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Títulos originais: e Doctrine of Fascism

Fascism — What Is It and How to Fight It

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M981f
Mussolini, Benito, 1883-1945
Fascismo/Benito Mussolini, Leon Trótski; tradução Regina Lyra. – 1. ed. – Rio de Janeiro: Nova
Fronteira, 2019.

Tradução de: e doctrine of fascism; Fascism – What is it and how to ght it


ISBN 978.85.209.4410-3

1. Fascismo – Filoso a. 2. Ideologia. I. Trótski, Leon. II. Lyra, Regina. III. Título.

CDD: 20.533
CDU: 329.18
SUMÁRIO

Mussolini, Tróstki, minha avó e eu

A doutrina do fascismo | Benito Mussolini


Ideias fundamentais
Doutrina política e social — a evolução a partir do socialismo
Notas do autor

O fascismo | O que é e como combatê-lo | Leon Trótski


Notas
MUSSOLINI, TRÓSTKI, MINHA AVÓ E EU

Alberto da Costa e Silva

Durante os quase três anos (de 1977 a 1979) que vivi em Roma,
acostumei-me a ouvir histórias de partigiani. Conforme a idade de meu
interlocutor, ou ele, ou o seu irmão mais velho, ou o seu pai, ou um seu tio
haviam participado da resistência armada à ocupação nazista da Itália, dado
ajuda, abrigo ou proteção a adversários do regime de Mussolini, ou, quando
menos, apostado neles. O que não faltava era quem se esforçasse para esquecer
que em sua família muitos tinham vestido a camisa negra.
Dos amigos que z — e foram muitos —, só quatro ou cinco me
contaram que os pais tinham sido fascistas ardorosos, e um deles descreveu o
entusiasmo com que, entre menino e adolescente, se somara à multidão que
aclamava o Duce na sacada do Palazzo Venezia. Desse momento, guardara a
impressão de que o Duce, ao falar, mudava o mundo.
Longe dali, naqueles anos de 1939 ou 1940, numa cidade brasileira, um
outro menino acompanhava pelo rádio e pelo noticiário dos cinemas o que se
passava na Europa, atento aos comentários da avó, que não escondia a ojeriza
às grandes manifestações de praça e rua, quer tivessem o ar de festa ou de
intimidação. Castigava as que lhe pareciam ridículas, como, por exemplo, as
que comemoravam o Dia da Raça, instituído, por inspiração fascista, havia
pouquíssimo tempo, no Brasil. “Qual raça?”, a avó ironizava. “A branca? A
negra? A índia? A mulata? A cafuza? A curiboca?”
Não copiava o fascismo quem acreditava na desigualdade e consequente
hierarquia das raças humanas. Isso fazia parte, no início do século XX, da
bagagem de falsas certezas até mesmo de homens de grande cultura. No nosso
lado do Atlântico, um leitor de jornais não se acanhava em aceitar, e até mesmo
em propugnar, que se privilegiasse a imigração de europeus do norte, com o
objetivo de “melhorar a raça, corrigir nossa feiura e sacudir nossa indolência”,
pois esse despautério tinha ampla aceitação. O que revoltava, então, o brasileiro
leitor de jornais era que se utilizasse um postulado duvidoso, qual faziam os
fascistas alemães (ou nazistas), como o fundamento teórico de um programa de
eliminação daqueles que tinham por seres humanos inferiores, como os judeus,
os ciganos e os eslavos.
Os italianos e os alemães consideravam-se com direito de assentar-se no
mais alto degrau da escadaria em que eles próprios dispunham os povos.
Sentiam-se, porém, impedidos de tomar os seus lugares pela oposição de outros
europeus, principalmente os franceses e os britânicos. A eles, a Alemanha
imputava os castigos e as humilhações que lhe foram impostos pelo Tratado de
Versalhes, e a Itália atribuía o não haver obtido as compensações territoriais que
merecia, como aliada dos vencedores em 1918. Alemães e italianos julgavam-se
dotados de excepcionais qualidades marciais — os últimos como herdeiros das
legiões da antiga Roma —, mas se amarguravam por derrotas recentes que não
sabiam como aceitar. Aqueles, na Grande Guerra europeia; estes, em 1896, em
Adowa, onde suas tropas, que pretendiam conquistar a Abissínia, foram
destroçadas pelo exército etíope.
Tratava-se de superar esses grandes vexames. Por isso, os fascistas, desde a
primeira hora, aspiraram a vestir de uniforme os italianos e os alemães. Como
se fossem, todos, soldados. De fardas cintadas, talabartes, bibicos ou quepes,
insígnias e botas, eles atuavam como tropas de choque e atemorizavam os que
identi cavam como adversários ou como mornos de fé. E a uíam, homens e
mulheres fardados e em formações perfeitas, aos des les e grandes
manifestações, com milhares de bandeiras, e milhares de estandartes, e bandas
de música, e coros.
O fascismo cultuava a saúde, o gosto pelo ar livre e o prazer da ginástica,
mas, ao celebrar a beleza da mocidade, ressaltava que o grande momento de
um ser humano, e o mais iluminado de um jovem, era estar de armas nas
mãos. A combater. Em guerra. A guerra dava sentido à vida. E, no mundo
reorganizado pelo fascismo, não havia espaço para o cultivo da paz, nem para o
repúdio à violência, que se louvava como uma alta virtude criadora. O Estado
deveria estar em constante movimento e crescer sempre em força e poder.
O Estado era, aliás, o centro e a razão de tudo, e nele se encontrava a
verdadeira liberdade, que se podia de nir como a recusa do individualismo e
do pensar diferente. Quem tomava as grandes decisões e orientava o dia a dia
era o Estado, que não deveria estar sujeito, como ocorria nos países que
adotavam a democracia representativa, à tirania dos números, isto é, dos
eleitores, que quase tudo ignoravam. No fascismo, o Estado tudo sabia e tudo
podia. Mas eram homens os que controlavam o Estado, e um deles, o grande
chefe, tinha sempre razão e constituía — peço socorro a Henry David oreau
— uma maioria de um voto só. Este era o do Duce italiano, o do Führer
alemão, o do Generalíssimo espanhol.
Menino, eu os ouvia no rádio, aos gritos, e os via, a esbravejar e a açoitar o
vazio com violência, nos jornais cinematográ cos que precediam os lmes
seriados de Faroeste. Na tela, Hitler e Mussolini me pareciam cômicos. Mas eu
sabia que não eram engraçados na vida real, e, sim, senhores da força bruta. E
capazes de me fazer chorar: um, quando anunciou a queda de Paris, e o outro,
ao gabar-se dos bombardeios aéreos de aldeias da Abissínia. O primeiro
vingava-se de Versalhes; o segundo, quarenta anos depois, de Adowa. As
desforras tiveram, contudo, vidas breves: des zeram-se com o m de um
regime político e social que pretendia reeducar o homem na violência e
alongar-se na história.
Isto se a rma repetidamente, com todas as letras, no texto “A doutrina do
fascismo”, que, assinado por Benito Mussolini, se publicou na edição de 1932
da Enciclopédia Italiana e forma a primeira parte deste livro. Tanto nesse
trabalho quanto nas notas que o acompanham, extraídas, em sua maioria, de
manifestos, discursos, livros, conferências e artigos de jornais e revistas, a prosa
é direta e pausada, ainda que, às vezes, tensa ou de uma agressiva clareza. E,
estranho, santi ca-se o Estado fascista, mas não se descreve como ele se
organiza e funciona.
Pouco tempo antes da chegada aos leitores da edição de 1932 da
Enciclopédia Italiana, começaram a se tornar públicos os pareceres de Leon
Trótski sobre o que era fascismo, como alcançava o poder e como combatê-lo.
O mais antigo desses textos é de 1930; os últimos foram publicados em 1940,
ano em que Trótski foi assassinado. Desentranhadas, em geral, de outros
escritos, essas páginas não traem o teórico marxista da revolução permanente:
são apaixonadas, contundentes, cheias de raiva, decepção e rancor, diante da
incapacidade dos partidos operários — mais especi camente, do Partido
Comunista stalinista — de fazer frente às ameaças fascistas.
Trótski de ne o fascismo como um movimento de massa, que retira sua
força da pequena burguesia e do campesinato, e a exerce, quando o partido
operário — que se quer revolucionário, ou que é visto como tal — se omite, se
apequena, se embaralha politicamente e deixa de atuar com determinação e
urgência. Essa atuação não pode ter limites e deve ir além da tomada do poder
pelas milícias armadas do operariado.
Na violenta repreensão aos que não pensam como ele, Trótski deixa-se, às
vezes, ser tomado pela tentação das profecias e se derrama sobre o declínio e a
desintegração do capitalismo e o colapso da democracia parlamentar, conforme
estaria prescrito pelas leis da história. Os mesmos vaticínios faz Mussolini, e
ambos para um futuro que era o dia seguinte, e que não houve.
Ao menino de oito, nove, dez e onze anos, que acompanhava pelo rádio,
ao lado da avó, naquela cidade brasileira, o que se passava no mundo, não eram
esdrúxulos os vocabulários utilizados pelos partidários de Mussolini, Hitler,
Trótski e Stalin, porque, se o guri ignorava a pronúncia ou o sentido de uma
palavra, pronto lhe acudia um adulto. Havia um estilo marxista e um estilo
fascista, copiados por toda a parte, de apresentar um argumento e escrever um
relato, mas isso o menino só entendeu muito tempo depois, quando já
abandonara as calças curtas e aprendera com os seus a descon ar de quem não
devia ser contestado, a libertar-se dos erros e saberes de nitivos, e a dizer não a
todo tipo de intolerância. Foi então que compreendeu por que a avó, apesar da
estática, se esforçava para ouvir a BBC e a Voz da América.
A DOUTRINA DO FASCISMO

Benito Mussolini
IDEIAS FUNDAMENTAIS

Como toda concepção política bem-acabada, o fascismo é ação e é


pensamento; ação na qual a doutrina é imanente, e a doutrina é emanada de
um dado sistema de forças históricas no qual está inserida e operando
internamente.1 Assim, sua forma está relacionada às contingências de tempo e
espaço, mas ao mesmo tempo tem ainda um conteúdo ideal, que a torna uma
expressão da verdade na mais alta esfera da história do pensamento.2 Não existe
maneira de exercer in uência espiritual no mundo tendo-se uma vontade
humana dominando a vontade alheia a menos que se tenha uma concepção
tanto da transitoriedade quanto da realidade especí ca em que essa ação será
exercida, bem como da realidade permanente e universal em que o transitório
reside e tem sua essência. Para conhecer os homens, é preciso conhecer o
homem; e para conhecer o homem é preciso ter conhecimento da realidade e
suas leis. Não existe concepção de Estado que não seja fundamentalmente uma
concepção de vida: loso a ou intuição, sistema de ideias que evolui dentro do
contexto da lógica ou se concentra numa visão ou numa fé, mas sempre, ao
menos potencialmente, uma concepção orgânica do mundo.

VISÃO ESPIRITUAL DA VIDA

Assim, muitas das expressões práticas do fascismo, tais como organização


partidária, sistema educacional e disciplina só podem ser entendidas em relação
à sua postura geral no tocante à vida. Uma atitude espiritual.3 O fascismo vê no
mundo não apenas aqueles aspectos super ciais e materiais, em que o homem
aparece como um indivíduo, autossu ciente, autocentrado, sujeito à lei natural
que instintivamente o impele a uma vida de prazer momentâneo e egoísta; vê
não apenas o indivíduo, mas também a nação e o país; indivíduos e gerações
unidos por uma lei moral, com tradições em comum e uma missão que,
suprimindo o instinto de vida preso em um reduzido círculo de prazer, constrói
uma vida mais nobre, fundada no dever, uma vida liberta das limitações de
tempo e espaço, em que o indivíduo, por meio do autossacrifício, da renúncia
ao interesse particular, da própria morte, é capaz de atingir aquela existência
puramente espiritual na qual reside seu valor como homem.
A concepção é, portanto, de cunho espiritualista, resultante da reação
natural do século contra o positivismo materialista do século XIX. Concepção
antipositivista, mas positiva; nem cética nem agnóstica; nem pessimista nem
eminentemente otimista como são, de maneira geral, as doutrinas (todas
negativas) que situam fora do homem o centro da vida, enquanto que, pelo
exercício do seu livre-arbítrio, o homem pode e deve criar seu próprio mundo.
O fascismo quer que o homem seja ativo e se empenhe em agir com toda a
sua energia; quer que ele esteja humanamente ciente das di culdades que o
aguardam e pronto para encará-las. O fascismo concebe a vida como uma luta
em que cabe ao homem obter para si mesmo um lugar demasiadamente
valioso, antes de tudo se preparando (física, moral, intelectualmente) para se
tornar o instrumento necessário para obtê-lo. Isso é válido para o indivíduo,
para a nação e para a humanidade.4 Daí o alto valor da cultura em todas as suas
formas (artística, religiosa, cientí ca)5 e a extraordinária importância da
educação. Daí também o valor essencial do trabalho, pelo qual o homem
subjuga a natureza e cria o mundo humano (econômico, político, ético e
intelectual).
Essa concepção positiva da vida é, obviamente, uma concepção ética.
Abrange todo o campo da realidade, bem como as atividades humanas que o
regem. Nenhuma ação está isenta do julgamento moral, nenhuma atividade
pode ser desprovida do valor que um propósito moral confere a tudo. Por isso a
vida, conforme a concebe o fascista, é séria, austera e religiosa; todas as suas
manifestações se assentam sobre um mundo sustentado pelas forças morais e
sujeito a responsabilidades espirituais. O fascista despreza uma vida “fácil”.6
A concepção fascista da vida é religiosa,7 na qual o homem é visto em sua
relação imanente com uma lei superior, dotado de um arbítrio objetivo que
transcende o indivíduo e o eleva à comunhão consciente em uma sociedade
espiritual. “Os que não enxergam nada além das considerações oportunistas na
política religiosa do regime fascista não percebem que o fascismo não é tão
somente um sistema de governo, mas também, e acima de tudo, um sistema de
pensamento.”

A IMPORTÂNCIA DA TRADIÇÃO

Na concepção fascista da história, o homem é homem somente graças ao


processo espiritual para o qual ele contribui como membro da família, do
grupo social, da nação, e em função da história para a qual todas as nações
trazem sua contribuição. Daí deriva o grande valor da tradição nos registros, na
linguagem, nos costumes, nas regras da vida social.8 Sem a história, o homem
nada é.

A REJEIÇÃO DO INDIVIDUALISMO E A IMPORTÂNCIA DO ESTADO

O fascismo se opõe, portanto, a todas as abstrações individualistas


baseadas no materialismo do século XVIII; e se opõe a todas as utopias e
inovações jacobinistas. Não crê na possibilidade de “felicidade” na terra
conforme a concebe a literatura econômica do século XVIII e por isso rejeita a
noção teológica de que em algum momento futuro a família humana alcançará
a solução de nitiva de todas as suas di culdades. Essa noção vai de encontro à
experiência que ensina que a vida segue um uxo contínuo em um processo de
evolução. Na política, o fascismo objetiva o realismo; na prática, deseja lidar
apenas com os problemas que sejam o produto espontâneo das condições
históricas e que alcancem ou sugiram suas próprias soluções.9 Somente
entrando no processo da realidade e apossando-se das forças que dentro dela
atuam é que o homem se impõe a outro homem e à natureza.10
Anti-individualista, a concepção fascista da vida enfatiza a importância do
Estado e aceita o indivíduo apenas na medida em que seus interesses coincidam
com os do Estado, que representa a consciência e a vontade universal do
homem como uma entidade histórica.11 Opõe-se ao liberalismo clássico, que
surgiu como uma reação ao absolutismo e exauriu sua função histórica quando
o Estado se tornou a expressão da consciência e da vontade do povo. O
liberalismo negava o Estado em prol do indivíduo; o fascismo rea rma os
direitos do Estado como expressão da essência verdadeira do indivíduo.12 E se a
liberdade é o atributo de homens vivos e não de fantoches abstratos inventados
pelo liberalismo individualista, então o fascismo defende a liberdade, a única
liberdade válida, a liberdade do Estado e do indivíduo dentro do Estado.13 A
concepção fascista do Estado é totalmente abrangente; fora dele inexistem
valores humanos ou espirituais, nada disso tem valor. Nesse sentido, o fascismo
é totalitário, e o Estado fascista — uma síntese e uma unidade inclusiva de
todos os valores — interpreta, desenvolve e potencializa toda a vida de um
povo.14
Não há indivíduos ou grupos (partidos políticos, associações culturais,
fusões econômicas, classes sociais) fora do Estado.15 O fascismo, assim, é o
oposto do socialismo, para o qual a unidade dentro do Estado (que funde as
classes em uma única realidade econômica e ética) é desconhecida e que vê na
história tão somente a luta de classes. O fascismo igualmente se opõe ao
sindicalismo como arma de classe. No entanto, quando trazidos para a órbita
do Estado, o fascismo reconhece as necessidades reais que deram origem ao
socialismo e ao sindicalismo, atribuindo-lhes o devido peso no sistema
corporativo, em que interesses divergentes são coordenados e harmonizados na
unidade do Estado.16
Agrupados segundo seus diversos interesses, os indivíduos formam classes;
constituem sindicatos quando organizados conforme suas várias atividades
econômicas. Primeira e primordialmente, porém, eles formam o Estado, que
não é mera questão de números, da soma dos indivíduos que constituem a
maioria. O fascismo é, portanto, contrário àquela forma de democracia que
iguala uma nação à maioria, rebaixando-a ao nível da maioria;17 mas é a forma
mais pura de democracia se a nação for considerada como deveria, a partir do
ponto de vista da qualidade e não da quantidade, como uma ideia, a mais
poderosa por ser a mais ética, a mais coerente, a mais verdadeira, expressa em
um povo como a consciência e a vontade de poucos, se não, com efeito, de um
só, e deixando de expressar-se na consciência e na vontade da massa, do grupo
todo etnicamente moldado pelas condições naturais e históricas para se tornar
uma nação, seguindo adiante, como uma só consciência e uma só vontade, na
mesma trilha de desenvolvimento e formação espiritual.18 Não se trata de uma
raça, nem de uma região geogra camente de nida, mas de um povo que
historicamente se perpetua; uma multidão uni cada por uma ideia e imbuída
da vontade de viver, da vontade de exercer poder, ter autoconsciência e
personalidade.19
Na medida em que se personi ca em um Estado, essa personalidade mais
nobre se torna uma nação. Não é a nação que gera o Estado; esse é um conceito
naturalístico antiquado que alicerçou a base para a publicidade do século XIX
em prol de governos nacionais. Ao contrário, é o Estado que cria a nação,
conferindo volição e portanto vida real a um povo consciente da sua unidade
moral.
O direito à independência nacional não deriva de qualquer forma de
autoconsciência meramente literária e idealista e menos ainda de uma situação
mais ou menos passiva e factualmente inconsciente, mas de uma vontade ativa,
autoconsciente e política que se expressa na ação e está pronta para provar seus
direitos. Em resumo, ele deriva da existência, ao menos in eri, de um Estado.
Com efeito, é o Estado que, como a expressão de uma vontade ética universal,
cria o direito à independência nacional.20
Uma nação, como expressa no Estado, é uma entidade viva e ética apenas
na medida em que é ativa. Inatividade é morte. Por isso, o Estado não é apenas
a Autoridade que governa e confere forma legal e valor espiritual às vontades
individuais, mas também o Poder que faz sentir e ser respeitada a sua vontade
para além das próprias fronteiras, assim fornecendo prova prática da natureza
universal das decisões necessárias para garantir seu desenvolvimento. Isso
implica organização e expansão potenciais, se não reais. Assim o Estado se
iguala à vontade do homem, cujo desenvolvimento não pode ser impedido por
obstáculos e que, ao adquirir autoexpressão, demonstra sua in nitude.21

O ESTADO FASCISTA COMO UMA FORÇA ESPIRITUAL


O Estado fascista, como expressão mais alta e poderosa de personalidade, é
uma força, mas uma força espiritual, a soma de todas as manifestações da vida
moral e intelectual do homem. Suas funções não podem, portanto, se limitar a
impor a ordem e manter a paz, como entende a doutrina liberal. Não se trata
de um mero instrumento mecânico destinado a de nir a esfera em que o
indivíduo pode exercer devidamente seus supostos direitos. O Estado fascista é
um padrão internamente aceito de regra de conduta, uma disciplina da
totalidade da pessoa; permeia a vontade não menos do que permeia o intelecto.
Signi ca um princípio que se torna o motivo central do homem como membro
de uma sociedade civilizada, mergulhando fundo em sua personalidade; reside
no coração do homem de ação e do pensador, do artista e do cientista: alma da
alma.22
O fascismo, em síntese, não é apenas um promulgador de leis e fundador
de instituições, mas um educador e promotor da vida espiritual. Seu objetivo é
remodelar não só as formas de vida, mas seu conteúdo — o homem, seu
caráter e sua fé. Para concretizar tal propósito, impõe a disciplina e usa a
autoridade, entrando na alma e governando com inquestionável in uência. Por
essa razão, escolheu como emblema as varas do lictor [uma espécie de o cial de
justiça em Roma na Antiguidade], símbolo de unidade, força e justiça.
DOUTRINA POLÍTICA E SOCIAL — A EVOLUÇÃO A
PARTIR DO SOCIALISMO

Quando no já distante mês de março de 1919, por meio do Il Popolo


d’Italia, convoquei a Milão os intervencionistas sobreviventes que me haviam
seguido desde a fundação dos Fasci de ação revolucionária em janeiro de 1915,
eu não tinha em mente um programa doutrinário especí co. Minha
experiência prática em termos de doutrina se resumia ao socialismo de 1903-
1904 até o inverno de 1914 — quase uma década. Tinha experiência como
seguidor e como líder, mas não experiência doutrinária. Minha doutrina ao
longo daquele período havia sido a doutrina da ação. Desde 1905 não existia
uma doutrina uniforme e universalmente aceita do socialismo, quando surgiu
na Alemanha o movimento revisionista, liderado por Bernstein, contra o qual
se formou, na gangorra das tendências, um movimento revolucionário de
esquerda, que na Itália jamais abandonou o terreno teórico, enquanto, no caso
do socialismo russo, se tornou o prelúdio ao bolchevismo.
Reformismo, revolucionarismo, centrismo... O próprio eco dessa
terminologia está morto, mas no grande rio do fascismo é possível rastrear
correntes que tiveram sua nascente em Sorel, Peguy, Largardelle (do
Mouvement socialiste), e na coorte dos sindicalistas italianos que, de 1904 a
1914, acrescentaram uma nova nota ao ambiente socialista italiano — até
então castrado e cloroformizado por fornicar com o partido de Giolitti —,
uma nota que soou nas Pagine libere de Olivetti, na Lupa de Orano e no
Divenire sociale de Enrico Leone.
Finda a guerra em 1919, o socialismo como doutrina já estava morto;
continuou a existir apenas como uma provocação, sobretudo na Itália, onde
sua única chance residia em incitar represálias contra os homens que haviam
desejado a guerra e que deviam pagar por ela.
O Popolo d’Italia descreveu-se em seu subtítulo como o órgão diário dos
combatentes e produtores. A palavra produtor já era a expressão de uma
orientação mental. O fascismo não nasceu de uma doutrina previamente
esboçada no papel; nasceu de uma necessidade de ação, e foi ação; não era um
partido, mas, nos primeiros dois anos, um antipartido e um movimento. O
nome que dei à organização xou sua natureza.
No entanto, se alguém se der ao trabalho de ler as páginas agora
amarfanhadas de então, que relatam a reunião em que foi fundado o Fasci di
combattimento italiano, encontrará não uma doutrina, mas uma série de
diretrizes, previsões e pistas que, uma vez libertadas da inevitável rede de
contingências, viriam a se transformar, em poucos anos, numa série de posições
doutrinárias que permitiram ao fascismo ocupar o lugar de uma doutrina
política diferente de todas as outras, passadas ou presentes.
“Se a burguesia”, disse eu, então, “acreditar que encontrou em nós seu
para-raios, estará errada. Precisamos ir em direção ao povo... Queremos que as
classes trabalhadoras se habituem às responsabilidades do gerenciamento, para
perceberem que não é fácil administrar um negócio... Combateremos o
retrogradismo técnico e espiritual... Agora que a sucessão do regime está aberta,
não podemos ser fracos. Precisamos nos adiantar; para que o atual regime caia,
precisamos assumir seu lugar. O direito de sucessão é nosso, pois encorajamos o
país a entrar na guerra e o levamos à vitória... As formas existentes de
representação política não podem nos satisfazer; queremos representação direta
dos vários interesses... Podem dizer que este programa implica em um retorno
às corporações (corporazioni). Não importa! Por isso espero que esta assembleia
aceite as reivindicações econômicas apresentadas pelo sindicalismo nacional...”
Não é estranho que desde o primeiríssimo dia, na Praça do Santo
Sepulcro, a palavra “corporação” (corporazione) tenha sido pronunciada, uma
palavra que, conforme se desenvolvia a Revolução, viria a expressar uma das
criações legislativas e sociais básicas do regime?
Os anos que precederam a Marcha sobre Roma abarcam um período
durante o qual a necessidade de ação coibia demoras e elaborações doutrinárias
minuciosas. A luta prosseguia nas cidades e aldeias. Havia discussões, mas...
Havia algo mais sagrado e mais importante... a morte... Os fascistas sabiam
morrer. Talvez faltasse uma doutrina totalmente elaborada, dividida em
capítulos e parágrafos, com observações, mas ela foi substituída por algo muito
mais decisivo: uma fé. Todavia, se com a ajuda de livros, artigos, resoluções
aprovadas em congressos, maiores e menores discursos alguém se der ao
trabalho de reviver a lembrança desses dias, descobrirá, desde que saiba buscar
e selecionar, que os fundamentos doutrinários foram lançados enquanto a
batalha ainda era travada. Com efeito, foi durante esses anos que o pensamento
fascista se formou, re nou-se e seguiu em frente com sua organização.
Problemas dos indivíduos e do Estado; problemas de autoridade e liberdade,
problemas políticos, sociais e, mais especi camente, nacionais foram
discutidos; o con ito com as doutrinas liberal, democrática, socialista,
maçônica e a do Partito Popolare prosseguiu ao mesmo tempo que prosseguiam
as expedições punitivas. Não obstante, a falta de um sistema formal foi usada
por adversários dissimulados como argumento para declarar o fascismo incapaz
de elaborar uma doutrina no exato momento em que essa doutrina estava
sendo formulada — por mais tumultuado que fosse tal processo —, primeiro,
como acontece com todas as ideias novas, na forma de negações dogmáticas
violentas; depois, na forma mais positiva de teorias construtivas,
posteriormente concretizadas, em 1926, 1927 e 1928, em leis e instituições do
regime.
O fascismo está agora claramente de nido não só como um regime, mas
como uma doutrina. Isso signi ca que o fascismo, exercendo suas faculdades
críticas sobre si mesmo e sobre outros, estudou, a partir da sua própria
perspectiva especial, e julgou com base em seus próprios parâmetros, todos os
problemas relativos aos interesses materiais e intelectuais que atualmente geram
grave ansiedade em nações de todo o mundo, estando pronto para lidar com
eles por meio de suas próprias políticas.

REJEIÇÃO AO PACIFISMO

Antes de mais nada, no que concerne ao futuro da humanidade, e


independentemente de todas as presentes considerações políticas, o fascismo
não crê, de maneira geral, na possibilidade ou utilidade da paz perpétua. Assim,
ele descarta o paci smo como um manto para a renúncia covarde e
complacente, em contraste com o autossacrifício. Somente a guerra leva toda a
energia humana à sua tensão máxima e apõe o selo da nobreza naqueles povos
que têm a coragem de encará-la. Todos os demais testes são substitutos que
jamais porão o homem cara a cara consigo mesmo diante da alternativa de vida
ou morte. Por isso, todas as doutrinas que postulam a paz a qualquer custo são
incompatíveis com o fascismo. Igualmente alheias ao espírito do fascismo,
ainda que aceitas como úteis para enfrentar situações políticas especiais, são
todas as superestruturas internacionalistas ou da Liga [das Nações] que, como
mostra a história, caem por terra sempre que o coração das nações é
profundamente tocado por considerações sentimentais, idealistas ou práticas.
O fascismo imbui a vida do indivíduo dessa atitude antipaci sta. “Não ligo a
mínima” (me ne frego) — o mote orgulhoso dos esquadrões combatentes
rabiscado por um ferido envolto em ataduras — não é apenas um ato de
estoicismo heroico, mas resume uma doutrina não meramente política: é a
prova de um espírito combatente que aceita qualquer risco. Signi ca o novo
estilo de vida italiano. O fascista aceita e ama a vida; rejeita e despreza o
suicídio, que considera covardia. A vida como ele entende signi ca dever,
elevação, conquista; a vida deve ser nobre e plena, precisa ser vivida para si, mas
acima de tudo para os outros, tanto os próximos como os distantes, no
presente e no futuro.
A política do regime em relação ao povo é a consequência dessas
premissas. O fascista ama seu vizinho, mas a palavra vizinho não representa
uma concepção vaga e inatingível. O amor ao vizinho não exclui a severidade
educacional necessária; menos ainda exclui a diferenciação e a hierarquia. O
fascismo nada terá a ver com abraços universais; como membro da comunidade
das nações, ele encara diretamente outros povos; é vigilante e está atento; segue
outros em seus protestos e nota quaisquer mudanças em seus interesses; e não
se permite ser enganado por aparências mutáveis e falaciosas.

REJEIÇÃO AO MARXISMO

Tal concepção de vida faz do fascismo a negação resoluta da doutrina


subjacente assim chamada de cientí ca e do socialismo marxista, a doutrina do
materialismo histórico que explica a história da humanidade em termos de luta
de classes e por mudanças nos processos e instrumentos de produção, com a
exclusão de tudo o mais.
Ninguém nega que as vicissitudes da vida econômica — descobertas de
matérias-primas, novos processos tecnológicos e invenções cientí cas —
tenham sua importância, mas é absurdo crer que isso baste para explicar a
história humana com a exclusão de outros fatores. O fascismo acredita hoje e
sempre na santidade e no heroísmo, ou seja, em atos que não tenham qualquer
motivação econômica — remota ou imediata. Tendo negado o materialismo
histórico, que vê nos homens meros fantoches na superfície da história,
surgindo e sumindo na crista das ondas, enquanto nas profundezas as forças
operantes reais se movem e atuam, o fascismo também nega a natureza
imutável e irreparável da luta de classes, que é o resultado natural dessa
concepção econômica da história; acima de tudo, ele nega que a luta de classes
seja o agente preponderante nas transformações sociais. Tendo assim desferido
um golpe no socialismo, atingindo os dois principais pontos de sua doutrina,
tudo que sobra dela é a aspiração sentimental, velha como a própria
humanidade, no que tange às relações sociais em que o sofrimento e a mágoa
do cidadão mais humilde serão aliviados. Contudo, mais uma vez, o fascismo
rejeita a interpretação econômica da felicidade como algo a ser garantido
socialística e quase automaticamente, em um determinado estágio da evolução
econômica, quando a todos estará assegurado um máximo de conforto
material. O fascismo nega a concepção materialista de felicidade como uma
possibilidade, e a relega aos economistas dos meados do século XVIII. Isso
signi ca que o fascismo nega a equação bem-estar = felicidade, que vê o
homem como mero animal, contente quando pode se alimentar e engordar,
reduzindo-o assim a uma existência pura e simplesmente vegetativa.

REJEIÇÃO DA DEMOCRACIA PARLAMENTAR COMO UM ENGODO E UMA FRAUDE

Depois do socialismo, o fascismo aponta suas armas para a totalidade do


bloco das ideologias democráticas e rejeita tanto suas premissas quanto suas
aplicações práticas e seus implementos. O fascismo nega que números, como
tais, possam ser o fator determinante na sociedade humana; nega aos números
o direito de governar por meio de consultas periódicas; insiste na desigualdade
irremediável, fértil e bené ca dos homens, que não pode ser nivelada por um
artefato mecânico e extrínseco como o sufrágio universal. Os regimes
democráticos podem ser descritos como aqueles sob os quais o povo é, de
tempos em tempos, iludido a crer que exerce soberania, enquanto o tempo
todo a soberania verdadeira reside em outros e é exercida por outras forças, às
vezes irresponsáveis e ocultas. A democracia é um regime sem rei infestado por
muitos reis, que muitas vezes são mais exclusivistas, tirânicos e destrutivos que
um único, ainda que esse único fosse um tirano. Isso explica por que o
fascismo — embora, por razões de contingência, tenha apresentado tendências
republicanas anteriormente a 1922 — abandonou essa postura antes da
Marcha sobre Roma, convencido de que a forma de governo não é mais uma
questão de preeminente importância, e porque o estudo das monarquias
passadas e presentes e das repúblicas passadas e presentes mostra que nem a
monarquia nem a república podem ser julgadas como subespécies aeternitatis,
mas cada qual representa uma forma de governo que expressa a evolução
política, a história, as tradições e a psicologia de um determinado país.
O fascismo superou o dilema monarquia versus república, sobre o qual os
regimes democráticos se debruçaram tempo demais, atribuindo todas as
insu ciências à primeira e louvando a última como um regime de perfeição,
enquanto a experiência ensina que algumas repúblicas são inerentemente
reacionárias e absolutistas enquanto algumas monarquias aceitam os
experimentos políticos e sociais mais ousados.
Em uma de suas meditações losó cas, [Ernest] Renan — que já tinha
algumas intuições pré-fascistas — escreveu:

A razão e a ciência são produtos da humanidade, mas é quimérico buscar a razão


diretamente para o povo e por meio do povo. Não é essencial à existência da razão que
todos estejam familiarizados com ela; e, mesmo se todos fossem esclarecidos, tal objetivo
não seria alcançado por meio da democracia, que parece fadada a liderar a extinção de
todas as formas árduas de cultura e de todas as formas mais nobres de aprendizado. A
máxima de que a sociedade existe apenas para o bem-estar e a liberdade dos indivíduos
que a compõem não parece em conformidade com os planos da natureza, que se importa
tão somente com as espécies e parece disposta a sacri car o indivíduo. Causa extremo
temor que a última palavra da democracia assim entendida (e me apresso a acrescentar que
isso se sujeita a interpretação diversa) seja uma forma de sociedade em que uma massa
degenerada não pensasse noutra coisa salvo gozar os prazeres ignóbeis da vulgaridade.

REJEIÇÃO DO IGUALITARISMO

Ao rejeitar a democracia, o fascismo rejeita a absurda e convencional


mentira do igualitarismo político, o hábito da irresponsabilidade coletiva, o
mito da felicidade e do progresso ilimitado.

DEFINIÇÃO DO FASCISMO COMO UMA DEMOCRACIA VERDADEIRA

No entanto, se a democracia for entendida como um regime em que as


massas não são afastadas para a margem do Estado, o redator destas páginas já
terá de nido o fascismo como uma organizada, centralizada e autoritária
democracia.

REJEIÇÃO AO LIBERALISMO ECONÔMICO — ADMIRAÇÃO POR BISMARCK

O fascismo se opõe de nitiva e absolutamente às doutrinas do liberalismo,


tanto na esfera política quanto na econômica. A importância do liberalismo no
século XIX não deveria ser exagerada para os polêmicos ns de hoje, nem
deveríamos transformar uma das muitas doutrinas que oresceram naquele
século numa religião para a humanidade tanto no presente quanto para todo o
futuro. O liberalismo na verdade oresceu durante apenas quinze anos. Surgiu
em 1830 como uma reação à Sacra Aliança, que tentou obrigar a Europa a
recuar mais ainda do que em 1789; atingiu seu clímax em 1848, quando até
mesmo Pio IX era um liberal. Seu declínio começou imediatamente após
aquele ano. Se 1848 foi um ano de luz e poesia, 1849 foi um ano de trevas e
tragédia. A República Romana foi morta por uma república irmã, a da França.
No mesmo ano, Marx, em seu famoso Manifesto Comunista, lançou o
evangelho do socialismo.
Em 1851, Napoleão III deu seu golpe de Estado não liberal e governou a
França até 1870, quando foi derrubado por um levante popular em seguida a
uma das derrotas militares mais graves da história. O vitorioso foi Bismarck,
que nem sequer conhecera o terreno do liberalismo e seus profetas. É
sintomático que ao longo do século XIX a religião do liberalismo tenha
permanecido desconhecida de um povo tão civilizado quanto o alemão, exceto
por um parêntese que foi descrito como o “ridículo parlamento de Frankfurt”,
que durou apenas uma estação. A Alemanha conquistou sua unidade nacional
fora do liberalismo e em oposição ao liberalismo, doutrina que parece alheia ao
temperamento alemão, essencialmente monarquista, enquanto o liberalismo é a
sala de espera histórica e lógica do anarquismo. Os três estágios na conquista da
unidade alemã foram as três guerras de 1864, 1866 e 1870, lideradas por
“liberais” como Moltke e Bismarck. E na construção da unidade italiana o
liberalismo teve um papel muito modesto quando comparado à contribuição
de Mazzini e Garibaldi, que não eram liberais. Não fosse a intervenção do não
liberal Napoleão III, não teríamos a Lombardia, e sem a do não liberal Bismark
em Sadová e Sedan, muito provavelmente não teríamos Veneza em 1866, nem
entraríamos em Roma em 1870. O período entre 1870 e 1915 marcou, mesmo
na opinião dos altos sacerdotes do novo credo, o crepúsculo de sua religião,
atacada pela decadência na literatura e pelo ativismo na prática. Ativismo: ou
seja, nacionalismo, futurismo, fascismo.
O século liberal, após colecionar inúmeros nós górdios, tentou desfazê-los
com a espada da guerra mundial. Jamais uma religião pediu um sacrifício tão
cruel. Estariam os deuses do liberalismo sedentos de sangue?
Agora o liberalismo se prepara para fechar as portas de seus templos,
abandonados pelos povos que sentem que o agnosticismo por ele professado na
esfera da economia e a indiferença da qual deu provas na esfera da política e da
moral levariam o mundo à ruína no futuro, como já aconteceu no passado.
Isso explica por que todos os experimentos políticos da atualidade são
antiliberais, e é incrivelmente ridículo tentar por conta disso deixá-los de fora
da história, como se a história fosse uma reserva destinada ao liberalismo e seus
adeptos; como se o liberalismo fosse a última palavra em termos de civilização
além da qual ninguém pode ir.

A VISÃO TOTALITARISTA FASCISTA DO FUTURO

A negação fascista do socialismo, da democracia e do liberalismo não


deveria, contudo, ser interpretada como um desejo de fazer o mundo
retroceder a posições anteriores a 1789, um ano em geral mencionado como o
que inaugurou o século demoliberal. A história não retrocede. A doutrina
fascista não proclamou De Maistre seu profeta. O absolutismo monarquista é
coisa do passado, assim como a eclesiolatria. Mortos e enterrados estão os
privilégios feudais e a divisão da sociedade em castelos trancados e sem
comunicação. Nada têm em comum, tampouco, a concepção fascista de
autoridade e a de um Estado regido pela polícia.
Um partido governar “totalitariamente” uma nação é uma novidade na
história. Não há pontos de referência nem de comparação. De sob as ruínas das
doutrinas liberal, socialista e democrática, o fascismo extrai aqueles elementos
que ainda são vitais. Preserva o que pode ser descrito como “os fatos
adquiridos” da história; e rejeita tudo o mais. Isso signi ca que ele rejeita a
ideia de uma doutrina conveniente a todos e a qualquer tempo. O fato de o
século XIX ter sido o século do socialismo, do liberalismo e da democracia não
implica que o século XX também precise ser o século do socialismo, do
liberalismo e da democracia. As doutrinas passam, as nações permanecem.
Somos livres para crer que este é o século da autoridade, um século que tende
para a “direita”, um século fascista. Se o século XIX foi o século do indivíduo
(liberalismo implica individualismo), somos livres para crer que este é o século
“coletivo” e, portanto, o século do Estado. É bastante lógico para uma nova
doutrina fazer uso dos elementos ainda vitais de outras doutrinas. Doutrina
alguma nasceu totalmente nova, brilhante e desconhecida. Doutrina alguma
pode se gabar de ser absolutamente original. Está sempre conectada, ainda que
apenas historicamente, com aquelas que a precederam e aqueles que a seguirão.
Assim, o socialismo cientí co de Marx remete ao socialismo utópico dos
Fouriers, dos Owens, dos Saint-Simons; assim, o liberalismo do século XIX
remonta ao movimento iluminista do século XVIII, e as doutrinas da
democracia às dos enciclopedistas. Toda doutrina pretende dirigir as atividades
dos homens para um determinado objetivo, mas essas atividades, por sua vez,
reagem à doutrina, modi cando-a e ajustando-a a novas necessidades, ou
ultrapassando-a. Uma doutrina, portanto, precisa ser um ato vital e não uma
exposição verbal. Daí o tom pragmático no fascismo, seu desejo de poder, seu
desejo de viver, sua atitude quanto à violência e seu valor.

A PRIMAZIA ABSOLUTA DO ESTADO

A pedra fundamental da doutrina fascista é sua concepção de Estado, da


sua essência, suas funções e seus objetivos. Para o fascismo, o Estado é
absoluto, os indivíduos e grupos são relativos. Indivíduos e grupos são
admissíveis na medida em que venham no bojo do Estado. Em lugar de dirigir
o jogo e guiar o progresso material e moral da comunidade, o Estado liberal
restringe suas atividades a registrar resultados. O Estado fascista está totalmente
desperto e tem vontade própria. Por esse motivo, pode ser descrito como
“ético”.
Na primeira assembleia quinquenal do regime, em 1929, eu disse:

O Estado fascista não é um vigilante noturno, preocupado apenas com a segurança


pessoal de seus cidadãos; não está organizado exclusivamente com a nalidade de garantir
um determinado grau de prosperidade material e condições de vida relativamente
pací cas. Um conselho consultivo faria isso. Também não é exclusivamente político,
divorciado das realidades práticas e alheio às atividades multifacetadas dos cidadãos e da
nação. O Estado, conforme concebido e administrado pelo fascismo, é uma entidade
espiritual e ética que visa garantir a organização política, jurídica e econômica da nação,
uma organização que, em sua origem e desenvolvimento, é uma manifestação do espírito.
O Estado garante a segurança interna e externa do país, mas também salvaguarda e
transmite o espírito do povo, elaborado ao longo das eras em sua linguagem, seus
costumes, sua fé. O Estado não é apenas o presente, mas também o passado e, acima de
tudo, o futuro. Transcendendo o breve período de vida do indivíduo, o Estado representa
a consciência imanente da nação. As formas como encontra expressão mudam, mas a
necessidade dela permanece. O Estado ensina civismo aos cidadãos, os conscientiza de sua
missão, os impele à unidade; sua justiça harmoniza os interesses divergentes; transmite às
futuras gerações as conquistas da mente nos campos da ciência, da arte, da lei, da
solidariedade humana; leva os homens a deixarem a vida tribal primitiva e chegarem à
mais alta manifestação de poder humano, à regra imperial.
O Estado entrega às futuras gerações a lembrança dos que deram a vida para garantir
sua segurança ou cumprir suas leis; grava como exemplos e registros para as eras futuras os
nomes dos comandantes que expandiram o território e dos homens brilhantes que o
tornaram famoso. Sempre que o respeito pelo Estado declina e as tendências
desintegradoras e centrifugadoras dos indivíduos e dos grupos prevalecem, as nações
rumam para a decadência.

Desde 1929, o desenvolvimento econômico e político enfatiza tais


verdades por toda a parte. A importância do Estado cresce rapidamente. A
chamada crise só pode ser solucionada por uma ação do Estado e na órbita do
Estado. Onde estão os adeptos dos Jules Simons, que, nos primeiros dias do
liberalismo, proclamavam que “o Estado deveria aspirar a se tornar inútil e se
preparar para renunciar”? Ou dos MacCullochs, que, na segunda metade do
século passado, urgiam para que o Estado desistisse de governar em excesso? E
o que dizer do inglês Bentham, que considerava que tudo o que a indústria
pedia do governo era ser deixada em paz, e do alemão Humboldt, que externou
a opinião de que o melhor governo era um governo “preguiçoso”? O que
diriam eles agora da exigência incessante, inevitável e urgente de intervenções
do governo nos negócios? É verdade que a segunda geração de economistas foi
menos intransigente do que a primeira a esse respeito, e que mesmo Adam
Smith escancarou a porta — ainda que cautelosamente — para a intervenção
do governo nos negócios.
Se o liberalismo equivale a individualismo, o fascismo equivale a governo.
O Estado fascista, contudo, é uma criação ímpar e original. Não é
reacionário, mas revolucionário, pois antecipa a solução de determinados
problemas universais que surgiram em outros lugares: no campo político,
devido à divisão de partidos, à usurpação do poder pelos parlamentos, à
irresponsabilidade das assembleias; no campo econômico, por conta das cada
vez mais numerosas e relevantes funções que os sindicatos e associações
deixaram de desempenhar devido a suas disputas e enfrentamentos, afetando
tanto o capital quanto o trabalho; no campo ético, pela necessidade de ordem,
disciplina, obediência aos ditames morais do patriotismo.
O fascismo deseja que o Estado seja forte e orgânico, alicerçado no amplo
apoio popular. O Estado fascista reivindica as rédeas não menos no campo
econômico do que em outros; faz sentir sua ação em toda a extensão do país
por meio de suas instituições corporativas, sociais e educacionais, e todas as
forças políticas, econômicas e espirituais da nação, organizadas em suas
respectivas associações, circulam dentro do Estado. Um Estado alicerçado em
milhões de indivíduos que reconhecem sua autoridade, sentem sua ação e estão
prontos para cumprir seus propósitos não é o estado tirânico de um senhor
medieval. Nada tem em comum com os Estados despóticos anteriores ou
posteriores a 1789.
Longe de esmagar o indivíduo, o Estado fascista multiplica suas energias,
assim como em um regimento um soldado não é diminuído, mas multiplicado,
pelo número de seus companheiros de armas. O Estado fascista organiza a
nação, mas deixa ao indivíduo espaço para manobra. Restringiu liberdades
inúteis ou prejudiciais, enquanto preservou as que são essenciais. Nessas
questões, o indivíduo não pode ser o juiz, tão somente ao Estado cabe tal
prerrogativa. O Estado fascista não é indiferente aos fenômenos religiosos em
geral nem manifesta uma atitude de indiferença em relação ao Catolicismo
Romano, a religião especial e positiva dos italianos. O Estado não tem uma
teologia, mas tem um código moral. O Estado fascista vê na religião uma das
mais profundas manifestações espirituais e por esse motivo não apenas respeita
a religião, mas a defende e protege. O Estado fascista não tenta, como fez
Robespierre no auge do delírio revolucionário da Convenção [Nacional],
impor um “deus” próprio, nem busca vaidosamente, como faz o bolchevismo,
apagar Deus da alma do homem.
O fascismo respeita o Deus dos ascéticos, dos santos e heróis, e também
respeita a Deus conforme o ingênuo e primitivo coração do povo o concebe, o
Deus a quem o povo endereça suas preces.
O Estado fascista expressa a vontade de exercer poder e de comandar. Aqui
a tradição romana está incorporada numa concepção de força. O poder
imperial, conforme o entende a doutrina fascista, não é apenas territorial ou
militar ou comercial, também é espiritual e ético. Uma nação imperial signi ca
uma nação que direta ou indiretamente lidera outras, capaz de existir sem a
necessidade de conquistar um metro quadrado de território. O fascismo vê no
espírito imperialista — i.e., na tendência das nações a se expandir — uma
manifestação de sua vitalidade. Na tendência oposta, que limitaria seus
interesses ao país natal, vê um sintoma de decadência. Povos ascendem ou
reascendem; a renúncia é característica de povos moribundos. A doutrina
fascista vai se adequar melhor às tendências e sentimentos de um povo que,
como o italiano, tendo permanecido passivo durante séculos de servidão
estrangeira, está agora se rea rmando no mundo.
Mas o imperialismo implica disciplina, coordenação de esforços, um
profundo senso de dever e um espírito de autossacrifício. Isso explica muitos
aspectos da atividade prática do regime e a direção tomada por muitas das
forças do Estado, bem como a severidade que precisa ser exercida com relação
àqueles que se opõem a esse movimento espontâneo e inevitável da Itália do
século XX, pregando ideologias ultrapassadas do século XIX, ideologias
rejeitadas onde quer que grandes experimentos com transformações políticas e
sociais estejam sendo ousados.
Nunca dantes os povos estiveram tão sedentos de autoridade, direção e
ordem quanto agora. Se é verdade que cada época tem sua doutrina, inúmeros
sintomas indicam que a doutrina da nossa era é a fascista. Pode ser comprovado
que ela é vital pelo fato de que despertou uma fé; que essa fé conquistou almas
pode ser comprovado pelo fato de que o fascismo é capaz de citar seus heróis
derrotados e seus mártires.
O fascismo obteve agora em todo o mundo a universalidade inerente a
todas as doutrinas que, ao obter autoexpressão, representam um momento na
história do pensamento humano.
NOTAS DO AUTOR

1
Se o fascismo não deseja morrer ou, pior ainda, cometer suicídio, é
preciso agora formular uma doutrina. No entanto, isso não deve e não pode ser
uma túnica de Nesso colada em nós por toda a eternidade, pois o amanhã é
misterioso e imprevisível. Essa doutrina terá de ser uma norma para guiar a
ação política e individual na nossa vida cotidiana.
Eu que ditei essa doutrina sou o primeiro a perceber que as modestas
tábuas de nossas leis e programa, o guia teórico e prático, devem ser revisadas,
corrigidas, ampliadas, desenvolvidas, porque em certas partes já foram
dani cadas pela mão do tempo. Acredito que a essência e os fundamentos da
doutrina ainda precisam ser encontrados nos postulados que ao longo de dois
anos funcionaram como um chamado às armas para os recrutas do fascismo
italiano. No entanto, fazendo de tais declarações fundamentais o ponto de
partida, devemos levar nosso programa para um campo mais vasto. Os fascistas
italianos, todos eles, precisam colaborar nessa missão de importância vital para
o fascismo, sobretudo aqueles de regiões onde, com ou sem acordo, a
coexistência pací ca entre dois movimentos antagônicos foi alcançada.
A palavra que usarei a seguir tem muito peso, mas, com efeito, desejo que,
ao longo dos dois meses que ainda faltam para a nossa Assembleia Nacional, a
loso a do fascismo possa ser criada. Milão já está contribuindo com a
primeira faculdade fascista de propaganda. Não se trata meramente de reunir
elementos para um programa a ser usado como base sólida para a constituição
de um partido que inevitavelmente há de surgir do movimento fascista; é
também uma questão de negar a tolice de que o fascismo é composto por
homens violentos. Na verdade, entre os fascistas se contam muitos homens que
pertencem à classe mais meditativa, porém inquieta.
O novo caminho adotado pela atividade fascista de forma alguma reduzirá
o espírito guerreiro típico do fascismo. Dotar a mente de doutrinas e credos
não signi ca desarmar, mas, sim, fortalecer nosso poder de ação e nos tornar
ainda mais conscientes de nosso trabalho. Soldados que lutam plenamente
conscientes da causa são os melhores guerreiros. O fascismo deve adotar o
binômio de Mazzini: Pensamento e Ação (carta escrita a Michele Bianchi,
datada de 27 de agosto de 1921, por ocasião da inauguração da Faculdade
Fascista de Cultura e Propaganda em Milão, em Messaggi e proclami, Milão,
Libreria d’Italia, 1929, p. 39).
Os fascistas devem ser postos em contato uns com os outros; sua atividade
precisa ser uma atividade de doutrina, uma atividade de espírito e de
pensamento. Se nossos adversários estivessem presentes em nossa assembleia,
teriam se convencido de que o fascismo não é apenas ação, mas também
pensamento. (Discurso perante o Conselho Nacional do Partido Fascista, 8 de
agosto de 1924, em La Nuova politica dell’Italia, Milão, Alpes, 1928, p. 267.)
2
Hoje defendo que o fascismo como ideia, como doutrina, como uma
percepção, é universal; é italiano em suas instituições especí cas, mas universal
em espírito, e não poderia ser diferente. O espírito é universal devido à sua
natureza. Assim, qualquer um pode antever uma Europa fascista obtendo
inspiração para suas instituições na doutrina e na prática do fascismo; a
Europa, em outras palavras, dando uma guinada fascista para a solução de
problemas que a igem o Estado moderno, o Estado do século XX, que é muito
distinto dos Estados existentes anteriormente a 1789 e dos Estados formados
imediatamente após. Hoje o fascismo preenche exigências universais; o
fascismo soluciona os problemas triplos das relações entre o Estado e o
indivíduo, entre o Estado e as associações, entre as associações e as associações
organizadas. (Mensagem do ano IX da Era Fascista aos diretórios federais
reunidos no Palazzo Venezia em 27 de outubro de 1930, em Discorsi del 1930,
Milão, Alpes, 1931, p. 211.)
3
Esse processo político está acompanhado de um processo losó co. Se é
verdade que a matéria foi cultuada durante um século, hoje é o espírito que
assume o seu lugar. Todas as manifestações peculiares ao espírito democrático
estão sendo, em consequência, repudiadas: descompromisso, improviso, a falta
de uma noção pessoal de responsabilidade, a exaltação dos números e aquela da
divindade misteriosa chamada O Povo. Todas as criações do espírito, a começar
pela religiosa, se encontram em destaque, e ninguém ousa manter uma atitude
de anticlericalismo que, durante várias décadas, teve a preferência da
democracia no mundo ocidental. Ao dizer que Deus está voltando, queremos
dizer que os valores espirituais estão voltando. (“Da che parte va il mondo”, em
Tempi della Rivoluzione Fascista, Milão, Alpes, 1930, p. 34.)
Existe uma área mais dedicada à meditação sobre os propósitos supremos
da vida do que a uma busca desses propósitos. Consequentemente, a ciência
parte da experiência, mas deságua fatalmente na loso a e, na minha opinião,
somente a loso a é capaz de iluminar a ciência e conduzir à ideia universal.
(Ao Congresso de Ciência em Bolonha, 31 de outubro de 1926, em Discorsi
del 1926, Milão, Alpes, 1927, p. 268.)
Para entender o movimento fascista, é preciso primeiro estudar o
fenômeno espiritual subjacente em toda a sua vastidão e profundidade. As
manifestações do movimento têm sido de uma natureza poderosa e decisiva,
mas é preciso ir mais longe. Na verdade, o fascismo italiano não foi apenas uma
revolta política contra governos fracos e incapazes que permitiram a decadência
do Estado e ameaçavam aprisionar o progresso do país, mas também uma
revolta espiritual contra velhas ideias que haviam corrompido os princípios
sagrados da religião, da fé e do país. O fascismo, por isso, foi uma revolta do
povo. (Mensagem ao povo britânico; 5 de janeiro de 1924, em Messaggi e
proclami, Milão, Libreria d’Italia, 1929, p. 107.)
4
Na origem de tudo está a luta, pois a vida é cheia de contrastes: existe
amor e ódio, branco e preto, dia e noite, bem e mal, e até que esses contrastes
se equilibrem a luta está fadada a continuar na raiz da natureza humana. No
entanto, é bom que seja assim. Hoje podemos nos dar ao luxo de ter guerras,
batalhas econômicas, con itos de ideias, mas se um dia a luta deixasse de
existir, a melancolia se instalaria; esse seria um dia de ruína, um dia de
desfecho. Mas tal dia não chegará nunca precisamente porque a história se
apresenta sempre como um panorama em transformação contínua. Pretender
voltar à calma, à paz e à tranquilidade signi caria opor-se às tendências do
atual período dinâmico. É preciso estar preparado para outras lutas e outras
surpresas. Só haverá paz quando os indivíduos se renderem a um sonho cristão
de fraternidade universal, quando puderem se dar as mãos por sobre o oceano e
por sobre as montanhas. Pessoalmente, não acredito muito nesses idealismos,
mas não os excluo porque não sou de excluir coisa alguma. (No Politeama
Rossetti, Trieste, 20 de setembro de 1920, em Discorsi politici, Milão, Stab.
Tipogra co do Popolo d’Italia, 1921, p. 107.)
5
Para mim, a honra das nações consiste na contribuição que estas zeram
para a civilização humana. (E. Ludwig, Talks with Mussolini, Londres, Allen
and Unwin, 1932, p. 199.)
6
Dei o nome de Fasci italiani di combatimento à organização. Esse duro
nome metálico traduziu todo o programa do fascismo conforme o sonhei.
Companheiros, este ainda é o nosso programa: luta. A vida para o fascista é
uma luta contínua, incessante, que aceitamos com facilidade, grande coragem e
a necessária intrepidez. (No sétimo aniversário da Fundação dos Fasci, 28 de
março de 1926, em Discorsi del 1926, Milão, Alpes, 7, p. 98.) Toca-se a
essência da loso a fascista. Quando recentemente um lósofo nlandês me
pediu que esclarecesse o signi cado do fascismo em uma frase, escrevi em
alemão: “Somos contra a ‘vida fácil’!” (E. Ludwig: Talks with Mussolini,
Londres, Allen and Unwin, 1932, p. 190.)
7
Se o fascismo não fosse um credo, como poderia imbuir seus seguidores
de coragem e estoicismo? Somente um credo que se elevou às alturas da religião
é capaz de inspirar as palavras que os lábios, infelizmente sem vida agora, de
Federico Florio pronunciaram. (“Legami di sangue”, em Diuturna, Milão,
Alpes, 1930, p. 256.)
8
A tradição é, decerto, uma das maiores forças espirituais de um povo, na
medida em que é uma criação sucessiva e constante da sua alma. (“Breve
preludio”, em Tempi della Rivoluzione Fascista, Milão, Alpes, 1930, p. 13.)
9
Nosso temperamento nos leva a avaliar o aspecto concreto dos
problemas em lugar de sua sublimação ideológica ou mística. Podemos,
portanto, facilmente recuperar o equilíbrio. (“Aspetti del dramma”, em
Diuturna, Milão, Alpes, 1930, p. 86.)
Nossa batalha é ingrata, mas é uma bela batalha, já que nos impele a
contar apenas com nossas próprias forças. Despedaçamos verdades reveladas,
cuspimos em dogmas, rejeitamos todas as teorias de paraíso, frustramos
charlatães brancos, vermelhos e negros que puseram no mercado drogas
miraculosas para prover felicidade à humanidade. Não acreditamos em
programa, em planos, em santos ou apóstolos, acima de tudo não acreditamos
em felicidade, na salvação, na Terra Prometida. (Diuturna, Milão, Alpes, 1930,
p. 223.)
Não acreditamos numa solução única, seja econômica, política ou moral,
numa solução linear dos problemas da vida, porque, ora, ilustres pregadores de
todas as sacristias, a vida não é linear e jamais pode ser reduzida a um segmento
limitado por necessidades primordiais. (“Navigare necesse”, em Diuturna,
Milão, Alpes, 1930, p. 233.)
10
Não somos e não queremos ser múmias imóveis, com a face
perpetuamente voltada para o mesmo horizonte, nem queremos nos fechar
dentro do estreito con namento do preconceito subversivo, onde as fórmulas,
como as preces de uma religião professada, são murmuradas de forma
mecânica. Somos homens, homens vivos, que desejam dar sua contribuição,
por mais modesta que seja, à criação da história. (“Audacia”, em Diuturna,
Milão, Alpes, 1930, p. 233.)
Defendemos os valores morais e tradicionais que o socialismo negligencia
ou despreza, mas, acima de tudo, o fascismo abomina tudo que implique em
hipoteca arbitrária do futuro misterioso. (“Dopo due anni”, em Diuturna,
Milão, Alpes, 1930, p. 242.)
A despeito das teorias de conservação e renovação, de tradição e progresso
expostas pela direita e pela esquerda, não nos apegamos desesperadamente ao
passado como a uma derradeira tábua de salvação: no entanto, não
mergulhamos de cabeça na sedutora bruma do futuro. (“Breve preludio”, em
Diuturna, Milão, Alpes, 1930, p. 14.) A negação, a imobilidade eterna,
signi ca condenação. Sou a favor da mobilidade. Sou alguém que segue
marchando. (E. Ludwig, Talks with Mussolini, Lot Jon, Allan and Unwin,
1932, p. 203.)
11
Fomos os primeiros a a rmar, diante do individualismo demoliberal,
que o indivíduo existe apenas na medida em que se encontra dentro do Estado
e sujeito às exigências do Estado e que, conforme a civilização adquire aspectos
cada vez mais complicados, a liberdade individual se torna cada vez mais
restrita. (Na conferência sobre fascismo para o staff geral, em Discorsi del 1929,
Milão, Alpes, 1930, p. 280.)
A noção de Estado cresce na consciência dos italianos, pois eles sentem
que apenas o Estado é a salvaguarda insubstituível de sua unidade e
independência; que apenas o Estado representa a continuidade para o futuro de
sua estirpe e sua história. (Mensagem no sétimo aniversário, 25 de outubro de
1929, Discorsi del 1929, Milão, Alpes, p. 300.)
Se, ao longo dos últimos oito anos, zemos um progresso tão assombroso,
pode-se supor e prever que ao longo dos próximos cinquenta ou oitenta anos o
caminho futuro da Itália, dessa Itália que sentimos tão poderosa, tão plena de
uidos vitais, será realmente grandioso. Assim será, sobretudo se a concórdia
entre seus cidadãos for duradoura, se o Estado continuar a ser o único árbitro
em con itos políticos e sociais, se tudo permanecer dentro do Estado e nada
fora dele, porque é impossível conceber qualquer indivíduo fora do Estado,
salvo se ele for um selvagem cujo lar seja a solidão do deserto arenoso.
(Discurso perante o Senado, 12 de maio de 1928, em Discorsi del 1928, Milão,
Alpes, 1929, p. 109.)
O fascismo devolveu ao Estado suas funções soberanas ao declarar seu
signi cado ético absoluto, contra o egoísmo das classes e categorias; ao governo
do Estado, reduzido a um mero instrumento de assembleias eleitorais, o
fascismo devolveu a dignidade como representante da personalidade do Estado
e seu poder de império. Resgatou a administração do Estado do peso dos
interesses das facções e dos interesses partidários. (Ao conselho de Estado, 22
de dezembro de 1928, em Discorsi del 1928, Milão, Alpes, 1929, p. 328.)
12
Que ninguém pense em negar a natureza moral do fascismo, pois eu me
envergonharia de falar desta tribuna se não representasse os poderes morais e
espirituais do Estado. O que seria o Estado se não possuísse um espírito
próprio, uma moralidade própria, que emprestassem poder às leis devido às
quais o Estado tem a obediência de seus cidadãos?
O Estado fascista a rma seu caráter ético: é católico, mas acima de tudo é
fascista. Na verdade, ele é exclusiva e essencialmente fascista. O catolicismo
complementa o fascismo, e isso declaramos abertamente, mas que ninguém
pense que pode virar a mesa contra nós, sob o manto da metafísica ou da
loso a. (À Câmara dos Deputados, 13 de maio de 1929, em Discorsi del
1929, Milão, Alpes, 1930, p. 182.)
Um Estado plenamente consciente de sua missão e que represente um
povo que segue marchando, um Estado que necessariamente transforme o povo
até mesmo em seu aspecto físico. Para ser algo mais que um mero
administrador, o Estado precisa pronunciar palavras de peso, expor ideias de
peso e apresentar problemas de peso a seu povo. (Discorsi del 1929, Milão,
Alpes, 1930, p. 183.)
13
O conceito de liberdade não é absoluto, porque nada é absoluto na
vida. A liberdade não é um direito, é um dever. Não é um presente, é uma
conquista; não é igualdade, é um privilégio. O conceito de liberdade muda
com o passar do tempo. A liberdade dos tempos de paz não é a liberdade dos
tempos de guerra. A liberdade em épocas de prosperidade não é uma liberdade
permissível em épocas de penúria. (Quinto aniversário da fundação dos Fasci di
combattimento, 24 de março de 1924, em La Nuova politica dell’Italia, vol. III,
Milão, Alpes, 1925, p. 30.)
Em nosso Estado o indivíduo não é privado de liberdade. Na verdade, ele
goza de maior liberdade que um homem isolado, porque o Estado o protege e
ele é parte do Estado. Isolado, ele é um homem indefeso. (E. Ludwig, Talks
with Mussolini, Londres, Allen and Unwin, 1932, p. 129.)
14
Hoje podemos falar ao mundo da criação do Estado da Itália poderoso
e unido, que se estende dos Alpes à Sicília; o Estado se expressa numa
democracia unitária, bem organizada, centralizada, onde o povo circula
livremente. Com efeito, cavalheiros, admitam o povo na cidadela do Estado e o
povo a defenderá. Se o deixarem de fora, o povo a assaltará. (Discurso perante a
Câmara dos Deputados, 26 de maio de 1927, em Discorsi del 1927, Milão,
Alpes, p. 159.)
No regime fascista, a unidade de classes, a unidade política, social e moral
do povo italiano se dá dentro do Estado, e apenas dentro do Estado fascista.
(Discurso perante a Câmara dos Deputados, 9 de dezembro de 1928, em
Discorsi del 1928, Milão, Alpes, 1929, p. 333.)
15
Criamos o Estado unido da Itália. Lembrem-se de que desde a Itália
imperial não havia um Estado unido. Desejo aqui rea rmar solenemente a
nossa doutrina do Estado. Desejo aqui rea rmar, de forma não menos enérgica,
a fórmula que expus no Scala de Milão: tudo no Estado, nada contra o Estado,
nada fora do Estado. (Discurso perante a Câmara dos Deputados, 26 de maio,
1927, em Discorsi del 1927, Milão, Alpes, 1928, p. 157.)
16
Não somos, em outras palavras, um Estado que controla todas as forças
que atuam na natureza. Controlamos forças políticas, controlamos forças
morais, controlamos forças econômicas. Por isso somos um Estado corporativo
maduro. Representamos um novo princípio no mundo, representamos a
antítese absoluta, categórica, de nitiva ao mundo da democracia, da
plutocracia, da maçonaria livre, ao mundo que ainda segue os princípios
fundamentais estabelecidos em 1789. (Discurso perante o novo Diretório
Nacional do partido, 7 de abril de 1926, em Discorsi del 1926, Milão, Alpes,
1927, p. 120.)
O Ministério das Corporações não é um órgão burocrático, não almeja
exercer as funções das organizações sindicais, que são necessariamente
independentes, já que visam a organização, seleção e melhoria dos membros
dos sindicatos. O Ministério das Corporações é uma instituição graças à qual,
tanto no centro quanto na periferia, a corporação integral se torna um fato
consumado, onde se alcança o equilíbrio entre os interesses e as forças do
mundo econômico. Isso tão somente é possível dentro da esfera do Estado,
porque somente o Estado transcende os interesses contrastantes de grupos e
indivíduos, visando coordená-los para alcançar objetivos mais nobres. A
conquista desses objetivos é acelerada pelo fato de que todas as organizações
econômicas reconhecidas, protegidas e apoiadas pelo Estado corporativo,
existem dentro da órbita do fascismo; em outras palavras, elas aceitam a
concepção do fascismo na teoria e na prática. (Discurso na inauguração do
Ministério das Corporações, 31 de julho de 1926, em Discorsi del 1926, Milão,
Alpes, 1927, p. 250.)
Criamos um Estado corporativo e fascista, o Estado da sociedade nacional,
um Estado que concentra, controla, harmoniza e modera os interesses de todas
as classes sociais, que por ele são protegidas em igual medida. Embora durante
os anos do regime demoliberal o operariado visse o Estado com descon ança,
estivesse, com efeito, fora do Estado e contra o Estado e considerasse o Estado
um inimigo diário e de todas as horas, não existe atualmente um operário
italiano sequer que não busque um lugar em sua corporação ou federação, que
não deseje ser um átomo vivo dessa organização imensa e viva que é o Estado
corporativo do fascismo. (No quarto aniversário da Marcha sobre Roma, 28 de
outubro de 1926, em Discorsi del 1926, Milão, Alpes, 1927, p. 340.)
17
A guerra foi revolucionária, no sentido em que com rios de sangue
acabou com o século da democracia, o século dos números, o século das
maiorias e das quantidades. (“Da che parte va il mondo”, em Tempi della
Rivoluzione Fascista, Milão, Alpes, 1930, p. 37.)
18
Cf. nota 13.
19
Raça: é uma sensação e não uma realidade; 95%, uma sensação. (E.
Ludwig, Talks with Mussolini, Londres, Allen and Unwin, 1932, p. 75.)
20
Uma nação existe na medida em que é um povo. Um povo ascende na
medida em que numeroso, trabalhador e bem governado. O poder resulta desse
trinômio. (Perante a Assembleia Geral do Partido, 1º de março de 1929, em
Discorsi del 1929, Milão, Alpes, 1930, p. 24.)
O fascismo não nega o Estado; o fascismo defende que uma sociedade
civil ou imperial não pode ser concebida exceto em forma de Estado. (“Stato,
antistato, fascismo”, em Tempi della Rivoluzione Fascista, Milão, Alpes, 1930, p.
94.)
Para nós, a nação é sobretudo espírito e não só território. Existem Estados
que têm territórios imensos e, não obstante, não deixaram rastros na história da
humanidade. Nem se trata de uma questão de número, porque houve na
história Estados pequenos, microscópicos, que legaram documentos imortais,
imperecíveis, para a arte e a loso a. A grandeza de uma nação é a soma de
todas essas virtudes e condições. Uma nação é grande quando o poder do
espírito é traduzido em realidade. (Discurso em Nápoles, 24 de outubro de
1922, em Discorsi della Rivoluzione, Milão, Alpes, 1928, p. 103.) Desejamos
uni car a nação dentro do Estado soberano, que está acima de todos e pode se
dar ao luxo de ser contra todos, já que representa a continuidade moral da
nação na história. Sem o Estado não existe nação, mas tão somente
aglomerados humanos, sujeitos a toda a desintegração que a história lhes possa
in igir. (Discurso perante o Conselho Nacional do Partido Fascista, 8 de
agosto de 1924, em La Nuova politica dell’Italia, vol. III, Milão, Alpes, 1928, p.
269.)
21
Acredito que, se um povo almeja viver, deve desenvolver um desejo de
poder. Do contrário, ele vegeta, vive miseravelmente e se torna presa de um
povo mais forte, no qual esse desejo de poder se desenvolveu em grau maior.
(Discurso ao Senado, 28 de maio de 1926.)
22
Foi o fascismo que remodelou a natureza dos italianos, removendo a
impureza de suas almas, preparando-nos para todos os sacrifícios, devolvendo o
verdadeiro aspecto de força e beleza à nossa face italiana. (Discurso em Pisa, 25
de maio de 1926, em Discorsi del 1926, Milão, Alpes, 1927, p. 193.)
Não será inoportuno ilustrar o caráter intrínseco, o signi cado profundo
do Recrutamento Fascista. Não se trata meramente de uma cerimônia, mas de
uma etapa muito importante no sistema de educação e preparação integral dos
homens italianos que a revolução fascista considera um dos deveres
fundamentais do Estado; fundamental, com efeito, pois se o Estado não
cumprir seu dever ou de alguma forma aceitar pô-lo em discussão, o Estado
mera e simplesmente compromete seu direito de existir. (Discurso perante a
Câmara dos Deputados, 28 de maio de 1928, em Discorsi del 1928, Milão,
Alpes, 1929, p. 68.)
O FASCISMO
O QUE É E COMO COMBATÊ-LO

Leon Trótski
O FASCISMO — O QUE É?
Trechos de uma carta para um companheiro inglês, 15 de novembro de 1931; publicado
em e Militant em 16 de janeiro de 1932

O que é o fascismo? O nome teve origem na Itália. Terão sido todas as


formas de ditadura contrarrevolucionária fascistas ou não (ou seja,
anteriormente ao advento do fascismo na Itália)?
A antiga ditadura na Espanha de Primo de Rivera, de 1923 a 1930, é
chamada de ditadura fascista pela Internacional Comunista.1 Correto ou não?
Acreditamos que não.
O movimento fascista na Itália foi um movimento espontâneo de grandes
massas, com novos líderes de base. Foi um movimento plebeu na origem,
dirigido e nanciado por potentes forças capitalistas. Surgiu da pequena
burguesia, do proletariado de periferia e mesmo, até certo ponto, das massas
proletárias; Mussolini, um ex-socialista, é um self-made man, oriundo desse
movimento.
Primo de Rivera era um aristocrata. Ocupava um alto posto militar e
burocrático e era capitão-general da Catalunha. Protagonizou um golpe com a
ajuda do Estado e das forças militares. As ditaduras da Espanha e da Itália são
duas formas totalmente diferentes de ditadura. É preciso distingui-las.
Mussolini teve di culdade para conciliar muitas das antigas instituições
militares com a milícia fascista. Esse problema não existiu para Primo de
Rivera.
O movimento na Alemanha se assemelha mais ao italiano. É um
movimento de massa, com seus líderes empregando boa dose de demagogia
socialista, o que é necessário para a criação de um movimento de massa.
A base genuína (do fascismo) é a pequena burguesia, na Itália uma base
bastante signi cativa — a pequena burguesia de cidades pequenas e grandes e
os camponeses. Na Alemanha, igualmente, existe uma base signi cativa para o
fascismo...
Pode-se dizer, e é verdade até certo ponto, que a nova classe média, os
funcionários públicos, os administradores privados etc. talvez constituam essa
base. Mas isso já é uma nova pergunta que precisa ser analisada...
Para ser possível fazer qualquer previsão concernente ao fascismo, é
necessário ter uma de nição dessa ideia. O que é o fascismo? Qual é a sua base,
sua forma e quais são suas características? Como se deu seu desenvolvimento? É
necessário adotar uma abordagem cientí ca e marxista.

COMO MUSSOLINI TRIUNFOU


De E agora? Perguntas vitais ao proletariado alemão, 1932

No momento em que os recursos “normais” policiais e militares da


ditadura burguesa, juntamente com seus ltros parlamentares, já não bastam
para manter a sociedade em um estado de equilíbrio, a virada do regime
fascista se dá. Por meio da instigação fascista, o capitalismo põe em ação as
massas da pequena burguesia enlouquecida e os bandos dos desclassi cados e
desmoralizados lumpenproletariat — todos os inúmeros seres humanos cujo
capital nanceiro levou ao desespero e ao frenesi.
A burguesia exige do fascismo uma tarefa difícil: já tendo recorrido aos
métodos de guerra civil, ela insiste em ter paz por um período de anos. E a
instigação fascista, utilizando a pequena burguesia como um aríete, superando
todos os obstáculos em seu caminho, faz um trabalho difícil. Após a vitória do
fascismo, o capital nanceiro direta e imediatamente cai em suas mãos, como
numa prensa de aço, aí incluídos todos os órgãos e instituições de soberania; os
poderes executivo, administrativo e educacional do Estado: todo o aparato
estatal, em conjunto com o Exército, as prefeituras, as universidades, as escolas,
a imprensa, os sindicatos e as cooperativas. Quando um Estado se torna
fascista, isso não signi ca apenas que as formas e métodos de governo mudam
de acordo com os padrões estabelecidos por Mussolini — as mudanças nessa
esfera, a nal, têm papel modesto —, mas signi ca em primeiro lugar e
basicamente que as organizações dos trabalhadores serão aniquiladas; que o
proletariado será reduzido a um estado amorfo e que será criado um sistema de
administração que penetre fundo nas massas e sirva para frustrar a cristalização
independente do proletariado. Precisamente aí reside a essência do fascismo...

***

O fascismo italiano foi o produto imediato da traição cometida pelos


reformistas contra o levante do proletariado italiano. Quando a (Primeira)
Guerra Mundial terminou, houve uma tendência de fortalecimento no
movimento revolucionário na Itália, e em setembro de 1920 isso resultou na
tomada de usinas e indústrias pelos operários. A ditadura do proletariado era
um fato real; tudo que faltava era organizá-la e tirar daí as conclusões
necessárias. A social-democracia teve medo e recuou. Após os esforços arrojados
e heroicos, o proletariado cou a ver navios. A interrupção do movimento
revolucionário se tornou o fator mais importante para o crescimento do
fascismo. Em setembro, o avanço revolucionário estacionou, e novembro
testemunhou a primeira grande manifestação dos fascistas (a tomada de
Bolonha).2
É fato que o proletariado, mesmo depois da catástrofe de setembro, foi
capaz de travar batalhas defensivas, mas a social-democracia estava preocupada
com uma coisa apenas: tirar de combate os operários ao custo de uma
concessão após a outra. A social-democracia tinha a esperança de que a conduta
dócil dos operários alimentasse a “opinião pública” da burguesia contra os
fascistas. Ademais, os reformistas chegaram a contar com a ajuda do rei Vitorio
Emanuel. Até o último segundo, tentaram com todas as forças impedir que os
operários combatessem os bandos de Mussolini. De nada adiantou. A coroa,
com a nata da burguesia, bandeou-se para o lado do fascismo. Convencidos no
derradeiro instante de que o fascismo não seria combatido com a obediência,
os social-democratas convocaram os operários para uma greve geral. Mas tal
convocação revelou-se um asco. Os reformistas haviam mantido a pólvora
úmida durante tanto tempo, temendo que ela explodisse, que quando
nalmente com mão trêmula acenderam o pavio o rastilho não se incendiou.
Dois anos depois de nascido, o fascismo chegou ao poder. Entrincheirou-
se graças ao fato de o primeiro período de seu domínio ter coincidido com
uma conjuntura econômica favorável, que se seguiu à depressão de 1921-22.
Os fascistas esmagaram com as forças ofensivas da pequena burguesia o
proletariado que batia em retirada. Mas isso não se deu por meio de um único
golpe. Mesmo após assumir o poder, Mussolini prosseguia com a devida
cautela: ainda carecia de modelos prontos para o uso. Durante os primeiros
dois anos, nem sequer a constituição foi alterada. O governo fascista assumiu a
natureza de uma coalizão. Nesse ínterim, as hostes fascistas atuavam com paus,
facas e pistolas. Assim, o governo fascista se criou aos poucos, o que levou ao
estrangulamento completo de todas as organizações de massa independentes.
Mussolini obteve isso ao custo da burocratização do próprio partido
fascista. Após utilizar as forças ofensivas da pequena burguesia, o fascismo a
estrangulou nos meandros do Estado burguês. Mussolini não poderia ter agido
de outra forma, pois a desilusão das massas que unira tornava-se o perigo mais
imediato que teria à frente. O fascismo, tornado burocrata, se aproxima muito
de outras formas de ditadura militar e policial. Já não conta com seu antigo
apoio social. A principal reserva do fascismo — a pequena burguesia — foi
exaurida. Apenas a inércia histórica permite que o governo fascista mantenha o
proletariado em um estado de dispersão e impotência...
Em sua política no que tange a Hitler, a social-democracia alemã não foi
capaz de acrescentar uma única palavra sequer: tudo o que faz é repetir mais
portentosamente o que quer que os reformistas italianos em sua própria época
encenaram com muito mais intensidade. Esses explicavam o fascismo como
uma psicose pós-guerra;3 a social-democracia alemã vê nele um “Versalhes” ou
psicose da crise. Em ambas as situações, os reformistas fecharam os olhos à
natureza orgânica do fascismo como um movimento de massa surgido do
colapso do capitalismo.
Temerosos da mobilização revolucionária dos operários, os reformistas
italianos depositaram toda a sua esperança no “Estado”. Seu slogan era:
“Socorro! Vitor Emanuel, exerça pressão!” A social-democracia alemã carece de
um estandarte democrático da estatura de um monarca leal à constituição. Por
esse motivo, precisam se contentar com um presidente — “Socorro!
Hindenburg, exerça pressão!” 4
Enquanto combatia Mussolini, ou seja, retrocedia diante dele, Turati5
expressou seu fascinante mote: “É preciso virilidade para ser um covarde.” Os
reformistas alemães são menos joviais em seus slogans. Exigem “coragem sob a
impopularidade” (Mut zur Unpopularitaet) — o que acaba sendo a mesma
coisa. Não se pode temer a impopularidade resultante da contemporização
covarde com o inimigo.
Causas idênticas produzem efeitos idênticos. Caso a marcha dos
acontecimentos dependesse da liderança do partido social-democrata, a carreira
de Hitler estaria garantida.
É preciso admitir, contudo, que o Partido Comunista alemão também
pouco aprendeu com a experiência italiana.
O Partido Comunista italiano nasceu quase simultaneamente ao fascismo.
Mas as mesmas condições da maré revolucionária que levou os fascistas ao
poder detiveram o desenvolvimento do Partido Comunista, que, não se dando
conta da dimensão exata do perigo fascista, se deixou embalar por ilusões
revolucionárias; era irremediavelmente antagônico à política da frente única.
Em resumo, foi acometido por todas as moléstias infantis. Não espanta! Tinha
apenas dois anos. A seus olhos, o fascismo parecia ser apenas uma “reação ao
capitalismo”. O Partido Comunista foi incapaz de perceber os traços peculiares
do fascismo oriundos da mobilização da pequena burguesia contra o
proletariado. Companheiros italianos me informam que, com exceção apenas
de Gramsci,6 o Partido Comunista sequer aventava a possibilidade de os
fascistas tomarem o poder. Uma vez derrotada a revolução proletária, uma vez
estabelecido o capitalismo e vitoriosa a contrarrevolução, como poderia haver
qualquer outro tipo de levante contrarrevolucionário? Como poderia a
burguesia se insurgir contra si mesma? Era essa a tônica da orientação política
do Partido Comunista italiano. Ademais, não se pode perder de vista o fato de
que o fascismo italiano era então um fenômeno novo, no início do processo de
formação; não seria tarefa fácil, mesmo para um partido mais experiente,
identi car seus traços especí cos.
A liderança do Partido Comunista alemão hoje reproduz quase
literalmente a posição da qual os comunistas italianos partiram; o fascismo
nada mais é do que a reação capitalista; do ponto de vista do proletariado, a
distinção entre os diferentes tipos de reação capitalista é irrelevante. Esse
radicalismo vulgar é menos desculpável ainda porque o partido alemão é muito
mais velho do que o italiano era num período correspondente; além disso, o
marxismo está enriquecido agora pela trágica experiência na Itália. Insistir que
o fascismo já está aqui, ou negar a possibilidade de sua chegada ao poder,
equivale, politicamente, à mesma coisa. Ao ignorar a natureza especí ca do
fascismo, a vontade de lutar contra ele ca paralisada.
A culpa precisa ser assumida, é claro, pela liderança da Internacional
Comunista. Os comunistas italianos, acima de todos os outros, estariam
obrigados a levantar suas vozes, alarmados. Mas Stálin, com Manuilsky,7
convenceu-os a renegar as mais importantes lições de sua própria aniquilação.
Já observamos com que pressa Ercoli8 se bandeou para a posição do social-
fascismo — i.e., para a posição de espera passiva pela vitória fascista na
Alemanha.

O PERIGO FASCISTA RONDA A ALEMANHA


De A guinada na Internacional Comunista e a situação alemã, 1930

A imprensa o cial da Internacional Comunista descreve agora os


resultados das eleições alemães [setembro de 1930] como uma prodigiosa
vitória do comunismo, o que põe na ordem do dia o slogan da Alemanha
soviética. Os burocratas otimistas não desejam re etir sobre o signi cado da
relação de forças revelada pelas estatísticas eleitorais. Estudam os números do
crescimento do voto comunista independentemente das necessidades
revolucionárias criadas pela situação e dos obstáculos que ela impõe. O Partido
Comunista recebeu cerca de 4.600.000 votos, contra os 3.300.000 recebidos
em 1928. Do ponto de vista da mecânica parlamentar “normal”, o ganho de
1.300.000 votos é digno de nota, mesmo se considerado o aumento no
número total de eleitores. Mas o ganho do partido empalidece por completo ao
lado do salto do fascismo, de 800.000 para 6.400.000 votos. Não menos
relevante para a avaliação das eleições é o fato de que a social-democracia, a
despeito de perdas substanciais, manteve seus quadros básicos e ainda recebeu
um número consideravelmente maior de votos de operários [8.600.000] do
que o Partido Comunista.
Enquanto isso, se nos perguntássemos “Que combinação de circunstâncias
nacionais e internacionais seria capaz de fazer a classe operária se bandear para
o comunismo com velocidade maior?”, não encontraríamos um exemplo de
circunstâncias mais favoráveis do que a situação na Alemanha de hoje: o nó de
forca de Young,9 a crise econômica, a desintegração das normas, a crise do
parlamentarismo, a terrível autoexposição da social-democracia no poder. Do
ponto de vista dessas circunstâncias históricas concretas, o peso especí co do
Partido Comunista alemão na vida social do país, apesar do ganho de
1.300.000 votos, permanece proporcionalmente pequeno.
A fragilidade da posição do comunismo, indissoluvelmente ligada à
política e ao regime da Internacional Comunista, se revela mais claramente se
compararmos o peso social atual do Partido Comunista às ações concretas e
inadiáveis que as circunstâncias históricas do momento lhe impõem.
É verdade que o próprio Partido Comunista não esperava tamanho ganho.
Mas isso prova que, sob o impacto de erros e derrotas, a liderança dos partidos
comunistas se desabituou de nutrir grandes objetivos e perspectivas. Se ontem
subestimava suas possibilidades, hoje mais uma vez subestima as di culdades.
Dessa forma, um perigo é multiplicado por outro.
Nesse ínterim, a primeira característica de um partido realmente
revolucionário é ser capaz de encarar a realidade.

***

A m de que a crise social possa gerar a revolução proletária, é necessário


que, além de outras condições, uma guinada decisiva nas classes pequeno-
burguesas ocorra em direção ao proletariado. Isso dá ao proletariado a
oportunidade de se colocar à frente da nação como seu líder.
A última eleição revelou — e é aqui que reside sua principal relevância
sintomática — uma guinada na direção oposta. Sob o peso da crise, a pequena
burguesia mudou de rumo, não na direção da revolução proletária, mas em
direção à mais extrema reação imperialista, trazendo atrás de si parcelas
consideráveis do proletariado.
O crescimento gigantesco do nacional-socialismo é a expressão de dois
fatores: uma profunda crise social, desestabilizando as massas da pequena
burguesia, e a carência de um partido revolucionário que seja visto pelas massas
do povo como um líder revolucionário reconhecido. Se o Partido Comunista é
o partido da esperança revolucionária, o fascismo, como movimento de massa, é
o partido do desespero contrarrevolucionário. Quando a esperança revolucionária
abraça toda a massa proletária, inevitavelmente ela puxa atrás de si na trilha da
revolução consideráveis parcelas da pequena burguesia. Precisamente nessa
esfera, a eleição revelou o cenário oposto: o desespero contrarrevolucionário
abraçou a massa pequeno-burguesa com tamanha força que trouxe atrás de si
muitas parcelas do proletariado...
O fascismo na Alemanha se tornou um perigo real, como uma expressão
aguda da posição impotente do regime burguês, o papel conservador da social-
democracia nesse regime e a impotência acumulada do Partido Comunista para
derrubá-lo. Quem se dispuser a negar isso ou é cego, ou um fanfarrão...
O perigo adquire especial gravidade quando associado à questão do tempo
de desenvolvimento, que não depende apenas de nós. A natureza intensa da
curva política revelada pela eleição demonstra que o tempo de desenvolvimento
da crise nacional pode vir a ser muito rápido. Em outras palavras, o curso dos
acontecimentos em um futuro muito próximo pode ressuscitar na Alemanha,
em um novo plano histórico, a velha contradição trágica entre a maturidade de
uma situação revolucionária, por um lado, e a fragilidade e impotência
estratégica do partido revolucionário, por outro. Isso precisa ser dito
claramente, abertamente e, acima de tudo, a tempo.

***

Pode a força da resistência conservadora dos operários social-democratas


ser calculada de antemão? Não. À luz dos acontecimentos do ano passado, essa
força parece ser gigantesca, mas a verdade é que o que mais ajudou a consolidar
a social-democracia foi a política equivocada do Partido Comunista, que
encontrou sua mais alta generalização na teoria absurda do social-fascismo.
Para medir a resistência real das leiras social-democratas, é necessário um
instrumento de aferição diferente, ou seja, uma tática comunista correta. Com
essa condição — que não é modesta —, o grau de unidade interna da social-
democracia pode ser revelado em um período comparativamente curto.
De uma forma diversa, o que foi dito acima também se aplica ao fascismo:
ele emanou, afora as outras condições presentes, da instabilidade da estratégia
Zinoviev-Stálin.10 Qual é o tamanho da sua força ofensiva? Qual a sua
estabilidade? Terá alcançado seu ponto culminante, como os otimistas ex-officio
[a Internacional Comunista e as autoridades do Partido Comunista] nos
garantem, ou está apenas no primeiro degrau da escada? Isso não pode ser
previsto mecanicamente. Só pode ser determinado por meio da ação.
Precisamente no que concerne ao fascismo, que é uma navalha nas mãos da
classe inimiga, a política equivocada da Internacional Comunista pode
produzir resultados fatais em um período curto. Por outro lado, a política
correta — não em período tão curto, é verdade — pode minar as posições do
fascismo...
Se o Partido Comunista, a despeito das circunstâncias excepcionalmente
favoráveis, se mostrou impotente para abalar a estrutura da social-democracia
com o auxílio da fórmula do “social-fascismo”, o fascismo real agora ameaça
sua estrutura, não mais com uma fórmula verbal do chamado radicalismo, mas
com as fórmulas químicas de explosivos. Por mais verdadeira que seja a
a rmação de que a social-democracia com toda a sua política preparou o
orescimento do fascismo, não menos verdade é que o fascismo se apresenta
como uma ameaça letal primariamente à mesma social-democracia, cuja
magni cência está indissoluvelmente ligada às formas e aos métodos de
governo parlamentarista-democrático-paci sta...
A política de uma frente única de operários contra o fascismo decorre
dessa situação. Ela cria tremendas possibilidades para o Partido Comunista.
Uma condição para o sucesso, porém, é a rejeição da teoria e da prática do
“social-fascismo”, cujo dano pode ser mensurado sob as circunstâncias atuais.
A crise social produzirá inevitavelmente profundas cisões dentro da social-
democracia. A radicalização das massas afetará os social-democratas. Teremos,
inevitavelmente, de fazer acordos com várias organizações e facções social-
democratas contra o fascismo, apresentando condições de nitivas aos líderes,
diante dos olhos das massas... Precisamos abandonar os discursos vazios sobre a
frente única e adotar a política da frente única conforme formulada por Lênin
e sempre aplicada pelos bolchevistas em 1917.

UMA FÁBULA DE ESOPO


De E agora? Perguntas vitais ao proletariado alemão, 1932

Um comerciante de gado certa vez levou alguns touros ao abatedouro. E o


açougueiro logo surgiu com seu facão a ado.
— Vamos unir forças e zunir esse carrasco daqui com nossos chifres —
sugeriu um dos touros.
— Desculpe, mas de que forma o açougueiro é pior do que o comerciante
que nos trouxe aqui com seu chicote? — retrucaram os touros, que haviam
recebido educação política no Instituto Manuilsky.11
— Mas poderemos cuidar do comerciante também depois!
— Nada feito — responderam os touros, rmes em seus princípios, ao
líder. — Você está tentando, de um jeito esquerdista, proteger nossos inimigos:
você é um social-açougueiro.
E se recusaram a unir forças.

OS POLICIAIS E O EXÉRCITO ALEMÃES


De E agora? Perguntas vitais ao proletariado alemão, 1932

No caso do perigo atual, a social-democracia não depende da “Frente de


Ferro”,12 mas da polícia prussiana. Conta com o que não tem! O fato de a
polícia ter sido originalmente recrutada em grande parte entre os operários
social-democratas é totalmente irrelevante. A consciência é determinada pelo
ambiente, mesmo nessa situação. O operário que se torna policial a serviço do
Estado capitalista é um tira capitalista, não um operário. Nos últimos anos,
esses policiais precisaram entrar em muito mais lutas contra os operários
revolucionários do que contra os estudantes nazistas. Tal treinamento produz
seus efeitos. E acima de tudo: todo policial sabe que. embora os governos
possam mudar, a polícia permanece.
Em sua edição de ano-novo, o órgão teórico da social-democracia, Dar
Freie Wort (que lixo de publicação!), traz um artigo em que a política de
“tolerância” é exposta no seu mais alto sentido. Hitler, ao que parece, jamais
chegará ao poder contra a polícia e o Reichswehr [Exército alemão]. Ora,
segundo a constituição, o Reichswehr está sob o comando do presidente da
república. Daí decorre que o fascismo não é perigoso desde que um presidente
leal à constituição permaneça à frente do governo. O regime de Bruening13 terá
de ser apoiado até as eleições presidenciais de forma que um presidente
constitucional possa então ser eleito, por meio de uma aliança com a burguesia
parlamentar, e sendo assim a estrada de Hitler para o poder cará bloqueada
por mais sete anos...
Os políticos do reformismo, esses manipuladores habilidosos, intrigantes
engenhosos e carreiristas, parlamentares experientes e maquinadores
ministeriais, nem bem são expulsos de sua esfera habitual pelo curso dos
acontecimentos, nem bem são postos cara a cara com contingências cruciais e
imediatamente se revelam — não há expressão mais suave para usar — ineptos.
Con ar em um presidente é tão somente con ar no “governo”! Diante do
iminente embate entre o proletariado e a pequena burguesia fascista — dois
campos que juntos compõem a esmagadora maioria da nação alemã —, esses
marxistas dos Vorwaerts14 apelam para que o vigilante noturno os acuda:
“Socorro! Governo, exerça pressão!” (Staat, greif zu!)

A BURGUESIA, A PEQUENA BURGUESIA E O PROLETARIADO


De A única estrada para a Alemanha, escrito em setembro de 1932 e publicado nos Estados
Unidos em abril de 1933
Qualquer análise séria da situação política precisa ter como ponto de
partida as relações mútuas entre as três classes: a burguesia, a pequena
burguesia (incluídos aí os camponeses) e o proletariado.
A grande burguesia economicamente poderosa, em si, representa uma
minoria in nitesimal da nação. Para impor seu domínio, ela precisa garantir
uma relação mútua de nitiva com a pequena burguesia e, com a mediação
desta, com o proletariado.
Para entender a dialética da relação entre as três classes, precisamos
diferenciar três estágios históricos: a aurora do desenvolvimento capitalista,
quando a burguesia necessitava de métodos revolucionários para resolver suas
di culdades; o período do auge e maturidade do regime capitalista, quando a
burguesia dotou seu domínio de formas ordeiras, pací cas, conservadoras e
democráticas; e, nalmente, o declínio do capitalismo, quando a burguesia é
forçada a recorrer a métodos de guerra civil contra o proletariado para proteger
seu direito à exploração.
Os programas políticos característicos desses três estágios —
JACOBINISMO,15 DEMOCRACIA reformista (inclusive a social-democracia) e o
FASCISMO — são, basicamente, programas de correntes pequeno-burguesas.
Esse fato sozinho, mais do que qualquer outra coisa, demonstra que tremenda
importância — ou melhor, que importância decisiva — tem a
autodeterminação das massas pequeno-burguesas do povo para o destino
integral da sociedade burguesa.
No entanto, a relação entre a burguesia e seu suporte social básico, a
pequena burguesia, não se assenta em absoluto sobre a con ança recíproca e a
colaboração pací ca. Em sua massa, a pequena burguesia é uma classe
explorada e desprivilegiada. Encara a burguesia com inveja e frequentemente
com ódio. A burguesia, por outro lado, embora se valha do apoio da pequena
burguesia, descon a desta, pois corretamente teme sua tendência a derrubar as
barreiras para ela estabelecidas de cima.
Enquanto lançavam as bases e abriam caminho para o desenvolvimento da
burguesia, os jacobinos travaram, a cada passo, violentos embates contra ela.
Serviram-na em uma luta intransigente contra ela. Após exaurirem seu papel
histórico limitado, os jacobinos caíram, pois o domínio do capital foi
predeterminado.
Durante uma série de estágios, a burguesia entrincheirou seu poder sob a
forma de democracia parlamentar. Mesmo então, não de forma pací ca e não
voluntariamente. A burguesia tinha um medo mortal do sufrágio universal.
Mas no nal conseguiu, com a ajuda de uma combinação de medidas violentas
e concessões, de privatizações e reformas, sujeitar, dentro da estrutura da
democracia formal, não só a pequena burguesia, como também, em
considerável medida, o proletariado, por meio da nova pequena burguesia — a
aristocracia operária. Em agosto de 1914,16 a burguesia imperial foi capaz, com
os instrumentos da democracia parlamentar, de levar milhões de operários e
camponeses à guerra.
No entanto, precisamente com a guerra tem início o declínio do
capitalismo e, acima de tudo, de sua forma democrática de domínio. Já não se
trata de novas reformas e esmolas, mas da redução e abolição das antigas. Com
isso, a burguesia entra em con ito não só com as instituições da democracia
proletária (sindicatos e partidos políticos), mas também com a democracia
parlamentar, no bojo da qual surgiram as organizações operárias. Daí a
campanha contra o “marxismo”, por um lado, e contra o parlamentarismo
democrata, por outro.
Entretanto, assim como as cúpulas da burguesia liberal em sua época
foram incapazes, por conta própria, de se livrar do feudalismo, da monarquia e
da igreja, os magnatas do capital nanceiro são incapazes, por conta própria, de
enfrentar o proletariado. Precisam do apoio da pequena burguesia. Para tanto,
ela precisa ser açoitada, posta de pé, mobilizada, armada. Mas esse método tem
seus perigos. Embora faça uso do fascismo, a burguesia ainda assim o teme.
Pilsudski17 foi obrigado, em maio de 1926, a salvar a sociedade burguesa por
meio de um golpe de Estado perpetrado contra os partidos tradicionais da
burguesia polonesa. A questão foi tão longe que o líder do Partido Comunista
polonês, Warski,18 que trocou a linha losó ca de Rosa Luxemburgo19 não pela
de Lênin, mas pela de Stálin, acreditou que o golpe de Estado de Pilsudski
fosse o caminho para a “ditadura democrata revolucionária” e convocou os
operários a apoiarem Pilsudski.
Na sessão da Comissão Polonesa do Comitê Executivo da Internacional
Comunista, em 2 de julho de 1926, o autor destas linhas disse o seguinte a
respeito dos acontecimentos na Polônia:
Visto como um todo, o golpe de Pilsudski é a maneira “plebeia” pequeno-
burguesa de resolver os problemas escaldantes da sociedade burguesa em seu
estado de decomposição e declínio. Já temos uma semelhança direta com o
fascismo italiano.
Essas duas correntes indubitavelmente possuem feições em comum:
recrutam suas tropas de choque primeiramente na pequena burguesia;
Pilsudski, assim como Mussolini, agiu com meios extraparlamentares, com
violência explícita, com métodos de guerra civil. Ambos se preocuparam não
com a destruição, mas com a preservação da sociedade burguesa. Embora
tivessem posto a pequena burguesia de pé, ostensivamente se alinharam, após a
tomada do poder, com a grande burguesia. Involuntariamente, uma
generalização histórica surge aqui, recordando a avaliação de Marx sobre o
jacobinismo como o método plebeu de acertar contas com os inimigos feudais
da burguesia... Isso se deu no período de ascensão da burguesia. Agora, é preciso
que se diga, no período de declínio da sociedade burguesa, novamente a
burguesia precisa do método “plebeu” para resolver seus problemas não mais
progressistas, mas totalmente reacionários. Nesse sentido, o fascismo é uma
caricatura do jacobinismo.
A burguesia é incapaz de se manter no poder pelos meios e métodos do
Estado parlamentarista que criou; precisa do fascismo como arma de
autodefesa, ao menos em situações críticas. Ainda assim, a burguesia não gosta
do método “plebeu” de resolver seus problemas. Sempre foi hostil ao
jacobinismo, que abriu caminho com seu sangue para o desenvolvimento da
sociedade burguesa. Os fascistas estão muitíssimo mais próximos da burguesia
decadente do que os jacobinos estavam da burguesia ascendente. Não obstante,
a burguesia sóbria não vê com bons olhos o modo fascista de resolver seus
problemas, pois os abalos, embora causados no interesse da sociedade burguesa,
a põem em perigo. Daí a contradição entre o fascismo e os partidos burgueses.
A grande burguesia gosta do fascismo tanto quanto um homem com dor
de dente gosta de vê-lo extraído. Os círculos sóbrios da sociedade burguesa
acompanharam com descon ança o trabalho do dentista Pilsudski, mas em
última análise aceitaram o inevitável, embora com ameaças, negociações
espúrias e todo tipo de barganha. Assim, o ídolo de ontem da pequena
burguesia se transforma no gendarme do capital.
A essa tentativa de determinar o lugar histórico do fascismo como o
sucessor político da social-democracia foi contraposta a teoria do fascismo
social. A princípio, ela pode parecer uma estupidez pretensiosa, exibicionista,
mas inofensiva. Acontecimentos posteriores mostraram o quanto foi perniciosa
a in uência da teoria stalinista sobre todo o desenvolvimento da Internacional
Comunista.
Será correto dizer, a partir do papel histórico do jacobinismo, da
democracia e do fascismo, que a pequena burguesia está fadada a continuar
sendo um instrumento nas mãos do capital até o m de seus dias? Se assim
fosse, a ditadura do proletariado seria impossível numa série de países em que a
pequena burguesia constitui a maioria da nação e, mais que isso, tornar-se-ia
extremamente difícil em outros países onde a pequena burguesia representa
uma minoria importante. Felizmente, as coisas não são assim. A experiência da
Comuna de Paris20 mostrou primeiro, ao menos dentro dos limites de uma
cidade, assim como a experiência da Revolução de Outubro21 mostrou depois,
numa escala maior e durante um período incomparavelmente mais longo, que
a aliança da pequena burguesia com a grande burguesia não é indissolúvel.
Como a pequena burguesia é incapaz de uma política independente (o que
também explica por que a “ditadura democrática” da pequena burguesia é
irrealizável), não lhe resta outra opção senão car entre a burguesia e o
proletariado.
Na época do surgimento, do crescimento e do orescimento do
capitalismo, a pequena burguesia, a despeito de graves demonstrações de
insatisfação, em geral marchou obedientemente sob a rédea capitalista. Nem
poderia ter feito outra coisa. No entanto, sob as condições da desintegração do
capitalismo e do impasse na situação econômica, a pequena burguesia almeja,
busca e tenta a todo o custo se desligar das esporas dos antigos senhores e
governantes da sociedade. Ela é bastante capaz de unir seu destino ao do
proletariado. Para tanto basta uma coisa: a pequena burguesia precisa adquirir
fé na capacidade do proletariado de guiar a sociedade por um novo caminho.
O proletariado só pode inspirar essa fé com a sua força, com a rmeza de suas
ações, com uma ofensiva competente contra o inimigo, com o sucesso de sua
política revolucionária.
Mas ai de todos se o partido revolucionário não se mostrar à altura da
situação! A luta diária do proletariado aumenta a instabilidade da sociedade
burguesa. As greves e os tumultos políticos agravaram a situação econômica do
país. A pequena burguesia poderia tolerar temporariamente as crescentes
privações caso adquirisse por experiência própria a convicção de que o
proletariado está em posição de conduzi-la por um novo caminho. Mas se o
partido revolucionário provar, repetidamente, ainda que uma luta de classes se
torne cada vez mais acentuada, que é incapaz de unir a classe operária, se
vacilar, car confuso, se cair em contradições, a pequena burguesia perderá a
paciência e começará a culpar os operários revolucionários pela sua própria
desgraça. Todos os partidos burgueses, inclusive a social-democracia, voltam
seu pensamento precisamente para essa direção. Quando a crise social assume
uma intensidade intolerável, um partido especí co surge em cena com o
objetivo direto de incitar a pequena burguesia e dirigir seu ódio e desespero
contra o proletariado. Na Alemanha, essa função histórica é cumprida pelo
nacional-socialismo (nazismo), uma ampla corrente cuja ideologia se compõe
de todos os vapores pútridos da sociedade burguesa em desintegração.

O COLAPSO DA DEMOCRACIA BURGUESA


De Para onde vai a França?, 1934

Após a guerra, uma série de revoluções brilhantemente vitoriosas ocorreu


na Rússia, na Alemanha, na Áustria-Hungria e, posteriormente, na Espanha.
No entanto, apenas na Rússia o proletariado assumiu o poder total, expropriou
seus exploradores e soube criar e manter um Estado do operariado. Em todos
os outros lugares, o proletariado, a despeito de sua vitória, parou a meio
caminho, devido aos erros de sua liderança. Em consequência, o poder lhe
escapou das mãos, deu uma guinada da esquerda para a direita e se tornou uma
presa do fascismo. Numa série de outros países, o poder passou para as mãos de
uma ditadura militar. Em lugar algum os parlamentos foram capazes de
resolver as contradições de classe e garantir a evolução pací ca dos
acontecimentos. Os con itos foram resolvidos sob a mira de armas.
O povo francês durante muito tempo achou que o fascismo em nada lhe
dizia respeito. Havia uma república em que o povo soberano, por meio do
sufrágio universal, lidava com todas as questões. Em 6 de fevereiro de 1934,
porém, milhares de fascistas e monarquistas, armados de revólveres, paus e
navalhas, impuseram ao país o governo reacionário de Doumergue,22 sob cuja
proteção os bandos fascistas continuaram a crescer e a se armar. O que nos
reserva o amanhã?
Claro que na França, como em alguns outros países europeus (Inglaterra,
Bélgica, Holanda, Suíça e os países escandinavos), ainda existem parlamentos,
eleições, liberdades democráticas ou seus remanescentes. Mas em todos esses
países, as mesmas leis históricas funcionam, as leis do declínio capitalista. Se os
meios de produção permanecem nas mãos de um pequeno número de
capitalistas, não existe saída para a sociedade. Ela está condenada a ir de uma
crise para outra, da necessidade para a miséria, de mal a pior. Nos vários países,
a decrepitude e a desintegração do capitalismo se expressam de formas diversas
e em ritmos desiguais. No entanto, os aspectos básicos do processo são os
mesmos em todo lugar. A burguesia está levando a sociedade à falência
completa. Não é capaz de assegurar ao povo nem pão, nem paz. Precisamente
por isso ela não pode mais tolerar a ordem democrática, é obrigada a esmagar
os operários e camponeses com o uso de violência física. A insatisfação dos
operários e camponeses, contudo, não pode ser contida apenas pela polícia.
Ademais, é quase sempre impossível fazer o Exército marchar contra o povo.
No começo, ele se desintegra e depois uma grande parte dos soldados se
bandeia para o lado do povo. Por esse motivo, o capital nanceiro é forçado a
criar bandos especiais armados, treinados para combater o povo, exatamente
como certas raças caninas são treinadas para a caça. A função histórica do
fascismo é esmagar a classe operária, destruir suas organizações e sufocar
liberdades políticas quando os capitalistas se veem incapazes de governar e
dominar com a ajuda da máquina democrata.
Os fascistas encontram seu material humano sobretudo na pequena
burguesia, totalmente arruinada pelo grande capital. Não lhe resta saída na
ordem social atual, mas ela não conhece qualquer outra. Sua insatisfação, sua
indignação e seu desespero são desviados do grande capital pelos fascistas e
dirigidos contra os operários. Pode-se dizer que o fascismo é o ato de colocar a
pequena burguesia à disposição de seus mais aguerridos inimigos. Dessa forma,
o grande capital arruína as classes médias e depois, com o auxílio de demagogos
fascistas contratados, incita a pequena burguesia desesperada contra o operário.
O regime burguês só pode ser preservado por meios tão sanguinários quanto
esses. Durante quanto tempo? Até que seja derrubado pela revolução proletária.

A PEQUENA BURGUESIA TEME A REVOLUÇÃO?


De Para onde vai a França?, 1934

Os adptos do cretinismo parlamentar, que se consideram conhecedores do


povo, gostam de repetir: “É preciso não amedrontar as classes médias com a
revolução. Elas não gostam de extremos.”
Nesse contexto geral, tal a rmação é totalmente falsa. Claro que o
pequeno proprietário prefere a ordem, desde que seu negócio esteja indo bem e
desde que ele tenha esperança de que se sairá melhor amanhã.
Mas quando perde a esperança ele é facilmente convencido e se dispõe a
adotar as medidas mais extremas. Do contrário, como poderia ter derrubado o
Estado democrático e levado o fascismo ao poder na Itália e na Alemanha? A
pequena burguesia desesperada vê no fascismo, acima de tudo, uma força de
combate ao grande capital e crê que, ao contrário dos partidos operários que
lidam com ele apenas no papel, o fascismo usará a força para impor mais
“justiça”. O camponês e o artesão são, a seu modo, realistas. Entendem que
não se pode dispensar o uso da força.
É falsa, três vezes falsa, a a rmação de que a atual pequena burguesia não
se lia aos partidos operários porque teme “medidas extremas”. Muito pelo
contrário. A pequena burguesia mais baixa, suas grandes massas, vê nos
partidos operários apenas máquinas parlamentares. Não acreditam em sua
força, nem em sua capacidade de luta, nem em sua disposição desta vez para ir
até o m.
E se assim é, vale a pena substituir os representantes do capitalismo
democrático por seus confrades de esquerda? É dessa forma que o proprietário
semiexplorado, arruinado e insatisfeito raciocina ou se sente. Sem uma
compreensão de tal psicologia dos camponeses, dos artesãos, dos empregados,
pequenos burocratas etc. — a psicologia que deriva da crise social —, é
impossível elaborar uma política correta. A pequena burguesia é
economicamente dependente e politicamente atomizada. Por isso não é capaz
de conduzir uma política independente. Precisa de um “líder” que lhe inspire
con ança. Essa liderança individual ou coletiva, i.e., um personagem ou
partido, pode lhe ser dada por uma ou outra das classes fundamentais — seja a
grande burguesia ou o proletariado. O fascismo une e arma as massas dispersas.
Do rebotalho humano, ele organiza destacamentos de combate. Provê, assim, à
pequena burguesia a ilusão de ser uma força independente. Ela começa a
imaginar que irá, com efeito, comandar o Estado. Não espanta que essas ilusões
e esperanças virem a cabeça da pequena burguesia!
No entanto, a pequena burguesia também pode achar um líder no
proletariado, como cou demonstrado na Rússia e parcialmente na Espanha.
Na Itália, na Alemanha e na Áustria, a pequena burguesia gravitou nessa
direção, mas os partidos do proletariado não zeram jus à sua missão histórica.
Para levar a pequena burguesia a apoiá-lo, o proletariado precisa
conquistar sua con ança. E para tanto precisa ter con ança em sua própria
força.
Ele precisa ter um programa claro de ação e estar pronto para lutar pelo
poder com todos os meios possíveis. Preparados por seu partido revolucionário
para uma luta decisiva e impiedosa, o proletariado diz aos camponeses e à
pequena burguesia das cidades: “Estamos lutando pelo poder. Este é o nosso
programa. Estamos prontos para discutir com vocês mudanças neste programa.
Usaremos violência apenas contra o grande capital e seus lacaios, mas com
vocês, trabalhadores, queremos fazer uma aliança com base em um
determinado programa.”
Os camponeses entenderão tal linguagem, mas precisam ter fé na
capacidade do proletariado de tomar o poder.
Para tanto, contudo, é preciso expurgar da frente única toda tergiversação,
toda a indecisão, todas as frases vazias. É preciso entender a situação e se
posicionar seriamente no caminho revolucionário.

A MILÍCIA DOS OPERÁRIOS E SEUS OPONENTES


De Para onde vai a França?, 1934

Para lutar, é preciso conservar e fortalecer o instrumento e os meios de luta


— as organizações, a imprensa, as assembleias etc. O fascismo [na França]
ameaça tudo isso direta e imediatamente. Ainda está fraco demais para a luta
direta pelo poder, mas su cientemente forte para tentar abater as organizações
operárias pouco a pouco, para controlar suas hostes em seus ataques e
disseminar nas leiras do operariado o desânimo e a falta de con ança na
própria força.
O fascismo encontra auxiliares inconscientes naqueles que dizem que a
“luta física” é inadmissível ou vã e exigem de Doumergue o desarmamento de
sua guarda fascista. Nada é mais perigoso para o proletariado, sobretudo na
situação atual, do que o veneno doce de falsas esperanças. Nada aumenta tanto
a insolência dos fascistas quanto o “paci smo indolente” das organizações
operárias. Nada destrói mais a con ança das classes médias na classe operária
quanto a contemporização, a passividade e a ausência de desejo de luta.
O Le Populaire [jornal do Partido Socialista] e, sobretudo, o l’Humanité
[jornal do Partido Comunista] diariamente escrevem:
“A frente única é uma barreira contra o fascismo”;
“a frente única não permitirá...”;
“os fascistas não ousarão” etc.
Frases apenas. É necessário dizer objetivamente aos operários, aos
socialistas e comunistas: não se deixem engambelar pelas frases de jornalistas e
oradores super ciais e irresponsáveis. Trata-se das nossas cabeças e do futuro do
socialismo. Não que devamos negar a importância da frente única. Nós a
exigimos quando os líderes de ambos os partidos eram contra ela. A frente
única abre inúmeras oportunidades, mas nada além disso. Em si mesma, a frente
única nada decide. A frente única revelará seu valor quando os destacamentos
comunistas vierem em auxílio dos destacamentos socialistas, e vice-versa, no
caso de um ataque dos bandos fascistas contra o Le Populaire ou o l’Humanité.
Para tanto, porém, destacamentos proletários de combate precisam existir e
receber educação, treinamento e armas. E se não houver uma organização de
defesa, i.e., uma milícia operária, tanto o Le Populaire quanto o l’Humanité
podem escrever os artigos que quiserem sobre a onipotência da frente única,
mas ambos se verão desprotegidos ante o primeiro ataque bem articulado dos
fascistas.
Nossa proposta é elaborar um estudo crítico dos “argumentos” e das
“teorias” dos que se opõem à milícia operária, que são muito numerosos e
in uentes nos dois partidos operários.
“Precisamos de autodefesa de massa e não da milícia”, nos dizem com
frequência.
Mas o que é essa “autodefesa de massa” sem organizações de combate, sem
quadros especializados, sem armas? Entregar a defesa contra o fascismo às
massas desorganizadas e despreparadas deixadas à própria sorte seria representar
um papel incomparavelmente abaixo do de Pôncio Pilatos. Negar o papel da
milícia é negar o papel da vanguarda. Por que, então, um partido? Sem o apoio
das massas, a milícia nada é. Mas sem destacamentos de combate organizados,
as massas mais heroicas serão esmagadas pouco a pouco pelas gangues fascistas.
A milícia é um órgão de defesa.
“Convocar a organização de uma milícia”, argumentam alguns oponentes,
que, sem dúvida, são os menos sérios e honestos, “equivale a uma provocação.”
Isso não é um argumento, mas um insulto. Se a necessidade de defender as
organizações operárias decorre de toda a situação, como não convocar a
organização de uma milícia? Talvez eles queiram dizer que a criação de uma
milícia “provoca” ataques fascistas e repressão governamental. Nesse caso, trata-
se de um argumento absolutamente reacionário. O liberalismo sempre disse aos
operários que, com sua luta de classes, eles “provocam” a reação.
Os reformistas repetem essa acusação contra os marxistas, os menchevistas
a fazem aos bolchevistas. Tais acusações se reduzem, em análise nal, à
profunda conjectura de que, se os oprimidos não se mexerem, os opressores
não serão obrigados a reprimi-los. Essa é a loso a de Tolstói e de Gandhi, mas
jamais a de Marx e Lênin. Se o l’Humanité deseja daqui em diante desenvolver
a doutrina de “não resistência ao mal pela violência”, deve adotar como
símbolo não a foice e o martelo, emblema da Revolução de Outubro, mas a
cabra generosa que fornece leite a Gandhi.
“Mas armar os operários só é oportuno numa situação revolucionária,
situação que ainda não se apresentou.”
Esse argumento profundo signi ca que os operários devem permitir a
própria aniquilação até que a situação se torne revolucionária. Os que ontem
pregavam o “terceiro período”23 não querem ver o que acontece diante de seus
olhos. A própria questão das armas só surgiu porque a situação “pací ca”,
“normal”, democrática, deu lugar a uma situação tempestuosa, crítica e instável
capaz de se tornar revolucionária, bem como contrarrevolucionária.
Tal alternativa depende, acima de tudo, de saber se os operários de
vanguarda se deixarão atacar com impunidade e aceitarão a derrota, ou se
revidarão cada golpe com dois, despertando a coragem dos oprimidos e
unindo-os sob a sua bandeira. Uma situação revolucionária não cai do céu. Ela
adquire forma com a participação ativa da classe revolucionária e seu partido.
Os stalinistas franceses agora insistem que a milícia não impediu a derrota
do proletariado alemão. Ontem mesmo eles negavam por completo qualquer
derrota na Alemanha e a rmavam que a política dos stalinistas alemães estava
correta do início ao m. Hoje, eles veem o mal absoluto na milícia operária
alemã (Rote Front).24 Assim, partem de um erro para cair em outro
diametralmente oposto, não menos monstruoso. A milícia, em si, não resolve a
questão. Uma política correta é necessária. Enquanto isso, a política do
stalinismo na Alemanha (o “social-fascismo é o principal inimigo”), a cisão nos
sindicatos, o erte com o nacionalismo (putschismo) fatalmente levaram ao
isolamento da vanguarda proletária e ao seu naufrágio. Com uma estratégia
totalmente inútil, nenhuma milícia poderia salvar a situação.
É bobagem dizer que, em si, a organização da milícia conduz a aventuras,
provoca o inimigo, substitui a luta política pela luta física etc. Em todas essas
frases só existe covardia.
A milícia, como uma sólida organização da vanguarda, é, na verdade, a
defesa mais segura contra aventuras, contra o terrorismo individual, contra
explosões sangrentas espontâneas.
A milícia, ao mesmo tempo, é a única maneira séria de reduzir ao mínimo
a guerra civil que o fascismo impõe sobre o proletariado. Deixem que os
operários, a despeito da ausência de uma “situação revolucionária”, vez por
outra corrijam a seu próprio jeito os “ lhinhos de papai” patriotas, e o
recrutamento de novos bandos fascistas cará incomparavelmente mais difícil.
Aqui, porém, os estrategistas, enredados em seu próprio raciocínio,
apresentam contra nós argumentos ainda mais estupefacientes. Citamos
textualmente: “Se respondemos aos tiros de revólver dos fascistas com outros
tiros de revólver”, escreve o l’Humanité de 23 de outubro [1934], “perdemos de
vista o fato de que o fascismo é o produto do regime capitalista e que, ao lutar
contra o fascismo, enfrentamos todo o sistema.”
É difícil acumular em poucas linhas confusão maior ou maiores erros. É
impossível defender-se contra os fascistas porque eles são “um produto do
regime capitalista”. Isso signi ca que precisamos renunciar à luta toda, pois
todos os males sociais contemporâneos são “produtos do sistema capitalista”.
Quando os fascistas matam um revolucionário ou queimam o prédio de
um jornal proletário, os operários supostamente devem suspirar
loso camente: “Ah! Assassinatos e incêndios criminosos são produtos do
sistema capitalista”, e voltar para casa com a consciência tranquila. A prostração
fatalista substitui a teoria militante de Marx, bene ciando tão somente a classe
inimiga. A ruína da pequena burguesia é, evidentemente, o produto do
capitalismo. O crescimento dos bandos fascistas é, por sua vez, o produto da
ruína da pequena burguesia. Mas, por outro lado, o aumento da miséria e a
revolta do proletariado são também produtos do capitalismo, e a milícia, por
sua vez, é o produto do acirramento da luta de classes. Por que, então, para os
marxistas do l’Humanité, os bandos fascistas são o produto legítimo do
capitalismo e a milícia operária o produto ilegítimo dos trotskistas? É
impossível ver sentido nisso.
“Precisamos lidar com o sistema todo”, nos dizem. Como? Passando por
cima da cabeça de seres humanos? Os fascistas em diferentes países começaram
com seus revólveres e acabaram destruindo todo o “sistema” das organizações
operárias. Como de outra forma impedir a ofensiva armada do inimigo salvo
com uma defesa armada, da nossa parte, para passar para a posição ofensiva?
O l’Humanité agora admite, verbalmente, a defesa, mas apenas na forma
de “autodefesa de massa”. A milícia é nefasta porque, vejam bem, afasta das
massas os destacamentos de combate. Mas por que existem destacamentos de
combate independentes entre os fascistas que não são apartados das massas
reacionárias, mas que, pelo contrário, despertam coragem e encorajam essas
massas com seus ataques bem organizados? Ou será, talvez, a massa proletária
inferior em termos de qualidade combativa à pequena burguesia
desquali cada?
Irremediavelmente enredado, o l’Humanité começa, a nal, a hesitar:
aparentemente aquela autodefesa de massa exige a criação de “grupos de
autodefesa” especiais. Em lugar da rejeitada milícia, são propostos grupos ou
destacamentos especiais. Pareceria, à primeira vista, que a diferença reside
apenas no nome. Decerto o nome proposto pelo l’Humanité nada signi ca.
Pode-se falar de “autodefesa de massa”, mas é impossível falar de “grupos de
autodefesa”, já que o propósito dos grupos não é a defesa deles mesmos, mas
das organizações operárias. No entanto, não se trata, é evidente, de uma
questão de nome. Os “grupos de autodefesa”, segundo o l’Humanité, precisam
renunciar ao uso de armas, a m de não caírem no “putschismo”. Esses sábios
tratam a classe operária como uma criança à qual não se pode permitir segurar
uma navalha. Navalhas, ademais, são monopólio, como sabemos, dos Camelots
du Roi,25 que são um legítimo “produto do capitalismo” e que, com a ajuda de
navalhas, derrubaram o “sistema” da democracia. De todo o jeito, como irão
esses “grupos de autodefesa” se defender dos revólveres fascistas?
“Ideologicamente”, é claro. Em outras palavras: podem se esconder. Não
dispondo do que precisam, terão de buscar a “autodefesa” com os pés. E os
fascistas, enquanto isso, saquearão impunemente as organizações operárias.
Mas se sofrer uma derrota terrível, o proletariado ao menos não será culpado de
“putschismo”. Essa conversa falaciosa, sob a bandeira do “bolchevismo”, causa
apenas asco e desprezo.
Durante o “terceiro período” de grata memória — quando os estrategistas
do l’Humanité sofriam de delírio das barricadas, “conquistavam” as ruas
diariamente e rotulavam como “social-fascista” qualquer um que não
partilhasse suas extravagâncias — previmos: “No momento em que queimarem
as pontas dos dedos, esses cavalheiros se tornarão os piores oportunistas.” Tal
previsão se con rmou por completo agora. Numa época em que dentro do
Partido Socialista o movimento a favor da milícia cresce e se fortalece, os líderes
do chamado Partido Comunista correm para a mangueira de incêndio para
esfriar o desejo dos operários de vanguarda de se organizarem em leiras de
combate. Alguém imaginaria um trabalho mais desmoralizante ou mais danoso
que esse?
Nas leiras do Partido Socialista às vezes se ouve a seguinte objeção: “Uma
milícia precisa ser formada, mas não há necessidade de alardear o fato.” Pode-se
apenas felicitar companheiros que desejam resguardar de olhos e ouvidos
inquiridores o lado prático de seus negócios. Mas seria demasiado ingênuo
achar que uma milícia pode ser criada secretamente entre quatro paredes.
Precisamos de dezenas e, posteriormente, centenas, milhares de combatentes.
Esse número será alcançado apenas se milhões de operários e operárias, e, atrás
deles, camponeses e camponesas, entenderem a necessidade da milícia e
gerarem em torno dos voluntários um clima de solidariedade ardente e apoio
ativo. O sigilo cuidadoso pode e deve abranger apenas o aspecto técnico da
questão. A campanha política precisa ser abertamente desenvolvida, em
assembleias, fábricas, nas ruas e praças públicas.
Os quadros fundamentais da milícia serão os operários de fábrica
agrupados de acordo com seu local de trabalho, conhecidos uns dos outros e
com a capacidade de proteger seus destacamentos de combate contra as
provocações dos agentes inimigos de forma muito mais fácil e segura que os
burocratas mais graduados. Sem uma mobilização ostensiva das massas, os
comandos conspiradores permanecerão, no momento do perigo,
impotentemente suspensos no espaço. Toda organização operária precisa
mergulhar na missão. Nesse assunto, não pode haver linha demarcatória entre
os partidos operários e os sindicatos. De mãos dadas, eles precisam mobilizar as
massas. O sucesso da milícia popular estará, então, nalmente assegurado.
“Mas de onde os operários tirarão armas?”, objetarão os sóbrios “realistas”
— ou melhor, listeus assustados. “O inimigo possui ri es, canhões, tanques,
gás e aviões. Os operários têm umas poucas centenas de revólveres e canivetes.”
Essa objeção mistura tudo a m de amedrontar os operários. Por um lado,
nossos sábios assemelham as armas dos fascistas ao armamento do Estado. Por
outro, eles se voltam para o Estado e pedem que este desarme os fascistas. Que
lógica notável! Na verdade, essa posição é falsa em ambos os casos. Na França,
os fascistas ainda estão longe de controlar o Estado. Em 6 de fevereiro,
entraram em confronto armado com a polícia estatal. Por isso é falso falar de
canhões e tanques quando se trata de uma luta armada imediata contra os
fascistas. Os fascistas, claro, são mais ricos que nós. É mais fácil para eles
comprar armas. Mas os operários são mais numerosos, mais determinados,
mais dedicados, desde que conscientes da existência de uma liderança
revolucionária rme.
Afora outros recursos, os operários podem se armar às custas dos fascistas
se os desarmarem sistematicamente.
Essa é agora uma das formas mais sérias de luta contra o fascismo.
Quando os arsenais dos operários começarem a se encher às custas dos
depósitos fascistas de armas, os bancos e trustes serão mais prudentes no
nanciamento de armas de seus guardas homicidas. Seria até mesmo possível
nesse caso — mas apenas nesse caso — que as autoridades alarmadas de fato
começassem a impedir que os fascistas se armassem a m de fazer secar uma
fonte adicional de armas para os operários. Sabemos há muito tempo que
somente uma tática revolucionária gera, como produto derivado, “reformas” ou
concessões governamentais.
Mas como desarmar os fascistas? Naturalmente é impossível fazê-lo por
meio apenas de artigos de jornal. Esquadrões de combate precisam ser criados.
Um serviço de inteligência precisa ser implementado. Milhares de informantes
e auxiliares simpatizantes haverão de se voluntariar por todo lado quando se
derem conta de que a missão foi seriamente assumida por nós. A ação
proletária exige vontade.
As armas dos fascistas, contudo, não são o único recurso. Na França, há
mais de um milhão de operários organizados. Em termos gerais, esse número é
pequeno, mas totalmente su ciente para dar início à organização de uma
milícia operária. Se os partidos e os sindicatos armassem apenas um décimo de
seus membros, já teríamos uma força de cem mil homens. Sem dúvida, a
quantidade de voluntários que se apresentariam em seguida à convocação de
uma “frente única” para compor uma milícia operária em muito excederia esse
número. As contribuições dos partidos e sindicatos e as doações voluntárias, no
curso de um ou dois meses, tornariam possível armar de cem a duzentos mil
combatentes operários. A turba fascista poria imediatamente o rabo entre as
pernas. Toda a perspectiva de desenvolvimento se tornaria muitíssimo mais
favorável.
Defender a ausência de armas ou outras razões objetivas para explicar por
que não se fez qualquer tentativa até agora de criar uma milícia é querer
enganar a si próprio e a terceiros. O principal obstáculo — com efeito, o único
obstáculo — tem suas raízes na natureza conservadora e passiva dos líderes das
organizações operárias. Esses líderes céticos não acreditam na força do
proletariado. Depositam suas esperanças em todo tipo de milagres vindos de
cima em lugar de proverem uma válvula de escape revolucionária para a energia
que pulsa abaixo. Os operários socialistas precisam impelir seus líderes a partir
imediatamente para a criação de uma milícia operária ou abrir caminho para
forças mais jovens.
Uma greve é inconcebível sem propaganda e sem agitação. Também é
inconcebível sem piquetes que, quando possível, utilizem a persuasão, porém
quando obrigados utilizem a força. A greve é a forma mais elementar de luta de
classes que sempre combina, em proporções variáveis, métodos “ideológicos” e
métodos físicos. A luta contra o fascismo é basicamente uma luta política que
necessita de uma milícia assim como a greve necessita de piquetes. Em suma, o
piquete é o embrião da milícia operária. Quem pensa em rejeitar a luta “física”
precisa rejeitar toda e qualquer luta, pois o espírito não vive sem carne.
Conforme expressou o grande teórico militar Clausewitz, a guerra é a
continuação da política por outros meios. Essa de nição igualmente se aplica à
guerra civil. É inadmissível opor uma à outra, já que é impossível deter
arbitrariamente a luta política quando ela se transforma, por força de uma
necessidade interna, em luta física.
O dever de um partido revolucionário é prever tempestivamente a
inexorabilidade da transformação da política em con ito armado ostensivo, e
com suas forças preparar-se para tal momento assim como as classes
governantes estão se preparando.
Os destacamentos milicianos para defesa contra o fascismo são o primeiro
passo, não o último, para armar o proletariado. Nosso slogan é: “Armar o
proletariado e os camponeses revolucionários!”
A milícia operária precisa, em última análise, abarcar todos os
trabalhadores. Só será possível cumprir integralmente esse programa em um
Estado operário para cujas mãos passem todos os meios de produção e,
consequentemente, também todos os meios de destruição — i.e., todas as
armas e fábricas que as produzem.
Entretanto, é impossível chegar a um Estado operário com as mãos vazias.
Só inválidos políticos como Renaudel26 podem falar de um caminho pací co,
constitucional, para o socialismo. O caminho constitucional está cheio de
trincheiras ocupadas por bandos fascistas. Não há poucas trincheiras à nossa
frente. A burguesia não hesitará em recorrer a uma dúzia de golpes de Estado,
ajudada pela polícia e pelo Exército, a m de impedir o proletariado de chegar
ao poder.
Um Estado socialista operário só pode ser criado por meio de uma
revolução vitoriosa.
Toda revolução é preparada pela marcha do desenvolvimento econômico e
político, mas sempre decidida por con itos armados ostensivos entre as classes
hostis. Uma vitória revolucionária só pode ser possível como resultado de uma
longa agitação política, um período prolongado de educação e da organização
das massas.
Mas o con ito armado em si também precisa ser preparado com grande
antecedência.
Os operários de vanguarda têm de saber que precisarão lutar até a morte e
vencer. Precisam pegar em armas para garantir a própria emancipação.

A PERSPECTIVA NOS ESTADOS UNIDOS


De “Algumas questões sobre problemas americanos”, Quarta Internacional, outubro de
1940

O retrocesso da classe operária dos Estados Unidos é apenas um termo


relativo.
Sob muitos aspectos relevantes, ela é a classe operária mais progressista do
mundo, tecnicamente e em seu padrão de vida...
Os operários americanos são muito combativos — como vimos durante as
greves. Fizeram as greves mais obstinadas do mundo. O que falta ao operário
americano é um espírito de generalização, ou análise, da posição da sua classe
na sociedade como um todo. Essa carência de pensamento social tem sua
origem na história do país...
Sobre o fascismo.
Em todos os países em que o fascismo foi vitorioso, houve, antes do seu
crescimento e vitória, uma onda de radicalismo das massas — dos operários e
dos camponeses e fazendeiros mais pobres, e da pequena burguesia. Na Itália,
após a guerra e antes de 1922, houve uma onda revolucionária de imensa
dimensão; o Estado foi paralisado, a polícia não existia, os sindicatos podiam
fazer o que quisessem — mas não houve um partido capaz de tomar o poder.
Como reação surgiu o fascismo.
Na Alemanha, deu-se o mesmo. Houve uma situação revolucionária em
1918; a classe burguesa sequer pediu participação no poder. Os social-
democratas paralisaram a revolução. Então, os operários tentaram novamente
em 1922-23-24. Foi a época da falência do Partido Comunista — tudo isso já
antes abordado. Então, em 1929-30-31, os operários alemães tornaram a fazer
uma nova onda revolucionária. Os comunistas e os sindicatos detinham um
poder tremendo, mas surgiu a famosa política (por parte do movimento
stalinista) do social-fascismo, uma política inventada para paralisar a classe
operária. Somente depois dessas ondas enormes o fascismo se tornou um
grande movimento. Não existem exceções a essa regra — o fascismo surge
apenas quando a classe operária demonstra total incapacidade para tomar nas
mãos o destino da sociedade.
Nos Estados Unidos, teremos o mesmo. Já existem elementos fascistas, e
eles têm, claro, os exemplos da Itália e da Alemanha. Agirão, portanto, mais
rapidamente. Mas também temos os exemplos de outros países. A próxima
onda histórica nos Estados Unidos será a onda do radicalismo das massas, não
do fascismo. Naturalmente, é possível que a guerra contenha a radicalização
durante algum tempo, mas depois ela dará à radicalização um impulso e um
ritmo ainda mais potentes.
Não podemos assemelhar a ditadura de guerra — a ditadura da máquina
militar, do staff, do capital nanceiro — a uma ditadura fascista. Para a última,
é primeiramente necessária uma sensação de desespero nas grandes massas do
povo. Quando os partidos revolucionários as traem, quando a vanguarda do
operariado mostra sua incapacidade para levar o povo à vitória, os fazendeiros,
os pequenos empresários, os desempregados, os soldados etc. se tornam capazes
de apoiar um movimento fascista. Mas só nessas circunstâncias.
Uma ditadura militar é simplesmente uma instituição burocrática,
fortalecida pela máquina militar e baseada na desorientação do povo e na sua
submissão. Passado algum tempo os sentimentos do povo podem mudar e ele
pode se rebelar contra a ditadura.

CRIE O PARTIDO REVOLUCIONÁRIO!


De “Bonapartismo, fascismo e guerra”, agosto de 1940

Em qualquer discussão sobre tópicos políticos, surge a pergunta:


conseguiremos criar um partido forte para o momento em que a crise se
apresentar? Será que o fascismo não chegará antes de nós? O fascismo não é um
inevitável estágio de desenvolvimento?
Os sucessos do fascismo facilmente levam as pessoas a perder a perspectiva,
leva-as a esquecer as condições atuais que possibilitaram o fortalecimento e a
vitória do fascismo. No entanto, uma clara compreensão dessas condições é de
especial importância para os operários dos Estados Unidos. Podemos apresentar
uma lei histórica: o fascismo foi capaz de conquistar somente naqueles países em
que os partidos trabalhistas conservadores impediram o proletariado de usar a
situação revolucionária e tomar o poder. Na Alemanha, duas situações
revolucionárias ocorreram: 1918-1919 e 1923-1924. Mesmo em 1929, uma
luta direta pelo poder da parte do proletariado ainda era possível. Em todos
esses casos, a social-democracia e a Internacional Comunista [os stalinistas]
criminosa e viciosamente interromperam a conquista do poder e com isso
criaram um impasse para a sociedade. Apenas sob tais condições e nessa
situação o surgimento tempestuoso do fascismo e sua obtenção de poder se
revelaram possíveis.

***

Na medida em que o proletariado se mostra incapaz, em determinado


estágio, de conquistar o poder, o imperialismo começa a regular a vida
econômica com seus próprios métodos; o partido fascista que se torna o poder
estatal é o mecanismo político. As forças produtivas estão em irremediável
contradição não só com a propriedade privada, mas também com os limites
estatais nacionais. O capitalismo imperialista busca resolver tal contradição por
meio de uma extensão de fronteiras, da conquista de novos territórios e daí por
diante. O Estado totalitário, sujeitando todos os aspectos da vida econômica,
política e cultural ao capital nanceiro, é o instrumento para a criação de um
Estado supranacionalista, um império imperialista, o domínio dos continentes,
o domínio de todo o mundo.
Analisamos todos esses traços da liberdade, cada um de per si e todos em
sua integralidade, na medida em se tornaram evidentes ou se destacaram.
Tanto a análise teórica quanto a rica experiência histórica do último
quarto de século demonstraram com idêntica força que o fascismo é sempre o
último elo de um ciclo político especí co composto dos seguintes elementos: a
crise mais grave da sociedade capitalista; o acirramento da radicalização da
classe operária; o aumento da simpatia pela classe operária e um desejo de
mudança por parte da pequena burguesia rural e urbana; a extrema confusão
da grande burguesia; suas manobras covardes e traiçoeiras visando evitar o
clímax revolucionário; a exaustão do proletariado; a crescente confusão e
indiferença; o agravamento da crise social; o desespero da pequena burguesia,
seu desejo de mudança; a neurose coletiva da pequena burguesia, sua
disposição para acreditar em milagres, sua disposição de adotar medidas
violentas; o aumento de hostilidade em relação ao proletariado, que fraudou
suas expectativas. São essas as premissas para uma formação veloz de um
partido fascista e sua vitória.
É bastante evidente que a radicalização da classe operária nos Estados
Unidos passou apenas suas fases iniciais, quase exclusivamente, na esfera do
movimento sindical (o CIO).27 O período pré-guerra e a guerra em si podem
temporariamente interromper esse processo de radicalização, sobretudo se um
número considerável de operários for absorvido pela indústria bélica. Essa
interrupção do processo de radicalização, porém, não deverá ter longa duração.
O segundo estágio de radicalização assumirá um caráter expressivo muito mais
marcante. O problema de formar um partido trabalhista independente entrará
na ordem do dia. Nossas demandas de transição ganharão grande
popularidade. Por outro lado, as tendências reacionárias, fascistas, se retrairão,
assumindo uma postura defensiva, à espera de um momento mais favorável.
Essa é a perspectiva mais próxima. Nenhuma atividade é mais inútil que a de
especular se teremos ou não sucesso na criação de um poderoso e proeminente
partido revolucionário. Existe uma perspectiva favorável à vista, fornecendo
toda a justi cativa para o ativismo revolucionário. É necessário aproveitar as
oportunidades que se apresentam e criar o partido revolucionário.
NOTAS

1
O Comintern, ou Internacional Comunista, foi a organização mundial
do movimento comunista fundado em 1929 como uma alternativa
revolucionária à colaboracionista de classe (Segunda) Internacional Socialista.
Já em meados dos anos 1920, porém, havia sido dominado por uma casta
pequeno-burguesa governante na União Soviética que subordinou os interesses
da classe operária mundial à defesa de seus próprios privilégios.
2
A campanha fascista de violência começou em Bolonha, em 21 de
novembro de 1920. Quando os vereadores social-democratas, vitoriosos nas
eleições municipais, emergiram da prefeitura para apresentar o novo prefeito,
foram recebidos por um tiroteio que deixou dez mortos e cem feridos. Os
fascistas prosseguiram com “expedições punitivas” no campo das redondezas,
uma fortaleza das “Ligas Vermelhas”. “Esquadrões de ação” dos camisas-negras,
em veículos cedidos por grandes latifundiários, tomaram aldeias por meio de
ataques-relâmpago, espancando e matando camponeses esquerdistas e líderes
operários, destruindo quartéis radicais e aterrorizando o povo. Encorajados
pelo sucesso fácil, os fascistas então desfecharam ataques de grande escala nas
grandes cidades.
3
O Tratado de Versalhes, imposto à Alemanha após a Primeira Guerra
Mundial; seu aspecto mais odioso foi o tributo incessante aos aliados vitoriosos
sob a forma de “reparações” por perdas e danos oriundos da guerra. A “crise”
mencionada foi a depressão econômica que varreu o mundo capitalista após o
crash de 1929 em Wall Street.
4
O marechal de campo Paul von Hindenburg (1847-1934). General
prussiano que ganhou fama na Primeira Guerra Mundial e mais tarde se
tornou presidente da República de Weimar. Em 1932, os social-democratas
apoiaram sua reeleição como um “mal menor” para os nazistas. Ele nomeou
Hitler chanceler em janeiro de 1933.
5
Filippo Turati (1857-1937), principal teórico reformista do Partido
Socialista italiano.
6
Antonio Gramsci (1891-1937): um fundador do Partido Comunista
italiano, preso por Mussolini em 1926, morreu na prisão onze anos mais tarde.
Enviou uma carta da prisão, em nome do comitê político do partido italiano,
atacando a campanha de Stálin contra a Oposição de Esquerda. Togliatti, então
em Moscou como representante italiano no Comintern, suprimiu a carta. Ao
longo da Era Stálin, a lembrança de Gramsci foi deliberadamente apagada. No
período de pós-stalinista, porém, ele foi “redescoberto” pelo Partido Comunista
italiano e o cialmente louvado como herói e mártir. Desde então, tem havido
uma considerável aclamação internacional quanto a seus textos teóricos,
sobretudo seus cadernos na prisão.
7
Dmitri Manuilsky (1883-1952): che ou o Comintern de 1929 a 1934;
sua remoção do cargo prenunciou uma guinada do ultraesquerdismo para o
oportunismo do período da Frente Popular. Mais tarde surgiu no palco
diplomático como delegado nas Nações Unidas.
8
Ercoli. Pseudônimo, no Comintern, de Palmiro Togliatti (1893-1964).
Che ou o Partido Comunista italiano após a prisão de Gramsci. Sobreviveu a
todos os zigue-zagues na linha do Comintern, mas depois da morte de Stálin
criticou seu governo bem como alguns de seus aspectos remanescentes na
URSS e no movimento internacional comunista.
9
“Nó de Young”: referência ao Plano Young, batizado com esse nome
devido a Owen D. Young, grande empresário americano, que foi representante
geral para as reparações de guerra alemãs durante a década de 1920. Foi o
presidente da conferência que adotou seu plano, que substituiu o malsucedido
Plano Dawes para “facilitar” o pagamento de reparações pela Alemanha de
acordo com o Tratado de Versalhes.
10
“Estratégia Zinoviev-Stálin”: Gregory Y. Zinoviev (1883-1936),
presidente do Comintern desde sua fundação em 1919 até sua remoção do
cargo por Stálin em 1926. Após a morte de Lênin, Zinoviev e Kamenev
compuseram um bloco com Stálin (a Troika) contra Trótski e dominaram o
partido soviético. No período da dominação do Comintern por Zinoviev e
Stálin, uma linha oportunista levou a uma série de derrotas e oportunidades
perdidas, a mais notável sendo a desmobilização da revolução alemã de 1923.
Após romper com Stálin, Zinoviev uniu seus seguidores à Oposição de
Esquerda Trotskista. No entanto, em 1928, depois de ser expulso do partido da
Oposição Unida, Zinoviev cedeu a Stálin. Readmitido no partido, foi
novamente expulso em 1932. Após renegar todas as suas visões críticas, foi de
novo readmitido, mas em 1934 acabou expulso e preso. “Confessou” no
primeiro dos grandes Julgamentos de Moscou e foi executado.
11
O Comintern.
12
A “Frente de Ferro”: um bloco formado por vários grandes sindicatos e
grupos burgueses “republicanos” com pouco ou nenhum apoio ou prestígio
entre as massas. Foi criado por social-democratas próximo ao nal de 1931.
Grupos de combate chamados de “Punho de Ferro” foram estabelecidos dentro
dos sindicatos e organizações esportivas de operários levadas para a Frente de
Ferro. Em suas primeiras manifestações e paradas, milhares de operários
erguiam os punhos, gritavam “Liberdade” e juravam defender a democracia. As
massas no Partido Social-Democrata e nos sindicatos acreditavam realmente
que essa organização seria usada para deter Hitler. Não foi.
13
Heinrich Bruening foi chanceler de 1930 a 1932. O governo
parlamentar regular na Alemanha terminou em março de 1930. Seguiu-se,
então, uma série de regimes bonapartistas — Bruening, Von Papen, Von
Schleicher, isto é, chanceleres que governavam não por meio de processos
parlamentares regulares, mas por decretos “emergenciais”. Essas guras
bonapartistas se apresentavam como salvadores políticos necessitados de fazer o
país superar sua crise e, como tal, acima de classes e partidos. Não dependiam
do velho sistema do partido burguês democrata, mas do seu comando da
polícia, do Exército e da burocracia governamental. Fingindo estar salvando a
nação dos perigos tanto da esquerda (socialistas e comunistas) quanto da direita
(fascistas), desferiram seus golpes mais duros contra a esquerda, já que seu
interesse primário era salvar o capitalismo.
14
Principal jornal social-democrata.
15
Ala esquerda das forças pequeno-burguesas na Grande Revolução
Francesa em sua fase mais revolucionária, liderada por Robespierre.
16
4 de agosto de 1914: colapso da Segunda Internacional. Os
representantes do Partido Social-Democrata alemão no Reichstag votaram a
favor do orçamento de guerra dos governos imperialistas; no mesmo dia,
representantes do Partido Socialista francês zeram o mesmo na Câmara dos
Deputados.
17
Joseph Pilsudski (1876-1935): originalmente um socialista com visão
nacionalista, em 1920 liderou as forças antissoviéticas na Polônia; em 1926,
liderou um golpe de Estado e instalou uma ditadura fascista.
18
Warski: amigo de Rosa Luxemburgo, apoiou suas divergências com os
bolchevistas. Quando o Comintern ziguezagueou para a esquerda em sua fase
“Terceiro Período”, Warski foi rebaixado da liderança no Partido Comunista
polonês, mas não expulso. Desapareceu na URSS durante o grande expurgo de
1936-38.
19
Rosa Luxemburgo (1870-1919): grande teórica revolucionária e líder.
Originalmente ativa no movimento socialista da sua Polônia natal, mais tarde
se tornou uma líder da ala esquerda do Partido Social-Democrata alemão. Ela e
Karl Liebknecht foram presos por se oporem à Primeira Guerra Mundial. Após
serem soltos, lideraram o Spartakusbund. Ambos foram presos e assassinados
durante a fracassada revolução de 1919.
20
Primeira “ditadura do proletariado”, 18 de março de 1871.
21
Revolução Russa de 1917.
22
Gaston Doumergue: primeiro-ministro bonapartista da França.
Sucedeu Edouard Daladier. O governo de Daladier caiu no dia seguinte aos
levantes fascistas de 6 de fevereiro de 1934.
23
“O Terceiro Período”: segundo o esquema stalinista, esse foi o “período
nal do capitalismo”, o período de sua iminente derrocada e substituição pelos
soviéticos. O período é notável pela ultraesquerda dos comunistas e táticas
aventureiras, principalmente o conceito de social-fascismo.
24
I.e., Red Front Fighter: milícia dominada pelos comunistas banida pelo
governo social-democrata após os levantes Berlin May Day de 1929.
25
Monarquistas franceses agrupados em torno do jornal de Charles
Maurra, Ação Francesa, que foi violentamente antidemocrático.
26
Pierre Renaudel (1871-1935): anteriormente à Primeira Guerra
Mundial, braço direito de Jean Jaures e editor do l’Humanité. Durante a
guerra, um patriota social de direita. Na década de 1930, ele e Marcel Deat
lideraram a tendência revisionista “neossocialista”. Derrotada pelo voto na
convenção de julho de 1933, essa tendência surgiu do Partido Socialista. Após
os levantes fascistas de 6 de fevereiro de 1934, a maioria dos “neos” se juntaram
ao Partido Radical, o principal partido do capitalismo francês.
27
Uma série de explosivas batalhas operárias no início da década de 1930
nos Estados Unidos deu origem aos sindicatos industriais. Até então, a maioria
dos sindicatos operários havia se organizado segundo seus ofícios para formar a
Federação Americana do Trabalho (AFL). O Congresso de Organizações
Industriais (na sigla em inglês, CIO) era a federação dos sindicatos industriais.
As duas federações se fundiram em 1955.
DIREÇÃO EDITORIAL
Daniele Cajueiro

EDITORA RESPONSÁVEL
Ana Carla Sousa

PRODUÇÃO EDITORIAL
Adriana Torres
Carolina Rodrigues

REVISÃO DE TRADUÇÃO
Guilherme Bernardo

REVISÃO
Wendell Setúbal

PROJETO GRÁFICO DE MIOLO


Larissa Fernandez Carvalho

DIAGRAMAÇÃO
Futura

PRODUÇÃO DO EBOOK
Ranna Studio
Somos o Brasil
Rodrigues, Nelson
9788520938218
128 páginas

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paisagem faz vergonha." Mas ele dizia isso porque jamais olhara a nossa
paisagem. O escrete, porém, derrotou o seu esnobismo hediondo. Depois da
vitória sobre a Bulgária, ele viu, pela primeira vez, o Cristo do Corcovado. E veio
me dizer, de olho rútilo: — "Parece que temos aí um morro que promete, um tal de
Pão de Açúcar!"Thanks to the soccer national team, we discovered Brazil. I have a
friend who is one of such Brazilians who are crimson with shame. He told me: —
"In comparison with the European landscape, ours is a shame." But he said that
because he had never looked at our landscape. The team, however, defeated its
heinous snobbishness. After the victory over Bulgaria, he saw, for the first time, the
Christ of Corcovado. And he came to tell me, with bright eyes: — "It seems that we
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desvendar quem está por trás de uma série de assassinatos envolvendo o editor
de uma famosa revista feminina. Além dessa, a coletânea reúne outras narrativas
mais curtas, em que temas caros ao autor voltam à cena, entre eles a
desigualdade social e suas consequências muitas vezes trágicas; a violência
motivada por racismo, misoginia, homofobia e outros preconceitos; a crítica
velada ou escancarada a dogmas religiosos; as atitudes imprevisíveis de mentes
psicopatas. Tiros certeiros de um autor do mais alto calibre.

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A pátria de chuteiras
Rodrigues, Nelson
9788520938188
136 páginas

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"Já descobrimos o Brasil e não todo o Brasil. Ainda há muito Brasil para descobrir.
Não há de ser num relance, num vago e distraído olhar, que vamos sentir todo o
Brasil. Este país é uma descoberta contínua e deslumbrante."Nelson
RodriguesNelson Rodrigues marcou um lugar indiscutível, revolucionário no
teatro. No entanto, o Nelson cronista, o comentarista de futebol, não é menos
importante. Nelson Rodrigues foi o escritor brasileiro que "leu", "releu" nosso país
pelo campo, pela bola, pelos craques. Ele viu e compreendeu, antes de todos, a
grandiosidade da nossa pátria. Defendeu a nação com uma paixão pura.
"Anunciou", "promoveu", "profetizou" a força do Brasil.

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Auto da compadecida
Suassuna, Ariano
9788520942833
208 páginas

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O "Auto da Compadecida" consegue o equilíbrio perfeito entre a tradição popular


e a elaboração literária ao recriar para o teatro episódios registrados na tradição
popular do cordel. É uma peça teatral em forma de Auto em 3 atos, escrita em
1955 pelo autor paraibano Ariano Suassuna. Sendo um drama do Nordeste
brasileiro, mescla elementos como a tradição da literatura de cordel, a comédia,
traços do barroco católico brasileiro e, ainda, cultura popular e tradições
religiosas. Apresenta na escrita traços de linguagem oral [demonstrando, na fala
do personagem, sua classe social] e apresenta também regionalismos relativos ao
Nordeste. Esta peça projetou Suassuna em todo o país e foi considerada, em
1962, por Sábato Magaldi "o texto mais popular do moderno teatro brasileiro".

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Box História da filosofia ocidental
Russell, Bertrand
9788520928349
996 páginas

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INÉDITO NO BRASIL"A mais precisa introdução ao pensamento político


europeu." — The TimesHistória da filosofia ocidental é uma obra monumental, que
inclui muitos dos mais discutidos autores nas diferentes áreas do conhecimento:
da lógica às ciências políticas, da economia à antropologia. Bertrand Russell,
considerado um dos maiores pensadores dos séculos XIX e XX, reflete de modo
muito eclético e espirituoso sobre a filosofia ocidental desde os pré-socráticos até
seus dias. Dividido em três volumes, o boxe é inédito no Brasil. Uma obra
imperdível tanto para os amantes de filosofia quanto para quem quer conhecer um
pouco mais sobre os grandes pensadores da nossa história.

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