar as realidades políticas. A igualdade polí-jj
da democracia moderna e explicativa. ticajião deve ser definida comgualdade_dg^ controle político ou de*
Dahl fornece uma lista das características que definem a demo- poder, pois, comojpahl observa, os grupos de status
cracia, as quais, de acordo com o argumento de Schumpeter de que a mico baixo, a maiom^stãQsepar.adüs_dessaJ.gualdade-por-uma:i
democracia é um método político, constituem uma lista dos "arran- "tripla barreira": sua inatividade rdajtiv^mente_inaÍOT;_s.eju_h^itadx)-|,
jos institucionais" centrados no processo eleitoral (1956, p. 84). As acSs^aõsiecursqs e, nos Estados Unidos,. a "simpática inyençãojde '!
eleições funcionam como um ponto central do método democrático umjústemajde verificações p.
porque elas fornecem o mecanismo através do qual pode se dar o 8Í). Numa teorísTSã^emõcracia moderna, a "igualdade política"
controle dos líderes pelos não-líderes; a "teoria democrática ocupa- refere-se à existência do jsufrágio\ universal (um homem^um voto)
se dos processos pelos quais os cidadãos comuns exercem um grau com_sua_sançãopor meio da competição eleitoraljo£^ojtp^e,jinais f
relativamente alto de controle sobre os líderes" (p. 3). Dahl, à seme- importante, refere-sejiõJ:aTòl3Figji^^^
lhança de Schumpeter, enfatiza que não se poderia atribuir um peso qu^le^JiueJomam^s_de.cisões-por_m&io-dej
maior à noção de "controle" do que o justificado pela realidade. Ele
salienta a ênfase dada pelos textos políticos contemporâneos à idéia conseguem fazer com que suas reivindicações, sejam-ou-vidas. Os^
de que o relacionamento democrático é apenas uma das numerosas representantes oficiais não apenas escutam os vários grupos, mas
técnicas de controle social que de fato coexistem nas políticas demo- "esperam ser afetados de modo significativo se não apaziguarem o
cráticas modernas, e essa diversidade deve ser levada em considera- grupo, seus líderes ou seus membros mais vociferantes" (p. 145).
ção numa teoria moderna da democracia (1956a, p. 83). Tampouco é Outro aspecto particularmente interessante da teoria de Dahl é
o caso de se destacar uma teoria que exige o máximo de participação sua discussão quanto aos jjré-requisilos jociaisjpara um sistema po-
popular para exercer o "controle", uma vez que sabemos que a maio- liárguiço._Um pré-requisito básico seria um consenso a respeito das
ria das pessoas é desinteressada e apática em relação à política, e normas, ao menos entre os líderes. (As condições institucionais ne-
Dahl põe em evidência a hipótese de que uma porcentagem relativa- cessárias e suficientes para a goliarguia podem ser formuladas como
mente pequena de indivíduos, em qualquer forma de organização normas — 1956, pp. 75-6.) Tal consenso depende de um "treina-
social, aproveitará as oportunidades de tomada de decisão.10 E, por- mento social", o qual, por sua vez, depende da existência de um
tanto, o "controle" depende do outro lado do processo eleitoral, da mínimo de acordo a respeito da escolha e das normas políticas, de
competição entre os líderes pelos votos da população; o fato de que modo que o aumento ou a diminuição de um dos elementos afeta os
o indivíduo pode transferir o seu apoio a um grupo de líderes para outros (p. 77). O treinamento social ocorre por meio da família, das
outro confirma que os líderes são "relativamente afetados" pelos escolas, das igrejas, dos jornais, etc., e Dahl distingue três tipos de
não-líderes. E tal competição é o elemento especificamente demo- treinamento: de reforço, neutro e negativo. Ele argumenta que "é
crático do método, e a vantagem de um sistema democrático (poliár- razoável supor que esses três tipos de treinamento operam sobre os
quico) comparado a outros métodos políticos reside no fato de ser membros da maioria das organizações poliárquicas, se não todas
possível uma ampliação do número, do tamanho e da diversidade das elas, e talvez também sobre os membros de muitas organizações
hierárquicas" (1956, p. 76). Dahl não diz em que consiste o treina-
10. (1956a, p. 87) Ver também 1956, pp. 81 e 138. mento, nem fornece qualquer sugestão sobre qual provável tipo de

18 19
treino é produzido por qual tipo de sistema de controle, mas ele gratidão típica do homem de nossa época e sua desilusão com a
afirma que sua eficácia dependerá das atuais e "mais profundas pre- democracia são reações a uma meta prometida e que não pode ser
disposições do indivíduo" (p. 82). É de se presumir que o treina- alcançada" (p. 54). Não obstante, é preciso ter cuidado para que não
mento social "efetivo" seria aquele que desenvolvesse atitudes indi- seja mal compreendido o exato papel da teoria democrática, mesmo
viduais para apoiar as normas democráticas; por outro lado, Dahl diz depois de ela ter sido revista e reinterpretada. Uma vez que um sis-
que não é necessário um único "caráter democrático", como suge- tema democrático tenha sido estabelecido — como nos países oci-
rido por teóricos anteriores, porque isso não seria realista em face do dentais da atualidade — o ideal democrático deve ser minimizado.
"fato mais que evidente" de que os indivíduos pertencem, como Esse ideal é um princípio nivelador que mais agrava do que resolve
membros, a vários tipos de sistemas de controle social. O que se o problema real nas democracias, o de "manter a verticalidade", isto
exigem são personalidades que possam adaptar-se aos diferentes é, a estrutura de autoridade e de liderança; maximizado como uma
tipos de papéis nos diferentes sistemas de controle (1956a, p. 89), "exigência absoluta, o ideal democrático (revisado) levaria o sistema
mas Dahl não fornece nenhuma indicação de como o treinamento à "bancarrota" (pp. 65 e 96). Hoje, a democracia não deve ficar em
para produzir esse tipos de personalidade auxilia o consenso sobre as guarda contra a aristocracia, como antes, mas contra a mediocridade e
normas democráticas. contra o perigo de que tal mediocridade possa destruir seus próprios
Por fim, Dahl salienta um argumento a respeito dos possíveis líderes, substituindo-os por contra-elites não-democráticas (p. 119).
np^^ O medo de que a participação ativa da população no processo
atividade política constitui um pré-requisito da poliarquia, mas o políticõlèvé^direto ao totalitarismopermeia todo o discurso de Sar-
relacionamento é algo extremamente complexo dentro dela. Os gru- tori. O povo, diz ele, deve "reagir", ele não "age"; isto é, deve reagir
pos de^condição sócio-econômica baixaApresentam o menor^índice às iniciativas e políticas das elites rivais (p. 77). Felizmente, é isso
atividade polítíca_e também,mvejam com maiojLJteqüência_as que o cidadão médio faz na prática, e um ponto muito interessante na
personalidades "autoritárias". Assim sendo, na medida em que o au- teoria de Sartori é que ele faz parte dos raríssimos teóricos da demo-
mento da atividade política traz esse grupo à arena política, o con- cracia que de fato colocam a questão: "Como podemos classificar a
senso a respeito das normas pode declinar, declinando por conse- inatividade do cidadão médio?". Sua resposta é que não devemos
guinte a poliarquia. UrtLaumento da taxa de partidnaçM,jmrIanto., classificá-la. Argumentos de que a apatia pode ser provocada pelo
^poderia representarjun_perigg_para^a estabilidade do sistema derno^ analfabetismo, pela jgpbreza ou pela insuficiência de informarão
crátíçoj(195j6,. carj. 3?-ap...E)T- foramjjfutados pelos fatos, assim como não foi constatada a suges-
O terceiro teórico da democracia cujo trabalho será discutido é tão de que ela pode resultar da~falta de^raticã~dêmocra!ica, pois
um autor europeu, Sartori. Seu livro Teoria democrática (Democra- "aprendemos que nãosejroren(ie a
tic Theory, 1962) contém o que talvez seja a modalidade mais radical que a tentativa de encontrar uma resposta para essa questão é um
da revisão de antigas teorias de democracia. Basicamente, sua teoria esforço equivocado, uma vez que asjressoas só compreendem e se
i revela-se uma extensão das teorias de Dahl sobre democracia en- interessam de fatCLpor assuntos dos quais têm experiência pessoal,
| quanto poliarguia. de forma que não será necessário repetir os deta- ou por idéias que conseguem formular; rjarajyjjróprias, e nada disso
; lhes do argumento, mas Sartori ressalta que não sãoapenas asjrnno- é possível parao cidadão médio, em matéria de política. E preciso
' 5^JlH£J£I££2f!£!i£^ aspecto a se aceitar osfetoscomo eles são,^õrque te^aflrmSa^los^oria em pe-
notar em sua teoria é a ênfase nos perigos de instabilidade e nos rigo a manutenção do método democrático, e Sartori ainda argu-
pontos de vista correlatos a respeito da adequada relação entre a menta que a única maneira de se tentar mudá-los seria pela coação
teoria democrática (o ideal) e a prática. Segundo Sartori, criou-se um dos apáticos ou pela penalização da minoria ativa, mas nenhum dos
abismo intransponível entre a teoria "clássica" e a realidade; "a in- dois métodos seria aceitável. Sartori conclui que a apatia da maioria

20 21
"não é culpa de ninguém em particular, e que já é hora de parar de A primeira proposição de sua teoria, aplicável a qualquer método
procurar bodes expiatórios" (pp. 87-90). de governo, é que "um governo tenderá a ser estável se o seu padrão de
As teorias da democracia apresentadas até agora estavam mais autoridade for eongruente com os outros padrões de autoridade da so-
preocupadas em mostrar que espécie de teoria é necessária para se ciedade da qual faz-parte" (p. 234). Eckstein observa que, nesse con-
considerar os fatos existentes em termos de atitudes e comportamen- texto, "eongruente" tem dqis sentidos, aos quais vamos nos referir
tos políticos e, ao mesmo tempo, em não colocar em perigo os siste- como o forte e o fraco.- O sentido forte é o de "idêntico", equivalente na
mas democráticos vigentes ao criar expectativas irreais e potencial- terminologia de Eckstein a "muita semelhança" (p. 234). Este não é o
mente desintegradoras. Eckstein, em seu livro Uma teoria de sentido aplicável a uma democracia porque tal situação de congruência
democracia estável (A Theory of Stable Democracy, 1966), con- de estruturas de autoridade jião.seria possível nesse sistema, ou, pelo
centra sua atenção, como aponta o título, nas condições ou pré-requi- menos, Traria "as mais,graves conseqüências disfuncionais". Determi-
sitos necessários para que um sistema democrático mantenha-se es- nadas estruturas de autoridade simplesmente não podem ser democrati-
tável no decorrer do tempo. zadas, como, por exemplo, aquelas nas quais ocorre a socialização dos
A definição de "democracia" utilizada por Eckstein é a do já jovens (família, escola),j)oisrêmborax se "finja" que são democráticas,
conhecido sistema político onde as eleições decidem o resultado da um füígimento excessivamente realista como esse produziria "seres hu-
competição por políticas e poder,11 mas, para esse sistema ser está- manos deformados "e incompletos"/De modo similar, pode-se "imitar"
vel, a forma de governo deve assumir determinado tipo. A "estabili- ou "simular" a democracia em organizações econômicas, mas mesmo
dade" do sistema não se refere tanto à longevidade — que poderia isso, em exagero, levaria a "conseqüências que ninguém quer" e, além
acontecer por "acidente" —, mas à sobrevivência, em função de uma disso, "certamente sabemos que a organização econômica capitalista e
capacidade de ajuste à mudança, da realização de aspirações políti- até certos tipos de propriedade pública... militam contra a democratiza-
cas e de fidelidades, mas isso também implica que a tomada de deci- ção das relações econômicas". Portanto, somente aquelas esferas que
sões políticas seja efetiva no "sentido básico da própria ação, de Eckstein assinala como as mais importantes para o comportamento po-
qualquer espécie de ação, na busca de objetivos compartilhados ou lítico é que precisam ser necessariamente antidemocráticas (pp. 237-8).
no ajuste às condições de mudança" (p. 228). O sentido fraco de "congruência" é o de "semelhança gradual" — um
Eckstein assinala que um dos aspectos das relações sociais sentido que torna "os requisitos dependentes mas não impossíveis de
mais óbvios e imediatamente ligados ao comportamento político foi cumprir". Esse sentido não fica inteiramente claro, mas Eckstein afirma
negligenciado pelos textos; isto é, que alguns "segmentos" da sociedade estão mais próximos do governo
que outros, tanto no sentido de serem "adultos" quanto no de serem
os padrões de autoridade nas relações sociais não-governamentais, "políticos". Haveria congruência no sentido fraco se (a) os padrões de
dentro das famílias, das escolas, de organizações econômicas e simila- autoridade aumentassem o grau de semelhança com o governo na me-
res... parece razoável que, se há algum aspecto da vida social que possa
afetar diretamente o governo, tal aspecto consiste nas experiências com dida em que estivessem mais "próximos" dele, ou (b) se existisse um alto
a autoridade que o ser humano tem em outras esferas da vida, em grau de semelhança nos padrões "adjacentes ao governo" e se nos segmen-
especial aquelas que moldam sua personalidade e aquelas às quais ele tos distantes houvessem se originado padrões funcionalmente apropriados,
devota a maior parte de sua vida (p. 225). no sentido de uma imitação real ou ritual do padrão do governo.12
Aqui parece haver uma dificuldade teórica, pois só se pode
11. Eckstein, 1966, p. 229. Eckstein não contrapõe explicitamente sua teoria em relação à atingir a estabilidade e evitar a "tensão" (um estado psicológico e
teoria "clássica", no entanto pelo menos uma observação mostra que ele considera as teorias
anteriores inadequadas. Ele diz que, hoje em dia, convém encarar o governo democrático de
modo mais pessimista, sem tomar por base a afirmação de que os homens são democratas 12. (pp. 238-40) (b) é a condição mínima para (o significado de) "congruência"; (a) considero
naturais, mas com base na combinação "calamitosamente improvável" das condições neces- que isto é o que Eckstein entende por "um padrão gradual numa adequada segmentação da
sárias (pp. 285-6). sociedade" (p. 239).

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uma condição social semelhante ao que se entende por "anomia" tomado como um todo e baseia-se nos fatos das atitudes e dos compor-
quando se alcança a congruência. A tensão pode ser minimizada se tamentos políticos atuais, revelados pela investigação sociológica.
existirem muitas oportunidades para que os indivíduos aprendam os Nessa teoria, a "democracia" vincula-se a um método político
padrões democráticos de atuação, em especial se as estruturas de ou uma série de arranjos institucionais a nível nacional. O elemento
autoridade democráticas forem aquelas mais próximas ao governo democrático característico do método é a competição entre os líderes
ou aquelas que envolvem as elites políticas, isto é, se a congruência (elite) pelos votos do povo, em eleições periódicas e livres. As elei-j
no sentido fraco for atingida. Entretanto, Eckstein já havia dito que é ções são cruciais para o método democrático, pois é principalmente
impossível democratizar algumas das estruturas de autoridade mais através delas que a maioria pode exercer controle sobre os líderes..
próximas do governo.1 Contudo, isso realmente não é um problema reação dos líderes às reivindicações dos que não pertencem à elite é
para a teoria, pois o argumento de Eckstein diz que, para uma demo- segurada em primeiro lugar pela sanção de perda do mandato nas
cracia estável, o padrão de autoridade governamental deve se tornar eleições; as decisões dos líderes também podem sofrer influências de
congruente com a forma predominante de estrutura de autoridade na grupos ativos, que pressionam nos períodos entre as eleições. A
sociedade, ou seja, o padrão governamental não precisa ser "pura- "igualdade política", na teoria, refere-se ao sufrágio universal e à
mente" democrático. Ele precisa conter um "equilíbrio dos elemen- existência de igualdade de oportunidades de acesso aos canais de
tos díspares" e revelar um "saudável elemento de autoritarismo". influência sobre os líderes. Knahnej^J^r2ailicipação",-no_que_diz|
Eckstein também apresenta mais duas razões para existência deste respeito à maioria, constitui_a_participação na escolha_dagueles^vieJ
último elemento: a primeira faz parte da definição de "estabilidade", tomam as decisõesTPÕr conseguinte, a função da participação nessa \
a tomada de decisões efetiva só pode ocorrer se esse elemento auto- teoria e apenas de proteção; a proteção do indivíduo contra decisões /
ritário estiver presente; e a segunda é psicológica, os homens sentem _ ^
necessidade de líderes e de lideranças firmes (autoritários) e essa dos. É na realização desse objetivo que reside a justificação do mé-
necessidade precisa ser satisfeita para que se mantenha a estabilidade todo democrático.
do sistema (pp. 262-7). São necessárias certas condições para conservar a estabilidade
A conclusão da teoria de Eckstein — que_rjode_sgr_encarada do sistema. O nível de participação da maioria não devgria crescer^
como parad^x^_uma_yezj^ie_se_fratadjjma^oriajda.denio.ciacia acimajio mínimo necessário a fim de manter q método democrático \
— é que, para um sistem^jejnwraticp^M¥£/,ja^strutura deautori- (má(jímnã~êTê1toral^ j
dadejio governo nacional_não precisa se_r, _neçesgariamente, pelo que^xiste^ajtualmentejias democracias an^lo-amenganas. O fato de
meiTOs^dej^d^rpj£O^.^mQcrática.^ atitudes não-^mocráticassej^rnj^e^tivamente mais comuns entre
Pode se estabeler agora, em linhas gerais, uma teoria da democra- os inativos significa que um aumento de particrpaçãq^dos apáticos
cia comum aos quatro escritores acima, e a muitos outros teóricos da enfraquecidocpjisjaisoTJül^õ^^nõfmaTdõ^etõdíldemocráti
democracia atuais. De agora em diante passarei a referir-me a ela como j) que é mais uma das condições necessárias. Embora não haja exi-
a teoria contemporânea da democracia. Essa teoria, de caráter empírico gência de um "caráter democrático" definido para todos cidadãos, o
ou descritivo, concentra-se na operação do sistema político democrático treinamento social ou a socialização necessários ao método demo-
crático podem se dar dentro das estruturas de autoridade existentes,
13. (pp. 254 e segs.) Como Dahl, Eckstein pouco fala a respeito do modo como se dá o variadas e não-governamentais. Contanto que haja algum grau de
"treinamento social". Uma vez que a maioria das pessoas não é politicamente muito ativa e congruência entre a estrutura de autoridade do governo e as estrutu-
que, portanto, não estará participando das estruturas de autoridade mais "congruentes" (aque-
las "mais próximas" ao governo), essa maioria será socializada por meio de padrões não-de- ras não-governamentais próximas a ele, a estabilidade pode ser man-
mocráticos. Assim, a teoria de Eckstein apoia os argumentos daqueles que salientam os tida. Cojnaj)bjejTOu_£ad2ach_(1967,p. 95), esse modelo dejiemp
perigos inerentes à participação da maioria (não-democrática) para a estabilidade do sistema. cracia pode ser_yjstp_como_aciuele em que a maioria (nãojslites

24 25
obtém o teóricos considerados esses padrões são aqueles inerentes ao sistema
democrático anglo-americano existente, e que com o desenvolvi-
A teoria contemporânea da democracia conquistou um apoio mento desse sistema já temos o Estado democrático ideal. Berelson,
quase universal entre os teóricos políticos atuais, mas não ficou intei- por exemplo, diz que o sistema político existente (americano) "não
ramente a salvo das críticas, ainda que as vozes dos críticos se façam apenas funciona sob condições as mais difíceis e complexas, como o
ouvir muito pouco.14 O ataque dos críticos dirige-se a dois pontos faz com distinção" (1954, p. 312). Dahl conclui o livro Uma introdu-
principais. Em primeiro lugar, eles argumentam que os defensores da ção à teoria democrática observando que, embora não tentasse de-
teoria da democracia contemporânea não compreenderam a teoria terminar se o sistema descrito por ele seria desejável, ainda assim
"clássica"; ela não era em essência uma teoria descritiva, como eles trata-se de um sistema que permite a todos os grupos ativos e legíti-
sugeriam, mais uma teoria normativa, "um ensaio de preceitos" mos serem ouvidos em alguma etapa do processo de tomada de deci-
(Davis, 1964, p. 39). Examinarei brevemente essa questão. Em se- sões, "o que já é alguma coisa", e que é também "um sistema relati-
gundo lugar, os críticos afirmam que, na revisão da teoria "clássica", vamente eficiente para reforçar o acordo, encorajar a moderação e
os ideais que ela contém foram substituídos por outros; "os revisio- manter a paz social" (1956, pp. 149-51). Obviamente, um sistema
nistas modificaram fundamentalmente o significado normativo da político que pode enfrentar e enfrenta questões difíceis desincum-
democracia" (Walker, 1966, p. 286). bindo-se delas com distinção, que pode assegurar paz social e de fato
JáJLcà^^^^^jiue^teoría_ço^^m^^a_ó^SÍSS^^^ assegura, é intrinsecamente desejável._Além disso, ao excluir algu-
como "livre de valores",jgmo uma teoria descritiva. Dahl (1966), de mas dimensões, a teoria contemporâneanos apresentaUuas alterna-
fãtüTfêjêitou explicitamente a acusação de que ele havia, juntamente mT^sisíêíílTíÕ^qlããrõrroeres são conlroláveis pelo tHeítórado
com outros teóricos, produzido uma nova teoria normativa. Nesse emTprestar'contas a ele, no qual^o eleitorado pode^^S^^^tre
aspecto, os críticos compreendem melhor a natureza da teoria con- os líderes ou a eli^e em,cojn^ quaHssojião
temporânea do que o próprio Dahl. Taylor (1967) salienta que qual- ocorre ("totalitarismo"). A escolha^ rjo^m^é^^p^kjgresentação
quer teoria política destaca dos fenômenos considerados aqueles que dás alternativas; podemos escolher entre os líderes em competição,
precisam ser explicados e os que são relevantes para a explicação. põftãríto o sistema que deveríamos^ter é exatamejtíejajjujíjtenios.
Mais do que isso, no entanto, como mostrou Taylor, tal seleção sig- *~ Dessa forma, os críticos estão certoíTquando afirmam que a
nifica que não apenas algumas dimensões são excluídas por serem teoria contemporânea não apenas tem o seu próprio conteúdo norma-
irrelevantes — dimensões que podem ser cruciais para uma outra tivo, mas implica que nós —pelo menos os ànglo-saxões ocidentais
teoria — , mas que as dimensões escolhidas também sustentam uma — estamos vivendo no sistema democrático "ideal". Eles estão cer-
posição normativa, uma posição implícita na própria teoria. tos também ao dizerem que o ideal foi rejeitado, na medida em que
A teoria contemporânea da democracia não é uma mera descri- tal ideal, contido na teoria "clássica", diferiu das realidades existen-
ção do modo como operam certos sistemas políticos. Ela implica que tes. Os^críticosjia^teoria contemporânea concordam amplamente
esse é o tipo de sistema que deveria ser valorizado, e inclui uma série quanto à natureza desse ideal. Todos concordam que o máximo de
de padrões ou critérios pelos quais um sistema político pode ser participaçãojor parte de todo^o^pQ^^serij^jejI^ntõ^ceffiãl; de
/ considerado "democrático". Não é difícil de constatar que para os modo mais geral, como coloca Davis (1964), seria o ideal do
"homem democrático racional, ativo e informado" (p. 29). Contudo,
14. Praticamente qualquer texto recente sobre democracia fornece um exemplo da teoria embora eles concordem quanto ao conteúdo desse ideal, apenas um
contemporânea, mas pode-se ver, por exemplo Almond e Verba (1965), Lipset (1960), Mayo dos críticos, Bachrach, toca de leve na questão crucial de saber se os
(1960), Morris Jones (1954), Milbrath (1965), Plamenatz (1958). Para exemplos de críticas da
teoria contemporânea, ver Bachrach (1967), Bay (1965), Davis (1964), Duncan e Lukes (1963), teóricos da democracia contemporânea não estavam certos em rejei-
Goldschmidt (1966), Rousseas e Farganis (1963) e Walker (1966). tar aquele ideal, em função dos fatos empíricos disponíveis. Como

26 27
assinalam Duncan e Lukes (1963, p. 160), a evidência empírica pode tiver sido exposto poder-se-á enfrentar a questão de saber se a revi-
nos levar a modificar as teorias normativas sob certas circunstâncias, são normativa da democracia é ou não justificável. É para o mito que
se bem que eles acrescentam que, no que concerne à modificação do nos voltamos agora.
ideal, "é preciso mostrar exatamente como e por que se tornou im- A primeira coisa a fazer é definir quem são esses teóricos clás-
provável ou impossível atingi-lo. Isso não foi feito em lugar ne- sicos. É claro que existe uma grande variedade de nomes para esco-
nhum". Por outro lado, os críticos da teoria contemporânea também lher, e para fazer a escolha devemos começar pelo ponto de partida
não mostraram como ou por que é possível atingir-se o ideal.15 Tal- mais óbvio: a definição de democracia clássica de^Sçhumgeter. Ele1
vez Sartori esteja certo ao argumentar que é um engano procurar definiu o método democrático clássico como o "arranjo institucional
razões para a falta de interesse e de atividade em política por parte da para se chegar a decisões políticas, o qual realiza o bem comum,
maioria; talvez os teóricos da democracia contemporânea estejam fazendo c2HL9ue«5 própjJQ.poyjiLdgcida quesjõej_ajrjiy^§_daj£lejgab
certos ao salientarem a fragilidade dos sistemas políticos democráti- de indivíduos,os quajs^.ey.em.reunir^ie^m^ssembléias para execu-
cos e a "improbabilidade calamitosa" de que a combinação certa de tar_a vontade desse povo^, (1943, p. 250). Schumpeter refere-se à
pré-requisitos para a estabilidade ocorra em apenas alguns poucos teoria "clássica" como uma teoria do "século XV111" e diz que ela se
países, se tanto. desenvolveu a partir de um protótipo em pequena escala; e também
O motivo para que a natureza das críticas da teoria da democra- a chama de "utilitária" (pp. 248 e 267). Assim, tomando tais indica-
cia contemporânea seja inconclusiva reside no fato de que também ções como orientação, chegamos aos nomes de Rousseau, os dois
os críticos aceitaram a formulação do problema feita por Schumpe- Mill e Bentham, que de fato merecem o título de teóricos "clássicos"
ter. Eles tendem a aceitar a caracterização da teoria "clássica" feita da democracia. Todavia, se a identificação da teoria de qualquer des-
pelos escritores que eles estão criticando e, como eles, tendem a ses autores com a definição de Schumpeter parece duvidosa, con-
apresentar um modelo composto dessa teoria sem fornecer as fontes cluir que a teoria de todos eles, assim como talvez a de outros auto-
de onde ela derivou, ou tendem a referir-se indiscriminadamente a res, poderia se mesclar de alguma forma para divulgar a definição de
uma lista bem variada de teóricos.1 E, um ponto mais importante, Schumpeter seria mais curioso ainda. Schumpeter argumenta que,
eles não questionam a existência dessa teoria, embora discordem para que o método político "clássico" funcione, "cada um teria
quanto a sua natureza. Do que nem os críticos nem os defensores se que saber, de modo absoluto, o que ele quer dizer... uma conclusão
clara e imediata quanto às questões particulares teria que ser dedu-
é um m/í<2._Nenhum dos lados em^ disputa fez o óbvio, e o necessário: zida de acordo com as regras da inferência lógica... o cidadão exem-
examinar em detalhes aquilo que os teóricos anteriores tinham de plar teria que realizar tudo isso por si próprio, independentemente
fato a dizer. Devido a isso, continua o mito da teoria "clássica", e o dos grupos de pressão e propaganda" (pp. 253-4). Ele faz duas críti-
ponto de vista dos teóricos anteriores da democracia e a natureza de cas principais à teoria "clássica" que são de particular relevância
suas teorias são constantemente deturpados. Apenas quando o mito aqui. Em primeiro lugar, tal teoria é irrealista e exige do__homgm
comum*úmlãrvêT3è racionàficllde simpTêsmMtê"impõsTível. Schum-
15. Bachrach (1967) comenta por que deveríamos conservar o ideal, mas fornece apenas
sujestões genéricas sobre como fazer para realizá-lo, e nenhuma evidência para mostrar se é pelo homem comum, em seu cotidiano, são "reais" no sentido com-
ou não possível atingi-lo.
16. Duncan e Lukes são uma excessão, pois eles tomam J. S. Mill como seu exemplo de
pleto da palavra, e a política em geral não pertence a essa categoria.
teórico "clássico". Walker, após objetar que em geral não se deixa muito claro quais Normalmente, quando o homem comum se depara com assuntos
os teóricos que se tem em vista, faz uma apresentação breve do que seria a teoria "clássica" políticos, "perde completamente... a noção da realidade", e se des-
baseando-se principalmente no artigo de Davis, o qual, depois de fornecer uma lista bem
variada de escritores, não indica no texto de quais teóricos específicos ele tira seu material. loca para um nível mais baixo de desempenho mental assim que
Bachrach também refere-se de modo indiscriminado aos "teóricos clássicos". ingressa no campo da política". Em_segundolugar, Schumpeter^ar-^

28 29
ignoraOjcgnçeito^de Em vista disso, talvez se possa inferir que os dois teóricos es-
^ ^
liderança ^p7^58^Srê~270)TSê^^ãrãcterizãçãõ*qüe esse autor faz peravam que os eleitores tomassem cadJdicÍsãalS_aJinfluênciaTda
Ba Teoria "clássica", e o que ela exigiria do cidadão comum, estiver "propaganda", e,que.formassem-suasopiniões.pelaJógic.a,,c.omo,diz
correta, então, sem dúvida, haveria uma boa dose de validade em Schumpeter,masjienhurn dos dois autores tinha_a_exp_eclativa de que
suas críticas. Schumpeter, porém, não apenas faz uma falsa repre- ajLOpiniões se formassem novácuo. De fato, Bentham dá bastante
sentação daquilo que os assim chamados teóricos clássicos tinham a ênfase à opinião pública e à necessidade que o indivíduo tem de
dizer, como também não se dá conta que podem se encontrar duas levá-la em consideração. Assinala uma vantagem que um eleitor tem
teorias bem diferentes sobre democracia nos textos deles. Para sus- numa democracia, qual seja: "ele não pode se relacionar com nin-
tentar tal discussão é preciso que se examine a obra dos quatro teóri- guém sem travar contato com os que... estão prontos a comunicar a
cos "clássicos". Por enquanto, apenas Bentham e James Mill serão ele o que sabem, viram, ouviram ou pensaram. Os registros anuais...
brevemente abordados. As teorias de Rousseau e de J. S. Mill serão a descrição de todos os funcionários públicos... têm um lugar em sua
examinadas em detalhe no próximo capítulo. mesa juntamente com o seu pão diário".20 Mill ressaltava a importân-
Bentham e James Mill fornecem exemplos de autores de cujas
cia de se educar o eleitorado para um voto socialmente responsável e
teorias poder-se-ia extrair algo que se assemelhasse à defini-
pensava que o principal aspecto dessa educação residia no fato de
ção da teoria "clássica" de Schumpeter. Bentham, em seus últimos
que as classes trabalhadoras, ao formarem suas opiniões, tomavam a
escritos, nos quais defendia o sufrágio universal, o voto secreto e
parlamentos anuais, esperava que o eleitorado exercesse um certo "sábia e virtuosa" classe média como seu grupo de referência e, por
grau de controle sobre os seus representantes. Ele desejava que tais isso, votariam de modo responsável. Tanto Mill quanto Bentham não
representantes fossem chamados "deputados"; com esta palavra, viam o eleitorado da forma que Schumpeter lhes imputava.21 E o
dizia, "indica-se o óbvio, sendo essa a palavra apropriada",17 e as mais importante: a preocupação principal deles era mais com a es-
funções "locativa" e "alocativa" seriam as mais importantes para o colha de bons representantes (líderes), do que com a formulação das
eleitorado desempenhar. Na maior parte das questões, isso implica opiniões do eleitorado, enquanto tais. Bentham esperava que os cida-
que o eleitorado tem uma opinião quanto às políticas que são de seu dãos menos capacitados para avaliar as qualidades morais e intec-
interesse e de interesse universal, e, portanto, uma opinião a respeito tuais de um futuro representante pediriam o conselho dos competen-
de quais políticas devem receber a aprovação de seus delegados. tes, e que o próprio representante, quando houvesse oportunidade,
Para Bentham e Mill, o "povo" significava as "classes numerosas", o influenciaria seus eleitores com seu discurso; ele está lá para promo-
único grupo capaz de funcionar como um obstáculo à realização de ver o interesse universal. O eleitorado poderia escolher o melhor
interesses "sinistros" por parte do governo. Uma vez que o interesse representante sem a necessidade de possuir os princípios "lógicos"
do cidadão reside na segurança contra um mau governo, diz Bent- sugeridos por Schumpeter. O fato de que Bentham e Mill tivessem a
ham, esse cidadão tomará atitudes de acordo com isso e "quanto à expectativa de que todo cidadão se interessasse por política, porque
gratificação de qualquer desejo sinistro à custa do interesse univer- isto seria de seu mais alto interesse (e pensavam que ele pode ser
sal, ele não pode esperar a cooperação e o apoio de um grande nú- educado para isso), não é incompatível com algum tipo de "influên-
mero de cgpcidjdjgs".18 James Mill dizia que as simpatias do povo cia" sofrida, nem implica que cada cidadão tome uma decisão dis-
estão com alguns, mas "não com aquelas parcelas externas cujos creta a respeito de cada item de política, com base na evidência
interesses estão em competição com os deles". 19
20. Bentham, 1843, vol. IX, livro I, cap. XV, §V, p. 102. A respeito da importância da opinião
17. Bentham, 1843, vol. IX, livro II, cap. V, §1, p. 155. pública na teoria de Bentham, cf. Wolin, 1961, p. 346.
18. Idem, ibidem, vol. IX, livro I, cap. XV, §IV, p. 100. 21. Wolin, 1961, p. 332, enfatiza o papel das paixões assim como da razão nas teorias
19. Apud Hamburger, 1965, p. 54 utilitaristas.

30 31
lógica mais completa, em total isolamento de todas as suas outras importante da teoria democrática; seria absurdo tentar negá-lo, ou
questionar a contribuição de Bentham — ou de Locke — à teoria e à
decisões e das opiniões de outros. prática da democracia atual. Contudo, deve-se notar que a teoria do
Contudo, como já se notou, existe uma similaridade entre as
teorias de James Mill e de Bentham e o que Schumpeter chama de governo representativo não representa toda teoria democrática,
"teoria clássica", por uma razão bem significativa. Assim como este como sugerem muitas obras recentes. A verdadeira importância da
último, Mill e Bentham ocupam-se quase exclusivamente com os influência de Schumpeter é que ela dissimulou o fato de que nem
"arranjos institucionais" nacionais do sistema político. A participa- todos os autores que gostariam de ser chamados de teóricos "clássi-
ção do povo tem uma função muito reduzida, assegura que o bom cos" da democracia adotaram o mesmo pontó de vista a propósito do
governo, isto é, "o governo voltado para o interesse universal", se papel da participação. Nas teorias de J. S. Mill e Rousseau, por j
exejnijlo^jijjarticipacão revHã^^ l
\ realize por meio da sanção da perda do mandato. Para Bentham e
Mill, portanto ,_â_gartkipação tmhaumafunçãoa^^ãi^õEtSiaj fundamental para o estabelecimento e manutençãojo^Estadp demo: j
MLÇgurayjJgroteção aos interesses_privados de cada cidadão^^sendp cr3Hcõ~EsS^esse considerado não apenasjxjmo um conjuntojte',1
'instituiççjejn^grj^ejiM
o interesse_jmiyj22;«i^^ neijiejsotiejiadejj^
Suas teorias podem ser classificadas como "democráticas" porque
eles pensavam que as "classes numerosas" somente eram capazes de ^ á claro no groximo^apítuloyor isso, farei referências a teóricos, \
defender o interesse universal e, em conseqüência, advogavam a par- exemplo de Rousseau, como teóricos da democracia participativa.
ticipação (voto e discussão) de todo o povo.22 Outros teóricos, no Devido a existência dessa diferença, não faz sentido falar de
entanto, sustentaram que a participação é necessária devido à sua um^eoriaj^jássica^daldêrnõcracia. Mesmo porqueTãlsTiferençãs
função protetora, sem com isso afirmar que todo o povo deve parti- reforçam o mito clássico de que os críticos da teoria contemporânea
cipar. Não há nada de especificamentedemocr^^o_numaJtaLidsão da democracia nunca explicaram com exatidão qual o papel da parti-
daj™ção_j:yy3articjpã^ papel cipação nas teorias anteriores, ou porque lhe era atribuído um valor
similar na teoria deLõcTEè — que estava longe de ser um democrata tão alto em algumas teorias. Isso só pode ser feito por um exame
(mesmo que Milbrath o tenha considerado um dos inequívocos "de- detalhado das teorias em questão. Davis (1964) dizia que a teoria
"clássica" (ou seja, a teoria da democracia participativa) tinha um
mocratas clássicos".23 propósito ambicioso, "a educação de todo um povo até o ponto em
Como vimos, os formuladores da teoria da democracia contem-
porânea também encaram a participação exclusivamente como um que suas capacidades intelectuais, emocionais e morais tivessem
dispositivo de proteção. Segundo eles, a natureza "democrática" do atingido o auge de suas potencialidades e ele tivesse se agrupado,
sistema reside em grande parte na forma dos "arranjos institucio- ativa e livremente, numa comunidade genuína", e que a estratégia
nais" nacionais, especificamente na competição dos líderes (repre- para alcançar este objetivo seria por meio do uso da "atividade polí-
sentantes potenciais) pelos votos, de modo que os teóricos que sus- tica e do governo com vistas à educação pública". Entretanto, mais
tentam tal visão do papel da participação são, antes de mais nada, adiante ele afirma que o "negócio pendente" da teoria democrática é
teóricos do governo representativo. Sem dúvida, este é um aspecto "a elaboração de planos de ação e prescrições específicas que pro-
porcionem uma esperança de progresso, no sentido de um Estado
22. Hamburger (1962) oferece argumentos convincentes de que Mill não era favorável à genuinamente democrático" (pp. 40-1). É justamente isso que se
restrição do sufrágio às classes médias, como se diz freqüentemente. pode ver nas teorias do que se escrevem sobre a democracia partici-
23. Milbrath, 1965, p. 143. Examinando a descrição que Milbrath faz da teoria de Locke, ele
parece tê-lo confundido com Rousseau! Sobre esse aspecto da teoria política de Locke, ver
pativa: uma série de prescrições específicas e planos de ação neces-
Seliger (1968), caps. 10 e 1 1 . Hegel também dá uma justificativa filosófica da participação em sários para se atingir a democracia política. E isto se efetua por meio
sua teoria política, e Burke admite que ela é necessária para o bom governo, mas nenhum da educação pública", a qual, no entanto, depende da participação
desses autores inclui toda a população no eleitorado.

33
32
Sistema integrado
em muitas esferas da sociedade na "atividade política", entendida II de Ríhho?.ecüs/UFES
num sentido bastante abrangente. N»
Até que a teoria da democracia participativa tenha sido exami-
nada em detalhes e forem estabelecidas as possibilidades de sua rea-
lização empírica, não podemos saber a dimensão nem que tipo de ROUSSEAU, JOHN STUART MILL E G. D. H.
"negócio pendente" restou para a teoria democrática. O primeiro COLE: UMA TEORIA PARTICIPATIVA DA
passo para essa tarefa é considerar a obra de três teóricos da demo- DEMOCRACIA
cracia participativa. Rousseau e John Sníart Mill são os dois primei-
ros exemplos de teóricos "clássicos" da democracia, cujas teorias
nos fornecem os postulados. Básicos de uma teoria da democracia
participativa. O terceiro é G. D. H. Cole, um teórico político do
século XX, que esboçou em seus primeiros escritos um plano deta-
lhado de uma sociedade participativa na forma de um socialismo de Rousseau pode ser considerado o teórico por excelência da par-
guildas (Guild Socialism). Entretanto, esse plano é, em si, de impor- ticipação. A compreensão da natureza do sistema político que ele
tância menor; a obra de Cole tem significado porque ele desenvolveu descreve em O contrato social é vital para a teoria da democracia
uma teoria da democracia participativa que não apenas incluía e am- participativa. Toda a jeoria política de Rousseau apóia-se na partici-
pliava os postulados básicos, mas inseria-se no contextp de uma so- pação individual de cada cidadão no processo político de tomadade
ciedade moderna, de grande escala e industrializada. / decisões, e, em sua teoria, a participação é bem mais do que um
complemento protetor de uma série de arranjos institucionais: ela
_
segurando urna inter-relação contínua entre o funcionamento das
institujcães_e_as_qualidaç[ês_e_atitudes psicológicas dos indivíduos
que,intexagerjrdentco_delas~É a ênfase nesse aspecto da participação
e sua posição no centro de suas teorias que constituem a contribuição
distintiva dos teóricos da democracia participativa para a teoria de-
mocrática como um todo. Embora Rousseau tenha escrito antes do
desenvolvimento das instituições modernas da democracia, e mesmo
que sua sociedade ideal seja uma cidade-Estado não industrial, é em
sua teoria que se podem encontrar as hipóteses básicas a respeito da
função da participação de um Estado democrático.1
A fim de entender o papel da participação na teoria política de
Rousseau, é essencial que se compreenda bem a natureza de seu

1. O sistema político descrito em O contrato social não é uma democracia segundo o uso
24. Bachrach (1967, cap. 7) coloca-se a favor de uma ampla interpretação do termo "polí- que Rousseau faz do termo. Para ele, "democracia" seria um sistema onde os cidadãos são
tico", mas não se dá conta de que isso se relaciona aos argumentos dos teóricos anteriores. executores de leis qiie_ele.s_rnesmos tizeram. e. por esse-motivo. seria umTsistema próprio
Assim, ele comete uma incorreção ao observar que, "ao salientar a importância da ampla arjenag.para-QS-dêuses,(livro Iü, cap. 4). Deve-se notar neste ponto que pelo fato de o sistema
participação na tomada de decisões políticas, [a teoria 'clássica'] não apresenta linhas de conduta de Rousseau serdireto, e não representativo, não se ajusta à definição de teoria democrática
realistas para o cumprimento de suas prescrições nas grandes sociedades urbanas" (p. 99). "clássica" de Schumpeter.

34 35
!
-<Sl|témá polític^participativo ideal, uma vez que tal sistema foi ob- situação política que"eles mesmos criaram, e que essa situação cons-
jeto de interpretações muito divergentes. Em primeiro lugar, Rous- titui-se de tal forma que impossibilita "automaticamente" a existên-
seau afirmava quefcertas condições econômicas eramnecessárias cia de governantes individuais. Isso acontece porque os cidadãos são
para um sistema participativo. Como é sabido, Roussèãíraêtenaíã" iguã^ masCindgpéndêntlS , ou seja, não dependem de ninguém para
uma sociedade formada poirpequenos proprietários camponeses^)ou votar ou opinar, de modo que na assembléia política nenhum cidadão
seja, defendia uma \spciedade onde houvesse igualdade e inde- precisa votar a favor de qualquer política que não seja de seu inte-
pftndência_^cgjiômica^ Sua teoria não^êxígeigualdadeZ^absoluta, resse ou do interesse dos outros. O indivíduo X não vai conseguir
como muitas vezes se afirma, mas destaca que as diferenças existen-_ persuadir os outros a votarem em sua proposta que favorece apenas
dgtes não deveriam conduzir à desigualdade política. Em termos ideais, o próprio X. Em uma passagem significativa do Contrato social,
dêverià™êxisfiruma situação em que "nenhum cidadão fosse rico o Rousseau pergunta: "Por que é sempre certa a vontade geral e por
bastante para comprar o outro e em que nenhum fosse tão pobre que que desejam todos constantemente a felicidade de cada um, senão
tivesse que se vender", 4^exigênciajyital seria a de que todo homem por não haver ninguém que não se aproprie da expressão cada um e
possuísse alguma_rjropriedadè\— o mais sagradcTdos direitoíTdb não pense em si mesmo ao votar por todos?".3 Em outros termos, a
cidadão —, pois a segurança e a independência que ela confere ao única política a ser aceita por todos é aquela em que os benefícios e
indivíduo constituem a base necessária sobre a qual repousam sua encargos são igualmente compartilhados^p^grocesso de,participaçãp
/Q igualdade_e_sua independênciilpõEticas. aSê^üW^uFã"igüãIdã3e política seja efetivada nasjassembléias em
Se existissem tais cojidigões.Los cidadãos poderiam agrupar-se qué^asTíêcisoes jao tomadas. O principal resultado político é que a
enquanto indjyjduosiguaij^e independentes,jnas_Rousseau também vontade gêrãTé7 tautologicamente, sempre justa, (ou seja, afeta a
x2l.quOTafluejjfilaçãfl..entte eles fosse de^nterdependênçl%?lalgo neces- todos de modo igual), de forma que os direitos e interesses indivi-
sário para se preservar a igualdade e a independência. Este argu- duais são protegidos, ao mesmo tempo que se cumpre o interesse
mento não é tão paradoxal quanto parece, porque a situação partiçi- público. A lei "emergiu" do processo participatório, e é a lei, e não os
j pativa é tal que cada cidadão seria impotente para realizarjjualqiier 4
) coisa sem a cooperaçãõ~3e todos os outros, ou dajnaioria. Cada
R o u s s u cons5erava~que a\sítuãção i
cidadão estaria, como colocáTRousseau.^em uma excessiva depen-
decisõeseria a quee pão contassejxjm_a_rjresgnça de grupos
^dêncjâ-da-pó/w" (livro U, cap. 12, p. 69 da edição brasileira citada),
züdõs, apenas indivíduosApois os primeiros poderiam querer que
ou seja, haveria uma dependência igual por parte de cada indivíduo
prevalecessem suas "vontades particulares". A observação de Rous-
em relação a todos os outros, vistos coletivamente como o soberano,
seau a respeito de grupos resulta de modo direto daquilo que ele
e a participação independente constitui o mecanismo pelo qual essa
interação é reforçada. O seu modo de funcionamento é ao mesmo te afirma acerca da operação do processo participatório. Reconhecia
mpo simples e sutil. Pode-se ler O_contrato social como uma elabo-
raçãojiajdéiauie.,que._asjeis, e não os homens, devem governar, mas 3. Rosseau, 1968, livro II, cap. 4, p. 75 (p. 49, ed. bras.). Ver também à página 76 (p. 50, ed.
bras.), "nessa instituição (a vontade geral) cada um necessariamente se submete às condições
uma forrnulaçmajnda melhor_do_p_apel da particlpãçaõ~e~ãrdê^ que que impõe aos outros".
os homens^dey-em-ser-g-o-V-ernadQsjela lógica da operação da 4. A propósito da definição "clássica" de Schumpeter, é um tanto errôneo dizer que os
cidadãos de Rousseau decidem "questões". O que eles fazem ao participar é fornecer a
resposta adequada a um problema (ou seja, a vontade geral). Não haverá necessariamente
2. Rousseau, 1968, livro II, cap. H, p. 96, e 1913, p. 254. [A citação não corresponde; não foi uma resposta correta a uma "questão" do modo como entendemos o termo nas condições
possível localizar a passagem precisa, seja no Contrato social, seja em outras obras de políticas atuais. Tampouco seria requerida uma habilidade de fazer "inferências lógicas".
Rousseau. Para a tradução dos trechos citados de Rousseau utilizou-se a existente da Editora Bem ao contrário, o ponto central da situação participativa consiste em que cada indivíduo
Abril, "Os Pensadores", trad. de Lourival Gomes Machado, São Paulo, Abril Cultural, 1983. independente, mas interdependente, é "forçado" a admitir que existe apenas uma resposta
Em alguns casos optou-se por uma versão própria a partir do original em francês. (N.T.)] correta para aplicar a palavra "cada" a si mesmo.

36 37
ele que as "associações tácitas" ocorreriam inevitavelmente, isto é, (yvê-se "forçado" a deliberar de acordo com o seu senso de justiça, de
que indivíduos não organizados estariam unidos por alguns interes- acordo com o que Rousseau chama de "vontade constante", pois
ses comuns, mas que seria muito difícil que tais associações tácitas seus concidadãos podem sempre resistir à implementação de deman-
obtivessem apoio para políticas que as favorecessem especialmente, das não-eqüitativas. Como resultado de sua partipação na tomada de
devido à própria forma como se dá a participação (1913, p. 237). Caso decisões, o indivíduo é "ensinado a distinguir entre seus próprios jm-
fosse impossível evitar as associações organizadas dentro das comu- pulsos e desejos, aprendendo a ser tanto um cidadão público quanto
nidades, então, diz Rousseau, elas deveriam ser tão numerosas e de pjiyãdp^ Rousseau também acredita que, por meio desse processo
poder político tão igual quanto possível. Ou seja, a situação partici- de aprendizagem.) o indivíduo acaba por não sentir quase nenhum/
pativa dos indivíduos se reproduziria com os grupos, e ninguém po- conflito entre as exigâncias_dasxsferas-púbJÍ£aje^priyada^ Uma vez
deria vencer à custa dos outros. Rousseau não diz nada, como se estabelecido o sistema participativo (e este é um ponto da maior
poderia esperar, a respeito da estrutura interna de autoridade de tais importância), ele se torna auto-sustentável porque as qualidades exi-
grupos, mas sua análise básica do processo participativo pode ser gidas de cada cidadão para que o sistema seja bem-sucedido são aquelas
aplicada a qualquer grupo ou associação.5 que o próprio processo de participação desenvolve e estimula; quanto
A análi§e-da_operação do sistema participativo de Rousseau mais_p cidadão participa, mais ele se torna capacitado para fazê-lo. Os
esclarecefdpis pontos: emprimeiro lugar, que, para Rousseau, a "par- resultados humanos obtidos no processo de participação fornecem uma
ticigação" acontece na tomada de decisões; em segundoTúgãr, que importante justificativa para um sistema participativo.
ela constitui, como n Outro aspecto do papel da participação na teoria de Rousseau é
ajjsjreitajigacão entre participação e controle, e isto se vincula à
Porém, a participação é também muito mais do que isso na teoria de noção de liberdade do autor. Aqui, não precisamos fazer uma discus-
Rousseau. Plamenatz (1963) disse que Rousseau "nos vira a cabeça... são completa a respeito do uso que Rousseau faz deste último con-
e nos faz considerar como a ordem social afeta a estrutura da perso- ceito, basta dizer que ele está vinculado de maneira <íridj:]éyef ao
nalidade humana" (v. I, p. 440), e que a principal preocupação do processo de participação. Talvez as palavras mais famosas ou conhe-
autor era com o impacto psicológico das instituições sociais e políti- cidas de Rousseau refiram-se ao fato de que um homem pode ser
cas: que aspectos do caráter humano fazem com que se desenvolvam "forçado a ser livre"; ele também definiu liberdade como "a obediên-
instituições especificas? Aqui,jij)rincipal variável é saber se a insti- j • * ' í~ rj

cia à le^que alguém prescreve a si mesmo". As interpretações mais


— . _ .,

tuição é _o^r^pjrticipjiti_y^p^i£ã^
_ fantasiosas e sinistras a respeito da primeira frase não teriam sido
teoria de Rousseau ^educativa, considerando-se o termo ^educação" possíveis se o conceito de liberdade de Rousseau tivesse sido colo-
em sèií sentido mais amplo. O sistema ideal de Rousseau é conce- cado, de uma vez por todas, no contexto da participação, pois o modo
bido_para desenvolver uma ação respôlislveTrindividual,~sõcial e
política como resultado do processo participativo. Durante esse pro- 6. A criação de situações que "forcem" o indivíduo a aprender sozinho é a base da teoria da
cesso o indivíduo aprende que a palavra "cada" aplica-se a ele educação de Rousseau; ver as observações a respeito de Émile e de Nouvelle Héloíse em
mesmo; o que vale dizer que ele tem que levar em consideração Shklar, 1964. Os outros métodos de ensinar a cidadania defendidos por Rousseau (por
exemplo, as cerimônias públicas) parecem derivar de seu pessimismo e não constituem parte
assuntos bem mais abrangentes do que os seus próprios e imediatos necessária da teoria. No máximo operam no mesmo sentido da participação, mas não a
lnt
£íüsses privados, caso queira a cooperação dos outros; e ele substituem. A instituição do legislador pode ser vista como uma resposta ao problema de qual
seria o primeiro passo a ser dado numa situação participativa; já a natureza de auto-sustenta-
~ ligados. A ção do sistema político participativo, segundo os próprios argumentos de Rousseau, constitui-
lógica de operação do sistema participativo é tal que o indivíduo ria uma excessão ao seu ponto de vista de que todos os governos tendem, no fim, a
"degenerar".
7. Rousseau, 1968, op. cit., livro I, cap. 7, p. 64 (p. 368, ed. bras.) e livro I, cap. 8, p. 65 (p.
5. Rousseau, 1968, livro n, cap. 3, p. 73 (pp. 47-8, ed. bras.). Ver também Barry, 1964. 37, ed. bras.).

38 39
*- £> " l
i, -£ pelo qual um indivíduo pode ser (forçaidpJlajser livre é parte_cpnsti- unia observação nova, quando se refere a ele como o ideal de um
• ° tuinte do mesmo processo pelo qual ele é "forçosamente" educado lacaio e, talvez por isso, não merecesse uma consideração mais séria
/a atrãvies^ã participação na tomada de decisões. Rousseau argumenta — no entanto, trata-se de um desvirtuamento muito gjande da idéia.9
'que; ã menos que cada indivíduo seja "forçado" a agir de modo Na oitava Carta da montanha, Rosseau diz que a Jiberdad| consiste
socialmente responsável através do processo participatório, não po- "moins à faire sã volonté qu'a n'être pás soumis à cellêTautrui; elle
derá haver nenhuma lei que assegure a liberdade de todos, ou seja, consiste encore à ne pás soumetre Ia volonté d'autrui à Ia nôtre.
não poderá existir nenhuma vontade geral ou qualquer tipo de lei Quiconque est maitre ne peaut être libre"(1965, vol. II, p. 234).* Ou
justa que o indivíduo possa prescrever a si mesmo. Embora o ele- seja, ninguém precisa^ser senhor^de ninguém; contudo^ quandojil- \
mento subjetivo no conceito de liberdade de Rousseau — o de que guém é jono de si mesmo e da própria vida, a liberdade é^ntão )
sob uma lei como essa o indivíduo vai se sentir sem restrições, vai se salientada pelo controle sobre ès^vK^exi@dã^àntesjue_sejgossa_
sentir livre — tenha sido bastante comentado, geralmente se esquece déscfêvêf~õ~"ifíaivíduo como^gu^ "próprio senhor". Em segundo
que aí também existe um elemento objetivo envolvido (o que não "lugar, ô~pfõcesso participatório assegura que, ainda que nenhum
quer dizer que se aceite a definição de liberdade de Rousseau en- homem ou grupo seja senhor de um outro, todos são igualmente
quanto obediência). Tanto_a_sensação de liberdade dependentes entre si e igualmente sujeitos à lei. O domínio (impes-
dujMjuantosua liberdade efetivã^umentam por sua participação na soal) da lei, que se torna possível através da participação, e sua cone-
xão com o fato de "ser próprio senhor" nos fornecem mais um indí-
realde^contmle sobre o curso djTtgTfflfe sobre a estrutura dõ~mêTo cio no que concerne à razão pela qual Rousseau pensa que os
<pn^ue_vive. Caso seyã necessário um sistema !MiMõ7^rgumêníã~~ indivíduos irão aceitar conscientemente uma lei resultante de um
também Rousseau, a liberdade exigiria que o indivíduo exercesse processo participatório de tomada de decisões. Em termos mais ge-
uma boa dose de controle sobre os que executam as leis e sobre os rais, torna-se possível agora visualizar uma segunda função da parti-
representantes. Na introdução a sua recente tradução do Contrato cipação na teoria de Rousseau: ela permite que as decisões coletivas
social, Cranston critica Rousseau por nunca encarar, nessa obra, as sejam aceitas mais facilmente pelojndivíduo.
instituições como uma ameaça à liberdade (Rousseau, 1968, p. 41). Rousseau,sugeEe^ ainda que a participação possui urnaterceira
Tal crítica é um contra-senso. As instituições participativas do Con- função, a de^ntegração^^ela fornece asensação de que cada
trato social não podem ser uma ameaça à liberdade exatamente pela ^ sua comunidade. Em certo sentido, a inte-
ir lógica de sua operação, pela inter-relação entre a estrutura de autori- gração deriva de todos os fatores até agora mencionados. Por exemplo,
dade das instituições e as orientações psicológicas dos indivíduos. Toda
a argumentação de Rousseau diz que as instituições não-participativas 9. Rousseau, 1968, p. 42. A crítica mais comum à idéia de liberdade de Rousseau é que ela
(existentes) suscitam essa ameaça; na verdade, elas tornam a liberdade seria potencialmente "totalitária", ou pelo menos antilibertária, e que ela tem pouco a ver com
a noção de liberdade "negativa", a qual, por sua vez, é vista com freqüência como a única
impossível — em toda a parte os homens estão "a ferros". As institui- forma de liberdade compatível com a democracia. Está implícita na presente discussão a
ções ideais descritas no Contrato social são ideais porque Rousseau rejeição da idéia de que existam duas concepções diferentes de liberdade e de que Rousseau é
um defensor inequívoco da noção "positiva". Também rejeita o ponto de vista segundo o qual,
considera que seu funcionamento.garante^jiberdade. ao falar de ser seu próprio senhor, Rousseau estaria se referindo apenas ao domínio do
Para Rousseau, a participação podeaumentar o indivíduo sobre sua própria "natureza inferior". Este elemento está presente em Rousseau,
dade para o indivíduo, capacitando-o a ser (e permanecer) seu pró- mas sugerir que o conjunto de sua teoria consiste nisso é exatamente equivocado. Semelhante
interpretação só se torna possível quando se ignora todo o contexto participatório da discussão
jprio senhor. Como o restante da teoria de Rousseau, o conceito de de Rousseau sobre a liberdade. A respeito da interpretação criticada, ver especialmente
"ser seu próprio senhor" foi bastante criticado, embora Craston faça Berlin, 1958; ver também Talmon, 1952.
* "Menos em fazer a sua vontade do que em não estar submetido à de outro; ela consiste
ainda em não submeter a vontade de outro à nossa. Quem quer que seja senhor não pode ser
8. Ver Rousseau, 1968, livro IH, cap. 18, p. 148, e 1953, pp. 192 segs. livre." (N.T.) -'

40 41
a igualdade econômica básica significa que não existe uma divisão "nos quais estive trabalhando durante a maior parte da minha vida"
abrupta entre o rico e o pobre, não existem homens como aquele — , que um dos maiores perigos para a democracia reside no "sinistro
mencionado, com desaprovação, por Rousseau em Émile, que, per- interesse dos que detêm o poder: trata-se do perigo de uma legislação
guntado a que país pertencia, respondeu: "Pertenço ao país dos classista... E uma das mais importantes questões a exigir considera- '®
ricos" (1911, p. 313). Mais importante é a experiência da participa- cão... é de que maneira fornecer garantias eficazes contra esse
ção na própria tomada de decisões, e a complexa totalidade de resul- mal".10 Para Mill, no entanto, a noção de "bom governo" de Benthani
tados a que parece conduzir, tanto para o indivíduo quanto para o resolve apenas parte do problema. Mill distingúiãrdõls^ aspectos de^i
sistema político como um todo; tal experiência integra o indivíduo a imi^orn^govemp. O primeiro, "até que ponto ele promove a boa
sua sociedade e constitui o instrumental para transformá-la numa administração dos assuntos da^sociedade por meio das faculdades
verdadeira comunidade. mõrãís, intelectuais e ativas que existem em seus vários membros",
O exame que fizemos da teoria política de Rousseau nos pro- e esse critério para um bom governo relaciona-se ao governo visto
aveu cJcTãrgumento de que hl umaJnter-relaçtto~éTTflF'ã^gs1nituras de como "uma série de arranjos organizados para o negócio público"
^tõlidjdejãsjnstituições e aT^ü^Ggãaj^ê^Snjd^FpsJTOlóffcas (1910, pp. 208 e 195). Mill criticava Bentham por construir sua teoria
dos indivíduos; e do grguinento relacionadoaeste,dejque a principal política sobre a suposição de que tal aspecto constituísse a totalidade.
toição da participação tem caráter edjc^y^}l^s~ã7gümento^ror- No ensaio sobre Bentham, ele escreveu que tudo o que este
mam a base da teoriã~da democracia participativa, que se tornará poderia fazer seria
clara a partir da discussão das teorias de J. S. Mill e Cole. As teorias
desses dois autores reforçam os argumentos de Rousseau quanto à par- apenas indicar os meios pelos quais, em qualquer Estado de espírito
ticipação, porém, de maneira mais interessante, a teoria dajiemoçracia nacional, os interesses materiais da sociedade podem ser protegidos;...
(sua teoria) pode ensinar os meios de organizar e regular parte mera-
participativa é retiráda^lõ^ccmtextõ^ejmiaLcjcMe-Estado de proprietá- mente"'empresarial dos arranjos sociais... Ele cometeu o equívoco de
riõs^ãmpõheses & colocada no de umjistgjna_p_Qlíticojnoderno. supor que _a parte empresarial
' ' dos ' assuntos" humanos constituía a sua
John Stuart\Mjll>, em sua teoria social e política, assim como em
outros assuntos, partiu de uma adesão fervorosa às doutrinas de seu
jwi e de Bentham, criticando-as severarnente-mais^tard.e, de tal modo Na avaliação de J. S. Mill, o aspecto^rneramente empresarial do
que ele forneceu um excelente exemplo das diferençasLentrejis teo- governo é o menos importante; o fundamental é o governo em seu
rias do governo representativo e das democracias participativas. To- outro aspecto, qual seja, o de^urnã grande influência atuando sobre
davia, Mill jamais rejeitou completamente esses primeiros ensina- a mente humana", e o critério a ser usado para julgar as instituições
mentos e, no final da vida, sua teoria política compunha-se de uma políticas sob essa perspectiva é "o grau em que elas promovem
mescla das diversas influências que o haviam afetado. Ele nunca o avanço mental geral da comunidade, entendendo-se por isto o
conseguiu sintetizá-las de uma maneira satisfatória — o que talvez avanço em intelecto, em virtude e em atividade prática e eficiência"
seja uma tarefa impossível — e isso significa que existe uma pro- (1910, p. 195). Quanto a isso, a teoria de Bentham não tem nada a
funda ambigüidade entre os fundamentos participativos de sua teoria dizer. Mill encara o governo e as instituições políticas, em primeiro
e algumas de suas propostas mais práticas para o estabelecimento de lugar e acima de tudo, como educativos no sentido mais amplo do
seu "Estado idealrnente-melhor". termo. Para ele, os dois aspectos do governo estão inter-relaciona-
Ressonâncias da visão'xutilitária,da função meramentélpnrtetãnb dos, de forma que a condição necessária para-O-bom-goverao rio
da/participação podem ser encontradas na teoria política da maturi- sentido empresarial é a promoção do tipo correto de caráter indivi-
dade de Miíl. Diz ele, por exemplo, em Governo representativo
(Representative Government) — o qual expressava os princípios 10. Mill, 1910, prefácio e p. 254. Para uma discussão desse "trabalhando", cf. Burns, 1957.

42 43
£j. . . . _ 1 Q&1
*dual, e, para tanto, são necessários os tipos corretos de instituições vfdugse ocupa somente de seus assuntos privados, argumenta, e não
(1963, p. 102). Principalmente por essa razão, não porque uma tal participa das questões públicas, sua "auto-ejtijria^£^5etajdS._assirn
forma de governo seria de interesse universal, é que Mill considera o como permanecem sem desenvolvimento suas capacidades para uma
governo, popular e democrático "idealmente o melhor Estado". ação gúbjica_resgonsável. "O homem nunca pensa em qualquer inte-
Assim, ele se posiciona^cõntraTum despotismo benevolente, o qual, resse coletivo, em qualquer objetivo a ser buscado em conjunto com
se fosse capaz de ver tudo, poderia assegurar que o lado "empresa- outros, mas apenas na competição com eles, e em certa medida à sua
rial" do governo estivesse sendo bem conduzido, pois, pergunta Mill, custa" (1910, p. 217). A "ocupação particular para ganhar dinheiro",
"que espécie de seres humanos pode ser formada sob tal regime? da maior parte dos indivíduos, faz com que eles utilizem pouco suas
Que desenvolvimento seria conseguido, tanto por sua capacidade de faculdades e tende a "fixar a sua atenção e seu interesse exclusiva-
pensar quanto por suas atividades, sob esse regime?... Suas capacida- mente sobre si mesmos, e sobre suas famílias, como apêndice de si
des morais estão igualmente atrofiadas. Onde quer que a esfera de mesmos, tornando-os indiferentes ao público... e egoístas e covardes,
ação dos seres humanos esteja artificialmente circunscrita, seus sen- em seu cuidado descomedido com seu conforto pessoal" (1963, p.
timentos acabam tacanhos e diminutos..." (1910, pp. 203-4). 230). Toda a^situação se modifica, no entanto, quando o indivíduo
Mill apenas vê a possibilidade de desenvolvimento de um tipo pode tomar parte nos assuntos públicos; neste caso, Mill, assim
de caráter "ativo", de espírito público, no contexto de instituições como Rousseau, via o indivíduo sendo "forçado" a ampliar seus ho-«
populares, participativas. Encontramos aí, de novo, alasserç|5 básica rizontes e a levar em consideração o interesse público. Em_outro,s
defendida pelos teóricos da democraciaparticipativa da inter-relação feTmps,-õ ffldivídü^lenTde "atender não apenas^a seus própriosjnte-
e conexão existentes entre osçkídivíduos, suas qualidades e caracte- fésses; de_s.e^guiar, no casp_de_reivindicações conflitantes, por outro
rísticas psicológicas, por um lado, e os tipos detmsHtúíçõe^por comando que não õ~die^uas parcialidadêsplrivadas; de aplicar, a cada
outro; a^asserçãp de que ajição sodaLe-p01íticaresponsáyet3epende vezrprincípios e máximas que têm como razão de existência o bem
em larga medida dos tipos de mstituições no interiorjia^jquais" o comum" (1910, p. 217).
indivíduo tem de agir politicamente. Como Rousseau, Mill considera Até aqui, a teoria de Mp-mQStrou-se mais_um_reforço do que
que essas qualidades se desenvolveram pela participação que existia um acréscimo à hipotêsè^eJLousseau acerca da função.educativada
anteriormente, de modo que o sistema político tem um caráter de participaçãpv No entanto, há uma outra faceta da teoria de Mill que
auto-sustentação. Mill também não considera necessário que os de fato acrescenta uma nova dimensão a essa hipótese, uma dimen-
cidadãos devam realizar aqueles cálculos lógicos e racionais que são necessária caso se queira aplicá-la a uma sociedade de larga
Schumpeter afirmava necessários. Em Governo representativo, escala. Já citei uma das análises que Mill faz da Democracia na
Mills observa que não seria uma forma de governo racional aquela ~Sméricã, de Tocqueville. Esse livro teve uma influência decisiva
5 ,que exigisse princípios "exaltados" de^conduta para motivar os ho- sobre a teoria política de Mill, em especial na parte concernente às
mensremboTa^admita que existe um certo nível de sofisticação polí^ instituições políticas locais.12 Mill ficou bastante impressionado com
tica e de espirituosidade publica nos países "avançados" aos quais a discussão realizada por Tocqueville a respeito da centralização e
essa teoria se dirige (1910, p. 253). Mill encara ajftmção educativa da Idos perigos inerentes ao desenvolvimento de uma sociedade de mas-
jgarticipaçãovquase nos mesmos termos de Rousseau. Quando ol sas (perigos que agora foram divulgados por sociólogos modernos,
também impressionados por essa análise). Na Economia política,
11. Duncan e Lukes (1963, p. 160) notam o caráter de auto-sustentação do sistema, mas Mill declara que "uma constituição democrática sem o apoio de ins-
dizem que isto decorre da posse de direitos legais, os quais tornam os homens capazes de tituições minuciosamente democráticas e restrita ao governo central
exercê-los, e portanto a se aproximarem da "autonomia moral". O argumento de Mill, claro, é
de que o exercício, e não a posse, é que importa. Sem as instituiçes participativas, a mera
posse de direitos legais provocaria poucos efeitos sobre o caráter. 12. Ver Mill, 1924, pp. 162-4, e Robinson, 1968, p. 106.

44 45
não apenas deixa de proporcionar liberdade política como freqüente- Stuart Mill nunca realrnentejejeitou essejxmto de yjsja. Uma das
mente cria um espírito exatamente contrário".13 Na crítica do volume mawK^preõcopsçôeíde MilLerísãbér como conseguir um sistema
11 do livro de Tocqueville, Mill argumenta que dejiada servem o político onde o poder estivesse nas mãos^dê" uma _elite — a-elite
sufrágio universal e a participação no governo nacional, se o indiví- educada (no sentido restrito). Um intelecto bem cultivado, pensava
duo não foi preparado para essa participação a um nível local; é neste ele, usualmente vem acompanhado de "prudência", temperança e
nfvelque ele aprende a se autogovernar. TJrnato político que apenas" justiça, e em geral de.todas as virtudes que são importantes em nosso
^ se repete com o intervalo de alguns anos, e para o qual não teve o relacionamento com os outros".14 Mill considerava como as "mais
preparo nos hábitos cotidianos do cidadão, deixa seu intelecto e suas sábias e melhores" as pessoas que haviam recebido uma boa educa-
disposições morais inalteradas" (1963, p. 229). Em outras palavras, cão(as "rnstruídas"),jis jjuais, pengava,jjeyjam ser elgitas para QCU--JJ
para que os indivíduos em um grande Estado sejam capazes de par- par_caTgos_emi todps_os nívej£polfticps. Considerava que a democra-í^
ticipar efetivamente do governo da "grande sociedade", as qualida- cia^era inevitável no mundo moderno, e que^portantp-Q problema era
-^ > dês necessárias subjacentes a essa participação devem ser fomenta- 'o devórganízar-as coisas de tal modo que as instituições políticas
Sl| das e desenvolvidas a nível local. fossem-compatíveis com.o estado "natural" da sociedade, um estado
~ ^ Assim, para Mill, é a nível local que_se_eumpr.e o verdadeiro em que "o' poder mundano e-aànfluência moraiem-geral fossem
~íy3 efeitOLeducatívo^da participação, onde não apenas as quèstoèStrata- exercidos pelas pessoas mâis..,adeqííada.s que uma sociedade exis-
\f%è~ das afetam diretamente o indivíduo e sua vida cotidiana, mas onde tente pudesse fornecer", em que/a^^uMdãe^-tenha fé na minoria^
também ele tem uma boa chance de, sendo eleito, servir no corpo "insterMa^que governará!15 Deve-se observar que MuTnão-deséjaTa
administrativo local (1910, pp. 347-8). É por meio da^participação a uma situação onde -a-raultidão fosse condescendente no sentido
nível local que-o-indivíduo "aprende a democracia". "Não aprende- usual, irrefletido, da palavra. Com efeito, ele pensava que já havia
mos a ler ou a escrever, a guiar ou a nadar apenãsjjorque alguém nos passado o tempo em que tal coisa era possível; "o pobre saiu do seu
diz como fazê-lo, mas porque o fazemos, de modo que será somente estado de tutela... qualquer conselho, exortação ou orientação a
praticando o governo popular em pequena escala que_o povo serem dados às classes trabalhadoras, daqui por diante, precisam ser
terá algumjjpo^s^lid^de_de_^pjeridexAjêxercitá-lo emjnaior oferecidos a elas na condição de iguais e aceitos por elas de olhos
escala" (1963, p. 186). abertos".16 A elite teria de pxesjar_c^nta^àjnajarjâ>e era na concilia-
Numa sociedade de larga escala o governo representativo será ção do domínicrdã^elite com a prestação de contas que Mill enxer-
necessário, e justamente aquTsurge urmnlifieüiaSdéTserá que" as gava a "grande dificuldade" em política.17 Sua resposta ao problema
propostas práticas de Mill a respeito da representação são compatí- dá margem à ambigüidade de sua teoria da participação.
veis com o papel fundamental que ele confere à função educativa da Partindo-se da teoria de Mill sobre álfunçãg_educatiy-a da parti-
participação em sua teoria? Em suas propostas práticas Mill não cipação poder-se-ia esperar que sua resposta ao problema fosse no
parece levar muito a sério seus próprios argumentos quanto à partici- sèTTtitkrde conferir o máximo de oportunidades às classes trabalha-
pação, e em boa parte isso se deve a idéias a respeito do estado doras para que elas participassem a nível local,, de modo a desenyol-
"natural" da sociedade que se encontram mescladas com o resto de
sua teoria social e política. 14. Citado em Robson, 1967, p. 210).
15. MUI, 1963, p. 17. Mill compara esse estado com o atual, um estado de "transição", onde
Bçntham e lames Mill acreditavam que a^educação, no sentido as velhas instituições e doutrinas foram "superadas" e a multidão perdeu a fé nos instruídos e
L '"' i™it3dQ,^cj^jrnico''7ílb~ termo era o meio mais eficaz de assegurar está "sem um guia" (p. 3).
^ a participação política responsável das "classes numerosas", e John 16. Mill, 1965, livro IV, cap. VII, §2, p. 763.
17. Ver Hamburger, 1965, p. 86. A ênfase de Mill na minoria instruída ilustra bem o quão
equivocada era a acusação de Schumpeter de que os teóricos "clássicos" ignoravam a lide-
A V~ 13. Mill, 1965, livro V, cap. XI, §6, p. 944. rança.

W
46 47
ver as qualificações e habilidades necessárias que lhes possibilitas- efeitos. Mas nada disso é encontrado em Mill. A maioria é estigmati-
sem acesso às atividades dos representantes, o que lhes permitiria zada pelo sistema de sufrágio como politicamente inferior e não
controlá-los. Porém Mill não diz nada do gênero. Suas propostas pode resistir à implementação de políticas desvantajosas; Je uma
práticas para se atingir um sistema político "natural", mas ideal, são elite predeterminada deve alcançar o poder político, por que motivpr),
bem diferentes JMill distinguia o sistemaJdeal_ej^y^rdadeii3yiemo- deveria a maioria se interessar pela discussão? Mill não parece se dar
Lcracia", que forrieee^reprèsentação às minoriasje_para-tantciMill conta de qualquer inconsistência nos vários componentes de sua teo-
^dõtWl^úinãljtíclimente^ proporcional ria, mas é difícil perceber de que forma a sua concepção de partici-
de Hare). Mill não resolveu o problema de assegurar que sua elite pação pode vir a realizar-se. Mesmo com o sufrágio universal e com
educada tivesse uma influência preponderante; esse sistema ideal só o poder de deliberação dos representantes, não haveria um ambiente
poderia se efetivar sob um sistema de voto pluralista, baseado na educativo "tão forte" como aquele fornecido pelo sistema de partici-
realização educacional _^ainda^que todos devam ter võz^^ãfirmar^ pação direta de Rousseau; o problema de como reproduzir o modelo
que todos devam ter voz igual é uma proposição inteiramente dife- de Rousseau nas condições modernas vai ser examinado mais
rente".18 Por isso, Mill rejeita o argumento de Rousseau de qu£-pãr<L adiante. Np momento, deve-se notar que o nível político local Abor-
"á participação efetiva é necessária a igualdade política. Mill implici- dado por Mill, crucial do ponto de vista da educação, poderia propjr
tamente também faz uso de uma definição de "participação" dife-
-,_•_-- ^__. _^ _,...__.. ,_ _-J,1 ^—. --,^**=^=-V.=-^"-- — ._-_ .-... -.-^.^J^==^_~fm=^^^^^-^^'-tt^s^-*-'--^~-±~->---5"^- ~ - -- -"*•-—^
cjarji participação dlrêtojiajomãdã de decisões^ ^
rente dajie Rousseau, pois elenãopensava que mesmo os repre- T Ã ênfase nasTiristítuições políticas locais não é a única extensão
•^^^^_^^^_^^&J^^^S^r^^I^^^làCQ:í^ ou que MiU faz da hipótese sobre o efeito educativo da participação,
rejeitar ajggislacãp^preparada por urna_cQinissão,_1esp,ecJalJndj- mas antes de discutir esse outro aspecto é interessante notar que Mill
cada pela Coroa; afunçã^o_própria,.dos,representantes é adis.cuss.ao concorda com Rousseau quanto às duas outras funções da participa-
(1910, pp. 235esegs7). ção. Parte do argumento relativo à "complacência crítica" da multi-
Outra ilustração desse ponto é o comentário de Mill sobre a dão apóia-se na sugestão de que a participação auxilia no acolhi-
forma que deveria ter o sufrágio ideal. Diz ele que é "por meio da mento das decisões, e Mill atribui um especial relevo à função^
Discussão política que o trabalhador manual, cuja õcifpãçaõ~élinTã integrativa da p^rtiçipajãõTT?iz~qTié^trãves^ã^di^üssS) politíclfõ
jptina e cujo modõ"dè~ vida não o leva a entrar em contato com indivíduo"to^a-se^oiscienternente
nenhuma variedade de impressões, circunstâncias ou idéias, aprende dade" (1910, p. 279)
que as causas remotas e os acontecimentos que ocorrem em lugares gubücp, torna-se
bem distantes podem ocasionar grandes efeitos até em seus interes-
"sês^essoais" (19-10, p. 278). " ~~ " penho"(963,p23.
, ^ ^ue se refere às propostas práticas de Mill para se alcançar Talvez o aspecto mais interessante da teoria de Mill seja uma
idealmente o melhor Estado político e sua definição implícita de ampliação da hipótese a respeito do efeito educativo da participação
participação, a seguinte questão poderia ser colocada: teria a partici- de modo a abranger uma área inteiramente nova da vida social — a
|7 pação o efeito educativo que ele postulava? O pontòlmportantê^ã indústria. Em suas últirnasobras, Mill chegou_a visualizar a indústria
respeito do paradigma rousseauniãnõ de participação direta é que o como outra área onde o indivíduo poderia ganhar-experigncia na
._ _^,_j^^^^r^^.-.==*»^--™~=— «^e»^^- - = - ----^--i^^"í^-^==^==™=&A=^=^-==-==^===-==™-*--'J=!-:~' A
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processo participativo seria organizado de tal maneira que os indiví- administração dos assuntos da coletividade, exatamente_cgjmg eje
duos estariam, por assim dizer, psicologicamente "abertos" a seus poderia fazer no governo local. PanTMill"o verdadeiro valor das
várias teorias de socialismo e de cooperação que estavam sendo de-
18. Mill, 1910, p. 283. Em sua Autobiografia Mill admitiu que a proposta para um povo fendidas e às vezes implementadas, nessa época, residia em seu po-
pluralista não encontrava apoio algum. tencial como meios de educação. Como seria de esperar, ele descon-

48 49
fiava dos esquemas de caráter centralista; conforme assinala Rob- dade, com a propriedade coletiva do capital para conduzir as opera-
son, MUI, nos Capítulos sobre o socialismo (Chapters on Socialism),
dá a sua aprovação a "esses esquemas socialistas que dependem da tufdas por_eles mesmos" 21
organização voluntária em pequenas comunidades e os quais buscam Da mesma maneira que a participação no governo local é uma
uma aplicação nacional dos seus princípios através da automultipli- condição necessária para a participação a nível nacíõnãj7dêvido a
cação das unidades" (1968, p. 245). Em tal forma de organização, a seu efeito educativo ou "aperfeiçoador", assim também Müljsugere
participação generalizada poderia ser acomodada. Mill achava que que a participação no "governo" do local dejrabalho termo mesmo'
formas cooperativas de organiza^cãgindustrijl^gj^uzjriam_a_urna impacto.^ Essas implicações mais abrangentes dos argumentos de
"transformação^morarjdos_qu£nela tomavam parte (também nen- Mill, relativos à importância da educação, são usualmente negligen-
savjTqüirêíãs seriam^ mai^produtiv^Tjrnbõrãls^^^wssg em ciados, embora tenham grande significado para a teoria democrática.
j^te~à^^ansfonnaçãg^^Ümãrorganização cooperativa levaria, Para que seja possível tal participação no local de trabalhc^arelação
dizia ele, a uma "rivalidade amistosa" na busca do bem comum de deTautoridade ná~industria teria de transformar^se^a^^^ituãlTelã'-
todos; à elevação da dignidade do trabalho; a uma nova sensação ção dejurje^oridade-subordinação (empresários e homens) emjuoa,
de segurança e independência da classe trabalhadora; e à conversão de cooperação ou de igualdade, com administradores (govemo)elei^
da ocupação diária de cada ser humano em uma escola das afinida- tos por todo o corp^^emprê^ã^o^drmesmTrgnna quê^s^eleitos
des sociais e da inteligência prática.19 Do mesmo modo que a parti- oTHpêsêntãnteTã nível local. Ou seja, as relações políticas na in-
cipação na administração do interesse coletivo pela_p.oJíticaJocal dústria (usando b termo "políticas" no sentido mais amplo) teriam de
cjucaolndivíduiojTara aresponsabilidade _ social Jambém a partici- se democratizar. É possível ir além: o argumento de Mill a respeito
pação na admmistragjo_dg_mteresse coletivo i^organização indus- do efeito educativo da participação no governo local e no local de
trial favorece e desenvolve, as qualidades que o indivíduo necessita trabalho poderia ser generalizado de maneira a englobar o efeito da
para as atividades públicas. "Terreno algum", diz Mill, poderia ser participação em todas as estruturas de autoridade ou sistemas políti-
mais propício para treinar o indivíduo a sentir "que o interesse cole- cos das "esferas inferiores". Justamente pelo fato de essa hipótese
tivo lhe diz respeito" do que uma "associação comunista".20 Assim geral poder derivar de suas teorias é que me referi a esses autores
a como ele considerava a democracia inevitável no mundo moderno,
como os teóricos da sociedade participativa. A sociedade pode ser
^também achava que alguma forma de cooperação seria inevitável na vista enquanto um conjunto de vários sistemas~polfticos,, cujas
indústria; agora que as classes trabalhadoras haviam saído do seu turas de autoridade têm um efeito importante sobre as qualidades e
"estado de tutela", a relação empregador/empregado não poderia se atitudes psicológicas dos indivíduos que interagem dentro deles;
sustentar ajonggjjrazo e alguma,forma^jgoopera_ção deveria subs- assim, para o funcionamento de uma política democrática a nível
tjtuí4a._Na Economia política, Mffi discute qual a forma que ela nacional, as qualidades necessárias aos indivíduos somente podem
poderia tomar, e chega à conclusão de que, se "o gênero humano se desenvolve£porjneio da democratização das estruturas de autori-
continuar a se aperfeiçoar", ao final predominará uma só forma de dadè ê
organização, "não aquela que podeexis^ir_entre_u^n_cjrjitajistó,_en- ~ A esj^^urajambjjrrijiojamos^ que existe outra dimensão jgara
trabalhadorasem ^ essa teoria da participaçãg._Excetuando-se sua importância como
^âSüHg^JJfj^Jsspmção dos próprios trabalhadores em termos de igual- instmmèTiüp~l;ã^^ traBãlho —-"uni
sistema
.sim sendo, a indústria e oTItrãs~êsfefãT?ornecern
19. Mill, 1965, livro IV, cap. Vü, §6, p. 792.
20. Mill, 1965, livro II, cap. I, §3, p. 205. Mill usa a palavra "comunista" com menos rigidez
do que hoje. . Mill, 1965, livro IV, cap. VH, §6, p. 775. Ver também §§2, 3 e 4.

50
LVf 51
áreas alternativas, onde o indivíduo pode participar na tomada de pelos quais os homens agem por meio de associações, suplemen-
fdecisões sobre assuntos dos quais ele tem experiência direta, coti- tando e complementando suas ações enquanto indivíduos isolados
diana, de modo que quando nos referimos a uma "democracia parti- ou privados" (1920, pp. 6 e 11). Para transformar sua vontade em
cipativa" estamos indicando algo muito mais amplo do que uma ação de um modo que não afete sua liberdade individual, ^
série de "arranjos institucionais" a nível nacional. Essa visão mais tenta que os homens devem participar na organização e najegula-
abrangente-da democracia pode ser encontrada na teoria política de mentaçãq de sjia^Ass^ciacões^A idéia de participação é central em
G. D. H.(Cole) a qual passamos a examinar. "Suponho", diz ele, repetindo a crítica de Mill à teoria
Uma3íscussão da teoria de Cole — e aqui estaremos conside- política de Bentham, "que o objeto da organização material não está
rando apenas seus primeiros escritos — apresentaum particular inte- na mera eficiência material, mas também essencialmente na auto-ex-
resse não só porque a süãrtebria se situa no\contexto de uma socie- pressão mais completa de todos os seus membros". Auto-expressão
dade modernajjhdustrializada, mas porque se rata~ênTgranae parte "envolve autogoverno", e isso significa que devemos "convocar a
de uma teoria de uma tal sociedade. As observações de Mill a res- total participação da população para a direção comum dos assuntos
peito da participação na indústria, ainda que esclarecedoras para nos- da comunidade" (1920, p. 208). Isso, por sua vez, envolve a liber-
sos propósitos, eram periféricas em relação ao corpo principal de sua dade mais completa de todos os membros, pois "liberdade é alcançar
teoria social e política; para Cole,no^ntanto,é^Jndústm_que^ossui^ a perfeita expressão" (1918, p. 196). Cole diz também, novamente
achaYg_que abrirá aporta para uma forma de governo_verdadeira- seguindo Rousseau, que o indjyíduo é "mais livre onde ele coopera
mejitejdenLQ£rátiça._ Em sua teoria do socialismo de guilda (Guild com seus iguais na feitura daslei?2a
Socialism), Cole elaborou um esquema detalhado de como uma so- Cole produz uma^teoria de associações, ^ociedade, como defi-
ciedade participativa poderia ser organizada e implantada, o que pos- nida por ele, é um "complexo de associações que se mantêm unidas
sui considerável interesse intrínseco, embora nos preocupemos mais pelas vontades de seus membtos"JLSe o indivíduo quiser se auto-
com os princípios subjacentes a esse esquema do que com o próprio governar, então ele não só tem de ser capaz de participar da tomada
texto. Outro aspecto significativo do trabalho de Cole desse período dê~3ecisões em todas as associações das quais ele é membro, como
era a influência muito grande de Rousseau. Havia outras influências as próprias associações têm de ser livres para controlar seus próprios
também, como a de William Morris e de Marx, por exemplo, mas assuntos (Cole via na interferência do Estado o maior perigo aqui), e
Cole cita com freqüência Rousseau, cujo espírito perpassa sua obra, se elas quiserem se autogovernarj nesse sentido têm de ser basica-
e muitos dos conceitos básicos de Cole derivam daquele autor. Esse é mente iguais em termos dê poder político. Em O mundo do tra-
mais um motivo para examinar o trabalho de Cole. As discussões sobre balho (The Word of Labour), Cole afirma que a extinção de
teoria política de Rousseau em geral chegam à conclusão de que ela tem grupos na Revolução Francesa foi um acidente histórico
pouca relevância hoje em dia (e às,vezes sugere-se que a influência devido aos privilégios que eles ocasionalmente possuíam, e
exercida por ela foi positivamente perniciosa). Já afirmei que a teoria de acrescenta que "ao reconhecer que onde devam existir associa-
Rousseau fornece o ponto de partida e o material básico sobre teoria ções específicas elas devem se igualar, Rousseau admite que o
participativa da democracia, e a teoria de Cole tenta transpor as análises
da teoria de Rousseau para um cenário moderno. 22. Cole, 1919, p. 182. Entretanto, Cole não aceita que a liberdade consiste na obediência a
A teoria social e política de Cole constrói-se sobre o argumento essas leis; considera as leis "os andaimes da liberdade humana; porém, elas não fazem parte
do edifício" (1918, p. 197).
de Rousseau de que a vontade, e não aforça, éjjjjase da organização 23. Cole, 1920a, p. 12. Talvez se devesse notar que Cole não vê toda a vida do indivíduo
so
£íãL?_E^Í^£2: Os Eõinêlís~precisam cooperar em associações para encerrada nesses grupos. Boa parte de sua vida e alguns dos seus aspectos mais valiosos
encontram expressão fora da associação; o indivíduo é "o eixo em torno do qual gira todo
satisfazer suas necessidades, e Cole começa examinar "os motivos sistema de instituições. Pois apenas ele tem em si os vários objetivos das diversas instituições
que mantêm os homens juntos em uma associação" e, os "modos agrupados numa única personalidade" (1918, p. 191).

52 53
frçrp"'
princípio seria inevitável ao grande Estado. Podemos portanto consi- mas â^qualquer e toda forma de ação social/e, em especial, de modo
derar que a nova filosofia dos grupos exerce os verdadeiros princí- tão integral na jndústria- e na çconomia quanto nos assuntos políti-
pios igualitários da Revolução Francesa" (1913, p. 23). cos," (1920a, p. 12). Tal noção está de fato implícita na "nova filoso-
EssáVteoria de associações liga-se à sua jeoriajia democraciaj Ifa de grupos" que Cole construiu sobre a base lançada por Rous-
por meio do princípio de função, "o princípio subjacenté~à organiza- seau, pois ela busca aplicar as análises de Rousseau a respeito das
ção social" (1920, p. 48). Cole pensava que "a democracia só é ver- funções de participação para a organização interna de todas associa-
dadeira quando concebida em termos de ^função jpu propósito/", e a ções e organizações. F^ara_ColeJ_rjortarito, como para Müli_a_fimção
função de uma associação baseia-se no propósito para o qual ela foi eju^atiy^_djjartorjacãg_éj:rucial, e ele também enfatiza que os
formada (1920a, p. 31). Toda associação que "se coloca qualquer indivíduos e jUj^jniütiuçiõejjião_EiQdgm ser consideradosjsolada-'
objetivo superior à simplicidade mais rudimentar vê-se compelida a mente, Ele observa, em Socialismo de guilda restaurado (Guild So-
atribuir tarefas e deveres (e, com estes, poderes e uma parcela de cialismRestated), que, se a teoria do socialismo de guilda em grande
autoridade) a alguns de seus membros, de maneira que o objetivo parte era uma teoria das instituições, isso não acontecia porque
geral possa ser efetivamente perseguido" (1920, p. 104): ou seja, o
governo representativo (no sentido mais abrangente deste termo) é ela acreditava que a vida dos homens está compreendida em seu meca-
nismo social, mas porque o mecanismo social, seja bom ou ruim, em
> necessário na maioria_das associações.JSfa perspectiva de Cole, as harmonia ou em discordância com os desejos e instintos humanos, é o
a "fôrma?de representação existentes são enganosas por dois motivos. meio seja de realizar, seja de entravar, a expressão da personalidade
Em primeiro lugar, por ter sidõ^egííg^nciãdo^pnncípíõ de função, humana. Se o ambiente não faz o caráter em um sentido absoluto como
cometeu-se o engano de se pressupor que o indivíduo pode ser repre- pensava Robert Owen, ele dirige e desvia o caráter para formas diver-
\ sentado como um todo e para todos os propósitos, em vez de ser gentes de expressão (1920a, p. 25).
representado em relação a alguma função bem definida^ Em segundo
lugar, sob as instituições parlamentares existentes, o eleitor não faz Cornojvlill, Cole sustentava que jeria apenas pela participação a
uma escolha real do seu representante nem o controla; e, na verdade, nível local e em associações locais que_o^ indivíduo poderia "apren-
o sistema nega ao indivíduo o direito de participar porque "ao esco- der; democragial', "O indivíduo não tem controle sobre o vasto mècã"-
lher seu representante^ o homem comum, de acordo com essa teoria, nismo da política moderna, não porque o Estado seja muito grande,
não tem outra opção exceto deixar que outros o governem'!. Por mas porque o indivíduo não tem oportunidade alguma de aprender os
outro lado,^sistema de representação funcional implica "a partici- rudimentos do autogoverno dentro de uma unidade pequena" (1919,
Ç pação constante do homem comum no comando das partes da estru- p. 157). Na verdade, Cole quase não levou em consideração as impli-
J tura da sociedade, as quais lhe dizem respeito diretamentere que, J>or~ cações de seus próprios argumentos neste ponto; o fato de o Estado
\ isso mesmo, ele tem maior probabilidade decqmpreender".2 moderno ser tão grande é um motivo importante para capacitar o indi-
Assim, encontramos na teoria de Cole uma distinção entre a víduo a participar nas áreas políticas"alternativas" da
existência dos "arranjos institucionais" representativos a nível nacio- faEõflõqual os escritos de Cole mostram~que ele estava bemconsciente.
nal e a democracia. Para essa democracia, o indivíduo deve ser capaz O^que interessa, no entanto^que na visãojie Cole a indústria
dejjarticipar em todas as associações que lhe dizem respeito; em fornecia a importantíssima amia_Dara_gue se revelasse o efeito edu-
_ ,jé necessária uma sociedade participativa. O princípio iW', £atÍTO_d^_pjrticipagão; pois éjQa_indústria_que, excetuando-se o go-
\democratico,_diz Cole, deve se aplicar "não apenas ou principal- verno, o indiyíduojmais se envolve em relações de superioridade e
mente à esfera especial de ação social conhecida como "política", fe sua ^
trabaltux_Foi essa a razão para a declaração de Cole de que a resposta
24. Cole, 1920, p. 114; cf. também pp. 104-6. que a maioria das pessoas daria à pergunta "qual o mal fundamental

54 55
em nossa sociedade moderna?" seria errada: "eles responderiam PO- Uma das principais objeções de Cole à orgamzacjíoj^rjitalista
BREZA, quando deveriam responder ESCRAVIDÃO" (1919, p. da indüstr^ra quj^nej&^tmbal^^
34). Os milhões que receberam a alforria, que receberam formal- TiãTg^gssglnõdõjrajiegada a "humanidade" dojrabalho. Snh o
mente os meios de autogoverno, foram na verdade "treinados para a sistema de socialismo de guilda, essa humanidade seria inteiramente
subserviência", e esse treinamento deu-se em grande parte durante reconhecida, o que significaria, "acima de tudo, o reconhecimento
sua ocupação diária. Cole argumentava que "o sistema industrial... do direito... à igualdade de oportunidade e de posição social" (1918,
em grande-par-te-é-a-diaKe-para_o paradoxo dajfernoçragia_rjolítica. p. 24). É este último aspecto que realmente importa; apenas com a
Por que motivo a maioria_êJLQminalmente suprema mas_efetiva- equiparação da posição social poderia haver igualdade de wdõ-
porque_as circunstâncias de suas pendênciarã^qValT^como^Yimos a partir da discussão_da_teoria_de
vidas não os acostumam ou preparam parado poder oujpara a respon- Rousseau, é crucial para o processo de participação. Cole pensava
sab~ifidS3e. Um sistema servITmfíndústria reflete-se inevitavelmente que haveria um avanço no sentido da equiparação de ganhos,
em servidão política" (1918, p. 35). Apenas se o indivíduo pudesse sendo que a igualdade final resultaria oV|destruição total da idéia dqg
se autogovernar no local de trabalho, apenas se a indústria fosse remuneração por tarefa^jQ 920a, pp. 72-3), mas a abolição das dife-
"organizada sobre u m a _ _ renÇãiUe posição social desempenha um papel maior em sua teoria.
poderia transformar-se em treinamenttrpara a democracia, Em parte, isso se daria através dc( socialização dos meios deprodu^ &
j; o indivídÜQ_rjQdg5a ganhafTarniliaridade com os procedimentos jçãç^sob um sistema de socialismo de guilda, porque as classes teriam
então que ser abolidas (por definição — Cole usa o termo no sentido
em larga escala. marxista), no entanto outros dois fatores tinham mais importância
Para Cole, assim como para_Rousseaujnãp poJEHOBíSfiOgual- (prática).JSob um sistema participativo não haveria mais um grupo
dade depõ3ér político sem uma quantidade substancial de jgualdade dej'administradores" e um grupo de "homens", sendojjue estes nã
"
i, e sua teoria nos oferece algumas interessantes indicações teriam controle sobre os assuntos da empresa, masjiavmaumgrupo
sobre a maneira de se alcançar a igualdade econômica daquela socie- dj^pessoas iguais que tomaria as decisjes. Em segundo lugar, Core
dade ideal de camponeses proprietários de Rousseau na economia acreditava que a organização participativa da indústria levaria à abo-
moderna. Segundo Cole, "a democracia_abstrata das urnas" não en- lição do medo de desemprego do homem comum e, desse modo^à
volvia uma igualdade política real; a igualdade de cidadania implí- abj)licãoda^ufra_grande_distincão de posição social: a desigualdade^
5Íla .52' SfrSSj^SÊiiLis^PÇííâOsSBá-S obscureciajojafõjte naseguEanca-de-manutençãojdo_em.prego.
Contudo, ainda que a teoria democrática de Cole dependa do
/mocratas teóricos", dizia eíe, ignoravam '^ojfato de que grandesjjesi- estabelecimento dessa igualdade da posição social na indústria, ele
/ gjualdades de riquezas e de posição social, que resultavamjm_gran- era (apesar das críticas de Schumpeter a respeito) bem consciente do
x.^ dês desigualdades de educ.açãQ._p-0.dgjLgj:ontrpje_dolãmbigntg^.são problema da preservação da liderança sob um tal sistema democrá^
^ j necessarianj[enleJ:alais^paj^ujl^^ em tico, e pensava que o princípio de função fornecia uma resposta a
- <H política ou eni^qualquer outra esfera ".2ff isso. Se a representação (liderança) fosse organizada em uma base
funcional, então seria possível ter "representantes" em vez de "dele-
25. Em todos os escritos de Cole sobre a necessidade da sociedade participativa está implícita a
hipótese de que a participação terá um efeito integrativo. Isso aflui em várias de suas referências à
gados". Estes pareciam necessários porque, ao que tudo indica, se-
"comunidade" e na importância que ele atribui às instituições participativas locais, onde os riam o único meio pelaquaLo eleitorado conseguiria exercer p con-
homens podem aprender o "espírito social". Na esfera industrial esta é a base da afirmação de que trole, uma vez que, "assim que os eleitores tivessem exercido seu
a nova forma de organização levaria à cooperação e à camaradagem em uma comunidade de
trabalhadores, em vez do conflito habitual. Ver Cole, 1920, p. 169, e 1920a, p. 45. direito de voto, sua existência enquanto grupo se eclipsaria até a
26. Cole, 1920a, p. 14; ver também 1913, p. 421. época em que fosse necessária uma nova eleição". As associações

56 57
^^ cipativa em todos os níveis e aspectos. A estrutura vertical devia ser
seguem, o tempo todo, dar conselhos, criticar e, sejor preciso, desti- de natureza econômica, pois de acordo com os bons princípios fun-
tuir o representante. Elas têm também um mérito adicional pelo fato cionalistas as funções políticas e econômicas deviam ser separadas
dê que '"nlõlipênas o representante será escolhido para realizar um na sociedade. Do lado econômico, a produção e o consumo eram
trabalho do qual conhece alguma coisa, mas será escolhido por quem também diferenciados.30 O que em geral se considerava como "guil-
também conhece algo a respeito".27 das" na verdade devia ser a unidade da organização no setor da pro-
Embora Cole considerasse a "eficiência material" apenas como dução. Para a esfera econômica Cole também propunha o estabeleci-
um dos objetivos da organização social e política, pensava que uma mento de cooperativas de consumidores, conselhos de utilidades
sociedade participativa seria superior também nesse aspecto. Sob (para abastecimento de gás, etc.), guildas cívicas para cuidar da
condicões_de segurança £_igualdade econômica. a_m.oíiy.acão-da saúde, educação, etc., e conselhos culturais para "expressar o ponto
lucro-— a mqtivayacão de "panância e medo'\ — seria substituída de vista cívico" — e alguns outros corpos ad hoc que poderiam
pelajnotivacão do trabalho prover o necessário em uma área específica. A oficina deveria ser o
esforços jjeriam pjra o benefício de toda a comunidade. Cole pen- "bloco de construção" básico da guilda e, de modo similar, a unidade
sava que existiam grande reservas insuspeitadas de energia e de ini- básica de cada conselho, entre outras coisas; devia ser pequena o
ciativa no homem comum que um sistema participativo traria à tona; bastante para permitir o máximo de participação de todos. Cada guilda
^i o autogoverno era a chave para a eficiência. Os trabalhadores nunca elegeria representantes para os estágios mais altos da estrutura vertical,
seriam convencidos a dar o melhor de si "sob um sistema que, de para as guildas e conselhos locais e regionais, e, no nível mais alto, para
98
qualquer perspectiva moral, é absolutamente indefensável". o Congresso de Guildas Industriais (ou o seu equivalente).
O que mais interessa a nossos propósitos, no plano específico O propósito da estrutura (política) horizontal era dar expressão
de Cole para o autogoverno nas oficinas e em outras esferas, o socia- ao "espírito comunal da sociedade global". Cada cidade ou área rural
lismo de guilda, é que ele nos fornece uma noção bastante detalhada teria a sua própria comuna, onde a unidade básica seria o bairro,
de como seria uma sociedade participativa. Cole o apresentou em novamente para permitir o máximo de participação dos indivíduos, e
várias versões, porém a teoricamente mais pluralista é encontrada no os representantes seriam eleitos a partir das guildas e demais corpos
Socialismo de guilda restaurado, sobre o qual a seguinte apresenta- locais da comuna, com base nos bairros. A camada horizontal se-
u guinte seria composta por comunas regionais, reunindo a cidade, o
ção, bem breve, se baseia. A estrutura do socialismo de guilda se
organizava, horizontal e verticalmente, dos pés à cabeça, e era parti- campo e as guildas regionais, e no topo estaria a Comuna Nacional
que, pensava Cole, seria um corpo de mera coordenação sem se
27. Cole, 1920 a, pp. 110-3. Semelhante sistema responderia em parte às objeções freqüente- constituir no prolongamento funcional, histórico ou estrutural do Es-
mente levantadas quanto ao grau de "racionalidade" que um sistema democrático exige dos tado existente.
eleitores. Carpenter (1966) afirmou que Cole era impermeável aos conhecimentos de sua Os prós e os contras mais precisos desse projeto específico não
época sobre elementos irracionais do comportamento humano. Seja como for, Cole e outros
teóricos da sociedade participativa adotavam o ponto de vista segundo o qual a "racionali- nos interessa aqui; como disse o próprio Cole, "os princípios por trás
dade" era, ao menos em parte, adquirida através do processo de participação. do socialismo de guilda são bem mais importantes do que as formas
28. Cole, 1919, p. 181, e 1920b, p. 12. Algumas críticas ao socialismo de guilda de um ponto
de vista econômico podem ser encontradas em Glass (1966) e Pribicevic (1959). efetivas de organização imaginadas pelos socialistas de guilda"
29. Cole, 1920a. Um resumo do desenvolvimento do socialismo de guilda e uma discussão (1920c, p. 7), e é nesses princípios, os princípios subjacentes à teoria
geral de sua teoria (Cole era apenas um dos envolvidos) podem ser encontrados em Glass
(1966). Colocou-se em questão se o plano de Cole teria se revelado tão "pluralista" quanto ele
pretendia. Ele pensava que, uma vez que o socialismo de guilda começasse a tomar forma, o 30. Foi a respeito desta última divisão que Cole divergiu tanto dos coletivistas quanto dos
Estado "definharia" gradualmente por falta de uma função real, mas argumentou-se que a sua defensores da cooperação, porque nenhum deles admitiu o direito do produtor ao autogo-
Comuna Nacional, o novo órgão "coordenador", iria se tornar o Estado rebatizado em termos verno, e dos sindicalistas porque eles não admitiam que os consumidores necessitassem de
mais essenciais. uma representação especial.

58 59
t
da democracia participativa, e na questão de sua relevância empírica sentidojdjy>a]avra, t^jo,na,ajpjcjp_£sjc£lógiç^^u^ntono de aquisi-
em nossa época que estamos interessados. çfe_^IpráticaTZe,Jiabilidade:s__e procedimentos democrátÍOTsrpòr
A grande diferença entre as teorias da democracia discutidas isso, não há nenhum problema especial quantõTTestabilidade de um
nesse capítulo e as teorias de autores que chamamos de teóricos do sistema participativo; ele se auto-sustenta por meio do impacto edu-
governo representativo dificulta a compreensão de como o mito de cativo do processo participativo. A participação promove e desenvolve
uma teoria "clássica" da democracia subsistiu por tanto tempo e foi as próprias qualidades que lhe são necessárias; quanto_riiais_QS_indivá-/
tão vigorosamente difundido. As teorias da democracia participativa duos_rjarticipam, melhor capacitados eles se tornamjgara_fozê-lo. As
examinadas aqui não eram apenas tentativas de prescrição, como se hipóteses subsidiárias a respéitoBãpartl^^^são^de que ejajgmjirn
diz freqüentemente; o que elas fazem é fornecer justamente os "pla- éfêiETrTfêpãfivo e de que auxi!mTãmtaçãp_de-deeis0es^oletivas.
nos de ação e prescrições específicas" para movimentos no sentido "~~ Em conseqüência, para_c|ue exista uma_JgjTna^e_goyerno_de-
de uma forma de governo (verdadeiramente) democrática que se su- mocrática é necessária a existência de uma so£Íeda^e_pajtkip_aíiy,a0
geriu estar faltando. Entretanto, as críticas mais estranhas talvez isto é, umã"s6c1êaade~Õnaé"tõdõs osjiistemas políticos tenhanmdo
sejam as de que esses teóricos anteriores não estavam preocupados, _
como coloca Berelson, com as "formações gerais necessárias para ocorrer em todas áreas. A área mais importante é aôndústriaj a maio-
que as instituições (políticas) funcionassem como deviam", e a de nâ~dõslndivíduos despende grande parte de suas vidas no trabalho e
que eles ignoravam o sistema político como um todo em suas obras. o local de trabalho propicia uma educação na administração dos as-
@>Está bastante claro que era exatamente com isso que eles se preocu- suntos coletivos, praticamente sem paralelo em outros lugares. O
pavam. Embora a variável identificada como crucial nessas teorias, segundo aspecto da teoria da democracia participativa é que as esfe-
para o estabelecimento bem-sucedido e a manutenção de um sistema ras de atuação, como a indústria, poderiam ser vistas como esferas de
político democrático — as estruturas de autoridade das esferas não- atuação política por excelência, oferecendo áreas de participação
governamentais da sociedade — seja exatamente a mesma que Ecks- adicionais ao âmbito nacional. Para que os indivíduos exerçapi o
tein aponta em sua teoria de uma democracia estável, as conclusões máximo de controle sobre suas próprias viBas^sobreolmbiente, as
tiradas pelos teóricos da democracia mais antigos e pelos mais recen- e^truttErã£aê^int^riidadeTre'gsas^íeas precisam ser organizadas dejtal
tes são inteiramente diferentes. A fim de que possa ser efetuada uma formajjueeles possam participar na toníaHã^e decilõesTÜma outra
avaliação dessas duas teorias da democracia, estabelecerei agora, razão para o^papeTcentrãl da indústria na teoria relaciona-se com a
brevemente (de modo similar à teoria contemporânea da democra- medida de substancial igualdade econômica exigida para que o indi-
cia, acima), umajeoria^participatiya da democracia, retirada das três víduo tenha a independência e a segurança necessárias para a partici-
teorias que acabamosdedScútirT pação (igual); ajlemQcratização das estruturas dejmtoridade dajn-
A teoria da democracia participativa é construída em torno da dústria, ao abolir a^ permanentedistinção entre "administradores" e
_ afirmação central de que os indivíduos e suas instituições não podem "tomen^^g
ser considerados isoladamente. A existência de instituiçõesrepre- essa_condição.
senjjuiyjisjyiívejjiacional não basta para a democracia; poisj^má- As teorias da democracia contemporânea e participativa podem
xmi ser comparadas em cada detalhe importante, inclusive quanto à pró-
Q-de.particip.aç.ãa de todas as pessoas.^socMizacão-Qii±tr.eina-
mgntoJ-socialH,-j)iecisa ocorrer em outras esferas,_de modo que as pria caracterização de "democracia" e à definição de "político", que
atitudes e qualidadesjsicológicas necessáriaj possamjse desenvol- na teoria participativa não está confinado à esfera habitual do go-
YertJissé clèsenvolvimento ocorre por meio do próprio processo de verno nacional ou local. Novamente, jajegria^participativa, a^"parti-
participação. A_DrincipaHuncão da particjpaçãojBajteprmja_derno- cipação" refere-se^_ participação Jjguai) na tomada de^decisões, e
"igualdade política" refere-se à igualdade dê poder na determinação1

60 61
das conseqüências das decisões, uma definição bastante diferente num empreendimento já consagrado pelo uso e "carregado de valor",
daquela fornecida pela teoria contemporânea. Por fim, a justificativa tendo portanto a sua obra, segundo esse ponto de vista, pouco inte-
para um sistema democrático em uma teoria da democracia partici- resse direto para o teórico político moderno, científico.
pativa reside primordialmente nos resultados humanos que decorrem Qualquer que seja a verdade desta afirmação, pode-se agora
do processo participativo. Pode-se caracterizar o modelo participa- tentar a realização da tarefa restante, ou seja, uma avaliação do rea-
tivo como aquele onde se exige o input máximÕ~(ã^^^5âÇãp) e lismo empírico e da viabilidade da teoria da democracia participa-
inclui não apenas as pQlftica^CdecisõesXm tiva: a concepção de uma sociedade participativa é uma fantasia utó-
pica — e uma fantasia tão perigosa assim? A exposição da teoria
levanta imediatamente várias questões de importância. Por exemplo,
Muitas das críticas feitas à chamada teoria da democracia o problema da definição de "participação". É claro que, quando a
"clássica" implicam que basta apenas estabelecer tal teoria para que participação direta é possível, a definição é relevante, mas não fica
fique óbvio que ela é irrealista e obsoleta. Em relação à teoria da claro até que ponto o paradigma da participação direta pode se repe-
democracia participativa isso não acontece; de fato, ela apresenta tir em condições onde a representação está se tornando amplamente
muitos aspectos que refletem alguns dos principais temas e orienta- necessária, embora o indivíduo tivesse mais oportunidades de parti-
ções da teoria política e da sociologia política recentes. O fato de ela cipação política numa sociedade participativa. Antes de se dar uma
ser um modelo de um sistema auto-sustentado, por exemplo, poderia resposta à questão, entretanto, é preciso analisá-la com bastante cui-
torná-la atraente para muitos autores de textos políticos, os quais dado. A teoria da democracia participativa se sustenta ou cai por terra
utilizem tais modelos, implícita ou explicitamente. Ainda, as seme- de acordo com duas hipóteses: a função educativa da participação e
lhanças entre a teoria da democracia participativa e teorias de plura- o papel crucial da indústria, e nossa atenção será concentrada nisso.
lismo social recentes são bastante óbvias, embora estas em geral O ponto principal da discussão nas duas teorias da democracia é se
afirmem que apenas as associações "secundárias" deveriam fazer a as estruturas de autoridade industrial podem ser democratizadas, mas,
mediação entre o indivíduo e o corpo político nacional, mas não antes que tal questão possa ser enfrentada, uma outra ainda mais básica
dizem nada sobre a questão das estruturas de autoridade dessas asso- deve ser colocada. ]Nto próximo capítulp^começaremos por verifícarje
ciações.31 A definição ampla de "político" na teoria participativa existe alguma evidência que su£tejUe^h'gaçãQ_§ugeridaLentre a partici-
também está de acordo com a prática na teoria política e na ciência
política modernas. Dahl (1963, p. 6), um dos defensores da teoria da
democracia contemporânea discutidos acima, definiu um sistema
político como "qualquer padrão persistente de relacionamentos hu-
manos que envolvam, de maneira significativa, poder, governo e
autoridade". Todos esses elementos fazem com que se estranhe o
fato de nenhum autor atual da teoria democrática demonstrar ter feito
uma releitura de seus precursores à luz dessas preocupações. Qual-
quer explicação disso incluiria, sem dúvida, uma menção à crença
amplamente difundida de que (embora esses precursores sejam com
freqüência taxados de "descritivos") os teóricos políticos "tradicio-
nais", em especial os teóricos da democracia, estavam engajados

31. Cf. Eckstein, 1966, p. 191.

62 63
1
III

O SENTIDO DE EFICÁCIA POLÍTICA E A


PARTICIPAÇÃO NO LOCAL DE TRABALHO

Ambas as teorias da democracia, a contemporânea e a partici-


pativa, incluem o argumento de que os indivíduos deveriam receber
alguma espécie de "treinamento" em democracia, não limitado ao
processo político nacional. Contudo, defensores da teoria contempo-
rânea como Dahl ou Eckstein fornecem poucas indicações a respeito
de como se daria esse treinamento. E há algo dej)aradoxal_enLgha-
mar de socialização um treinamento explícitpjsmjfemocrac/a dentro
""das organizações e asjspciaçõeSj^^ jLjna^riaj^a^qu.aisj^rjrincipalmente
as indústria&Xé_oligárquica e hierárquica. O argumento da teoria da
democracia participativa, cie que a educação para a democracia (que
ocorre dentro do processo participativo em estruturas de autoridade
não-governamentais) requer que as estruturas sejam democratizadas,
parece bem mais plausível (embora Sartori tenha afirmado que não
se comprovou que alguém "aprende a votar, votando"). Antes de
examinar se há alguma evidência empírica para apoiar a conexão
sugerida entre a participação no local de trabalho e a participação na
esfera política mais ampla, existe uma questão anterior, que é saber
como pode ocorrer essa conexão. Novamente, há um terreno comum
entre as duas teorias: ambas apontam para fatores psicológicos no
desempenho de um papel de mediação. Ateoria_dj_democracia par-
ticipativa afirmajnie a experiência da participação, dealgum modo,
torna o indivíduo psicologicamente melhor equiparado para partici-
par aindlTmlis rio~füluro. E~ãlgumas evidências interessantes em
apoio ao argumento podem ser encontradas em recentes estudos em-
píricos sobre socialização e participação política.

65
John Stuart Mill sustentava que um caráter "ativo" resultaria da loca é verificar se existe alguma evidência que sugira que a partici-
participação, e Cole sugeria que seria favorecido o que podemos pação em esferas não-governamentais, em particular na indústria,
chamar de caráter "não-servü", e é possível dar a essas noções algum seja de importância significativa no desenvolvimento desse sentimento.
conteúdo empírico útil._Se alguémjuiser se autogoveniâr^dig-aflflos, A fonte de evidências mais interessante e importante é o livro
nnjocal_de trabalho, então ceitamejite_jgrâo_jie^essjrias_algumas de Almond e Verba A cultura cívica (The Civic Culture). Trata-se de
qualidadesjjsicglógicas. Por_exejrnplo,^ convicção de que alguém um estudo intercultural de atitudes e comportamentos políticos
pode se autogOTejrnjjr^grtarnente rjar^e^^gjrcojifiança^ria_rjrópria abrangendo cinco países, os Estados Unidos, a Grã-Bretanha, a Ale-
c^^^^^^-Ç^^KISSSSMã^sLê^íêtí^S.menteede controlar a manha, a Itália e o México, e uma grande parte do livro se ocupa com
pjgpria_yida_ejL3Plbieiite^Estas não são características que podem o senso de competência política e seu desenvolvimento. Descobri-
ser associadas com caracteres de "servilidade" ou "passividade", e é ram os autores que, nos cinco países, mantinha-se uma relação positiva J
razoável sugerir que a aquisição de semelhante confiança e os outros entre o senso de eficiência política e de participação política, ainda que,l
atributos mencionados fazem parte, ao menos, daquilo que os teóri- o senso de competência fosse mais acentuado a nível local do que na-i!
cos da sociedade participativa vêem como os benefícios psicológicos cional. Descobriu-se também que o grau de competência era maior nos
que resultariam dessa participação. Também se poderiam encarar Estados Unidos e na Grã-Bretanha, países onde existiam maiores opor-
estas qualidades como parte do famoso "caráter democrático". En- tunidades institucionais para a participação política local.
tretanto, uma das correlações positivas mais importantes que emergi- Isso reforça o argumento de Mill sobre a importância das insti-
ram das investigações empíricas sobre comportamentos e atitudes tuições políticas locais como um campo de treinamento para a demo-
políticas é a que se esfãglêceu^htre^participação e o que~se có^ cracia e, de fato, os próprios autores do estudo observam que esses
nhece corno_o_senti3Q_de eficácig^polftiçajaj o sentido_de^Qmpetên- fatos fornecem
^cja_golítica. Isso foi descrito como o sentimento de que "a ação polí-
tica do indivíduo tem, ou pode ter, um impacto sobre o processo um argumento em favor da clássica posição de que a participação política a í
político, ou seja, vale a pena cumprir alguns deveres cívicos" nível local tem um papel fundamental no desenvolvimento de uma cidadã: J
(Campbell etalii, 1954, p. 187). As pessoas com o senso de eficácia nia_corngetente. Como sustentaram vários escritores, o governo local l
política têm mais probabilidade de participar de política do que pode funcionar como um campo de treinamento para competência polí-
tica. Onde o governo local permite a participação, ele pode estimular;wn
aquelas que carecem desse sentimento, e se descobriu também que senso de competência que então se projeta a nível nacional (p. 145). '
subjacente ao senso de eficácia política está uma sensação geral de
eficiência pessoal, que envolve autoconfiança na relação do sujeito Qs_aytores também investigaram os efeitos da participacão_£rrLorga-
com o mundo. "As pessoas que se sentem mais eficientes em suas nizagões voluntárias e descobriram que, nos cinco países, o senso de
tarefas e desafios cotidianos têm mais probabilidade de participar eficiência política era maior_gnfrejgs menTbros_da_organização do
em política"1, e Almond e Verba disseram que "de muitas manei- que entre os quejrtão eram membros, e erajnais_altp,ainda entre os
ras... a convicção na própria competência é uma atitude política s^mii^ejn particular
decisiva" (1965, pp. 206-7). _ _ - - á foi mencionado que a teoria de democracia participativãTern
pjítiça^daqui por diante, será visto como uma interpretação opera- similaridades com argumentos recentes sobre o pluralismo social, e
Ç.ÍPJM-SU,_peio_rnenos,_parte do efeito pjisojógjco_a_gu^je_r£ferejru Almond e Verba concluem em seu capítulo a respeito da participação
íòs_^ricos_da^democracia participativa. A questão que agora se co- em uma organização dizendo que "o pluralismo, mesmo não sendo
explicitamente político, pode ser, de fato, um dos fundamentos mais
1. Milbrath, 1965, p. 59. Para um resumo das descobertas relativas à eficácia política, ver
Milbrath, pp. 56-60, e Lane 1959, pp. 147 e segs.
2. Almond e Verba, 1965, pp. 140 e segs., e tabelas VI, l e VI, 2.

66
67
importantes da democracia política" (p. 265). De modo geral, as tendem a proteger seus filhos das realidades da vida política.3 É
recentes pesquisas sobre socialização política mostraram que os teó- bastante significativo que as atitudes das crianças mais velhas difi-
ricos da democracia participativa caminhavam em solo firme ao de- ram das atitudes das crianças mais novas, sob o impacto da crescente
clararem que o indivíduo, a partir de suas experiências com estrutu- (realista) experiência do mundo; na verdade, os próprios autores en-
ras de autoridade não-governamentais, teria a tendência de fatizam a importância desta última experiência para socialização po-
ampliá-las à esfera mais ampla da política nacional. Como Eckstein lítica, e dizem que "a socialização secundária, durante o período que
em seu livro examinado anteriormente, Almond e Verba apontam se segue à infância, pode, sob certas circunstâncias, conduzir para
para essas estruturas de autoridade como a variável mais importante" uma direção oposta... cujo resultado depende de forma nítida das
e argumentam que situações" (p. 310). /
Sugerir que devemos observar estas experiências adultas não é
se na maioria das situações sociais o indivíduo se acha subserviente a a mesma coisa que dizer que a infância não tem importância na
j alguma figura de autoridade, é provável que ele espere uma relação de
l autoridade como essa na esfera política. Por outro lado, se fora da socialização política — experiências posteriores podem muito bem
esfera política ele dispõe de oportunidades de participar de um amplo reforçar atitudes que começaram a se desenvolver desde cedo. Este
leque de decisões sociais, provavelmente esperará ser capaz de partici- ponto tem relevância direta para o problema do desenvolvimento da
par do mesmo modo das decisões políticas. Além disso, a participação
na tomada de decisões não-políticas pode dar-lhe a destreza necessária
sensação de eficiência política entre as crianças, que Easton e Dennis
para se engajar na participação política (pp. 271-2). também pesquisaram, embora não estivessem preocupados, como
Almond e Verba, com a questão de por que alguns indivíduos se sentem
Almond e Verba sustentam que as experiências adultas são fun- politicamente mais eficientes do que outros, mas sim em descobrir se as
damentais nesse processo de socialização política, porém, pesquisas crianças aceitam a norma da eficiência política. Porém, de novo, essa
mais recentes e em especial a de Easton (e associados) centraram-se abordagem não nos diz nada sobre as atitudes políticas dos adultos.4
nos anos da primeira infância como sendo de fundamental importân- O que chama mais a atenção nesses estudos de eficiência política é que
cia na formação dos comportamentos e das atitudes políticas poste- os diferentes níveis estão vinculados ao status sócio-econômico; os in-
riores. Entretanto, ainda que os dados apresentados em Crianças no divíduos de baixo status sócio-econômico tendem a ter uma sensação
sistema político (Children in the Political System, Easton e Dennis, de eficiência política baixa (e a participar menos). Essa correlação entre
1969) mostrem que o aprendizado especificamente político de fato classes e níveis de eficiência também é válida para as crianças, e Easton
se dê na primeira infância, e ainda que possa ser verdade que tal e Dennis sustentam que os níveis de eficiência medidos nas crianças
aprendizado ajude a estabelecer uma reserva de "apoio difuso" à refletem, na verdade, a visão que
autoridade política como tal, os dados não chegam a estabelecer uma porJarnentfiL£lõs_pais, ( 1 967rpT31)Dessa forma, ainda temos que dar
conexão entre os comportamentos ou atitudes políticas específicas conta da diferença dos adultos nesse sentido, e não adianta dizer que é
do adulto e o tipo particular de aprendizado infantil do qual trata o apenas o resultado de sua própria infância...
livro (ou seja, que as crianças aprendem a atribuir um sentido, e a se A área na qual uma tal explicação pode ser feita já foi indicada —
relacionar com a autoridade política em grande parte por meio das nas experiências dos indivíduos com estruturas de autoridade não-go-
personalidades do presidente da República e dos policiais). De fato,
muitas das observações dos próprios autores põem em dúvida, em 3. Pp. 357-78. Ver também Greenstein, 1965, p. 45, e Orren e Peterson, 1967. As descobertas
de Easton e Dennis também são provavelmente vinculadas à cultura, um fato que eles
última análise, a importância de tal aprendizado infantil. Observam mesmos reconhecem (ver por exemplo Jaros et alii, 1968).
eles que, "surpreendentemente, mesmo em uma época influenciada 4. É um raciocínio curioso (Easton e Dennis, 1967, p. 38) dizer que, durante a infância, a
por preconceitos freudianos, o efeito das experiências infantis sobre "internalização" de uma norma que diga que devemos ter voz na vontade do governo, em si, ajuda a
contrabalançar a frustração que sentiremos mais tarde ao descobrirmos que as aparentes
o comportamento adulto é ainda discutível" (p. 75) e que os pais oportunidades de realizarmos isso são ilusórias. Seria mais provável que ela tivesse o efeito oposto.

68 69
vernamentais, e esta pesquisa pode nos fornecer uma explicação das eficiência política encontrados nas crianças. Uma das explicações ofe-
diferenças entre as crianças e os adultos. Almond e Verba descobriram recidas a propósito da diferença de classe na educação das crianças é o
que as oportunidades (rememoradas) de participar na família e na es- efeito das ocupações de baixo status dos pais; "pais cujo trabalho IfiêsA
cola relacionavam-se com uma pontuação bem alta na escala da compe- proporciona pouca autonomia, e que são controlados por outros, sem l
tência política nos cinco países, sendo de particular importância o im- por sua vez exercerem controle algum, são mais agressivos e severos'']
pacto das oportunidades no nível da educação superior. Sãoascrianças l (Cotgrove, 1967, p. 57), oujsejajjílejniãoj3n^^
de classe média que tendemjuipresentar a pontuação mais alta na escala cipativo em casa. Sem dúvida, as experiências do trabalho afetam o
de eficiência^_sabemos_C[ue as famílias de classe média têmjnaior desenvolvimento de um sentimento de eficiência política nos adultos^
probajid^b_dj_Bropjgircionar a seus filhos um^estru1ü^^ê~ãiitõridadè' Almond e Verba perguntaram aos entrevistados se eles_eram_consult-
faniiHar^articipatiYj,^ Já as7àm3ín^dãTülasses"tfãbalHãdoras tendem ados a respeito das decisões tomadas no trabajho^jté^que^orito^lesje
"TTséTmais "autoritárias" ou a exibir um padrão de autoridade sem con- «SJtSniHl^r^ efetiva-
sistência. Uma vez que as crianças de classe média também têm mais jrLente.faziam.queixas. Em todos os países, as oportunidades de particr^ yí,
possibilidades de receber_educação superior, começamos a perceber o i par foram positivamente relacionadas com um sentimento de compe-
ão.5 tência política, e, também, como seria de se esperar, quanto maior o
Porém, apesar dessas diferenças evidentes já na infância, o status do entrevistado, maior número de oportunidades era relatado.6/
ponto de vista de Almond e Verba é de que as experiências adultas ^_ Também se viu que a participação tinha efeito cumulativo:
são essenciais. Com base em dados dos cinco diferentes países, eles quanto maior o número "dê~areas em jjuej3 indivíduo participava,
concluem que "em um sistema social relativamente moderno e di- mãiÕFtehdia a ser a sua pontuação na escala de eficiência política.7
versificado, a socialização na família e, em menor proporção, na Já notamos que iaYâcwm^ãe^ÕpÕfíwMaVê^yê^á^Tcí^çaõ^^ÍQ
escola, representa um treinamento inadequado para a participação a ocorrer mais entre os indivíduos de alta condição sócio-econômica. /
política" (p. 305). As oportunidades para "participar nas decisões^jip
próprio local ^ -Nojndamej^gerja^as_cj^
_ . , _ cão sócio-econômica infejlOTj|u^
desenvolvimeníCLdg_jejT^cãgjfe_eficiênciapglffea. "A estrutura de p^^^^^^esjec^n^fltejaojoc^d-ejrjbajhp. Já_fazquase parte
autoridade no local de trabalho é provavelmente a mais significativa
da JgííSiSlgJg^gPEâSâgJ6,^111 indivíduo de baixõ^tatüTsocw^êco-
— e notória — , estrutura esta com a qual o homem médio se en- nôrrdoojque ele tenha pouca margem para o exercícj^dajrnciativa ou
contra em contato diário" (p. 294).
d^c9ntrole^bTé"^~sBrtr^b^m^^^oDre!^s condições de trabalho,
Na verdade, as experiências com os diferentes tipos de estrutura que ele não participe 3ã~íomadã~3ê~alêcisoês ^Êrêmpresa^TrecêSa
de autoridade no local de trabalho, por parte dos adultos, podem tam-
iHslrü^^s~s'ObTéTyT[u^
bém nos fornecer uma explicação a respeito dos diferentes níveis de
inilhante situação" levaria'a sentimentos de mêlícienciFq^^eriarn
reforçados pela falta de oportunidades~de participar, que levariam a
5. Almond e Verba, pp. 284 e segs., quadros XI. 4 e XI. 5. Easton e Dennis, 1967, e Greenstein
1965, pp. 90 e segs. Para um relato adequado das diferenças de classe nos padrões de educação das uma sensação de ineficiência... e assim por diante. Um efeito desse
crianças na Inglaterra, ver Klein, 1965, vol. H. Outro fator decisivo nessas modernas escolas tipo foi enfatizado em um artigo de .alguns anos atrás de Knupfer,
secundárias (freqüentadas, na maioria, por crianças de baixo nível sócio-econômico) é que em geral
funcionavam com o método que se chamava de "treinamento de sargentos", e isso permitia pouco
intitulado "Retrato do pobre-diabo" ("Portrait of the Underdog").
espaço para que a criança tomasse decisões sobre qualquer assunto. Para um modelo deste tipo de Ele sustentava ali que os diferentejiyisjjgcJxjsjla^OT
escola, ver Webb, 1962. Um dado interessante é que a diferença nos níveis de eficiência política entre nôjmGajojanajr^urn.^írcu^^
as classes é menor na Noruega do que nos Estados Unidos, e uma das explicações propostas refere-se
a estrutura diferente dos partidos políticos nos dois países: na Noruega eles são "polarizados em
termos de classe", e, portanto, oferecem um maior número de oportunidades para as pessoas de baixa
4-
6. Almond e Verba, 1965, pp. 280-3, quadro XI. 3, e pp. 294-7, quadro XI. 6.
condição sócio-econômica participarem. Ver Rokkan e Campbell, 1960, e Alford, 1964. 7. Almond e Verba, pp. 297-9, quadros XI. 7 e XI. 8. Esse resultado não vale para o México.

70 71
"TI

o que lhe é de direito'". O autor enfatiza a importância dos fatores esse respeito pode ser encontrada no estudo comparativo de Blauner de
psicológicos neste processo e sugere que a falta de esforço para con- quatro diferentes situações de trabalho. Em Alienação e liberdade (Alie-
trolar seu ambiente (comumente encontrada nos grupos de baixa condi- nation and Freedom, 1964), BJauner analisava as indústrias (norte-
ção sócio-econômica) pode dever-se a "hábitos profundamente arraiga- americanas) gráfica, têxtil, automobilística e química, onde a relação
dos de só fazer o que lhe mandam". A desvantageniegonômicajigacse dos trabalhadores comuns com a divisão do trabalho, a organização do
então à desvantagem psicológica z engendra/!yma,falta-.demautocQn- trabalho e o processo técnico variava bastante, assim como o impacto
Tíãngãjjue,jmmênta a ^n^^^^d^^^^^d^b^xojtjatus^de desses fatores sobre os trabalhadores. pVgejnas,algumas,situaçõe,s de tra-
balho, mostraram^exojr^ííveis^om-o^s^nvolvimentg^as caracte-
classejnédia, muito além do^ que seria um retraimento realista adaptado rísticas psicológicas,que. nos interessam, os sentimentos,,de,cpnfiança e
às poucas oportunidades de se tornar eficiente" (1954, p. 263). / de eficiência pessoal subjacentes ao,,sentinientode eficiência política.
""Rn apresentada, agora,j^evidência para apoiar o aTgumgntojla Tais condições não estavam presentes na indústria automobilística ou
[teoria da democracia participativa de que a participação emj^trajturas na têxtil. "O ambiente de trabalho na indústria automobilística é racio-
delmtondade não-governamentais éüêcèssafia para alimentar e desen- nalizado em grau tão elevado que os trabalhadores praticamente não
vôTvêT^qúaüdãdés psicológicáT(õ~s^ntÍmento d^^cjência^polificl) têm oportunidade de resolver problemas e de contribuir com suas pró-
r^^^^^j^a^ajg^i^^ç^â^/el^^^^mn^. TjrnbJriLfQÍ-CÍtada^_ prias idéias", e na Unha de montagem propriamente dita o operário não
evidência Darajpoiar o argumento de_que_ajndústria é a esfera mais tem controle sobre o ritmo ou a técnica do seu trabalho, e nenhum
importante paraj[ue ocorra essa participação, e isso nos fornece a base espaço para exercer sua habilidade ou liderança (pp. 98 e 111-3)./
para uma r»sjíyel_exp]íçaçãoide,ppr^que^oj^feixo^niwisWe^aência terrP Essa tecnologia, juntamente com a estrutura de autoridade característica
maiarpjgbabiUdadeJe seremjncqntradps entre os grupos de baixa condi- de uma Unha de montagem de automóveis, pouco contribui para o senso
ção sócjo^on&niça. .Examinaremos, agora, mais algumas evidências de auto-estima, e a "personaUdade social do trabalhador automobilís-
- empíricas a propósito do efeito que os diferentes tipos de estrutura de tico... expressa-se em uma atitude característica de cinismo em rela-
autoridade industrial têm sobre as atitudes e perspectivas dos indivíduos./ .ção à autoridade e aos sistemas institucionais" (p. 178). A situação1
Ultimamente tem havido um considerável interesse sobre o efeito na indústria têxtil levava ainda menos ao desenvolvimento de sentimen-
que os diferentes tipos de estruturas de autoridade e as diferentes tecnolo- tos de eficiência pessoal. Neste caso, não apenas o processo técnico
gias têm sobre aqueles que trabalham com elas. Do mesmo modo que o reduz ao mínimo o controle do trabalhador sobre o seu trabalho, como
trabalhador de baixo status sócio-econômico, numa estrutura de autoridade também o deixa "à mercê tanto dos supervisores menos graduados
hierárquica, está em uma posição de permanente subordinação, assim, em quanto dos mais graduados". Blauner cita um estudo psicológico feito
relação a algumas tecnologias, ele pode ser subordinado também às exi- sobre têxteis e que descrevia a personaüdade típica do tecelão como a
gências externas do processo técnico.8 Uma ilustração de interesse a de alguém "resignado com o que lhe coube... mais dependente do que
independente... falta-lhe confiança em si mesmo... é humilde... os senti-
8. O efeito que certos tipos de processo industrial tinham em seus empregados foi comentado por mentos que mais prevalecem... parecem ser o medo e a ansiedade" (pp.
Adam Smith: escreveu ele, "no progresso da divisão do trabalho, o emprego... da grande maioria das
pessoas acaba se restringindo a algumas poucas operações simples; freqüentemente a uma ou 69-70 e 80). O contraste entre essas duas indústrias e as indústrias
duas.Porém, o entendimento da grande maioria dos homens é necessariamente formado por gráfica e química era marcante. Na indústria gráfica, ainda em grande!
suas ocupações comuns. O homem que passa a vida inteira realizando algumas poucas operações simples
cujos efeitos são, talvez, sempre os mesmos... não tem ocasião para exercer seu entendimento ou para
medida artesanal, o trabalhador tem uni alto grau de controle sobre seul
exercitar sua inventividade, encontrando expedientes para remover dificuldades que não ocorrem jamais. trabalho, tem elevados padrões internalizados, de destreza e responsabW
Ele naturalmente perde, portanto, o hábito de tal exercício e em geral se toma tão estúpido e ignorante lidade, e uma dose muito grande de liberdade em relação ao controle
quanto é possível para uma criatura humana se tomar... (ele é incapaz) de formar qualquer juízo justo que
diga respeito mesmo a muitas das tarefas comuns da vida privada. Ele é inteiramente incapaz de externo. Todos esses fatores contribuem, diz Blauner, para uma "perso^
discernimento sobre os maiores e mais amplos interesses do seu país". Smith, 1880, vol. U, pp. 365-6. nalidade social caracterizada por... um forte senso de individualismo e

73
de autonomia, e por uma sólida aceitação da cidadania na esfera mais lão.10 Tipicamente, o trabalhador de escalão inferior na indústria mo-
ampla da sociedade. [O gráfico]... tem um sentimento de auto-estima derna vê-se num ambiente de trabalho onde ele pode fazer uso de
altamente desenvolvido e a sensação de que é útil, por isso está pronto poucas habilidades, e exercer pouca ou nenhuma iniciativa ou con-
a participar das instituições sociais e políticas da comunidade" (pp. 176 trole sobre o seu trabalho. Isso pode levá-lo a experimentar "uma
e 43 e segs.). Um resultado similar foi encontrado na indústria química, sensação de perda de autocontrole e de responsabilidade", e o efeito
contudo, neste caso não era devido ao alto grau de controle sobre o cumulativo durante um período pode vir a "influenciar a visão que o
trabalho e às condições exercidas pelos artesãos isolados, mas à respon- empregado tem de si mesmo, sua auto-estima... sua satisfação na
sabilidade coletiva de um grupo de empregados para a manutenção e a vida, e, de fato, seus valores quanto ao significado do trabalho". Argy-
uniformidade de um processo fabril contínuo. Cada grupo tinha con- ris especula sobre a possibilidade de esses estados psicológicos se vincu-
trole sobre o ritmo e o método para realizar o trabalho, e os grupos de larem à falta de interesse e de atividade em política, mas não investiga
trabalho eram em grande parte autodisciplinados internamente. Assim propriamente esse aspecto (1964, pp. 54 e 87-8). /
como na indústria gráfica, essa situação de trabalho contribuía para Parececlaraajartk desses indfcios1quej)argumento dateoria da
sentimentos de auto-estima e de autovalorização (pp. 132 e segs., 179 e democrac^rjarticjrMwa^
159). BkmCTcp^dmujuej^nato^zado trabalh£jd£ju^h^omeinafeta vantes) dojndiyjduo^ep^deiQ^
seu caráter e personalidade sociais^, e que um ambiente industrial tende dlTsliu ambjerüe^ejttabj^
a geraram tipo social distinto". / 'cffiSTo^«enyqlvimento jie um senso de eficiência pojtfticã parece
Õ impacto das estruturas de autoridade hierárquicas e da subdi- Sêperíder do fato de sua situação àe trabalho lhe proporcionar alguma
visão do trabalho sobre a personalidade também recebeu a atenção perspêctivíde participar das tomadas de decisões. Se for assim, então,
de autores das áreas de organização e de administração, que abordam no què'cóncémé à validade empírica da teoria da democracia participa-
a questão do ponto de vista da eficiência da organização. Para tanto, tiva, o ponto fundamental passa a ser até que ponto é realmente possível
costuma-se argumentar que é necessária uma estrutura de autoridade que a indústria seja organizada em linhas participativas. É com essa
e uma organização do trabalho que não prejudiquem a "saúde men- questão que estaremos lidando a partir desse ponto.
tal", a eficiência psicológica do empregado. Argyris, por exemplo, Existe uma quantidade considerável de informações disponíveis,
com base em dois modelos, um da organização hierárquica (burocrá- de diversas fontes, sobre a democracia industrial e participação no local
tica) e o outro do indivíduo psicologicamente saudável, sustentou de trabalho; com efeito, o termo "participação" esteve um tanto em
que a forma típica de estrutura de autoridade da indústria moderna voga entre autores que falavam sobre administração e assuntos congê-
não consegue suprir as necessidades de auto-estima, de autocon- neres, nos últimos anos. Nenhuma parte desse material, no entanto, foi
fiança, de crescimento do indivíduo, e para apoiar seu argumento considerada pelos defensores da teoria da democracia contemporânea,
citou farto material empírico./Isso não afeta apenas as pessoas situa- nem mesmo por Eckstein que dizia não ser possível democratizar as
das na base da estrutura. As "normas organizacionais", diz Argyris, estruturas de autoridade da indústria. Até o presente momento, em
forçam o executivo a ocultar seus sentimentos, o que lhe dificulta o nossa discussão da teoria da democracia participativa, utilizamos os
desenvolvimento da competência e da confiança nos relacionamen- termos "participação" e "democracia" praticamente como sinônimos, e
tos interpessoais, dos quais depende a administração eficiente, e faz
10. Argyris, 1957 e 1964. Este argumento, é claro, assemelha-se ao de Merton, em seu bem
com que não queira assumir riscos. Isso tende a aumentar a "rigi- conhecido ensaio sobre Estrutura burocrática e personalidade (Bureaucratic Structure and
dez" da organização, com efeitos deletérios sobre o mais baixo esca- Personality}, onde ele diz que, com o crescimento das formas burocráticas de organização, "torna-se
claro, para quem quisesse ver, o fato de que, de modo ponderável, o homem é controlado por sua
relação social com os instrumentos de produção. Isto não pode mais ser visto apenas como um dogma
9. Blauner, 1964, pp. VIIT e 166. Evidências similares sobre o efeito dos diferentes do marxismo, mas como um fato evidente que todos devem saber". Isso leva, sustenta ele, ao desvio
ambientes de trabalho sobre as atitudes políticas podem ser encontrados em Lipsitz, 1964. de objetivos, à timidez, ao ritualismo, à impessoalidade e assim por diante. Merton, 1957.

74 75
é desse modo que são empregados na maior parte da bibliografia sobre nesse aspecto, ele resultaria, como mostrou Blauner (1964), numa dife-
administração, que iremos rever. Este uso é errôneo, mas a questão da rença fundamental: "a divisão da sociedade num segmento de consumi-
relação precisa entre os dois, ou melhor, da relação entre a democracia dores que são criativos em seus momentos de lazer, mas realizam um
industrial e as várias formas que a participação pode tomar, precisa ser trabalho sem sentido, e em outro segmento capaz de auto-realização em
deixada de lado até que o material empírico tenha sido examinado; na ambas as esferas da vida" (p. 184). Isto pressupõe, porém, que tais
verdade, tal relação mostra-se consideravelmente mais complicada do benefícios psicológicos ou seus equivalentes advenham tanto do tra-
que em geral se supõe. Outro problema correlato, que também será balho quanto do lazer, embora existam diferenças significativas entre os
considerado, diz respeito a como os efeitos psicológicos da participação dois. O termo "lazer" engloba um vasto leque de atividades, algumas
no local de trabalho se relacionam com as diferentes formas de partici- das quais (especialmente certos hobbies) assemelham-se muito a ativi-
pação e com a democracia industrial, j dades de "trabalho" que, no entanto, diferem no contexto no qual são
Antes que se inicie o exame do material empírico é preciso consi- t> executadas. Entendemos por "trabalho" não apenas a atividade que for-
derar rapidamente uma objeção que tornaria todas as considerações nece à maioria das pessoas a principal determinante de seu status no
descabidas. Embora tenha-se mostrado que a participação no local de mundo ou a ocupação que o indivíduo desempenha em "tempo inte-
l trabalho é importante para a participação política mais ampla, poder-se- gral" e que prove seu sustento, mas também queremos nos referir às
|ia objetar que, não obstante, ela não tem uma importância central, pois, atividades que ele realiza em cooperação com outros, que são "públi-
fhoje em dia, e cada vez mais, o lazer constitui a parte mais importante cas" e intimamente relacionadas à sociedade mais ampla e às suas ne-
' da vida do trabalhador e a esfera da qual ele espera, e pode, receber, cessidades (econômicas). Assim, estamos nos referindo a atividades
que, potencialmente, envolvem o indivíduo em decisões a respeito de
j satisfações psicológicas. Os autores que sustentam a importância fun-
assuntos coletivos: os assuntos da empresa e da comunidade, em geral
il damental do lazer na vida do trabalhador de baixo escalão de hoje
diferentes das atividades das horas de lazer. Ainda que alguns hobbies
l apontam para o fato de que muitos trabalhadores, em particular os bra-
possam ter os mesmos efeitos psicológicos que aqueles, como Blauner
' cais, tendem a encarar o trabalho como algo que possui valor mera-
aponta, advindos da atividade do artesão (o gráfico), nem todas as ativi-
mente instrumental e a concentrar suas aspirações no lazer. Assim, poder-
dades de lazer são hobbies; muitas — a maioria — não envolvem a
se-ia sugerir, por extensão desse argumento, que o lazer pode fornecer
produção de nada por parte do indivíduo; ao contrário, levam-no a
um substitutivo para o trabalho no que diz respeito ao desenvolvimento
consumir, de maneira que tanto a atividade quanto o contexto são dife-
do senso de eficiência política11 Contudo, o argumento coloca dificulda-
rentes. E, mais importante, o "argumento do lazer" ignora a asserção
des consideráveis, f /
feita pelos teóricos da sociedade participativa a respeito do inter-rela-
Primeiramente, mesmo se o trabalho pudesse substituir o lazer
cionamento de indivíduos e instituições: se um certo tipo de estrutura de
autoridade industrial consegue afetar a participação política, então afe-
11. Jjoponto de vista da teoria da democracia participativa, sgngjhante,,aütode,jnslrumentalpoderia ser
considerada uma Saicação de que o Irabalhãdornãoestaria operando numjmbiente jjarticjgaáyp. Sena._
taria igualmente o lazer? Esse tipo de ligação foi sugerido por diversos
de se esperarqúétãlWffienSprõpiciasse uma avaliàçã^jllpljeífi termos de fatores intrínsecos, em autores. Por exemplo, Bell (1960), que escreveu que a '"ociosidade
n^ffi^Üõ^baeflciôlgi^lôfi^gign^^íOKratãçSj^ie Argyris, acima, foi sugerido que certos conspícua' constitui o gesto hostil de uma classe trabalhadora exausta"
ambientes'dê trabalKo poderiam levar o empregado a reavaliar o próprio trabalho, e argumentos análogos
sobre a situação do trabalho que levam à reavaliação do mesmo sob uma ótica instrumental podem ser (p. 233), e Friedman (1961), que sustenta que a "fragmentação do tra-
encontrados, por exemplo, em Oiinoy (1955) e em Lipsitz (1964). Em um livro recente sobre os balho nem sempre leva o trabalhador a buscar atividades de lazer de
trabalhadores automobilísticos da Vauxhall sustenta-se que uma atitude instrumental é muito mais
transposta para o trabalho do que desenvolvida lá. No entanto, as observações feitas sobre as crescentes
grandes conseqüências a fim de compensar suas frustrações. Em vez
pressões sociais sobre o trabalhador isolado para que considere seu trabalho sob uma luz instrumental não disso, tais atividades podem tender a desorganizar o resto de sua vida"
são incompatíveis com a tese da situação do trabalho. Os autores do livro não consideram o impacto da
(p. 113). Friedman considera ainda que "matar tempo" é uma caracte-
estrutura de autoridade da fabrica de carros, nem dão qualquer indicação se as atitudes dos trabalhadores
em relação ao trabalho se modificaram enquanto estavam na Vauxhall Goldthorpe et ala (1968). rística geral do comportamento da massa da atualidade. Riesman modi-

76 77
ficou sua opinião a respeito do que escreveu sobre o lazer em A multi- de trabalhadores por uma tal participação. Em uma pesquisa efe-
dão solitária (The Lonely Crowd), e recentemente sustentou que tanto o tuada na Noruega, abrangendo mais de 1100 trabalhadores de Oslo,
trabalho quanto o lazer devem "ter sentido".12 Por fim, para reforçar os não em cargos de chefia, 56% dos colarinhos-azuis e 67% dos cola-
argumentos nessa linha, existe o fato significativo de que as pessoas que rinhos-brancos* sentiam que gostariam de participar mais das "deci-
participam mais de atividades de lazer de tipo "público" (organizações sões que diziam respeito diretamente a meu próprio trabalho e às
voluntárias, política) são justamente aquelas dos grupos, os de alta con- minhas condições de trabalho".14 Em um estudo sobre 5700 traba-
dição sócio-econômica, que têm maior probabilidade de trabalhar em lhadores americanos da indústria pesada obteve-se como resultado
um ambiente que possibilita o desenvolvimento de um senso de eficiên- que mais da metade queria maior poder de decisão sobre a maneira
cia pessoal. Porém, mesmo que o argumento do lazer pareça mais plau- de executar o trabalho.15 Na Grã-Bretanha, existem algumas evidên-
sível, pelo menos na Grã-Bretanha, a maioria das pessoas tem muito
cias indiretas sobre esse assunto a partir de tendências mostradas
pouco tempo de ócio e, ao que tudo indica, para um futuro próximo o
pelas greves desde a guerra. Greves motivadas por outras reivindica-
trabalho continuará a ocupar grande parte das horas de vigília da maio-
ria das pessoas.13 ções que não as salariais, em especial greves relativas às negocia-
ções, regras e displicinas do trabalho, totalizando agora cerca de três
Como ocorre com muitas palavras que atingem um certo grau
de popularidade em determinado contexto, o termo "participação quartos de todas as interrupções de trabalho; ou seja, a maior parte
tem sido empregado por autores que focalizam aspectos da indústria das greves são agora por problemas que, de modo geral, se relacio-
e da administração em sentidos bem diferentes, sem que isso fique nam com o "controle". Tumer comentou que se poderia dizer que
bem claro, ou, de fato, sem que os próprios escritores dêem mostras todas essas greves "envolvem tentativas de forçar o arbítrio e a auto-
de estarem conscientes dos vários sentidos envolvidos. A partir do ridade administrativos a um acordo... quanto às regras; ou então re-
exame que fizemos das evidências empíricas a respeito da participa- fletem uma pressão implícita por mais democracia e direitos indivi-
ção industrial podemos distinguir três principais sentidos j)ujbrmas duais na indústria "(Turner, 1963, p. 18).
djparócjrja^o^Tais evidências tam^nTpermitenTqüFsFdiga algo O mesmo desejo pode ser identificado no (volumoso) material
a propósito das hipóteses específicas sobre os efeitos da participação sobre satisfação no trabalho. Poder-se-ia supor que a maioria dos
fornecidasjpelos teóricos da democracia participativa e sobre os efei- ~ trabalhadores estaria insatisfeita com empregos que lhe permitisse
tos em reiação^à_e_ficiêira^ecpnômica da,,emgresa. exercer um controle muito pequeno, mas na verdade é exatamente o
f
Nas" evidências citadas do livro de Blauner, relacionadas ao inverso que parece acontecer: todas as evidências mostram que a
impacto das diferentes situações de trabalho sobre as orientações maioria dos trabalhadores está satisfeita com seus empregos. Esses
psicológicas do indivíduo, a variável fundamental era o grau de con- indícios de satisfação geral agora estão sendo interpretados de ma-
trole que o indivíduo poderia exercer sobre seu trabalho e seu neira bem mais cautelosa do que muitas vezes foram no passado.
ambiente de trabalho. Na discussão da teoria da participação de Conforme observou recentemente Golthorpe, "resultados desse tipo
Rousseau enfatizava-se a estreita conexão entre o controle e a parti- foram na verdade encontrados várias vezes em casos onde outras
cipação na tomada de decisões, e é bastante óbvio que para que um evidências indicavam de modo claro que os trabalhadores em ques-
indivíduo exerça um tal controle ele terá que participar ao menos das tão passavam por privações bastante severas no exercício de seus
decisões que afetam seu trabalho diretamente. No presente momento
existe uma aspiração generalizada entre muitas categorias diferentes * Os blue-collar workers são os trabalhadores que usualmente executam tarefas mecânicas e
para isso trabalham uniformizados. Simbolizam uma determinada condição sócio-econômica
12. Riesman, 1956 e 1964. Ver também Mills, 1963. (baixa ou média) e são opostos aos white-collars, que podem trabalhar com roupas cotidianas
e representam uma outra condição social. (N.T.)
13. Ver Boston, 1968. A velocidade com que a automação será introduzida muitas vezes tem
sido superestimada; para isso, ver Blumberg, 1968, p. 55. 14. Holter, 1965, p. 301, quadro 2.
15. Citado em Blumberg, 1968, p. 115.

78 79
trabalhos".16 Mais significativas foram as razões apresentadas para trabalho. Uma delas é a í3eiã~3e^ã^g]Sç^ deMarerâlS. Um trabalho é
não gostar de um emprego: a principal é que o indivíduo pode exer- "ampliado" quando seu coHteúdõ~ãümenta e, desacordo com um espe-
cer pouco controle sobre o que faz ou sobre as condições em que o cialista em administraçãe^existem três suposições principais por trás
faz. Isto se aplica particularmente ao caso mais extremo (como dessa idéia: capacitar o trabalhador afazer um uso inãlÕTBe suashãbi-
vimos pelo estudo de Blauner), o do "homem na linha de monta- seu
gem". Esses trabalhadores de linha de montagem que julgam o tra- rendimento; em seg
balho satisfatório em geral dão como razão o fato de serem capazes tar a satisfação e,
de formar grupos de trabalho, isto é, encontram um meio de exercer dores de baixo escalão de coSseguir_um sentimento real de participação
um pouco de controle. De modo geral, tem-se como resultado que a ^^^^^^^==^= ^^ ====^=-~e' - :• — — - --=. -^ * , f--3-
nos ^assuntos =de ===s=
uma empresa ou qualquer preocupação durável com.o
satisfação expressa em relação a um trabalho é menor à medida que seu,sucessç>" (Stephens, 1962). Um exemplo típico de ampliação de
o nível de especialização diminui, e que as ocupações que exigem tarefas foi fornecido pela reorganização do trabalho das mulheres em
menos especialização seriam as que teriam menor probabilidade de uma Unha de montagem, de modo que elas executassem nove opera-
envolver muitas oportunidades de controlar o processo de trabalho.17 ções em vez de apenas uma, fizessem sua própria supervisão e obtives-
Blauner (1960, p. 353) observou que "o fato de que a perda de tal sem alguns de seus próprios suprimentos.1
controle parece ser a causa mais importante da forte insatisfação [é A ampliação de tarefas pode ser vista como um exemplo rudi-
uma descoberta] ao menos tão importante quanto o resultado total da mentar de uma forma, ou um passo na direção da participação no
satisfação generalizada". local de trabalho. Na verdade, as grandes experiências de ampliação
O motivo da realização de tantas pesquisas sobre a satisfação no de tarefas quase não se distiguem, quanto à forma, dos exemplos de
emprego e sua relação com o desejo do trabalhador por maisJEoSrole experimentos menores que são explicitamente intitulados de experi-
Cípjrüejgação^sobre seu trabalho imediato e seu ambiente de trabalho é mentos "de participação", isso porque as mesmas hipóteses sobre o
qüê~sèTescobriu que a satisfação do trabalhador com o seu emprego grau de controle que o indivíduo pode exercer sobre seu trabalho e
estava estreitamente ligada à sua moral, eficiência e produtividade. Um sua atitude psicológica destacam-se nos dois casos. Diversos experi-
aumento de sua satisfação provoca um efeito benéfico sobre uma série mentos de "participação" foram realizados nas últimas duas décadas,
de outros fatores, tanto do ponto de vista do trabalhador quanto da tanto como resultado de uma política deliberada de administração
empresa como um todo, de maneira que várias tentativas práticas foram quanto como resultado de iniciativas dos trabalhadores interessados,
feitas para combater os efeitos psicológicos da excessiva subdivisão do e os relatórios sobre tais experimentos, antes praticamente inacessí-
veis, foram agora reunidos e resumidos por Blumberg no capítulo 5
16. Goldthorpe et alli, 1968, p.ll. Existem várias razões para esse estranho fato. O trabalho de seu recente livro Democracia industrial: a sociologia da
atende a uma grande série de necessidades humanas, incluindo as de atividade compartilhada
e de relacionamento social; é difícil também para um trabalhador admitir que não gosta de seu participação (Industrial Democracy: The Sõciõlogy óf Participa-
trabalho sem ameaçar seu auto-respeito, ele se "autocondenaria por não fazer nada para ~tion, 1968). Conforme ele assinala, esses experimentos de participa-
encontrar um trabalho ao qual se adaptasse melhor" (Flanders et alii, 1968, pp. 120-1; ver
também Blauner, 1960). Depara-se também com freqüência com trabalhadores fazendo ção foram realizados em urna grande variedade de organizações,
comentários como "se eu não gostasse [do trabalho] eu me sentiria miserável"(Zweig, 1961,
p. 77). Esse autor também fornece um exemplo de interpretação acrílica da "satisfação" incluindo clube de rapazes, organizações femininas, classes de universi-
encontrada quando ele diz que "a síndrome do 'Trabalhador Infeliz' pode ter sido um fato no dades, fábricas de diversos tipos, escritórios, lojas, laboratórios científi-
passado... mas pouco restou dela em estabelecimentos industriais modernos, bem organizados
e bem administrados " (p. 79). Uma teoria interessante sobre a satisfação no trabalho que
cos, entre outros. De modo similar, eles foram conduzidos abrangendo
esclarece essas considerações pode ser encontrada em Hertzberg (1959 e 1968). uma tremenda variedade de pessoas com diferenças de idade, sexo,
17. Estas últimas considerações valem também para a URSS; ver Hertzberg, 1959, pp. 164-5.
A respeito dos trabalhadores de linhas de montagem, ver Walker e Guest'(1952, pp. 58 e
segs.) e os comentários em Goldthorpe et alii (1968, p. 23). 18. Guest, 1962. Stephens (1962) fornece vários exemplos; ver também Blumberg, 1968, pp.
66-8; Friedman, 1961, cap. IV e Walker, 1962, parte 2, §4.

80
81
educação, renda, ocupação e poder. Envolveram garotos, donas-de-casa, nos quais a esttujuraj*ej^ljie^ não é
estudantes universitários, trabalhadores braçais de diferentes níveis de
especialização e em diversos tipos de fábricas, supervisores de diferen- âfefaãarUm.grande defeito do livro de Blumberg é que, embora ele"
tes níveis, funcionários de escritórios e cientistas (p. 73). tenha reunido adequadamente os exemplos de experimentos de par-
ticipação, não os colocou no contexto de uma análise do conceito de
participação (industrial) propriamente dita. Assim, não se distin-
guem direito os vários exemplos, nem se relacionam de modo siste-
tado benéficos. Em um dos mais conhecidos experimentos, por mático os experimentos de participação em pequena escala à discus-
exemplo, foram selecionados quatro grupos de trabalhadores de uma são que ele faz dessa participação em uma escala bem maior, no
confecção. Em dois grupos, todos os membros participaram da reor- capítulo dedicado à organização da indústria na Iugoslávia. Ele tam-
ganização de seu trabalho com base num plano apresentado pela bém deixou de analisar um importante material sobre a participação
administração. Em outro grupo, eles participaram através de repre- na indústria, que fornece um exemplo de uma forma de participação
sentantes, e no quarto grupo não ocorreu participação alguma. O diferente da propiciada pelo material dos experimentos de participa-
resultado foi que no último grupo houve hostilidade, queda na produ- ção. Esse último fornece um exemplo do que deveríampsj;JiajTaarje
ção e alguns trabalhadores foram embora. Nos dois grupos de "par- "participaÇãS^S^rYTrSs também exjstem^yj.dência^que_mos-
ticipação total", pelo contrário, a atmosfera foi de maior cooperação tfãm ser possível aquilo que deveríamos cham^de Jlparticinação
e produtividade. 9 A característica comum de todos os experimentos "tqtajTi^Â diferença significativa é que nesta última situação os grupos
citados por Blumberg é que eles possibilitaram que os trabalhadores de trabalhadores são em boa parte autodisciplinados e ocorre uma
decidissem sozinhos sobre assuntos antes reservados exclusiva- considerável ttansfõrmliçãirdã estrutura de autoridade, ao menôTno
mente à decisão unilateral da administração, tais como o ritmo de níveídó prõces§p de trabalho cotidiano. Além disso, nos exemplos
trabalho, distribuição, como organizar uma modificação de tarefas, e que seguem, os grupos de Trabalhadores não apenas exercem con-
assim por diante. Importante foi o efeito psicológico que essa parti- trole integral sobre seu trabalho numa vasta área, mas o fazem não
cipação teve sobre os participantes; de fato, a posição do trabalhador como parte de um experimento e sim no curso do seu trabalho diário;
nesses experimentos tornou-se semelhante à do artesão, descrita por de fato, seu trabalho organiza-se precisamente sobre essa base. Estes
Blauner, de forma que, assim como se esperava um aumento de sua exemplos também apresentam interesse por uma razão bem dife-
satisfação com o trabalho, também se poderia esperarum aumento rente. Se uma condição necessária para a democracia é uma socie-
de seu sentimento de autoconfiança e competência, e isto de fato dade participativa, e mais ainda uma esfera industrial participativa,
ocorre. Desse modo, tais experimentos forneceram confirmação em- então o problema reside na maneira cojrnpjdjy^se^fetuar^transição
pírica ainda mãiõTpara a discussão^dos Jeõricòs da^mocraçia par- para um sistema desse tipo, pois ficou bastante claro que õs~exêm-
ticipativa sobre a importância da interação entre_as, orientações psi- plds dê participação mencionados até agora aproximam-se bastante
_ còlógicas dos indivíduos e a estrutura de autoridade de suas daquilo que é exigido pela teoria da democracia participativa. Na
instituições. -~_,^,^^^™^™«^—
verdade, Cole tinha uma resposta para esse problema: segundo ele
JMo entanto, ainda que os exemplos do livro de Blumberg real- tal transição se efetuaria por meio de uma política de "controle inva-
mente falassem de um aumento na participação dos trabalhadores na sivo". T o l í t i c a não se direcionava "à admissão dos trabalhadores
tomada de decisões, todos eles são exemplos dj_ejçpjerimentos^em no exercício conjunto de um controle comum com o empregador,
pequena escala,_a_curjc£prazõ, envõlvêncto pou^õr^^Mdores e_ mas à_com^£tojransferênci£de^ertas funções do empregador para
^ecj£õe£^relativam£nj£jpõuc^Trnportância, e, o queimais grave, os trabalhadores" (1920, p. 156). Os^.eios~pilc)Tquãís"^correnãrn
"essâ^ãnsferência seriafrTô" côptrato"coletivo; a negociaçãojçõfêlr/a
19. Coch e French, 1948. Ver Blumberg, 1968, pp. 80-4. séampliaria a. urn^canipp muito maior do que o atual e conferiria^

82 83
novog^goderes^aos trabalhadores. Um contrato seria negociado por posto, que envolvia uma forma de contrato coletivo e a abolição da
todos os trabalhadores num determinado estabelecimento comercial divisão rígida do trabalho, onde os trabalhadores operavam como um
ou empresa, pelo qual os trabalhadores controlariam de modo cole- grupo de auto-regulado. Tal situação foi descrita como se segue:
tivo assuntos como contratações e demissões, ritmo da produção e
escolha de contramestre e, enquanto grupo, seriam responsáveis pela O grupo assume inteira responsabilidade pelo ciclo total de operações
disciplina e receberiam um pagamento por tarefa (coletivo), o qual que envolvem a mineração no veio de carvão. Nenhum membro do
grupo tem uma função fixa no trabalho. Em vez disso, os homens se
seria dividido pelos homens em uma distribuição consensual.20 Que desdobram, dependendo das exigências do andamento da tarefa do
essa espécie de arranjo e esse tipo de participação dos trabalhadores grupo. Dentro dos limites exigidos pela tecnologia e segurança, eles
são factíveis é o que mostram exemplos que provêm de duas indús- estão livres para desenvolver seus próprios meios de organização e
trias bem distintas. realizar a tarefa. Nesse aspecto, não estão sujeitos a qualquer autori-
dade externa, e tampouco há dentro do grupo qualquer membro que
Os arranjos coletivos têm sido uma característica tradicional da assuma uma função de liderança formal... o acordo salarial global...
mineração britânica, e sua forma moderna, nas minas de carvão de baseia-se no preço negociado por tonelada de carvão produzido pela
Durham, tem sido objeto de estudo intenso e minucioso nos últimos equipe. A renda obtida é dividida por igual entre os membros da
anos, um estudo de início motivado pelo grande número de mineiros equipe (Herbst, 1962, p. 4).
atingidos por stress.21 Pelos métodos tradicionais de trabalho, o mi-
neiro realizava sua auto-supervisão e era o responsável direto pela Sob o sistema extensivo composto, a produtividade era maior
produção; o papel do chefe era mais de serviço do que de supervisão. do que sob o método extensivo convencional e ele era mais compatí-
No pós-guerra, adotou-se uma forma de organização do trabalho vel com "baixos custos, satisfação no trabalho, boas relações e saúde
conhecida como trabalho convencional extensivo (conventional social" (Trist et alii, 1963, p. 291). Por dois anos, grupos de quarenta
longwall working)* que se baseava em métodos de produção de a cinqüenta mineiros operavam desse modo, e, no final desse pe-
massa e na divisão do trabalho. Foi a partir dessa forma de organiza- ríodo, na opinião dos pesquisadores, "a capacidade de se adaptar a
ção do trabalho que os pesquisadores constataram o surgimento dos mudanças em seu ambiente de trabalho e de satisfazer as necessida-
efeitos psicológicos perniciosos. Em particular, esse método signifi- des de seus membros" continuava a aumentar.
cava que a coordenação e o controle seriam exercidos externamente, Mais uma vez, o que importa aqui é o impacto psicológico da
pela administração, e isso implicava um grau de coerção que era ampla participação na tomada de decisões possibilitada por um tal
inteiramente descabido em uma situação de alto risco.22 Mas também contrato coletivo. Contudo, se os mineiros e a mineração podem ser
havia a alternativa de uma outra forma de organização, com raízes considerados, em um certo sentido, excepcionais, encontramos um
nos métodos de mineração tradicionais, o método extensivo com- segundo exemplo dessa forma de participação na indústria automo-
bilística. Em seu livro Tomada de decisões e produtividade (Deci-
sion-Making and Productivity, 1958), Melman faz um relato do sis-
20. Ver por exemplo, Cole 1920b, pp. 154-7 e 1920a, pp. 198 e segs.
21. O trabalho foi realizado pelo Tavistock Institue of Human Relations com base em um tema das turmas de organização do trabalho que funcionava na
conceito desenvolvido por eles, o de "sistema técnico-social". É óbvia a relevância desse fábrica de automóveis Standard de Coventry, no início da década de
conceito para a presente discussão: desse ponto de vista, um sistema produtivo é visto não
apenas em termos de processo tecnológico, mas como um sistema de três variáveis
50. Embora as tarefas que os trabalhadores desempenhavam fossem
inter-relacionadas, a técnica, a econômica e a sócio-psicológica. A forma de organização do
trabalho e os seus aspectos sociais e psicológicos são vistos como independentes da 23. Trist et alii, 1963, p. XBI. Um experimento de reorganização do trabalho numa tecelagem da
tecnologia, ainda que limitados por ela. Ver, por exemplo, Trist e Emery, 1962. índia, utilizando turmas auto-regulados, também foi bem-sucedido. Ver Rice,1958. J. S. Mill
O longwall system é um sistema de mineração de carvão que procura explorar todo o veio também menciona um contrato coletivo entre mineiros de Cornualha em sua época, e nota
do minério, utilizando para isso o trabalho em massa. É chamado de longwall (ao longo da
que esse sistema produzia "um grau de inteligência, independência e elevação moral, o
parede) porque os mineiros trabalham juntos, divididos pelas paredes dos túneis.(N.T.)
que coloca a condição e o caráter do mineiro da Cornualha bem acima da média da classe
22. Trist e Bamforth, 1951 e Trist et alii, 1963, pp. 289 e segs.
trabalhadora". Mill, 1965, livro IV, cap. VII, §5, p. 769.

84
85
praticamente idênticas às realizadas em qualquer outra linha de mon- modifique em medida considerável, para que os trabalhadores exerçam
tagem de automóveis, a forma de organização do trabalho era bem controle quase completo sobre suas ocupações e participem da to-
diferente, baseando-se em turmas auto-reguladas, semelhantes às en- mada de'uma grande variedade de decisões, sem qualquer perda da
contradas no método extensivo composto de mineração de carvão eficiência produtiva. /
(daí o nome "sistema grupai"). Em 1953, na fábrica de motores, os Por fim, existe uma grande quantidade de material de impor-
trabalhadores se agrupavam em quinze turmas auto-recrutadas, e na tância direta quanto à participação no local de trabalho , na forma de
fábrica de tratores os 3 mil trabalhadores funcionavam como uma só experimentos sobre-os efeitos dos diferentes estilos de supervisão^
turma, efetuando-se o pagamento de acordo com a taxa de ocupação, cuie_se pode chamarjÇsêgundo Likert) de teorias sobre novos padrões
com o acréscimo de um bônus pela produtividade da turma como um de-adra*ffiisteaçãQ.J^pesar de curiosamente não dizer respeito errTãb"-
todo. Com esse sistema, os trabalhadores "não são apenas emprega- soluto à tomada de decisões, e de constituir o que mais tarde iremos
dos do setor de produção desempenhando... tarefas profissionais. distinguir como "pseudoparticipação", foi nesse contexto que a
Eles também agem como formuladores de decisões sobre o que eles noção de "participação" tornou-se tão popular nos últimos tempos. O
mesmos produzem" (1958, p. 92). Aoj[escreyer_o^sistema de turmas real interesse desse material (além de confirmar ainda mais os pontos
jirnjrabalhador dajndüsfri^automobilística disse_qu^_gle_^propicia já analisados) reside, em primeiro lugar, no seu efeito esclarecedor
umajjgtrutura natural de segurança, fornece confíança,_djvidgj3 di- sobre as hipóteses específicas a respeito da participação, postas em
nb^Q^JonnãJg^^^^za^^QSj^j^^^e^^i^^ã^ão sem relevo pelos teóricos da democracia participativa e, em segundo, em
distinção_e_tprna possível atribuir^cadajarefojo; jhomem ou mulher sua influência sobre prática administrativa atual. /
mais. bgm_preparadgjgara realizá-lo, sendoque^ a aSbuicãcTeTéita No final da década de 30, uma
com freqüência pelos próprios trabalhadores" (Wrigriín*9in7pr50). nos grupos, realizada soba^
Melman conclui que, no sistema de turmas, "milhares de trabalhado- "dernõc^E?Wjjderanca era mais eficiente do que umajfarma "autoritária"
res operavam virtualmente sem supervisão, do modo como esta é em ou de "laissez-Mr^ A superioridadejdyinha dos^itospsicológicos mofiva-
geral compreendida, e com uma alta produtividade; pagavam-se ali dosj3elo_elemmto4e-participacjoj^
os mais altos salários da indústria britânica; produtos de alta quali- moraljg^grupo. ajsatisfaeãQ.amsjB-ati\ddjidee seu interg^â,rjojielaa etc.
dade eram produzidos a preços razoáveis em fábricas com grande ín- As experiências mais recentes sobre estilos de chefia surgiram a partir
dice de mecanização; a administração conduzia os negócios a custos dessas primeiras, e relatos sobre elas e seus efeitos podem ser encontra-
excepcionalmente baixos; os trabalhadores tinham também um papel das no livro de Blumberg, mencionado acima (1968, pp. 102-9). De
substancial na tomada de decisões relativas à produção" (1958, p. 5). / modo geral, são confrontados osgstüps "próximo" e "geral", ou parti-
Melman não considera especificamente o efeito psicológico do cipativo". O último parece referir-se "a uma série de outras característi-
sistema de turmas, mas à luz que se viu na indústria de mineração, e a cas, taTTcbmo a delegação de autoridade, não pressionar os subordina-
partir do fato de que esse tipo de auto-regulação assemelha-se à situação dos e permitir liberdade de conduta para os empregados... sob uma
das equipes de trabalho na fábrica química descrita por Blauner, pode- supervisão geral os trabalhadores estão livres para utilizar a própria
se concluir que ele seria compatível com o desenvolvimento das sensa- iniciativa, para tomar mais decisões relativas a suas tarefas e para im-
ções de eficiência e de competência nas quais estamos interessados. É plementar essas decisões" (Blumberg, p. 103).j£sjjsjlojejupervj-são
bastante significativo" que a indústria automobilística possa se transfor- dá margem a uma situação similar à criada pela ampHaçãodasJareJas
mar dessa maneira, pois já vimos que numa estrutura de autoridade orto-
doxa uma tal transformação tem justamente o efeito psicológico contrário; efeito
*==._
favoráVêljõbrea efi£Tê^ia=^mb%m são semelhantes.
— •' -- ^srn^sssss^^^^^^^s^rsE^s^ "'* 3

esses dois exemplos mostram que é possível, pelo menos quanto ao pro-
cesso de trabalho cotidiano, que a estrutura de autoridade da indústria se 24. Existem vários relatos sobre essas experiências. Ver, por exemplo, White e Lippitt, 1960.

86 87
O>aumentoj^harmonia do grupo e o jejso^ do grupo em estruturas autoritárias, democráticas de laissez-faire" (p. 109).
Um outro estudo descobriu que, onde trabalhadores empregados em tra-
tão dosteári^sdatonocrada pjnicip^^jlejguje^pjr^ipjçâo_tem uroá balho burocrático rotineiro operaram por um ano em uma situação partici-
J
tipo na literatura pativa, o resultado foi um declínio da força das "tendências hierárquicas"
a no em suas personalidades, e as "tendências de autonomia" ganharam maior
"ãcãtãrnentõílas decisões. Os experimentos com pequenos grupos também oportunidade de expressão; "os dados parecem indicar que uma mudança
acrescentam alguma evidência empírica de interesse. No experimento de ponderável pode ser afetada por uma mudança constante nas condições
participação brevemente descrito anteriormente, nas páginas 91 a 93, o obje- ambientais. E mais: a mudança parece poder se explicar em parte em
tivo era descobrir o melhor método para garantir a introdução de uma termos do movimento da personalidade para um equilíbrio com o seu
mudança suave no processo de trabalho. Na verdade, uma das principais ambiente" (Tannenbaum, 1957). Ou, como coloca Blumberg: "urna estru-
hipóteses que esses experimentos com pequenos grupos procuravam testar tura de participação... a longo prazo toma-se mais eficiente devido à com-
era o que Verba (1961) chama de "hipótese de participação", ou seja, que patibilidade que acaba por ocorrer entre a personalidade e a estrutura. Em
"mudanças significativas do comportamento humano a curto prazo so- outras palavras, a organização que permite a participação, em última aná- ,
mente podem ocorrer se as pessoas das quais se espera mudanças partici- lise, produz indivíduos responsáveis por essa participação" (1968, p. 109)./
parem na decisão do que deve mudar e de como mudar" (p. 206). Na AojqueJtudo-mdi&aré^ovaVêllpe^^^
discussão da teoria de Rousseau notou-se que parte da razão para que o par^cipaçãjQjiajddârjrctòji^^ devido
indivíduo considerasse aceitável uma lei estabelecida pelo processo parti- ajnfluência das novas teoriaj|jiejyiminisjração que têm se desenvol-
cipativo era que ela fosse "impessoal" (deixando o indivíduo "como seu vido nos últimos dez anos. Enquanto a teoria da administração mais
próprio senhor"). Nos experimentos com pequenos grupos, cada indiví- ortodoxa deriva das doutrinas de administração científica de Taylor, e
duo, durante o processo de tomada de decisões, podia observar os outros dos textos de teóricos como Urwick, que enfatiza a estrutura de autori-
aceitando as decisões e assim "intemalizava" seu próprio comprometimento dade na forma pirâmide, a cadeia de comando, o raio de ação do con-
com elas, e Verba cita vários experimentos que indicam que a "impessoalidade' ' trole e assim por diante, as novas teorias se originam das teorias psico-
de tais decisões constitui um fator fundamental para torná-las aceitáveis.25 t—"" "—"\
lógicas modernas, tais como as de^Maslojy, e do movimento de relações
Esse material sobre supervisão e pequenos grupos também fornece al- humanas que cresceu a partir dos famosos experimentos de Hawthorne.
guma prova empírica, ainda que não tanta quanto se gostaria, sobre Foi este último que forneceu elementos para o argumento de que a
outro aspecto da teoria da democracia participativa, psjdefensgres da eficiência não dependia tanto dos aspectos mecânicos ou teóricos da
teoria contemporânea ^sustentam que certos traços de perconalidjdejx) tarefa, ou da estrutura organizacional correta, quanto do "elemento hu-
caráter "âuto¥jfficr òuj^o^denjgjrati^^an^gue jseijconsidejados mano" na indústria. Foram os experimentos de Hawthorne que de-
comoTão-— a participação ativa de tais indivíduos seria perigosapara monstraram (ou, pelo menos, aceita-se amplamente esse fato) a impor-
õ sistema poMcodemocrático. A teoria participativa, em contrapartida, tância crucial dos relacionamentos interpessoais no local de trabalho e
argumenta que a própria experiência^da participação irájlesenvolver e da aproximação (do estilo) do supervisor.26 Autores modernos, como
forjj^pers^nalidad^^enTOC^ti^a^lsto é, asjjualidades necesjárias
para o bom funciõhãrnento do sistema democrático, e isso ocorrerá com 26. Os relatos sobre os experimentos de Hawthorne foram ultimamente submetidos a uma
todo^jãsjnaivíd^^ investigação por Carey (1967), que conclui, após fazer algumas restrições ao modo como
foram conduzidos, que "as limitações dos estudos realizados por Hawthorne os tornam
anteriores de Lewin mostraram que "os traços de personalidade... eram claramente incapazes de fornecer alguma sustentação para qualquer espécie de
variáveis dependentes, significativamente alterados pela organização generalização". Blumberg dedica dois capítulos do seu livro à reinterpretação dos estudos de
Hawthorne, porém, em vista das críticas de Carey, ao qual ele não faz qualquer menção,
parece tão duvidoso citar o material levantado por Hawthorne em apoio a uma tese sobre
25. Verba, 1961, pp. 173-5; ver também pp. 227-8.
participação quanto em apoio a qualquer outra tese.

88 89
McGregor ou Likert, são por vezes mencionados como neo-relacionis- geral parece atuar de modo positivo sobre a satisfação no trabalho
tas humanos, e, como seus predecessores, enfatizam a importância do mas um aumento dessa satisfação pode nerrTsempre virUcompa-
"clima" de inter-relacionamento correto ha empresa. As teorias McGre- nhada de um aumento em um outro fator, digamos a cooperação do
gor em O lado humano da empresa (The Human Side of Enterprise) e trabalhador com a administração, de maneira que os resultados pos-
de Likert em Novos padrões de administração (New Patterns of Mana- sam depender da forma específica do interesse no caso de cada um.28
gement) constroem-se com base na evidência da superioridade do estilo Coloca-se uma objeção que por certo não é válida, a de que a partici-
"participativo" de supervisão. Likert (1961) fornece um exemplo inte- pação seria eficaz somente em unidades ou associações de produção.
ressante de como a participação poderá ser introduzida na estrutura de O material citado anteriormente a respeito das indústrias automobi-
|administração de uma empresa no futuro. Ele sustenta que, na busca de lísticas e de mineração mostram que esse ponto de vista é equivo-
| j eficiência, a estrutura administrativa deveria se formar em torno de cado. Sugeriu-se também que a participação não tem utilidade em
grupos de trabalhos organizados em bases participativas (ou seguindo o situações de crise (ver Blumberg, p. 132). Verdade ou não, isto é
[princípio de "relacionamentos sustentados"). Esses grupos se ligariam à irrelevante para os nossos propósitos, pois estamos interessados na
organização geral por meio de indivíduos "que acumulariam funções participação no cotidiano, em situações sem crise e na participação
los grupos. O superior em um grupo seria um subordinado no grupo no local de trabalho. Para tanto, tudo indica que a participação não
eguinte, repetindo-se isto no resto da organização" (p. 105). Tal quadro apenas terá um efeito favoravèTsÕr^©523ivídãos°ê1fí relação ao desen-
dgnifica que "os diferentes níveis da organização não deveriam ser pen- voIvTmenTo do senso de eficiêhcÍ£Tpõlítica,lnas também que ela não pre-
"sados em termos de maior ou menor autoridade e sim em termos de coor- judicará a eficiência da empresa, podéridòTpelo contrário aumentá-la,
denação ou ligação entre grupos de trabalho maiores ou menores".27 Para " "" Os principais argumentos da teoria participativa sobre o impor-
que essa forma de organização seja efetiva, o fluxo de comunicação e tante impacto psicológico da participação em estruturas de autori-
informação precisa ocorrer de cima para baixo, lateralmente e de baixo dade não-governamentais e o papel central da indústria no processo
para cima. "OfornecimentQ..e,adistribuiçãojie informação é um passo de socialização democrático mostraram possuir considerável apoio
essencMj£j5rgje^^ ~~~ empírico. Além disso,descobriu-se que a participação ao nível do
Disse Blumberg, a respeito do materiãTempírico sobre partici- C
processo de trabalho imediato e"3êsê)ãdTpêTã°rnâloria dos trabalha-
_ ^^.-^-^ W^^^,=^-.^I=*M^,^=*"^===*S^-^~=^^^=*^ - .--s=^~*

pação no local de trabalho, que "em toda literatura é raro o estudo dores. As evidências indicam que seria
que não demonstre que a satisfação no trabalho aumenta ou que pâçao a esse nível,, e jnuitas teorias recentes de administração afir-
conseqüências benéficas de conhecimento geral decorrem de um au- tnam que semelhante sistema participativo consiste no modo mais
mento genuíno do poder de decisão dos trabalhadores. Sou forçado a eficiente de se tocar urna empresa.^Porém, se tudo isso é verdade no
admitir que semelhante coincidência de resultados é incomum em que diz respeito à participação no nível mais direto da produção, até
pesquisas sociais" (1968, p. 123-)"." Isto é inteiramente verdadeiro; agora nada se disse a respeito da participação nas decisões que afe-
com efeito, é difícil encontrar qualquer coisa que sugira algo dife- tam os assuntos mais abrangentes da empresa, ou sobre a questão 'da
rente. Em parte, isso talvez se deva ao fato de estarem envolvidos democratização em sua estrutura geral. Antes de se poder examinar
tantos efeitos diferentes. Exemplo disso é que a participação em de modo proveitoso o material empírico sobre esse aspecto ou escla-
recer os problemas envolvidos é necessário analisar o conceito de
27. Likert, 1961, p. 186. Likert salienta que é necessário que o supervisor em um grupo possa participação, tal como aplicado no contexto industrial, e investigar a
também participar da tomada de decisões no grupo seguinte — onde ele é um subordinado —, caso relação entre "participação" e "democracia industrial".
contrário, ele pode não ser capaz, devido à sua falta de influência, de atender às aspirações e
expectativas de seu próprio grupo, criadas pela experiência de um ambiente participativo. Em outras
palavras, onde tais circunstâncias não ocorrem, um estilo "participativo" de supervisão poderia levar
à Insatisfação entre os empregados (p. 113). Ver também Blumberg, 1968, pp. 116-7. 28. Sobre esse exemplo, ver as observações de Lupton, 1963, p. 201.

90 91
IV

"PARTICIPAÇÃO" E "DEMOCRACIA" NA
INDÚSTRIA

Embora a noção de "participação" seja bastante utilizada por


quem escreveu sobre administração, em muitos casos tal participação
não é definida ou, quando há uma definição, ela é demasiado imprecisa.
McGregor (1960, p. 124), por exemplo, depois de observar que a "par-
ticipação é uma das idéias mais mal compreendidas entre as que emer-
giram do campo das relações humanas", diz que a participação

cpjisiste basicamente na criação de oportunidades, sob as condições


adequadas, plíajjuê as pèssõas^iriflúàm nas Héêisõês~qüe ãs^afètarn .
'Essa influência pode ser de pouca à^uita^Epffticipiâçloí^constitüi uni
caso especial de delegação no qual o subordinado adquire um controle
maior, j^amliõr liberdade de escolha em relação a suas próprias res-
ponsabüi.dades. Ò^mmp^ícipajãojé_^iia\msntsnap}ic.&dQSJaaíor

™~™~~^
Outra definição típica afirma que
____ -
a participação consiste em quaisquer dos processos pelos quais os em-
pregados, além dos empresários, também contribuem de modo positivo
para que se consigam decisões administrativas que afetem seu trabalho
(Sawtell, 1968, p. 1).

Uma terceira definição coloca que a participação na tomada de


decisões é
f a totalidade daquelas formas em que o exercício de poder de baixo para
' cima por parte dos subordinados nas organizações é percebido como
ijggftimo tanto por eles quanto por seus superiores (Lammers, 1967, p. 205).

f 93
Likert é um exemplo de autor que' não apresenta uma definição teração, a qual muitas vezes implica apenas o fato de um indivíduo
de participação, mas ele e McGregor oferecem uma série de situa- particular estar presente numa atividade de grupo./Na definição
ções às quais se pode aplicar o termo "participação", ou melhor, uma acima esse sentido muito mais amplo é explicitamente excluído.^
série que abrange desde as "pequenas" até as "grandes" participa- i na indústria é que ela
ções. "Pequena" participação na série de McGregor consiste numa envolve uma modificação, em maiOTou^n^jae*.dà^^sttuãira
situação em que os subordinados podem questionar um administra- deaütoridade ortodoxa, a saber, aqudana qual a tomada ^H^ecisões
dor a respeito de sua decisão, e no extremo oposto está o superior •*" F~ -~^.-_,C}^J^^.~.'.---^-.-,-.~,,. .^.«i..^,ü...jas:3~^-KT^SGKTJT,.--^-: .=-.--.. ^r.-,-*!ç-- .,.._.--...„.. ...

indiferente às diversas alternativas, de modo que os empregados Ticipam.^E


raciSd^—~
é isto que muitos textos sobre administração subestimam.
' ~* A •>

podem escolher entre elas (1960, pp. 126-7). A série apresentada por Nas definições e "séries" apresentadas acima, muitas das situações
Likert (1961) cobre uma gama de possibilidades bem maior: desde seriam excluídas pela definição fornecida por French, Israel e Aas.
uma situação de "pequena participação" —- "nenluaniajnfonnação Não causa surpresa o fato de os autores de textos sobre administra-
ça^^ãü^ísífimffiarem com mais cuidado as diferentes situações
]^p^s^^:=^^at£^üíwrsítuação onde os "participativas", quando se^onsiderà o motivo pelo qual eles estão
, ao funcionarem como um grupo, enfrentam interessados em participação no local de trabalho. Para eles, trata-se
e^resolvem o probl "apenas de uma técnica a mais entre outras, "que pode auxiliar no
para o funcionamento ~™~ alcance do objetivo geral da empresa — a eficiência da organização.
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" """ " " ' " ' ' •=•-""- •^-~--*^~--^^r*zxSS^£fXjK*--»._

Incluir tão vasta gama de situações de autoridade sob a deno- Como vimos, a participação pode contribuir para o aumento da efi-
minação geral de "participativas" é obscurecer as questões envolvi- ciência, mas o que importa é que esses autores utilizam _ojermo
das; para que a noção de participação seja útil no tratamento dos "participação" não apenas para se referir a um método de tomada de
problemas envolvidos na democracia industrial (ou de problemas decisaoTmasTalríBém pàfã abranger técnicas utilizadas para persua-
administrativos em geral) é preciso que se empreenda uma análise IH mjde^i|jg^7ajomada^elãádmirüstra-
*_/O WJL.AlL/.LX/Ci«-IA-*V-'U M- M. w v j. i.vu v .m..*.* -u w-.^ „ _ „ .

bem mais rigorosa. Existe uma definição, no entanto, que oferece um yão^Situações desse tipo, onde não ocorre participação alguma na
ponto de partida para uma tal análise e que permite esboçar algumas tomada de decisões, iremos denominar, de acordo com Verba, de
l
distinções de utilidade. French, Israel e Aas (1960) dizem que^oar^ pseudgpanicipQçã^\ Um exemplo típico seria a situação na qual o
ticipação" na esfera industrialI^fèl^sê~|^mj3jpjtéssx) no qual djjas 'supervisor, em vez de meramente informar os empregados sobre
õí maiTplirteTmíuie^iãnihse reciprocamente na elaboração dos pla- uma decisão, permite que eles a discutam e questionem o próprio
nos, políticaToü decisõesV Resffing^~se*àFdècís^ões^qB^te"m efeitüs" supervisor. Na verdade, muitos dos assim chamados experimentos
FuTuros sobrelódos àqueles que tomam decisões e sobre todos aquíP" de "participação" com pequenos grupos deram-se dessa forma.
lês qué~eTes reprèseníarfi"."Essa definição, dizem eles, exclui as se- Como salienta Verba, com freqüência o objetivo não era o de estabe-
e^_-— - :J--.-^i5=^>-^-^^^===«~-^=J^0»K^l==i-=i,!-....;T -- .---^ 5 ' '

guintes situações: onde um indivíduo, A, apenas toma parte em uma lecer uma situação onde a participação (na tomada de decisões) ocor-
atividade de grupo; onde A é apenas informado sobre uma decisão resse, mas o de criar um sentimento de participação por meio da
que o afeta antes que seja executada; onde A está presente em uma adoção por parte do líder (supervisor) de uma certa abordagem ou de
reunião mas não exerce influência alguma (p. 3). certo estilo; a "participação", assim, "limitava-se a que os membros
Essa definição deixa claro que a participação precisa ser_etn endossassem as decisões tomadas pelo líder, o qual... não é nem
a
l|°; nõJcasõ^;"paftiaÇâção_na tomada de decisões (cf. a definiçãgna , selecionado pelo grupo nem deve responder ao grupo por suas
íeõriajia ^mo^^ciíjjarticipâtivã^TTbdaviá, na linguagem comum, ações... o líder do grupo tem em mente um objetivo particular, e
utilizamos^ õ termo "participâçãõ"'rhum sentido bem mais amplo, utiliza a discussão de grupo como um meio de induzir à aceitação
abrangendo quase qualquer situação onde ocorra um mínimo de in- desse objetivo". Verba acrescenta que é, em particular, no campo da

94
psicologia industrial que "a liderança participativa tornou-se mais cão industrial, onde as "partes" em questão consistem na adminis-
uma técnica de persuasão do que de decisão".1 tração e nos homens. Além disso, o poder de decisão final é da
Tendo-se distinguido as situaçpes de pseudoparticipação, a administração, e, se os ttabalhadares^puderejri participar, consegui-
própria participação na tomada de decisões pode agora ser exami- rãcyipenas influenciar esjyyjgcjsjío. Por serem "trabalhadores" eles
nada com mais atenção. Em primeiro lugar,jleye-se notar que, para] ficam na posição (desigual) de subordinados permanentes; a "prerro-
que jyjajlidpacão ocorra existe uma condição que precisa serjígcès- gativa" final da tomada de decisãoficacom pssuperiores perníãnen-
sariamente satisfeita, ou seja, os empregados precisam estar dejjosse tes, com a administrãça^TÍfemos nos referir a esse tipo de participa-
cSííBevidas informações sobre as .quais possam basear a sua decisão/ ção como^pãrficipaçaypãrc^ parcial porque o trabalhador A não
tcíTã citação de Likert à p. 83, nota 27). Isto, sem dúvida, é bastante tem igual poder dê decisão sobre o resultado final do que se delibera,
óbvio em teoria, mas na prática significaria considerável aumento no
tzz-,"^^^-^^1^^^-^^.^--^- ~" ----- - - " '"--•' - _„_--,* .-—~ _ -..-*3=a~~-.___^
podendo apenas influenciá-lo. Assim, a definição de French, Israele
fornecimento de informação aos empregados em relação ao cnie em Aas pode sofrer uma emenda, de modo a que se leia que ^a^art
geral acontècêliõlriõmento. ~ jr^^
~~ A definição que tomamos como ponto de partida não pode ser te^Q^^^
aceita por aquilo que significa. Ela declara que a "participação" é um
processo "no qual duas ou mais partes influenciam-se reciproca- A maioria dos exemplos de participação em fábricas no último
mente na tomada... de decisões". Aqui, o uso das palavras "influên- capítulo foram de participação parcial, e de participação no que se
cia" e "partes" requer um exame mais atento. Na teoria da democra- poderia chamar do nível mais baixo de administração. Esse nível
cia participativa "igualdade política" refere-se à igualdade de poder inferior refere-se de maneira genérica às decisões administrativas
determinação do resultado das decisões, é " relativas ao controle da atividade produtiva rotineira, enquanto o
gundTàswêll^é Kaplan (1950, p. 75)~_"é participação na nível mais alto refere-se a decisões que se relacionam com o geren-
deci|ões". Embora os termos "influência" e "poder" estejam bas- ciamento da empresa como um todo, decisões sobre investimentos,
tante próximos, não são sinônimos, e é significativo que, na defini- comercialização e assim por diante. A participação parcial é possível
ção citada, o primeiro seja mas utilizado. Estar em posição de jn- em ambos os níveis da administração. Dois dos exemplos concretos
fluenciarumajdecisão não é o mesmo que estar em posição de (ter o de participação apresentados anteriormente, no entanto, ilustram
poder para) determinar o resultado pu tomar ess4 decisão. De acordo uma segunda forma de participação do nível mais baixo, quais
cõrrrPãrtridge (1963), podemos dizer que a "influência" se aplica a sejam: os contratos coletivos nas indústrias de mineração e automo-
uma situação na qual o indivíduo A afete o indivíduo B, sem que B bilística. Eles mostravam grupos de trabalhadores operando virtual-
subordine sua vontade à de A (p. 111). Em outras palavras, A tem mente sem supervisão alguma por parte da administração, na
influência sobre B e sobre a tomada de decisão, mas é B que tem o forma de grupos auto-regulados que tomavam suas próprias deci-
poder final de decidir. O uso da palavra "partes" na definição ("duas
2. Na prática, em qualquer caso específico, seria difícil distinguir uma situação onde ocorre
ou mais partes influenciam-se reciprocamente") implica uma oposi- uma influência efetiva de uma situação de pseudoparticipação onde isto não acontece. Con-
ção entre dois lados, o que de fato acontece habitualmente na situa- tudo, a distinção teórica é clara. Um ponto a salientar é que a participação parcial, ou situação
de "influência", precisa ser distinguida de uma outra na qual, embora ocorra "influência", não
existe participação alguma. Esse é o caso quando entra em cena a "lei de reações antecipadas"
1. Verba, 1961, pp. 220-1. Uma razão que Stephens (1961) fornece para a introdução da de Friedrich. Um exemplo no contexto da indústria seria dado quando a administração de uma
ampliação das tarefas é permitir que os empregados sintam-se como se estivessem partici- empresa está elaborando uma lista de alternativas com base na qual será tomada a decisão
pando; cf. também o comentário de Bell sobre as relações humanas da escola de administra- política final a adotar, mas na qual uma alternativa teoricamente possível — digamos, um
ção: "os fins da empresa continuam os mesmos, mas os métodos mudaram e os antigos corte salarial — não está incluída como possibilidade prática porque a força do sindicato a
moldes de coerção aberta agora foram substituídos pela persuasão psicológica" (Bell, 1960, p. inviabiliza. Neste caso, o sindicato influenciou a decisão final, mas não ocorreu participação
244).
alguma.

96 97
soes quanto ao processo de trabalho cotidiano. Nesse tipo de situação originais de Lewin, o pressuposto era que a democracia "resultaria
(em tal exemplo apenas no nível mais baixo) não existem dois naturalmente de um sentimento interpessoal em uma vida comunitá-
"lados" com poderes desiguais de decisão, mas um grupo de indiví- ria tolerante e generosa". Também se afirma com freqüência que a
duos iguais que têm de tomar suas próprias decisões a respeito da democracia industrial já existe na maioria dos países industrializados
atribuição das tarefa^ eexecução do trabalho. Situações desse tipo ire- do Ocidente/Talvez a expressão mais conhecida desse ponto de vista
mos designar rtofp^ticipãção plenaJou seja, tal forma de participação
^^ '^•^^°a^^=Sls=SK^=xs!fSf^^:^ ••>rT' " ' ' »». ^as^T=S3=-^=:=^i-^'^-.-^^Kr^^
seja a de H. A. Clegg, um dos mais proeminentes especialistas britâ-
^r.n«i«tpt "num Drocj£j^no^ual cadajnembroàspladojie umj;orpo nicos em assuntos de indústria, em seu livro Um novo enfoque sobre
^uv^^^^^^jigl^^Úttjie ^4SÍ&KSR^-j9-í?§SJfâà^SSâLáâl democracia industrial (A New Approach to Industrial Democracy,
3êcisões". Do mesmo modo que a parcial, a participação plena é 1960). É de especial interesse, do nosso ponto de vista, o fato de
p^ssíveTtãnto no nível mais baixo quanto no mais alto da adminis- Clegg basear seus argumentos em recentes textos teóricos sobre de-
tração, ou em ambos.3 / mocracia política, isto é, textos doSjdefensores da teoria da democra-
Estabelecida a distinção entre participação parcial e plena, po- cia contemporânea. Contudo, simplesmente não é correta a afirma-
demos agora nos voltar para o exame /Ia questão sobre a relação ção de Clegg de que "em todas as
entre participação e democracia na indústria. Assim como o termo sistema-de^Blacões-industriais que pode muito bem ser denominado
"participação", o conceito de "democracia" é utilizado de forma ex- de_paralelo-industr-ial-da~demoeraeia-polítÍGa~(p. 131). Ele sustenta
tremamente vaga em boa parte dos textos. Não apenas as duas pala- que a teoria democrática recente tem mostrado que o principal requi-
vras são utilizadas com freqüência como termos intercambiáveis sito para a democracia é a existência de uma oposição (p. 19). Na
como, o que também ocorre bastante, "democracia" serve para de- indústria essa oposição é feita pelos sindicatos, e os empregados
signar não um tipo particular de estrutura de autoridade mas o (a administração) desempenham o papel de "governo". Não é à úl-
"clima" geral que existe na empresa; um clima que é criado por meio tima analogia que se dirige a objeção; a questão é que, como um
do método de abordagem, ou do estilo do supervisor ou gerente. Em todo, a comparação da situação de autoridade na indústria com a
outras palavras, "democracia" muitas vezes é utilizada para descre- teoria da democracia contemporânea não é válida. Como assinala-
ver situações de pseudoparticipação ou mesmo simplesmente para ram diversos observadores — aqui nas palavras de Ostergaard — , na
indicar a existência de uma atmosfera amistosa. Como se assinalou indústria "o governo (a administração) está permanentemente no
em uma crítica ao uso do termo "democracia" nos experimentos posto, se auto-recruta e não presta contas a ninguém, a não ser, de
maneira formal, aos acionistas (ou ao Estado)".5 Seria um tipo bem
3. Esse uso específico do termo "participação" provém de muitos autores, os quais conside- bizarro de teórico "democrático" aquele que defendesse um governo
ram tal termo referido a uma situação em que os dois lados compartilham ou se unem na
tomada de decisões, vendo como única alternativa a decisão unilateral tomada por um dos
dois lados (ver, por exemplo, Sawtell, 1968, pp. 3 e 28). Uma visão similar parece ser 4. Kariel, 1956, p. 288. É bastante significativo que os experimentos originais fossem com
sustentada por um defensor atual da democracia industrial e do controle pelos trabalhadores, meninos de dez anos. Essencialmente, a única coisa que o estilo "democrático" de liderança
como indica esta passagem (bastante extremada): "Ajjarticipacão tem a mais próxima e fez foi colocar os garotos num tipo de ambiente "voltado para a criança" que hoje em dia eles
perigosa relação com todo um cortejo de predecessores-medíocrés e inconsistentes numa f poderiam encontrar em uma escola moderna, com professores versados em modernos méto-
sucessão de estratagemas para 'exorcizar' uma reivindicação crescente da classe trabalhadora '< dos de ensino e de psicologia educacional.
por controle" (Coates, 1968, p. 228). Ao mesmo tempo que tal visão reflete o fato de que o i 5. Ostergaard, 1961, p. 44. Clegg diz também que a democracia industrial não pode ter outro
termo "participação" tem sido usado para significar não mais do que pseudoparticipação, ela significado além daquele que ele atribui, pois "é impossível para os trabalhadores comparti-
de fato ilustra a falta de clareza na maioria das discussões a respeito da participação industrial lharem diretamente da administração" (p. 119). Uma afirmação bastante estranha. Já vimos
e democracia. Coates passa por cima do fato de que "controle" e "participação" não repre- que os trabalhadores podem compartilhar (participar) da administração (no nível inferior), e
sentam alternativas; muito pelo contrário, não pode haver controle sem participação, o que Clegg não somente se refere ao exemplo do contrato coletivo sem parecer se dar conta de sua
depende ainda da forma de participação. Não há uma boa razão para confinar a "participação" importância, como deixa de ver que, por meio da negociação coletiva, a qual ele tanto
a uma situação onde existem dois lados, pois, como mostraremos a seguir, onde há democra- enfatiza, a participação parcial na administração também é possível (ver mais adiante). Para
cia industrial não há mais "lados", nesse sentido. uma crítica mais recente e ampliada do livro de Clegg, ver Blumberg, 1968, cap. 7.

98 99
«ap-

ele mandato permanente e praticamente insubstituível! Na teoria da , so&ial" pode serefetuad()dentro das estruturas de autondade^xisten-
democracia contemporânea, por certo, a característica por definição é j les^alrjBüitria.yÜm exame dííélação entre os efeitos psicológicos,
justamente que existam grupos de líderes substituíveis e competitivos J qué"se rè7veráfãm decorrentes da participação, e as diferentes formas
Para que seja real a analogia entre a estrutura de autoridade da -> de participação mostra que a teoria da democracia participativa ne-
indústria e a do sistema político nacional o "governo" precisa ser cessita de uma modificação nesse aspecto. Talvez o que mais impres-
eleito, e ser passível de remoção, por todo o corpo de empregados em siona no material empírico obtido consiste no fato de que a participa-
cada empresa, ou então, para um sistema democrático direto, todo o ção aparentemente .seria tão eficiente em seu impacto psicológico
corpo de empregados precisa tomar as decisões administrativas. Em "sobre os indivíduos, mesmo que em doses mínimas; ao que tudoj
ambos os casos, seja com sistema representativo ou direto, estaria indica,; ãtl tTrnero sentimento de participação é possível, e mesmo
abolida a distinção atual entre a administração, com mandato perma- situações de pseudoparticipação têm efeitos-bênéficos sobre a con-
nente, e os homens, subordinados permanentes. Onde o corpo cole- fiança, a satisfação no írabalh0,-eíc.^Seria razoável supor que a par-
tivo dos empregados toma as decisões, a administração seria mera- tiHpàçãcfrear fosse mais eficiente — ainda que foáse apenas pelo
mente homens desempenhando diferentes funções. JJmj>J£tej3ja_de fato de a pseudoparticipação poder muito bem provocar expectativas
democracia industrial implica a oportunidade de participaçãoplena que só poderiam ser frustradas; como diz Blumberg (1968, p. 19), no
He alto nTvel"pÕr^ã^e=doTèmpregados. Por outroiaido, a participação que concerne aos efeitos psicplógicos, os dados mostram que "o que
parcial de_alto nível não exige ã~democrat^ç^_^resfraturãT'de importa... é a habilidade e o poder de um grupo chegar e uma decisão".
A participação parcial no nível mais baixo sem dúvida é favo-
aT!toriSa(||^^
resetóantes,jnfíuenciarem as decisões de alto nível, enquanto a prer- rável^^ãoHesenvolvimento desentimentos delèficaciã política; na ver-'
rogativa da decisjojmaí permanece nas mãos da admimstráçãc^(peF- dade isto foi mostrado na pesquisa sobre atitudes políticas realizada
manente), como acontece atualmente na situação de negociação em cinco países, a qual mencionamos no capítulo HI. Ali, os critérios
"coíeHvõVté que ponto seria possível ter uma situação de democra- de participação de Almond e Verba foram apresentados sem comen-
cia direta num contexto industrial, e quantos trabalhadores aprovei- tários — quer os entrevistados tenham sido consultados sobre as
tariam as oportunidades de participação num sistema democratizado decisões tomadas no trabalho, quer eles tenham-se sentido livres para
são questões que não podem ser consideradas antes de se examina- protestar contra as decisões e quer eles de fato tenham protestado.
rem as evidências empíricas relevantes. Obviamente, tal "participação" é no máximo parcial, embora tenha
cjk^ sido encontrada uma correlação positiva entre ela e um alto índice na
parcpaç escala de eficácia política. Assim^no^que diz respeito ao sentimento
sem intercambiáyeistjião são sinônimos. Não apenas é possível que de eficácia^política,jião éjdisper^á^rã^^TOr^izacao dasesttu-
a participação parcial ocorra em ambos os níveis administrativos tufas de autoridade nas indústriãsjjppffânto, nesse sentido, a teoria da
sem uma democratização das estruturas de autoridade, como tam- 'S^í^^^^^^^&i^^^siiaÀeMmassíásãs). ™"r"""~°"=*
bém é possível que a participação plena seja introduzida no nível Seria um equívoco concluir a partir daí que não é necessária
maisbaixo, dentro do contexto de uma estrutura geral de autoridade uma revisão mais ampla. Ao que consta, somente um aspecto da
nao-democrática. Isto é significativopara a teoria da democracia teoria participativa foi levado em conta — os pré-requisitos para
^^-ai-u.-*-*-:^--:^^^"^^ _ ____ _ __ .

participativa, onde está implícito que para que se obteiffiãm1clâ'pafEP


^^^Hècessários-para que se desêhvolva-o 6. Este resultado seria esperado se se considerar que as técnicas participativas são bastante
utilizadas hoje em dia para fins terapêuticos, no campo da saúde mental. Um dos experimen-
^
sen ^^Ijl^^^-t^J^^^X^i^^^ ""•'"••aBasag"—. .
tos mais radicais nesse sentido é descrito por Sugarman (1968). Blumberg (1968) também
\ ^ãrti^acj^pjgnajipjruvel mais_altoj^ necessária^ Na teoria _=====ra menciona as experiências de autogoverno que foram tentadas nas prisões dos Estados Unidos
^~-^í63fãBTcõntempõrânea, por sua vez, sugere-se que o "treinamento (pp. 135-8).

100 101
uma forma de governo democrático a nível nacional — e apenas do três deles interessantes e muito bem documentados, citados com fre-
ponto de vista do desenvolvimento do senso de eficácia política. qüência como exemplos de democracia industrial/Colocaremos de
Podem-se colocar duas questões a respeito: em primeiro lugar, que lado a questão do impacto psicológico da participação, e em seu
não temos meios de saber quão efetivas são as diferentes formas de lugar centraremos nossa atenção em outro problema da teoria da
participação; poderia ser que, a fim de se obter o máximo efeito democracia participativa: de que maneira essas formas de organiza-
psicológico, fosse necessária a participação nos níveis mais altos. ção operam.na prática e em que medida os trabalhadores estão inte-
Em segundo lugar, ainda que as evidências mostrem que é necessário ressados e aproveitam às oportunidades de participação oferecidas.
um senso de eficácia política para uma cidadania ativa do ponto de O nosso primeiro exemplo refere-se à Glaciér Metal Company, que
vista político, não está claro que ele seja,suficiente. As pesquisas emprega cerca de cinco mil pessoas.7 A forma de organização que a
de Almond e Verba sugerem que não é, pois poucos entrevista- participação assume na Companhia Glaciér é uma extensão da nego-
dos de fato tentaram influir no governo a nível local ou nacional, ciação coletiva e dos mecanismos de consulta conjunta normais na
apesar de se sentirem capazes de fazê-lo (quadros VI. l e VI.2). Po- indústria britânica. A participação parcial foi institucionalizada pela
demos lembrar, a esse respeito, que^jdesenvojvmiento do senso J~ formalização e ampliação, por meio de corpos de representantes, dos
-. .. »___j. ,11, ;-»i-.l_í,-J.OT5a^J-~-~-«.,^
procedimentos habituais, embora deixasse intacta a estrutura admi-
•^•gggj*-^, ™--i«i^^^J^__^JlJ_1_,,_____,—__.——

Japarôc^^joAN^jo^ujsjau^jnfeti^ara^_ai^plia5ão das pers- nistrativa ortodoxa e hierárquica.8 A participação dos empregados


pectivas e interesses,j,y,alorizaçãgjda conexão entrejjsjnteresses baseia-se na "diferenciação clara entre a autoridade administrativa
*~~~~^r"-----~- traria, e tam- de tomar decisões e dar instruções e a participação do empregado na
bém há a "educação" num sentido mais direto: a fapiiHarizacJocorn formulação da tecitura política em meio a qual os administradores
os^prpcedimentps democraficoTe Ó"aprendizado dasJiabjlMades^pp- são autorizados e liberados para tomar tais decisões" (Jaques, 1968,
líticasJ^mocráticas^Para a educação nesse sentido parece ser ne- p. 1). Segundo o texto do estatuto da companhia, a participação
cessária a participação no nível mais alto, pois somente a participa- ocorre por meio de um sistema — o "legislativo" — de conselhos do
ção nesse nível poderia proporcionar ao indivíduo experiência na trabalho eleitos em cada unidade da empresa. Sua composição ba-
administração dos assuntos coletivos na indústria e uma visão dí seia-se no princípio de "cada camada principal na hierarquia organi-
relacionamento entre as decisões tomadas na empresa e o seu im-
1. Elas se distribuem em várias fábricas geograficamente separadas. A respeito da teoria
pacto sobre o ambiente social e político mais abrangente. \ sobre organização ver Jaques (1951 e 1968); Brown, 1960. Para um estudo empírico da
Existe também uma outra razão para se prestar atenção nos fábrica de KUmarnock, ver Kelly, 1968.
níveis mais altos da participação na indústria. Eckstein argumentava 8. Mencionou-se anteriormente que a negociação coletiva capacita os trabalhadores a parti-
cipar, em parte, de algumas decisões administrativas. Poder-se-ia pensar que essa participação
que, pelo fato de as estruturas de autoridade da indústria não pode- dos sindicatos difere daquela dos trabalhadores isolados, mas em ambos os casos o poder de
rem ser democratizadas por motivo de estabilidade, as estruturas de decisão em última instância é encarado como uma "prerrogativa" administrativa; por fim, a
autoridade governamentais precisam ser coerentes e conter uma administração, tem o poder de impedir o trabalho ou de fechar completamente a empresa. Cf.
o seguinte comentário de Russell: "o poder do industrial... reside, em última análise, no
"saudável dose de autoritarismo". Porém, mesmo que, como ele dizTj impedimento do trabalho, ou seja, no fato de que o proprietário de uma fábrica pode requisitar
a democracia industrial seja impossível, ainda assim poder-se-ia mo- a força do Estado para impedir que pessoas não autorizadas nela ingressem" (Russell, 1938, p.
124). O escopo do experimento da Glaciér é particularmente interessante, pois a negociação
dificar as estruturas de autoridade industriais num sentido democrá- coletiva tende, hoje, a tratar apenas de assuntos de pouca relevância, e tentativas de ampliá-la
tico, por meio da introdução de participação parcial em níveis mais em geral esbarram em objeções da administração, que as vê como uma usurpação ilegítima de
suas "prerrogativas". Essa noção de "prerrogativas" quase sempre deriva da posse de proprie-
altos, diminuindo dessa maneira a necessidade de elementos não-de-j dade privada (contudo, para uma defesa das "prerrogativas" que derive a noção da "natureza
mocráticos na instância do governo nacional. J humana", ver O'Donnell, 1952). Ultimamente toda a idéia da existência de "prerrogativas"
Agora trataremos de alguns exemplos empíricos de participa- administrativas tem sofrido ataques teóricos, e a sua suposta base teórica também tem sido
posta em dúvida. Ver Chamberlain, 1958, cap. 12, e 1963; Young, 1963; Chandler, 1964.
ção parcial nos níveis mais altos dentro da indústria inglesa. Existem

102 103
zacional da fábrica ter um representante no conselho" (Jaques, 1951, Na fábrica de Kilmarnock (a única cujo material empírico está
p. 139). Cada conselho compõe-se de um chefe executivo da área, disponível), o conselho foi encarado com muita desconfiança; após
um representante dos veteranos, dois do estrato médio, três funcioná- uma greve em 1957 ele foi rebatizado de "comitê do trabalho" e o
rios administrativos e de outras áreas, e os trabalhadores do escalão documento que contém a política da companhia somente há pouco
mais baixo são representados por sete supervisores. Os conselhos foi aceito pelos supervisores.nlsso pode explicar o fato de que nas
reúnem-se mensalmente e qualquer membro pode pedir que se in- reuniões do conselho os representantes dos trabalhadores de baixo
clua um item na pauta (qualquer empregado pode freqüentar as reu- escalão mostrem pouco interesse em assuntos como o relatório anual
niões como espectador). Os conselhos são órgãos de deliberação po- e relatos ou mesmo decisões sobre investimentos; pelo menos, dis-
lítica e sua tarefa principal é a elaboração de documentos políticos e das cute-se pouco sobre esses tópicos, a não ser que eles afetem departa-
"ordens estabelecidas"; de acordo com o estatuto, a administração e os mentos específicos, e a maior parte das discussões gira em torno de
trabalhadores concordaram que nenhuma mudança de política podia ser assuntos de pouca importância. Na reunião assistida por Kelly, o
feita sem que todos concordassem por unanimidade (Jaques, 1968, p. 2). presidente e gerente geral falou durante 74% do tempo (pp. 242-5).
Na teoria, o objetivo dos conselhos é extremamente amplo. Os Essa forma de organização da participação parcial de alto nível por
V assuntos discutidos incluem sistemas de salários, demissões, fecha- certo é particularmente adequada às condições industriais da Ingla-
\ mento da fábrica e turnos noturnos, mas na prática (como pode indi- terra e, em princípio, permitiria aos empregados participarem de
car essa lista) as decisões políticas de alto nível não fazem parte das todo o processo de decisão. No entanto, na Glacier, segundo o ponto
atribuições do conselho. Na Glacier, "a alta política é prerrogativa do de vista da administração, um dos prinicipais resultados foi legitimar
quadro de diretores e gerentes. Os diretores autorizam a alocação de os poderes de decisão constitucionalmente restritos a ela. À luz da
capital, decidem sobre os dividendos, indicam o diretor administra- discussão sobre os efeitos da participação de nível mais baixo efe-
tivo, decidem a remuneração dos diretores, confirmam os salários tuada no último capítulo, o seguinte comentário de Jaques seria pre-
mais altos... para não falar nas decisões sobre quem irá assumir a visível: "a experiência dos administradores da Glacier, no conjunto,
companhia e outras coisas".9 Além da introdução de órgãos partici- mostrou que esse estatuto os capacita a tomar muito mais decisões e
pativos eleitos, outro aspecto do experimento da Glacier é uma ten- a realizar as mudanças sem objeções por parte dos representantes,
tativa de esclarecer e sistematizar as definições do papel formal e os como é comum em outras companhias" (Jaques, 1968, p. 4).
relacionamentos entre a administração e os trabalhadores. A ênfase O maior experimento com participação parcial nos níveis mais
que se dava antes de 1950 à participação na tomada de decisões altos na Inglaterra é o da John Lewis Partnership (que inclui lojas de
deslocou-se, de acordo com a revisão feita por Kelly, para esse as- departamento), e há um excelente estudo a respeito, do qual toma-
pecto.10 Pareceria ser algo intrinsecamente contraditório, nessa ten- mos a informação.12 Embora a estrutura de autoridade ortodoxa
tativa, operar com ambos os sistemas, um em que os empregados tenha sido bem mais modificada do que na Companhia Glacier, na
podem participar em todas as decisões sobre a política a adotar e um que prática, na sociedade, os órgãos representativos atuam muito mais como
divide e sistematiza (e sacraliza em uma linguagem de companhia) a mecanismos eficientes de consulta do que como órgãos deliberativos./
diferença de autoridade entre "empresários" e "subordinados". / Como descreve o jornal da empresa, "o propósito supremo de
toda a organização é assegurar ao máximo que todos os membros
9. Kelly, 1968, p. 248; ver também Jaques, 1968, p. 2. compartilhem de todas as vantagens da propriedade — ganho, co-
10. Kelly, 1968, p. 26. Isso envolve uma "linguagem por categoria" interna e o uso de
reuniões de comando, as quais, como o seu nome indica, dizem respeito em grande parte à
emissão de ordens administrativas (e também à alocação dos empregados). "Pareceria, se nos 11. Kelly, 1968, p. 241. A experiência cultural da fábrica difere consideravelmente da de
guiássemos por impressões, que a palavra utilizada com mais freqüência na companhia é Londres, mas desta última não se dispõe de informações. Ver pp. 97-100.
'subordinado'" (Kelly, p. 278. Ver também pp. 251 e 232). 12. Flanders, Pomeranz e Woodward, 1968. O livro inclui lima breve história da sociedade.

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nhecimento e poder".13 De tais vantagens, somente as duas primeiras conduz discussões pormenorizadas sobre política, de forma que, em-
são de fato compartilhadas. Todas as ações da sociedade são contro- bora disponha em teoria de um vasto alcance, sua influência partici-
ladas por um truste e todos os lucros obtidos são distribuídos entre os pativa real se mostra muito limitada (p. 177). O conselho central tem
acionistas (os empregados). Todos os acionistas só iguais no sentido 140 membros, dos quais cerca de três quartos eleitos e o resto indi-
de que todos recebem parte do ganho, de maneira que a sociedade cado pelo presidente da sociedade, incluindo todos os diretores mais
chegou de certo modo a realizar a condição de igualdade econômica antigos. Os candidatos para as eleições do conselho provêm de todas
considerada como necessária para a participação pelos teóricos da as camadas de acionistas, mas os que permanecem e são eleitos
democracia participativa. Contudo, a distribuição é feita de acordo quase sempre apresentam posições administrativas, não posições de
com o nível salarial; assim, na prática, não há nenhum avanço na baixo escalão. De 1957-58 a 1966-67, a proporção de conselheiros
direção de uma igualdade econômica; essa distribuição "acentua a de nível administrativo variou de 61% a 70% (mais 20% a 24% de
estrutura hierárquica de remuneração dominante".14 Vimos que membros ex officio) e as dos associados do setor de produção oscilou
a posse de informação indispensável é uma condição necessária para de 8% a 19%.17 Nos subcomitês, os quais realizam uma boa parte do
a participação, e na sociedade a "partilha de conhecimento" é am- trabalho, existe uma notável mudança no sentido de maior atividade
pliada através do jornal interno (para o qual é incentivado o envio de administrativa por parte dos membros. /
cartas anônimas, as quais são respondidas) e por uma reunião geral Os conselhos departamentais, nos moldes do conselho central e
aberta a todos os sócios, realizada uma vez por ano em cada setor. Os subordinados a ele, são um pouco mais representativos dos trabalha-
conselhos centrais e departamentais também emitem relatórios co- dores de baixo escalão, que compõem cerca de metade dos membros
merciais anuais acessíveis a eles.15^/' eleitos (os conselhos compreendem em média 35 membros, dos
Os conselhos constituem o principal meio através do qual a quais cerca de 15% ex officio). Além de administrar seu próprio
l? participação pode se efetuar, mas o sócio do escalão mais baixo na fundo assistencial, o conselho departamental pode patrocinar resolu-
j hierarquia funcional aparece sub-representado nesses conselhos, e a ções ao conselho central, as quais, se adotadas, tornam-se recomen-
finalidade de sua participação revela-se mais um potencial do que dações para a administração. Propõe-se de seis a sete delas por ano,
uma realidade. O conselho central tem direitos que de fato lhe permi- e de 1955 a 1964 um terço delas foi aceito, embora nem todas te-
tem certas sanções contra o presidente e a junta diretora, caso haja nham sido implementadas.18 Houve um conselho departamental que,
necessidade; esse conselho indica três encarregados do estatuto, que pela primeira vez, rejeitou uma proposta de peso da administração
então se tornam diretores, e também nomeia mais cinco diretores. A (depois de cinco dias de negociação). Durante as discussões que
principal tarefa rotineira do conselho central é a administração de um precederam essa questão, segundo a opinião dos autores do estudo,
vasto fundo assistencial, mas ele está autorizado a "discutir qualquer "o próprio processo de decisão era basicamente o normal, onde a
assunto e a fazer qualquer sugestão que julgue adequada ao diretório administração decide o que quer realizar, e prepara o terreno de
central ou ao presidente".16 No entanto, o conselho normalmente não modo que as ordens emitidas possam ser obedecidas".19 A rejeição
da política foi aceita pelo presidente da sociedade — no entanto é pre-
13. Flanders et alii, cit., p. 42 ciso observar que nenhum problema vital para o negócio estava envol-
14. Flanders et alii, p. 185. A respeito das atitudes dos trabalhadores em relação ao esquema de
distribuição dos lucros, alguns dos quais favorecem um esquema redistributivo, ver pp. 102-6.
15. Flanders et alii, pp. 76, 42 e segs. Mantém-se segredo sobre os salários, uma fonte de 17. Randers et alii, p. 60, quadro 5. Dos candidatos 22% dos homens e 25% das mulheres
queixas para muitos sócios. Existem comitês de comunicação que são apenas órgãos dos ocupavam alguma posição de destaque na sociedade (p. 84).
empregados do escalão mais baixo, que funcionam como órgãos que recebem queixas, essen- 18. p. 72. Essas resoluções incluem assuntos como alteração nas regras para seguro de vida e
cialmente, e não dispõem de fundos ou poderes executivos, e não podem por si mesmos pensões. Poucas propostas do conselho central partem tanto dos conselhos departamentais,
remediar situações, sendo, assim, de pouca relevância do ponto de vista participativo (ver pp. quanto de conselheiros individuais. Ver p. 68, quadro II.
50 e segs). 19. Flanders et alii, p. 176. Conforme assinalam os autores, é difícil aos membros do conselho
16. Flanders et alii, 1968, p. 64. A respeito de poderes de nomeação, etc., ver pp. 64-5. pertencentes à administração média se oporem à política oficial (p. 174).

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vido —? mas se esse incidente indica que no futuro os acionistas utilizarão rado deve ser empregado em obras de caridade). A sociedade está
mais os seus poderes de participação é preciso esperar para ver. aberta a todos os empregados após um período de experiência.23 /
O nível de interesse nas instituições representativas e o conhe- A estrutura organizacional da sociedade é bastante complexa.
cimento sobre elas são baixos.20 Os autores do estudo observaram O principal órgão "legislativo" é a reunião geral, a qual acontece de
que, entre os acionistas de baixo escalão que trabalhavam em tempo três em três meses, e onde cada membro da sociedade tem direito a
integral, os mais interessados eram os homens e mulheres com mais um voto. Os seus poderes incluem a aprovação, modificação, ou
de cinco anos de serviço, mas mesmo nesse grupo o interesse decli- rejeição do modo como é conduzida a empresa, o direito de aprova-
nava nos órgãos deliberativos de nível mais alto.21 A estrutura dos ção de qualquer investimento superior a 10 mil libras antes de sua
órgãos participativos da sociedade pode ser em parte responsável realização, e aprovação da aplicação dos rendimentos comuns (lu-
pela falta de interesse. De fato, muitos sócios mostravam algum inte- cros) recomendada pelo conselho comunitário e pelo quadro de dire-
resse de participação nos níveis mais baixos, o que confirma o que se tores. 4 O conselho comunitário da sociedade é o principal órgão
disse acima, mas o objetivo das instituições participativas não en- "administrativo", composto de doze pessoas; nove são eleitas, duas
globa muitos dos assuntos relativos às pequenas coisas, e o resul- nomeadas pelo quadro de diretores e uma, representando a comuni-
tado geral foi que cerca de dois terços dos entrevistados "não dade local, é nomeada pelo conselho e aprovada pelo quadro de
mostraram um interesse maior pelas instituições democráticas da diretores. Além de sua função relativa aos excedentes comuns, o
sociedade" (p. 127). f conselho se ocupa com as instalações assistenciais e com as regras
O nosso terceiro exemplo é a Scott Bader Commonwealth, uma para a entrada na sociedade, sendo que as requisições para essa en-
companhia manufatureira de resina plástica em Wollaston, Nort- trada de novos sócios são decididas por mérito. Uma forma inédita
hants, que emprega cerca de 350 pessoas.22 Essa companhia efetuou de organização é o painel de representantes. Trata-se de um órgão de
mudanças bem mais profundas na estrutura de autoridade ortodoxa doze membros escolhidos ao acaso entre todos os membros da socie-
da indústria do que os nossos dois outros exemplos de participação dade, cuja função é decidir se "as condições e o 'clima' existentes
na empresa justificam que eles depositem um voto de confiança no
parcial nos níveis mais altos. A empresa foideliberadamçnte reorga-
quadro de diretores".25
nizada em linhas participativas, em 1951, por seu fundador, Ernest
Bader, e as oportunidades de participação aumentaram em 1'963,- Antes de analisar o que de fato acontece no interior dessa
quando as instituições foram modificadas mais ainda. Toâas as ações estrutura organizacional, vale a pena observar que a Scott Bader
Commonwealth fornece um interessante exemplo de como se pode
da Scott Bader & Company Limited são geridas de modo'comunitá-,
avançar na direção de uma igualdade econômica numa sociedade
rio por uma organização de caridade, a Scott Bader Commonwealth
Limited (na eventualidade da venda da companhia, o que for apu-
23. Em 1961, havia 143 membros, de um total de 266 empregados. Blum, 1968, p. 98. Blum
diz que a maioria dos não-membros ainda não era elegível, não tendo ultrapassado portanto os
20. É impossível dizer até que ponto isso ajuda a explicar a relativa falta de aproveitamento dois anos de período de experiência (agora de um ano).
das oportunidades de participação, ou até que ponto o fato de que os órgãos representativos 24. Um diagrama da estrutura da empresa pode ser encontrado em Blum, 1968, p. 157. A
pareçam com freqüência agir como mecanismos pseudoparticipativos explica a falta de partir de 1965 o conselho comunitário passou a recomendar o método de distribuição de
interesse. É bastante significativo, no entanto, que cerca de dois terços dos empregados sejam "bônus" correspondente ao excedente, cujo valor seria determinado pelo quadro de diretores.
mulheres, pois todas as investigações empíricas sobre participação social e política mostraram O estatuto prevê que o lucro deve ser distribuído na razão de 60% para reinvestimento, 20%
que as mulheres tendem a participar menos do que os homens. Ver Milbrath, 1965, pp. 135-6. para fins de caridade e 20% de "bônus" para os empregados. Ultimamente o bônus tem
21. Flanders et alü, pp. 86 e 114-6, quadros 25 e 26. Uma alta porcentagem de mulheres alcançado de 5 a 10% (Blum, pp. 153 e 212).
respondeu "não sei" ao lhes perguntarem se elas ficariam tristes se vissem as instituições 25. Blum, 1968, p. 154. Quando a resposta é "não" segue-se um complicado procedimento,
falidas. mas a decisão final sobre o que fazer, se houver algo a ser feito, passa às mãos dos curadores,
22. Essa companhia também foi objeto de um estudo publicado há pouco. Blum (1968). cuja principal função é a de "guardiães" dos estatutos da sociedade. Dois dos curadores são
Pode-se encontrar informação adicional em Hadley (1965); também Exley (1968) e publica- eleitos; ver Blum, pp. 155 e segs. e 164-5. Há um outro órgão parcialmente eleito, o conselho
ções da Scott Bader & Company Limited. de referência, órgão de apelação final, que se ocupa principalmente de questões disciplinares.

108 109
moderna. A diferença de status entre os empregados foi considera- mindo cargos como representantes, é bastante pequena porque, de
velmente reduzida nessa empresa. Em primeiro lugar, todos os mem- 1951 a 1963, 34 pessoas serviram no conselho comunitário e "uma
bros são iguais, pois todos têm um voto na reunião geral. Em se- grande maioria" foi reeleita para mais de um mandato; cerca de dez
gundo lugar, todos os empregados desfrutam de um alto grau de desses eleitos provinham dos baixos escalões.28 Descobriu-se, utili-
segurança no emprego, uma vez que praticamente os únicos motivos zando como critério de participação as falas nas reuniões gerais, a
para demissão consistem em uma falha de comportamento ou in- obtenção de informações dos representantes, a candidatura às elei-
competência muito graves (e em todos os casos é acionado o sistema ções e o lançamento de propostas por meio de órgãos participativos,
de apelação). Em terceiro lugar, todos os empregados são assalaria- que cerca de um quinto dos gerentes, técnicos, executivos juniores e
dos e têm a garantia de um piso salarial mínimo; existe também um funcionários de escritório mostrava-se participante de índice "alto"
limite para os salários mais altos, pois o estatuto dispõe que a propor- ou "moderado", ao passo que todos os operários da fábrica mostra-
ção entre o salário mais alto e o mais baixo não deve exceder 7 para vam-se de índice "baixo" ou não participavam (p. 374). Para a maio-
1. Os membros da sociedade também têm acesso a uma quantidade ria dos entrevistados por Blum as "vantagens da empresa" eram en-
muito maior de informações sobre os negócios da empresa do que os caradas, principalmente pelos operários da fábrica, antes de mais
que trabalham dentro de estruturas de autoridade mais ortodoxas. A nada em termos da segurança que ela proporcionava no emprego
administração precisa responder todas as questões levantadas no jor- (incluindo a licença de seis meses por motivo de doença), embora a
nal interno, podem-se levantar questões na reunião geral, e existe "participação" fosse o segundo item mais mencionado. Por fim, em
mais uma cláusula que diz que os membros têm o direito de inspecio- uma questão sobre o conhecimento dos poderes do conselho comu-
nar os relatórios de prestação de contas e requisitar informações por nitário, descobriu-se que 26% dos entrevistados tinham um "conhe-
meio de representantes ou por meio de entrevistas pessoais com a cimento devido ao trabalho", 36% um "conhecimento parcial" e
administração.26
38% "pouco ou nenhum conhecimento" (p. 375, também p. 99).
Existem diversos canais por meio dos quais ocorre a participa-
Em vista disso, as evidências desses três exemplos poderiam
ção na Scott Bader, mas o estatuto é preservado por meio de "verifi-
sugerir que é demasiado otimista esperar que o trabalhador comum
cações e balanços", e até agora a participação se mostrou um pouco
faça uma auto-avaliação de suas oportunidades de participação par-
limitada na prática. Infelizmente, no único estudo profundo disponí-
cial nos níveis decisórios mais altos e que a conclusão deveria ser
vel, Blum (1968) fala muito pouco a respeito da prática cotidiana da
que a teoria da democracia contemporânea está correta em partir do
empresa.27 Entretanto, fica bem claro que, como na John Lewis Part-
fato de^que a apatia é um dado básico. ContuHo, tais evidências
nership, os níveis de interesse e de participação por parte dos empre-
podem ser interpretadas de um modo diferente. Na Scott Bader,
gados de baixo escalão são baixos. Blum diz que "houve considerá-
assim como na John Lewis Partnership, existem poucas oportunida-
veis diferenças na participação dos diferentes grupos... Os operários
sem dúvida participaram menos do que os outros grupos" (p. 329). des para a participação nos níveis mais baixos; no entanto todas as
Em geral, a proporção total dos empregados que participaram, assu- evidências mostraram que os trabalhadores comuns se interessam
por esse nível.29 Poderia ser discutido que a falta de tais oportunida-
26. Blum, 1968, pp. 84-5 e Hadley, 1965. O relógio de ponto também foi abolido. Nenhuma
des onde existe o interesse poderia levar os trabalhadores dos baixos
dessas medidas radicais ou a estrutura participativa parece ter prejudicado o desempenho
econômico; a partir de 1951 o balanço anual cresceu dez vezes, atingindo 4 mil libras por 28. Blum, p. 96. O período do mandato é de três anos, o que, por si, limita p número dos que
mês. podem participar.
27. Foi feita uma investigação empírica, mas Blum se refere a esse material apenas de 29. Os estatutos da Scott Bader criaram um cláusula para os comitês departamentais, que
passagem. Seu livro ocupa-se principalmente com uma interpretação dos princípios subjacen- foram instituídos em 1951, mas nunca funcionaram regularmente. Reavivou-se há pouco o
tes às formas de organização, mas esse relato, calcado em grande parte numa terminologia interesse nesses últimos, de modo que talvez, no futuro, as oportunidades de participação
metafísico-religiosa, não é muito claro. venham a se tornar disponíveis nos níveis mais baixos (ver Hadley, 1965).

110 111
escalões a pensar que seriam remotas as oportunidades de participa- socialização, a partir de nosso exame do material empírico sobre a
ção nos níveis mais altos, pois pouca coisa em sua experiência de participação na indústria. A única revisão que se faz necessária diz
trabalho cotidiana os prepararia para isso. É significativo que as ati- respeito à questão do desenvolvimento do^senso de eficácia política;
tudes dos empregados nos diferentes níveis de emprego na Scott a participação nos níveis mais baixos talvez baste para isso. Vol-
Bader variam enormemente, como fica ilustrado pela questão do tando-nos para os efeitos educativos mais abrangentes da participa-
quadro de diretores e das ações dos membros fundadores. Antes de ção parece haver poucos empecilhos práticos à instituição de um
1963, os membros fundadores tinham certos direitos e controlavam sistema de participação parcial nos níveis mais altos; sem dúvida ela
10% das ações, e em 1957 Ernest Bader propôs transferir essas ações parece compatível com eficiência econômica. Assim, o argumento
para a empresa comunitária. Foram formados grupos de discussão da "congruência" de Eckstein a respeito da necessidade de elemen-
para debater suas propostas, os quais relataram que eram aceitáveis, tos "autoritários" no governo nacional requer uma modificação pelo
desde que o direito de eleger diretores também fosse ampliado à menos nesse último aspecto. Infelizmente, devido à natureza isolada
empresa comunitária. Isto Ernest Bader rejeitou. Em 1959, Blum fez e à característica única desses três exemplos de participação parcial
perguntas a respeito desses dois pontos, e os trabalhadores adminis- nos níveis mais altos é bastante difícil estabelecer conclusões gerais
trativos e dos laboratórios foram os mais favoráveis, e os operários muito precisas. Em especial, não podemos esperar uma resposta à im-
da fábrica os que mais se opuseram, ou tinham mais dúvidas sobre portante questão de até que ponto os trabalhadores do escalão mais
ter direito a uma parte das ações ou a eleger os diretores. "O que baixo podem estar interessados nessas oportunidades e em aproveitá-
poderíamos fazer; não sabemos que deveria ir para o quadro, apenas las, até que tenhamos informação sobre o efeito causado por um sistema
os graúdos de cima sabem disso", e "Não, as ações do fundador não que combine os níveis mais altos e mais baixos de participação. /
deveriam ir para a empresa comunitária, afinal ele fundou a firma, Podemos aeorajios-voltar*parajjsegundo aspecto da teoria da
KSasS!lsSs^^ssi!>i^>~is=1^^s.:ia^>f" *• -——"-a ^^-ZZ&SÍZWWS^^-^^-y,*^^

ele foi o primeiro a colocar dinheiro nela" foram comentários típicos demo^raciaparücipativa: o argumento de que.aindústria e outras
dos operários (pp. 146-52). A diferença de atitudes riesse aspecto esferas Relatividade formam sistemas pojil^^porjexcelência^ que,
pode fornecer um apoio para a visão de Cole sobre "ó treinamento por isso, elas deveriam ser democratizadas. Repetimos, que a indús-
para a subserviência" recebido pela maioria dos trabalhadores co- tria"ocupa^uma posição crucial na questão sobre a viabilidade de uma
muns. Ou seja, mesmo em uma situação onde as oportunidades de sociedade participativa; a indústria, com suas relações de supe-
participação em níveis mais altos encontram-se abertas para o traba- rioridade e subordinação, é a mais "política" de todas as áreas nas
lhador comum, que foi socializado no sistema existente de estruturas quais os indivíduos comuns interagem, e as decisões que ali se
de autoridade industrial e que continua não tendo oportunidades de tomam exercem grande efeito sobre o resto de suas vidas. Além do
participação no nível mais baixo todos os dias, noções tais como a mais, a indústria revela-se importanterpoiS'O tamanho da empresa
eleição dos diretores em geral não são "acessíveis" como o são para pode permitir que o indivíduo participe de modo diretotda tomada de
os trabalhadores de status mais elevado.30 decisões, que participe dejnodb pleito nos níveis mais altos.31 Se os
Podemos agora resumir os resultados que interessam para a fatos mostrarem, como tem sido afirmado, que é impossível demo-
teoria da democracia participativa, em seu aspecto educativo ou de cratizar as estruturas de autoridade industriais, então a teoria da de-
mocracia participativa necessitará de uma revisão substancial.
30. O elemento de paternalismo presente na situação da empresa comunitária tem que ser
levado em conta ao se considerar atitudes, etc. Por fim, em 1963, as ações foram entregues e 31. Cf. o seguinte argumento de Bachrach: "Se as organizações privadas, ao menos as mais
os direitos dos membros fundadores abolidos, mas, como antes, apenas dois dos nove direto- poderosas, fossem consideradas políticas — no sentido de que elas são órgãos que regular-
res deveriam ser eleitos pelos demais membros da empresa (sendo a lista dos candidatos mente colocam valores para a sociedade de forma autoritária —, então elas seriam forçadas,
aprovada pelo quadro). Cinco outros são nomeados pelo presidente e aprovados pelos curado- em termos do princípio democrático de igualdade de poder, a ampliar a participação no
res, sendo que os dois Bader se tornaram diretores vitalícios. processo decisório no interior delas mesmas" (1967, p. 96).

112 113
v

AUTOGESTÃO DE TRABALHADORES NA
IUGOSLÁVIA

Mostrou-se que de fato existe, entre trabalhadores comuns,


uma demanda generalizada por participação nos níveis mais baixos
da administração, mas isto não parece ocorrer quando se trata de
decisões em níveis mais altos, como ilustrou o material empírico
apresentado no último capítulo. Na pesquisa norueguesa, citada no
capítulo EU, Holter obteve apenas 16% dos colarinhos-azuis e 11%
dos colarinhos-brancos com intenção de participar mais nas questões
ligadas à administração da empresa como um todo.1 No estudo re-
cente sobre os trabalhadores da fábrica de automóveis Vauxhall, o
que se perguntou não foi exatamente isso, mas se os trabalhadores
achavam que os sindicatos deveriam ocupar-se somente com o salá-
rio e as condições de trabalho ou se deveriam "tentar e conseguir
com que os trabalhadores opinassem sobre a administração". Dos
entrevistados, 49% achavam que deveriam dar voz aos trabalhadores
(61% dos trabalhadores manuais), no entanto a atitude da maioria
pode ser ilustrada por observações como: "uma pessoa média num
lugar como esse gosta de pensar que poderia administrar, mas o ge-
renciamento é realmente para pessoas instruídas que podem fazê-
9 y
Io". E significativo o fato de que a maioria dos trabalhadores ma-
nuais desejasse esse papel mais abrangente para os sindicatos, e que
os que queriam participação nos níveis mais altos, na pesquisa de
Holter, eram responsáveis, de confiança, especializados", se se levar
em conta os dados sobre o desenvolvimento do senso de eficácia

1. Holter, 1965, p. 301, quadro 2; também p. 304, quadro 3b.


2. Goldthorpe et alü, 1968, pp. 108-9, quadro 47.

115
política, e reforça ainda mais a sugestão feita no último capítulo de Eckstein tivesse em mente as conseqüências econômicas, ou seja, que
que, para muitos dos trabalhadores do escalão mais baixo, tais idéias um sistema democrático não seria capaz de operar de modo eficiente ou
sejam simplesmente "inacessíveis". Segundo Holter, "o clima dos até mesmo entraria em colapso. Por outro lado, interpretações bem di-
sistemas hierárquicos em geral, a perspectiva limitada inerente ao ferentes podem ser fornecidas sobre o termo "impossível". Pode-se
trabalho de um operador de máquina ou de um funcionário subadmi- argumentar (cf. as evidências mencionadas acima) que não haveria um
nistrativo, pode tender a diminuir além das proporções razoáveis o número suficiente de trabalhadores interessados ou que quisessem par-
número dos empregados capazes de se visualizarem como partici- ticipar de modo a tornar o sistema viável; ou (como Michels) que a
pantes de tarefas gerenciais" (1965, p. 305). Assim, pouco se pode verdadeira democratização não seja possível porque, na prática, um
inferir diretamente da falta de demanda declarada, por parte dos tra- corpo eleito, sem especialização, trabalhando em tempo parcial, não
balhadores, por uma participação nesse nível no que se refere às poderia de fato controlar o staff de especialistas que trabalham em
possibilidades práticas da democracia industrial. tempo integral, os quais de fato trocariam as coisas. Mas é improvável
Antes de se considerar qualquer material mais empírico, faz-se que Eckstein tivesse tais possibilidades -em vista; ele apenas registra o
necessário um esclarecimento sobre o motivo preciso de se afirmar que caso e não o discute. Tal afirmação SQbrejymrjossibiridade de democra-
é impossível a democratização das estruturas de autoridade da indústria,
o que constitui tarefa mais difícil de realizar do que se imagina. Eckstein . Uma vez que já temos o
(1966) não é muito explícito: "Algumas relações sociais simplesmente tipo de sistema político democrático que deveríamos ter, temos tam-
não podem ser conduzidas de um modo democrático, ou só podem sê-lo bém, portanto, os tipos certos de "pré-requisitos, na forma das estruturas de
com as mais graves conseqüências disfuncionais... Temos sérias razões autoridade não-governamentais existentes; qualquer tentativa de democra-
para acreditar que as organizações econômicas não podem ser molda- tizá-las apenas colocaria em perigo a estabilidade do sistema. Todavia,
das de uma maneira de fato democrática, pelo menos não sem as conse- devemos levar a sério a afirmação e examinar algumas interpretações plau-
qüências que ninguém deseja" (p. 237). Ele chega a afirmar que o má- síveis da suposta "impossibilidade" durante a discussão que segue.
ximo que podemos esperar seria algum tipo de democracia "pretensa" Na Grã-Bretanha e nos Estados Unidos existe uma singular
falta de exemplos sobre empresas organizadas em linhas democráti-
ou "simulada", mas o único exemplo — um bocado fora do comum —
cas (ou melhor, se elas existem, raramente se escreve a respeito). Há
que ele dá é que certas organizações econômicas estão querendo provo-
na Grã-Bretanha um exemplo que corresponde de modo quase exato
car desvantagens do ponto de vista do funcionamento e "simular uma
ao nosso modelo de participação plena (direta) nos níveis mais altos.
grande consideração pela democracia", e fazem isso ao permitirem
Infelizmente, a Rowen Engineering Co. Limited, em Glascow, é
"certos desvios na lógica do livro caixa com entrada dupla a fim de, na
muito pequena, com cerca de 20 empregados, e os trabalhadores
verdade, exercer certas práticas democráticas". Além dessa estranha
tendiam a se auto-selecionar, mas ela possui um considerável inte-
asserção, ele não apresenta dado algum para sustentar o argumento da
resse intrínseco e é útil para os nossos propósitos de ilustração. O
impossibilidade da democracia e não fornece indicação alguma de
quais são essas conseqüências disfuncionais.3 É de se presumir que
4. Já que existe um exemplo, obviamente é possível democratizar as estruturas de autoridade
industriarímas, desse exemplo, não se pode tirar conclusão nenhuma sobre a possibilidade de
3. Eckstein (1966, p. 238). Ele diz também que "mesmo certos tipos de propriedades democratização na escala de uma economia global, que é o que exige a idéia de uma
públicas (como a nacionalização das indústrias, na Grã-Bretanha, absolutamente vitais à sociedade participativa. A fábrica foi fundada em 1963 como uma "fábrica para a paz"
saúde de toda a economia) depõem contra a democratização das relações econômicas" controlada pelos trabalhadores. Recebeu publicidade no movimento pacifista e na "esquerda",
(p. 237). Porém, o problema é que o caso da nacionalização britânica não constitui prova daí o componente de auto-seleção. Seu nome deriva de R(obert) Owen. (Uma segunda
alguma; nunca a democratização foi tentada. Isso foi o resultado da decisão deliberada do fábrica, similar a essa, estabeleceu-se no País de Gales.) Obteve bastante sucesso econômico,
Partido Trabalhista (governo de 1945-51) de adotar a "fórmula morrisoniana" e de não tentar tendo começado com um capital (a maior parte doado) de sete mil libras e fechou o último
mais nada. Assim, perdeu-se uma valiosa oportunidade de experimentar, e isso numa época balanço na faixa de 80 mil libras por ano. Ver Blum, 1968, pp. 49-51; Derrick e Phipps 1969,
em que a opinião pública e os trabalhadores eram favoráveis a uma mudança real. pp. 104-7; Rowen Factories (1967) e Sawtell (1968, pp. 41-2, Companhias A e B).

116 117
órgão de controle da fábrica é o conselho geral, ao qual podem per- escala a democracia na indústria, abrangendo empresas de vários
tencer todos os empregados após três meses de serviço, e cada tipos e tamanhos, por toda a economia.
membro tem direito a um voto. As reuniões do conselho são realiza- Nenhuma discussão a respeito de democracia e participação na
das quinzenalmente, expondo-se a pauta com dois dias de antecedên- indústria pode se permitir ignorar o sistema iugoslavo. Ele também
cia, e qualquer empregado pode incluir itens (também se fazem reu- revela considerável interesse porque, como um todo, as forma de
niões na hora do chá, caso haja necessidade, mas as decisões organização sócio-políticas e industriais na Iugoslávia assemelham-
precisam ser ratificadas na próxima reunião do conselho). Cada se em muitos aspectos (pelo menos do ponto de vista formal), de
membro ocupa a presidência por duas reuniões consecutivas, o que modo notável, com o esquema de Cole para uma sociedade parti-
significa que todos têm de participar oralmente pelo menos nessas cipativa. Aqui, no entanto, limitaremos a nossa atenção ao aspecto
ocasiões (Derrick e Phipps, p. 105). O conselho geral decide sobre industrial, a fim de observar quais os esclarecimentos que o sis-
todos os assuntos de política e tudo o mais de importância; ele tam- tema de gestão dos trabalhadores poderia fornecer sobre as possi-
bém elege os diretores, o gerente de fábrica, o supervisor e o "coor- bilidades de democratização das estruturas de autoridade da in-
denador" (encarregado). A cada reunião o conselho recebe relatórios dústria. Existem dificuldades consideráveis para qualquer
sobre a produção, as vendas, a finança, etc.5 Existe também um sub- asserção desse tipo: em primeiro lugar, há o problema da disponi-
comitê do trabalho para tratar de questões pessoais, mas que não bilidade da necessária evidência empírica. Embora estejam au-
decide, apenas faz recomendações ao conselho. mentando o número dos estudos e comentários em língua inglesa
Uma reunião do conselho geral à qual Jarvie assistiu (1968, p.
sobre a organização industrial iugoslava, de modo algum mos-
20) ilustra de que modo um dos problemas acima mencionados, re-
tram-se suficientes, seja em quantidade, seja em compreensão,
ferente à tese sobre a "impossibilidade", pode emergir nas organiza-
como seria de se desejar. Em segundo lugar, existem dificuldades
ções menores. Nessa reunião, um membro do departamento reunido
inerentes à própria situação da Iugoslávia. Trata-se de um país
sugeriu que se parasse de produzir um determinado modelo de aque-
relativamente subdesenvolvido, com grandes diferenças de desen-
cedor, já que alguns deles estavam sendo devolvidos. O engenheiro
de vendas, profissional especialmente treinado, negou que o modelo volvimento entre as repúblicas.
tivesse algum defeito e apresentou um relatório técnico para apoiar a Muitos dos que trabalham nas fábricas continuam a trabalhar
sua afirmação. Esse relatório foi vigorosamente discutido, e por fim parte do tempo na terra (a maior parte da qual é de propriedade
se concordou em instaurar uma investigação sobre o produto em privada) e a maior parte da força de trabalho é composta de trabalha-
questão. Pode-se questionar se, numa fábrica com uma força de tra-
balho mais representativa, o relatório de um "especialista" desse tipo 6. Renda nacional em 1964

receberia uma tal avaliação crítica. Esse problema do controle dos Bilhões de dinares Libras per capita População
"especialistas" pelo trabalhador (em gestão) comum será discutido i novos (milhões)
de modo mais completo a seguir, em conexão com o sistema indus- Bósnia-Herzegovina ' 6,8 56 3,5
trial da Iugoslávia. Escolheu-se a Iugoslávia porque esse país for- Croácia 14,6 97 4,3
nece, na forma de sistema de autogestão de seus trabalhadores, o Macedônia 3,0 57 1,5
único exemplo disponível de uma tentativa de introduzir em larga Montenegro 0,9 51 0,5
Sérvia 21,5 78 7,9
5. Os diretores são uma exigência da lei; contudo, sua única função na Rowen Engineering é
Eslovênia 9,0 161 1,6
assinar cheques (Jarvie, p. 15). Há também um conselho consultivo, composto de representantes Iugoslávia 55,8 83 19,3
de organizações simpatizantes com as finalidades da fábrica, cuja função é assegurar que as
decisões do conselho geral não infrinjam os princípios sobre os quais se baseia a fábrica. Fonte: The Economist, de 16.7.1966.

118 119
dores na indústria, de primeira geração e sem instrução.7 Ainda em de trabalhadores.10 Além dos conselhos de trabalhadores e das unida-
1953, o nível médio de analfabetismo na população com mais de dez des econômicas, os trabalhadores também podem participar do pro-
anos de idade era de 25,4% (o das mulheres de 35,8%), de modo que cesso decisório através de reuniões com todos os integrantes da em-
esses fatos têm de ser considerados ao se examinar o trabalho no presa, por meio de referendos sobre tópicos importantes.
sistema de autogestão dos trabalhadores.8 A Iugoslávia, é claro, con- Os membros do conselho têm mandato de dois anos (podem ser
siste num Estado comunista, embora um pouco diferente de outros destituídos por votação de seu eleitorado), e reúnem-se mensalmente. Os
países do Leste Europeu, de forma que o papel do Partido Comunista conselhos de trabalhadores possuem subcomitês para tratar de certas questões;
também tem de ser levado em conta. Por fim, o sistema de autoges- a partir de 1957, foram obrigados a criá-los por causa da disciplina interna e
tão dos trabalhadores é, em si, de origem relativamente recente. In- das contratações e demissões. Os membros desses comitês não precisam ne-
troduzido em 1950, após um rompimento com URSS em 1948, ele cessariamente ser membros do conselho.11 O conselho de trabalhadores elege
não entrou de fato em funcionamento senão em 1953, sob novas o seu órgão executivo, a diretoria, a qual, em geral, mas nem sempre na sua
regras e reformas econômicas. Desde então, as formas de organiza- totalidade, é composta por seus próprios membros. A diretoria possui de 3 a 17
ção e a estrutura legal foram submetidas a um processo quase contí- membros (sendo um diretor ex offició) eleitos por períodos de um ano; se um
nuo de mudanças, o que aumenta as dificuldades de avaliação. membro se elege por duas vezes consecutivas, passa a ser inelegível pelos
Primeiramente, consideremos a estrutura organizacional da in- próximos dois anos.12 A diretoria pode reunir-se várias vezes por semana, e
dústria na Iugoslávia. Cada indústria na Iugoslávia é administrada tem funções importantes, entre as quais a supervisão do trabalho do diretor,
por um conselho de trabalhadores, eleito por toda a coletividade (isto assegurando o cumprimento dos planos da empresa e a elaboração do plano
é, todos os empregados) por meio de unidades eleitorais nas empre- anual. Outro "órgão de administração" obrigatório por lei, além do conselho e
sas maiores. Por lei, todas as empresas com mais de sete trabalhado- sua diretoria, é o diretor da empresa. Desde 1964 a escolha final do candidato
res precisam ter um conselho, sendo que, onde há menos de trinta ao posto (o qual é anunciado) está nas mãos do conselho de trabalhadores,
trabalhadores, todos eles formam o conselho. Nas maiores empresas e seu mandato foi limitado a quatro anos.13 O diretor, juntamente com
o tamanho do conselho dos trabalhadores pode variar de 15 a 120 o "colegiado" de chefes de departamento, é responsável pela admi-
membros, mas a média vai de 20 a 22.9 As empresas maiores também nistração, pela condução das tarefas diárias da empresa e pela execu-
podem eleger, caso desejem, conselhos departamentais, e foi insti- ção das decisões tomadas pelo conselho de trabalhadores. Ele tam-
tuído, a partir de 1961, um sistema denominado pelos iugoslavos de bém possui outros poderes definidos por lei, tais como o de assinar
"unidades econômicas". Cada empresa é dividida em unidades de contratos em nome da empresa, representá-la em negociações com
produção viáveis que possam exercer um grau de autogestão a esse órgãos externos e assegurar que a empresa opere dentro da lei.
nível. A organização dessas unidades é deixada a cargo de cada em- Antes de se examinar como tudo isso funciona, será útil anali-
presa. Um estudo a respeito diz que a administração da unidade está sar brevemente o desempenho econômico da Iugoslávia sob o sis-
"nas mãos de uma assembléia composta pela totalidade de seus tema de autogestão dos trabalhadores, a fim de verificar se existem
membros", mas na Rade Koncar (a maior produtora de equipamen- "disfunções" econômicas tão grandes a ponto de tornar o sistema
tos elétricos na Iugoslávia) as unidades têm seus próprios conselhos
10. Singleton e Topham, 1963, p. 15. Para uma descrição da organização da Rade Koncar, ver
Kmetic, 1967.
7. Em 25 anos a população rural reduziu-se de 75% para 45% do total (The Economist, 16 de 11. Stephen, 1967, p. 8, também Singleton e Topham, 1963, p. 14 e Kmetic, 1967, p. 13.
julho de 1966). O aumento de 1% a 2% da força de trabalho a cada ano provém diretamente 12. Stephen, 1967, p. 12. Os regulamentos citados por Blumberg, 1968, p. 205, são ligeira-
do campo (Auty, 1965, p. 159) mente diferentes.
8. ILO, 1962, apêndice I, quadro A. 13. Até 1952 ele era indicado pelo Estado e, depois, por uma comissão composta por representantes
9. Blumberg, 1968, p. 198. Os empregadores privados têm o limite de cinco empregados em número igual do conselho de trabalhadores e da comuna O diretor pode ser removido pelo
além dos membros da própria família. conselho, mas o procedimento não é totalmente claro. Ver Blumberg, 1968, p. 205.

120 121
"impossível" (ainda que esteja ausente um colapso econômico com-
pleto que poderia ser atribuído, sem margem de dúvida, ao sistema,
r existe na Iugoslávia, precisamos examinar o funcionamento interno
do sistema. A primeira questão a se colocar é se, dado ser a Iugoslá-
existem muitas dificuldades que poderiam contar como evidências via um Estado comunista, os conselhos de trabalhadores de fato pos-
comprobatórias). Por volta de 1964 a renda real per capita na Iugos- suem um poder independente (é evidente, mesmo se não possuíssem,
lávia era quase quatro vezes superior ao nível de antes da guerra; nada se poderia deduzir daí a respeito das possibilidades de um tal
desde o início da década até 1967 o produto nacional cresceu numa sistema num contexto sócio-político diferente).
média de 8% ao ano, e, desde a guerra, a taxa de crescimento "tem Existem diversos canais através dos quais a Liga Comunista
sido pouco mais lenta que a do Japão".14 Trata-se de um dado respei- (Partido) pode influenciar ou controlar os conselhos de trabalhado-
tável, mas não é uma história de sucesso contínuo. As reformas eco- res, mas o próprio papel da Liga é ambíguo. Por um lado, a Liga, em
nômicas radicais de 1965 foram em parte motivadas por problemas teoria, não exerce mais o controle por uma dominação direta, con-
da inflação e da balança de pagamentos; outro fator foi o desejo de tudo mantém seu papel de líder por meio "da força das idéias e
modernizar as técnicas de produção e de se livrar de investimentos argumentos", e há um debate contínuo na Iugoslávia sobre esse papel
pouco rentáveis. Certo autor cita o superinvestimento no início da e sobre o problema da separação entre partido e Estado. Na prática,
década de 60 como "uma prova da autonomia da gestão dos trabalha- no entanto, todas "as decisões mais importantes, relativas ao desen-
dores", mas, como seu nome popular sugere, as assim chamadas volvimento da sociedade, continuam a ser centralizadas por um pe-
"fábricas políticas" foram mais um resultado de fatores políticos do queno grupo de líderes do partido".16 Por outro lado — para ilustrar
que de projetos dos conselhos de trabalhadores. Um problema que se o caráter de Jekyll e Hyde do Partido — ele opera dentro de um
coloca é até que ponto o sistema do conselho de trabalhadores cons- sistema participativo extremamente formal e dentro de uma perspec-
tituirá um obstáculo à modernização, à introdução de tecnologias tiva ideológica de uma sociedade socialista "caracterizada pelo con-
que poupam trabalho, etc. Há alguns indícios de que os conselhos trole consciente e organizado de seus próprios membros sobre todas
relutam em votar a favor da produtividade, mas de acordo com o as instituições de sua sociedade".17
sistema gerencial ortodoxo do Ocidente, a modernização com boas Um canal pelo qual a Liga pode influenciar os conselhos de traba-
chances de sucesso depende muito das condições econômicas gerais, lhadores consiste na eleição de seus membros pela Assembléia Comu-
do nível de emprego e de fatores como a disponibilidade de paga- nal. A comuna (em linhas bem genéricas, análoga às unidades de go-
mentos por produtividade, acomodações, esquemas de recapacitação verno local britânicas) é a unidade política básica na Iugoslávia sobre a
profissional e assim por diante, o que, por certo, deve aplicar-se à qual se baseia os níveis mais altos. Em essência, as câmaras de todos os
Iugoslávia. É impossível dizer, no atual estágio, se o sistema do con- níveis dividem-se em duas, a câmara "municipal" e a câmara das comu-
selho de trabalhadores apresentará dificuldades insuperáveis (pode-
ria até acontecer de os conselhos aceitarem bem mais depressa ques- 16. Riddell, 1968, p. 55. Sobre as mudanças na posição da Liga após a queda de Rancovick em
tões como o custo social do que"um gerenciamento ortodoxo), mas 1966, ver Neal e Fisk (1966) e Rubinstèin (1968). Ver também "Draft Thesis on lhe Fuither
parece bastante claro que, mesmo se a expansão econômica não pode Development and Reorganisation of the League of Communists of Yugoslavia" (1967).
17. Riddell, 1968, p. 55. Essa posição ideológica não deveria ser posta de lado como simples
ser atribuída de modo direto ao sistema, pelo menos, até o presente "encenação". Conforme assinala Riddell, a história da Iugoslávia mostra uma tradição de autonomia
momento, ele não constitui um particular obstáculo à eficiência e à local e de hostilidade contra a autoridade central, e o movimento Partisan baseava-se em grande parte
expansão econômicas. Para pôr à prova a tese da "impossibilidade" de se em ações e grupos locais (hoje a Liga se organiza na forma de república); além disso, os líderes
iugoslavos estavam familiarizados tanto com as doutrinas dos anarcossindicalistas quanto com as do
democratizar as estruturas de autoridade industrial nos padrões do que marxismo ortodoxo. No que se refere à indústria, se o objetivo fosse apenas "descentralizar uma
indústria socializada" (Rhenman, 1968, p. 6), ou conceder uma independência maior ao gerencia-
mento (o resultado do sistema segundo alguns; Kolaja, 1965, p. 75), ou ainda formar uma classe
14. The Economist, 16 de julho de 1966 e 19 de agosto de 1967. administrativa, então não teria havido a necessidade de se estabelecer essas formas específicas de
15. Blumberg, 1968, p. 213. A respeito das reformas econômicas, ver Neal e Fisk (1966) e organização; o que não quer dizer que todas as conseqüências fossem previstas ou planejadas. Ver
The Economist, 16 de julho de 1966. também Deleon (1959) e Auty (1965) para uma história do estabelecimento do atual sistema.

122 123

L
nidades do trabalho; "os cidadãos figuram nessa organização sócio-eco- Além desses canais indiretos, a maneira óbvia para a Liga fazer
nômica tanto como indivíduos quanto como coletividade nas empresas com que sua influência seja sentida é através da eleição de seus
e instituições".18 (Existem também outras câmaras.) Os procedimentos membros para os conselhos de trabalhadores. A proporção de mem-
de nomeação e eleição para a Assembléia Comunal são bastante com- bros desses conselhos, que são também membros da Liga, varia
plicados (a eleição é em parte direta e em parte indireta), mas nos últi- muito, mas em geral ela é bem alta por empresa. Singleton e Topham
mos anos parece ter sido efetivamente introduzido algum elemento de citam uma média de 35%; nas duas fábricas visitadas por Kolaja a
escolha nas eleições.19 As comunas dispõem de uma considerável auto- média era de 70% e um pouco menos de 50%, respectivamente, e
nomia local de governo e estão muito interessadas por empresas em uma pesquisa iugoslava encontrou uma variação de 8% a 65%.22
suas áreas, pois uma grande parte de sua renda depende da prosperidade Pode ser que proporções tão grandes de membros da Liga não sejam
econômica da comuna. Elas dispõem de alguns poderes em relação às eleitos com o passar do tempo, devido às mudanças nos procedimen-
empresas isoladas, incluindo o direito de fazer recomendações a tos eleitorais de 1964. No princípio, uma lista de candidatos podia
respeito de política. Hoje em dia, a empresa parece ter um grau bem ser nomeada por 10% dos trabalhadores, ou por uma tendência do
maior de autonomia nesse relacionamento do que nos primeiros tem- sindicato — em geral isso significava que essa última fornecia as
pos. Como já se observou, o controle da nomeação do diretor não é mais listas. Agora os candidatos podem ser nomeados por qualquer traba-
compartilhado com a comuna e, pelo menos nas fábricas estudadas por um lhador e dois auxiliares, numa reunião coletiva especial. Ocorre uma
observador, o conselho dos trabalhadores adotou uma atitude independente em competição por postos. Por exemplo: no estaleiro Split, visitado por
relação às propostas e pedidos da comuna (Kolaja, 1965 pp. 28 e 62). Stephen, existiam 76 candidatos para 35 postos, em 1967. A eleição
A Liga pode operar ainda por meio dos sindicatos, outra organiza- dá-se por voto secreto e é realizada por um comitê especial estabele-
ção cujo papel, tanto em geral como no interior da empresa, é ambí- cido pelo conselho. Toma parte na votação uma alta proporção de
guo.20 Talvez sua principal função seja educacional, tanto no sentido de trabalhadores — Stephen nos oferece um total de 87% em 1966 e de
23
educar os trabalhadores para cumprirem a sua parte na gestão quanto na
91,2% em 1967. Um obstáculo à maneira de controle da Liga é a
alta rotatividade dos membros do conselho, com mandato de dois
instrução geral do adulto. Os sindicatos iugoslavos "desenvolveram
anos e com a substituição anual da metade.
funções educacionais e culturais, nos últimos anos, com uma abrangên-
A partir de suas investigações, Kolaja (1965, p. 63) concluiu
cia maior do que qualquer outro organismo de classe dos trabalhadores
que a Liga "ao que tudo indica, em geral não tinha a iniciativa, ca-
conhecido pelos autores" (Singleton e Topham, 1963, p. 21). O poder dos
bendo-lhe mais a posição de observador e censor". Mas talvez o
sindicatos sobre as eleições para os conselhos dos trabalhadores foi restrin-
dado mais interessante provém do questionário utilizado pelo
gido (ver abaixo) e a maior parte de seus outros poderes no interior das
mesmo autor na fábrica B, por ele visitada. De 78 entrevistados, aos
empresas são compartilhados por outros órgãos, e Kolaja descobriu que,
quais se perguntou "Queih tem maior influência na empresa?", ape-
nas fábricas que ele visitou, o sindicato dependia do conselho em virtude
nas quatro puseram a Liga em primeiro lugar, onze a puseram em
de fatores financeiros.21 segundo, em termos de influência, e nove em terceiro lugar, en-
quanto 45 colocaram o conselho de trabalhadores em primeiro lugar,
18. Milivojevic, 1965, p. 9. Em 1963 havia 581 comunas. Ver também a edição especial da
International Social Science Journal (1961).
19. Sobre eleições ver Riddell (1968, pp. 58-9); Milivojevic (1965, pp. 16-20); The Econo- 22. Singleton e Topham, 1963, p. 10; Kolaja, 1965, p. 16, quadro I; o citado I.L.O., 1962, p. 33.
mist, 15 de abril e 24 de maio de 1969; e sobre regras eleitorais anteriores. Hammond (1955). 23. Stephen, 1967, pp. 9-10. Blumberg (1968) diz que a coletividade (dos trabalhadores) tem
20. Para uma perspectiva iugoslava, ver Jovanovic (1960). Ver também Kolaja, 1965, pp. 29-34. de votar para aprovar a nomeação (p. 200). A respeito das eleições sob o sistema anterior, ver
21. Kolaja, 1965, pp. 34 e 35. Aqui não se pode entrar num debate sobre o papel dos Singleton e Topham (1963, p. 9).
sindicatos dentro de uma estrutura de autoridade industrial democratizada. Basta dizer que a 24. Blumberg (1968, p. 198) diz que, agora, nenhum membro pode cumprir dois mandatos
importante função de proteção dos interesses dos trabalhadores isolados, enquanto trabalha- consecutivos. Riddell (1968, p. 66) fornece números sobre os eleitos em 1962, que mostram
dores, continuará a existir, qualquer que seja a composição da administração. um considerável grau de continuidade.

124 125
25 o diretor e dois o sindicato (p. 34, quadro 12). Qualquer estima- R s so
tiva do papel da Liga, uma vez que ela pode funcionar em diferentes tomadaspeloscB^
direções, é extremamente difícil de ser realizada. O que talvez pre- (^j^^^^^^FHrMMdÕféff rèuründp-se~dè tempos em tempos
cise ser dito, para nossos propósitos, é que, embora a Liga não possa como admMstradOTes,ãchélrnfficüEâS"cõm os mais importantes proble-
obviamente ser ignorada, seria uni engano supor que, por esse mo- marfècnicos? Do ponfcfde vistaformal, o conselho tem amplos podères
tivo, toda a estrutura organizacional da indústria não serve para nada. decisóribs. Além das funções já mencionadas, tal conselho
No momento, outros fatores externos podem ter o mesmo peso sobre aprova as políticas e planos de produção, de salários e de comercializa-
cada conselho de trabalhadores — a exemplo dos fatores econômi- ção; regras de conduta e relatórios apresentados pelo quadro gerencial;
?
cos. O conselho está sujeito a influências sobre suas políticas por decide de que modo a parte dos ganhos à disposição da empresa deve ser
parte das associações econômicas (associações de empresas de pro- distribuída... De modo geral, o conselho de trabalhadores é encarregado de
cuidar de qualquer problema da empresa. É também a mais alta autoridade
dutos similares) e, o que é mais importante, desde as reformas eco- na empresa à qual as pessoas podem recorrer (Kolaja, 1965, p. 6).
nômicas de 1965, as empresas operam praticamente numa economia
de livre mercado, cada uma competindo com todas a outras; os ban- O Relatório da OIT (1962) afirma que os corpos de gestão dos
cos, as maiores fontes de crédito, agora também são corpos autôno- trabalhadores "são diretamente responsáveis por algumas das tarefas
mos operando em linhas "capitalistas" no que se refere ao crédito. que em qualquer outro lugar cabem à alta administração e aos execu-
Até que ponto será compatível, a longo prazo, a relação entre o livre tivos de nível médio e alto — uma vez que examina um grande
mercado e as empresas socializadas ainda é preciso esperar para ver, número de decisões detalhadas assim como assuntos relativos à polí-
mas, de modo geral, no que diz respeito a esses fatores externos, não tica" (p. 163). Existe alguma informação disponível sobre as ativida-
parece haver nenhuma boa razão para supor que os conselhos de des dos conselhos. Kolaja analisou os assuntos discutidos pelos con-
trabalhadores não possam controlar seus próprios assuntos: "A des- selhos de trabalhadores nas fábricas que ele visitou (de acordo com
peito de algumas leis restritivas, de uma certa intervenção do go- o que ficou registrado nas minutas de 1957 a 1959) e dividiu-os em
verno e de alguma pressão do partido, os conselhos de trabalhadores três categorias. A primeira, a "produtivo-financeira" (planejamento da
e os seus quadros gerenciais eleitos são de fato responsáveis pelo produção, salários, compra e venda de máquinas), corresponde em li-
controle de suas próprias empresas" (Neal e Fisk, 1966, p. 30). nhas gerais à nossa categoria de administração de alto nível; as outras
Portanto, uma vez que é útil examinar em mais detalhes o fun- duas, de "manutenção organizacional" e de "solicitações individuais"
cionamento do sistema de autogestão dos trabalhadores da Iugoslá- (para saídas, queixas, etc.) assemelham-se, grosso modo, ao nível admi-
via, agora podem ser levantadas algumas questões de aplicabilidade nistrativo mais baixo. Nas duas fábricas, os conselhos de trabalhadores
geral a qualquer sistema de democracia industrial; questões mencio- gastaram a maior parte do tempo tratando de assuntos que cabem na
nadas antes, quando foram consideradas possíveis interpretações do primeira categoria.25 Os tópicos para os quais os conselhos dedica-
"impossível", questões que dizem respeito à extensão do controle ram maior atenção mostraram uma interessante evolução no decorrer
que qualquer corpo administrativo em tempo parcial de "trabalhado- do tempo. Uma análise detida das minutas de sete empresas, num
res comuns" pode de fato exercer sobre uma equipe de especialistas período de dez anos, mostrou que, durante esse tempo, a quantidade
em tempo integral. Devemos considerar também até que ponto a de horas dedicadas a tópicos mais importantes, de alta gestão, cres-
massa de trabalhadores aproveita as oportunidades formalmente ceu, enquanto o tempo gasto com outros assuntos diminuiu. Segundo
abertas a eles e até onde é possível, sob o sistema iugoslavo, ao
indivíduo participar diretamente da tomada de decisões, como a teo- 25. Kolaja, 1965, p. 24, quadro 6. Stephen encontrou o mesmo padrão no estaleiro Split
ria da democracia participativa sustenta que ele deveria. (1967, p. 17). Ver também a lista das pautas de 6 mil conselhos em Blumberg (1968, pp.
205-6) e a lista dos debates e decisões na empresa Rade Koncar, em Kmetic (1967, pp. 27-8).

126 127
o autor, isso indicava que os membros do conselho haviam apren- industrial sem experiência, do que numa região bem mais avançada
dido a lidar com assuntos que transcendiam seu ambiente imediato do ponto de vista industrial, como a República da Eslovênia;_Ojual-
— ou, como coloca Ridell, que tais membros estão "aos poucos 'se observações abertas de "prepotên-
colocando em dia com o sistema'". Isto constitui umreforçjQJntejres-
sante para o argumento dos teóricos dajemocracia p^ticipatiy^ajes- ^ , ,pelo a
Peitó^°^^=^3u^Sâ^§EJÊafl§^^2i3SÊJSM?A=fflÊJ^ jl. A maioria das sugestões parece provir do
drrêtõre do colegiado, e elas raramente são rejeitadas; e eles também
mais práticas para a fazem a maioria das intervenções orais. Isto se aplica em particular
m um certo senlidoTuInaTez^qü^tís^^^ quando há discussão dos tópicos mais importantes e mais técnicos
decisões dessa natureza, ficou demonstrada a possibilidade de uma j (por exemplo, os planos de produção); é somente quando se discu-
estrutura de autoridade democrática na indústria; o "governo" é f tem assuntos de menor importância — em especial o problema da
leito para o cargo pela coletividade dos trabalhadores, deve prestar/ moradia para os trabalhadores, fornecida pelas empresas iugoslavas
contas ao eleitorado e pode ser substituído por ele. Por outro lado| — que os membros do conselho pertencentes ao escalão mais baixo
permanece a questão do papel dos "especialistas" na empresa; será têm alguma participação, ou tomam notas, e é sobre essas questões
que os conselhos de trabalhadores funciona apenas gara endossar ; que se instala um debate de fato vigoroso. O padrão era semelhante
lugar? Sfpapel dcTdlrêtoF! rias empresas visitadas por Stephen, onde a força de trabalho era bem
astante importante nesse aspecto, tantcTBò~ponto de vista formal mais educada e especializada (se bem que, na reunião que ele assis-
como do informal. A redução do seu mandato para quatro anos signi- tiu, alguns tópicos de alto nível tivessem sido discutidos anterior-
fica que o campo sobre o qual pode exercer sua "onipotência" foi mente). 29 Por outro lado, um relato diz que no caso de pelo menos
reduzido, mas ele continua a ter, como já se mostrou, amplos poderes uma empresa "as reuniões do conselho e da unidade econômica às
formais. Stephen (1967, p. 35) observa que, no estaleiro por ele visi- quais se assistiu foram marcadas por votações muito freqüentes, nem
tado, havia uma cláusula do "estatuto" que impedia o conselho de sempre unânimes, e decidiram-se pontos importantes que retificaram as
mudar uma decisão do diretor sobre a execução das decisões políti- propostas feitas pelo diretor, pelo presidente e pelos subcomitês", e o
cas; o único recurso que possuíam era conclamar a comuna ou demi- Relatório da OIT menciona uma ocorrência análoga.30
tir o diretor. Não se sabe o quanto tal provisão é comum. No passado, Mesmo admitindo a evidência de alguns exemplos de partici-
houve sem dúvida muitos casos de diretores que se excederam no
paçãolOTvTTrêTèíiyj^por-parte-dos ^
poder, e a imprensa iugoslava deu bastante publicidade a eles.28 No-
rftljrnbrBs^e^alguns^Ms^^
vamente pode-se pensar que a posição agora melhorou, mas, nesse ferãTdo pe^o^aii^ièricia^exeidda^^^i&^e outros espej:miis-
caso, como em todos os outros, torna-se difícil generalizar devido às
tlF^à^quipe^irigente realça aquilo que parece, confrontando^com
grandes diferenças de condições nas várias partes da Iugoslávia.
essa participação, um Jilema.quasejnsplúvel para um sistema demo-
Seria bem mais fácil para um diretor que tivesse isso em mente "as-
crático^e participativo na indústria. Parajjue o máximo de" trabalha-
sumir" uma empresa, digamos, na Macedônia, onde provavelmente
dores tenha a oportunidade de desempenhar uma função administra:
estaria lidando com pessoas sem instrução, uma força de trabalho
29. Stephen, 1967, pp. 38-41. Relatórios sobre as reuniões do conselho dos trabalhadores
26. Citado por Kolaja, p. 23. Riddell, 1968, p. 68. podem ser encontrados em Riddell (1968, pp. 66-7) e Kolaja (1965, pp. 45-50 e 19-21, quadro
27. Sturmthal sugeriu que essa evolução reflete meras mudanças legais. Embora o quadro 4). Na fábrica visitada pelo primeiro os trabalhadores revelavam baixa qualificação; naquelas
constitucional tenha mudado, os poderes dos conselhos foram sempre extensos; a questão é visitadas por Kolaja, havia uma alta proporção de mulheres trabalhadoras, embora ele não
que eles agora parecem mais desejosos e mais capazes de exercê-los. Sturmthal, 1964, p. 109. tenha se dado conta de que isso é significativo para a participação.
28. Ver Ward (1957) e Tochitch (1964). 30. Singleton e Topham, 1963, p. 23,1.L.O., 1962, p. 236.

128 129
tiva, e para que o efeito educativo da participação também sejajna- nômica "dispunham de farta documentação sobre os itens constantes
na pauta", isto não acontece em todos os lugares.32 No entanto, como
parcial^porefnTparirque os membros do conselho de trabalhadores nota Sturmthal (1964, p. 189), poucos administradores nos sistemas
'discutam efetivamente assuntos de alta política da empresa com sua industriais ortodoxos tomam decisões técnicas sozinhos, de modo
equipe de especialistas, então o oposto faz-se necessário. Em um que é absurdo esperar que cs membros do conselho o façam, e estes
país relativamente subdesenvolvido como a Iugoslávia as dimensões ainda precisam, para "contrabalançar", de informações para pode-
desse dilema acentuam-se, mas não se deveriam tirar conclusões de rem avaliar as sugestões feitas pelos outros. Nesse sentido, os sindi-
alcance muito longo a partir daí. Se é isso que torna a democracia catos poderiam desempenhar um papel valioso ao obter e fornecer
industrial "impossível", então, uma vez que qualquer corpo demo- tais informações aos conselhos; poderiam funcionar como um depar-
crático eleito enfrenta problemas similares (por exemplo, no governo tamento de pesquisa, ou, como sugerido em uma discussão entre os
local), a democracia política também é impossível — e não é isso, de iugoslavos, o conselho poderia contratar seus próprios especialistas
fato, o que querem dizer os teóricos que sustentam a impossibilidade para esse tipo de trabalho.33 Até que tenham sido tentadas soluções
da democracia industrial. A verdadeira questão é a área na qual se nas linhas aqui indicadas, deve permanecer sem resposta a questão
deve procurar uma solução para esse dilema no contexto industrial; sobre a possibilidade de se chegar a uma solução satisfatória para o
quajijDsjnjejiasJi^^ dilema. De qualquer forma, nada leva a supor que a existência desse
4oresju^ejhe^permitem avaliar e elaborar,^ojn^o|nriçténda,,planos^ dilema impossibilite a democratização das estruturas de autoridade
ejgglíticas?, Ümá~dãs"respostas, sem dúvida, é a experiência. Sobre industrial.
isso mostra-se relevante o que se disse no último capítulo com base Devemos agora examinar a extensão do envolviiriento da
nos dados sobre a participação parcial nos níveis mais altos. A parti- massa dos trabalhadores no sistema de autogestão desses trabalhado-
cipação em tais níveis precisa vincular-se às oportunidades de parti- res na Iugoslávia. A primeira coisa a assinalar é que um número
cipação também nos níveis mais baixos. Em outras palavras,_assim notável de pessoas já assumiu algum cargo: entre 1950 e o início i
como a jjarticjpação no local de trabalho atuajpomo um "campo de década de 60 cerca de um milhão de indivíduos serviram nos conse-"
provas" para a participação na esfera polmca mais^rahgente, da lhos de trabalhadores, e nos quadros administrativos, cerca de um
mesma" forma a experiencia_jja tomada^dedecisaononíyel mais quarto da força de trabalho industrial.34 Obviamente, uma grande
baixQ9a_administragãc^pode funcionarj:j3mojiun-temamejQto inesti- proporção deles deve ser de trabalhadores "comuns", mas deve-se
mável_para_amparticipação na tomada de decisões nos níveis mais notar que existe uma ambigüidade na expressão "conselho de traba-
íesse sentido, o papeFdas umBMêTe^õTfomicãTnTlugõSlavíã" lhadores", que poucas discussões a respeito da democracia industrial
é vital. E como vimos, urnajCQndição necessária para a participação ou do controle pelos trabalhadores procuram resolver. A definição de
é a disponibilidade de informações^lêvaiítêsTê müíío~mãTs poderia "trabalhador" é em geral deixada em aberto, e não se afirma se "tra-
ser realizado nesse campo na lug^líívlsrDêlfíodo geral, as informa- balhadores" significa apenas os trabalhadores manuais e de baixo
ções estão disponíveis aos trabalhadores nas empresas iugoslavas, status ou se o termo inclui os que usam "tanto a mão quanto o cé-
'"o princípio de publicidade'é provavelmente único, e na maioria rebro", ou seja, todos os empregados de uma empresa específica. A
dos casos fornece mais informação aos empregados na Iugoslávia do implicação da autogestão dos "trabalhadores" ou controle pelos "tra-
que recebem seus companheiros na Inglaterra, nos Estados Unidos balhadores" é que os trabalhadores de baixo escalão estarão em
ou na União Soviética".31 Contudo, embora um relatório observe
que, em várias empresas, as reuniões do conselho e da unidade eco- 32. Singleton e Topham, 1963, p. 24. Ver também Riddell, 1968, p. 66.
33. Bilandzic, 1967 e Dragicevic, 1966.
34. Blumberg, 1968, p. 215. Em 1960 a força total de trabalho era de 9 milhões, dos quais 5
31. Kolaja, 1965, p. 76. Ver também I.L.O., 1962, p. 280. milhões eram de trabalhadores agrícolas. Auty, 1965, p. 157.

130 131
maioria nos corpos administrativos (o que, já que eles formam de sistema participativo, do qual se esperaria aumentar sua "pronti-
a maioria da força de trabalho, é bastante aceitável), mas não há dão" psicológica para participar.
nenhuma razão para limitar a autogestão dos "trabalhadores" apenas Entretanto, a classe "alta" dos trabalhadores parece apresentar de
a essa categoria de empregados, quando a democracia implica sufrá- fato taxas bem maiores de participação no nível mais elevado. Contudo,
gio universal e a participação de todos. Na Iugoslávia, a divisão entre isto tem de ser confrontado com o fato de que há evidências de uma
trabalhadores manuais e os colarinhos-brancos não é mais reconhe- falta de conhecimento mais geral e de interesse sobre o funcionamento
cida oficialmente (Stephen, 1967, pp. 13 e segs.); não fica claro, básico do sistema. Em uma das fábricas visitadas por Kolaja, ele falou
porém, se existem ainda cláusulas nos estatutos com poderes para a 24 pessoas sobre a reunião do conselho de trabalhadores, e dez delas
-10
assegurar que os corpos administrativos sejam compostos' em sua não sabiam absolutamente nada a respeito. Riddell cita várias pesqui-
maioria por trabalhadores manuais ou da produção. Kolaja afirma sas iugoslavas a respeito do conhecimento geral sobre o sistema de
que os trabalhadores manuais devem ter representação proporcional autogestão dos trabalhadores e, se bem que os níveis variem de acordo
entre os candidatos para o conselho, e que três quartos do quadro com o tipo de trabalhador e o tipo de fábrica, eles tendem a ser baixos.
administrativo devem estar empregados diretamente na produção; Em uma fábrica entrevistaram-se 312 trabalhadores que tomaram as
mas no estaleiro visitado mais recentemente por Stephen não se tinha decisões relativas a cinco áreas da fábrica, sendo que 105 não responde-
conhecimento dessa cláusula.35 Qualquer que seja o caso aqui, é di- ram a nenhuma das questões corretamente, e nenhum trabalhador res-
fícil ver como, sob qualquer processo de nomeação razoavelmente pondeu a todas as cinco questões corretamente. Um outro pesquisador
livre, poderia ser atendida a cláusula sobre os candidatos, e não se comentou que "é um fato marcante que grande número de entrevista-
dispõe de nenhuma informação a respeito. No entanto, existe infor- dos, comparativamente falando, não possui qualquer conhecimento ele-
mação sobre a composição dos conselhos dos trabalhadores e (em mentar e carece de informações sobre importantes problemas sociais,
1962) as mulheres tendiam a estar sub-representadas e os trabalha- econômicos e políticos".39 Riddell sugere que essa falta de conheci-
dores especializados e os altamente especializados, super-repre- mento e de interesse acontece porque "em geral, o sistema tornou-se
sentados.36 Este último fato é ilustrado pelo estaleiro Split, onde, complicado demais para a maioria dos trabalhadores que operam
embora de 1965 a 1967 a proporção de trabalhadores manuais no nele".40 Sem dúvida existe uma série de regulamentos que são freqüen-
conselho tenha aumentado de 61,3% para 72,4%, em 1967 apenas temente modificados (e o sistema de distribuição da renda é bastante
2,6% desses eram semi-especializados e 3,9% não tinham especiali- complicado), mas não se vê como a efetiva estrutura organizacional de
zação. 7 Os trabalhadores do estaleiro Split explicaram essa baixa autogestão dos trabalhadores poderia ser menos complexa do que é e
representação dos menos especializados em função dos níveis edu- ainda permitir o máximo de participação, seja direta, seja por meio de
cacionais geralmente baixos e do desejo de que os melhores homens representantes, tanto nos níveis mais altos quanto nos mais baixos.
assumissem os cargos. É difícil ver de que modo esses trabalhadores Por infelicidade, a maioria dos estudiosos ignora, quase que
aumentarão a sua representação até que se elevem esses níveis edu-
cacionais e até que se tenha adquirido, a longo prazo, a experiência 38. Kolaja, 1965, p. 51. No entanto, um ex-presidente do conselho observou que "não se
costuma informar os trabalhadores sobre a pauta a ser discutida no conselho de trabalhado-
35. Kolaja, 1965, pp. 7-8. Stephen, 1967, p. 13. Blumberg, 1968, p. 217, reafirma a existência res". Kolaja vai além do que o autorizam suas evidências ao atribuir a falta de participação na
discussão das questões relativas à alta administração por parte dos trabalhadores de baixo
da cláusula sobre o quadro administrativo.
36. Riddell, 1968, p. 66. O padrão é o mesmo encontrado no Ocidente, no que se refere à escalão nas reuniões do conselho à falta de interesse; na ausência de outros indícios também
se poderia afirmar que o motivo seria a falta de confiança ou falta de informação suficiente.
participação nas organizações sociais e políticas.
37. Stephen, 1967, p. 11 e ap. 2.2.1. Dos membros de colarinho-branco apenas 3,9% tinham 39. Riddell, cit, pp. 62-3. Ver também Ward, 1965.
nível de escolaridade primária (os trabalhadores de colarinho-branco formavam 13% do total 40. Riddell, 1968, pp. 62-5. Uma grande dificuldade na interpretação dos dados sobre a
Iugoslávia é saber qual peso se deve atribuir ao hiato que existe entre a ideologia oficial e a
da força de trabalho). Ver Kolaja, 1965, p. 17, quadro 1.
prática oficial; até que ponto isto entra na explicação do baixo nível de interesse no sistema?

132
133
por completo, a participação nos níveis mais baixos no sistema iu- Nas maioria das empresas mais descentralizadas o relaciona-
goslavo, por isso não há meios de dizer se esses níveis de participa- mento da unidade econômica com o conselho de trabalhadores tende a
ção e de interesse são mais altos nessa esfera (a partir dos dados assumir a forma de uma espécie de contrato coletivo, e existem casos de
obtidos anteriormente seria de se esperar que fossem). Essa lacuna unidades que discutem e votam! propostas de separação da empresa da
também é lamentável por uma outra razão. Umjiosjproblernas que se qual fazem parte. Tais unidades têm amplas funções, as quais incluem a
leyjaJOÜ' relacionados com^^o^a^djL^ernoc^iãj^r^drMrva^foi aplicação de parte dos fundos internos da empresa, quando as unidades
até que^rjojto^seria^rjiossível reproduzir o modçlqjie pjirtrapaejío às vezes fazem empréstimos umas às outras.44 Existem indícios de que,
dclargaescala.O ao menos em algumas poucas empresas, os trabalhadores efetivamente
sistema iugoslavo fornece algumas idéias sobrFcorno" isso pode ser utilizam as oportunidades oferecidas para a participação no nível mais
feito. Em primeiro lugar, um fator jámencionado, a alta rotatividade baixo. Stephen observa que, na empresa que ele visitou, os trabalhado-
dos membros dos corpos administrativos nos cargos significa que, res menos qualificados e menos instruídos tinham uma representação
no decorrer de uma vida, cada indivíduo deveria ter a oportunidade propocionalmente maior nos conselhos departamentais, e o Relatório
de participar, pelo menos uma vez, diretamente da tomada de deci- da OIT descreve uma reunião normal em uma oficina onde "os comen-
sões. Em segundo lugar, o sistema iugoslavo também oferece a cada tários e sugestões vinham de todas as partes... um terço ou mais do
indivíduo a oportunidade de participar da tomada de decisões sobre trabalhadores participava... e quase não havia nenhum constrangimento
tópicos de importância, pelo uso do referendo na empresa. O Relató- devido a hesitação na forma de expressão... ou diferenças de graus entre
rio da OIT menciona que isso aconteceu, na maioria das vezes, sobre os oradores" (OIT, 1962, p. 172).
a questão da distribuição da renda; no estaleiro Split, porém, foi Não se poderia dizer que o sistema de autogestão dos trabalhado-
convocado um referendo sobre uma recomendação do governo fede- res na Iugoslávia constitui um exemplo bem-sucedido de democratiza-
ral para que o estaleiro formasse um consórcio com outros três. A ção das estruturas de autoridade, ou que os dados apresentados aqui
votação foi efetuada simultaneamente nos quatro estaleiros (sob a permitem estabelecer firmes conclusões. É preciso que haja uma quan-
jurisdição de comitês especiais), e a proposta não passou porque os tidade muito maior de informações sobre muitos aspectos; em particu-
trabalhadores de um dos estaleiros a rejeitou.42 A importância da lar, necessita-se de um estudo abrangente sobre o funcionamento do
participação nos níveis mais baixos como um "campo de provas" sistema em diferentes tipos de empresa, em diferentes áreas do país. Isto
para a participação no processo decisório em geral foi mencionada talvez se torne disponível no futuro, pois, conforme assinalou Riddell
antes. Neste ponto a unidade econômica é muito importante porque (1968, p. 69), a Iugoslávia "constitui um laboratório para pequisas sobre
permite que os trabalhadores participem da tomada de decisões com as possibilidades de descentralização do controle na sociedade mo-
o mesmo objetivo, para seu próprio nível coletivo mais baixo, assim derna, em larga escala, e os seus efeitos psicológicos. Praticamente não
como as tomadas de decisões administrativas de nível mais alto refe- existem limitações — exceto as do idioma — para tais pesquisas no
rem-se à empresa inteira. De acordo com um estudo, "os iugoslavos período atual". Apesar de essas restrições e o fato de que existe uma
consideram a criação das unidades econômicas como um dos avan- Liga Comunista e uma natureza subdesenvolvida na economia iugos-
ços mais significativos nos últimos vinte anos".43 lava dificultarem uma comparação direta com o Ocidente, uma conclu-
são que se pode tirar é que a experiência iugoslava não nos fornece
41. Blumberg (1968), por exemplo, menciona por cima os desenvolvimentos relativos ao nenhuma boa razão para supor que a democratização das estruturas de
nível mais baixo e não faz qualquer tentativa de relacioná-los com a informação sobre a
participação, apresentada anteriormente neste livro.
autoridade da indústria é impossível de ser efetuada, por difícil e com-
42. I.L.O., 1962, p. 172. Stephen, 1967, pp. 43-4. A proposta deveria ser votada de novo seis plicada que possa parecer.
meses mais tarde.
43. Singleton e Topham, 1963, p. 17. Essas unidades foram cridas originalmente como tentativa
de superar a tendência dos conselhos a se tornarem distantes dos trabalhadores (p. 14). 44. Singleton e Topham, 1963, pp. 15-7 e 1963a. Ver também Kmetic, 1967, pp. 20-6.

134 135
Essa discussão de democracia industrial na Iugoslávia conclui
o exame da evidência empírica relevante para os argumentos da teo-
ria da democracia participativa. Tal evidência indica claramente uma
única conclusão possível, no que diz repeito à teoria democrática^A
afirmação da^^ajja^mgcrj^^rjiaiíig^atiy.a.-.dg-.que.a condição CONCLUSÕES
=
y de uma forma de governo demoj
crática_consiste numa"sõciedade participativa, não é de todo irrea-
TtsüTse pode ou ríão ser compreendido, o ideal dos primeiros téorp-
'cofi "clássicos" da democracia participativa permanece, com uma
intensidade muito maior, uma questão viva e em aberto.

Discussões recentes a respeito da teoria da democracia têm


sido obscurecidas pelo mito da "doutrina clássica da democracia,
propagado com tanto sucesso por Schumpeter. O fracasso em reexa-
minar a noção de uma teoria "clássica" impediu a correta compreen-
são dos argumentos (de alguns) das primeiros teóricos da democra-
cia sobre o papel central que nela tem a participação; constituiu um
obstáculo mesmo para os a.utores que desejavam defender uma teoria
da democracia participativa. Isto significa que a ortodoxia acadê-
mica predominamente sobre o assunto — a teoria da democracial
contemporânea — não foi submetida a uma crítica substancial e ri-
gorosa, nem foi apresentado um caso realmente convincente favorá-
vel à permanência de uma teoria participativa em face dos fatos da
vida política moderna, de larga escala.
A principal contribuiçãcTdesses teóricos "clássicos" — que de-
signamos como teóricos da democracia participativa — à teoria de-
mocrática foi atrair a nossa atenção para o inter-relacionamento entre
os indivíduos e as estruturas de autoridades no interior das quais eles
interagem.^sto não significa que os autores modernos estejam com-
pletamente alheios a essa dimensão; sem dúvida, não é o que acon-
tece, como comprova uma boa parte da sociologia política, em espe-
cial aquela que estuda a socialização política; no entanto, as
implicações das descobertas sobre socialização para a teoria da de-
mobracia contemporânea não foram apreciadas. O vínculo entre tais
descobertas, em particular às que se referem ao desenvolvimento do
senso de eficácia política em adultos e crianças e à noção de um
"caráter democrático", foi negligenciado. Embora muitos dos defen-

136 137
sores da teoria da democracia contemporânea sustentem que um
certo tipo de caráter, ou um conjunto de qualidades ou de atitudes, ritária, e a não-participaçjo^dpjwnpin^comum, ._agátícq, com pouca
seja necessário para uma democracia (estável) — pelo menos entre sénsojle eficãciãrpolifica é vista como a principal salvaguarda contra
uma parte da população —, eles são bem menos claros no que se a jnstabilidade.0Ão que tüdólndíca, não ocorreu aos teóricos recentes
refere ao modo como esse caráter poderia ser desenvolvido, ou sobre imaginar por que deveria haver uma correlação positiva entre apatia,
qual a verdadeira natureza de sua conexão cornt» funcionamento do reduzido sentimento de eficácia política e baixo status sócio-econô-
"método democrático"! Se, por um lado, a maioria deles não apoia a mico. Teria sido mais plausível argumentar que os primeiros teóricos
declaração de Schumpeter de que o método democrático e o caráter da democracia foram fantasiosos em sua noção de "caráter democrá-
democrático não têm- relação, por outro, eles não fazem muito es- tico" e em sua afirmação de que, num determinado quadro institucio-
forço para examinar a natureza da relação postulada. Mesmo Al- nal, seria possível que cada indivíduo se desenvolvesse nessa dire-
mond e Verba, após mostrarem com clareza a, conexão existente ção, se hoje pudéssemos encontrar, em todos os setores da
entre um ambiente participativo e o desenvolvimento detam senso de comunidade, e em proporções mais ou menos iguais, pessoas que
eficácia política, não revelam nenhuma compreensão sobre a impor- não correspondessem a esse padrão. O fato de elas não serem encon-
tância disso em seu capítulo final, de teorização. tradas certamente deveria fazer com que os teóricos políticos empi-
Semelhante lacuna, no entanto, é apenas parte de uma caracte- ristas parassem e investigassem os motivos.
rística mais geral e notável de muitos textos recentes sobre teoria Uma vez que se questiona a existência de fatores institucionais
democrática. Não obstante a ênfase que a maioria dos teóricos polí- que poderiam fornecer uma explicação sobre os fatos relacionados com
ticos modernos dá à natureza empírica e científica de sua disciplina, a apatia, conforme fica sugerido na teoria da democracia participativa,
eles apresentam, ao menos no que concerne à teoria democrática, o argumento derivado da estabilidade parece muito menos fundamen-
uma curiosa relutância em olhar para os fatos com espírito investiga- tado em bases confiáveis. A maioria dos teóricos recentes contentou-se
dor. Em outros termos, eles parecem relutantes em visualizar se é ou em aceitar a afirmação de Sartori de que a inatividade do homem
não possível oferecer uma explicação teórica sobre o motivo de os comum não é "culpa de ninguém", e em tomar os fatos como eles se
fatos políticos serem como são; em vez disso, eles assumem que uma apresentam a fim de construírem a teoria. Contudo, vimos que há evi-
teoria que possivelmente poderia conter uma explicação já se mos- dências apoiando os argumentos de Rousseau^Mill e Cole de que com
trou obsoleta, e a partir disso concentram-se em construir, de modo efeito aprendemos a participar, particjpaj^^e^^yg^^ejatimento de
acrítico, uma teoria "realista" para fazer face aos fatos tais como eficáciálem~mais rtfõbjrôiEcl^
revelados pela sociologia política. / pãHic^tivõTAlení disso, as evidências indicam que a experiêncluíé
O resultado desse procedimento unilateral tem sido não apenas
uma teoria democrática que desconheceu suas implicações normati- dimuiulcão Ha"terideneiíí para atitudes hã(>dernocraticas
ff Vwje^í: " : ..
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vas, as quais estabelecem o sistema político anglo-americano exis- indivíduo. _Se aqueles que acabam de chegar à arena política tivessem
tente como o nosso ideal democrático; esse procedimento resultou sido previamente "educados" para ela, sua participação não repre-
também numa teoria "democrática" que, em muitos aspectos, exibe sentaria perigo algum para a estabilidade do sistema. De modo curioso,
uma estranha semelhança com os argumentos antidemocráticos do essas provas contra o argumento da estabilidade deveriam ser bem aco-
século XIX. A teoria democrática não está mais centrada na partici- lhidas por alguns autores que defendem a teoria contemporânea, pois,
pação "do povo", na participação do homem comum, nem se consi- ocasionalmente, eles lamentam os baixos níveis de participação política
dera mais que a principal virtude de um sistema político democrático e de interesse que agora se manifestam.
reside no desenvolvimento das qualidades relevantes e necessárias, O argumento da estabilidade somente pareceu tão convincente
do ponto de vista político, no indivíduo comum; najeoriadajiemo- porque as evidências relativas aos efeitos psicológicos da participa-

138 139
cão nunca foram considerados em relação aos problemas da teoria vernojaacional. Já observamos que vários teóricos políticos de fato
política, e mais especificamente, da teoria democrática. Os dois lutam apenas por essa ampliação. Infelizmente, essa definição mais
lados da atual discussão sobre o papel da participação na moderna abrangente e, o que é mais grave, suas implicações para a teoria
teoria da democracia apreenderam apenas metade da teoria da demo- política em geral são esquecidas por esses mesmos teóricos ao volta-
cracia participativa: os defensores dos primeiros teóricos salientaram rem sua atenção para a teoria democrática,
que seu objetivo era a produção de uma cidadania educada, ativa, e ins-
os teóricos da democracia contemporânea assinalaram a importância tantaneamente muitas das idéias confusas que existem sobre demo-
da estrutura de autoridade em esferas não-governamentais para a cracia (e sua relação com a participação) no contexto da indústria.
socialização política. Nenhum dos dois lados, no entanto, se deu Tal reconhecimento permite rejeitar o uso do termo "democrático"
conta de que os dois aspectos estão conectados ou percebeu o signi- para descrever uma abordagem amigável por parte de supervisores,
ficado da evidência empírica para seus argumentos. ignorando a estrutura de autoridade na qual ocorre essa abordagem,
Contudo, o aspecto da socialização na teoria da democracia parti- e também possibilita a rejeição do argumento que insiste em que a
cipativa também pode ser absorvida pelo quadro geral da teoria con- democracia industrial já é um fato, com base em uma comparação
temporânea, fornecendo as fundações para uma teoria de bases mais espúria com a política nacional. Há pouca evidência empírica para
sólidas de uma democracia estável do que as que foram apresentadas apoiar a afirmação de que a democracia industrial, a participação
até o momento. A análise da participação no contexto da indústria dei- integral nos níveis mais altos, é impossívsl. Existe, por outro lado, o
xou claro que, para que se desenvolva ali o senso de eficácia política, suficiente para sugerir que se trata de uma questão complexa, que
talvez seja necessária apenas uma modificação relativamente pequena envolve muitas dificuldades; muito mais do que está presente, por
em suas estruturas de autoridade. Concebe-se facilmente, dadas as re- exemplo, nos primeiros escritos G. D. H. Cole.
centes teorias de gerenciamento, que Embora seja possível delinear poucas conclusões firmes a par-
mais baixos pode se ^ pjítjca ^ _bastante^dj&ndida entre as tir do material sobre o sistema de autogestão dos trabalhadores na
s, nojuturo, devjdq^multiplicidade de vantagens Iugoslávia, o fato de que ele tenha funcionado em um quadro desfa-
parece trazer para ã eficiência e^carjacidade díêmgresa de se vorável, e, em certa medida, ainda que pequena, funcionado do
Udãptar às mudança^e^kcmsjll^ias^Çorém, se o argumento dasoS- modo previsto pela teoria, constitui uma evidência que não pode ser
lizaçao é compatível com as duas teorias da democracia, ambas perma- negligenciada. As soluções sugeridas, no último capítulo, para al-
necem em conflito em relação a seu aspecto mais importante: as respec- guns dos problemas que envolvem o estabelecimento de um sistema
tivas definições de uma forma de governo democrático. Seria apenas a de democracia industrial, a exemplo do dilema entre o controle dos
presença de líderes em competição a nível nacional, nos quais o eleito- "especialistas" e as cláusulas para o máximo de participação no
rado periodicamente pode votar, ou-ela também exigiria a existência de corpo administrativo, são tentativas extremadas. Até que tenhamos
uma sociedade participativa, uma sociedade organizada de tal modo um exemplo de um sistema onde a "informação adicional" esteja à
que cada indivíduo tenha a oportunidade de participar de maneira direta disposição de um órgão administrativo eleito, não temos meios de
em todas as esferas políticas? Nossa intenção, é claro, não era demons- saber se isso é ou não uma resposta aceitável (se bem que talvez o
trar este ou aquele ponto de vista; o que temos considerado é se a idéia fato de que a administração também será executada por trabalhado-
de uma sociedade participativa seria tão fantasiosa como sustentam res experientes na gerência do estabelecimento ao nível da produção
aqueles autores que pressionam por uma revisão da teoria da democra- não deva ser subestimado quando estiverem envolvidos problemas
cia participativa. de trabalho de especialistas).
A-Hegãe-á&-uma-soGÍedade-paiticipativa.exi.ge.que-Q-alGapGe-do A principal dificuldade em uma discussão das possibilidades
teano--peHtiee—seja-ampliade^arajictoji_esferas_extgriores ao go- empíricas de se democratizar as estruturas de autoridade da indústria

140 141
é que não dispomos de informação suficiente sobre um sistema par- democracia; porém, uma vez que a indústria seja reconhecida como
ticipativo que contenha oportunidades de participação nos níveis um sistema político propriamente dito!, é claro que se torna necessá-
mais altos e mais baixos, a fim de testar, de modo satisfatório, alguns ria uma medida substancial desigualdade econômica em seu interior.
dos argumentos da teoria da democracia participativa/A importância Se as desigualdades no poder de decisão forem abolidas, haverá o
do nível mais baixo no processo participativo na indústria é ilustrado enfraquecimento correspondente da justificativa para outras formas;
por evidências obtidas tanto na Grã-Bretanha quanto na Iugoslávia. de desigualdade econômica. O exemplo da Scott Bader Common-
O nível mais baixo desempenha o mesmo papel em relação à em- wealth mostra que uma ampla medida de segurança no emprego para
presa que a participação na indústria, em geral desempenha em rela- o trabalhador comum não é incompatível com eficiência, e as consi-
ção à esfera mais ampla da política nacional. Os dados sugerem que deráveis desigualdades que existem em termos da segurança na ma-
o baixo nível de demanda por participação em níveis mais altos no nutenção do emprego (e nos vários benefícios adicionais associados
local de trabalho poderia ser explicado, pelo menos em parte, como a essa segurança), ao que tudo indica, seriam os aspectos mais evi-
um efeito do processo de socialização, o qual, seja através da noção dentes da desigualdade econômica nos dias atuais. (Por certo que,
adquirida pelo rapaz comum de sua futura função no trabalho, seja sem uma tal segurança, a independência individual que Rousseau
pelas experiências do indíviduo no interior do local de trabalho, po- tanto valorizava torna-se impossível.) A Scott Bader também opera
deria conduzir à idéia de que a participação nos níveis mais altos dentro de uma faixa salarial estreita, mas é difícil dizer até que ponto
fosse "inatingível" para muitos trabalhadores. Assim, a possibilidade a isonomia de rendimentos — aquilo que a maioria das pessoas
de participação nos níveis mais baixos é crucial para que se responda pensa em primeiro lugar quando se menciona a igualdade econômica
à questão do número de trabalhadores que, a longo prazo, poderiam — seria, em última instância, compatível com a eficiência econô-
vir a aproveitar as oportunidades oferecidas por um sistema demo- mica. A questão dos "incentivos", por exemplo, é bastante polêmica.
cratizado. Na ausência dessa base vital de treinamento, mesmo se a É também difícil estimar qual o grau de igualdade econômica neces-
participação em níveis mais altos fosse introduzida em larga escala, sário para a participação efetiva. Não seria de grande utilidade, tam-
seria pouco provável que ela, por si só, fosse capaz de provocar uma pouco, especular sobre como os corpos administrativos eleitos pode-
resposta significativa entre os trabalhadores do escalão mais baixo riam avariar os fatores envolvidos na distribuição de renda dentro da
(ou que tivesse, por isso, um grande efeito sobre o desenvolvimento empresa. A experiência iugoslava, no entanto, com o passar do
do senso de eficácia política). Desse modo, a questão sobre a grande tempo, pode ser de algum auxílio nesse aspecto. De maneira geral, os
maioria dos trabalhadores participar ativamente em um sistema in- dados não mostram nenhum empecilho sério e evidente à eficiência
dustrial democratizado, como a teoria da democracia participativa econômica, o qual pudesse questionar toda a idéia de democracia
sustenta que eles fariam, precisa permanecer, por enquanto, em larga industrial.1 Na verdade, boa parte do material empírico obtido sobre
medida como uma questão de conjectura, embora a demanda por parti- a participação nos níveis mais baixos apoia a visão de Cole, segundo
cipação nos níveis mais baixos sugira que, enfim, havendo oportunida- a qual um sistema participativo liberaria reservas de energia e de
des para isso, mais trabalhadores poderiam vir a fazê-lo, ultrapassando iniciativa do trabalhador comum, e desse modo aumentaria a eficiên-
o que esperam os mais céticos em relação à democracia industrial/ cia. Porém, mesmo se alguma ineficiência resultasse da introdução
Hoje, o problema da eficiência econômica está fadado a ocupar
'um grande espaço nas discussões que envolvem a democratização 1. Pouco se disse a respeito da propriedade da industria em um sistema participativo, uma
das estruturas de autoridade da indústria; em particular, até que vez que isso nos afastaria muito de nosso tema principal. Como mostraram os exemplos da
participação parcial nos níveis mais altos na Grã-Bretanha, existe uma gama bem mais ampla
ponto a igualdade econômica que implica um sistema de democracia de alternativas do que a sugerida pela dicotomia geralmente colocada entre o "capitalismo" e
industrial seria compatível com a eficiência. A igualdade econômica a "nacionalização total". Uma discussão interessante recente sobre propriedade pode ser
;om freqüência é descartada como sendo de pouca relevância para a encontrada em Derrick e Phipps (1969, pp. 1-35).

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do processo de decisão democrático na indústria, o fato de isso for- efeitos psicológicos de semelhante participação poderiam se revelar
necer ou não um argumento conclusivo para seu abandono iria de- de extremo valor nesse contexto. É de pouco auxílio elaborar um
pender do peso atribuído a outros resultados que poderiam advir, a catálogo das possíveis áreas de participação, mas esses exemplos
melhoria dos resultados humanos que os teóricos da democracia par- fornecem uma indicação de como se pode promover um avanço na
ticipativa consideravam de importância fundamental. / direção de uma sociedade participativa. /
Havíamos considerado a possibilidade de se constituir uma so- Um defensor da teoria da democracia contemporânea poderia
ciedade participativa em relação a apenas uma área, a da indústria. objetar, a essa altura, que, embora a idéia de uma sociedade partici-
No entanto, uma vez que a indústria ocupa um lugar de importância pativa possa não ser completamente fantasiosa, isto não afeta sua
vital na teoria da democracia participativa, isso é suficiente para definição de democracia. Ainda que as estruturas de autoridade na
estabelecer "ã validade ou pelo menos a noção de uma sociedade indústria, e talvez em outras áreas, estivessem democratizadas, isto
participativa. A análise do conceito de participação apresentado aqui teria pouco efeito sobre o papel do indivíduo; tal democratização!
pode se aplicar a outras esferas, embora as questões empíricas susci- continuaria confinada, poderia argüir o nosso objetor, a uma escolha
tadas pela extensão da participação a outras áreas além da indústria entre líderes ou representantes em competição. O paradigma da par-
não possam ser consideradas. Não obstante, pode ser de alguma uti- ticipação direta não teria aplicação nem mesmo em uma sociedade
lidade indicar brevemente algumas das possibilidades nesse sentido. participativa. Levantou-se uma questão similar na discussão do sis-
Para começar, por assim dizer, do começo, vejamos a família. tema de autogestão dos trabalhadores na Iugoslávia, e ficou claro
Teorias modernas de educação infantil — em especial as do Dr. que, no contexto industrial, semelhante objeção não tem lugar. Onde
Spock — ajudaram a influenciar a vida familiar, principalmente um sistema industrial participativo permitisse a participação, tanto
entre as famílias de classe média, em uma direção mais democrática nos níveis mais alto quanto nos mais baixos, haveria um espaço para
do que antes. Contudo, se a tendência geral é no sentido da participa- que o indivíduo participasse diretamente de uma ampla variedade de
ção, os efeitos educativos que daí derivam podem ser anulados se as decisões, fazendo parte, ao mesmo tempo, de um sistema repre-
experiências individuais posteriores não caminhem na mesma dire- sentativo; uma coisa não exclui a outra.
ção. As reivindicações mais urgentes por uma maior participação nos Se isso ocorre onde existem áreas de participação alternativas,
últimos anos têm se originado dos estudantes, e, com toda certeza, em certo sentido óbvio a objeção é válida: no nível do sistema polí-
tais demandas são bastante relevantes para o nosso argumento geral. tico nacional. Em um eleitorado de, digamos, 35 milhões, o papel do
No que concerne à introdução de um sistema participativo em insti- indivíduo só pode restringir-se, quase que inteiramente, à escolha de
tuições de educação superior é suficiente notar aqui que, se os argu- representantes; mesmo podendo depositar seu voto em um refe-
mentos para conceder ao jovem trabalhador a oportunidade de parti- rendo, sua influência sobre o resultado seria infinitamente pequena.
cipar no local de trabalho são convincentes, então há um bom motivo A menos que a dimensão das unidades políticas nacionais fosse dras-
para concederão seu equivalente, o estudante, oportunidades simila- ticamente reduzida, essa parcela da realidade não está aberta a mu-
res; ambos são os cidadãos amadurecidos do futuro. Uma classe de danças. Em um outro sentido, no entanto, essa objeção perde a sua
pessoas para as quais as oportunidades de participação na indústria razão de ser, pois deixa de levar em conta a importância da teoria da
seriam de pouca ajuda é a da dona-de-casa em tempo integral. Ela democracia participativa para as sociedades industriais de massa
poderia ter oportunidades de participar ao nível do governo local, em modernas. Em primeiro lugar, somente se o indivíduo tiver a oportu-
especial se essas oportunidades incluíssem a questão da moradia, nidade de participar de modo direto no processo de decisão e na
em particular a habitação popular. Os problemas da administração de escolha de representantes nas áreas alternativas é que, nas modernas
amplas áreas habitacionais parecem ser os de fornecer aos residentes circunstâncias, ele pode esperar ter qualquer controle real sobre o
uma grande margem de participação na tomada de decisões, e os curso de sua vida ou sobre o desenvolvimento do ambiente em q

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ele vive. É claro que as decisões tomadas, por exemplo, no local de poderia ter parecido uma descrição "realista" na época porau
trabalho, na Câmara dos Deputados ou no ministério não são exata- não se questionavam certos aspectos do sistema ou uei HP^,-™;
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mente as mesmas, mas pode-se concordar com Schumpeter e seus aspectos dos dados coletados, embora se enfatizasse muito a ba
seguidores pelo menos a este respeito: é de se duvidar que o cidadão empírica da nova teoria. Em suma, a teoria da democracia contempo-
comum chegue algum dia a se interessar por todas as decisões que rânea representa um considerável fracasso da imaginação política e
são tomadas a nível nacional da mesma forma que se interessaria por sociológica por parte dos atuais teóricos da democracia. /
aquelas que estão mais próximas dele. Quando o problema da participação e seu papel na teoria demo-
O segundo ponto importante é que a oportunidade de participar crática é colocado num contexto mais amplo do que o fornecido pela
nas áreas altenativas significaria que uma parcela da realidade teria teoria da democracia contemporânea, e quando se relaciona o mate-
mudado, a saber, o contexto dentro do qual ocorria toda a atividade rial empírico relevante com os problemas teóricos, torna-se claro que
política. O argumento da teoria da democracia participativa é que a nem as reivindicações por mais participação nem a própria teoria da
participação nas áreas alternativas capacitaria o indivíduo a avaliar democracia participativa baseiam-se, como se diz com tanta freqüên-
melhor a conexão entre as esferas públicas e privada. O homem cia, em ilusões perigosas ou sobre fundamentos teóricos ultrapassa-
comum poderia ainda se interessar por coisas que estejam próximas dos e fantasiosos. Ainda podemos dispor de uma teoria da democra-
de onde mora, mas a existência de uma sociedade participativa signiT cia moderna, viável, que conserve como ponto central a noção de
fica que ele estaria mais capacitado para intervir no desempenho dos participação.
representantes em nível nacional, estaria em melhores condições
para tomar decisões de alcance nacional quando surge a oportuni-
dade para tal, e estaria mais apto para avaliar o impacto das decisões
tomadas pelos representantes nacionais sobre sua própria vida e
sobre o meio que o cerca. No contexto de uma sociedade participa-
tiva o significado do voto para o indivíduo se modificaria: além de
ser um indivíduo determinado, ele disporia de múltiplas oportunida-
des para se educar como cidadão público.
É este ideal, um ideal com uma longa história no pensamento
político, que se perdeu de vista na teoria da democracia contemporâ-
nea. Talvez não seja surpreendente o fato de que, quando um ideal
democrático tão abrangente como esse é considerado por alguns au-
tores recentes, ele seja visto como "perigoso", e tais autores reco-
mendam que elaboremos nossos padrões com aquilo que pode ser
alcançado na vida política democrática, apenas um pouco acima do
que já existe. A afirmação de que o sistema político anglo-americano
tenta resolver problemas difícies com discriminação parece bem
menos plausível desde, por exemplo, os acontecimentos hás cidades
norte-americanas, no final da década de 60, ou desde a descoberta,
na Grã-Bretanha, do que, no meio da fartura existem muitos cida-
dãos não apenas pobres, mas sem moradia, mais do que havia no
final da década de 50 e no início da de 60. Mas uma tal asserção só

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BIBLIOGRAFIA

Junto com as obras citadas no texto, a bibliografia contém


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ÍNDICE REMISSIVO

Aas D., 95,97 90, 91, 99 n.5,101,120 n.9,121n. 12,


Alford R. F., 70 n.5 122 n.15,125 n.23 e 24TÍ27 n.25, 131
Almond G. A., 26 n.14,67-71,138 n.34, 132n.35,134n.41
Argyris,C. I 74-5,76n.ll Boston, R., 78 n. 13
Autoritarismo: sua necessidade para Browu,W., 103 n.7
Eckstein, 24, 102-3, 113; personali- Burke,E., 32 n.23
dade autoritária, 11, 20, 88, 140; estru- Burns,J.H.,43n.lO
turas autoritárias: e atitudes indivi-
duais, 36, 37-9,44-7, 60-1, 67-91, Campbell, A., 66
100-2,137,139-40; democratização Carey, A., 89 n.26
nas indústrias, 116-36, 141-2; Eckstein Carpenter, L. P., 58 n.27
a procura de congruência, 23-4 Chamberlain, N. W., 103 n.8
Auty,R, 120 n.7, 123 n.17,131 n.34 Chandler, M. K., 103 n.8
» Chinoy,E.,76n.ll
Bachrach, P., 21 n.l, 26 n.14,27, CLegg, H, A., 99
28n.l5el6,34n.21,113n.31 Coates, K., 98 n.3
Bader,E., 108-9, 111-2 Coch,L., 82n.l9
Barry,B.M., 38 n,5 Cole G, H. D., 34,42,66, 83,112-3,
Bay, C, 26 n.14 119,140,141,143-4; seu plano para o
Bell, D-, 77, 96 n. l socialismo de guilda, 57-9; seu princí-
Bentham, J., 29,46, 53; criticado por pio de função, 54; sua teoria de asso-
J. S. Mill, 42-4; sobre a função da parti- ciação, 53-4; sobre a eficiência econô-
cipação, 31-22; sobre o papel do eleito- mica, 57-8,143; sobre a igualdade
rado, 30-1 econômica, 56-8; sobre o efeito educa-
Berelson, B. R-, 14, 17, 27; sobre as de- tivo da participação, 55; sobre o con-
ficiências das "teorias clássicas", 15-6 trole invasivo, 83; sobre outras fun-
Berlin,I.,41n.9 ções participativas, 56 n.25; sobre a
Bilandzic, D., 131 n.33 igualdade política, 56-7; sobre a repre-
Blauner, R., 73,77, 78, 80, 82, 86 sentação, 54,58
Blum, R H., 108 n.22,109 n.23, 24 e Competência política, ver eficácia polí-
25, 110 n.26 e 27,111 n.28,117 n.4 tica
Blumberg, P., 78 n.13, 81-2, 87, 88, Comuna na Iugoslávia, 121 n.13, 123

156 157
cLerando-Be o problema da eficiência
econômica. Entretanto, o livro apre-
senta conclusões de uma pesquisa no-
rueguesa, segundo a'qual na uma de-
manda por participação nos níveis
mais baixos da administração, que não
existe em relação aos níveis mais altos;
Sobre o papel dos sindicatos em,
geral e um exemplo de auto-gestão de
trabalnadores na Iugoslávia, a autora
dedica todo um capítulo. Embora não
seja exatamente um caso bem-suce-
dido de democratização das estruturas
de autoridade, e aquele país apresente
peculiaridades que o distinguem, a Iu-
goslávia constitui um verdadeiro labo-
ratório para pesquisas sobre o tema.
Participação e teoria democrática
evidencia um aspecto essencial do
acesso dos indivíduos nas sociedades
modernas ao processo decisório: a pos-
sibilidade de alteração da própria ati-
vidade política. Ao participar de um
contexto que IKe diga respeito direta-
mente, o nomem comum pode cbegar a
se ver mais capacitado para opinar e in-
tervir no desempenbo de seus repre-
sentantes — certamente imprescindí-
veis no nível nacional. Ao dispor de
múltiplas oportunidades de participa-
ção, o indivíduo tem mais chances de
se educar corno cidadão público.
Longe de ser uma demanda utópi-
ca, calcada sobre fundamentos ultra-
passados, o problema da participação
conserva um papel central na teoria aa
democracia contemporânea que e,
IMPRESSÃO E ACABAMENTO
apesar das aparentes dificuldades,
passível de aplicação.