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Relação Pedagogia Dialógica de Paulo Freire e Teoria da

Adaptação-participação.

Diálogo e seus fundamentos

Segundo Humberto Mariotti, “o diálogo, reflexão conjunta,


observação cooperativa da experiência, é uma metodologia de
conversação que visa melhorar a comunicação entre as pessoas e a
produção de idéias novas e significados compartilhados”.

O diálogo não se resume a um debate, nem se faz apenas por via


verbal e escrita. Ele pode ser vivenciado por todos os sentidos que
intermediam nossa relação com o mundo. Há uma infinidade de jogos
possíveis num diálogo e, muitos deles se dão de forma subliminar.

Esse modelo de comunicação e relacionamento é compartilhado


através da cultura, pela Educação e são entendidos segundo certos
conceitos e em determinado momento histórico. Assim, poderíamos
facilmente rotulamos e aprisionamos o potencial aberto do diálogo
em seu sentido mais amplo, desviando-nos para o debate clássico de
idéias.

A habilidade e disposição para ouvir intensamente e tentar


compreender o outro é considerada menos importante do que a
capacidade de convencer e impor suas idéias. Em geral, ouvimos as
pessoas por alguns segundos para avaliar se concordamos ou
divergimos delas; a partir daí mudamos nosso foco de atenção, pois
não interessa mais

Eis uma boa definição filosófica para o termo segundo JAPIASSÚ e


MARCONDES:

”Dialogar tanto pode significar aceitar o risco de não ver


prevalecer seu ponto de acordo quanto ao essencial, quanto
acreditar que, para além dos interesses e das opiniões que opõem
os homens ente si, exista um lugar como dependendo de outro
registro de ser do homem distinto do mundo sensível e que seja
possível tomar um caminho capaz de superar as particularidades
individuais e passionais e impor uma universalidade, caminho da
verdade.

É também na escola, que as crianças buscam a realização de algumas de suas


necessidades afetivas básicas, mais ou menos como as que lhes são vivenciadas em
casa: ouvir e ser ouvida, opinar e ser consideradas, chamar a atenção e ser observada,
entre outras formas de diálogo. Mas quando, dos pais, não apreciam dessas relações, as
crianças tendem a sofrer, além de tudo, da falta de um referencial afetivo como uma
resposta aos seus “porquês”. Daí que, dentro do seu alcance de compreensão, ela cria
seus parâmetros e modelos para compor sua afetividade ideal – esta muitas vezes passa
distante do que vivencia com o professor e com os coleguinhas. Por isso é importante
que, na relação entre professor-aluno, sejam levados em consideração tanto os aspectos
cognitivos quanto os aspectos afetivos e culturais.

Assim, o diálogo, como relação afetiva tem sua relevância na interação professor-aluno,
o que é enfatizado por Aquino (1996, p. 50):

Os laços efetivos que constituem a interação Professor-Aluno


são necessários à aprendizagem e independem da definição
social do papel escolar, ou mesmo um maior abrigo das teorias
pedagógicas, tendo como base o coração da interação Professor-
Aluno, isto é, os vínculos cotidianos.

Com isto, estamos dizendo que a interação Professor-Aluno perpassa as aquisições


cognitivas e estas são facilitadas pela construção dialógica da afetiva no ambiente de
ensino.

O diálogo é de suma importância para a interação professor-aluno como processo de


construção de saberes, competências, habilidades e inteligências, sendo uma zona de
desenvolvimento proximal entre o cognitivo e as ações concretas. A essa afirmação,
encontra-se justificativa na literatura de Vigotsky.

“A investigação revela que a zona de desenvolvimento


próximo tem um valor mais direto para a dinâmica da
evolução intelectual e para o êxito da instrução do que o
nível atual de seu desenvolvimento”.

Para Hermández “o diálogo implica a honestidade e a possibilidade de intervir em um


clima de confiança”, ou seja, ele é entendido como intercâmbio e reflexão entre os
sujeitos. Entretanto, favorecer a aprendizagem a partir do diálogo é algo que não ocorre
de maneira espontânea, pois requer por parte do professor, ter uma escrita e
conhecimento atento da turma, uma vez que o diálogo implica que as pessoas estejam
abertas a nossa idéia e formas de pensar, a novas maneiras de ver, e que não estejam
fechados em seu próprio ponto de vista.

Portanto, “o diálogo é uma exigência existencial que possibilita a comunicação” e “para


por em prática o diálogo, o educador deve colocar-se na posição humilde de quem não
sabe tudo” (GADOTTI, 1991, p. 69).

O diálogo acontece considerando as seguintes etapas: colaboração, a união, a


organização e a síntese cultural que devem ser respeitadas pelo aluno o que segundo
Freire (1967) se traduz no esquema abaixo:
DIFERENÇA ESQUEMÀTICA ENTRE
COMUNICAÇÂO E DIÁLOGO
A = Professor B = Aluno

A para B = Comunicação

A com B = Diálogo =
Intercomunicação

A aprendizagem dialógica
se dá entre a interação dos
dois pólos.

Educação Dialógica

Se expressar é a educação mais fundamental que define ser quem


somos e isso é um diálogo consigo mesmo, com o meio e com o
outro: Aprender a ler e escrever, a entender símbolos diversos, a se
relacionar de forma interpessoal, a fazer contas e a dominar a
técnica, a dominar algum conhecimento científico e o processo de
desenvolvimento, a ampliar os conhecimentos no âmbito de uma
comunidade em que estamos inseridos é a mesma coisa que
aprender a Dialogar. Todos esses aspectos na criança envolvem
distinções no âmbito do processo fundamental de aprender a ser para
entender e ser ela mesma.

A tarefa da educação dialógica é delicada porque pressupõe, em


princípio, relações de conceitos mutáveis segundo um momento
histórico e que perpassam emotividade e racionalidade, como por
exemplo, o sentido e a práxis do amor, do desprendimento, da
firmeza, da paciência, da tolerância, das impressões e da decisão. Daí
se constrói o convívio e a afetividade, as aparências e evidências, o
cênico e o real, o falar e o saber calar, o saber ouvir e o ser ouvido, o
aprimorar e o refazer da aceitação comum dialógica.

Assim, a busca da adaptabilidade, por parte da criança, em sala de


aula é um fato, mas sua função positiva só poderá ser possível se for
dialética – Na dimensão socializante entre Professor-Aluno, a escola
torna-se um palco de diversas situações que estabelecem interação e
desenvolvem empatia, estas, são ao seu tempo, já as competências
em face de desenvolvimento e aperfeiçoamento de suas qualidades,
quando compartilhadas pelos educandos através da habilidade da
convivência em grupos. E esta modalidade de Ensino-Aprendizagem
se refletirá na sociedade. Nossa proposta é demonstrar que para isso
uma das maiores ferramentas que o professor poderá utiliza em sala
de aula é o Diálogo. Esse, no entanto é pouco investigada de forma
sistemática e detalhada.

Educar para o diálogo é aprender a ensinar, sempre dentro de novas


situações, a falar o que sente o que não sente e, o que gostaria de
sentir, a ouvir do outro não o que quer ouvir, mas o que ele pode e
quer pode externar, segundo a afeição dinâmica do grupo.

Na interação Professor-Aluno, a escola é o ambiente onde será


reproduzido um modo de sociedade que vai além da família, não por
causa da afetividade, mas pela necessidade mútua de se desenvolver
uma empatia com o novo e com a pessoa que não provém dos laços
familiares. Isso é um desafio, pois, que se aprenderia, através do
diálogo a amar o outro em sua diferença mais enfática em relação a
si mesmo. Assim a escola desenvolve um papel importante e ao
mesmo tempo radical de ensinar a amar pela interação e encontro
espelhado do outro, em sala de aula.

Das Relações possíveis: O conflito positivo

Sabemos que, as relações em sala de aula, e que objetivam a


aprendizagem, passam por inevitáveis “conflitos”, os quais são os
meios de aprimorar ou se alcançar determinados objetivos, também
muitas vezes são um fim, quando a partir destes, se alça novos vôos
em busca de outros objetivos. É certo que uma relação onde se
processam conhecimentos e informações o conflito é uma constante,
mas, longe de clichês, este é positivo quanto maior for reconhecido,
percebido, estudado, entendido e direcionado.

Dentro dessa compreensão de conflito desvencilhada do conceito


tradicional, ou preconceito, o diálogo poderá ser o meio pelo qual o
professor norteará sua metodologia de ensino e seu relacionamento a
fim de que os educandos alcancem a socialidade com um mínimo de
frustrações. Neste ambiente facilitador o professor conseguirá com
maior facilidade aplicar seus objetivos educacionais, pedagógicos e
curriculares.

Essa aceitação por parte dos educandos, não é passiva nem


contraditória, porque é construída do diálogo – enquanto relação
verbal e corporal. É processual e comunial enquanto se der a empatia
e o sentido do que se busca em ensinar e estudar.

Dessa afirmativa, pode-se definir o objeto da educação como não


somente o “educar”, mas que sua dimensão está no modo como o
fazemos, a forma como prosseguimos pensando, o tipo de distinções
que apresentamos os valores éticos e morais dos critérios em que nos
baseamos para o caminho a percorrer e a vivência das práticas que
se propõe isso dentro e fora da sala de aula.
A função do diálogo na criança não é somente exteriorizar-se; É muito
mais interiorizar o outro, a situação em que se dá o diálogo e o
próprio cenário, isso para aperfeiçoar sua adaptação. Então, essa
interiorização é mais ou menos intensa segundo seu repertório de
experiências bem sucedidas ou frustradas. Nesse contexto, por
adaptação é compreendido o fato de que a infância é movida por uma
busca radical, no âmbito da vontade, digamos, efusiva de descobrir e
descobrir-se, à cata de se tornar sujeito e assim ampliar sua
participação no ambiente em que vive.

Para que essa adaptação-participação aconteça, ela se utiliza do


repertório mental para entender seu exterior e interior e isso se
realiza da necessidade inerentemente de empatia, e isto pode ser
entendido como um inter-relacionamento sócio-político com o outro.
No âmbito da vontade, certamente o meio para que isso possa se
realizar parte da experimentação de atuar no mundo de forma ainda
lúdica, mas que já não prioriza as representações subjetivas, e sim
enfatiza a consciência de educar-se, daí ela descobre o diálogo e
aperfeiçoa-o ao longo da vida e, pela curiosidade ela vai assimilando
através deste, todo o que lhe apresentam.

Para a criança, o diálogo se realiza pela comum aceitação e recepção


interior e exterior do outro. Em outras palavras, para aquele que
dialoga, cria-se uma dimensão de intimidade quase como sem
mecanismos de censura ou autocensura, quanto mais tenra for à
infância, para compartilhar daquilo que lhe é mais íntimo: suas
primeiras e melhores concepções de mundo, seu repertório
intelectual, intuitivo e conceitual das relações dadas e compreendidas
até o momento.

Interação e aporte do professor.

Para entendermos sua dimensão faz-se necessário conceituar Interação:


Processo interpessoal pelo quais indivíduos em contato
modificam temporariamente seus comportamentos uns em
relação aos outros, por uma estimulação recíproca contínua. A
interação social é o modo comportamental fundamental em
grupo. (DICIONÁRIO DE PSICOLOGIA, p. 439).

Conceitos

Aceitação Comum Dialógica: É a interação (enquanto termo de


Psicologia), que se desenvolve através dos processos de diálogo e
que culmina em um aceite comum e dinâmico do outro em prol do
contrato social que se aperfeiçoa do conflito positivo.

Conflito Positivo: É um encontro de idéias, situações-problemas e, ou


sentimentos mais ou menos díspares como resultado da primeira
apresentação ao conteúdo ou a experiência do outro, mas que evolui
para um quadro de Aceitação-Participação crítica e maleável. Um
Conflito Positivo é em Pedagogia o que um tema gerador é para a
Educação. Caso o conflito permaneça, deixa de ser positivo.