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Gestão Escolar
Diretor Diretorescolar

Dermeval Saviani : "O PDE está em cada


escola "
Dermeval Saviani, professorda Unicamp, diz que plano do governo precisada adesãodos
gestores

GustavoHeidrich

Se fosse um aluno, o Plano de Desenvolvimentoda Educação(PDE), política


educacionaldo atual governo, estaria ainda nos primeirosanos de escolaridade.
Lançado em 2007 pelo Ministérioda Educação(MEC) comoum conjunto de metas e
ações, o PDE vem ganhando corpo e ampliandosuas atividadescom a adesãomaciça
de estadose municípios. Seu objetivoé ambicioso: elevar o nível da Educação
brasileiraaos patamaresdos países desenvolvidos. O prazo vai até 2022. Para medir
essa evolução, foi criado o Índice de Desenvolvimentoda EducaçãoBásica (Ideb), que
afere o desempenhode escolas, municípios, estadose do país e define a políticade
investimentode recursosna Educação. Conformeavança, o PDE recebe análises mais
aprofundadas. Uma delas foi feita por DermevalSaviani, professorda Universidade
DERMEVALSAVIANI Estadual de Campinas(Unicamp) e especialistaem históriada Educação. Ele acaba de
Foto: CarolinaFreitas
lançar o livro PDE: AnáliseCrítica da Política do MEC, no qual discute as virtudes,
os problemase os desafiosdo plano. "O PDE é a primeirapolíticapúblicaeducacional
a encarar a questão da qualidadedo ensino comoprioridade. Mas ele é só o primeiropasso", afirma. Nesta entrevistaa
NOVA ESCOLAGESTÃOESCOLAR, ele fala da importânciado trabalhodos gestorespara que as metas sejam atendidas.

É novidade o Brasil ter um plano que pense no desenvolvimento e na qualidade da Educação?


DERMEVALSAVIANIA EducaçãoBásica nunca foi objetode planos nacionaisquandoestavasob a responsabilidade
das províncias, duranteo Império(1822-1889), e depois dos estados, na Primeira República(1889-1930). O Manifestodos
Pioneirosda EducaçãoNova, em 1932, foi um dos primeirosmovimentosa chamara atenção para a necessidadede planejar
a Educaçãoe organizá-la em todo o território. A Constituiçãode 1934 criou o primeiroConselhoNacionalde Educaçãoe
determinouque se formulasseum plano nacional, elaboradoem 1937 durantea gestão do ministroGustavoCapanema. O
documentoaté era bem detalhado, mas, com o golpedo EstadoNovo, que aconteceunaquelemesmoano, ele não chegou a
ser implantado. A ideia só foi retomadacom a primeiraLei de Diretrizese Bases da EducaçãoNacional(LDB), que deu
entrada no CongressoNacionalem outubrode 1948 e tramitoupor 13 anos, mas nela a preocupaçãoera maiseconômica, de
distribuiçãode recursos.

Nenhum documento se preocupava com a qualidade do ensino?


SAVIANITemosna históriada Educaçãovisõesdiferentesdo que deveria ser um plano nacional. O primeirotinha uma
orientaçãomodernae renovadora, mas não foi implantado. Durante o EstadoNovo, regras autoritáriasservirammaiscomo
controleideológico-político, o que se repetiudurantea ditadura. E a preocupaçãoda primeiraLDB se restringia apenasao
financiamento.

Como o PDE se insere nesse processo histórico?


SAVIANIA LDB de 1996, seguindouma determinaçãoda Constituiçãode 1988, estipulouum ano para a elaboraçãode um

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plano nacional, concebidocom a junção de duas propostas: uma do governofederale a outra de um grupo de educadores.
Os dois textos foram unificadose o Plano Nacionalde Educação(PNE) foi convertidoem lei em 2001, com vigênciaaté
janeirode 2011. Já o PDE, lançadoem 2007, não é um plano e não substituio PNE. Ele é uma políticapública, um
conjunto de medidase metas para o país, estabelecidopor decreto. É, portanto, um ato do poder executivo, não uma lei, e
está maisligadoao Plano de Aceleraçãodo Crescimento(PAC), que envolve ações em diferentesáreas da economiapara
impulsionaro crescimentoeconômicodo país. Comoo PAC previaque cada ministériodeveria ter um plano de atuação, o
MEC reuniu um conjunto de ações que já desenvolvia, acrescentoualgumasnovas e assim nasceu o PDE.

O PDE propõe ações eficientes para a Educação ter qualidade?


SAVIANIO grande ponto positivodo PDE é justamenteele se dispora combatero ensino ruim que a EducaçãoBásica
oferece. A partir da décadade 1990, tivemos avanços na questão quantitativa. Porém não basta garantir o ingresso. É preciso
tambémassegurar a conclusão. Até 2007, as políticasdesenhadaspara garantir a permanênciadas crianças deixarama
desejar do ponto de vista pedagógico, pois se preocupavamapenasem aumentaro número de alunos que chegavamao 9º
ano (8a série), sem garantir a aprendizagem.

O que mudou com o Plano de Desenvolvimento da Educação?


SAVIANIO PDE atreloua permanênciana escolaà qualidadedo ensino e para isso instituiu o Ideb. Ele é uma composição
do resultadodos alunos em avaliaçõesnacionais, comoa Prova Brasil e o Sistema de Avaliaçãodo EnsinoBásico(Saeb),
com as taxas de aprovaçãoe evasão de cada escola. Assim, ele não ficou apenascomoum número nacional, mas está
conseguindorefletira realidadedas unidades de ensino. Isso permiteidentificaros pontosde estrangulamentoe tomar
medidaspara saná-los. E o MEC tem feito isso, atuando nos municípiosprioritários(aquelescom pior desempenhono Ideb),
reforçandoneles o apoio técnico e financeiroque a Constituiçãodeterminaque a União preste aos entes federativos.

Depois de dois anos, já é possível dizer que o PDE "pegou"?


SAVIANIApesar de as metas do PDE serem nacionaise de caráter geral, elas só têm expressãono trabalhoefetivoque
cada escolarealiza. Vivemosem um contexto federativo, ou seja, fora de um sistemanacional. Por isso, é imprescindívela
adesãode estados, municípiose escolas. Se os gestoresnão traduziremos propósitose as metas do PDE para as condições
específicasde cada unidade, jamais os objetivosserão atingidos. É claro que as dificuldadeshistóricasda nossa Educação,
comoa infraestrutura, a dupla jornadados docentes e tantas outras, limitama ação de diretores, coordenadorese
orientadores. Mas há aspectosque dependemdiretamenteda própria gestão da escola. Um deles é essencial: ter clareza
sobre o sentido da Educaçãoescolar para distinguiro que é imprescindívelpara o trabalhopedagógicodo que é secundário.
Sem isso, toda a ação da escolase dilui. Se tudo for importante, se tudo for currículo, a tendênciaé todas as ações da escola
terem o mesmopeso. Assim, se abremas portas para o espontaneísmo, o que inviabilizao alcancede metas.

O que é imprescindível para o trabalho pedagógico?


SAVIANIO principalé viabilizaro acesso à culturaletrada. O saber espontâneonão depende da escola. Não precisamos
dela para aprender a falar, andar e brincar. Mas é necessária toda uma estrutura para aprender a ler e a escrever, já que a
escrita não é uma linguagemespontânea. Ela é codificadae precisa de processosformaisde aquisição. A escolafoi criada
com esse papel e até hoje, apesar das críticas, não se descobriuum mecanismomelhor. Os gestoresprecisamter consciência
de que a aquisiçãodesse conhecimentodemandatempoe uma ação pedagógicacontínua e planejada.

No cotidiano do gestor, como as ações podem traduzir a preocupação com o pedagógico?


SAVIANIAs questões do dia a dia têm de ser trabalhadasconstantementepara que as metas do PDE sejam atingidas. Por
exemplo, antes de programaruma excursão, há de se perguntar: quantashoras de aula a atividadevai tomar? Ela compete
com os objetivosda escolaou contribuipara que eles sejam atingidos? Naquelaoportunidade, o aluno vai desenvolvere
aprofundarconhecimentosque as aulas propiciaram? Os gestores- ao organizar e dar forma à escola- devemestar atentos a
esse enfoqueprincipalda aprendizagem, de tal modo que aquiloque favorece o alcancedas metas deve ser incentivadoe
promovido, e o que entra em conflito, evitado. Quando um diretor acha que a principalfunçãoda escolaé "que as crianças
interajam" ou um orientadoreducacionalfala que para ele "não importase a criança está aprendendoporqueisso deve ser
uma preocupaçãodos professores", por exemplo, o sentido principaldo trabalhopedagógicoe da própria existênciada
equipe de gestão já se perdeu e as dificuldadesvão aparecer.

Já é possível observar ganhos trazidos pelo PDE para a Educação do país?

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SAVIANIAinda é cedo para avaliarresultados, mas penso que para avançar no ritmo desejado é necessáriomaisdo que o
PDE prevê. O MEC se propôsa dar suportetécnico, encaminhandoconsultoresaos estadose municípiospara ajudar a
definir o Plano de AçõesArticuladas(PAR), que seria o PDE local. Por meio dele, os gestoresidentificaramas prioridades
para a Educaçãoda sua cidade e estado e escolheramos programasapoiadospelo MEC que querem implantar. Isso não é
suficiente. Primeiro, porqueos consultoresenviados, em geral, desconhecema realidadedos locais que visitam e têm
limitaçõesde formaçãopedagógica. Em segundo, muitasescolasoperam em condiçõestão precáriasque, por melhoresque
sejam as orientaçõesque recebam, não vão conseguir se enquadrarno plano. Seria necessário, antes de tudo, investir
substancialmentenaquelespontosque historicamentesão deficientes, comoa infraestruturae a formaçãode professoresque
atendamàs necessidadeslocais.

Em 2010, teremos eleições. Há garantias de permanência do PDE?


SAVIANIEm abril de 2010, teremos a ConferênciaNacionalde Educação. Ela será decisiva para estabelecermecanismos
que não sejam facilmentedesmontáveiscom a mudançano governo. Mesmo se o presidenteLula fizer o sucessor, pode
haver rupturas. Políticaé sempreuma correlaçãode forças que depende da situação. O plano em si se baseiaem alguns
aspectosda Educaçãoque são consensuaise tambémpor isso os estadose municípiosaderiram. O problemaé o conteúdo
com o qual você recheia a ossatura do PDE.

Com a conclusão do plano em 2022, a Educação brasileira estará melhor?


SAVIANIO PDE não garante isso. Para que a qualidadeda Educaçãoseja assegurada, essa área deveria ser tratada como
uma questão de Estadoe não de governo. Precisamosde uma estrutura com relativa autonomiae bastante distanciada
daquiloque eu chamode políticamiúda, que envolve os embatesentre partidos. Essa estrutura envolveriaum Conselho
Nacionalde Educaçãoque não fosse meramentehomologatório, mas deliberativoe autônomoem relação ao Executivo. Ele
deveria funcionarquase comoum órgão judiciáriopara normatizare fiscalizara Educação.

Como deveria funcionar um órgão regulador da Educação?


SAVIANISeria um espaçopara que a sociedadecivil avaliasseas políticaseducacionaise propusessealteraçõesde rumo, a
exemplodo que sugeria a primeiraLDB, na décadade 1960, que previaa criação de um FórumNacionalde Educação
nesses moldes. Enquantoa Educaçãoficar sujeita às disputas políticas, vão acontecerdiscrepâncias, comoo Governo
Federal ter um indicadorde qualidade, o Ideb, e São Paulo criar o Índice de Desenvolvimentoda Educaçãodo Estadode São
Paulo (Idesp). É uma concorrênciaque não favorece o desenvolvimentoda Educação. A descontinuidadeda política
educacionalé uma realidadehistórica no Brasil. A receita para solucionarisso é compostade três ingredientes: a Educação
ser tratada comoquestão de Estado, a criação de um sistemanacionalque garanta o mesmopadrãode qualidadepara todas
as escolase um plano nacionalque fixe, com clareza, as metas e os recursosnecessários.

Em que pontos o PDE ainda precisa avançar?


SAVIANIHá duas questões conceituais. A primeiraé que, inevitavelmente, o índice se expressa de forma numérica, o que
traz certa confusãona interpretaçãoe na divulgação. É preciso ter atenção na hora de compreendê-lo e introduzi-lo nas redes
e escolas. Os gestorestêm de entender e saber demonstraras ações que levarama sua escolaa ter um aumento na nota do
Ideb. O crescimentode 3,8 para 4,2, por exemplo, reflete a melhorada qualidadeda aprendizagempor que motivo? O que
foi feito? O projeto políticopedagógicoestavaconsistente? A segunda questão está nas provasusadas no cálculodo Ideb.
Os exames nacionaisdesconsideramas especificidadesda aprendizagemem diferenteslocais. Com isso, é possível
questionaraté que ponto eles de fato medema qualidade. Há ainda outra questão: o PDE tem tantas ações que elas se
justapõeme o foco na qualidadese perde pela dispersãode atenções e recursos. Não há comoatender à informatizaçãodas
escolas, ao transportee à expansãodo EnsinoSuperior e das escolastécnicas simultaneamentecom o mesmograu de
investimentoe qualidade.

Quer saber mais?


BIBLIOGRAFIA
PDE - Análise Crítica da Política do MEC, Dermeval Saviani, 128 págs., Ed. Autores Associados, tel. (19) 3249-2800, 19 reais

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