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A OBSERVAÇÃO DE MECANISMOS DE COLAPSO NO ACOMPANHAMENTO

TÉCNICO DE TÚNEIS EM SOLO

Cláudio Atsushi Murakami, M. Eng.*


Carlos Eduardo Moreira Maffei, Prof. Dr. †

1. RESUMO
A observação da formação de mecanismos de colapso durante a construção de túneis é uma das atividades mais
importantes do acompanhamento técnico de obras ou ATO, pois garante a segurança da obra e permite definir os ajustes
necessários para a adaptação do projeto à realidade.
Todas as atividades do ATO têm sempre como foco evitar a formação dos mecanismos de colapso. Para tanto, o ATO
deve ser realizado por equipes de engenheiros com noções básicas sobre o assunto.
Pretende-se apresentar neste artigo parte de um trabalho realizado com o objetivo de se reunir as informações de
conhecimento fundamental para a realização de um ATO. O artigo é dedicado a apresentar a parte relativa aos modos de
ruptura dos túneis, dando enfoques separados para o mecanismos da estrutura do revestimento e para os mecanismos do
maciço.
São apresentados os principais modos de ruptura com suas prováveis causas e os prováveis sintomas que podem ser
identificados através da monitoração durante os trabalhos de ATO.

2. INTRODUÇÃO
Os mecanismos de colapso no maciço formam-se pela
alteração do estado de tensões no mesmo, causada pela
escavação ou pelas condições do lençol freático. Tais
mecanismos ocorrem, na maior parte das vezes, na frente de
avanço do túnel. Uma vez executado o revestimento, os
mecanismos no maciço podem ocorrer somente se a estrutura
entrar em colapso.
Os mecanismos nos maciços podem ser classificados em
locais ou globais dependendo da abrangência dos seus efeitos.
Mecanismos globais são aqueles em que os estado de tensões
de volumes do maciço que se localizam muito além de uma
superfície envoltória nas proximidades da escavação
influenciam o equilíbrio do mecanismo. Na Figura 1 ilustra-se
idealizadamente a diferença entre mecanismo global e local. Figura 1 – Mecanismos global e local.
Estes mecanismos ocorrem devido a massas de solo
localizadas acima da geratriz superior do túnel,
em volumes muito maiores do que a porção que
invade a escavação, ou seja, os esforços que
solicitam o teto ou a frente da escavação são
gerados por uma grande massa de solo que
normalmente chega à superfície.
Como os mecanismos globais envolvem massas
de terra extremamente grandes, são difíceis de
serem contidos. Tais mecanismos podem-se
originar já como globais e, também, podem se
originar pelo desenvolvimento de mecanismos
locais, os quais causam a perda de apoio de uma
área muito grande do maciço.
Face à dificuldade de se conter mecanismos
globais após a sua formação, a execução de túneis
em maciços favoráveis à ocorrência de tais
instabilidades normalmente é realizada com a
tomada de algum tipo de providência, como:
adotar frentes parcializadas com a redução da
área exposta; executar tratamentos para melhorar
as características de resistência do maciço,
tornando-o suficientemente competente; utilizar
máquinas; entre outras.
Figura 2 – Mecanismos de colapso globais – Casos G1 * .

*
M. Eng. Cláudio Atsushi Murakami – ca_murakami@hotmail.com – 011-9977-3478

Prof. Dr. Carlos Eduardo Moreira Maffei – maffei@maffeiengenharia.com.br – 011-5531-7416
Mecanismos locais são aqueles em que a estabilidade depende
apenas das tensões do maciço nas proximidades da abertura
(Figura 1).
São mecanismos que ocorrem devidos apenas à ação do peso do
solo da porção que se destaca do maciço.
Os mecanismos locais envolvem pequenos volumes de solo e
ocorrem somente até a pequenas distâncias da face de escavação,
sendo por este motivo possíveis de serem controlados por
intervenções da obra, através de tratamentos localizados ou não,
ou por redução da superfície escavada exposta. Muitas vezes,
podem ser contidos mesmo após a sua formação, através da
aplicação de concreto projetado ou de aterros.

3. MECANISMOS DE COLAPSO NO MACIÇO


As Figura 2 e 3 apresentam exemplos típicos de mecanismos
globais, chamados aqui como Mecanismos do tipo G.
Mecanismos tipo G1
Os mecanismos representados pelo Tipo G1 ocorrem quando se
executa um túnel com pequena cobertura de solo competente sob
um substrato de solo mole de pouca capacidade de arqueamento
e baixa resistência ao cisalhamento, geralmente devido a não
detecção da perda de cobertura.
Os casos G1A e G1B são exemplos de quando existe um maciço
mais competente no núcleo à frente subjacente a um estrato de
solo mole. No caso G1B, o núcleo à frente fica instável e desliza
no plano EF devido à sobrecarga provocada pela transferência de
carga do prisma ABCD, o qual tende a deslizar e pelo efeito do
alívio provocado pela escavação. A perda da frente aumenta o
vão não suportado do maciço e, conseqüentemente, a massa de
solo envolvida no mecanismo aumenta, mobilizando o prisma
AFGD.
O caso G1C é um mecanismo global provocado pela
instabilização local do teto ou da frente quando blocos acima ou
à frente do avanço podem se romper, provocando a formação do
mecanismo global e permitindo que o solo mole invada o túnel.
O caso G1D mostra o mecanismo de um túnel em maciço de
solo extrusivo, onde o núcleo à frente da escavação sofre a
solicitação da sobrecarga do maciço e do alívio provocado pela
escavação. Tais solicitações fazem com que o núcleo de solo
extrusivo se deforme indefinidamente, mesmo com
carregamento constante.
Mecanismos tipo G2
Os mecanismos G2 podem ocorrer tanto em maciços
competentes como em maciços pouco competentes. A causa
destes mecanismos é a presença inesperada de bolsões, lentes ou
estratificações de solos corrediços, fluentes ou extrusivos.
Nos casos G2A, G2B e G2C, a perda de material faz com que
grandes massas de solo fiquem sem apoio, solicitando o maciço
ao cisalhamento ao longo das superfícies de deslizamento. A
Figura 3 – Mecanismos de colapso globais –
transferência de carga por cisalhamento provoca sobrecargas nas
Casos G2 E G3.
vizinhanças do bloco que tende a descer, inclusive sobre o
suporte já executado. Se a resistência do maciço ou do suporte
não for suficiente para manter o equilíbrio do sistema, colapsos de grandes proporções podem ocorrer, dependendo da
área afetada pela perda de material.
O mecanismo G2C é similar ao G1C, onde o solo frágil desliza e o solo de bolsões ou estratificações invade o túnel. Em
maciços estratificados, como aqueles com lentes de areia, o efeito do arqueamento é prejudicado. As camadas argilosas
rijas trabalham como lajes à flexão sob a ação da carga das lentes de areia.
O caso G2D ocorre quando o maciço tem uma certa resistência inicial, porém, quando exposto por muito tempo após a
escavação se degrada, passando a se comportar como solo desplacante rápido ou fluente, devido aos efeitos da água.
Mecanismos tipo G3
Estes mecanismos ocorrem quando os túneis têm baixa cobertura em relação ao seu diâmetro, ou seja, com a relação
C/D pequena (menor do que 1,5 a 2,0), condição esta em que o arqueamento do maciço é prejudicado pela geometria
desfavorável.
3.1. Monitoração
Quando os túneis são executados em maciços com potencial para
formação de mecanismos globais, especial atenção deve ser dada
às deformações.
Os mecanismos G1 caracterizam-se por apresentar curvas de
recalques longitudinais com intensidades maiores na frente de
escavação do que atrás (Figura 4), indicando possibilidade de
instabilização.
Porém, a constatação desse tipo de curva depende do
espaçamento entre os instrumentos de medição de recalque, isto
é, se os pinos de recalque são colocados muito afastados, a
mudança de forma do perfil dos recalques sobre o túnel pode não
ser detectada. Na Figura 4, se existissem apenas as seções S1 e Figura 4 – Configuração da deformação do
S3, a monitoração não indicaria nenhuma anomalia, pois o perfil maciço na geratriz superior do túnel.
de recalque obtido seria aquele representado pela linha tracejada.
Assim, é de grande importância determinar-se corretamente o espaçamento dos instrumentos em função da
configuração dos mecanismos potenciais.
Quando os casos G1B ou G1C ocorrem em maciços com a
camada inferior de solos rijos, a detecção do mecanismo passa
a ser tarefa difícil, uma vez que os colapsos podem ocorrer com
deformações muito pequenas e de forma frágil.
O caso G1C pode ser detectado através de tassômetros, porém,
se o teto de maciço rijo for muito estreito seria necessário que
os tassômetros fossem instalados muito pouco espaçados, o que
normalmente é inviável. Neste caso particular, o instrumento
que poderia melhorar o desempenho da monitoração seria o
perfilômetro, o qual permitiria o acompanhamento das
Figura 5 – Bacias de recalque transversais.
deformações ao longo do teto do túnel quase que
continuamente. Entretanto, sua eficiência poderia ficar limitada
ao comportamento eventualmente frágil do maciço.
O caso G1D tem como característica principal apresentar recalques com velocidade constante, mesmo quando as
escavações estão interrompidas.
Nos casos G2 a monitoração é difícil, uma vez que a instabilização inicial é local e normalmente se desenvolve muito
rapidamente.
A melhor forma de se monitorar a possibilidade da formação dos mecanismos G2 é através da prospecção exaustiva do
maciço a ser escavado, com sondagens, procurando antever ao máximo as situações de colapso em potencial.
Juntamente com a prospecção, deve-se realizar a monitoração visual do maciço exposto, atentando-se para os
desplacamentos, infiltrações de água e perda de material do maciço. Qualquer perda de material do maciço deve ser
rapidamente contida com a aplicação de concreto projetado ou aterros..

4. Mecanismos Locais
A Figura 8 apresenta os modos de ruptura de mecanismos locais.

4.1. Mecanismo de solo desplacante


Este grupo é representado pelos mecanismos dos casos L1 a L4.
É um mecanismo caracterizado como local, pois, placas de solo se
destacam pelo teto ou pela frente progressivamente com o tempo, ou
seja, o mecanismo ocorre devido ao peso da placa de solo que não
foi suportado.
Se o suporte for instalado após a ocorrência dos desplacamentos e os
vazios não forem preenchidos, a instabilização continua até que
todos os vazios estejam preenchidos com os fragmentos. Portanto, a
porosidade do solo desplacado deve ser maior do que a do solo em
seu estado original.

4.2. Mecanismo de solo corrediço


Este mecanismo é o representado pelo caso L5.
A instabilização em solo corrediço é um escorregamento de solo que
pára quando o talude formado pelo material atinge o seu ângulo de
atrito, sendo portanto um mecanismo local. Prova disto é o tamanho
do núcleo de areia necessário para equilibrar o mecanismo que
independe da altura da cobertura, mostrando que as tensões distantes Figura 8 – Mecanismos de colapso
da face não a influenciam (Figura 9). locais. (HSE, 1996)
4.3. Monitoração
Os mecanismos locais não são detectáveis, uma vez que,
como o próprio nome diz, sua abrangência é local e seus
efeitos, na maioria das vezes, não são sentidos pelos
instrumentos.
Embora os mecanismos locais não sejam tão perigosos
quanto os globais, face à sua pequena abrangência, podem
ferir ou até tirar a vida de pessoas que estejam trabalhando
no local pela queda de blocos, por menor que sejam.
Para que as obras sejam executadas com segurança
evitando-se os mecanismos locais, os maciços devem ser
devidamente tratados, principalmente na abóbada da
Figura 9 – Equilíbrio do mecanismo em solo escavação, com o uso de enfilagens, injeções, colunas de
corrediço. CCP (colunas de solo cimento) e outros tipos de
tratamentos.
No caso do mecanismo L5, este afeta os recalques, porém, após a ocorrência da instabilização, por perda de material.
Portanto, não é detectável antecipadamente pela instrumentação. Este mecanismo só pode ser previsto se forem
detectados solos corrediços através da prospecção do maciço.

5. Mecanismos no suporte dos Túneis


Os mecanismos nos suportes dos túneis ocorrem quando a solicitação da estrutura ultrapassa os seus limites de
resistência, por carregamentos excessivos ou por execução de suportes deficientes. Carregamentos excessivos podem
ser provocados por comportamentos imprevistos do maciço, ou por deformações impostas resultantes da alteração do
estado de equilíbrio do conjunto maciço-estrutura provocada pela escavação.
Os mecanismos que ocorrem nos suportes, sem a devida intervenção, podem levar a estrutura ao colapso, os quais
podem ser acompanhados por colapsos do maciço, com mecanismos similares aos do grupo G2, por perda de suporte,
uma vez que, com o colapso do suporte o maciço perde todo o confinamento.
Na Figura 10 e 11 apresentam-se casos idealizados de mecanismos de colapso do suporte.
A Figura 12 mostra um resumo das principais indicações que os instrumentos apresentam em cada caso.

5.1. Mecanismos no suporte sem invert – Casos D

5.1.1. Mecanismos causados por deficiência da fundação - Casos D1


Os casos D1 representam os mecanismos
devidos à deficiência da fundação, resultando
em recalques excessivos e até colapso do solo.
Estes mecanismos ocorrem em seções sem
invert, quando a carga solicitante na sapata da
calota é maior do que a carga admissível, ou
seja, quando o carregamento aumenta ou
quando a capacidade de carga da fundação
diminui, resultando em recalques excessivos da
estrutura.
O aumento do carregamento na casca pode
ocorrer quando há a perda do arqueamento
longitudinal causada por instabilizações da
frente de escavação, por amolecimentos do
maciço que compõe o núcleo a frente ou pela
própria mudança do tipo de maciço e das suas
condições.
O caso em que a capacidade de carga diminui
está relacionado às situações em que o solo no
nível da fundação enfraquece. Nestes casos, as
sapatas devem ser adequadamente
redimensionadas pelo ATO.
Os recalques de fundação da sapata podem
resultar em diferentes mecanismos, conforme o
comportamento que a estrutura apresente. Tais
situações são representadas pelos casos D1A, Figura 10 – Mecanismos de colapso no suporte sem invert -
D1B e D1C. Casos D.
Os casos D1A e D1B ocorrem quando os recalques dos dois lados da
casca são aproximadamente iguais. Nestes casos a parte da frente do
suporte funciona como uma casca em balanço em relação à parte de
trás, já com fundação adequada (sobre solo mais competente ou com
invert executado).
O caso D1A representa o mecanismo de aduelamento. Neste caso, a
casca não resiste à força de tração na parte superior e uma trinca se
forma na seção transversal do túnel, onde ocorre o momento
máximo em relação ao balanço (Figura 10). A parte à frente da trinca
se separa do restante formando uma aduela que pode se deslocar
separadamente da parte de trás.
O caso D1B representa o mecanismo de transferência de carga por
bielas de comp ressão. Quando a componente de tração no topo da
calota (ou tirante do consolo) é equilibrada, a carga é transferida
para a parte de trás (com fundação competente) através de bielas. Se
os esforços de compressão nas bielas forem muito grandes, podem
surgir trincas de tração que aparecem diagonalmente, saindo do topo
à frente para baixo atrás, as quais são devidas às tensões de tração
perpendiculares à direção da compressão (direções das tensões
principais) (Figura 10). Neste caso, quando o balanço é muito
Figura 11 – Mecanismos de colapso no grande, as cambotas podem trabalhar como estribos suspendendo a
suporte com invert – Casos O. carga.
O caso D1C ocorre quando os recalques de um lado da casca são
significativamente maiores do que do outro lado e a casca é solicitada à torção. Quando a torção se acentua, os esforços
podem provocar trincas helicoidais em torno da casca no sentido da rotação (Figura 10). Estas trincas são devidas às
tensões de tração que surgem na direção perpendicular às tensões de compressão (tensões principais).

5.1.1.1. Monitoração
Os mecanismos de recalque de fundação são detectados pelo
monitoramento dos pinos internos.
Nos gráficos de recalques em função da distância (Figura 13) a
curva deve apresentar uma forma com tendência à
estabilização, isto é, com velocidades (velocidade=
recalque/comprimento de avanço) decrescentes (curva 1). A
curva 2 apresenta recalques com velocidades crescentes,
indicando possível formação de mecanismo. Na curva 3 os
recalques ocorrem com a frente de escavação parada,
mostrando a falta de equilíbrio da casca.
Nos casos das curvas 2 e 3 é necessário saber se o problema é
realmente de fundação ou de carregamento de frente

5.1.2. Mecanismos de flexão – Casos D2


As flexões na casca aberta são provocadas pela solicitação do
maciço que age lateralmente com as ações do empuxo e
verticalmente com as ações da sobrecarga.
O mecanismo de convergência identificado pelo caso D2A
pode ser provocado por levantamento do piso devido ao alívio
da escavação, juntamente com o carregamento lateral devido
ao empuxo. Neste tipo de mecanismo, os deslocamentos
horizontais solicitam a casca à flexão.
O mecanismo de divergência identificado pelo caso D2B
ocorre normalmente em conseqüência da geometria mal
concebida da seção (seções que tenham a relação raio pela
altura da escavação muito grande). O carregamento superior
faz com que as laterais do arco se abram. Isto pode ser
conseqüência, também, de um maciço muito deformável nas
laterais, ou, da perda de material causada por elementos
drenantes.
O caso D2C ocorre em casos de carregamento assimétrico,
geralmente quando o túnel é locado sob maciços com
superfícies inclinadas. O carregamento desbalanceado
promove a distorção da seção, solicitando a estrutura à flexão. Figura 12 – Indicações dos instrumentos
para os casos de mecanismo no suporte.
Os colapsos da estrutura dos casos D2 ocorrem normalmente por
flambagem, associados aos efeitos de segunda ordem provocados
pelas deformações da calota por flexão.

5.1.2.1. Monitoração
Os mecanismos de abertura e fechamento da casca são monitorados
através das medidas de convergência das cordas internas.
A verificação de deformação da abóbada por flexão no caso D2B
pode ser feita através da análise comparativa entre os recalques dos
pinos do teto e do piso. Em caso positivo, os recalques dos pinos do
teto passam a ser maiores do que os do piso. Figura 13 – Gráficos de recalque de
O caso D2C pode ser detectado pelas convergências das diagonais, as fundação.
quais devem passar a convergir de um lado e divergir do outro.
Entretanto, quando se esperam deformações por distorção da seção,
torna-se mais eficiente adotar cordas de medição de convergência
adicionais que passam pelos “rins” da seção (Figura 12), pois, as
cordas que passam pela geratriz superior são pouco sensíveis à estas
deformações. Juntamente com as convergências, podem-se utilizar
inclinômetros nas laterais do túnel para monitorar os deslocamentos
do maciço.

5.2. Mecanismos no suporte com anel completo (com invert) –


Casos O
Figura 14 – Convergência provocada
pela ruptura da fundação por
5.2.1. Mecanismos provocados por flexão – Casos O1
As flexões na casca são provocadas pela deformação do suporte, o cisalhamento global.
qual procura o equilíbrio mobilizando as pressões de confinamento necessárias em cada região, conforme as
solicitações do maciço.
Quando a forma da seção é mal concebida, as deformações necessárias para que a estrutura entre em equilíbrio tornam-
se muito grandes, e ocorrem a custa de esforços de flexão. Quando a capacidade de flexão em alguma seção se esgota, a
casca rotula nesse ponto passando a trabalhar como uma articulação, porém, com as rotações limitadas pela capacidade
da rótula plástica. A vantagem de um suporte com o anel fechado está na capacidade dele se manter estável mesmo com
uma série de articulações, buscando o equilíbrio através de esforços de compressão, desde que se consiga manter o
confinamento necessário. A casca perde o equilíbrio quando os efeitos de segunda ordem se tornam significativos,
provocando flambagem por flexo -compressão (analogamente ao caso D2B). Estes mecanismos são ilustrados na Figura
11 pelos casos O1A e O1B.
O caso O1C é um colapso por flexão do invert. Este caso ocorre por geometria concebida desfavoravelmente, ou por
presença de um substrato rígido tangenciando o invert.
A geometria do invert deve ser bem elaborada para que os esforços da fundação sejam transferidos ao máximo por
esforços de compressão da casca. Quando a curvatura do invert é muito pequena, predomina a transferência de carga
por esforços de cortante e flexão, as quais são dificilmente resistidas face à espessura reduzida dos revestimentos usuais.
A ocorrência de um substrato rígido tangenciando o invert faz com que o ponto de contato funcione como um apoio,
que funciona como uma aplicação de carga concentrada no meio do vão.
O caso O1D ocorre analogamente ao caso D2C, por carregamentos assimétricos.

5.2.1.1. Monitoração
A monitoração neste caso se faz da mesma forma que no caso D2, através da análise das medidas de convergências e
divergências, dos recalques dos pinos e dos inclinômetros, com exceção do caso O1C que deve ser evitado, verificando-
se sempre o tipo de material encontrado sob o invert antes da sua concretagem.

5.2.2. Mecanismos provocados por cisalhamento – Casos O2


Estes mecanismos podem ser conseqüências de deficiências no projeto ou na execução da obra.
No projeto, a falha pode ocorrer no dimensionamento aos esforços, no detalhamento inadequado da ligação e na
geometria concebida desfavoravelmente.
Existem dois pontos críticos para a ocorrência da ruptura por cisalhamento:
- na lateral da seção, onde ocorrem as juntas de concretagem entre a calota e o invert;
- no invert, próximo à calota, onde se concentram os esforços cortantes.
No primeiro caso, representado pelo caso O2A, o ponto crítico é a ligação da calota com o invert, região que na fase
anterior estava próxima do piso, onde ocorre o acúmulo de sujeira e de material de reflexão.
Na Figura 15 ilustram-se alguns tipos de ligação do invert com a calota. Como se pode observar, todos os detalhes
dependem de uma boa aderência entre as diversas camadas de concreto projetado. O mau desempenho das ligações
pode resultar em colapsos da estrutura, muitas vezes sem aviso.
A ruptura neste ponto pode ocorrer também pelo subdimensionamento da casca aos
esforços de compressão. Como a casca nesta função trabalha como um pilar, a ruptura
ocorre por cisalhamento (ver caso O2A da Figura 11).
O segundo caso, representado pelo caso O2B, ocorre quando o invert é usado como
fundação, isto é, ele é usado para distribuir a carga da casca reduzindo as tensões no
solo. Porém, a forma inadequada do invert contribui siginificativamente para que a
transferência dos esforços ocorra por cisalhamento, e não por forças normais. Tais
esforços de cisalhamento costumam ser grandes e, nestes casos, necessitam de armação
adequada, as quais são de difícil detalhamento e execução.
A ruptura apresentada pelo caso O2B ocorre sempre próxima das paredes laterais, onde
age o maior esforço cortante. O problema pode se agravar com a má execução da ligação
calota invert nessa região, como já foi citado anteriormente.

5.2.2.1. Monitoração
A monitoração dos mecanismos provocados por cisalhamento não é possível por se
tratar de colapsos frágeis e sem prévio aviso. Neste caso, deve-se realizar uma boa
fiscalização dos trabalhos de campo, garantindo a correta execução das ligações. Deve
se garantir ainda, acima de tudo, a elaboração de um projeto robusto, através de um bom
dimensionamento dos elementos de suporte. Nas ligações entre a calota e o invert, deve-
se dar preferência às soluções que privilegiem a transferência de carga por compressão
(Figura 15b) e não por cisalhamento.

6. Conclusões
Figura 15 – Tipos de • Durante a execução de obras de estruturas de túneis, é imprescindível a presença de
juntas de concretagem uma equipe de ATO com engenheiros devidamente capacitados com noções
entre calota e invert. mínimas sobre o método NATM, o comportamento de maciços, o desenvolvimento
de carregamentos sobre o revestimento, os elementos de suporte, as fundações e sobre os mecanismos de colapso.
• Os conhecimentos dos mecanismos de colapso e dos seus efeitos não devem ser utilizados apenas para evitar os
acidentes, mas sim para elaborar e aperfeiçoar projetos, executar obras mais econômicas e realizar intervenções que
dêem melhor desempenho ao túnel.
• A capacidade de previsão das deformações nas estruturas e no maciço através de modelos matemáticos, antes do
início das obras, é de grande importância para que sejam detectados os pontos ou regiões de máximas solicitações e
deformações. Dessa forma, podem-se monitorar tais regiões com maior detalhamento, permitindo a antecipação de
possíveis intervenções na obra face ao aparecimento dos primeiros sintomas.
• Quando acidentes ocorrem, é bastante comum culpar-se o maciço pelo mesmo. São justificativas freqüentes de
acidentes: o aparecimento de maciços pouco competentes, o surgimento de infiltrações de água, a sobrecarga do
suporte pelo maciço, etc. Deve-se lembrar nestas situações que as prospecções é que podem ter sido insuficientes, a
água não foi devidamente combatida; as cargas no suporte não foram devidamente equilibradas. Contudo, não é
intenção culpar-se as pessoas pelos acidentes, mas lembrar que se deve dar a máxima atenção às armadilhas da
natureza nas execuções de obras subterrâneas.

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