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O grupo

SÓ PORQUE A VIDA É O
CAMINHO
Quando a gente pensa em tudo que teve que acontecer para que as coisas acontecessem do jeito
que são, é que nos damos conta de que a vida é um incessante caminhar.
Caminhar de muita gente que se cruza numa estrada longa, que conectam mundos individuais e
transformam esses indivíduos em coletivos, que se transformam em histórias que se transformam em
memórias que se transformam em eternidade, que se transformam em humanidade.
O que somos se não as infindáveis histórias eternizadas, criando outras histórias para serem
copiladas em outrem?
Aquilo que a gente escreve, vivendo, na história da vida se transforma em eternidade que se
transforma em gente, que se transforma na forma como construimos esse mundo.
Porque é gente que constrói o mundo.
E gente constrói o mundo fazendo aquilo que de mais simples e complexo pode existir, gente
constrói o mundo tentando ser.
Ser humano em adjetivo exige uma incessante dose de ser humano em verbo.
Para se tornar humano em adjetivo é preciso de verbo, errar, sofrer e questionar-se, amar e odiar,
ser amado, falhar, ser humano exige coragem para decepcionar-se, abandonar e sobreviver ao
abandono, ser cruel e ser bom, ser egoísta, ser altruísta, ser humano exige tentativa.
Debruçar-se em cima de si mesmo e construir o que pode ser feito de melhor, expor-se, mostrar-
se, fazer-se, ser humano é amar-se "apesar de" e "não se…”
Ser humano é ser indivisível no paradoxo de doar-se. Aprender que doar de si não significa
esvaziar-se, se não, crescer em si quando se dá o que pode.
E como saber o que de mim pode ir que aumenta o outro e não me diminui? Quando estamos
acostumados a diminuir o outro e aumentar de si?
Não há como saber se não oferecer-se em sacrifício para si mesmo na tentativa de sair daqui
diferente do que se entrou.
Não há como saber e compreender sem viver.
Só se aprende ser humano, sendo.
E sendo se constrói o mundo.
E tem gente que nos deu na medida que nos aumenta e na proporção que lhes cresce nessa
medida que ainda não é tangível, mora nela, aquilo que de exato habita em nós, o amor.

Muito Obrigada, Muito obrigado Daniel e Gudrun.


A Escola do Altruísmo faz morada na casa do pai, no colo da mãe e fez de nós irmãos e irmãs.

 Estratégia Interna A
Palestra I - Formação 1

PORQUE UMA
FORMAÇÃO
DANIEL BURKHARD
Daniel Burkhard

POR QUE UMA FORMAÇÃO?


O altruísmo possui dois componentes fundamentais:
a) O componente espiritual com uma envergadura cósmica, que dá sentido ao altruísmo e à
existência humana sobre a terra.
b) O componente social. O altruísmo sempre inclui o outro e nesse sentido ele é um fenômeno
eminentemente social.

Do meu mestre Bernard Lievegoed com o qual, pela graça do destino tive a oportunidade de
conviver durante dois anos no NPI*, ouvi as seguintes palavras:
Da Antroposofia haurimos as ideias e ideais espirituais.
No mundo sofremos junto com a Humanidade.
É nossa tarefa traduzir e transformar esses ideais eternos em ideias socialmente compreensíveis e
realizáveis, sem nos tornarmos missionários. **
A partir disso, quero concluir que a Escola do Altruísmo concentra a sua missão e o seu esforço
sobre esses dois pilares: a inspiração espiritual e a atuação social. A atuação social compreende todos
os fenômenos e formas da convivência humana.
Recebi várias vezes a pergunta: Por que mais uma formação, se já existem tantas outras
formações profissionais antroposóficas?

Tentativa de resposta:
A ideia da formação profissional nasceu junto com a ideia da Escola do Altruísmo.
Precisamos lembrar que todas as formações antroposóficas existentes têm como objetivo a
formação específica em determinada área da atividade humana.
O professor para a educação Waldorf.
O médico para a medicina antroposófica, que deve ampliar a medicina oficial.
O agricultor para a Agricultura Biodinâmica.
O terapeuta artístico para a terapia com cores, sons, formas etc.
O consultor biográfico para reorientação da biografia individual.
Todos têm o foco em um campo específico, com programas de formação.
O Social penetra todos os campos e, conforme o processo de individuação vai acontecendo na
humanidade, terá uma importância cada vez maior. Os profissionais das outras áreas têm geralmente
pouca consciência dos fenômenos sociais. A maioria das iniciativas antroposóficas e não antroposóficas
que fecham, falham por problemas sociais. Nesse âmbito, estamos apenas no início de um acordar
para a importância que os fenômenos sociais desempenham na convivência humana. Antigamente,
essa convivência acontecia naturalmente, conforme regras, costumes e tradições. Hoje todos esses
elementos perderam o seu significado e a convivência humana tornou-se o problema número um da
humanidade.
Utilizando o conceito clássico de "Aprendiz > Profissional > Mestre", enxergo três estágios de
formação profissional. É importante que um profissional habilitado em um determinado nível tenha
absorvido os níveis anteriores.
Os níveis profissionais seriam os seguintes:
1. Nível do aprendiz (conhecer os instrumentos e aprender a utilizá-los)
Corresponde ao nível de formação de consultores internos da Adigo, com aproximadamente 7
módulos de 3 ou 4 dias, que oferece os instrumentos básicos para a atuação no social e uma
habilitação como monitor ou algo parecido. Entende-se que quem já promove seminários de
formação, deve continuar com a atividade, que será reconhecida pela Escola do Altruísmo, quando
corresponde qualitativamente a um nível conveniente e introduz aspectos explícitos do altruísmo no
programa.
2. Nível do profissional (tornar-se hábil em manejar com destreza os instrumentos e entender a origem
deles).
É uma formação que corresponde, mais ou menos, ao seminário de aprofundamento
antroposófico da Adigo ou à formação biográfica com habilitação de Facilitador de Transformação
Integrada ou algo parecido. Também aqui formações eventualmente existentes serão reconhecidas
para a habilitação profissional quando atenderem às exigências qualitativas e introduzirem aspectos
explícitos de altruísmo no programa.
3. Nível do mestre (Tornar-se espiritualmente criativo)
É uma formação que não existe ainda, para pessoas que queiram aprofundar-se na Ciência
Espiritual e trazer ao mundo soluções inéditas e criativas que somente podem emergir de um
conhecimento espiritual. Isso é um processo contínuo e sem fim. O mestre entra em uma jornada de
auto educação permanente.
O aluno percorre o seu desenvolvimento profissional nas duas colunas conforme mencionado
anteriormente: a coluna espiritual e a coluna social.
Vide esquema abaixo.
O aluno pode assimilar os modelos como instrumentos de trabalho e utilizá-los sem uma maior
preocupação com a origem destes instrumentos. (coluna à direita) Com certa habilidade pessoal, ele
pode conseguir clientes e ter bastante sucesso. Mas o grande perigo é que pelo fato de não se
interessar pela origem dos instrumentos, ele começa a introduzir todo tipo de modismos ou outros
elementos paralelamente, às vezes até contraditórios com a origem dos modelos, fazendo um angu de
pseudo-espiritualidade e dando a tudo isso o nome de Antroposofia, o que pode ter um efeito
negativo sobre a própria Antroposofia. Sendo que não podemos evitar esses fenômenos, somente nos
resta o caminho de convidar o responsável para participar de uma formação que se baseia nos
arquétipos, dos quais os instrumentos são derivados. Pelo crescimento da consciência, ele tem a
possibilidade de corrigir os desvios por iniciativa própria.
No outro caminho que seria o caminho regular, o aluno procura adequar os seus conhecimentos
antroposóficos ao nível de sua atuação profissional. (coluna à esquerda)
A alma da consciência ainda é uma grande desconhecida e vai exigir novas ações que ainda nem
conseguimos imaginar. Tornar-se criativo a partir do espírito transformando ideais espirituais em
objetivos terrestres é o grande desafio.
Tudo isso apenas será possível se agirmos realmente com altruísmo, sem preconceitos, sem
simpatias e antipatias, retendo qualquer julgamento e deixando os fenômenos se expressarem.
Não é todo dia que descobrimos um novo instrumento. Às vezes, precisamos viver com uma
pergunta durante longo tempo para um dia sermos maduros para podermos receber o “presente”.
Estou visualizando grupos de “mestres” espalhados pelo Brasil afora que se reúnem quatro vezes
por ano, por três dias, para troca de ideias e experiências. Cada grupo escolheu um projeto de estudo
num esforço constante de inovação.
Em seguida, quero apresentar um caminho concreto que poderia nos conduzir para dentro de
uma formação:
Me lembro das seguintes afirmações de Rudolf Steiner:
▪ Somente percebo aquilo para o qual possuo um conceito, o restante passa despercebido por
mim.
▪ Somente posso reconhecer no outro aquilo que tenho dentro de mim.
▪ A sina do antropósofo é atuar. (eu diria, a sina do micaelita) ***
Com estas três afirmações de Rudolf Steiner na minha cabeça, surgiu a proposta para fazer uma
tentativa de construir um fio orientador que possa nos conduzir para dentro dos conteúdos do
programa de Formação para Facilitadores de Transformação Integrada. Trata-se da apresentação de
uma lista de modelos que foram inspirados por Rudolf Steiner e desenvolvidos por alunos dele, ao
longo de décadas, a partir da Ciência Espiritual e de experiências concretas no trabalho e na vida.
Arquétipos são abrangentes e podem ser aplicados em muitas situações.
Os modelos derivam dos arquétipos e são mais específicos para o entendimento de certos
fenômenos e possibilidades de atuação. Os mesmos fenômenos podem aparecer nas mais variadas
situações.
Podemos então constatar o seguinte processo demonstrado abaixo:

Através do estudo da Antroposofia, a pessoa traz para a sua consciência os arquétipos que já
existem dentro de todos os seres humanos em seu inconsciente.
Esse estudo lhe dá as condições para reconhecer e entender imediatamente os modelos que
outras pessoas já criaram através de um processo imaginativo a partir da visão antroposófica.
Ao observar ou vivenciar uma determinada situação, que talvez seja repetitiva ou não, o
profissional, após algum treino, consegue identificar imaginativamente o modelo e através deste, as
forças atuantes dentro da situação ou do contexto no qual a situação está inserida.
Parece-me que estamos realizando uma máxima de Steiner, quando ele diz: "Não existe matéria
sem espírito e não existe espírito sem matéria".
No processo analítico:
▪ observamos determinada situação achando os fenômenos
▪ criamos uma representação mental
No processo imaginativo:
▪ construímos ou escolhemos o modelo
▪ achamos automaticamente o arquétipo correspondente.
Pela minha experiência, a realidade vai nos levar para um caminho que combina as duas direções.
Muitas vezes, usaremos o modelo, desde o início, como lente de observação.
A meu ver, a estratégia de ensinar com ajuda de modelos tem várias vantagens:
▪ O aluno recebe logo um conteúdo da ciência espiritual que ele pode aplicar na prática como
ferramenta. Ele ainda não entende o sentido mais profundo do modelo, mas recebe uma
ferramenta na mão com a qual ele pode treinar e atuar dentro de certos limites e sentir a segurança
que a posse de uma ferramenta com qualidade arquetípica lhe confere. Toda a sua eventual
experiência pode ser aproveitada.
▪ Outra vantagem seria que o aluno, em seu processo de formação é conduzido para o
“Olimpo” arquetípico a partir da vivência concreta, podendo enxergar em cada passo a relação do
modelo com a realidade vivenciada.
▪ Outra vantagem seria que o aluno pode segurar-se numa corda de segurança para galgar o
topo da montanha, onde se encontra o arquétipo, sem perigo de desvios, tombos ou quedas.
▪ Podemos separar os modelos em dois tipos: estruturais e temporais.
Vou escolher dois exemplos concretos da nossa área de atuação (social)

Primeiro exemplo:
Tentem visualizar o nosso modelo de quatro níveis numa organização viva.
Recursos, processos, relações e identidade.
O consultor, que tem esse modelo profundamente incorporado na sua consciência, vai fazer a
seguinte experiência:

Em uma reunião de trabalho um grupo discute diversos problemas de qualidade dos produtos.
Provavelmente o grupo vai procurar as causas e as soluções para estas falhas, no nível de pensamento
em que apareceram. (recursos)
O consultor que acompanha e observa o grupo pode chegar rapidamente á seguinte conclusão:
⋅ O problema acontece por falta de controle do processo.
⋅ O processo está falhando por falta de uma comunicação adequada.
⋅ A comunicação está falha por causa de conflitos pessoais.
⋅ Os conflitos acontecem por falta de uma política clara.
Através de algumas perguntas bem colocadas e algumas explicações, o consultor pode dar uma
enorme ajuda, evitando horas de dicussões infrutíferas do grupo.
1Segundo exemplo:
Tentem visualizar o método de solução de problemas em grupo.
Como observador do trabalho em grupo o consultor visualiza imediatamente: conteúdo,
interação e procedimento e as fases do procedimento: Planejamento, formação de imagem, fase do
julgamento, fase da decisão. Através de algumas perguntas adequadas podemos conscientizar o
grupo das leis que regem o fluxo de uma reunião.
Com esquemas e modelos traduzimos conhecimento espiritual para o pensar racional, para
aplicá-lo em situações concretas. Trazemos espírito para dentro da matéria para ordená-la de acordo
com conceitos espirituais. Através deles podemos entrar logo em ação no mundo sem ter que esperar
que nos tornemos iniciados.

Modelos estruturais: Mundo do Pai

1. Bimembração
a) Polaridades
b) Masculino x Feminino
c) Pensar analítico x Pensar criativo
d) Arimã x Lúcifer
e) etc, etc.

2. Trimembração (Trindade)
a) Corpo, Alma, Espírito
b) Pensar, Sentir, Querer
c) Conteúdo, Interação, Procedimento
d) Vida espiritual, Social, Econômica, (Organização social)
e) Os três subsistemas da organização

3. Quadrimembração (Genesis)
a) Quatro elementos
b) Quatro temperamentos
c) Quatro reinos da natureza
d) Quatro éteres
e) Quatro corpos do homem
f) Modelo estrutural

4. Heptamembração (Sistema solar)


a) Sete Planetas
b) Sete atitudes anímicas
c) Sete corpos do Homem

* NPI quer dizer NederlandsPedagogischInstituut fundado em 1954 pelo Prof. Bernard Lievegoed em Zeist na Holanda
** Missionário é quem dá respostas para perguntas que não foram feitas.
***Micaelitas são pessoas que se sentem trabalhando de acordo com o espírito do Tempo, Micael, que desde 1879 d.C.
conduz os destinos da humanidade. A sua regência tem duração de aproximadamente 350 anos, quando será substituído
por Oriphiel. Existe muita literatura antroposófica a respeito.
d) Sete tipos de sombra
e) Sete níveis de consciência
f) Sete níveis da Organização
g) Sete estágios da evolução planetária
h) Sete processos vitais
i) Sete processos de aprendizado

5. Eneamembração (hierarquias)
a) Nove hierarquias de seres espirituais
b) A eneamembração do Ser Humano

6. Dodecamembração (Zodíaco)
a) Doze signos
b) Doze pontos de vista
c) Doze sentidos
d) Doze virtudes

Modelos processuais: (Mundo do Filho, temporal)


a) Passado x Presente x Futuro
b) Caminho de análise x Caminho da decisão
c) Unicidade x diferenciação x integração
d) Processo de solução de problemas
e) Processo decisório
f) Modelo estratégico de desenvolvimento
g) A busca do caminho do meio
h) Escalação de conflitos e sua solução
i) As fases de desenvolvimento do Ser humano
j) As fases de desenvolvimento do grupo
k) As fases de desenvolvimento da organização
l) As fases de desenvolvimento da consciência
m) As fases de desenvolvimento da Humanidade
n) Caminho da instrução e caminho da descoberta

É, sem dúvida, uma paleta grande, mas não precisamos aprender tudo de uma vez. Podemos
estabelecer prioridades para o aluno poder começar com sua atuação o quanto antes. Isso explica a
divisão da formação em três níveis.

 Estratégia Interna B
Palestra II - Formação 2a

O NÍVEL DOS
PROCESSOS
DANIEL BURKHARD
Daniel Burkhard

O NÍVEL DOS PROCESSOS


Continuando a minha primeira palestra, na qual tentei mostrar as razões para a formação de
Mediadores no social, quero apresentar hoje uma possível ideia geral sobre o nível dos processos
que forma o fundamento de toda a nossa atuação promotora do desenvolvimento humano. Todo
desenvolvimento é um processo.

O foco da formação é o despertar da humanidade para o fato de sermos uma grande comunidade em
constante desenvolvimento, que em conjunto habita este planeta em busca de sua realização.
Podemos encarar o planeta terra como a grande escola da humanidade.

A escolha deste foco desperta naturalmente as seguintes questões na nossa consciência:

Quem somos?

De onde viemos?

Onde estamos?

Para onde vamos?

Que sentido tem a nossa existência?

Conforme a nossa consciência vai evoluindo, essas cinco questões se tornam cada vez mais existenciais
para a humanidade e dependendo das respostas que damos a elas, escolheremos os caminhos para o
futuro da humanidade que pode ser radiante ou terminar melancolicamente em um cemitério deserto,
ressecado e sem vida, coberto de engenhocas destruídas e sem qualquer utilidade. Na medida em que
o nosso processo de individuação vai progredindo, as cinco questões acima emergem também na
alma de cada ser humano individualmente e as respostas que cada um encontra para si têm uma
profunda influência sobre a sua biografia e o seu destino. Provocar estas perguntas e estimular o
processo de reflexão para achar repostas criativas e produtivas é um dos objetivos da nossa formação.
A visão é ampla e só nos resta seguir o velho conselho sábio: Pensar globalmente e atuar localmente.

No esquema abaixo vamos dar um primeiro conteúdo relacionado com as cinco perguntas e com o
trabalho da escola do altruísmo:


Por que uma formação - Daniel Burkhard

Ao falar de passado - presente – futuro, com relação ao nosso trabalho, consideramos um espaço de
tempo que se estende para o passado até a época grego romana e para o futuro até o fim da nossa
época cultural que teve inicio em 1413 e se estende até 3573. Anterior a época grega, o ser humano
tinha um pensar diferente do nosso e depois do fim da nossa época cultural terá outro pensar já mais
evoluído do que o nosso.

Em seguida vamos dar uma olhada mais de perto para todas estas caixinhas do esquema.

As perguntas nas caixinhas 1; 5; 6; 7 e 20 recebem uma grandiosa resposta através da leitura de dois
livros de Rudolf Steiner: A crônica do akasha GA 11* e A ciência oculta GA 13** ambos traduzidos e
editados pela Editora Antroposófica, São Paulo. As duas obras descrevem o processo de evolução do
cosmo, da terra e da humanidade deste os primórdios até o fim dos tempos. Trata se da visão espiritual
de um iniciado moderno. Esta visão coincide com os fenômenos descobertos pela ciência moderna,
porém difere na sua interpretação. A leitura destes dois livros não é condição para a compreensão
desta palestra, porém o seu estudo traz uma enorme ampliação de uma visão global.

Caixinha 5: De onde viemos?

A pergunta que se relaciona com o nosso passado - de onde viemos? - é de uma importância
fundamental. Faz uma enorme diferença se eu trabalho com um grupo, cujos participantes acreditam
serem descendentes do macaco e de terem alcançado o topo de sua evolução ou se trabalho com um
grupo cujos participantes se enxergam em um constante processo de evolução com perspectivas de
desenvolvimento infinitas em direção ao ser humano arquetípico verdadeiramente livre. A resposta que
damos a essa pergunta define, em grande parte, a resposta para a última das perguntas: Que sentido
tem a nossa existência? Questão que será comentada mais adiante.

Caixinha 6: Onde estamos?

Quando falamos do presente falamos do aqui e agora, falamos de presença de espírito, de


convivência humana, de confiança mútua, de encontro humano, de amor, de tolerância, de altruísmo,
de verdadeiro interesse mútuo. Com relação ao presente já existe uma boa consciência geral, mas
entre a consciência e a realização existe um vale profundo a ser atravessado.

Pelo fato da escola do altruísmo trabalhar no social, o presente é a sua área de atuação.

Tudo que acontece no social acontece no momento presente. A consciência das pessoas normalmente
é orientada para o passado com os seus conhecimentos, as suas lembranças e feridas anímicas ou para
o futuro com as suas preocupações e esperanças. Mas o verdadeiro encontro entre seres humanos
apenas é possível no presente. E aqui existe uma grande tarefa para a escola do altruísmo atuar
conscientizando, exercitando e desenvolvendo uma competência social. Todas as mudanças somente
podem acontecer no presente. No passado já se tornaram fatos, no futuro ainda são expectativas.

Caixinha 7: Para onde vamos?

Quanto ao futuro estamos apenas tateando, tentando entender o pensar do coração, que será o
pensar do futuro. Um verdadeiro altruísmo que acontecerá naturalmente depende do pensar do
coração. O pensar do coração deverá emergir de nosso pensar cerebral claro e transparente, que
conquistamos num longo processo de evolução. O desenvolvimento do pensar do coração passa
necessariamente pelo pensar cerebral e representará o próximo estágio da evolução da humanidade.

As caixinhas 8, 9 e 10 descrevem o processo de evolução do pensar humano no passado, presente e


futuro.

Caixinha 8: Pensar cerebral

O pensar dominante na cultura atual é o pensar intelectual, racional, lógico que sustenta a ciência
natural. Ele foi inaugurado pelos filósofos gregos. O pensamento de Aristóteles, que vivia no quarto
século antes de Cristo forma a base para o pensamento moderno. Este pensamento já alcançou o seu
ponto culminante. O pensamento moderno cientifico não consegue dar respostas produtivas para a
questão social, as questões da alma humana e a questão espiritual da humanidade.

Caixinha 9: Pensar holístico

Um passo importante no desenvolvimento do pensar humano foi dado com o aparecimento do pensar
holístico, que é uma denominação ampla para diferentes estágios de pensamento. Quero mencionar
três, que a meu ver pertencem a esta denominação e que mostram entre si também um processo de
evolução do pensamento humano.

São eles:

a) O pensar sistêmico

b) O pensar orgânico

c) O pensar em imagens

a) O pensamento sistêmico cria o contexto dentro do qual um fenômeno ou um problema estão


inseridos. Isso significa um grande progresso comparado com o pensamento cartesiano. Não olhamos
mais para um problema isoladamente, mas olhamos para o todo dentro do qual um fenômeno ou um
problema se apresenta. A meu ver, a construção de redes tem como base o pensamento sistêmico.
Estamos trabalhando no espaço.

b) O pensamento orgânico começa a ser necessário, quando queremos compreender e conduzir


processos sociais ou processos de desenvolvimento. Para o pensar orgânico um grupo, uma família,
uma comunidade ou uma organização são organismos vivos que tem uma identidade que pensa, sente
e age e tem uma história. Tudo tem a ver com tudo. É como no corpo humano: Uma dor de dente, um
problema no fígado ou uma inflamação da garganta afetam o organismo todo.
c) O pensamento em imagens é a última manifestação do pensar holístico (caixinha 9) e forma o pilar
de uma ponte que existe para o pensar do coração (caixinha 10 ). O pilar do outro lado da ponte é o
pensar imaginativo, que é o primeiro estágio do pensar do coração. A ponte precisa ser atravessada
para chegar ao pensar imaginativo. Precisamos fazer uma diferença entre os dois. O pensar em
imagens ainda se encontra no lado da pensar cerebral. O condutor é a fantasia. (Arte)

Caixinha 10: Pensar do coração

O pensar imaginativo ou pensar vivo é o primeiro estágio do pensar do coração. A travessia sobre a
ponte exige exercitação. Sobre a ponte existe um pedágio e junto ao pedágio existe um portão
chamado portão da morte, onde devemos deixar tudo que pertence ao mundo físico para trás. A única
coisa que ainda existe na nossa consciência é o conteúdo da nossa meditação, que começa a ganhar
vida. (GA 157; Berlin 02.03.1915)

Sobre este portal e o caminho do outro lado da ponte falarei numa outra palestra mais adiante. O
pensar do coração vai conduzir a evolução da humanidade em seu processo ascendente de volta para
a pátria espiritual, autoconsciente e livre. Vide palestra inaugural.

O pensar do coração passa por três níveis de consciência:

a) Pensar imaginativo

b) Pensar inspirativo

c) Pensar intuitivo.

a) Através da consciência imaginativa aprendemos de nos movimentar no nível etérico. Ao estudar uma
palestra de Rudolf Steiner, pode acontecer que encontramos em toda a palestra nenhum conceito
pertencente a um objeto material. Somente lidamos com imagens vivas. Ao absorver o conteúdo da
palestra entramos no fluxo etérico do tempo, exercitando a consciência imaginativa. No mundo etérico
não existe nascimento e morte como no mundo físico, mas apenas metamorfose.

b) O segundo nível, mais elevado do que o anterior é o nível da consciência inspirativa.

c) O nível máximo do pensar do coração é o pensar intuitivo.

Os itens b e c serão tratados junto com a questão do portal da morte.

Caixinhas 11, 12 e 13 descrevem as consequências causadas pelos três níveis de pensamento do


passado presente e futuro.

Caixinha 11: Egoísmo

O pensar intelectual foi absolutamente necessário para nos podermos tornar autoconscientes e
emancipados da condução direta por seres espirituais. Ela nos deu a vivência: Eu dentro da minha pele
e o mundo fora de mim. Isso necessariamente gerou um egoísmo necessário e justificável, mas quando
este egoísmo se conectou com o materialismo começamos a ter problemas que podem ser verificados
a cada passo que damos mundo afora. Na cultura moderna, dominada pelos aspectos econômicos, o
egoísmo tomou formas tão drásticas que nem a destruição do planeta, que poderá inviabilizar a vida
das futuras gerações, importa mais desde que dê dinheiro.

Caixinha 12: Equilíbrio

A caixinha 12 trata do equilíbrio entre egoísmo e altruísmo. Enquanto vivemos em um corpo físico
seremos egoístas. Portanto, ninguém pode afirmar que ele é um altruísta. Como em todas as outras
características humanas, também aqui o desafio é a busca do caminho do meio entre polaridades
opostas. A biografia do ser humano é uma caminhada sobre o fio da navalha numa constante busca do
equilíbrio. O mesmo vale para a humanidade como um todo. No encontro exercitamos novas
competências sociais, necessárias para a construção de novas formas sociais que correspondam às
necessidades das sociedades do futuro. Uma sociedade justa e harmoniosa somente será possível
quando fundamentada em conceitos espirituais.

Caixinha 13: Altruísmo

O egoísmo foi o motor que nos possibilitou a jornada da conquista da autoconsciência. Para o futuro o
altruísmo deve ser o motor que nos conduzirá, pela trilha do pensar do coração, para níveis de
consciência mais elevados e de volta para o paraíso. Um dia, no inicio da nossa história terrestre
saímos do paraíso em busca da nossa autoconsciência. Pagamos um preço caro com a perda de nossa
convivência direta com os Deuses. Agora, com a autoconsciência conquistada, tornamo-nos presa do
egoísmo e do materialismo, dos quais devemos nos desvencilhar para podermos empenhar a jornada
de volta, reconquistando a convivência com os deuses, trazendo para eles os frutos de nossa longa
jornada terrestre. O egoísmo foi o motor que nos possibilitou a jornada da conquista da
autoconsciência. Para o futuro o altruísmo deve ser o motor que nos conduzirá, pela trilha do pensar do
coração, de volta para a nossa pátria.

Caixinha 14: Analisar

O nosso pensar cerebral depende do mundo sensorial para poder existir. Através dele podemos, com
ajuda de nossas percepções e nossa memória, adquirir e guardar conhecimento. O pensar cerebral é
restrito ao mundo físico.

Caixinha 15: Ponderar/ Exercitar

Refletir sobre o passado, vivenciar conscientemente o presente, exercitar novas habilidades espirituais
para o futuro.

Caixinha 16: Criar

Criar e difundir imagens guia para o futuro que queremos, baseadas nos arquétipos do ser humano e
da sua evolução.

As 17, 18 e 19 Representam os três estágios da formação conforme sugerido na palestra: Formação 1.

Caixinha 20: Que sentido tem a existência?A questão do sentido da existência da humanidade já foi
abordada na minha palestra proferida por ocasião do lançamento do livro “Nova consciência altruísmo
e liberdade”, em Florianópolis, em novembro de 2015.
No seu processo de individuação, com a sua crescente capacidade de introspecção e consequente
autoconsciência, o ser humano busca cada vez mais o sentido das coisas, inclusive o sentido de sua
própria vida.

Respostas satisfatórias a essa pergunta devem ser fator importante para a saúde anímica e física das
pessoas.

Existem sentidos de vida em qualquer nível da consciência humana dependendo da situação em que
uma individualidade se encontra em um determinado momento da vida. Não existem regras para
alguém definir o sentido de sua vida. A miséria começa quando alguém não enxerga sentido algum na
sua vida. Conforme Viktor Frankl, os consultórios psiquiátricos estão cheios de pacientes em depressão
profunda, cuja causa é a falta de sentido da vida. ***

Com o progresso da tecnologia da informação, o encontro presencial entre seres humanos não é mais
necessário e o isolamento do indivíduo se acentua cada vez mais, causando solidão, egoísmo
exacerbado e falta de sentido.

Pelas poucas experiências que fizemos até agora, através do site da Escola do Altruísmo e através de
várias apresentações públicas, pudemos constatar o quanto existe uma necessidade nas pessoas de
acharem um sentido da vida que vai além dos aspectos materiais. Existe uma sede por espiritualidade.
Para a maioria das pessoas o sentido da vida inclui outros seres humanos, seja na dimensão da pessoa
amada, da família, do país ou da humanidade em sua globalidade.

* GA 11: A crônica do Akasha, traduzida e editada pela Editora Antroposófica, São Paulo
** GA 13: A ciência oculta, traduzida e editada pela Editora Antroposofica, São Paulo.
*** Viktor Frankl: Em busca de sentido, Editora SINODAL São Leopoldo RS.
Palestra III - Formação 
 III Estratégia Interna C

A CHAVE PARA O SENSO


DE VERDADE NO SOCIAL
DANIEL BURKHARD
Daniel Burkhard

A CHAVE PARA O SENSO DE


VERDADE NO SOCIAL
Com o presente trabalho pretendo apresentar um exemplo concreto da atitude altruísta, como ela
pode ser desenvolvida pela alma da consciência e introduzida na prática da vida sem a mínima
necessidade de pregar qualquer tipo de moral. É um exemplo que pode ser adaptado para muitas
outras situações da vida.

Pretendo fazer uma tentativa de transferir a vivência do processo cognitivo individual para a mesa de
reuniões de um grupo com o objetivo de torná-lo visível, comparando os dois. Existe uma clara
correspondência entre o processo cognitivo individual e o processo cognitivo de um grupo como, por
exemplo, na análise de um problema, que podemos considerar como sendo um processo cognitivo do
grupo.

Quero iniciar com uma citação de Rudolf Steiner:

A primeira exigência que existe para você desenvolver o seu senso de verdade é você distanciar-se de
si mesmo.

(GA 59 Berlin, 22 outubro 1909)

Complementando as palavras de Rudolf Steiner:

Do contrário, você consegue apenas ter opiniões e essas dependem do ponto de vista de cada um e
você consegue apenas ter julgamentos de acordo com as suas preferências, simpatias e antipatias.

Surge a questão: Como conseguimos nos distanciar de nós mesmos?


Com o advento da época da alma da consciência o ser humano ganhou gradativamente a capacidade
de observar o seu próprio pensamento, de modo que o paradigma de René Descartes: Penso ergo
sum, se torna ultrapassado.

Hoje, a maioria das pessoas já consegue observar o seu próprio pensamento, fato que vem a favorecer
o processo do distanciamento de si mesmo.

O Eu distanciado de si mesmo significa observar-se a si mesmo como se fosse uma segunda pessoa a
nos observar em nossos pensamentos, ponderações e atividades ao longo de cada dia.

Um exercício dado por Rudolf Steiner, conhecido como exercício da retrospectiva, quando no fim de
cada dia fazemos desfilar os eventos do dia perante a nossa alma como se fôssemos observadores de
nós mesmos, dá uma ajuda muito grande para conseguirmos realizar a tarefa.

Os eventos são passados de trás para frente contra o fluxo do tempo. Na GA 10* o exercício é descrito
minuciosamente.

É um exercício de suma importância que acelera o processo de aprendizado rumo ao distanciamento


de si mesmo. Depois de alguma exercitação podemos observar a nós mesmos já durante o próprio ato.

O processo de auto-observação ganha qualidade na medida em que a instância observadora


consegue desenvolver empatia e ser altruísta até conseguir observar-se como uma pessoa estranha, o
que significa ser livre de desejos próprios e de pré-conceitos.

Daqui em diante chamarei a instância observadora de Eu altruísta e o ator observado de Ego. O painel
12 abaixo deve nos guiar para uma melhor compreensão. Considero o Eu terrestre e o Ego como dois
lados de uma mesma moeda, na qual o Eu é a parte purificada das qualidades negativas do Ego, que
se deixa conduzir pelos instintos, apetites e paixões.

O distanciamento do eu de si mesmo é tipicamente um fenômeno da alma da consciência.


O nosso processo cognitivo atual tem o seu início com uma sensação através os sentidos (no corpo
físico) (1)

O pensar capta a sensação e forma uma representação mental (2) em forma de uma imagem. (no
corpo etérico).

O sentir capta a imagem provocando na alma simpatia ou antipatia (no corpo astral) (3)

A simpatia ativa o querer, a antipatia ativa a memória e produz o conceito.

Entre a simpatia e antipatia existe um constante vai e vem, como um pêndulo que permite ao Ego
chegar a um julgamento.

Normalmente esse processo é automático e acontece em nosso interior sem termos consciência dele
porque o Ego está mergulhado no processo e quando nadamos dentro do rio não percebemos a
correnteza. Quando ficamos na beira do rio, que seria o caso de nosso Eu distanciado de si ou Eu
altruísta, podemos observar tanto a correnteza do rio como o Ego atuando nele.

Se olharmos para a reunião de um grupo que já passou por algum treinamento poderemos observar
que o grupo segue a mesma sequência do processo cognitivo individual: formação de imagem, fase
de julgamento e fase de conclusão.

Em seguida vou tentar visualizar os processos anímicos internos, projetando-os para a mesa de reunião,
onde os fenômenos interiores individuais se tornam exteriormente visíveis.
As caixinhas(1) e (2) do processo individual correspondem à formação de uma imagem conjunta do
grupo.

Geralmente o Ego mergulhado no processo tem a convicção de que a imagem por ele criada, a partir
de sua percepção, é a única que corresponde à realidade. Em reuniões pode defendê-la com unhas e
dentes provocando longas discussões desgastantes e infrutíferas. Ele acha que tem certeza porque ele
viu com os próprios olhos. A questão é: Como ele viu? Geralmente a falta de realismo é compensada
pela intensidade da fala e pelo aumento da voz. Todo mundo conhece essas situações, é só participar
em uma reunião de condomínio por exemplo. Todo mundo fala ao mesmo tempo. É um verdadeiro
desfile de Egos.

O Eu altruísta já aprendeu que qualquer fenômeno pode ser observado a partir de vários pontos de
vista.

Rudolf Steiner usou em várias ocasiões o exemplo da observação de uma árvore que precisa ser
fotografada a partir de pelo menos quatro lados diferentes para que possa ser descrita em sua forma
real.

Ninguém, a partir de seu ponto de vista egocêntrico, pode descrever a verdade toda de qualquer
fenômeno. Isso vale para o processo cognitivo individual como também vale para o processo cognitivo
do grupo.

A caixinha (3) em nosso desenho é a caixinha central de nosso processo cognitivo individual e possui
vários segredos dos quais tentaremos nos aproximar a seguir:

Vimos anteriormente que a simpatia ativa o querer, a antipatia ativa a memória e produz o conceito.
Simpatia e antipatia se alternam constantemente como um pêndulo. É como um respirar da alma.
Quando o Ego agarra o pêndulo, amarrando-o em uma das polaridades, seja através dos próprios
desejos no caso da simpatia, seja através dos preconceitos no caso da antipatia, a alma não consegue
respirar e o resultado é um julgamento precipitado, que deverá resultar em atos impensados ou
conclusões erradas. Conquistar o equilíbrio entre simpatia e antipatia através da ponderação é o
momento mágico que abre o caminho para a liberdade. O Ego nunca poderá falar de liberdade, pois
se encontra mergulhado no processo. Podemos verificar então que tanto na fase da formação da
imagem (caixinhas 1 e 2) como na fase do julgamento (caixinha 3), os resultados do processo serão
coloridos pelos pré-conceitos ou pelos desejos do indivíduo e carecem de objetividade. O Ego é um
mau condutor para processos cognitivos conscientes que busquem a verdade, pois, pelas suas
características ele trabalha com:

pré - conceitos no pensar

pré - julgamentos no sentir e

pré - potência no querer (ou medo).

O grupo protege o indivíduo de julgamentos precipitados baseados em um único ponto de vista,


porém, mesmo no grupo, a prioridade do Ego é a pré-ocupação consigo mesmo em detrimento da
verdade. O máximo que um grupo nestas condições pode alcançar é um consentimento de opiniões,
independentemente da verdade. O Eu distanciado de si enxerga todas essas tramóias do Ego próprio
e dos Egos alheios. Infelizmente é mais fácil enxergar as tramóias dos Egos alheios do que do próprio.
Através do exercício da positividade podemos conquistar a necessária tolerância para com os outros.
(vide GA 10)

Ao retermos os impulsos imediatos de julgamento, seja no âmbito individual seja no âmbito do grupo,
criamos aquele espaço interior de liberdade, da compreensão e da ponderação. Livrar-se de desejos
próprios e de pré-conceitos e tornar-se receptivo para outras imagens provenientes de outros pontos
de vista é um verdadeiro treino para a fortificação do Eu altruísta.

O espaço interior assim criado, quando blindado contra tensões e pressões externas e internas, abre a
possibilidade para abertura de outros canais que possibilitam a recepção de outras imagens, que
ampliam a visão e aumentam a abrangência do contexto, dentro do qual o assunto em questão está
inserido.

No painel apresentado podemos verificar que a flecha da caixinha 4 aponta para a caixinha 3 portanto
com sentido invertido como se viesse a partir do futuro. Denominei a caixinha de pensar holístico. Nele
podemos buscar os recursos para elevar o assunto tratado para um nível de consciência mais elevado.

O nível mais elevado abre para o eu altruísta uma nova perspectiva de visão, aumentando as
dimensões, horizontalmente em tempo e espaço e verticalmente em altura e profundidade. Isso vale
principalmente para questões humanas, sejam elas de ordem espiritual, anímica ou de convivência.

No momento que conseguimos detectar a conexão de nosso assunto com um modelo arquetípico, as
nossas opiniões derretem que nem cubos de gelo ao sol, fazendo surgir a verdade buscada. Estou me
referindo aos modelos que listei na primeira palestra sobre formação.

Por razões didáticas, precisei colocar o assunto em uma sequência lógica para poder descrever o
processo todo, porém, na prática dependendo do grau de conhecimento que temos dos arquétipos,
eles podem emergir em nossa consciência já na fase da formação da imagem. Quando isso acontece, a
verdade já se revelou e o processo de análise pode ser encerrado com o resultado alcançado. Isso é
possível para a alma da consciência enquanto a alma da razão e da índole tem necessidade de
percorrer a sequência das fases aqui descritas: Fase de formação de imagem > fase de julgamento >
fase de conclusão.

O Ego tem uma perspectiva de si e do mundo limitada. Ele é egocêntrico.

A abrangência da sua autoconsciência termina com a sua epiderme. Ele tem a nítida vivência de “eu
dentro da minha pele” e o mundo lá fora.

Ele corre o perigo de tornar-se um torrão de desejos e criticismos, escuro e endurecido.

Idealmente o Eu distanciado de si tem qualidade solar e pode iluminar todos os cantos e nichos de sua
alma e ao mesmo tempo irradiará sua luz a partir do coração para o mundo. Não existe a delimitação
física pela epiderme.
O eu altruísta se vivencia além das limitações entre interno e externo. Ele se vivencia como parte de um
todo.

Naturalmente, existem muitos degraus de distanciamento. É uma jornada sem fim ao longo da vida
toda.

Agora podemos imaginar uma reunião com todos os participantes imbuídos da ideia do Eu
distanciado de si, que é a grande tarefa da alma da consciência. Esse grupo obtém os resultados
esperados da reunião já na primeira fase, da formação de imagem. A descrição dos fenômenos, a partir
dos diferentes pontos de vista, já ilumina o objeto da reunião de tal maneira, que a resposta, quando os
egos não atrapalham mais, se torna evidente. O grupo conseguiu deixar os fenômenos falarem e se
revelarem.

Entre as caixinhas 5 e 4 do esquema acima, existe um limiar. Trata-se do limiar entre o mundo físico e o
mundo espiritual. Após ter passado por esse limiar não teremos mais necessidade de modelos que
tinham a função de traduzir arquétipos para a nossa linguagem atual racional. Agora entramos em
contato direto com os arquétipos como entidades espirituais vivas. Para isso poder acontecer
precisamos desenvolver o pensar imaginativo, que é o primeiro passo do pensar do coração e a tarefa
central do desenvolvimento da alma da consciência.

Finalmente:

O título do presente trabalho é: A chave para o senso da verdade.

Estamos falando do senso de verdade e não da verdade em si, pois existem verdades em vários níveis
e dependendo do grau de nossa consciência captamos a verdade em um determinado nível. Podemos
dizer: Captamos a verdade, mas não captamos toda a verdade. Essa humildade falta ao pensamento
materialista que pensa responder os enigmas da existência com a descoberta dos fenômenos
materiais.

* GA 10: Bibliografia Geral - O conhecimento dos mundos superiores.


Editora Antroposófica – São Paulo.
Palestra IV - Formação 
 IV Estratégia Interna D

A FORMAÇÃO DE
GRUPOS
DANIEL BURKHARD
Daniel Burkhard

A FORMAÇÃO DE GRUPOS
Uma das maiores ameaças para o futuro da humanidade é ela caminhar cada vez mais para um
individualismo egoísta, que gera um isolamento do indivíduo e uma atitude de “cada um por si”.

Apesar de todos os meios modernos de informação, o encontro entre seres humanos se torna
cada vez mais abstrato e superficial e cada vez mais o indivíduo entra em uma solidão existencial e um
vazio interior, no qual finalmente a vida perde o sentido.
Os crimes executados por lobos solitários se multiplicam, mas no fundo todos nós corremos o
risco de nos tornarmos lobos solitários em maior ou menor grau.
Uma sociedade é sadia na medida em que exista uma confiança mútua entre seus membros.
A tendência que podemos verificar é que a confiança mútua está desaparecendo e que a
sociedade se torna cada vez mais enferma.
Uma vez que toda tendência leva para algum lugar, podemos nos perguntar:
Para onde essa perda de confiança mútua vai nos levar?
A confiança mútua apenas pode ser construída no encontro presencial entre seres humanos.
Sugiro a leitura do anexo 2 do meu livro: Nova consciência altruísmo e liberdade publicado pela
Editora Antroposófica, São Paulo. Esse anexo consiste de trechos traduzidos de uma palestra de Rudolf
Steiner que diz que no futuro nossa vida social deverá se fundamentar em uma interação tão intensa
entre seres humanos, que olhando para a nossa situação atual, nem podemos imaginar como isso
poderia ser possível.

A competência social talvez seja a mais importante de todas as competências que


desenvolvemos ao longo da vida. Adquirimos a sua fundamentação já na infância através da vivência
de que o mundo é bom no primeiro setênio, que o mundo é belo no segundo setênio e verdadeiro no
terceiro setênio de nossas vidas. Ter ou não ter adquirido essa fundamentação pode fazer toda a
diferença entre um caráter aberto com uma vida plena de significado e um caráter mesquinho e
defensivo com uma vida egoisticamente medíocre.
Geralmente, os currículos escolares das nossas crianças e jovens não incluem espaços para
desenvolver competência social, que a meu ver é uma grave falha.
Tentamos corrigir essa falha com programas de educação de adultos cujo processo de
aprendizado já é bem mais lento e os resultados mais modestos.
Matérias como ouvir e falar, objetivo x subjetivo, trabalhos em equipes, presença de espírito para
o momento presente, dar e pegar, cooperação x competição, conviver com diferenças, direitos e
responsabilidades do cidadão em uma democracia são elementos fundamentais para ajudar os jovens
a desenvolverem-se socialmente, para que na idade adulta possam movimentar-se no mundo com
competência social. Abençoada a escola que permite a seus mestres transmitir essas competências aos
seus alunos.
Comunicação, liderança, negociação, solução de problemas, decisões de consenso, lidar com
conflitos, resiliência, são alguns exemplos de competência social que podem definir o sucesso ou
insucesso de uma carreira inteira e o grau de contribuição positiva que uma pessoa é capaz de dar
para a sociedade.

O mais eficaz meio para treinar competência social é o aprendizado em grupos. O grupo é o
grande auxiliador para desenvolvermos competência social de uma maneira consciente. Por essa razão,
em nosso programa de formação nos ocuparemos bastante com a arte de participar produtivamente
em grupos.

Seguindo os preceitos da trimembração podemos diferenciar três tipos de grupo que são:

- Grupos de estudo - pensar


- Grupos de encontro - sentir
- Grupos de trabalho - querer

A seguir vou apresentar uma caracterização resumida destes três grupos, como fundamentação
para o desenvolvimento de comunidades modernas.
O desconhecimento das características de cada tipo de grupo pode causar muitas dificuldades
desnecessárias para os membros de um grupo e muito mais ainda para os membros de uma
comunidade em formação. Naturalmente essa descrição precisa ser adaptada à situação e objetivo de
cada grupo.

Grupo de estudo

Neste grupo os participantes se reúnem com o objetivo de aprender alguma coisa. A relação dos
participantes é afrouxada e superficial.
O que interessa é o conteúdo estudado e cada um se esforça para extrair do estudo o máximo
possível para si. Essa atitude é individual e naturalmente egoísta. Enquanto esse egoísmo se restringe
ao nível do conhecimento ele é perfeitamente adequado.
Existe liberdade individual. O conhecimento adquirido no estudo é apropriado por cada um à
sua própria maneira, dentro de sua estrutura individual de conhecimento e ninguém tem nada a ver
com isso.
Isso é a liberdade na vida cultural.
Como diz um velho provérbio:
Se divido um pão com outra pessoa, cada um sai com meio pão.
Se divido uma ideia com outra pessoa, cada um sai com duas ideias.

Grupo de encontro
O objetivo deste grupo é cuidar da saúde anímica do próprio grupo e encontra-se, portanto,
dentro do grupo.
Nos grupos de encontro falamos sobre nós. Falamos sobre nossos sonhos e esperanças, sobre
nossas dúvidas e incertezas, sobre o processo do grupo no passado, presente e futuro. Falamos sobre
os nossos aprendizados e comemoramos as nossas vitórias. Reafirmamos e reforçamos os laços que
nos unem, limpamos eventuais mágoas.
Criamos um ambiente que não deve ser perturbado por interferências externas.
Existem muitas formas de grupos de encontro na terapia médica, na educação e na psicoterapia.
Todos trabalham com uma dimensão comum:
Com o “aqui e agora”. A atenção deste grupo é orientada para a interação entre os participantes.
O princípio que rege o grupo é a igualdade.

Grupo de trabalho

Os participantes deste tipo de grupo procuram alcançar conjuntamente um objetivo que se


encontra fora do grupo.
A autodisciplina dos participantes é exigida ao máximo. Cada membro coloca á disposição do
todo os seus talentos e habilidades individuais e os externa de acordo com as necessidades do grupo.
O indivíduo se esquece um pouco de si mesmo e dirige toda a atenção para o objetivo do grupo, que
na vida cotidiana geralmente consiste na solução de um problema. Cada participante se esforça para
doar ao grupo o que ele tem de melhor, retendo para si os aspectos de seu ego, com os quais ele deve
lidar sozinho, sem sobrecarregar com isso o grupo. Isso exige um intenso autoconhecimento e
autocontrole. O foco central deste grupo é o processo decisório, que exige uma coordenação para
garantir o bom andamento do grupo, pois agora são os impulsos individuais da vontade que se
encontram no grupo e precisam ser homogeneizados até certo ponto para garantir a posterior
execução, sem resistências na fase da realização.
Neste grupo, qualquer egoísmo atrapalha o andamento do todo. O impulso básico para esse tipo
de grupo é a fraternidade.

Na realidade, esses grupos não acontecem em situações estanques, mas podem fluir de uma
situação para outra. É fundamental que cada participante tenha consciência, em cada momento, com
que maré, com que vento e dentro de que correnteza o grupo está navegando.

Na tabela abaixo levantamos alguns aspectos para comparar as diferentes qualidades de grupos
e podemos observar que as exigências de competência social vão aumentando da esquerda para a
direita, até chegar ao máximo na quarta coluna, que representa o “grupo de ação espiritual”. A
conquista das habilidades nos primeiros três grupos (área colorida) é a preparação para podermos
atuar no quarto grupo (áreas circundantes não coloridas). O quarto grupo não inclui apenas os
membros que estão fisicamente presentes no grupo, mas inclui também entidades espirituais.
Podemos dizer que as primeiras três são a preparação para o grupo poder tornar-se produtivo no
quarto estágio e caminhar rumo a uma comunidade espiritual moderna, quando o grupo recebe
inspirações para tornar-se espiritualmente criativo.
últimos sete itens de cada coluna (fora da área colorida) mostram características do grupo de
ação espiritual, que passa novamente pelos três tipos de grupo, mas agora em um nível de consciência
superior e com um treinamento da competência social espiritualizada.

1.Como grupo de estudo


Para atuar produtivamente nesse grupo, seus participantes podem exercitar-se individualmente
nos oito passos de Buda para desenvolver o chacra de dezesseis pétalas, situado na região da laringe.
Esse exercício os levará a um pensar lúcido e claro que no homem moderno já é relativamente
desenvolvido. Através desse pensar eles conseguirão entender o pensar e o ponto de vista dos outros
participantes. A lucidez deste pensar pode revelar-lhes o carma do passado.
(Os oito passos de Buda GA 10*)

2. Como grupo de encontro


Para atuar produtivamente nesse grupo, seus participantes podem exercitar-se individualmente
nos seis exercícios colaterais para desenvolver o chacra de doze pétalas, situado na região do coração.
Esse exercitar permite-lhes vivenciar o calor ou a frieza anímica e uma profunda compreensão dos
processos da natureza. No encontro com o outro poderão vivenciar o momento presente de maneira
totalmente nova. O desenvolvimento do chacra de doze pétalas abre o portal para o pensar do
coração.
(Os seis exercícios colaterais GA 10*)

3. Como grupo de Trabalho


Podemos desenvolver o chacra de dez pétalas, situado na região do plexo solar, através de uma
sequência de cinco exercícios, também descritos por Rudolf Steiner na GA 10*, e que nos permite
descobrir os talentos dos outros. Construiremos, assim, o carma do futuro.

Os exercícios são praticados na solidão e no silêncio interior. Os resultados desses exercícios nós
colocamos á disposição dos demais, na interação com os membros do grupo e com as outras pessoas
em geral.
Quero chamar a atenção para um fato: o grupo de trabalho busca geralmente solucionar um
problema. Isso significa que o trabalho do grupo é orientado para um foco delimitado e bem definido.
O grupo de ação espiritual lança a sua visão para o cosmo, para perspectivas amplas de tempo e
espaço.

4. Como grupo de ação espiritual


Reunimo-nos em torno de um ideal comum que procuramos realizar no mundo.
A tabela tenta mostrar que esse grupo engloba todas as características dos outros três grupos.
(Quarta coluna) Em algumas ocasiões somos grupo de estudo ou pesquisa, outras vezes de encontro e
outras vezes, ainda, somos grupo de trabalho.
Isso torna o bom funcionamento do grupo um desafio ainda maior, porque a variedade de
expectativas entre os membros do grupo, em cada momento, pode ser muito grande. Além deste fato,
surgem nele outros aspectos que nos outros grupos ficam no subconsciente ou inexistem.
Podemos considerar a parte que descrevi até este ponto como trabalho a ser executado por nós
como grupo de homens e mulheres terrestres. Pela perseverança em nosso exercitar individual e pela
fidelidade ao impulso comum do grupo poderemos sentir, num estágio futuro que nem precisa ser
muito distante, a presença de seres espirituais. E quando isso acontecer, sentiremos que ao nos
separarmos após cada encontro do grupo, voltamos para o mundo acompanhados e carregados por
uma energia que transcende a energia que normalmente sentimos como indivíduos, de modo que
podemos considerar cada reunião do grupo como uma ocasião para renovar a energia gerada pelo
encontro.

Quero lembrar a frase do professor Lievegoed, já mencionada por mim anteriormente:


Da Antroposofia podemos haurir as ideias e ideais espirituais.
No mundo sofremos junto com a humanidade.
É nossa tarefa traduzir e transformar estes ideais eternos em ideias socialmente compreensíveis e
realizáveis, sem nos tornarmos missionários.
Missionário é aquele que dá respostas para perguntas que não foram feitas.
Para encerrar este texto vamos ouvir as palavras de Rudolf Steiner a respeito. Trata-se de trechos
de duas palestras diferentes: 23.11.1905 Berlin e 1.6.1908 Berlin.

Construindo União
[O Cristo disse: ] Onde dois ou três se unem em meu nome estou no meio deles.
Não se trata de um e do outro e do terceiro, mas se trata de algo totalmente novo, criado pela
união. As uniões humanas tornam-se locais de mistérios, nos quais seres espirituais superiores descem
para atuar através de humanos individuais, da mesma maneira como a alma atua através o corpo
físico...
E repito mais uma vez, não se trata apenas de uma imagem, mas de algo muito real.
Feiticeiros são as pessoas que atuam em união porque atraem para seu círculo seres superiores.
Seres superiores se manifestam. Se entregarmos o nosso ego na união, fortificaremos os nossos órgãos
físicos.
Este é o segredo do progresso futuro da humanidade, atuar através da união.
Ao se unirem em liberdade, os seres humanos se agrupam em torno de um centro.

Os sentimentos individuais que fluem para um centro comum criam oportunidades para seres
espirituais superiores atuarem como uma espécie de alma de grupo.
Todas as antigas almas de grupo eram seres espirituais que não permitiam a liberdade do
homem. As novas almas de grupo são compatíveis com a liberdade e a individualidade dos homens.
Podemos dizer que elas, de certa maneira, existem graças a união dos seres humanos e depende das
almas humanas possibilitar ou não a descida destas almas superiores.
Quanto maior for o número de uniões humanas, quanto mais existirem sentimentos de união,
tanto mais almas superiores descerão para as uniões humanas e tanto mais rapidamente o planeta
terra será espiritualizado.
Observação:
A exercitação é individual e o banimento dos egos acontece no encontro e cria o espaço para a
presença de seres espirituais
Espírito vitorioso.

Inflama a impotência
das almas receosas.
Queima o egoísmo,
Acenda a compaixão,
para que o altruísmo,
o fluxo de vida da humanidade,
possa imperar como fonte
de renascimento espiritual.

Rudolf Steiner
1

* GA 10 cujo título em português é: Conhecimento dos mundos superiores, publicado pela


Editora Antroposófica, São Paulo.
** Bernhard Lievegoed é o fundador do NPI - Nederlands Pedagogisch Instituut. Ele desenvolveu a maioria dos conceitos
utilizados na consultoria antroposófica, a partir dos arquétipos eternos revelados por Rudolf Steiner.

 Estratégia Interna E
Palestra V - Formação V.a

EXERCITAÇÃO
DANIEL BURKHARD
Daniel Burkhard

EXERCITAÇÃO
Espírito vitorioso.

Inflama a impotência
das almas receosas.
Queima o egoísmo,
Acenda a compaixão,
para que o altruísmo,
o fluxo de vida da humanidade,
possa imperar como fonte
de renascimento espiritual.

Rudolf Steiner

Encerrei a palestra Formação 4, com o subtítulo de “Grupos”, com a meditação acima que nos foi
oferecida por Rudolf Steiner e gostaria de tecer inicialmente alguns pensamentos a respeito.

1. Nesta meditação Rudolf Steiner descreve o altruísmo como o fluxo da vida da humanidade,
que deve imperar como fonte de renascimento espiritual.
A minha primeira observação que gostaria de externar é a seguinte: quanto mais nos
aproximamos da questão do altruísmo, mais intensa torna-se a sua irradiação luzente para amplitudes
cada vez mais amplas. Parece um sol que irradia a partir do ponto onde ele é praticado para
amplitudes incomensuráveis.

2. O altruísmo não é apenas uma questão moral, mas é a questão fundamental de sobrevivência
da humanidade. Cada um de nós precisa, em algum ponto da vida, seja na vida atual, seja na próxima
ou ainda na outra, morrer para renascer no espírito e o altruísmo é um ótimo guia neste processo. O
Ego precisa morrer para o renascimento do Eu no espírito.

3. Ao me debruçar sobre a questão da formação, a cada palestra me ficou mais claro que uma
formação produtiva, pela escola do altruísmo, passa necessariamente pelo caminho do
autodesenvolvimento espiritual dos seus membros. O grupo é o meio para podermos acordar um no
outro para o novo patamar de consciência que a alma da consciência necessita.
A partir desta constatação podemos definir objetivos internos para o desenvolvimento do
grupo e objetivos externos que queremos realizar no mundo junto com nossos alunos. Os
objetivos externos dependem do grau de consciência que o grupo conquista internamente, porque a
única coisa que convence o mundo é o exemplo. O apoio mútuo entre os membros do grupo os ajuda
a acordar para um novo nível de consciência. Conforme fui avançando, percebi que o processo se
tornou cada vez mais individualizado. Começou com generalidades e tornou-se cada vez mais
individualizado. O processo de autodesenvolvimento é assunto para cada um individualmente e na
época atual está intimamente ligado ao desenvolvimento da alma da consciência.

4. Mesmo aquelas pessoas que não se preocupam com os destinos da humanidade nem com
processos de iniciação, ao praticar os exercícios sentem que eles são uma contribuição extremamente
valiosa para o seu autodesenvolvimento e a sua atuação no social.
Aquele que quer elevar o altruísmo das meras palavras ou dos atos esporádicos de doação para
um novo estilo de vida, com a conquista de uma nova felicidade, não escapa da necessidade de uma
exercitação consistente. Os exercícios são de fácil compreensão, mas a sua execução regular exige uma
grande autodisciplina e perseverança. Esse já é o primeiro obstáculo a ser vencido.

5. Pretendo descrever um processo conforme a minha experiência pessoal e sei que certamente
devem existir outros caminhos trilhados por outras pessoas em direção ao mesmo objetivo. Uma vez
que levei muitos anos estudando as palestras de Rudolf Steiner antes de conseguir formar uma
imagem abrangente e coerente das inúmeras indicações recebidas, penso poder ajudar um pouco os
que vêm atrás de mim, para poderem ordenar e organizar o seu processo de autodesenvolvimento
espiritual.

6. Todos os exercícios aqui apresentados são um resumo feito por mim com o intuito de produzir
uma base para conversas e trocas de ideias. Para realizar os exercícios é necessária a sua leitura exata
no original. Trata-se do livro “O conhecimento dos mundos superiores” (GA 10) e da “Ciência
Oculta” (GA 13) os dois disponíveis na Editora Antroposófica.
A Jornada do autodesenvolvimento espiritual

A imagem abaixo representa um processo que tem início com o encontro com a Antroposofia e
se estende até o limite daquilo que nos foi revelado por Rudolf Steiner até a sua morte em 1925.

Dividi o processo em três grandes fases que são:


Preparação
Exercitação
Meditação (com responsabilidade)
O conhecedor da Antroposofia, ao olhar para o painel acima, poderá constatar imediatamente
que o esquema apresentado tem a característica do “fazer” e não do “estudo” infindável para acumulo
de conhecimento.
Na minha retrospectiva biográfica constato que caí em uma cilada que me fez querer saber cada
vez mais e mais sobre Antroposofia. Tive muitas dúvidas iniciais e tinha necessidade de achar respostas.
Ao longo do tempo percebi que a questão não é o quanto consigo conhecer, mas o quanto consigo
me transformar. Este insight me fez mudar de estratégia de “acúmulo de conhecimento” para o
“exercitar”. O acúmulo de conhecimento sem o exercitar tem o grande perigo de a pessoa tornar-se
orgulhosa e de achar que tem resposta para tudo, assumindo uma atitude crítica em relação aos outros.

A. Preparação
Estudo - conhecimento
Muitas pessoas têm me perguntado com que livro começar o estudo da Antroposofia. É sempre
uma pergunta delicada porque a indicação errada pode dificultar o acesso da pessoa á Antroposofia.
As três obras apresentadas no painel acima podem ser uma boa indicação.
“O conhecimento dos mundos superiores” trata mais dos aspectos interiores do ser humano.
“A Ciência Oculta” trata mais dos aspectos macrocósmicos da existência.
“A Filosofia da liberdade” lida com os aspectos filosóficos da existência.
Para muitas pessoas recomendei o “Evangelho de Lucas” quando detectava na pessoa questões
de como relacionar a Antroposofia com a sua vida religiosa.

O início do estudo traz alguns problemas para o leitor desavisado pelo fato da linguagem
terrestre não oferecer os conceitos necessários para descrever as experiências espirituais do iniciado.
Este se vê na obrigação de utilizar conceitos da vida terrestre para circunscrever a experiência
espiritual. Também aparecem conceitos novos que não fazem parte da vida cotidiana. Inicialmente, ler
Antroposofia é como aprender uma língua nova. Vencido este obstáculo, o espírito pode começar a
fluir.

As condições preliminares para o desenvolvimento espiritual

1. Cuidar da saúde física e espiritual


Cumpre frisar que de nenhuma das condições se exige um integral cumprimento, mas
simplesmente o aspirar a tal cumprimento. Ninguém é capaz de cumprir integralmente as condições,
porém pôr-se a caminho de seu cumprimento, isso cada um pode fazer.
Trata-se muito mais, em sentido físico, de afastar influências nocivas do que de outra coisa. Em
muitos casos, o dever terá prioridade sobre a saúde, às vezes mesmo sobre a vida, mas jamais para o
gozo do discípulo.

2. Sentir-se qual um membro de toda a vida existente.


Cultivar o sentimento de que sou apenas um membro de toda a humanidade e corresponsável
por tudo que acontece. Se sou educador e meu aluno não corresponde àquilo que almejo, devo voltar
o meu sentimento não contra o aluno, mas contra mim mesmo.

3. Pensamentos e sentimentos são realidades


Elevar-se á concepção de que pensamentos e sentimentos têm tanta importância para o mundo
quanto os atos. Reconhecer o fato de que é tão pernicioso odiar seu semelhante como nele bater. Terei
de admitir que meu sentimento produzirá tanto efeito no universo quanto uma ação de minha mão.

4. Sentir-se como um ser anímico-espiritual


Sentir-se como um ser anímico-espiritual é um fundamento para a disciplina. Quem avança para
tal sentimento será capaz de discernir o dever interior do resultado externo. Encontrar a correta
posição central entre o que as condições exteriores impõem e o que se reconhece como certo para a
conduta. Desenvolver em si próprio aquilo que se denomina na ciência oculta a “balança espiritual”,
onde sobre um dos pratos encontra-se um “coração aberto” para as necessidades do mundo exterior e
sobre o outro “firmeza interior e perseverança inabalável”.

5. Perseverança
Perseverança na obediência a uma decisão uma vez tomada. Cada decisão é uma força e mesmo
que essa força não tenha êxito diretamente no lugar para onde é dirigida atuará à sua maneira. O
sucesso só é decisivo quando se realiza um ato por cobiça. Mas todos os atos realizados por cobiça são
destituídos de valor perante o mundo espiritual.

6. Gratidão
Gratidão perante tudo que é proporcionado ao ser humano. Estar ciente de que a própria
existência é um presente de todo o cosmo. Quanto não é necessário para que cada um de nós possa
receber sua existência! Quanto não devemos à natureza e às outras pessoas! Quem não conseguir
abandonar-se a esses sentimentos não será capaz de desenvolver dentro de si aquele amor universal
necessário para chegar à cognição superior. Algo que eu não amo não se me pode revelar. E cada
revelação tem de preencher-me de gratidão, pois através dela me torno mais rico.

7. Integração
Todas as citadas condições têm de unir-se numa sétima: compreender a vida incessantemente no
sentido em que as condições o exigem. Por meio disso cria-se a possibilidade de dar à vida um caráter
uniforme. Cada uma das manifestações da vida estará em harmonia recíproca e não em contradição.
Se alguém tiver a séria e honesta vontade de cumprir as condições indicadas poderá decidir-se
pela disciplina espiritual.

B. A exercitação

Os oito processos anímicos.

Os oito processos anímicos são muito parecidos com os oito passos de Buda. O Buda viveu 600
anos antes de Cristo e os exercícios tinham a função de apoiar o desenvolvimento de um pensar claro
e preciso para promover a conquista da autoconsciência. Era o início do desenvolvimento da alma da
razão e da índole. No homem moderno essas qualidades já foram alcançadas em maior ou menor grau,
dependendo do nível de desenvolvimento de cada um. A consolidação das oito qualidades forma o
fundamento necessário para os próximos passos do desenvolvimento da humanidade, individual e
coletivamente.

Na listagem abaixo apresento um resumo de cada exercício com a intenção de facilitar a busca e
os comentários. Para a sua exercitação é importante lê-los em sua descrição completa e original. (GA
10)
Isso também vale para as condições preliminares descritas acima.

Os exercícios são:

1. A opinião certa
Prestar atenção às representações mentais.
Ter apenas sentimentos significativos.
Aprender gradativamente a separar em seus pensamentos o essencial do fútil, o eterno do
efêmero, a verdade da opinião.
Ao ouvir a conversa das outras pessoas, tentar manter-se interiormente totalmente calmo e evitar
aprovação e principalmente críticas internas.

2. O Julgamento certo
Não depende de minha simpatia e antipatia. Decidir-se, mesmo nos assuntos mais insignificantes,
a partir de deliberações plenamente refletidas e fundadas. Todo agir irrefletido, tudo o que for sem
significado, deverá ser afastado da alma. Para tudo deverá ter razões bem fundamentadas.

3. A palavra certa
O terceiro processo anímico diz respeito à fala. Apenas o que tem sentido e importância deve sair
dos lábios do aluno. Todo falar por falar desviará o aluno do caminho. Nunca falar sem uma razão.
Preferir o calar. Tentar falar não demais e não de menos. Primeiro ouvir e em seguida elaborar.

4. A Ação certa
Organizar os atos de tal forma que estejam em sintonia com os atos dos semelhantes. Quando
agir a partir de si, ponderar claramente sobre os efeitos da sua maneira de agir.

5. O Ponto de vista certo


Procurar viver em conformidade com a natureza e o espírito.
Não precipitar nada e não ser indolente. Considerar a vida um meio de trabalho e organizar-se de
acordo. Organizar o cuidado com a saúde.

6. A Aspiração certa
Examinar as suas faculdades, capacidades e proceder de acordo com tal autoconhecimento.
Procurar nada fazer que esteja além de suas forças, mas tampouco deixar de fazer o que estiver dentro
das mesmas. Estabelecer objetivos relacionados com os ideais, com os grandes deveres de um ser
humano.

7. A memória certa
Aprender da vida o mais possível. O que foi feito de maneira incorreta ou imperfeita será motivo
para mais tarde fazer algo semelhante de maneira correta ou perfeita. Olhar os outros em ação com a
mesma finalidade.

8. A contemplação certa
Lançar de vez em quando um olhar em seu interior, aprofundando-se em si próprio para formar e
analisar os princípios de vida.
Percorrer mentalmente os conhecimentos, ponderar os deveres e meditar sobre os conteúdos e
objetivos da vida.

Os oito exercícios despertam o chacra de 16 pétalas localizado na região da laringe.


Os chacras são órgãos de percepção para fenômenos suprassensíveis. O chacra de 16 pétalas
possibilita o discernimento clarividente do modo de pensar de outro ser anímico e também permite a
observação mais profunda das verdadeiras leis dos fenômenos da natureza.

Os seis exercícios colaterais


1. Controle dos pensamentos
Trata-se de observar e controlar o fluxo dos pensamentos. Cada pensamento deve emergir do
anterior e servir de base para o próximo para que surja um fluxo coerente de sem desvios por outros
assuntos.

2. Controle das ações


O mesmo controle exigido com relação aos pensamentos no exercício anterior deve acontecer
com relação ás ações. Cada ação deve emergir da anterior em uma sequência coerente.

3. Perseverança
Não deixar distrair-se e desviar do objetivo estabelecido enquanto este é considerado válido.
Obstáculos são convite para serem superados.

4. Positividade
Tolerância perante seres humanos, outros seres e também fatos. Reprimir toda crítica supérflua
frente á imperfeição, maldade e ruindade. Tentar entender tudo que nos cerca. Não incorrer em
julgamentos depreciativos, mas suportar o necessário e dentro das próprias forças e tentar inverter o
caso para o bem.

5. Imparcialidade
Imparcialidade perante os aspectos da vida. Podemos também dizer fé e confiança. Defrontar-se
com cada indivíduo, com cada ser, imbuído dessa confiança. Impregnar-se dessa confiança nas ações.
A cada momento estar pronto para submeter a própria opinião a novo exame.

6. Equilíbrio
Adquirir certo equilíbrio de vida (equanimidade). Esforçar-se por manter a sua disposição
uniforme, mesmo sendo atingido por dor ou alegria. Estar preparado para encontrar-se com a
desgraça e o perigo, bem como com a sorte e o sucesso.

Observação:
Os seis exercícios aqui apresentados foram tirados da GA 10; os mesmos exercícios são
encontrados na GA 13 um pouco modificados, mas levam ao mesmo objetivo.
Os seis exercícios despertam o chacra de doze pétalas que é o chacra do coração. O seu
desenvolvimento é a tarefa central da alma da consciência.
Com o seu desenvolvimento conseguimos a percepção dos sentimentos de outras pessoas como
também a capacidade de reconhecer determinadas forças mais profundas em animais e plantas.
O desenvolvimento do chacra do coração é o portal para o pensar do coração, que deverá
substituir gradativamente o pensar cerebral. Vide as minhas palestras sobre o pensar do coração.

Os cinco exercícios
Na mesma obra (GA 10) podemos encontrar cinco exercícios para amadurecer o chacra das dez
pétalas que se encontra na região do plexo solar, na região do estomago. Estes exercícios já não são
descritos com o mesmo destaque como os anteriores, mas estão embutidos no texto.

São eles:

1. Teremos de chegar ao ponto de realmente não mais acolher impressões que não se queiram
acolher. Tal faculdade poderá ser desenvolvida unicamente mediante uma intensa vida interior. Quanto
mais enérgico se tornar o trabalho interior da alma, tanto mais se alcançará nesse particular. O
discípulo terá de exercitar-se nisso a ponto de, no meio do maior tumulto, não precisar ouvir nada
quando não quiser ouvir.

2. Determinará um pensamento e tentará apenas seguir pensando o que, bem conscientemente e


em plena liberdade, for capaz de associar a esse pensamento. Rejeitará quaisquer divagações.

3. Se por exemplo, tiver uma determinada antipatia em relação a alguma coisa, empenhar-se-á
em combatê-la e procurará estabelecer uma relação consciente com a respectiva coisa.

4. A vida anímica do discípulo terá de tornar-se uma vida permeada de atenção e ele terá de
saber manter-se realmente afastado daquilo que não deseja ou não deve dedicar atenção.

5. Se a tal autodisciplina se acrescentar uma meditação que corresponda aos ensinamentos da


ciência oculta, o chacra na região do estomago entrará no processo correto de amadurecimento.

Observação:
Estes cinco exercícios nos dão a possibilidade de detectar os talentos das outras pessoas.

Para encerrar, vamos ouvir o que Paulo já disse 2000 anos atrás e que tem atualmente mais
validade do que nunca:
Primeira carta de Paulo para os Corintianos, capítulo 13 verso 1-7 e capítulo 14 verso 1. Na
tradução de Emil Bock.

Quero indicar-lhes o caminho mais elevado do que qualquer outro:


Se eu falasse com língua de homem e de anjo
porém fosse sem amor,
a minha fala seria que nem minério tinindo e sino sonoro.
Se eu tivesse o dom da profecia,
conhecesse todos os mistérios,
tivesse todos os conhecimentos,
e tivesse a força da fé que move montanhas,
se estivesse sem amor, tudo isso não valeria nada.
Se eu doasse todos os meus bens incluindo o corpo para queimar,
sem amor não valeria nada.

O amor amplia a alma


O amor preenche a alma com bondade reconfortante
O amor não conhece inveja
Não conhece ostentação
Não permite injustiça
O amor não fere o que é decente
Ele expulsa o egoísmo
Não se perde em êxtase
Não acusa ninguém
Não se alegra com a injustiça
Somente se alegra com a verdade
Amor suporta tudo
Dispõe-se a ter confiança
Pode ter esperança com tudo e ter paciência
Que o amor seja vosso caminho e vossa meta.

Florianópolis treze de março 2017



 Estratégia Interna F
Palestra VI- Formação VI

A FORMAÇÃO DE
COMUNIDADES
DANIEL BURKHARD
Daniel Burkhard

A FORMAÇÃO DE
COMUNIDADES
Ao falar sobre comunidades modernas, parece-me que estamos falando de algo que ainda não
conhecemos e de um tempo que ainda não chegou. Atualmente encontramo-nos em uma fase de
nossa evolução, na qual procuramos nos emancipar das almas de grupo antigas ou comunidades
antigas.

Com duas sentenças lapidares, Rudolf Steiner cunhou a essência da nossa questão, quando ele
diz: Em Roma, quando era cultivada a alma da razão e da índole, o homem era primeiro e acima de
tudo, cidadão romano e nada mais. Em nossa época atual, que desenvolve a alma da consciência,
lutamos acima de tudo para sermos seres humanos e nada mais. Vide GA 159, Dusseldorf, 15/06/1915.

Encontramo-nos em um acelerado processo de individuação, ou emancipação do indivíduo.


Eu sou!! é o grito de liberdade do homem moderno global, que acaba de se desvencilhar das
velhas almas de grupo com suas crenças e dogmas, mandamentos e convenções.
Esse homem moderno tem pouca inclinação para ouvir falar sobre comunidades modernas, ele
quer curtir a liberdade recém conquistada, vivendo e atuando sem culpa e sem remorsos.
Mas essa liberdade tem um preço. Esse preço é a perda dos vínculos com a nossa história, com
nossos antepassados, com as tradições e valores do nosso povo, com a família, com a religião, com
Deus, com nossos amigos e por fim conosco mesmos. Avançamos de maneira intempestiva rumo a
liberdade e esquecemos que a liberdade tem necessariamente um contrapeso para poder sustentar-se
e esse contrapeso é a responsabilidade. A responsabilidade pelas consequências dos nossos atos
perante as outras pessoas, perante a lei, perante a nossa comunidade, perante o nosso povo, perante a
humanidade e perante o planeta no qual vivemos. Os homens modernos, ao ouvirem falar de
comunidades modernas, podem pensar: Acabamos de nos livrar do cabresto das almas de grupo
velhas, moralizadoras e limitantes, e agora querem nos enquadrar em almas de grupo modernas. Disso
emerge a questão: Qual é a diferença entre uma alma de grupo ou comunidade velha e uma alma de
grupo ou comunidade moderna?

As comunidades antigas.

As almas de grupo antigas eram necessárias para a condução da humanidade na era pré-cristã.
Seres espirituais conduziam a humanidade. Em tempos mais remotos isso acontecia através de
incorporações de seres espirituais em corpos humanos. Mais tarde, quando essas incorporações já não
eram mais possíveis, líderes humanos, através de processos de iniciação, conseguiam comunicar-se
com o mundo espiritual para receber os ensinamentos e preceitos morais que eles traduziam para as
suas comunidades em forma de mandamentos e orientações. A coesão das comunidades se dava
pelos laços de sangue e pela autoridade do líder espiritual. Os ensinamentos fluíam de cima para
baixo. O povo leigo ouvia, acreditava e obedecia às instruções recebidas de seus líderes.
Passamos durante cinco mil anos pelo Kali Yuga, uma época de escuridão espiritual, durante a qual
o ser humano foi desligado gradativamente da convivência direta com os deuses até o seu
esquecimento total. Esse processo de desligamento era necessário para a emancipação do ser
humano como indivíduo autoconsciente. O Kali Yuga terminou em 1899 e junto com ele terminou a
época de cinco mil anos de Patriarcado, inaugurando uma nova ordem mundial, cujos sinais começam
a aparecer no processo de emancipação feminina.

As comunidades modernas (Aspectos sociais)

. A comunidade moderna é o local onde podemos aprender a prática do altruísmo.


. Não existe diferença de gêneros. Homens e mulheres têm direitos iguais.
. Não existe líder espiritual ou um guru com seguidores.
. Não tem chefe com autoridade formal.
. Não existe hierarquia.
. Líderes podem ser eleitos com determinados mandatos durante um tempo predeterminado.
. Todos os membros têm participação ativa nas decisões.
. A coesão do grupo acontece através do estabelecimento em conjunto de objetivos e princípios
aceitos por todos e orientados por uma imagem guia.
. Existe plena liberdade individual de todos os membros da comunidade. Naturalmente, exige-se
fidelidade aos compromissos assumidos em conjunto.
. A saúde de uma comunidade depende do grau de confiança existente entre seus membros. Criar
comunidade é criar lugar de confiança.
. Os objetivos da comunidade podem ser predominantemente de ordem espiritual ou
predominantemente de ordem material, enquanto o terceiro fator, do encontro humano, está
sempre presente.
. O que caracteriza a comunidade não é apenas o “o que”, mas de igual importância é o “como”.

A Escola do Altruísmo é uma comunidade espiritual que se dedica ao estudo e a divulgação da


questão do altruísmo, que ela considera ser o sangue que deve fluir pelas artérias da nova ordem
mundial. A escola persegue objetivos internos no sentido de autodesenvolvimento individual e
comunitário e objetivos externos na divulgação e promoção do altruísmo no mundo.
Antes de seguir com os aspectos espirituais de uma comunidade, pretendo colocar perante vocês
uma imagem orientadora que serve para todo o trabalho da escola do altruísmo:
Geralmente, quando falamos de humanidade não temos muita consciência do que estamos
falando.

1. A humanidade é o único organismo social perene que existe. Todos os outros organismos
sociais têm início, meio e fim ou nascem, vivem e morrem.
2. O corpo físico da humanidade é o planeta terra, com suas pedras, plantas e animais.
3. Assim como acontece com o ser humano, esse corpo físico é permeado por uma alma e um
espírito, um Eu.
4. O Eu da humanidade é o Cristo, que através do mistério do Gólgota, (morte na cruz e
ressurreição) se ligou com a humanidade inteira e com a terra. (O verdadeiro Eu)
5. A alma da humanidade é formada pelas almas de todos os seres humanos, encarnadas e
desencarnadas, e pelos seres espirituais da terceira hierarquia. (Anjos, arcanjos, arqueus)
6. Para que as almas desencarnadas e os seres hierárquicos possam participar e contribuir para o
processo de evolução da humanidade é necessário que os encarnados que vivem na terra os
incluam em seus pensamentos.
7. Conforme o desenvolvimento da humanidade vai progredindo, a ligação entre as almas dos
homens encarnados, as almas dos desencarnados e as entidades da terceira hierarquia será cada
vez mais estreita.
É uma imagem tão gigantesca que precisamos nos aproximar dela e nos acostumar com ela
gradativamente para podermos integrá-la em nossa consciência como realidade vivida.

Em uma camada mais profunda


da existência somos todos conectados.
Lá todos sabem tudo de todos.
Não existe esconderijo.
Existe total autenticidade e
todos amam todos.
Evelyn Reimann

Quanto mais abrangente é a nossa consciência, mais facilmente conseguimos adotar um estilo de
vida que possa equilibrar as forças do egoísmo com as forças do altruísmo, habilitando-nos a atuar no
mundo com autoridade moral.

Comunidades modernas (Aspectos espirituais)

No ano de 1920 um grupo de jovens teólogos, descontentes com a situação atual confessional,
pediu ajuda para Rudolf Steiner no sentido de uma renovação da atuação dos pastores junto às suas
comunidades religiosas.
E Rudolf Steiner ajudou:
“Se o trabalho da renovação religiosa tiver de ser acompanhado pela formação de uma autêntica
comunidade, vocês precisarão de um culto religioso que seja apropriado para a época atual.
A experiência comum do culto é algo que produz, pela sua mera essência, na alma humana a
sensação de comunidade. No culto reside um elemento extremamente importante para a formação de
uma comunidade. Ele liga os homens entre si”. (Disso nasceu a comunidade de Cristãos)
Mas a Sociedade Antroposófica, que não tem este culto, também procura formar uma comunidade
e terá de encontrar o meio apropriado para isso.
E podemos nos perguntar: Que outros meios são esses? Para responder esta questão Rudolf
Steiner descreve quatro níveis de consciência que podem ser acessados através de três maneiras
diferentes de despertar:
No sono e sonho cada indivíduo está isolado de todos os outros. Podem dormir em uma sala dez
pessoas, mas uma não sabe nada da outra enquanto se encontra neste estado de consciência.

1) O primeiro despertar
Quando acordamos do nosso isolamento para o estado de vigília, entramos no mundo físico que
vivenciamos junto com as outras pessoas. O mundo externo nos chama e entramos numa certa forma
de comunidade com as pessoas que nos cercam. Convivemos com elas no mundo profano.
Conhecemos o lado externo das pessoas com as quais nos comunicamos por uma linguagem comum.

2) O segundo despertar
O segundo despertar é para o anímico espiritual do outro.
De um lado o homem da atualidade se sente fortemente como uma individualidade e quer rejeitar
tudo que possa prejudicar o seu pensar, sentir e querer individual. Ele quer ser uma personalidade,
isolada em si mesma.
Desde que eu tenha alcançado certo nível de formação em minha evolução individual, posso
adquirir e aperfeiçoar cada vez mais o elemento intelectualista, sem ter que apoiar-me em outras
pessoas. Pensar e raciocinar, logicamente, posso fazê-lo sozinho e o farei tanto mais perfeitamente
quanto mais isolado eu estiver. Posso adquirir ideias maravilhosas sobre Antroposofia. Posso adquirir
todos os conhecimentos sobre corpo etérico, corpo astral etc., de uma maneira teórica e não
compreenderei o mundo espiritual.
Começaremos a desenvolver uma primeira compreensão do mundo espiritual quando
despertarmos para o anímico espiritual do outro.
A força para este despertar pode ser produzida quando se implanta em uma comunidade de
pessoas o idealismo espiritual. Hoje se fala muito sobre idealismo. Mas o idealismo da cultura atual é
algo muito pálido. O verdadeiro idealismo somente existe quando o homem pode estar consciente do
seguinte: Ele pode levar ao espiritual suprassensível algo que ele viu, vivenciou e compreendeu na
terra, fazendo do mesmo um ideal. Elevamo-nos com a nossa vida anímica ao suprassensível quando
vivenciamos de maneira ideal e espiritual aquilo que encontramos no mundo físico.

Com isso descrevemos de maneira bem resumida o caminho oposto ao caminho do culto
religioso. Rudolf Steiner fala nesta ocasião do culto invertido.

Resumindo, podemos dizer que no culto religioso o pastor busca as energias espirituais no mundo
espiritual e as traz para a sua comunidade num movimento de cima para baixo.
Na comunidade antroposófica, os membros reunidos buscam o seu despertar em um nível mais
elevado através o despertar para o anímico espiritual do próximo. Isso resulta em um movimento das
energias espirituais de baixo para cima.
Rudolf Steiner fala então de culto invertido.

Esta descrição é um pequeno apanhado da Palestra de Rudolf Steiner, proferida em Stuttgart em


27.02.1923, publicada na GA 257, que deveremos estudar e comentar em profundidade quando a
oportunidade aparecer. Existe uma tradução desta palestra em português que será anexada a este
trabalho.
II

Na palestra do dia seguinte, também em Stuttgart, Rudolf Steiner olha novamente para este culto
invertido, iluminando-o de um ponto de vista diferente:
O elemento fraterno, como atmosfera moral em sociedades espirituais, é condição preliminar para
a obtenção de conhecimento espiritual.
Quem conhece o assunto sabe que justamente nestas sociedades espirituais se briga mais do que
em qualquer outra. Conflitos, separações, divisão em subgrupos, etc. É um fenômeno curioso. A
Antroposofia nos dá a possibilidade de compreender estes fenômenos. Na minha palestra anterior
encontramos três degraus de despertar: O homem que se encontra no sono profundo ou no sono com
sonhos vivencia imagens que ele considera serem realidades. As pessoas em sua volta não sabem
nada a respeito destas imagens do sonhador. Quando o sonhador acorda, ele entra em certa
comunidade com as outras pessoas. O sonhador, em circunstâncias normais, sabe diferenciar as
imagens e vivências que ele teve durante os sonhos das impressões sensoriais que ele divide com as
outras pessoas.
Agora vamos supor que na comunicação com as outras pessoas o sonhador, devido a uma
patologia, mistura as suas vivências oníricas com a realidade do mundo físico sensorial. No lugar de
pensamentos claros ele traz imagens oníricas que considera serem realidades. Ele não entende os
outros e os outros também não o entendem.
E podemos concluir: No momento em que a consciência de um degrau inferior é introduzida em
uma consciência de nível mais elevado, o portador da consciência inferior torna-se necessariamente
um crasso egoísta. O desentendimento e a separação são inevitáveis.

Agora vamos levar este exemplo para o próximo degrau de consciência que se encontra entre a
consciência diária de vigília e a consciência após o despertar para o anímico espiritual do outro. Se
desperta para este nível de consciência sem que isso fique claro imediatamente.
Existem naturalmente muitos caminhos para se entrar nos mundos superiores, conforme vocês
sabem através do meu livro “O conhecimento dos mundos superiores”. Mas nos momentos em que se
tem a felicidade de conviver com outras pessoas da forma indicada, pode surgir a capacidade de se
compreender coisas que normalmente não se compreende, de perceber coisas que normalmente não
se percebe. Aparece uma oportunidade de se conviver com aquilo que um conhecedor do mundo
espiritual designa por meio de termos referentes a este mundo espiritual. Aparece a possibilidade de
se falar nos corpos físico, etérico, astral, e no Eu. Aparece a possibilidade de se falar em vidas repetidas,
em relações cármicas dessas vidas repetidas.
Agora existe a possibilidade de se introduzir neste ambiente espiritual criado o estado de alma do
mundo profano. Isso corresponde ao exemplo anteriormente descrito, porém em um nível mais
elevado. O portador da consciência profana se torna naturalmente egoísta quando ele não se
conscientiza: Você não pode encarar aquilo que pertence ao mundo espiritual com a consciência que
pertence ao mundo profano.
E quando diversas pessoas com a consciência profana se reúnem e não se elevam para o nível da
compreensão anímica espiritual do outro, para ouvir a linguagem do mundo superior, existe uma
enorme possibilidade de eles entrarem em conflitos porque se tornam entre si naturalmente egoístas.
Existe um remédio forte para isso não acontecer, mas este remédio precisa ser desenvolvido antes
de poder ser usado. O remédio é uma enorme e interiorizada tolerância que precisa ser conquistada
através da autoeducação. Para as necessidades da vida comum, uma dose relativamente pequena é
suficiente, e muito se corrige simplesmente pelo contexto em que se vive. Mas em se tratando dessa
consciência comum da vida corriqueira, quando duas pessoas conversam, não lhes importa realmente
ouvir a outra. Quem tem experiência de vida sabe isso muito bem.
Hoje não se costuma mais escutar o outro; quando alguém disse a quarta parte de uma sentença,
o outro logo começa a falar, pois não está interessado naquilo que o outro diz, mas apenas em sua
própria opinião.
Isso acontece no mundo físico, embora seja muito negativo. Mas não é possível no mundo
espiritual. Aí a alma deve ser compenetrada pela tolerância mais absoluta. Aí cada um deve educar-se
para aceitar tranquilamente mesmo as coisas das quais diverge totalmente e isso não numa atitude de
arrogante paciência, mas numa atitude que tolera objetivamente a opinião ouvida como uma
manifestação justificada do outro. Nos mundos superiores faz muito pouco sentido levantar objeções
contra qualquer coisa. Quem tem experiência da realidade dos mundos superiores sabe que as ideias
mais divergentes a respeito de um fato qualquer podem ser manifestadas por ele ou por outro. Só
quando estiver capaz de acolher uma opinião frontalmente oposta de outra pessoa com a mesma
tolerância - escutem bem! - que a sua, é que ela poderá adquirir estado anímico social necessário para
vivenciar aquilo que se lhe revelar, em teoria, a partir dos mundos superiores. Esse fundamento moral é
simplesmente necessário para que reine uma relação correta para com os mundos superiores. As
brigas em sociedades, tais como as que caracterizei, têm por causa simplesmente uma situação na qual
as pessoas, ao receberem a informação sensorial de que o homem possui, além do corpo físico, um
corpo etérico, um corpo astral, um eu, etc., acolhem essa informação por ser sensacional, mas sem
transformar sua alma da maneira necessária para vivenciar esta informação de forma diversa de como
se vivencia na vida física uma mesa ou uma cadeira - que no mundo físico são vivenciadas de forma
diferente do sonho. Se as pessoas simplesmente transferem sua maneira anímica de ser para a sua
pretensa compreensão do ensinamento do mundo superior, isso só conduz, naturalmente, ao egoísmo
e às brigas.
Compreende-se, pois, das peculiaridades dos mundos superiores, que brigas e discussões podem
muito facilmente surgir em sociedades que cultivam conteúdos espirituais. Daí a necessidade de
educar-se para participar de tais sociedades, suportando o outro num grau muito mais amplo do que
se costuma fazer no mundo físico. Tornar-se antropósofo não significa apenas conhecer a Antroposofia
qual uma teoria; ser antropósofo requer, em certo sentido, uma metamorfose da alma. Mas é isso que
certas pessoas não querem. Por isso nunca se compreendeu quando eu disse haver duas maneiras de
alguém lidar com o meu livro “Teosofia”. A primeira consiste em lê-lo ou estudá-lo absorvendo-o com a
disposição anímica comum, e também o julgando conforme esta disposição anímica. Aí o processo
interior é, quanto à qualidade, igual para a “Teosofia” ou para um livro de receitas culinárias. Não há
diferença, quanto ao valor da vivência, entre a leitura desta “Teosofia” e a de um livro de receitas; só
que, ao fazer isso, sonha-se de uma maneira mais sutil, durante a leitura  da “Teosofia”. Ora, quando se
sonha com mundos superiores, os impulsos desses mundos não produzem entre os homens a maior
unidade, a maior tolerância; em vez da unidade, que também poderia ser uma dádiva dos mundos
superiores, haverá discussões e lutas sem fim. Com tudo isso vocês têm as condições para discussões e
brigas justamente em sociedades que se baseiam numa espécie de discernimento dos mundos
espirituais.
Falar sobre altruísmo, por exemplo, gera imediatamente um apelo à moralidade dos ouvintes,
despertando neles, de maneira subconsciente, dúvidas em forma de questões como:
Quem é esse sujeito?
Com que autoridade ele ou ela fala?
Que intenções ele tem?
Qual é o currículo dele?
De onde ele tira essas ideias?
O que está por detrás?
Com quem ele está ligado?
Etc. etc. ???

Essa categoria de dúvidas em nosso pensar é relativamente consciente.


No nível do sentir, a nossa consciência já é mais abafada e o ouvinte se defronta com reações
como, por exemplo:
O que isso tem a ver comigo?
Posso concordar?
Como isso mexe com meus valores?
Isso me toca interiormente?
Sinto um calor na alma?
ou
Sinto uma antipatia contra esse papo furado?
Sinto vontade de ridicularizar esse cara?

No nível do querer, a reação dos ouvintes já pode ser de adesão ou de rejeição. Podemos observar
uma divisão em dois grupos: os a favor e os do contra.
Quero saber mais!
Sinto-me mobilizado.
Quero participar.
ou
Isso é impossível!
É uma utopia.
Esse cara é um maluco.
Talvez levantemos da cadeira e deixemos a sala.

Rudolf Steiner fala detalhadamente sobre as origens inconscientes que geram as reações
negativas acima descritas, que são:
1) Dúvidas quanto ao poder da luz do espírito no pensar, que podemos traduzir como orgulho
intelectual.
2) Ódio à revelação do espírito no sentir, que se expressa como escárnio,
3) Medo de ser criador do espírito na vontade, que se expressa como atitude
hostil.
Somos filhos de nosso tempo, o que produz esse tipo de reação abaixo do nosso nível de
consciência.
Podemos verificar que falar sobre altruísmo é um desafio totalmente diferente de qualquer
apresentação técnica ou científica que lidam com coisas objetivas e palpáveis, que apelam para o
racional e são moralmente neutras.
Falando sobre altruísmo atingimos o ser humano inteiro em seu pensar, sentir, querer e em seu
cerne, o eu. Isso exige de nós, como oradores ou facilitadores, um grande senso de responsabilidade.
Precisamos ter consciência que com o nosso trabalho conduzimos seres humanos para diante do
limiar onde eles, em total liberdade, podem tomar a decisão de passar ou não pelo limiar. Com essa
resposta interior, mais ou menos inconsciente, cada ouvinte constrói parte do seu carma futuro.
Portanto, não estamos lidando com coisas, estamos lidando com o destino de indivíduos.
Quero encerrar com uma meditação dada por Rudolf Steiner:

Espírito vitorioso.

Inflama a impotência
das almas receosas.
Queima o egoísmo,
Acenda a compaixão,
para que o altruísmo,
o fluxo de vida da humanidade,
possa imperar como fonte
de renascimento espiritual.

Rudolf Steiner

* GA 10, cujo titulo em português é: Conhecimento dos mundos superiores, publicado pela Editora Antroposófica, São
Paulo.

** Bernard Lievegoed é o fundador do NPI- Nederlands Pedagogisch Instituut. Ele desenvolveu a maioria dos conceitos
que utilizamos na consultoria antroposófica, a partir dos arquétipos eternos revelados por Rudolf Steiner.

 Estratégia Externa A
Palestra VII- Formação VII

PASSADO - PRESENTE -
FUTURO
DANIEL BURKHARD
Daniel Burkhard

PASSADO - PRESENTE -
FUTURO
Quando comecei a pensar mais profundamente a respeito de uma estratégia para as atividades
de formação da escola do altruísmo, vislumbrei uma estratégia já existente, da qual não tinha
consciência até aquele momento.

Essa estratégia teve início em 1988 com a fundação da Adigo Consultores.


Após alguns anos de existência e trabalhos bem-sucedidos, a Adigo começou com um programa
de formação de Consultores internos dirigido ao pessoal que trabalhava nas empresas da área de
desenvolvimento.
Após algum tempo surgiram perguntas de participantes que sentiam que atrás dos conceitos e
modelos apresentados existia algo mais profundo. Para estas pessoas a Adigo desenvolveu um
programa de aprofundamento antroposófico de oito módulos. Destes módulos emergiram pedidos de
participantes para trabalharem na Adigo como consultores.
A partir destes pedidos, a Adigo resolveu formar o Instituto Ecosocial para acolher e treinar os
novos consultores. Não faltava trabalho e o Instituto Ecosocial cresceu rapidamente para uma
instituição que chegou a ter algo em torno de sessenta consultores, mas hoje são trinta e quatro.

Após algum tempo nasceu dentro do Instituto Ecosocial a ideia para um novo projeto para
formação de líderes comunitários denominado Germinar. Em 2012, após a divisão da Adigo em duas
consultorias, Lumo e Adigo DEF, cada grupo desenvolveu o seu próprio programa de aprofundamento.
Com o tempo os outros grupos, Ecosocial e Germinar, também desenvolveram um programa de
aprofundamento. A formação biográfica em grupos com 14 módulos desenvolvida pela Artemísia é a
formação mais longa e aprofundada que temos atualmente.
Colocando todos esses impulsos em um quadro obtemos a seguinte imagem, que não tem a
pretensão de ser completa. Podem existir outras iniciativas com objetivos semelhantes como as aqui
mencionadas e com o mesmo DNA. DNA comum é o fato de todas elas usarem os modelos inspirados
por Bernard Lievegoed, fundador do Nederlands Pedagogisch Insituut em Zeist na Holanda. O quadro
abaixo resume o que acabei de descrever.

Não bolei isso, mas somente olhando para trás pude perceber que atrás de tudo isso existe uma
estratégia maior.
Olhando para esse quadro podemos verificar o caminho que um aluno pode percorrer desde o
primeiro contato com o Germinar, Líder de si ou Formação de consultores internos, onde toma
conhecimento dos modelos inspirados pela Antroposofia, passando pelos seminários de
aprofundamento, onde adquire conhecimento da Antroposofia como um processo de interiorização,
para através da formação pela Escola do Altruísmo tornar-se socialmente criativo, inspirado pela
Antroposofia.

A descrição deste caminho não é uma utopia que podemos aceitar ou contestar. A descrição
mostra a realidade de um processo já existente e que foi construído ao longo de quarenta anos através
da participação de todos nós. O dono do processo deve ser Micael.

Cabe a nós, como membros fundadores da Escola do Altruísmo, desenhar o terceiro passo que
se conecta com o existente para formar um conjunto coerente, aproveitando tudo que já existe,
aproveitando a oportunidade que o destino nos oferece, superando as nossas questões menores,
avançando na jornada que não será fácil, mas gratificante.

Antes de entrar no terceiro passo, que trata da estratégia de formação para o futuro, quero
aproveitar a ocasião para introduzir algumas ideias básicas sobre a atuação da Escola do Altruísmo,
EDA:

A pedra angular da EDA: Altruísmo = Amor em ação


As sete colunas de sustentação da EDA:

1. Atividade Central da EDA: Formação (aprender ensinando)

2. Área de atuação: O social (“Onde dois ou três se reúnem em meu


nome estarei com eles”.)
3. O trabalho da EDA é doação.

4. A inspiração da EDA é a Antroposofia.

5. Método de Formação é a Andragogia (Educação de adultos)

6. Educação permanente (aprender a vida inteira)

7. Abrangência é a humanidade (pensar globalmente e atuar localmente)

Estratégia para o futuro

Para podermos construir uma estratégia para o futuro precisamos ter um objetivo claro a ser
alcançado. A minha ideia para esse objetivo é a seguinte:
Enxergo a existência de centenas de grupos de encontro de pessoas adultas de todos os níveis
culturais e sociais, que trabalham conforme um programa desenvolvido pela escola que se apóiem
mutuamente em seu processo de autodesenvolvimento, rumo à realização dos três grandes ideais para
a alma da consciência, sempre sob a bandeira do altruísmo.

Os três objetivos são:


. Compreensão social
. Liberdade no pensamento
. Reconhecimento espiritual

A minha palestra com o título “Formação – 8”, descreve esses três ideais.
Os encontros dos grupos devem acontecer em reuniões regulares com datas e horários
acertados pelos próprios grupos.
Cada grupo deve ter uma pessoa responsável (monitor) que convida os participantes e orienta o
grupo.
Os grupos são interligados em rede.
O monitor tem uma ligação direta com a escola do altruísmo e busca a sua orientação em
encontros periódicos dos monitores.
Os membros dos grupos levam o seu aprendizado para a sua vida cotidiana, atuando como
fermento através de iniciativas próprias em prol de uma nova sociedade.
Essa é a imagem do objetivo a ser alcançado pela escola do altruísmo. Em seguida podemos
buscar o caminho que nos leva a este objetivo.
Para definir a estratégia precisamos fazer alguma distinção entre diferentes públicos.
A primeira diferença existe entre estratégia interna x externa.
A estratégia interna descreve o processo de desenvolvimento do grupo fundador que
necessariamente passa por um processo de amadurecimento, como é característica de todos os
organismos vivos. Para este grupo deve existir uma estratégia de formação diferente da usada para o
público externo. Só muito mais adiante essa estratégia servirá de modelo para os muitos grupos
mundo afora. A proposta é que o grupo não apenas amadurecesse naturalmente, para em algum
ponto morrer de velhice, mas que o grupo se metamorfoseasse, evoluindo cada vez mais para uma
comunidade espiritual, que consegue se auto renovar. Desta maneira, o grupo se torna exemplo para
aquilo que ele prega. As minhas palestras sobre formação com numeração de 1 a 6 descrevem o
processo que estou me imaginando para este grupo.
Nessa estratégia iniciei de uma maneira mais prática, descrevendo o contexto dentro do qual a
formação se insere e tentei aprofundar o assunto com cada palestra, até mergulhar ao âmago da
questão na palestra 5 (Comunidades), para em seguida, na palestra 6, emergir novamente para
aspectos mais práticos de execução imediata. As seis palestras tratam do processo de desenvolvimento
do Grupo da escola do altruísmo que gradativamente deve evoluir para uma comunidade de atuação
espiritual. Somente podemos levar para o mundo aquilo que experimentamos internamente, pois
somente assim as nossas palavras têm força espiritual e seremos ouvidos pelo mundo. Do contrário
jogaremos apenas palavras ao vento. Na estratégia externa devem ser envolvidos, com a participação
intensiva, todos os membros da Escola do Altruísmo.
Quero observar que cada vez que releio uma das seis palestras sinto necessidade de alterar ou
acrescentar alguma coisa no texto. Portanto peço aos amigos que não considerem os conteúdos
apresentados como trabalho terminado ou como verdade última, mas muito mais como um estímulo
para discutirmos e aprofundarmos o assunto da nossa formação.

Como já descrito acima, ao falar de estratégia falamos de dois processos.


O primeiro é o processo de desenvolvimento do grupo fundador. (Estratégia interna)
O segundo é o trabalho que o grupo quer realizar no mundo. (Estratégia externa)
É claro que os dois processos são interligados e se influenciam mútua e constantemente, pois na
época atual somente o exemplo tem poder para provocar mudanças no mundo.
A seguir, quero apresentar um pequeno resumo das seis palestras sobre formação do grupo
fundador:

Formação 1 - Três níveis de formação


- O trabalho com modelos
Formação 2 - A formação no contexto geral
- A busca do sentido da existência
Formação 3 - O processo cognitivo na busca do senso da verdade.
- Como distanciar-se de si mesmo
Formação 4 - Grupos e seu desenvolvimento
Formação 5 - Evoluindo para uma comunidade moderna
Formação 6 - Exercitação

A estratégia externa diferencia o público conhecido, que já teve algum contato com a
Antroposofia, do público desconhecido que não teve esse contato.
A estratégia externa recebe o seu impulso inicial através das palestras públicas proferidas pelos
membros fundadores da escola do altruísmo. Eles recebem convites de pessoas que ouviram falar da
Escola do Altruísmo e que se dispõem a organizar um evento destes, na cidade onde moram. Vamos
denominar estas pessoas de anfitriões. Provavelmente estes anfitriões já têm algum conhecimento
de Antroposofia e certa projeção na comunidade em que vivem.

O palestrante convidado leva exemplares do livro “Nova consciência, altruísmo e liberdade”


para venda no local. Para os compradores do livro o anfitrião faz um convite para formarem um grupo
de estudo do livro. O anfitrião ou pessoa indicada por ele assume a responsabilidade pela formação e
condução do grupo de estudo. O livro oferece oportunidades para despertar perguntas nos
participantes e elucidação pelo líder do grupo.
No mesmo evento o palestrante e o anfitrião verificam se existem pessoas conhecidas, que já
frequentaram uma formação nível 1 ou nível 2 de nossa estratégia apresentada acima no painel 10.
Quem dos presentes na palestra tiver completado uma formação nível 2 poderia ser convidado
para absorver um curso de treinamento que os capacita a assumir a responsabilidade por um grupo.
Quem fez um seminário nível 1 (consultores internos, líder de si ou germinar) pode frequentar um dos
seminários de aprofundamento antroposófico para, em seguida, habilitar-se para o treinamento de
condução de um novo grupo. A questão do financiamento para este treinamento precisa ainda ser
solucionada.

Quando um grupo alcança certa maturidade, ele passa por uma metamorfose, para o estágio que
é caracterizado pela estratégia interna, pela qual o grupo fundador havia passado tempos atrás. (Painel
15 - Estratégia interna)
Planejar qualquer coisa além deste ponto me parece tempo perdido, porque até lá teremos
ajudado a desenvolver tantas mentes com consciência avançada e com vontades e impulsos próprios,
em situações diferentes, que nesse ponto somente nos caberá entregar a nossa estratégia de volta
para Micael.

Palestra VIII- Formação VIII Estratégia Externa B

COMPREENSÃO SOCIAL
LIBERDADE NO PENSAR
RECONHECIMENTO ESPIRITUAL
DANIEL BURKHARD
Daniel Burkhard

COMPREENSÃO SOCIAL
LIBERDADE NO PENSAR
RECONHECIMENTO ESPIRITUAL
Rudolf Steiner: Como as necessidades anímicas dos tempos atuais podem
ser sanadas?

Assim é o título de uma palestra que Rudolf Steiner proferiu em Zürich em 10.10.1916 e que
pode ser encontrada no GA 168.
Utilizei as ideias desta palestra para escrever o que segue abaixo, incluindo trechos traduzidos da
mesma. Porém, inicialmente, quero apresentar alguns pensamentos introdutórios para criar o contexto
dentro do qual a palestra deve ser entendida.
Estou trazendo os conteúdos que seguem na expectativa de que eles sirvam de fundamento para
o plano de formação dos alunos da Escola do Altruísmo em harmonia com a minha palestra Formação-
7- Estratégia.

A quinta época cultural pós-atlântica (1413 a 3573 dc.) deve desenvolver a alma da consciência
do ser humano.
A alma da consciência já festeja grandes conquistas, principalmente em todos os campos das
ciências naturais. Novas conquistas e descobertas exercem uma profunda influência sobre a vida das
pessoas, trazendo conforto e progresso material.
As máquinas substituem o trabalho humano e as perspectivas no campo tecnológico são
grandiosas.
Outro aspecto da alma da consciência não menos importante é a democratização das
informações. Até o início do desenvolvimento da alma da consciência, na idade média, o domínio da
informação era privilégio das poucas pessoas que estavam no topo da pirâmide social e religiosa. Com
o advento da impressão mecanizada de livros o processo de democratização da informação teve início
e culminou com o acesso à internet para todos. Tecnicamente vivemos tempos gloriosos.

Outra consequência do desenvolvimento da alma da consciência é o que Carl Gustav Jung


denomina de processo de individuação. O indivíduo conquista cada vez mais uma consciência de si
mesmo, separando-se do ambiente externo a ele. Eu em mim e o mundo lá fora. Esse fenômeno traz
como consequência natural um isolamento cada vez maior do indivíduo e um egoísmo cada vez mais
intenso.

Citando Rudolf Steiner:


A alma de grupo que ainda pairava sobre a quarta época pós-atlântica, a greco-romana, não tem
mais sentido na quinta época pós-atlântica.
Em seu lugar devem emergir novas competências do ser humano capazes de desenvolver a alma
da consciência.
São elas:
. Compreensão social
. Liberdade de pensamento
. Reconhecimento espiritual

Sem a conquista dessas três competências a alma da consciência não terá chance de se
desenvolver da maneira adequada. Estas competências, que Rudolf Steiner denomina de ideais,
devem ser desenvolvidas individualmente por todos os seres humanos.

O que significa compreensão social?


Compreensão social significa adquirir um conhecimento mais profundo da natureza humana.
Antropologia prática.
Este conhecimento é desenvolvido pela Antroposofia, quando ela sai do abstrato para o
concreto, para a vida cotidiana;
- os diferentes temperamentos
- as várias constituições
- as sete qualidades anímicas
- as diferentes fases da vida
- os vários caracteres humanos
- etc.
Cada pessoa precisa ser abordada de maneira diferente conforme o seu perfil. Isso já começa
com a educação da criança. Um temperamento colérico precisa ser abordado de maneira totalmente
diferente de um temperamento melancólico, por exemplo. Psicologia prática, aplicada à convivência
cotidiana deve fazer parte da nossa cultura e precisa ser aprendida por cada indivíduo que deve, nesta
época, desenvolver a alma da consciência. Atualmente, julgamos as pessoas pela nossa simpatia ou
antipatia. Simpatia e antipatia são o resultado de um pré-julgamento. Achamos que uma pessoa
deveria corresponder aos nossos critérios e quando isso não acontece, ela nos é antipática. Enquanto
não conseguimos aceitar uma pessoa assim como ela é, não existe a chance para uma avaliação
objetiva do outro. Simpatia e antipatia são os maiores inimigos de uma verdadeira compreensão social,
porque impossibilitam o desenvolvimento da alma da consciência.
O que significa liberdade de pensamento?
A segunda qualidade que a alma da consciência precisa conquistar é a liberdade de pensamento
para a vida religiosa. Na quarta época pós-atlântica a convivência humana ainda era fundamentada nas
almas de grupo e por essa razão as religiões necessariamente eram religiões de grupo, mas pelo fato
do processo de individuação ser cada vez mais intenso as religiões de grupo não conseguem mais
sustentar as necessidades religiosas da alma individualizada.
Na quarta época pós-atlântica, a humanidade ainda precisava ser instruída pelo cristianismo em
grupo, mas na época atual o Cristo já se instalou em cada alma humana individual. Já carregamos o
Cristo dentro de nós de maneira subconsciente ou inconsciente e precisamos trazê-lo para a
consciência. Isso não pode mais acontecer através da obediência a dogmas ou regras ou a autoridades
religiosas. Nos tempos atuais precisamos desenvolver a tolerância com relação aos pensamentos
religiosos alheios e nos livrar de qualquer dogma ou confissão.
Como formadores precisamos, a partir de nossa própria vivência contar para as pessoas, por
exemplo:
- nos primeiros séculos do Cristianismo era importante que...........
- nos séculos seguintes, outros aspectos do Cristianismo tornaram-se
importantes.............
- também existem outras religiões............
- tenta-se comparar as várias religiões, por exemplo
- tenta-se compará-las com o Cristianismo
- etc.
Com esta abordagem objetiva promovemos a possibilidade de cada alma conseguir aprofundar
com plena liberdade as suas respostas para as suas questões religiosas.
Promovemos então a liberdade do pensamento e não a doutrinação das outras almas. Dessa
maneira, podemos trabalhar com as outras pessoas independentemente da religião de cada um. A
partir da liberdade de pensamento para a questão religiosa, a alma da consciência
tem condições de expandir a liberdade do pensamento para todas as outras áreas da
vida. Cada um precisa percorrer este caminho individualmente para tornar a sua alma da consciência
uma realidade. E isso é uma jornada cheia de obstáculos. Forças contrárias ao desenvolvimento da
humanidade lutam com todos os meios disponíveis para evitar a conquista da liberdade de
pensamento. Pelo fato dessa liberdade ser uma conquista individual, emergem enormes problemas. E
as dificuldades aumentam por essa clareza de consciência ser uma necessidade global para o
desenvolvimento da alma da consciência, que para muitas pessoas será vivenciada como uma coisa
desconfortável que preferem evitar.
Em outras palavras: a necessidade é global e a solução depende de cada um individualmente.
Um dos obstáculos mais resistentes à liberdade de pensamento é a submissão do homem
comum à autoridade dos especialistas, o que gera nele uma impotência para fazer um julgamento
próprio. Na quarta época pós-atlântica, a razão, o bom senso do indivíduo, era um dom tão natural
como ter dois braços. Na época atual, essa razão, ou bom senso, precisa ser adquirida com esforço e
tirada de um nível mais profundo da alma, mas a crença na autoridade impede este processo.
As nossas vidas são conduzidas pela crença nas autoridades. No campo da medicina, da
jurisprudência, mas também em todas as outras áreas da vida as pessoas se declaram incompetentes
para ter um julgamento próprio. Elas aceitam passivamente o que os especialistas afirmam e com isso
impossibilitam o desenvolvimento da liberdade do pensamento e da alma da consciência.
Com toda a razão as pessoas podem argumentar: Não podemos aprender tudo que vem do
contexto autoritário. Não podemos saber o que os médicos ou os juristas ou outros especialistas
sabem. Como vamos julgar o trabalho deles? É verdade, não podemos aprender tudo isso. Porém,
devemos pensar que não precisamos ser criativos nos campos dos especialistas, apenas precisamos
nos tornar competentes para, com bom senso, avaliar o trabalho deles e ponderar as nossas decisões.
Essa competência não adquirimos através dos mesmos conhecimentos que eles possuem. Mas através
da terceira competência mencionada anteriormente, o reconhecimento espiritual.

O que significa o reconhecimento espiritual?


Através do reconhecimento espiritual captamos as amplas correlações existentes entre os
diferentes aspectos da vida em um nível mais profundo. A ciência espiritual precisa tornar-se o
reconhecimento central.
Ela não revela apenas as correlações entre os processos de desenvolvimento do homem, da
humanidade e do mundo. Ela produz pensamentos baseados no bom senso, que não permite sermos
autoridade nos vários assuntos trazidos pelos especialistas, mas que permite sermos capazes de avaliar
os resultados do trabalho que as autoridades nos apresentam, ao colocá-los em um contexto mais
amplo e mais profundo da vida. A ciência espiritual, quando praticada de maneira correta, transforma a
nossa compreensão do mundo de tal maneira, que nos tornamos competentes para o julgamento do
trabalho que as autoridades, nas mais diversas áreas específicas, nos apresentam.

Atualmente as pessoas conseguem entender o que significa compreensão social e o que é


liberdade no pensamento, porém ainda existe uma dificuldade para entender a necessidade do
reconhecimento espiritual. A maioria das pessoas ainda não descobriu que a perda da ligação com o
mundo espiritual é a causa do advento do materialismo e a consequente incompreensão social. A vida
materialista domina a nossa civilização. Sem reconhecimento espiritual não existe a possibilidade de
realizarmos os outros dois ideais necessários já descritos, compreensão social e liberdade de
pensamento. E somente esses três ideais juntos possibilitarão o desenvolvimento sadio da alma da
consciência e a competência necessária para o leigo conseguir avaliar o trabalho das autoridades nas
diferentes áreas de especialização, com um bom senso que ultrapassa a consciência comum.

Existe um mistério que Rudolf Steiner explica de uma forma imaginativa:


Ouvimos na Antroposofia que o mundo espiritual é povoado por seres elementares que nos
circundam constantemente. Também ouvimos falar de seres hierárquicos, anjos, arcanjos etc. O mundo
se povoa para nós com conteúdos espirituais concretos, com forças e entidades espirituais.
Na época greco-romana, que era a época do desenvolvimento da alma da razão e da índole,
estas entidades não faziam muita questão que os humanos soubéssemos de sua existência. Porém, isso
mudou radicalmente na época do desenvolvimento da alma da consciência. Atualmente o nosso
desconhecimento da existência das hierarquias causa nelas uma angústia. Elas sentem falta de
alimento espiritual.
O que aconteceu para provocar essa mudança radical?
Com o mistério do Gólgota, o Cristo entrou na esfera terrestre e desde aquele evento ele se
encontra no âmbito da terra e podemos considerar esse fato como uma felicidade para a vida terrestre.
Porém, do ponto de vista dos anjos a vivência na esfera espiritual é o oposto. O Cristo partiu.
Rudolf Steiner reforça: Esse ponto de vista não é uma invenção minha, mas o resultado concreto
de minha pesquisa espiritual.
A partida do Cristo da esfera dos anjos causa neles uma grande tristeza e falta de alimento
espiritual. Para os anjos existe apenas uma salvação e ela depende de que os seres humanos
encarnados em seus corpos físicos na terra carreguem o Cristo em seus corações, com o pensamento
dirigido para os anjos. Desde o acontecimento do Gólgota estes pensamentos irradiam da terra para a
esfera dos anjos em forma de luz.
Os seres humanos na terra dizem: O Cristo entrou em nós e podemos nos desenvolver
para que Ele viva em nós. Não eu, mas o Cristo em mim, dizia o apostolo Paulo.
Os anjos dizem: O Cristo partiu de nós e ele brilha para cima como estrelas a partir de cada
ser humano que O carrega em si.

Existe uma real conexão entre o mundo espiritual e o mundo humano, e as entidades espirituais
olham com benevolência e satisfação para os pensamentos que fazemos a respeito delas.
Elas somente podem nos ajudar na medida em que formamos pensamentos a respeito delas.
Mesmo sem termos ainda capacidade para enxergá-las, elas podem nos ajudar na medida em que
sabemos delas. Ao estudar ciência espiritual, promovemos ajuda a partir do mundo espiritual.
Não são apenas as coisas que aprendemos no mundo físico que promovem o nosso
conhecimento, são também as entidades espirituais que nos ajudam a formar um julgamento correto
perante as afirmações e atos das autoridades. O mundo espiritual nos ajuda. Precisamos dele.
Precisamos saber a respeito dele. Isso é o terceiro desafio que a alma da consciência precisa vencer
para o seu correto desenvolvimento.

Compreensão social do ser humano.


Liberdade de pensamento
Conhecimento vivo da existência do mundo espiritual

Esses são os três grandes objetivos para o desenvolvimento da alma da consciência na quinta
época pós-atlântica e, segundo Rudolf Steiner, esses são os três grandes ideais para o altruísmo poder
evoluir.
A Escola do Altruísmo pode contribuir para a realização destes ideais através de três projetos
bem definidos, que devem obedecer aos seguintes critérios: - Serem escaláveis, replicáveis e
transferíveis.

1. Através da formação de grupos, cujos participantes trabalham sobre as suas histórias de vida,
onde também conhecem histórias de grandes personalidades. (já existe muito know how sobre o
assunto)

2. Treinamento para a condução de grupos com a aquisição dos instrumentos e métodos


desenvolvidos e disponibilizados pelo NPI (Nederlands Pedagogisch Instituut)

3. Conhecimento de diferentes caminhos para a educação permanente individual ou caminho do


desenvolvimento espiritual.

Com estes três projetos atenderemos a realização dos três ideais necessários para desenvolver
uma andragogia que possibilite ou que facilite o desenvolvimento da alma da consciência “altruísta”
que tem a capacidade de ponderar e equilibrar os impulsos espirituais com as necessidades
fisiológicos individuais.

 Estratégia Externa C
Palestra IX- Formação IX

PLANO DE FORMAÇÃO
DANIEL BURKHARD
Daniel Burkhard

PLANO DE FORMAÇÃO
Na última palestra conhecemos os três ideais a serem realizados pela alma da consciência,
conforme foram descritos por Rudolf Steiner.
São eles:
a) Compreensão social
b) Liberdade no pensar
c) Reconhecimento espiritual

Após um aprofundamento do estudo destes três valores e com os olhos dirigidos para a missão
da Escola do Altruísmo, cheguei á seguinte conclusão:
- Os três valores se complementam mutuamente e são interdependentes.
- Os três valores devem crescer de maneira equivalente.
Essa conclusão é representada pelo desenho abaixo:
Podemos imaginar dois dos valores, compreensão social, que procura uma compreensão
mais profunda do ser humano e reconhecimento espiritual, que se ocupa com as hierarquias
espirituais e com o significado do Cristo, como sendo duas colunas (ou fileiras de colunas) que
sustentam o telhado da nossa Catedral. Debaixo do telhado desenvolvemos, de maneira protegida, o
terceiro valor, que é a liberdade do pensamento. As duas colunas devem irradiar energia para o
processo que acontece no meio.

O telhado sobe de maneira gradativa do nível “I” para o nível “IV”, na medida em que a liberdade
do nosso pensamento vai evoluindo.
Na mesma medida em que o telhado precisa subir, as colunas precisam se esticar para continuar
exercendo a sua função que é sustentar o telhado. Se as duas colunas crescerem de maneira desigual,
o equilíbrio da construção inteira fica perturbado, de modo que a catedral toda pode ruir.

Conforme Rudolf Steiner, o processo todo da conquista da liberdade do pensamento deve


acontecer no espaço de tempo que nos resta para o desenvolvimento da alma da consciência, ou seja,
até 3573 d.C. Até essa data, a vida cultural do organismo social da humanidade deverá ter conquistado
a sua independência da vida jurídica e da vida econômica, em nível global, quer dizer, sobre o planeta
inteiro. Até o fim da sexta época cultural, a época russa, a vida jurídica deverá ter encontrado e
realizado a sua verdadeira função no organismo social da humanidade, cuja base deve ser a igualdade.
E até o final da época americana a vida econômica deverá acontecer baseada na fraternidade.
Somente com a conclusão das três tarefas, o altruísmo na convivência humana, em nível global, será
uma realidade. A humanidade inteira viverá como uma grande irmandade. Neste estágio da evolução a
humanidade terá desenvolvido uma nova moralidade que possibilitará um novo passo em direção à
espiritualização da terra.

A escola do altruísmo lida com os fenômenos sociais. Os membros da escola têm a tarefa de lutar
pela conquista da liberdade do pensamento, que é o fundamento da liberdade para a vida cultural/
espiritual do organismo social futuro da humanidade. A escola contribui, a partir dos pontos de vista de
sua atuação profissional, no âmbito social. Isso é representado no desenho acima pela área dentro do
retângulo com os níveis I a IV. O conteúdo mais detalhado deste retângulo é apresentado na próxima
tabela, (painel 18) e será descrito de maneira resumida.

Fiel ao nosso princípio, pensar globalmente e atuar localmente, as colunas representam a


destreza a ser adquirida pelos alunos, para poderem atuar em qualquer situação social e as linhas
representam o grau de evolução da consciência dos alunos. Fica claro que o avanço da consciência é
muito mais rápido do que o treinamento das competências sociais.
Antes de seguir com o detalhamento das fases I a IV quero introduzir um pensamento, a partir do
qual teremos melhores condições de compreender a descrição das fases e entender aonde entra a
questão da Arte.
O Painel 19 abaixo ajudará para melhor compreensão:

O desenho é praticamente autoexplicativo:


No lado esquerdo encontramos o artista, em nosso caso, o facilitador, que precisa ter interesse e
um certo talento para atuar no social.
No meio vemos a caixa de ferramentas que ele precisa adquirir e tornar-se hábil no manejo delas.
No nosso caso as ferramentas seriam todos os itens dentro do retângulo do painel 18.
Com certa destreza no manejo das ferramentas e com alguma criatividade ele começa a criar as
suas obras de arte no mundo.
O verdadeiro ato de criação acontece no encontro com os alunos, quando o facilitador caminha
junto com o aluno o caminho da descoberta, criando algo novo. O ato criativo acontece no encontro
entre o facilitador e o aluno, que pode ser um indivíduo, um grupo, uma comunidade, etc.
- Fazer a pergunta certa no momento certo, é arte no social.
- Trazer espírito dentro da matéria, que é o nosso lema, necessariamente passa pela arte.
- Parece-me que a palavra mágica para a arte social é a participação ativa do aluno no
processo.
- Uma palestra bem preparada e apresentada de maneira que aquece os corações também
podemos considerar arte.

Voltando para o assunto desta palestra podemos, agora, dar uma olhada dentro da caixa de
ferramentas nas diferentes fases, lembrando que o equilíbrio entre a aquisição da caixa de ferramentas
e os conteúdos das colunas da “compreensão social” e do “reconhecimento espiritual” é fundamental.
(vide Painel 17)

Fase I:
Aquisição ou atualização da caixa de ferramentas.
Nesta fase os facilitadores devem conhecer ou reciclar os seguintes instrumentos básicos para um
facilitador:
- Conteúdo x interação x procedimento
- As fases do procedimento
- Caminho da análise x caminho da decisão
- O procedimento “U”
- Caminho da instrução x caminho do descobrimento
- Decisões sociocráticas
- Negociação ganha x ganha
- Solução de conflitos
- Outros
Para alguns alunos vai ser em parte recapitulação, mas provavelmente mais na memória do que
na destreza. Se houver alunos já capacitados, eles podem ensinar os colegas de turma no lugar do
facilitador. Sabemos que a melhor forma de aprender é ensinando.

Fase II
Nesta fase enriquecemos a nossa caixa de ferramentas lidando com os diferentes tipos de
grupos, comparando as suas características cuja descrição podemos encontrar na minha palestra:
Formação 4: Grupos.
Essa palestra não esgota o assunto de grupos. Outro assunto relacionado com o tema Grupos é o
que trata das fases de desenvolvimento ou de amadurecimento de grupos.

Fase III
Nesta fase lidamos em primeiro lugar com a formação e os fenômenos de uma comunidade
espiritual, que é precursora e promotora da futura vida espiritual–cultural do organismo social
trimembrado.
Ela emana da descrição do grupo de ação espiritual já descrito na palestra Formação 4.
Ainda não terminei esta palestra, porque estou tateando para dentro de uma região com a qual
existe pouca experiência concreta. Mas considerando a profundidade que teremos conseguido
alcançar ao realizar as caraterísticas descritas para o grupo de ação espiritual vai decorrer bastante
tempo e até lá saberemos falar mais a respeito do que no momento atual.

Fase IV
Nesta fase lidamos com a compreensão e a preparação para a participação ativa dos facilitadores
da Escola do Altruísmo nas grandes estratégias da transformação das sociedades modernas. Mais
adiante deveremos nos aprofundar neste assunto aproveitando o que já foi elaborado por outras
pessoas, mas gostaria de deixar um pequeno texto* que ilumina várias questões pertinentes:
Rudolf Steiner, sobre a lei social fundamental diz o seguinte: Para a realização da lei social
fundamental dependemos de seres humanos que encontrem o caminho para sair do egoísmo. Isso não
é possível quando o grau do bem-estar do indivíduo depende do seu trabalho. Quem trabalha para si
próprio, torna-se gradativamente presa do egoísmo. Somente quem trabalha para os outros, pode
tornar-se gradativamente um trabalhador não egoísta. Mas para isso é necessário que o indivíduo
conheça a totalidade pela qual está trabalhando e sinta o seu significado e seu valor. Essa totalidade
precisa ter uma missão espiritual, para a qual cada um queira contribuir com o seu trabalho.
É tarefa da presente época criar condições que possibilitam a cada indivíduo poder trabalhar
para uma totalidade com a mais intensa motivação. Isso é apenas possível através de uma visão de
mundo espiritualizada. Nenhuma teoria econômica materialista tem condições de realizar um desafio
destes. Ela somente poderá reforçar o egoísmo.
A única maneira viável é uma visão de mundo espiritual, que consegue, a partir daquilo que ela
pode oferecer, atingir o ser humano inteiro no seu pensar, sentir e querer.
Em cada ser humano dorme um Eu superior, que pode ser despertado através de uma visão de
mundo espiritualizada. Somente a partir de atitudes o progresso geral poderá ser promovido. Cada
indivíduo pode, a partir do lugar em que o destino o colocou, atuar no sentido da lei social
fundamental.
O progresso social da humanidade só pode acontecer quando os seres humanos querem. Para
isso faz-se necessário trabalho interior da alma e isso só pode acontecer passo a passo.

1* Dietrich Spitta comenta Rudolf Steiner em sua obra: Der Soziale Organismus als Mysterium (O Organismo Social como
mistério) Freies Geistesleben Stuttgart 2015.

Palestra X- Formação X

A ARTE NA ESTRATÉGIA E NA
DIDÁTICA
DANIEL BURKHARD
Daniel Burkhard

A ARTE NA ESTRATÉGIA E NA
DIDÁTICA
Em 30 de agosto de 1920 em Dornach (GA 337b), Rudolf Steiner participou de uma noite de
discussão sobre a Trimembração do Organismo Social.
Nesta reunião foi abordada, entre outros assuntos, a questão da arte no organismo social. Na
ocasião, Rudolf Steiner se expressou da seguinte maneira: “Cada vez que ouço uma discussão sobre
arte e vida social fico com uma sensação interior de insatisfação, simplesmente pelo fato de a maneira
de pensar e a configuração anímica, ao falar sobre estruturação social, é diferente daquela que é
necessária para falar sobre arte. De certa maneira as duas coisas não são bem comparáveis.
Quando falarmos de arte no organismo social, não devemos esquecer em nenhum momento,
que a arte faz parte das mais sublimes flores da vida humana e que é prejudicial à arte e a tudo que
está nela, que não pode ser considerado das mais sublimes flores da vida humana.”

Estou colocando esta observação de Rudolf Steiner no começo deste trabalho, não para
desmotivar o leitor, porém como orientação, para sabermos que aquilo que estamos buscando como
nova didática da Escola do Altruísmo não deve ser considerada arte no sentido clássico e nem deve ser
buscada como finalidade última de nosso esforço.

Podemos encontrar outra indicação na GA 305, que é um ciclo de nove palestras proferidas por
Rudolf Steiner em Oxford entre 16 e 25 de agosto de 1922, com o seguinte título: As forças anímicas
espirituais fundamentais para a Arte da Educação.
Surge a pergunta: Se a verdadeira educação de crianças é considerada Arte, a educação de
adultos não deve ser considerada Arte também?
Em seguida quero desenvolver algumas ideias para chegar mais perto de uma resposta.
Ao ler parte destas palestras ficou claro para mim que a fundamentação da Arte de educar é
idêntica aos três ideais que devem ser realizados pela alma da consciência (vide minha palestra
Formação 8)

Os três ideais são: a) Compreensão social


b) Liberdade no pensar
c) Reconhecimento espiritual

Foi tranquilizador descobrir o paralelismo entre a essência da nossa estratégia de formação e a


essência da educação da criança.

Inicialmente algumas premissas:


a) A arte não pode ser considerada uma ferramenta. Ela é grande demais para caber na caixa de
ferramentas do facilitador.

b) A Arte somente cabe dentro do facilitador que se torna um artista, na medida em que a sua
experiência vai crescendo ao longo da vida.

c) A prática da Arte exige um exercitar-se constante.

d) Sugiro diferenciar Arte individual da Arte coletiva. Na Arte individual, durante o ato de criação,
o Artista procura o isolamento. (Pintor, Poeta, Escritor, Compositor, Escultor etc). O isolamento é
uma atitude antissocial assim como, por exemplo, a meditação também o é.

e) A Arte coletiva busca exatamente o contrário. O ato de criação é uma atividade conjunta com
diversos atores, (Orquestra, Teatro, Euritmia), na qual os participantes chegam a formar
verdadeiras comunidades.

f) A Arte social vai um passo além, ao buscar no ato da criação a participação ativa da plateia, que
se torna cocriadora.

g) A Arte do facilitador consiste da criação de um ambiente artístico dentro do qual cada


participante pode sentir-se convidado e livre para participar ativamente no ato da criação. O
aluno quer criar e vivenciar e não ser degradado a um simples receptáculo de informações.

h) Arte não é discutir a respeito, Arte é fazer. O processo de criação acontece no aqui e agora.

Para podermos avançar com a nossa questão da Arte precisamos diferenciar a Arte na estratégia
da formação e a Arte na didática. Podemos dizer que a estratégia responde pelo “O QUE” vamos fazer
e a didática responde pelo “COMO” vamos fazer.

Em termos de estratégia para a formação o painel 20 abaixo pode dar uma ideia dos desafios
para o facilitador, lembrando mais uma vez as palavras de Bernard Lievegoed, que orienta todo o
nosso trabalho.
“Da Antroposofia haurimos as ideias e os ideais espirituais.”
No mundo sofremos junto com a humanidade.
É nossa tarefa traduzir e transformar os ideais espirituais em ideias socialmente compreensíveis e
realizáveis sem nos tornarmos missionários.
Neste painel podemos localizar o facilitador cercado por dois universos, o social e o espiritual,
conforme mencionado por Lievegoed. (Eixo vertical)

No eixo horizontal temos duas possíveis abordagens, a científica e a artística.


O primeiro universo é a realidade social que o facilitador precisa observar e comprender.
Dependendo de sua experiência, ele pode, em certas situações, conectar os fenômenos observados
diretamente aos arquétipos espirituais que atuam por detrás dos fenômenos sociais. Vide a minha
palestra Formação 1, que descreve este processo. Geralmente, com grupos ainda inexperientes, o
facilitador faz esta conexão direta interiormente e sozinho. Junto com o grupo ele faz um caminho que
pode ser de natureza mais científico-racional ou mais artístico-terapêutica. Pelo fato de trabalharmos
com realidades sociais é fundamental existir um equilibrio entre ambos. A abordagem artística é
fundamental para ativar a fantasia que pode romper ou transpor obstáculos no pensamento do grupo.
A Arte, por sua natutreza, é a conexão por excêlencia entre o mundo físico e o mundo espiritual. Porém,
ao deixarmos predominar a Arte sobre a Ciência corremos o risco de sermos utópicos ou radicais
demais.

A abordagem científica é importante para nos ajudar a ficar com os pés no chão, porém, ao
deixarmos que ela predomine existe o perigo de trazermos mais do mesmo, sem criatividade e sem
verdadeiras soluções.
No equilíbrio entre ambos deve se serpentear o caminho que o grupo percorre junto com o
facilitador, rumo a uma visão mais abrangente, em um nível de consciência mais elevado, rumo a um
futuro melhor.
Olhando para este quadro chego à conclusão que o facilitador, que aprende a lidar com todas
estas variáveis, será um verdadeiro Artista Social.
Em seguida podemos dar uma olhada na questão da didática: “O COMO”
Para chegar mais facilmente a uma ideia frutífera sugiro fazermos uma comparação entre a
didática tradicional e a nova didática por nós almejada.

Didática tradicional Nova didática


(Científica) (Artística)
1) O professor sabe, O professor sabe,
o aluno não sabe. o aluno também sabe.

2) Trânsito de via única. Trânsito de mão dupla.

3) O resultado é predeterminado. Re s u l t a d o e m a b e r t o , p o d e
ultrapassar expectativas (ou não).

4) Os alunos estão passivos. Os alunos estão ativos.

5) O ambiente é formal O ambiente é informal.

6) O professor é concentrado O facilitador é concentrado


no conteúdo. no processo e no conteúdo.

7) O professor é um cientista O facilitador é um artista social.

8) O professor trabalha O facilitador trabalha


com conceitos com imagens e conceitos.

9) O professor é distante dos alunos. O facilitador é junto com os alunos.

10) O professor dá uma aula. O facilitador estimula uma conversa.

11) As exigências de qualidades As exigências de qualidades pessoais


pessoais do professor são limitadas do facilitador são elevadas por ser
ao conhecimento do conteúdo. exemplo que pode ser questionado.

12) A força predileta do Professor A força predileta do facilitador


é a lógica. é a fantasia e a criatividade.

Fica claro que o grupo imaturo, inicialmente, precisa ser alimentado com conteúdo. Na medida
em que o grupo vai amadurecendo o lado artístico participativo vai ganhando cada vez mais espaço.
Acho importante salientar que a questão da Arte não deve se transformar em uma jaqueta de
coerção que quer obrigar o facilitador a determinados procedimentos, atitudes e ações. A Arte deve
ajudá-lo a desenvolver uma perspicácia para situações sociais e flexibilidade para as suas ações,
sempre na busca do melhor processo de aprendizado dos alunos.

Quero chamar a atenção para o capítulo 9 do meu livro* 1, página 73 em diante, que traz os
elementos básicos para uma nova didática.

1*Nova Consciência Altruísmo e Liberdade


Editora Antroposófica, São Paulo

Palestra XI- Formação XI

MOMENTO DE REFLEXÃO
DANIEL BURKHARD
Daniel Burkhard

MOMENTO DE REFLEXÃO
Queridos companheiros e companheiras!

Estamos caminhando juntos há dois anos e meio e penso que todos nós aprendemos coisas que
são difíceis de descrever. Mas sentimos que estamos caminhando e isso é o mais importante. Gostaria
muito que, ao completar três anos, tivéssemos algumas respostas claras a respeito das seguintes
perguntas, conforme apresentadas na minha palestra Formação 2.

Quem somos?
De onde viemos?
Para onde vamos?
Que sentido tem a nossa existência?

Sei que já temos algumas respostas na cabeça, até já publicadas no site, mas algumas questões
precisam ser aprofundadas para podermos dar à nossa filha EDA uma identidade mais consolidada
quando ela completar 3 anos.
Em seguida, pretendo apresentar uma rápida retrospectiva a nível conceitual, incluindo as
palestras que foram apresentadas até aqui, para podermos visualizar o fio vermelho que nos conduziu
até o momento atual. Para podermos prosseguir no processo de desenvolvimento da escola
precisamos tomar algumas decisões que determinarão a rota a ser seguida.
A história

1) Março de 2015:

Iniciamos a nossa caminhada com uma palestra sobre o desenvolvimento da Consciência


Humana.
Alma da sensação na época egípcia
Alma da razão e da índole na época greco-romana
Alma da consciência na época atual

2) Junho de 2015:

Trabalhamos no logotipo
Preparamos o lançamento do livro para novembro de 2015
* Palestra Megatendências, que deu origem ao logotipo

3) Novembro de 2015:
Lançamento do livro em 11.11.2015; data do nascimento da EDA, em Florianópolis Decisão de
lançar o livro em São Paulo 2 de Dezembro 2015
* Palestra Megatendência, que responde de maneira sintética às 5 questões lançadas
no início.

4) Março de 2016:

Palestra do Amauri: Arte como instrumento pedagógico


Introdução do verso. (Na transição dos tempos...)
Chegada e biografia do Sílvio

5) Junho de 2016:

Chegada de Martha e Macione


Palestra de João ASD
* Palestra Daniel: Pensar do coração
Biografia Alfredo

6) Setembro de 2016:

Palestra Leandro: As forças do bem e do mal


Faltaram 7 membros
* Palestra Daniel! As forças adversas
Biografia de José Mário

7) Dezembro de 2016:
Cancelado por mau tempo
8) Março de 2017:

Produzimos o painel da nossa história


Palestra do Rodrigo: Trimembração do organismo social
* Palestra Daniel: Estratégia interna e externa vide Formação 7
Biografia Gudrun
Discussão da saída do Jair

9) Junho de 2017:

Retorno do Jair, mas ficou ausente


Biografia Daniel Burkhard (Daniel faltou a primeira manhã)
* Palestra Daniel: Estratégia externa vide Formação 8
Compreensão social
Liberdade no pensar
Reconhecimento espiritual

10) Setembro de 2017:

Biografia Daniel
Discussão da iniciativa do Jair para Formação sem presença dele
* Palestra Daniel: Os 4 Passos rumo à Trimembração do Organismo Social. Formação 9

11) Dezembro de 2017:

Biografia do João Luiz


* Palestra Daniel: Formação 10 Arte na didática
Distribuição de tarefas de casa nas seguintes frentes:

➢Palestras: Silvio, Milene e Leandro


➢Espetáculos: Amauri, José Mário e Macione
➢Plataforma: Milene, Leandro e João
➢Conexões: José Mário, Macione, Martha e João
➢Formação: Adma, Jair, Amauri, Rodrigo, Sílvio e Daniel
➢Premissas: José Mário, Jair, Sílvio
➢Autodesenvolvimento: Daniel, Amauri e Martha

Formação 7 a 10 é a espinha dorsal do processo


1 a 6 é apoio conceitual para a formação do grupo. (estratégia interna)

Olhando para estes 10 capítulos da Formação, podemos verificar que os de numeração 1 a 6


(estratégia interna) representam o conteúdo a ser transmitido para os alunos e os de numeração 7 a 10
(estratégia externa) representam a forma de organizar a formação.
Os conteúdos da estratégia interna (1 a 6) deveriam ter sido incorporados e digeridos pelo grupo,
mas isso não aconteceu até agora devido à pressão do tempo.
Criei estes conteúdos com a intenção de formar a base para a nova didática. Eles deveriam ser
trabalhados e incorporados pelo grupo para podermos navegar em direção a nova didática.
A minha ideia era investir um módulo em cada encontro do grupo.
Na palestra Formação 1 existe uma lista de modelos processuais que ajudam a nos
movimentarmos na direção do tempo.
Todo "problema" nasce em algum momento, evolui, mas somente é percebido quando se torna
um estorvo. Com os modelos incorporados podemos antecipar esta percepção e visualizar possíveis
soluções. Estes modelos poderiam ser adquiridos através de leitura individual como lição de casa entre
os vários módulos e apresentados em plenário pelos próprios alunos.
Ao iniciar a formação de facilitadores chegamos ao momento de apresentarmos ao mundo a nossa
cara e a nossa maneira de ser, através das nossas ações.
Parece-me que é um momento crucial que deve ser tratado pelo grupo com muita consciência,
que não deve ser atropelado por falta de tempo ou falta de paciência.
Gostaria muito que fossem respondidas às seguintes questões:

1. Quais são os critérios de avaliação para admissão dos alunos em determinada turma?
2. Que perspectivas futuras queremos mostrar aos alunos em termos de desenvolvimento
individual?
3. Como é a tal falada nova didática da escola do altruísmo?
4. Como lidamos com a arte na escola concretamente?

Para facilitar as coisas quero colocar algumas ideias a respeito, as quais o grupo pode utilizar ou
não.

Na palestra Formação 1 lancei a ideia de termos três níveis de facilitador que são:

- Aprendiz Ciência Espaço


Formação 1
- Artífice Arte Tempo
Formação 2
- Mestre Religião Essência

Temos então dois processos de formação, sendo o primeiro do Aprendiz para o Artífice e o
segundo do Artífice para o Mestre.
Faz diferença se eu quero aprender apenas a condução de grupos ou se quero preparar-me para
futuramente ser responsável por uma Escola do Altruísmo Regional.

A principal diferença reside no potencial entre um e outro e na abrangência da consciência, o que,


sem dúvida, também tem a ver com a idade das pessoas.
Esta diferenciação já deve ter uma influência sobre os critérios de admissão.
O painel 22, abaixo, dá uma ideia do que poderia ser uma estratégia para o futuro crescimento da
escola. Isso responde, em parte, a minha questão (1) dos critérios de avaliação para admissão e a
questão (2) perspectivas futuras para os alunos.
Queria completar esta reflexão com duas contribuições. A primeira contribuição é tirada de um
livrinho de Felicitas Muche com o título: Arte - A terapia do nosso tempo, em edição particular. A
segunda um trecho de R. Steiner sobre Arte e Música. GA 283 Köln 3.12.1906.
Comentários sobre Arte (Felicitas Muche pág.77)

É o coração que se toca com as revelações da arte.


Somente o coração pode ser a fonte para as inspirações da arte.
Somente o coração consegue estabelecer o equilíbrio entre:
acima x embaixo
interno x externo
Cosmos X Terra

Somente o coração consegue criar e vivenciar a arte. E a música é a arte da alma da consciência.
Somente o coração consegue entregar-se altruisticamente para a arte.
Somente o coração pode ser o órgão da busca do caminho do meio.
O homem é chamado para, no futuro, encontrar o seu próprio tom e de modular este com o tom
próprio de outros homens. Ele deverá passar, necessariamente, por muitas dissonâncias para encontrar
em novos tons a expressão musical dos novos tempos. A música ajuda a resolver o problema social,
pelo atuar conjunto e pela necessidade de escutar-se mutuamente.
O convívio íntimo com os tons nos ensina a sermos sociais no próprio querer e agir. Assim, o
homem, em seu processo de desenvolvimento, não poderá ser destronado devido a sua ignorância a
respeito de si próprio nem devido a sua inércia no pensar.
Ele não deixará mais escapar o seu tempo, que foge de suas mãos, que nem um corredor de amok.
Apesar de seus esforços profissionais, ele conseguirá manter-se integrado consigo mesmo.
A solução para o problema social somente pode vir a partir das forças do meio, lá onde também,
fisiologicamente, o sangue e a respiração se unem em um ritmo vivificante.
GA 283; Köln 3.dezembro 1906
Steiner sobre Schopenhauer:

Um espírito do séc. XIX, que sobre a arte tem ideias muito claras e acertadas é Schopenhauer. Ele
destaca a música, entre todas as outras artes, como sendo especial e a arte em geral como um valor
excepcional para a vida do homem.
Schopenhauer tinha como leitmotiv de sua filosofia a seguinte frase: a vida é uma coisa desprezível
e eu tento torná-la suportável pensando sobre ela. Conforme a sua filosofia, no mundo todo existe uma
cega vontade inconsciente. Essa vontade forma a pedra e da pedra a planta e assim por diante, porque
ela nunca se sente satisfeita. Assim vive em tudo o anseio para o superior.
O homem sente isso, porém, existem grandes diferenças: o homem primitivo sente a insatisfação
da vontade muito menos do que o homem mais cultivado, o qual sente com muito mais clareza a dor
da existência.
Assim fala Schopenhauer: Existe um segundo fenômeno que o homem conhece, além da vontade.
Trata-se da representação mental. Ela é que nem uma Fata Morgana, como uma leve ondulação na qual
se espelham as imagens da sombria ânsia da vontade.
No homem a vontade se eleva para essas imagens aparentes, fato que o torna ainda mais
insatisfeito. Mas existem remédios através dos quais o homem pode salvar-se deste anseio obscuro da
vontade.
Um destes remédios é a arte. Através da arte o homem consegue superar a insatisfação da
vontade.
Quando o homem cria uma obra de arte ele a cria a partir de sua representação mental. Enquanto
no pensar profano se trata apenas de imagens, na arte isso é diferente. Por exemplo, a estátua do Zeus,
de Phídias, não é cópia de algum homem. Nesta estátua o artista combinou os rostos de muitos
homens, segurando na memória os pontos positivos e eliminando os pontos negativos de cada um. A
partir destes rostos ele criou o arquétipo do ser humano que não se encontra em nenhum ser humano
de carne e osso. Schopenhauer diz que o verdadeiro artista recria os arquétipos, não as imagens
comuns. Pelo fato de o homem não criar a imagem, mas sim o arquétipo, ele cria para si uma salvação.

Assim é com todas as artes, com exceção da música. As outras artes passam necessariamente pela
representação mental. Quando o homem trabalha artisticamente com o tom, ele encontra-se com seu
ouvido deitado no coração da natureza; ele ouve a vontade da natureza e a replica nas sequências dos
tons.
Assim - fala Schopenhauer - o homem cria uma relação íntima com as coisas, assim ele penetra
para a mais profunda essência das coisas. Pelo fato do homem sentir-se tão próximo desta essência, ele
sente na música aquela profunda satisfação.
Desta maneira, Schopenhauer, a partir de um conhecimento instintivo, deu para a música o papel
de representar a entidade do cosmo diretamente. Ele tinha uma vaga intuição desta realidade. A
música fala diretamente para todos desde a mais tenra infância.

Segue uma longa descrição espiritual que posso traduzir, caso encontre interesse. D.B.

Ao me debruçar sobre todas estas experiências com arte e música me veio o impulso de pedir
para meu aniversário dos 82 anos uma flauta doce, e me veio a ideia de sugerir o mesmo para todos os
participantes de grupos de formação.
É o melhor exemplo que encontrei até agora para a formação de uma comunidade.
Não é falar sobre, é praticar e fazer acontecer. Aprender a tocar um instrumento musical e formar
uma "orquestra" teria as seguintes vantagens:
1. Torna visível os fenômenos sociais.
2. Exige treino e perseverança, que nem na meditação.
3. O resultado é visível em curto prazo.
4. Cada aluno treina em casa e traz o resultado de seu esforço para o grupo.
5. O grupo somente é tão bom quanto o pior dos alunos (dependência mútua).
6. É preciso estar totalmente presente ao tocar juntos.
7. É preciso ouvir os outros.
8. Existe uma confiança mútua.
9. Traz a vivência de comunidade.
10. Treina o altruísmo, ninguém pode superar o outro.
11. Ajuda a tirar os conceitos abstratos e infrutíferos sobre a arte da cabeça.

Certamente poderíamos descobrir muitos outros pontos de coincidência entre a música em


conjunto e os fenômenos sociais.
Vocês devem perceber que a questão da arte na didática da Escola do Altruísmo é, por enquanto,
um cuidadoso tatear em busca do caminho para o desconhecido. Mas sinto uma total confiança de que
acharemos o melhor caminho para um objetivo ainda envolto em mistérios. Teremos de quebrar alguns
paradigmas, mas com coragem venceremos todos os obstáculos.
A didática que tentamos desenvolver na Escola do Altruísmo tem como uma das principais
características a arte. Arte não pode ser planejada. Ela acontece no momento, no aqui e agora. A
participação ativa dos alunos é intensa, pois todos têm experiências no social.
E isso exige do facilitador qualidades que precisam ser adquiridas e treinadas, em parte
individualmente e em parte coletivamente.
Vide:
Formação 4 - Formação de grupos
Formação 5 - Exercitação
Formação 6 - Comunidades

Tendo conhecimento dos assuntos até aqui tratados podemos enfrentar o desafio de elaborar os
primeiros módulos para a formação de facilitadores. São módulos para a formação de facilitadores
para o nível de artífice.
Em princípio é desejável trabalhar a parte mais conceitual na parte da manhã e à tarde a parte
mais lúdica.

Orientação geral para a concepção dos módulos.

1.Atualizar técnicas de reunião.


• Conteúdo, interação, procedimento, coordenação, avaliação.
• As fases do procedimento.
• Caminho da análise x caminho da descoberta.
2- Consolidar os modelos mais importantes.
• Trimembração.
• Quadrimembração.
• Heptamembração.
3- Aprofundar o pensar em processos.
• Desenvolvimento do Homem.
• Desenvolvimento de Grupos.
• Desenvolvimento de Organizações.
• Desenvolvimento de Culturas.
• Desenvolvimento da Humanidade.
• Desenvolvimento do Cosmo.
Tudo isso é conhecimento que podemos captar com nosso pensar intelectual. A respeito disso já
existe bastante conhecimento entre os alunos e não justifica a criação de uma nova formação. Mas este
conteúdo é fundamental para termos uma linguagem comum.
Sugiro que resolvamos isso através da lição de casa. Cada aluno assume um assunto, prepara uma
apresentação e a apresenta no plenário, onde é discutido e avaliado. Um assunto por módulo.
A verdadeira questão para a Escola do Altruísmo começa no próximo nível de consciência, não no
nível intelectual, mas no desenvolvimento do pensar do coração, que é a capacidade humana do
futuro.
E como já vimos anteriormente, quando falamos do coração falamos de arte. A arte é a linguagem
do coração. Através da arte podemos tornar-nos criativos. Para podermos ser criativos precisamos um
espaço de liberdade que deve ser criado através de uma didática adequada.
É importante que cada módulo tenha um objetivo de aprendizado bem definido e de
conhecimento de todos, de maneira que todos possam contribuir inteligentemente para o assunto.
Em seguida vamos partir finalmente para um esboço dos primeiros módulos.
Um programa padrão que busca atender os aspectos da arte e da didática, enunciados
anteriormente, poderia ter a seguinte composição; porém, o primeiro módulo, que tem um caráter
introdutório, ainda foge deste programa padrão.

Programa Padrão
08:30 Bom dia com música (experiência)
09:15 Conversa sobre experiência com música
10:00 Café
10:30 Apresentação do tema do dia e conversa sobre o conteúdo
12:30 Almoço
14:00 Arte (Amauri) (Formação 3)
15:00 Apresentação das lições de casa (Técnicas de reunião e modelos)
16:00 Café
16:30 Avaliação das apresentações
17:30 Retrospectiva e avaliação do dia
18:00 Encerramento

Módulo 1
O objetivo deste módulo é o de conhecer-se e de apresentar a EDA.
O módulo deve acender a tocha do entusiasmo pela causa comum.

A EDA como impulso (Porque chamamos vocês )


(primeira manhã)

- O impulso da EDA
- O histórico da EDA
- A estratégia
- O papel do facilitador dentro desta estratégia
- A nova didática da EDA
- O papel da arte na formação

Biografias curtas (1ª tarde e 2ª manhã)

- Porque atendi ao chamado?


- Como os meus pés me trouxeram até aqui?
- Com que expectativas estou chegando?
- Quanto tempo posso investir na formação?
- O que a EDA oferece?
- O que a EDA espera?

O altruísmo na prática. (2ª tarde)


Apresentar o painel 24 e discutir com o grupo pleno os quatro itens apresentados, principalmente
os itens 3 e 4.

Revisão (3ª manhã)


• Discussão em pleno
• Quais competências o facilitador precisa ter para poder atuar junto a grupos e comunidades?
(Fazer lista)
• Lição de casa: quais competências da lista eu penso ter e quais devo adquirir ou melhorar.
• Retrospectiva do módulo e avaliação final
• Data dos próximos módulos.

A ARTE DO DIÁLOGO
Johannes F. e Martina Hartmeyer
Editora klett – Cotta, Stuttgart 2005.

AS 10 COMPETÊNCIAS FUNDAMENTAIS PARA O DIÁLOGO:

1. Assumir uma atitude de querer aprender:


• não querer colocar de como entendido no assunto.
• mostrar interesse para novos pontos de vista.

2. Mostrar respeito
• aceitar o outro em sua maneira de ser.
• tentar visualizar o outro a partir da perspectiva dele.

3. Falar a partir do coração.


• falar daquilo que realmente me toca e não a partir da cabeça.
• evitar ensinamentos, teorias e generalidades.

4. Ouvir generativamente:
• ouvir com atenção é empatia, de maneira que o outro possa descobrir a si próprio e o ouvinte
possa observar-se ao incorporar e ordenar o que ouviu.

5. Manter qualquer julgamento suspenso:


• Interiormente, diferenciar a percepção da avaliação ou julgamento.

6. Informar-se:
• fazer perguntas verdadeiras e não retóricas, com uma atitude de interesse.
• tentar entender o outro verdadeiramente.

7. Pleitear produtivamente:
• expor a visão pessoal sobre o tema com as suas razões, inclusive as dúvidas eventualmente
existentes.
• mostrar a origem da própria opinião de maneira que os outros consigam participar do meu
processo pensante, para não confrontá-los com o produto pronto.

8. Franqueza:
• ser transparente em relação a própria motivação e respeitar a motivação alheia.
• livrar-se da própria convicção.

9. aceitar o “slow down”


• respeitando as competências até aqui descritas, o “slow down” acontece normalmente.
• aceitar o “slow down” externo causado por pessoas que falam devagar ou pela utilização da
pedra. (somente fala quem tem a pedra na mão).

10.Observar a observadora:
• observar o observador dentro de nós, que enxerga tudo através dos óculos do convencional.
• tornar-se consciente de que sentimentos e preconceitos determinam a nossa atitude perante o
outro.

AS 10 INCOMPETÊNCIAS FUNDAMENTAIS PARA O FRACASSO DO DIÁLOGO:

1. Querer impressionar com conhecimento de causa:


• não pode existir dúvida a respeito dos meus conhecimentos. Chegou a hora de eu mostrar
todo o meu conhecimento.

2. Depreciar os outros:
• quanta bobagem o cara está falando. Nem vale a pena entrar nesse papo.

3. Manter-se impessoal e abstrato.


• porque devo expressar os meus verdadeiros sentimentos e pensamentos?
• não pretendo fazer strip-tease anímico aqui, que só vai ser aproveitado pelos outros

4. Cortar a palavra do outro:


• devo aproveitar o tempo para fixar a minha posição.
• cortar a palavra do outro onde for possível, não deixando ele formular um pensamento
coerente.

5. Identificar-se com a própria opinião:


• a minha opinião é firme que nem uma rocha.
• é claro que não pode ser questionada.

6. Perguntas capciosas:
• deixar o outro inseguro através de perguntas capciosas.
• não interessa conhecer o caminho que o outro fez para chegar a essa bobagem.

7. Insistir com o próprio ponto de vista com firmeza:


• esconder as razões que me levam a ele, pois só entregaria o ouro ao bandido; tornando-me
objeto de manipulação.

8. Blindar-se:
• mostrar sentimentos seria um erro tático grave, pois só abriria a guarda para poder ser atacado
pelos flancos.
• mostrar sentimentos fornece munição ao inimigo.

9. ser rápido
• não permitir pausas, nem para si, nem para o outro. Reflexão é coisa para velho. A vida pune
quem chega tarde.

10.Nunca se auto questionar:


• posso confiar em meu instinto. Ele me permite descobrir os pontos fracos do outro. É
esquizofrênico querer observar a si mesmo.

Palestra XII- Formação XIIa

O RESUMO DA FORMAÇÃO
DANIEL BURKHARD
Daniel Burkhard

O RESUMO DA FORMAÇÃO
Levando em consideração tudo que foi exposto através dos capítulos de “Formação 0” a
“Formação 11” podemos partir para o planejamento do primeiro curso de formação, composto de 12
módulos de 3 dias em regime fechado.
Vide esquema abaixo:
No desenho acima podemos achar as três linhas horizontais representando o nosso pensar, sentir
e querer ao longo dos 12 módulos.

A primeira linha representa a linha do pensar, onde com a luz do nosso pensamento iluminamos a
grande visão da sociedade humana do futuro. Para seu alcance passaremos pelo desenvolvimento de
grupos, organizações, comunidades, sociedades tri membradas e a evolução da humanidade. É uma
visão de longo alcance para o futuro que desafia a nossa imaginação.

A segunda linha (do meio) trata do desenvolvimento das qualidades pessoais dos alunos e do
orientador. Melhorar as qualidades pessoais exige uma autoeducação e um exercitar-se constante.

A terceira linha representa o ferramental que foi desenvolvido pelo NPI - Nederlands Pedagogisch
Instituut. Trata-se de técnicas de reunião, modelos para mudanças sociais, etc., todas inspiradas pela
ciência espiritual.

- Quem domina os conhecimentos da linha superior traz luz ao seu pensar.

- Quem se esforça em seu autodesenvolvimento, conforme indicado na linha do meio, desenvolve o


amor em seu coração.

- Quem se exercita no manejo dos instrumentos ganha a capacidade de conectar as imaginações e


inspirações espirituais com as realidades terrestres, trazendo vida para dentro das situações terrestres.

- Quem consegue equilibrar e integrar os três torna-se um verdadeiro mestre.

No painel abaixo podemos encontrar novamente as três linhas horizontais.

Podemos verificar que somente os seis módulos iniciais possuem indicações de conteúdos
predeterminados, enquanto os seis módulos da segunda metade do modelo estão em branco. Isso
decorre do fato da participação dos alunos nas decisões sobre o programa aumentarem
gradativamente do zero no primeiro módulo até cem por centos no sexto módulo. Assim todos os
participantes tem tempo para assimilar e praticar os instrumentos de técnicas de reunião e condução
de grupos antes de assumir corresponsabilidade pelo processo.

Os números arábicos coincidem com os números das palestras apresentadas neste livro. Os números
romanos indicam conteúdos relacionados com as técnicas de condução de grupos conforme tabela a
seguir:

I – Conteúdo, interação, procedimento.

procedimento: planejamento, formação de imagem, fase do julgamento,

fase de decisão e avaliação.

II – caminho de analise e caminho de decisão.

III – Procedimento “U”.

IV – caminho da instrução e caminho da descoberta.

V – Arte do dialogo

VI – processos de desenvolvimento de indivíduos, grupos, comunidades e Humanidade.


Na linha superior A-1 significa anexo 1, palestra de Rudolf Steiner GA 159
Düsseldorf, 15.06.1915.
A-2 significa anexo 2, duas palestras de Rudolf Steiner GA 257 Stuttgart 27. 02 e 28.02.1923. As três
palestras devem ser lidas como lição de casa e aprofundadas na conversa do grupo.

A título de apoio ao grupo e para facilitar a escolha dos conteúdos da segunda metade do programa,
que deverá ser adaptado aos reais interesses dos alunos seguem algumas contribuições, que podem
facilitar a escolha dos futuros conteúdos.

Que imagem ideal temos do Mestre?

. Ele faz da Antroposofia o seu caminho de desenvolvimento espiritual,


construindo a sua paz interior.
. Ele mostra um caráter firme com atitudes positivas e corajosas.
. Ele sabe fazer a pergunta certa no momento certo para si e para os outros.
. Ele tem compreensão da natureza humana.
. Ele ouve muito e fala pouco.
. Ele promove o altruísmo e a paz.
. Ele ensino como melhorar a convivência humana através da conscientização
dos fenômenos sociais.
. Ele ensina a arte do dialogo.
. A sua presença irradia e transmite a paz e disposição para ouvir o outro.

Cada grupo pode descrever a imagem ideal de seu homem de paz e no consenso estabelecer o seu
programa de aprendizado para os próximos seis encontros.

Os conteúdos dos primeiros seis módulos são transferíveis, replicáveis e escalaveis conforme
havia sido concordado com o grupo em um dos nossos primeiros encontros. Mas devemos ter clareza
de que aquilo que se deixa replicar representa apenas o piso firme que nos fornece a sustentação para
podermos vivenciar o verdadeiro processo suprassensível que em sua maior parte corre de maneira
inconsciente e que não pode ser descrito com nossas palavras profanas. Somente quando fazemos
uma parada após termos vivenciado alguns módulos e olhamos para trás, podemos ter uma ideia do
quanto andamos, o quanto cada participante evoluiu e o quanto o grupo progrediu. Com o grupo
fundador passamos por algumas situações críticas e vencemos todas elas. Na retrospectiva podemos
dizer que cada crise nos levou um pedaço de caminho mais para frente. A força que nos deixou vencer
as crises tem um nome muito curto e modesto: Amor.
Tenho o pressentimento de que o advento da inteligência artificial com a correspondente robotização
da cultura, a convivência humana se tornará mecânica e padronizada e a evolução da humanidade
seria perdida se não existisse o amor. De amor o robô não entende nada. O amor engloba todos os
valores eminentemente humanos: Verdade, Beleza, Bondade, Altruísmo, Fraternidade, etc. Existirá uma
cultura do amor paralela á cultura predominante. A cultura digital fornecerá muita informação e muito
conhecimento, porém não saberá lidar com o amor. Existira uma enorme carência de amor. Todos irão
querer receber amor, mas se sentirão impotentes para dar amor. Quero acrescentar a este tópico um
trecho de uma palestra de Rudolf Steiner.
* (GA 214, Dornach 6 agosto 1922)

“Uns tempos atrás – logo após a publicação do livro de Oswald Spengler, ainda sob o impacto do
livro, proferi uma palestra na Escola Técnica Superior de Stuttgart sobre Antroposofia e as ciências
técnicas, para mostrar como no mergulho dentro da técnica, o homem desenvolve aquela configuração
anímica que o torna livre.
Pelo fato de ele eliminar no mundo mecânico qualquer resquício de espiritualidade, ele pode
sentir, justamente no meio do mundo mecânico, o impulso de buscar a espiritualidade em seu interior.
Aquele que compreende o significado da máquina estar no domínio da nossa civilização, precisa se
dizer: Essa máquina com sua impertinente transparência, com sua brutal, angustiante, demoníaca falta
de espírito, obriga o homem, quando ele se autoconhece, a buscar em seu interior os germes de
espiritualidade que se encontram dentro dele. Pelo contraste, a máquina obriga o homem de
desenvolver vida espiritual.
Pelas reações posteriores do público percebi que não fui entendido naquilo que quis dizer”.

Desde aquela expressão de Rudolf Steiner em 1922, o domínio da máquina sobre a nossa cultura
aumentou de tal maneira, que me faz acreditar, que atualmente será difícil encontrar uma pessoa que
não entenda o que Rudolf Steiner quis dizer naquela época. Com o futuro advento da inteligência
artificial, o domínio da máquina sobre a cultura humana deverá se tornar quase total. Com isso deverá
aumentar a necessidade do equilíbrio na alma através da busca da espiritualidade.

Atenção

Um aspecto fundamental na formação de grupos é o tamanho e o objetivo do grupo.


Para transmissão de conteúdo podemos reunir centenas de pessoas.
Para tomar decisões um grupo de 12 pessoas já é considerado grande.
A quantidade de linhas de comunicação em um grupo cresce exponencialmente ao número de
participantes do grupo, conforme a seguinte fórmula matemática:

C = n x (n-1)

C = número de possíveis linhas de interação no grupo.


n = número de participantes

Utilizando a fórmula vamos obter o seguinte:

número de número de linhas


de comunicação
participantes
2 2
3 6
4 12
5 20
10 90
15 210
20 380
Quando vocês precisam tomar decisões em grupos grandes, de 20 ou mais pessoas, vocês terão
uma dificuldade enorme para manter a produção do grupo. Isso será o “calcanhar de Aquiles” do
grupo.

Algumas recomendações:
Nomear um coordenador e um secretário com flipchart.
Trabalhar com a pedra, que é entregue pelo coordenador. Regra: somente fala quem está de posse da
pedra.
Estabelecer regras claras de procedimento e interação.
Subdividir o grupo sempre que for possível.
Decisões por consenso (não por unanimidade) se não for possível por votação).
ANEXOS
Preparando a Sexta Época
(Como Grupos Antroposóficos se preparam para a Sexta Época)
Rudolf Steiner deu esta palestra em Düsseldorf em 15/06/1915, na abertura do Grupo II.

Estamos aqui hoje para a abertura do grupo fundado por nosso amigo, Professor C. Este grupo
deseja dedicar-se à vida espiritual do presente e do futuro da forma que é usual em nosso Movimento.
Numa ocasião como esta é sempre bom lembrar porque nos associamos em grupos e questionar-nos
por que razão fundamos grupos e cultivamos neles o tesouro espiritual ao qual dedicamos nossas
forças.
Se queremos verdadeiramente responder a esta questão, devemos perceber que fazemos uma
distinção, ainda que só em pensamento, entre o trabalho que fazemos num grupo como este e nosso
outro trabalho no mundo.
Aqueles que não têm disposição de penetrar profundamente nas mais íntimas verdades conectadas
com o progresso espiritual da humanidade poderiam perguntar se não seria possível cultivar a ciência
espiritual sem nos reunirmos em grupos, mas simplesmente arranjando para que palestras fossem
feitas, oferecendo às pessoas a oportunidade de tomar contato com o tesouro espiritual de que falamos.
Nós podemos, naturalmente, proceder dessa forma. Mas, tanto quanto for possível estabelecer
associações de seres humanos que se conheçam uns aos outros e se reúnam sobre uma base de amizade
e fraternidade dentro desses grupos, continuaremos a fundá-los, com a plena consciência de que esta é
uma atitude de alma que é parte e parcela da ciência espiritual.
Não é sem significado, que entre nós existam homens e mulheres que queiram sinceramente
cultivar o lado mais íntimo do conhecimento espiritual, trabalhando em fraternidade e harmonia.
Não são apenas os relacionamentos e a comunicação que são afetados pelo fato de falarmos
diferentemente entre nós, sabendo que falamos às almas conscientemente associadas a nós - não se
trata apenas disso, mas de algo mais que deve ser lembrado. O estabelecimento de grupos individuais
está conectado com toda a concepção de nosso Movimento, se é que entendemos sua natureza
essencial.
Todos devemos estar conscientes de que este nosso Movimento é de importância não só para a
existência conhecida dos sentidos, para a existência que pode ser captada pelo homem cuja mente se
volta para o mundo externo, mas que através desse Movimento nossas almas estão buscando um
genuíno vínculo com os mundos espirituais. Reiteradamente, e em plena consciência, deveríamos
sempre lembrar-nos de que pelo cultivo da ciência espiritual nós nos transferimos àquelas esferas que
são habitadas não somente por seres da Terra, mas também pelos seres das mais altas hierarquias, os
seres dos mundos invisíveis. Devemos reconhecer que nosso trabalho tem significado para os mundos
invisíveis, que nós verdadeiramente estamos dentro desses mundos. No mundo espiritual, o trabalho
realizado por aqueles que se conhecem uns aos outros dentro destes grupos é bem diferente daquele
realizado por um grupo que depois se dispersa no mundo. O trabalho que é mantido em fraternal
harmonia dentro de nossos grupos tem um significado completamente diferente para o mundo
espiritual daquele outro trabalho. Para melhor compreendermos isso, lembremo-nos de verdades sobre
as quais já estudamos nos últimos anos.
A primeira época pós-Atlante foi aquela da Antiga índia. A ela se seguiu a antiga Pérsia. Então
veio o período Egipto-Caldaico, e depois o Greco-Latino, então, finalmente, a nossa época cultural.
Cada uma dessas épocas tinha de, por um lado, cultivar uma forma particular de cultura e vida

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espiritual compromissada, primariamente, com o mundo externo e visível. Mas, ao mesmo tempo,
deviam preparar, como que a semente daquilo que somente floresceria no período vindouro.
Desde o ventre, por assim dizer, da época Índica, a antiga Pérsia era preparada; dentro da antiga
cultura Proto-Persa, a época Egipto-Caldaica era preparada, e assim sucessivamente.
Nossa tarefa na ciência espiritual não é apenas adquirir tesouros espirituais para nós mesmos, para
a vida eterna da alma, mas preparar aquilo que constituirá o conteúdo, o trabalho externo específico da
6a época. Assim tem sido com cada época pós-Atlante.
Os centros de Mistérios eram lugares em que a forma da vida externa do período seguinte era
preparada.
Os mistérios eram associações de serem humanos entre os quais se cultivavam outras coisas além
das que eram próprias da cultura de seu tempo.
A Antiga Índia ocupava-se do cultivo do corpo etérico, a antiga Pérsia, do cultiva do corpo astral,
o antigo Egito cuidara de cultivar a alma da sensação e a Grécia da alma do intelecto e da índole.
Nossa época, ao longo de toda sua duração, desenvolverá a alma da consciência. Mas o que dará à
cultura a ser manifesta na 6a época, seu conteúdo e caráter, deve ser preparado (antecipadamente).
Muitas características da 6a época serão inteiramente diferentes daquelas do nosso tempo. Três
delas podem ser mencionadas e devemos reconhecê-las como algo que devemos levar em nossos
corações a fim de cumprir nossa tarefa de prepará-las para a 6a época cultural.
Hoje, a sociedade humana carece de uma qualidade que, no futuro, será uma característica de
todos os homens que alcançarem a meta da 6a época.
Naturalmente, tal qualidade não poderia ser encontrada entre os que, embora vivendo na 6a época,
ainda se mantêm como selvagens ou bárbaros.
Um dos mais significativos atributos dos homens viventes sobre a Terra no auge da cultura da 6a
época será certa qualidade moral.
Sua expressão na humanidade moderna é bem pequena. Um homem hoje tem que ser muito
delicadamente organizado para que sua alma sinta dor ao ver outros seres humanos no mundo em
circunstâncias menos felizes que as suas próprias.
Se eles virem um homem faminto, sentirão a fome como experiência física e tão aguda e
intensamente, que a fome do outro será para ele insuportável. A característica moral indicada aqui, é
que, na 6a época cultural, o bem estar do indivíduo dependerá inteiramente do bem estar do Todo.
Assim como em nossos dias, o bem-estar de um único membro depende da saúde de todo o corpo,
e ainda, quando o corpo adoece, o membro não está em condições de realizar o seu trabalho, assim
também na 6a época uma consciência tomará conta de toda a humanidade civilizada e num grau ainda
mais elevado, de tal sorte que o indivíduo sentirá o sofrimento, a necessidade, a pobreza, ou a riqueza
do todo. Este é o primeiro traço moral que caracterizará a humanidade na 6a época.
A 2a característica será que tudo quanto hoje chamamos de frutos da crença dependerá (muitíssimo
mais do que hoje é o caso), da individualidade. A ciência espiritual expressa isso dizendo que na esfera
da Religião da 6a época, uma completa liberdade de pensamento e um desejo por ela reinarão. Tudo o
que o homem quiser acreditar, as convicções religiosas que quiser manter, estarão inteiramente em
poder de sua própria individualidade. Crenças coletivas, hoje existentes em tão diversas formas entre
as várias comunidades, não mais terão influência sobre aqueles que constituam a porção civilizada da
humanidade na 6a época cultural.
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Cada um sentirá que a completa liberdade de pensamento no domínio religioso é um direito
fundamental do ser humano.
A 3a característica será que somente se considerará o homem, portador de um real conhecimento,
quando este reconhecer que o espiritual compenetra o mundo e que as almas humanas devem unir-se
com o espiritual. O que hoje é tido como Ciência, com toda sua visão materialista, certamente não será
honrado com o nome de Ciência na 6a época. Antes, será considerado como superstição antiquada,
capaz de impressionar apenas àqueles que tenham permanecido aquém da consciência da época. Hoje
consideramos superstição quando, digamos, um “selvagem” crê que se alguma parte do corpo dele for
separada, isto tomaria impossível à pessoa entrar no mundo espiritual após a morte, como um homem
inteiro. Alguém que assim creia, ainda conecta a ideia da imortalidade com puro materialismo.
Ele pensa materialisticamente, mas crê na imortalidade. Nós, hoje, sabendo pela ciência espiritual
que o espírito tem que se separar do corpo e somente ele (o espírito) passa a regiões do mundo supra-
sensível, consideramos este tipo de crença materialista sobre a imortalidade como superstição. Os
homens no futuro somente aceitarão como Ciência as formas de conhecimento baseadas no espiritual,
fundamentadas numa pneumatologia (Ciência ou tratado dos espíritos, dos seres intermediários que
formam a ligação entre Deus e o homem. Estudo da doutrina do Espírito Santo, Parte da metafísica que
trata dos espíritos.)
O propósito de toda a ciência espiritual é preparar, nesse sentido, a 6a época cultural. Esforçamo-
nos para cultivar a ciência espiritual a fim de superar o materialismo, de preparar um tipo de ciência
que deverá existir em tal época.
Nós fundamos comunidades de pessoas entre as quais não deve haver qualquer crença dogmática
nem tampouco a tendência a aceitar ensinamentos simplesmente por emanar de uma pessoa ou outra
em particular.
Fundamos comunidades de seres humanos onde tudo, sem exceção, deve ser edificado sobre o
livre assentimento (reconhecimento) da alma pelos ensinamentos. É dessa maneira que preparamos o
que a ciência espiritual chama Liberdade de Pensamento. Ao nos reunirmos amigavelmente em
associações pelo propósito de cultivar a ciência espiritual, preparamos a 6a cultura, a civilização da 6a
época pós-Atlante.
Mas nós precisamos olhar ainda mais profundamente para o curso da evolução humana se é que
desejamos compreender plenamente as reais tarefas de nossos grupos e associações.
Na 1a época pós-Atlante, também, nas comunidades que naqueles dias estavam conectadas com os
mistérios, homens cultivavam o que subsequentemente prevaleceria na 2a época.
Nestas associações ocupava-se do cultivo do corpo astral, que deveria ser a tarefa externa
específica da 2a época.
Teríamos de ir muito longe para descrever o que, em contraste com a cultura externa daquele
tempo, era desenvolvido no âmbito dessas associações seculares da Antiga Índia, a fim de preparar a
época seguinte.
Mas isto pode ser dito: quando aqueles homens se reuniam para preparar o que era necessário para
a 2a época, eles sentiam: “Nós ainda não alcançamos, não está ainda em nós o que estará quando
nossas almas se encarnarem na próxima época. Isto ainda paira acima de nós.” E verdadeiramente
assim era.

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Na 1a época cultural, o que deveria descer dos céus à Terra na 2a época ainda pairava sobre as
almas dos homens.
O trabalho atingido na Terra pelos homens, em íntimas assembleias conectadas com os mistérios,
era de tal natureza que forças se elevavam até os espíritos das altas hierarquias, permitindo-lhes sentir
e cultivar o que irradiaria para dentro das almas dos homens como, conteúdo do corpo astral na 2a
época - a Antiga Pérsia.
As forças que desceriam às almas encarnadas em corpos da antiga civilização Persa, num futuro
estágio de maturidade, eram como pequenos germes na primeira época. As forças que ascendiam do
trabalho dos homens embaixo na Terra, em preparação para a época seguinte, eram recebidas
(acolhidas) e nutridas pelo mundo espiritual acima.
Assim deve ser em cada época cultural.
Em nossa época, é a alma da consciência ou alma espiritual que se tem desenvolvido através da
nossa civilização e cultura.
Começando com os séculos XIV, XV e XVI a ciência e a mentalidade materialista se apoderaram
do ser humano.
Isto gradualmente se acentuará mais e mais até que ao final da 5a época seu desenvolvimento
estará completo.
Na 6a época, entretanto, é a personalidade espiritual que deve "fundamentar’ a existência nas
almas humanas das 3 características sobre as quais falamos: vida social – na qual fraternidade
prevaleça liberdade de pensamento e pneumatologia.
Estas três características são essenciais numa comunidade de seres humanos em que a
personalidade espiritual se desenvolva, assim como a alma da consciência se desenvolve nos homens
da 5a época.
Nós podemos, portanto, imaginar que unindo-nos fraternalmente em grupos de trabalho, algo
como que paira invisivelmente sobre nós, algo que é como o germe das forças da personalidade
espiritual - forças que são nutridas pelos seres das hierarquias superiores a fim de que elas possam
descer às almas quando estas estiverem novamente sobre a Terra na 6a época da civilização.
Em nossos grupos nós geramos a substância que, elevada àquelas forças, contribui para a
preparação da Personalidade Espiritual.
Como podem ver, é apenas através da sabedora da Ciência Espiritual que compreendemos o que
estamos, realmente, fazendo com respeito à nossa conexão com os mundos espirituais ao nos
reunirmos nestes grupos.
O pensamento de que realizamos este trabalho não apenas por nossos próprios egos, mas para que
possam ascender forças aos mundos espirituais; o pensamento de que esse trabalho está conectado com
os mundos espirituais; este pensamento é a verdadeira consagração desse grupo.
Acalentar tal pensamento é permear-nos com a consciência da consagração que é o fundamento de
um grupo de trabalho dentro do Movimento. É, portanto, de grande importância captar este fato em seu
verdadeiro sentido espiritual. Nós nos achamos reunidos em grupos de trabalho que, além de cultivar a
ciência espiritual, são baseados na liberdade de pensamento. Eles não podem ter nada a ver com
dogma ou coerção de crenças, e sua atividade deve ser a natureza da cooperação entre irmãos.

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O que mais importa é tomar-se consciente do verdadeiro significado da idéia de comunidade
dizendo: a despeito do fato de, como almas modernas, pertencermos à 5a época cultural e nos
desenvolvermos como indivíduos, elevando a vida individual acima da vida da comunidade, devemos
nos tornar conscientes de uma forma superior de comunidade, fundada em liberdade e no amor entre
irmãos, que, como um sopro mágico, inspiramos em nossos grupos.
O profundo significado da cultura europeia ocidental está na tarefa da 5a época pós-Atlante, o
desenvolvimento da alma da consciência. A tarefa da cultura europeia ocidental, particularmente da
Europa Central, é o desenvolvimento de uma cultura individual, especialmente da consciência
individual.
Essa é a questão da presente época. Comparem nossa época à época Greco-Romana. A cultura
grega exibia numa forma particularmente notável, especialmente entre os gregos civilizados, uma
consciência do viver dentro de uma alma grupal. O homem que nascia e vivia em Atenas sentia-se,
antes de mais nada, um ateniense. Sua comunidade entre cidade e o que pertencia à cidade significava
algo diferente para o indivíduo daquilo que significa comunidade entre seres humanos hoje.
Em nosso tempo, o indivíduo luta para crescer além da comunidade, e isto está certo para a 5a
época pós-Atlante.
Em Roma, o homem era primeiro e, acima de tudo, cidadão Romano, nada mais; enquanto que,
em nossa época, lutamos com todas as nossas forças para sermos, acima de tudo, Homens, e nada
mais.
É uma dolorosa experiência em nossos dias, assistir homens lutando uns contra os outros. Mas
isto, afinal, é somente uma reação à perpétua luta da 5a época pelo livre desenvolvimento do “humano
universal”.
Pelo fato de hoje diferentes nações e povos se fecharem uns contra os outros em hostilidade, é
necessário desenvolver, como uma resistência a isso, a força que permita aos seres humanos serem
homens em todos os sentidos, ao ponto de crescerem acima e além da comunidade. Mas, por outro
lado, o ser humano deve, em plena consciência, preparar-se para comunidades nas quais ele entre
inteiramente por sua livre vontade na 6a época.
Eis que sobre nós paira, flutua, com grande ideal, uma forma de comunidade que abarcará, na 6a
época cultural, aqueles homens civilizados que, naturalmente, se encontrarão como irmãos e irmãs.
FRATERNIDADE
Por palestras dadas nos anos passados, nós sabemos que a Europa Oriental é habitada por um povo
cuja missão particular - que se cumprirá na 6a época e não antes disso - é trazer à expressão forças
elementares que jazem dentro deles.
Sabemos que os povos russos não estarão prontos antes da 6a época para desenvolver as forças,
ora latentes neles de forma elementar. A missão da Europa Central e Ocidental é introduzir nos homens
qualidades da alma da consciência.
Essa não é a missão da Europa Oriental. A Europa Oriental terá de esperar até que a Personalidade
Espiritual possa descer a Terra e permear as almas dos homens.
Isto deve ser compreendido corretamente. Mal compreendido, pode facilmente conduzir ao
orgulho e arrogância, precisamente no leste. O apogeu da cultura pós-Atlante é alcançado na 5a época.
Aquilo que se seguirá na 6a e 7a épocas será uma linha (curva) descendente (de declínio) da evolução.
Não obstante, esta evolução descendente na 6a época será inspirada pela Personalidade Espiritual.

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Hoje, o homem do Centro Europeu sente instintivamente, mas frequentemente, um instinto
pervertido, que isso é assim, apenas sua consciência disso, na maior parte das vezes, é confusa.
A freqüente ocorrência do termo “O Homem Russo” é bem característica. O Gênio se expressa na
linguagem quando, ao invés de dizer como nós fazemos parte do ocidente: o Inglês, o Francês, o
Italiano, o Germano - na Europa Oriental se diz “O Homem Russo”.
Muitos da Inteligência Russa atribuem importância ao uso da expressão “O Homem Russo”.
Isto está profundamente ligado com o gênico desta cultura particular.
O termo se refere ao elemento de humanidade, de fraternidade que está disseminado na
comunidade. Uma tentativa de indicar isto é a inclusão da palavra que traz humanidade no termo. Mas,
também, é óbvio que o grau a ser alcançado num futuro longínquo não o foi, ainda, uma vez que a
expressão inclui ainda outra palavra que contradiz o nome. Na expressão “o homem Russo”, o adjetivo
realmente anula o que está expresso no nome. Pois quando o verdadeiro humano universal for
alcançado, não haverá qualquer adjetivo que sugira um elemento de exclusividade.
Porém, em um nível muito, muito mais profundo, vive nos membros da inteligência Russa a
percepção de que a concepção de comunidade, de fraternidade deve prevalecer nos tempos que ainda
estão por vir.
A alma Russa sente que a personalidade espiritual está para descer, mas que ela só pode fazê-lo
numa comunidade de homens permeados com a consciência da fraternidade, que ela (p. Esp.) não
poderia jamais se fazer presente numa comunidade em que não haja a consciência da fraternidade.
Eis porque os intelectuais Russos, como eles próprios se chamam, fazem a seguinte advertência à
Europa Central e Ocidental.
Eles dizem: “Vocês não valorizam a vida de uma verdadeira comunidade. Vocês só cultivam o
individualismo. Todos querem ser alguém por si mesmo, ser um indivíduo, apenas. Vocês levam o
elemento pessoal, por meio do qual cada homem se sente como individualidade, ao seu extremo
máximo.”
Isto é o que ecoa através do Leste para o Oeste e o Centro europeus, em muitas reprimendas
quanto a barbarismos e outras coisas similares. Aqueles que tentam perceber como as coisas são
realmente acusam a Europa Central e Ocidental de ter perdido todo o sentimento pelas relações
humanas.
Confundindo presente e futuro como fazem agora, estas pessoas dizem: “E só na Rússia que existe
uma verdadeira e genuína comunidade de vida entre homens, uma vida em que todos se sentem irmãos
uns dos outros, como um pequeno Pai, ou uma pequena Mãe do outro.” A inteligência Russa diz que o
cristianismo no Ocidente Europeu não conseguiu desenvolver a essência da comunidade humana, mas
que a Rússia ainda sabe o que uma comunidade é.
Alexander Herzen, um excelente pensador que viveu no século XIX e pertencia aos intelectuais
russos, concluiu isto dizendo: “Na Europa Ocidental não pode nunca haver felicidade.” Não importa
que tentativas sejam feitas, a felicidade nunca virá à civilização Europeia Ocidental.
Lá a humanidade jamais encontrará contentamento. Só o caos pode prevalecer lá.
A única salvação está na natureza Russa e na forma Russa de vida, onde os homens ainda se
separam da comunidade, onde em suas vilas ainda existe algo da natureza da alma principal à qual eles
se apegam, o que nós chamamos de alma de grupo, da qual a humanidade gradualmente emergiu e na

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qual o reino animal ainda vive, isto é reverenciado pela Inteligência Russa como algo de grande
importância e significado para seu povo.
Eles não podem elevar-se até o pensamento de que a comunidade do futuro existe como um alto
ideal, um ideal que ainda está por ser realizado.
Eles aderem firmemente ao pensamento “Nós somos o último povo da Europa a reter e manter
esta vida na alma de grupo. Os outros já saíram dela; nós a mantivemos e devemos mantê-la por nós
mesmos.”
Sim, esta vida na alma principal não pertence em realidade ao futuro. Ao contrário, ele é a velha
forma de existência na alma principal. Se ela insistisse em continuar, seria uma alma-grupo Luciférica,
uma forma de vida que permaneceu num estágio anterior; enquanto a forma de alma de grupo pela
qual é justo lutar é aquela que nós tentamos encontrar na ciência espiritual. De qualquer forma, o
sentimento dos intelectuais Russos serve para mostrar como o espírito de comunidade é necessário
para trazer a personalidade espiritual à manifestação.
E assim, como se tem lutado lá por este espírito, embora ao longo de um caminho falso: também
se deve lutar por ele na ciência espiritual ao longo do caminho verdadeiro.
O que gostaríamos de dizer aos do Leste é o seguinte: É nossa tarefa superar inteiramente justo o
que vocês estão tentando preservar numa forma externa, a qual seja uma antiga forma Luciférico-
Arimânica de comunidade.
Em uma comunidade de caráter Luciferico-Arimânica haverá coerção de crenças tão rígida quanto
à estabelecida pela Igreja Católica Ortodoxa na Rússia. Tal comunidade não compreenderá a
verdadeira liberdade de pensamento. Menos ainda poderá ela elevar-se ao nível onde a completa
individualidade está integrada a uma vida social na qual a fraternidade prevalece.
Essa outra forma de comunidade gostaria de preservar o que permaneceu como uma fraternidade
de sangue, uma fraternidade puramente através de laços de sangue.
Uma comunidade que esteja fundada não no sangue, mas no espírito, numa comunidade de almas,
é o que se deve buscar ao longo dos caminhos da ciência espiritual.
Nós devemos tentar criar comunidades nas quais o fator sangue não mais tem voz ativa.
Naturalmente, o fator de sangue continuará existindo - ele viverá em nossos relacionamentos
familiares, pois o que deve ser mantido não será erradicado.
Só que algo novo deve emergir! O que é significativo numa criança será preservado nas forças do
idoso, mas em seus últimos anos, o ser humano deve receber novas forças.
O fator do sangue não está destinado à sustentação de grandes comunidades no futuro. Este é o
equívoco cometido pelos representantes da Europa Oriental; cometido pelos representantes da Europa
Oriental nos desastrosos acontecimentos de hoje. Uma guerra irrompeu sob o comando da comunidade
de sangue entre os povos eslavos.
Nestes tempos decisivos, fazem-se presentes todos aqueles elementos que, em realidade, têm em
si o núcleo adequado, qual seja, o sentimento instintivo de que a personalidade espiritual somente pode
se manifestar numa comunidade onde a fraternidade prevalece. Entretanto, não se trata de uma
comunidade de sangue, mas antes, uma comunidade de almas. Aquilo que cresce como uma
comunidade de almas é o que nós desenvolvemos, em seu estágio infantil, em nossos grupos de
trabalho. O que mantém a Europa Oriental tão apegada à alma grupal a ponto de considerar a alma do

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povo eslavo como algo que não quer abandonar; como algo que, ao contrário, considera como o
próprio fundamento para o desenvolvimento do estado: isto, sim, deve ser superado.
Um grande e terrível símbolo se coloca diante dos olhos do mundo. Pensem nos dois estados em
que a guerra teve seu ponto de partida. De um lado, a Rússia, com o mundo eslavo em geral, declara
que a guerra é baseada numa irmandade de sangue; e, do outro lado, a Áustria, que compreende treze
povos distintos, e treze diferentes línguas. A ordem de mobilização na Áustria tinha de ser dada em
treze idiomas, porque a Áustria abrange treze tipos raciais: Alemães, Tchecos, Polacos, Húngaros,
Romenos, Eslovacos, Sérvios, Croatas, Eslovenos (entre os quais há um segundo e separado dialeto),
Bósnios, Italianos e Dalmatenses. Treze tipos étnicos, além de todas as diferenciações menores, estão
unidos na Áustria. Se as implicações deste fato são compreendidas ou não, o fato é que obviamente a
Áustria consiste numa coleção de seres humanos entre os quais uma comunidade baseada no sangue
jamais poderá existir; o estado mais complexo na Europa coloca-se em oposição àquele estado que luta
mais intensamente pela vida na alma grupal, pela conformidade. Mas esta luta por uma vida fundada
na alma-grupo traz uma série de outras coisas em seu esteio. Isto nos leva a outra questão, cujo
significado deve ser objeto da nossa reflexão.
Na palestra pública de ontem, eu mencionei o grande filósofo Soloviev, um dos mais importantes
pensadores da Rússia. Soloviev é um eminente pensador, mas, antes de tudo, um pensador Russo; uma
mente dificílima de compreender do ponto de vista europeu ocidental. Antropósofos, no entanto,
deveriam estudar o seu trabalho e tentar compreendê-lo. Eu proponho falar a partir da nossa mais
íntima opinião a respeito da ideia central de Soloviev. Soloviev é um filósofo bom demais para adotar
o princípio da vida na alma grupal sem questionamento. Ele tem dificuldades com ele e em muitos
aspectos chega a discordar. Mas há uma ideia que predomina nele; não tão conscientemente, é verdade,
e que é tal como se ele desejasse ser clarividente para poder antecipar aquilo que sua alma teria de
esperar para ver quando estivesse encarnado na sexta época. A seguinte concepção, que é
extremamente difícil para os homens da Europa Central e Ocidental, tomou-se a principal idéia na
mente de Soloviev. Na Europa Ocidental, como preparação para a sexta época, nós tentamos, entre
outras coisas, captar o significado da morte para a vida. Nós tentamos entender como a morte é a
manifestação de uma forma de existência; como a alma é transformada, na morte, em outra forma de
existência. Nós descrevemos a vida do homem dentro de seu corpo e modo de vida entre a morte e um
novo nascimento. Nós nos esforçamos para compreender a morte, para sobrepujar a morte pela
compreensão de que ela é apenas aparência exterior, de que a alma, em verdade, segue vivendo quando
passamos pela morte. Para nós, conquistar a morte pela compreensão constitui uma meta essencial.
Aqui chegamos a um dos pontos, de fato, ao mais vital dentre eles, em que a ciência espiritual se
desvia completamente da ideia central sustentada pelo grande pensador russo, Soloviev. Sua ideia é a
seguinte: Existe mal no mundo; existe perversidade no mundo. Se nós, com nossos sentidos,
contemplamos o mal e a iniqüidade no mundo, não podemos negar que o mundo esteja repleto de
ambos. Isto, diz Soloviev, refuta a divindade do mundo, pois, quando contemplamos o mundo com
nossos sentidos, como podemos acreditar num mundo divino, uma vez que um mundo divino não pode
certamente exibir o mal (Soloviev). Mas os sentidos percebem o mal em toda parte, e o mal extremo é
a morte. Porque a morte está no mundo, o mundo se revela em todo o seu mal e perversidade. O
arquétipo do mal, o arque-mal é a morte!
Assim, Soloviev caracteriza o mundo. Ele diz - e eu estou citando quase palavra por palavra:
Observem o mundo com seus sentidos ordinários; tentem compreender o mundo com sua mente
comum. “Vocês jamais poderão negar a existência do mal no mundo e desejar entender a morte seria
absurdo”. A morte existe. O conhecimento adquirido pelos sentidos revela um mundo de
perversidades, um mundo do mal. Podemos acreditar, pergunta Soloviev, que este mundo é divino
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quando ele nos mostra que está cheio do mal, quando ele nos mostra a morte a cada passo? Jamais
podemos crer que um mundo que nos apresenta a morte é um mundo divino. Pois em Deus não pode
haver mal, nem iniqüidade e, acima de tudo, não pode haver o arque-mal, a morte. Em Deus não pode
haver morte. Portanto, se Deus viesse ao mundo, (eu estou repetindo as próprias palavras de Soloviev)
se Deus aparecesse, seríamos nós capazes de crê-lo Deus? Não, não seríamos! Ele teria de estabelecer
sua identidade primeiro. Se um ser clamando ser Deus aparecesse, nós não acreditaríamos nele. Ele
teria de provar sua identidade pela produção de alguma coisa da ordem de um documento mundial
para que o reconhecêssemos como Deus. Nada deste tipo existe no mundo. Deus não pode provar sua
identidade através de algo que pertença ao mundo, pois tudo quanto há no mundo contradiz a divina
natureza. Por que meios, então, pode Ele provar sua identidade? Somente demonstrando, quando vem
ao mundo, que Ele conquistou a morte: que a morte não pode ter poder sobre Ele. Nós jamais
acreditaríamos em Cristo como Deus se Ele não tivesse provado sua identidade. Mas Cristo assim fez,
uma vez que ressuscitou, demonstrando que o arque-mal, a morte, não estava Nele.
Isto é que Soloviev diz. Trata-se de uma consciência do divino baseada apenas no fato histórico e
real da ressurreição de Cristo, o qual, como Deus, prova sua identidade. Soloviev segue dizendo: Nada
no mundo, exceção feita unicamente à Ressurreição, nos permite realizar que Deus existe. Se Cristo
não tivesse ressuscitado, toda a nossa crença seria vã e tudo que disséssemos sobre a natureza divina
no mundo, isto também seria em vão. Soloviev cita sempre estas palavras de São Paulo.
Esta, portanto, é a visão fundamental de Soloviev. Se olharmos para o mundo, encontraremos nele
somente o mal, a perversidade, degeneração, insensatez. Se Cristo não tivesse ressuscitado, o mundo
seria sem sentido. Por isso, Cristo ressuscitou! Notem bem esta sentença, pois ela é uma expressão
fundamental de um dos maiores pensadores da Europa Oriental: “Se Cristo não tivesse ressuscitado, o
mundo seria sem sentido; por isso Cristo ressuscitou”. Soloviev ainda disse: "Há pessoas que, talvez,
julguem ilógico o que digo quando afirmo tal coisa, mas isto é muito mais lógico do que qualquer
coisa que possam citar contra mim”.
Neste curioso exemplo do documento como prova de divindade de Deus, que encontramos entre
os escritos de Soloviev, eu procurei ilustrar-lhes a peculiaridade do pensamento do leste europeu.
Curiosos pensamentos afloram na tentativa de compreender por que meios, Deus revela
incontestavelmente que Ele é Deus. Como é diferente na Europa Central e Oriental! Qual é a meta da
ciência espiritual? Tentem rever e comparar o que buscamos cultivar na ciência espiritual. Qual é sua
meta? Qual a sua direção? É nossa meta e nosso desejo reconhecer, a partir do conhecimento, que o
mundo tem sentido, significado e propósito; e que o mundo não é somente mal e degeneração: É nossa
meta perceber através do conhecimento direto que o mundo tem sentido. Através dessa percepção,
tentamos preparar-nos para a experiência do Cristo. Nós desejamos compreender o Cristo vivo,
aceitando todas estas coisas como dádivas, como graça. Nós sentimos o portento das palavras: “Eu
estarei convosco até o final do mundo”. Nós aceitamos tudo o que o Cristo continuamente promete.
Pois Ele nos fala não somente nos evangelhos, mas dentro de nossas almas. E é isto o que Ele quer
dizer com estas palavras: que Ele pode ser sempre encontrado como o Cristo vivo. Nós queremos viver
n’Ele, recebê-lo em nós mesmos. “Não eu, mas o Cristo em mim” De todos os dizeres de São Paulo,
este é o mais significativo para nós. “Não eu, mas o Cristo em mim”. Pois por meio dele
reconhecemos: Para onde quer que nos voltemos, sentido e propósito são revelados. Fausto expressou
a mesma verdade quando revestiu tal filosofia de vida com as seguintes palavras:

Sublime Gênio, tens-me dado tudo,


Tudo o que eu te pedi. Não me mostraste
Em vão, dentro do fogo, o teu semblante.
!9
Por reino deste-me a infinita natureza,
E forças para senti-la, penetrá-la.
Não me outorgaste só contato estranho e frio,
Deixaste-me sondar-lhe o fundo do seio,
Como se fosse o peito de um amigo.
Expões-me a multidão de seres vivos,
E a conhecer, na plácida Silveira,
Nos ares, na água, os meus irmãos, me ensinas.
E quando o furacão no mato ruge,
Desmoronando-se, o gigante pinho
Vizinhos troncos e hastes despedaça,
E, trovando, o morro a queda lhe acompanha;
Então me levas a tranquila gruta,
Revelas-me a mim mesmo, e misteriosos
Prodígios se abrem dentro do meu peito.
Estas palavras indicam um entendimento espiritual dos mundos interno e externo, do propósito
universal, do significado da morte e o reconhecimento de que a morte é a passagem de uma forma de
vida para outra. Aos buscarmos o Cristo vivo, nós também o seguimos através da morte e da
ressurreição. Nós, diferentemente dos homens do leste europeu, não tomamos a ressurreição como
nosso ponto de partida. Nós seguimos o Cristo, deixamos sua inspiração fluir para dentro de nós,
recebendo-o em nossas imaginações. Nós seguimos o Cristo até a morte. Nós o seguimos não apenas
dizendo - “Ex Deo Nascimur”, de Deus nascemos, mas também dizendo “In Christo Morimur”, em
Cristo morremos.
Nós examinamos o mundo e reconhecemos que é ele próprio o documento através do qual Deus
expressa sua divindade. À medida que tentamos entender e experimentar o poder da urdidura
espiritual, nós no ocidente não podemos dizer que se Deus viesse à Terra necessitaria um documento
para estabelecer Sua identidade, mas, antes, buscamo-lo em toda parte, na natureza e nas almas dos
homens.
Assim, esta quinta época pós-Atlante da civilização necessita daquilo que nós desenvolvemos e
cultivamos em nossos grupos. Ela necessita do cultivo consciente da aura espiritual que paira acima de
nós, acalentada pelos espíritos das mais altas hierarquias e que fluirá para dentro das almas dos
homens quando eles viverem na sexta época. Não faz parte de nosso caminho como no Leste Europeu,
voltar-nos para a alma de grupo que está morta, à forma de comunidade que é meramente sobrevivente
de outra mais antiga. Nossos esforços são para nutrir e cultivar uma realidade viva desde sua infância,
tal é a comunidade de nossos grupos. Não é nosso caminho olhar para aquilo que há no sangue,
clamando pela união dos que têm o mesmo sangue, para que cultivem isso em comunidade. Nossa
meta é congregar seres humanos que resolvem ser irmãos e irmãs e sobre os quais paira algo que eles
querem lutar para desenvolver através da dedicação a ciência espiritual, sentindo o bom espírito da
fraternidade, cobrindo-os como asas.
Neste momento de abertura de um dos nossos grupos, esta é a dedicatória que receberemos em
nós. Por meio dela consagramos o grupo em sua fundação. Comunidade e vida renovada! Nós
buscamos a comunidade acima de nós, e o Cristo vivo em nós. O Cristo que não precisa de qualquer
documentação nem tem que ser autenticado porque nós o experimentamos dentro de nós mesmos.
Nesta hora, tomamos este como nosso lema a consagração: Comunidade acima de nós, Cristo em nós.

!10
Além do mais, sabemos que se dois ou três ou sete ou muitos estiverem reunidos em nome do
Cristo, Cristo viverá neles verdadeiramente. Todos aqueles que, nesse sentido, reconhecem a Cristo
como seu irmão, são eles próprios irmãos e irmãs. Pois Cristo reconhecerá como Seu irmão aquele
homem que reconhecer outros homens como seus irmãos.
Se nós formos capazes de receber tais palavras de consagração e realizar nosso trabalho de acordo
com elas, o verdadeiro espírito do nosso Movimento se manifestará não importa o que façamos.
Mesmo nestes tempos difíceis, amigos de fora têm se associado àqueles que fundaram aqui o grupo.
Este é sempre um bom costume, pois, desse modo, aqueles que estejam trabalhando em outros grupos
podem levar a outros lugares as palavras de consagração. Eles se comprometem a pensar
constantemente naqueles que assumiram trabalharem juntos, em grupo, de acordo com o verdadeiro
espírito do Movimento. A comunidade invisível, que nós gostaríamos de encontrar por meio desta
forma de trabalho, irá crescer e prosperar. Se essa atitude, unida ao nosso trabalho, se espalhar mais e
mais, teremos em alta conta as necessidades da ciência espiritual em nome do progresso da
humanidade. Então, poderemos acreditar que aqueles grandes mestres de sabedoria, que guiam a
evolução humana, estarão entre nós. Na medida em que vocês, aqui, trabalharem no sentido da ciência
espiritual, nesta mesma medida, eu sei muito bem, que os grandes mestres que inspiram nosso trabalho
desde os mundos espirituais estarão presentes entre vocês.
Eu invoco sobre o vosso trabalho, o poder, a graça e o amor daqueles mestres de sabedoria que
guiam e dirigem o trabalho que cumprimos em fraternidade dentro de tais grupos. Eu invoco a raça, o
poder e o amor dos mestres da sabedoria que estão diretamente conectados com as forças das
hierarquias superiores. Possa estar com esse grupo o espírito do bem que está em vós, grandes mestres;
e possa também prevalecer a atuar neste grupo o verdadeiro espírito do Movimento!

!11
A FORMAÇÃO DE COMUNIDADES

(Duas palestras pronunciadas na “Assembléia de Delegados”


em Stuttgart em 27 e 28 de fevereiro de 1923).

Ao dirigir-lhes, hoje, a palavra, meu estado de ânimo não é o mesmo


que era em outras ocasiões, quando tive o privilégio de falar-lhes; pois desde a
noite de São Silvestre de 1922 para 1923, meu estado de ânimo tem, como
fundo, o quadro horrível do Goetheanum em chamas. A dor e o sofrimento de
quem amava esse Goetheanum, por causa da Antroposofia são tamanhos que
não podem ser expressos em palavras. Poderia parecer justificada a opinião
segundo a qual um movimento que olha para o espiritual – como o faz o nosso
movimento antroposófico - não deveria ter um motivo para ficar triste por causa
de um monumento exterior do seu conteúdo. Mas a situação era diferente com
o Goetheanum que acabamos de perder. Não era um edifício exterior qualquer
a serviço da nossa causa antroposófica. Durante os quase 10 anos de
construção, tive de explicar por várias vezes que não se podia aplicar ao nosso
movimento antroposófico algo que fosse adequado, em outra oportunidade
semelhante, à construção de uma sede para este ou aquele movimento
espiritual. Pois conforme tive o ensejo de explicar, não se tratava apenas de
um movimento espiritual cujo crescimento produziu, em várias pessoas
dedicadas e dispostas a sacrifícios, o desejo de erguer-lhe uma sede
construída neste ou naquele estilo tradicional. Tratava-se da situação especial
de a Antroposofia ter um fundamento espiritual que não faz dela, de modo
unilateral, um movimento religioso, cognitivo ou artístico qualquer; ela é um
amplo movimento que pretende, sob os mais diversos aspectos, abrir-se aos
mais elevados ideais da Humanidade - aqueles da religião e da moral, da arte
e do conhecimento. Não podia, pois, surgir a intenção de se construir para o
movimento antroposófico um edifício com uma forma qualquer, esse edifício
tinha de ser erguido, também do ponto de vista artístico, como expressão da
visão espiritualista do movimento antroposófico do conhecimento, de acordo
com as próprias fontes que dão origem às ideias antroposóficas. Durante
quase dez anos, muitos amigos procuraram, ao meu lado, dar forma exterior -
através das linhas e cores e através de toda a arquitetura e formação plástica -

1
àquilo que flui dos mananciais da visão, da vida e das aspirações
antroposóficas. Essa visão, essa vida estavam incorporadas a todas as linhas,
formas plásticas e cores. Havia uma afinidade íntima entre este edifício e aquilo
que devia atuar dentro do movimento antroposófico do ponto de vista da
cognição e das artes.
Os amigos que, por exemplo, viram apresentações de euritmia no
edifício do Goetheanum em Dornach certamente sentiram a íntima harmonia
entre os movimentos da euritmia e tudo que lhes respondia a partir da
arquitetura e da decoração interior do espaço destinado ao palco e ao público.
Podia-se ter a impressão de todos os movimentos das pessoas no palco terem
sido produzidos pelas formas arquitetônicas e plásticas.
Quando alguém falava no púlpito, animado pelo verdadeiro espírito
antroposófico, as linhas e formas vinham ao seu encontro, fazendo-lhe eco.
Isso tinha sido almejado. Foi uma primeira tentativa, mas era visível senti-lo.
Por isso aquele que dedicou seu trabalho ao Goetheanum sente que as
chamas daquela noite de São Silvestre destruíram também os sentimentos por
ele incorporados a esse trabalho. A dor causada pela perda é tão imensa
justamente devido à união dos sentimentos intensos da Antroposofia com
aquelas formas - resultado artístico da visão inevitada e destinadas a ela - que
nunca poderiam ser substituídas por formas ou interpretações apenas
mentalmente elaboradas.
Essa circunstância deve fazer parte da recordação dos que criaram o
Goetheanum e sentiram aquela harmonia íntima. Temos de erguer esse fato
com nossos corações qual uma recordação. Tendo servido ao nosso lar,
devemos pôr em seu lugar um asilo espiritual. Devemos almejar, por todos os
meios, erguer em nossos corações, para sempre, aquele edifício do qual
ficamos exteriormente despojados, no que se refere à vivência artística.
Contudo, o pano de fundo de tudo que for realizado, no futuro, no campo da
Antroposofia será sempre constituído por aquele terrível mar de chamas no
qual se uniram todas as chamas isoladas, à meia-noite entre 31 de dezembro e
1º de janeiro. E se não foi destruído nem um só pedaço da Antroposofia
espiritual viva, sofremos a perda do fruto de um enorme trabalho que nos
esforçamos para dedicar à causa antroposófica em nossa época.

2
Todavia, confio em que essa experiência, desde que se enraíze nos
corações dos nossos amigos antropósofos, essa dor e essa tristeza façam
nascer em nós a força necessária para a tarefa à qual somos chamados para
os próximos tempos. Como frequentemente ocorre na vida, um grupo de
pessoas, vítimas de um desastre comum, pode sentir-se unido por ele,
resultando daí novas forças para uma atuação eficiente em conjunto.
Pois as forças que hão de animar-nos em nosso atuar antroposófico
devem provir de vivências e não de teorias cor-de-cinza* nem de pensamentos
abstratos.
Meus caros amigos, eu quero acrescentar essas coisas ao tema que tive
de escolher para estes dois dias, isto é, as condições para a formação de
comunidades antroposóficas.

* N. do tradutor: imagem criada por Goethe em seu "Fausto”, primeira parte.

Desejava acrescentá-las porque, além de estarem profundamente gravadas no


coração, elas apontam para um daqueles fatos que deveríamos ter bem
presentes em nossa consciência. Um grande espírito de sacrifício e muito
trabalho dedicado têm fluído para o Goetheanum. Os impulsos para esse
espírito de sacrifício e para esse trabalho nasceram, nos dois anos de atividade
antroposófica, em toda parte onde a Antroposofia estava viva. Surgiram dos
corações entusiasmados por ela, e o Goetheanum foi uma obra da comunidade
de pessoas orientadas pela Antroposofia.
Ao refletirmos hoje, por vários motivos, sobre a maneira de regenerar a
sociedade antroposófica, não devemos esquecer que ela teve uma vida de
duas décadas; que muitos acontecimentos onde se sente a mão do destino se
realizaram numa comunhão de atos e anseios de um número não pequeno de
indivíduos; que a Sociedade Antroposófica não é, por sinal, algo que possamos
fundar novamente, pois a história, a história real e vivida, não pode ser
apagada. Não se pode dar início a uma coisa que teve seu começo há duas
décadas. Cuidado com mal-entendidos a esse respeito, na hora em que
participamos destas confabulações! Os que se juntaram, no decorrer dos
tempos, à Sociedade Antroposófica certamente tem críticas a fazer a seu
respeito, e com razão. Ouvimos palavras de certo peso sobre o assunto. Mas

3
não esqueçamos que a Sociedade Antroposófica é algo que exerceu uma
atuação. Existe nela um bom número de pessoas que podem dizer, com
palavras de peso, por serem repletas de tristeza e de sofrimento: todos nós, em
comum, perdemos o nosso querido Goetheanum nesse incêndio.
Faz diferença um indivíduo ter entrado na sociedade em 1917 ou mais
tarde, ou ter tido para com ela um relacionamento tal que essa palavra, repleta
de sofrimento, repouse numa vivência íntima mais longa. Nossas conversas
deveriam ser realizadas sob o impacto desse fato. Então desaparecerá algo - e
é algo significativo - dos sentimentos que alguns amigos têm manifestado, não
sem motivos justificados. Tenho ouvido o seguinte - e certamente tenho sentido
o justo motivo: “Depois de tudo que aqui tenho escutado, não posso mais, após
minha volta para casa, falar em Antroposofia da forma como o fazia quando
ainda estava cheio de Ilusões!” Eu disse que algo vai deixar de constar de tal
sentença quando lembrarmos o quanto foi vivenciado e sofrido em comum por
pessoas que são antropósofas há duas décadas, pois esse sofrimento foi o
acontecimento final de uma longa participação na Sociedade Antroposófica.
Deveríamos também levar em conta que tudo isso não pode ser apagado pelas
preocupações que nos assediam durante estes dias. É algo que permanece.
Permaneceria mesmo se os acontecimentos atuais fossem ainda muito piores
do que parecem ser. Será que devemos esquecer o essencial por causa do
que
ocorre na superfície? Não o devemos justamente no seio de um movimento
espiritual que nasce das profundezas do coração e da alma. No devido o
sentido da palavra, não falta a luz do sol àquilo que entrou no mundo como
movimento antroposófico - embora também o sol possa ficar escuro. Tudo isso
não nos deve impedir de enfrentar, neste círculo, as coisas tais como se
manifestam justamente com o intuito de conseguirmos novamente um
recipiente apropriado para a Antroposofia sob a forma de uma genuína
Sociedade Antroposófica. Mas precisamos do ambiente adequado para realizá-
lo.
Não posso hoje mencionar tudo que está envolvido. Vou-me
esforçar para abordar nestas duas conferências, tanto quanto for possível,
aquilo que precisa ser visto. Nem tudo poderá ser dito, mas quero apontar em

4
particular para dois fatos: a necessidade premente de se formar uma
comunidade dentro da Sociedade Antroposófica, e aquele sintoma que se
manifestou no movimento antroposófico pelo movimento dos jovens, altamente
satisfatório. Todavia, muitas coisas devem ser julgadas, no campo
antroposófico, de forma diferente do que o seriam em outro lugar. Não estariam
nesta área, tão ansiosamente desejada por muitos, se não pudéssemos
encarar as coisas de maneira diferente de como se costuma encará-las no
mundo atual.
A formação de comunidades! É muito curioso notar, mas que o ideal de
se formar comunidades esteja surgindo com tanta força em nossa época atual.
É de uma vivência profunda e elementar de muitas almas que resulta hoje o
ideal de se formarem comunidades, de se encontrar um relacionamento entre
os indivíduos baseado no impulso de uma atividade em comum. Quando fui
procurado, algum tempo atrás, por certo número de jovens teólogos prestes a
seguir a carreira sacerdotal, o impulso que os animava era, antes de mais
nada, aquele de uma renovação religiosa, de uma renovação impregnada pela
verdadeira força de Cristo, uma renovação religiosa capaz de atingir muitas
almas da nossa época da maneira como desejariam ser atingidas, mas não o
podem dentro das confissões religiosas tradicionais da atualidade. Coube-me
então pronunciar uma frase que me parece muito importante no
desenvolvimento dessa corrente visando à renovação religiosa: "O que se faz
necessário é buscar formar, de forma correta, comunidades; é preciso
encontrar, na atividade religiosa e sacerdotal, um elemento que consiga unir
um homem ao outro.”
Eu disse então aos amigos que me vieram procurar: "Não se pode
formar comunidades na área da religião por meio de palavras abstratas, da
prédica no sentido comum, nem dos poucos atos culturais que continuam
existindo nesta ou naquela confissão.”
A tendência ao intelectualismo, presente no âmbito da religião, fez com
que muitas práticas estivessem hoje totalmente permeadas por um elemento
racional e intelectualista. O que, dessa forma, é levado aos homens não os liga
entre si, mas isola-os, atemorizando sua comunidade social. E isso fica óbvio
para quem sabe que o racional e o intelectual podem ser apreendidos por cada

5
um como individualidade humana isolada. Desde que eu tenha alcançado certo
nível de formação em minha evolução individual, posso adquirir e aperfeiçoar,
cada vez mais, o elemento intelectualista, sem apoiar-me em outras pessoas.
Pensar e raciocinar, logicamente, posso fazê-lo sozinho, e fa-lo-ei tanto mais
perfeitamente quanto mais isolado eu estiver. Quem se entregar ao pensar
apenas lógico sentirá a necessidade de retirar-se do mundo e dos homens.
Mas na realidade o homem não é predestinado apenas para tal solidão.
Ao esforçar-se para esclarecer hoje - por meio de imagens e não de forma
intelectual - aquilo que, no fundo dos corações, anseia por uma vida
comunitária, faço-o porque estamos vivendo numa era de transição em direção
ao desenvolvimento da alma da consciência, o que implica na necessidade de
uma conscientização cada vez maior da nossa vida. Tornar-se mais consciente
não significa tornar-se mais intelectualista. Significa, sim, que não se pode ficar
parado num vivenciar apenas instintivo. Mas é justamente na área da
Antroposofia que se deve procurar expor aquilo que se quer elevar a uma
clareza consciente e, mesmo assim, com a plenitude elementar da vida, isto é,
uma vida equiparada à percepção e sensação ingênua. Isso tem de ser
conseguido.
Ora, existe na vida humana uma espécie de sentido comunitário patente
para qualquer pessoa e mostrando, em qualquer parte da terra, que a
humanidade foi concebida com vista à comunidade. É uma comunidade que se
põe em evidência, em toda parte, na vida cultural, política e econômica,
embora e isso seja feito, em geral, de uma forma muito prejudicial; mas dessa
comunidade podemos aprender, mesmo de maneira primitiva.
Em seus primeiros anos de vida, a criança é introduzida a uma
comunidade real, concreta e humana sem a qual não pode existir; é aquela da
fala humana. É na fala que temos, por assim dizer, a forma de comunidade que
a própria natureza coloca ante nossa visão anímica. O primeiro elemento que
produz uma comunidade é trazido ao homem pela linguagem, principalmente
pela língua materna que se inocula ao ser humano total na época em que o
corpo etérico ainda não nasceu. É por culpa da nossa era racionalista que se
tem das línguas dos povos um conceito político e de agitação, identificando os
povos com as línguas, sem levar em conta as profundas e íntimas

6
configurações psíquicas e os imensos valores cármicos ligados à língua e seu
gênio, compreendo que são a base natural do grito do homem, manifestação
do seu anseio por comunidades. Que seríamos nós se tivéssemos de passar
um ao lado do outro sem ouvir no próximo a mesma vida da alma expressando-
se pela mesma palavra, e sem poder colocar toda a nossa vida íntima nessa
palavra? Resta praticarmos aqui um pouco de auto-análise para conseguir o
que a limitação do tempo disponível não me permite desenvolver: uma visão
geral de tudo quanto devemos à fala como elemento mais elementar para a
formação de uma comunidade entre os homens.
Mas existe algo mais profundo que a linguagem, embora se manifeste
mais raramente. A fala liga os homens, em certo nível exterior, à vida
comunitária; todavia, não penetra muito fundo no âmago da vida anímica. Em
certos momentos percebemos algo que ultrapassa a língua como elemento de
formação de comunidades. É o que sente aquele que, por graça do destino,
reencontra em sua vida posterior pessoas que conheceu em sua infância.
Imaginemos o caso ideal de alguém reencontrar pelo seu destino três, quatro
ou cinco companheiros de juventude; ele tem 40 ou 50 anos e não os viu
durante dezenas de anos; eles passaram em comum o tempo entre os 10 e 20
anos de idade. Suponhamos que haja, entre essas pessoas, relações humanas
fecundas e luminosas; imaginemos o que significa, para esses indivíduos, o
fato de serem tocados pelas recordações dos tempos vividos em comum em
sua infância. A recordação se situa a um nível mais profundo que a língua.
Uma consonância mais íntima das almas ocorre quando os indivíduos estão
ligados entre si pela linguagem anímica pura das reminiscências, mesmo
sendo para uma comunidade de pouca duração. Quem já teve experiências
desse tipo sabe não ser devido aos fatos isolados que voltam à tona, e que
unem as almas, que ocorre a situação íntima e profunda verificada num caso
ideal como aquele esboçado por mim. É algo bem diferente. Não é o conteúdo
concreto dos pensamentos da recordação, é uma vivência ao mesmo tempo
indefinida, uma vivência comum, um renascimento do que já foi vivido, com
uma centena de detalhes os quais, porém, fundem-se numa totalidade; e o que
desperta essa vivência total é a recordação vinda da alma do próximo.

7
Isso vale para a vida na Terra. Estendendo esse fato anímico ao
espiritual, tive de dizer, aos amigos teólogos que me vieram procurar, o
seguinte: “Se o trabalho da renovação religiosa tiver de ser acompanhado pela
formação de uma autêntica comunidade, vocês precisarão de um culto religioso
apropriado que possa ser aplicado no presente. A experiência comum do culto
é algo que produz, pela sua mera essência, na alma humana a sensação de
comunidade. E o Movimento para a Renovação Religiosa o entendeu; aceitou
esse culto e foi uma palavra de peso que o Dr. R. Rittelmeyer* pronunciou
neste mesmo lugar: “No que se refere à formação de comunidades, um dos
maiores perigos para o movimento antroposófico provém do Movimento para a
Renovação Religiosa”. Pois nesse culto reside um elemento extremamente
importante para a formação de uma comunidade. Ele liga os homens entre si.
O que há nesse culto para que consiga ligar um indivíduo a outro,
estabelecendo - com toda a certeza! - uma comunidade entre indivíduos
atomizados por tudo que há de intelectual e de lógico? É isso que o Dr.
Rittelmeyer aparentemente tinha em mente: o fato de ele ser um meio para
formar comunidades. Mas como a Sociedade Antroposófica também procura
formar uma comunidade, terá de encontrar o meio apropriado para si caso não
queira sofrer certa ameaça por parte do Movimento para a Renovação
Religiosa.
Ora, qual é o segredo dessa formação de comunidades, segredo
inerente à própria essência do culto tal como foi criado, justamente para esse
fim, pelo Movimento para a Renovação Religiosa? Aquilo que se exprime nos
cultos, seja através da cerimônia, seja através da palavra, é uma imagem de
experiências reais - não de experiências feitas aqui na Terra, mas de
experiências reais feitas naquele mundo pelo qual o homem passa em sua
existência pré-terrestre, na segunda parte do seu caminho entre a morte e o
novo nascimento, naquele mundo que o homem atravessa entre a “hora da
meia-noite” e a descida à existência na Terra. É nessa região que se situam os
acontecimentos, os seres e todo o contexto que se projeta nas formas de um
verdadeiro e genuíno culto. Qual será então a sensação de um indivíduo que
vivencia o culto junto com alguém que qualquer carma conduziu até a sua
presença - e o carma é tão complexo que podemos supô-lo reinar cada vez

8
que temos um encontro com alguém? O indivíduo tem, com o próximo,
recordações comuns da existência pré-terrestre. Surgem das profundezas
subconscientes da alma. Antes de termos descido à Terra, atravessamos juntos
um mundo que reaparece no culto. Isso constitui um laço muito forte, pois traz
ao mundo sensível não só as imagens, mas as forças do suprassensível; e
essas forças interessam ao homem intimamente, pois estão relacionadas com
seu cerne mais íntimo. O culto liga porque contém forças provenientes dos
mundos espirituais, aí o homem se defronta, com sua vida terrestre, com algo
supraterrestre. E não se defronta com esse algo numa palavra racional que faz
esquecer o mundo espiritual nem em profundezas subconscientes da alma,
mas numa imagem viva e cheia de forças, imagem que não é morta ou
apenas simbólica, mas sim carregada de forças; o homem tem a sua frente o
âmbito do qual fazia parte enquanto não

*N. do trad.: um dos fundadores da “Comunidade de Cristãos".

estava em seu corpo terrestre. Uma recordação comum tendo por objetivo o
espiritual - eis o que é a força geradora de comunidade, do culto.
É de tal força que necessita a Sociedade Antroposófica, a fim de que um
espírito comunitário possa nascer dentro dela. Mas o impulso para a formação
de uma comunidade pode ser diferente, no movimento antroposófico, do que é
no Movimento de Renovação Religiosa, embora um não exclua o outro. Os
dois podem coexistir na mais perfeita harmonia, se a relação entre ambos foi
entendida corretamente. Mas, antes de mais nada, é preciso compreender que
outro elemento gerador de comunidade pode entrar na vida. O culto irradia
uma lembrança em direção ao espiritual e fala a algo mais profundo do que o
intelecto; a estruturação do culto fala ao sentimento, pois este compreende a
linguagem do espiritual - se bem que a linguagem do espiritual não penetre
nesta vida terrena, na consciência imediata.
Para compreendermos o outro elemento chamado a exercer uma função
correspondente na Sociedade Antroposófica, é preciso, antes de mais nada,
olhar não só para o mistério da fala e da recordação, com relação a essência
do impulso comunitário - necessitamos ainda olhar para outra coisa. Vejamos
o estado do homem que sonha, e comparemos com o estado de vigília.

9
O mundo dos sonhos pode ser belo, magnífico, cheio de imagens e de
significados, mas é um mundo que isola os homens. Com sua vida de sonhos
o homem está só. Eis um indivíduo deitado que sonha: outros estão ao redor
dele, dormindo ou não; os mundos presentes em suas almas nada têm a ver
com a consciência do sonhador, com o que ele vivencia em sua consciência
onírica. O homem se isola em seu mundo de sonho, e mais ainda em seu
mundo de sono. Ao acordar, passamos a fazer parte de uma certa vida em
comum. O espaço em que estamos nós e o outro, a sensação, a representação
desse espaço que o outro tem, nós também o possuímos. Ao contato com o
nosso mundo ambiente despertamos, em certo grau, para a mesma vida
anímica interior, como ele. Ao acordar do isolamento do sonho despertamos
para uma comunidade humana, pela simples natureza da relação do ser
humano para com o mundo exterior. Deixamos de ser tão encapsulados e
ensimesmados como éramos no mundo dos sonhos, por mais belos,
esplêndidos e significativos que tenham sido.
Como é que acordamos? Acordamos ao contato com o mundo exterior -
com a luz, com os sons, com os fenômenos de calor e com todo o resto do
conteúdo do mundo sensorial; mas também acordamos - pelo menos na vida
exterior comum - ao contato com o exterior dos outros homens, com o que
estes nos apresentam como faceta natural. Para a vida diária, acordamos ao
contato com o mundo da natureza. Esta nos desperta, transportando-nos do
isolamento para certa vida em comunidade. Mas ainda não despertamos - e é
este o segredo da vida diária - como homens ao contato com o homem, com
seu cerne mais profundo. Acordamos ao contato com a luz, com o som, talvez
ao contato com a fala que o próximo nos dirige como algo bem natural no
homem, acordamos pelas palavras que ele pronuncia de dentro para fora. Mas
não acordamos ao contato do que se passa no fundo da alma de outrem;
acordamos ao contato do que nele é natureza, mas não ao contato do que nele
é anímico-espiritual, pelo menos na vida cotidiana comum.
É um terceiro acordar ou, pelo menos, um terceiro estado da vida
anímica. Acordamos, na passagem do primeiro estado para o segundo, pelo
chamado da natureza. Despertamos do segundo para o terceiro estado pelo
chamado do anímico-espiritual, ao contato com o outro homem. Mas temos de,

10
primeiro, ouvir esse chamado. Assim como se acorda de forma correta para a
vida terrena comum graças à natureza exterior, existe um acordar em nível
superior quando despertamos ao vivenciar o anímico espiritual do nosso
próximo; temos de sentir dentro de nós o anímico-espiritual do próximo da
mesma forma como, ao despertar comum, percebemos a luz e o som. Por
belas que sejam as imagens que vemos no isolamento dos sonhos, por mais
grandiosas que sejam as vivências que temos durante a consciência onírica
isolada, certamente não teremos a capacidade de ler, a não ser em estados
totalmente anormais. Essa relação com o mundo exterior, não a temos. Seja
qual for a beleza das ideias recebidas da Antroposofia, dessa ciência do mundo
espiritual, poderemos ter um conhecimento teórico de tudo que nos podem
contar sobre corpo etérico, corpo astral, etc., mas não compreenderemos o
mundo espiritual. Só começaremos a desenvolver a primeira compreensão do
mundo espiritual quando acordarmos ao contato do anímico-espiritual do nosso
próximo. É só aí que começa a verdadeira compreensão da Antroposofia.
Temos, portanto, de partir, para realmente entender a Antroposofia, daquele
estado que se pode chamar de “acordar do homem ao contato com o anímico-
espiritual do outro”.
A força para este acordar pode ser produzida quando se implanta numa
comunidade de pessoas o idealismo espiritual. Costuma-se falar muito em
espiritualismo. Mas em nossa civilização atual este veio a ser algo bem
escasso. Pois o verdadeiro idealismo só existe quando o homem pode estar
consciente do seguinte: assim como traz o mundo espiritual à Terra através das
formas do culto, ele pode elevar ao espiritual suprassensível algo que viu,
vivenciou e compreendeu na Terra, fazendo do mesmo um ideal. Celebrando
um culto, impregnamos a imagem cheia de forças com o supraterrestre.
Elevamo-nos com nossa vida anímica, ao supra-sensível quando vivenciamos
de maneira ideal e espiritual aquilo que encontramos no mundo físico; quando
conseguimos ter a sensação de que o que percebemos no mundo dos
sentidos, adquirir de repente vida, ao fazermos dele um ideal. Torna-se vivo
quando o permeamos com os nossos sentimentos e com o impulso da nossa
vontade. Quando irradiamos nossa vontade ao nosso interior, a ele dirigindo o
nosso entusiasmo, percorremos com essa experiência sensorial idealizada o

11
caminho oposto aquele pelo qual o suprassensível fica incorporado à forma do
culto.
A Sociedade Antroposófica pode ser pequena ou grande; aquilo que
acabo de caracterizar pode ser realizado em seu seio. Poderemos realizá-lo
quando realmente tivermos a capacidade de produzir um efeito despertador,
abrangendo com força viva a ideia do espiritual; aí a vivência física não será
apenas idealizada em conceito abstrato. O ideal adquire vida superior quando
o impregnamos, a tal ponto, com nossa personalidade, que ele se transforma
em contra-imagem do culto; é o sensorial elevado ao supra-sensorial. Podemos
chegar a isso aprofundando nossa vida sentimental, permeando o motivo da
Antroposofia com sentimentos espiritualizados; isso já acontece quando
atravessamos com respeito a porta que nos conduz ao local em que se motiva
a Antroposofia; pode ser normalmente um local profano, mas é santificado por
uma leitura antroposófica em comum. Devemos sentir que esta sensação
ocorre em cada indivíduo que se junte a nós para assimilar conosco a vida
antroposófica. E não é apenas uma concepção abstrata que se deve ter desse
fato; devemos ter dele uma vivência íntima. Aí o salão em que se trabalha
Antroposofia não é apenas um local onde está sentado certo número de
pessoas que assimilam o que ouviram ou leram. Através de todo o processo de
assimilação de ideias antroposófica, um autêntico ser espiritual se torna,
realmente, presente no local onde praticamos Antroposofia. Assim como as
forças divinas estão presentes nas formas do culto realizado no mundo físico,
de uma maneira sensorial, devemos aprender, com nossas almas e corações,
a tornar presente uma verdadeira entidade espiritual no local em que ressoa a
palavra da Antroposofia; devemos dar ao nosso curso, ao nosso sentir, pensar
e querer um cunho espiritualista - não em qualquer sentido abstrato, mas como
se nos sentíssemos observados e ouvidos por um ser espiritual que paira
realmente, acima de nós. Devemos sentir uma presença espiritual, supra-
sensível, como resultado de nossa atividade antroposófica. Aí o atuar
individual, no sentido da Antroposofia, passa a ser uma realização do
suprassensível.
Nas comunidades primitivas existe algo mais do que a mera fala. Esta
está localizada no homem superior. Considerando o homem como um todo,

12
vocês encontrarão no sangue aquilo que liga um indivíduo ao outro. Os laços
de sangue fazem dos indivíduos uma comunidade. Mas o que vive no sangue é
a alma ou o espírito grupal, os quais não se encontram dessa maneira numa
comunidade livre. Num grupo de pessoas unidas pelos laços de sangue, o
elemento espiritual que nelas penetrou atua, de certa forma, de baixo para
cima. Há um espírito grupal quando um sangue comum flui pelas veias de certo
número de pessoas. Não é pelo sangue, mas pela vivência comum do estudo
da Antroposofia que um autêntico espírito comunitário pode ser atraído para
nós. Se formos capazes de senti-lo, unir-nos-emos em verdadeiras
comunidades. Devemos simplesmente transformar a Antroposofia em fato real
pela criação, dentro das nossas comunidades antroposóficas, de uma
consciência de que um indivíduo desperta ao contato com o anímico-espiritual
do seu próximo, enquanto os homens se reúnem em vista de um trabalho
antroposófico comum. Os homens despertam através da sua convivência
mútua. Voltando a encontrar-se, despertam cada vez em um estado diferente,
pois cada um teve, no intervalo, outras experiências e deu um pequeno passo
para frente.
Esse despertar é um desabrochar, um germinar. A espiritualidade
comum baixará para seu lugar de trabalho antroposófico, como um fato real,
quando uma alma despertar ao contato com a outra, um espírito ao contato
com outro; quando estivermos nas comunidades antroposóficas a consciência
viva de que só assim começamos a estar bastante despertos para
compreender a Antroposofia; quando acolhemos as ideias antroposóficas em
almas acordada por essa compreensão - e não em almas sonolentas, do dia-a-
dia, no que se refere à existência superior. Acaso somos realmente verídicos
quando falamos de um mundo supra-sensível sem ter a capacidade de elevar a
compreensão de espiritualidade invertida, de tal culto virado ao contrário? Só
estaremos realmente captando o espiritual quando não tivermos apenas o
conceito abstrato do espiritual, quando não pudermos reproduzir teoricamente
nem para nós mesmos, mas quando tivermos a certeza, com base em fatos
demonstráveis, de que espíritos poderão ter conosco uma comunidade
espiritual quando realizarmos uma apreensão espiritual. Não é por meio de
instituições exteriores que se formam uma comunidade antroposófica; esta

13
deve ser produzida a partir dos mananciais mais profundos da consciência
humana.
Mostrei-lhes hoje uma parte do caminho e continuarei amanhã com
minhas descrições a esse respeito. Com elas pretendo mostrar que o mais
importante para a Sociedade Antroposófica, se alguém quer continuar a
desenvolver-se, é compenetrar-se com uma verdadeira compreensão da
Antroposofia. Essa compreensão conduz não apenas a ideia acerca do
Espírito, mas a uma comunhão com o espírito. Aí a consciência dessa
comunhão com o mundo espiritual ajudará a formar comunidades. Formar-se-
ão as comunidades pré-determinadas pelo carma como resultados da
consciência antroposófica correta. Não se podem indicar meios exteriores; se
alguém lhes descrevesse meios exteriores, estes seriam algo charlatanesco.
Bem, até certo ponto, essas coisas têm sido compreendidas nestes dois
decênios de evolução da Antroposofia; muitos as compreenderam em seu
sentido espiritual; falarei sobre isso amanhã mais detalhadamente, pois
pretendo continuar com essas considerações, apontando amanhã para outra
finalidade. Quero acrescentar agora apenas umas palavras ao que talvez tenha
surgido como consequência desta minha descrição do fundamento espiritual de
toda vida comunitária antroposófica. De um lado, a descrição tal como lha fiz é,
necessariamente, baseada em todo o movimento antroposófico. A Sociedade
Antroposófica pode ter vários aspectos em várias épocas. A Antroposofia
independe de qualquer Sociedade Antroposófica e pode ser encontrada
independentemente dela. Mas pode ser encontrada de uma maneira toda
particular quando um indivíduo acorda ao contato com outro e quando isso
conduz a formação de comunidades. Pois este acordar ao contato com os
outros é um processo que sempre se renova; por isso ficamos juntos com eles.
Isso tem razões espirituais interiores. Esse fato deve ser compreendido, cada
vez melhor, dentro da Sociedade Antroposófica; e por este motivo tudo que foi
dito em benefício da Sociedade Antroposófica deveria ser permeado por forças
que, em última análise, conduzem-nos à Antroposofia como tal.
Fiquei profundamente satisfeito ao participar, outro dia, de uma reunião
de jovens, de jovens acadêmicos, depois de ter assistido, durante a semana, a
reuniões menores e maiores onde se preparava o que nestes dias está

14
acontecendo na convenção dos delegados. Esta foi planejada depois de muitos
debates semelhantes aos que ocorrem em parlamentos, associações etc., com
base em considerações racionalistas, corriqueiras, próprias para o dia-a-dia.
Nessa reunião de jovens também se falou sobre o que devia acontecer. De
início, falava-se sobre assuntos exteriores, mas de repente estavam todos em
meio a um debate genuinamente antroposófico. Os assuntos da vida cotidiana
tomaram espontaneamente um rumo tal que só os podia discutir do ponto de
vista antroposófico. O melhor seria que não se indicassem teorias
antroposóficas de forma artificial, sentimental e nebulosa como frequentemente
também acontece, mas que se chegasse, pelas necessidades comuns da vida,
por um caminho natural, à constatação de que não se sabe como estudar
química ou física sem falar em Antroposofia, a fim de informar sobre as
necessidades de tal estudo. Eis o espírito que poderia reinar entre nós.
Mas não vamos chegar a nenhum resultado até amanhã à noite, se as
coisas continuarem correndo no mesmo estilo como tem ocorrido até agora.
Vamos entrar num imenso e trágico caos. Antes de mais nada, não
devemos trazer à força muitas sentimentalidades, mas encher nossos corações
com impulsos antroposóficos, e isso com uma clareza cristalina. Aí nossos
debates serão profícuos.
Mas como as coisas estão, vejo nesta sala dois partidos ou grupos de
pessoas que não se entendem e nem deram o primeiro passo para uma
compreensão recíproca. Por quê? Porque se tem falado, de um lado, com base
numa experiência de duas décadas, sobre a qual já tomei a liberdade de falar;
e de outro, não havia nenhum interesse por essa experiência. Não digo no
espírito de crítica, mas apenas para expressar minha preocupação. Pois hove
pessoas bem intencionadas e entusiasmadas, à sua maneira, pela
Antroposofia, as quais simplesmente cortaram nossas discussões, dizendo que
não as interessavam os relatórios apresentados no momento em que os
indivíduos que desconheciam os perigos que ameaçam a Sociedade
Antroposófica queriam justamente aprender algo a respeito.
Temos, de um lado, um interesse elementar e espontâneo pela vida na
Sociedade Antroposófica, vida que tem um cunho de familiaridade, inclusive
seus bons lados; e de outro lado, temos os que não tem interesse nisso e

15
possuem apenas uma noção geral de uma Sociedade Antroposófica. As duas
atitudes estão justificadas, na situação atual – tão justificadas que a melhor
solução seria deixar a antiga Sociedade Antroposófica como está, e fundar
paralelamente, para aqueles que querem outra coisa, uma união de
comunidades antroposóficas livres - a não ser que consigamos estabelecer
uma outra forma de discussão. Com isso quero apenas expressar minha
opinião, pois a decisão a ser tomada deverá emanar do seio da Sociedade. Os
dois partidos poderiam, cada um dentro de sua área, cultivar o que os
interessa. Teríamos, de um lado, a antiga Sociedade Antroposófica e, de outro,
uma federação informal, mas íntima, de comunidades livres. As duas
Sociedades poderiam encontrar um modo de conviver. Melhor seria esta
solução do que o beco sem saída que nos espera amanhã à noite, se a
discussão continuar da maneira como tem ocorrido até agora. Peço-lhe,
portanto, levar em conta essa ideia em suas discussões futuras, e ponderar se
não seria conveniente evitar uma inverdade consistente em pintar sobre algo
quebrado; pouco importa, neste caso, se a gente deixa o que está ou o
modifica. Se cada lado continua não compreendendo o outro, que se fundem
essas duas entidades esboçadas dentro do movimento antroposófico. Estou
dizendo isso com o coração preocupado, muito preocupado até... Pois ninguém
negará que eu sei o que significa estar preocupado com o destino da causa
antroposófica. E tampouco negação que eu mesmo sei o que significa amar a
causa antroposófica. Mas melhor é ter duas irmãs que se amam e que andam
por caminhos diferentes, embora comunguem por um ideal comum, do que
concordar com algo que, em breve, conduzirá a um novo caos.
Meus caros amigos: não vamos esconder o fato de serem as instituições
fundadas que nos causam as dificuldades. Não quero afirmar que a atual
diretoria central tem, em essência, realizado um trabalho material maior do que
a anterior; em todo caso não fez mais do que eu fiz, quando era secretário-
geral. Mas não se trata disso. Trata-se de saber: o que deveria ter acontecido,
do ponto de vista antroposófico, depois de terem sido fundadas as várias
instituições em Stuttgart? Essa pergunta requer uma resposta. Não podemos
simplesmente acabar com essas instituições. Já que existem, temos de
informar-nos sobre suas condições de vida. Mas se não conseguirmos dar-lhe

16
um cunho antroposófico - o que não foi conseguido nestes últimos quatro anos
-, se as enxertamos, qual um corpo estranho, no movimento antroposófico -
como de fato aconteceu -, então as instituições nascidas desde 1919 acabarão
arruinando todo o movimento antroposófico. Arruinarão a diretoria central seja
qual for sua denominação.
Trata-se, portanto, de discutir de modo objetivo e não pessoal, de ter
uma noção clara de como deve ser configurada a Sociedade Antroposófica
depois que absorveu as instituições fundadas, das quais uma, a escola
Waldorf, é algo tão lindo. De tudo isso não se tem dito nenhuma palavra, pois
aqueles que conhecem os fatos acontecidos em Stuttgart tem preferido ficar
calados. Desejo que os dois cavalheiros da diretoria central se manifestem,
excluo o terceiro, o Sr. Leinhas, que me ajudou e continua ajudando num
assunto importante, embora eu nem possa querer que ele se dedique à
diretoria central, da qual, não obstante, deveria fazer parte. Não se trata de
defesa ou coisa semelhante; convém que os dois se manifestem sobre uma
futura estrutura da Sociedade Antroposófica que permita absorver as
instituições fundadas a partir de 1919. Caso contrário, essas fundações terão
ocorrido de maneira irresponsável. Isso não deve acontecer, pois elas existem.
Todos esses problemas são muito sérios. Temos de cuidar deles, discutindo
objetivamente e não com critérios pessoais. Estas palavras são objetivas, e
não são dirigidas a esta ou aquela pessoa da diretoria central. Não ofendi
ninguém, mas as coisas que mencionei de forma acerba têm de ser ditas. Já
que as duas instituições foram fundadas, aquela que constitui uma continuação
da antiga Sociedade Antroposófica deveria cuidar do assunto - como é
necessário cuidar de tudo o que emana do seio da Sociedade. E a outra
deveria, já que seus interesses são outros, restringir-se ao caminho
antroposófico, em sentido estrito.

II

Eu gostaria de falar, como normalmente faço, sobre assuntos


antroposóficos. Mas os acontecimentos durante este encontro me levam a
tratar de problemas mais diretamente ligados à finalidade desta reunião.

17
Espero ter novamente a oportunidade de falar sobre temas especificamente
antroposóficos, senão a todos os presentes, pelo menos alguns grupos.
Contudo minha intenção, nestas duas palestras, era mostrar que a
Antroposofia pode vir a ser uma espécie de sabedoria da vida que atua nos
instintos e no estado da alma, que atua no dia-a-dia. Quero, pois, dar um
fundamento antroposófico àquilo que deve ser tratado aqui. Falei ontem, nesse
sentido, sobre a formação de comunidades, a qual poderia realizar dentro da
Sociedade Antroposófica; quero mostrar hoje que a concepção antroposófica
nos leva à situar-nos na vida de uma maneira mais correta.
Querendo esboçar como que a contra-imagem do que foi tratado ontem,
basear-me-ei hoje em algo bem conhecido daqueles que conhecem a história
de sociedades afins, em seus fundamentos, à Sociedade Antroposófica. Mais
tarde, descreverei rapidamente aquilo que diferencia esta das outras. Já houve
muitas sociedades baseadas em certo discernimento do mundo espiritual, com
todas as diferenciações de acordo com as épocas históricas da evolução
humana e com o caráter e com as capacidades dos membros de tais
sociedades. Entre a grande variedade dessas sociedades há todos os graus,
desde as mais sérias e importantes até aquelas cujo conteúdo não passa de
charlatanismo. Um aspecto é bem conhecido daqueles que conhecem a
história de tais sociedades: costuma-se criar uma atmosfera moral que resulta
necessariamente da realização de certas condições que se resumem na
procura de uma genuína fraternidade entre os membros.
Por isso encontramos, com necessidade, nos estatutos de tais
Sociedades, a busca da fraternidade, de um lado, e de uma visão dos mundos
espirituais, de outro. Os conhecedores da história de tais Sociedades sabem
que mais se briga nessas Sociedades baseadas em fraternidade e em visão
espiritual; é aí que ocorrem, em escala máxima, brigas, separações, a
formação de grupos autônomos dentro da comunidade maior, a saída de
grupos inteiros, a luta violenta dos que saíram contra os que ficaram, etc.
Numa palavra, é nessas sociedades fraternais que fica, mais do que em outro
lugar, a disputa entre homens. É um fenômeno curioso. Mas a Antroposofia
capacita-nos, pelos conhecimentos que proporcionam, a compreender esse
fenômeno e o conteúdo destas duas palestras faz parte do sistema da

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Antroposofia; desculpem a expressão pedante. Mas mesmo assim minha
palestra não será um discurso de debate, mas uma palestra antroposófica,
dentro do contexto desta assembléia.
Voltando mais uma vez o que foi dito ontem, defrontamo-nos com três
graus da vivência do homem, sob o aspecto da sua consciência. Temos o
homem em estado de sono e, principalmente, de sonho; ele tem uma
consciência rebaixada, vivenciando um mundo de imagens que considera
como realidade enquanto sonha. Sabemos que esse homem está isolado dos
outros homens que vivem com ele no mundo físico. Não tem vivências em
comum. Não há meio de comunicação para suas experiências. Desse estado
de consciência, o homem passa à consciência divina, sendo acordado pela
natureza exterior que inclui o que é exteriormente natural no outro homem. Aí
desperta, pelos instintos naturais e pelas necessidades da vida, um certo
sentimento comunitário reforçado pelas línguas.
Examinaremos, porém, estados em que essas duas consciências se
misturam. Enquanto um indivíduo se acha em condições normais de vida,
enquanto separa, no tempo, graças a sua constituição anímica e corpórea
normal, sua vivência isolada no sonho e suas vivências em conjunto com
outras pessoas, ele viverá em seu mundo onírico e no mundo real de uma
maneira apropriada a ele e aos demais homens. Imaginemos, porém, que
fatores patológicos façam com que um indivíduo não produza, durante o estado
de consciência diurna onde convive com outras pessoas, as imagens e
sensações que os outros têm. Imaginemos que o estado patológico de sua
organização introduza à consciência diurna um mundo de imagens e
sensações parecido com aquele do sonho. Em vez da estruturação lógica dos
pensamentos, traz um mundo de imagens semelhantes àquelas do sonho.
Chamaremos tal pessoa de doente mental.
Interessa-nos aqui o fato de essa pessoa não compreender as outras,
como tampouco estas a compreendem, a não ser segundo critérios de
medicina e de patologia. No instante em que um estado de consciência,
digamos, inferior é levado a outro estado de consciência que pode ser superior,
o indivíduo pode tornar-se um egoísta ferrenho em meio a outra gente. Resta
conscientizar essa situação: tal indivíduo só segue as coisas que imagina; ele

19
se afasta dos outros porque não compreendem seus motivos, e pode cometer
os piores excessos por não viver no mundo anímico comum com as demais
pessoas.
Passemos agora dessas duas formas de consciência às duas outras:
aquela da consciência normal que resulta da sequência natural dos
acontecimentos exteriores, à qual contrapomos a outra - o estado de
consciência que pode ser considerado como superior, o qual pode despertar
não ao contato com o mundo ambiente da natureza, mas ao contato com o
interior de outra pessoa. Ocorre dessa maneira um despertar para tal nível
superior de consciência mesmo se isso não se faz logo de uma maneira
totalmente clara e consciente. Existem naturalmente muitos outros caminhos
para se entrar nos mundos superiores, conforme vocês sabem pelo meu livro
“O conhecimento dos Mundos Superiores (A Iniciação)”.
Mas nos momentos em que se tem a felicidade de conviver com outras
pessoas da forma indicada, pode surgir a capacidade de se compreenderem
coisas que normalmente não se compreende, de perceberem coisas que
normalmente não se percebem. Aparece uma oportunidade de se conviver com
aquilo que um conhecedor do mundo espiritual designa por meio de termos
referentes a esse mundo espiritual. Aparece a possibilidade de se falar nos
corpos físico, etérico, astral e no eu. Aparece a possibilidade de se falar em
vidas repetidas, e em relações cármicas dessas vidas repetidas. Existe a
possibilidade de se levar toda disposição anímica da consciência comum a
este mundo superior do qual se começa a participar. É a mesma coisa, embora
em outro nível, que levar a configuração das imagens oníricas à vida comum
de todos os dias. Aí a pessoa se torna egoísta de uma maneira natural; isso
ocorre se o indivíduo em questão não se torna consciente da necessidade de
considerar o que pertence ao mundo espiritual suprassensível de uma maneira
totalmente diferente da maneira apropriada ao mundo sensorial. É preciso
transformar a maneira de sentir e de pensar. Assim como um indivíduo,
querendo conviver com outras pessoas, deve passar do seu estado de sonho a
um estado de consciência bem diferente, temos de ter bem consciente o fato
de não podermos encarar os conteúdos da Antroposofia com o mesmo estado

20
de ânimo adequado as coisas que nos apresenta nossa consciência de todos
os dias.
É nisso que reside a dificuldade de se estabelecer uma compreensão
entre essa consciência de todos os dias, que é também aquela da nossa
consciência comum, e aquilo que deve ser dito pela Antroposofia. Se numa
conversa entre várias pessoas algumas falam com a consciência comum, isto
é, aquela da ciência, e outras com a consciência apropriada a julgamentos
relativos ao mundo suprassensível, a situação é igual àquela de alguém que
narrasse seus sonhos e quisesse entender-se com outro que fala sobre a
realidade exterior. E quando várias pessoas que não se elevam até uma
vivência do mundo espiritual suprassensível se reúnem para ouvir, em seu
estado anímico comum, as revelações do mundo superior, existe o perigo
enorme de uma briga porque se tornam naturalmente egoístas entre si.
Contra isso é um remédio eficiente o qual, porém, tem primeiro de ser
desenvolvido: é a tolerância como atitude íntima da alma. Mas esta precisa ser
adquirida. Para as necessidades da vida comum, uma dose relativamente
pequena é suficiente, e muito se corrige simplesmente pelo contexto em que se
vive. Mas em se tratando dessa consciência comum da vida corriqueira,
quando duas pessoas conversam, não lhes importa realmente ouvir a outra -
quem tem experiência da vida o sabe muito bem. Hoje não se costuma mais
escutar o outro; quando alguém disse a quarta parte de uma frase o outro logo
começa a falar, pois não está interessado naquilo que diz o outro, mas apenas
em sua opinião própria. Isso acontece no mundo físico, embora seja muito
negativo. Mas não é possível no mundo espiritual. Aí a alma deve ser
compenetrada pela tolerância mais absoluta. Aí cada um deve educar-se para
aceitar tranquilamente mesmo as coisas das quais diverge totalmente, e isso
não numa atitude de arrogante paciência, mas numa atitude que tolera
objetivamente a opinião ouvida como uma manifestação justificada do outro.
Nos mundos superiores faz muito pouco sentido levantar objeções contra
qualquer coisa. Quem tem experiência da realidade dos mundos superiores
sabe que as ideias mais divergentes a respeito de um fato qualquer podem ser
manifestadas por ele ou por outro. Só quando estiver capaz de acolher uma
opinião frontalmente oposta de outra pessoa com a mesma tolerância -

21
escutem bem! - que a sua é que ela poderá adquirir estado anímico social
necessário para vivenciar aquilo que se lhe revelar, em teoria, a partir dos
mundos superiores. Esse fundamento moral é simplesmente necessário para
que reine uma relação correta para com os mundos superiores. As brigas em
sociedades, tais como as que caracterizei, têm por causa simplesmente uma
situação na qual as pessoas, ao receberem a informação sensorial de que o
homem possui, além do corpo físico, um corpo etérico, um corpo astral, um eu,
etc., acolhem essa informação por ser sensacional, mas sem transformar sua
alma da maneira necessária para vivenciar esta informação de forma diversa
de como se vivencia na vida física uma mesa ou uma cadeira - que no mundo
físico são vivenciadas de forma diferente do sonho. Se as pessoas
simplesmente transferem sua maneira anímica de ser para a sua pretensa
compreensão do ensinamento do mundo superior, isso só conduz,
naturalmente, ao egoísmo e a brigas.
Compreende-se, pois, das peculiaridades dos mundos superiores, que
brigas e discussões podem muito facilmente surgir em sociedade que cultivam
conteúdos espirituais. Daí a necessidade de educar-se, para participar de tais
sociedades, suportando o outro num grau muito mais amplo do que se costuma
fazer no mundo físico. Tornar-se antropósofo não significa apenas conhecer a
Antroposofia qual uma teoria; ser antropósofo requer, em certo sentido, uma
metamorfose da alma. Mas é isso que certas pessoas não querem. Por isso
nunca se compreendeu quando eu disse haver duas maneiras de alguém lidar
com o meu livro “Teosofia”. A primeira consiste em lê-lo ou estudá-lo
absorvendo-o com a disposição anímica comum, e também julgando-o ou
conforme esta disposição anímica. Aí o processo interior é, quanto à qualidade,
igual para a “Teosofia” ou para um livro de receitas culinárias. Não há
diferença, quanto ao valor da vivência, entre a leitura dessa “Teosofia” e a de
um livro de receitas; só que, ao fazer isso, sonha-se de uma maneira mais sutil,
durante a leitura da “Teosofia”. Ora, quando se sonha com mundos superiores,
os impulsos desses mundos não produzem entre os homens a maior unidade,
a maior tolerância; em vez da unidade, que também poderia ser uma dádiva
dos mundos superiores, haverá discussões e lutas sem fim. Com tudo isso

22
vocês têm as condições para discussões e brigas justamente em sociedades
que se baseiam numa espécie de discernimento dos mundos espirituais.
Eu disse que se pode chegar aos mundos superiores pelos vários
caminhos descritos, em parte, em “O Conhecimento dos Mundos Superiores (A
Iniciação)”. Ora, se alguém se empenhar de forma mais intensiva em buscar
conhecimentos em mundos superiores, isso exigirá certa disposição anímica,
como vocês podem agora compreender depois de tudo o que é expus ontem e
hoje num contexto bastante diferente. Essa disposição anímica especial será
particularmente necessária àquele que se propõe pesquisar o espiritual. Pois
não se encontra a verdade em regiões suprassensíveis se constantemente
impomos à nossa alma algo perfeitamente justificado no mundo físico; se nos
ocupamos sem parar com aquilo que nos faz pensar da maneira apropriada
para o mundo físico. Vocês certamente estariam de acordo que muito tempo é
necessário para a pesquisa de alguém que pretende, de maneira responsável,
transmitir aos homens ao seu redor algo dos mundos espirituais, isto é, uma
pessoa que, segundo a terminologia da ciência comum, pode ser chamado um
pesquisador do espiritual. E também acharão justificável que eu mesmo
necessite de tempo para investigar aquilo que estou expondo como ciência do
espiritual, como Antroposofia, de uma maneira cada vez mais ampliada.
O tempo necessário para isso, cada um poderá tê-lo, conforme seu
destino, se estiver só. Pois o verdadeiro pesquisador espiritual, desejoso de
comunicar, com plena responsabilidade, aos seus próximos aquilo que
encontra no mundo espiritual terá como tendência natural a particularidade de
não dar muita importância aos seus adversários. Sabe que terá
necessariamente adversários, mas não dá muito valor às objeções que se
possa fazer àquilo que ele mesmo diz; ele mesmo poderia formular as
possíveis objeções. A atitude anímica natural, para um pesquisador do
espiritual, é prosseguir positivamente em seu caminho, sem preocupar-se com
as objeções feitas, a não ser que haja para tal um motivo especial.
Essa atitude anímica, porém, não pode ser mantida quando se tem, ao
seu lado, uma Sociedade Antroposófica. Pois aí se junta a responsabilidade
pela verdade, a responsabilidade pelo que faz a Sociedade que, como tantas
vezes se diz, pretende ser o instrumento dessa verdade. Aí o pesquisador

23
espiritual deve compartilhar das responsabilidades dessa Sociedade. Até certo
ponto, isso se coaduna com a atitude correta a ser observada em relação aos
adversários. Tal conciliação tem sido possível no que se refere a mim e a esta
Sociedade Antroposófica, até o ano de 1918. Tenho me preocupado o menos
possível com as objeções feitas, assumindo essa atitude - por paradoxal que
possa parecer - em conseqüência daquela tolerância que acabo de descrever.
Por que tive eu de ser intolerante a ponto de refutar, sempre de novo, os meus
adversários? O progresso natural da evolução da humanidade irá arranjar as
coisas. Por isso posso dizer que até 1918 esse problema estava em ordem, se
não totalmente, pelo menos em grande parte.
Mas quando a Sociedade passa a absorver coisas tais como a nossa
Sociedade Antroposófica absorveu a partir de 1919, surgem responsabilidades
em relação a essas coisas; seu destino se liga àquele da Sociedade
Antroposófica, e o destino desta se liga ao destino do pesquisador espiritual. Aí
nasce uma alternativa: ou o pesquisador tem de assumir sua própria defesa
contra seus adversários, isto é, ele deve dedicar-se a muitas coisas que o
impedem de prosseguir com sua pesquisa, já que não se pode fazer as duas
coisas ao mesmo tempo; ou ele tem de deixar - já que precisa criar um espaço
de tempo para sua pesquisa - que os adversários recebam o devido tratamento
por aqueles que de certa forma assumiram a responsabilidade por aquilo que
se fundou exteriormente. Por esse motivo, a situação dentro da nossa
Sociedade Antroposófica tem mudado, desde 1919, devido a causas
antroposóficas internas. Como a Sociedade decidiu, através de algumas das
suas personalidades, fundar tais instituições exteriores, e como o fundamento
de tudo continua sendo a Antroposofia, esse fundamento precisa ser defendido
por aqueles que não carregam a plena responsabilidade pela legitimidade de
tudo que precisa ser acrescido, a cada dia, à Ciência Espiritual por meio de
uma autêntica pesquisa.
Grande parte dos adversários vive num certo contexto. Um fez, por
exemplo, estudos em determinada área, onde se costuma ter acerca das
coisas esta ou aquela idéia. Devido a essa situação, o indivíduo em questão
tornou-se um adversário da Antroposofia. Sem saber por que, mas teve
necessariamente de transformar-se em adversário por estar condicionado por

24
aquilo que o educou e que o plasmou. Essa é a situação interior. Mas o
interesse da Sociedade Antroposófica exige que também os adversários desse
tipo sejam combatidos e superados da maneira conveniente.
Mas os líderes entre os adversários sabem muito bem o que querem.
Pois entre estes há alguns bem familiarizados com as regras da pesquisa
espiritual, embora seu ponto de vista seja bem diferente daquele da
Antroposofia; sabem que o melhor meio consiste em bombardear aquele que
necessita de tranqüilidade para sua pesquisa, com panfletos e objeções que o
obriguem a desviar sua atenção da pesquisa que esta realizando. Pois esses
líderes sabem que não se pode, ao mesmo tempo, fazer refutações e efetuar
uma pesquisa espiritual. Fazendo suas objeções, jogam pedras no caminho de
quem segue pelo caminho da pesquisa. Atuam reduzindo seus ataques. Os
que sabem como prejudicar o pesquisador nem se preocupam com o conteúdo
do que escrevem; o fato importante é que o ataque seja feito; e o que mais
visam é obrigar o pesquisador, através dos truques por eles usados, a
defender-se pessoalmente.
Essas coisas devem ser vistas em sua realidade objetiva. Aqueles que
pretendem fazer parte, a justo título, da Sociedade Antroposófica têm a
obrigação de conhecer esse fato. Muita gente está a par do que acabo de
dizer; só que, em muitos círculos de pessoas informadas, não se costuma falar
sobre esse assunto a gente de fora. Conforme mostra a experiência, já há
muito tempo isso não pode ser realizado na Sociedade Antroposófica. Muitos
ciclos de palestras, editados pela Sociedade Antroposófica, levam a anotação
"Só para Membros". Ora, tais ciclos podem ser encontrados e emprestados em
bibliotecas públicas, na Alemanha e em outros países. Também aqueles que
não são membros da Sociedade Antroposófica podem conseguir todos os
ciclos, e a maneira como os escritos dos adversários são redigidos demonstra
que estes os possuem, embora tenha sido difícil, em alguns casos, consegui-
los. Mas essa gente não recua diante de dificuldades, ou menos do que
acontece com certos antropósofos. Ora, não é possível termos aquele tipo de
sectarismo que muitas sociedades ainda praticam, devido ao caráter peculiar
da Sociedade Antroposófica, onde cada membro permanece um homem livre
que não faz promessa alguma, mas simplesmente entra na Sociedade para

25
buscar conhecimentos de uma forma honesta; não podemos praticar esse
sectarismo na nossa Sociedade, que deve ser constituída num espírito
moderno. E eu não pretendo que haja um espírito sectário. Se o fizesse, não
lhes recomendaria fundar, ao lado da antiga Sociedade Antroposófica, uma
nova congregação informal. Pois vocês vão ver como aumentarão em número
as vias de divulgação, devido a essa nova agremiação mais informal; eu não
critico que haja essas vias de divulgação de conteúdos que, conforme a
opinião de alguns membros mais antigos, devem ser conservados sob chave
em seus armários. Quem não concorda em dar à Antroposofia uma estrutura
adequada ao pensar e ao sentir do homem moderno não compreende seu
impulso mais íntimo. Por isso se torna mais necessário do que nunca ter uma
visão correta das condições para a existência de tal Sociedade. Vou agora citar
um exemplo tirado da minha própria experiência, sem qualquer vaidade
pessoal. Dei, no verão passado em Oxford, um ciclo de conferências sobre a
pedagogia aplicada na escola WaIdorf. Foi publicado num jornal inglês, do qual
vou citar o começo, não totalmente, mas de acordo com o sentido geral: "Se
uma pessoa de fora houvesse assistido, sem aviso prévio, as palestras desse
ciclo pedagógico de Oxford, não teria percebido - a não ser que soubesse
quem é aquele Dr. Steiner e qual a sua relação com a Antroposofia - que o
orador fosse um representante da Antroposofia; tê-lo-ia tomado por alguém que
falava sobre pedagogia, talvez de um ponto de vista diferente daquele do
observador."
Gostei dessa caracterização, pois mostra existirem pessoas que notam
o que quero alcançar; pois quero que uma explanação dada por mim não seja,
de início, julgada como representando o ponto de vista antroposófico!
Representa-o, naturalmente. Mas esse ponto de vista só será correto se
conduzir à objetividade, e não à unilateralidade; se significar que cada detalhe
pode ser conhecido e julgado pelos seus próprios méritos. Antes de proferir
esse ciclo de Oxford, e naturalmente antes que fosse publicado o referido
artigo, fiz uma experiência que pode parecer-lhes insignificante. Em junho
estive no Congresso de Viena, proferindo doze palestras divididas em dois
ciclos. Impus a mim mesmo a tarefa de não pronunciar uma só vez a palavra
"Antroposofia“. E realmente não a usei! Nem disse algo como... "a cosmovisão

26
antroposófica afirma isso ou aquilo". Tudo, naturalmente era antroposófico. Não
quero, obviamente, estatuir, de forma que se deva erguer em ponto de
programa que antropósofos nunca deveriam usar a palavra "Antroposofia".
Naturalmente não. Mas é dessa maneira que se alcançará o espírito que deve
permear as nossas ações se quisermos relacionar-nos corretamente com o
mundo. Esse espírito deve também atuar livremente nas personalidades,
líderes e ativas, dentro da Sociedade Antroposófica. Caso contrário, sou eu
quem á responsabilizado pelo que de não-antroposófico ocorre dentro da
Sociedade Antroposófica. Aí o mundo, com razão, identificará as duas coisas.
Trata-se, pois, de se ter uma noção correta do espírito objetivo da Antroposofia
e, principalmente, de pôr em prática esse espírito. Para tal á necessária uma
boa dose de auto-educação, e esta deve ocorrer dentro da Sociedade
Antroposófica. A esse respeito, muitos erros têm sido cometidos nos últimos
anos, em parte devido às formações de novas instituições. Digo isso
objetivamente, sem querer atingir ninguém pessoalmente. Essas coisas
deverão estar plenamente conscientes em cada membro, se quisermos que a
Sociedade Antroposófica desenvolva-se bem. No contexto social atual, isso só
será possível se procurarmos um intercâmbio vivo entre os diversos grupos da
Sociedade, nem que apenas por meio de boletins informativos ou algo
parecido. Mas isso pressupõe existir um interesse vivo de cada elo - digo, de
cada membro - da Sociedade Antroposófica nos assuntos de toda a Sociedade
e, principalmente, da sua evolução. A esse respeito muito resta a fazer. Se não
existisse a Sociedade, provavelmente haveria um bom número de livros
antroposóficos. Mas aí não haveria nenhuma objeção social para alguém se
preocupar com aqueles que os lêem. Estas pessoas viveriam espalhadas pelo
mundo, talvez formando comunidades de acordo com seu carma; mas não
haveria nenhuma necessidade de um laço exterior entre elas. Isso não muda
muito para o pesquisador espiritual, mesmo quando a Sociedade tem um feitio
como existia entre nós até 1918. Mas isso muda logo que responsabilidades
válidas para o plano físico estejam interligadas com a Sociedade Antroposófica.
Digo essas coisas hoje de uma forma mais peremptória, mas já as disse, de
uma ou de outra forma, quando se começavam a fundar as instituições. Eu não
podia dizê-las ao ouvido de cada membro individualmente, e nem sei se isso

27
teria sido de algum proveito. Mas a Sociedade Antroposófica estava lá, e
possuía personalidades líderes. Estas devem zelar para que a Sociedade
esteja em condições de assumir os fatos novos sem que pesquisa
antroposófica esteja correndo qualquer perigo. Eu diria que esse é o aspecto
negativo da formação de comunidades, ao passo que lhes expus ontem o
aspecto positivo. Quero frisar que cada indivíduo que almeja a formação de
uma comunidade tal como a descrevi deve estar, possivelmente, consciente de
tudo que se relaciona com a existência posterior e com a vida da Sociedade
Antroposófica, tal como hoje as caracterizei. E isso deve ser levado em conta
nos diversos setores da vida antroposófica. Há, com referência a isso, o
seguinte fato que me parece muito significativo. Volto ao trágico capítulo do
Goetheanum, que deixou de existir para nós. Em setembro e outubro de 1920
pudemos realizar durante três semanas, naquele Goetheanum, o assim
chamado curso acadêmico. Já mencionei ontem o estilo artístico todo peculiar
desse Goetheanum, fruto da maneira antroposófica de se sentirem as coisas.
Como nasceu esse estilo? Nasceu do impulso de certo número de pessoas,
merecedoras da nossa profunda gratidão, de construir, a partir de 1913, um lar
para o que havia de Antroposofia naquela época e que dela poderia
eventualmente desenvolver-se; um lar para a apresentação dos mistérios, um
lar para a eurritmia que, naquele tempo, ainda era um broto, mas com muitas
perspectivas de um desenvolvimento futuro; e um lar principalmente para e
contemplação genuinamente antroposófica empenhada em criar imagens
cósmicas na base da pesquisa Antroposófica. Tudo isso estava implícito na
intenção apresentada a mim, que era o encarregado dessas pessoas ou, pelo
menos, considerava-me como tal. Confrontei-me com a tarefa de erguer para
essas atividades um edifício num estilo artístico que lhes fosse apropriado. Foi
dessa maneira que o Goetheanum veio a existir. Nesse tempo ainda não havia,
em nosso meio, os cientistas. A Antroposofia já havia penetrado, até certo grau,
no campo da ciência. Mas ainda não, da forma verificada mais tarde, quando
as diversas áreas especializadas foram debatidas no seio da Sociedade
Antroposófica. Aquilo que se manifestava emanava em linha reta da
Antroposofia, como ocorreu com toda a pedagogia Waldorf, exemplo típico de
algo que resulta inteiramente da Antroposofia.

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Havia a necessidade de encontrar o estilo artístico para tais coisas; a
meu ver, realizamo-lo no Goetheanum. A guerra atrasou um pouco a
construção do Goetheanum. Em 1920 tivemos o ciclo de palestras já
mencionado por mim, resultado do impulso dado pelos cientistas que haviam
ingressado, nesse meio tempo, na Sociedade Antroposófica. Foram eles que o
organizaram e elaboraram seu programa. Este me foi submetido. Ora, estou
convencido de que a liberdade mais absoluta deve reinar na Sociedade
Antroposófica. Muita gente lá fora imagina que nesta só acontecem as coisas
que o Steiner quer. Mas em geral acontecem coisas que ele nem de longe
imagina. A Sociedade Antroposófica não existe em meu benefício, mas em
beneficio dos Antropósofos. Assisti, pois, com muita atenção, a esses ciclos de
palestras de setembro e outubro de 1920 - estou apenas descrevendo, sem
qualquer crítica - e deixei meu olhar passar sobre todo o interior do nosso
edifício. Descrevi no seminário "Das Goetheanum" como, por exemplo na arte
eurítmica, as linhas do Goetheanum se prolongavam nos movimentos do
homem; de acordo com as intenções originais, não podia ser diferente, em se
tratando do Goetheanum. Deixei meu olhar espiritual planar sobre a harmonia
da arquitetura interior, da escultura e da pintura em relação ao que os oradores
diziam no púlpito. Eu achava - seu ser necessário fazer muito alarde disso -
que tudo o que constituía - no melhor sentido da palavra - um quadro
antroposófico, tudo que foi dito com base na própria Antroposofia combinava
perfeitamente com o estilo arquitetônico. Em compensação tive, para com toda
uma série de palestras, a seguinte sensação: Estas só deveriam ser proferidas
depois que o Goetheanum tivesse erguido várias construções secundárias cujo
estilo se coadunasse com esses estudos e considerações de caráter especial.
Em seu destino quase decenal, o Goetheanum participou do destino da
Sociedade Antroposófica. Sentindo intimamente a harmonia ou a falta de
harmonia entre o estilo da construção e o que dentro dela se fazia, podia-se
perceber que algo não-orgânico havia penetrado na reta corrente do
movimento espiritualista da Antroposofia.
Não digo isso para criticar nem para afirmar que algo não deveria ter
acontecido dessa forma. Era necessário que tudo se passasse daquela
maneira.

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Mas de outro lado havia a necessidade de elaborar uma Química, uma
Física, ou uma matemática etc. baseadas na Antroposofia, a fim de que
ocorresse a já mencionada transformação da consciência. Pois a consciência
comum não basta quando se quer falar antroposoficamente. Essa sacudida da
consciência nem sempre ocorreu. No Goetheanum se percebia na
conformidade do estilo artístico; na Sociedade Antroposófica a situação se
manifestou pelas nuvens negras que nesse momento escurecem o céu acima
de nós! Já que a ciência penetrou em nosso movimento - e devemos agradecer
ao destino por isso ter acontecido - nossa tarefa será fazer com que ela
renasça a partir da Antroposofia. Não faz sentido perder-se em polêmicas
aleatórias; a tarefa premente consiste em permear as várias disciplinas com os
conteúdos da Antroposofia. Algo provisório foi feito, quando a situação exigia
que uma solução substitutiva fosse encontrada. Obedecendo a uma
necessidade, muitas solicitações me foram dirigidas no sentido de fazer
palestras para determinados grupos sobre assuntos que somente mais tarde
teriam encontrado seu pleno desenvolvimento, de acordo com a correta
seqüência do desenvolvimento da Antroposofia. Os ciclos da palestras
tornaram-se realidade. Mas teria sido necessário, antes de mais nada, usá-los
a fim de dar às diversas ciências novos impulsos baseados na Antroposofia.
Era esse o interesse da Antroposofia, e Sociedade antroposófica teria extraído
dele um enorme benefício. É preciso saber todas essas coisas.
Vejam, meus caros amigos: no decorrer dos diversos seminários
organizados durante os cursos acadêmicos não cansei de atribuir tarefas;
ainda no meu último discurso pronunciado na pequena sala do Goetheanum,
por ocasião do curso de ciências naturais realizado no fim de 1922 e
programado para continuar após o começo do ano de 1923, eu atribuí uma
tarefa aos representantes da Física e da Matemática. Eu falei nessa ocasião da
necessidade de vazar em fórmulas matemáticas o espaço tátil em relação ao
espaço natural; sempre houve tarefas desse tipo. Os tempos exigiam que se
encarassem esses problemas especiais, mas tudo isso deveria ser investigado
à luz da Antroposofia, de modo a realmente beneficiar amplos círculos
antroposóficos que não pudessem aprofundar-se nos espaços tátil e visual.
Pois existem caminhos para tornar profícuo a um grande número de pessoas o

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que foi realizado, talvez, por um só indivíduo, desde que seja apresentado de
uma maneira bem diferente da forma original. Mas vimos aparecerem
dificuldades sobre dificuldades devido às fundações, eu diria,
extraordinariamente precipitadas, feitas a partir de 1919, e principalmente
devido ao fato - que deve sempre ser lembrado - de mil empreendimentos
haverem sido iniciados por pessoas que não participaram, mais tarde, daquilo
que elas mesmas fundaram; foram essas dificuldades a causa de tudo que
atualmente temos de enfrentar. Nada disso, obviamente, significa uma objeção
à Antroposofia em si.
Os amigos presentes deveriam estar bem conscientes de que se pode
apontar, em cada caso concreto, para as causas das dificuldades; mas que não
se justifica - quero dizer isso de forma bem peremptória - culpar a Antroposofia
em si pelas dificuldades que têm surgido. Por esse motivo quero, com base
nestas considerações mais profundas, corrigir algo que ontem foi dito deste
mesmo púlpito e que me chocou justamente no contexto das coisas que
acabamos de tratar. Foi dito que não se tinha consciência - ou algo semelhante
- da possibilidade de o movimento antroposófico ser destruído pelos seus
adversários. Realmente não o pode. Mas os adversários podem vir a constituir
um grande perigo para a Sociedade Antroposófica, até para minha pessoa, etc.
O movimento antroposófico não pode ser prejudicado; o máximo que os
adversários podem fazer é atrasar o seu desenvolvimento. A esse respeito, e
em contextos semelhantes, foi dito repetidamente, inclusive por mim, que se
deve fazer uma distinção entre o movimento antroposófico e a Sociedade
Antroposófica. Essa diferenciação não foi realçada por ser a Sociedade
Antroposófica algo que desmerecesse nossa atenção; o motivo era o fato de
constituírem o movimento Antroposófico e a Sociedade Antroposófica como
que o conteúdo e o recipiente, inclusive para cada indivíduo envolvido.
Também neste campo deve reinar a consciência de idéias bem claras. Não se
deve confundir Antroposofia e Sociedade Antroposófica, mas tampouco se
deve ignorar que o desenvolvimento dos últimos três ou quatro anos fez com
que houvesse, para os membros da Sociedade Antroposófica, uma fusão do
destino da Antroposofia, em sua manifestação exterior, com o destino

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Sociedade Antroposófica. As coisas parecem muito próximas, mas devem ser
nitidamente diferenciadas.
Na teoria poderia haver uma escola Waldorf sem que jamais houvesse
surgido uma Sociedade Antroposófica. Na prática isso seria impossível, pois
não haveriam existido as pessoas que contribuíram para sua fundação, sua
gestão, sua manutenção, etc. A lógica dos fatos reais é outra que a lógica do
raciocínio abstrato. É importante que todo membro da Sociedade Antroposófica
disso se compenetre. Tal membro precisa adquirir uma noção - mesmo se
baseada apenas em sentimentos - de que a compreensão dos mundos
superiores exige ser o supra-sensível conhecido de maneira outra que o
mundo físico comum. Por isso algo do mundo físico pode parecer, a um
indivíduo, tão certo como o conteúdo de um sonho parece a quem sonha; mas
nem por isso a transposição da realidade de um sonho para o contexto da
consciência comum constitui algo anormal e nocivo. Da mesma forma ocorre
algo nocivo quando se transporta, à consciência apropriada para a
compreensão de mundos espirituais, coisas de cuja existência estamos, com
razão, convencidos em nossa consciência comum.
Posso ilustrar isso por meio de um exemplo. Como se homens de hoje
são dominados pelo intelecto e pelo empirismo exterior, vemos reinar, mesmo
entre aqueles que não estão por dentro de qualquer ciência, o chavão
seguinte: Quem afirma qualquer coisa deve demonstrá-la. Eles têm em mente
uma maneira peculiar de se aplicar o pensar como instrumento de cognição.
Desconhecem totalmente e relação direta que a alma pode ter para com a
verdade, o que consiste numa apreensão imediata da mesma, de mesma
forma como o olho não demonstra a cor vermelha, mas a enxerga. No campo
do intelecto, um elo conceitual nasce de outro.
No plano físico, o importante é ser inteligente, isto é, ter a habilidade de
demonstrar, possuir uma boa técnica de fazer provas. Isso é bom para o plano
físico e para as ciências que a ele se referem. O pesquisador do espiritual
também deve dominar a técnica da demonstração enquanto se move no
mundo físico. Os que conhecem mais de perto as intenções do nosso instituto
de pesquisas sabem que essa maneira de se fazerem demonstrações se
aplica, também em nosso meio, a todos os casos aos quais pode ser aplicada.

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Mas o homem se tornaria tolo, para a compreensão dos mundos superiores, se
quisesse introduzir neles esse tipo de demonstração, como se aplicasse a
lógica dos sonhos à realidade da consciência de vigília. Pois esse método de
demonstrar seria, nos mundos superiores, igual à aplicação da mentalidade
onírica à realidade da nossa consciência diurna. Mas houve quem achasse
natural, em nossos tempos, que se fizesse esse tipo de demonstrações, e em
certas áreas, estas tiveram um terrível efeito paralizador.
A religião que não se funda, em seus aspectos mais antigos, em nada
que possa relacionar-se com o método demonstrativo intelectual, das sim na
contemplação, transformou-se em teoria racionalista que recorre a provas;
seus adeptos extremos demonstram que ela é inverídica porque um indivíduo
se tornaria obviamente um anornal, com relação a compreensão dos mundos
superiores, se neles introduzisse as regras que, com razão, prevalecem no
mundo físico. A Teologia veio a ser ciência descritiva que simplesmente aceita
as coisas, ou ciência demonstrativa e, como tal, apenas capaz de destruir a
religião, mas nunca apta a fundamentá-la.
Meus caros amigos, essas coisas devem ser intimamente
conscientizadas no seio da Sociedade Antroposófica. Se tal não for o caso, um
indivíduo pode ser, no mundo humano e na vida exterior, uma pessoa
multifacetada e bem preparada para todos os níveis, ao passo que nunca
poderá existir sem um desenvolvimento espiritual ao confrontar-se com o
conteúdo de inúmeros ciclos de palestras.
Ao pesquisador do espiritual não cabe enfrentar seus adversários
recorrendo a provas; pois tudo que se pode objetar àquilo que digo os
adversários podem encontrar em minhas próprias obras; pois onde quer que
seja oportuno, eu mesmo chamo a atenção ao papel das provas físicas diante
de algo que pertence ao mundo supra-sensível. O que o adversário poderia
dizer já foi dito em algum lugar, por mim mesmo; para me refutar, bastaria
copiar-me, na maioria dos casos. O importante é que esses pormenores
estejam conscientes no seio da Sociedade Antroposófica. Aí a Sociedade
oferecerá uma base sólida, e as pessoas que se dedicam è cosmovisão
antroposófica terão uma base firme no mundo físico e em qualquer outro.
Então os impulsos antroposóficos engendrarão a capacidade de amar a

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harmonização social e tudo que pertence à vida social. Aí uma verdadeira
união humana poder reinar entre os antropósofos, não obstante todo o
isolamento; não haverá lutas nem brigas, nem recessões nem separações. E
ninguém passará pelo mundo físico como um sonhador, mesmo se professar
ideias extraídas dos mundos superiores; seremos gente que pisa com as duas
pernas no chão da realidade, pois não teremos o hábito de misturar as duas
coisas - da mesma forma como não devem ser misturadas, na vida comum, a
realidade dos sonhos e a realidade do plano físico.
Mas de qualquer maneira, os que querem encontrar-se na Sociedade
Antroposófica, no sentido mais amplo da palavra, como membros autênticos do
movimento antroposófico, terão de alcançar ume determinada disposição
anímica, um determinado estado de consciência. Se nos permearmos com
essa disposição anímica e com esse estado de consciência, fundaremos uma
autêntica comunidade antroposófica. Se isso ocorrer, também a Sociedade
Antroposófica poderá florescer e prosperar, já que contém todas as
possibilidades para chegar a isso.

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