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Apostila

Fotografia Contemplativa
Versão 2021

A Fotografia Contemplativa é, acima de tudo, ter a percepção aberta, sair do automático, e


apreciar o mundo. Esta prática se origina em ensinamentos budistas e de meditação, mas não é
uma prática religiosa, apenas uma nova forma de ver o mundo.

Curso Básico de Fotografia Contemplativa


Módulo 01: O que é
Módulo 02: O Flash de percepção
Módulo 03: Contemplando e fotografando
Módulo 04: Praticando
Módulo 05 – Conclusão
Módulo 01
O que é
A Fotografia Contemplativa é uma técnica fotográfica de origem oriental, ligada à meditação e budismo,
que coloca a fotografia presente em seu dia-a-dia e busca mostrar a riqueza e beleza do cotidiano,
normalmente ocultos pela visão conceitual, bem como nos reconectar à nossa própria percepção.
A ideia é ter "o bom olho", ou seja, ver com clareza e frescor, clicar com o coração, notar os milagres do
dia-a-dia que normalmente passam despercebidos. Enfim, fotografar com esse estilo é ter o olho mais
atento que o normal, e bem afinado com o coração! É um conceito de fotografia muito diferente, onde o
importante é o fazer, e não o resultado, e sendo ligado à meditação é também uma reflexão de si mesmo.
Como uma prática ligada à meditação visa trazer nossa visão para o presente, abrindo nossos olhos e
permitindo ver o “novo” no cotidiano. Antes de uma técnica fotográfica é uma forma de ver o mundo e de
viver. Essa prática e tem causado forte impacto na minha forma de ver o mundo e até de viver. Por isso
pretendo neste artigo compartilhar um pouco dessa experiência.

João Pessoa PB, 2012


É importante ressaltar que Fotografia Contemplativa é um fazer, e não o resultado. Por isso o que fizemos
antes de conhecer a fotografia contemplativa pode até parecer de alguma forma, mas não é realmente.
“A prática da fotografia contemplativa liga-nos com essa consciência panorâmica não conceitual e
fortalece essa ligação por meio de treinamento. A prática em si mesma consiste de três partes, ou estados.
Primeiro aprendemos a reconhecer vislumbres de ver e do estado contemplativo da mente que ocorrem
naturalmente. Em seguida estabilizamos essa ligação olhando mais profundamente. Finalmente
fotografamos do interior desse estado da mente.” The Practice of Contemplative Photography, de Andy
Karr e Michael Wood
Muitos acreditam que, para se tornar um bom fotógrafo, é preciso ter um talento nato, ou passar por um
árduo treinamento técnico e dispor de equipamento sofisticado. Claro que estes três fatores são
importantes, mas talento, treinamento técnico e equipamento são, por definição, limitados. Porém, para
ser um grande fotógrafo, é preciso também, ou melhor, é preciso acima de tudo, criatividade. E a
criatividade é, por definição, ilimitada e inesgotável.
A Fotografia Contemplativa
Agora vamos falar da Fotografia Contemplativa propriamente dita. Venho praticando este estilo desde
2011 e, com a leitura de “The Practice of Contemplative Photography: Seeing the World with Fresh Eyes”,
de Andy Karr e Michael Wood, e a participação em uma oficina de dois dias com Andy Karr, pude me
aprofundar ainda mais no tema, aproveitando a experiência destes mestres.
São Paulo, 2012 - feita durante oficina com Andy Karr
Após participar desta oficina, me sinto ao mesmo tempo mais e menos “entendedor” do assunto.
Teoricamente entendi melhor a fotografia contemplativa, e também pratiquei de forma mais profunda.
Por outro lado percebi como estamos distantes da verdadeira prática contemplativa, ou seja, como é difícil
nos concentrarmos em uma simples tarefa: apenas ver.
A visão é um sentido natural, e naturalmente aguçado e rico. Mas temos simplificado essa ferramenta
poderosa de apreensão do mundo, subestimado a inteligência plena de nossa visão. Acreditamos na
grande inteligência de nossa “mente pensante” e não percebemos nossos outros tipos de inteligência. Ver,
simplesmente, com os olhos e coração (não com a mente discursiva e conceitual), é um exercício que irei
praticar cada vez mais, pois essa prática, acredito, pode nos levar a “abrir os olhos” para um mundo novo,
fresco, amplo e lindo.
Podemos definir Fotografia Contemplativa como clicar com o coração, notar os milagres do dia-a-dia que
normalmente passam despercebidos. Fotografar com esse estilo é ter o olho mais atento que o normal, e
bem afinado com o coração! É um conceito de fotografia oriundo do budismo e da meditação, portanto é
uma reflexão de si mesmo, e sempre mostra algo sobre seu autor.
É preciso descondicionar o olhar para poder ver assim. Um bom
exercício seria visitar lugares desconhecidos, para onde você
iria sem saber previamente o que poderia ver. Mas o desafio é
buscar o despercebido nos lugares que você já frequenta. Para
quem está acostumado a usar a fotografia com algum propósito
bem definido e estruturado, seja como trabalho ou arte, que tal
deixar “rolar solto” um pouco, fotografar simplesmente o que
chama sua atenção, pensando apenas na imagem e não em sua
utilidade? Experimente!
Lembre-se que o melhor da viagem é o caminho, por isso abra
os olhos para as surpresas da “estrada”, não tenha metas
rígidas. Tenha a fotografia simplesmente como um prazer.
A Fotografia Contemplativa é mais ligado ao “como” do que ao
“o que”.

Banco Vazio (Yuri Bittar, São Paulo, 2010)


Banco vazio, dia vazio... Ao ver essa foto (é que eu vejo a foto antes de fotografar) eu vi uma imagem
muito triste, pensei em vazio, escuridão, limo, frio, abandono... eu estava num dia meio pesado, com um
pouco de dor nas costas, numa sala vazia esperando uma reunião. Então olhei pela janela e vi o banco e
achei que valia a pena registrar esse momento de vazio. Esta foi a primeira foto que fiz com o conceito
de Fotografia Contemplativa em mente. Numa foto postada dias antes (foto abaixo) a Bel Barbiellini
comentou perguntando se era Miksang, e eu não sabia o que era isso. Fui investigar, descobri se tratar
da Fotografia Contemplativa, e gostei! Percebi que de certa forma já fazia isso, ou melhor, tentava, pois
como fazer algo para o qual não temos sequer palavras? Essa nova ideia veio então responder a alguns
velhos anseios dentro de mim. A troca, o contato com outras pessoas, fotógrafos amadores e profissionais,
tem me proporcionado enorme aprendizado.
São Paulo, Itaim, abril de 2012
Esse novo olhar me mudou mesmo! E ao sair para fotografar, para criar novas imagens, agora vejo muito
mais para fotografar, tenho a visão mais ampla. As coisas estão por aí, é preciso apenas prestar atenção e
perceber imagens interessantes por toda parte!
Não há necessidade de reflexões sociais, crítica, pessoas, elementos que geralmente estão nas minhas
fotos, e que prezo muito, mas às vezes fazer apenas imagens, praticar uma fotografia contemplativa, a
busca por um olhar puro, é um ótimo exercício. Contemplar a realidade é contemplar a si mesmo.

São Paulo, Pompéia, 02/02/2013


Precisamos tentar nos desprender da cascata de reflexões, filtros, amarras e preconceitos sobre o que é
belo, sobre o que é digno da arte, sobre a utilidade das imagens, e deixar o coração falar mais alto,
fotografar o que nos chama a atenção, e deixar para pensar depois. Não tente ser um bom fotógrafo, seja
um bom observador, veja a riqueza do cotidiano, desenvolva a criatividade, e será um bom fotógrafo!

São Paulo, Santo Amaro, 2013


Tento fotografar coisas simples, mostrando a beleza presente em tudo... mas faço isso com pouco sucesso,
"porque me falta a simplicidade divina", como disse uma vez Alberto Caeiro (pseudônimo de Fernando
Pessoa), esse sim, uma pessoa sábia e simples.
História da Fotografia Contemplativa
Chógyam Trungpa Rinpoché foi um Lama tibetano nascido em 1939 e avançado no estudo e na pratica das
diversas disciplinas monásticas tradicionais, assim como à arte da caligrafia, da pintura em tangka e as
danças monásticas. Aos 20 anos teve de deixar o Tibete devido à invasão chinesa. Após passar pela Índia e
Inglaterra, no Canadá desenvolveu técnicas para passar os ensinamentos budistas através da cultura
ocidental, especialmente das artes, como teatro, cinema e fotografia. Assim ele criou os conceitos básicos
do que viria a ser definido como fotografia contemplativa. Mais tarde ele abandonou os votos monásticos,
buscando uma maior proximidade com os alunos. Posteriormente seus discípulos definiram os conceitos
da Fotografia Contemplativa. Saiba mais sobre ele em http://pt.wikipedia.org/wiki/Trungpa_Rinpoché .
O estilo Fotografia Contemplativa

João Pessoa, PB, 2012


“Art in every Day life and every Day life in art”. Há evidentemente um estilo de fotos associado
à Fotografia Contemplativa. Mas na verdade Fotografia Contemplativa é um método de treinamento do
olhar, para podermos “ver mais claro, mais fresco”. Não é “o que”, mas o “como”, por isso qualquer
contexto pode ser tema para a fotografia contemplativa. E qualquer resultado visual pode surgir. O estilo
é, portanto, o estado de espírito.
Viver artisticamente é ter criatividade em tudo e saber apreciar os detalhes do comum. “Arte na vida
cotidiana e vida cotidiana na arte” é o slogan da fotografia contemplativa.
"A arte da experiência meditativa poderia ser chamada de arte genuína. Tal arte não é construída para ser
exibida ou difundida. Em vez disso, é um processo em perpétuo desenvolvimento no qual começamos a
apreciar o que nos cerca na vida, o que quer que seja — não é preciso que seja, necessariamente, algo
bom, belo ou agradável. A definição de arte, desse ponto de vista, é ter a habilidade de ver o caráter único
da experiência cotidiana. A cada momento podemos estar fazendo as mesmas coisas — escovando os
dentes diariamente, penteando os cabelos diariamente, preparando o jantar diariamente. No entanto,
essa aparente repetição se torna única a cada dia. Surge um tipo de intimidade com nossos hábitos diários
e com a arte neles envolvida. É por isso que é chamada de arte na vida cotidiana." (Chögyam Trungpa)
Sentimentos ruins, como ansiedade e expectativa, cegam, pois criam expectativas que não nos permitem
ver o real. Mas se você vê o mundo de forma clara, suas fotografias serão claras, e o resultado realmente
artístico. As coisas comuns podem ser belas e ricas. Mas, no entanto não olhe para elas tentando classificá-
las como belas, especiais, etc. Veja apenas formas, cores, texturas, relações. A vida hoje é muito complexa,
por isso busque sempre a simplicidade.
Assim devem surgir as seguintes características em suas fotos: claridade, definitivo, preciso, riqueza de
cores.
Qualidade de vida
Fotografia Contemplativa é ver as coisas como são e conduzir a vida com o coração. O estado de mente
contemplativo, por diminuir a ansiedade, resulta em qualidade de vida. Viver no presente e aproveitar o
que é real pode causar um forte impacto na vida em geral que quem pratica. Para o budismo a maior
ignorância e atraso para uma pessoa é não ter a visão clara.

São Paulo, 2013


Recomenda-se a pratica da meditação. Quanto mais espaço na mente, mais o mundo aparecerá original e
claro para seus olhos.
Definindo o que é a Fotografia contemplativa
É importante ressaltar que realizar a fotografia contemplativa de forma pura não é fácil. O que propomos
aqui é um desafio até para nós mesmos.
Pensando em termos de fotografia contemplativa, há duas formas de ver o mundo:
• Conceitual: é ver o mundo a partir de seus conceitos, necessidades, ansiedades e razão. É a forma
“tradicional” de ver o mundo.
• Percepção: sem rotulação da realidade. Essa é uma nova forma de ver, mas que na verdade é natural,
algo que já está em nós. Trata-se de ver apenas, sem a carga de julgamentos que normalmente colocamos
como "filtro" da visão. Esta é a forma de ver da fotografia contemplativa.
A percepção aberta (para o sutil e complexo) permite uma visão mais clara sobre a riqueza do cotidiano,
para ficarmos apenas no presente abertos para a emoção. A criatividade então pode nos permitir criar a
fotografia realmente artística, a fotografia contemplativa. A arte não é se expressar, mas deixar que a
realidade se expresse através de você!
Precisamos ver mais e mais fundo, aprender a ver mesmo sem câmera. É importante também aprender a
“curtir” a solidão, ficar só, sem distrações, aparelhos de música, emails no celular, etc...
A fotografia pode ser uma forma de arte para expressar o cotidiano, e para trazer a arte para o cotidiano.
Módulo 02
O Flash de percepção

A Fotografia Contemplativa é uma prática ligada à meditação, que visa trazer nossa visão para o presente,
abrindo nossos olhos e permitindo ver o “novo” no cotidiano. Antes de uma técnica fotográfica é uma
forma de ver o mundo e de viver.

Agora começaremos a falar da parte prática, de como fazer Fotografia Contemplativa!

Para realizar a fotografia contemplativa o ideal é sair para a rua, para quase qualquer lugar (evite os
“cartões-postais”) com tempo, sem preocupações ou objetivos, apenas vendo e sentindo o impacto visual
das coisas, o “flash (lampejo) de percepção”. A prática tem três etapas: A) Flash de Percepção; B)
Percepção Visual e C) Formar o equivalente.
O Flash de Percepção, portanto, é o primeiro passo para se fazer fotografia contemplativa. Pense que
todos tem esses lampejos da percepção, o que ocorre é que normalmente não nos atemos a ele.
Mas o que é esse Flash de Percepção; ? É um instante em que a visão é clara e profunda, o momento exato
que olho e mente se alinham, uma pausa no processo racional. Isso ocorre com todos e sempre. O desafio
é reconhecer esse lampejo da percepção. É preciso estar disposto e aberto para poder reconhecer o flash,
caminhar em direção à calma e imobilidade é essencial. Temos que aprender a apreciar o cotidiano, e
saber que o flash será repentino e ira quebrar nossa rotina, é preciso deixar isso ocorrer.
Exemplos: imagem no reflexo do monitor ou TV que vemos só por um instante; quando uma cor, forma,
textura, etc, nos chama a tenção, sem um “porque”; quando olhamos para algo e vemos uma foto pronta;
quando olhamos para algo e vemos além de sua função ou valor, mas vemos apenas como imagem.
O “Flash” é como uma epifania. “Obviamente, uma epifania não pode ser criada, ela simplesmente
acontece, um ato de graça, acidente e transformação — no entanto, é o trabalho anterior que torna tal
“acontecimento” possível. E o que é uma epifania? Diria que é uma mudança repentina da mente, quando
a preocupação consigo (e outras formas de preocupação) se dissolve e ocorre um momento quase
explosivo de apreciação.” (Scheffel).
Em resumo, o Flash de Percepção é quando nossa percepção (e não a nossa ansiedade) encontra algo.
Existem uma inteligência própria da visão e ela pode encontrar belas imagens, sem a crítica da razão.
Mais resumidamente ainda: O flash de percepção é apenas ver.
Exercício: Cores
Claro que o Flash de Percepção é abrangente e capta todos os aspectos do mundo visual, como texturas,
luz e espaço. Mas para este exercício vamos nos ater a apenas um aspecto, a cor.
Ande (escolha um local calmo e seguro), mantenha a câmera guardada. Caminhe exatamente como na
caminhada contemplativa.
Procure observar apenas cores. As coisas não terão formas ou funções, apenas cores. E espere que cores te
chamem para o flash, te prendam, então tente compreender (visualmente) que parte da paisagem te
atraiu, o que pertence ao flash, e esse será o enquadramento da foto a ser feita no final.
Você pode fotografar nesta etapa, mas isso não é o mais importante.
Depois que fizer essa prática, por uns 30 minutos ao menos, lido o texto e assistido o vídeo, me avise e
faremos a próxima etapa.
Exemplos:

Módulo 03 – Contemplando e fotografando

Sobre como fomo fazer fotos contemplativas


A Fotografia Contemplativa é uma prática ligada à meditação, que visa trazer nossa visão para o
presente, abrindo nossos olhos e permitindo ver o “novo” no cotidiano. Antes de uma técnica fotográfica
é uma forma de ver o mundo e de viver. Para fazer a Fotografia Contemplativa, depois de entender os
conceitos básicos, devemos:

Caminhada
Para realizar a fotografia contemplativa o ideal é sair para a rua, para quase qualquer lugar (mas evite os
“cartões-postais”) com tempo, sem preocupações ou objetivos, apenas vendo e sentindo o impacto
visual das coisas, o “flash (lampejo) de percepção”. Não use fones de ouvido ou algo que distraia, de
preferência desligue o celular. Caminhe como no exercício anterior, a Caminhada Contemplativa, ande
sem pressa, observe, veja tudo apenas pela imagem que É, não pelo que você poderia querer que fosse.
A prática tem três etapas:
A) Flash de percepção
É um instante em que a visão é clara e prof,unda. É o momento exato que olho e mente se alinham, uma
pausa no processo racional. Isso ocorre com todos e sempre. O desafio é reconhecer esse lampejo da
percepção. É preciso estar disposto e aberto para poder reconhecer o flash, caminhar em direção à calma
e imobilidade é essencial. Temos que aprender a apreciar o cotidiano, e saber que o flash será repentino
e ira quebrar nossa rotina, é preciso deixar isso ocorrer. Exemplo: imagem no reflexo do monitor ou TV.
O “Flash” é como uma epifania. “Obviamente, uma epifania não pode ser criada, ela simplesmente
acontece, um ato de graça, acidente e transformação — no entanto, é o trabalho anterior que torna tal
“acontecimento” possível. E o que é uma epifania? Diria que é uma mudança repentina da mente,
quando a preocupação consigo (e outras formas de preocupação) se dissolve e ocorre um momento
quase explosivo de apreciação.” (Scheffel).

(Yuri Bittar, São Paulo, 2012)


B) Percepção visual
Se você teve um flash de percepção agora é o momento de manter esse flash, não cair em reflexões, não
sair do presente e não cair em expectativas. Deixar “na banguela”, não fazer nada além de ver e deixe a
cena nos guiar.
Nessa etapa, a câmera ainda está guardada, deve-se “pensar com os olhos” no que você está vendo, o
que te parou, o que chamou a atenção do seu olhar, não faça perguntas conceituais, tente perguntar sem
palavras, visualmente. As respostas tem que ser visuais também. Não rotule. Tente entender em termos
de cor, textura, luz, forma. Pense onde começa e termina a composição.
Lembre-se, tudo isso é a cena que te dá, a imagem está pronta no flash de percepção, mas o que seu
olhar viu num instante pode levar minutos para ser entendido pela sua mente e seu coração. Essa é a
etapa PRINCIPAL da prática, é aqui que meditamos mais profundamente, mas também é onde podemos
nos perder.
Mas se por algum motivo você perder o estado contemplativo, se por exemplo surgir uma expectativa,
uma ansiedade, um clichê, não se culpe e não brigue consigo mesmo, e gentilmente agradeça, e continue
andando. Muitos flashes virão, não se apegue a um.
O flash pode ser claro ou não. É nessa etapa que você faz o importante exercício de entender o seu flash.
É um exercício de auto conhecimento também, e de conhecimento do mundo ao seu redor.
Faça essa etapa com capricho e calma!
C) Formando o equivalente
Finalmente chegou a hora de fotografar! Só pegue a câmera depois de entender seu flash, depois de
fazer a Percepção visual completa, com calma.
Devemos fotografar o que vemos achar na cena o que realmente nos despertou e entender qual
composição isso pede. Saque sua câmera, faça os ajustes necessários e tente fazer a foto conforme a sua
Percepção Visual.
Queremos que a foto fique igual ao flash de percepção. Faça os ajustes necessários para isso.
A atitude deve ser sempre de sinceridade, autenticidade e confiança. Se a foto não ficar igual ao flash,
mesmo após umas duas tentativas, se necessário, não se preocupe, siga em frente, outros flashes
surgirão.
Mas se a foto ficar igual ao flash, é um bom sinal, comprova que foi mesmo um flash de percepção.
Essas foram as três etapas práticas para se fazer a Fotografia Contemplativa. Agora vamos pensar em
mais alguns aspectos, para entender melhor, e fazer alguns exercícios.
Sem idealização
Por um lado idealizamos demais as coisas, tentamos encaixá-las em nossas expectativas. Também, por
outro lado, tentamos esconder a realidade de diversas formas. Temos medo do que há em nossos
corações? O coração é muito sensitivo? Ainda temos outro problema, a pressa, somos muito ocupados,
não há tempo para olhar para o nosso interior, e não há tempo há perder com o que não nos trará ganho,
não olhamos o mundo ao nosso redor, não conhecemos nosso bairro. E temos ainda o tédio, o não
suportar ficar sem fazer nada, a necessidade de opinião prévia, os preconceitos, a ignorância.
Mas precisamos de momentos mais calmos e sem expectativa, que deixarão o coração exposto. Assim
podermos nos conhecer e quebrar o ciclo de descontentamento e compulsão. Para se abrir à riqueza do
mundo é preciso se expor. Um coração mais aberto leva a um olhar mais aberto.
Experiência
Precisamos dar mais tempo para a verdadeira experiência acontecer, precisamos ver mais, escutar mais,
dar mais tempo para as coisas. Precisamos experimentar a vida, nos apaixonar pelo comum, pelo
cotidiano (Bondía).
Módulo 4
Praticando
Para entender o estilo Fotografia Contemplativa é preciso praticar e se esforçar. Não se aprende de um
dia para outro, e as vezes temos a impressão de que não estamos realmente entendendo. Não se
preocupe, você está entendendo sim, as dúvidas são por estarmos acordando, as vezes pela primeira vez,
para um novo mundo.
É importante buscar ver o mundo de forma mais limpa e clara. Como há inúmeros aspectos da visão (cor,
luz, textura...) precisamos, inicialmente, filtrar nossa visão, ora observando apenas cores, ora apenas
texturas, e em outros momentos apenas espaço, ou luz, ou forma. Os exercícios devem ser feitos em
pequenas caminhadas, estando abertos aos flashes de percepção. Ande e busque se conectar a apenas
um dos elementos, como a cor, para simplificar um pouco para nosso olhar. Imagine que você tem uma
chave e pode ativar um modo “ver apenas cor”.
1. Texturas
Procure observar apenas as texturas, sem forma, sem função, até sem cor, apenas textura.
Lembre-se, a textura é aquilo que chama a atenção dos olhos quase como um toque, quase faz cócegas
no olhar. Se algo te parecer mais forma, ou mais cor, não é textura, a textura é bidimensional. Se perder
o flash, ou se ele não for de textura, novamente agradeça e o dispense com delicadeza. Lembre-se, o
mesmo objeto pode ser ou não textura, dependendo da distância que observamos.
Exemplo:

Parte do aprendizado da Fotografia Contemplativa é conseguir ver apenas o que pode realmente ser
visto... Primeiro buscamos “separar” luz, cor, textura, etc, mas depois você poderá observar a realidade
sem essa separação.
Neste exercício você estará concentrado em ter flashes apenas de textura, mas claro que outros surgirão.
Quando surgir um flash de percepção de outro aspecto visual, como cor ou forma, por enquanto apenas,
agradeça e se despeça deles, com gentileza. Ao observar o mundo apenas como textura é possível que
você veja muita coisa nova e surpreendente, mas não se cobre isso, tenha curiosidade e aceitação,
agradeça ao que vier aos seus olhos.
2. Formas
Faça como no exercício anterior, mas agora olhe o mundo como formas. Faça de preferência em outro
momento ou dia.
3. Espaço
O espaço é uma “coisa” em si, ele delimita formas ou não, está por toda a parte, e devemos nos esforçar
para percebê-lo, perceber o espaço como algo concreto e real. O mais fácil é fotografar o céu, o espaço
entre prédios, mas esse espaço pode aparecer de outras fores, busque perceber isso.
Exemplos:

Para praticar e entender o estilo Fotografia Contemplativa é preciso praticar e se esforçar. É importante
buscar ver o mundo de forma mais limpa e clara. Como há inúmeros aspectos da visão (cor, luz, textura...)
precisamos, inicialmente, filtrar nossa visão, ora observando apenas cores, ora apenas texturas, e em
outros momentos apenas espaço, ou luz, ou forma. Os exercícios devem ser feitos em pequenas
caminhadas, estando abertos aos flashes de percepção. Ande e busque se conectar a apenas um dos
elementos.
Nem sempre devemos fotografar pensando na utilidade ou valor da foto. Quando algo lhe chamar a
atenção, não pense se a foto vai ficar boa, se vai valer dinheiro, se vai ganhar prêmios, etc. Apenas pare,
tente entender visualmente o que prendeu sua atenção, e então fotografe. Depois veja a foto que fez e
olhe de novo a cena. Avalie se ela corresponde ao que te chamou a atenção. Senão refaça. Mas se não
conseguir, se o momento passar, não se preocupe, esse momento passou, mas outros virão.
Isso vale mesmo quando não estamos fotografando. Se algo atrair sua visão a qualquer momento, não
pense “não estou fotografando agora”, nessa hora vale a câmera que estiver à mão, até o celular. E caso
não haja nenhuma, vale a pena fazer o exercício do olhar mesmo assim, busque compreender o que está
vendo, visualmente, e perceba a riqueza e a arte presentes no cotidiano. Ficando atento aos "Flashes of
Perception", ou "Lampejos de percepção" tenho começado a ver coisas que não via antes, e o dia-a-dia
tem se tornado mais agradável, mais surpreendente.
Dar valor e entender sua visão é muito mais importante do que pode parecer!
Módulo 05 – Conclusão

A Experiência
Vamos falar mais desse importante conceito.
“A experiência e o saber que dela deriva são o que nos permite apropriar-nos de nossa própria vida.”
(Bondía, 2002. P.27)
Podemos entender que um acontecimento só é impactante, só leva a um efeito humanizador mudando
algo em nós, quando é uma verdadeira experiência, como preconizada por Bondía (2002), ou seja, algo
que nos acontece, não algo que fazemos, que nos muda de lugar, passa por cima, nos tira do conforto. A
pessoa atingida pela experiência é “um sujeito sofredor, padecente, receptivo, aceitante, interpelado,
submetido” (p.25). É a experiência que nos permite “viver” nosso mundo, e só assim podemos fazer a
“ampliação da esfera do ser). A fotografia, quando observada, tem o potencial de nos atingir (punctum),
de nos passar, principalmente por poder nos sensibilizar num instante, e não sendo nossa obra, não nos
permite o controle nem a total satisfação do desejo ou curiosidade gerado. O olhar demorado sobre uma
imagem pode gerar até mesmo o desconforto da identificação com algo nosso, muitas vezes ignorado.
Se a “experiência é o que nos passa, o que nos acontece, o que nos toca” (Bondía , 2002.p.21), vivemos
um problema, pois a cada dia em nosso mundo mais coisas acontecem, mas a experiência é cada vez
mais rara, quase nada nos toca. Os motivos podem ser a busca pelo controle, por perfectibilidade, ou
podemos ver isso claramente no motivo apontado por Bondía (2002) e Benjamim (1994), o excesso de
informação, que longe de ser experiência é opinião pronta, portanto quase o oposto de experiência. E a
fotografia vive o mesmo drama, pois cada vez vemos mais fotos, seja na internet, TV, revistas e jornais,
nas ruas, mas vemos menos cada uma, não prestamos atenção e quase nenhuma nos toca. Vivemos uma
enxurrada de informações, que no entanto não se completam, não são vivenciadas e não são experiência.
Experiência é abertura, termo também essencial na fotografia.
“A experiência, a possibilidade de que algo nos aconteça ou nos toque, requer um gesto de interrupção,
um gesto que é quase impossível nos tempos que correm: requer parar para pensar, parar para olhar,
parar para escutar, pensar mais devagar, olhar mais devagar, e escutar mais devagar; parar para sentir,
sentir mais devagar, demorar-se nos detalhes, suspender a opinião, suspender o juízo, suspender a
vontade, suspender o automatismo da ação, cultivar a atenção e a delicadeza, abrir os olhos e os ouvidos,
falar sobre o que nos acontece, aprender a lentidão, escutar aos outros, cultivar a arte do encontro, calar
muito, ter paciência e dar-se tempo e espaço” (Bondía , 2002.p.19).
Portanto para a fotografia como experiência de fato acontecer, é preciso criar um espaço, um tempo
onde possamos ouvir, ver, falar, prestar atenção aos detalhes, mudar de opinião, até suspender a
opinião, ouvir e ver novamente.
Exercícios:
Parte do aprendizado da Fotografia Contemplativa é conseguir ver apenas o que pode realmente ser
visto... Primeiro buscamos “separar” luz, cor, textura, etc, mas depois você poderá observar a realidade
sem essa separação.
Luz
Prestar atenção à luz é uma maneira de permanecer no momento, enraizado na experiência real de ver
as coisas como elas são. É também uma alegria. A dança da luz solar tem grande poder para nos
animar. (baseado em: http://seeingfresh.com/photo-submissions/light).
Neste exercício filtre seus flashes de percepção apenas para a LUZ e seus efeitos. Busque os padrões de
luz. Claro que a luz na verdade este em tudo que vemos, mas tente observar que as vezes ela se destaca e
é o principal aspecto de uma imagem.
Forma e espaço
Busque ver apenas formas inseridas no espaço. As formas surgem em oposição a um espaço, tente
perceber a relação positivo-negativo que surge tantas vezes, e como esse espaço é essencial para definir
a forma.
Conclusão
Nem sempre devemos fotografar pensando na utilidade ou valor da foto. Essa é uma ideia bem diferente
numa sociedade que valoriza muito a utilidade. Assim quando algo lhe chamar a atenção, não pense se a
foto vai ficar boa, se vai valer dinheiro, se vai ganhar prêmios, etc. Apenas pare, tente entender
visualmente o que prendeu sua atenção, e então fotografe. Depois veja a foto que fez e olhe de novo a
cena. Avalie se ela corresponde ao que te chamou a atenção. Senão refaça. Mas se não conseguir, se o
momento passar, não se preocupe, esse momento passou, mas outros virão.
Isso vale mesmo quando não estamos fotografando. Se algo atrair sua visão a qualquer momento, não
pense “não estou fotografando agora”, nessa hora vale a câmera que estiver à mão, até o celular. E caso
não haja nenhuma, vale a pena fazer o exercício do olhar mesmo assim, busque compreender o que está
vendo, visualmente, e perceba a riqueza e a arte presentes no cotidiano. Ficando atento aos "Flashes of
Perception", ou "Lampejos de percepção" tenho começado a ver coisas que não via antes, e o dia-a-dia
tem se tornado mais agradável, mais surpreendente.
Dar valor e entender sua visão é muito mais importante do que pode parecer! Essa ampliação de nosso
olhar pode começar a refletir na sua vida, muito além da fotografia, e isso é muito bom. De repente você
pode ter menos preconceitos em relação às pessoas e aprender a curtir mais cada momento e cada dia
de sua vida. Esses “ganhos” são esperados, mas não se preocupe com eles, assim como suas fotos irão
melhorar, sua vida pode melhorar um pouco com a prática contemplativa, mas deixe isso ocorrer sem
expectativas.
Sugestões
Outros sites:
http://seeingfresh.com
Não deixe de acompanhar nosso site pois sempre temos novos artigos e eventos, assim você pode se
atualizar:
Nosso site: www.fotografiacontemplativa.com.br
Instagram: https://www.instagram.com/fotocontemplativa
Pós clique:
Depois das fotos feitas o aprendizado não acabou. Em frente ao PC abara suas fotos, faça sua seleção
com calma, olhe longamente para suas fotos. Apague as repetidas e as que não deram certo, veja quais
“funcionaram” em relação ao flash, pode ver também quais ficaram bonitas ou interessantes. Esta é uma
oportunidade para lhe dar um feedback e refinar seu entendimento da percepção, e desenvolver sua
sensibilidade. Veja se as imagens vem de um flash e se elas representa mesmo o que lhe atraiu. Se não,
pense no porque?
Na hora de editar vale cortes e correções, mas quanto menos forem preciso, significa que mais perto
você chegou de registrar o que viu. Claro que você pode agora postar, vender, imprimir, enfim, fazer o
que quiser com as fotos, afinal elas são suas e a prática contemplativa era na hora de fotografar.
Exercícios extras:
- Observação Contemplativa: outro exercício que você pode fazer é ao observar fotos, suas ou de outros
fotógrafos, antes de julgá-las, analisá-las, etc, entenda que sentimentos ela te traz, sem preconceitos.
- Observação da experiência: observe em você a experiência de ver. Ao se perceber notando algo, vendo,
observe o que ocorre em você, como se sente, no corpo, mas também se desperta sentimentos, ideias,
vontades. Perceba como é a experiência de ver, e o que vai sendo descoberto nessa experiência.

Fica a dica:
•Participar de grupos, mostrar e ver fotos é essencial, seja de fotografia contemplativa, ou de fotografia
de forma geral também. Busque ainda sempre conhecer lugares, pessoas, ampliar sua cultura com coisas
boas;
•Aplique estes conceitos contemplativos em sua vida;
•Tome cuidado ao fotografar na rua, cuide de sua segurança, respeite as pessoas fotografadas e tenha
sempre a Ética em mente.
E até breve!
Yuri Bittar
Referências:
BONDIA, J.L. Notas sobre a experiência e o saber da experiência. Rev. Bras. Educ., n.19, p.20-8, 2002.
http://www.scielo.br/pdf/rbedu/n19/n19a02.pdf
KARR, Andy e WOOD, Michael. The Practice of Contemplative Photography: Seeing the World with Fresh
Eyes. Shambhala Publications, Boston, 2011.

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