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UNIVERSIDADE DE SÃO PAULO

FACULDADE DE FILOSOFIA, LETRAS E CIÊNCIAS HUMANAS

Prof. Ana Paula Pacheco

ENSAIO SOBRE
“WILLIAM WILSON”

Julia Fregnani Abdon dos Santos


N° USP 7280992 – Noturno

São Paulo
2010
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SUMÁRIO

1. Introdução ........................................................................ 4
2. Ambientalização ................................................................ 4
2.1 Infância........................................................................ 5
2.2 Adolescência ................................................................ 6
2.3 Maturidade .................................................................. 6
2.4 Decadência................................................................... 6
3. William Wilson ................................................................... 7
3.1 Personagem................................................................. 7
3.2 Narrador.................................................................... 10
4. O Duplo e sua função no conto.......................................... 11
5. Bibliografia....................................................................... 13

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INTRODUÇÃO

Edgar Allan Poe traz em seu conto “William Wilson” a história do personagem
de mesmo nome que se vê atormentado por seu homônimo – cujo caráter é o oposto
do seu – insistente em fazê-lo recuar em suas tentativas de levar vantagem sobre
outros. Tal homônimo, porém, passa por estágios de evolução, dos quais sempre saia
cada vez mais similar – fisicamente – com William. Prestes a morrer, Wilson relata
eventos relacionados à esse Duplo, numa tentativa de chegar à uma conclusão a
respeito do mesmo. Neste estudo analisaremos mais profundamente os aspectos e
possibilidades que podem ser levantadas da narrativa de Poe.

2. AMBIENTALIZAÇÃO

O tempo cronológico do conto pontua-se pelo crescimento do narrador,


que pode ser comprovado com as várias referências que ele mesmo nos
apresenta, como em “à medida que avançava em anos [...]”. A fim maiores
definições do espaço em que ele ocorre, o dividiremos em quatro momentos:
Infância, Adolescência, Maturidade e Decadência, onde se dá maior destaque
no primeiro e no último momento, uma vez que em um o problema é
desencadeado, e no outro ele tem fim. Os momentos são marcados pelas
intervenções do Duplo na vida de William, que acabam por traçar o caminho
seguido por ele até seu estado de quase-morte.

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2.1 Infância

O primeiro momento do conto é delimitado pela estadia de William no


internato. Enquadrando-se já citada na construção binária da narrativa, a
definição que recebemos do ambiente em que nosso narrador vive é
contraditória em vários pontos, como pode ser comprovado nos trechos a
seguir:

“uma grande mansão elisabetana, cheia de vastos


aposentos, situada em uma brumosa aldeia na Inglaterra,
na qual havia grande número de árvores antigas e
retorcidas e cujas as casas era todas extremamente
velhas”

“[...] um lugar de sonho, capaz de tranquilizar a maior


parte dos espíritos”

De acordo com tal descrição, observamos que o ambiente em si já é


propenso ao acontecimento da fantasia, como é colocado na presença dos
termos “brumosa” e “lugar de sonho”, como tantos outros que aparecer com o
decorrer deste momento do conto.

Quando passamos para a descrição da mansão em si, a impressão que


temos é a de uma prisão. Além de o próprio William estabelecer a comparação
(“Esta fortificação, que lembrava os limites de uma prisão, estabelecia as
fronteiras do nosso domínio”), outros elementos apontados no ajudam a
construir uma imagem aterrorizante da escola, como sua velhice e mau estado
de conservação e seus “corredores tortuosos, em suas incompreensíveis
subdivisões”, contrapondo-se ao seu aspecto de sonho e os sentimentos que
ela desperta no já decadente William.

No aspecto emocional, sua infância é marcada pela constante presença


de seu homônimo e as provocações que William diz receber do mesmo. Este
assunto, porém, será tratado mais adiante em outro tópico deste estudo.

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2.2 Adolescência

O segundo momento do conto se inicia com a fuga de William, após


cinco anos, de seu velho internato e seu ingresso na Academia de Eton. Sem
maiores descrições (“Não desejo, entretanto, registrar o curso de meu
miserável desregramento neste local”), temos aqui apenas a confirmação do
fato alertado pelo William decadente no início do conto: o envilecimento do
jovem. Pela primeira vez desde o internato, o Duplo se faz presente, para terror
de William.

2.3 Maturidade

No penúltimo momento do conto, William está em Oxford, mais


desregrado do que nunca. Aqui, o encontramos em um dormitório da
universidade, prestes a aplicar um de seus golpes em um colega seu, quando
seu Duplo o desmascara, trazendo desgraça para a vida de William, e levando-o
a expulsão da universidade.

2.4 Decadência

A decadência de William dá-se no momento em que ele percebe que já


não conseguiria mais aplicar golpes, uma vez que o Duplo sempre aparecia
para impedir seu êxito. Após viajar pela Europa na tentativa de livrar-se de tal
juiz e conseguir, novamente, ganhar a vida como deseja, encontra-se com ele
pela última vez. A cena final do conto acontece em pleno baile de máscaras,
que termina em um duelo de espadas em que William acerta seu adversário e
acaba por perceber que ele, afinal, jamais existira, e era apenas uma
manifestação de seu alter-ego.

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3. WILLIAM WILSON

3.1 Personagem

O narrador-protagonista deste conto de Edgar Allan Poe é atormentado


por um mal que o persegue a vida inteira: a existência de um Duplo seu que o
persegue e está sempre disposto a intervir em seus planos maléficos. Em seu
momento de morte, faz uso de uma quase confissão na tentativa de conseguir
respostas a respeito do surgimento de seu Duplo, que se torna o maior mistério
de sua vida.

O primeiro contato que se estabelece entre William e seu Duplo é em


seu internato: logo a presença de um garoto de mesma idade e mesmo nome
chama a sua atenção, negativamente. O motivo desse desgosto inicial é
explicado no conto antes mesmo de seu homônimo aparecer: o nome de sua
família é motivo de desgosto para William. O próprio nome com o qual ele se
apresenta no conto é fictício, uma vez que ele declara que o seu verdadeiro “já
foi por demasiado tempo objeto de zombaria, motivo de horror, até mesmo
abominação para toda a família” (Poe p115). A probabilidade de ter que escutá-
lo o dobro das vezes necessárias já o faz infeliz antes mesmo de reparar as
outras similaridades que tem com o garoto.

Com o decorrer da narração, entretanto, mais de seu homônimo é


revelado. A antipatia que William nutre por ele assume as proporções de
rivalidade de acordo com que o próprio William se acha sendo alvo de cópias e
ridicularizações por parte do garoto, que se faz sempre presente no seu
cotidiano.

Já nesta pequena fração da história, podemos levantar alguns tópicos a


respeito da personalidade do nosso narrador-protagonista. Comecemos pela
escolha do seu nome fictício: William pode ser interpretado como um anagrama
da frase “Am I Will”, estrutura interrogativa da língua inglesa – original do
conto – que significa “Eu sou Will?” no português brasileiro. Esse pequeno

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detalhe já nos mostra a incerteza que o William carrega a respeito da própria
personalidade. Seu segundo nome, Wilson, também trás um significado
subliminar: Will’s son (“filho de Will”), seu significado literal, faz tanto uma
ligação de William com seus familiares uma vez que adotamos “Will” como
nome próprio. Podemos confirmar essa ligação com o trecho a seguir: “Sou
descendente de uma família cujo temperamento imaginativo e facilmente
excitável notabilizou-a em todas as épocas; na minha primeira infância, já dava
evidências de que havia herdado plenamente o caráter familiar”, que também
já explica os motivos de zombaria do nome familiar acima citados.

A respeito de sua relação com seu Duplo durante seu período no


internato, William se mostra extremamente contrariado. Em sua visão, está
sendo alvo de constantes provocações dele, que inclusive passa a imita-lo,
como vemos no trecho “era bastante fácil copiar a maneira como me vestia;
meu andar, modos e maneirismos foram imitados sem a menor dificuldade; e,
apesar do seu defeito de elocução, até mesmo minha voz foi dominada por
ele”. Esses detalhes, porém, para seu espanto, passavam despercebidos aos
olhares de seus colegas.

Ao dar continuidade a leitura, podemos levantar outros motivos da


inimizade entre ambos, que também destacam aspectos do caráter de William.
Um deles é a necessidade que ele sente de se destacar entre os colegas como
um líder e se sente ameaçado pelo Duplo, que parece lidar com tal posição
social com muito mais facilidade que o próprio William. A partir desse dado,
podemos estabelecer uma comparação com o momento histórico da narração,
onde a burguesia tentava ascender num ambiente em que os títulos de nobreza
ainda eram necessários para o alcance de um status social.

Mais um fator determinante, na concepção de William, era a


preocupação que o Duplo desprendia em direção à ele, sempre disposto a
aconselhar nos momentos em que ele parecia estar prestes a agir de modo
errôneo. Isso o fazia se sentir diminuído perante o Duplo, já que era uma
evidência de que ele não tinha discernimento o suficiente para lidar com

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sozinho com as situações cotidianas, além de destacar a diferença de caráter
entre ambos, com um William rancoroso e um Duplo disposto a ajudar.

A semelhança entre eles, em certo momento, chega ao ponto de


assustar William, que foge da presença do homônimo, na esperança de não só
deixar para trás o concorrente, mas também a influência que acabava sofrendo
dele. Uma vez fora de seu alcance, William se rendeu ao mau-caráter.

Quando seu Duplo se faz presente novamente, em meio à uma festa


desregrada, já no novo colégio de William, o pega de surpresa. Na confusão do
álcool, não conseguiu entender a presença do antigo rival ali. Este, por sua vez,
apenas pronuncia o nome de ambos e vai-se embora. O evento causa
estranhamento em William, que já não consegue afirmar com certeza a
veracidade do acontecido (“Embora este evento tivesse provocado um vivo
efeito sobre minha imaginação [...]”).

Em Oxford, prestes a concluir um novo golpe, aparece novamente o


Duplo, pronto a impedi-lo. Desmascarado, William confessa seu crime e é
expulso da universidade. Após isso, sua viagem pela Europa se mostra um
fracasso, uma vez que toda vez que tentava ludibriar alguém, o Duplo o
impedia. Esses eventos acabaram por despertar o verdadeiro ódio de William
pelo Duplo, tornando-o não só mais transtornado e infeliz, mas também mais
suscetível a outros ataques de sua imaginação. O reencontro dos dois, já
previsto por ele, adquire um novo padrão, já que sua ira é tamanha que
abandona sua posição de aceitação em relação às ações de seu sósia e se torna
agressivo, o que gera o primeiro – e único – diálogo direto de William para seu
Duplo, diálogo esse que acabou com o ápice do transtorno do narrador, quando
esse mata o outro. Só nesse ponto da história temos a confirmação de que o
Duplo jamais tinha sido uma pessoa de fato, e ao mata-lo não tinha apenas
acabado com a única esperança de se tornar um homem íntegro, como
também com a chance de desvendar, por certo, esse mistério.

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3.2 Narrador

Ao afirmar ter herdado a mente imaginativa de sua família, William já


nos alerta de que a narrativa será parcial e que não devemos confiar fielmente
nos dados que ele nos expõe, reafirmando sua posição de narrador-
protagonista do conto. Todas as informações que nos são passadas são vistas
apenas pelo olhar não-confiável, de um homem transtornado e de caráter
duvidoso, já na sombra da morte, que ainda não é capaz de entender esse
episódio estranho que acaba por trazer sua ruina. Apesar de sua posição de
narrador-protagonista, é onisciente a respeito dos acontecimentos, uma vez
que eles ocorreram no passado. O que não o descaracteriza de sua posição,
aqui, é encenação de suas emoções datadas nos acontecimentos explicitados
no conto, a fim de, desse modo, conseguir captar toda a essência dos
acontecimentos e melhor compreender o desenrolar dos fatos, sem se
precipitar ou expor o final aos leitores antes do tempo.

A narrativa se dá em uma construção binária, levantando sempre


aspectos contrastantes de um mesmo objeto ou situação. Ao mesmo tempo em
que enxergamos a imagem de uma prisão, no momento em que William está a
descrever o internato onde conheceu seu Duplo, ele ainda ressalta que o lugar
tinha “aspecto de sonho”. A admiração e o temor estão sempre presentes
quando estão em cena as autoridades estudantis, na biblioteca do lugar. Até
mesmo o início da relação entre ele e seu Duplo, no internato, é um misto de
rivalidade e amizade, e assim se dá por toda a narrativa, criando uma espécie
de reflexo da realidade versus a imaginação, ambientes, respectivamente, de
William e seu Duplo.

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4. O DUPLO E SUA FUNÇÃO NO CONTO

A primeira observação a ser feita, após a leitura do conto, é de que o


personagem do Duplo foi sendo construído de acordo com o andamento da
narração. Seu eu-físico vai tomando forma de acordo com sua importância na
história de William, quase que acompanhando seu desenvolvimento.

Sua primeira descrição é a de um garoto com mesmo nome e nascido na


mesma data que William. Um pouco mais adiante temos um Duplo mais
complexo: já possui uma forma física – a mesma de William – e uma voz – o
eco da de William. O que temos de sólido a respeito de seu comportamento é
pouco, uma vez que todos os eventos da narrativa passam pela distorção de
William, então o único traço que devemos considerar aqui é o instinto quase
protetor que este tem por William.

O Duplo segue William despercebido pelos seus colegas durante quatro


anos, até que esse decide visita-lo em seu quarto. O ambiente fechado com
pouca iluminação – que dificulta a visão e o torna propenso ao sentimento de
estranheza – é perfeito para que a mente de William o iluda novamente,
fazendo-o ver alguém com sua mesma feição.

Na sua nova escola, em uma festa libidinosa, William pensa ver seu
antigo rival desaprovando-o. Aqui percebemos que há um padrão em suas
aparições – ambiente fechado e pouco iluminado, assim como no quarto do
Duplo, na noite em que William resolve fugir do internato – como também
notamos o desenvolvimento do personagem. A sombra que até agora não teve
nenhuma participação direta no conto, não só chama a atenção de William
como também ao fazer isso demonstra que o antigo sussurro que tinha como
voz se fortaleceu.

O que William não chega a considerar é que ele mesmo é a variante que
define as aparições de seu Duplo. Como desempenha o papel de consciência, o
Duplo surge nas ocasiões em que o próprio William sente-se mal a respeito de
suas ações, fazendo-o admitir seus crimes antes de ter a oportunidade de

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finalizá-los. Por exemplo, no evento em Oxford, em que a situação do jogo de
cartas estava insustentável, chagando a despertar a piedade de todos no
recinto, o Duplo surge (dentro do mesmo padrão de ambiente fechado com
pouca iluminação) e o golpe é desmascarado. William dá sinais de relutância
em dar continuidade ao plano mesmo antes do Duplo aparecer, como podemos
comprovar com o trecho “Qual deveria ser agora minha conduta é difícil dizer
[...] até mesmo confessarei que um peso intolerável de ansiedade foi retirado
por um breve instante de sobre meu peito pela súbita e inesperada interrupção
que se sucedeu”. A aparição do Duplo nesse momento confirma a teoria que
levantamos no começo do tópico: o Duplo é um ser em evolução. Se na sua
última cena, tinha apenas proferido duas palavras, agora faz uma entrada
triunfal no ambiente e desenvolve um discurso acusador.

A partir desse caso, porém, William passa a enxergar seu sósia em todos
os momentos em que a corrupção não parecia ser a escolha certa para ele, que
faz com que ele desista, “arruinando” seus próprios planos.

Quando a situação se torna insustentável, e ele precisa urgentemente de


um culpado a quem desforrar, o Duplo aparece novamente. Após ser atacado
por William e ter sua não-existência no mundo real comprovada, o Duplo nos
aproxima de uma conclusão, com sua fala:

“– Você venceu e eu me rendo. Todavia, doravante, você


também estará morto – morto para o Mundo, morto para
os Céus e morto para a Esperança! Era em mim que você
existia – e, na minha morte, veja por esta imagem, que
também é a sua, quão completamente você assassinou a
si mesmo!”

A partir disso, podemos considerar a morte do Duplo como a morte da


Moral que, mesmo que de forma alegórica, ainda existia em William como seu
alter-ego.

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5. BIBLIOGRAFIA

POE, Edgar A. A carta roubada e outras histórias de crime e mistério. Porto


Alegre, L&PM Pocket, 2010.

BENJAMIN, Walter. Magia e técnica, arte e política. Editora Brasiliense, 1994.

LEITE, Ligia Chiappini Moraes Leite. O foco narrativo. São Paulo, Editora Ática,
1993.

FREUD, Sigmund. Edição Standard das obras completas de Sigmund Freud. Rio
de Janeiro, Editora Imago, 1996.

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