UNIVERSIDADE LUTERANA DO BRASIL CURSO DE EDUCAÇÃO FÍSICA

ENSAIO

Os Benefícios dos Jogos Cooperativos na Educação Fí sica Escolar

Autor: Sheila Machado. Orientadora: Marinês Ramos.

RESUMO Este ensaio tem como objetivo refletir sobre os benefício dos Jogos Cooperativos na Educação Física Escolar

INTRODUÇÃO .

Com essa perspectiva os Jogos Cooperativos ganham uma visão e um papel transformador. "uma de nossas tarefas é educar para não aceitar passivamente a injustiça [. se uniam para celebrar a vida´ (Orlick. seletividade. Orlick (1989) apud Brotto (2002 ) faz uma arqueologia para mostrar como os jogos perpetuados por determinadas sociedades refletem e repassam valores éticos. surgem novos trabalhos sobre Jogos Cooperativos que permitem identificar muitas possibilidades para a abordagem dos mesmos no contexto escolar. libertam para criar. evitar a eliminação dos mais fracos. p. Para esse pesquisador . liberta m da agressão física.REFERENCIAL TEÓRICO Jogos Cooperativos: principais referê ncias. Ao falarmos sobre Jogos Cooperativos. 31). no envolvimento e na diversão. os Jogos Co operativos não são manifestações culturais recentes. 1989. pois o interesse se volta para a participação. abre espaço para integrá -los com a temática do meio . que encontra uma forte relação do jogo cooperati vo ou competitivo com as questões políticas das classes socialmente desfavorecidas. pois buscam evitar condutas de agressão. 2002. porém tenta estabelecer uma relação desses jogos com a natureza. São jogos baseados em atividades com mais oportunidade s de diversão que procuram evitar as violações físicas e psicológicas. em alguns jogos. culturais e morais.. Apresenta os Jogos Cooperativos como atividade física essencialmente baseada na cooperação. nem tampouco uma invenção moderna.] como educadores temos que transmitir outros valores. mais lentos.. exigindo colaboração. quando membros das comunidades tribais. Terry Orlick torna-se a principal referência em estudos e trabalhos sobre esse tema (BROTTO. menos habilidosos etc. libertam da eliminação. tendo como propósito mudar as características de exclusão. Ao relacionar os Jogos Cooperativos com a natureza.47). Podemos oferecer a alternativa da solidariedade e do senso crítico diante do egoísmo e da resignação" (p. Para ele. aproximando -se das abordagens críticoemancipadoras da Educação Física Escolar. implícita ou explícita. eliminando a pressão de ganhar ou perder produzida pela competição. pois procura incluir e integrar todos. pois criar significa construir. Oliveras (1998) apresenta os Jogos Cooperativos destacando as mesmas caracteristicas que Brown (1995). apud Brotto. permitindo a flexibilização das regras e mudando a rigidez das mesmas facilita -se a participação e a criação.2002) .. p. Uma delas é a perspectiva política trazida por Brown (1995). A essência dos Jogos Cooperativos ³começou há milhares de anos.´O objetivo primordial dos jogos cooperativos é criar oportunidades para o aprendizado cooperativo e a interação cooperativa prazerosa (Orlick. na aceitação. agressividade e exacerbação da competitivi dade dos jogos ocidentais. Destaca a importância dos Jogos Cooperativos porque libertam da competição.123). Partindo do trabalho de Terry Orlick.

a "Educação Física para a Paz". p. Com essa forma de abordar o esporte. Nesse sentido. como Lovisolo (2001) que a competição é inseparável do esporte? Existem aqueles que defendem a cooperação intra -time (Devide. Ao participar de jogos. essa concepção estimula uma boa polêmica e um grande desafio para novos estudos: como desenvolver a cooperação entre duas equipes ou dois adversários. Essa nova abordagem. vai ao encontro da perspectiva multifatorial da promoção da saúde defendida por Farinatti e Ferreira (2006) para a Educação Física Escolar. Salvador e Trotte (2001) elegeram os Jogos Cooperativos como atividade para proporcionar aos alunos a oportunidade de vivenciarem e experimentarem a possibilidade de algumas mudanças comportamentais em relação ao contexto e à realidade em que viviam. que surge de uma inter-relação das características específicas da área com os princípios filosóficos de um projeto maior chamado "Educação para a Paz". pois considera que a cooperação se aprende cooperando. que envolve diversos aspectos relacionados com a saúde individual. não só para a EF escolar. entusiasmo e continuidade" (p. porém quando assistimos a uma partida de vôlei ou futebol não observamos as equipes criando estratégias para cooperarem com a vitória dos seus . Eis um grande desafio. Brotto (2002) propõe uma mudança para tornar o esporte menos competitivo e excludente. A proposição do autor é fazer dos Jogos Cooperativos uma pedagogia para o esporte e para a vida. paz-ciência. se somos obrigados a admitir. encontra -se a possibilidade de trabalhar um conteúdo de forte apelo de alunos e professores. 2001. Carlson (1999) vê nos Jogos Cooperativos um caminho para melhorar a saúde. as crianças se beneficiam física e psicologicamente das atividades.ambiente e da ecologia em projetos que venham a ser desenvolvidos na escola. a aprendizagem. Calado (2001) está incluindo os J ogos Cooperativos em uma nova concepção. tais como: as emoções. re -creação. diálogo. nas aulas de Educação Física as formas de relações de poder reproduzidas nas regras. contribuindo para preservar sua saúde. Encontraram nos J ogos Cooperativos uma forma de discutir. 3). "caracterizando-os como um exercício de convivência fundamental para o desenvolvimento pessoal e para a transformação. na convivência e no jogar. porém diminuindo a exacerbação do mito da competição. Procurando fazer uma interface dos Jogos Cooperativos com a Pedagogia do Esporte. a auto -estima. relacionando Jogos Cooperativos e saúde. 2003). o relacionamento pessoal. liberdade. confiança. respeito mútuo.3). mas para a Educação como um todo. a necessidade de conhecimento e as condutas comportamentais. Descreve também as características de uma "Ética Cooperativa: con-tato. 40). Callado propõe "potencializar a prática de jogos cooperativos" (Callado. os Jogos Cooperativos são introduzidos como uma forma de intervenção." (p. ou seja. Em nosso entendimento. sob uma abordagem multifatorial e holística.

oposto s e cooperativos (Kamii e Devries. Aspectos culturais. divertimento. Estes jogos possuem valores educacionais s emelhantes aos jogos em grupo mas possuem algumas peculiaridades. 1986. Por outro lado. sociais. 1996. na maioria das vezes. que representam mais do que apenas atividades lúdico esportivas. (. Kamii e Devries caracterizam um bom jogo em grupo sob a visão de seus processos educacionais como sendo interessante e desafiador para as crianças. Especificando ainda mais nossos estudos chegamos aos Jogos Cooperativos. 03) Intrínseco aos jogos estão os jogos em grupo. p. É uma função significante. p. 1991. essas peculiaridades serão analisadas e discutidas. Vemos com isso que a resposta a essa questão não será simples e envolverá discussões éticas. 04). um momento de descontração e alegria para elas. puro e isoladamente. 990). Korsakas e De Rose Jr. isto é. (Huizinga. filosóficas. que os alunos possam se autoavaliar qu anto ao seu desempenho e que todos os jogadores possam participar ativamente do início ao fim do jogo (1991. Sendo assim.) o jogo é mais do que um fenômeno fisiológico ou um reflexo psicológico. políticas e pedagógicas que extrapolam as delimitações desse artigo. políticos. encerra um determinado sentido. O que são Jogos Cooperativos . uma vez que o mesmo está susceptível às transformações históricas e sociais. 5). tentando sempre realizar uma comparação com os jogos competitivos para entendermos melhor seus processos. p..adversários. são explorados e experimentados pelas crianças durante a realização deste tipo de atividade que é. passatempo (Aurélio. Como educadores sabemos que o jogo implica em muitas outras funções no desenvolvimento da criança. Seguindo esta linha. O dicionário classifica jogo como brinquedo.. eles são classificados como aqueles em que as crianças jogam juntas de acordo com uma regra pré estabelecida que especifique: (1) algum clímax preestabelecido (ou uma série deles) a ser alcançado e (2) o que cada jogador deveria tentar fazer em papéis que são interdependentes. cognitivos e motores entre outros. (2002) ressaltam a necessidade de refletirmos os atributos filosóficos e pedagógicos do esporte enquanto patrimônio cultural da humanidade e pratica educativa. p. Ultrapassa os limites da atividade puramente física ou biológica. JOGOS COOPERATIVOS: A POSSIBILIDADE DA INCLUSÃO Para a maioria das pessoas os jogos são atividades que tem por característica o ato de brincar.

oportunizando a satisfação de todos(BROTTO. Há maior homogeneidade na quantidade de contribuições e participações. A conquista dos desafios através de ações coletivas desenvolve nos alunos o sentimento de pertencer a um grupo. é em parte consequência da ação dos outros membros. mas sim em todo grupo participante. A situação cooperativa é aquela em que os objetivos do indivíduo são de tal ordem que. A especialização de atividades é maior. a valorização da ação de cada indivíduo em prol de um resultado coletivo valoriza e encoraja os alunos. A relação entre aspectos trabalhados nos jogos em grupo e os padrões de percepção/ação desenvolvidos são apresentados na tabela abaixo através da análise de atividades cooperativas e competitivas: . e os mesmos devem ser alcançados de maneira coletiva.2000). Ajudam-se mutuamente com frequência. deverão igualmente alcançar seus respectivos objetivos (Deutsch. para que o objetivo de um deles seja alcança do.Os jogos cooperativos são atividades alternativas ao mundo competitivo. A especialização de atividades é menor. apud Brotto. 2000. Situação Cooperativa Situação Competitiva Percebem que o atingimento dos seus objetivos. A produtividade em termos qualitativos é maior. a relação de aj udar-se com maior freqüência coloca os alunos diante das diferenças e ensina -os a lidar com as mesmas. 45) Analisando o quadro acima fica evidente que o envolvimento através do jogo cooperativo é muito mais explícito do que nas atividades competitivas. As metas e os resultados são estimulados através de desafios. Percebem que o atingimento de seus objetivos. é incompatível com a obtenção dos objetivos dos demais. A produtividade em termos qualitativos é menor. todos os demais integrantes. (Brotto. São menos sensíveis as solicitações dos outros. p. Há menor homogeneidade na quantidade de contri buições e participações. O quadro abaixo realiza uma boa comparação das situações desenvolvidas nas atividades cooperativas e nas competitivas. 2000. em que seus objetivos possuem um caráter de solidariedade e não de exclusão. 38) . São mais sensíveis as solicitações dos outros. p. Ajudam-se mutuamente com menor freqüência. Este envolvimento não se apresenta apenas nos alunos com melhor desenvolvimento motor.

Visão de jogo Objetivo O outro Relação Ação Clima de jogo Resultado Consequência Motivação Sentimentos Símbolo Cooperação Possível para todos. parceria Jogar. Ganhar . Ganhar .inimigo Dependência. Ademais.. do outro Adversário. 46) A soma de todos esses fatores não excludentes e cooperativos determina um resultado fundamental para nós educadores: a possibilidade de desenvolvimento é muito mais elevado para todas as crianças que participam das atividades. a relação de parceiro. juntos.contra Tensão. a ação de jogar . atenção Sucesso compartilhado Vontade de jogando...que são fundamentais para a harmonia e eficácia.54) Diante disto é possível observar algumas características específicas desenvolvidas por estas atividades. rivalidade Jogar. já que para cada um o jogo é um camin ho de co- .. 2000. apud Brotto..2000. p. amigo Interdependência... o sucesso compartilhado com resultado.. juntos Parceiro.. ao invés de comparações. A intercomunicação de idéias. (Deutsch.com Ativação. Como exemplo disto podemos citar itens como o objetivo de ganhar . Por enfatizar os resultados através de desafios. há uma indicação que a competição produza maior insegurança pessoal (expectativa de hostilidade por parte de outros).. a coordenação de esforços... a vontade de conti nuar jogando entre outros. do que a cooperação. parece desaparecer quando os seus membros se vêm em situação de competir para a obtenção de objetivos mutuamente exclusivos. Amor Alegria.comunhão Ponte Competição Parece possível só para um. com alguém. a amizade e o orgulho de por pertencer ao grupo.solidão Obstáculo (Brotto.p.. amigo com o outro.. stress Ilusão de vitória individual continuar Acabar logo com o jogo Medo Raiva. os alunos tem a oportunidade de vivenciar o jogo com maior prazer e satisfação.

Dentro desta perspectiva devemos incentivar as mais diversas vivências sem classificá-las como certas ou erradas. queremos torná-la mais expressiva. criativos.evolução. original.(Orlick. essas turmas são uma grande oportunidade de propiciar aos alunos a prática de inúmeras manifestações. Manifestações estas que representam a essência de nossa profissão e podem ser classificadas como cultura física (Betti. p. pelo contrário. sem a necessidade da padronização e /ou classificação de movimentos. 1995. Como relata Santin. essas diferenças representam as riquezas culturais. um verdadeiro patrimônio lúdico da humanidade (1995. Para Vago estas particularidades devem ser consideradas pelo professor de Educação Física como uma diversificação cultural presente em sua aula. 69). A presença de turmas heterogêneas em nossas aulas deve ser valorizada. Essa originalidade é desenvolvida através da história de vida.65) Mas afinal. o que pretendemos trabalhar com este tipo de jogos? Através dos Jogos Cooperativos pretendemos trabalhar o aspecto da corporeidade no seu real significado. É importante ressaltar que cada ser humano apresenta individualidades específicas. ou seja. de sua cultura corporal . muito pelo contrário. cultura corporal (Coletivo de Autores. apud Vago. não pretendemos destruir a imagem do homem. das vivências experimentadas. p. Ensinar e aprender diversas culturas corporais. que os movimentos sejam autênticos. 1995. apud Brotto. Ensejar a possibilidade de se relacionar com seus colegas e consigo mesmo através do corpo. O professor deve trabalhar seus alunos de maneira que as diferenças não representem empecilhos para uma convivência harmoniosa do grupo. 93). e devem ser aproveitadas na forma de organização do ensino. Desejamos que os alunos sejam capazes de realizar as atividades propostas a sua maneira. . p. p. mas tendo a preocupação com a sua originalidade. propiciando aos alun os oportunidade de vivenciarem os mais diversos gestos. 69) nas aulas de Educação Física. 69). apud Vago. e que possam aprender novas alternativas através da maneira de seus colegas. simplesmente devolver ao homem a sua originalidade primordial (1996. expressões e movimentos. p.

1991. o professor pode intervir como um jogador. Sua relação com os alunos. . Segundo Piaget existem dois princípios básicos de ensino que o professor deve analisar no momento da elaboração de suas aulas: que os jogos sejam modificados a fim de se ajustarem à maneira como a criança pensa. 1991.O que almejamos é que as aulas de Educação Física representem momentos marcantes na vida de nossos alunos. mas sim as atitudes tomadas pelo mesmo. a tomada de decisões deve ser feita por parte dos mesmos. etc) e que através delas poderemos aprender e crescer juntos . O professor tem papel importantíssimo no sucesso de seus alunos. O encorajamento dessas iniciativas estimula a autonomia intelectual e social da criança (Kamii e Devries. 1991. A participação do professor como jogador é uma das melhores maneiras de encorajar seus alunos. dê tempo às crianças. As relações que o professor estabelece com seus alunos refletem e caracterizam o comportamento de sua turma. Sendo assim. ele torna-se um participante no mesmo nível de seus alunos. Como participante e igualmente ³submisso´ as regras do jogo. Não importa o tipo de jogo que o professor sugere. o que ocasiona reflexão e interação entre as crianças. ou seja. sua metodologia e sua postura propiciarão condições para o desenvolvimento máximo de sua turma. Que através da alegria do lúdico seja possível oportunizar a possibilidade de vivenciarem os mais diversos padrões de movimento e interagirem consigo mesm os e com o grupo. 292). e que a autoridade do adulto seja reduzida tanto quanto possível (apud Kamii e Devries. É importantíssimo que o professor reduza o seu poder tanto quanto possível. 287) . suas idéias e sugestões devem ser discutidas e aceitas ou não pelo grupo. Devemos ensinar nossos alunos a gostarem de seu próprio corpo e o de seus colegas. p. pai e filho. expressando-se de maneira natural e autêntica. Devemos apresentar as diferenças existentes em nossos corpos (tanto entre os alunos como entre professor e aluno. 291). Os jogos em grupo são excelentes oportunidades de discussão e interação entre os alunos. mas não esquecendo nunca de sua função de organizador e condutor do grupo. p. encoraje a cooperação entre elas e ajude -as a chegar a suas próprias decisões (Kamii e Devries. classificação ou discriminação. eliminando qualquer tipo de inibição. p. que reduza o poder do adulto.

O professor deve se auto -avaliar frente a maneira com que conduz sua aula. 61). os mesmos não terão condições de assimilar aspectos como solidariedade. e mais trata-se de um aprendizado que não é medido e calculado pelo resultado. p. 61). 24). a sua cultura (. A linha de ensino que mais se aplica a este tipo de jogos é a Construtivista. mas pela execução do que se faz ou do que se sabe (Santin. 293) Aspectos como formas de motivação. criatividade. 1991. Por último devemos refletir sobre a postura do professor frente as atividades cooperativas. p. 1998. . 1992. valorização de resultados. entre outros fatores determinarão a compreensão por parte dos alunos dos verdadeiros objetivos dos jogos cooperativos. pois valoriza as experiências de seus alunos. (Kamii e Devries. atitudes. 2000. p. Se o professor elaborar uma aula com características cooperativas mas incentivar seus alunos através de aspectos competitivos.A metodologia que o professor deve aplicar em uma aula com jogos cooperativos deve conter algumas características específicas para se alcançar os objetivos destes jogos. construção dos valores. (. A descoberta de objetivos intrínsecos e ocultos são características dos jogos cooperativos. resolvendo problemas (Darido.) jogamos de acordo com a visão que temos do jogo e que dependendo dessa percepção escolhemos um estilo ou outro para jogar (Brotto. alegria. Na análise de Darido (1998) o jogo tem papel importantíssimo na metodologia construtivista e é considerado o principal modo de ensinar... p. entre outros fatores que correspondem aos princípios destas atividades. Este é um aspecto importante para o su cesso deste tipo de jogos..) O aluno constrói o seu conhecimento a par tir da interação com o meio.. apesar de nossas melhores intenções. Portanto o mesmo deve ser introduzido de maneira clara e breve para assim os alunos interpretarem e utilizarem as regras durante a sua realização. ou seja. Nosso poder adulto é tão natural e nossas concepções empiristas sobre aprendizagem são tão inconscientes e fortes que freqüentemente fazemos coisas autoritariamente.

Todo homem. Tornar-se humano é tornar-se individual. Atualmente. é portador de especificidades culturais no seu corpo. essa tarefa parece estar sendo dividida com conhecimentos provindos de áreas como a antropologia social. a sociologia. Corpo e movimento continuam sendo conceitos centrais para a Educação Física. a grande dificuldade parece residir. 1994). em como desdobrar tal feito efetivamente no âmbito das intervenções pedagógicas.Educação Física Escolar O histórico da Educação Física revela uma trajetória de heteronomia subordinada a interesses externos ao estabelecimento escolar e que variam com as mudanças sociais. podemos afirmar que a Educação Física trabalha com conteúdos culturais. o mais concreto. que é. porém. a ciência política. Isso não significa que ignoramos o passado e suas determinações. não o retomaremos. ³o mais natural. Conforme Daolio (1994). três décadas atrás. da atividade física e do esporte parecia inquebrantável. agora. o primeiro e o mais normal patrimônio que o homem possui´ (p. Assim. cada sociedade se expressa diferentemente por meio de corpos diferentes. segundo Rodrigues (apud Daolio. individualidade esta que se concretiza no e por meio do corpo. mesmo inconsciente desse processo. 36). Dado o fato de existir um significativo conjunto de referências bibliográfi cas abordando esse processo histórico. abordar este componente curricular a partir de concepções culturais. porém. pois a hegemonia das ciências biológicas nas explicações do corpo. Sensível a esta nova leitura é que os Parâmetros Curriculares . hoje torna-se possível discutir o corpo como uma construção cultural e o movimento como expressão da complexidade humana. pois aprendemos e compreendemos a Educação Física atual através dele e é a partir dele que visualizamos possíveis caminhos a serem percorridos por esse componente curricular. Parecia improvável. a história. entre outras.

a apropriação de idéias. continua sendo o de educar. a escola proporciona aos al unos. as ginásticas. para além das aparências superficiais do status quo real ± assumido como natural pela ideologia dominante ± . exercendo a função essencial de transmitir parte do patrimônio cultural de uma geração para outra. oferecendo uma contribuição complicada. entre outros. explicitando o sentido das influências que o indivíduo recebe na escola e na sociedade.] na tensão dialética entre reprodução e mudança. o esporte. por seus conteúdos. tendo em comum a representação corporal. a escola acaba se tornando um espaço que recebe muitas críticas. disposições e modos de conduta que a sociedade adulta requer. as atividades expressivas.. Essa função educativa está ligada [. o objetivo da escola. Algumas dessas produções da cultura corporal foram efetivamente incorporadas pela Educação Física em seus conteúdos. paulatina e progressivamente.Nacionais reconheceram como situada no âmbito da Cultura Corporal os inúmeros conhecimentos e representações1 que passaram a constituir-se em potencial conteúdo a ser tematizado pelo agora componente curricular Educação Física (PCNs. como ferramenta de análise para compreender. Apesar dessa situação constante de críticas e questionamentos. A escola é uma instituição de fundamental importância na sociedade atual. 2001). com características lúdicas. tais como o jogo. até as práticas pedagógicas desenvolvidas nas salas de aula (Souza Júnior. quanto à sua organização de forma geral. de diversas culturas humanas. passando pelos seus projetos. 1999).. pode . o verdadeiro sentido das influências de socialização e os mecanismos explícitos ou disfarçados que se utilizam para sua interiorização pelas novas gerações. como um todo. conhecimentos. mas específica: utilizar o conhecimento. concepções. Segundo a concepção de Sacristán e Gómez (2000). Deste modo. Nesse processo complexo. suas formas e seus sistemas de organização. também social e historicamente construído e condicionado.

1999. fundamentada em diálogo com as Ciências Humanas e Sociais. têm em comum a busca de uma Educação Física que articule as múltiplas dimensões do ser humano. Sendo a escola um espaço para tratar do conhecimento produzido pelo homem e com a Educação Física inserida nesse contexto. que papel ela deve desenvolver no ambiente escolar? Ela possui o caráter de treinamento esportivo ou é uma área que trata da apropriação de conhecimentos acerca da cultura corporal de movimento? Atualmente se concebe a existência de algumas abordagens para a Educação Física escolar no Brasil que resultam da articulação de diferentes teorias psicológicas.] que não há antagonismo. de saber o necessário para orientá -la e para o reconhecimento do tipo de relação possível/desejável entre a Educação Física e o ³saber científico´ ou as disciplinas científicas (1999.. sociológicas e concepções filosóficas. p. p. segundo Bracht (1999).. 66).[. sugerindo algum tipo de antagonismo´. embora contenham enfoques científicos diferenciados entre si. a partir do início da década de 80. 2000. p. efetuado por in termédio do discurso pedagógico.oferecer àquela. 22). reconhecer a Educação Física. Tani (apud Bracht. No entanto. primeiro enquanto prática pedagógica é fundamental para o reconhecimento do tipo de conhecimento. Gómez. com pontos muitas vezes divergentes. espaços adequados de relativa autonomia para a construção sempre complexa e condicionada do indivíduo adulto (Sacristán.. Todas essas correntes têm ampliado os campos de ação e reflexão para a área e aproximado-a das ciências humanas e.] caracteriza-se no Brasil um movimento de ³repedagogização´ da teorização em Educação Física. A partir de então a expressão ³Educação Física´ passa a ter pelo menos dois . Já Bracht entende [. o entendimento de Educação Física é remetido a uma prática pedagógica. mas.. 66) reclama do fato de que ³sempre se privilegiou o entendimento da Educação Física enquanto profissão negligenciando-a enquanto disciplina acadêmica.

como os outros componentes. ela deve se constituir como uma ação pedagógica com aquela cultura. Pode-se dizer. buscando fundamentar -se em conhecimentos científicos. com tradição no sabe r-fazer. Alerta ainda que ela não pode se transformar em um discurso sobre a cultura corporal de movimento. ainda para Betti (1998). deve-se levar em conta que a Educação Física possui pelo menos um século e meio de história no mundo ocidental moderno. Porém não é um conhecimento que se possa incorporar dissociado de uma vivência concreta. contempla múltiplos conhecimentos produzidos e usufruídos pela sociedade a respeito do corpo e do movimento. desenvolvendo uma visão crítica do sistema esportivo profissional e dos instrumentos conceituais e perceptivos para uma apreciação estética e técnica do esporte e. Isso implica também compreender a organização institucional da cultura corporal em nossa sociedade. Além disso. que consiga incorporar o esporte. para Bracht (1999). restrita à instituição escolar). ao mesmo tempo. O componente curricular da Educação Física. cabendo a ela ser uma prática de intervenção que tematiza as manifestações da nossa cultura corporal de movimento com uma intenção pedagógica. tem buscado a formulação de um recorte epistemológico próprio. a dança e as ginásticas em sua vida e tirar o melhor proveito possível deles. Betti (1998) propõe que uma de suas tarefas é preparar o aluno para ser um praticante lúcido e ativo. que a Educação Física também propicia aos alunos. certo tipo de conhecimento. conforme os PCNs (2001). porém.entendimentos: (i) é uma área de conhecimento (científico). (ii) é uma prática pedagógica (para alguns. estar preparado para analisar criticamente as informações que recebe dos meios de comunicação sobre a cultura corporal de movimento. Essa ação pedagógica a que se . Na tentativa de reformulação dos objetivos da Educação Física. é preciso prepará -lo para ser um consumidor do esporte espetáculo. sob pena de perder a riqueza de sua especificidade. o jogo. oferecidos pelas abordagens dos diferentes componentes curriculares.

Já. relacionando organicamente o ³saber movimentar -se´ ao ³saber sobre´ esse movimentar-se. esporte. mas sim de proporcionar a apropriação do processo de construção de conhecimentos relativos ao corpo e ao movimento. Por isso. 2001). o desenvolvimento da noção de historicidade da cultura corporal. segundo o Coletivo de Autores (1992). 13). O professor de Educação Física deve auxiliar o aluno a compreender seu sentir e seu relacionar -se na esfera da cultura corporal de movimento (Betti. construindo uma possibilidade autônoma de utilização de seu potencial gestual.propõe a Educação Física será sempre uma vivência impregnada da corporeidade do sentir e do relacionar -se. como respostas a determinados estímulos. arremessando. dança e ginástica. É fundamental. para essa perspectiva da prática pedagógica da Educação Física. balançando. saltando. no âmbito escolar. A dimensão cognitiva será feita sempre sob esse substrato corporal. etc. O papel da Educação Física é fazer a mediação . constituindo o que Betti (1994) denominou saber orgânico. capacitando o sujeito a refletir sobre suas possibilidade s corporais e. exercê-las de maneira social e culturalmente significativa e adequada (PCN´s. como jogo. com autonomia. com o objetivo de apenas automatizá-los e reproduzi-los. na escola. A Educação Física escolar não possui a intenção de fazer os alunos aprenderem a repetir gestos estereotipados. com a intenção de proporcionar aos alunos a sua apropriação crítica. p. Todas essas atividades corporais foram construídas em determinadas épocas históricas. desafios ou necessidades human as. tematiza formas de atividades expressivas corporais. a Educação Física ³recorta´ a cultura corporal de movimento. segundo o Coletivo de Autores (1992). jogando. É preciso que o aluno entenda que o homem não nasceu pulando. 1998. restringindo os alunos ao simples exercício de certas habilidades e destrezas. a Educação Física é uma prática pedagógica que. as quais configuram uma área do conhecimen to que podemos chamar de cultura corporal.

2003. . sendo definida como ³uma disciplina que tem por finalidade propiciar aos alunos a apropriação crítica da cultura corporal de movimento´ (Betti.simbólica desse saber orgânico para a consciência. 56). p. levando o sujeito à autonomia crítica no âmbito da cultura corporal de movimento.

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