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O HOMEM MEDIEVAL
Michelle Tadaiesky Tavares

Famílias em Coimbra nos séculos XVIII e XIX


Guilhermina Mot a

BAHIA UMA PROVÍNCIA NO IMPÉRIO OCR.pdf


Emanuelle Maia
A lb e rto A . A n d e ry
A lfre d o N a ffa h N e to J o s é R. T . Reis
A n to n io d a C. C ia m p a M a rília G. d e M ira n d a
Iray C a ro n e S ilvia T . M . Lane (org.)
J o s é C. L ib ân eo W a n d e rle y C o d o (o rg .)

PSICOLOGIA SOCIAL
o h o m e m e m m o v im e n to

8?
e d iç ã o

editora brasiliense
C oleçào P rim eiros Passos

O Discurso da Homossexualidade O que é Loucura


Feminina Joio Frayzt" Pereira
Dcnise Portinari
O que é Psicanálise
Evas, Marias, Liliths... Fabio Herrmann
As voltes do fem in ino
Vera Paiva O que é Psicanálise
2 ? visão
Filosofia e Comportamento Oscar Cesarotto/ Márcio P .S . Leite
Bento Prado Jr.
O que é Psicologia
Freud, Pensador da.Cultura Maria Luiza S . Teles
Renato Mczan
O que é Psicologia Comunitária
O Mínimo Eu Eduardo M. Vasconcelos
Christopher Lasch
O que é Psicologia Social
Sigmund Freud e o Gabinete do Silvia T. Maurer Lane
Dr. Lacan
Peter Gay e outros O que é Psicodrama
Wilsçn Csutcljadc Almeida
Tempo do Desejo
S o ciologia e p sic a n á lise O que é Psico terapia
H eloísa F e rn a n d e s (org) leda Porchac

O que é Psiquiatria Alternativa


Alan índio Serrano
SI LVI A T. M. LANE
WAND ERLEY CODO (ORGS.)

PSICOLOGIA SOCIAL
O H O M E M EM M O V IM E N T O

&? edição

editora brasiliense
C opyrig ht © Dos Autores, 1984
N enhum a parte desta publicação p o d e ser gravada,
armazenada em sistemas eletrônicos, fotocopiada,
reproduzida por meios mecânicos ou outros quaisquer sem
autorização prévia do ed ito r .

ISBN: 85-11-15023-4
Primeira edição, 1984
S? edição, 1989

Revisão: José W. S. M oraes e M ansueto Bem ardi


Capa: Ettore Bottini

P
Rua da Consolação, 2697
01416 São Paulo SP
Fone (OU) 280-1222 - Telex: 1133271 D BLM BR

IM PRESSO N O BRASIL
Indice
A presentação — S ilv ia T . M . L a n e ............................................ 7

PARTE 1
IN TR OD U ÇÃ O

A Psicologia Social e u m a nova concepção do hom em para


a Psicologia — S ilv ia T. M . L a n e ................................... 10
A dialética m arxista: um a leitura ep istem ológica — I r a y
C a r o n e ................................................................................... 20

PAR TE 2
AS CAT EG OR IA S F U N D A M E N T A IS
D A PSICOLOGIA SOC IA L

lin g u a g e m , pensam ento e representações sociais — S ilv ia T.


M . L a n e ........................................................ ........................ 32
C onsciência/alienação: a ideologia no nível individual —
S ilv ia T> M . L a n e ................................................................ 40
O fazer e a consciência — W a n d e rle y C o d o .............................. 46
Identidade — A n to n io d a C o sta C ia m p a ................................... 58
6 IND ICE

PAR TE 3
O IN D IV ÍD U O E AS IN STITU IÇ Õ ES

O processo grupai — S ilv ia T . M . L a n e ................................... 78


Fam ília, em oção e ideologia — J o sé R o b e r to T o z o n i R e is . . . 99
O processo de socialização na escola: a evolução da condição
social da criança — M a r ília G o u v e a d e M ir a n d a ........ 125
R elações de trabalho e transform ação social — W a n d e rle y
C o d o ....................................................................................... 136

PA R TE 4
A PRÂ XIS D O PSICÓ LO G O

P sicologia educacional: um a avaliação crítica — J o s é C a rlo s


L ib â n e o ................................................................................. 154
O psicólogo clinico — A lfr e d o N a ffa h N e to ............................. 181
O papel do p sicólogo na organização industrial (notas sobre
o ‘‘lobo m au” em psicologia) — W a n d e r le y C o d o .............. 195
Psicologia n a com unidade — A lb e r to A b i b A n d e r y .............. 203
Apresentação.
Q u an d o publicam os O q u e é P s ic o lo g ia S o c ia l o fizem os
dentro das propostas da Coleção Prim eiros Passos, procurando
sintetizar a produção e discussão de tem as que o program a de
pós-G raduação em Psicologia Social da PU C -SP vinha d esen­
volvendo.
Para nossa surpresa, o livro passou a ser leitura constante de
alunos de cursos universitários em todo o país, indicando a
necessidade de um conhecim ento alternativo em Psicologia Social.
Este livro se propõe a atender a essa necessidade com artigos de
vários autores a b o n a n d o os tópicos que julgam os fundam ental
serem discutidos em disciplinas de Psicologia Social que com põem o
currículo de Form ação Geral do Psicólogo, assim com o de outros
cursos que necessitem de conhecim entos n essa área.
A Introdução propõe um a outra con cep ção de hom em e suas
im plicações epistem ológicas; a Parte 2 analisa as categorias fu n ­
dam entais para a Psicologia Social, en q u anto a Parte 3 aprofunda
a análise da relação indivíduo-sociedade, p ela m ediação grupai e
institucional. N a Parte 4 os artigos analisam com o, a partir desta
concepção de hom em , é possível rever a prática do psicólogo nas
suas diversas especialidades
Esperam os assim contribuir para um a psicologia voltada para
os problem as concretos de nossa realidade, tornando o profissional .
um agente de transform ação na sociedade brasileira.

S ilv ia T %M . L a n e
1

Parte 1
Introdução
A Psicologia Social
e uma nova concepção
do homem para
a Psicologia
S ilvia T a tia n a M a u rer L a n e

“Q u a se n e n h u m a ação h u m a n a te m p o r su je ito u m in d i­
víd u o isolado. 0 sujeito da ação é u m g r u p o , u m 'Nós',
m e s m o se a e str u tu r a a tu a i da s o c ie d a d e , p e lo fe n ô m e n o
d a reifiçaçao, te n d e a en co b rir esse ‘N ó s ’ e a tra n sfo rm á -lo
n u m a som a d e vã ria s in d iv id u a lid a d e s d is tin ta s e fe c h a d a s
u m a s às outras. ” L ucien G o ld m a n , 1947.

À relação en tre P sicologia e P sicologia Social deve ser e n te n ­


d id a em su a perspectiva h istó rica, quando^ n a d é c a d a de 50 se
iniciam sistem atizações em term os d e P sicologia Social, d e n tro de
d u a s te n d ên cias p re d o m in a n te s: u m a , n a tra d iç ã o p ra g m á tic a dos
E s ta d o s U nidos, visando a lte ra r e /o u c ria r a titu d e s , in te rfe rir nas
re la çõ es gru p ais p a ra h arm o n iz á -la s e assim g a ra n tir a p ro d u ti­
v id a d e d o g ru p o — é u m a a tu a ç ã o que se c a ra c te riz a p ela euforia d e
u m a in tervenção q u e m in im iz a ria conflitos, to rn a n d o os h om ens
“ felizes” recorstrutores d a h u m a n id a d e que acabava de sair da
d e s tru iç ã o de um a II G u e rra M u n d ia l. A o u tra te n d ên cia, que
ta m b é m p ro c u ra co n h ec im e n to s que evitem novas catástro fes
m u n d ia is , segue a tra d iç ã o filosófica e u ro p é ia , com raízes n a
fenom enologia, b u sc a n d o m odelos científicos to ta liz a n te s, com o
Lew in e su a teoria de C am p o .
A euforia deste ra m o científico d e n o m in a d o Psicologia Social
d u r a relativ am en te p o u co , pois su a eficácia com eça a ser q uestio­
n a d a em m eados d a d é c a d a d e 60, q u a n d o as análises criticas
a p o n ta v a m p a ra u m a “ c ris e '* do c o n h ec im e n to psicossocial q u e não
INTRODUÇÃO 11

c o n se g u ia in te rv ir n em ex p licar, m u ito m e n o s prever c o m p o rta ­


m e n to s sociais. As rép licas de pesq u isas e e x p erim en to s n ão p e rm i­
tia m fo rm u la r leis, os estudos in te rc u ltu ra is a p o n ta v a m p a r a u m a
c o m p le x id a d e de variáveis q u e d esafiav am os p esq u isad o res e
esta tístic o s — é o re to rn o às análises fa to ria is e novas técnicas de
a n á lise d e m u ltiv a riâ n c ia , que afirm a m so b re relações ex istentes,
m a s n a d a em term os d e “ com o" e “ p o r q u ê ” ,
N a F ra n ç a , a tra d iç ã o p sican a lltica é re to m a d a com to d a a
v eem ên cia ap ó s o m ovim ento de 68, e sob sua ótica é feita u m a
c rític a à psicologia social n o rte -a m e ric a n a co m o um a ciência ideo­
ló g ica, re p ro d u to ra d o s interesses d a classe d o m in a n te , e p ro d u to de
c o n d içõ es históricas específicas, o que in v a lid a a tran sp o siçã o ta l e
q u a l d este co n h ecim en to p a ra o u tro s p aíses, em o u tra s condições
h istó rico -so ciais. E sse m ovim ento ta m b ém te m suas repercussões n a
In g la te rra , onde Israel e T àjfell a n a lisa m a “ crise1* sob o p o n to de
vista epistem ológico co m os d iferentes p ressu p o sto s que e m b a sa m o
c o n h e c im e n to científico — é a crítica ao positivism o, que em nom e
d a objetiv id ad e p erd e o se r h u m an o .
N a A m érica L a tin a , T erceiro M u n d o , d e p e n d e n te eco n ô m ica
e c u ltu ra lm e n te , a P sicologia Social o scila e n tre o p ra g m a tism o
n o rte -a m e ric a n o e a visão a b ra n g e n te de u m h o m em q u e só e r a
c o m p re e n d id o filosófica ou sociologicam ente — ou seja, u m h o m e m
a b s tra to . O s congressos in teram e rican o s d e Psicologia são exce­
le n te s term ô m etro s d e s s a oscilação e q u e cu lm in am em 1976
(M ia m i), com crític a s m ais siste m a tiz a d a s e novas p ro p o stas,
p rin c ip a lm e n te pelo g ru p o d a V enezuela, q u e se o rg an iza n u m a
A ssociação V en ezu elan a d e Psicologia Sovial (A V E PS O ) coexistindo
co m a A ssociação L atin o -A m erican a d e P sicologia Social (A L A P-
S O ). N essa ocasião, psicólogos b ra sile iro s ta m b é m faziam su a s
c rític a s, p ro c u ra n d o novos rum os p a r a u m a Psicologia Social q u e
a te n d e sse à nossa re a lid a d e , Esses m ovim entos cu lm in am em 1979
(S IP — L im a, P eru) co m p ro p o stas c o n c re ta s de u m a P sicologia
S ocial em bases m a te ria lista -h istó ric a s e v o lta d a s p a ra tra b a lh o s
co m u n itá rio s, a g o ra com a p a rtic ip a ç ã o d e psicólogos p e ru a n o s,
m e x ican o s e outros.
O p rim e iro p asso p a ra a su p eração d a crise foi c o n s ta ta r a
tra d iç ã o biológica d a Psicologia, em q u e o in d iv íd u o e ra co n sid era d o
u m o rg an ism o que in te ra g e no m eio físico, sen d o que os processos
psicológicos (o q u e o c o rre “ d e n tro " dele) são assum idos com o
c a u s a , ou u m a d as c a u s a s que ex plicam o seu co m p o rta m e n to . O u
seja, p a ra c o m p re e n d e r o indivíduo b a s ta r ia conhecer o q u e
12 SILVIA T . M . LANE

ocorre "dentro dele” , quando ele se defronta com estím ulos do


m eio.
Porém o hom em fala, pensa, aprende e en sina, transform a a
natureza; o hom em é cultura, é história. E ste hom em biológico não
sobrevive por si e n em é u m a espécie que se reproduz tal e qual, com
variações decorrentes de clim a, alim entação, etc. O seu organism o é
um a infra-estrutura que perm ite o desenvolvim ento de um a superes­
trutura que é social e , portanto, histórica. E sta desconsideração da
Psicologia em geral, do ser hum ano com o produto histórico-
social, é que a torna, se não inócua, um a ciência que reproduziu a
id eologia dom inante de um a sociedade, qu and o descreve com por­
tam en to e baseada em freqüências tira conclusões sobre relações
causais pela descrição pura e sim ples de com portam entos ocorrendo
em situações dadas. N ão discutim os a validade das leis de aprendi­
zagem ; é indiscutível que o reforço aum enta a probabilidade da
ocorrência do com portam ento, assim com o a punição extingue
com portam entos, porém a questão que se coloca é por que se
apreende certas coisas e outras são extintas, por que objetos são
considerados reforçadores e outros punidores? Em outras palavras,
em que condições sociais ocorre a aprendizagem e o que ela significa
n o conjunto das relações sociais que defin em concretam ente o
indivíduo na sociedade em que ele vive.
O ser hum ano traz consigo um a dim ensão que não pode ser
descartada, que é a su a condição social e histórica, sob o risco de
term os um a visão distorcida (ideológica) de seu com portam ento.
U m outro ponto de desafio para a P sicologia Social se colocava
d ian te dos conhecim entos desenvolvidos — sabíam os das deter­
m inações sociais e culturais de seu com portam ento, porém onde a
criatividade, o poder d e transform ação da sociedade por ele
construída. O s determ inantes só nos ensinavam a reproduzir, com
p equenas variações, as condições sociais n as quais o indivíduo vive.

A ideologia nas ciências humanas

A afirmativa de que o positivism o, na procura da objetividade


dos fatos, perdera o ser hum ano decorreu d e u m a análise crítica de
um conhecim ento m inucioso enquanto descrição de com porta­
m entos que, no entanto, não dava conta d o ser hum ano agente de
m udança, sujeito da história. O hom em ou era socialm ente deter­
m inado ou era causa de si m esmo: sociologism o vs biologism o? Se
INTRODUÇÃO m

por um lado a psicanálise enfatizava a história do individiM^


a sociologia recuperava, através do m aterialism o histórico, a espe­
cificid ad e de um a totalidade histórica concreta n a análise de cadà
sociedade. Portanto, caberia à Psicologia Social recuperar o indi-
víduo na intersecção de sua história com a h istória de sua sociedade
— apenas este conhecim ento nos perm itiria com preender o hom em
en q u anto produtor da história.
N a m edida em que o conhecim ento positivista descrevia
com portam entos restritos no espaço e no tem po, sem considerar a
inter-relaçào infra e superestrutural, estes com portam entos, m e­
diados pelas instituições sociais, reproduziam a ideologia dom i­
nan te, em termos de freqüência observada, levando a considerá-los
com o “ naturais” e, m uitas rezes, "universais” . A ideologia, com o
produto histórico que se cristaliza nas in stitu ições, traz consigo um a
concepção de hom em necessária para reproduzir relações sociais,
que por sua vez são fundam entais para a m anutenção das relações
de produção da vida m aterial da sociedade com o tal. N a m edida
em que a história se produz dialeticam ente, cada sociedade, n a
organização da produção de sua vida m aterial, gera um a contra­
dição fundam ental, que ao ser superada produz um a nova socie­
dade, qualitativam ente diferente da anterior. Porém , para que esta
contradição não negue a todo m om ento a socied ad e que se produz, é
necessária a m ediação ideológica, ou seja, valores, explicações tidas
com o verdadeiras que reproduzam as relações sociais necessárias
para a m anutenção das relações de produção.
D este m odo, quando as ciências hum anas se atêm apenas na
descrição, seja m acro o u m icrossocial, das relações entre os hom ens
e das instituições sociais, sem considerar a sociedade com o produto
histórico-dialético, elas não conseguem captar a m ediação id eo­
lógica e a reproduzem com o fatos inerentes à “natureza” do
h om em . E a Psicologia n ão foi exceção, principalm ente, dada a sua
origem biológica naturalista, onde o com portam ento hum ano
decorre de um organism o fisiológico que responde a estím ulos.
Lem bram os aqui W undt e seu laboratório, que, objetivando
construir um a psicologia científica, que se diferenciasse da esp ecu ­
lação filosófica, se preocupa em descrever processos psicofisiológicos
em term os de estím ulos e respostas, de causas-e-efeitos.
N esta tradição e no entusiasm o d e descrever o hom em
en q u anto um sistem a nervoso com plexo que o perm itia dom inar e
transform ar a natureza, criando condições s u i-g e n e r is para a
SILVIA T. M . LANE

sob ftvivên cia da esp écie, os psicólogos se esqueceram de que este


h om em , ju n to com outros, ao transform ar a natureza, se trans­
form ava ao longo da história.
C om o exem plo, podem os citar Skinner, que, sem dúvida,
causou um a revolução na Psicologia, m a s as condições histórico-
sociais que o cercam , im pediram -no de dar um outro salto q u ali­
tativo. A o superar o esquem a S-R , ch am ando a atenção para a
relação hom em -am biente, para o c o n tr o le que este am biente exerce
sobre o com portam ento; criticando o reducionism o biológico,
perm itiu a Skinner ver o hom em com o produto das suas relações
sociais, porém não chega a ver estas relações com o produzidas a
partir da condição histórica de um a sociedade. Q uando Skinner,
através da análise experim ental do com portam ento, detecta os
controles sutis que, através das instituições, os hom ens exercem uns
sobre os outros, e define leis de aprendizagem — e não podem os
negar que reforços e p unições d e f a t o controlam com portam entos —
tem os u m a descrição perfeita de um organism o que se transform a
em função das conseqüências de sua ação, tam bém a análise do
a u to c o n tr o le se aproxim a do que consideram os consciência de si e o
c o n tr a c o n tr o le descreve ações de um indivíduo em processo de
conscientização social. Skinner aponta para a com plexidade das
relações sociais e as im plicações para a análise dos com portam entos
envolvidos, desafiando os psicólogos para a elaboração de um a
tecnologia de análise que dê conta desta com plexidade, enquanto
con tin gên cias, presentes em com unidades. A história individual é
considerada enquanto história social q u e antecede e sucede à
história do Indivíduo. N esta linha de raciocínio caberia questionar
por que alguns com portam entos são reforçados e outros punidos
dentro de um m esm o grupo social. Sem responder a estas questões,
passam os a descrever o s ta tu s q u o com o im utável e, m esm o que­
rendo transform ar o hom em , com o o próprio Skinner propõe,
jam ais o conseguirem os num a dim ensão histórico-social.
Im passe sem elhante podem os observar em Lewin, que procura
detectar os “casos puros" à m aneira galileica e assim precisar leis
psicológicas. Tam bém para ele Indivíduo e M eio são indissociáveis,
e na m ed id a em que o m eio é social e se caracteriza p ela
com plexidade de regiões e sub-regiões e seu s respectivos sistem as de
forças, se vê num im passe para a com provação e previsão de
com portam entos. Este im passe surge, entre outros, na descrição de
processos grupais sob lideranças autocráticas, democráticas e
la is s e z -fa ir e , quando, entendendo ser o p rocesso dem ocrático o m ais
INTROD UÇ ÃO íê

criativo e produtivo, propõe um a “liderança dem ocrática fefttt**


com o form a de se chegar a esta relação gru p ai...
Tam bém a psicanálise, em suas várias tendências, enfrenta
e ste problem a, desde as criticas de Politzer a Freud até as análises
atuais dos franceses, que procuram fazer u m a releitura da obra de
Freud num a perspectiva histórico-social do ser hum ano.
N ão negam os a psicobiologia nem as grandes contribuições da
psiconeurologia. A final, elas descrevem a m aterialidade do orga­
nism o hum ano que se transform a através de sua própria atividade,
m as elas pouco contribuem para entenderm os o pensam ento h u ­
m an o e que se desenvolve através das relações entre os hom ens, para
com preenderm os o hom em criativo, transform ador — sujeito da
história social do seu grupo.
Se a Psicologia apenas descrever o que -é observado ou enfocar
o Indivíduo com o causa e efeito de sua individualidade, ela terá um a
ação conservadora, estatizante — ideológica — quaisquer que sejam
as práticas decorrentes. Se o hom em não for visto com o produto e
produtor, não só de sua história pessoal m as da história de sua
sociedade, a Psicologia estará apenas reproduzindo as condições
necessárias para im pedir a em ergência das contradições e a trans­
form ação social.

Á psicologia social e o materialismo histórico

Se o positivism o, ao enfrentar a contradição entre objetividade


e subjetividade, perdeu o ser hum ano, produto e produtor da
H istória, se tornou necessário recuperar o s u b je tiv is m o enquanto
m a te r ia lid a d e p s ic o ló g ic a . A dualidade físico X psíquico im plica
um a concepção idealista do ser hum ano, n a velha tradição animíp-
tica da psicologia, ou en tão caím os num organicism o onde hom em e
com putador são im agem e sem elhança um do outro. N enhum a das
duas tendências dá conta de explicar o h om em criativo e trans­
form ador. T om ou -se necessária um a nova dim ensão espaço-tem -
poral para se apreender o Indivíduo com o um ser concreto,
m anifestação de um a totalidade histórico-social — daí a procura de
um a psicologia social que partisse da m aterialidade histórica
produzida por e produtora de hom ens.
Ê dentro do m aterialism o histórico e da lógica dialética que
vam os encontrar os pressupostos epistem ológicos para a recons­
16 SILVIA T . M . LANE

trução dç um conhecim ento que atenda à realidade social e ao


cotidiano de cada indivíduo e que perm ita um a intervenção efetiva
na rede de relações sociais que define ca d a indivíduo — objeto da
Psicologia Social.
D a s críticas feitas detectam os que definições, conceitos cons-
tructos que geram teorias abstratas em n ad a contribuíram para um a
prática psicossocial. Se n ossa m eta é atingir o indivíduo concreto,
m anifestação de u m a totalidade histórico-social, tem os de partir do
em pírico (que o positivism o tão bem n os ensinou a descrever) e,
através de análises sucessivas nos aprofundarm os, além do apa­
rente, em direção a esse concreto, e para tanto necessitam os de
c a te g o r ia s que a partir do em pírico (im obilizado pela descrição) nos
levem ao processo subjacente e à real com preensão do Indivíduo
estudado.
T am bém a partir de críticas à p sicologia social “tradicional"
pudem os perceber dois fatos fundam entais para o conhecim ento do
Indivíduo: 1) o hom em não sobrevive a n ão ser em relação com
outros hom ens, portanto a d ic o to m ia Indivíduo X Grupo é falsa —
desde o seu nascim ento (m esm o antes) o h om em está inserido num
grupo social — ; 2) a sua participação, as suas ações, por estar em
grupo, dependem fundam entalm ente da aquisição da lin g u a g e m
que preexiste ao indivíduo com o código produzido historicam ente
pela sua sociedade ( la n g u e ) , m as que ele apreende na sua relação
específica com outros indivíduos (p a r o le ) , Se a língua traz em seu
código significados, para o indivíduo as palavras terão um sentido
pessoal decorrente da relação entre p ensam ento e ação, m ediadas
p elos outros significativos.
O resgate destes dois fatos em píricos perm ite ao psicólogo
social se aprofundar n a análise do Indivíduo concreto, considerando
a im bricação entre relações grupais, linguagem , pensam ento e ações
na defin ição de características fundam entais para a análise psicos­
social.
A ssim , a a tiv id a d e im plica ações encadeadas, ju n to com outros
indivíduos, para a satisfação de um a necessid ade com um . Para
haver este encadeam ento é necessária a com unicação (linguagem )
assim com o um plano de ação (pensam ento), que por sua vez
decorre de atividades anteriorm ente desenvolvidas.
R efletir sobre u m a atividade realizada im plica repensar suas
ações, ter consciência de si m esm o e dos outros envolvidos, refletir
sobre os sentidos pessoais atribuídos às palavras, confrontá-las com
as conseqüências geradas pela atividade desenvolvida pelo grupo
INTR ODU ÇÃO 17

social, e nesta reflexão se processa a c o n s c iê n c ia do indivíduo, que é


indissociável enquanto de si e social.
Leontiev inclui ain d a a p e r s o n a lid a d e com o categoria, decor­
rente do princípio de que o hom em , ao agir, transform ando o seu
m eio se transform a, criando características próprias que se tornam
esperadas pelo seu grupo no desenvolver de su as atividades e de suas
relações com outros indivíduos.
C aberia ainda, n a especificidade psicossocial, um a análise das
r e la ç õ e s g r u p a is en q u anto m ediadas p elas in s titu iç õ e s s o c ia is e
com o tal exercendo u m a m ediação id eológica na atribuição de
p ap éis sociais e representações decorrentes d e atividades e relações
sociais tidas com o “ adequadas, corretas, esp erad as” , etc.
A consciência da reprodução id eológica inerente aos papéis
socialm ente definidos p e r m i t e aos indivíduos no grupo superarem
suas individualidades e se conscientizarem das condições históricas
com uns aos m em bros do grupo, levando-os a um processo de
identificação e de atividades conjuntas que caracterizam o grupo
com o unidade. Este processo pode ocorrer individualm ente e cons­
tataríam os o desenvolvim ento de um a consciência de si idêntica à
consciência social. N a m edid a em que o processo é grupai, ou seja,
ocorre com todos os m em bros, ele tende a caracterizar o desen­
volvim ento de um a consciência de classe, q uando o grupo se percebe
inserido no processo de produção m aterial de sua vida e percebe as
contradições geradas historicam ente, levando-o a atividades que
visam à superação das contradições presentes no seu cotidiano,
to m a -se um grupo-sujeito da transform ação histórico-social.
D esta forma, a análise do processo grupai nos perm ite captar a
d ialética indivíduo-grupo, onde a dupla negação caracteriza a
superação da contradição existente e quando o indivíduo e grupo se
tornam agentes da história social, m em bros indissociáveis da
totalidade histórica que os produziu e a qual eles transform am pôr
suas atividades tam bém indissociáveis.
E sta análise das categorias fundam entais para a com preensão
d o ser hum ano nos leva à constatação d a im possibilidade de
delim itarm os conhecim entos em áreas estan qu es que com poriam o
conjunto das Ciências H um anas. Psicologia, Sociologia, A ntropo­
logia, Econom ia, H istória, Pedagogia, L ingüística são enfoques a
partir dos quais todas as áreas contribuem para o conhecim ento
profundo e concreto do ser hum ano. Suas fronteiras devem ser
necessariam ente perm eáveis, am pliando o conhecim ento, seja do
18 SILVIA T . M . LANE

in d iv íd u o , d o g ru p o , d a so cied ad e e d a p ro d u ç ã o d e s u a ex istên cia


m a te ria l e c o n c re ta .

Decorrências metodológicas:
a pesqufea-ação enquanto práxis
A p a r tir d e u m en fo q u e fu n d a m e n ta lm e n te interdisciplinary
o p e s q u is a d o r-p ro d u to -h istó ric o p a r te de u m a v isão d e m u n d o e do
h o m e m n e c e ssa ria m e n te c o m p ro m e tid a e n e s te se n tid o n ã o h á
p o ssib ilid a d e de se g e ra r u m c o n h e c im e n to “ n e u tro ” , n e m u m
c o n h e c im e n to d o o u tro q u e n ã o in te rfira n a s u a ex istên cia. P e sq u i­
s a d o r e p e s q u is a d o se d efin e m p o r rela çõ es so ciais q u e ta n to p o d em
ser re p ro d u to ra s com o p o d e m se r tra n s fo rm a d o ra s d a s condições
sociais o n d e am b o s se in serem ; d e sta fo rm a , co n sc ie n te s o u n ã o ,
sem p re a p e s q u is a im p lic a in terv en ção , a ç ã o de u n s so b re outros* A
p e s q u is a em si é u m a p rá tic a social o n d e p e s q u is a d o r e p e sq u isa d o
se a p re s e n ta m e n q u a n to su b je tiv id a d e s q u e se m a te ria liz a m n as
relaçõ es desenvolvidas, e o n d e os p ap éis se c o n fu n d em e se
a lte rn a m , a m b o s o bjetos de an álises e p o r ta n to d escrito s e m p iri­
c a m e n te . E s ta re la ç ã o — o b je to d e an á lise — é c a p ta d a em seu
m o v im en to , o q u e im p lic a, n e c e ssa ria m e n te , p e sq u isa -a ç ã o .
P o r o u tro la d o , as condições h istó ric as so ciais d o p esq u isa d o r
e d e p e s q u is a d o s q u e re sp o n d e m p elas relaçõ es sociais q u e os
id e n tific a m co m o in d iv íd u o s p e rm ite m a a c u m u la ç ã o de co n h ec i­
m e n to s n a m e d id a em q u e as condições sã o a s m e sm a s, o n d e as
esp ecificid ad es in d iv id u a is a p o n ta m p a ra o c o m u m g ru p a i e social,
ou seja, p a r a o p ro cesso h istó rico , q u e, c a p ta d o , nos p ro p ic ia a
c o m p re e n s ã o do in d iv íd u o com o m a n ife sta ç ã o d a to ta lid a d e social,
ou seja, 0 In d iv íd u o c o n cre to .
E s te c a r á te r ac u m u la tiv o d a p e sq u isa faz d o c o n h e c im e n to
u m a p rá x is , o n d e c a d a m o m e n to em p íric o é re p e n s a d o n o co n fro n to
com o u tro s m o m en to s e a p a r tir d a refle x ão c ritic a novos c am in h o s
d e in v e stig açã o são tra ç a d o s, q u e p o r su a vez levam a o reex am e de
to d o s os e m p írico s e an álises feitas, a m p lia n d o se m p re a co m ­
p re e n sã o e o âm b ito d o co n h ecid o . P e s q u is a -a ç â o é p o r excelência a
p rá x is cien tífica.
IN TR OD U Ç ÃO 19

Toda a psicologia é social

E s ta a firm ação n ã o significa re d u z ir as á re a s específicas d a


P sic o lo g ia à P sicologia S ocial, m as sim c a d a u m a a ssu m ir d e n tro d a
su a esp ecificid ad e a n a tu re z a h istórico-social d o ser h u m a n o . D esde
o d esenvolvim ento in fa n til a té as p a to lo g ia s e as técnicas de
in te rv e n ç ã o , cara c te rístic a s do psicólogo, devem ser a n a lisa d a s
c ritic a m e n te à luz d e sta c o n ce p ção d o ser h u m a n o — é a c lareza de
q u e n ã o se p ode c o n h ec er q u a lq u e r c o m p o rta m e n to h u m a n o is o ­
la n d o -o o u fra g m e n ta n d o -o , com o se este existisse em st e p o r si.
T a m b é m com e s ta a firm a tiv a n ã o n e g a m o s a especificidade d a
P sic o lo g ia Social — ela c o n tin u a te n d o p o r objetivo co n h ecer o
In d iv íd u o n o c o n ju n to d e s u a s rela çõ es sociais, ta n to n aq u ilo q u e lhe
é específico com o n a q u ilo e m que ele é m a n ife sta ç ã o g ru p ai e social.
P o ré m , a g o ra a P sicologia S ocial p o d e rá re sp o n d e r à q u e stão de co m o
o h o m e m é sujeito d a H istó ria e tra n s fo rm a d o r d e sua p ró p ria v id a e
d a s u a sociedade, assim co m o q u a lq u e r o u tr a á re a d a P sicologia.
A dialética marxista:
um a leitura epistem ológica*
j r a y Ç c fro n e

Introdução

H á alg u m as p ista s e in d icaçõ es no p re fá c io d a p rim e ira ed ição


a le m ã de O C a p ita lt b em com o n o p o sfácio d a se g u n d a e d iç ã o
a le m ã , q u e p o d em ser d e e x tre m a u tilid a d e p a ra a co m p re e n sã o
e p istem o ló g ica d o m é to d o dialético o u m é to d o de exposição ta l
com o e s tá objetivado n o desenvolvim ento d a o b ra m e n c io n a d a .
P rete n d e m o s a s s in a la r essas p is ta s a fim de e m p re e n d e r u m a
le itu ra do m éto d o de ex p o siçã o n o p rim e iro c a p ítu lo de O C a p ita l ,
q u e tr a ta d a M ercad o ria.
C om ecem os pelo p re fá c io d a p rim e ira e d iç ã o a le m à de 1867.
M a rx d iz q u a l é o o b je to d e in v estigação d a o b ra : " O regim e de
p ro d u ç ã o c a p ita lista e as relaçõ es de p ro d u ç ã o e de circ u laçã o q u e a
ele c o rre sp o n d e m * ',1 o u m ais precisam ente» " a s leis n a tu ra is d e
p ro d u ç ã o c a p ita lis ta ... q u e o p e ra m e se im põem com fé rre a
n e c e ssid a d e ” .2
O u n iv erso de p e s q u is a , to m a d o com o ilu stra ç ã o , é o c a p i­
ta lis m o inglês d o século p a s s a d o . O p o n to de p a r tid a d a in vestigação

{*) Algumas colocações teóricas deste artigo foram baseadas na análise


de M arcos M uller sobre o m étodo de exposição em 0 C apita/.
(1) M arx, K .( O C apitaif I, vol. 1, trad. porl. Reginaldo Sant'A nna, 6? ed.
Rio de Janeiro, CivilÍ2aç 8o Brasileira, 1980, p. 5.
12) M arx, K .f idem , iò id e m , p. 5.
IN TR OD U Ç ÃO 21

te ó ric a é a M e rc a d o ria , q u e co rresp o n d e a o c a p ítu lo p rim e iro de


O C a p ita l , e x a ta m e n te o q u e oferece m a io r d ificu ld ad e à c o m ­
p re e n s ã o d o leitor.
O m éto d o o u m o d o de tr a ta r o objeto» seg u n d o M arx , tem
a n a lo g ia s com o m é to d o d e p ro c e d e r d o b io lo g ista , o u m e lh o r, do
a n a to m is ta , bem com o com o m éto d o do fisico, M as n ã o e q u iv ale a
n e n h u m dos dois, p o r c a u s a d o objeto — a s fo rm a s — econôm icas.
M a rx fa la em “ a n á lis e ” e “ c a p a c id a d e de a b s tra ç ã o ” com o m o d o s
a d e q u a d o s de tr a ta r c ie n tific a m e n te as fo rm a s econôm icas, refra-
tá ria s à observação d ire ta o u observação in d ire ta com a ju d a de
in s tru m e n to s , o u m e sm o de e x p e rim e n ta ç ã o .
V ejam os a a n a lo g ia com a m a n e ira d e p ro c e d e r d o b io lo g ista.
O p re ssu p o sto d a a n a lo g ia é o de q u e a so cied ad e b u rg u e s a se
a s s e m e lh a a u m o rg a n ism o e a m e rc ad o ria e q u iv ale a u m a c é lu la ou
fo rm a e le m e n ta r desse o rg a n ism o .
N a a n alo g ia co m os p ro c e d im e n to s a d o ta d o s pelo físico n a
b u s c a d a s leis que re g u la m os processos d a n a tu re z a , M a rx diz: “ O
físico observa os pro cesso s d a N a tu re z a q u a n d o se m a n ife sta m n a
fo rm a m a is c a ra c te rístic a e e stã o m ais livres d e in fluências p e r tu r ­
b a d o ra s , o u , q u a n d o possível, faz ele ex p erim e n to s q u e a sseg u rem a
o c o rrê n c ia do p rocesso em su a p u re z a " . 3
P e la p rim e ira a n a lo g ia te m o s de c o n s id e ra r a sociedade com o
u m a to ta lid a d e tal co m o a to ta lid a d e o rg â n ic a , d o ta d a d e leis
e s tru tu ra is , esp ecificid ad e e so lid a rie d ad e fu n c io n a l e n tre as p a rte s;
a lé m disso, tal com o os o rg a n ism o s vivos, a sociedade é p e n s a d a
co m o to ta lid a d e d o ta d a de h is tó ria , que n a sc e e c a d u c a com o os
sere s vivos, isto é, n ã o é im u tá v e l, sofre tra n sfo rm a ç õ e s.
P e la seg u n d a a n a lo g ia te m o s a ra zã o p e ia q u a l o c a p ita lism o
d a In g la te rra foi to m a d o co m o u n iv e rso d e p e sq u isa e c a so
e x e m p la r. S egundo M a rx , o reg im e de p ro d u ç ã o c a p ita lista inglês
e s ta v a m ais desenvolvido q u e n a A le m a n h a e o u tro s países e u ­
ro p e u s; a existência de u m a legislação fa b ril a te sta v a o seu g ra u de
d esenvolvim ento; n a A le m a n h a , as relaçõ es sociais c a p ita lis ta s
e sta v a m em c o n tra d iç ã o com relações sociais d eriv a d a s de m o d o s de
p ro d u ç ã o an terio res, o u seja, “ p e r tu r b a d a s ” e a p re se n ta n d o m a io r
c o m p le x id a d e p a ra a an á lise e a b s tra ç ã o d o q u e o cap italism o
in g lê s. A lém disso, d iz M a rx , “ c o m p a ra d a c o m a inglesa, é p re c á ria

(3) M arx, K., idem, fbidem, p. 4.


» IR A Y C A R O N E

» estatística social da A lem anha e dos dem ais países da Europa


O cidental” ,4 o que perm ite m aior conhecim ento factual da situação
concreta de vida dos trabalhadores através dos informes dos inspe­
tores de fábricas, dos m édicos da Saúde Pública bem com o dos
com issários que investigam a situação das m ulheres e crianças nas
fábricas. Por últim o, na Inglaterra, “é palpável o processo revo­
lucionário” . 5
Ê evidente que M arx não identificou os seus procedim entos
com os do físico e do biologista. Podem os inferir, entretanto, que o
autor parte de u m a perspectiva totalizadora na qual a sociedade
burguesa é com preendida com o um sistem a social sujeito a trans­
form ações. Podem os inferir tam bém que em bora o capitalism o
inglês seja considerado um caso exem plar do regim e de produção
capitalista, o objetivo da obra transcende os lim ites do próprio
universo de pesquisa. Trata-se de com preender teoricam ente o que é
o capital e não o capitalism o inglês do século passado. Ou m elhor,
u m é o , na m edida em que se realiza um a leitura essencial do que é o
capital através de um a de suas concreções históricas. O capitalism o
inglês, na sua singularidade, m aterializa as características univer­
sais do regim e de produção capitalista, ou seja, as suas leis.
Passem os agora para o posfácio da segunda edição alem ã de
O C a p ita l, de 1873. O autor diz: “ O m étodo em pregado nesta obra,
conform e dem onstram as intérpretações contraditórias, não foi bem
com preendido” .6 A R é v u e P o s itiv is te afirm a que Marx trata a
econom ia m etafisicam ente e que, ao m esm o tem po, se lim ita à
análise crítica de um a situação dada, sem previsões para o futuro.
Sieber parece tê-lo com preendido de form a diferente dos positi-
vistaá: “ O m étodo d e M arx é o dedutivo de toda a escola in glesa” ; 7
M . B lock diz que o m étodo é analítico; os críticos alem ães afirm am
que se trata de spfística hegeliana; um resenhista russo do periódico
de São Petersburgo M e n s a g e ir o E u r o p e u pondera que é o “ m étodo
de pesquisas rigorosam ente realista” ,8 m as que lam entavelm ente o
m étodo de exposição é “ dialético-alem ão” .9

(4) Marx, K ., id em , ibid em , p. 5.


(5) Marx, K ., id em , ibid em , p. 6.
(6) Marx, K ., idem , ibidem , p. 13.
{7) Marx, K ., id em , ibidem , p. 13.
(8) M arx, K ., idem , ibidem , p. 14.
{9) Marx, K ., id em , ibidem , p. 14.
INTRODUÇÃO 23

A distinção entre m é to d o d e p e s q u is a s e m é to d o d e e x p o s iç ã o
feita pelo resenhista russo de O C a p ita l é retom ada por: Man:
“É m ister, sem dúvida, distinguir form alm ente o método da
exp osição do m étodo de pesquisa. A investigação tem de apode­
rar-se da m atéria em seus porm enores, de analisar suas diferentes
form as de desenvolvim ento e de perquirir a conexão íntim a que h á
entre elas. Só depois d e concluído esse trabalho é que se pode
descrever adequadam ente o m ovim ento real. Se isto se consegue,
ficará espelhada, no plano ideal, a vida da realidade pesquisada, o
que pode dar a im pressão de um a construção a p r i o r i ” . 10
É m uito im portante observar tal diferença. O m étodo de
p esquisa é a investigação de ordem em pírica, a coleta dos dados, a
sua classificação, o conjunto de técnicas e procedim entos adequados
à apropriação analítica do material em pírico — é preciso não
esquecer que Marx escolheu a Inglaterra, entre outras razões»
porque nela o levantam ento estatístico a respeito da situação dos
trabalhadores nas fábricas era m enos precário que na A lem anha e
dem ais países da E uropa Ocidental. O m étodo de exposição é
a reconstrução racional e teórica da realidade pesquisada, m as a
exposição só é possível a p o s te r io r i da p esquisa em pírica. Ou seja, o
fato de a pesquisa em pírica preceder a exposição teórica m ostra que
O C a p ita l não pretende ser um a construção apriorista e escolástica
— em bora possa até se assem elhar à especulação m etafísica, sob o
ponto de vista m eram ente formal. Pelo seu caráter analítico e
altam ente abstrato, o capítulo primeiro de O C a p ita l carrega
consigo todas as dificuldades da exposição teórica que tenta espe­
lhar, pelo avesso, a realidade da mercadoria.

A mercadoria: aparência e essência

O capítulo prim eiro do livro primeiro de O C a p ita l tem quatro


partes distintas. Percebem os, nos diferentes níveis da exposição,
pelo m en os três definições de Mercadoria.
À primeira vista, a m ercadoria nos aparece com o “um objeto
externo, um a coisa que, por suas propriedades, satisfaz necessi­
dades hum anas, seja qual for a natureza, a origem delas, pro­

(10) M arx, K .,id e m , ibidem , p. 16.


24 IR A Y C A R p N E

venham do estôm ago ou da fantasia” ;11 o u seja, a m ercadoria é por


nós representada com o um objeto ú til, que atende às nossas
necessidades, quer m ateriais quer espirituais. E m termos teóricos,
ela é definida com o um valor-de-uso. E n quanto valor-de-uso eia é
reconhecida, de m odo im ediato, pelos nossos sentidos, pelas suas
propriedades m ateriais específicas e particulares.
N a sociedade burguesa capitalista, o s valores-de-uso são bens
que com pram os ou vendem os, ou seja, são valores de troca. Em
sum a, m ercadoria é definida, num prim eiro nível, com o valor-
de-uso e valor de troca. T al definição deriva da prática social coti­
diana de venda e com pra de m ercadorias.
N a terceira parte do capítulo prim eiro, após dilatar o universo
do discurso com o s conceitos teóricos de trabalho concreto e
trabalho abstrato, valor e m agnitude d e valor e outros, M arx
redefine a m ercadoria: “D e acordo com hábito consagrado, se
disse, no com eço deste capítulo, que a m ercadoria é valor-de-uso e
valor de troca. M a s is to , a rig o r , n ã o é v e r d a d e ir o . A m e r c a d o r ia é
v a lo r -d e -u s o ou o b je to ú t i l e ‘v a lo r ’. E la revela seu duplo caráter, o
que ela é realm ente, quando, com o valor, dispõe de um a form a de
m anifestação própria, diferente da form a natural dela, a form a de
valor de troca; e ela nunca possui essa form a, isoladam ente
considerada, m as ap enas na relação de valor ou de troca com um a
segunda m ercadoria diferente. Sabendo isto, não causa prejuízo
aquela m aneira de exprim ir-se, servindo, antes, para poupar
tem p o” 12 (os grifos são m eus).
N a segunda definição o autor nega a verdade da prim eira
definição, afirm ando que ela é correta de um ponto de vista
pragm ático, em bora não reflita a “essên cia” da m ercadoria.
A segunda definição não seria possível sem o processo da
abstração: “valor” é um a propriedade concreta, m as im palpável aos
se n tid o s,13 de toda e qualquer m ercadoria. O valor-de-uso, ao
contrário, é constituído por m últiplas propriedades m ateriais,
concretas e em píricas, im ediatam ente apreensiveis pelos sentidos.
Isso quer dizer que a segunda definição revela a essência contra-

(11 ) Marx, K ., idem , ibidem , p. 41.


(12) Marx, K ., id em , ibidem , pp. 68-69.
(13) Marx, K ., id em , ibidem , p. 56: "A coisa-valor se mantém imper­
ceptível aos sentidos".
IN TRODUÇÃO É

ditória do ser da m ercadoria,14 a contradição entre às in u #


propriedades constitutivas.
A terceira definição, contida na quarta p arte do capitulo sob o
título “ O fetichism o da mercadoria: o seu segredo” , causa, per­
plexidade: M arx discorre sobre a m ercadoria de m aneira antro­
pom órfica, com o se ela tivesse pés, m ãos, cabeça, idéias, iniciativa.
Em outras palavras, com o objeto m isterioso e fantasm agórico. Diz:
“ À prim eira vista, a m ercadoria parece ser coisa trivial, im edia­
tam ente com preensível. A nalisando-a, vê-se que ela é algo m uito
estranho, ch eio de sutilezas m etafísicas e argúcias teológicas’*.15
M ais além: “o caráter m isterioso que o produto do trabalho
apresenta ao assum ir a form a mercadoria, de onde provém? D essa
própria form a, é claro” . 16
Ê preciso observar que a terceira defin ição com pleta um
círculo dialético que tom ou a mercadoria com o ponto de partida e
p onto de chegada. M as é evidente que a terceira definição desm ente
a prim eira de form a cabal. A m ercadoria, tal com o é representada
por n ós, num a prim eira instância, aparece com o m era utilidade ou
m eio para atender a um a finalidade, ou seja, para atender às nossas
necessidades m ateriais e espirituais. E la reaparece, no final da
análise, com o um objeto não-trivial, não com o um m eio para
atender a um fim: “cham o a isto de fetichism o, que está sem pre
grudado aos produtos d o trabalho, quando são gerados com o
m ercadorias. £ inseparável da produção das m ercadorias” . 17
D izer que a m ercadoria é fetiche, ou m elhor, dizer que a
form a-m ercadoria transform a os produtos do trabalho em fetiches,
significa dizer que a m ercadoria é um objeto não-trivial dotado de
poder sobre as nossas necessidades m ateriais e espirituais. N ão é,
pois, a m ercadoria que está a serviço de n ossas necessidades e sim ,
ás nossas necessidades é que estão subm etidas, controladas e
m anipuladas pela vontade e inteligência do universo das m erca­
dorias!
A terceira definição revela a essência da m ercadoria pela
negação de sua aparência de objeto* trivial a serviço de nossas

(14) M arx, K., idem , ibid em , p. 69.


(15) Marx, K., idem , ibid em , p. 79.
(16) M arx, K ., idem , ibidem , p. 80.
(17) M arx, K ., idem , ibid em , p. 81.
26 IRAY CARONE

n ece ssid a d es. O u seja, ela in verte as inversões c o n tid a s n as r e p re ­


sen taçõ es im ed iatas e p rim e ira s das m e rc a d o ria s.
O esforço teó rico q u e c u lm in o u n a a p re e n sã o do c a rá te r
e ssen c ia lm e n te falso, fa n ta sm ag ó rico e ideológico do ser d a form a-
m e rc a d o ria é» sem d ú v id a , u m m o v im en to negativo de p e n sa m e n to
q u e p e n s a o objeto p elo seu avesso.
E m su m a , a triv ia lid a d e d a m e rc a d o ria é u m a falsa triv ia ­
lid a d e q u e esconde o seu c a rá te r m isterio so , a u tilid a d e d a
m e rc a d o ria é u m a fa lsa u tilid a d e n a m e d id a em que as no ssa s
n ece ssid a d e s é que são p o r ela u tiliz a d a s. A m e rc a d o ria é um fetich e
ta n to q u a n to nossa v o n ta d e é p u ra h e te ro n o m ia .
O c irc u ito dialético, p o rta n to , re p re s e n to u a subversão to ta l do
sen so co m u m , dos conceitos p ra g m á tic o s, d as verd ad es co tid ia n a s.
O m é to d o de exposição n ã o re p ro d u z iu ra c io n a lm e n te a re a lid a d e
c o n c re ta n a su a p o sitiv id ad e im e d ia ta . O p e n s a r n ã o seguiu o ser,
e sim , o in v e rteu . Se h ouve re p ro d u ç ã o do re a l, foi re p ro d u ç ã o pelo
seu avesso. O co n cre to -p e n sa d o pelo m é to d o d a exposição é
e x a ta m e n te o c o n trá rio do co n creto ta l co m o é vivido e re p re se n ta d o
p o r n ó s.
D o p o n to de v ista do m é to d o , houve u m m ovim ento de re g re s­
são ao p o n to d e p a r tid a (m erc a d o ria ) m a s, ev id en tem en te, n o p o n to
de c h e g a d a (m erc a d o ria ) au m e n to u o nível de c o m p re en são do
o b je to . Isso q u e r d iz er q u e n ã o h á e q u iv a lê n c ia e n tre o p o n to de
p a r tid a e o p o n to de c h e g a d a , m esm o q u e o o b jeto seja ú nico,
a m e rc a d o ria . N a fo rm a de d ia g ra m a , o p e rc u rs o re a liz a d o foi o de
u m a e sp ira l. As re p re se n taç õ e s im e d ia ta s do o b jeto “ m e rc a d o ria "
fo ra m m e d ia tiz a d a s p e la te o ria.
V o lta n d o à d istin ç ã o e n tre m éto d o d e p e s q u is a e m é to d o de
ex p o siçã o , ficou-nos c la ro q u e sem p e s q u is a e m p íric a n ão h á
ex p o siç ã o teó rica, d a d o q u e a expo sição n à o é e n ã o p o d e ser m e ra
c o n s tru ç ã o a p rio ri. Ê p reciso , a g o ra, a c re sc e n ta r: a p e sq u isa
e m p íric a n ã o é au to -su fic ien te, do p o n to de v ista d a d ia lé tic a de
M a rx . O s d ad o s em p íric o s, p o r m ais rig o ro sa m é n te que sejam
c o le tad o s, p erm a n e c e m p reso s às ilusões e inversões ideológicas das
re p re se n ta ç õ e s im e d ia ta s dos o bjetos sociais. E les necessitam , p o r­
ta n to , ser in te rp re ta d o s e co nvertidos p e la m e d ia ç ã o te ó rica, ou seja,
os d a d o s im ed iato s devem ser m e d ia tiz a d o s p e la te o ria.
O m é to d o de exposição ou m é to d o d ia lé tic o , e m b o ra teó rico e
ra c io n a l, n ã o te m q u a lq u e r p o stu la d o de o rd e m id e a lista , n a m e d id a
em q u e tem a p e sq u isa e m p íric a com o ex ig ên cia básica, m as
INTROD UÇ ÃO 27

ta m p o u c o advoga o p rin c íp io e m p irista d a a u to -in telig ib ilid a d e


do em p írico .

O capita] em sua generalidade

O objetivo d a o b ra O C a p ita l é s a b e r o que é o c a p ita l em


g e ra l. A pós os cap ítu lo s sobre a M ercad o ria, o P rocesso de T ro c a e o
D in h e iro , o c ap ita l é d efin id o com o valor e m progressão oü valor
q u e g e ra m ais valor: “ O valor se to rn a valor e m p ro g ressão , d in h e iro
em p ro g ressão e, com o tal» cap ital. S ai d a circu lação , e n tra
n o v a m e n te n ela, m a n té m -se e m u ltip lica-se nela, re to rn a dela
acre sc id o e recom eça in cessan tem e n te o m esm o circuito. D - D \
d in h e iro q u e se d ila ta , d in h e iro que g era din h eiro , co n fo rm e a
d efin ição de c ap ita l q u e sai d a boca dos seus p rim e iro s in té rp re te s,
os m e rc a n tilista s” . 18
A seq ü ên cia dos c ap ítu lo s tem su a ra z ã o de ser lógica.
O m é to d o de exposição é u m m ovim ento de p e n sa m e n to que p a ssa
p o r v á ria s d eterm in a çõ es do conceito de c a p ita l, das m ais sim ples e
im e d ia ta s às m ais co m p lex as e p ro fu n d a s. P rogressivam ente, o
p e n s a m e n to se a p ro p ria d as d eterm in açõ es d a esfera d a c irc u laçã o e
d a tro c a p a r a a lc a n ç a r as determ in açõ es m a is com plexas e rica s d a
e sfe ra d a p ro d u ç ã o , ou seja, d a m e rc ad o ria, fo rm a de valor sim ples,
fo rm a de valor to tal, fo rm a de valor u n iv e rsal, fo rm a d in h e iro ,
d e te rm in a ç õ e s do d in h e iro — que p erte n cem à esfera im e d ia ta d a s
tro c a s m e rc a n tis — às do valor, m ais-valia, m ais-valia a b so lu ta ,
m ais-vali a relativa, tra b a lh o assalariad o , e x p lo ra ção , d a esfera d a
p ro d u ç ã o .
É u m m ovim ento progressivo-regressivo. Ê progressivo p o rq u e
as d ete rm in a ç õ e s d a e s fe ra d a circu lação n ã o nos dão a p le n a
riq u e z a das d eterm in a çõ es do c a p ita l,19 de form a que as d e te rm i­
n açõ e s essenciais são a s da p ro d u ção , q u e n ã o são im ed iatas. Ê
regressivo p o rq u e o p o n to de p a rtid a d a ex p o sição é o c a p ita l em
g eral e o p o n to de c h e g a d a ta m b ém . M as é evid en te que só com as
d e te rm in a ç õ e s m ais su p erficiais, a p ro p ria d a s sucessivam ente, n ão
se a lc a n ç a a essência do c o n cre to “ c a p ita l” .

(18) M arx, K .,id e m , ib id em , pp. 174-175.


(19) M arx, K., idem, ibidem , p. 183: "a circulação ou troca de
mercadorias não cria nenhum valor".
20 IRÁY CARONE

N a p rá tic a so cial nós a d q u irim o s u m a vivência do q u e é o


c a p ita l e com ele a p re n d e m o s a lid a r, às vezes, com êxito. No
e n ta n to , a vivência do c a p ita l, o q u e o ,c a p ita l é p a ra nós, não
coincide com o que ele rea lm e n te é. O u seja, tem o s u m a p rá tic a ou
co n h ecim en to p ra g m á tic o do c a p ita l que n ã o co in cid e com a ciê n c ia
do c a p ita l, d a m e sm a m a n e ira q u e o co n h ecim en to p rático d a
m e rc a d o ria n ã o equivale ao c o n h ec im e n to d e su a essência.
N o tópico rela tiv o ao m étodo d a E c o n o m ia P o lítica d a o b ra
Pa ra a C rítica da E c o n o m ia P o lítica (1857), M a rx diz: “ O co n creto é
co n c re to p o rq u e é síntese d e m u ita s d e te rm in a ç õ e s, isto é, u n id a d e
do diverso. P o r isso o co n cre to a p a re c e n o p e n sa m e n to c o m o o
p ro cesso da síntese, com o re su lta d o , n ã o com o p o n to de p a rtid a ,
a in d a que seja o p o n to de p a rtid a efetivo e, p o rta n to , o p o n to de
p a rtid a ta m b é m d a in tu iç ã o e d a re p re s e n ta ç ã o ” , 20 O concreto
p e n s a d o é, de fato , u m p ro d u to do m o v im en to do p en sam e n to , do
esforço racional q u e m e d ia tiz a as re p re se n ta ç õ e s im ed iatas do
co n c re to efetivo, ou seja, tra n sfo rm a a s rep resen taçõ es em con­
ceitos*21
D a í se segue q u e o m o v im en to d e p e n s a m e n to q u e se a p ro p ria
d o co n creto com o co n c re to p e n sa d o “ n ã o é, d e m o d o n e n h u m ,
o p ro cesso d e gênese do p ró p rio c o n c re to ” ,22 o u seja, n ão reco n stró i
a h is tó ria do regim e de p ro d u ç ã o c a p ita lista ; o seu c a rá te r p ro g re s­
sivo (d a s d eterm in a çõ es sim ples às co m p lex as), e n tre ta n to , m o s tra
que ele reconstrói ra c io n a l e te o ric a m e n te o processo de g ê n e se
ca íe g o ria l do c ap ital e n q u a n to co n creto p e n sa d o .

Algumas conclusões relativas


ao método dialético em O Capital

D a s p ista s e in d icaçõ es c o n tid a s n a o b ra m e n cio n ad a , p o d e ­


m os tira r, a titu lo pro v isó rio e sem a p ro fu n d a m e n to , algum as
conclusões sobre o m é to d o dialético: 1) ele ap a re c e , an tes de m a is
n a d a , com o u m m é to d o d e exposição, te ó ric o , especulativo, ra-

(20} M arx, K .r Para a Crítica da Economia Política, trad. port, Edgard


Malagodi e colaboração de J . Arthur Giannotti, São Paulo, Abril Cultural,
1982, p. 14.
(21) M arx, K., idem, ibidem , p. 15.
(22) Marx, K., idem, ibidem , p. 14.
in t r o d u ç ã o 39

c io n al, m a s n ão a p rio rista , u m a vez q u e p ressu p õ e a p e sq u isa


e m p íric a ; 2) u m m é to d o crítico, n a m e d id a em q u e a conversão
d ia lé tic a , q u e tra n s fo rm a o im ed iato em m e d ia to , a re p re se n ta ç ã o
e m c o n ce ito , é negação d a s ap arê n c ia s sociais, d a s ilusões id eológi­
cas do co n creto e stu d a d o ; 3) u m m é to d o progressivo-regressivo,
p a te n te n a esp iral d ia lética em q u e p o n to d e p a rtid a e p o n to de
c h e g a d a coincidem m a s não se id en tificam .
£ evidente q ue, e n q u a n to m o v im en to d e p en sam e n to , e s tá
re g id o p o r leis ou c a teg o rias d a o rd em do p e n s a m e n to . T om em os
co m o exem plo a m a n ifestaç ão do valor, e n q u a n to p ro p rie d a d e
o c u lta d a s m e rc ad o rias, n a c h a m a d a “ re la ç ã o de valor*1 que é a
e q u a ç ã o g eral das tro c a s m e rc an tis. P a r a q u e u m a m e rc ad o ria, o u
m e lh o r, o seu valor-de-uso sirva de esp elh o p a r a o v alo r de o u tr a
m e rc a d o ria , é preciso q u e h a ja u m a conversào dos co n trá rio s u m n o
o u tro . P o r m eio d a conversão dos co n trá rio s, o valor-de-uso se to m a
a fo rm a d e m a n ifestaç ão do seu c o n trá rio , isto é, do v a lo r;23 o
tra b a lh o concreto se to r n a fo rm a d e m a n ife sta ç ã o do seu c o n trá rio ,
tra b a lh o h u m a n o a b s tra to ;14 o tra b a lh o p riv a d o se to rn a a fo rm a d c
seu c o n trá rio , o tra b a lh o em fo rm a d ire ta m e n te so c ia l.25 E m o u tra s
p a la v ra s , n a m a n ifestaç ão do valor, u m a p ro p rie d a d e m e d ia ta se
im e d ia tiz a e m p ro p rie d a d e visível, co n creta.
O u tro exem plo é a relação u n iv e rsa l-p a rtic u la r p e n sa d a p ela
c a te g o ria d a M ed iação {V e r m ittlu n g ). A a n alo g ia “ o rganism o-
c é lu la ” , m e n cio n ad a n o prefácio d a p rim e ira ed ição a lem ã, nos d iz
q u e a sociedade b u rg u e s a é o rg an ism o e a m e rc a d o ria é célula, o u
seja, estab e le c e u m a re la ç ã o to d o -p arte, u n iv e rsa l-p a rtic u la r e n tre
u m a e o u tra . T a l re la ç ã o é d e id e n tid a d e e d iferença: a p a rte
m a te ria liz a o to d o m a s o todo n ã o é o c o n ju n to de p a rte s, n em é a
p a r te , o to d o .
E n q u a n to reflexo do sistem a social c a p ita lis ta , a m e rc a d o ria
co n té m co n trad içõ es in e re n te s a ele:
— a m e rc ad o ria é um ser c o n tra d itó rio , n a m e d id a em q u e é
c o n s titu íd a p o r p ro p rie d a d e s o p o stas do v alo r-d e-u so e valor; a s u a
c o n tra d iç ã o in te rn a re p ro d u z a c o n tra d iç ã o e x te rn a e n tre tra b a lh o
c o n c re to e tra b a lh o a b stra to p ró p ria d o regim e de p ro d u ç ã o
c a p ita lis ta ;

(23) Marx, K ., 0 Capitai, 1, p. 64.


(24) M arx, K., O Capitai, I, p. 67.
(25) M arx, K ., O Capital, I, p. 67.
30 IRÀY CARONE

— a fo rm a -m e rc a d o ria é u m a fo rm a fa n ta sm a g ó ric a , m istifi-


c a d o ra , que esco n d e o seu p o d e r so b re as n ecessid ad es h u m a n a s, ta l
com o são fa n ta sm a g ó ric a s as relações sociais b u rg u e sa s que, a nível
im e d ia to e su p erficial, se a p re se n ta m com o relações sim étricas,
ig u a litá ria s, e n ão relações de p o d e r. As c a ra cterísticas m acro -
e s tru tu ra is estão, p o is, refle tid a s e re p ro d u z id a s em suas m icro-
u n id a d es.
O u tra s observações p o d e ria m a in d a ser feita s sobre a m a n e ira
de p ro c e d e r do p e n sa m e n to o b jetivado em O C a p ita l , F icarem o s, no
e n ta n to , restrito s a essa le itu ra p re lim in a r.

Bibliografia

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Janeiro, Civilização Brasileira, 1980,
Marx, K ., Para a Critica da Economia Política t trad. port,, Edgard Ma-
lagodi etalii, Sào Paulo, Abril Cultural, 1982,
Fausto, R., M arx: Lógica e Política , tom o I, São Paulo, Ed, Bra-
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Cardoso, F. H .t ÇapitafismQ e Escravidão no Brasil Meridional, Rio
de Janeiro, Paz e Terra, 1977.
Muller, M., "Epistemologia e Dialética” , Caderno de História e Filosofia da
Ciência , n? 2, UNICAMP, 1981.
Parte 2
As categorias fundamentais
da psicologia social
Linguagem, pensamento
e representações sociais
S ilv ia T a tia n a M a u r e r L a n e

Skinner inicia o seu V e r b a l B e h a v io r com a seguinte frase:


“ Os hom ens agem sobre o m undo e o transformam» e são, por sua
vez» transformados pelas conseqüências de suas ações” . E m ais
adiante define com portam ento verbal com o todo aquele m ediado
por outra pessoa, e assim inclui, no verbal, gestos, sinais, ritos e,
obviam ente, a linguagem . A ssim , podem os dizer que o hom em ao
falar transform a o outro e, por sua vez, é transformado pelas
conseqüências de sua fala.
Porém é necessário, para um a com preensão m ais profunda do
com portam ento verbal, analisá-lo em u m contexto m ais am plo
considerando-se o ser hum ano com o m anifestação de uma totali­
dade histórico-social, produto e produtor d e história.
D este m odo partim os do pressuposto que a linguagem se
originou na espécie hum ana com o conseqüência da necessidade de
transform ar a natureza, através da cooperação entre os hom ens, por
m eio de atividades produtivas que garantissem a sobrevivência do
grupo social. O trabalho cooperativo exigindo planejam ento, divisão
de trabalho, exigiu tam bém um desenvolvim ento da linguagem que
perm itisse ao hom em agir» am pliando as dim ensões de espaço e
tem po.
A linguagem , com o produto de um a coletividade« reproduz
através dos significados das palavras articuladas em frases os
conhecim entos — falsos ou verdadeiros — e os valores associados a
praticas sociais que se cristalizaram; ou seja, a linguagem reproduz
AS CA TEGORIAS FU ND A M EN TA IS D A PSICOLOGIA SOCIAL »

um a visão d e m undo, produto das relações que se desenvolveram a


partir d o trabalho produtivo para a sobrevivência do grupo social«
Sob esta perspectiva, qualquer análise d a linguagem im plica
coft siderá-la còtno produto histórico de umA coletividade* (Skinner
define “ tato” com o sendo os significados das palavras, e seriam
variáveis independentem ente produzidas pelo grupo social ao qual
o indivíduo pertence.) D esta form a a aprendizagem da língua
m aterna insere a criança n a história de sua sociedade, fazendo com
que ela reproduza em poucos anos o processo de “hom inização”
p elo qual a hum anidade se produziu, tom an d o-a produto e produ­
tora d a história de seu grupo social*
A últim a frase do livro de Vygotski sin tetiza todo este processo
ao afirm ar que "U m a palavra é um m icrocosm o d a consciência
humana"* D aí a im portância fundam ental que tem a aquisição
m aterna para a com preensão de qualquer com portam ento do ser
hum ano — e esta só pode ser analisada num a abordagem inter-
disciplinar. O que não significa que a Psicologia deixe de ter a sua
especificidade na contribuição d o conhecim ento deste processo.
Seja Skinner, P iaget, Vygotski, M alrieu ou Leontiev, todos
são concordes em afirmar que a função prim ária da linguagem é a
com unicação e o intercâm bio social, através da qual a criança
representa o m undo que a cerca e que influenciará seu pensam ento e
suas ações no seu processo de desenvolvim ento e de hom inização.
Cada um destes autores traz a sua contribuição para um
conhecim ento psicológico da aprendizagem d a linguagem : Skinner,
p ela análise em pírica que faz, dem onstra a m aterialidade de falar e
pensar; Piaget e M alrieu apontam para a gênese social das
representações da criança e com o ela desenvolve sua visão de
m undo; Vygotski e Leontiev, concebendo o ser hum ano com o
m an ifestação de um a totalidade histórico-social, vêem a linguagem
com o fundam ental para o desenvolvim ento d a consciência de si e
social de indivíduo, a qual se processa através da linguagem , do
pensam ento e das ações que o hom em realiza ao se relacionar com
outros hom ens.
A análise que Leontiev faz da aprendizagem da língua
m aterna aponta para dois processos que se interligam necessa­
riam ente: se, por um la d o, os significados atribuídos às palavras são
produzidos pela coletividade, no seu processar histórico e no
desenvolvim ento de sua consciência social, e com o tal, se subor­
dinam à s leis histórico-sociais, por outro, o s significados se pro­
cessam e se transform am através de atividades e pensam entos de
34 SILVIA T . M , LANE

in d iv íd u o s con creto s e assim se in d iv id u a liza m , se "su b jetiv am ” , n a


m e d id a em q u e “ r e to m a m ” p a r a a o b je tiv id a d e sensorial do m u n d o
q u e os c erc a, através d a s ações q u e eles desenvolvem c o n cre tam e n te.
D e sta fo rm a o s significados p ro d u zJd o s h isto ricam e n te p elo
g ru p o social a d q u ire m , n o â m b ito do in d iv íd u o , u m “ sen tid o
p e sso a l” , ou seja, a p a la v ra se rela cio n a co m a re a lid a d e , c o m a
p ró p ria vida e com os m otivos de c a d a indiv íd u o .
C reio ser o p o rtu n o , a e sta a ltu ra , re to m a r u m a análise fe ita
p o r T erw illiger q u a n d o a firm a ser a p a la v ra u m a a r m a d e p o d e r,
d e m o n stra n d o o q u a n to a im p o sição d e u m significado único e
a b so lu to à p a la v ra é u m a fo rm a de d o m in a ç ã o do indivíduo, co m o
o c o rre em situações d e hip n o se, de c o m a n d o m ilita r e d e lavagem
c e re b ra l. T o d a s, situ açõ es o n d e a a m b ig u id a d e ou a ltern ativ as de
significados levam à negociação de q u a lq u e r u m destes processos,
E s ta a rm a d e p o d e r só é d o m in a d a pelo co n fro n to q u e o
in d iv íd u o possa fa z e r e n tre difere n tes sig n ificad o s possíveis e a
re a lid a d e q u e o c e rc a — aliás, este é o p rin cíp io p ro p o sto e
d e fe n d id o p o r P a u lo F reire — c o n d iç ã o p a r a u m p en sam e n to
crític o , p a ra o desenvolvim ento d a co n sciê n cia social e, co n seq ü en ­
te m e n te , p a ra a cria tiv id a d e q u e tra n s fo rm a as relações en tre os
h o m e n s.
E s ta análise n o s p e rm ite a p o n ta r p a r a u m a função d a lin ­
g u ag em que é a m e d iaçã o ideológica in e re n te nos significados d as
p a la v ra s , p ro d u z id a s p o r u m a classe d o m in a n te q u e detém o p o d e r
d e p e n s a r e “ c o n h ec er” a realid ad e, ex p lic a n d o -a através de
“ v e rd a d e s” in q uestionáveis e a trib u in d o valores absolutos de ta l
fo rm a q u e a s co n tra d içõ es g e ra d a s p ela d o m in a ç ã o e vividas no
c o tid ia n o dos h o m e n s são c a m u fla d a s e e sc a m o te a d a s por e x p li­
caçõ es tid a s com o v erd ad e s “ u niversais” ou “ n a tu ra is ” , ou. sim ­
p le sm e n te , com o “ im p erativ o s categ ó rico s" em te rm o s de “ é assim
q u e deve ser” .
V o lta n d o p a r a a a p ren d izag em d a lín g u a m a te rn a , a c ria n ç a
ao f a la r re p ro d u z a visão de in u n d o d e seu g ru p o social, assim co m o
a id eo lo g ia q u e p e rm e ia e m a n té m as relaçõ es sociais desse g ru p o , e
é le v a d a a agir de fo rm a a n ã o p e r tu r b a r a “ o rd e m vigente1', caso
c o n trá rio ela será c o n sid e ra d a u m “ a n o rm a l” , u m “ m a rg in a l" , e
co m o ta l a fa s ta d a do convívio social. E q u a n d o os e stu d o s a p o n ta m
p a r a a fam ília d e s e s tru tu ra d a com o resp o n sáv el p e la m a rg in alizaçã o
d a c ria n ç a , podem os su p o r q u e ela a p re n d e u significados c o n tra ­
d itó rio s, concepções d e m u n d o in co m p atív eis e, in c a p a z a in d a de
AS CATEG OR IAS FU ND A M E N TA IS DA PSICOLOGIA SOCIAL 34

u m p e n sa m e n to crítico e de ativ id ad es sig n ificativ as, d esem p e n h a


c o m p o rta m e n to s in aceitáveis pelo seu g ru p o social.
P o r o u tro lad o , observações d e c ria n ç a s em fam ílias b e m
e s tru tu ra d a s “ nos m o s tra ra m que o p a p e l d e filho é, desde os
p rim e iro s an o s de v ida, in c u lcad o em te rm o s de “ o b e d ie n te ,
b em -c o m p o rta d o , resp e ita d o r dos m ais v elh o s’*, a p o n to de, q u a n d o
q u e s tio n a d a sobre u m fato ocorrido no d ia a n te rio r, q u e fo ra
re la ta d o p ela m ãe com o d esobediência e b ir r a d a c ria n ça, este é
d escrito p o r ela a p e n a s co n sid eran d o o fin a l do episódio, isto é, e la
ob ed eceu a m ãe, com o convêm a u m b o m filho.
E ssas observações fo ram feitas a p a r ti r de u m a in d a g ação d e
com o a c ria n ç a se n tia e reag ia à s p u n iç õ es d e seus p ais, e, depois,
nfto e n te n d e m o s com o e por q u e a s c ria n ç a s se su b m etem ás
violências do a d u lto ....
E s te fa to m o stra ◦ q u a n to a a u to rid a d e é cerc ad a de valores e
de em oções que a to rn a m in questionável e a b s o lu ta , re p ro d u z in d o
relações sociais e sp e ra d a s pelo g ru p o .
T o d o este p ro cesso de rep ro d u çã o d a s relações sociais e s tá
b asead o em com o a c ria n ç a ' ao fa la r co n stró i suas rep resen taçõ es
sociais, e n te n d id a s co m o u m a rede de relações que ela estabelece, a
p a r tir d e s u a situ ação social, e n tre significados e situações que lh e
in teressa m p a r a su a sobrevivência.
S eg u n d o M alrieu , “ a re p re se n ta ç ã o social se co n stró i no
processo de co m u n icação , no q u a l o sujeito p õ e à prova, atra v és d e
su as ações, o valor — v an tag en s e d e sv a n ta g e n s — do p osicio­
n a m e n to dos que se co m u n icam com ele, o b je tiv a n d o e selecio n an d o
íe u s co m p o rta m e n to s e co o rdenando-os em fu n ç ã o de u m a p ro c u ra
de personalização*’. D e s ta fo rm a, a re p re s e n ta ç ã o social se e s tru tu ra
ta n to pelo s objetivos d a ação do sujeito so cial com o pelos d ad o s q u e
co n co rd a m ou que se o põem a eles.
U sa n d o u m a situ a ç ã o sim ples p a r a ilu s tra r, im ag in em o s u m a .
c ria n ç a e n tre u m an o e u m a n o e m eio de id a d e t b rin c a n d o com u m a
b o la — u m objeto red o n d o que corre, rola, p u la se a tira d a com fo rç a
— h á to d a u m a série d e ações p a ra e x p e rie n d a r e investigar este
o bjeto d e n o m in a d o “ b o la ” . N a p resen ça de u m a d u lto , este ob jeto
será d e sig n a d o p o r “ b o la ” ; é possível q u e a c ria n ç a re p ita a p e n a s
“ b ó ” e seja re fo rç a d a p elo a d u lto . E n q u a n to ela faz a bola c o rre r
pelo c h ã o , rep etin d o “ b ó ” , “ b ó ” , p ro v av elm en te o a d u lto e s ta rá
s o rrin d o e rep etin d o com ela: “ a b o la ” , ou “ b o la b o n ita ” , “ b o la
re d o n d a ” . N u m d a d o m o m en to a bola é jo g a d a p a r a o a lto , p o n d o
em p e rig o u m vaso precioso: “ C uidado! N ão jo g u e a b o la assim !” E
36 SILVIA T. M . LANE

agora» “ *bò* é perigosa, é ruim, m am ãe n ão gosta...'*. E assim a


criança cria a sua representação de bola q u e perm itirá que ela se
com unique com os outros, planejando o seu jogo ou narrando fatos
já ocorridos.
E neste processo de com unicação, a criança vai estruturando o
seu inundo que, inicialm ente, se encontra em um estado nebuloso,
através de um sistem a de significantes proporcionado pelos que a
rodeiam , e tam bém vai encontrando form as de se autodefinir, “ às
custas de um a esquem atização e de um a deform ação inevitáveis e
sem pre superáveis” ,
M alrieu m ostra com o a com unicação e a personalização
(enquanto identificação e diferenciação) determ inam e são deter­
m inadas pelas representações, que im plicam objetivação, seleção,
coordenação das posições dos outros e de si m esm o. À s repre­
sentações, por sua vez, tam bém estão duplam ente vinculadas com a
atividade sem iótica que se caracteriza p ela elaboração dos sign i­
ficantes, decorrentes do processo de com unicação.
O autor conclui m ostrando as form as c o m o a linguagem
participa na elaboração das representações, ou seja, com o tom ada
de consciência de u m a realidade através de com unicações com
adultos que levam a práticas e a diálogos sobre elas, as quais vão se
estruturando.
Por outro la d o, as práticas, as percepções, os conhecim entos
se transformam quando são falados e a própria representação de si
m esm o só ocorre através da linguagem interiorizada das recordações
e dos projetos.
E , por últim o, n a m edida em que toda representação im plica
um a com paração, e la propicia um a "objetivação que é um a das
bases d o controle que se pode exercer sobre as ações e em oções. À
construção de u m m otivo organizador das próprias ações irá
perm itir tanto a com preensão destas ações por m eio das inform ações
dos dem ais com o o acesso às confrontações das possibilidades que
estão n a base das operações” (p . 97).
U m a análise concreta das representações que um indivíduo
tem do m undo q u e o rodeia, só é possível se as considerarm os
inseridas num discurso bastante am plo, onde as lacunas, as contra­
dições e, conseqüentem ente, a ideologia p ossam ser detectadas. Este
discurso am plo, para m uitos autores, seria a visão de m undo que o
indivíduo tem , porém perm anece a questão d o que vem a ser, no
p lano individual, esta visão de m undo.
AS C A TEG ORÍAS FUND AM E NTA IS D A PSICOLOGIA SOCIAL 37

£ François Flahault quem nos dá algum as pistas para esta


análise m ais concreta das representações sociais. Ele parte da
análise de a to s ilo c u tó r io s , ou seja, as la ia s que caracterizam as
posições ocupadas pelos interlocutores, de form a explicita ou
im plícita. N o prim eiro caso teríamos as ordens, os pedidos, os
insultos que explicitam ente definem a relação existente entre os
Interlocutores: um m anda, o outro obedece, um pede, o outro
concede. O s atos ilocutórios im plícitos, p or sua vez, só são com ­
preendidos em relação às posições que os interlocutores ocupam e ao
m esm o tem po definem as respectivas p osições, toda palavra,
por m ais im portante q ue seja seu valor referenciai e inform ativo, é
form ulada tam bém a partir de um ‘o que sou para você, o que você
6 para m im ' e é operante neste campo; a ação que ela representa a
título destas trocas se m anifesta através do que se pode chamar de
‘atos ilocutórios’ ou 'efeitos de posição’” (p. 50).
Por outro lado, o s atos ilocutórios im p lícitos decorrem do fato
de que “ os indivíduos não são donos d e operar seus posicio­
nam entos, pois, pelo contrário, este posicionam ento è que esta ­
belece suas identidades1' (p. 52),
D este m odo Flahault mostra com o a ação de falar im plica
relações de posições e a língua se apresenta com o resultado e com o
m atéria-prim a do processo discursivo. À. relação da linguagem com
o real necessariam ente sofre a m ediação das posições sociais de
grupo e /o u classe social e portanto um discurso está sempre em
confronto com um m undo já repleto de significações sem pre já
ordenado, sempre já socialm ente arrumado; um m undo que é o
efeito de "uma produção social dos sentidos, que reproduz inevi­
tavelm ente a produção material, e pela inserção de cada indivíduo,
corpo e alm a, neste universo sem iológico” (p . 85). Entendendo-se
por universo sem iológico o conjunto de signos socialm ente criados
— seria a natureza socialm ente recriada e transformada. N este
sentido, este universo traz em si toda a ideologia de um a sociedade
que se reproduzirá n a linguagem e nos discursos situados.
Compreender representações sociais im plica então conhecer
nfio só o discurso m ais am plo, m as a situ ação que define o indivícfuo
que as produz. Para tanto Flahault desenvolve a noç&o de Espaço de
R ealização do Sujeito (ER S).
E ste espaço é “ o retom o, a m anifestação, em figuras in d e­
finidam ente variáveis, de um a instância que atuou de início com o
c o n s titu tiv a do sujeito: a linguagem enquanto que Outro (grande
38 5ILVJA T. M 1-ANE -

O u tro la can ía n o ), e n q u a n to que laço a b s o lu to a o q u al todos e stã o


su jeito s” (p . 54).
O E R S ao m esm o tem po q u e ê c o n stitu tiv o do S ujeito, do seu
eu , ta m b é m fu n d a m e n ta a re p re se n ta ç ã o d a so cied ad e, tendo u m a
fu n ç ã o re g u la d o ra atra v és do im ag in ário , d o sim bólico e do id e o ­
lógico, im b ricad o s n u m todo, no q u a l a id eologia te m p o r função, n o
E R S , c o n stitu ir os indivíduos em sujeitos id e n tific a d o s (p . 156).
D e sta fo rm a o E R S é o espaço d a co m u n ic a ç ã o , d a intersubje-
tiv id a d e , das relações sociais q u e id e n tific a m o indivíduo, e assim
p ro d u z e re p ro d u z a fo rm a ç ã o social nos in d iv íd u o s q u e a com põem .
R esu m in d o , o E R S se a p re se n ta : 1) com o o b je tiv o s c o m u n s ao
g ru p o social, q u e su p e ra m os fins p a rtic u la re s; 2) com o u m co n ju n to
d e re g ra s e valores; 3) com o su b stâ n c ia e n q u a n to m ediação de
re a lid a d e s m a teria is e co rp o rais, atra v és d a lin g u ag em , que levam a
p rá tic a s que definem u m a realização lim ita d a e específica do sujeito
e u m a m ediação que o põe em rela ção com vários o u tro s sujeitos,

FIGURA 1

"Todo
realidade
M undo"

C o ncluindo, p a r a conhecerm os as rep resen taçõ es sociais de


u m indiv íd u o ê necessário, atra v és dos a to s ilocutórios explícitos e
im p lícito s, d efin irm o s o lu g a r q u e ele o c u p a em rela ção aos o u tro s
(os q u e se “ lim ita m ” com ele), e a tra v é s do d iscurso com o seu
espaço se co n stitu i n e s ta re la ção , e n q u a n to re a lid a d e subjetiva q u e
se in sere no real, so cialm en te re p re se n ta d o e rep ro d u zid o em term os*
de “ to d o m u n d o ” .
AS C A TE G OR IA S FU NDA M E NTA IS D A PSICOLOGIA SOCIAL 39

Bibliografia

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Flahault, F . t La Parole Jntermédiaire, Paris, Eds. du Seuil, 1978.
Consciência/alienação:
a ideologia no nível
individual*
S ilv ia T a tia n a M a u r e r L a n e **

O indivíduo sujeito da história é constituído de suas relações


sociais e é, ao m esm o tem po, passivo e ativo (determ inado e deter­
m inante). Ser m ais o u m enos atuante com o sujeito da história
depende do grau de autonom ia e de iniciativa que ele alcança. Assim
ele é história na m edida em que se insere e se define no conjunto de
suas relaçòes sociais, desem penhando atividades transform adoras
destas relações; o que im plica, necessariam ente, atividade prática e
inteligência, tào inseparáveis quanto, n o nível da sociedade, são
inseparáveis a infra e a superestrutura, e cuja unidade é estabelecida
por um p r o c e s s o cujo agente exclusivo é a atividade hum ana em suas
diferentes formas.
£ dentro deste contexto que devem os analisar com o a id eo­
logia, presente em atividades superestruturais da sociedade, se
reproduz a nível individual, levando-o a se relacionar socialm ente de
form a orgânica e reprodutora das condições de vida, e tam bém

(*> Este capitulo foi publicado com o título “ Ideologia no Nfvel


Individual" in EducaçSo e Sociedade, n? 14, abril da 1963, Sfio Paulo.
( **) Participaram das discussões que deram origem ao texto os
Professores Antonio da C. Ciampa, Bader B. Sawaia, Brigido V. Camargo,
Carlos Peraro Filho, Dirceu Pinto Malheiro, Elíana Bertolucci, Maribele Vieg as,
Marilia Fozati, Mariae R. Vianna, Odalr Furtado, Suefy Ongaro, Wsnderfey
Codo « Luiz A . ftahal, membros de um grupo de pesquisa do pós-GraduaçSo
em Psicologia Social da PUC-SP.
A S CATEGORIAS FU ND A M EN TA IS D A PSICO LOG IA SOCIAL 41

com o, n o plano d a ideologia, o indivíduo se tom a consciente dos


conflitos existentes n o plano da produção de sua vida m aterial.
O hom em com o ser ativo e inteligente se insere historicam ente
em um grupo tocial através d a aquisição d a linguagem , condição
básica para a com unicação e o desenvolvim ento de suas relações
sociais e, conseqüentem ente, de sua própria individualidade.
A linguagem , enquanto produto histórico, traz represen­
tações, significados e valores existentes em u m grupo social, e com o
tal é veiculo da ideologia do grupo; enquanto para o indivíduo é
tam bém condição necessária para o desenvolvim ento de seu pen sa­
m ento.
Ê preciso ressaltar que nem todas as representações implicara
necessariam ente reprodução ideológica; esta se m anifesta através de
representações que o indivíduo elabora sobre o Hom em , a Socie­
dade, a R ealidade, ou seja, sobre aqueles aspectos da sua vida a
que, explícita ou im plicitam ente, são atribuídos valores de certo-
errado, de bom -m au, de verdadeiro-falso. N o plano superestrutural
a ideologia é articulada pelas instituições que respondem pelas
form as jurídicas, políticas, religiosas, artísticas e filosóficas; no
plano individual, elas se reproduzem em fu n ção da história de vida e
d a inserção específica de cada indivíduo. D esta form a a análise da
ideologia deve, necessariam ente, considerar tanto o discurso on de
são articuladas as representações, com o as atividades desenvolvidas
p elo indivíduo. A análise ideológica é fundam ental para o conhe­
cim ento psicossocial pelo fato de ela determ inar e ser determ inada
pelos com portam entos sociais do indivíduo e pela rede de relações
sociais que, por sua vez, constituem o próprio indivíduo.
N este sentido, podem os entender com o é que no plano
ideológico, o indivíduo pode se tom ar consciente ao detectar as
contradições entre as representações e suas atividades desem pe­
nhadas n a produção de sua vida m aterial.
Q uando falam os em consciência de si com o sendo neces­
sariam ente consciência social, a alienação definida pela psicologia
em term os de doença mental, neuroses, etc., se aproxim a da
concepção sociológica de alienação.
Se no plano sociológico é feita a análise da relação de
dom inação entre as classes sociais, definidas pelas relações de
produção da vida material da sociedade, esta relação se reproduz
através da m ediação superestrutural, via instituições que prescre­
vem os papéis sociais e que determ inam as relações sociais de cada
indivíduo.
42 SILVIA T . M . LANE

A alien ação se c a ra c te riz a , o n to lo g icam en te , p e la a trib u iç ã o


de “ n a tu ra lid a d e ” aos fato s sociais; e sta in v e rsão do h u m a n o ,
d o so cial, do histórico, co m o m a n ife sta ç ã o d a n a tu re z a , faz com q u e
to d o co n h ecim en to seja av aliad o em te rm o s d e v erd ad e iro o u falso e
de u n iv e rsa l; neste p ro cesso a “ co n sciên cia” ê reificad a, negando-se
com o processo, ou seja, m a n te n d o a a lie n aç ã o em rela ção ao que ele
é c o m o pessoa e, co n se q ü e n te m e n te , ao q u e ele é socialm ente.
N este p onto se to m a necessário d istin g u ir, em term os d e
níveis, consciência social de con sciên cia de classe; e sta ú ltim a é u m
pro cesso essen cialm en te g ru p a i e se m a n ife s ta q u a n d o indivíduos
co n scie n tes de si se p e rc e b e m su jeito s d a s m e sm as d eterm in açõ es
h istó ric a s que os to m a ra m m em b ro s d e u m m esm o g ru p o , inseridos
n a s re la çõ es de p ro d u ç ã o q u e c a ra c te riz a m a so ciedade n u m d ad o
m o m e n to . N esta p ersp ectiv a, o p e rte n c e r a u m g ru p o cu jas ações
ex p ressa m u m a con sciên cia de classe p o d e s e r co n d ição p a ra que u m
in d iv íd u o desencadeie u m processo d e co n scie n tização de si e sociaL
D e s ta fo rm a, consciência de classe é u m a ca te g o ria b asica m en te
sociológica, e n q u a n to co n sciência d e-só-social é u m a c ateg o ria
psico ló g ica. P o rém elas são intersociâveis n o p la n o d a ação, ta n to
in d iv id u a l com o g ru p a i.
O in dividuo co nsciente de si, n ec e ssa ria m e n te , tem co n s­
ciên cia d e sua p e rtin ê n c ia a u m a classe so cial; e n q u a n to individuo,
e s ta co n sciência se p ro c e ssa tra n s fo rm a n d o ta n to as su as ações a ele
m esm o; p o ié m , p a ra u m a a tu a ç ã o e n q u a n to classe, ele n ecessa­
ria m e n te deve e s ta r in serid o em u m g ru p o q u e age e n q u a n to tal (p o r
ex em p lo , u m a greve, u m a assem bléia, ex ig em g ru p o s o rg an iz ad o s
em to rn o de u m a co n sciên cia c o m u m d e su a condição social).
P erm an e ce em a b e rto u m a q u estão : o q u e ocorre com u m
in d iv íd u o consciente e m u m g ru p o a lie n a d o ? O u seja, as c o n tra ­
dições sociais estão c la ra s , m a s ele é im p e d id o , a nível g ru p a i, de
q u a lq u e r ação tra n s fo rm a d o ra — n ão se ria e sta u m a situ a ç ã o
g e ra d o ra de d o en ça m e n ta l, com o fu g a d e u m a re a lid a d e in s u s ­
te n tá v e l? (É a h ip ó tese le v a n ta d a p o r A . A b ib A n d ery .)
A q u estão d a a lien aç ão — co n sciê n cia só p o d e rá ser a n a ­
lisa d a , n o p la n o in d iv id u a l, e n q u a n to p ro cesso q u e envolve, n e c e s­
sa ria m e n te , p e n sa m e n to e açã o , m e d ia d o s p ela linguagem — p r o ­
d u to e p ro d u to ra d a h is tó ria d e u m a so cied a d e.
O hom em age p ro d u z in d o e tra n s fo rm a n d o o seu a m b ie n te e
p a r a ta n to ele p e n sa , p la n e ja su a ação e d e p o is de execu tad a, e la é
p e n s a d a , av aliada, d e te rm in a n d o ações su b se q ü e n te s, e este p e n sa r
A S CATEGORIAS FU NDA M E NTA IS DA PSICOLOGIA SOCIAL 43

se d á a tra v é s dos significados tra n s m itid o s p e la lin g u ag em a p re n ­


d id a .
P o r o u tro lado, q u a lq u e r açã o im p lic a, n ece ssariam en te, u m a
n ã o -a ç ã o , e elas só p o d em coexistir n o p e n sa m e n to ; e n q u a n to
a tiv id a d e ou o in d iv íd u o age ou n ão-age, to rn a n d o o p e n s a r u m a
a tiv id a d e fu n d a m e n ta l, prevendo c o n seq ü ên c ias e levando a u m a
decisão q u e se tra n s fo rm a e m ação o u não^ação. O p ção fe ita ,
n o v a m e n te ela é p e n s a d a em te rm o s “ e s e ... m a s ... p o r ta n to ...” , o u
seja, ^ c o n tra d iç ã o e n tre a a ç ã o /n ã o -a ç ã o é p e n s a d a , agora, com o
av a lia ç ã o ou ju stific a tiv a p a ra a decisão to m a d a .
E s ta ju stificativ a, m e d ia d a p e la lin g u a g e m , é u m p ro d u to
subjetivo q u e p o d e rá e s ta r re p ro d u zin d o a ideologia com co n te ú d o s
p ró p rio s à s esp ecificid ad es do indivíduo* A re p ro d u ç ã o d a ideologia
(e n q u a n to p ro d u to su p e re stru tu ra !) com o p ro d u to subjetivo de
a ç ã o -p en sa m e n to tem» n ece ssariam en te, su a s raízes histó ricas, n a
m e d id a e m que a lin g u ag em p rese n te n o p e n s a r é u m p ro d u to d o
g ru p o social ao q u a l o in divíduo p e rte n c e , m e d ian d o as relações
sociais e re p ro d u z in d o , n o con ju n to d e seus sig nificados, a ideologia
do g ru p o d o m in a n te e su a s m anifestações esp ecíficas no g ru p o social
ao q u a i o indivíduo perte n ce.
O p e n s a r u m a ação p o d e sim p le sm e n te re p ro d u z ir essa
id eo lo g ia, n a m e d id a e m que se su b m ete ou a re p ro d u z através de
explicaçõ es do tipo “ é assim q u e deve ser, é assim que se faz*1.
P o ré m , o p e n s a r u m a a çà o p o d e s e r um co n fro n to d a s
possíveis co nseqüências ta n to im e d ia ta s co m o m e d ia ta s. E ste p e n s a r
re c u p e ra experiências a n te rio re s, q u a n d o ações tra n sfo rm a ra m o
a m b ie n te e o u tra s, o m itid a s, m a n tiv eram o s ta tu s q u o , a p e sa r de te r
h a v id o u m a necessid ad e que g e ro u a c o n tra d iç ã o e n tre fa z e r/
n ã o fa ze r. R efletir sobre estas c o n tra d içõ es e su as co n seq ü ên cias
f a r á co m q u e a ação deco rren te seja u m av an ço no processo de
c o n scie n tiz ação . Se e s ta reflexão n ão o c o rre , o p e n s a r a a çã o se
c a ra c te riz a rá p o r u m a re sp o sta p ro n ta , tid a com o “ v e rd a d e ira ” , j á
e la b o ra d a pelo g ru p o , re p ro d u zin d o a id eo lo g ia e m a n te n d o o
in d iv íd u o alien ad o .
D e sta fo rm a o p e n s a r a ç ã o /n ã o -a ç ã o — a g ir/n a o -a g ir e
re p e n s a r o f e it o /n â o - f e it o tra z em si c o n tra d iç õ e s que p odem ser
resolvidas atrav és de u m a explicação, d e u m a ju stificativ a q u e
e n c e rra o processo com um a elab o ra ç ã o ideológica. P orém se a
c o n tra d iç ã o é e n fre n ta d a , é a n a lisa d a c ritic a m e n te e é q u e stio n a d a
no c o n fro n to com a realid ad e, o processo tem c o n tin u id a d e , o n d e
c a d a ação é ren o v ad a e re p e n sa d a , a m p lia n d o o â m b ito de a n álise e
44 SILVIA T. M . LANE

da própria ação, e tem com o conseqüência a conscientização do


indivíduo.
Em contraposição, as respostas a ações habituais são exata­
m ente aquelas que se reproduzem sem que ocorra o pensar, tanto
antes com o depois. N a m edida em que estas ações im plicam valores
e relações sociais» elas estarão, obrigatoriam ente, reproduzindo a
ideologia dom inante, m antendo as con d ições sociais, ou seja, elas
não transformam nem as relações sociais d o indivíduo nem a ele
m esm o — é a persistência da alienação. (N esse sentido pode-se
entender como, não só o trabalho repetitivo e m ecânico de um
operário, m as tam bém qualquer atividade rotineira contribui para a
alienação do ser humano*)
E sta linha de análise nos perm ite precisar com o a ideologia
dom inante enquanto produção superestrutural d a sociedade, com o
um a “ lógica” que, ao nível individual, se traduz com especifícidades
e peculiaridades decorrentes da história de vid a d o indivíduo dentro
d e seu grupo social, ou seja, do conjunto das relações sociais que
constituem o indivíduo.
Concluindo, tem os com o decorrência m etodológica desta aná­
lise, a necessidade de pesquisar as r e p r e s e n ta ç õ e s (linguagem -
pensam ento) juntam ente com as a ç õ e s de um indivíduo, este defi­
nido pelo conjunto de suas relações sociais, para se chegar ao
conhecim ento de seu nivel de con sciên cia/alien ação num dado
m om ento.

Implicações metodológicas

C om o captar o id e o ló g ic o e o nível de consciência de um


indivíduo, num dado m om ento, apresenta-se com o problem a
fu ndam ental para a pesquisa em Psicologia Social, quando ela se
propõe a conhecer o indivíduo com o ser concreto, inserido num a
totalidade histórico-social.
Inicialm ente é necessário explicitar alguns pressupostos epis-
tem ológicos tais com o a relação entre teoria e fatos e a não-neutra-
lidade científica. N a superação d a dicotom ia entre teoria, de um
lado, e o em pírico, de outro, o m aterialism o dialético se propõe a
conhecer o concreto, distinto do em pírico, e produto de um a análise
que, partindo do em pírico, o insere num processo o qual perm ite
detectar com o são estabelecidas relações que n o s levam a conhecer o
AS CATEGORIAS FU NDA M E NTA IS D A PSICOLOGIA SOCIAL 45

indivíduo com o m anifestação de um a totalidade» A ssim , fatos e


teoria se tom am indissociáveis, tom an do o processo cientifico
necessariam ente acum ulativo em direção ao concreto proposto e, a
ciência, um conhecim ento relativizado com o produção histórica.
N este sentido definições abstratas perdem significado, pois se antes
a generalização caracterizava o conhecer, agora é a especificidade
do fato, com preendido em todas as suas im plicações, que se tom a o
objetivo d o conhecim ento científico*
D esta form a a ênfase m etodológica está n a análise que perm i­
tirá, a partir do empírico, do aparente, do estático, e, recuperando o
processo histórico específico, chegar-se ao essencial, ao concreto. E
isto só é possível através de categorias que nos levam, gradati-
vam ente, a análises m ais profundas, visando captar a totalidade.
A ciência vista com o produto histórico tam bém se relativiza
com o produção hum ana e, portanto, perde sua condição de
"neutra*1, pois é sem pre fruto de hom ens situados social e histo­
ricam ente que determ inam o prism a pelo qual os fatos são
enfocados, ou seja, as necessidades e valores privilegiados por um
grupo social naquele m om ento.
N a m edida em que os fatos estudados im plicam um a inserção
histórica, não importa quais as especificidades analisadas, o conhe­
cim ento necessariam ente se processa de form a acumulativa» tanto
quando realizado num m esm o m om ento, com o em diferentes
épocas; o acum ulativo decorre da análise histórica que nos leva ao
conhecim ento do indivíduo com o m anifestação de um a totalidade.
E stes pressupostos determinam procedim entos m etodológicos
para a Psicologia Social, fundam entais para se atingir o concreto, ou
seja, o indivíduo com o m anifestação da totalidade histórico-soçial,
que vão desde de qual “empírico" devem os partir até que dim ensão
interdisciplinar deva ser abarcada.
Se considerarm os, como Leontiev, atividade, consciência e
personalidade as categorias fundam entais de análise do fato psico­
lógico, tem os com o p on to de partida essencial a linguagem , o
discurso produzido pelo indivíduo, que transm ite a representação
que ele tem do m undo em que vive, ou seja, a sua realidade
subjetiva, determ inada e determinante de seus com portam entos e
atividades.
A ssim , para se detectar o ideológico e /o u o nível de con s­
ciência, partim os do discurso individual produzido na interação com
o pesquisador e que deverá ser analisado através de categorias que
em eijam do próprio discurso e que o esgotem em todos os significa­
46 S1LVJAT. M, LANE

dos possíveis, ta n to em rela ção ao q u e foi dito com o ao “ não-


d ito ” . V árias técn icas têm sido u tiliz a d a s p a r a se ch eg ar às c ateg o ­
rias fu n d a m e n ta is d e u m discurso, d esd e a A A D de P ech eu x até às
m enos e s tru tu ra d a s q u e c o m b in am o d ito e o não -d ito , ou aq u elas
que a n a lisa m as relaçõ es d e su b o rd in a ç ã o , co m p le m e n ta rid a d e
e tc ., seja g ra m a tic a l ou im p lic ita m e n te p resen te s no discurso. O
im p o rta n te é o c a r á te r a p o ste rio ri d a s c a teg o rias que perm ite
e la b o ra r u m a "sín tese p re c á ria ” que d ire c io n a an álises m ais am p la s
e p ro fu n d a s.
C om este p ro ce d im e n to o P ro b le m a é a n te s u m p o n to de
p a rtid a do que de ch e g a d a , p o d e n d o ser re fo rm u la d o a c a d a nível de
a n álise, no co n frô n to co m a a çã o do in d iv íd u o e com as condições
q u e cerc am a p ro d u ç ã o do discurso.
T a m b é m co m o d eco rrên cia deste p ro c e d im e n to , o p ro b le m a
re fe re n te a am o strag em assu m e o u tra c a ra c te rístic a , pois n ão se
p ro c u ra a gen eralização m a s sim a esp ecificid ad e d en tro d e u m a
to ta lid a d e e, p o rta n to , os indivíduos e s tu d a d o s sào escolhidos em
fu n ção d e aspectos ou condições c o n sid e ra d a s significativas e que
m u ita s vezes não p o d em ser pré-definidas* m as que em ergem d a
p ró p ria an álise que vem sendo feita.
D e ste m odo o p e sq u isa r é ta m b ém u m a “ p rá x is ” : se p a rte do
em p írico , se an a lisa , se “ te o riz a '’, se v o lta ao em pírico e assim p o r
d ia n te , se a p ro fu n d a n d o g ra d a tiv a m e n te p a ra se c a p ta r o processo
no q u a l o em pírico se insere. C h eg ar ao c o n c re to , à to ta lid a d e é u m a
p ro d u ç ã o coletiva o n d e as la c u n a s a p o n ta d a s p elas “ sínteses p re c á ­
ria s” sào tã o fu n d a m e n ta is q u a n to os co n h ec im e n to s desenvolvidos.
O u tro aspecto de vital im p o rtâ n c ia é a relação pesq u isad o r-
p esq u isa d o , que n e ste processo deve s e r c o n sid e ra d a com o u m a
re la ç ã o in e ren te a o fato e stu d a d o , se n d o q u e o p e sq u isa d o r é
ta m b é m objeto de e stu d o e an álise ta n to p o r ele p ró p rio com o pelo
p e sq u isa d o . N esta perspectiva n ão é possível dissociá-lo pois ele
ta m b é m é p a rte m a teria l d a re a lid a d e e m e stu d o , e q u a n d o a su a
a tu a ç ã o , a su a p resen ça é a n a lis a d a n ã o o é em term os d e evitar
“ vieses” ou de se a tin g ir u m a o b jetiv id ad e, m as sim d e c a p ta r a
n â o -n e u tra lid a d e com o m a n ifestaç ão d e u m processo que se está
p ro c u ra n d o co m p re en d er e m to d a a s u a ex ten são . P o r o u tro lado,
a p e sq u isa em Psicologia Social, lid an d o co m seres h u m a n o s, deverá
te r se m p re presente q u e o p a p e l in stitu c io n a liz a d o d e p e sq u isa d o r
em n o ssa sociedade tra z consigo o c a rá te r d e d o m in ação e com o ta l
re p ro d u z a ideologia d o m in an te; se n ão q u ise rm o s e la b o ra r co n h e­
c im en to s c o n ta m in a d o s id eo lo g icam en te, este fa to deve m erecer
AS C A TEG ORIAS FU NDAM EN TAIS D A PSICOLOGIA SOCIAL 47

u m a a te n ç ã o fu n d a m e n ta l no p la n e ja m e n to de procedimento»,
reg istro s e an álise do fa to pesquisado.
C o n h ece r ideologia e /o u nível de co n sciê n cia im p lica tam bém
o e stu d o d a s relações g ru p a is q u e se pro cessam desde a rep ro d u ç ã o
c ris ta liz a d a de p a p é is e, ctrnio ta l, d a id eo lo g ia d o m in an te, a té o
q u e stio n a m e n to d as relaçõ es de d o m in a ç ã o e d as co n tra d iç õ e s p o r
elas g e ra d a s. N este nível é necessária a an álise das ativ id ad e s
desenvolvidas pelo g ru p o , assim com o o d iscu rso p ro d u zid o pelos
seus m e m b ro s. O co n fro n to en tre o nivel do d iscurso e o nível d a
a ç ã o é essencial p a r a se co m p reen d er o indiv íd u o , seja e n q u a n to
r e p ro d u to r de ideologia com o p a r a a n á lise d e seu nível de c o n s ­
ciência- N este m o m en to a observação p a rtic ip a n te é fu n d a m e n ta l e
n o ssa ex p eriên cia te m d em o n strad o q u e p o r m e n o r q u e seja a p a r ti­
c ip a ç ã o a p a re n te do p esq u isad o r, ela o c o rre com c a ra c te rístic a s
decisivas q u e n ão p o d em ser d esco n sid era d as no fato em e stu d o .
C o n clu in d o p o d em o s re ssa lta r a lg u n s p ontos-chave p a ra u m a
nova m etodologia de p esq u isa em P sicologia Social:
1) as definições e çonç.çitos ap rio rístico s sã o dispensáveis, q u a n d o
n ã o , restritiv os p a r a a atividade de p esq u isa r;
2) p o r o u tro lado, categ o rias que nos rem e tem aos vários níveis
de a n álise p e rm ite m ch eg ar à m a te ria lid a d e do fato, ao c o n ­
c re to q u e está sob o em pírico a p are n te;
3) a p e s q u is à com o “p rá x is1* im plica, n ece ssariam en te, in te r v e n ­
ção e a cu m u la çã o d e conhecim entos;
4 ) t as la c u n a s no conhecim ento são tão im p o rta n te s q u a n to o c o n h e ­
cido, se não m a is, pois são elas q u e p e rm itirã o a p ro fu n d a r e
rev er as an álises já realizadas.

Bibliografia

Lane, S. T, M., O que é Psicologia Social?, Sâo Paulo, Brasiliense, 1981.


Texier, Jacques, Gramsci, Teórico de las Superestruturas, México, Edicio-
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Codo, W ., A transformação do C omportamento em Mercadoria (tese dou­
torado).
Leontiev, A. N., Actividad, Consciência y Personalidad , Buenos Aires, Ed.
Ciências dei Hombre, 1978.
O fazer e a consciência
W a n d e r le y C o ào

L e h n in g e r. e m seu tra ta d o de B io q u ím ic a, d iferencia a


m a té ria viva d a m a té ria não-viva e n tre o u tra s c a ra cterísticas pelo
fa to de o organism o e x tra ir e tra n s fo rm a r a en e rg ia do seu meio
a m b ie n te em “ u m a re la ção fu n c io n a l” , o u seja, a en e rg ia é re tira d a
d o m eio p a r a c o n stru ir e m a n te r a p r ó p r ia e s tru tu ra do org an ism o
vivo. T o m a n d o suas p a la v ra s, " o s o rg a n ism o s vivos são sistem as
a b e rto s, pois trocam ta n to en e rg ia c o m o m a té ria com seu m eio
a m b ie n te e, ao fazerem isso, tra n sfo rm a m a m b o s ” .
A e s tru tu ra ç ã o de um o rg an ism o vivo atra v és d a tra n s fo r­
m a ç ã o d e energia d a m a té ria in a n im a d a se d á n ece ssariam en te por
u m a re la ç ã o en tre am b o s que se define co m b a se n a recip ro cid ad e
(d u p la rela ção ) que envolve a tra n s fo rm a ç ã o d a n a tu re z a à im agem
e s e m e lh a n ç a do o rg an ism o e, co ndição s in e q u a fio«, o avesso; ou
se ja , a tra n sfo rm a ç ã o do o rg an ism o à im a g e m e sem elh an ça da
n a tu re z a q u e o abriga*
E m o u tra s p a la v ra s, o co rre u m a re la ç ã o de d u p la a p ro p ria ç ã o ,
a ex istên cia m esm a d o o rg an ism o vivo im p lic a a p ro p ria ç ã o d a
n a tu re z a q u e exige, co n d ic io n a a a p ro p ria ç ã o do o rg an ism o , pela
n a tu re z a . A ssim , u m a am eba> ao e ste n d e r seus pseu d ó p o d es e se
a p ro p ria r de u m a p a rtíc u la q u e a a lim e n ta rá , tem d e c o n fo rm a r-se à
e s tr u tu ra d a p a rtíc u la p a r a c o n fo rm á -la a si m esm a; d e c e rta
m a n e ira , a a m e b a é o seu alim en to a o re p re s e n ta r su a ap ro p ria ç ã o .
E m um org an ism o m ais co m plexo, a s re la çõ es te n d em a fica r
m a is claras* U m ra to , ao se a lim e n ta r d e u m queijo, o “ ra tific a ”
(com ou sem aspas), o u seja, ra tific a r, to m a r o queijo, q ueijo e
AS CATEGORIAS FU NDA M E NTA IS DA PSICOLOGIA SOCIAL 49

“ r a tif ic a r ” , to m a r o q u eijo rato, N o p rim e iro sen tid o p o rq u e o


q u eijo ta m b é m é, além de seu sig n ificad o fisico (m o lécu las
e s tru tu ra d a s de u m a d e te rm in a d a fo rm a), o alim en to e n erg izad o r
do c o m p o rta m e n to do rato.» No seg u n d o sen tid o , o ra to ra tific a o
q u eijo ao tra n s fo rm a r o q u eijo em si m esm o.
P elo avesso, o r a to se “ queijifica” no se n tid o físico do te rm o ,
com põe-se do queijo tra n sfo rm a d o , do se n tid o biológico do te rm o ,
sua saliva, seu estô m ag o e in testin o se e s tru tu ra m a p a rtir d o
a lim e n to q u e devem d ig e rir, e ta m b é m no se n tid o psicológico, s u a
p e rc e p ç ã o , faro , olhos e ouvidos a p re n d e m ; graça s ao queijo a
d istin g u i-lo do não-q u eijo , n a n a tu re z a .
A sobrevivência d e u m o rganism o d e p e n d e em ú ltim a in s ­
tâ n c ia d a c a p a c id a d e física, biológica e p sicológica d e tra n s fo rm a r o
m eio à s u a im agem e sem elh an ça e, p o rta n to , de a u to tra n sfo rm a r-se
à im a g e m e sem elh an ça d o m eio.
E sta m o s, p o rta n to , no p la n o d a H is tó ria N a tu ra l, e ev id en ­
te m e n te , a s ciências se dividem e n q u a n to re c o rta m e sta ou a q u e la
face d este m esm o fen ô m en o básico.
A ssim , a g en ética to m a p a ra si a c o m p re e n sã o d a tra n s fo r­
m a ç ã o d a espécie pelo m eio d u ra n te as gerações, a biologia c e lu la r
e s tu d a as m ú ltip la s relações en tre c é lu la e m e io externo.
A P sicologia e n q u a n to n o s in te re s sa m ais d e p e rto se
p re o c u p a com os m ecan ism o s de sobrevivência do organism o em
te rm o s d e percepção, ap ren d iza g e m , m o tiv açã o , e t c .1
E m o u tra s p alav ras, co nhecendo e x a ta m e n te c o m o u m a n im a l
sobrevive, m u ito sab erem o s sobre com o se c o m p o rta rá (aí e stá a
eto lo g ia q u e n ão nos d eix a m en tir).
M esm o no lim ite d a Psicologia a n im a l j á se re c u p e ra a espe-
cificid a d e d e sta ciên cia em relação às su a s p rim a s. No p la n o
b io q u ím ic o , ou genético, em quase to d o o universo d a biologia o
c ie n tista te m a “ ben esse” d e p o d er lid a r com u m fenôm eno d is c r e to ,
e n q u a n to q u e n a P sicologia nos d e p a ra m o s com a d ificu ld ad e de se
tr a ta r d e u m fen ô m en o co ntínuo. A ssim , a p e s a r de conhecer o
m o v im en to e n tre a cé lu la e o seu m eio, é possível e stu d á -la co m o
u n id a d e rela tiv a m e n te d isc re ta , ou seja, te n d o claros os lim ites q u e
d istin g u e m a célu la d a n& o-célula. N o caso d a Psicologia, o o b je to

(1) É ôbvk> que um animal não apenas come, também foge, procria
etc; em cada uma das atividades a relaçáo é a mesma, utilizamos apenas a
alimentaç&o neste contexto, eomente como um exemplo.
50 W A NDE RLEY CODO

m e s m o d e e s tu d o é a relação o r g a n is m o -m e io , o exercício d a
P sicologia n ão consiste em c o n sid e ra r com o variáveis in terv en ien tes
o m eio am b ie n te co n creto e b u s c a r a tra v és d a in tro sp e cção a
c o n sciê n cia h u m a n a e m su a d im e n sã o “ p u r a ” .
C om o já te n ta ra m alg u n s c ie n tista s, nem co n sid eram o
in d iv íd u o com o u m a ta b u la rasa n a q u a l o m eio escreve sua h istó ria,
com o ta m b é m j á se disse, o-objeto d a P sicologia consiste em e s tu d a r
a a tiv id a d e do o rg an ism o .
O u , com o diz L eontiev, já se re fe rin d o a seres h u m a n o s: " . . .
na. p ró p ria o rg an iz ação co rp o ral d o s indivíduos está c o n tid a a
n ecessid ad e de e n tra r em u m a re la ç ã o ativ a com o m u n d o exterior;
p a ra e x istir devem a tu a r ... ao in flu ir sobre o m u n d o ex terio r o
m o d ificam , com isso se m odificam ta m b é m a si m esm os. P o r isso,
o q u e os hom ens sã o e stá d e te rm in a d o p o r su a ativ id ad e , à qual e stá
co n d icio n ad a p elo nível já a lc a n ç a d o no desenvolvim ento de seus
m eios e fo rm as d e o rg a n iz a ç ã o ” .
T om em os e n tã o o hom em , e v ejam os com o se d á e sta d u p la
re la ç ã o o rganism o-m eio. O c o rre no h o m e m o m esm o fenôm eno que
oco rre com os an im ais?
Sim e não, ao m esm o tem p o , é a re sp o ta .
Sim , p o rq u e o H om em ta m b é m tem su a h istó ria n a tu ra l,
ta m b é m é o bife q u e fareja e deg lu te (o u p re te n d e ) no alm oço.
N ão , p o rq u e acopla-se a e s ta já c o m p le x a relação, a n a tu re z a
essen cialm en te social do H om em .
O q u e significa isto?
O H om em p ro d u z su a p ró p ria ex istê n c ia , p o rta n to p ro d u z a si
m esm o, p a r a ta n to se rela cio n a com os o u tro s , p o rta n to p ro d u z e é
p ro d u z id o pelo o u tro . P o rta n to , a d u p la re la ção a p o n ta d a a trá s
e n tre o rganism o e m eio se d á m e d ia d a p ela d u p la relação consigo
m esm o.
A o com er u m to m a te , p o r exem plo, o h o m e m e n tra em relação
de d u p la a p ro p ria ç ã o com to d o o p la n e ta e com to d a a h istó ria d a
H u m a n id a d e literalm en te.
D eclinem os a afirm ação a c im a , p o is e la nos in te re ssa p a rti­
c u la rm e n te .
O hom em n ü o e n c o n tra o to m a te p ro n to n a n a tu re z a , tem de
p la n tá -lo . A té a q u i n a d a de novo, pois a a ra n h a p ro d u z s u a teia; a
d ifere n ç a ê que o ser h u m a n o nâo s a b e p la n ta r an tes de n ascer,
p re c isa a p re n d e r. E n q u a n to a a ra n h a p a r a c o n stru ir a te ia tem u m a
ta re fa p e la fren te, o h o m e m tem u m p ro b le m a q u e depende de u m a
AS CA TEGORIAS FUNDAM ENTAIS D A PSICOLOGIA SOCIAL 51

té c n ic a e d e u m p ro jeto . O ra , a a p re n d iz ag e m d a técn ica c o p ro jeto


p re ssu p õ e m o ou tro .
É m o u tra s p a la v ra s, a técnica p re ssu p õ e u m a divisão de
tra b a lh o ta n to lo n g itu d in a l q u an tõ tran sv ersal.
T ra n sv ersa lm e n te , o hom em se divide p a ra p ro d u zir, p o r
ex em p lo u n s e sp a n ta m a caça, e n q u a n to o u tro s a m a tam .
L o n g itu d in a lm e n te , c a d a geração ap e rfe iç o a p a rte d a té cn ica
q u e o h o m e m a p re n d e n u m d a d o m o m e n to , Foi assim d a ro c a de
fia r, p a s s a n d o p ela m u le -je n n y até as fia d o ra s m odernas.
No cern e d e s ta q u estão e stá o p ro b le m a d a divisão de t r a ­
b a lh o , E é e sta divisão de tra b a lh o que p e rm e ia a linguagem , os
in s tru m e n to s , o p e n sa m e n to , a consciência.
P asse m o s em rev ista a ativ id ade p ro d u tiv a do hom em , p ro c u ­
ra re m o s d e m o n stra r com o o uso d a ativ id a d e e n q u a n to c a te g o ria
c e n tra l d a Psicologia p o d e ser revelador.
T o m a r o fru to d a te rra , levá-lo à b o ca, deg lu tir, C om o já
vim os, a “ m e ra ” a tiv id ad e de a p ro p ria ç ã o é p re n h e d e u m a re la ção
d ia lé tic a h o m e m -n a tu re z a : 1) o fru to se tra n s fo rm a (se conform a) à
im a g e m e sem elh an ça do hom em ; e, 2) ao m esm o tem p o o h o m e m se
tra n s fo rm a (se co n fo rm a ) â im agem e se m e lh a n ç a do fru to de q u e se
a p ro p rio u .
E m 1) o fru to se to m a o hom em no sen tid o físico (m o lécu las
q u e se in c o rp o ra m e ( p a ssa m a co m p o r nosso corpo), biológico
(e n e rg ia q u e se tra n s fo rm a pelas e p a r a as célu las do ho m em ) e
psicológico (o fru to p a ssa a significar u m fru to p a r a o h o m em , se
in c o rp o ra a ele u m significado h u m a n o ).
E m 2) o ho m em se to m a o fru to p e la s m esm as razões físicas e
biológicas, do p o n to d e vista psicológico, o fru to en sin a o h o m e m a
d istin g u i-lo do n à o -fm to , nossas sensações, atra v és d a visão, p o rém ,
são e s tru tu ra d a s pelo fru to ,
A lém d as sensações, a ap ro p ria ç ã o d a n a tu re z a p ro d u z a açã o
do h o m e m , estab elece relações de c o n tin g ê n c ia e n tre os c o m p o r­
ta m e n to s, dispõe o refo rçam en to , dispõe sobre o gesto do b ra ç o ,
m ãos, b o c a e, so b retu d o , o fruto fornece u m significado ao gesto,
in c o rp o ra a ele u m telo s, u m a fin alid ad e . S ensações, ação e ta m b é m
p erce p ção . A n a tu re z a a p ro p ria d a lig a o olho à boca, ao n a riz .
P la n ta r a sem en te, z elar pela p la n ta , c o lh e r o fruto.

(*) Uma das prímeiras màquinas de fiar.


52 W ANDERLEY C O D O

A q u i p e rm a n e c e a m e sm a relação d ia lé tic a (n ã o c u sta repeti-


la , o h o m e m é tra n sfo rm a d o p ela n a tu re z a e n q u a n to se tra n sfo rm a à
im a g e m e sem elh an ça d a n a tu re z a ) m a s em u m nível q u a lita ­
tiv a m e n te su p erio r.2
A o p la n ta r o hom em m o d ifica p a r a si o m eio ex tern o , já n ã o se
p o d e f a la r de n a tu re z a no sen tid o de c o n tra p o siç ã o ao H u m a n o , o
m u n d o ao re d o r to m a a face do H om em , é colocado a seu serviço,
s u b m e tid o às suas nece ssid a d es, p o rta n to à su a v o n ta d e. N este
se n tid o a d u p la rela ç ã o H o m e m -N a tu re z a, a p o n ta d a acim a, g a n h a
u m elo novo, o hom em tra n sfo rm a a n a tu re z a q u e o tra n sfo rm a .
M as p la n ta r p ressu p õ e ta m b é m o fru to p re se n te -a u se n te , ou
s e ja P o p ro je to do fru to , é p reciso q u e o fru to esteja p re se n te n a
c o n sciê n cia do H om em , e m b o ra au sen te d a n a tu re z a . O fru to , pelo
H o m e m , se to rn a tra n sc e n d e n te , se e te rn iz a n a ativ id ad e do p la n tio .

O aso de instrumentos de trabalho

O q u e é o in stru m e n to d e tra b a lh o ? M a rx nos diz: ‘*0 m eio de


tra b a lh o é u m a co isa ou u m c o n ju n to d e coisas q u e o h o m em
in te rp õ e e n tre ele e o objeto do seu tra b a lh o , com o c o n d u to r d a sua
ação” .
P o rta n to , o in s tru m e n to tem u m c a r á te r m e d ia d o r n a m e d id a
em q u e fu n cio n a c o n c re ta m e n te com o e x te n sã o do hom em , a m ­
p lia n d o ou p recisa n d o seus gestos o e te rn iz a . U m m a ch ad o , p o r
ex em p lo , é o ato do hom em objetivado, p e re n e , im o rta liz a d o , em
u m a p a la v ra , tra n sc e n d e n te ao p ró p rio H o m e m . N este sentido o
in s tru m e n to de tra b a lh o é u m m e d ia d o r e n tre o H om em e a su a
tra n sc e n d ê n c ia , em o u tra s p a la v ras a su a H istó ria .
U m o u tro c a rá te r m e d ia d o r se a m p a ra no fa to de q ue, e m b o ra
filh o legítim o d a ação, o in stru m e n to d e tra b a lh o p ressu p õ e a ação
n ã o re a liz a d a , ou seja, u m pro jeto . A ssim , o in stru m e n to tra n s ­
fo rm a atra v és do tra b a lh o a reflexão em a ç ã o m a te ria liz a d a e com o
se viu, tra n sc e n d e n te . O s m eios de tra b a lh o exercem a 'm e d ia ç ã o
e n tre a reflexão e a H istó ria .

{2} A análise do plantar pressupõe o uso de instrumentos e conco-


m itantem ente da linguagem; aqui, por questões didáticas, apenas vamos
separar os processos.
AS CA TEGORIAS FU ND A M EN TA IS D A P&ICOLOGIA SOCIAL 53

F a b ric a d o pelo H o m em com o m e d ia d o r e n tre ele e a natureza


(m eio d e tra b a lh o ), o in stru m e n to se a m o ld a ao seu cria d o r. É a
n a tu re z a h o m in iz a d a e m e io d e h o m ín izaç ão d a n a tu re z a ao m esm o
tem po.
C ria d o pelo H o m e m à su a im ag em e se m elh an ça, o ete rn iz a ,
tra n s fo rm a a ativ id ad e in d iv id u al em H istó ria , a cria ç ã o c ria o
c ria d o r.
A ção e m eio de a ç ã o sin te tiz ad as e e te rn iz a d a s, a cria ção se
lib e rta do cria d o r, o m a c h a d o que eu fiz, ao m esm o tem p o q u e
im o rta liz a m e u gesto, re c ria o gesto do o u tro à m in h a im a g e m e
s e m e lh a n ç a , o m a c h a d o re a p re se n ta ao H om em in dividual a
H istó ria d a H u m a n id a d e , co n fo rm a e in se re o indivíduo à s u a
p ró p ria espécie; ao c o n trá rio , o in s tru m e n to viabiliza a in tervenção
do H o m e m em to d a a s u a H istória, p ela via d a ativ id ad e, o m a c h a d o
a p e rfe iç o a d o pelo m eu sucessor tra n s fo rm a o hom em in d iv id u al e m
ser g enérico, a evolução do seu gesto tra z em si a revolução da
H u m a n id a d e . A través d o in stru m e n to de tra b a lh o o hom em tr a n s ­
fo rm a a h istó ria dos h o m en s e é tra n s fo rm a d o p o r ela.
O in s tru m e n to é p ro d u to r e p ro d u to d a a b stra ç ã o . O conceito
d u ro (o u m ole) n ão e m a n a d ire ta m e n te d a n a tu re z a , com o p o d e
h av er n a consciência h u m a n a algo q u e n ão se e n c o n tra no m u n d o ?
O conceito d e d u ro é reflexo d e u m a in te ra ç ã o e n tre d o is
o b jeto s d e d en sid ad e s diferen tes. A o b a te r com o m a ch ad o em u m a
árvore o hom em in te ra g e com os dois elem en to s em q u estão e,
p rin c ip a lm e n te com a relação e n tre eles, a m ed iação do gesto
rea liz a d o pelo in stru m e n to in fo rm a u m a d im e n sã o do real d*antes
in su sp e ita , a rm a o h o m e m com a p o ssib ilid a d e d e in te rp re ta ç ã o do
m undo.
Isto é verdade p a r a q u a lq u e r a b s tra ç ã o , q u a lq u e r p e n s a ­
m en to , O co rre q ue, a m iú d e , o in s tru m e n to d e in tervenção do
h om em no universo é a p ró p ria p a la v ra q u e re o rg a n iz a relações d o s
h o m en s e n tre si, fu n c io n a n d o p rio rita ria m e n te com o um in s tru ­
m e n to d e interv en ção no o u tro ou do o u tro e m m im .3
E m b o ra filho legítim o d a ação, a c o n stru ç ã o do in stru m e n to
de tra b a lh o p ressu p õ e a a ç ã o nã o re a liz a d a , ou seja, u m p ro d u to de
ação, o in stru m e n to d e tra b a lh o e n g e n d ra a re fle x ão e a m a te ria liz a .
E m o u tra s p alav ras, o uso d e m eios d e tra b a lh o realiza a volta

(3) NSo se fará aqui uma anállsq da linguagem, apenas se ressalta o seu
papel como instrumento.
54 W ÁN DER LEY CODO

c o m p le ta , prom ove a co n sciên cia do q u al è p ro d u to , p ro d u z a c o n s­


ciên cia q u e prom ove.
E m su m a , o in stru m e n to de tra b a lh o tra n s fo rm a o hom em de
a n im a l em ser tran sc e n d e n te : atra v és d a a ç ã o m e d ia tiz a d a o hom em
tra n s c e n d e a si m esm o, em direção ao se u pro jeto , p o rta n to em
re la ç ã o ao o u tro , p o rta n to em direção à H istó ria.

O homem e o outro

E v id en tem en te o tra b a lh o e n q u a n to m o d o de p ro d u ç ã o de sua


p ró p ria existência exigiu do hom em a convivência em g ru p o s, o
desenvolvim ento d a linguagem e a divisão d e tra b a lh o .
O s processos g ru p a is e a lin g u ag em e stã o form ulados em
o u tro s m o m en to s deste livro. Posso e n tã o m e p o u p a r d esta an álise e
a b o rd a r alg u n s aspectos d a divisão de tra b a lh o que considero
relev an tes p a ra a an álise em q u estão .
A divisão de tra b a lh o u n e e se p a ra (u n e p o rq u e sep ara , sep a ra
p o rq u e u n e) os h o m çn s ao m esm o te m p o . Se a caç a é g ra n d e ç
p e rig o sa o suficiente p a r a q u e o hom em n ã o p o ssa a b a tê -la sozinho e
se o rg a n iz a m g rupos e n c a rre g a d o s de a b a tê -la e o u tro s e n ca rre g ad o s
de e s p a n tá -la , esta divisão de tra b a lh o te n d e , p o r u m a q u e stão de
c o m p e tê n c ia , a se c rista liz a r, o que im p lic a q u e percepções, a b s ­
tra ç õ e s e tam b ém consciências d iferen tes d a re a lid a d e se e s ta b e ­
le çam em hom ens d ifere n tes, p o r o u tro là d o é ig u a lm en te o b ri­
g a tó rio q u e os m esm os h o m en s “ se p a ra d o s ” pelas atividades
d ife re n c ia d a s se u n am em u m p la n o su p e rio r, que é o p la n o do
p ro je to e dos objetivos d a ativ id ad e em p a u ta . A ssim , é preciso que
os h o m e n s estejam ligados e n tre si pelo p ro d u to do seu tra b a lh o
(a tiv id a d e objetiva) p a r a q u e p o ssa m sobreviver. A caç a n ão seria
a b a tid a se cada hom em n ão cedesse a seu s in stin to s im ediatos e
c o m u n g a sse do p ro jeto do g ru p o .
C om o se verá a d ia n te , e sta d ia lé tic a u n iã o -se p a ra ç ão é
fu n d a m e n ta l p a ra o p ro cesso d e c o n scie n tiz ação , assim com o a
re la ç ão hom em *hom em , h o m e m -n a tu re z a q u e an alisa re m o s a
seguir.
Já repetim os a d n a u se a m q u e é a re la ç ã o p rá tic a do hom em
com a n a tu re z a , su a ativ id ad e q u e o c o n stitu i. No tra b a lh o
p ro d u tiv o este c a rá te r d e d e te rm in a ç ã o d a p r á tic a ap are ce de form a
c ris ta lin a ; é a caça q u e in stru i ao c a ç a d o r a fo rça do golpe.
AS CATEGORIAS FU ND A M EN TA IS D A PSICOLOGIA SOCIAL 33

A o m esm o te m p o q u e a ativ id ad e em in en te m en te prática


e m p u rra o hom em p a r a o c o n ta to vis-à-vis a n a tu re z a , seu m o d o de
ser social e histórico, p o rta n to tra n sc e n d e n te , o o b rig a a u m a
rela ção com o o u tro q u e im p lica *‘a fa s ta m e n to " (ressalte-se as
a sp as) com a n a tu re z a . V ejam os.
A c o n stru çã o d e in stru m e n to s im b ric a d a com a lin g u ag em
p e rm ite q u e o en g en h o , a c ria tiv id ad e, a co m p etên cia de um
tr a b a lh a d o r em p a rtic u la r tra n sc e n d a a si m esm o e p asse a
p e rte n c e r a to d a a h u m a n id d e . A rig o r, b a s ta que um hom em em
u m a trib o p rim itiv a inv en te o arco e a flec h a p a r a que esta ativ id ad e
o b je tiv ad a no p ro d u to de sua a rte p asse a p e rte n c e r a to d a a
co letiv id ad e, im p rim in d o su a existência no e x istir do o u tro , que p o r
su a vez o re fo rm u la, a té a tin g irm o s todos n ó s o estágio d a b a z u c a ,
p o r ex em p lo .
P e rc o rre n d o c a m in h o inverso: o ato d e um hom em p a rtic u la r
com u m m a c h a d o p a rtic u la r ao b a te r em u m a árvore é p erm e a d o de
to d a a h is tó ria d a h u m a n id a d e a té en tão . A q u i a d u p la a p ro p ria ç ã o
h o m em -m eio (tra n s fo rm a r e ser tra n s fo rm a d o p ela n atu re z a ) se
fu n d e e tem com o re q u isito a d u p la a p ro p ria ç ã o h o m em -h o m en i
(tra n s fo rm a r e se r tra n sfo rm a d o pelo o u tro ).
O m a c h a d o é u m a via de co n sc iê n c ia do m u n d o e do social
p o rq u e é o hom em g enérico, to d a a h istó ria , to d a a sociedade
re p re s e n ta d a , q u a n to m ais técn ica se a p e rfe iç o a m ais o m eio
a m b ie n te n a tu ra l do h o m e m se to rn a h u m a n o . H oje en co n tra m o s
o p e rá rio s lid a n d o com m á q u in a s feitas p o r m á q u in a s, p e r o m n ia ,
p ro d u z in d o a vida de pessoas através d a e letric id ad e que n ão
sab em o s ao certo em q u a l m o m en to h istó ric o foi p ro d u z id a p ela
p rim e ira vez.
A ssim se p rom ove u m “ a fa s ta m e n to " a p a re n te que se c o n c re ­
tiza p o r u m p o d e r c a d a vez m aio r sobre a n a tu re z a p ela via social,
vale d iz e r, h istó rica.
A m in h a ativ id ad e m e d ia d a pela a tiv id a d e do o u tro pela v ia da
lin g u a g e m e do in stru m e n to de tra b a lh o é e x a ta m e n te o q u e p e rm ite
q u e a ativ id ad e se re a p re se n te a u m su je ito p a rtic u la r em u m
‘reflexo d a realid ad e c o n c re ta d esta c a d o d a s relações que ex istem
e n tre ela e o sujeito, o u seja, um reflexo q u e d istin g u e sujeito, ou
seja, u m reflexo q u e d istin g u e as p ro p rie d a d e s objetivas estáveis d a
R e a lid a d e ” .
E sta m o s fa la n d o do fenôm eno d a consciência h u m a n a .
M a rx nos revela q u e a linguagem é a consciência p rá tic a . O u
seja, é a ativ id ad e dos h o m en s re p re s e n ta d a a u m sujeito in d ividual,
56 W ANDERLEY C OD O

p o rta n to passível de ser re p ro d u z id a n a a u sê n c ia do m u n d o objetivo


im e d iá to ao m esm o te m p o q u e p e rm a n e c e fiel a ele.
V im os q u e a ativ id ad e p ro d u tiv a h u m a n a , p ela via do
desenvolvim ento im b ricad o d a lin g u a g e m , dos in stru m e n to s de
tra b a lh o e d a divisão de tra b a lh o p ro d u z a consciência atra v és d a
d ia lé tic a h o m e m /n a tu re z a , h o m e m /h o m e m q u e se ex p ressa p o r
u m a te n sã o p e re n e e n tre o indiv íd u o com o sujeito in d iv id u al e
coletivo do seu p ró p rio destino, c o n tra d iç ã o e sta q u e só p o d e rá
evoluir p e la a p ro p ria ç ã o coletiva do d e s tin o in d iv id u al.
T alvez u m exem plo possa d e ix a r a s coisas m a is claras.
T o m em o s u m o p e rá rio q u e in g re ssa h o je em u m a fáb ric a:
e n c o n tra a li, j á c o n stru íd o , u m m o d o de p ro d u ç ã o coletivizado
a lta m e n te evoluído q u e o in sere em to d a a h is tó ria d a h u m a n id a d e ,
c a d a p ro d u to realizad o , c a d a gesto re a p ro p ria e tra n s fo rm a o m u n d o e
os h o m e n s. Ao a p e r ta r u m b o tã o q u e a c io n a u m a m á q u in a , nosso
o p e rá rio é in v a d id o p e la h istó ria e to m a -s e seu p o rta d o r, se in sere em
su a classe e n a lu ta d e su a classe n a m e d id a em que se o rg an iz a
coletivam ente.
A o m esm o te m p o e n c o n tra o p ro d u to do tra b a lh o ro m p id o ,
div o rciad o d o p ro d u to r. O p ro d u to do seu tra b a lh o se lh e a p re se n ta
com o se r e stra n h o , in d e p e n d en te do p ro d u to r, nos diz M a rx , o
tra b a lh o é alien ad o , p o r isto dividido e n tre tra b a lh o in telec tu al e
tra b a lh o b ra ç a l, o u seja, o gesto é e x p ro p ria d o d a criação« O
tra b a lh o coletivizado e a s relações de tr a b a lh o com p etitiv as, o irm ão
do q u a l o tra b a lh o d ep en d e e pelo q u a l o p ro d u to se c ria reap resen -
ta d o co m o inim igo.
O o p erário viverá e n tre estes d o is fogos o te m p o to d o ,
a a p ro p ria ç ã o de si pelo m u n d o e a re a p ro p ria ç ã o do m u n d o . O
m o m e n to d a greve, p o r exem plo, ao p ro m o v er a ru p tu ra d a
p ro d u ç ã o a lie n a d a (m esm o que p a rc ia lm e n te ) ro m p e ta m b é m com o
iso la m e n to de u m indiv íd u o p a ra com o o u tro . A n ã o -p ro d u ção
p ro d u z u m p ro d u to r ativo, d e si, do o u tro , do m u n d o . P ela lu ta , via
a çã o , reco m p o n d o , re c ria n d o a ativ id a d e a té o m o m en to em que
p elo o u tro o hom em re e n c o n tra a si m e sm o , a té q u e o e x istir coletivo
re e n c o n tre o sujeito in d iv id u al.
AS CATEG ORIA S FU ND A M E N TA IS D A PSICOLOGIA SOCIAL S7

Bibliografia

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Identidade
A n to n io d a C osta C ia m p a

Uma pergunta aparentemente simples


Q u e m é você?
É u m a p e rg u n ta q u e fre q ü e n te m e n te nos fazem e q u e às vezes
fazem os a nós m e sm o s...
“ Q uem sou e u ? ”
Q u a n d o e s ta p e rg u n ta surge p o d em o s dizer q u e estam os
p e sq u isa n d o n o ssa identidade* C om o em q u a lq u e r p esq u isa, e s ta ­
m os em b u sca de resp o stas, de co n h e c im e n to . P o r se t r a t a r de u m a
p e rg u n ta feita a nosso resp eito é fácil d a rm o s u m a re sp o sta; ou nao
é?
Se é um c o n h ec im e n to que b u s c a m o s a resp eito de nós
m esm os podem os su p o r q u e estam o s em condições de fornecê-lo.
A fin al se tr a ta de d iz er q u em so m o s... E xperim ente]
N 5o co n tin u e lendo a n te s de re s p o n d e r a e s ta p e rg u n ta : q u em
év o c ê ?
P ro n to ?
R espondeu de fo rm a a q u a lq u e r pessoa, depois d è ou v ir su a
re sp o sta , p o d er a firm a r que o conhece? S u a re sp o sta to m a possível
você se m o stra r ao o u tro (e* ao m esm o te m p o , você se reconhecer) de
fo rm a to ta l e tra n s p a re n te , de m odo a n ão h av er n e n h u m a dúvida,
n e n h u m segredo a seu respeito? S u a re sp o sta p ro d u z um conheci­
m e n to q u e o to m a p erfe ita m e n te previsível? N inguém (n e m m esm o
você), d ep o is de c o n h e c e r essa re sp o sta , te rá d ú v id a sobre com o você
vai a g ir, p e n sa r, s e n tir, em q u a lq u e r situ a ç ã o q u e su rja?
AS CA TEGORIAS FUNDAMENTA IS D A PSICOLOGIA SOCIAL 59

A cred ito q ue, se você foi sincero, e s ta s questões to d a s p o d em


ter le v a n ta d o alg u m as duvidas. Será tã o fácil dizer quem som os?
Se, com o e sto u supondo, não é tã o fácil .como pode p a re c e r a
p rim e ira vista, p o d em o s ad m itir que e ste é u m p ro b le m a digno de
u m a p e sq u isa cien tífic a (e n ão só p o r c a u sa disso). Psicólogos,
sociólogos, an tro p ó lo g o s, os m ais diversos c ien tistas sociais têm
e stu d a d o a q u estão d a id e n tid ad e ; filósofos ta m b é m . Não só p ela
d ificu ld ad e , m as ta m b é m pela im p o rtâ n c ia q u e e sta q u estão a p re ­
se n ta , o u tro s esp ecialistas têm se envolvido com ela e não só c ie n tis­
tas e filósofos: nos trib u n a is, ju izes, p to m o to re s , advogados, p erito s,
etc .; n a a d m in istra ç ã o , ta n to p ú b lic a com o p riv a d a ; na p o lícia, n a
escola, no su p e rm e rc a d o etc., enfim , e m p ra tic a m e n te to d a s as
situações d a vida c o tid ia n a , a q u estão d a id e n tid a d e ap a re c e , de
u m a fo rm a ou de o u tra (e ta m b é m fo ra do co tid ian o : “ q u em e ra
m esm o a q u e la p erso n ag em com q u em sonhei o n te m ? ” ). V ocê já
re p a ro u com o a s novelas de T V ex p lo ra m esse filão? Ê fre q u e n te
u m a p erso n ag em viver u m g ran d e d r a m a p o rq u e de re p e n te d es­
cobre e s ta r e n g a n a d a a respeito d a identidade de outra perso n ag em
(é seu p a i, su a m â e , seu filho, sua irm ã e tc ., e n ão quem p e n sav a
que fosse); c o n seq ü en tem en te, d esco b re ao m esm o te m p o que
ta m b é m estava e n g a n a d o a respeito d a p ró p ria id e n tid a d e (a fin a l, se
esse desconhecido é m eu pai, en tã o eu so u seu filho e não de quem
p ensava); a id e n tid a d e do o u tro reflete n a m in h a e a m in h a n a dele
(a fin a l, ele só é m e u p ai p o rq u e eu sou filho dele). O u tro exem plo:
nas h istó ria s “ p o liciais” quase sem p re o e n red o é todo m o n ta d o
p a ra q u e se d e sc u b ra a id e n tid a d e do crim in o so (n ão só no sen tid o
de sa b e r q u em co m eteu o crim e, m as ta m b é m com o se to m o u
“ crim in o so ” ); p o r vezes, a h istó ria se desenvolve de ta l m o d o que
nos (os esp e c ta à o re s o u leito res) sa b e m o s q u e m é o crim inoso, m a s
as d e m a is p erso n a g e n s d a h istória n ão sa b e m ; isto nos le v a n ta u m a
o u tra q u estão : pelo fato d e os o u tro s n ã o sa b e re m ele deixa de ser
crim inoso? Q ue é ser “ crim in o so '1? É com eter um a to crim inoso?
(P en se no exem plo, digam os, fictício, d e po d ero so s c id ad ão s que
co m etem a to s q u e você co n sid era crim in o so s m as não são p e rse ­
guidos p e la polícia e p ela ju s tiç a ...) P o d em o s fa la r n u m a id e n tid a d e
o c u lta ? P ense n u m a h istó ria d e “ e sp io n a g e m ” : a id e n tid a d e do
“ esp iã o ” e x a ta m e n te se c a ra cteriza co m o u m a id e n tid ad e o c u lta
(peio m en o s p a r a os e sp io n a d o s...), se n d o q u e su as a v e n tu ra s p ra ti­
c a m e n te te rm in a m ou deixam de s e r a tra e n te s q u a n d o essa
id e n tid a d e é rev elad a. Até os su p e r-h e ró is têm su a id e n tid a d e
secreta (a q u ilo de que o S u p er-H o m em te m m ais m edo é que
60 ANTONIO D A COSTA C1AMPA

d e s c u b ra m q u em eie é n a vida c o tid ia n a » ., co m o m u ito s d e n ó s que


esco n d em o s a lg u m a sp ecto d e nossa id e n tid a d e e m orrem o s d e m ed o
q u e os o u tro s d e sc u b ra m esse nosso la d o " o c u lto ” . ..). A lite ra tu ra , o
c in em a, a TV , a s h istó ria s em q u a d rin h o s , as a rte s n u m sen tid o bem
a m p lo ta m b ém lid am com o p ro b le m a d a id e n tid a d e e p odem nos
e n s in a r m u ito a resp eito .

V oltem os a nosso p o n to de p a rtid a . Se, com o afirm am o s,


estam o s fa la n d o de n o ssa id e n tid a d e q u a n d o resp o n d em o s à
p e rg u n ta “ quem sou e u ? ’\ a p rim e ira ob serv ação a ser feita é que
n o ssa id e n tid a d e se m o s tra com o a d e scriç ão de u m a personagem
(com o em u m a novela d e T V )t cu ja vid a, c u ja b io g ra fia ap a re c e
n u m a n a rra tiv a (u m a h istó ria com e n re d o , p erso n ag en s, cenários,
e tc .), ou seja, co m o p erso n ag em q u e su rg e n u m discurso (n o ssa
re s p o s ta , nossa h istó ria ). O ra , q u a lq u e r d iscu rso , q u a lq u e r h istó ria
c o stu m a te r um a u to r, q u e co n stró i a personagem * C abe p e rg u n ta r
e n tã o : você é a p erso n a g e m do seu d iscu rso , o u o a u to r que c ria essa
p e rso n a g e m , ao faze r o discurso?
Se você é a p e rso n a g e m de u m a h is tó ria , q u em é o a u to r dessa
h istó ria ? Se nas h istó ria s d a vida real n ã o existe o a u to r d a h istó ria,
será q u e não são to d a s as p erso n a g e n s q u e m o n ta m a h istó ria?
T o d o s nós — eu , você, as p esso as com q u em convivem os — som os as
p e rso n a g e n s de u m a h istó ria q u e nós m e sm o s c ria m o s, fazendo-nos
a u to re s e p erso n ag en s ao m esm o te m p o . C om e sta a firm a ç ã o já
a n te c ip a m o s o q u e se p o d e ria d iz er c a so n os co n sid erem o s o a u to r
q u e c ria nossa p erso n a g e m ; o a u to r m e sm o é p erso n ag em d a
h istó ria . N a v erd ad e , assim , p o d e ría m o s a firm a r q u e h á u m a
a u to ria coletiva d a história; aq u ele q u e c o stu m a m o s d esig n ar com o
“ a u to r ” se ria d essa fo rm a u m “ n a r r a d o r ” , u m “ c o n ta d o r” de h is­
tória!
C om isso p o d em o s p e rc e b e r o u tro fa to curioso: n ao só a
id e n tid a d e d e u m a p erso n ag em co n stitu í a de o u tra e vice-versa (o
p a i d o filho e o filho do p a i), com o ta m b é m a id e n tid a d e d a s
p e rso n a g e n s co n stitu i a do a u to r (ta n to q u a n to a do a u to r c o n stitu i a
d a s p erso n ag en s).
A tra m a p a re c e com plicar-se, p o is é sa b id o q u e m u ita s vezes
nos escondem os n a q u ilo que falam os; o a u to r se o cu lta p o r trás da
p e rso n a g e m . M a s, d a m e sm a fo rm a co m o u m a u to r a c a b a se
rev elan d o através d e seus p e rso n a g en s, é m u ito freq ü en te n o s
rev elarm o s através d a q u ilo que o cu ltam o s. Som os o cu ltação e reve­
lação.
AS CA TE G OR IA S FUNDAM ENTAIS D A PSICOLOGIA SOCIAL W

A té a g o ra fala m o s das pessoas co m o se elas fossem de u m a


d e te rm in a d a fo rm a e n ã o se m o d ificassem , o q u e é falso. Basta
o b serv arm o s nossos próxim os, b a s ta nos o b serv arm o s. No m ín im o ,
as p esso as ficam m a is velhas: a c ria n ç a se t o r r a ad ulto; o a d u lto ,
a n cião . No m á x im o ... o que seria no m áx im o ? “ Não reconheço m a is
F u la n o , é o u tra pessoa!*1 Há m u d a n ç a s m a is ou m enos previsíveis,
m ais ou m enos desejáveis, m ais ou m e n o s controláveis, m a is ou
m e n o s,.. m u d a n ç a s. O e stu d a n te q u e se to rn a um p ro fissio n al
depois de fo rm a d o re p re se n ta u m a m u d i n ç a b em m ais previsível do
que a do jo vem , nosso am igo de in fân c ia, q u e se to rn a um crim in o so
(ê lógico q u e , im p lic itam en te , estam o s ta m b é m c o n sid era n d o c e rta s
condições de classe social); n u m a o u tra situ ação social a p rev isi­
b ilid a d e p o d e ser in v e rtid a , in felizm ente. O u tro exem plo: a m oci­
n h a q u e se to rn a d o na-de-casa, m ãe d e filhos etc. vive u m a
m u d a n ç a m ais desejável do q u e a d a q u e la q u e se to rn a p ro s titu ta
{novam ente h á alg o im plícito nesse ju lg a m e n to : valores, etc.)*
O d esem p re g ad o q u e se to rn a alco ó latra (ou crim inoso, etc.) sofre
u m a m u d a n ç a provavelm ente m enos c o n tro láv el do q u e a do
e sc ritu rá rio que se to m a gerente (com o você c o n sid era ria a q u i a
q u estão d e classe» de valores* e tc.?). H á m u d a n ç a s e m u d a n ç a s ...
quem m u d a m ais: o heterossexual q u e se to rn a hom ossexual o u o
a d e p to de u m a religião que se to rn a a te u ? O a lien ad o p o litic a m e n te
que se to rn a revolucionário ou o civil q u e se to rn a m ilita r?
Nós nos to rn a m o s algo que não é ra m o s ou nos to m a m o s algo
que já éra m o s e e stav a com o q u e “ e m b u tid o ” d e n tro de nós? P a rec e
que q u a n d o se tr a t a de algo p o sitiv a m e n te valorizado, a te n d ê n c ia
nossa é a firm a r q u e estava “ e m b u tid o ” em nós ( “ se m p re tive
vocação p a ra ser m é d ico ” ); q u a n d o não desejável, fre q ü e n te m e n te
estava “em butido*1... nos outros ( “ se m p re achei que ele tin h a
p ro p e n sã o p a ra o c rim e ” , que ele tin h a u m je ito de ‘b ic h a ’ ” ).
Q u e d iz er d a jovem q u e se te m a d o n a -d e -c a sa ? E d o religioso q u e se
to rn a a teu ? O e sc ritu rá rio que se to rn a g e re n te está realizan d o u m a
“ te n d ê n c ia ” , u m a “ v o c a ç ã o 1?
P o d em o s im a g in a r as m ais diversas com binações p a r a c o n ­
figurar u m a id e n tid a d e com o u m a to ta lid a d e . U m a to ta lid a d e
c o n tra d itó ria , m ú ltip la e m utável, n o e n ta n to u n a. P o r m ais
c o n tra d itó rio , p o r m a is m utável q u e seja, sei q u e sou eu q u e sou
ussitn, o u seja, sou u m a u n id ad e de c o n trá rio s , sou uno na m u ltip li­
cid ad e e n a m u d a n ç a .
Q u a n d o nossa u n id a d e é p e rc e b id a com o a m eaçad a , q u a n d o
co rrem o s o risco de n ão sab er quem so m o s, q u a n d o nos sen tim o s
62 A NT ON IO D A COSTA CIAMPA

d esag re g a n d o , te m o s m a u s p re sse n tim e n to s, tem os o p re s s e n ti­


m e n to de que vam os en lo u q u ecer; a p re n d e m o s a te r h o rro r de
serm ds “ o u tro 1' (q u a n d o q uerem os o fe n d e r alg u ém c a n ta ro la m o s
um re frã o b astan te conhecido: *' F u la n o n ão é m a is aquele. .Z 1); não
é à to a q u e o tipo clássico d e p ia d a d e louco envolve alg u ém que diz
q ue é q u e m não ê: “ N ap o leão ” , “ Jesu s C risto ’’, e tc .; nestes casos, é
fácil v erificar que ele n ào é quem diz q u e é. P o rém , será sem p re fácil
sa b e r q u e alg u ém é (ou n ão é) q uem d iz q u e é? N um certo sentido,
p o d e-se co n sid e ra r a c h a m a d a " d o e n ç a m e n ta l” com o um p ro b le m a
de id e n tid a d e : o '"louco" é nosso “ o u tro ” , ta n to q u a n to o “ c u ra d o ”
é o o u tro do “ lo u co ” . N ão afirm a o d ito p o p u la r q u e “ de m édico e de
louco c a d a um te m um p o u c o ” ?
D esd e o início estam o s jo g a n d o p e rg u n ta s em cim a de p e r ­
g u n ta s, p ro v o cativ am en te, p a ra u m a q u estão que p a re c ia tão
sim ples. T alvez valesse a p e n a se g u ra r essas d u v id as e e x a m in a r a
q u e stã o d e fo rm a m enos in te rro g a tiv a . V am o s te n ta r se p a ra r dois
tipos de p ro b lem a: os de n a tu re z a em p íric a , p rá tic a , e os de
n a tu re z a teórica e filosófica.

No princípio era o verbo

Q u a n d o q u erem o s co n h ec er a id e n tid a d e de alguém , q u an d o


nosso objetivo é s a b e r q u e m alguém é , n o ssa d ificu ld ad e consiste
a p e n a s em o b ter a s in form ações n ecessárias. O p a i que d eseja s a b e r
q u em são os am igos q u e a n d a m com seu filho, a m ã e que p ro c u ra
c o n h e c e r o n am o ra d o d a filha, o e m p re g a d o r q u e seleciona um
c a n d id a to p a ra tra b a lh a r, o co m ercian te {lojista ou b an q u e iro ) que
p ro c u ra se a sseg u rar d a cred ib ilid ad e d e u m clien te a q u em v a i fazer
um em p réstim o , to d o s eles p ro c u ra m “ to m a r in fo rm açõ es” através
dos m a is variados m eios e form as; a n a tu re z a das in fo rm açõ es p o d e
v a ria r, m as todas têm em co m u m o fato de p e rm itire m um c o n h ec i­
m e n to d a id e n tid a d e d a p esso a a resp eito de q u e m as in fo rm açõ es
são to m a d a s.
A ssim , o b ter as in form ações n ece ssárias é u m a q u estão p r á ­
tica: q u a is as in form ações significativas, q u a is as fontes confiáveis
(q u em d á as “ referên c ias” ), de q u e fo rm a o b te r as inform ações»
com o in te rp re ta r e a n a lis a r essas in fo rm açõ es etc. E n fim , o m esm o
p ro c e d im e n to que u m cien tista ad o ta a o fazer u m a p e sq u isa em p í­
ric a (talvez sem a sofisticação h a b itu a l n u m a p esq u isa c ie n tífic a ..
A 5 CATEGORIAS FU ND A M EN TA IS D * PSICOLOGIA SOCIAL *3

A q u i, n à o p rò b le m a tiz a m o s o re s u lta d o o b tid o ; n ã o c o m p li­


cam os a q u estão ; su p o m o s que as in fo rm açõ es nos revelam a re a li­
dad e.
E s s a cren ça é a m e sm a q u e guia n o ssa s ações m ais c o rri­
q u e ira s d a vida c o tid ia n a . Nossos ritu a is sociais escondem a
d ific u ld a d e im p líc ita n e ssa m a n e ira de p e n s a r e d e agir; é fácil
im a g in a r co m o se to rn a ria difícil conviver co m o u tra s pessoas se n à o
houvesse a suposição c o m p a rtilh a d a p o r to d o J.n ó s d e q ue, n o rm a l­
m e n te , u m indivíduo é a p esso a q u e diz que é (e que os outros dizem
que é). P en se n u m a ap re se n ta ç ã o social: u m am igo ch eg a com u m
desco n h ecid o e diz: “ E ste é F u lan o , m e u c o le g a ” e, após você o
c u m p rim e n ta r, o novo conh ecid o diz; “ M u ito p ra z e r, sou F u la n o ’'
ou e n tã o “ Sou F u lan o , a seu d isp o r” , etc.
Se as in fo rm açõ es são verd ad eiras, e n tã o a realid ad e e s tá
c o n h e c id a (pelo m en o s agim os com o se estivesse: depois de u m a
a p re se n ta ç ã o , dizem os q u e o a p re se n ta d o é nosso “ conhecido11...) .
C om o são fo rn ecid as essas in fo rm açõ es?
A fo rm a m ais sim ples, h a b itu a l e in icial é fo rn ecer um nom e,
um su b sta n tiv o ; se o lh a rm o s o dicionário, verem os que su b stan tiv o é
a p a la v ra q u e d esigna o ser» que n o m ç ia o se r. Nós nos identificam os
com nosso nom e, que n o s identifica n u m c o n ju n to de o u tro s seres,
q u e in d ic a nossa sin g u la rid ad e: nosso n o m e p ró p rio . F alam o s
“ ch a m o -m e F u la n o ” , sem p re s ta r m u ita a te n ç ã o ao fato de q u e,
an tes q u e eu “ m e ch a m a sse F u la n o ” , eu “e r a c h a m a d o F u la n o ” , ou
seja, n ó s no s c h a m a m o s da fo rm a com o os o u tro s nos c h am am . N ós
nos “ to rn a m o s” nosso n o m e : pense em você m esm o com o u tro n o m e
(n à o com o o u tra p esso a, m as você m esm o co m o u tro nom e); h á um
se n tim e n to d e e stra n h e z a , p arece que não “ e n c a ix a ” - G e ra lm e n te as
pessoas se sen tem o fen d id a s q u a n d o , p o r q u a lq u e r m otivo, tro ­
cam os seu nom e; é sin a l de am izad e e re sp e ito n à o esq u ecer nem
c o n fu n d ir o nom e das p esso as que p reza m o s.
A n ã o ser em casos excepcio nais, o p rim e iro g ru p o social do
q u al fazem os p a rte é a fam ília, e x a ta m e n te q u em nos d á nosso
nom e. N osso p rim e iro n o m e (pren o m e) n o s d ifere n cia de nossos
fam iliares, e n q u a n to o ú ltim o (so b ren o m e) nos ig u a la a eles.
D ife re n ç a e ig u a ld a d e . É u m a p rim e ira n o ção de id e n tid a d e .
S ucessivam ente, vam os nos d ife re n c ia n d o e nos ig u a la n d o
c o n fo rm e os vários g ru p o s sociais de q u e faze m o s p a rte : b rasileiro ,
igual a o u tro s b rasileiro s, diferente d o s e stran g e iro s ( “ n ós os
b ra sile iro s so m o s... e n q u a n to os e stra n g e iro s S ã o ...” ); h o m em ou
n iu lh e r ( “ os hom ens s ã o ... e n q u a n to as m u lh eres s â o ...1'). O s
64 AN TONIO DA C OSTA C1AMPA

exem p lo s p odem se m u ltip lic a r in d e fin id a m e n te (" o s c o rin tian o s


s ã o ... e n q u a n to os to rce d o res dos o u tro s c lu b e s s&o.. . ” ).
O co n h ecim en to d e si é d a d o p elo re c o n h e c im e n to reciproco
dos indivíduos id e n tific a d o s atra v és d e u m d e te rm in a d o g ru p o social
q u e ex iste o b je tiv am en te , com s u a h istó ria , su as trad içõ es, suas
n o rm a s , seus in teresses, etc.
(U m g ru p o p o d e existir o b je tiv am en te , p o r exem plo, u m a
classe soci&l, m a s seus c o m p o n en tes p o d em n ã o se id e n tific a r com o
seus m e m b ro s, e nem se reco n h ecerem re cip ro cam e n te, Ê fácil,
p a re c e , p e rc e b e r as con seq ü ên cias d e ta l fato , seja p a r a o indivíduo,
seja p a r a o g ru p o social.)
M as, se é v e rd a d e que m in h a id e n tid a d e é c o n stitu íd a pelos
diversos g ru p o s de que faço p a rte , e s ta c o n s ta ta ç ã o pode nos levar a
u m e rro , q u al seja o de p e n s a r que o s su b sta n tiv o s com o s quais nos
descrevem os ( “ sou b rasileiro ” , “ sou h o m e m ” , e tc .) ex p ressam ou
in d ic a m u m a su b stâ n c ia ( " b ra s ilid a d e ” , “ m a sc u lin id a d e ” , e tc .) que
nos to rn a ria u m sujeito im utável, id ê n tic o a si-m esm o, m a n ifestaç ão
d a q u e la su b stân cia.
P a r a c o m p re en d erm o s m e lh o r a id é ia de ser a id e n tid a d e
c o n s titu íd a pelos g ru p o s de q u e faze m o s p a rte , faz-se necessário
refle tirm o s com o u m g ru p o ex iste o b jetivam ente: a tra v é s das
relações que estab elecem seus m e m b ro s e n tre si e com o m eto o n d e
vivem , isto é, p e la su a p rá tic a , p elo seu a g ir (n u m sentido a m p lo t
p o d em o s dizer pelo seu tra b a lh o ); ag ir, tra b a lh a r» fazer, p e n sa r,
se n tir, e tc., já n ão m a is su b stan tiv o , m a s verbo. U sam os ta n to o
su b stan tiv o q u e esquecem os do fa to o rig in al do agir: Ev& c o m e u a
m açã; P ro m e te u ro u b o u o fogo d o s céus; O x a li com seu cajad o
sep a ro u o m u n d o dos h o m en s do m u n d o dos deuses. C om o devem os
dizer: o p e c a d o r p eca , o d eso b ed ie n te desobedece, o tra b a lh a d o r
tra b a lh a ? Ao d iz e r assim , estam o s p re s s u p o n d o an tes d a açã o , do
fa z e r, u m a id e n tid a d e d e p eca d o r, d e d e so b ed ien te, de tra b a lh a d o r,
e tc .; c o n tu d o é p e lo a g ir, p elo fa z e r, q u e alg u ém se to r n a algo: ao
p e c a r, p ecad o r; ao desobedecer, d eso b e d ie n te ; ao tra b a lh a r, tr a b a ­
lh a d o r.
E sta m o s c o n s ta ta n d o talvez u m a obvied ad e: nós som os nossas
ações, nós nos fazem os p ela p r á tic a (a n ão se r p o r gozação, você
c h a m a ria “ tra b a lh a d o r” alg u ém q u e n ã o tra b a lh a sse ? ).
£ essa o b v ie d ad e q u e nos co lo ca fre n te a u m com plicadíssim o
p ro b le m a teórico.
A té a q u i está v a m o s tra ta n d o a id e n tid a d e com o u m “ d a d o 1* a
ser p e sq u isa d o , com o um p ro d u to p re e x iste n te a ser conhecido,
AS CA TEGORIAS FU NDAM ENTAIS D A PSICOLOGIA SOCIAL 69

d e ix a n d o de la d o a q u e stã o fu n d a m e n ta l d e sa b e r com o se d à esse


d a d o , com o se p ro d u z esse p ro d u to . A re s p o s ta à p e rg u n ta “ quem
sou e u ? ” é u m a rep rese n ta ç ã o d a id e n tid a d e . E n tão , to m a -s e
necessário p a rtir d a representação* com o u m p ro d u to , p a ra a n a lis a r
o p ró p rio processo de p ro d u ção .

Uma questão complicada

O q u e é id e n tid a d e ?
J á vim os q u e n o s satisfazer com a co n ce p ç ã o de que se t r a t a d a
re sp o sta d a d a à p e rg u n ta “ quem sou e u ? ” é p o u co , é in satisfató rio .
E la c a p ta o a sp ecto re p re se n ta c io n a l d a noção de id e n tid a d e
(e n q u a n to p ro d u to ), m a s deixa de lado seus aspectos constitutivo,
de p ro d u ç ã o , bem com o as im p licações recíp ro cas destes dois
aspectos.
M esm o assim , nosso p o n to de p a r tid a p o d e rá ser a p ró p ria
re p re se n ta ç ã o , c o n sid e ra n d o -a ta m b ém co m o processo d e p ro d u ç ã o ,
de ta l fo rm a que a id e n tid a d e passe a ser e n te n d id a com o o p ró p rio
processo de id en tificação .
D iz e r q u e a id e n tid a d e de u m a p esso a é u m fenôm eno social e
não n a tu ra l é aceitável p ela g ran d e m a io ria dos cien tistas sociais.
E x a ta m e n te isso nos p e rm itirá c a m in h a r. C om efeito, se e s ta ­
b elecerm os u m a d istin ção en tre o o b je to d e n o ssa rep rese n ta ç ã o e a
sua re p re se n ta ç ã o , verem os que am bos se a p re se n ta m com o fe n ô ­
m enos sociais, co n seq ü en tem en te com o o b je to s sem c a ra c te rístic a s
de p e rm a n ê n c ia , n ão sen d o in d ep e n d e n te s u m do ou tro .
N ão podem os iso la r de u m la d o todo um c o n ju n to de
elem en to s — biológicos, psicológicos, sociais, etc, — que p o d em
c a ra c te riz a r u m in d iv íd u o , id en tifican d o -o , e d e o u tro la d o a
re p re se n ta ç ã o desse indiv íd u o com o u m a d u p licaçã o m e n tal ou
sim bólica, q u e exp ressaria a sua id e n tid a d e . Isso p o rq u e h á com o
que u m a in te rp e n e tra ç ã o desses dois a sp ecto s, de ta l fo rm a q u e a
in d iv id u a lid a d e d a d a já pressupõe u m p ro cesso a n te rio r de re p re ­
sen ta ç ã o q u e faz p a r te d a co n stitu ição do indiv íd u o re p re se n ta d o .
Por exem plo, a n te s d e nascer, o n a sc itu ro já é rep rese n ta d o com o
filho d e alg u ém e essa re p re se n ta ç ã o p rév ia o co n stitu i efetivam ente,
o b je tiv am en te , com o “ filho” , m e m b ro de u m a d e te rm in a d a fa m í­
lia; p o sterio rm en te , essa rep resen tação é assim ila d a pelo in divíduo
í \ c ta l fo rm a q u e seu processo in te rn o d e rep rese n ta ç ã o é in c o r­
p o ra d o n a su a o b je tiv id ad e social co m o filho d a q u e la fam ília.
66 ANTONIO D A COSTA CIAMPA

É v erd ad e q u e não b a s ta a re p re se n ta ç ã o prévia. O n asc itu ro ,


u m a vez nascido, co n stitu ir-se -á com o filho n a m e d id a em que as
relações n a s quais esteja envolvido c o n c re ta m e n te co n firm em essa
re p re se n ta ç ã o atrav és de c o m p o rta m e n to s q u e reforcem su a c o n d u ta
com o filho e assim p o r d ia n te . T em os de co n sid e ra r ta m b é m esse
a sp ecto operativo (e n ão só o re p re se n tac io n a l).
C o n tu d o , é n a m e d id a em que é p re s s u p o sta a id en tificação d a
c ria n ça com o filho fe dos ad u lto s em q u e stã o com o pais) que os
c o m p o rtam e n to s vão ocorrer» c a ra c te riz a n d o a rela ção p a te rn o -
filial.
D e s ta form a, a id e n tid a d e do filho, se de um lado é
c o n seq ü ên c ia das relaçõ es q u e se dão, d e o u tro — com a n te rio rid a d e
— é u m a co ndição dessas relações. O u seja, é p re ssu p o sta u m a
id e n tid a d e q u e é re -p o sta a c a d a m o m e n to , sob p e n a de esses o bjetos
sociais “ filh o ” , “ p a is ” , “ fam ília*', e tc ., d eix arem de existir objeti­
v a m e n te (a in d a q u e p o ssa m sobreviver seus org an ism o s físicos,
m eros su p o rte s q u e e n c a rn a m a o b je tiv id ad e do social).
Isto in tro d u z u m a com plexidade q u e deve ser co n sid e ra d a
aq u i. U m a vez q u e a id e n tid a d e p re s s u p o sta é reposta, ela é vista
com o d a d a — e n ão com o s e d a n d o n u m c o n tín u o processo de
id e n tificação . É com o se u m a vez id e n tific a d a a pessoa, a p ro d u ç ã o
de su a id e n tid ad e se esgotasse com o produto* N a lin g u ag em
co rre n te dizem os “ e u sou filho” ; d ificilm en te alg u ém d irá “ estou
sendo filh o ” .
D a í a ex pectativa g e n era liza d a d e q u e alguém devè agir de
aco rd o com o que é (e co n se q ü e n te m e n te ser tra ta d o com o ta l). D e
c e rta fo rm a, re-atu alizam o s através d e ritu a is sociais u m a iden­
tid a d e p ressu p o sta q u e assim é rep o sta co m o algo j á dado, re tira n d o
em co n seq ü ên cia o seu c a rá te r d e h isto ric id a d e , ap ro x im a n d o -a
m a is d a no ção de u m m ito que p rescrev e as c o n d u ta s co rretas,
re p ro d u z in d o o social.
O c a rá te r te m p o ra l d a id e n tid a d e fic a re s trito a um m o m en to
o rig in ário , q u a n d o nos “ to rn a m o s” alg o ; p o r exem plo, “ sou
p ro fe sso r” ( = “ to rn ei-m e p ro fesso r” ) e d e sd e q u e essa identificação
existe m e é d a d a u m a id e n tid a d e de “ p ro fe sso r” com o u m a posição
(assim com o “ filho** ta m b é m ). E u com o ser social sou u m ser-posto.
A posição d e m im (o eu ser-posto) m e id e n tifica, d iscri­
m in a n d o -m e com o d o ta d o de certos a trib u to s q u e m e d ão u m a
id e n tid a d e c o n sid era d a fo r m a lm e n te co m o atem p o ra l. A re-posiçâo
da id e n tid a d e deixa d e ser vista co m o u m a sucessão te m p o ral,
AS CATEGORIAS FU NDA M E NTA IS DA PSICOLOGIA SOCIAL 67

p a ssa n d o a ser vista com o sim ples m a n ife sta ç ã o de u m ser idêntico a
si-m esm o n a sua p e rm a n ê n c ia e estab ilid ad e.
A m esm ice de m im é p ressu p o sta com o d a d a p e rm a n e n te m e n te
e n ã o com o reposição d e u m a id e n tid a d e q u e u m a vez foi p o sta .
V ejam os u m exem plo: q u a n d o alg u é m é iden tificad o com o
" p a i” ? P ode-se re sp o n d e r q u e é q u a n d o n asce u m a c ria n ç a g e ra d a
por esse indivíduo; esse fato, c o n tu d o , assim co n sid erad o a in d a é
um fa to físico, e ser “ p a i" é um fato social.
A p a te rn id a d e to rn a -se uni fenôm eno social q u a n d o aq uele
evento físico é classificado com o tal, p o r ser c o n sid e ra d o eq u iv alen te
a o u tra s p a te rn id a d e s prévias. O p ai se id e n tific a (e é iden tificad o )
com o ta l p o r se e n c o n tra r n a situ ação e q u iv alen te de o u tro s p ais
t afin al, ele ta m b ém é filho de u m p ai), Se ele é p a i e a m esm ice de si
está a sse g u ra d a , sua id e n tid a d e de p ai e stá c o n s titu íd a p e rm a n e n ­
tem en te; de fato, ele se “ to rn o u ” p a i e assim p e rm a n e c e rá e n q u a n to
reco n h ecer e for re co n h e cid a essa id e n tid a d e , ou seja, e n q u a n to e la
estiver sen d o resposta co tid ia n a m e n te . O ra , m a s ao m esm o tem p o
ele ta m b é m é filho; esse “ o u tro ” q u e ele é, é n e g a d o n a su a p osição
com o p a i, pois se ele perm anecesse com o filho, a posição de seu filho
e staria a m e a ç a d a , j á que a diferença n ão se e stab e lece ria.
D e ssa form a, c a d a posição m in h a m e d e te rm in a , fazendo com
que m in h a existência co n c re ta seja a u n id a d e d a m ultip licid ad e, q u e
se re a liz a pelo desenvolvim ento dessas d eterm in a çõ es.
E m c a d a m o m en to de m in h a ex istên cia , e m b o ra eu seja u m a
to ta lid a d e , m an ifesta-se um a p a rte de m im com o d e sd o b ra m e n to
das m ú ltip la s d eterm in açõ es a que estou sujeito. Q u a n d o e sto u
íren te a m e u filho, relaciono-m e com o p ai; com m e u pai, co m o
filho; e assim por d ia n te . C o ntudo, m eu filh o n ão m e vê a p e n a s
com o p a i, nem m eu p a i a p e n a s me vê com o filho; nem eu co m p areço
fren te aos o u tro s a p e n a s co m o p o rta d o r de u m ún ico p a p e l, m as sim
com o o rep re se n ta n te de m im , com to d a s m in h a s determ in açõ es q u e
me to rn a m um indiv íd u o concreto. D esta fo rm a , estabelece-se u m a
in trin c a d a réde de rep resen taçõ es q u e p e rm e ia to d a s as relações,
onde c a d a id e n tid a d e refle te o u tra id e n tid a d e , d e sap arec en d o q u a l­
q u e r p o ssib ilid ad e de se estab e lece r um fu n d a m e n to o rig in ário p a r a
c a d a u m a delas.
E ste jo g o de reflexões m ú ltip las q u e e s tru tu ra as relações
sociais é m a n tid a p ela ativ id ad e dos in d iv íd u o s, d e ta l fo rm a q u e é
licito dizer-se que as id e n tid a d e s, no seu co n ju n to , refletem a
e s tru tu ra social ao m esm o tem po q u e re a g e m sobre ela c o n se r­
van d o -a ou a tra n sfo rm a n d o .
68 AN TO N IO DA COSTA CIAM PA

A s atividades de indivíduos id e n tific a d o s são n o rm a tiz a d a s


te n d o em v ista m a n te r a e s tru tu ra so cial, vale d izer, conservar as
id e n tid a d e s p ro d u z id a s, p a ra lisa n d o o p ro cesso d e identificação
p e la re-p o siçã o d e id e n tid a d e s p re ssu p o sta s, q u e u m d ia fo ram
po stas.
A ssim , a id e n tid a d e que se c o n s titu i no p ro d u to d e u m
p e rm a n e n te processo de id e n tificação a p a re c e com o u m d a d o e não
com o u m dar-se c o n sta n te q u e ex p re ssa o m ovim ento do social.

P a r a p rosseguirm os, h á n ecessid ad e de u m a rá p id a dig ressão


sobre o m ovim ento do social: ele é, em ú ltim a análise, a H istó ria,
A H istó ria é a pro g ressiv a e c o n tín u a h o m in izaç ão do H om em ,
a p a r tir do m o m en to q u e este, d iferen cian d o -se do an im al, p ro d u z
su as condições de existência, p ro d u z in d o -se a si m esm o conse­
q ü e n te m e n te .
A H istória, e n tã o , com o a en te n d e m o s, é a h istó ria d a
a u to p ro d u ç ã o h u m a n a , o q u e faz do H o m e m u m ser de possib i­
lid a d e s, q u e com põem sua essência h istó ric a . D iferentes m o m en to s
h istó ric o s podem favorecer ou d ific u lta r o desenvolvim ento dessas
p o ssib ilid a d e s de h u m a n iz a ç ã o do H o m e m , m as é certo que a
c o n tin u id a d e desse desenvolvim ento (c o n cretiza ção ) co n stitu i a
s u b s tâ n c ia do H om em (o co n cre to , q u e em si é possibilidade e, pela
c o n tra d iç ã o in te rn a , desenvolve-se le v a n d o as diferenças a exis­
tire m , p a r a serem su p e ra d a s); aq u ela só d e ix a rá de existir se n ã o
m a is e x istir n em H istó ria n em H u m a n id a d e .
A ssim , o H om em com o espécie é d o ta d o d e u m a su b stân cia
q u e t e m b o ra não c o n tid a to ta lm e n te em c a d a indivíduo, faz deste
u m p a rtic ip a n te dessa su b stâ n c ia Q k que c a d a hom em e stá e n re d a d o
n u m d e te rm in a d o m odo de a p ro p ria ç ã o d a n a tu re z a no q u al se
c o n fig u ra o m odo d e ‘ su as relações com os dem ais hom ens).
E n tã o , eu — com o q u a lq u e r se r h u m a n o — p a rtic ip o d e um a
s u b s tâ n c ia h u m a n a , que se re a liz a com o h is tó ria e com o sociedade,
n u n c a co m o indivíduo isolado, sem pre co m o h u m a n id a d e .
N esse sentido, em b o ra n ão to d a e la , eu c o n ten h o u m a infi-
n itu d e d e h u m a n id a d e (o q u e m e faz u m a to ta lid a d e ), que se realiza
m a te ria lm e n te de fo rm a co n tin g en te ao te m p o e ao espaço (físicos e
sociais), d e ta l m odo q u e c a d a in sta n te d e m in h a existência com o
in d iv íd u o é u m m o m e n to de m in h a c o n c re tiz a ç ã o (o que m e to rn a
p a r te d a q u e la to talid a d e ), em que sou n e g a d o (com o to talid ad e),
se n d o d eterm in a d o (co m o p a rte ); assim , e u existo com o neg ação de
AS CATEGORIAS FU NDA M E NTA IS DA PSICOLOGIA SOCIAL «9

m im -m esm o, ao m esm o te m p o que o q u e estou-sendo so u


eu-m esm o.
E m conseq ü ên cia, sou o q u e esto u -sen d o (u m a p arce la de
m in h a h u m a n id a d e); isso m e d á u m a id e n tid a d e que m e n ega
n aq u ilo q u e sou sem e star-sen d o (a m in h a h u m a n id a d e to tai).
E ssa id e n tid a d e q u e surge com o re p re se n ta ç ã o de m eu e sta r-
sendo se converte n u m p re ssu p o sto de m eu s e r (com o to talid ad e), o
que, fo r m a lm e n te , tra n s fo rm a m in h a id e n tid a d e co n creta (e n te n ­
d id a co m o u m d a r-se n u m a sucessão te m p o ra l) em id e n tid a d e
a b s tra ta , n u m d a d o a te m p o ra l — sem p re p re s e n te (e n te n d id a co m o
id e n tid a d e p re ssu p o sta re-p o sta),
Isso ocorre p o rq u e co m p areço p e ra n te o u tre m com o re p re ­
se n ta n te d e m im -m esm o a p a rtir dessa p ressu p o sição de id e n tid a d e
— q u e se e n c a rn a com o um a p a rte de m im -co m o to ta lid a d e . E ssa
id e n tid ad e p re ssu p o sta n ão é u m a sim p les im agem m ental de
m im -m e sm o t pois ela se configurou n a re la ç ã o com o u trem q u e
la n ib ém m e iden tifica co m o id êntico a m im -m esm o; desse m odo, ao
me o b je tific a r (e ser o b jetificad o p o r o u tre m ) p elo c a rá te r a te m p o ra l
fo rm a lm e n te a trib u íd o à m in h a id e n tid a d e , o q u e esto u sendo com o
p a rte su rg e com o e n c a rn a ç ã o d a to ta lid a d e d e m im (seja p a ra m im ,
seja p a r a ou trem ); isso co n fu n d e o m e u c o m p arecim en to fren te a
o u tre m (em com o re p re se n ta n te de m im ) com a expressão d a
to ta lid a d e do m eu se r (d e m im com o re p re se n ta d o ).
Isto se d á p o rq u e c a d a co m p a re c im e n to m eu frente a o u tre m
envolve rep resen ta çã o n u m tríplice sentido:
1) eu rep resen to e n q u a n to esto u se n d o o rep resen ta n te de
m im (com u m a id e n tid a d e p ressu p o sta e d a d a fan ta sm ag o ri-
c a m e n te com o sem p re id ê n tica );
2) eu rep resen to , em con seq ü ên cia, e n q u a n to d e se m p e n h o
p a p é is (d ec o rre n te s de m in h a s posições) o c u lta n d o o u tra s p a rte s d e
m im n ã o c o n tid a s n a m in h a id e n tid a d e p re s s u p o sta e re-p o sta (caso
co n trá rio e u n ào sou o re p re se n ta n te de m im );
3) eu rep resen to , fin alm en te, e n q u a n to re p o n h o no p re se n te o
que te n h o sido, e n q u a n to reitero a a p re se n ta ç ã o de m im — re-apre*
sen tad o com o o q u e e sto u sendo — d a d o o c a rá te r fo rm a lm e n te
a te m p o ra l a trib u íd o à m in h a id e n tid a d e p re s s u p o sta q u e e stá sen d o
reposta, e n co b rin d o o v erd ad eiro c a rá te r su b sta n c ia lm e n te te m p o ra l
de m in h a id e n tid a d e (com o u m a sucessão do q u e esto u sendo, co m o
devir).
A o m e re p re s e n ta r (no p rim eiro s e n tid o — re p re se n ta n te d e
m im ), tra n sfo rm o -m e n u m desigual de m im p o r re p re se n ta r (n o
70 ANTONIO DA COSTA CIAMPA

seg u n d o sen tid o — d esem p e n h o de p a p é is) u m “ o u tro ” que sou eu


m esm o (o que estou sen d o p a rc ia lm e n te , com o d e sd o b ra m e n to de
m in h a s m ú ltip la s d e term in a çõ es, e que m e d e te rm in a e p o r isso m e
n eg a), im p ed in d o que eu deixe de re p re s e n ta r (n o terc eiro se n tid o —
re -ap re se n ta ç ã o ) p a ra e x p ressar o o u tro “ o u tr o ” que ta m b é m sou eu
(o q u e sou sem estar sendo) — que n e g a ria a n eg ação de m im
in d ic a d a pelo re p re se n ta r no sen tid o a n te n o r (o segundo).
O ra , essa expressão do o u tro “ o u tro ” q u e ta m b ém sou. eu
co n siste n a “ a lteriz açào “ d a m in h a id e n tid a d e , n a su p re ssã o de
m in h a id e n tid a d e p re ssu p o sta e n o desenvolvim ento de u m a
id e n tid a d e p o s ta com o m e ta m o r fo s e c o n s ta n te em q u e to d a h u m a ­
n id a d e c o n tid a em m im p u d esse se c o n c re tiz a r p e la negação (não
re p re s e n ta r no terceiro sentido) do q u e m e nega (re p re s e n ta r no
seg u n d o sentido), de fo rm a q u e e u p o ssa — com o p o ssib ilid ad e e
te n d ê n c ia — rep re se n ta r-m e (no p rim e iro sentido) sem pre com o
d ife re n te de m im m esm o — a fim de e s ta r se n d o m ais p le n am en te.
O u seja: só posso co m p arecer no m u n d o fre n te a o u trem
efe tiv a m e n te com o re p re s e n ta n te do m e u s e r real q u a n d o o c o rre r a
n eg aç ão d a negação, e n te n d id a com o d e ix a r de p resen tific a r u m a
a p re s e n ta ç ã o d e m im q u e íoi c rista liz a d a e m m om entos an terio res
— d e ix a r de re p o r u m a id e n tid a d e p re s s u p o sta — ser m ovim ento,
s e r p ro cesso , o u , p a ra u tiliz a r u m a p a la v ra m ais sugestiva se bem
q u e p o lê m ica , se r m e ta m o rfo se .

Nem aitfo, nem besta: apenas homem

A a n álise teórica fe ita até a q u i in v e rte to ta lm e n te a noção


tra d ic io n a l que se tem d e id e n tid a d e , ou seja, “ o que é, ê**; “ u m ser
é id ê n tic o a ele m esm o“ : isso deco rreria d a n e c e ssid a d e p a ra o ser de
ser o q u e é.
M a s, o que q u er d iz e r “ o se r ser o q u e é ” ?
V ejam os u m exem plo clássico: u m a se m e n te j á co n tém em si
u m a p e q u e n a p la n tin h a , a p la n ta p le n a m e n te desenvolvida e seus
fru to s, de o n d e sairão novas sem en tes. E n tã o , ser sem en te é ser
se m e n te , m a s n ã o só a m e sm a sem en te, co m o ta m b é m a p la n tin h a ,
a p la n ta desenvolvida, o fru to e a nova se m e n te , u m a m u ltip licid ad e
q u e , n a tu ra lm e n te , j á e s tá c o n tid a n a sem en te e que se concretiza
p e la tra n s fo rm a ç ã o em fru to , ou seja, pelo faze r-se o u tro p a r a en tão
r e to rn a r a si m esm o (o u tro o u tro ). São d istin to s m om entos cu ja
AS CATEGORIAS FU NDA M E NTA IS DA PSICOLOGIA SOCIAL 71

u n id a d e c o n stitu i o co n creto , u m a u n id a d e m ú ltip la , com o vim os, e


ta m b ém c o n tra d itó ria , pois a sem en te n ã o p erm a n e c e com o se­
m e n te p a r a ser o que é; e la precisa ser n e g a d a , m o rre r: u m a sem en te
que perm anecesse in d e fin id a m e n te s e m e n te ... n ão seria sem ente!
N ão g e rm in a ria , n ão se ria n eg ad a ; ela p re c isa d eix ar de ser sem ente
p a ra ser p le n a m e n te s e m e n te ...
E n tã o r “ o ser s e r o q u e é ” im p lic a o seu desenvolvim ento
co n creto ; a su p era ç ã o d ia lé tic a d a c o n tra d iç ã o que opõe D m e O u tro
fazen d o devir u m o u tro o u tro que é o U m que co n tém am b o s.
E p a ra o H o m em : o que é p a r a o s e r h u m a n o ser o que é?
V o ltem o s a u m a a firm a ç ã o feita a n te rio rm e n te sobre o m ovi­
m ento do social, o q u a l constitui a H istó ria : ela é a p rogressiva e
c o n tín u a h o m in izaçâo d o H om em ! a p a r ti r do m o m en to em q u e
este, difere n cian d o -se do an im al, p ro d u z su a s condições de e x is­
tê n cia, p ro d u z in d o -se a si m esm o c o n seq ü en tem en te.
A ssim , o existir h u m a n a m e n te n ão e s tá g a ra n tid o de an te m ã o ,
nem é u m a m u d a n ç a q u e se d á n a tu ra lm e n te , m e can ic am en te —
e x a ta m e n te p o rq u e o h o m e m é histórico. E , a fin a l, a H istó ria n e m é
u m D eu s q u e co n d u z os hom ens a seus desíg n io s secretos, nem é u m
processo com u m fim ú ltim o ; isto seria re d u z ir o hom em à c o n d i ç ã o
de coisa, d esconhecer a in fin itu d e h u m a n a , conceber os h o m e n s
com o seres que c h e g a rã o a realizar su a p le n itu d e e n a d a m ais
p u d e sse m vir-a-ser depois d e um m o m en to d ad o ; seria c o n sid e ra r
q u e tu d o o que fo ra m , são, serâo e p o d em ser se esgotasse n u m
a b so lu to que negasse a d ia lética do fen ô m e n o h u m a n o ; é v erd ad e
q u e u m fa to o co rrid o é irrecorrível d efin itiv am en te, m as seus
d e sd o b ra m e n to s (assím com o seus significados) são im previsíveis e
su as tra n sfo rm a ç õ e s infindáveis — o que n ã o significa que c e rta s
a lte rn a tiv a s n ão p o ssa m ser im possíveis,
U m a a lte rn a tiv a im possível é o h o m e m d eix ar de ser social e
histó rico ; ele não se ria hom em a b so lu ta m e n te . O u tra im p o ssib ili­
d a d e é d e ix a r de ser ta m b é m um an im al, c o n se q ü e n te m e n te s u b m e ­
tid o à s condições d essa sua n a tu re z a o rg â n ic a (ta l com o a p la n ta à
sua n a tu re z a vegetal). C o n tu d o (e p o r isso foi g rifa d a a p a la v ra
“ ta m b é m ” ), n ão p o d e ser só a n im a l (d a d a s u a n a tu re z a social e
h istó ric a ).
E n tã o , n em anjo, n em b esta, o h o m e m é h o m e m — n ão com o
u m a a firm a ç ã o ta u to ló g ic a — m a s com o u m a afirm a ç ã o d a m a te ­
ria lid a d e d a c o n tín u a e progressiva h o m in iz a ç â o do h o m e m .
D e u m lado, p o rta n to , o h o m e m n ã o e stá lim itad o no seu
v ir-a -se r p o r u m fim p reestab elecid o (c o m o a sem ente); de o u tro ,
72 A N TO N IO D A COSTA CÎAMPA

n ão e stá lib erad o d a s condições h istó ricas em q u e vive, de m o d o que


seu vir-a-ser fosse u m a in d e te rm in a ç ã o a b so lu ta .
A p rim eira c o n s ta ta ç ã o a c im a — d e q u e o vir-a-ser do h o m em
n ão p o d e se co n fu n d ir com o de u m a se m e n te — deve servir p a ra
q u e s tio n a r to d a e q u a lq u e r co ncepção fa ta lis ta , m ecam cista, d e u m
d estin o inexorável, seja n a s su as fo rm as m a is supersticiosas ( “ sou
p o b re p o rq u e D eus q u e r ” , “ nasceu p a ra s e r crim in o so ” , e tc ,), seja
çm fo rm a s m ais sofisticad as de te o ria s pseud o cien tíficas (p o r
ex em p lo em certas versões d e te o rias de p e rso n a lid a d e ).
A seg u n d a c o n sta ta ç ã o — d e q u e o h o m e m n ão está lib erad o
de su a s condições h istó ricas — nos c o lo c a u m p ro b lem a e u m a
ta re fa .
O p ro b lem a consiste em q u e n ão é possível dissociar o estudo
d a id e n tid a d e do in d iv íd u o do d a so cied ad e. As possib ilid ad es de
d ife re n te s configurações de id e n tid a d e e s tã o rela cio n a d a s com as
d ife re n te s configurações d a o rd em so cial. F o g e às fin alid ad e s e aos
lim ites d este artigo a n a lis a r sob q u a is c o n d içõ es vivem os h o je em
n o ssa sociedade b ra sile ira e, c o n seq ü e n te m e n te , com o co n sid e ra r as
a lte rn a tiv a s de id e n tid a d e possíveis a q u i e ag o ra. F iq u e claro,
co n tu d o , q u e u m a an álise geral com o a q u e e s tá sen d o feita p re c isa
ser tra d u z id a p a ra u m a análise das c irc u n stâ n c ia s c o n cre tas e
específicas atu ais; é do co n tex to h istó rico e social em q u e o h o m e m
vive q u e decorrem su a s determ in açõ es e, co n se q ü e n te m e n te , em er­
gem as p o ssib ilid ad es ou im p o ssib ilid ad es, os m odos e as a lte rn a ­
tivas de id e n tid a d e . O fato de viverm os sob o c a p italism o e a
c o m p le x id a d e crescente d a sociedade m o d e rn a im pedem -nos de ser
v e rd a d e ira m e n te sujeitos* A te n d ên cia g e ra l do c a p italism o é
c o n s titu ir o hom em com o m ero su p o rte d o c a p ita i, q u e o d e te rm in a ,
n eg an d o -o e n q u a n to h o m e m , já q u e se to rn a algo coisificado
(to rn a -s e tra b a lh a d o r-m e rc a d o ria e n ão tr a b a lh a a u to n o m a m e n te ;
to m a -s e c a p ita lista -p fo p rie d a d e do c a p ita l e n ão p ro p rie tá rio das
coisas). R eco rren d o a u m a m e táfo ra já u tiliz a d a anteriorm ente* o
h o m em d eix a de s e r verbo p a r a ser su b sta n tiv o . E sta c o n statação
deve s e r e n te n d id a com o in d icaçã o de fa to q u e resu lta h isto ri­
c a m e n te ligado a u m d e te rm in a d o m o d o de p ro d u ç ã o e não com o
algo in e re n te à " n a tu r e z a ” h u m a n a . G e n e ric a m e n te falan d o , a
q u e stã o d a id e n tid a d e se coloca de m a n e ira d ifere n te em d iferen tes
so cied ad es (p ré-c a p ita lista s, c a p ita lista s, p ó s-cap italistas, etc.); h á
esp ecificid ad es inclusive d e n tro d e u m m e sm o m o d o de p ro d u ção ,
lig a d a s à ordem sim b ó lica d e c a d a so cied a d e; h á , q u ase sem p re,
a sobrevivência de fo rm a s arca icas de id e n tid a d e , e tc., etc.
AS CA TEGORIAS FU NDA M E NTA IS D A PSICOLOGIA SOCIAL 73

E ste p ro b le m a , assim fo rm u lad o , su g e re u m a m p lo p ro g ra m a


d t pesq u isas em p íric a s q ue, c ertam en te, m o s tra ria m com o p a n o de
fundo o verdadeiro p ro b le m a de id e n tid a d e do ho m em m od ern o : a
tll&o e n tre o indiv íd u o e a sociedade, q u e faz, com que c a d a
indivíduo n ão re co n h e ça o o u tro com o ser h u m a n o e, co n seq ü en ­
te m ente, n ão se re co n h e ça a si p ró p rio co m o h u m a n o . Isto e s tá
ftliim ex p resso n u m verso m ag istral de M á rio d e A n d ra d e , q u a n d o
(ala de São Paulo:
“ N in g u ém chega a ser u m n e s ta c id a d e .11

"Chegar a ser um” ou (o que é o mesmo)


“ier uma metamorfose ambulante”

Se o p ro b le m a q u e consideram os e s tá n a rela ção indivíduo e


fti>c)edade, que ta re fa d a í decorre?
A realização de u m pro jeto político.
A q u estão d a id e n tid a d e nos re m e te n ecessariam en te a u m
pro jeto político.
T e n ta n d o ex p licar: chegam os até a q u i p a rtin d o d a p e rg u n ta :
"o q u e é p a ra o ser h u m a n o ser o que é ? t1; b u sc a m o s u m a re sp o sta
c o n sid era n d o sua n a tu re z a social e h istó ric a , ex p re ssa p ela “ c o n tí­
n u a e progressiva h o m in izaç ão do h o m e m 1’. C om isso, p ro c u ram o s
esclarecer q u e o h o m e m (em si h u m a n izáv e l), h u m a n iza-se p o r si;
este o devir h u m a n o .
D e s ta form a, o fu tu ro se coloca co m o c o n tín u a e progressiva
realização d a h u m a n id a d e ; p o rém , com o n ã o é possível, aprio ris-
tieam e n te, esg o tar a definição do c o n te ú d o de ser h u m a n o , e s ta
infindável ta re fa se nos im põe de m a n e ira in escap áv el. Não se tra ta ,
ev id en tem en te, de conceitos a b stra to s e definitivos qu e co n sid erem o
hom em com o p u ra consciência, só com o su b jetiv id a d e (este o risco
id ealista); nem ta m b é m de reduzi-lo à sim p les condição de coisa, só
com o objetiv id ad e (e s ta a a rm a d ilh a m a te ría lista -m e c a n ic ista ).
T ra ta -s e de co n sid e ra r a su p eração d ia lé tic a desse dualism o p e la
p r â x is . T ra ta -s e de n ã o c o n tem p lar in e rte e q u ie to a h istó ria. M as,
de se e n g a ja r em p ro jeto s de coexistência h u m a n a que possibilitem
um sen tid o d a h istó ria co m o realização d e u m p o rv ir a ser feito com
os o u tro s. P rojetos q u e n ão se definam a p rio ristic a m e n te p o r u m
m odelo de sociedade e d e hom em , q u e to d o s deveriam sofrer to tali-
la ria m e n te (e id e n tica m en te), m a s p ro jeto s que possam te n d e r,
74 A N TO N IO D A COSTA C IAMPA

con v erg ir ou c o n co rrer p a ra a tra n s fo rm a ç ã o real de nossas


co n d içõ es d e existência, de m o d o que o v e rd a d e iro sujeito h u m a n o
v e n h a à existência. Q u a lq u e r te n d ên cia , convergência ou co n co r­
rê n c ia q u e se arvore em V erd ad e, em ação, em expressão definitiva e
a c a b a d a de um ú n ic o p ro jeto de tra n s fo rm a ç ã o , ab so lu tiza-se,
to rn a n d o -se an tid ia lé tic a , a n ti-h istó ric a , a n ti-h u m a n a .
A fo rm u lação d e ta l p o lític a, de u m a p o lític a de id e n tid a d e do
H o m em d a n o ssa so ciedade, a realização d e tais p rojetos, p a r a ser
c o e re n te com seus p ro p ó sito s h á de ser fe ita coletivam ente e de
fo rm a d e m o c rá tic a (e n te n d id a a q u i c o m o fo rm a rac io n a l). A
q u e stã o se coloca co m o u m a q u estão p r á tic a e com o ta l deve ser
e n fre n ta d a , conscientem ente, p o r n ós — c a d a u m de nós, todos nós.

A cred ito que, além de o u tro s, dois fa to re s p o d em im p ed ir esse


e n g a ja m e n to consciente n u m p ro jeto p o lítico,
O p rim e iro é te r u m a a titu d e , de u m la d o in telec tu al, fren te à
q u e stã o d a relação indiv íd u o e sociedade, sem e lh a n te à q u e la que
nos leva a d iscu tir q u em nasceu p rim eiro , o ovo ou a g alin h a : o que
p revalece, p rim eiro a sociedade ou p rim e iro o indivíduo? D e o u tro
lad o , u m a a titu d e p rá tic a , se m elh an te à do asn o indeciso e n tre deis
m o n te s de feno, p e rm a n e c e n d o no im obilism o: o q u e a ta c a r
p rim e iro , o indivíduo ou a sociedade?
O segundo fator é u m a co ncepção d e id e n tid a d e com o p e rm a ­
n ê n c ia , co m o estab ilid ad e; m a is q u e u m a sim ples co ncepção
a b s tra ta , é viverm os p riv ileg ian d o a p e rm a n ê n c ia e a e sta b ilid a d e , e
p ato lo g iz a n d o a crise e a co n tra d iç ã o , a m u d a n ç a e a tra n s fo r­
m a ç ã o . A ssim , com o q u e esta n c a m o s o m ovim ento, escam oteam os a
c o n tra d iç ã o , im pedim os a su p e ra ç ã o d ia lética.
Id e n tid a d e é m ovim ento, ê desenvolvim ento do concreto.
Id e n tid a d e é m etam orfose.
É serm os o U m e uni O u tro , p a r a q u e cheguem os a se r U m ,
n u m a in fin d áv el tran sfo rm a ç ã o .

Bibliografia

Fausto, R., M arx; L ó g ica e P o l í t i c a , São Paulo, Brasiliense, 1983.


G iannotti, T A .TT r a b a lh o e R e fle x ã o , Sâo Paulo, Brasiliense» 1983.
Haberm as, J., P a m a R e c o n s tr u ç ã o d o M a te r ia lis m o H is tó r ic o , São Paulo,
Brasiliense, 1983.
Heller, A., A Filosofia Radical, Sâo Paulo, Brasiliense, 1983.
AS CATEGORIAS FU ND A M E N TA IS DA PSICOLOGIA SOCIAL 75

— i O Q u o tid ia n o e a H istória* R io d e Jan e iro , P a z e T e rra , 1972.


D e n tro de u m a p re o cu p aç ão m ais em p írica q u e filosófica, p o d em s e r
m encionados esp ecificam en te:
B erger. P. e L u ck m a n n , T ., C o n stru ç ã o S o c ia l d a R ea lid a de * P etró p o ü s,
Vozes. 1973.
E rikson, E ., I d e n tid a d e , J u v e n tu d e e C r is e , 2? e d ., R io de Janeiro, Z a h a r,
1976.
G o ffm an , E .. A R e p r e s e n ta ç ã o d o E u rta V id a C o tid ia n a t P etrópolis, Vozes,
1975»
S arbin, T , R . e Scheibe, K. E . (ed s.). S tu d ie s in S o c ia l I d e n tity , Nova
Io rq u e, P ra e g e r P u b lish ers, 1983.
Parte 3
O indivíduo
e as instituições
O processo grupai*
S ilvia T a tia n a M a u re r L a n e

E s te tra b a lh o é o resu lta d o de c u rso s d e p ó s-g rad u ação o n d e


alu n o s e professor se p ro p u se ra m rever a n o ç ã o de p eq u en o s g ru p o s
em fu n ç ã o de um a red efin ição d a P sicologia Social, onde o g ru p o
n ã o é m a is co n sid erad o com o dicotôm ico em relação ao indivíduo
(In d iv íd u o sozinho X In divíduo em g ru p o ), m a s sim com o condição
n e c e ssá ria p a r a conhecer as d eterm in a çõ es sociais que agem sobre o
in d iv íd u o , bem com o a su a ação com o su je ito h istórico, p a rtin d o do
p re ssu p o sto que to d a açâo tra n s fo rm a d o ra d a sociedade só pode
o c o rre r q u a n d o indivíduos se a g ru p a m .
A ssim , o nosso objetivo foi d a r início a u m a fo rm a sistem ática
de re fle tir teo ricam en te sobre processos g ru p a is , a lte rn a n d o o b se r­
vações e teorizações, n a te n ta tiv a de d e fin ir a lg u m as prem issas
b á sic a s p a r a o conhecim ento concreto d e p e q u e n o s g rupos sociais.
T ra d ic io n a lm e n te, os e stu d o s so b re p eq u en o s g rupos estão
v in c u lad o s à teoria de K . Lew in, q u e os a n a lis a em term os de espaço
to p o ló g ico e de sistem a d e forças, p ro c u ra n d o c a p ta r a d in â m ic a que
o c o rre q u a n d o pessoas estab elecem u m a in te rd e p e n d ê n c ia seja em
re la ç ã o a u m a ta re fa p ro p o s ta (só cio-grupo), seja em re la ção aos
p ró p rio s m em bros em term os de a tra ç ã o , afeição etc. (psico-
g ru p o ).

(*} Este capltuío é uma revisío e ampliação do aftígo "U m a Análise


Dialética do Processo Grupai" por S. T. M . Lane e t atii, publicado em Cacfemos
P U C — Psicologia, n? 11, Educ., Corte* Editora, 1981.
O INDIVÍDUO e as INSTITUIÇÕES 79

É n e sta tra d iç ã o q u e conceitos com o d e coesão, lid e ra n ç a ,


pressão d e g ru p o foram sendo desenvolvidos e m b ase d e observações
e e x p e rim e n to s. T em -se assim descrições de processos g ru p a is q u e
p e rm item a p en a s a re p ro d u çã o , atra v és d a a p re n d iz a g e m de g ru p o s
pro d u tiv o s p a ra o sistem a social m ais am plo.
P u d em o s observar que os estudos sobre p e q u en o s g rupos n e sta
ab o rd a g e m te m im plícitos valores q u e visam re p ro d u zir os de
individualism o, de h a rm o n ia e de m a n u te n ç ã o . A função do g ru p o é
d efin ir p a p é is e, c o n seq ü en tem en te, a id e n tid a d e social dos indiví­
duos; é g a ra n tir a su a p ro d u tiv id ad e social. O grupo coeso,
e s tru tu ra d o , é um g ru p o ideal, aca b a d o , com o se os indivíduos
envolvidos estacionassem e os processos de in te ra ç ã o pudessem se
to rn a r c irc u lares. E m o u tra s p alav ras, o g ru p o é visto com o
a-histórico n u m a so cied a d e ta m b ém a -h istó rica. A ú n ic a perspectiva
h istó rica se refere, no m á x im o , à h istória d a ap ren d izag em d e c a d a
indivíduo com os o u tro s q u e con stitu em o g ru p o .
0 D e u m a o u tra persp ectiv a, e n c o n tra m o s alg u n s autore s q u e
p ro c u ra m a n a lisa r p rocessos g ru p ais n a s u a inserção social e
in stitu cio n al, com o ê o caso de H o rk h e im e r e A dorno, que vêem o
n iicro g ru p o com o a m e d ia ç ã o n ecessária e n tre o indivíduo e a socie­
d ade e c u ja e s tru tu ra assum e form as h isto ric a m e n te variáveis,
L o u re a u p ropõe u m a an álise das in stitu iç õ es através d a s
relações g ru p a is q u e n e la s ocorrem , c a ra c te riz a n d o os g rupos e m
term os de g ru p o -o b jeto , o n d e a se g m e n ta rid a d e se d á de fo rm a a
m a n te r os indivíduos ju stap o sto s sob u m a c a p a de co erê n cia
a b so lu ta — é o q u e o a u to r d en o m in a de g ru p o tip o b a n d o ou seita.
Um o u tro grup o -o b jeto se ria aquele onde os in d iv íd u o s se ju sta p õ e m
p a ra a re alizaç ão de u m tra b a lh o e o n d e a divisão de tra b a lh o
d e te rm in a h ie ra rq u ia s d e p o d er,
É atrav és d a an álise d a tra n sv e rsa lid a d e q u e se to m a possível
o c o n h ec im e n to d a seg m en ta rid a d e do g ru p o e d a su a au to n o m ia,
bem com o de seus lim ites, condição p a r a u m g ru p o se to rn a r
g ru p o -su jeito , isto é, a q u e le que percebe a m e d ia ç ã o in stitu cio n al,
objetiva e con scien tem en te.
T a m b é m L a p a ssa d e a n alisa g ru p o s q u a n to a su a d in â m ic a e
seu nível de vida o cu lto q u e seria o nível in stitu c io n a l o q u al ir á
d e te rm in a r as ca ra cte rístic a s do g ru p o se pro cessan d o n u m a
c o n tra d iç ã o p e rm a n e n te e n tre serialização e to tal ização. R eto m a
S a rtre p a r a c a ra c te riz a r a serialid ad e com o se n d o a p ró p ria negação
do g ru p o , o n d e a p e sa r d e haver um objetivo co m u m , a relação e n tre
os m e m b ro s n ão p assa de u m a so m ató ria, ou seja, eles fo rm am
80 SILVIA T. M . LANE

u m a série tip o p rim eiro , segundo» te rc e iro , etc. S o m en te q u a n d o os


m e m b ro s se o rg an iz am é q u e p o d em o s f a la r em g ru p o q u e d efine,
c o n tro la e corrige a p rá x is co m u m . L a p a ssa d e descreve, a in d a , o que
seria o “ g ru p o -te rro r” , no q u al h á a fig u ra de p o d e r q u e d e te rm in a
as o b rig a ç õ e s e a m a n u te n ç ã o do s ta tu s q u o . A este g ru p o se o p o ria
o grupo-vivo, que se c a ra c te riz a p o r rela çõ es de ig u a ld a d e e n tre seus
m e m b ro s e p ela a u to g estão .
A in d a d en tro d e u m a p ro p o sta d ia lé tic a , teríam o s a te o ria de
P ichon-R ivière, p a r a quem g ru p o é “ u m c o n ju n to re strito de pessoas
lig ad as e n tre si por c o n sta n te s de te m p o e esp aço , a rtic u la d a s p o r
su a m ú tu a re p re se n ta ç ã o in te rn a , qu e se p ro p õ e de fo rm a explicita
ou im p líc ita um a ta re fa a q u a l co n stitu i s u a fin a lid a d e , in te ra tu a n d o
atra v és de com plexos m ecanism os de a trib u iç ã o e assu n ção de
p a p é is ” . E ste a u to r destínvolve u m a té c n ic a o p e ra tiv a p a ra in stru -
m e n ta r a a ç ã o g ru p a i visando a reso lu çã o das dificu ld ad es in te rn a s
d o s su jeito s, que p ro v ém de an sie d a d e s g e ra d a s p elo m edo d a p e rd a
do e q u ilíb rio alcan ç a d o a n te rio rm e n te e do a ta q u e d e um a situ a ç ã o
nova (d esco n h ecid a), m edos estes que c ria m u m a resistência à
m u d a n ç a , d ificu ltan d o os processos d e c o m u n icaç ão e a p re n d i“
z ag e m .
D e sta fo rm a, s u a técn ica visa u m a an á lise s iste m á tic a d a s
c o n tra d iç õ e s que em erg em no g ru p o , a tra v é s d a co m p re en são das
ideo lo g ias inconscientes que g eram a c o n tra d iç ã o e /o u estereótipos
n o p ro cesso d a p ro d u ç ã o g ru p a i. P a ra ta n to , o g ru p o p a r te d a
a n á lise d e situações c o tid ian a s p a r a c h e g a r à co m p re en são d as
p a u ta s sociais in te rn a liz a d a s q u e o rg a n iz a m as fo rm as co n cretas de
in te ra ç ã o , ou seja, d a s relações sociais e dos sujeitos inseridos nessas
relaçõ es.
P o r últim o, p o d em o s c ita r o G ru p o O p erativ o a n a lisa d o p o r J.
F . C ald e rô n e G . C. C . D e G ovia, p a ra o s q u a is u m “ g ru p o é u m a
re la ç ã o significativa e n tre d u a s o u m ais p e sso a s” que se p ro c e ssa
a tra v é s de ações e n c a d e a d a s. E sta in te ra ç ã o o co rre em fu n ç ã o de
n ec e ssid a d e s m a te ria is e /o u psicossociais e visa a p ro d u ç ã o de suas
sa tisfa ç õ e s. A p ro d u ç ã o do g ru p o se re a liz a em fu n ç ã o d e m e ta s que
são d is tin ta s de m etas in d iv id u ais e q u e im p lic a m , n ece ssariam en te,
c o o p e ra ç ã o en tre os m em b ro s.
O s au to re s fazem u m a tipologia d o s g ru p o s em fu n ç ã o de
e stág io s alcan çad o s p o r eles, c o n sid e ra n d o q u e os g rupos e stã o em
c o n s ta n te tra n sfo rm a ç ã o n a m e d id a em q u e p ro d u z e m m eios p a ra
sa tisfa ç ã o d e suas n ece ssid a d es. N este p ro cesso , o p rim e iro estág io
s e ria o d e g r u p o a g lu tin a d o , no q u a l h á u m líd e r q u e p ro p õ e ações
O IN D IV ÍD U O E AS INSTITUIÇÕES

c o n ju n ta s c do q u a l os m e m b ro s e sp e ra m soluções; é u m g ru p o d e
b a ix a p ro d u tiv id a d e . N um segundo m o m e n to , tem os o g r u p o
p o sse ssiv o „ o n d e o líd e r se to rn a u m c o o rd e n a d o r de fu n çõ es, e o n d e
as ta re fa s exigem a p a rtic ip a ç ã o de todos lev an d o a m a io r in te ra ç ã o
e co n h ec im e n to s m ú tu o s.
N a te rc e ira fase, tem os o g r u p o co esiv o , onde h á u m a
a c e ita ç ã o m ú tu a dos m em bros, o líd er se m a n té m com o c o o rd e ­
n a d o r e a ênfase do g ru p o e stá n a m a n u te n ç ã o d a seg u ran ça conse­
g u id a , vista com o u m privilégio. É u m g ru p o q u e te n d e a se fe ch a r,
ev ita n d o a e n tra d a d e novos elem entos.
P o r fim , tem os o g ru p o in d e p e n d e n te , com a lid e ra n ç a
a m p la m e n te d istrib u íd a , pois o g ru p o j á a c u m u lo u experiências e
a p re n d iz a g e n s; os recu rso s m a teria is a u m e n ta m e as m etas funda*
m e n ta is vão sendo alcançadas» su rg in d o novas m e tas que visam o
desenvolvim ento p le n o dos m em bros e d a s pessoas q u e se reiaciO '
n a m com o g ru p o . Ê u m grupo onde a s relações d e d o m in a ç ã o são
' m in im iz a d a s e a co o rd en a ção das a tiv id a d e s te n d e p a ra a a u to ­
gestão.
O s au to re s observam que n ão h á tip o s p u ro s de grupos, pois
estes e stã o sem pre se pro cessan d o d ia íe tic a m e n te , u m a e ta p a
e n g lo b a n d o aspectos d a e ta p a an te rio r.

P odem os p erce b er, p o r esta revisão d e teorias sobre o g ru p o ,


u m a p o s tu ra tra d ic io n a l onde su a fu n ção s e ria a p en a s a d e d e fin ir
p a p é is e f co n seq ü e n te m e n te , a id e n tid a d e so cial dos indivíduos, e de
g a r a n tir a su a p ro d u tiv id a d e , pela h a rm o n ia e m a n u te n ç ã o das
relaçõ es a p re e n d id a s n a convivência. P o r o u tro lad o , tem os te o ria s
q u e e n fa tiz a m o c a rá te r m ed iató rio do g ru p o e n tre indivíduos e a
so cie d a d e e n fa tiz a n d o o processo pelo q u a l o g ru p o se p ro d u z ; são
a b o rd a g e n s q u e c o n sid e ra m as d e te rm in a n te s sociais m ais a m p la s,
n e c e ssa ria m e n te p re se n te s n as relações g ru p a is .
E s s a revisão c rític a p e rm itiu le v a n ta rm o s alg u m as p rem issa s
p a r a co n h ec er o g ru p o , ou seja: 1) o sig n ificad o d a existência e d a
ação g ru p a i só p o d e ser en co n tra d o d e n tro de u m a p ersp ectiv a
h is tó ric a q u e co n sid ere a su a in serção n a so ciedade, com su a s
d e te rm in a ç õ e s econôm icas, in stitu cio n ais e ideológicas; 2) o p ró p rio
g ru p o só p o d e rá ser conh ecid o e n q u a n to um processo h istó rico , e
n este se n tid o talvez fosse m ais co rreto fa la rm o s em processo g ru p a i,
em vez d e g ru p o .
D e sta s p rem issas decorre q u e to d o e q u a lq u e r g ru p o exerce
u m a fu n ç ão h istó rica de m a n te r ou tra n s fo rm a r as relações sociais
13 SILVIA T , M . LANE

desenvolvidas em deco rrên cia d a s relações d e p ro d u ç à o , e, sob este


a sp e c to , o g ru p o , ta n to n a sua fo rm a de o rg a n iz a ç ã o com o nas suas
ações, re p ro d u z ideologia, que, sem u m e n fo q u e histórico, n à o é
captada. D e fato, o e stu d o fracio n ad o d e p e q u e n o s g rupos tem
e n d o ssa d o os aspectos ideológicos in e re n tes ao g ru p o com o n a tu ra is
e u n iv e rsa is, rep ro d u zin d o , assim , id eologia com ro u p ag em ciem í-
fica.
A seq ü ên cia do tra b a lh o se c a ra c te riz o u p ela discussão de
com o u m a análise d ia lé tic a p o d eria c a p ta r o g ru p o e n q u a n to
p ro cesso e, inserido n u m a to ta lid a d e m a io r, levar ao conhecim ento
dos asp ecto s concretos desse fa to social.
N um artig o an terio r, L ane a p o n ta p a r a a trad ição biológica
d a p sicologia com o u m dos m aiores e n tra v e s p a r a o estu d o do
c o m p o rta m e n to social dos indivíduos, o que n ão significa a negação
do biológico, m as d a co n ce p ção q u e d e co rre d e sta tra d iç ã o , o n d e o
se r h u m a n o é visto com o p o ssu id o r de u m a existên cia a b s tra ta ,
ú n ic a , iso lad a de tudo e de todos. M esm o a n tes d o nascim en to ,
o h o m e m desenvolve-se biologicam ente n u m a rela ção direta com
seu m eio am biente» o q u e significa q u e o to rn a r-se ho m em e sta
in tim a m e n te ligado com um a m b ien te , q u e n ão pode ser visto
com o “ n a tu ra l" , m as co m o um am b ie n te c o n s tru íd o pelo hom em .
A ssim , a rela ção hom em -m eio im plica a c o n stru ç ã o recíp ro ca do
h o m em e do seu m eio, o u seja, o ser h u m a n o deve ser visto com o
p ro d u to de sua relação com o am b ie n te e o a m b ie n te com o p ro d u to
h u m a n o , sen d o , então, b a sic a m e n te social.
O a m b ien te , visto com o p ro d u to h u m a n o , se desenvolve a
p a r tir d a necessidade d e sobrevivência, q u e im p lic a o tra b a lh o e a
c o n se q ü e n te tra n sfo rm a ç ã o d a n a tu re z a ; a satisfaç ã o destas n eces­
sid a d e s g e ra o u tra s necessidades, q u e vão to rn a n d o as relações de
p ro d u ç à o g ra d ativ a m e n te m a is com plexas, O desenvolvim ento d a
so cied a d e h u m a n a se d á a p a r tir do tra b a lh o vivo, que p ro d u z bens e
a c o n se q ü e n te a c u m u laç ão de ben s (capital)» e a necessidade do
tra b a lh o assalariad o ; e m ú ltim a an álise, a fo rm aç ão de ciasses
sociais. Logo, as relações d e p ro d u ç à o g e ra m a e s tru tu ra d a
so cied a d e, inclusive as d eterm in a çõ es só cio -cu ltu rais, que fazem a
m e d ia ç ã o e n tre o hom em e o am b ie n te .
U m a abordagem p sicológica do se r h u m a n o te ria de e n fa tiz a r
n e c e ssa ria m e n te , p a ra u m a c o m p re en são c o m p le ta do hom em , u m a
m a c ro e m icro an álise, em que a p rim e ira a b ra n g e ria todo o
c o n te x to social, e s tru tu ra , relações, e tc ., e a se g u n d a se d irec io n aria
O IN D IV ÍD U O E AS INSTITUIÇÕES M

p a r a o hom em fo rm a d o por este co n te x to e, p o rta n to , ag in d o ,


p e rc e b e n d o , p e n sa n d o e fala n d o segundo as determ inações desse
c o n te x to , q ue, a tu a n d o com o m ediações, fo ra m in te rn a liz a d a s pelo
ser h u m a n o .
O indivíduo, n a s u a relação com o a m b ie n te social, in te rio riz a
o m u n d o com o re a lid a d e co n cre ta, su b jetiv a, n a m e d id a em q u e é
p e rtin e n te ao indiv íd u o em q u estão , e q u e p o r su a vez se ex terio riz a
em seus c o m p o rta m e n to s. E sta in te rio riz ação -ex terio rização o b e ­
dece a u m a d ia lética em que a percep ção d o m u n d o se faz de a c o rd o
com o q u e j á foi in terio riz ad o , e a e x te rio riz a ç ã o do su jeito no
m u n d o se faz co n fo rm e sua percep ção das coisas ex istentes.
A ssim , a c a p a c id a d e de resp o sta do hom em decorre de su a
a d a p ta ç ã o ao m eio n o q u al ele se insere, sen d o que as ativ id ad e s
te n d e m a se re p e tir q u a n d o os re su lta d o s são positivos p a r a o
in d iv íd u o , fazen d o com q u e estas ativ id a d e s se to rn e m h a b itu a is.
T o d o s os processos de form ação de h á b ito s an teced em a in sti­
t u c i o n a li z a ç ã o dos m em bros, e sta o co rre n d o sem p re q u a n d o as
a tiv id a d e s to rn a d a s h á b ito s se a m o ld a m em tipos de ações qu e são
e x e c u ta d a s p o r d e te rm in a d o s indivíduos. A ssim , a instituição p re s ­
su p õ e q u e , p o r exem plo, o dirig en te e o fu n c io n á rio aja m de aco rd o
com as n o rm a s estab e lecid as, e assim p o r d ia n te. É im p o rta n te
n o ta r q u e essas tipificações são e la b o ra d a s no curso d a h istó ria da
in stitu iç ã o , d a í só se p o d e r co m p re en d er q u a lq u e r in stitu iç ão se
a p re n d e rm o s o processo histórico no q u a l ela foi p ro d u z id a .
T a m b é m é im p o rta n te re ssa lta r o fa to de q u e, q u a n to m a is
so lid ificad o s e definidos forem esses p a d rõ e s, m ais eficiente se to rn a
o co n tro le d a sociedade sobre os indivíduos q u e d esem p en h am esses
p ap éis.
O estab elecim en to d e papéis a se re m desem p en h ad o s leva à
s u a crista liz a ç ã o , com o, p o r exem plo, o p a p e i da m u lh er e n q u a n to
fo rm a s de ser e agir, E s s a cristalização faz com q u e os p ap éis sejam
vistos co m o te n d o u m a re a lid a d e p ró p ria , e x te rio r aos indivíduos
q u e tê m d e se su b m e te r a eles, in corporando-os* E s ta in c o rp o ra ção
dos p a p é is pelos indivíduos realizasse sob a fo rm a de c re n ç a s e
v alo res que m a n tê m a d iferenciação so cial, visto e s ta r fu n d a m e n ­
ta d a n a d istrib u iç ã o social do c o n h ec im e n to e n a divisão social do
tra b a lh o .
D e s ta fo rm a , o m u n d o social e in stitu c io n a l é visto com o u m a
re a lid a d e objetiva, c o n c re ta , esquecendo-se q u e essa objetiv id ad e é
p ro d u z id a e c o n stru íd a pelo pró p rio h o m e in .
B4 SILVIA T. M . LANE

C ab e à Psicologia a p re e n d e r com o se d á esta in tern alizaçã o d a


re a lid a d e c o n c re ta e com o ela faz a m e d ia ç ã o n a d e te rm in a ç ã o dos
c o m p o rta m e n to s do in divíduo.
O p o n to inicial do processo se d á a p a r tir do n ascim en to do
h o m e m , sem condições físicas q u e p e rm ita m a su a sobrevivência
iso la d a m e n te , o que exige u m a d isp o n ib ilid a d e p a ra a so ciab ilid ad e,
p a r a to rn a r-s e m e m b ro d e u m a sociedade. A in tro d u ç ã o do h o m e m
na so cied a d e é realizad a p e la socialização, in ic ialm e n te a p rim á ria e
p o ste rio rm e n te a se c u n d á ria .
N a n o ssa sociedade, a socialização p rim á ria ocorre d e n tro d a
fa m ília . e os aspectos in te rn a liz a d o s serão a q u eles d eco rren tes d a
in serçã o d a fam ília n u m a classe social, atra v és d a percep ção q u e seus
pais p o ssu e m do m u n d o , e do p ró p rio c a rá te r in stitu cio n al d a
fam ília.
A socialização s e c u n d á ria deco rre d a p ró p ria com p lex id ad e
ex isten te n a s relações d e p ro d u ç ã o , le v a n d o o indivíduo a in te r ­
n a liz a r as funções m ais específicas das in stitu iç õ e s, as subdivisões
do m u n d o co n creto e as re p re se n ta ç õ e s ideológicas d a so ciedade, d e
fo rm a a in c o rp o ra r u m a visão de m u n d o q u e o m a n te n h a “ a ju s ­
ta d o ” e, c o n seq ü en tem en te, a lie n a d o d a s d e te rm in a ç õ e s co n c re ta s
q u e d efin e m suas relações sociais.
P o d e m o s en tã o v erificar q u e to d a a n á lise q u e se fizer do
in d iv íd u o te rá de se rem e ter ao g ru p o a q u e ele p e rte n ce, à classe
social, en fo c a n d o a relação d ia létic a h o m e m -so cied a d e, a te n ta n d o
p a ra os diversos m om entos dessa relação.
A seg u ir fo ram p ro p o sta s alg u m as sugestões p a ra a análise d o
in d iv íd u o in serid o num p ro cesso g ru p a i, a p a r ti r do m a te ria lism o
d ialético .
E m p rim e iro lu g a r, devem os p a rtir d a id é ia de que o h o m em
com q u e m e stam o s lid a n d o é fu n d a m e n ta lm e n te o hom em alien ad o ,
e m b o ra essa alien ação p o ssa a ssu m ir fo rm a s e g ra u s difere n tes.
N esse se n tid o , suas rep resen taçõ es e su a c o n sciê n cia de si e do o u tro
são se m p re , n u m p rim e iro m o m en to , fu n d a m e n ta lm e n te d esen co n ­
tra d a s d a s d eterm in a çõ es c o n cre tas que as p ro d u z e m . H á sem p re
dois níveis o p eran d o : o d a vivência su b jetiv a, m a rc a d o p ela ideo­
logia, o n d e c a d a u m se re p re s e n ta com o in d iv íd u o livre, cap a z de se
a u to d e te rm in a r, “ co nsciente” de s u a p ró p ria a çã o e rep rese n ta ç ã o ;
e a d a re a lid a d e objetiva, onde as ações e in teraçõ es estão sem p re
c o m p rim id a s e am a lg a m a d a s p o r p ap éis sociais que restrin g e m
essas in te ra ç õ e s ao nível d o p e rm itid o e do d e seja d o (em função d a
O IN D IV ÍD U O E AS INSTITUÍÇÕES «S

m a n u te n ç ã o do s ta tu s q u o ), O nível d a vivência subjetiva re p ro d u z a


id eo lo g ia do c a p italism o (o individualism o» o se lf-m a d e -m a n ), o
nível d a re a lid a d e ob jetiv a re p ro d u z o c e rn e do sistem a, ou seja,
a re la ç ã o d o m in a d o r-d o m in a d o , ex p lo ra d o r-e x p lo ra d o , N affah m o s­
tro u , n u m tra b a lh o re c e n te , com o, n u m sistem a cap ita lista , os
p a p é is sociais sem p re rep ro d u zem a d in â m ic a b ásica dos p a p é is
h istó rico s, o u seja, a relação d o m in a d o r-d o m in a d o . Q u a lq u e r
a n á lise d e u m p ro cesso g ru p a i q u e se ap ó ie no m aterialism o dialé*
tico te m de p a rtir, n ece ssariam en te, desses dois níveis de an á lise . A
e m e rg ê n c ia d a con sciên cia histórica, p o rta n to , de u m a ação social
c o m o p râ x is tra n s fo rm a d o ra , significaria o nível das d eterm in açõ es
c o n c re ta s ro m p en d o a s representações ideológicas e se fazen d o
c o n sciê n cia, m o m en to e m q u e a d u a lid a d e d e sa p a re c e ria .
E m segundo lu g a r, to d o g ru p o ou a g ru p a m e n to existe sem p re
d e n tro de instituições, q u e vão desde a fa m ília , a fáb rica, a u n i­
v e rsid a d e a té o p ró p rio E stad o . Nesse se n tid o , é fu n d a m e n ta l a
a n á lise do tip o de in serçã o do grupo no in te rio r d a in stitu iç ão ; se foi
'u m g ru p o c ria d o p ela in stitu iç ã o , com q u e funções e fin a lid a d e s o
foi; se su rg iu e sp o n ta n e a m e n te , q u e co n d içõ es p resid ira m seu
su rg im e n to , se foi no sen tid o de m a n u te n ç ã o ou de c o n testação
d essa m e sm a e s tru tu ra in stitu cio n al, etc. P o r o u tro lado, d a d o o
e s ta d o g e ra l d a alien aç ão , to d a ta re fa q u e o g ru p o se p ro p õ e deve
a p re s e n ta r, pelo m e n o s de início, u m e s ta d o m a io r ou m e n o r d e
a lie n a ç ã o ; isso posto, c u m p re observar co m o a realização dessa
ta re fa o p e ra nos dois níveis d e análise: o d a vivência subjetiva e o d a s
d e te rm in a ç õ e s c o n c re ta s do processo g ru p a i.
E m terceiro lu g a r, a h istó ria d e v id a d e c a d a m e m b ro do
g ru p o ta m b é m tem im p o rtâ n cia fu n d a m e n ta l no d esen ro lar do
p ro cesso g ru p a i. P a ra fins de ob serv ação e an álise, e n tre ta n to ,
p o d e r-se -ia d izer q u e a h istó ria d e c a d a u m a c h a -se c o n d en sad a , no
g ru p o , pelo sistem a d e papéis q u e ele a ssu m e e d ese m p e n h a no
d e c o rre r do processo. O u seja, a h istó ria de c a d a u m presen tifica-se
p e la s fo rm a s c o n cre tas através das q u ais ele age, se coloca, se
p o sicio n a, se alien a, se p erd e ou se re c u p e ra ao longo do processo.
Isso n ã o exclui, e n tre ta n to , a n ecessidade d e u m a p esq u isa m ais
siste m á tic a d a h istó ria d e c a d a u m , q u a n d o isso se fizer necessário.
E m q u a rto lu g a r, to m an d o -se os dois níveis de an álise, o da
vivência subjetiva e o das determ in açõ es c o n cre tas do p ro cessa
g ru p a i, é sem pre a n c o ra d a no segundo nível que q u a lq u e r d ia lé tic a
p o d e rá se desenvolver. Isso n ão q u e r d iz e r, e n tre ta n to , q u e esses
dois níveis n ão se co d eterm in em e n ão se e n g e n d re m re cip ro cam e n te
66 SILVIA T. M . LANE

ao longo do processo. Q u e r dizer, sim p le sm e n te , que é ao nível do


d ese m p e n h o dos p ap éis que se re p ro d u z a relação d o m in ad o r-
d o m in a d o , a Zuta pelo p o d e r, e q u e é, p o rta n to , n esse níveJ q u e
p odem em e rg ir os processos d e oposição, n e g a ç ã o , co n tra d ição e
n e g a ç ã o d a negação, q u e co n stitu em q u a lq u e r processo dialético.
Ê ta m b é m fu n d a m e n ta l o d ese n ro la r d a s vivências subjetivas e
das re p resen taçõ es ideológicas do g ru p o T p rim e ira m e n te , p o rq u e
vão re fle tir o g rau com q u e se m a sc a ra m as d ete rm in a ç õ e s co ncretas
ou se deixam em ergir com o consciência p rá tic a . D e fo rm a geral,
d iríam o s q u e as co n tra d içõ es fu n d a m e n ta is se dão no nível d a ação e
d a in te ra ç ã o g ru p a i, o n d e o exercício d a d o m in a ç ã o te n d e ria a g e ra r
c o n tra d iç ã o e negação d a p ró p ria d o m in a ç ã o (atrav és dos papéis).
O ra , é a d o m in a çã o e o se u exercício q u e su ste n ta m a re p resen tação
ideológica do in d iv id u a lism o (n a m e d id a em q u e o indivíduo só pode
ser “ liv re '' e au tô n o m o p e la neg ação de o u tro indivíduo, q u e r dizer,
p ela n e g a ç ã o n a in te rd e p e n d ê n c ia e n tre si m esm o e o o u tro).
N este sen tid o , as co n trad içõ es em erg en tes nesse nível te n d e m a
p ro d u z ir o u tra co n tra d ição , ag o ra e n tre o nível das d eterm inações
c o n c re ta s e o d a vivência subjetiva. D essa se g u n d a c o n tra d ição , que
c h a m a ría m o s de p eriférica, p o d e ria n a s c e r ou n ão u m tipo de
co n sciên cia p rá tic a , c a p a z de e n g e n d ra r q u a lq u e r p râx is g ru p a i. A
e m erg ên cia dessa consciência p o d e, e n tre ta n to , ser d ific u lta d a p o r
re a rra n jo s ou reo rganizações do sistem a de re p resen taçõ es id eo ló ­
gicas p re s e n te no g ru p o , através dos p ró p rio s m em b ro s ou d a
in s titu iç ã o à qual o g ru p o p e rte n c e (u n i ch efe , p o r exem plo, p o d e
v eicu lar a ideologia d a in stitu iç ã o no g ru p o ). E m g ru p o s m ais
so fisticad o s, podem os te r esse nível ideológico im p e d in d o o desen­
ro la r d a s contradições até m esm o no nível das d eterm in açõ es
c o n c re ta s, c o n tro lan d o o d esem p e n h o dos p a p é is até u m p o n to X
o n d e ele n ã o am eace a o rd em in s titu íd a (a í ap a re c e , p o r exem plo,
a id e o lo g ia d a in teg ração g ru p a i, d a coesão, e tc .).
E p o r últim o, q u a n to aos papéis sociais, eles ap arecem
e n q u a n to in teração efetiva no nível d a s d e te rm in a ç õ e s concretas,
o n d e re p ro d u z e m a e s tru tu ra rela cio n al c a ra c te rístic a do sistem a
(re la ç ã o d o m in a d o r-d o m in a d o ); e n tre ta n to , eles ta m b é m existem no
nível d a s vivências subjetivas, e n q u a n to re p re s e n ta ç ã o ideológica.
A ssim , p o r exem plo, o p a p e l de “ líder'" p o d e. no nível d as
d e te rm in a ç õ e s co n creta s, exe rc er u m a a ç à o d e d o m in ação e ser
vivido no nível das re p resen taçõ es ideológicas com o m ero “ co o r­
d e n a d o r” , q u e só q u er o b em do g ru p o e p re se rv a r a lib e rd a d e de
to d o s. Nesse nível os p a p é is fu n cio n a m co m o m á sc a ra s; no o u tro
O IN D IV ÍD U O E AS INSTITUIÇÕES 87

nível, o d a ação, com o elem entos de d e n ú n c ia e m otores d a d ia lé ­


tica.
E s ta s reflexões teó ricas fo ram se p ro c e ssa n d o s im u lta n e a ­
m e n te com observações de g rupos em situ a çõ es n a tu ra is, e n u m a
p rim e ira e ta p a , p e rm itira m p recisar dois asp ecto s p rim o rd iais, ou
seja, com o se c a ra c te riz a a p articip a ção d o s m em b ro s do g ru p o e
q u e se ria a p ro d u ç ã o ou p ro d u to de g ru p o .
Q u a n to ao asp ecto de p a rtic ip a ç ã o n o g ru p o , as observações
feitas su g eriram de início que este p o d e ria se c a ra c te riz a r em te rm o s
d e opo sição e /o u conflitos, porém observações subseqüentes, em
o u tra s condições, indicavam que a p a rtic ip a ç ã o o co rria n a fo rm a de
“ a c ré sc im o s” ou “ c o n trib u içõ e s” , d e n tro de u m processo de
c o m p o rta m e n to s en ca d ead o s. Às observações ta m b ém p e rm itira m
a n a lis a r o significado d e co m p o rtam e n to s p a ra le lo s, com o c o m e n tá ­
rios e n tre d u a s pessoas, q ue, m esm o se re la cio n ad o s cotn o tem a em
d iscu ssão , só p o d eria m ser e n ten d id o s com o p artic ip a çã o no
^ n o m e n to em que fossem c o m p artilh ad o s p o r todos os m em bros do
g ru p o ; ou seja, em n a d a resu lta ria alguém te r u m a “ idéia g e n ia l" , se
e sta n ã o fosse tra n s m itid a a todos; n este sentido, p o r m ais
1‘p a r tic ip a n te ” que c a d a indivíduo se sen tisse, isto n ã o te ria
significado p a r a o processo gru p ai: a p e n a s a ação efetiva c o m p a r­
tilh a d a com os o u tro s é que p o d e ria se r c a ra c te riz a d a com o
p a rtic ip a ç ã o .
O u tro aspecto c o n statad o foi q u e o significado das p a rtic i­
p açõ es in d iv id u ais, n a m a io ria das vezes, n ã o e ra d ad o p ela situ a ção
em si, m as exigia m ais inform ações a resp e ito d a in serção de c a d a
u m , q u a n to às su as relações sociais, no co n tex to m ais a m p lo
(in stitu iç ã o ) d en tro do q u al o g ru p o se p ro cessa. C aso co n trá rio ,
tín h a m o s a p en a s um re la to m ecânico e vazio de c o m p o rtam e n to s em
se q ü ê n c ia . Q u a n d o o b tid a s estas in fo rm açõ es, ficava c lara a rela ção
e n tre a in stitu iç ã o e os p a p é is d e se m p e n h ad o s no g rupo, que, n u m
p rim e iro m om ento, fo ra m vistos com o c a ra c te rístic a s peculiares de
c a d a u m d e a tu a r no g ru p o .
As observações p e rm itira m u m a a n á lise de p a rtic ip a ç ã o em
term os d e “ assu m ir p a p é is ” , e em q u e m e d id a estes são p re e x is­
te n te s ao g ru p o e definidos in stitu c io n a lm e n te , com a fu n ção
im p líc ita de re p ro d u z i^ re la ç õ e s sociais e, com o tal, m a sc a ra r as
c o n tra d iç õ e s d eco rren tes d e relações de d o m in a ç ã o existentes em
p ap éis d ito s co m p lem e n tares. N a m e d id a em q u e os papéis são
d e se m p e n h a d o s com o "‘n a tu ra is ” , os in d iv íd u o s têm po u ca c o n s ­
ciência d e sua p a rtic ip a ç ã o no g ru p o : as coisas acontecem com o
88 SILVIA T .M . LANE

“ devem se r” ; sen ão , é p o rq u e alguém n ão c u m p riu com o seu


p a p e l... E pode-se, en tão , observar a cristaliz ação de p ap éis, que
significa ev itar q u a lq u e r c o m p o rta m e n to novo q u e p o ssa levar a
um q u e stio n a m e n to d o g ru p o e su a possível d e se stru tu ra ç ã o — o
objetivo é sem pre o de e v itar conflitos. N este sentido poder-se-ia
dizer q u e a p a rtic ip a ç ã o se to rn a c irc u la r e o g ru p o se cara cterizo u
p e la p re s e ira ç ã o d a alien aç ão de seus m em bros,
Q u a n d o , em um g ru p o observado, os m e m b ro s fizeram um a
análise das determ in açõ es in stitu cio n ais q u e p e rm e av am as relações
e n tre eles, observou-se a em erg ên cia de u m se n tid o de “ nós —
o g ru p o “ . N este m o m en to , q u e stio n a ra m a p re se n ç a d e o b se r­
vad o res “ de fo ra “ e im p e d ira m a divulgação d as observações
d a q u e le g ru p o , p ro c u ra n d o assim a preservação d o g ru p o e n q u a n to
ta l. A p a rtic ip a ç ã o que se desenvolveu e n tre o s m em b ro s, nessa
ocasião, sugeriu um processo em esp iral, o n d e as co n trad içõ es
a c a b a ria m p o r se a c la ra r, levando o g ru p o a u m a tran sfo rm a ç ã o
q u a lita tiv a n a p a rtic ip a ç ã o e n a p ro d u ç ã o g ru p ai- Infelizm en te, a
au to p re se rv a ç ã o do g ru p o im pediu a c o m p a n h a r o processo e
c o n s ta ta r as d ecorrências d e s ta an álise feita pelo g ru p o .
E m term os teóricos, parece ser n ecessário que o assu m ir
p ap éis seja q u estio n ad o pelo g ru p o , e su a n eg ação só o c o rre rá n a
m e d id a em q u e os indivíduos tom em consciência das determ inações
histó ricas, in e re n te s aos p ap é is e aos indivíduos, q u e estão presentes
n a s p a rtic ip a ç õ es de c a d a um no processp g ru p a i. C om o conse­
q ü ên cia d esta an álise, foi feita u m a c rític a às té cn ica s d e tre in a ­
m en to d e g ru p o em q u e se e n fa tiz a m a tro ca de p a p é is, a lid eran ça
fu n cio n a l, com o form as a ltern ativ as de im p e d ir a em ergência de
c o n tra d iç õ e s e m a n te r o g ru p o n a su a fu n ção id eológica de re p ro ­
d u to r d e relações sociais.
O s g ru p o s observados n ã o p e rm itira m , d a d o o te m p o restrito
em que fo ram a c o m p a n h a d o s, p re c isa r com o aco n teceria este
p ro cesso em esp ira l, fica n d o p a r a ser m e lh o r e x p lic ita d a a questão
de co m o a c o n tra d iç ã o em erge: se a nível de um ou d e vários
indivíduos, e de com o se d a ria a su p era ç ã o d a co n tra d iç ã o , q u a n d o
os m ecan ism o s in stitu cio n ais (exem plo: tro c a de papéis) q u e p ro ­
c u ra m im p e d ir a em erg ên cia d e co n tra d içõ es ta m b é m são negados,
e o g ru p o se to rn a conscien te d e suas d eterm in a çõ es históricas.
E s tre ita m e n te v in c u la d a à discussão d a p a rtic ip a ç ã o g ru p a i,
se d e u a a n álise d a p ro d u ç ã o do g ru p o , que se p aram o s p a r a ate n d e r
a u m a fo rm a d id á tic a de exposição, m a s que de fato n ão p o d e ser
o i n d i v í d u o e a s INSTITUIÇÕES 89

vista separadamente» pois toda a participação se dá dentro de um


p ro cesso de p ro d u ç ã o g ru p a i.
A p a r tir das observações iniciais, co n sta to u -se q u e a p ro d u ç ã o
d o g ru p o n ão p o d e ria ser id e n tific ad a , n e c e ssariam en te, co m a
ta re fa n e m com os objetivos do g ru p o . A p ro d u ç ã o seria a p ró p ria
aç ã o g ru p a i, que se d á p ela p a rtic ip a ç ã o de todos, seja em to m o de
u m a ta re fa , seja v isan d o u m objetivo c o m u m . Seria processo de
p ro d u ç ã o o g ru p o se o rg a n iz a r, a ssu m ir p a p é is, realizar tarefas» em
o u tra s p a lav ra s, seria se p ro d u z ir com o g ru p o , ou seja, a p rá x is
g ru p a i, com o a firm a S artre,' a " m a te ria lid a d e que estabelece as
relações e n tre os homens* \ N as relações e n tre os indivíduos, p ela
p a rtic ip a ç ã o e n tre eles, estes se tra n s fo rm a m e tra n sfo rm a m o
g ru p o , p ro d u z in d o o p ró p rio g rupo.
A ssim , a p ro d u çã o g ru p a i se d a ria n u m processo em espiral —
p a rte deste processo já te m sid o estu d a d o p elas teorias de d in â m ica
de g ru p o , q u a n d o c a ra c te riz a m a individualização no assu m ir p ap éis,
q fian d o an a lisa m o g ru p o com o necessário p a r a d efinir a id e n tid a d e
social de c a d a um . P o rém , via d e reg ra, e la s p a ra m neste po n to ;
q u a n d o m u ito reconhecem n a c ristaliz ação de papéis u m a c e rta
e s ta g n a ç ã o , p ro p o n d o e n tã o fo rm as a lte rn a tiv a s de p artic ip a ç ã o
(tro c a de p ap éis, lid e ra n ç a fu ncional, e tc .) com o soluções p a ra
g a r a n tir o b om fu n cio n a m e n to do g ru p o , ou seja, g a ra n tir a
" c irc u la rid a d e ” n a p a rtic ip a ç ã o , com o já vim os a n terio rm e n te.
Se n a análise do processo de p ro d u ç ã o ap licarm o s a lei da
n egação, vem os que as te o ria s trad icio n a is so b re g ru p o perm anecem
n a p rim e ira negação, o u seja, o g ru p o com o negação d a condição de
' ‘espécie biológica” do h o m em que os m a n té m sem elhantes, p e rm i­
tin d o a concretização d e in d iv id u alid ad es, d e diferenciações e n tre
elas, diferenciações q u e se cristalizam em p a p é is que definem as
relações sociais a serem m a n tid a s. No m o m e n to em q u e isto se d á ,
c e ssaria o processo de p ro d u ç ã o . T ería m o s a ro tin a , a in s titu ­
c io n aliz ação do grupo, se g u n d o S artre. P o rém , e sta é u m a condição
q u e nossas observações d o co tid ian o m o stra m q u e n ão se p e rp e tu a :
o g ru p o e n tra em “ c ris e " , se d e se stru tu ra .
A q u e s tã o ^ u e se colocou foi: Com o o g ru p o su p e ra ria esta
situ a ç ã o ? O q u e seria n este caso a negação d a negação, necessária
p a r a a p ro d u ç ã o g ru p a i? O que significa n o processo g ru p ai u m a
n eg aç ão d a in d iv id u alid ad e, q u e a supere sem r e to m a r ao p rim eiro
e lem en to negado? E a q u i, a an álise d a p a rtic ip a ç ã o p e rm ite p re c isa r
a s e g u n d a negação, q u a n d o , através d a c o n sta ta ç ã o d a função
ideológica e m a sc a ra d o ra dos papéis assu m id o s den tro de u m
90 SIL V IA T. M. LANE

co n tex to histórico que leva os indivíduos a se d esalien arem , ou seja,


se p e rce b e re m e n q u a n to m em b ro s d a so cied ad e, sem elhantes nas
su as d eterm in a çõ es h istó ricas, a ab rire m m ão d e s ta individualidade
in stitu c io n a liz a d a p a r a efetivam ente assu m irem u m a id e n tid ad e
g ru p a i e, c o n se q ü en tem en te, u m a ação g ru p a i. Ê som ente neste
m o m e n to q u e os indivíduos no g ru p o p o d eria m te r u m a ação social
tra n s fo rm a d o ra d e n tro d a sociedade em q u e vivem.
E s ta e la b o ração te ó ric a inicial in d ic a q u e o estudo de p e ­
quen o s g ru p o s se to rn a necessário p a r a e n te n d e rm o s a relação
indiv íd u o -so cied ad e, pois é o g ru p o co n d ição p a r a que o hom em
su p ere a su a n a tu re z a b iológica e ta m b é m co n d ição p a ra q u e ele
su p ere a su a n a tu re z a " in d iv id u a lista '', se to rn a n d o um agente
conscien te n a p ro d u ç ã o d a h istó ria social.
M u ito s estu d o s e pesq u isas são necessários p a ra que este
processo seja conhecido c o n cre tam e n te; esp eram o s te r a b e rto um
cam in h o .
N u m a seg u n d a e ta p a , onde novos g ru p o s foram observados
em to d a s suas reuniões, p u d em o s p re c isa r m elh o r as fo rm as de
p a rtic ip a ç ã o e o processo de p ro d u ç ão g ru p a i.
D ia n te dos relatos d e observações dos diversos g rupos, em
todos os seus en contros, p u d em o s a n a lisa r alguns aspectos fu n d a ­
m e n ta is do processo g ru p a i, ou seja, as relaçõ es de dom inação, as
lu ta s p elo p o d er, as determ in açõ es in stitu cio n ais d e p ap é is e m ais,
n o co n fro n to com p ro p o stas teóricas, fazer u m a análise crítica do
c o n h ec im e n to que se tem e la b o ra d o sobre g ru p o s.
A p a r tir de alguns fato s que o co rreram em um g ru p o ope­
rativ o , levantam os a hip ó tese de que a a n tig u id a d e de um m em bro
n o g ru p o lh e a trib u i p o d e r e direitos sobre os dem ais, p o d e r este que
é ideologizado em term os de *‘experiência, sab ed o ria , títu lo s e
m e sm o dedicação, seried a d e, e tc ." . A n alisan d o os dem ais grupos,
a h ip ó tese p a re c e se c o n firm ar q u a n d o , n u m g ru p o de tra b a lh o em
p e rife ria , a co o rd en a ção ê assum ida p o r u m m em b ro “ m ais
e x p e rie n te ” , sem q u a lq u e r q u e stio n a m e n to pelos dem ais, pelo
c o n trá rio , o g ru p o seq u er in icia u m a re u n iã o sem a p resen ça deste
c o o rd e n a d o r, m esm o q u a n d o p o deriam to m a r decisões sem a sua
c o n trib u içã o .
N u m g ru p o q u e c o n stitu ía a d ire to ria de u m sindicato, a an ti'
g u id a d e se a p re se n ta n a fo rm a de id a d e e ex p eriên cia profissional,
a trib u in d o p o d e r ao p resid en te e ao 2? sec re tá rio . A q u i percebem os
c la ra m e n te a d e te rm in a ç ã o in stitu cio n al, no sen tid o de q u e , for­
O IN D IV ÍD U O E AS INSTITUIÇÕES 91

m a lm e n te , é exigida u m a c h a p a com c arg o s e funções definidos.


A p e sa r d e o g rupo te r assum ido a d ire to ria com o propósito de um
tra b a lh o em equipe o n d e to dos seriam ig u a is e n q u a n to p o d e r de
decisão, e h ie ra rq u ia prevalece q u an d o , e m situações de desacordo
ou con flito e n tre os dois “ m ais an tig o s” o g ru p o ap ó ia e aco m p an h a
à q u ele q u e o cu p a o cargo m ais elevado, ou seja, a subm issão a trib u i
p o d e r de dom inação a um m em bro.
N u m a d ireto ria de e n tid a d e e s tu d a n til ta m b é m vimos a a n ti­
g u id a d e p resen te, p o ré m escam o tead a p o r d ifere n tes p ropostas e /o u
p o s tu ra s políticas n ão ex p licitad as. Neste g ru p o , a lu ta pelo p o d e r se
ap re se n ta claram en te, m as ag o ra en tre "v e lh o ” e “ novo” . N u m a
eq u ip e d e professores a “ lu ta ” que ocorre ta m b é m se c ara cteriza po r
d o m in a ç ã o ora pelo m a is an tigo, o ra p o r u m dos m ais novos. N este
g ru p o su rg e ta m b ém u m aspecto observado na d ire to ria do sindicato
— o g ru p o é q u e b u s c a apoio e subm issão e com isto atrib u i p o d e r a
um ou a o u tro — ou seja, os elem entos d a relação d om inador-
d o m in a d o são opostos na u n id a d e, m as im p lican d o , necessaria­
m e n te , o o u tro . O a n tig o assum e “ n a tu ra lm e n te ” a coordenação e se
c a ra c te riz a com o sendo m ais experiente e m a is titu la d o e ta m b é m o
p o n d e ra d o e de bom senso. Por o u tro la d o , o novo é visto com o
c o n te sta d o r avançado e tra n sfo rm a d o r.
E stes dois g ru p o s (e stu d a n til e professores) nos levaram a
q u e stio n a r o q u a n to a in stitu iç ão u n iv e rsitá ria , especificam ente, a
P U C -S P , e staria p ro p ic ia n d o a em erg ên cia de u m p ap el do “ novo”
c o n te sta d o r q u a n d o , ao m esm o tem po, valoriza a titu lação e a
c a rre ira (an tig u id ad e ) de seus m em bros.
A relação de d o m in ação em um g ru p o de presidiários p arec e
ser fo rtem en te p e rm e a d a p ela institu ição — o c a rá te r repressivo,
q u e define o presid io , é negação de q u a lq u e r poder individual,
p o ré m observou-se co m p o rta m e n to s decisivos p a ra o g rupo em
q u e stã o que sugerem alg u m a form a de d o m in ação — é o caso d e um
p re sid iá rio q u e de início co n te sta a a tiv id ad e q u e o g ru p o se p ropõe
a desenvolver, neg an d o e se a fasta n d o do g ru p o , e este se a firm a
e x e c u ta n d o a ta re fa p ro p o sta . T am b ém o d esab afo pessoal de um
dos m em b ro s, após um espetáculo o rg a n iz ad o pelo g rupo, o q u a l é
ouvido passivam ente pelos dem ais, d e te rm in a rá o teor d a reu n iã o
seg u in te, levando o g ru p o a u m a análise d e su as condições sociais
n u m processo de id en tificação ta n to com o p rim eiro com o co m o
segundo. A em ergência de um p o d e r n eg ad o parece p ro p iciar um
salto q u alita tiv o do g ru p o em term os d e conscientização social,
q u a n d o ele chega a p e rc e b e r a resp o n sa b ilid a d e do E sta d o pelas
92 SILVIA T. M. LANE

condições de v id a que g e ra ra m a situ a ção a tu a l de todos oS


m e m b ro s do g rupo.
N este g ru p o de p re sid iá rio s a q u estão de a n tig u id a d e n ão pôde
ser o b serv ad a, e possivelm ente n ão deve o c o rre r d ad o o pró p rio
c a rá te r in stitu cio n al onde n ã o h á v an ta g e n s n em necessidade de
id eologizar q u a lq u e r re la ção d e d o m in ação . P o r o u tro lado, no
g ru p o o p erativ o onde as in te rfe rê n c ias in stitu cio n a is são m in im i­
z a d a s, a a n tig u id a d e d á o p o d e r de “ d o n o do g ru p o ” ao m em bro
que co m p areceu a to d a s as reu n iõ e s, inclusive as que n ão o co rreram
p o r fa lta de q u o r u m . N o p a p e l d e c o o rd e n a d o r e m con fro n to com o
c o o rd e n a d o r oficial, exclui u m dos m em b ro s, q u e d e início a ssu m ira
c e rta lid e ra n ç a m a s q u e deixou de c o m p are c e r a alg u n s en contros, e
foi c o n sid e ra d o u m elem en to “ novo” e o b jeto de decisão de p o d e r ou
n ã o in g re ssa r no g ru p o , ig u al a o u tro s c a n d id a to s q u e se a p re ­
s e n ta ra m n a ocasião.
O s g ru p o s observados p e rm itira m a n a lis a r com o a dom inação
se re p ro d u z e su a id eologização p ro d u z id a in stitu c io n a lm e n te, ju s ti­
fica n d o ta n to as lu ta s pelo p o d er, com o a su b m issão dos m em bros
do g ru p o a trib u in d o p o d e r a um elem ento» e assim rep ro d u zin d o
relaçõ es sociais necessárias p a r a que as co n tra d iç õ e s n ão em erjam e
n em sejam su p e ra d a s.
A an álise das observações ta m b é m nos p e rm ite m um con-
fro n to com as diversas te o ria s sobre g ru p o . A ssim , q u a n d o Lewin
c o n c e itu a lid e ra n ç a a p a r tir de situações ex p e rim e n ta is, apenas
descreve o a p a re n te sem c a p ta r as relações de p o d e r q u e existam
m esm o sob lid e ra n ça “ d e m o c rá tic a ” , e q u e o leva a concluir,
p a ra d o x a lm e n te , d a necessidade • de u m a lid e ra n ç a dem o crática
fo r t e p a r a um g ru p o ch eg a r a ser au tô n o m o , o u seja, efetivam ente
d em o crático . A p ressu p o sição de um lld e r forte im p lica u m p o d er
q u e se rá “ d o a d o ” a todos, im p e d in d o a e m e rg ê n c ia d a c o n tra d iç ã o e
co n se q ü e n te m e n te a con scien tização dos m e m b ro s do g ru p o . P ara
Lewin, o s g ru p o s de professores e d a d ire to ria do sin d icato seriam
vistos co m o d em ocráticos, sem p o ssib ilid ad e de a n a lisa r o m ovi­
m e n to de su b m issão do g ru p o n em a veiculação ideológica na
a trib u iç ã o de p o d er. Sob e s ta perspectiva os g ru p o s só podem re p ro ­
d u z ir relações m a n ten e d o ra s âo sta tu s q u o . São estes pressu p o sto s e
a m eto d o lo g ia a d o ta d a q u e levam os pós-lew in ian o s à reificação de
g ru p o , com o pro cesso “ n a tu ra l” e “ u n iv e rsa l” , re p ro d u zin d o a
id eologia d o m in a n te q u e define os p ap é is g ru p a is em te rm o s de
c o m p le m e n ta rid a d e , de p ro d u tiv id a d e e de coesão, sem q u e a
0 IN D IV ÍD UO E AS INSTITUIÇÕES 93

in stitu iç ã o q u e os e n g e n d ra nem suas d e te rm in a n te s histó ricas


sejam c o n sid e ra d a s n a análise.
Já H o rk h eim e r e A d o rn o , ao faze re m a critica do e stu d o de
m icro g ru p o s, a p o n ta m p a r a o c a rá te r h istó ric o dos g ru p o s e a
im p o ssib ilid ad e de generalizações a p a r tir do em pírico. C om o
p u d e m o s ver p ela a n á lise dos grupos ob serv ad o s, n a a p a rê n c ia as
relações são p eculiares e som ente no a p ro fu n d a m e n to d a an álise do
p ro cesso ocorrendo» co m su as d ete rm in a ç õ es sociais m ais a m p las,
p o d e-se c a p ta r a n a tu re z a re p ro d u to ra d a s relações q u e se d esen ­
volvem em c a d a g ru p o , e n q u a n to relações d e d o m in ação .
Q u a n to a Loureau» ele c o n trib u i p a r a se d e te c ta r o q u a n to os
g ru p o s observados se m a n tê m com o g ru p o s-o b jeto , n a m ed id a em
q u e coesão, h a rm o n ia , u n id a d e p erm e iam as relações, m a n te n d o
h ie ra rq u ia s de p o d er. É in teressa n te n o ta r q u e ap en a s o g ru p o de
p re sid iá rio s, onde o p o d e r repressivo d a in stitu iç ã o n eg a q u a lq u e r
a g ru p a m e n to , é a q u ele que a p re se n ta m a io r p o te n cial em d ireç ão a
v ir a ser u m gru p o -su jeito . possivelm ente, p ela necessidade de
d e fin ir u m a d istâ n c ia in stitu cio n al, a q u al n ã o p o d e rá ja m a is te n d e r
a s e r in fin ita , d a d a s a s condições objetivas d e u m presíd io . A a n álise
d a in stitu iç ã o e d a s d e te rm in a n te s sociais feitas pelo g ru p o
c a ra c te riz a m um processo d e tra n sv e rsa lid a d e , to rn a n d o possível ao
g ru p o p a s s a r d e objeto a grupo-sujeito.
A co n trib u iç ã o d e L a p a ssad e é u m a a n á lise g ru p a i d e n tro de
in stitu içõ es e organizações e as artic u la ç õ e s q u e d ete rm in a m as
relaçõ es n o s gru p o s, p a rtin d o d a an álise fe ita p o r S a rtre . Nos g ru p o s
o b serv ad o s, a p re se n ç a d a in stitu iç ão p e rm e ia as relações sociais,
s en d o m a rc a n te no g ru p o d e p re sid iá rio s o n d e a condição de
ig u a ld a d e d e seus m e m b ro s p a rece facilitar a id en tificação e n tre eles
e a an álise d e suas condições sociais em te rm o s m ais ab ran g e n te s.
T a m b é m a d ire to ria do sin d ic ato é d e te rm in a d a in stitu cio n alm en te
q u a n d o os cargos q u e c a ra c te riz a m divisão de tra b a lh o são h ie ra r­
q u iz ad o s, levando os m em bros, em s itu a ç ã o d e c o n flito , a se
u tiliz a r e m d a h ie ra rq u ia p a r a ch eg arem a decisões n u m a p a re n te
consenso.
A in stitu iç ão u n iv e rsitá ria e stá c la ra m e n te p resen te no g ru p o
de professores q u a n d o a titu la ç ã o define co o rd en a ção e q u a n d o
d e so b rig a os m o n ito res d e u m a p a rtic ip a ç ã o m ais ativa, p e rm a ­
n e ce n d o n u m a p o s tu ra de ap ren d izes. A d ire to ria d a en tid a d e
e s tu d a n til p a re c e e sta r p e rm e a d a p o r in stitu iç õ es políticas que d a d o
o p o u c o te m p o de observ ação e as várias n u a n ç a s de g ru p o s políticos
u n iv e rsitário s dificu lta u m a análise de su a s determ in açõ es in s titu ­
94 SILVIA T, M, LANE

cionais. P orém a P U C , com o in stitu iç ão , p e rm e ia os dois g rupos


p ela ên fase no “ novo” c o n te sta d o r q u e vem se to rn a n d o um pap el
esp erad o , se n ão in stitu cio n alizad o .
O s o u tro s dois g ru p o s — o perativo e de tra b a lh o n a periferia
— p o r se po sicio n arem com o a -in stitu cio n ais n e c e ssitariam d e m ais
dados e n q u a n to c a ra c te rístic a s indiv id u ais p a r a se d e te c ta r a
p re se n ç a de instituições.
A p ro p o sta de P ichon-R ivière, a p a re n te m e n te p ró x im a à
n ossa, m a s d ia n te d as observações d e g ru p o s operativos suscitou
u m a série de questões relativas à an álise d ia lé tic a d a s form as de
in te ra ç ã o e n tre os m em bros do g ru p o , A p rin c ip a l foi a co n statação
d e relações de d o m in ação q u e g eram alto nível de an sied a d e nos
g ru p o s a p o n to de eles se desfazerem n a p rim e ira o p o rtu n id a d e .
F ic a a q u e stã o se o p ro b le m a reside n a te o ria ou n a p rá tic a
desenvolvida. D o p o n to de vista teórico, a p e sa r d e a p ro p o sta ser de
u m a ab o rd a g e m m a te ria lis ta d ialética, o a u to r p ro p õ e um "es­
q u e m a c o n c e itu a r \ teórico, ao invés de categ o ria s q u e rem e tam a
fatos concretos» no que se ap ro x im a do m odelo lew iniano, onde a
teo ria leva aos fatos (ao em pírico) e estes re fo rm u la m a teoria. P or
o u tro la d o , a dia lética p ro p o sta se c a ra c te riz a com o id e alista, pois
p re ssu p õ e co n tra d içõ es e n tre o “ in te rn o ” e o “ e x tern o ” do
indivíduo» e n tre sujeito e grupo» e n tre o im p líc ito e o explicito e
e n tre p ro je to e resistên cia à m u d a n ç a . N e n h u m a relação é esta'
b elecid a com a c o n tra d iç ã o fu n d a m e n ta l d a s condições histó ricas da
socied ad e o n d e o g rupo se in sere. D e sta forma» o psicólogo
c o n sid e ra d o com o u m a e n tid a d e em si im p lic a u m a concepção
d ic o tô m ic a e id e alista do h om em . E e sta visão d e te rm in a o p ap el de
c o o rd e n a d o r com o d o n o de u m sab er que o p e rm ite in te rp re ta r o
p síq u ic o o culto de c a d a indivíduo» m e m b ro do g ru p o ; este s a b e r faz
do c o o rd e n a d o r u m a figura d e p o d e r q u e leva os m em bros ao que
c h a m a d e “ a d a p ta ç ã o ativa'". D esta fo rm a , a co n scien tização que
p ro p õ e a tin g ir p ela p ráx is n a d a m ais ê q u e um processo te rapêutico
tra d ic io n a l (au to co n h ecim en to ) sem q u e n ece ssariam en te seja um
processo d e co nscientização social o n d e d eterm in a çõ es h istó ricas de
classe e as especificidades d a h istó ria in d iv id u a l se a claram e se
tra d u z e m em ativ id ad es tra n sfo rm a d o ra s.
D o m esm o m o d o a concep ção d e p ap éis, p o r u m lad o defi­
n idos in stitu c io n a im e n te , p o r o u tro objetivo d e “ expectativas”
in d iv id u ais — com o p ro d u to sin g u la r isento de determ inações
h istórico-sociais — p e rm ite m a m ed iação id eológica dos p apéis, pois
se a p e n a s co n tra d içõ es e n tre o "‘in te rn o ” e o “ e x tern o ” são
O IN D IV ÍD UO E AS INSTITUIÇÕES 95

a n a lisa d a s, p a ssa d esp e rc e b id a a re p ro d u ç ã o d a s relações sociais


n e ce ssárias p a r a q u e as contrad içõ es n ã o e m e ija m nem sejam
s u p e ra d a s.
N a a b o rd a g e m d e C alderón e D e G ovia a p ro p o sta m a te ­
ria lis ta h istó ric a n ã o se co n fu n d e com te o ria s psican alíticas, m a n ­
te n d o a u n ic id a d e do indivíduo com o p ro d u to histórico e m a n i­
fe sta ç ã o de u m a to ta lid a d e social. São as necessidades que reú n em
indivíduos em g rupo p a ra , cooperando, satisfazê-las. P a ra ta n to , se
o rg a n iz a m de fo rm as p ró p ria s (lid eran ças) e cu ja análise p e rm ite
ao s a u to re s d e te c ta r estágios e tip ific ar os g ru p o s.
S e g u n d o esta tipologia po d eríam o s d izer que o g rupo da
e n tid a d e e stu d a n til a in d a e s ta ria n u m a fase de “ a g lu tin a d o ", c a m i­
n h a n d o p a r a dois su b g ru p o s “ possessivos” ; o de tra b a lh o em p e ri­
fe ria seria tip icam en te “ possessivo” , e n q u a n to a d ire to ria do sin d i­
c a to , p o r su as c a ra cterísticas in stitu cio n ais, e sta ria e n tre “ posses­
sivo” e “ coesivo” ; o g ru p o de professores p a re c e e s ta r cam in h a n d o
d e “ coesivo” p a r a “ in d e p e n d e n te ” ; o g ru p o operativo, po r sua vez,
p a rec e o scilar e n tre " a g lu tin a d o ” e “coesivo” . D ifícil foi c a ra c ­
te riz a r o g ru p o do p resídio; e n q u a n to p re p a ra ç ã o do espetáculo foi
u m g ru p o ‘'possessivo” , e depois deste, n a ú ltim a reunião o b se r­
v ad a, p a re c e e sta r se to rn a n d o “ in d e p e n d e n te ” .
E s ta ab o rd ag em é, sem dúvida, a q u e m ais se ap ro x im a d a
n ossa, m a s a cara c te riz a ç ã o de estágios o u tipos d e grupos n ã o é
su ficien te p a r a re sp o n d e r à q u estão de c o m o o g ru p o se processa,
su p e ra n d o co n trad içõ es, até se to rn a r c o n d ição de conscientização
d e seus m em bros e, co n seq ü en tem en te, a g e n te s históricos.
O u tro s grupos fo ram observados com a p reo cu p a ção de p re c i­
s a r u n ia m etodologia de a n álise e p e rm itira m concluir so b re a
n ã o -n e u tra lid a d e do ob serv ad o r e, p rin c ip a lm e n te , sobre a su a
in te rfe rê n c ia no processo g ru p a i, m esm o q u a n d o afastad o fisica­
m e n te e sem q u a lq u e r p a rtic ip a ç ã o no p ro cesso . F oram casos o nde
o p ró p rio g ru p o , se avaliando, co m entava a p resen ça do o bservador
c o m o responsável p e la m a io r p ro d u tiv id a d e d o g rupo, ou a in d a , no
caso já cita d o , o c a rá te r p e rtu rb a d o r do o b serv ad o r, exigindo dele
u m co m p ro m isso de sigilo e d e p a rtic ip a ç ã o no g rupo.
D ia n te destes fa to s, novas observações fo ram feitas, m as
a ssu m in d o a in terv en ção com o inevitável, colocando-se o o bservador
à d isp o sição do g ru p o p a r a n a rra r a s u a a n álise a q u a lq u e r
m o m e n to , pois ta m b é m aclaro u p a ra nós q u e o g ru p o só d á saltos
q u a lita tiv o s no seu processo q u an d o o co rrem análises e reflexões
c rítica s no p ró p rio g ru p o . C om isto esp eráv am o s p recisar as condi-
SILVIA T. M. LANE

çOes necessárias p a r a q u e u m g ru p o se to m a sse consciente e


tra n sfo rm a d o r.
E sta nova e ta p a d e observações p a rtic ip a n te s foi sendo
ta m b é m c o n fro n ta d a com a s observações feitas a n te rio rm e n te , o que
nos p e rm itiu p re c isa r a lg u m as categ o rias fu n d a m e n ta is p a r a a
an álise do processo gru p ai.
A p rim e ira c ateg o ria d e te c ta d a foi a d e p ro d u ção , onde a
p ro d u ç ã o d a satisfação d e necessidade, com o a p o n ta d o p o r Cal-
d eró n e D e G ovia, im p lic a n ece ssariam en te a p ro d u ç ã o d a s relações
g ru p a is, ou seja, a p ro d u ç ã o do g ru p o é p ro d u ç ã o g ru p a i — é o
pro cesso histórico do g ru p o . O u seja, o processo g ru p a i se c a ra c ­
teriza com o sendo u m a a tiv id a d e p r o d u tiv a .
U m a se g u n d a c a te g o ria d efin id a é a de d o m in ação , no sentido
de q u e n a sociedade b ra sile ira c a p ita lis ta a s condições infra-
e s tru tu ra is p a r a serem re p ro d u z id a s im p lic a m m ediações ta is que,
d e fo rm a s as m a is diversas, rep ro d u zem relações d e d om inação, e
q u e e sta s im p lic am a u n ic id a d e d o m in ação -su b m issão , ou seja, nos
g ru p o s o n d e a p ro p o sta d e re la cio n am en to é d e ig u a ld ad e e n tre os
m e m b ro s d etecta -se a d o m in ação p e la su b m issã o dos m em bros a
u m a o u tra pessoa. E sta c a te g o ria leva n e ce ssariam en te à an álise d as
in stitu iç õ es q u e fazem a m e d iaçã o in fra e su p e re stru tu ra l, através
d a d efin ição de papéis co m o necessários p a r a a rep ro d u ção de
relações sociais conform e previstos p e la s in stitu iç õ es d e u m a d a d a
sociedade.
A cate g o ria de g ru p o -su jeito (a d o ta m o s a d en o m in açã o de
L o u reau ) de fato só p o d e ser p re c isa d a n essa ú ltim a e ta p a de
observações q u a n d o o o b serv ad o r, com o p a rtic ip a n te , an alisav a as
co n tra d iç õ e s d eco rren tes d a s relações de d o m in ação , levando o
g ru p o a u m a au to -a n á lise , porém , em n e n h u m m om ento conse­
g u im o s d e te c ta r u m g ru p o com o u m to d o a g in d o e m p le n a cons­
ciên cia . D etectou-se p esso as em processo d e conscientização»
e n q u a n to o u tra s resistiam a m u d a n ç a s, e, q u a n d o a p ressão o riu n d a
d a a n á lise se to rn a v a p e rtu rb a d o ra , a te n d ê n c ia e ra sem p re de o
g ru p o se desfazer, seja p e la sep araçã o física, seja p ela re-orga-
n iz a ç ã o de ta re fa s d e fo rm a a to rn á -la s in d e p e n d e n te s e n tre si,
fa z e n d o com que o p ro d u to final fosse a p e n a s so m a tó ria de p ro d u to s
in d iv id u ais, ou seja, u m a re -o rg an ização q u e é a p ró p ria negação do
g rupo.
E s ta negação do g ru p o , c o n fro n ta d a co m observação de
grupos o n d e as ta re fa s e ra m sem p re in d iv id u ais, sem haver ações
n e c e ssa ria m e n te e n c a d e a d a s p a r a se a tin g ir u m p ro d u to , nos leva
O INDIVÍDUO e a s in s t h UIÇOES 97

à c a te g o ria de n ão -g ru p o e à com provação d e q u e só é g ru p o q u a n d o


ao se p ro d u z ir algo se desenvolvem e se tra n sfo rm a m as relações
e n tre os m em bros do g ru p o , ou seja, o g ru p o se p roduz. U m
ex em p lo típ ico de n ã o -g ru p o é aqu ele onde a s pessoas se reu n ia m em
u m a in stitu iç ã o p a r a a p re e n d e r e fazer tra b a lh o s m a n u ais, ca d a u m
envolvido com o seu. F isica m en te as p esso as estão “ a g ru p a d a s ” ,
elas se relacionam co nversando assu n to s o s m ais diversificados,
p o ré m o fa to d e c a d a u m a te r o seu tra b a lh o faz com que as relações
e n tre elas n ão se a lterem , p o r m ais tem p o q u e p e rm a n eçam ju n t a s ,1
A creditam os q u e para u m g ru p o co m o tal ser um gru p o -
sujeito é necessário haver c irc u n stân cias co m o pressão exterior ao
g ru p o (com o no presídio) ou u m a condição d e m a rg in a lh a ç ã o (com o
u m g ru p o observado de pessoas cegas), o u en tão haver um fo rte
com prom isso e n tre os m em b ro s, com o o po lítico ou do tip o de
socied ad e secreta, pois os processos de con scien tização ocorrem em
indivíduos em m om entos d iferentes, p a ssa n d o p o r estágios d ife­
re n te s, o que g era co n trad içõ es, em geral, difíceis de serem su p e ­
ra d a s , faze n d o com que o co rra a dissolução do g ru p o , an tes de u m a
co n scie n tiz ação g ru p ai. E, o bviam ente, n a n o ssa sociedade m il e u m
recu rso s são oferecidos p a ra ev itar e sta con scien tização g ru p a i,
p e rtu rb a d o ra p a r a o s ta tu s q u o .
E sta an álise nos p e rm itiu c o n sta ta r com clareza, p o r um lado,
q u e o g ru p o social é co n d ição de con scien tização do indivíduo e, p o r
o u tro , a su a potên cia através de m ed iaçõ es in stitucionais, n a
p ro d u ç ã o de relações sociais h isto ricam e n te e n g e n d ra d a s p a ra que
sejam m a n tid a s as relações de p ro d u ç ã o e m u m a d a d a sociedade.
O u tro p o n to d e fu n d a m e n ta l im p o rtân c ia p a r a o processo g ru p a i e
p a r a su p e ra ç ã o das co n tra d içõ es existentes é a necessidade de o
g ru p o a n a lis a s s e e n q u a n to ta l, O g ru p o q u e a p e n a s ex ecu ta ta re fa s
sobre tran sfo rm a çõ es q u e , se n ão forem je s g a ta d a s co n scientem ente
pelos m em b ro s, ele a p e n a s se re*ajusta, sem q u e o c o rra q u a lq u e r
m u d a n ç a q u a lita tiv a n a s relações e n tre seus m em b ro s.

(1) Este não-grupo $e identifica com o que Sartre e La passado chamam


de serialidade, e se aproxima da noção de segmentaridade de Loureau. São
agrupamentos onde, tanto as necessidades como os motivos e as atividades
decorrentes são individuais e não conseqüências de uma relação onde
predomiha o "nós" e que exige a cooperação de todos.
96 SILVIA T. M. LANE

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Fam ília, emoção
e ideologia
Jo sé R o b e r to T o zo n i R e is

A fam ília tem e sta d o em evidência. P o r u m lado ela tem sido o


c e n tro d e aten ção po r ser um espaço privilegiado p a ra arregi-
m e n ta ç ã o e fru ição d a v id a em ocional de seus com ponentes. Por
o u tro , tem c h am ad o a ate n ç ã o dos cien tistas, p o is, ao m esm o tem po
q u e , sob alguns aspectos, m an tém -se in a lte ra d a , a p re se n ta u m a
g ra n d e g a m a de m u d a n ç a s. Ê c o m u m ouvirm os referencias a “ crise
fa m ilia r” , “ conflito d e g eraçõ es” , “ m o rte d a fam ília ” . E la ta m b ém
su sc ita polêm icas: p a ra alguns, fam ília é a base d a sociedade e
g a ra n tia d e u m a vida social eq u ilib ra d a , célu la s a g ra d a que deve se r
m a n tid a intocável a q u a lq u e r custo. P a ra o u tro s, a in stitu iç ão
fa m iliar deve ser c o m b a tid a , pois re p re s e n ta um entrave a o
desenvolvim ento social; é algo exclusivam ente nocivo, é o local o n d e
as n eu ro ses são fa b ric a d a s e o n d e se exerce a m ais im placável
d o m in a ç ã o so b re as c ria n ç a s e as m u lh eres. N o e n ta n to , o que n ào
p o d e ser n eg ad o é a im p o rtâ n c ia da fa m ília ta n to ao uivei d as
relações sociais, n a s q u a is e la se inscreve, q u a n to ao nível d a vida
em o cio n al d e seus m em b ro s. E n a fam ília, m e d ia d o ra en tre o in d i­
víduo e a sociedade, que a p ren d e m o s a p e rc e b e r o m u n d o e a nos
situ a rm o s nele. Ë a fo rm a d o ra d a n o ssa p rim e ira id e n tid ad e social.
E la ê o p rim e iro “ n ó s” a quem a p re n d e m o s a nos referir.
A in stitu iç ão fa m ilia r tem o c u p a d o a a te n ç ã o de estudiosos de
to d a s as ciên cias sociais. O que essas a b o rd a g e n s têm tido em
co m u m , via d e reg ra, é o fa to de ver a fa m ília a p e n a s através d a
ó tica d e u m a d isciplina cien tífica e sp ecializad a. Pode-se verificar
que m u ita s vezes se rep e te , com a rg u m e n to s tira d o s do rep ertó rio
100 JOSÉ ROBERTO TOZONI REIS

científico, o q u e a id eologia tem veiculado d e n tro d a p ró p ria fam ília:


a re p re se n ta ç ã o d a in stitu ição fa m iliar com o algo n a tu ra l e im u tã
vel. A ssim , p o r exem plo, T alc o tt P a rs o n s 1 d á à fam ília u m a g ran d e
im p o rtâ n c ia, pois p a r a ele a sociedade é u m sistem a no qual as
relações d esta com o in divíduo se d ão de form a h arm o n io sa e
a u to -re g u la d o ra . A fam ília te ria p o r fu n ção desenvolver a sociali­
zação b ásica n u m a socied ad e q u e tem su a essên cia no conjunto de
valores e de p ap éis. P a rso n s fala d a sociedade cap ita lista e to m a a
fam ília d essa so ciedade com o universal e im utável: a fam ília n u c le a r
b u rg u e sa to rn a-se sinônim o d e fam ília- O u tra s fo rm as, q u a n d o
existentes, sào c o n sid era d as, no m áxim o, e s tru tu ra s que ain d a vão
se d ife re n c ia r em direção a esse m odelo id e al de fam ília.
F r e u d 2 ta m b ém en v ered o u p o r essa m e sm a senda. No e n ta n to ,
isso n ã o significa u m a n eg ação d e su as im p o rta n te s descobertas,
m as im põe a necessidade de situá-las em seu devido lu g a r, Ele colo­
cou às claras o fu n cio n a m en to in te rn o da fam ília, d e sm o n tan d o os
m ecanism os psíquicos envolvidos n a e s tru tu ra fa m ilia r e que têm
com o co ro lá rio a d o m in ação e a rep ressão sexual, M as o que p a ra
F re u d é “ a fam ília” n a re a lid a d e trata-se a p e n a s de u m a das form as
que a in stitu iç ã o fa m ilia r assu m e em d e te rm in a d o m o m en to h istó ­
rico — a fam ília b u rg u e sa . O reducionism o psicológico de F reu d ,
a fa lta de u m a visão social fazem -no ta m b é m n a tu ra liz a i c uni
v ersalizar a fam ília b u rg u esa. O s antolhos ideológicos farein com
que o a u to r da g ra n d e d esc o b e rta d a fu n ção repressiva d a fam ília
n ão consiga in serir su as d esco b ertas no co n tex to d a H istória c, em
co n seq ü ên c ia, postule u m a univ ersalid ad e p a r a a fam ília b u rg u esa,
co n sa g ra n d o com o n a tu ra l e inevitável a d o m in ação e a repressã-o.
A d e te rm in a ç ã o histórica d a e s tr u tu ra fa m iliar coloca em
d iscu ssão u m a im p o rta n te questão: a das relações e n tre fam ília e
so cied a d e. E ssa discussão teve seu p rim eiro g ran d e passo nos tr a ­
b a lh o s de L. M o rg an , q u e e stu d o u as relações de p arentesco em
d iversas trib o s a m erican a s. E n g els,3 ap o ian d o -se nas descobertas de
M o rg a n , elaborou a fo rm u lação m a te ria lista d ia lética sobre a gênese

(1) Parsons, Talcott e t aüi, Fam ily S o cializatio n a n d Interaction P ro -


cess, Nova lorque, 1955.
(2) Para urr> maior aprofundamento da quest3o, ver "O conceito de
famflia em Freud" in Poster, M. Teoria Cr/tíca da Família, Rio de Janeiro,
Zahar, 1979.
(3) Engels, F., A origem da famffia, da p ro p ried ad e p rivad a e do estado,
Rio de Janeiro, Vitória, 1964.
o i n d i v í d u o e a s INSTITUIÇÕES 101

e as funções d a fam ília m onogâm ica. P a ra ele, foi n a fam ília q u e se


in iciou o processo d e divisão social do tra b a lh o q u e foi in icial­
m e n te a divisão do tra b a lh o sexual. E ssa divisão foi o p o n to de
re fe rê n c ia p a ra u m a com plexificação do processo de divisão do
tra b a lh o que c u lm in o u com a divisão e n tre tra b a lh o m a n u a l e
tra b a lh o in telectu al e {conco m itan tem en te) com a p rin c ip a l divisão,
so b re a q u a l se fu n d a o m o d o de p ro d u ç ã o cap italista: a oposição
e n tre os p ro p rie tá rio s das condições de p ro d u ç ã o e os que possuem
a p e n a s u m a força de tra b a lh o , ex p lo ra d a pelos prim eiros. O estágio
d e desenvolvim ento d as forças p rodutivas ç do processo de divisão
social do tra b a lh o d e te rm in a m en tão a e s tru tu ra fam iliar. Segundo
E ngels, a fam ília m o n o g âin ica surgiu e foi d e te rm in a d a pelo a p a re ­
cim en to da p ro p rie d a d e p rivada. D a fo rm a de fam ília g ru p a i, na
sociedade prim itiva, a org an iz ação fa m ilia r te ria evoluído p a ra a
fam ília m onogâm ica, p a ssa n d o po r diversos estágios in term ed iário s,
c a d a um deles c a ra c te riz a d o sucessivam ente p o r u m g rau c a d a vez
m a io r de restrições às p o ssibilidades de in te rc u rso sexual. A c u lm i­
n â n c ia desse processo se d eu com o c a sa m e n to m onogâm ico,
co m p o sto p o r um c a sa l e com um c a rá te r p e rm a n e n te de d u ra ç ã o .
U m a de su as p rin c ip a is finalidades seria a d e g a ra n tir a tran sm issão
d a h era n ç a a filhos legítim os do h o m e m — responsável pela
a cu m u la ç ã o m a teria l — , o que só seria possível com a g a ra n tia de
q u e a m u lh e r ex erceria su a sex u alid ad e no â m b ito exclusivo do
c a sa m e n to . D ai a im p o rtâ n c ia da v irg in d a d e e d a fidelidade
c o n ju g al d a m u lh er, E m b o ra alg u m as d a s form ulações de E ngels
e stejam u ltra p a ssa d a s, p rin c ip a lm e n te no que se refere à aplicação
gen érica d a evolução e sq u e m á tic a dos m odelos de fam ília em to d a s
a s sociedades, as ligações e n tre m o n o g am ia e p ro p rie d a d e p riv ad a ,
a m b a s se re fo rç a n d o re cip ro cam e n te, se ap re se n ta m c a d a vez
m a is sólidas.
A rela tiv a a u to n o m ia d a org an iz ação fa m iliar é d eterm in a d a
p o r u m a com plexa in te ra ç ã o de diversos fa to re s q u e se referem ta n to
às fo rm as p eculiares d e 'o rg a n iz a ç ã o in te rn a do g rupo fam iliar,
q u a n to aos aspectos econôm icos, sociais e c u ltu ra is que o c irc u n s­
crevem . Ê p o r isso que, e m b o ra a fo rm a d e fam ília p red o m in a n te
em todos os segm entos sociais seja a d a fam ília m onogâm ica
b u rg u e s a , existem p a d rõ e s in tern o s q u e d ifere n ciam as fam ílias das
d ifere n tes classes, assim com o p a d rõ es q u e diferenciam form as
fam ilia re s diferentes d e n tro de u m a m esm a classe social. A tu a l­
m e n te a classe m é d ia u rb a n a ap re se n ta u m a g ran d e riq u e z a n a
v a ria ção de pad rõ es fam iliares. Ao m e sm o tem p o que a b a rc a a
102 JOSÉ ROBERTO TOZONI REÍ5

fam ília c a ra c te riz a d a p o r um extrem o conservadorism o e u m a rígida


h ie ra rq u ia in te rn a , a b ra n g e ta m b ém fo rm as m ais liberais de
vivência fam iliar que m a rc a m ta n to as relações e n tre os seus
m e m b ro s q u a n to um posicio n am en to m ais crítico d ia n te d a sexua­
lid ad e.
A ssim , vê-se que e m b o ra a fam ília te n h a um nível de a u to ­
n o m ia em relação à econom ia, o q u e faz, em a lg u n s casos, com que
su as m u d a n ç a s n ão a c o m p an h em im e d ia ta m e n te e no m esm o
sen tid o as m u d a n ç a s econôm icas, a e stra té g ia fa m iliar é sem pre
tra ç a d a fora dela. É p o rta n to im possível e n te n d e r o g ru p o fam iliar
sem co n sid erá-lo d e n tro d a com plexa tra m a social e h istó rica que o
envolve. A p a rtir disso po d em o s fazer a lg u m as considerações que
nos a ju d a m a situ a r o p rese n te estu d o . A p rim e ira delas é que a
fam ília n ã o é algo n a tu ra l, biológico, m as u m a in stitu iç ã o criad a
pelos h o m e n s em relação, q u e se c o n stitu i de fo rm a s diferen tes em
situ a çõ es e tem p o s d iferentes, p a ra re sp o n d e r às necessidades
sociais. S endo u m a in stitu iç ão social, p o ssu i ta m b é m p a ra os
h o m e n s u m a re p re se n ta ç ã o que é socialm ente e la b o ra d a e que
o rie n ta a c o n d u ta de seus m em bros.
A seg u n d a co n sid eração é que a fam ília, q u a lq u e r q u e seja sua
fo rm a, constitui-se em to m o de u m a n ece ssid a d e m a teria l: a rep ro ­
dução. Isso n ão significa q u e é necessário h a v e r u m a d eterm in a d a
fo rm a de fam ília p a ra q u e h aja a re p ro d u ç ã o , m as que esta é
co n d ição p a ra a existência d a fam ília.
A te rc eira co n sid era ção é que, além d a s u a função lig ad a à
re p ro d u ç ã o biológica, a fam ília exerce ta m b é m u m a fu n ção id eo­
lógica. Isto significa que além d a rep ro d u ç ã o b iológica ela prom ove
ta m b ém sua p ró p ria rep ro d u ç ã o social: é n a fam ília q u e os in d i­
víduos são ed u ca d o s p a r a que venham a c o n tin u a r biológica e
socialm ente a e s tru tu ra fa m ilia r. A o re a liz a r seu p ro jeto d e rep ro ­
d u ção social, a fam ília p a rtic ip a do m esm o p ro jeto g lobal, referente
à sociedade n a q u al e stá in se rid a . É p o r isso q u e ela ta m b é m ensina
a seus m em b ro s com o se c o m p o rta r fo ra das relaçòes fam iliares em
to d a e q u a lq u e r situ ação . A fam ília é, p ois, a fo rm ad o ra do cidadão.
R e su m id a m en te p o d em o s c o n sid e ra r q u e a s d u a s im p o rtan tes
funções d a fam ília são: í) econôm ica, no que se refere à reprodução
de m ão-de^obra; 2) ideológica, no q u e se refere à rep ro d u ção d a
ideologia d o m in a n te . A lguns tipos de fam ília tê m u m a função
eco n ô m ica im e d ia ta m e n te visível. Ê o caso d a s fam ílias q u e se
co n stitu e m com o u n id a d e d e p ro d u ç ã o econôm ica, os colonos da
c u ltu ra do café, p o r exem plo, ou as fam ílias p ro p rie tá ria s de te rra s
o i n d j v Id u o e a s INSTITUIÇÕES 103

em fre n te s agrícolas, n a s q u ais o tra b a lh o fa m ilia r é a atividade m ais


v iá v e l/
C om o a ideologia o p e ra na fam ília? E la com eça po r a p re ­
s e n ta r u m a noção id eo lo g izad a d a p ró p ria fam ília. E ssa noção,
v e ic u la d a p rin c ip a lm e n te pelos p ais, os p rin c ip a is agentes d a e d u ­
caç ão , e n sin a a ver a fam ília com o algo n a tu ra l e universal e, por
isso, im u táv el. D epois p a ssa a a p re se n ta r d a m esm a form a o m u n d o
e x tra fa m ilia r e todas as relações sociais. É claro que a fam ília
c u m p re su a função ideológica em co m p le m e n ta ç ã o a o u tro s agentes
sociais. S ua im p o rtâ n c ia , às vezes rela tiv izad a no processo global da
tra n sm issã o d a id eologia d o m in an te, n ã o pode ser neg ad a. Al*
th u sse r, p o r exem plo, ao descrever as institu içõ es usadas pelo
E s ta d o n a m a n u te n ç ã o da dom inação p o lític a d a burguesia, consi­
d e ra a fam ília um im p o rta n te ap are lh o ideológico, em b o ra afirm e
ser a escola o a p a re lh o ideológico m ais u tiliz a d o .5
M arcuse,* ao e s tu d a r as sociedades c a p ita lista s m ais avan>
ç a d a s, a p o n ta u m a descen tralização das h in ç ò e s d a fam ília, o que
ele q u alifica com o um ap erfeiço am en to d o s m ecanism os de d o m i­
n a ç ã o . Se a fam ília b u rg u e sa dos p erío d o s a n terio res cria v a a
su b m issã o , criava ta m b é m a revolta q u e se expressava no incon-
form ism o e n a lu ta c o n tra o p a i e a m ãe, alvos facilm ente id e n ti­
ficáveis com o agentes d a dom inação. N a civilização m a d u ra “ a
d o m in ação torna-se c a d a vez m ais im pessoal, objetiva, universal e
ta m b é m c a d a vez m a is racio n al, eficaz e p ro d u tiv a ” . 7 O que an tes
e ra fu n ção q u a se exclusiva d a fam ília é h o je dissem in ad o p o r u m a
v a sta g a m a de agentes sociais, q u e vão d esd e a pré-escola a té os
m eios de co m u n icaç ão d e m assa, que u tiliz a m a p ersu asão n a
im p o sição d e p ad rõ es de co m p o rta m e n to , veiculados com o n o rm ais,
d ific u lta n d o a id en tificação do agente rep resso r. A pesar d a v e ra ­
c id a d e dos a rg u m e n to s expostos, n ão se p o d e dizer que a fam ília
hoje seja dispensável ou q u e te n h a su a im p o rtâ n c ia d im in u íd a no

Í4) V er Brandão, Carlos Rodrigues, "Parentes e Parceiros {relações de


parentesco entre camponeses de Goiás)", in Almeida, María S. Kofes dõ,
C olcha de R etalhos: estudos sobre a fam ília no Brasil, São Paulo, BrasiNense,
1962.
(5) V er Althusser, Louis, Ideologia e A p arelho s Ideológicos do Estado,
Portugal, Presença, Brasil, Martins Fontes, 1974.
<6) Ver Marcuse, H ., Eros e Civilização: U m a in terp retação filosófica do
p e n s am e n to de Freud, Rio de Janeiro, Zahar, 1972.
(7) Marcuse, H ,, " A diaíética da civilização", in Marcuse, H .r Eros e
C ivilização, Parte I, cap. A p. 91, Rio de Janeiro, Zahar, 1972.
104 JOSE ROBERTO TOZONI REIS

processo de im posição d a ideologia d o m in a n te . A p esar d a ação


eficiente da E scola e dos o u tro s agentes c ita d o s p o r M arcu se, q u e
agem de fo rm a m ais racio n al e o rg a n iz a d a , n ã o re sta d ú v id a de que
essa eficiência só ê possível p o rq u e ap ó ia-se sobre as bases
ideológicas e stab e lecid as p e la fam ília, q u e inclusive p re p a ro u
a n te rio rm e n te seus m e m b ro s p a ra re c o n h e c e r o u tra s form as d e
a u to rid a d e . A atu a ç ã o fa m iliar é vivida in te n sa m e n te pelos in d i­
víduos, a g in d o p o d e ro sa m e n te n o exercício d a su b o rd in a ç ã o ideo­
lógica, pois está p re se n te desde o início d a v id a e é m a rc a d a p o r
fo rtes c o m p o n en tes em ocionais q u e e s tru tu ra m de fo rm a p ro fu n d a a
p e rso n a lid a d e de seus m em b ro s.
P a ra e n te n d e rm o s m ais p ro fu n d a m e n te com o a fam ília
c u m p re su as funções de ag en te d a re p ro d u ç ã o ideológica é n eces­
sário voltarm os a ate n ç ã o p a r a o seu fu n c io n a m e n to in te rn o . N esta
p ersp ectiv a, podem os o b serv ar o q u e m a is a d ifere n cia de o utros
gru p o s: ela é o locus d a e s tru tu ra ç ã o d a v id a p síq u ic a . £ a m a n e ira
p e c u lia r com q u e a fam ília o rg an iz a a v id a em ocional de seus
m em b ro s q u e lhe p e rm ite tra n s fo rm a r a id eologia d o m in a n te em
u m a visão d e m u n d o , em um código de c o n d u ta s e de valores que
serão assu m id o s m ais ta rd e pelos indivíduos- P a r a m e lh o r e n te n ­
derm o s essa o rg a n iz a ç ã o in te rn a d a fam ília, usarem o s os conceitos
desenvolvidos p o r M a rk Poster.* P a ra ele " a fam ília é o lu g a r o nde
se fo rm a a e s tru tu ra p síq u ic a e onde a ex p eriên cia se cara cteriza, em
p rim e iro lu g a r, p o r p a d rõ e s em ocionais. A fu n ç ã o de socialização
e s tá c la ra m e n te im p líc ita n e sta definição, m a s a fam ília não e s tá
sendo c o n ce p tu a liz a d a p rim o rd ia lm e n te co m o u m a institu ição
in v estid a n a fu n ção de socialização. E la é, em vez disso, a lo c a ­
lização social o n d e a e s tru tu ra p síq u ic a é p ro e m in e n te de um m o d o
decisivo” .9 E la possui ta m b é m u m o u tro c a rá te r su m a m e n te im p o r­
ta n te : “ Além de ser o lo c u s d a e s tru tu ra p síq u ic a , a fam ília co n stitu i
u m espaço social d istin to n a m ed id a em q u e g e ra e co n su b sta n c ia
h ie ra rq u ia s de id a d e e sexo. ( ...) A fam ília é o espaço social o nde
g erações se d efro n ta m m ú tu a e d ire ta m e n te , e o n d e os dois sexos
definem su as d iferen ças e relações de p o d e r. Id a d e e sexo estão
p resen te s, é claro, co m o in d icad o res sociais em to d a s as instituições.
E n tre ta n to , a fam ília co n tém -n o s, gera-os e os realiza em g rau
e x tra o rd in a ria m e n te p ro fu n d o . P o r o u tra s p alav ras, o e stu d o d a

iô) Postei, Mark, Teoria Crítica da Fam ília. Rio de Janeiro, Zahar, 1979.
(9) Id em , ib id em , p. 161.
O IN D ÍV lD U O E AS INSTITUIÇÕES 105

fam ília fornece um ex celente lu g a r p a ra se a p re n d e r com o a socie­


d a d e e s tru tu ra as d eterm in a çõ es de id ad e e s e x o " .10
A c a ra c te riz a ç ã o d a fam ília essen cia lm e n te pelas vivências
em ocionais desenvolvidas e n tre seus m e m b ro s e p ela h ie ra rq u ia
sexual e e tá ria c o n d u z a an alise d e seu fu n c io n a m e n to a cen tra r-se
n o b in ô m io a u to rid a d e /a m o r. As vias p e la s q u ais afeto e p o d e r se
re la c io n a m d e n tro d a fam ília p erm item -n o s c o m p a ra r os diferentes
m odelos de fam ília e e n te n d e r a d in â m ic a in te rn a d a fam ília
m o d e rn a associada a su as funções d e re p ro d u to ra ideológica.
C o n tin u a re m o s u sa n d o as idéias de P o s te r n a com paração entre
tip o s de fam ília e no estu d o d a s esp ecificid ad es d a fam ília m o d e rn a,
ou fam ília n u clear b u rg u e sa , Q u a n d o u sam o s o m odelo b u rg u ês
fa m ilia r com o sin ônim o de fam ília a tu a l, assim o fazem os por
e n te n d e r que este p a d rà o de o rg a n iz a ç ã o o rig in ário n a b u rg u esia
esp alh o u -se p elas dem ais classes sociais que, p a u la tin a m e n te , o
a d o ta ra m . Isso n âo significa n eg a r a ex istên cia de o u tra s fo rm as de
vida fa m ilia r nem im p o r u m a p a d ro n iz a ç ã o a b so lu ta a to d a s as
u n id a d e s fam iliares, m as a p e n a s to m a r o m odelo fam iliar que
p re d o m in a n a sociedade em q u e vivem os e que co rresp o n d e aos
valores d a ideologia d o m in an te. A liás, a fam ília burguesa, a o se
re p re s e n ta r n ão a p e n a s com o a q u ela q u e é “ n o rm a l’1, m as ta m b é m
com o a ú n ic a p o ssib ilid ad e, n a d a m ais faz do q u e c u m p rir su a
fu n ção ideológica.
P o ster ap re se n ta q u a tro m odelos d e fam ília: a fam ília aris­
to c rá tic a e a fam ília cam p o n esa (dos séculos XVI e X V II), a
fam ília p ro le tá ria e a fam ília b u rg u esa (d o século X IX ). D em o n stra
ain d a a d eterm in a ção de suas e stru tu ra s em ocionais pelas condições
sociais em q u e se inscrevem no contexto histó rico . Os tipos fa m i­
liares p ro p o sto s n ão p re te n d e m a p re s e n ta r com o idênticas to d a s as
u n id a d e s fam iliares d a classe social a q u e se referem , m as a p en as
c a p ta r o q u e h á nelas de essencial p a ra o e stu d o de su as e s tru tu ra s
em ocionais, em d e te rm in a d o s m o m en to s d e su a história.
D e início, a p re se n ta re m o s, de fo rm a breve, os p rin cip ais
c a ra c te re s d a s fam ílías a risto c ra ta , c a m p o n e sa e p ro le tá ria , p a ra
p o ste rio rm e n te d iscu tirm o s as p e c u lia rid a d es d a fam ília b u rg u e sa
q u e, seg u n d o P o ster, n a sc e u no seio d a b u rg u e sia eu ro p éia em
m ead o s do século XVLIL

(10) Idem , ibidem , pp. 161-162.


106 JOSÉ ROBERTO TOZONI REIS

A a risto c ra c ia tin h a su a riq u e z a a s s e n ta d a nos favores do


m o n a rc a e no controle d a te rra — q u e e ra p a trim ô n io a ser
conservado e n ã o investido. S ua u n id a d e d e h a b ita ç ã o e ra o castelo,
q u e ab rig av a, além d a fam ília, p a re n te s, d e p en d e n tes, criados e
clientes, À lin h ag em e ra d e te rm in a n te d a s relações de p are n te sc o e
su a p reserv açã o revestia-se de c ap ital im p o rtâ n c ia ; p o r isso, o c asa­
m en to e ra an te s de tu d o u m ato p o lítico, d o q u al d e p en d ia a
m a n u te n ç ã o d a s p ro p rie d a d e s fam iliares.
A h a b ita ç ã o a ris to c ra ta n ã o favorecia n e n h u m a fo rm a de p ri­
vacid ad e, pois e ra c a ra c te riz a d a p o r u m a b a ix a diferenciação fu n ­
cional de su as peças, p ela au sên cia d e c o rred o res, o q u e provocava
um g ra n d e trâ n sito p o r to dos os côm odos e p o r um m obiliário
d o ta d o de m u ltifu n c io n a lid ad e . As condições sa n itá ria s e ra m p re ­
c árias, o q u e explica em p a rte o alto nível de m o rta lid a d e in fan til
q u e a c o m p a n h a v a o alto nível de n a ta lid a d e .
A s relações e n tre os m em bros d a casa eram rig id am en te
h ie ra rq u iz a d a s e e stab elecid as p ela tra d iç ã o , O tra b a lh o m asculino
restrin g ia-se à g u e rra , e as funções d a m u lh e r e ra m relativas à
o rg an iz ação d a vida social no castelo. O la z e r e ra cultivado e o
tra b a lh o desvalorizado. A cria ção dos filhos n ã o era atrib u iç ã o das
m ães. O s b eb ês eram a m a m e n ta d o s p o r am as-d e-leite e entregues
aos c u id ad o s de criados. O tre in a m e n to d e h á b ito s higiênicos e ra
m ín im o . C om o c o n seq ü ên c ia desses m étodos d e ed u cação aristo ­
c rá tic a , a id en tificação d a s cria n ças n ão privilegiava as figuras
p a re n ta is , com o seus objetos, m a s valorizava a lin h a d a fam ília. Elas
estab e leciam seu p rim eiro vínculo com a a m a -d e -le ite r eram em
geral e d u c a d a s p o r vários h a b ita n te s do castelo e m u itas vezes
p o d ia m ser enviadas a o u tra s casas n o b res p a r a co m p le m e n tar sua
e d u ca ção . O seu a p re n d iz a d o e ra d irigido p a r a a o b ediência à
h ie ra rq u ia social e nesse sen tid o o castigo físico era o in stru m en to
co m u m en te utilizad o . O s a risto c ra ta s desenvolviam e n tã o um agu d o
senso d a s n o rm as sociais ex tern as, m as n ã o um severo superego. O
sen tim en to lig ad o às transgressões e ra a v erg o n h a e n ã o a culpa.
A sex u alid ad e a risto c ra ta o b ed ecia a p a d rõ e s p ró p rio s. Seu
exercício e ra reconhecido ta n to p a r a os a d u lto s de am bos os sexos,
q u a n to p a r a as c ria n ças. O s a risto c ra ta s p ra tic a v a m m u ito o sexo
e n tre si e ta m b é m com a cria d a g e m . As n ecessidades sexuais das
m u lh e re s e ra m reco n h e cid as. H á registros de casos d e m ulheres
a risto c ra ta s q u e se to rn a ra m fam osas p o r su a in te n sa vida erótica,
sem q u e isso provocasse a p e rd a de seus d ireito s, ou d a aceitação
social. As co n cu b in as eram p u b lic a m e n te reco n h ecid as e o sexo não
O INDIVÍDUO e a s in s t it u iç õ e s 107

e ra c o n sid era d o a ssu n to p riv a d o ou secreto. As b rin c a d e ira s sexuais


d a s cria n ç a s eram ace ita s e até e stim u la d a s, em ra z ã o do que esta s
n ã o ex p erim en tav am um an tag o n ism o e n tre o co rp o e o m u n d o
social, O co rp o n ão e ra vivido com o objeto de am bivalência sexual.
P o rta n to , a fam ília a ris to c ra ta nào a trib u ía valor algum à p riv a ­
c id a d e , d o m esticid ad e, cu id ad o s m a tern o s o u relações íntim as e n tre
p a is e filhos.
E m b o ra diferin d o d a organização d a fam ília d a aristo cracia,
a fam ília cam p o n esa ap re se n ta v a m ais tra ç o s em com um com esta
do que com a fam ilia b u rg u e s a .11
A ssim com o a fam ília aristo c ra ta , a cam p o n esa se c a ra c ­
terizava p o r um alto p a d rã o de n ata lid a d e , associado a u m a ta m b ém
a c e n tu a d a m o rta lid a d e in fa n til. A pesar d e a p eq u en a fam ília
n u c le a r ser a u nidade m a is com um , este n ã o e ra o g rupo social m ais
significativo p a ra os seus m em b ro s. E ra à a ld e ia q u e todos estavam
in te g ra d o s p o r sólidos laços de d e p en d ê n cia. A aldeia regulava a
v id a c o tid ia n a através dos costum es e d a tra d iç ã o : os casam entos,
assim com o os e n terro s, d avam origem a ritu a is que envolviam a
a ld e ia to d a , ou pelos m enos g ran d e p a rte d ela; ta m b ém o n am o ro
e ra re g id o p o r um c o n ju n to de p ro ced im en to s coletivos, pelos q u ais
se p rovidenciava a fo rm aç ão de pares co n sid era d o s a d e q u a d o s. A
fa m ília n ão e ra o espaço privado ou privilegiado e os laços
em o cio n ais se esten d iam p a r a fora dela. A s cria n ças a p re n d ia m a
d e p e n d e r p rin c ip a lm e n te d a co m u n id ad e e não dos pais; desde
p eq u e n o s p a rtic ip a v a m de to d a ro tin a d a vida d a aldeia. J á n a
in fâ n c ia a p re n d ia m a ob ed ecer às n o rm a s sociais, inclusive, com
b a s ta n te freq ü ên cia, às cu stas de p u n içõ es *físicas. Por isso, à
se m e lh a n ça das cria n ça s aristo c ra ta s, su a e s tru tu ra p síquica e ra
o rie n ta d a p a r a a v erg o n h a e n ão p a ra a c u lp a , “ A aprovação das
ações e ra ex tern a, b a s e a d a em sanções p ú b lic a s p o r to d a a c o m u ­
n id a d e 11. 12
À m ã e cam p o n esa co m p etia a c ria ção dos filhos, de fo rm a
in te g ra d a às relações c o m u n itá ria s. E la e ra a ju d a d a po r p a re n te s,
p o r m oças m ais novas e ta m b é m p o r m u lh e re s m ais velhas que
en sin a v a m e fiscalizavam as p ráticas re la tiv a s ao tra ta m e n to dos

(11> Em função da grande diversidade de condições de vida dos


camponeses europeus nos séculos XVI e X V II, Poster limita-se, para
estabelecer o modelo do família camponesa, aos que viviam em aldeias.
(12) Poster, c it.t p. 206-
J08 JOSÊ ROBERTO TOZONJ REIS

b eb ês. M as as crian ças n ão ocupavam o c en tro d a vida conjugal-


A necessidade d a p re se n ç a d a m u lh e r no tra b a lh o do cam po fazia
com q u e os filhos n ã o tivessem a m e sm a a te n ç ã o q u e lh es seria
d irig id a n a fam ília b u rg u e sa . O en fa ix a m e n to dos bebês e ra
c o m u m , pois lib erav a a m ã e p a ra o tra b a lh o . A a m a m e n ta ç ã o e ra
re a liz a d a sem envolvim ento em ocional. H avia p o u c a p reo cu p a ção
com os h á b ito s higiênicos e com as ativ id ad e s sexuais d as crianças.
E las se fam iliarizav a m d esd e cedo com os ato s sexuais, pois
d o rm ia m várias pessoas em u m m esm o quarto» sen d o que as vezes os
filhos d o rm ia m n a m esm a c a m a com os p ais.
E m fu n ção dessa d ep e n d ê n c ia d a ald eia e dos vínculos que
assim su rg iam , os p ais das cria n ç a s cam p o n esas n ã o eram os únicos
objetos de iden tificação , E ste s e ra m d ispersos p o r to d a a aldeia.
A ssim com o e n tre a aristo cracia , e ra co m u m a c ria n ç a cam ponesa
p a ssa r p o r um p erío d o de a p ren d izag em em casa de o u tra fam ília.
E n fim , a p e s a r de viver em p e q u e n a s u n id a d e s n u cleares, a
fam ília cam ponesa» ten d o to d a su a vida v o lta d a p a ra fora de si,
ta m b é m desconhecia e n ã o valorizava a d o m e sticid ad e e a p riv a­
cidade.
A fam ília p ro le tá ria é vista p o r P o s te r em trê s fases que vão da
su a c o n stitu iç ão até a a d o çã o do m odelo fa m ilia r b u rg u ê s. S ua
c o n stitu iç ã o deu-se n o p erío d o inicial d a in d u stria liz aç ã o (início do
século X IX ) sob condições de ex tre m a p e n ú ria social e econôm ica.
E m g e ra l, todos os m e m b ro s d a fam ília tra b a lh a v a m , em jo rn a d a s
q u e variavam d e 14 a 17 h o ra s. As cria n ç as ia m p a r a a fá b ric a a
p a r tir de a p ro x im a d a m e n te dez anos de id a d e . A s condições
s a n itá ria s em que viviam os tra b a lh a d o re s e ra m terríveis, favo­
recen d o o a lto índ ice de m o rta lid a d e in fan til, N esse contexto, um a
fo rm a de re sistir à opressão im p o sta pelo c a p ita lism o foi a m a n u ­
ten ção dos antigos laços c o m u n itá rio s. O p ro le ta ria d o conservou
vários dos costum es cam poneses, pois foi d e n tre estes q u e se deu o
re c ru ta m e n to d a m aio ria d o s novos tra b a lh a d o re s u rb an o s.
N essa fase, a vida d a fam ília p ro le tá ria foi c a ra c te riz a d a por
fo rm as c o m u n itá ria s de d ep e n d ê n c ia e apoio m u tu o . O s filhos era m
cria d o s de m a n e ira in fo rm al, sem que fossem o bjeto d e especial
ate n ç ã o e fiscalização p o r p a rte dos pais» que n ão tin h a m tem p o p a ra
se d e d ic a r aos filhos. O tre in a m e n to dos h á b ito s higiênicos não
ca u sa v a p re o c u p a ç ã o , assim com o n ã o h av ia rep ressão à m a stu r­
b açã o in fa n til. N essa época, as c ria n ças p ro le tá ria s conviviam n u m a
a m p la red e de re la c io n a m e n to com ad u lto s, p o is n a m aio ria das
O IN D IV ÍD U O E AS INSTITUIÇÕES 109

vezes e ra m c ria d as p o r p a re n te s, vizinhos, ou m esm o soltas pelas


ru a s dos b a irro s.
O segundo estág io d a fam ília p ro le tá ria corresponde à se­
g u n d a m e ta d e do século X IX , q u e coincide com o ap arecim en to de
seto res m ais q ualificados d a classe o p e rá ria e com a ação de alg u n s
fila n tro p o s burgueses p reo cu p a d o s com a m e lh o ria das condições de
vida de seus em p re g ad o s.13 E ssa fase, n a q u a l verificou-se u m a
m e lh o ria d as condições d e vida o p e rá ria , é m a rc a d a p o r um a
a p ro x im a ç ã o dos p a d rõ e s b u rg u eses d e d iferen ciação de p ap éis
sexuais: a m u lh e r p a sso u a ficar m ais te m p o em casa com os filhos.
O s h o m e n s e stab e lece ram a fá b ric a e o b a r co m o pólos de g ravitação
de sua vida social, e n q u a n to as m u lh eres p a s s a ra m a desenvolver
u m a red e social fem in in a q u e integrava m ães, filhas e o u tra s
p a re n ta s .
O terceiro estágio ocorreu já no século XX, com a m u d a n ç a da
fam ília o p e rá ria p a ra os su b ú rb io s; a p a r tir daí rom peram -se os
vínculos com a co m u n id ad e, A m ulher, a fa s ta d a das redes fem i­
n in a s típ icas d a fase a n te rio r, ficou isolada n o la r e o hom em p assou
a v a lo riz a r a do m esticid ad e e a p riv ac id ad e. Ao m esm o tem p o ,
a e d u c a ç ã o e o fu tu ro dos filhos p a s s a ra m a ser p rio rid ad e da
fam ília. E ssas tran sfo rm a çõ es foram a c o m p a n h a d a s de um reforço
da a u to rid a d e p a te rn a e de u m in c re m en to d o conservadorism o p o r
p a rte de toda a fam ília p ro le tá ria . Um século depois de seu
n asc im e n to a fam ília p ro le tá ria quase não se d istin g u ia m ais da
fam ília b u rg u esa, em term os de pad rõ es em ocionais que c a ra c ­
te rizav am as suas relações in te rn a s. Isso significa que houve um
ab u rg u e sa m e n to ideológico d a classe o p e rá ria no q u e co n ce rn e à
v id a fam iliar.
A fam ília b u rg u e sa , n asc id a n a E u ro p a em m eados do século
X V III, ro m p e u com os m odelos fam iliares vigentes e criou novos
p a d rõ e s d e relações fam iliares. Esses novos p ad rõ es, que co rre s­
p o n d ia m às n ecessidades d a nova classe d o m in a n te , já estavam
n itid a m e n te estabelecidos no início do século X IX . E les se c a ra c ­
terizav am an te s de tu d o pelo fech am en to d a fam ília em si m esm a.
Esse iso lam en to m a rc o u u m a c la ra se p a ra ç ã o e n tre a residência e o
local de tra b a lh o , ou seja, e n tre a vida p ú b lic a e a p riv ad a . P a ra o
b u rg u ê s, o tra b a lh o e ra o espaço no q u a l a s relações deveriam ser

(13) A principal referência usada por Poster é a Inglaterra.


110 JOSÉ ROBERTO TOZONI REIS

reg id as p ela frieza e pelo calculism o, q u a lid a d e s im prescindíveis


p a ra se vencer n o in u n d o d o s negócios. S endo o m u n d o dos negócios
o im p ério d a ra zã o , o la r p asso u a ser o esp aço exclusivo d a vida
em ocional, no q u a l a m u lh e r p a ssa ria sua v id a em reclusão. O u tra s
sep araçõ es se fizeram ; a m a is notável foi a rig o ro sa divisão d e papéis
sexuais. O m a rid o p a sso u a ser o pro v ed o r m a te ria l d a casa e a
a u to rid a d e d o m in a n te , c o n sid e ra d a racio n al e c a p a z de resolver
q u a isq u e r situações. A ntes de tu d o , deveria s e r u m hom em livre e
au tô n o m o , co n fo rm e o id e a l bu rg u ês.
A m u lh e r b u rg u e s a ficou responsável p e la vida dom éstica,
pela o rg a n iz a ç ã o d a casa e ed u ca ção dos filhos. C o n sid erad a m enos
c a p a z e m ais em otiva q u e o hom em , to m o u -se to talm en te depen-
d e n te do m a rid o . A lém de d ep en d e r dele m a te ria lm e n te , su a id en­
tid a d e pessoal seria d e te rm in a d a p e la p osição q u e ele ocupasse no
m u n d o e x tra fa m ilia r. Isolando-se d a co m u n id a d e , p erd eu seu
a p o io , u m a vez q u e as red es fem ininas d e ix a ra m d e o p e ra r, e ficou
to ta lm e n te à m ercê do m a rid o . D everia pois a g o ra obedecer e servir
ao m a rid o p a r a q u e este obtivesse as m e lh o res condições possíveis
p a ra lu ta r no m u n d o dos negócios. O sucesso do m a rid o seria o seu
ta m b é m .
A ed u c a ç ã o dos filhos se co n stitu iu no p rin c ip a l objetivo do
c a sa m e n to b u rg u ê s e p a sso u a absorver to d o o te m p o d a m ãe.
O filho deveria ser e d u ca d o p a ra aq u ilo q u e a b u rg u e sia estab elecera
com o id eal: vir a ser um h o m e m au tô n o m o , au to d isc ip lin a d o , com
c a p a c id a d e p a r a p ro g re d ir nos negócios e d o ta d o de perfeição
m o ra l, Se p o r u m lad o a m u lh e r e ra a g o ra valo rizad a p o r sei
responsável pelo fu tu ro dos filhos, p o r outrc» lad o essa resp o n sa­
b ilid a d e n ã o deixava de lh e tra z e r g ran d es tensões, pois ela seria
c u lp a d a p o r q u a lq u e r desvio n a ed u ca ção ou m esm o q u a lq u e r
d o en ça q u e o p reju d icasse. E la deveria ser u m a m ã e p erfe ita p a ra
que o s filhos ta m b é m o fossem .
A fam ília b u rg u esa ta m b é m definiu novos p ad rõ es d e higiene,
q u e c o n trib u íra m p a ra u m a progressiva re d u ç ã o d a taxa de m o rta li­
d ad e in fa n til, a qual foi aco m p a n h a d a p o r um co rresp o n d en te
decréscim o n a ta x a d e n a ta lid a d e . G ra n d e im p o rtâ n c ia foi a trib u íd a
ao asseio d a c a sa e de seus m o rad o res. O a leita m en to m a tern o
p assou a ser valo rizad o e cercado de m e d id a s higiênicas, além do
g ra n d e envolvim ento em ocional da m ãe. F oi a b o lid a a p rá tic a do
en fa ix a m e n to dos bebês, q u e p a ssa ra m a rece b er ate n ç ã o c o n stan te
p o r p a r te de suas m ães. O s h á b ito s a lim e n ta re s fo ram rigorosa*
m e n te reg u la rizad o s, assim com o as p rá tic a s m eticulosas de lim~
O INDIVÍDUO e a s in s t it u iç õ e s UI

p eza. O co rp o das cria n ç a s b u rg u esas p rim a v a pelo asseio. Nesse


co n tex to se destacou ta m b é m o h o rro r aos dejetos hum anos, que
c a ra c te riz o u o a p re n d iz a d o d a fase a n a l, À c ria n ç a b u rg u esa
a p re n d e u a id e n tificar no seu corpo algo q u e deveria ser o b jeto de
co n sta n te fiscalização e ação de lim p eza p a r a q u e n ão fosse apenas
uru ‘‘recip ien te e p ro d u to r de im u n d íc ie s'’. 14 O controle dos
esfín cteres p a sso u a s e r u m dos objetivos p rin c ip a is dessa fase de
e d u c a ç ã o b u rg u esa, à s vezes desenvolvido precocem ente e envol­
v en d o o uso de insólitos p ro ced im en to s com o, p o r exem plo,
o d e a m a rra r a c rian ça ao u rin o l.
E c la ro que a fam ília n u c le a r b u rg u e sa definiu tam b ém novos
p a d rõ e s p a r a a sex u alid ad e. F oi no seu seio q u e a diferenciação dos
p a p é is sexuais foi le v ad a às ú ltim a s co n seq ü ên cias. Colocou-se em
p rá tic a , com todo o rigor, a in terd içã o â se x u a lid a d e fem inina fora
do c a sa m e n to e a restriç ão ao desfrute do p ra z e r sexual, No
c a sa m e n to a ativ id ad e sexual fem inina deveria restringir-se à
n ecessidade de p ro criação . As m ulheres b u rg u e sa s p assa ram a ser
c o n sid e ra d as seres angelicais, acim a das necessidades anim ais do
sexo. D essa fo rm a o c a sa m e n to burguês p a sso u a cara cterizar-se p o r
u m a dissociação en tre sex u alid ad e e afetividade. A fam ília e r a o
re c a n to do afeto m as não do p ra z e r sexual. E ste passou a ser
b u sca d o fo ra do la r pelos hom ens, em geral através d a co n q u ista de
m u lh e re s das classes inferiores.
À rep ressão à sex u alid ad e in fan til g an h o u u m lu g a r de
d e sta q u e n a fam ília b u rg u esa. A m a stu rb a ç ã o h orrorizava os p ais e
p rovocava vigilância co n sta n te . A repressão à m a stu rb a ç ã o cou tav a
com o apoio d a o p in ião m é d ica do século X IX , que a a p o n tav a com o
c a u s a d o ra d a s m ais diversas d oenças, d esd e acnes e tu m o res a té a
lo u c u ra . São dessa época os relatos de F re u d sobre as am eaças de
c a stra ç ã o fe itas pelos p ais, que n a m a io ria das vezes não tin h am
c a rá te r m etafórico. T a m b é m se e n co n trav ajn facilm ente à v enda
dispositivos que feriam o p ên is ou faziam so a r o alarm e q u a n d o o
m e n in o tin h a u m a ereçào. As m en in as ta m b é m não escapavam d a
ação m é d ica no c o m b ate a q u a lq u e r m a n ife sta ç ã o da sexualidade,
o q u e in c lu ía até ciru rg ias. A ssim , vam os e n c o n tra r u m novo q u a d ro
de v id a fa m iliar estabelecido p ela b u rg u esia . E le com eça a to m a r
fo rm a com a reclusão d a vida fam iliar, q u e cria a s condições p a ra a
total d ep en d ê n cia dos filbos em reiação ao s pais P o r decorrência

<14) P o ste r, M ., op. c it., p. 190.


112 JOSÉ ROBERTO TOZONI REIS

dessa n ova re a lid a d e h á u m a en o rm e d im in u iç ã o das possíveis fontes


de id e n tific a ç ã o p a ra a cria n ç a . E n q u a n to a c ria n ç a a risto crata,
a c a m p o n e sa ou m esm o a o p e rá ria se d efro n ta v am com u m a am p la
gam a de p o ssib ilid ad es de iden tificação , a c ria n ç a b u rg u e sa tin h a
a p e n a s as figuras p a re n ta is , ou aca b av a te n d o n a realid ad e apenas
um o b je to de id e n tificação — o p ro g e n ito r do m esm o sexo — em
v irtu d e d a rig o ro sa divisão de p ap éis sexuais q u e p re sid ia sua vida
fa m ilia r. É im p o rtan te le m b ra r que a c ria n ç a b u rg u e sa do século
X I X q u a se n ão tin h a c o n ta to com o u tra s p esso as a n te s de e n tra r na
escola. P assava, p o rta n to , g ran d e p a rte d a sua in fân c ia ap en a s se
c o n ta ta n d o com os m e m b ro s d a p ró p ria fam ília.
C om o isolam ento d a fam ília n u c le a r e a co n seq ü en te in ten ­
sificação d a s relaç&es afetivas en tre seus co m p o n en tes, a criança
ficou n a to tal d ep en d ê n cia de seus p ais p a r a a satisfação de suas
n ecessidades de afeição. E la a p re n d ia a im p o rtâ n c ia d a vida em o­
cio n al e ficava à m ercê dos p ais p a r a rece b er su a co ta de afeto, Era
fu n ção dos p a is, p rin c ip a lm e n te d a m ãe, su p rir essa necessidade dos
filhos. M as esse afeto n ão era d ad o in c o n d icio n alm en te, Ele passou
a ser associado às c o n d u ta s que os p a is esp erav am do filho. E que
c o n d u ta s era m essas? A p rim e ira exigência q u e se fazia d a c ria n ça
e ra a de q u e ela a p ren d e sse a te r o co n tro le so b re seu p ró p rio corpo.
E ssa e ra a ap ren d izag em b á sic a q u e c a ra cte riz a v a o estágio an al d as
cria n ç a s b u rg u esas do século p assad o . E la deveria a p re n d e r a
re n u n c ia r ao p ra z e r co rp o ral em tro c a do afeto dos p ais. O controle
dos esfín cteres, q u e e ra negligenciado em o u tra s classes sociais,
passou a ser de m u ita im p o rtâ n c ia p a ra a fa m ília burguesa. D aí a
te n sã o a q u e estavam su b m etid o s os filhos, p rin cip a lm e n te os que
n ão se m o strav am eficientes nessa ta re fa ; eles eram am eaçad o s de
p e rd e r o q u e e ra essencial: a afeição dos p a is. E sta v a fo rm a d a pois a
ca d e ia q u e u n e am o r e au to rid a d e : p a ra te r o am o r dos p ais, o que
era d e im p o rtâ n c ia vital p a r a a c ria n ç a b u rg u e s a , seria necessário
que e la ta m b é m os am asse; am á-los seria co rre sp o n d e r às expec­
ta tiv as com as q u ais os pais a c o b ria m . P o rta n to , a m a r é s u b ­
m eter-se e n âo a m a r seria u m a a lte rn a tiv a in su p o rtá v el. O p o d e r
p a re n ta l é trav e stid o de am o r p a r a su b m e te r o s filhos.
E ssa subm issão do co rp o em troca do am or dos p ais co n ti­
n u av a a m esm a no estágio g en ital e to rn av a m a is ag u d a s as vivências
conflitivas, pois nesse estág io a m a stu rb a ç ã o era severam ente
re p rim id a . M u d a v a o foco co rp o ral m a s c o n tin u a v a vigindo com
to d o vigor o prin cíp io d a educação b u rg u e sa : o controle sõbre o
c o rp o (ou su b m issão aos p ais) em tro ca d a afeição p a re n ta l. Ê nesse
o in d iv íd u o e a s in s t it u iç õ e s

está g io que se desenvolve u m esforço sistem ático p a ra p ro te la r a


satisfaç ão sexual.
A situ ação conflitiva vivida p ela c ria n ç a culm inava com o
a p a re c im e n to em c e n a d a am bivalência e do sen tim en to de cu lp a.
A negação dos p raze re s co rporais p rovoca a có lera dirig id a àq u ele
q u e im p ed e a su a fruição, ou seja, a m ã e , m a s esta é ao m esm o
tem p o o seu p rin c ip a l objeto de am or. T o rn a -se p o rta n to im possível
tra n s fo rm a r em ação o sen tim en to d e ó d io c o n tra a m ãe, com o
ta m b é m é^Ihe in su p o rtáv el a sim ples id é ia de o d ia r a pessoa q u e a
a m a e a quem ta n to am a. E sta situ ação p ro d u z p o rtan to a m b i­
v alên cia e sen tim en to d e c u lp a e fornece as bases p a ra a form ação do
su p ereg o , com o foi d escrito p o r F re u d , p e la in tern alizaçã o das
n o rm a s definidas pelos pais no re la c io n a m e n to com os filhos e que
se b aseia m n u m a d e te rm in a d a c o m b in açã o dos fatores a m o r e
a u to rid a d e . segredo d a e s tru tu ra d a fa m ília b u rg u e sa foi que
sem in te n ç ã o consciente de p a rte dos p ais, jo g o u com os sentim entos
in te n so s de am o r e ódio que a c ria n ça e x p e rim e n ta v a po r seu co rp o e
p o r seus p ais, de ta l m odo que as reg ra s p a re n ta is foram inter*
n a liz a d a s e c im e n ta d a s no inconsciente, co m base em am bos os
se n tim en to s, am or e ódio, c a d a u m tra b a lh a n d o p a r a s u ste n ta r e
re fo rç a r o o u tro . O am o r (com o ideal d e ego) e o ódio (com o
su p ereg o ) a tu a ra m am b o s p a r a p rom over a titu d e s de resp eitab ili­
d a d e b u rg u e sa . A ssim , a fam ília gerou o b u rg u ê s 'a u tô n o m o ’, um
cid a d ã o m o d ern o q u e n ão necessitava de sanções ou apoios
ex te rn o s, m as estav a auto m o tiv ad o p a r a e n fre n ta r o m u n d o
co m petitivo, to m ar decisões in d e p e n d e n te s e b ater-se p ela aqu isição
do c a p ita l” , ]S Assim , a fam ília b u rg u e sa , definindo-se pelo iso la ­
m e n to , privilegiando a p riv ac id ad e, a d o m e sticid ad e e supervalo-
riz a n d o su as relações em ocionais in te rn a s , ao fo rm ar o cid ad ão
au to discipH üado estav a servindo p a r a ' ‘p ro m o v er os interesses da
nova classe d o m in a n te e re g istra r de u m m odo sem p aralelo os
conflitos de id a d e e sexo” .16
P o ste r ap resen ta-n o s a fam ília b u rg u e s a com o c ria d a po r u m a
nova classe que veio se estab elecer com o d o m in a n te , J u ra n d ir F reire
C o s ta 17 descreve a tra n sfo rm a ç ã o d a e s tru tu ra fam iliar d a classe
d o m in a n te b ra sile ira d o século X IX . M a n te n d o -se com o classe

(15) Id em , ib id em , p. 193.
(16) Id em , ibidem , p. 195.
(17) Costa, Jurandir Freire, O rdem m é dica e n o rm a famffiar, Rio de
Janeiro, Graal, 1979.
114 JOSÉ ROBERTO TOZONI REIS

d o m in a n te , os senhores coloniais b rasileiro s p a s s a ra m a a d o ta r o


m odelo de fam ília n u clear b u rg u e sa em su b stitu iç ã o à fam ília
colonial e x ten sa , servindo à fo rm aç ão de u m E s ta d o n acional. E ssa
tra n siç ã o foi d ese n c a d e a d a p elo m ovim ento h ig ien ista que, resp al­
d ad o n a a u to rid a d e m édica» p ro d u z iu u m a nova fam ília com
p a d rõ e s in tern o s q u e m u ito se assem elh av am à fam ília b u rg u e sa
e u ro p é ia : u m a rígida h ie ra rq u ia de id a d e e d e sexo e u m a pecu liar
c o m b in açã o e n tre am or e a u to rid a d e , q u e en sin av a m aos filhos a
re n ú n c ia ao p ra z e r corporal e m tro ca d a afeição p a re n ta l e q u e tem
p o r re su lta d o a am b iv alê n cia e o se n tim en to de cu lp a.
A té aq u i vimos a fam ília, p o r um lad o co m o institu ição que
tem p o r im p o rta n te fu n ção a rep ro d u ç ã o d a id eologia e p o r outro,
co n sid era m o s a d in â m ic a in te rn a d a fam ília b u rg u e sa . C om o se
a rtic u la m esses dois universos? P a ra re sp o n d e r a esta in terro g ação é
necessário re c o rre r à noção de p ap el social,
N ão h á consenso n a lite ra tu ra sociológica q u a n to à definição
de p a p e l. O uso do term o p a p e l so cia l é to m a d o p o r referência a
J. L. M oreno» que divide os p ap éis em três categorias: os psicos­
som áticos, os sociais e os p sic o d ra m á tic o s.18
T . S a le m 19 d e n o m in a ap en a s p a p e l o q u e é aq u i designado
com o p a p e l so cia l e expõe su a definição de fo rm a precisa: “ O
con ceito de p ap el engloba dois aspectos a n a lític a e em p iricam en te
d istin to s. R efere-se, de um lad o , às ex p ectativ as d e desem penho que
reca em sobre u m a to r pelo fato d e o c u p a r u m a d eterm in a d a
p o sição social. E ssas expectativas, q u e crista liz a m tipificações de
p a d rõ e s in teracio n ais, são veiculadas p o r o u tro s atores que, em
virtu d e d a re la ção p a rtic u la r que m a n tê m com o a to r em questão,
se co n fig u ra m em “ outros significativos” p a r a ele. Ê ex atam en te
essa q u a lid a d e que converte su as em issões em d e m a n d a s legítim as e
significativas p a ra o o c u p a n te d a q u e la posição. P o r o u tro lado, o
con ceito de p a p e l se refere ta m b é m ao desem p en h o efetivo levado a
cab o p o r um a to r no exercício de su a fu n ção . A idéia de

118) Os papéis psicossomáticos correspondem às funções biológicas da


espécie na satisfação das necessidades vitais, como comer, defecar, urinar; os
sociais correspondem aos padrões de conduta culturalmente produzidos e
reproduzidos e os psicodramâticos compreendem os papéis das categorias
anteriores sempre que revitalizados através do uso da imaginação criadora. Ver
Moreno, J . L. "Teoria y practica de los roles", in: M oreno, J . L , P s k o & a m a ,
Seção V , Buenos Aires, Éd. Hormé, 1972, pp. 213-241.
( 19> Salem, Tania. 0 vetho e o novo — u m estud o de papéis e conflitos
fam iliares, Petrópolis, Vozes, 1980.
O INDIVÍDUO e AS INSTITUIÇÕES tis

c o m p o rta m e n to , conform e é a q u i e n te n d id a , en globa não a p e n a s a


p r á tic a expressiva d o a to r, isto é, os d a d o s observáveis de seu
co m p o rta m e n to , com o ta m b ém as suas rep resen taçõ es, ou seja, a
m a n e ira p a rtic u la r com o r e tra ta e explica su a s p rá tic a s segundo su a
p ró p ria ló g ic a " .20 A lguns aspectos m erecem ser d estacados: os
p ap é is têm sem pre u m c a rá te r in te ra c io n a l, isto é, seu desem penho
exige u m c o n tra p a p e l que o co m p lem en te ao m esm o tem p o que
significam tam bém cristalizações de p a d rõ e s de co n d u ta . Além
disso, os p ap é is sociais são en g en d ra d o s pelas relações sociais e
in serid o s n u m a red e de significações. P o r isso, não podem ser
s e p a ra d o s d a ideologia d o m in an te, fo d e -s e d izer q u e os p ap éis
sociais, ao prescreverem fo rm as rígidas de co n d u ta com o as ú n ic as
a lte rn a tiv a s possíveis p a ra um sujeito n u m a d a d a situação, são a
p ró p ria ideologia co rp o rificad a.
Se o p ap el social e a ideologia m a n têm u m a certa id e n tid a d e , é
n a fam ília, local p riv ilegiado d e re p ro d u ç ã o ideológica, q u e se
desenvolve o a p re n d iz a d o do p rim eiro p a p e l social: o de filho, Na
fam ília b u rg u esa esse p a p e l é desenvolvido a p a rtir d a su b m issão aos
p a is, d e fin id a pelo exercício do controle so b re o pró p rio corpo em
tro c a do afeto p a re n ta l. E ssa e s tru tu ra relacio n al solidifica as b ases
p a r a o p len o desenvolvim ento do p a p e l de filho, p rescrito p ela
ideologia vigente. A su b m issão inicial se tra n s fo rm a em aceitação
dos valores dos pais e é a p re se n ta d a com o n a tu ra l e necessária. No
q u e consiste hoje, p o r exem plo, o p a p e l de filho n u m a fam ília
p e q u e n o -b u rg u e sa ? in ic ia lm e n te ele deve o b ed ec er aos pais, a p re n ­
d e n d o a c o n tro la r os esfíncteres, os im p u lso s sexuais e m an ter-se
lim po. Q u a n d o ingressa no m u n d o e x tra fa m ilia r espera-se que
re p re se n te b em su a fam ília sendo bom a lu n o n a escola — a p re n ­
d en d o as lições escolares e tran sferin d o ao s professores a relação de
o b e d iên cia a p re n d id a com os pais — e q u e seja m odelo de b om
c o m p o rta m e n to em to d a s as situações, e v ita n d o p re o c u p a r os pais.
O b e d iê n c ia aos pais significa, assim , ace ita ção de n orm as q u e já
estavam defin id as q u a n d o ele nasceu; ace ita ção sem q u estio n a­
m e n to , isto é, su b m issão , T u d o isso em tro c a do afeto dos p ais, O
q u e o p a p e l esconde é que ele é c o n stitu íd o a p a rtir das relações
sociais, d e te rm in a d a s p ela divisão social do tra b a lh o e p ela
d o m in a ç ã o de classe. A fam ília que circunscreve esse p ap el, p ro d u to

(20) Salem, Tania, op. c i t , pp. 25-26.


M6 JOSÉ ROBERTO TOZONI REIS

histórico, ap arece com o algo “ n a tu ra l” , d e ta l fo rm a q u e os papéis


sociais fam iliares ap a re c e m ta m b é m com o *‘n a tu ra is ” , ou seja,
com o invariáveis e in d e p e n d e n te s das relações sociais de classes. Isto
é a p u ra id eologia a tu a n d o . Já vim os com o o E sta d o d e te rm in a os
p ap é is sociais em função de seus interesses. Q u a n d o n ão pode fazer
isso atrav és de leis, u sa dispositivos que, in sin u a n d o -se no tecid o
social o n d e devem a tu a r, vão c ria r n o rm as p a r a as co n d u ta s dos
d ifere n tes m em bros d a fam ília. E o p ap el social fa m iliar n ã o apenas
o u to rg a essas n o rm a s, com o esconde o processo de su a con stitu ição
histórica.
O p o n to c u lm in a n te do a p re n d iz a d o d o papel social de filho
situ a-se n a trian g u la ç ã o e d ip ia n a n a q u a l o sujeito a p re n d e a in te r­
d iç ão b á sic a que lh e é im p o sta e reconhece a a u to rid a d e p a te rn a ,
in tro je ta n d o -a . A fo rm a com o os p ais d ese m p e n h a m seus papéis
n essa fase é de g ra n d e im p o rtân cia p a r a o estabelecim ento do
su p ereg o d a c ria n ç a e p a r a a fo rm aç ão do p a p e l de filho que será o
su p o rte p a r a o desenvolvim ento de o u tro s p a p é is sociais. N ão se deve
esq u e c e r q u e ta m b ém a a çã o dos p ais é re g id a p ela ideologia, que
prescreve as form as de a çã o p a re n ta l ta n to no que se refere ao$
cu id ad o s físicos dos filhos q u a n to aos a sp ecto s d a v id a em ocional.
P o rta n to , a fam ília n u c le a r b u rg u e s a in serid a n a s relações
sociais m a is am p la s vai m o d e la r o desenvolvim ento dos p ap éis
sociais d e seus m em bros em fu n ção de d eterm in a çõ es q u e a tra n s ­
cen d em , de fo rm a que “ os pap éis sociais, n a sua e s tru tu ra e
d in â m ic a s p ró p ria s n a d a m ais fazem do q u e re p e tir e co n cretizar,
n u m â m b ito m icrossociológico, a e s tru tu ra d e c o n tra d ição e o posi­
ção b á s ic a q u e se realiza n u m â m b ito m a io r e n tre papéis históricos,
c o n stitu íd a p ela relação d o m in a d o r-d o m in a d o ” .21 Q u a n d o a fam ília
b u rg u e sa leva su as funções às ú ltim a s co n seq ü ên cias, e n sin an d o a
su b m issão desde o início d a vida, faz co m que essa e s tru tu ra
rela cio n a l se tra n sfira p a r a os o u tro s p ap é is sociais, q u e terão tio
p a p e l de filho o seu m olde. A o fo rm a r o in d iv íd u o ob ed ien te e
a u to d isc ip lin a d o , com iniciativa a p e n a s p a r a b a te r-se pelos ideais d a
ascen são social e econôm ica, a fam ília e stá p re p a ra n d o o cid ad ão
passivo, acritico, con serv ad o r, sem e sp o n ta n e id a d e e in c ap a z de
c ria r, re p e tid o r de fó rm u las veiculadas p e la ideologia d o m in a n te ,

(21) Naftah Neto, Alfredo, Psicodram a — D esco lo n izan d o o im ag in á­


rio , São Paulo, Brasiliense, 1979, p. 193.
O IN D IV ÍD U O E AS INSTITUIÇÕES U7

p ro n to a seguir e ob ed ecer quem se a p re se n te revestido de a u to ­


rid a d e em defesa d a o rd em estabelecida.
Se a fam ília n u c le a r b u rg u esa hoje co rresp o n d e ao p a d rã o
d o m in a n te de e s tru tu ra fa m ilia r, d ifu n d id o e n tre o u tra s classes
sociais, u m a im p o rta n te q u e stã o a ser co lo c a d a refere-se à a m p li­
tu d e com q u e o u tra s classes foram im p re g n a d a s pelos p a d rõ es
fam ilia re s b u rg u eses. O u, até m esm o, em q u e nível a fam ília
b u rg u e s a m a n té m a tu a lm e n te os pad rõ es q u e a defin iram no século
p a ssa d o .
Novos e im p o rta n te s elem entos têm a p a re c id o co n stan tem en te
n o p a n o ra m a social, e a fam ília n ão fica im u n e a essas influências.
H oje pode-se p e rg u n ta r, p o r exem plo, q u a l é a conseqüência, p a r a a
vid a fam ilia r, do ingresso m aciço das m u lh e re s n a universidade e no
m e rc ad o de tra b a lh o . O n d e isto o correu, a m u lh er se livrou da
cla u su ra dom éstica. Pode-se p e n sa r en tão q u e ela se livrou tam b ém
d a d o m in ação m a scu lin a? H â denúncias d e que o sim ples ingresso
n o c a m p o do tra b a lh o extrad o m éstico veio p io ra r a in d a m ais suas
condições de vida, p o is ela c o n tin u a so z in h a n as obrigações do
tra b a lh o dom éstico, te n d o ag o ra duas jo rn a d a s de tra b a lh o , p rin c i­
p a lm e n te q u a n d o n ã o tem condições d e m a n te r u m a em p re g a d a
d o m éstica. P o d er-se-ia ta m b é m q u e stio n a r sobre as im plicações
d essa nova situ ação p a r a a ed u ca ção dos filhos, que deixaram d e te r
a in te n s a in te ra ç ã o com a m ãe, típ ic a do in ício d a fam ília b u rg u esa.
O u tro fa to im p o rta n te d a vida c o n te m p o râ n e a é a p resen ça d a
televisão n a g ra n d e m a io ria dos lares. E ssa p resen ça provoca um
ro m p im e n to d a s d istâ n cias c u ltu rais e o ferece o risco d a p a d ro ­
n iz a ç ã o dos valores e co stu m es, esm a g a n d o as c u ltu ra s periféricas.
P ode-se p e n sa r, a p a r tir dessa realid ad e, q u e os p ad rõ es fam iliares
c a m in h a m p a r a u m a progressiva p a d ro n iz a ç ã o , abolindo as fo rm as
p a rtic u la re s que c a ra c te riz a m grupos d e diferen tes regiões ou
segm entos sociais? E a s cria n ç a s e starã o m enos su b o rd in a d a s aos
p a is p o r estare m , em id a d e precoce, em c o n ta to com u m rep ertó rio
d e in fo rm açõ es q u e n ão seriam acessíveis às cria n ç a s de gerações
a n te rio re s?
O s m ovim entos fem inistas ta m b é m têm tido im p o rta n te
a tu a ç ã o no sentido d e d e sp e rta r as consciências p a ra a necessidade
d a tran sfo rm a ç ã o das condições de vida d a m u lh er, p rin cip alm en te
e n tre as classes m éd ias u rb a n a s e em setores do o p erariad o .
E sta s questões to d a s n ã o p o d em ser resp o n d id as de u m a só
ve 2 , d a d o su a ab ra n g ê n c ia . N o e n ta n to , é possível a b o rd a r algum as
delas, situ a n d o -as no c o n ju n to . U m a d essas p o ssibilidades refere-se
118 JOSÉ ROBERTO TOZON l REIS

á te n ta tiv a de e n te n d e r o s atu a is p a d rõ es fa m iliares. Nesse sentido


po d em o s c o n s ta ta r q u e a fam ília n u c le a r b u rg u e sa c o n tin u a
p re d o m in a n d o , ap e sa r d e alg u m as m odificações e ad ap taçõ es.
E m b o ra seja freq ü e n te m e n te c o n te sta d a e a in d a q u e sejam feitas
te n ta tiv a s p a r a v iabilizar novas fo rm as d e o rg an iz ação fa m iliar que
su p erem a d o m in ação e a rep ressão , a e s tr u tu ra fa m ilia r que associa
a m o r e a u to rid a d e a in d a prevalece, com alg u n s o u tro s traç o s típicos
d a fam ília b u rg u e sa o rig in al, com o a ríg id a divisão dos p ap éis
sexuais e a rep ressão à sex u alid ad e. No e n ta n to , isso n âo significa
que essa fam ília esteja n av eg an d o em m a re s calm os, com o no
p assa d o . E m b o ra m an ten d o -se, tra z a g o ra g rita n te s conflitos
in sta la d o s em seu in te rio r, que, em g e ra lT são d esencadeados pelas
gerações m a is novas. N esse sentido, são a s classes m édias que
a p re se n ta m com m ais ên fase os p a d rõ e s fam iliares burgueses e, ao
m esm o tem p o , e x p rim em m ais c la ra m e n te a existência desses
conflitos. E las d e m o n stra m de fo rm a m a is evidente a força d a
ideologia veiculada p e la fam ília, pois as novas realid a d es são vividas
com o exp eriên cias b a s ta n te conflitivas e a n g u stia n te s ao oporem a
n ecessid ad e de a d o ta r novas c o n d u ta s aos valores inculcados p ela
fam ília, n u m doloroso processo q u e reativ a o p rin cíp io d a ed u cação
b u rg u e sa que associa a m o r e au to rid a d e . P o r isso, é com um o
se n tim e n to de cu lp a a p re se n ta r-se com o e n tra v e m aior do que a
p ró p ria a çã o d ire ta dos p ais, no processo d e tran sfo rm a ção dos
valores. U m a das p rin c ip a is a rm a s do co n serv ad o rism o n a lu ta p e la
m a n u te n ç ã o dos p a d rõ e s trad icio n a is a in d a é a ed u ca ção d esen ­
volvida seg u n d o os m oldes d a fam ília b u rg u e s a . E m tra b a lh o
a n te r io r ,22 estu d a m o s as representações de fa m ília de p a rtic ip a n te s
de u m g ru p o de p sic o te ra p ia p s ic o d ra m á tic a , b em com o as ir r a ­
diações p a r a o u tro s p ap é is d as c a ra c terístic a s dos p ap éis fam iliares.
E m g ra n d e p a rte nossas observações são co in cid en tes ou co m p le­
m e n ta re s às elab o ra d a s p o r T . Salém em tra b a lh o desenvolvido com
o u tra m e to d o lo g ia .23 O s dois g ru p o s e stu d a d o s p e rte n cem à classe
m é d ia . Neles h av ia re p re se n ta n te s de d ife re n te s segm entos, desde
fu n cio n á rio s p úblicos até d ireto res de em p re sa s.

(22) Reis, José Roberto Tozoni, A fam ília e a reprodução da ideologia


— U m estud o através do p síco d ram at Dissertação de Mestrado, PUC, São
Paulo, 1983
(23) A autora entrevistou separadamente os membros das famílias
estudadas e comparou posteriormente as respostas. As entrevistas tinham
como temas diferentes aspectos da vida familiar.
O IN D IV ÍD U O E AS INSTITUIÇÕES 119

U m dos pontos colocados em d e sta q u e p o r esses estudos é â


a u to -re p re se n ta ç ã o d a fam ília, que se c o n tra d iz com as vivências
c o n c re ta s de seus m e m b ro s. Q u an d o se referein ao conceito d«
fa m ília , p re d o m in a a idéia de h a rm o n ia e de d isponibilidade
in c o n d icio n a l d e am o r e p ro teç ão e n tre seus m em bros. Q u a n d o se
fa la d a s relações co n cretas, faz-se referên c ia a conflitos, d o m in ação ,
sen sação de sufoco e o p ressão . Isso p ro v o ca o que ch am am o s de
te n d ê n c ia â d issim ulação: to d a vez que algum aco n tecim en to é
p e rc e b id o com o passível de colocar em risco a noção id e aliz ad a de
fa m ília , tu d o é feito p a r a que ele n ão seja p erce b id o . E m casos m ais
e x tre m o s os filhos re p rim e m q u a lq u e r se n tim e n to de h o stilid ad e
d irig id o aos p ais ou irm ão s. T u d o aquilo q u e difere d a idéia q u e a
fam ília faz de si m e sm a deve ser negado.
A p rev alência d a rígida divisão de p a p é is sexuais faz com que
a fam ília c o n te m p o râ n e a se assem elhe b a s ta n te à su a an cestral.
V árias c a ra cterísticas d o s p ap é is de hom em e m u lh e r p e rm a n eceram
im utáveis. O s ho m en s vivem do e p a ra o tra b a lh o , e sem ele a vida
n ão te m sentido. P o r isso tem em a a p o s e n ta d o ria pois e la é
a sso c ia d a à m o rte. P a ra eles n ão h á a p o ssib ilid ad e de vida sem os
seu s tra b a lh o s ,24 A fu n çào p rin cip al das m u lh eres, com o as su as
a n tecesso ras, c o n tín u a sendo a ed u ca ção d o s filhos. A lgum as tra ­
b a lh a m fo ra. U m as o faze m p o r necessidade econôm ica, m as o fato
d e a ju d a re m n a m a n u te n ç ã o m a te ria l d a fam ília n ão as lib era das
o brigações d om ésticas. P a ra o u tra s, o tra b a lh o foi u m a fo rm a de
c o m b a te r o vazio e a d ep ressão cau sad o s p elo crescim ento dos filhos.
N ão te n d o m ais su a fu n ção p rim o rd ia l p a r a desenvolver, foi n eces­
sário b u s c a r fora de c a sa o u tra o cu p ação p a r a não su cu m b ir. Em
vários casos, os filhos e m a rid o s eram o s m otivos pelos q u a is a
m u lh e r com eçava a tra b a lh a r: ficar em c a s a p o d e ria provocar vazio
o u téd io e com isso d e sa g ra d a r filhos e m a rid o .
E m am bos os tra b a lh o s citados, os ho m en s cara cterizam -se
p o r u m sen tim en to de au to -re alização e a u to n o m ia , acred itan d o -se
livres e a u to re s dos roteiros d e suas respectivas vidas. E sse
s e n tim e n to e ra m ais a c e n tu a d o n aq u eles q u e h aviam e x p erim en tad o
u m a ascen são econôm ico-social em re la ção a su as fam ílias de

(24) E impressionante a coincidência do significado atribuído ao


trabalho em duas situações bem diferentes: no trabalho citado de T. Salem,
quando foram entrevistados todos os país, e nas sessões de psicodrama que
estudamos, quando os filhos dramatizavam os papéis de seus respectivos pais.
120 JOSÊ ROBERTO TO ZONl REIS

origem . A o m esm o te m p o rela ta m se n tim e n to s de solidão e difi­


cu ld a d e s p a r a te r am igos. Q u a n d o os p ais sen tiam q u e haviam
d eixado de te r um benefício p elas d ific u ld a d e s d a vida p assad a,
faziam o possível p a ra q u e isso n ão faltasse a seus filhos. Isso fica
m u ito claro em relação ao d ip lo m a un iv ersitário . A queles p ais que
n âo o p o ssu íam e p o r isso valorizavam m a is as ativ id ad es “ p rá tic a s”
eram os m ais em p en h ad o s em q u e os filhos o obtivessem . O diplom a
un iv ersitário , além de ser co n sid erad o um in stru m e n to q u e facilita o
acesso a u m a m elh o r vida m a te ria l, é ta m b é m co n sid erad o com o
u m a m a rc a de distin ção social.
Já as m ulheres definem -se p e la d e d ic a ç ã o ao m arid o e aos
filhos; o objetivo p rin c ip a l de sua vida e s tá nos o u tro s, e p o r isso se
vêem com m enos au to n o m ia . S u a a tu a ç ã o cara cteriza-se pelos
aspectos em ocionais, ao c o n trá rio dos m a rid o s. E ssas diferenças se
a p re se n ta m em relação de c o m p le m e n ta rid a d e até m esm o no
exercício do co n tro le so b re os filhos. E n q u a n to o pai u sa explici­
ta m e n te sua a u to rid a d e , a m ãe la n ç a m ão de fo rm a s in d ire ta s, com o
a sed u ção e a ch an tag em e m o c io n a l.25 E ssas características fem i­
n in a s m a n têm -se m esm o nos casos em q u e a m u lh e r é tã o
responsável q u a n to o ho m em p ela m a n u te n ç ã o m a te ria l d a fam ília,
isto é, q u a n d o tem gan h o s equivalentes aos do m a rid o .
A fam ília a tu a no sen tid o do a p re n d iz a d o diferenciado dos
p a p é is sexuais ao tr a ta r d ifere n tem en te filhos e filhas. E n q u a n to os
filhos são estim u la d o s a serem in d e p en d en te s (sem c o n tu d o ro m p e r
com o s valores d a geração m ais velha), as filh as são resg u a rd a d a s e
os p ais desenvolvem u m esforço sistem ático p a r a retê-las no universo
fa m ilia r. A vida pro fissio n al e su a p re p a ra ç ã o (os estudos) cons­
titu e m a p rin cip al p reo cu p a ç ã o e o b jeto d a vigilância dos pais em
rela ção aos filhos, e n q u a n to q u e p a ra as filh as a p rin c ip a l preo cu ­
p a ç ã o refere-se à vida afetivo-sexual. Se a fo rm a ç ã o u n iv e rsitária ê
tid a com o n ecessária p a ra os filhos, p a ra as filh a s tem o sentido de
p ro p o rc io n a r sta tu s ao p a í ou ao m a rid o . P a ra elas, o diplom a deve
ser u sa d o , com o exercício profissional, a p e n a s em caso de neces­
sid ad e.
O s filhos rep ro d u zem a au to -im ag e m do p ro g e n ito r do m esm o
sexo: e n q u a n to os filhos sentem -se livres e donos de seus pró prios

(25) No grupo que estudamos, um dos sujeitos relatou que quando os


irmãos começavam alguma briga, a mãe "ficava nervosa“ ou ameaçava
desmaiar e assim acabava com qualquer briga.
O INDIVÍDUO e a s in s t it u iç õ e s 121

d estin o s, as filhas sen tem a v id a d e te rm in a d a p o r o u tro s e lim ita d a


p e la família» P a ra os filhos a opção p ro fissio n al é sen tid a com o
exercício d a lib e rd a d e e d a au to n o m ia, p a r a as filhas a esco lh a
p ro fissio n al se c a ra c te riz a p o r sentim entos d e in seg u ran ç a.
A sex u alid ad e c o n tin u a o cu p an d o p a p e l d estac ad o n a fam ília
c o n te m p o râ n e a . A in d a é vista com o algo a ser co n tro lad o , p rin c i­
p a lm e n te p o r p a rte d a s m u lh eres. A v irg in d a d e das filhas co n stitu i
g ra n d e p re o c u p a ç ã o p a r a os pais. E m todos os casos de p acientes de
p sic o te ra p ia q u e e stu d am o s, a sex u alid ad e se co n stitu ía em núcleo
d e conflito. E xistem , em g eral, d u a s referên c ias a ela: u m a à
se x u a lid a d e g e n ericam e n te re fe rid a , a sex u a lid a d e a b stra ta , q u e é
a p re s e n ta d a com o alg o n a tu ra l e p raze ro so ; o u tra à vivência con­
c re ta d e c a d a um : n e la a sex u alid ad e é c a u s a d o ra de sen tim en to de
c u lp a e de a n g u stia . E ssa p ercep ção d a se x u a lid a d e foi desenvolvida
n o seio d a fam ília , e m b o ra d e fo rm a sutil. T o d o s ap re n d e ra m a ver
o sexo com o erra d o e p ecam inoso, e m b o ra não se lem b rassem de
q u a lq u e r co n d en a ção d a s atividades sex u ais fa la d a ab e rta m e n te . H á
u m a nova re a lid a d e em relação à fam ília b u rg u e s a original, q u e às
vezes faz d a sex u alid ad e um fato r de m u d a n ç a fam iliar. C om a
lib e ra liz a ç ã o dos co stu m es sexuais tem a u m e n ta d o progressiva­
m e n te as p o ssib ilid ad es de tran sg ressão d o s p a d rõ e s sexuais re s tri­
tivos. No caso d a p e rd a d a virgindade fem in in a , h á sem pre um
c h o q u e e a in sta la ç ã o d e u m a crise fam iliar, a p a r tir do m om ento em
q u e o fa to se to m a conhecido. E ssa situ a ç ã o pode provocar d ife­
re n te s desfechos que vão desde a m a rg in a liz a ç ã o e expulsão d a filha
tra n sg re sso ra (o q u e se to rn a ca d a vez m a is incom um ), até a u m a
a d a p ta ç ã o d a fam ília à nova situ ação . N este caso, a fam ília a c a b a
p o r re fo rm u la r o p a d rã o q u e associa v irg in d a d e e possib ilid ad e de
ca sa m e n to .
O u tro p o n to crítico do re la c io n a m e n to e n tre pais e filhos é a
lig ação destes com m em bros de fo ra do g ru p o fam ilia r. As am izades
sã o o b jeto de co n sta n te vigilância e m u ita s vezes elas são resp o n ­
sa b iliz a d a s p elas c o n d u ta s reprováveis dos filhos. Isto se d á p rin c i­
p a lm e n te p o rq u e os g ru p o s d e p ares q u e se fo rm am a p a rtir da
ado lesc ên cia são bases de apoio p a r a a oposição dos filhos aos p ais.
E sses grupos' providenciam im p o rta n te s tro c a s afetivas e n tre seus
co m p o n en tes e p o r isso p o d e m su b stitu ir (p e lo m epos ftírc ía lm e n te )
o g ru p o fa m ilia r. N a re a lid a d e eles p e rm ite m q u e os filhos se sin ta m
m a is in d e p e n d e n te s d a fam ília, à m e d id a q u e e sta deixa de s e r a
ú n ic a fo n te de afeto. N ão d ep en d en d o m a is exclusivam ente d a
122 JOSÊ ROBERTO TOZONI REIS

fam ília, com o em g eral o co rre d u ra n te a in fâ n c ia , os filhos j á po d em


q u e stio n a r os valores que a fam ília lhes im p d e ,26
N os processos de p sico terap ia , a fam ília é o núcleo d a gran d e
m a io ria d a s queixas. E m g eral a fam ília é p e rc e b id a pelo viés da
ideologia. Ás posições o c u p a d a s p o r seus m e m b ro s no c o n ju n to das
relações fam iliares sâo tid a s com o fixas e, p o rta n to , im utáveis. Os
filhos, n a su a m a io ria sentem -se im p o ten tes d ia n te de tal situação,
ao m esm o tem p o q u e se sen tem com o vítim as do p o d e r p a te rn o que
as o p rim e. A ssim fazendo, n ão perceb em o q u a n to ta m b ém co n tri­
buem p a r a a m a n u te n ç ã o d e tal rea lid a d e , ao c o m p le m e n ta r o pap el
m a te rn o com o de filho subm isso, Im obilizado pelo sen tim en to de
c u lp a . Os sujeitos tin h a m d ificu ld ad e p a r a p e rc e b e r a real fu n ção da
m ãe n o controle sobre os filhos, pois a trib u ía m a ela a sim ples
c o n d ição de vítim a do p o d e r p a te rn o . D e fato , n a m a io ria dos casos,
as m ã e s ta m b é m são v ítim a s do p ai. M as, ao m esm o tem po, elas
a ju d a m a exercer o co n tro le sobre os filhos. P a ra essa finalidade,
p o d e m ter até m esm o um pap el m a is im p o rta n te q u e o do pai,
pois u sa m d e m eios m ais s u tis .27
A ssim , podem os co n c lu ir q u e c e rta s c a ra c te rístic a s fu n d a ­
m e n ta is d a fam ília b u rg u e sa típ ic a do século p assa d o , que criou
novos p a d rõ e s p a r a a v id a fam iliar, ad e q u a d o s às necessidades da
nova classe d o m in a n te , c o n tin u a m p re se n te s n a s fam ílias co n tem ­
p o râ n e a s. E n tre ta n to , essa presen ça se d á p a rc ia lm e n te , p o rq u e
hoje sã o o u tra s as condições h istó ricas. O m o d o d e p ro d u ção
econôm ico c o rresp o n d en te aos interesses b u rg u ese s p arec e debater-
se com d ificu ld ad es c a d a vez m aiores p a r a s u a sobrevivência. À
e s tru tu ra fa m ilia r b u rg u e sa , assim com o o m o d o d e vida q u e a
o rig in o u , é asse d ia d a p o r todos os lad o s, inclusive in tern am e n te.
A lg u m as m u d a n ç a s já se p ro c e ssa ram e o u tra s se fazem pressentir.
M as a in d a c o n tin u a vigindo a ríg id a h ie ra rq u ia de sexo e d e idade,
assim co m o a associação e n tre am o r e a u to rid a d e . A m bos, atu a n d o

{26} Uma das pacientes do grupo estudado revelou que sua solidão e
sua dificuldade para estabelecer relacionamentos afetivos estáveis foram
aprendidas na infância: os pais lhe ensinaram que apenas membros da família
poderiam se gostar e que "estranhos" apenas teriam interesse por ela. Isso
ocorreu quando ela ingressou no jardim da infância e contou em casa que
gostava muito da professora e se sentia g o s ta d a por ela.
(27) Um estudo de Naffah Neto ('J0 drama da família pequeno-bur-
guesa", in Naffah Neto, A. Psicodram att 2 a r. São Paulo, Ed. Ágora, 1980)
evidencia a existência de um poder reservado para a mãe no espaçodomôstico,
correspondente ao de "chefe" ideológico da família.
O IN D IV ÍD U O E AS INSTITUIÇÕES m

a sso ciad a m en te, a in d a p ro d u zem so frim en to e an g ú stia, ao m esm o


te m p o q u e fornecem as b ases p a ra o a d e stra m e n to ideológico.
E m b o ra reco n h ecen d o as determ inações eco n ô m icas d a e s tru tu ra
fa m ilia r, n ào po d em o s e sp e ra r que as tra n sfo rm a ç õ e s econôm icas
p ro d u z a m , p o r si m esm as e de form a a u to m á tic a , as m u d an ças n a
v id a fa m ilia r em d ireção a u m a fam ília m a is to le ra n te e p ro m o to ra
d o b e m -e sta r em ocional de seus m em bros. N o e n ta n to , constatam os
ta m b é m a ocorrência d e alg u m as tra n sfo rm a ç õ e s n a fam ília d en tro
de um m esm o m odo de p ro d u ç ã o econôm ico, com o é o caso da
fa m ília b u rg u esa.
M as sabem os ta m b é m que u m a e s tru tu ra fam iliar p re d o m i­
n a n te , q u e prom ova inco n d icio n alm en te o b em -e star de seus
m e m b ro s, a p e n a s será possível q u a n d o ela não m ais se definir p o r
u m fech am en to e u m a oposição ao m u n d o ex tra fa m ilia r, ou seja,
q u a n d o v oltar a in te g ra r seus m em bros n a c o m u n id ad e que a c ir­
cunscreve, o q u e n ão significa v oltar a m odelos historicam ente
su p e ra d o s. E isso a p e n a s será possível q u a n d o a com petição d eixar
de ser o m o to r do re la cio n am en to e n tre os h o m en s.

Bibliografia

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124 JOSÉ ROBERTO TOZON1 REIS

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O processo de socialização
na escola: a evolução da
condição social da criança
M a rília G ouvea de M ira n d a

O processo de socialização d a c ria n ç a na escola tem m erecido


d o s pedagogos e psicólogos variados e stu d o s explicativos e n o n n a -
tivos. C o n tu d o , os d iferen tes enfoques teóricos e m etodológicos sào
c o n stru íd o s to m a n d o p o r b ase d e te rm in a d a s concepções ra ra m e n te
q u e stio n a d a s ou red efin id as: a idéia de in fân c ia, a finalidade da
escola, as relações e n tre cria n ç a , escola e sociedade e o p ró p rio
processo de socialização,
A au sên cia de an álise crítica destas questões confere a esta
a b o rd a g e m u m a visão a b s tra ta de, c ria n ça e escola. A id ealização de
u m a “ n a tu re z a in fa n til” e d e u m a fu n ç ã o socializadora da
e d u c a ç ã o , d e stitu íd a d e seu c a rá te r h istó rico e socialm ente d e te r­
m in a d o , red u z a te o ria a u m a fin alid ad e p ra g m á tic a e p ro fu n d a ­
m e n te ideológica: prom over a in teg ração d e u m a c ria n ça a b s tra ta a
u m a socied ad e h a rm ô n ica, via processo de escolarização, essencial­
m e n te neu tro .
E m vista disto, 1; s p ropom os a d isc u tir a socialização na
escola, a p a rtir d a av aliação das concepções que dão su p o rte teórico
e ideológico às a b o rd ag e n s n ã o criticas, psicológicas e pedagógicas,
sem p rete n sõ es de e sg o tar a questão. Nosso p ressu p o sto é q u e a
red efin ição do processo de socialização p a ssa p ela an álise da
p ro d u ç ã o d estas idéias básicas, ou seja, a reto m ad a dos d e te r­
m in a n te s históricos e sociais d a concep ção de c ria n ça e escola.
126 M A R lL lA GOUV EA D E M IRAN DA

A idéia de infância:
a condição social de ser criança
A idéia de in fâ n c ia , tal q u al a co n ceb em o s hoje, surge
s im u lta n e a m e n te ao se n tim e n to de fam ília e a o desenvolvim ento d a
e d u c a ç ã o escolar. C e rta m e n te n ão se tr a ta de u m a coincidência.
T a is tran sfo rm a çõ es re s u lta ra m d a o rg a n iz a ç ã o das relações sociais
de p ro d u ç ã o d a so cied a d e in d u stria l, N a Id a d e M éd ia e no início d o s
te m p o s m odernos, os filhos eram , ev id e n te m e n te , cuidados e
p ro te g id o s p o r seus p a is, no seio de u m a o rg a n iz a çã o fa m ilia r. M as
a existência de fam ília n à o im plicava u m se n tim e n to de fam ília qu e
u n isse em ocionalm ente seus m em b ro s em n úcleos isolados, o qu e
iria se desenvolver le n ta m e n te a p a rtir do século X V II, em to rn o do
se n tim e n to de in fân c ia (A riès, 1981).
A n terio rm en te à sociedade in d u s tria l, a d u ra ç ã o d a in fân c ia
se lim itav a à te n ra idade em que ela n e ce ssitav a dos cu id ad o s físicos
p a r a a su a sobrevivência. Logo que este desenvolvim ento físico fosse
a sse g u ra d o (a p ro x im a d am e n te aos sete an o s, segundo Ariès), a
c ria n ç a passav a a conviver d ire ta m e n te com os ad u lto s, c o m p a rti­
lh a n d o do tra b a lh o e dos jogos, em todos os m om entos. A a p re n ­
d izagem de valores e costum es se dava a p a r ti r do c o n tato com o$
ad u lto s: a c ria n ça a p re n d ia a ju d a n d o aos m ais velhos. Logo, a
so cialização acontecia no convívio com a sociedade, não sendo
d e te rm in a d a ou c o n tro la d a p ela u n id a d e fa m ilia r. N esta form a
coletiva de vida se m istu ra v a m id a d es e co n d içõ es sociais d istintas,
n ã o h av en d o lu g a r p a ra a in tim id ad e e a p riv a c id a d e .
A fajrrilia m o d e rn a , q u e se e sta b e le c e u n a b u rg u e sia a p a rtir
d o século X V IIi, veio in s ta la r a in tim id a d e , a vida p riv ad a , o
se n tim e n to de u n iã o a fetiv a e n tre o casal e e n tre pais e filhos. S ua
co n so lid ação acon teceu g ra ç a s à d e stru iç ã o d a s form as c o m u n itárias
tra d ic io n a is, reorganÍzando*se em fu n ção d a s necessidades d a
o rd e m cap ita lista .
S eg u n d o Ariès, a a p ren d izag em so cial vai d eix an d o de se
re a liz a r através do convívio d ireto com os ad u lto s, sen d o su b stitu íd a
p e la ed u c a ç ã o escolar, a p a rtir do fim d o século X V II. Sob a
in flu ê n c ia dos re fo rm a d o re s m o ra lista s, p a u la tin a m e n te se a d m itia
q u e a c ria n ça n ão e ra p re p a ra d a p a r a a v ida, c a b e n d o aos pais a
re sp o n sa b ilid a d e pela fo rm a ç ão m o ra l e e s p iritu a l dos filhos, o que
levou ao a p are cim e n to d e sen tim en to s novos nas relações en tre os
m e m b ro s fam iliares: o sen tim e n to m o d e rn o d e fam ília. O s p a is p a s ­
sa ra m a enviar seus filh o s à escola, o n d e rece b eriam a sólida
01N D T V ID U O E AS INSTITUIÇÕES

fo rm a ç ã o p ro c la m a d a pelo p e n sa m e n to m o ralista d a épOOft« A llim ,


seg u n d o esse m esm o autor, “ a fam ília e a escola retiraram Juntai A
c r ia n ç a d a sociedade dos a d u lto s ” (1981, p . 277)*
_ r
E im p o rta n te s a lie n ta r que tais tra n sfo rm a ç õ e s o co rreram em
p rim e iro lu g a r nas fam ilias b u rg u e sa s, se n d o q u e a a lta n o b reza e o
povo c o n serv aram p o r m ais tem po os an tig o s p ad rõ es. A ries observa
que o sen tim en to d e fam ília e de in fâ n c ia su rg em do m esm o
processo p elo q u al se desenvolveu o sen tim e n to de classe social d a
b u rg u e sia a scen d e n te. No século X V II, p o r exem plo, as cria n ças
ricas co stu m av am fre q ü e n ta r as escolas de c a rid a d e . No século
X V III, tal fa to j á n ã o era ad m itid o , p a s s a n d o os filhos d a b u rg u e sia
a fre q ü e n ta r os colégios, g a ra n tin d o o seu m onopólio.
As considerações destes fa to s h istó rico s nos p e rm item c o m ­
p re e n d e r com o a idéia m o d e rn a de in fâ n c ia foi d e te rm in a d a
so cialm en te p e la o rg an iz ação social c a p ita lis ta , definida pelos
interesses d e u m a classe ascen d e n te: a b u rg u e sia . C o ntudo, a idéia
de in fâ n c ia q u e se desenvolveu e ch eg o u a té nossos te m p o s não
e x p rim e seu fu n d a m e n to h istórico. Ao c o n trá rio , suprim e-o ao se
a p re s e n ta r com o se fosse um conceito e te rn o , u niversal e n a tu ra l.
E m co n seq ü ê n c ia, é dissimulada a d im e n sã o social d a rela ção da
c ria n ç a com o a d u lto e a sociedade.
A ssim , a c ria n ç a , que n a sociedade m edieval convivia co m os
ad u lto s em todos os m o m en to s, é a fa s ta d a d este convívio. Com isto,
p e rd e u a p o ssib ilid ad e d e o p in a r sobre decisões que lhe diziam
resp eito , foi e x clu íd a do processo de p ro d u ç ã o , as festas e jogos
fo ra m diferenciados» re sta n d o à c ria n ç a a condição de m e ra
c o n su m id o ra d e b e n s e id éias p ro d u z id o s exclusivam ente pelos
a d u lto s. T o m a -se , en tão , u m ser c u ja c o n d iç ã o social é reje ita d a,
pois é m a rg in a liz a d a econôm ica, social e p o litic am en te (C h a rlo t,
1971, p . 111).
C h a rlo t a n a lisa a im agem m o d e rn a d a c ria n ç a com o u m ser
u su a lm e n te d efin id o pelo q u e tem de c o n tra d itó rio : inocente e m á,
im p e rfe ita e p erfeita , d ep en d e n te e in d e p e n d e n te , h e rd e ira e in o ­
v a d o ra (id e m , p . 101). E sta d u p la face d a c ria n ç a é exp licad a p ela
su a p ró p ria n a tu re z a in fantil. A c ria n ç a e s ta ria desprovida de m eios
p a ra e n fre n ta r o m u n d o , p o r isso é n a tu ra lm e n te ino cen te e
n a tu ra lm e n te m á. A idéia de in fân c ia co m o fato n a tu ra l — e não
social — ju stific a to d a s as concepções c o m u n s sobre a cria n ça e tem
a fu n ção id eológica de d issim u la r a su a d esig u ald ad e social,
e n q u a n to ser à m a rg e m do processo de p ro d u ç ã o .
128 M A R lL IÀ G O U V EA D E M IRANDA

A pesar d e a id é ia de in fâ n c ia ser u m a rep resen tação dos


a d u lto s e d a so cied ad e, a c ria n ç a te n d e a in te rn a liz a r este m odelo e
a c a b a p o r to rn á-lo s u a realid ad e, em p a rte se id e n tifican d o e, em
p a r te se reb elan d o c o n tra os p rece ito s n a tu ra is q u e negam su a
co n d içã o social. E n q u a n to a assim ilação d a im ag em corresponde às
asp iraç õ es do a d u lto e d a sociedade, a re b e ld ia co rresp o n d e ao
te m o r d a n ão -assim ilação , q u e é p reciso a to d o cu sto ev itar. P a ra
C h a rlo t, “ a cria n ç a é, assim , o reflexo do q u e o a d u lto e a sociedade
q u e re m q u e ela seja e tem em q u e ela se to r n e ” ( id e m , p , 109). T a n to
a assim ilação do m od elo q u a n to a sua re c u sa são p le n am en te
ju s tific a d a s pela idéia de n a tu re z a in fa n til. Ideologicam ente* fica
le g itim a d a a n ecessid ad e de se a u x iliar a c ria n ç a no seu processo de
assim ilaçã o das n o rm a s e p e n a liz a r a q u e la s que as recusam , em
n o m e de u m a co n d ição n a tu ra l n a cria n ç a .
A ênfase à n a tu re z a in fan til e n c o n tra seu fu n d am e n to ,
seg u n d o m uitos a u to re s e m esm o a nível do senso com um , no
pro cesso biológico d e desenvolvim ento d a c ria n ç a . Sem dúvida, ela é
u m ser em fo rm ação biológica, a in d a n ão p le n a m e n te c o n stitu íd a do
p o n to de vista m a tu ra c io n a l. C o n tu d o , o desenvolvim ento biológico
n ã o co rresp o n d e a to d a re a lid a d e d a c ria n ç a . M esm o p o rq u e o
a sp ecto biológico se c a ra c te riz a com o u m c o m p o n e n te do desen­
volvim ento que sofre as determ in açõ es d a condição social do
in d iv íd u o . Na v erd a d e , o q u e c a ra c te riz a o h o m e m ê su a condição de
ser social, o que é em p a rte d e te rm in a d o p ela sua condição
b io ló g ica, m as n âo in te ira m e n te .
In d e p e n d e n te m e n te de su a origem social, a c ria n ç a passa p o r
u m p ro cesso de m a tu ra ç ã o biológica, em q u e seu desenvolvim ento
d e p e n d e d a m ed iação do a d u lto . C o n tu d o , e s ta m ediação se fa rá de
d ife re n te s m a n eiras (à s vezes, o postas) d e p e n d e n d o d a condição
social d a c ria n ça. N a so cied a d e c a p ita lis ta , d efin id a pelas relações
e sta b e le cid a s e n tre classes sociais a n ta g ô n ic a s, a origem d a criança
d e te rm in a u m a c o n d ição específica d e infância* N ão existe, p o r ­
ta n to , u m a n a tu re z a in fa n til, m a s u m a c o n d iç ã o d e ser cria n ça,
so cialm en te d e te rm in a d a p o r fatores q u e vão do biológico ao social,
p ro d u z in d o u m a re a lid a d e c o n cre ta. A ssim , a d ep en d ê n cia d a
c ria n ç a é u m fato social e n ão u m fato n a t u r a l.
E s ta distinção e n tre n a tu re z a e c o n d iç ã o in fa n til esclarece o
u so ideológico d a id é ia d e n a tu re z a in fa n til p a r a a dissim u lação d as
d ife re n te s condições a q u e são su b m e tid a s as c ria n ças em função de
su a origem de classe. F a la r do q u e é n a tu ra l n a c ria n ç a supõe a
ig u a ld a d e de to d a s as c ria n ç a s, a id e a liz a ç ã o de u m a c ria n ça
o in d iv íd u o e a s in s t it u iç õ e s 129

a b s tra ta . P elo co n trá rio , fa la r d a c o n d iç ã o d e c ria n ç a rem ete à


co n sid e ra ç ã o de u m a cria n ça c o n cre ta, so cialm en te d e te rm in a d a em
~ u m co n te x to de classés sociais a n ta g ô n ic a s.
A re p re se n ta ç ã o de in fân c ia su b ja c e n te às concepções p e d a ­
gógicas e psicológicas te n d e a re p ro d u z ir a im agem social de
in fâ n c ia de su a época, evoluindo h isto ric am e n te .
N a e d u c a ç ã o po d em o s d istin g u ir d u a s concepções d istin ta s de
c ria n ç a n a p e d a g o g ia trad icio n a l e n a p ed ag o g ia nova. A m b as
conservam a id é ia d e n a tu re z a infantil* S e g u n d o C h a rio t, to d a s as
d u a s a b o rd a m a c ria n ç a do p o n to d e v ista de su a “ e d u c a b ilid a d e e
sua c o rru p tib ilid a d e ” , a in d a que esta id é ia de co rru p ção seja
c o m p le ta m e n te diferente (id em , p . 116),
P a r a a P ed ag o g ia tra d ic io n a l, a id é ia de c ria n ç a é a id éia do
que ela dev erá ser se fo r a d e q u a d a m e n te e d u c a d a . Q u a n d o rele g ad a
à su a p ró p ria so rte é facilm ente c o rro m p id a pelo m al. C ab e à
e d u c a ç ã o e n sin a r n o rm as é c o n teú d o s m o ra lm e n te sadios que
c o n tra rie m su a n a tu re z a selvagem . l á a p e d a g o g ia nova vê a c ria n ç a
com o u m ser pleno p a r a a a u to -re alização em c a d a e ta p a de d e se n ­
volvim ento, É , p o rta n to , n a tu ra lm e n te b o a e in g ên u a, p o d e n d o ser
c o rro m p id a se n ão fo r p ro te g id a e re s p e ita d a . A ta re fa da ed u ca ção
é favorecer seu desenvolvim ento n a tu ra l e esp o n tân e o . N as d u as
ped ag o g ias, a c ria n ç a é, p o rta n to , d e fin id a com o um tem p o negativo
(p e d a g o g ia tra d ic io n a l) ou te m p o positivo (p e d a g o g ia nova) de u m a
n a tu re z a in fan til. A inda que seja inegável a co n trib u iç ã o da
p e d a g o g ia nova p a r a u m a visão m ais a d e q u a d a d a cria n ç a , e la não
esc a p a de u m a visão n a tu ra lis ta e b iológica d a in fâ n c ia ; d esco n ­
s id e ra n d o a co n d ição histórico-social d a c ria n ç a .
A psicologia m o d e rn a se desenvolve n o m esm o p erío d o em que
g a n h a fo rç a o m ovim ento d a escola nova, a p a rtir do fim do século
p a ssa d o , em p le n a con so lid ação do p o d e r b u rg u ê s. A c re n ç a na
e d u c a ç ã o com o e q u a liz a d o ra de o p o rtu n id a d e s é a b a la d a pela
in c a p a c id a d e d a e sc o la de c u m p rir s u a fu n ç ã o d e u n iv ersalid ad e,
co n fo rm e e ra p ro c la m a d o p e la ideologia liberal. O m ovim ento
escolanovista vem re s ta u ra r a cred ib ilid a d e n a escola, a firm an d o
q u e o fracasso de seus alunos se deve às d ifere n ças individuais.
A fu n ção d a nova escola será p ro m o v er a “ co rreção d a m a rg i­
n a lid a d e n a m e d id a em que c o n trib u ir p a r a a co n stitu ição de u m a
sociedade cujos m em bros, n ão im p o rta m a s diferen ças d e q u a isq u e r
tipos, se ace ite m m u tu a m e n te e se re sp e ite m n a su a in d iv id u alid ad e
esp ecífica" (S aviani, 1983r p. 12). A ên fase n a cap a c id a d e in d i­
v idual, n a h istó ria d os in divíduos, no p ro cesso de desenvolvim ento,
130 M AR lL IA G O U V EA D E M IRAN DA

n a idéia de a n o rm a lid a d e , faz com q u e a pedag o g ia vá b u sc a r


s u p o rte teórico n a B iologia e n a Psicologia. A Psicologia, p o r s u a
vez, sob forte in sp ira ç ã o positivista, re d u z a re a lid a d e social d o
h o m e m ao seu c o m p o n e n te psíquico. A ssim , a P sicologia m o d e rn a ,
q u e vem ao auxílio d a P ed ag o g ia nova será, p o rta n to , ig u alm en te
in d iv id u a lista , n a tu ra lis ta e biológica.

Socialização nSo é integração:


a criança já é sempre socializada

A P edagogia e a P sicologia tê m , q u a se sempre» tra ta d o o


pro cesso de socialização com o u m estág io d e in te g ra ç ã o d a c ria n ç a à
so cied a d e. Vim os q u e ta n to a P ed ag o g ia tra d ic io n a l q u a n to a
P ed a g o g ia nova se p re o c u p a ra m em fa z e r d a escola u m a passagem
d o m u n d o in fan til p a r a o m u n d o a d u lto , le v an d o em c o n ta o qu e a
so cied a d e esp e ra de seus m e m b ro s em defesa d a m a n u te n ç ã o de seus
in teresses.
N a sociedade m ed iev al, a id éia d e in te g ra ç ã o n ão te ria sentido
alg u m , u m a vçz q u e o e sp aço social e r a ig u a lm e n te eom p artÜ h ad o
p o r c ria n ç a s e ad u lto s. C om o vim os, a n e c e ssid a d e de in teg ração
su rg iu com a exclusão d a s c ria n ç a s do m u n d o dos ad ultos. A
in s titu iç ã o e n c a rre g a d a d e in iciar a c ria n ç a eg re ssa do m eio fa m iliar
n a v id a social a d u lta p a sso u a ser a escola.
N a a tu a lid a d e , a esco la c o n tin u a p ro p o n d o a in te g ra ç ã o social
— a socialização — com o u m a d e su as p rin c ip a is fin alid ad es. T a l
fin a lid a d e a tu a com o d issim u la d o ra d a re a lid a d e social, pois, a in d a
q u e m a rg in a liz a d a n a e s tru tu ra social m o d e rn a , a c ria n ç a sofre
c o n tin u a m e n te u m p ro cesso de socializa ção — desd e o seu nasci*
m e n to , a té m esm o a n te s, no ú te ro ou n a p ró p ria h istó ria d e s u a
m ã e . P o rta n to , com o a firm a C h a rlo t, “ a c ria n ç a é u m ser sem pre j á
so cializa d o ” (1979t p . 259). N âo se p o d e s u p o r, com o a P sicologia
q u a se sem pre o faz, u m desenvolvim ento social in d iv id u al q u e
dep o is se am p lia, se in te g ra , ao m u n d o social ad u lto . D esde sem pre
a c ria n ç a j â sofre u m p ro cesso de so cialização atra v és do q u al a s u a
o rig e m social d e classe d e te rm in a su a c o n d iç ã o d e ser social. A
fo rm a ç ã o d e sua p e rs o n a lid a d e social n ã o p a s s a p rim e iro p o r u m
e stá g io ind iv id u al p a r a depois se so cializar. A in d a q u e assu m a os
c o n to rn o s de su as c a ra c te rístic a s esp ecificas, ela é sem p re socia­
liz a d a . A firm ar o c o n trá rio é a c re d ita r n u m a c a p a c id a d e p ró p ria do
in d iv íd u o — n a tu ra l — p a r a a socialização. A m a rg in a lid a d e social
O IN D IV ÍD U O £ AS INSTITUIÇÕES IJi

seria, e n tã o , facilm e n te e x p lic a d a p ela in c a p a c id a d e de adaptaç& o


do in d iv íd u o às n o rm a s sociais. F ica, assim , p le n a m e n te ju stific a d a
a fin a lid a d e ideológica d a escola de p ro m o v e r a a d a p ta ç ã o do
in d iv íd u o à sociedade. A escola é u m a a g ê n c ia socializadora d e u m a
so ciedade que se a firm a d e m o crática. Se o pro cesso de sociali­
zação- in te g ra ç ã o n ã o é possível, p reserv a-se a escola e a o rd e m
d e m o crática, pois a re sp o n sab ilid ad e s e rá sem p re do indivíduo
in a d a p ta d o .
A fa s ta d a a idéia de socialização e n q u a n to integração» p o d e ­
m os re c u p e ra r a id é ia de socialização evolutiva, p ro p o sta por
C h a rlo t. P a r a ele, a socialização deve ser tr a ta d a com o u m processo
evolutivo d a c o n d içào social d a c ria n ça. A ssim , o p ro b lem a n ã o é
in v e stig ar com o a c ria n ç a se socializa, m as "co m o a sociedade
socializa a c ria n ç a ” {id e m , p . 259).
A Psicologia tem q u ase sem pre te n ta d o ex p licar com o a
c ria n ç a se socializa, a b o rd a n d o o p ro cesso pelo q u al ela se tr a n s ­
fo rm a em ser social. A P sicologia não su p e ra , p o rta n to , o a n ta ­
g onism o e n tre indivíduo e sociedade. N ão te m p o r objetivo u m a
an álise d ia lé tic a d a s relações e n tre a c ria n ç a e a sociedade, n u m a
p e rsp ectiv a de to ta lid a d e e h isto ricid ad e.
A P sicologia e stu d a a socialização d e u m a c ria n ç a que vive em
condições sociais específicas e n orm a tiza su as conclusões p a ra to d as
as cria n ç a s. É p erto que todas as c ria n ç a s vivem um p erío d o de
crescim en to , de desenvolvim ento d a p e rs o n a lid a d e n u m m u n d o
social a d u lto q u e a in d a não é in te ira m e n te assim ilad o , em q u a lq u e r
m eio social. M as este processo de desenvolvim ento se rá diferente de
ac o rd o com su a condição social. A P sicologia n o rm a lm e n te e s tu d a
e sta c o m p lex id a d e d e fato re s com o “ in flu ê n c ia do m eio” . Não
p e rc e b e q u e o processo de desenvolvim ento do indivíduo se inscreve
n u m p ro cesso històrico-social q u e o d e te rm in a e, p o r su a vez, é p o r
ele d e te rm in a d o . A ssim , o processo de socialização d a c ria n ç a é
co n c re ta m e n te determinado p ela su a co n d ição histórico-social.
A lém disso, e n q u a n to sujeito d a h istó ria , a c ria n ç a te m a p o ssib i­
lid ad e d e re c ria r seu processo d e so cialização e atra v és dele in te rfe rir
n a re a lid a d e social.
A firm a r q u e a c ria n ç a é sujeito d a ação p o d e cau sar c e rta
e s tra n h e z a n u m a sociedade q u e nega o p a p e l social d a in fâ n c ia . Isto
fica m a is explicito q u a n d o co n sid era m o s as d ifere n tes fo rm a s de
p a rtic ip a ç ã o d a c ria n ç a em condições sociais d istin ta s. As cria n ç a s
p o b re s d a c id a d e e d a z o n a ru ra l tra b a lh a m d esd e q u e te n h a m o
desenvolvim ento físico suficiente. M u ita s vezes su ste n ta m suas
132 M A RlLIA GO U V EA D E M IR AN DA

fa m ília s. R ep resen tara u m im p o rta n te c o n tin g e n te de tra b a lh a ­


d o res, q u ase sem p re su b e m p reg a d o s, e x p lo ra d o s p elas relações de
p ro d u ç ã o . P o r o u tro la d o , as c ria n ças dos difere n tes estrato s d a
classe m é d ia são c o n su m id o ra s m u ito im p o rta n te s, e n q u a n to filhos
de co n su m id o res, o q u e será sem p re le m b ra d o p ela p u b licid ad e ,
p e la in d ú s tria d e b rin q u e d o s, discos e livros, p elas escolas p a rti­
c u lares, etc. C om o tra b a lh a d o ra ou com o c o n su m id o ra , a c ria n ça
p a rtic ip a ativ am e n te e n q u a n to ser social a tu a n d o m ais ou m enos de
a c o rd o com seu estágio d e desenvolvim ento físico.
C oncluindo, o p ro c e sso de so cializa ção d a c ria n ç a n âo pode
ser tr a ta d o senào d e n tro d a p ersp ectiv a d a a n álise d ia lé tic a d as
rela çõ es de recip ro cid ad e estab e lecid as e n tre a c ria n ç a e a sociedade
d e classes, o processo d e socialização só p o d e ser tra ta d o com o u m
p ro cesso evolutivo d a co n d ição social d a c ria n ç a , c o n sid era n d o a s u a
o rig e m de classe.

A escola e sua flnaUdade social


A escola c e rta m e n te n ão é n e u tra . E la a tu a com o um
in s tru m e n to de d o m in a ç ão , fu n c io n a n d o co m o re p ro d u to ra d as
classes sociais, atra v és d o s processos de seleção e exclusão dos m ais
p o b re s e, ao m esm o te m p o , d a d issim u la ç ã o desses processos. Con-
tu d o , esse p a p e l n ão se realiza p e rfe ita m e n te , pois ta n to a escola
q u a n to o sa b e r p o r ela m in istra d o c o n stitu e m p a rte s org ân icas de
u m to d o social defin id o p e la c o n tra d iç ã o b á s ic a , c o n tid a n a relação
e n tre d o m in an tes e d o m in a d o s.
S av ian i c o n c e itu a a ed u cação co m o “ u m a ativ id ad e m e d ia­
d o ra n o seio d e u m a p rá tic a social g lo b a l” (1980, p. 120). A
m e d ia ç ã o ocorre tio â m b ito das relações q u e p ro d u z e m o m ovim ento
d e u m a to ta lid a d e q u e se tra n s fo rm a em o u tra e, co n seq ü en tem en te,
no â m b ito das relações e n tre difere n tes fenômenos que co n stitu em
m a n ife sta ç õ e s d e sta to ta lid a d e . As relações d e m e d iaçã o expressam
n ece ssa ria m e n te o m ovim ento de opo sição d e c o n tra d içõ es irrec o n ­
ciliáveis em b u sca de u m a síntese s u p e ra d o ra .
A escola c o n stitu i u m a das m e d iaçõ es possíveis n a efetivação
do c o n flito en tre as classes sociais. Isto se d á p o rq u e a escola
c o n fig u ra u m a m a n ife sta ç ã o do m o v im en to d a to ta lid a d e social,
re p ro d u z in d o in te rn a m e n te o c o n fro n to e n tre interesses opostos.
P o rta n to , a escola q u e a te n d e às fin a lid a d e s d o s d o m in ad o res pode
ta m b é m re p re s e n ta r u m e sp aço vivo e d in â m ic o p a r a os dom in ad o s.
O IN D IV ÍD UO E AS INSTITUIÇÕES 199

A definição dos fins sociais d a e d u c a ç ã o im plicam , p o li, â


pro p o sição dos interesses d e u m a d e te rm in a d a classe social. O
acesso à escola e a q u a lid a d e de ensino tê m sido reivindicações das
classes p o p u la re s. C ontudo, a escola tem resp o n d id o a estas
asp ira ç õ e s com a experiência do fracasso e d a m a rg in a lid a d e , cuja
re sp o n sa b ilid a d e é a trib u íd a à p ró p ria c ria n ç a ou ao seu m eio social.
E m n o ssa opiniào, a escola tem três ta re fa s b ásicas a
d e s e m p e n h a r a favor dos interesses das classes p o p u lares. P rim e i­
ra m e n te , deverá fac ilita r a a p ro p ria ç ã o e valorização das c a ra c ­
te rística s sócio-culturais p ró p ria s das classes p o p u la re s. E m se­
g u n d o lu g a r, e co m o conseq ü ên cia d a p rim e ira , a escola deverá
g a ra n tir a a p re n d iz a g e m de certo s c o n te ú d o s essenciais d a c h a m a d a
c u ltu ra b á s ic a (le itu ra , e scrita, o p eraçõ es m a te m á tic a s, noções
fu n d a m e n ta is de h istó ria, geografia, ciência«, etc.). F in alm en te,
deverá p ro p o r a sín te se e n tre os passos a n te rio re s, p o ssib ilitan d o a
crítica dos co n teú d o s ideológicos p ro p o sto s p ela c u ltu ra d o m in a n te e
a re a p ro p ria ç ã o do sa b e r que j á foi a lie n a d o d a s classes p o p u la re s
pela d o m in a ç ã o (M ira n d a , 1983, p p . 54-55).
O fa to de e ssas funções n ã o c o n s titu íre m hoje u m a p rá tic a
c o n c re ta n a s escolas não nos im pede de la n çá-las com o projeção
d aq u ilo q u e p o d e rá vir-a-ser, u m p ro d u to d e n o ssa vontade e de
nossa ação* E s ta possibilidade dev erá se r b u s c a d a d e n tro d a escola,
pois este vir-a-ser e stá contido no seu m o v im en to real.
A ta re fa de p ro p o r u m a e d u c a ç ã o v o lta d a p a r a os in teresses
p o p u la re s re q u e r a e la b o ra ç ã o de u m a P e d a g o g ia a d e q u a d a a esses
fins. P a r a C h arlo t, a tra d u ç ã o de fins sociais em fins pedagógicos
pode ser e scla recid a e d e p u ra d a pelo co n h e c im e n to d a P sicologia d a
c ria n ç a (1979, p . 227). M as, c e rtam en te, u m a Psicologia que leve
em c o n ta a co n d ição social d a in fân c ia. A P sicologia n ão define,
p o is, os fin s d a ed u cação , m a s pode c o n trib u ir no sentido de fa z e r
com q u e eles sejam realizáveis.

As relações entre criança, escola e sociedade:


o processo de socializaçZo
N o convívio com a família» a c ria n ç a in te m a liz a p a d rõ es de
c o m p o rta m e n to , n o rm a s e v alores d e su a re a lid a d e social deco rren te
d e su a co n d ição de classe, A té m esm o a n te s de nascer, ta is
co n d içõ es estão p resen te s. E s te p ro cesso o co rre n ecessariam en te
p e la m e d ia ç ã o do o u tro . De a c o rd o com S pitz, a au sê n c ia d a fig u ra
134 M A RlLIA GOUV EA DE M IR AN DA

m a te rn a 110 p rim e iro a n o de vida a c a r re ta sérios d istú rb io s e m o ­


cio n ais p a ra a c ria n ç a . A p resen ça do o u tro (u m ad u lto , q u a se
sem p re) é veículo p a r a 0 e stab e lecim en to dos vínculos básicos e
essenciais en tre c ria n ç a e m u n d o social, a tra v é s dos qu ais ela p assa a
se reco n h ecer e a re c o n h e c e r 0 o u tro n u m a re la ç ã o de reciprocidade.
C om o vim os, ta l p ro cesso de in te rn a liz a ç ã o , viabilizado p e la
m e d ia ç ã o do o u tro , é d e te rm in a d o p elas condições sociais esp e ­
cíficas d a c ria n ça. A ssim , a classe social e m q u e se in sere a fam ília
irá d e te rm in a r os asp ecto s in te rn a liz a d o s, o veículo de intern ali-
zaç ão e o p ró p rio p ro cesso de in te rn a liz a ç ã o n a socialização b á sic a
d a cria n ç a .
N a escola, a c ria n ç a vive u m p ro cesso de socialização q u a lita ­
tiv a m e n te distinto, p a ssa n d o a in te rn a liz a r novos conteúdos, p a ­
d rõ e s de c o m p o rta m e n to e valores sociais. S e rá s u b m e tid a a novos
p rocessos de in te rn a liz a ç ã o d a re a lid a d e social, p ela m ediação de
novos veículos sociais.
U m a crítica à esco la c a p ita lista é q u e ela im põe u m a c u ltu ra
q u e co n sid era leg ítim a, to rn a n d o ileg ítim a q u a lq u e r o u tra m anifes­
ta ç ã o cu ltu ra l. D esse m o d o , a escola p ú b lic a n ega m uitos conteúdos
e valores já socializados e p ro p õ es novos p a d rõ e s de socialização.
U m a escola d em o c rá tica , c o m p ro m e tid a com os interesses p o p u ­
la re s, deverá re co n h e cer a legitim id ad e desses aspectos já sociali­
zados. P orém , isto n ã o im plica re a firm a r os p a d rõ es já socializados
no sen tid o de p re se rv a r u m a “ c u ltu ra d o m in a d a ” em ergente, m a s
d e conhecer com p ro fu n d id a d e os p a d rõ e s de socialização da
c ria n ç a . Isto p o ssib ilita ria e x tra ir os asp ecto s que irào direcio n ar a
p rá tic a p edagógica e, a té m esm o, aspectos q u e p re c isa rã o ser su p e ­
ra d o s p a ra que seja possível a ta re fa d a e sco la de a sse g u ra r ao alu n o
a ap ren d izag em de u m co n teú d o m ín im o . A escola devefá, p o rta n to ,
a tu a r crítica e reflexivam ente n a objetiv ação dos conteúdos, norm as
e valores in te rn a liz a d o s n a rela ção e n tre c ria n ç a e escola.
D a mesma fo rm a , é preciso re p e n sa r e re c ria r o s processos de
in te rn a liz a ç ã o e seu s veículos sociais> o u , m ais p recisa m en te, a
m etodologia de ensino, as n o rm as d isc ip lin a re s, os processos de
s e d u ç ã o e coação, etc ., veiculados p o r to d o s os in teg ran te s da
esco la, p rin c ip a lm e n te p ela fig u ra do pro fesso r.
A cred itam o s q u e a P sicologia tem u m a im p o rta n te co n tri­
b u iç ã o a d a r, u m auxílio à P ed ag o g ia, n a red efin iç ã o d e todos estes
a sp ecto s relativos à socialização d a c ria n ç a n a escola. P ro b lem as
com o in d iscip lin a, violência, rivalidade, co m p etiç ão , descom pro-
m isso, individualism o, a u to rita rism o e stã o p resen te s no cotidiano
O IN D IV ÍD UO E AS INSTITUIÇÕES 135

d a s escolas p ú b lic a s b rasileiras. T ais q u estõ es são tra ta d a s e m p iri­


c a m e n te ou, se ta n to , são psicologizadas sob diferen tes m atizes
teóricos. R a ra m e n te são alvo de u m a a n á lis e c ritic a ou de p ro p o sta s
de a ç ã o refle tid a s n a p ersp ectiv a de u m a re a lid a d e histórico-
social. Q u a l é, p o is, o significado d estes “ p ro b le m a s de so ciali­
z a ç ã o " ? Se co n sid era rm o s a p re c a rie d a d e d o e n sin o p ú b lico n o p aís,
a p éssim a q u a lid a d e de v id a d a c ria n ç a e to d o o co n tex to d a
a tu a lid a d e , som os levados a a firm a r q u e ta is “ p ro b le m a s de
so cializa ção " são sinais d e saúde» resq u ício s de u m a v italid ad e
n e g a d a , fo rm as de resistên cia. C o n tu d o , são fo rm as que a tra p a lh a m
e a té m esm o im p e d e m o processo de e sc o la riz a ç ã o d a c ria n ç a , que,
em n o ssa opinião» p re c isa ser a sseg u rad o . P ossivelm ente, a re le itu ra
desses sinais n os in d ic a rã o novas m a n e ira s de re p e n sa r o processo de
socialização d a c ria n ç a na escola.

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Relações de trabalho
e transformação social
W a n d e r te y C o do

A Psicologia é a ciência q u e e s tu d a o co m p o rta m e n to


hum ano.
M a s que c o m p o rta m e n to h u m a n o e s tu d a r? C om o in iciar a
an álise?
F açam o s u m exercício, fech em o s p o r a lg u n s m o m en to s os
livros q u e j á foram escrito s a resp e ito d e P sicologia e pensem os
in g e n u a m e n te no c a m in h o a seguir.
C om eço p o r m im , agora: escrevo u m te x to que deve fazer
p a r te de m in h a tese d e d o u to ra m e n to .

O cenário
E sto u sen tad o e m u m a ca d e ira, com u m a c a n e ta n a mão»
fre n te a u m bloco de p a p e l; u m a e sta n te , livros, p ared es, in te rru p to r
d e lu z , lâ m p a d a acesa. T u d o q u e co m p õ e o a m b ie n te em que estou
te m u m a c a ra c te rístic a em co m u m , é o re su lta d o do tra b a lh o
h u m a n o . P a ra q u e existisse q u a lq u e r u m desses objetos, hom ens se
re u n ira m , se Q rganizaram , o tra b a lh o foi dividido, realizado e
v e n d id o . N ão fosse a o rg an iz ação social q u e p ro d u z iu a c a d e ira, eu
n âo e s ta ria sen tad o , ou a c a n e ta e eu n ão escreveria, ou o p ap el, ou
as p ared e s.* . Posso c o n clu ir q u e m e c o m p o rto dessa fo rm a p o rq u e
os h o m e n s tra n s fo rm a ra m a n a tu re z a , c o lo c a ra m -n a a m eu serviço,
e q u e m e c o m p o rta ria de o u tra , se o tra b a lh o h u m a n o produzisse
o u tro s resu ltad o s.
O IN D ÍV ID UO E AS INST ITUIÇÕES 137

P a rtin d o do q u e m e c irc u n d a im e d ia ta m e n te , en co n tre i a


re s p o s ta p a r a a p e rg u n ta fo rm u la d a no in ício.
O psicólogo deve e stu d a r o tra b a lh o h u m a n o . Q u em en te n d e r
com o os h o m en s tra n sfo rm a m a n a tu re z a , com o se o rg a n iz a m p a ra
p ro d u z ir, e n te n d e rá m u ito sobre co m o e p o r q u e o hom em se
c o m p o rta .
M as o cen ário n ã o é o único p o n to d e p a rtid a , posso p re sc in d ir
do a m b ie n te im e d ia to e to m a r com o p o n to d e referên cia o gesto
m esm o, m e u c o m p o rtam e n to .

O que faço?

1) E screvo, o u seja, im p rim o em u m p a p e l (p-a-p-e-1), u tiliz o


um in s tru m e n to c a p a z de m a rc a r (c a n e ta ), m ovim ento m in h a
fe rra m e n ta e provoco u m a m u d a n ç a no espaço de que disponho.
D e sc u b ro q u e faço com a c a n e ta e o p a p el o m esm o q u e o
m a rc e n e iro fez p a r a p ro d u z ir a c a d e ira em q u e sento: utilizo as
p ro p rie d a d e s e n c o n tra d a s n a n a tu re z a e d o u a elas u m sentido novo,
tra n sfo rm o a n a tu re z a à m in h a im ag em e sem elh an ça. C hego à
m e sm a conclusão, devo e s tu d a r o tra b a lh o do hom em .
2) E screvo, im p rim o sinais em u m (p-a-p -e-l), m as não
im p rim o q u a lq u e r sin a l, u so sím bolos q u e fo ra m desenvolvidos
a n tig a m e n te e que m e fo ra m en sin a d o s n a in fân c ia, unifico os
sím bolos de d e te rm in a d a m a n e ira , q u e ta m b é m tê m a m e sm a
históri a. E screvo p a p e l e você lê p a p e l , so freu ex p eriên cia p ró x im a
d a m in h a , foi a lfa b etizad o com o eu. E u escrevo e você lê p o rq u e n o ssa
so cied a d e se o rg an izo u p a r a co letivizar as experiências q u e a
H istó ria p e rm itiu a o s nossos a n te p a ssa d o s. E eis-m e d e novo fala n d o
de H istó ria , de tra b a lh o , do H o m em q u e se h o m in iz a ao h u m a n iz a r
a n a tu re z a .
E n fim , sob q u a lq u e r a sp ecto q u e e x a m in e m eu c o m p o rta ­
m en to , de q u a lq u e r p o n to que e u p a r ta — do ag o ra, do p a ssa d o , do
fu tu ro , do m e u c é re b ro ao m e u b raç o o u vice-versat d a m in h a
so ciedade p a r a o m e u c o m p o rta m e n to ou vice-versa — ch eg o à
m e sm a conclusão: u rg e e s tu d a r o tra b a lh o .
M as talvez este n ão seja, a in d a , o p o n to d e p a rtid a a d e q u a d o ,
talvez m e u c o m p o rta m e n to seja avis ra ra , exceção. D everia, e n tã o ,
p a r tir do q u e os o u tro s fazem . V ejam os.
m W ANDERLEY CODO

Cenário

— R u as, c asas, c a rro s ... asfalto, co n cre to , ferro , alum ínio,


a m b ie n te no qual os h o m e n s se locom ovem .
— Lojas, a rm a z é n s, su p erm e rc a d o s q u e os hom ens fre­
q ü e n ta m , e onde c o m p ra m , vendem , se e n c o n tra m , conversam .
— R àdío, televisão, cin em a, jo rn a l, rev istas onde hom ens
p ro d u z e m in form ações sobre h o m en s p a r a os h ò m en s, ou onde
h o m e n s in fo rm am sobre p ro d u ç õ e s dos h o m e n s p a r a que os hom ens
co n h e ç a m e consum am *
— F á b ric a s, o n d e os h o m en s se o rg a n iz a m p a r a tra n s fo rm a r
a n a tu re z a à sua im ag em e sem elh an ça, se h ie ra rq u iz a m com base
no d om ínio que têm sobre a p ro d u ç ã o e os m eios de p ro d u ção ,
dividem (d esig u alm en te) o p ro d u to p o r to d a a sociedade, e, com
essa divisão, a lim e n ta m suas fam ílias co m m a io r ou m enor
eficiên cia, p ag am su as h ab itaçõ e s n este ou n a q u e le p o n to d a cidade
com m a is ou m enos c o n fo rto , ed u ca m seus filhos fo rm al e in fo rm a l­
m e n te , sem pre d e p e n d e n d o do lu g a r q u e o c u p a m n a p ro d u ção .
— E scritó rio s q u e o rg an iz am a o rg a n iz a ç ã o dos h o m en s que
tra n s fo rm a m a n a tu re z a e se h ie ra rq u iz a m e tu d o se rep ete. E scolas
q u e in stru m e n ta liz a m o hom em q u e se p o sic io n a rá nessa e s tru tu ra
de p ro d u ç ã o e consum o.
— E m p re sa s in te ira s (h o m en s e m á q u in a s p ro d u z id a s p o r
h o m en s) ded icad as a tra n s p o rta r h o m e n s p a r a os seus postos d e
tra b a lh o .

Comportamento

V ejam os, ra p id a m e n te , o c o m p o rta m e n to de u m in divíduo


“ norm al'* que tra b a lh e n u m escritório q u a lq u e r, exercendo u m a
fu n ç ã o b u ro crática. S u p o n h a m o s q u e seja u m fu n cio n á rio de escri­
tó rio , que te n h a p o r fu n ç ã o levar e tra z e r d o cu m e n to s, faze r visitas
às firm a s, etc.
O lu g a r o n d e ele tr a b a lh a d e te rm in a o h o rá rio em q u e deve
le v a n ta r-se d a cam a, p o rta n to , o h o rá rio de d eitar-se. Deve
“ p re o c u p a r-se com a a p a rê n c ia ” , ou seja, v estir u m d eterm in a d o
tip o d e ro u p a , p o r exem plo, p a le tó e g r a v a ta , o que significa que
p a r te do o rçam en to dom éstico deve s e r d eslo cad o p a ra in d u m e n ­
tá ria e q u e a p assag em p elo espelho é o b rig a tó ria , an tes de sair de
c a s a . O s " d e s i r e s ” q u e p o ssa c o m eter (u m a c a m isa m a l p a ssa d a ,
O IN D IV ÍD UO E AS INSTITUIÇÕES 139

u m a g ra v a ta to rta ) provocarão in te rfe rê n c ia das pessoas com q u e m


ele se re la c io n a no tra b a lh o , d ire ta ou in d ire ta m e n te : o seu chefe
im e d ia to p o d e lhe o rd e n a r q u e c o rrija os defeitos; os seus colegas de
tra b a lh o p o d em fa z e r co m en tário s jo cosos; ou p o d e te r dificu ld ad e
de ser rec e b id o em u m a ou o u tra e m p re sa . P o r o u tro lado, receb e
elogios ao se a p re s e n ta r “ b e m tra ja d o ” : u m a ro u p a nova m erece
co m e n tá rio s elogiosos, m an ifestações de inveja — o q u e p o d e le v ar o
nosso fu n c io n á rio a se d em o ra r fren te às v itrin as, a escolh er m ais
c rite rio sa m e n te o se u cabeleireiro, a a d o ta r, en fiip, toda u m a
p o stu ra , ou u m p ro jeto (u m sonho) d e p o s tu ra reforçado coti-
d ia n a m e n te p o r to d a s as suas relações de tra b a lh o .
S u a lin g u ag em soire in terferên cias d ire ta s do tra b a lh o que
o cu p a. O tra b a lh a d o r u tiliz a te rm o s q ue, p a r a os o u tro s m o rtais
(n ão in te g ra d o s nesse tra b a lh o ), são d esconhecidos ou inusitados«
com o: k a rd e x , papel ofício, re q u e rim e n to , protocolo, bo rd erô s,
R A IS; isso p a r a não c ita r a “ gíria*1 d a fu n çào .
N os dias de folga, ou depois de s a ir do tra b a lh o , se e n c o n tra
com seus colegas de escritó rio e os ev en tu ais am igos que fez p o r suas
a n d a n ç a s. P rovavelm ente, n a m o ra u m a rece p cio n ista, ou o rg a n iz a
um tim e d e fu teb o l q u e d is p u ta rá com o e sc ritó rio vizinho um a ta ça
“ c e d id a ” g en tilm e n te por u m dos p a trõ e s, e /o u fa rá u m cu rso de
d atilo g rafia, de inglês, de c o n ta b ilid a d e , etc.
Às relações d e trab a lh o d e te rm in a m o seu c o m p o rtam e n to ,
suas ex p ectativ as, seus pro jeto s p a ra o fu tu ro , su a lin g u ag em , seu
afeto.
M a s tom em os u m o u tro exem plo, um op erário . T a l e qual
p a r a o nosso fun cio n ário de escritó rio , os seus h o rário s està o
reg u la d o s p elo tra b a lh o , suas relações sociais ta m b é m , seus p ro jeto s
ta m b é m . D iferentes am b ien tes de tra b a lh o d e te rm in a m , p o rém ,
indivíduos ra d ic a lm e n te diferentes. As m ã o s do o p e rário são grossas
e ágeis, su as ro u p a s escolhidas p o r c ritério s d e longevidade, suas
p a la v ra s e os b a re s q u e fre q ü e n ta são o u tro s.
A a n álise m ais ap ro fu n d a d a de q u a n to as ta re fa s in terv êm no
c o m p o rta m e n to do o p erário será feita m a is a d ia n te , no texto.
As afirm açõ es acim a são válidas p a r a u m com erciante, u m a
enferm eira» u m executivo, u m dono de in d ú s tria . C a d a gesto, c a d a
p a la v ra , c a d a reflexão, c a d a fa n ta sia tr a z a m a rc a indelével, in d is­
cutível de su a classe social, do “ lu g a r q u e o indivíduo o c u p a n a
p ro d u ç ã o ” .
Pois b e m , sejam os en tâ o m ais p ra g m á tic o s e bu sq u em o s um a
a tiv id a d e que seja fu n d a m e n ta l. O h o m e m e stá vivo p o rq u e se
140 W ANDERLEY CODO

a lim e n ta . Sua a lim e n ta ç ã o é co n seg u id a a tra v é s de seu tra b a lh o .


P a rtin d o d a sobrevivência do h o m em , c h eg a rem o s à m esm a con­
clu são .
N ós, psicólogos» vivem os a firm a n d o q u e o hom em é u m ser
social, u m ser h istórico, M as o q u e e x a ta m e n te significa isso? Ao
d e c la ra rm o s que o lio m em é u m ser h istó ric o , estam os afirm an d o
q ue a su a relação com o m eio a m b ie n te se d á d e u m a m a n eira
p e rm e a d a socialm ente, N o dizer de E n g els, o único fa to histórico
que existe é que o h o m e m p re c isa sobreviver. E o q u e m u d a n ã o é o
q u e se p ro d u z n u m d e te rm in a d o p e río d o h istó rico , são as relações
de p ro d u ç ã o , são as re la çõ es sociais q u e p e rm e ia m ou q u e signifi­
c a m , stric to s e n s u , a rela ç ã o e n tre os h o m e n s, A co m id a que
m a n té m o hom em em p é , o sexo q u e m a n té m as gerações se
su ce d e n d o , a fo rm a d e expressão do h o m e m sem p re estiveram
p re se n te s em q u a lq u e r m o m en to h istó rico q u e se to m ar, O que
m u d a , se tra n sfo rm a são as relações sociais Qu e os h o m en s u tiliz am
p a r a essa p ro d u ção .
N o IIOSSO caso, vivem os u m a re la ç ã o so cial m u ito bem e stab e­
le c id a , u m a definição d a s form as de p ro d u ç ã o m u ito c la ra , que
e stab e le c e o p ap el do h o m e m , as rela çõ es q u e ele deve ou não
m a n te r com seus sem elh an te s. T ra ta -s e do m odo de p ro d u ção
c a p ita lis ta . Esse m odo de p ro d u ç ã o p e rm e ia lite ra lm e n te to d a a
ativ id ad e do hom em : “ com quem você se re la c io n a rá ” , “ o q u e você
p r o d u z " , “ o que c o n so m e” , "d e q u e m a n e ira você p ro d u z ” , fíde qu e
m a n e ira você consom e” ,
N ote-se que e sta m o s vivendo u m p e río d o em que os m eios de
c o m u n ic a ç ã o estão b a s ta n te desenvolvidos e, to d o s eles, p erm ead o s
p e la s relaçõ es de p ro d u ç ã o de u m a fo rm a d ir e ta .1 E stam o s vivendo
n a e r a d a televisão, do co n su m o d e m a ssas, d o s eletrodom ésticos, o
que m axim iza a re la ç ã o e n tre sistem a so cial e c o m p o rtam e n to
h u m a n o , este ú ltim o o b jeto de estu d o d a P sicologia.
V erem os a seguir co m o o sistem a m o d ifica o p ró p rio tra b a lh o
e in se re o hom em n u m a d e te rm in a d a re la ç ã o social d istin ta .
T ra ta -s e , en tão , de p e rc e b e r que aq u i, m a is do q u e n u n ca, q u a lq u e r
a to h u m a n o , q u a lq u e r c o m p o rta m e n to q u e servir com o objeto de
e s tu d o a q u a lq u e r psicólogo é p e rm e a d o n ece ssa ria m e n te peias

(1) Quando nos referimos a relações de produção, queremos significar


as relações de trabalho em uma sociedade capitalista, onde o trabalho assumo
a forma de mercadoria a o objetivo é a extração da mais-valis.
O INDIVÍDUO e as INSTITUIÇÕES 141

relaçõ es de p ro d u ç ã o , O gesto do hom em é u m gesto no m undo»


in se rid o n e ce ssariam en te, q u e r os psicólogos q u eira m ou n ão, q u e r
p e rc e b a m ou n ão, im e d ia ta m e n te n essas relações d e p ro d u ção
desenvolvidas pelo se r h u m a n o .
A c a d a gesto p o d e ser a trib u íd o o c o n te ú d o de classe, e aq u i,
d e novo, so b ra a m e sm a conclusão: o e s tu d o d a Psicologia deve
p a r ti r d a s relações d e p ro d u ção , re c o n h e c e r com o o c o m p o rta ­
m e n to é d e te rm in a d o a p a rtir dessas relações de p ro d u ção .
A cim a, ao a n a lis a r as v árias razões q u e nos levam a e s tu d a r as
condições de tra b a lh o h u m a n o e a resp ectiv a in serção do h o m e m
n e ste p rocesso, fa la m o s p rin c ip a lm e n te em d e te rm in a ç ão do c o m ­
p o rta m e n to do h o m e m . C abem alg u m as observações.
Ê necessário su b lin h a r q u e estam o s fa la n d o de d e te rm in a ç ã o e
n ã o d e s u b o rd in a ç ã o .2 A d ifere n ç a é essen cial, n ão se t r a t a de
a firm a r q u e to d a s as ações h u m a n a s e stã o su b o rd in a d a s a u m
siste m a c a p ita lista o u q u a lq u e r o u tro siste m a de p ro d u ção . P a ra
ex e m p lific a r, p o d em o s to m a r a relação p a i e filho, u tiliz an d o um
m étodo b a s ta n te co m u m em Psicologia, d e re d u z ir a re a lid a d e a
seus te rm o s m a is sim ples, p a r a te n ta r ex p licá-la. D epois voltarem os
p a r a a q u e stã o que n o s interessa.
P odem os d iz er q u e a v id a do filho, o seu c o m p o rta m e n to a tu a l
é d e te rm in a d o p e la relação q u e ele teve a n te rio rm e n te com seus
p ais, o q u e n ão significa que seja s u b o rd in a d a à relação com os p a is.
U m filho n ão re p ro d u z os p ais, U m p a i, q u e te n h a sido um d e n tista ,
n ão g e ra rá um filho den tista, P o d erá, p o r exem plo, g era r u m filho
que te n h a ra iv a , h o rro r, que se afaste d a p ro fissã o do p ai e v e n h a a
ser u m sociólogo. O fa to de o filho te r h o rro r à profissão de d e n tis ta
é d e te rm in a d o p ela profissão do p a i, p e la rela ção que o pai e filho
tiveram d u ra n te su a h istó ria, m a s não sig n ifica que a esco lh a da
p ro fissão esteja su b o rd in a d a lite ra lm e n te ao co m p o rta m e n to do pai.
O u a in d a , u m p a i id e alista, desligado a b s o lu ta m e n te das questões
c o n c re ta s d e sobrevivência, “ p re o c u p a d o m ais com a a rte do que
com o p ã o ” , p o d e g era r u m filho a b s o lu ta m e n te m esq u in h o ,
p re o c u p a d o com c a d a tostão que p u d e r ser econom izado p a ra
g a ra n tir o seu fu tu ro . M esm o q u e o filh o se desenvolva n a m e sm a

i2 ) A confusão entre determinação e subordinação é comum em uma


abordagem mecanicista que queremos de infcio repudiar. Como os extremos se
tocam, o mecanicismo materialista pode levar a um a postura metafísica, como
já foi apontado por M erani, A. L. {Psicologia e A fien açã o).
142 W AN DER LEY C OD O

p ro fissão do pai, c o n tin u a valendo o m esm o raciocínio, pois tra ta -se


de u m novo sujeito em q u e p o d erem o s e s tu d a r a d e term in a ção do
c o m p o rta m e n to do filh o pelo p a i. sem re d u z ir o fenôm eno à
s u b o rd in a ç ã o . Q u a n d o falam o s em determinação social estam os
u s a n d o o m esm o significado* R eco n h ecen d o q u e o co m p o rta m e n to
do h o m e m está d e te rm in a d o p ela so cie d a d e o n d e vive sem t no
e n ta n to , se red u zir à q u e la sociedade.
Se o sislem a g era alienação, n ã o p recisa m o s te r n ecessaria­
m e n te o p erário s alie n a d o s, p o rq u e ju n ta m e n te com alienação o
siste m a g era revolta, a exp lo ração d e classe d e te rm in a o desen­
volv im ento d e u m a nova consciência d e classe e a lu ta p o r u m novo
siste m a social.
No início do te x to colocam os a p e rg u n ta : o que e s tu d a r em
P sicologia? P a rtin d o do m eio a m b ie n te im e d ia to em q u e os seres
h u m a n o s vivem hoje, das relações c u ltu ra is q u e se estab elecem e n tre
os h o m e n s ou dos fato s q u e g a ra n te m a n o ssa sobrevivência, chega­
m os à m e sm a conclusão: c u m p re e s tu d a r o tra b a lh o h u m a n o , sab er
co m o as relações d e p ro d u ç ã o d e te rm in a m o c o m p o rta m e n to do
hom em .
M as, dizíam os, e s ta reflexão foi fe ita com os livros de
P sico lo g ia fechados.
Ao a b rir os livros de Psicologia, c h e g a a im p ressio n ar o
d ista n c ia m e n to q u e a nossa ciên cia m a n té m destas questões.
A p en as p a ra c ita r um exem plo, o f ía n d b o o k o f S o cia i
P sych o lo g y (Lindzey & A ro n so n , 2? e d .), cin c o grossos volum es que
p e rc o rre m quase to d a s a s áreas de e s tu d o em P sicologia Social,
d e d ic a e x a ta m e n te d ez p á g in a s p a r a d isc u tir o p ro b le m a d o tra b a lh o
hum ano.
V ejam os o p ro b le m a m ais de p e rto , co n v id am o s o leito r a
a b r ir u m n ú m e ro q u a lq u e r do P sych o lo g ica l A b s tr a c t , p o r exem plo
o d e ja n e iro de 1980 (o ú ltim o n ú m e ro d e q u e disp o n h o , e n q u a n to
escrevo), p u b licaçã o q u e rese n h a todos os ú ltim o s tra b a lh o s de
P sicologia.
P ro c u ra re m o s a p a la v ra w o rk e r (tra b a lh a d o r), e a rev ista n os
rem e te à p alav ra p e r s o n n e l „ q ue, em inglês, significa "‘pessoal*',
“ g ru p o de em p re g ad o s” , m ais ou m en o s co m o u tiliz am o s em
p o rtu g u ê s , D e p a rta m e n to de P essoal, S eleção de P essoal, etc.
O ra , eis a q u i u m a visão c la ra do significado d a p alav ra
tra b a lh a d o r. A ju lg a r p elo P sych o lo g ica l A b s tr a c t , o tra b a lh a d o r
in te re s sa à Psicologia e m fu n ção do D e p a rta m e n to de Pessoal,
O INDIVÍDUO e as INSTITUIÇÕES 143

C o n tin u em o s nossa p esq u isa, e verem os q u e “ tra b a lh o "


ap are c e , em Psicologia, com alg u n s sig n ificad o s b a s ta n te precisos:
1) com o u m a variável in terv en ien te, ou seja, um fa to r que
pode in te rfe rir em " o u tro s ” aspectos d a v id a do indivíduo. V eja-se
o a rtig o de K . K in g (1978), que p e rg u n ta com o os adolescentes
p e rc e b e m o re la cio n am en to e n tre os fa m ilia res, q u a n d o suas m ães
tra b a lh a m ;
2) com o u m a in stitu iç ão e stra n h a , in d e p e n d e n te do in divíduo
que tra b a lh a . C om o, por exem plo, os tra b a lh o s de previsão de
tu m - o v e r , o n d e os objetivos do psicólogo são os d e sa b e r q u a l a
p ro b a b ilid a d e , q u a n d o u m a em p re sa c o n tra ta r um indivíduo, de
que ele se m a n te n h a no em prego. V er, p o r exem plo, o tra b a lh o de
F . S uzene e t al . , q u e m o stra q u e q u a n d o a ex pectativa de sa lá rio é
m u ito a lta o u q u a n d o re sid e m u ito lo n g e d a íà b ríc a , a m u lh e r
a b a n d o n a m a is freq ü e n te m e n te o e m p re g o ou, a in d a , quais sã o os
fa to re s q u e g a ra n te m a p e rm a n ê n c ia n o tra b a lh o (ver os artig o s
sobre jo b s a tis fa c ü o n ).
E m síntese, a Psicologia to m a o tra b a lh o a p a rtir das relações
de p ro d u ç ã o c a p ita lista . V ejam os q u al o sen tid o q u e o cap italism o
en g en d ro u ao tra b a lh o , ou a in d a q u al a d ife re n ç a e n tre a “ fo rm u ­
la ç ã o o rig in a l" de tra b a lh o e o estágio de desenvolvim ento a tu a l das
forças p ro d u tiv a s.

O trabalho hoje

T o d a m u d a n ç a o corrida nas relaçõ es de p ro d u ção visou


lib e rta r o hom em do ju g o do feudalism o e to rn á -lo livre p a ra v en d er
su a força d e tra b a lh o . A p esar d e lu ta s d e classe, ou seja, a ex p lo ­
ra ç ã o d e u m a classe sobre a o u tra , te re m se in iciad o m uito a n tes
desse p erío d o , a fo rm a de ex p lo ra ção se m o d ifica rad ic alm en te. P ela
p rim e ira vez n a h istó ria, o hom em p a ssa a vender a sua fo rça de
tra b a lh o .
E ssa tra n sfo rm a ç ã o , o ad v en to d a m a is-v alia, a tra n sfo rm a ç ã o
do tra b a lh o em m e rc a d o ria , te m d e c o rrên c ias p ro fu n d a s n a socie­
d a d e h u m a n a e, ta m b ém , no c o m p o rta m e n to h u m a n o , que, o b v ia ­
m e n te, se d e ra m dialeticam en te re la c io n a d a s. A q u i, p o r linxites de
descrição, sep ararem o s os vários p o n to s, te n d o sem pre em m e n te
que n ã o são eventos estan q u e s ou iso lad o s. M u ito su cin tam en te,
e n u m e ra re m o s a lg u m a s tran sfo rm a çõ es p a ra análise.
144 W ANDERLEY CODO

1) Aos valores de u so (satisfaç ão de n ece ssid a d es h u m a n a s)


que os o b jeto s p ro d u z id o s pelo hom em c o n tê m , acrescenta-se, p ela
divisão social do tra b a lh o , um o u tro valor, o valor de tro c a . O s
o b je to s necessários “ ao e stô m a g o ” ou *‘à fa n ta s ia ” h u m a n o s p erd em
s u a especificidade, u m p a le tó n ão é m ais, a p e n a s, algo q u e m e
p ro te ja do frio, é ta m b é m m e rc a d o ria trocáveJ p o r q u a lq u e r outra-
O fa to r e q u a liz a d o r dos difere n tes v a lo re s de uso é o tra b a lh o
h u m a n o , “ c a d a m e rc a d o ria ind iv id u al é c o n s id e ra d a um exem plo
m é d io de s u a espécie, m e rc a d o ria s que co n têm ig u a is q u a n tid a d e s de
tra b a lh o , ou que p o d e m ser p ro d u z id a s co m o m esm o te m p o de
tra b a lh o , possuem , co n seq ü e n te m e n te , valor d a m e sm a m a g n itu d e,
O v a lo r necessário à p ro d u ç ã o d e u m a e s tá p a r a o te m p o de
p ro d u ç ã o de o u tra ” , (O C a p ita l , p . 47),
Se o p ro d u to do tra b a lh o vale a p e n a s p e la s h o ra s d e tra b a lh o
n ele in serid as, o vín culo tra b a lh o -sa tisfa ç ã o d e necessidades g a n h a
um elo novo: tra n sfo rm a -se em tra b a lh o -tro c a de equivalentes-
sa tisfa ç ã o de necessidades, o que faz p o r to r n a r as necessidades do
H o m e m co n tin g en tes ao d in h e iro (eq u iv a len te) e n ão à su a p ró p ria
ta re fa . P ela m esm a ra z ã o , su b o rd in a o uso à c a p a c id a d e d e tro c a e
n ã o à cap a c id a d e de p ro d u ç ã o . Hm o u tra s p a la v ra s, a sobrevivência
do h o m e m passa a d e p e n d e r n ão de su a ação (o u de seu tra b a lh o )
m e sm o , m as sim do tra b a lh o social (aç ã o social), e p o r o u tro lado,
o b v ia m en te , sua ação d eix a de ser d e fin id a p o r suas necessidades e
p a s s a a ser d efin id a p o r c ritério s sociais.
O co rre aq u i um p rim e iro processo de alien aç ão , no sen tid o de
se p a ra ç ã o en tre ação e sobrevivência h u m a n a ,3 o tra b a lh o h u m a n o
p e rd e su a especificidade e se tra n s fo rm a em valor a b stra to ,
co n fu n d in d o -se com a m o e d a q u e o re p re s e n ta .
2) P a ra q u e h a ja m e rc a d o ria é n ec e ssá rio que h aja divisão de
tra b a lh o ; se todos p ro d u zissem tu d o n ã o h a v e ria n ecessidade de
tro c a , p o rta n to , n ã o hav eria n ecessidade d e eq u iv alen tes. A divisão
do tra b a lh o cria, a to c o n tín u o , u m a classe de com ercian tes,

(3) Observe-se que, se o processo se esgotasse por aqui, a alienação a


que nos referimos não dependeria de classe social (lugar que o indivíduo ocupa
na produção) na medida em que mesmo o dono dos meios de produção não
exerce o elo produção auto-satisfação de necessidades, o que denota duas
coisas: 1) que nâo é o surgimento do equivalente o responsável solitário pelo
surgimento de classes, com o veremos a seguir; 2 ) que o surgimento do
capi talismo não aliena apenas o trabalhador, mas tam bém o dono dos meios de
produção.
o i n d i v í d u o e a s INSTITUIÇÕES

responsável p ela tro c a de m e rc ad o rias e n tre os consum idores» o que


faz com q u e, “ p e la p rim e ira vez n a h is tó ria universal, todo
indiv íd u o d ep en d esse do m u n d o in teiro p a r a a satisfação d e suas
n e c e ssid a d es“ ( A Id eo lo g ia A le m ã , p . 56).
O co rre que o valor de tro c a a trib u íd o à m e rc ad o ria é
ex p re ssã o p u ra e sim ples d a q u a n tid a d e d e tra b a lh o “ in je ta d a “ n a
n a tu re z a , ou seja, o tra b a lh o h u m a n o é q u e e stá sendo negociado.
T ra ta -s e de m a teria liza ção social do fenôm eno a p o n ta d o em
1, “ R ecebo o necessário à m in h a vida a tra v é s de u m in term ed iário ,
ou seja, se q u e r conheço o indiv íd u o e / o u o processo de p ro d u ç ã o
responsável p ela satisfaç ão de m in h a s n ecessid ad es; igual d estin o
sofre o q u e p ro d u z o ” ,
A a ç ã o do ho m em p assa a p e rte n c e r à sociedade, a ser re g u ­
la d a p e la s leis de oferta e p ro c u ra , a c u m u la d a com o cap ita l.
“ A fo rm a m e rc a d o ria é a fo rm a g eral do p ro d u to do tra b a lh o ,
em c o n seq ü ên c ia, a relação dos h o m en s e n tre si com o possuidores
d e m e rc a d o ria é a relação social d o m in a n te ..,“ (O C apital, p . 70)
O tra b a lh o é re p re se n ta d o pelo valor do p ro d u to do tra b a lh o , e a
d u ra ç ã o do te m p o p e la m a g n itu d e d este valor, fó rm u las q u e p e r­
ten cem c la ra m e n te a u m a so cied a d e e m q u e o p ro cesso d e p ro d u ç ã o
d o m in e o H o m e m e n â o o H o m e m d o m in ú o p ro c e sso d e p ro d u ç ã o
s o c i a l . 4 (grifos A Id eo lo g ia A le m ã , p. 8).
3) Pois bem , o tra b a lh o n ão é a p e n a s u m a m erc ad o ria, m a s é
a ú n ic a ca p a z d e p ro d u z ir ex cedente, p o r ser o único valor d e uso
c a p a z d e c ria r valor, c o n su m ir tra b a lh o é c ria r tra b a lh o (O C a p ita l,
c ap . III). T ra ta -s e do único elo n a c a d e ia de g e ra r m e rc a d o ria s que
pode ser e x p lo ra d o p a ra g e ra r m a is-v alia (m ais valor), p o is o
tra b a lh o é vendido com o q u a lq u e r m e rc a d o ria , pelo preço de custo
de su a p ro d u ç ã o (o preço do su sten to do tra b a lh a d o r e sua fam ília,
p ro d u ç ã o e re p ro d u ç ã o d a fo rça d e tra b a lh o ) e pode ou deve
p ro d u z ir m ais valor do que c u sto u , d ife re n te m e n te de u m a to ra de
m a d e ira q u e n ão p o d e p ro d u z ir m ais do q u e u m n ú m e ro “ x ” de

(4) Isto talvez explique por que grande parte do que é chamado de lazer
contemporâneo seja do tipo D o i t yourself. Apenas para exemplificar, um
acam pamento i c am p ing ), para onde uma famílía viaja horas e onde “ perde"
dias para acender uma fogueira e assar um coelho (coisa que se pode fazer em
duas horas com um telefonema e um apertar de botão) ou mesmo boa parte
dos jogos preferidos por grande parte da popuíaçSo não significariam o resgate
do controle sobre a tarefa? Ou a recuperação do eío produção-satrsfaçâo de
necessidade?
146 W A NDE RLEY C OD O

c a d e ira s, p o r exem plo. O lucro, p o rta n to , só p o d e ad v ir da


e x p lo ra ç ã o do (rab alh o alh eio pelo c a p ita lis ta .
A té a q u i o tr a b a lh a d o r p ro d u z m e rc a d o ria s q u e n ão consom e,
c o n so m e m e rc ad o rias q u e n ão p ro d u z iu , su a ação e su a sobrevi­
v ência lhe escap a m , m a s é m ais q u e isso: in v erte-se a correlação
e n tre esforço e sobrevivência, m ais tra b a lh o c o n tin u a significando
m a is p ro d u ção , m ais valores de uso, m a s nã o p a r a o tr a b a lh a d o r e
sim p a r a o c a p ita lista . E , p io r a in d a , a s u p e rp ro d u ç ã o é a ra z ã o da
p a u p e riz a ç ã o (“ o tr a b a lh a d o r é m ais p o b re q u a n to m ais riqueza
p ro d u z ” — M a n u sc rito s E c o n ô m ic o s e F ilo só fic o s). N a m e d id a em
q u e a fu n ção d a co m p ra d o tra b a lh o é a e x p ro p ria ç ã o dele m esm o —
c ria ç ã o de m ais-valia — o p a p e l do tr a b a lh a d o r é o de p ro d u zir
riq u e z a p a r a o o u tro e , a to co n tín u o , s u a p ró p ria m iséria.
Se falam os em alie n a ç ã o , a g o ra p o d e m o s fa la r em roubo,
o h o m e m se tra n sfo rm a ao tra n s fo rm a r, p elo do m ín io , a n a tu re z a ,
c o n stró i a si m esm o: q u a n d o vende seu tra b a lh o , vende a tra n s ­
fo rm a ç ã o q u e a n a tu re z a o p e ra em si, sua h o m in iz a ç ã o q ue, p o r sua
vez, e n q u a n to m e rc a d o ria , lhe ap are ce como o b je to in d ep en d en te,
v en d id o ao tra b a lh a d o r e m tro ca do salário .
4) O advento do c ap italism o tra z em seu v entre o desen­
volvim ento d a m a q u in a ria . O fa to h istó rico a p o n ta d o acim a, a
tra n s fo rm a ç ã o do tra b a lh o em m e rc a d o ria , c a p a z de g e ra r m ais-
v alia, tra z com o c o ro lá rio a n ecessidade d e a u m e n ta r o ren d im en to
d o tra b a lh a d o r, d im in u in d o o te m p o g asto p o r u n id a d e do p ro d u to ,
o u o te m p o de “ tra b a lh o so cialm ente n ece ssário 0 , ob v iam en te sem
re d u ç ã o do n ú m e ro de h o ra s que o in d iv íd u o d ed ica à fábrica.
E m b o ra sendo fru to do m esm o p ro cesso , a m a q u in a ria vem
in tro d u z ir u m fenôm eno q u a lita tiv a m e n te d is tin to no fracio n am en to
d o tra b a lh o h u m a n o .
T ra ta -s e de p ro m o v er, ta n to lo n g itu d in a l com o tran sv e r­
sa lm e n te , u m a fra g m e n ta ç ã o d a ação h u m a n a . L o n g itu d in alm en te,
o tra b a lh o n ão é assu m id o p o r in te iro p elo tra b a lh a d o r, c a d a p a r de
b ra ç o s faz um a p a rte d a ta re fa , e a p a r tilh a é re a liz a d a segundo as
c a ra c te rístic a s d a s m á q u in a s e /o u dos d ita m e s d e “ racio n alização ",
se n d o q u e, q u a n to m a io r a divisão d e ta re fa s , m a io r a eficiência,
M A JO R a produção» q u a n to M E N O R fo r o g esto .
T ran sv ersalm en te , o o p e rá rio q u e a p e r ta u m b o tã o desen­
c a d e ia u m processo q u e se iniciou em u m a m in a de ferro q u e p ro ­
d u z iu lingotes, q u e p ro d u z iu m á q u in a s, q u e p ro d u z e m ferram en tas,
q u e p o r fim com põem o p ro d u to .
O IN D IV ÍD UO e a s i n s t i t u i ç õ e s 147

O c a p ita l, q u e j á a lie n a ra o h o m e m do p ro d u to d e seu


tra b a lh o , a g o ra ro u b a-lh e o gesto, o m o v im en to do seu braço é algo
q u e n ã o lhe p e rte n c e , e q u e n ão é d e te rm in a d o pelo tra b a lh a d o r.
5) O desenvolvim ento do c a p ita l n ã o se d eu p o r ig u a l, n a
m e d id a em q u e desenvolver-se, p a ra o c a p ita lism o , é a m axim ização
das d esig u a ld a d e s. A nível in te rn a c io n a l, ta is diferenças repro*
du zem m e rc ad o s diferen ciad o s, o que passa: a servir ao p ró p rio
desenvolvim ento do cap ital, q u e e x p lo ra com m a e stria as d esig u a l­
d a d e s q u e criou.
E n tr a em c e n a o C a p ita lism o M u ltin a c io n a l. Vim os a c im a
com o as relações sociais de p ro d u ç ã o e n g e n d ra m a alie n a ç ã o do
H o m em , ro u b a m -lh e o gesto. C u m p re -se a p ro fecia de M a rx e
E ng els: " O H o m em p assa a d ep e n d e r d e to d o o p la n e ta p a r a a
satisfaç ão de su as nece ssid a d es'1. Com a in tern a c io n a liz a ç ã o do
c a p ita lism o , radicaliza-se e s ta te n d ê n c ia e, o u tra vez, m u d a de
q u a lid a d e ; o H o m e m passa a d e p e n d e r do m u n d o in teiro p a r a a
p ro d u ç ã o de b en s, a m a té ria -p rim a é p ro d u z id a em um p a ís, as
fe rra m e n ta s em o u tro , as p eça s n u m te rc e iro , as m o n tag en s finais
n u m q u a rto p aís, o p ro d u to final é co n su m id o em to d o o p la n e ta .
A q u i a frag m e n ta ç ã o do tra b a lh o a tin g e as relações sociais de
p ro d u ç ã o . O lucro, a ex p ro p ria ção do tra b a lh o , deixou d e te r n o m e,
so b ren o m e e en d ereço , com o n a ép o ca em q u e a lim u sin e do p a trã o
d e ita v a às p o rta s d a fa b ric a u m c o rp a n z il gordo, que p a re c ia
a c u m u la r as e n e rg ia s s u g a d a s do tra b a lh a d o r. H oje, “jovens
executivos d in â m ic o s" tra n sm ite m “ o rd e n s su p erio res” rece b id as,
p o r su a vez, d e executivos m enos jovens, q u e p o r su a vez, ta m b é m
re c e b e ra m o rd e n s su p erio res, p e r o m n ia .
A in tern acio n aliz ação do ca p ita l r o u b a o la d rã o do p ro d u to do
trabalho«

Síntese

R e p ro d u zim o s aqui a m a n e ira v io len ta com o os m odos de


p ro d u ç ã o c a p ita lis ta se a p ro p ria m do p ro d u to r. F ala m o s até a g o ra
do tra b a lh o h u m a n o , ou seja , a a p ro p ria ç ã o do c o m p o rta m e n to do
h o m em .
P ro c u ra m o s d e m o n stra r com o o tra b a lh o se im iscui e d e te r­
m in a o c o m p o rta m e n to do H om em , q u a n d o n ão se id entificam coisa
e o u tra .
148 W ÀNDERLEYCODO

O tra b a lh o , hoje, é o tra b a lh o a lien ad o , descolado do H om em


que re a liz a , ex p ro p ria d o . E á assim que a P sicologia o concebe, reed i­
ta n d o a p ro d u ção com o in s tâ n c ia in d e p e n d en te , e s tra n h a ao p ro d u to r.
N osso objetivo, a q u i, é fa z e r c a m in h o inverso. T o m a r a
q u e s tã o do tra b a lh o a lie n a d o n ão com o um d a d o , m as com o um
p rocesso, o que im p lica, em c a d a in s ta n te , b u s c a r o m ovim ento
h istó ric o , reconhecê-lo c o n tra d itó rio .
A o b u scar, em P sicologia, p a râ m e tro s d e anáJise que p erm i­
ta m re s g a ta r esta re la ç ã o d in â m ic a no tra b a lh o , c u m p re te r em
m e n te que o p ro b le m a q u e se coloca é este: e n ten d e r, a nível do
in d iv íd u o , com o se a p re s e n ta a tra n s fo rm a ç ã o do tra b a lh o no seu
o p o sto . D e in stru m e n to d e dom ínio d a n a tu re z a pelo H o m em em
in s tru m e n to de D om ínio do H om em p e la “ n a tu re z a " . (O C a p ita l ,
livro I, seção III, cap . V, p . 130)»
Só existe u m fato histórico, o de q u e o H om em precisa
sobreviver (M arx e E n g els, A Id e o lo g ia A le m ã ). Sobreviver é
lite ra lm e n te c o n tro la r o m eio a m b ien te , tra n sfo rm á -lo à sua im agem
e se m e lh a n ç a . A p en as p o r esta ra z ã o , p o d em o s p e rc e b e r que:
1) lid a r com o controle q u e o indivíduo tem so b re o m eio é lid a r com
to d o o c o m p o rta m e n to d e q u a lq u e r in d iv íd u o , em q u a lq u e r sistem a
SOcial e, co n co m ita n te m e n te , 2) q u a lq u e r e sc a la , ou experim ento,
p o r m a is com pleto q u e seja, n ão se rá c a p a z d e lid a r com o fenôm eno
co m o u m todo, tra n sfo rm a n d o -se em u m in s tru m e n to ou tosco ou
flu íd o .
Kelly (19S5) afirm a v a : “ ... Ê co stu m e iro dizer q u e os cien­
tis ta s alm ejam a p re d iç ã o e o c o n tro le ... no e n ta n to , curiosam ente,
os psicólogos ra ra m e n te acre d ita m q u e os seus sujeitos experi­
m e n ta is te n h a m asp ira ç õ e s s e m e lh a n te s... ê necessário que o
h o m e m in dividual, c a d a q u a l de su a m a n e ira , assu m a a e s ta tu ra de
u m c ie n tista p a ra p ro c u ra r p re d iz e r e c o n tro la r o curso dos eventos
nos q u a is e s tá envolvid o?” .
F re u d dizia q u e o objetivo d a p s ic o te ra p ia e ra o de “ d e stru ir a
c o e rç ã o q u e p esa sobre a v id a do in d iv íd u o '\ através do conhe­
c im e n to d a s re p re se n ta ç õ e s do incon scien te (p . 1012), ou a in d a que
“ o in d iv íd u o deve se e n c o n tra r com ele m e sm o ... se e d u c a r a olhar
p a r a o seu p assa d o e r e tr a ta r nele seu p re s e n te e o seu fu tu ro ".
Se quiséssem os c ita r as referên c ias de S k in n e r à q u e stã o do
c o n tro le do indivíduo so b re seu p ró p rio m eio, g a sta ría m o s p ág in as e
p á g in a s. B a sta le m b ra r o final do livro, sobre o b e k a v io rism o , onde
o a u to r m a n ifesta a e s p e ra n ç a de q u e “ o hom em controle o seu
p ró p rio d e stin o ".
i
O IN D IV ÍD UO E AS INSTITUIÇÕES 149

O p ro b le m a do controle do h o m e m sobre o seu m eio e /o u


sobre si m esm o é fu n d a m e n ta l p a ra a P sicologia, e n ão p o d e ria ser
de o u tra fo rm a.
A P sicologia surgiu em u m p erío d o que p o d e ria ser delim itado
g ro sse ira m e n te e n tre 1880 e 1920, com os p rim eiro s tra b a lh o s de
W illiam Jam es (1875), D ew ey (1887), E b b in g h a u s (1880), Pavlov
(1900), W a tso n (1912), K o h ler (1912), W e rth e im e r & K ofka (e n tre
1910 e 1912), F re u d (en tre 1880 e 1890),
N ão se tr a t a d o início d a reflexão sobre o hom em , pois esta
ta re fa sem p re foi ex erc id a p e la filosofia desde A ristóteles; tra ta -s e
de tra n s fo rm a r a reflexão do hom em em ciência.
F ilosofia é s o f(i)a , am igo, a m iz a d e , envolve relação ín tim a ,
p ro m isc u id a d e , id entificação; ciência é a p ro p ria ç ã o , a fa sta m e n to , é
o b jetiva, refere-se ao objeto, p o rta n to , o d ifere n c ia do sujeito.
A p re o c u p a ç ã o do hom em p a r a consigo m esm o sem pre existiu, no
e n ta n to , a P sicologia foi u m a das ú ltim a s a se c o n stitu ir com o ram o
científico “ in d e p e n d e n te ” . O u seja, a h is tó ria dem o ro u a ex ig ir que
o c o n h ec im e n to do ho m em se a fasta sse dele m esm o, se objetivasse.
E n tre 1880 e 1920 o m u n d o so fria u m a tra n sfo rm a ç ã o , cuja
m a rc a m a io r foi a tran sfo rm a ç ã o do tra b a lh o em m e rc ad o ria, com o
já vim os.
A R evolução B u rg u esa tra to u de d e slo c a r o processo de ex p lo ­
raçã o , d e d ifere n ciaç ão e n tre classes, do d o m ín io div in o -h ered itário
p a r a o p la n o d a livre co n co rrên cia — o p o d e r h e rd a d o cede te rre n o
ao p o d e r a d q u irid o . A tra m a econôm ico-social p assa a d e p e n d e r d a
c a p a c id a d e d e a p ro p ria ç ã o do tra b a lh o alheio, a m ais-valia se d á
e n tã o , n a p ro p o rç ã o em q u e o tra b a lh o do hom em p u d e r ser
co locado sob co n tro le, n a m e d id a em q u e os d ita m e s de san g u e são
s u b stitu íd o s pelos d itam es d a produção»
T e m p o d e T aylor, te m p o em q u e a p ro d u ç ã o h u m a n a , em
ú ltim a in stâ n c ia , in stru m e n to d e tra n s fo rm a ç ã o d a n a tu re z a pelo
h o m em e do h o m e m p ela natureza» deve se su b m e te r ao capital»
te m p o em q u e o hom em vende su a c a p a c id a d e de tra n sfo rm a ç ã o
(e a u to tra n sfo rm a ç ã o ) pelo salário , ou seja» se a lie n a de si m esm o.
T e m p o em q u e a c a p a c id a d e d e a c u m u la ç ã o do C a p ita l é
in v e rsam en te p ro p o rcio n a l ao con tro le do h o m e m sobre seu p ró p rio
m eio a m b ie n te .
N este m om ento» o p e n sa m e n to h u m a n o n ece ssita tra n s fo rm a r
a reflex ão sobre o hom em n a in terv en ção sobre o h o m e m . R e­
clam a-se d a P sicologia que a b a n d o n e a F ilosofia, a p ro m isc u id ad e
150 W AN DER LEY C OD O

e n tre su jeito e objeto, e v en h a se a lo ja r n a c iên cia , tran sfo rm a n d o -se


de R e-flexàoem co n tro le.
A Psicologia é. p o rta n to , p ro d u to d ire to e dileto d a tra n s ­
fo rm a ç ã o do hom em em m e rc a d o ria , ao m esm o tem p o que, com o
p ro d u to d a divisão social do tra b a lh o , re p ro d u z e im p u lsio n a esta
m e sm a divisão.
O espaço d a P sicologia, p o r im p o sição h istó ric a ou p o r defi­
n iç ã o deco rren te de su a p rá tic a , se in sere n a co n tra d iç ã o que o
d u p lo c a rá te r do tra b a lh o en g en d ra, e n tre a alien aç ão , a to r tu r a do
tr a b a lh o que virou m e rc a d o ria e o s e r/v ir-a -s e r q u e re p re se n ta o
H o m em c o n stru in d o a si m esm o. Senão vejam os:
O sin to m a obsessivo com pulsivo é c a ra c te riz a d o p o r um a
im p e rio sa n ecessidade d e p e n s a r ou e x e c u ta r a lg u m ato in d e p e n ­
d e n te do desejo co n scie n te do in d iv íd u o . P o d em o s exem plificar
su c in ta m e n te : d e te rm in a d a jovem vê-se o b rig a d a com pulsivam ente
a e v ita r to d a s as frin c h a s das c a lç a d a s, c a m in h a n d o com um a
p re o c u p a ç ã o ansiosa de n ã o p isà-las, p o is im a g in a q u e se vacilar e
seu p é to c a r algum as dessas frin c h a s, nesse e x a to m o m en to num
lo cal d ista n te su a m ã e p o d e rá c a ir e te r a e s p in h a q u e b ra d a . A
in te rp re ta ç ã o a n alítica d o fenôm eno p o d e rá d a r c o n ta d e q u e o que
ex iste inco n scien tem en te é u m ódio v oltado c o n tra a fig u ra m a te rn a
q u e insiste em a v a n ç a r so b re o E go, e a a n s ie d a d e que essa am eaça
p ro d u z é controJada peio sin to m a obsessivo-com pulsivo que visaria
a n u la r esse desejo h ostil inconsciente.
U m a das explicações b eh av io ristas p a r a o m esm o fenôm eno
s e ria a de q u e se tr a ta d e u m c o m p o rta m e n to su p ersticio so , ou seja,
co n tin g ê n c ia s acid en tais fize ram com q u e a u m e n ta s s e a freq ü ên cia
d a re sp o sta de n ão to c a r com os pés n a s frin c h a s ou, m u ta tis
m u ta n d is , a resp o sta de p is a r ... foi p u n id a a c id e n ta lm e n te e a p a rtir
d a í generalizou-se.
T ec n icam en te fa la n d o , ta n to u m b e h a v io rista com o u m p sica­
n a lis ta estão a firm a n d o a m esm a coisa, tra ta -s e d e u m a elab o ração
h u m a n a q u e tem p o r re s u lta d o re c u p e ra r m a g ic a m e n te o controle
so b re si m esm o e /o u sobre o m eio, atra v és d a “ a u to tra n sfo rm a ç ã o ”
do p ró p rio c o m p o rta m e n to , e eis a q u i o conceito de tra b a lh o
a p o n ta d o p o r M arx , re e n c o n tra d o .
F ilosoficam ente (n o sen tid o de u m a cosinovisão), a m ensagem
a n a lític a p o d e ria ser sin te tiz a d a assim : o H o m em n ão é dono de si
m e sm o , faz coisas c u ja s c a u sa s n ão co n h ece, é c o n tro lad o p o r forças
q u e escap am do seu co n tro le. S eguindo a m e sm a trilh a o behavio-
f
O IN D IV ÍD U O E AS IN S T IT U IÇ Õ E S 151

rism o afirm a : o H o m em n^o é dono de si m esm o, é c o n tro lad o pelo


m eio a m b ie n te .
O exercício d a clínica p sican a lític a « b e h a v io rista é o m esm o,
devolver ao indivíduo o controle de si m esm o e /o u de seu universo.
A m b o s os enfoques sâo vitim as do m esm o p ecado, filhos qúe
sâo d e u m m u n d o o n d e o tra b a lh o virou m e rc a d o ria , consideram
com o in e re n te ao ser h u m a n o o que é in e re n te ao C ap ital. P o r isso a
P sican álise co rre o risco de p ro p u g n a r p o r u m hom em livre d o seu
conflito com a vida, ou seja, a d a p ta d o a o m u n d o , no sentido m ais
co n serv ad o r q u e e s ta s p alav ras po ssam te r, e pelo avesso o b eh a-
viorism o co rre o risco id ên tico de se tra n s fo rm a r em E n g e n h a ria ,
ig n o ra n d o o H o m em com o su jeito d e s u a H istó ria .
O H o m em n ã o é nem escravo nem se n h o r (d e si m esm o o u do
m u n d o ), £ a d ia lé tic a do escravo e do se n h o r, ou com o já dissem os
an tes: ‘'P a ra fra s e a n d o Engels, o único fa to psicológico é o de q u e o
H om em p re c isa sobreviver; ... S u b m eter-se ao m u n d o co m o um
sim ples m o rta l, p ro je ta r e re c ria r o m u n d o à sua im ag em e
se m elh an ça, com o u m D e u s".

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Parte 4
A práxis do psicólogo
Psicologia educacional:
uma avaliação crítica
J o sé C arlos L ib â n e o

O a u to r d este te x to n ão é psicólogo, m a s u m ed u c a d o r que, h á


m a is de dez an o s, vem a c o m p a n h a n d o a tra je tó ria d a Psicologia
e d u c a c io n a l nos cursos d e lic e n c ia tu ra e n a s escolas de 1? e 2? g raus.
As id éias expostas a q u i n ão fo rm a m u m p e n s a m e n to acabado» pelo
c o n trá rio , devem ser co n sid e ra d a s com o u m a te n ta tiv a m u ito provi­
s ó ria de e stab elecim en to d a s relações e n tre a P edagogia e a
P sicologia educacional.
A m a is grave lim ita ç ã o do en sin o d a P sicologia ed u ca cio n al é a
d is tâ n c ia en tre seu co n te ú d o e a p rá tic a e sco la r, e isso explica seu
e feito q u a se insig n ifican te n a fo rm aç ão d e p ro fesso res. P o r exem plo,
m u ito s m a n u a is em u so nos cursos referem -se a e stu d o s e pesquisas
feito s em outros paises, cujos re su lta d o s são d e p o u c a ou n e n h u m a
v a lia p a r a o c o tid ia n o de u m a sa la d e a u la . E m alg u n s casos, o
e n sin o se red u z à descrição d e te o ria s so b re os estágios do
desenvolvim ento in fa n til ou às técn icas d e d ia g n ó stico e tra ta m e n to
d a s dificu ld ad es de ap re n d Í 2 agem e d is tú rb io s em ocionais, sem
le v ar em co n ta a n te c e d e n te s sociais d a s c ria n ç a s e p rá tic a que os
p ro fesso re s vâo e n fre n ta r n a s escolas.
A Psicologia ed u c a c io n a l com o á re a p rofissional específica
c a ra cterizo u -se , d u ra n te m u ito te m p o , p o r a tiv id a d e s d e tra ta m e n to
d e c ria n ç a s com p ro b le m a s d e a p re n d iz a g e m e a ju sta m e n to escolar.
P o r volta dos an o s 60-65, houve te n ta tiv a s , n a m a io r p a rte
fra c a ssa d a s, d e in se rç ã o do psicólogo e sc o la r com o m e m b ro d a
e q u ip e té c n ic a d a esco la ao la d o de su p erv iso res e o rien tad o res
e d u c a c io n a is. N a p rá tic a , a s atrib u iç õ e s cabíveis a um psicólgo
A PR Á X fS D O PSICÓLOGO 155

ed u c a c io n a l se m p re a c a b a ra m ficando com o o rie n ta d o r e d u c a ­


cional e, ev id entem ente, com o p ro fesso r, q u e efetivam ente sem p re
esteve exercen d o alg u m as de suas atrib u iç õ e s com o “ psicólogo”
ap licad o .
A tu a lm e n te , o s psicólogos escolares ou se d edicam a p esq u isas
so b re a escola e n ã o na escola ou a tu a m em clínicas especializadas
em p ro b le m a s d e a p ren d izag em e a ju sta m e n to escolar, p re s ta n d o
.serviços ev en tu ais n a s escolas.
E m 1971 P oppovic escrevia: “ Ê de se la m e n ta r em nosso
p a n o ra m a a tu a l a falia de co o rd en ação e e n tro sa m e n to e n tre a
P ed a g o g ia e a Psicologia. E n q u a n to a q u e la ra ra m e n te se p re o c u p a
em u s a r os d a d o s p ro p o rcio n a d o s pelas p e sq u isa s psicológicas, esta,
com m u ita fre q ü ê n c ia , p erm an ece num ca m p o teórico, sem c h e g a r
a conclusões p rá tic a s de u tilid a d e p a ra a P ed a g o g ia 11. O fato é que,
até hoje, os psicólogos ed u cacio n ais in sistem em se restrin g ir a tr a ta r
p ro b le m a s d e desenvolvim ento ou a ju sta m e n to das c ria n ç a s à
escola, d e n tro d a trad ição da P sicologia fu n cio n a lista e m ais
re c e n te m e n te d a P sicologia h u m a n ista , sem voltar-se p a ra questões
com o m e to d o lo g ia u sa d a peios professores n a sa la de au la, c u rrí­
culo, seleção e o rg an ização de co n te ú d o s, p a rtic ip a ç ã o d a e sco la n a
c o m u n id a d e e vice-versa, c o m p o rta m e n to de professores e m sua
in te ra ç ã o com alu n o s, etc. O u seja, a fo rm aç ão do psicólogo se
re strin g e ao co n te x to psicológico, sem c h e g a r ao pedagógico
p ro p ria m e n te dito e , m uito m enos, ao so cial.
U m a das dificu ld ad es desse e n tro s a m e n to pode e s ta r na
im p e rm e a b ilid a d e en tre as ciências que c o n c o rre m n a ex p licação do
a to ed u cativ o . D evido ao p ouco desenvolvim ento d a ciência p e d a ­
gógica, os p ró p rio s ed u cad o res têm p e rm itid o qu e as ciências
a u x iliare s d a ed u c a ç ã o (P sicologia d a , Sociologia da, E co n o m ia da)
d isp u te m a h eg em o n ia sobre o esp ecificam en te pedagógico. Isso,
inclusive, tem favorecido to d a a sorte d e reducionism os: além do
p ró p rio ped ag o g ism o , o soctologism o e o psicologism o.
O s red u cio n ism o s p e c a m p o r iso la r u m aspecto d a to ta lid a d e
do a to ed u ca tiv o e, em cim a desse a sp ecto p a rc ia l, d iscu tir o ob jeto
e d u c a ç ã o . O privilegiam ento do e n fo q u e sócio-político, p o r ex em ­
plo, leva a re d u z ir todos os p ro b le m a s d a escola e da ed u c a ç ã o ao
c o n h ec im e n to e c rític a d a fu n ção social d e re p ro d u ç ã o das relações
sociais d e p ro d u ç ã o q u e c u m p rem em n o ssa so cied ad e. E sta posição
recu sa q u a lq u e r fu n d a m e n ta ç ã o p sicológica n a edu cação , fo rç a a
dilu ição do pedagógico no psicológico e assim falh a p o r não
co n sid e ra r o ato educativo n a sua to ta lid a d e . P o r o u tro la d o , o
JOSÉ CARLOS U B À N E O

en fo q u e e strita m e n te psicológico ig n o ra o efeito das condições


sociais e políticas sobre o c o m p o rta m e n to , to m a n d o subjetivos os
p ro b le m a s gerados p e la e s tru tu ra social e econôm ica. Q u ase todas
as te n d ê n c ia s psicológicas a tu a is (fu n cio n a lista s, h u m a n ista s, cogni-
tiv istas, p sican a lista s, o rie n ta lista s, etc.)* c o n tin u a m m a n te n d o a
c re n ç a n u m a sociedade h a rm o n io sa p a r a a q u a l as pessoas devem
ser a ju sta d a s , p ro c u ra n d o p rin c ip a lm e n te no in d iv íd u o a origem de
su as c o n d u ta s. Os p ro fesso res e técnicos esc o la re s ta m b é m insistem
no se u “ ism o ” ao te n ta r p re se rv a r a m issão sa lv a d o ra d a escola na
su p re ssã o das ig u a ld ad es sociais, ab so lv en d o o sistem a social e
p o lític o e a té reje ita n d o os auxílios cien tífico s q u e p o d em ser
fo rn e c id o s p e la Psicologia. O p ed ag o g ism o a c re d ita p o d e r resolver
os p ro b le m a s d a escola e d o m u n d o d e n tro do se u in terio r, com o se
a m u d a n ç a social p u d esse se d a r com o co n se q ü ê n c ia d a m u d a n ç a
e sc o la r.
O ato educativo é u m a to ta lid a d e n a q u a l afluem fatores
(so ciais, econôm icos, psicológicos) q u e se c o n stitu e m n a s co ndições
para o desenvolvim ento in d iv id u al. C ondições bio lógicas, condições
sociais, d isp o n ib ilid a d es psicológicas são to d a s m ed ia çõ es e n tre o
In divíduo e a sociedade, e que p e rm ite m ou d ific u lta m à c ria n ça
a p ro p ria r-s e do p a trim ô n io c u ltu ra l, c o n stru in d o -se p e la su a p ró ­
p ria a tiv id ad e , com o ser h u m a n o , vale d iz e r, com o se r social.
D is c u tir o o b jeto d a Sociologia e d a P sico lo g ia educacional
su p õ e a discussão â o o b je to d a ciên cia p ed ag ó g ica, ou seja, a
esp ecificid ad e do pedàgógico. D e fa to , h á m ecan ism o s íntim os
p ró p rio s d a relação p e d a g ó g ic a q u e in clu em m ed iaçõ es d e n a tu re z a
social e política, m a s ta m b é m in c lu em a a n á lise d a experiência
in d iv id u a l e a p ró p ria efic ácia d a situ a ç ã o d e ensino. Isso significa
q u e a s situações p ed ag ó g icas p rece d em a a n á lise do a to educativo
n a s ^ u a s dim ensões p sicológica e sociológica. N o caso d a Psicologia,
ela in terv ém p a ra e x p licar os c o m p o n en tes p síq u ic o s envolvidos no
processo e n sin o -a p re n d iz a g e n u S e g u n d o M ia la re t, “o e d u c a d o r nâo
p o d e d eix a r de re s p e ita r a s leis e stab e lecid as p e la B iologia, pela
S ociologia ou p ela P sicologia; m a s essas leis n ã o p o d em ser
c o n sid e ra d a s senão com o m eio de ação e d e v a lo r relativo às p ró p ria s
co n d içõ es p ed ag ó g icas” (1974).
À u tilid ad e d a P sicologia ed u c a c io n a l, p o rta n to , d ep en d e do
g ra u e m que d â c o n ta d e e x p licar p ro b le m a s en fre n ta d o s pelos
p ro fesso res n a sala de a u la , p ro b le m a s esses, no e n ta n to , que
so m e n te p o d em ser c o m p re en d id o s com o re su lta n te s de fatores
e s tru tu ra is m ais am plos. N ão é possível, assim , q u e a Psicologia
A PRÁX1S DO PSICOLOGO IS?

ed u ca cio n al seja d e te rm in a n te d a ação p ed ag ó g ica; antes, è u tM


fonte d e o rien tação p ara os processos e situações pedagógicai,
c a b e n d o à e x p eriên cia escolar a ú ltim a p a la v ra . O pape] prepon­
d e ra n te d a P sicologia é o de fo rn ecer ao p ro fesso r p rin cíp io s do
c o m p o rta m e n to h u m a n o , esp ecialm en te os relacionados com a
a p re n d iz a g e m esco la r, p a ra q u e ele, d e a co rd o com seu senso
crítico , os tra n sfo rm e em m étodos a d e q u a d o s às situações p e d a g ó ­
gicas c o n cre tas.

Psicologia e pedagogia
E n te n d e r o psicológico d e n tro do pedagógico e am b o s
d e n tro do contexto social am p lo , significa a ssu m ir a posição de que
a escola é, p a r a os alu n o s, u m a m ed iação e n tre d e term in a n te s gerais
q u e c a ra c te riz a m seus an teced en tes sociais e o seu d estin o social de
classe; q u e r dizer q u e as fin alid ad e s da esco la são, a cim a de tu d o ,
sociais, seja no se n tid o de a d a p ta ç ã o à so cied a d e vigente, seja no
sen tid o de su a tra n sfo rm a ç ã o . “ Se as relações c o n tra d itó ria s e n tre
re p ro d u ç ã o e m u d a n ç a se efetu am n a e p e la escola, essa m ed iação se
d a r á ta n to no se n tid o de q u e a d estin a ç à o social dessa clien tela
re a firm e as su as condições d e origem , q u a n to no sentido de que
e s ta s condições de origem sejam n e g a d a s / 1 (M ello, 1982) A ação
d o cen te se d á , assim , en tre o indivíduo e as realid ad es sociais
(o m u n d o ), e a P sicologia é c h a m a d a p a ra fo rn e c e r ap oio n a le itu ra
d a s relações e n tre o ind iv id u al e o social e , daí, p a ra o pedagógico
p ro p ria m e n te dito.
E n tre ta n to , a Psicologia que se desenvolve n a se g u n d a m e tad e
d o século X IX , refletindo c irc u n stâ n cia s h istó ricas e sociais do
p e río d o — b asic a m e n te a conso lid ação d o c a p italism o — , vem
a c e n tu a r a id é ia d a n a tu re z a h u m a n a in d iv id u al e que se sobrepõe às
c irc u n stâ n c ia s sociais q u e a c erc am . C om efeito , é q u a n d o co m eça a
v e n d er su a fo rça d e tra b a lh o q u e o h o m e m se define com o livre,
com o in d iv íd u o . A b u rg u e sia e n q u a n to classe em ascensão d efen d e a
ig u a ld a d e e a lib e rd a d e individuais, já q u e as novas relações de
tra b a lh o supõem o p ro p rie tá rio dos m eios de p ro d u ção e o
a ss a la ria d o livre p a r a ac e ita r u m a re la ç ã o c o n tra tu a l p ela q u a l
v en d e s u a fo rç a de tra b a lh o . C om o desenvolvim ento d a p ro d u ção ,
p o ré m , in s ta u ra -se u m a nova versão d o in d iv id u a lism o , a a u to n o m ia
in d iv id u al. D esg astan d o -se com a lib e ra ç ã o d e en erg ia no tra b a lh o ,
o h o m em p re c isa g a ra n tir sua p riv a c id a d e , c e rto iso lam en to q u e lh e
158 IOSË CARLOS LJBÂNEO

p o ssib ilite reco m p o r as en erg ias. O cu lto ao ind iv id u alism o é, assim ,


u m a necessidade d a p ro d u ç ã o c a p ita lis ta , é u m a co n seq ü ên cia d as
relaçõ es específicas de p ro d u ç ã o . N ão in te re ssa n d o exp licitar as
v e rd a d e ira s condições e m que o tra b a lh o se d á , e o isolam ento
in d iv id u a l com o co n seq ü ên c ia, e sta re la ç ã o tra b a lh o /iso la m e n to
ap a re c e com o fazen d o p a rte d a condição h u m a n a , com o c o m p o rta ­
m e n to n a tu ra l. A ssim fazendo, a P sicologia cu n h o u a orientação,
q u e c o n tin u a p re d o m in a n d o , de co n sid e ra r com o fatores cau sad o res
do c o m p o rta m e n to os processos psicológicos in tern o s (em oções,
se n tim e n to s, idéias), sem levar em co n ta a n a tu re z a b asicam en te
social do ser h u m a n o e d e su a consciência,
A id éia de u m a essência h u m a n a pré-so cia l concebe a perso­
n a lid a d e h u m a n a in d iv id u al com o u m caso p a rtic u la r d a p erso n ali­
d a d e h u m a n a b á sica , o que p ressu p õ e que c a d a indivíduo possuí
c a ra c te rístic a s q u e são universais e in d e p e n d e m de in flu ên cia do
m eio social, cab e n d o à P sicologia co n h ec er esses traços universais. É
evidente que tal id é ia assu m e a sociedade de classes com o o m odelo
social ideai n a qual a re alizaç ão in d iv id u al re s u lta de u m a p e rfe ita
h a rm o n ia en tre indiv íd u o e sociedade. D a í a id é ia co rren te de
a ju s ta m e n to social a p lic a d a à Psicologia e à E d u c a ç ã o . O s p ad rõ es
de c o m p o rta m e n to a serem en sin ad o s ou m o d ificad o s co rresp o n d em
à p e rsp ectiv a da classe d o m in an te, q u e os to rn a universais e,
p o rta n to , com pulsórios.
T al concepção psicológica veio a ser a p ró p ria origem do
m ovim ento da escola nova no início d este século, in a u g u ra n d o o
in d iv id u a lism o n a P ed ag o g ia. A d e sc o b e rta d a c ria n ç a com o
p e rso n a lid a d e livre e a u tô n o m a , que n a co ncepção liberal d a
socied ad e c a p ita lista co rresp o n d e à livre in iciativ a individual,
m a rc o u u m a co n ce p ção p ed ag ó g ica in te ira m e n te v o lta d a p a ra a
c ria n ç a , red u zin d o o p a p e l do p ro fesso r e dos p ro g ra m a s escolares.
A o conceber a c ria n ç a com o p o ssu in d o os a trib u to s universais do
g ê n e ro h u m a n o , c a b e ria à e d u ca ç ã o a tu a liz a r estes a trib u to s n a tu ­
ra is, desenvolver a s p o ten cialid ad es. E dv "ar seria essencialm ente
c u ltiv a r o indivíduo, d e s d o b ra r s u a n a tu re z a , p ro p ic ia r o desen­
volv im ento h arm o n io so d a indiv id u aJid ad e em conso n ân cia com as
ex p ec tativ as da so ciedade.
As con seq ü ên cias p a ra a P ed a g o g ia sà o m a rc a n te s. O correu
u m desp rezo d a c u ltu ra e n q u a n to p a trim ô n io d a h u m a n id a d e , j á
q u e é a c ria n ç a q u e irá d e sc o b rir o sab er. A ên fase n a s necessidades
e in teresse s esp o n tân e o s d a c ria n ç a resu lto u n a psicologização d as
situ a çõ es escolares ao p o n to de os p ró p rio s p ro fesso re s p assarem a
A PRAXIS D O PSICÓLOGO IM

e x p licar o c o m p o rtam e n to dos alunos p o r m eio d e term os como


in ib ição , blo queios, im a tu rid a d e , ag ressiv id a d e, etc, A superva*
lo rização d a c ria n ç a ( “ A c ria n ç a é o p a i d o a d u lto ” , dizia M ontes-
sori), em m u ito s casos, trouxe com o co n se q ü ê n c ia o esp o n tan eísm o ,
a p erm issiv id ad e, a to lerân cia, a c re n ç a n a b o n d a d e n a tu ra l d o ser
h u m a n o , O individualism o em P edagogia a c en tu o u -se significativa­
m e n te com o desenvolvim ento d a Psicologia h u m a n is ta (existencial)
q u e divulgou a ed u ca ç ã o com o processo d e a d e q u a ç ã o pessoal fren te
às in flu ên cia s am bientais* A difu são d a P sic a n á lise , q u e in tro d u z a
no ção d o in c o n scien te na explicação d o c o m p o rta m e n to , ta m b ém
c o n trib u iu p a r a re fo rç a r c e rta s te n d ê n c ia s d a P edagogia n o v a .1
Nos ú ltim os a n o s tem g a n h o b a s ta n te peso e n tre os psicólogos
ed u c a c io n a is as ch a m a d a s te o ria s co gnitivas, p rin c ip a lm en te a s que
se p re o c u p a m com o desenvolvim ento d a s c a p a c id a d e s h u m a n a s
p a r a o d om ínio dos conhecim entos, E sses sistem as reconhecem a
a p re n d iz a g e m com o u m processo ativo fre n te a estím u lo s externos,
o m eio a p a re c e com o elem ento indissociável do ato de conhecer.
E n tre ta n to , n ão escapam à lim ita ç ã o c o m u m às d em ais concepções,
ou seja, o p rivilegiam ento do pólo in d iv id u a l e não ao pólo
d o m in a n te q u e é o social, isto é, as relações sociais de p ro d u ç ã o , a
divisão d a sociedade em classes sociais.
É sob essa ó tica que são a b o rd a d o s os tópicos m ais u su a is nos
m a n u a is d e P sicologia educacional (estágios do desenvolvim ento d a
cria n ç a e do adolescente, necessidades com o d e te rm in a n te s do
co m p o rta m e n to , processos d e ap ren d iz a g em , econom ia d a a p re n d i­
zagem , situ a çõ es d e a p ren d izag em em g e ra l, higiene m e n tal n a sala
de a u la , e tc ,), ou seja, o en fo q u e privilegia a co m p re en são da
c ria n ça, a a u to -e d u c a ç lo e não a tra n sm issã o /a ssim ila ç ã o das
m a té ria s escolares.
U m a P sicologia não -in d iv id u alista, p o rta n to u m a Psicologia
vo ltad a p a ra as relações sociais, e n te n d e q u e as cap a c id a d e s indi-
v id u ais n ão são in e re n tes à n a tu re z a h u m a n a , são an tes d e te rm i­
n a d a s p o r variáveis do m u n d o m a te ria l e x te rn a s ao indivíduo.
O e rro b ásico d a Psicologia in d iv id u alista é n ão a ssu m ir a a n te c e d ê n ­

(1) O behavíorismo é uma importante corrente psicológica também


desenvolvida no início deste século, mas sua repercussão na escola brasileira
enquanto metodologia de sala de aula ainda 6 bastante reduzida. Todavia, eta
aparece numa formulação pedagógica eclética denominada Pedagogia tecn h
cista , da qual trataremos oportunamente, neste texto.
160 JOSÉ CARLOS L1BÀNEO

cia d a s e s tru tu ra s e dos p ro d u to s sociais d a ativ id a d e h u m a n a sobre


a in d iv id u a lid a d e b iológica; ela n ão e x tra p o la do sujeito em p írico ,
in d iv id u al, isolado, fo ra do co n tex to histórico.
D a r conta dos co n d icio n a n tes sociais do ato pedagógico
significa co m p re en d er o alu n o com o um su je ito concreto, sín tese de
m ú ltip la s d e term in açõ es, que dão-se n u m co n te x to h istórico. "A
c o n sid e ra ç ã o de u m a d im en são h istó ric a sig n ific a a ssu m ir q u e ta n to
os p rocessos in tern o s com o os e stím u lo s do m e io tê m u m significado
a n te rio r à existência d este indivíduo, e e s ta a n te rio rid a d e deco rre d a
h is tó ria d a sociedade ou do g ru p o social o u , se q uiserm os, d a
c u ltu ra n a qual o indiv íd u o nasce. P o r m a is q u e en fatizem os a
u n ic id a d e , a in d iv id u a lid a d e de c a d a ser h u m a n o , p o r m a is s u i
g e n e r is que se p o ssa ser, só p o d e rá o c o rre r so b re os co n teú d o s que a
sociedade lh e dá, sobre a s condições d e v id a re a l q u e ela lh e p e rm ite
te r” (L an e , 1980).
C om o será u m a nova fo rm a d e a p re e n d e r as relações
a lu n o -e d u cad o r-so cied a d e? C om o o social a t u a sobre o indivíduo e
c o m o este volta-se p a ra o social p a ra m odificá-lo?
C o m p re e n d e r a escola n a re la ç ã o d ia lé tic a in divíduo-socie­
d a d e significa ao m esm o te m p o u m p ro cesso de cultivo in d ividual
(p ro m o v e r m u d a n ç a s n o indivíduo) e de in te g ra ç ã o social (in terv ir
n u m p ro jeto de m u d a n ç a social). A esp ecificid ad e do pedagógico
e s tã em conseguir a rea liz a ç ã o b e m -su c e d id a desses processos, sem
p e rd e r a vin culação com o to d o social, e isso se faz p e la m e d iação
e n tre a condição c o n c re ta de vida dos alu n o s e su a destin ação social.
T al m e d iaç ã o consiste n a atividade de tra n sm issã o (professor)-assi-
m il ação (aluno) d e co n teú d o s do s a b e r escolar*2 O desafio ao
e d u c a d o r está em c ria r fo rm a s de tra b a lh o p edagógico, isto é, ações
c o n c re ta s atra v és d a s q u a is se efetue a m e d ia ç ã o e n tre o sab er
esco la r e as condições d e v id a e d e tra b a lh o dos alu n o s.
A ntes, po rém , d e e x p licitar m e lh o r o s objetivos escolares
visando um uovo p ro je to de sociedade, é necessário to m a r u m a

(2> O termo "assimilação" deve ser entendido aqui no sentido


piagetiano, ou seja, um processo de incorporação de uma informação do
ambiente a partir de estruturas mentais já disponíveis no pensamento. Trata-se
de u ma inform açlo “ trabalhada" pelosesquemas mentais acionados pelo próprio
aluno ou instigados pelo professor. O term o "saber escolar“ é a seleção 6
organização do saber objetivo disponível na cultura social numa etapa histórica
determinada para fins de transmissão-assimiiaçSo ao longo da escolarização
formal.
A PRÁXIS D O PSICOLOGO 161

p o sição face à re la ç ã o en tre os d e te rm in a n te s sociais e a ex p eriên cia


in d iv id u al. P reten d e -se la n ç a r alg u m as idéias, b a s ta n te genéricas,
sobre o fa to de que a ex p eriên cia in d iv id u a l deve ser co n sid e ra d a
d e n tro de u m q u a d ro social onde p re d o m in a m as condições
c o n c re ta s m a te ria is de existência e q u e essa ab o rd ag e m exclui o
conceito d e indivíduo a b stra to , de n a tu re z a h u m a n a , de p e rso n a li­
d a d e b á sic a , p ró p rio s d a Psicologia c e n tra d a no indivíduo.
A c o m p re en são da n a tu re z a social d a ex p eriên cia in d iv id u al
insere-se no p ressu p o sto m ais a b ra n g e n te q u e é a relação recíp ro c a
e n tre o indiv íd u o e a sociedade, e n tre su je ito e o b jeto . M arx a firm a:
“ O s h o m e n s fazem , eles p ró p rio s, su a h is tó ria , m as num m eio d ad o
q u e os c o n d ic io n a’*. A h istó ria é, e n tã o , p ro d u to d a ativ id ad e
h u m a n a ; e n tre ta n to , a atividade h u m a n a se desenvolve sob bases
re a is a n te rio re s (conflitos, co n tra d içõ es, lu ta s) que fo rn ecem a
d ireção p a r a as m u d a n ç a s q u e vão se p ro c e ssa n d o . Sobre as bases
d e ssa re a lid a d e m a te ria l in terv ém a a tiv id a d e h u m a n a , b u sc a n d o
su p e rá -la s, ou seja, o que se c o stu m a c h a m a r d e p r á x is é p re c i­
sa m e n te o m o v im en to que eleva o h o m e m d e s u a co n d ição de
p ro d u to d a s circ u n stâ n c ia s a n te rio rm e n te d e te rm in a d a s à co n d ição
de co n sciência. A sociedade, p o rta n to , c o n té m em si m e sm a
elem en to s d e m u d a n ç a p o r c a u sa do m o v im en to p e rm a n e n te de
su p e ra ç â o ^ d a s co n tra d içõ es (a c o n tra d iç ã o p rin c ip a l é a relação
tra b a lh o -c a jn ta l, isto é, a co n tra d iç ã o e n tre o c a rá te r social d a
p ro d u ç ã o e*o c a r á te r p rivado d a sua a p ro p ria ç ã o ); m a s é o h o m e m
que in terv ém nessa m u d a n ç a p a ra su p e ra ç ã o d a s c o n tra d içõ es no
se n tid o d a s u a h u m a n izaç ão .

O q u e se p o d e c h a m a r de n a tu r e z a h u m a n a é, en tão , o ser
social e h istó rico , é o resu lta d o d a in te ra ç ã o e n tre o hom em e o
m u n d o social. O s h o m e n s são “ p ro d u to s ou funções de relações
sociais, co n c re ta s, objetivas, d e n tro d e u m a e s tru tu ra social qu e
d e te rm in a o seu c o m p o rta m e n to com o in d iv íd u o ’1 (V azques, 1977).
N ão se e s tá d izen d o sim p lesm en te que o h o m e m te m u m a n a tu re z a
social, m a s m ais do que isso: ele é u m p ro d u to das relações sociais
tal com o se d ão sob o capitalism o« P o r isso, c o m p re e n d e r o
in d iv íd u o ou b u s c a r as c a u s a s do seu c o m p o rta m e n to significa
situ á -lo no co n tex to d e um a ex istên cia so cialm en te c o n fig u ra d a , ou
seja, condições de tra b a lh o e de vida n u m a so ciedade d e classes.
S ignifica, enfim , co m p re e n d e r que o lu g a r q u e o c u p a n a h ie ra rq u ia
de classes m o d ifica diferencialm ente su as percepções, su a re la ç ã o
162 JOSÉ CARLOS LIBÀNEO

com o fu tu ro , su a re la ç ã o com as in stitu iç õ es sociais (escola, por


exem plo) e exp ectativ as sociais em g erai.
E sse m odo d e e n te n d e r as relações e n tre o indivíduo e a
so cied a d e n ã o som ente re je ita a id é ia de q u e o su p o rte biológico é
a n te c e d e n te ao p siq u ism o social com o ta m b é m a idéia de q u e o
social se so m a ao biológico. O biológico e o social n ão são in stân cias
d is tin ta s do ser h u m a n o , p o is o biológico é s u b su m id o no social. Na
v e rd a d e , sobre u m a co n d ição biológica — d a d a — se c o n stitu i a
c o n d iç ã o social — a d q u ir id a — e so b re a m b a s surge a ú n ic a e
v e rd a d e ira n a tu re z a h u m a n a : a n a tu re z a so cial e h istó ric a . E m
o u tra s p a la v ra s, a a tiv id a d e h u m a n a n ã o se re d u z ao biológico, pois
p a r a se co n stitu ir com o ativ id ad e h u m a n a é p reciso q u e se
desenvolva sobre o biológico funções novas e p ró p ria s d a v id a em
so cied a d e. M as e stas novas funções n ã o são p ré-so ciais com o as
c o n d içõ es biológicas, m as são cria d as h isto ric a m e n te com o p ro d u to s
d a s in te ra ç õ e s en tre os indivíduos, e n tre os g ru p o s sociais, e n tre os
in d iv íd u o s e a so cied a d e. N ão ex iste, p o rta n to , u m a n a tu re z a
h u m a n a definitiva, estável, ctím o q u e r a P sico lo g ia c o rren te; ela vai
se c o n s titu in d o h istó ric a e so cialm ente p e la lu ta do h o m e m com o
a m b ie n te , p e la in te ra ç ã o e n tre os ind iv íd u o s, pelo tra b a lh o , pela
educação.
N as considerações feita s a té a q u i p o d e ria p a re c e r suficiente
p a r a u m a Psicologia v o lta d a p a r a o social a firm a r a d im en são social
do in d iv id u o . D e fa to , a P ed ag o g ia nova o rie n ta d a p ela Psicologia
fu n c io n a lista n u n c a cessou de e s p e ra r d a e d u c a ç ã o a a d a p ta ç ã o do
in d iv id u o à sociedade, ta n to é que d e sta c a o p a p e l das interações
sociais n o desenvolvim ento in telec tu al. E n tre ta n to , a Psicologia
c e n tr a d a no indiv íd u o co lo ca a socialização co m o u m a trib u to da
n a tu re z a h u m a n a e evita colocar o p a p e l d a e s tru tu ra e do meio
social n a socialização. O term o m e io s o c ia l em p reg ad o pela
P sico lo g ia c o rren te restrin g e -se ao a m b ie n te o n d e se d á o processo
in d iv id u a l d e socialização, ou seja, o a m b ie n te é o p o n to de cheg ad a,
e n ã o o p o n to de p a rtid a . N a verdade, o q u e o c o rre é que a sociedade
d e te rm in a a s condições de e d u c a b ü id a d e d a c ria n ç a , a c ria n ç a j á é
so c ia liz a d a desde q u e n asce. As ações e d u c a tiv a s, p o rta n to , com o
são p ro v en ien tes do m eio social, im põem à c ria n ç a p ro p ó sito s e
ta re fa s q u e n ão são, n ece ssa ria m e n te , c o rre sp o n d en te s ao desen ­
volvim ento e sp o n tân e o d a n a tu re z a h u m a n a in d iv id u al. A educação
é u m a ativ id ad e de fo ra , e x te rn a à c ria n ç a , e la é, de c e rta form a,
u m a ativ id a d e fo rçad a, q u e intervém n o cu rso do desenvolvim ento
d o in d iv id u o .
A PRÀXIS DO PSICÓLOGO 163

E , n este p o n to , chegam os nov am en te à P edagogia. Se o objeto


d a P ed a g o g ia é o indivíduo concreto, p ro d u to de m ú ltip la s d e te r­
m in açõ es e, em conseqüência, o q u e ele é e tra z p a ra a situ ação
p e d ag ó g ica d e p en d e d a s condições d e v id a real que o m eio social
p e rm ite que ele seja, e n tã o to d a a ç ã o p ed ag ó g ica p ressu p õ e a
c o m p re en são do significado social de c a d a co m p o rta m e n to no con­
ju n to das condições de ex istên cia em q u e ocorre.
C oloca-se, assim , a q u estão-chave: com o a rtic u la r u m a análise
e s tru tu ra l, de c o n ju n to , com a c o m p re en são dos indivíduos e suas
e x p eriên cia s? C om o ir além do in d iv id u al p a r a a p re e n d e r as im p li­
cações sociais do co m p o rtam e n to m a s com o objetivo de v o ltar ao
indiv íd u o p a r a p re p a rá -lo p a r a b u s c a r novas fo rm as de relações
sociais? E m p rim eiro lu g a r, é preciso e lim in a r q u a lq u e r no ção de
n a tu re z a h u m a n a in dividual, a c e n tu a n d o , ao co n trário , q u e os
co m p o rta m e n to s dos indivíduos re su ltam de u m a realid ad e m a te ria l
(co n flito s de classe e relações d e p ro d u ç ã o ), co n fo rm e vivida no m eio
social, n a fa m ília , n o em p re g o , n a escola, etc. Isso significa referir
os c o m p o n en tes psíq u ico s d a situ a ção p ed a g ó g ic a (n ecessid ad es e
in teresses, m otivação, auto co n ceito , p rocessos m e n ta is de aq u isição
de c o n h ec im e n to s, p ro n tid ã o , fato res cognitivos, etc.) a fatores
e s tru tu ra is a m p lo s, isto é, relações de classe que d e te rm in a m
p a d rõ e s específicos de resp o stas. E m seg u n d o lu g a r, é preciso que o
p ro b le m a s e lim itações individuais, ou seja, as desv an tag en s sociais
q u e d ific u lta m a a p ren d izag em , sejam co m p re en d id o s p elo aluno
atra v és d a a ju d a do p ro fesso r (pelos co n teú d o s do ensino). A
c o m p re e n sã o e a tra n sfo rm a ç ã o do m u n d o p e la p rá tic a social supõe
e fetiv am en te a co m p re en são das c a ra c te rístic a s m ais a m p la s do
sistem a c a p ita lis ta , isto é, o desv elam en to dos m ecanism os ín tim os
d o p ro cesso d e p ro d u ç ã o c a p ita lis ta . A ativ id ad e p ed ag ó g ica
c o n trib u i p a r a q u e o aluno vá a p re n d e n d o a ex p licar o re a l d e tal
%fo rm a , com o escreve V azquez, a elevar a con sciên cia d a p r á x is com o
ativ id ad e m a te ria l do homem q u e tra n s fo rm a o m u n d o n a tu ra l e
social p a r a faze r dele um m u n d o h u m a n o . O processo de m u d a n ç a
social n ã o se faz sozinho n em a p en as co m a p rá tic a , m as ta m b ém
pelo co n h ecim en to .

A escola e o saber

O s objetivos d a escola se c o n fu n d e m com a ação e x erc id a


sobre c ria n ç a s e adolescentes (p rin c ip a lm e n te ), p a ra to rn á -la s a p tas
164 JOSÉ CARLOS LIBÀNEO

a viver n u m a d e te rm in a d a sociedade. A ação p e d ag ó g ica é, assim ,


o tra ç o de união e n tre o in d iv id u al e o social. E n tre ta n to , pelo fato
de a re a lid a d e social ser h istó ric a e, p o r isso, superável, ê relevante
p e rg u n ta r-se : de q u e sociedade se tra ta ? q u e hom em se quer
fo rm a r? qu al o sen tid o d a a p ren d izag em e sco la r? que significa falar
en desenvolvim ento d a c ria n ç a e do a d o lesc en te? T êm sido dadas
m u ita s resp o stas a essas q u estõ es e, q u a is q u e r que sejam elas, são
m a rc a d a s p o r u m a d im en são p o lític a, pois q u e os p ropósitos de
e d u c a ç ã o in dividual n ão se se p a ra m d a to ta lid a d e social o n d e está
in s e rid a . C om efeito, n u m a so ciedade de classes dão*se relações
so ciais q u e são o re s u lta d o do conflito de in te re sse s de d u a s classes
fu n d a m e n ta is, sendo q u e u m a d elas, a q u e detém o p oder
eco n ô m ico e político, p ro c u ra co n fo rm a r as in stitu iç õ es a seus inte­
resses. A ssim é q u e, no B rasil, a escola se m p re esteve o rg an iz ad a
p a r a fo rm a r as elites sociais.
A fo rm a p ed a g ó g ic a qu e p re d o m in o u até 1920, m a is ou
m enos» foi a tr a d ic io n a l , cujo objetivo e r a tra n s m itir u m a cu ltu ra
g e ra l h u m a n ístic a, d e c a r á te r enciclopédico. E la sem p re a te n d e u às
c a m a d a s so cialm ente priv ileg iad as e a te n d e u b em ; to rn a -s e r e n tre ­
ta n to , in eficaz q u a n d o s u a clien te la se div e rsifica devido ao acesso
d a s c a m a d a s m édias e p o p u la re s.
N as p rim e ira s d éc a d a s do século X X , a b u rg u e sia nacional
tin h a in teresse de q u e a escola se a d a p ta sse às n ecessid ad es de
desenvolvim ento in d u s tria i, e p a ra isso o cu rríc u lo enciclopédico da
esco la trad icio n a l j á n ã o servia. E is aí o objetivo do m ovim ento d a
esco la nova: m o d e rn izar o ensino, isto é, colòcá-lo a serviço das
n ec e ssid a d e s sociais. O s p rin cíp io s d a escola nova — resp eito à
in d iv id u a lid a d e d a c ria n ç a , desenvolvim ento d e ap tid õ es n atu ra is,
a p re n d e r fazendo, a tiv id a d e e s p o n tâ n e a , etc. — coincidiam com os
p rin c íp io s d a filosofia lib e ra i, q u e exigiam u m a escola p rá tic a , um
e n s in o ú til p a ra a so cied ad e, vale dizer, p a r a a in d ú s tria m oderna.
N a esco la nova d ecresceu o in teresse pelos c o n te ú d o s d a s m atérias
em fa v o r dos m étodos, h a b ilid a d e s, p e sq u isa , co m o a rg u m e n to de
q ue, desenvolvendo os p rocessos m e n ta is, a c ria n ç a se ria m elhor
a te n d id a em suas n ece ssid a d es e sp o n tâ n e a s e c h e g a ria so zin h a aos
c o n teú d o s.
E ssa o rie n ta ç ã o d a escola nova p re ju d ic o u m u ito as crianças
d a s classes p o p u la re s, pois se s u p u n h a q u e e la s j á tra z ia m de cada
u m a fo rm aç ão p rév ia p a r a e n fre n ta r u m c u rríc u lo n a b ase de
e x p eriên cia s. C om efeito, a su p re m a c ia do m é to d o ativo e intuitivo
fav o recia a q u elas c ria n ç a s q u e tin h a m e x p e riê n c ia s fam iliares m ais
A PR 4X 15 D O PSICÓLOGO 165

ríc a s e siste m a tiz a d a s e p reju d icav a as q u e tin h a m n a escola a ú n ic a


c h a n c e d e acesso ao sa b e r. O s p ro fesso re s, por su a vez, foram
d e so b rig ad o s de d o m in a r o co n teú d o d a s m a té ria s, g a n h a n d o peso
o d o m ín io d a s técn icas de ensino,
O a te n d im e n to , p o rta n to , c o n tin u o u p re c á rio , e c aiu p o r te rra
o p ro p ó s ito ap reg o a d o p ela escola nova d e pro m o v er a ig u a ld a d e de
o p o rtu n id a d e s . E n q u a n to isso, c o n tin u a ra m os elevados ín d ices de
evasão e re p e tê n c ia , e m b o ra persistisse a reivindicação d a p o p u la ção
p o r m a is escolas. É o m o m en to de co lo c a r em ação u m m odelo
ped ag ó g ico d e escola q u e viesse a re d u z ir as pressões, a ten d esse o
m á x im o d e c ria n ç a s e com o m e n o r c u sto possível, além de a te n d e r
aos in teresse s d a classe e m p re sarial. A P ed a g o g ia te cn icista não
ro m p e com a P ed ag o g ia tra d ic io n a l (q u e n u n c a deixou de existir) e
nem com a P edagogia nova, e in tro d u z n a escola os objetivos
p re esta b elec id o s p a r a u n ifo rm iz a r o e n sin o , a c e n tu a r as técn icas,
sim p lific a r os conteúdos, c o m p ro m e te n d o m a is ain d a a q u a lid a d e .
E sse breve esboço d a evolução h istó ric a d a escola p erm ite
c o m p re e n d e r com o a ação p edagógica a c o m p a n h a as fo rm as pelas
q u a is a so ciedade é o rg a n iz a d a . O ra , se o q u e c a ra c te riz a a
so cied a d e são as relações e n tre as classes sociais, que são relações de
c o n tra d iç ã o em função de interesses q u e são distin to s, conclui-se
q u e essa c o n tra d iç ã o ta m b é m existe n a escola, j á que ela é u m a
m a n ife sta ç ã o p a rtic u la r d a sociedade. É possível, en tão , co n sid erá-
la com o “ u m a d a s m ediações p ela q u a l se e fe tu a o conflito e n tre as
classes sociais, u m a in te re s sa d a n a re p ro d u ç ã o d a e s tru tu ra de
classes ta l q u al é, o u tra cu jo s in teresses objetivos exigem a negação
da e s tru tu ra d e classes e a su p ressã o d a d o m in a ç ã o eco n ô m ica "
(M ello, 1982). P o rta n to , a escola ta n to p o d e se o rg a n iz a r p a r a n e g a r
às classes p o p u la re s o acesso ao co n h ec im e n to com o p a ra g aran ti-lo ;
se a ssu m e o p a p e l de a g en te de m u d a n ç a n a s relações sociais,
cab e -lh e in s tru m e n ta liz a r os alu n o s p a r a s u p e ra r su a co n d ição de
classe tal q u a l m a n tid a p ela e s tru tu ra social.
P o rta n to , u m a escola q u e se p ro p o n h a a a te n d e r os interesses
das. classes p o p u la re s te rá de a ssu m ir suas finalidades sociais
re fe rid a s a u m projeto de so cied a d e o n d e as relações sociais
ex isten tes sejam m o d ificad a s. Isso sig n ifica u m a reo rg an ização
p e d ag ó g ica q u e p a r ta d a s condições c o n c re ta s d e vida das cria n ç a s e
su a d e stin a ç ã o social, te n d o em vista u m p ro je to d e tra n sfo rm a ç ã o
d a so cied ad e, e aí se in sere a fu n ç ã o d a tran sm issã o d o sab er
e sco la r. E m o u tra s p alav ras, ao la d o de o u tra s m ediações, é a
a q u isiçã o d e co n h ecim en to s e h a b ilid a d e s q u e , assu m in d o form as
166 JOSÉ CARLOS LIBANEO

p ed ag ó g icas, g a ra n tirã o a inserção d a s c lasses p o p u la re s num


p ro je to a m p lo de tra n sfo rm a ç ã o social.
A p erspectiva q u e se propõe a q u i é u m a nova m a n e ira de
c o m p re e n d e r os elem en to s d a ação p ed ag ó g ica: o alu n o , o ed u ca d o r,
a so cied a d e. Com efeito, a P ed ag o g ia tra d ic io n a l cara c te riz a -se por
p riv ileg iar o pólo d a tra d iç ã o c o n stitu íd a , o n d e o sab er é tran sm itid o
u n ila te ra lm e n te , sem p o ssib ilid ad e de se q u e s tio n a r seu sentido e
fu n ç ã o face às re alid ad es sociais. A P ed ag o g ia nova não lid a com o
s a b e r e n q u a n to tal p o r e n te n d e r q u e su a b u s c a deva ser esp o n tân e a,
p o r u m processo d e d e sco b erta d a c ria n ç a . A lém disso, essa
P e d a g o g ia «extrapola as funções específicas d a escola quando
p re te n d e a b a rc a r m u ita s dim ensões do desenvolvim ento h u m a n o .
P o r o u tro lado, c e rta s posições m ais crític a s o ra n eg am o valor à
e sco la a tu a l devido à s u a condição d e r e p ro d u to ra das relações
sociais vigentes, o ra restrin g e m seu p a p e l à discu ssão d a experiência
vivida p elas classes p o p u la re s a fim de p o ssib ilita r-lh e s a d q u irir um a
co n sciên cia política. U m a P edagogia social v o lta d a p a r a os conteú­
dos c u ltu ra is e n ten d e que h á saberes u n iv e rsais que se co n stitu íram
em d o m ín io s de c o n h ec im e n to rela tiv a m e n te au tônom os incorpo­
ra d o s p e la h u m a n id a d e e q u e devem ser p e rm a n e n te m e n te reava­
lia d o s face às realid ad es sociais, através de u m processo d e tratis-
m issão -assim ila ção -reav aliaç ão critica. O objetivo d a escola, assim ,
será g a ra n tir a todos o s a b e r e as c a p a c id a d e s n ecessárias a um
d o m in io de todos os cam p o s d a ativ id ad e h u m a n a , com o condição
p a r a re d u ç ã o das d e sig u ald ad es de origem social.
E ste é o núcleo d a a ç ã o p ed ag ó g ica cujos m ecanism os íntim os
devem se r bem c o m p re e n d id o s a fim de p o s sib ilita r su as interfaces
co m as dim ensões p sicológica e social.

Ação pedagógica: conceitos e objetivos

O q u e é a P ed ag o g ia? Q u al é seu ob jeto ? O que c o n fig u ra um a


s itu a ç ã o pedagógica? S ã o questões so b re a s q u a is os ed u cad o res
e s tã o longe de te r u m consenso* E n tre ta n to , p a ra trilh a r um
c a m in h o q u e leve a c la re a r a esp ecificid ad e do a to pedagógico,
p o d e -se p a r tir d a a firm a ç ã o de que a P e d a g o g ia é a te o ria e p rá tic a
d a e d u c a ç ã o e, p o rta n to , seu o b je to é a e d u c a b ilid a d e do ser
h u m a n o , ou m elh o r, o ser h u m a n o a ser e d u c a d o . E d u c a r (em latim ,
e -d u c a re ) é c o n d u zir de u m estad o a o u tro , é m o d ific a r n u m a certa
d ire ç ã o o q u e é suscetível de ed u ca ção . O a to pedagógico pode,
A PRÀXIS D O PSICÓLOGO 1«?

e n tã o , ser d efinido com o u m a ativ id a d e siste m á tic a d e in te ra ç to


e n tre seres; sociais, ta n to a nível do in tra p e s so a l q u a n to a nível da
in flu ê n c ia do m eio, in tera ç ã o essa q u e se c o n fig u ra n u m a ação
ex e rc id a sobre sujeitos ou g ru p o s de su jeito s visando p rovocar neles
m u d a n ç a s tão eficazes q u e os to m e elem en to s ativos d e sta p ró p ria
a ç ã o ex erc id a. P resum e-se, aí, a in terlig a ç ã o no a to pedagógico de
três c o m p o n en tes; um a g e n te (alg u ém , u m g ru p o , um m eio social,
etc.), u m a m en sa g em tra n s m itid a (c o n te ú d o s, m éto d o s, auto-
m a tism o s, h ab ilid a d e s, e tc .) e u m e d u c a n d o (a lu n o , g ru p o s de
alu n o s, u m a g eração , e tc .). (M ia la re t, 1976).
C h am em o s esses com ponentes de A (a g e n te ), M (m en sag em ) e
E (e d u c a n d o ), O m ovim ento A — M — E n ã o é u n id irecio n a l, pois a
a ç ã o d e A sobre E pode re to rn a r d e E p a ra A, inclusive pela
re av a liaç ão d e M . E n tre ta n to , o re to m o d e E p a ra A som ente existe
p o rq u e A veiculou a n te s u m a m ensagem M . O u seja, A te m por
p ressu p o sto objetivos prévios em re la ç ã o a E , além de que as
relações À -E são assim étricas, p o rq u e n ã o são d a m esm a n a tu re z a .
O especificam ente pedagógico e s ta ria , assim , n a im b ricaç ão
e n tre M e E , p ro p ic ia d a p e la ação d e A, pois som ente A p o d e ria
g a r a n tir a ad eq u a ç ã o e n tre o co n te ú d o de M e a s condições de
assim ilaçã o de E . O u seja, a ação p e d ag ó g ica som ente se co m p le ta
q u a n d o a m en sag em M te m u m efeito ta l sobre o ed u ca n d o E de tal
fo rm a q u e se evidencie a p a rtic ip a ç ã o d e ste em M .
E ste e s q u e m a p erm ite id e n tific a r c e rta s ca ra c te rístic a s do ato
p ed ag ó g ico que sã o relevantes p a ra a s situ a çõ es ped ag ó g icas. E m
p rim e iro lu g a r, im p lic a u m a “ ação sobre*1 o indivíduo ou g ru p o de
indivíduos, de ta l fo rm a que, ao te rm o dessa ação, o e d u c a n d o
co rre sp o n d a ta n to q u an to possível à im a g e m q u e se faz de h o m e m
e d u c a d o . E s ta ação, e n tre ta n to , n ão é a rb itrá ria , m as deco rre d a
fu n ção so cializa d o ra da escola, re p re s e n ta d a pelo p ro fesso r. Com
isso se q u e r d izer que o ato pedagógico é o m eio p elo q u al se to rn a
possível a lig ação d e recip ro cid ad e e n tre in divíduo e sociedade.
E n q u a n to in s tâ n c ia m e d ia d o ra (e n tre o u tra s ), a ação p ed ag ó g ica
te m u m c a rá te r in ten cio n a l, de co n vencim ento, face à tra n sm issã o
d e u m co n h ecim en to q u e v ia b iliz a rá a in serção do a lu n o n a
so cied a d e de fo rm a crítica. Isso leva a a d m itir q u e o ato pedagógico
su p õ e a d esig u a ld a d e en tre professores e a lu n o s no p o n to de p a rtid a
p a r a se c a m in h a r à ig u a ld a d e no p o n to de ch e g a d a . C o n sid erar que
alu n o s e p ro fesso res são ig u a is face a u m co n te ú d o objetivo externo
a a m b o s to m a sem sentido a ação p ed a g ó g ic a . A ação pedag ó g ica,
o p ro cesso ed u cativ o , é u m m eio p a ra se c h e g a r a algo, sen d o esse
168 J O S É C A R LO S L IB Ä N E O

algo os con teú d o s c u ltu ra is . É p o r esse c a m in h o q u e se ch eg a à


n o ç ã o de ed u cação com o u m a ativ id ad e m e d ia d o ra no seio da
p r á tic a social global, ou seja, u m a d a s m e d iaçõ es p ela q u al o aluno,
p e la sua participação ativ a e p ela in terv en ção d o professor, p a s s a de
u m a e x p eriên cia social in icialm en te c o n fu sa e fra g m e n ta d a (sincré-
tica) a u m a visão sintética» m as o rg a n iz a d a e u n ific a d a (Saviani,
1982).
Com efeito, de u m la d o h á o a lu n o y so cialm en te d eterm in a d o ,
p e rte n c e n te a u m a classe social, q u e d o m in a u m sa b e r n ão siste­
m a tiz a d o , valores, go sto s, falas» in teresses, necessidades, enfim ,
p o rta d o r de u m a p rim e ira ed u cação a d q u irid a no seu m eio socio­
c u ltu ra l. E s ta re a lid a d e é o referen cial c o n c re to de o n d e se deve
p a r ti r p a ra o dom ínio do co n teú d o e s tru tu ra d o trazido pelo p r o ­
fe s s o r , q ue, p o r s u a vez, é o re p re se n ta n te do m u n d o social adulto,
com m a is ex p eriên cia e m a is co n h ecim en to s em to m o das realid ad es
sociais e com o d om ínio pedagógico necessário p a ra lid a r com os
c o n te ú d o s, c u ja fu n ção co n siste em g u ia r o a lu n o em seus esforços
d e siste m a tiz a ç ã o e re e la b o ra ç ã o do sab er.
E m segundo lu g a r, a ação p ed ag ó g ica, p o rq u e lid a com o ser
h u m a n o educável, refere-se a u m o b je to ab e rto à exp an são , p o rta n to
m odificável, pois seu efeito e stá p re c isa m e n te em to m a r o aluno
su je ito de seu p ró p rio co n h ec im e n to . O ato ped ag ó g ico co n tém em si
n ã o só a dim en são d o q u e é (o tra n sm itid o , o repro d u zid o ) com o
ta m b é m a dim ensão d o q u e p o d e se r (a in o v ação , a reelaboração).
Aí e s tá u m a das d ificu ld ad e s de c o n h e c im e n to e a p ree n são do
o b je to -ed u caç ão : ele é in concluso, no se n tid o d e q u e “ vai se geran d o
no c u rso d a ex p eriên cia dos h o m en s com o indivíduos e com o
c o n ju n to ” (S a c ristá n , 1983), ou seja, vai se n d o co n stru íd o em
d e c o rrê n c ia d a p ró p ria p r á tic a ed u ca tiv a . E ste a c e n tu a , novam ente,
o c a r á te r social e histó rico do ser h u m a n o , isto é , a h isto ric id a d e do
o b je to faz com que ele n ão seja d e fin itiv a m e n te , m a s esteja sem pre
in a c a b a d o .
£ neste sentido q u e o a to pedagógico assu m e u m a dim ensão
v alo ra tiv a, ideológica, p a r a além d e seus c o m p o n en tes m eto d o ­
lógicos e técnicos. “ E m c o n tra p o siç ã o a o u tra s ciências, as ciências
d a e d u c a ç ã o não é q u e n ã o p o ssa m j á se d e sp o ja r d e u m certo
co m p o n e n te ideológico p ró p rio de to d o tra b a lh o científico, m a s esse
m e sm o c o m p o n en te é o q u e as ju stific a . ( . . .) A fo rça desse
co m p o n e n te u tópico é a q u e deve c o m a n d a r a p a rte do o bjeto ain d a
n ã o c o n fig u ra d o , e m b o ra a ju d a d o p o r o u tro s c o n h e c i m e n t o s teó­
ricos, m as n ão u n ic a m e n te p o r eles.” (S acristá n * 1 9 8 3 ).
A PRÂXIS D O PSICÓLOGO i#

E sse racio cín io p e rm ite in sistir n o fato de que as criafiÇAT


p re c isa m a d q u irir do p ro fesso r co n ceito s necessários e uteniíU ot
in te le c tu a is p a ra u m d o m ín io seguro do sa b e r escolar e elim inar
id éias m u ito d ifu n d id as e n tre os p ro fesso res d e qu e os co n te ú d o !
devem “ s a ir d eles” , q u a lq u e r livro é b o m , enfini, a c re d ita n d o em
interesses tran sitó rio s com o os que sã o c a p ta d o s n a s revistas em
q u a d rin h o s , televisão, fo rm as de “ d e m o c ra tiz a ç ã o ” do e n sin o m ais
u m a vez segregativas<
E m te rc eiro lugar, a m en sag em são os co n teú d o s c u ltu ra is,
m as q u e a b ra n g e m ta m b é m os m éto d o s de su a a p ro p ria ç ã o com o,
de resto , o d iscurso v erb al de p ro fesso re s e alunos, os gestos, os
livros d id á tico s. O m étodo de a p ro p ria ç ã o dos con teú d o s consiste n a
p ró p ria lógica do processo de co n h ec im e n to . Ao fazer d a ex p eriên cia
social d a s c ria n ç a s a p ró p ria tra m a d a e x p e riê n c ia e d u ca tiv a sobre a
q u a l se in tro d u z o co n te ú d o científico d a s m a téria s, n âo p a ra
d e s tru ir a ex p eriên cia p rév ia, a n te s p a r a elevá-la, está-se conce­
b e n d o o co n h ecim en to com o u m a ativ id a d e inseparável d a p rá tic a
social. A ativ id ad e teórica é o processo q ue, p a rtin d o d a p rá tic a , nos
leva a “ a p re e n d e r” a re a lid a d e ob jetiv a p a ra , em seguida, a p lic a r o
c o n h ec im e n to a d q u irid o n a p rá tic a social, p a r a tra n sfo rm á -la . A
in tro d u ç ã o d e co n h ecim en to s e in fo rm açõ es n ão visa, p o rta n to , o
acú m u lo d e in form ações, m as u m a re e la b o ra ç ã o m e n ta l que se
tra d u z irá em c o m p o rta m e n to s p rá tic o s, n u m a nova p e rsp ectiv a de
ação sobre o m u n d o social, levando efetiv am en te à p assag em do
in d iv id u al ao social. D a p rá tic a p a r a a te o ria , p a ra re g re ssa r à
p rá tic a : é um m ovim ento d e c o n tin u id a d e do j á ex p e rim e n ta d o e
a p re n d id o ; m as essa c o n tin u id a d e é re a v a lia d a critic a m e n te p o r
m eio d a r u p tu r a p ro p ic ia d a pelo s a b e r o rg a n iz a d o tra z id o pelo
p ro fesso r, o que a lim e n ta rá n o v am en te a p rá tic a e assim sucessi­
v am en te.
E ste processo de id a e volta e n tre a te o ria e a p rá tic a p e rm itirá
u m tra b a lh o c o n ju n to p ro fesso r-a lu n o p a r a co m p re en são e enfren*
ta m e n to d a s c ara c te rístic a s m a is a m p la s d a s relações c a p ita lista s de
p ro d u ç ã o , q u e re s u lta rá g ra d a tiv a m e n te , ao la d o d e o u tra s p rá tic a s
sociais, no desenvolvim ento d a co n sciê n cia de classe. Isso significa
to m a r p osição d ia n te do c o n h ec im e n to com o u m a fo rm a in su b sti­
tuível de a p re e n d e r a d in â m ic a d a so cied a d e d e classes.
C hega-se, assim , às fin alid ad e s d e ação pedag ó g ica d a s quais
re s u lta m p rin cíp io s psicológicos a c e rc a do ser q u e a p re n d e e dos
p rocessos d e ap ren d izag em . S egundo M ia la re t, “ a ação pedag ó g ica,
n ece ssa ria m e n te exercida no q u a d ro de u m a situação p ed ag ó g ica
170 JOSÉ CARLOS LIBÀNEO

( u m a só existe pela o ú tra e re c ip ro cam e n te), in d u z co n d u ta s, prova


e u tiliz a processos p síq u ic o s nos e d u c a n d o s. A P sicologia da
e d u c a ç ã o p o d e, p o is, ser c o n sid e ra d a com o o c o n ju n to dos estudos
d e ssa s c o n d u ta s e desses processos, p ro v o cad o s ou u tilizados peia
a tiv id a d e p ed ag ó g ica’*, O psicólogo e d u c a c io n a l, p o r conseguinte,
“ deve ser c o m p eten te ao m esm o tem po no d o m ín io d a Psicologia e
n o d a P edagogia, u m a vez q u e as c o n d u ta s por e s tu d a r se
desenvolvem sob a in flu ê n c ia de condições p ed ag ó g icas” (1974).
D e n tro da p re o c u p a ç ã o com u m a e sco la vo ltad a p a r a a
re d u ç ã o d a s d e sig u ald ad es sociais, a re to m a d a d a no ção d e ed u ­
c a ç ã o com o favorecim ento d a s condições d e a p ro p ria ç ã o efetiva dos
c o n te ú d o s c u ltu ra is pode se inscrever, n u m a p e rsp ectiv a g lo b al, n a
n o ç ã o d a ed u cação co g n itiv a a rtic u la d a com os an teced en tes sociais
dos a lu n o s. E n q u a n to a P edagogia tra d ic io n a l p riv a o alu n o da
in ic ia tiv a p o r tra n sm itir-lh e co n teú d o s sem c h a n c e de reelaborá-los,
a P e d a g o g ia nova p ressu p õ e n a c ria n ç a u m a p e tite p e lo sa b er que
leva-a a co n stru ir seu p ró p rio co n h ecim en to ig n o ra n d o o fato d e que
ele j á se e n c o n tra e s tru tu ra d o n a fo rm a d e c u ltu ra . A P edagogia
so cial c rític a assum e a in te re s tru tu ra ç ã o e n tre u m su je ito que
p ro c u ra conhecer e os o b je to s aos q u a is se re fe re esse conhecim ento.
O u seja, tra ta -se de u m a posição d e sín tese, pois g a ra n te com ­
p re e n d e r o pro cesso de co n h ec im e n to co m o in terv en ção d o sujeito
n o m u n d o objetivo e a m od ificação do su jeito em deco rrên cia d e sua
a ç ã o sobre esse m u n d o objetivo, sen d o que essa objetiv id ad e se
re d e fin e com o a d e q u a ç ã o do co n h ecim en to a u m a ação p rá tic a
9obre o m u n d o social. T ra ta -s e de in v e stir to d o s os esforços nas
p o ssib ilid a d e s d a escola e m o b te r o m á x im o possível d e desenvol­
v im en to a todas as c ria n ç a s, c o n trib u in d o p a r a o sucesso in dividual
(d o m ín io do sab er e p erso n alização ) e o sucesso social (cap acid ad e
d e se in te g ra r n a so cied ad e e agir so b re ela).

a ) U m a Psicologia d a s relaçõ es sociais


O q u e acontece co m a Psicologia o c id e n ta l é o seu com pro­
m isso com o individualism o, p o rta n to com u m a cria n ç a a b strata ,
sem re fe rir aos d e te rm in a n te s histórico-sociais e ao co n tex to em que
vivem e tra b a lh a m os indiv íd u o s. A P sico lo g ia d a s relações sociais
e s tá p o r faz e r, m a s é possível estab e lece r u m cam in h o pelo qual se
p o ssa a te n d e r à e x p eriên cia in d iv id u al c o n c re ta , isto é t o indivíduo
em re la ç ã o à su a ex istên cia m a te ria l. M a rx escreveu: 4i A p ro d u ção
d e id é ias, de re p re se n taç õ e s e d a consciência e s tá em p rim e iro lugar
d ir e ta e in tim a m e n te lig a d a à ativ id a d e m a te ria l e ao com ércio
A PRÃJCIS D O PSICÓLOGO 171

(in te rc â m b io ) m a te ria l dos hom ens; é a lin g u ag em d a vida re a l. ( ...)


S ão os h o m e n s q u e p ro d u z e m suas re p re se n ta ç õ e s, su a s idéia», « tc .,
m a s os h o m en s reais, a tu a n te s e ta is com o fo ra m condicionado$<por
u m d e te rm in a d o desenvolvim ento d a s su as fo rças p ro d u tiv a s e do
m o d o de relações que lhe co rresp o n d e, in c lu in d o até as fo rm as m ais
a m p la s q u e e stas possam to m a r" .
A ssim sendo, o p o n to inicial de q u a lq u e r p la n o de e n sin o é a
co n sid era ç ã o dos an teced en tes sociais e m a is do q u e isso: tra ta -s e de
levar em c o n ta , no tra b a lh o pedagógico com as crian ças d a escola
p ú b lic a , as p rá tic a s d e vida das q u a is p a rtic ip a m e as relações
sociais q u e as su sten ta m . C om efeito , são as condições sociais
c o n c re tas (d e v id a e de trab a lh o ) q u e d e te rm in a m necessidades,
in teresses, a titu d e s, autoconceitos, assim com o im põem certos
lim ites p a r a o desenvolvim ento das c a p a c id a d e s envolvidas n o ato de
a p re n d e r.
H á alg u n s anos d ifu n d iu -se u m a p ro p o s ta de in terv ir nos
an te c e d en te s sociais inibidores d a a p re n d iz a g e m escolar, a ed u ca ção
c o m p e n sa tó ria ; esta a b o rd ag e m , p o ré m , a p re se n ta as cria n ças
p o b re s com o p o rta d o ra s d e n eg ativ id ad es — c a ren ciad a s, desfavo­
recid as — , se m p re c o m p a rad a s com o g ru p o social que n ão possui
essas d e sv an ta g en s. Seu objetivo se ria , e n tã o , colocar estas crian ças
n o m esm o nível d a s o u tras tid as com o n o rm ais, ig n o ran d o n ã o só as
razõ e s d e n a tu re z a e stru tu ra l que est&o p o r trá s das carê n cias, m as
ta m b é m n e g a n d o que elas sejam p o rta d o ra s d e u m a ex p eriên cia
social p ró p ria de sua classe social de o rig em .
O u tr a id éia, o p o sta à a n terio r, a p re s e n ta as c ria n ças pobres
com o p o rta d o ra s de u m a c u ltu ra e d e ura m odo de vida suficien­
te m e n te ricos q u e não te ria m n ecessid ad e d e assim ilar u m tipo de
sa b e r e ru d ito . E s ta posição a firm a q u e a e d u c a ç ã o deve p a r tir d a
re a lid a d e com o ela é, lev an d o em c o n ta o m eio c u ltu ra l, a lin ­
g u ag em , os valores d a p o p u lação , e com isto te n d e m a p re se rv a r as
a tu a is circ u n stâ n c ia s de v ida. £ preciso, p o ré m , levar em c o n ta qu e
as classes p o p u la re s nem são d e p o sitá ria s d e u m a nova c u ltu ra (tu d o
o q u e vem do povo é bom ) e n em in ferio rizad a s, desfavorecidas, a
q u em c a b e d a r u m a assistên cia tip o c a rita tiv a . O q u e se p ro p õ e é
u m a ação p edagógica q u e a p re e n d a a e x p eriên cia social d as classes
p o p u la re s, ex tra in d o o q u e h á de p ositivo, n ã o p a ra m a n tê -la s no
esta d o em q u e se en c o n tra m m a s p a ra a u m e n ta r seus conhecim entos
e a la rg a r su as p rá tic a s.
U m a ação p ed ag ó g ica co n se q ü e n te su p õ e, p o rta n to , investi­
g ações q u e m o stre m com o se dão as co n d içõ es d e m a tu ra ç ã o dessas
172 JOSÉ CARLOS LIBÄNEO

c ria n ç a s e, s im u lta n e a m e n te , form as d e solicitações sociais do meio


(a s m ú ltip la s m ediações) q u e v enham a m o b iliz a r a ativ id ad e da
c ria n ç a p a ra desenvolver su a s c a p a c id a d e s d e relação com o saber
esco lar. E m o u tra s p a la v ra s , é preciso tra n s fo rm a r o m eio sócio-cul-
tu ra l das crianças em o b je to d e e stu d o , j á q u e ele fo rn ece as
b ase s p a r a o tra b a lh o esco la r.

Investigações em to rn o de a n te c e d e n te s sociais p e rm itiria m


escla recer certas q u estõ es q u e d esafia m os ed u ca d o res:
— a té que p o n to o in sucesso esco la r deve ser a trib u íd o a
d eficiên cias de ordem in telec tu al?
— p o r que h á d escom passo e n tre a in c o m p e tê n c ia d a criança
n a s a tiv id ad e s escolares e a c a p a c id a d e rev e la d a em o u tra s ativi­
d a d e s?
— qu al é, de fato , a ex ten são d a s d esv an tag en s sócio-cul-
tu ra is q u e as c ria n ças p o b re s efetivam ente c a rre g a m ?
— u m m eio esco la r estim u la n te , e m v ário s sen tid o s, contri­
b u ir ia p a r a m elhoria das a p re n d iz a g e n s n a m e sm a in te n sid a d e com
que a s cria n ç a s de m eios m a is favorecidos a p re n d e m ?
— com o, e fetiv am en te, as d e sv a n ta g e n s p o d e ria m se tra n s ­
fo rm a r em po n to s de ap o io p a r a d e s la n c h a r a ação educativa?
— é possível m a n te r os m esm os p a râ m e tro s d a c u ltu ra p a d rã o
d a s classes so cialm ente favorecidas p a ra , p o r m é to d o s adequados,
traz ê -lo s p a ra as classes p o p u la re s?

b) P ré -re q u isito s p a r a a a p re n d iza g e m


P ré-req u isito s referem -se a q u i a su p o rte s psicológicos e sociais
prév io s req u erid o s d a s c ria n ç a s p a r a que p o ssa m a p ro p ria r-se de
co n h ec im e n to s e h a b ilid a d e s q u e p recisa m ser d o m in ad o s. T ra ta -se
do q u e co m u m en te se c h a m a de p r o n tid ã o , m a s n u m sen tid o m ais
a m p lo . B u scar apoios pedagógicos n a s p ró p ria s condições sociais
c o n c re ta s d a c ria n ç a é u m a fo rm a d e c o lh e r o s m eios d e lev ar u m a
c ria n ç a com dificu ld ad es escolares a in te re ssa r-se p elas atividades, a
te r v o n ta d e de a p re n d e r, a ded icar-se aos estudos. O u seja,
tra n s fo rm a r as d esv an tag en s no seu co n trá rio .
P arece , assim , fo ra d e d úvida q u e o a to pedagógico com eça
com u m a a titu d e e a q u i é u m a nova a b o rd a g e m d a m otivação e do
a u to c o n c e ito que se e sp e ra . O u o p ro fesso r se ap ó ia n u m interesse
disponível n a c ria n ç a , o u a a titu d e favorável à s ativ id ad es escolares
p re c isa m ser pro v o cad as, desenvolvidas. Se u m dos cam in h o s seria a
lig ação com experiências d e vida, é p reciso le v ar em c o n ta q u e u m a
A PRAXJS D O PSICÓLOGO 171

b o a p a r te d a s c ria n ç a s n ão possui p ersp ectiv as d e fu tu ro e n e iH CMO


a esco la rid a d e p o d e não fa z e r m u ito s e n tid o . C om o d a q ualidade dft
m o tiv açã o in icial d epende o êxito d e o u tro s processos colocados em
ação pelo p rofessor, é p reciso d e s p e rta r nele a v o n ta d e de crescer* de
ir p a r a a fren te , ter u m a e sp e ra n ç a no fu tu ro . O tra b a lh o
p ed ag ó g ico , aí, n ão p o d e rá re strin g ir-se a m éto d o s ou m esm o c ria r
a tiv id a d e s e stim u la n tes, m a s deve in te rv ir n o nível de a sp iraç ão ,
o ferece r m o d e lo s d e identificação q u e p o ssa m m o s tra r su as possib i­
lid ad es. O u seja, é preciso q u e a c ria n ç a chegue a u m a e la b o ra ç ã o
p sicológica e in d iv id u al a resp eito de q u a lq u e r coisa q u e e ste ja n a
so cied ad e, e x te rio r a ela: m odelos a tra e n te s d e ad u lto s? c o n h ec er
o p e rá rio s m ilita n te s? to m a r con sciên cia do p a p e l d a classe o p e rá ria
n a m u d a n ç a social? livros de le itu ra? festas? p a rtic ip a ç ã o em grupos
e associações n a p ró p ria escola? São m eios q u e p o d em ser u sa d o s a
fim d e q u e os alu n o s d a s classes p o p u la re s d o m in em a situ ação
desfavorável e su p erem o fata lism o d e s u a co n d ição de o rig em . A
esco la é ta m b é m um m eio de vida d a criança» ai ta m b é m se co n stró i
s u a p e rso n a lid a d e , pela provocação d e m ecan ism o s psicológicos
in d isp en sá v eis p a r a que a c ria n ç a in v ista p o sitiv am en te em su a
esco la rid a d e .
O q u e significa a c e ita r q u e as la c u n a s e carê n c ia s efetivam ente
ex istem e, fre q ü e n te m e n te , talvez fosse o caso d e levar a c ria n ç a a
to m a r con sciên cia desses d e te rm in a n te s q u e p e sa m so b re ela —
fa z e n d o -a fala r, ex pressar-se, d e s d ra m a tiz a r su a s p ró p ria s co n d i­
ções d e v id a — bem com o d a s p o ssib ilid ad es de m o d ificação d a
situ a ç ã o , tra n sfo rm a n d o a d esv an tag em em a lav an ca de a c u ltu ­
ra ç ã o .
T ra ta -s e d e cam pos p ouco ex p lo ra d o s p e la Psicologia e d u ­
cac io n al e q u e desafiam a investigação em c im a de u m a nova p rá tic a
p e d a g ó g ic a e a p a r tir dessa m e sm a p rá tic a .
E v id e n te m e n te , os p ré -re q u isito s n ã o se resum em à áre a
afetiva* H á a sp ecto s sócio -cu ltu rais q u e e fetiv am en te c o m p ro m ete m
a re la ç ã o positiva d a s c ria n ç a s com ce rto s setores d a escola, co m o as
arte s, a p o esia, a s ciências, e que so m en te o p rovim ento d e certas
condições n a p ró p ria escola in c en tiv a ria m essa disp o n ib ilid ad e:
b ib lio te c a s, visitas a m u seu s, livros, fo to g rafias, discos, etc.
A p re p a ra ç ã o cognitiva, p ro p ria m e n te d ita , im põe a a d e ­
q u a ç ã o m eto d o ló g ica do q u e j á foi m e n c io n a d o a trá s: p a r tir do que
a c ria n ç a j á sabe, valo rizar o c o n h ec im e n to j á disponível, seja qual
for, p r o c u ra r m o stra r-lh e q u e u m a r u p tu r a desse con h ecim en to
p révio c o n trib u i p a ra o seu desenvolvim ento, enfim , a rtic u la r o
174 JOSÉ CARLOS LÏBÂNEO

d esco n h ecid o com o con h ecid o , A p ró p ria discu ssão em g ru p o (tão


u s a d a e tã o m a lfeita hoje e m dia) p e rm itirá à c ria n ç a c la rific a r seu
p e n sa m e n to e su a lin g u a g e m a u m e n ta n d o seu p o d e r de d a r form a
ao re a l. N este sentido, são o p o rtu n a s a s classes d e recu p e ra ç ã o , que
se rã o a b o rd a d a s m ais a d ia n te .

c) O s c o n te ú d o s-m é to d o s
O s co n teú d o s-m éto d o s de a p ro p ria ç ã o ativ a do sa b e r im pli­
cam u m a rela ção d in â m ic a e n tre a a ç ã o cie n tific a m e n te fu n d a ­
m e n ta d a do p ro fesso r e a vivência e p a rtic ip a ç ã o do edu can d o .
Ê p re c iso rever as n o rm a s ped ag ó g icas v igentes (currículos, p ro ­
g ra m a s , avaliação) face às n ecessid ad es d a clientela, O ato
p ed ag ó g ico visa, ta m b é m , a tra n sfo rm a ç ã o d a s e s tru tu ra s p síquicas
ex iste n te s ou criação de e s tru tu ra s novas. T ra ta -s e a q u i d e verificar
q u a is as disposições ex ig id as e ex ercid as p o r c a d a u m a das m atérias
d e e n sin o . P arece e x istir h o je u m consenso e n tre os e d u ca d o res de
q u e, ao la d o d a c o n sid e ra ç ã o dos estág io s d e desenvolvim ento
co gnitivo, se pode a v aliar as p o ssib ilid ad es d e ace lerar o desen­
volvim ento dessas e s tru tu ra s . C om o s itu a r essa p ro p o sição em
re la ç ã o às c ria n ças d as c a m a d a s p o p u la re s?
P o r o u tro lado, a ê n fa se n a a p re n d iz a g e m de sala de a u la por
m e io d a tran sm issã o e re e la b o ra ç ã o d e co n teú d o s p a re c e ser
co m p atív e l com a n o ç ã o d e a p re n d iz a g e m sign ificativ a p ro p o sta p o r
A u su b e l (1980) e com a n o ç ã o de e s tru tu ra d a s m a té ria s p ro p o sta
p o r B ru n e r (1968). O u tro s cam p o s d e e s tu d o co rrelato s — a
P sico lo g ia d a m em ória, a fo rm a ç ã o de h á b ito s e a u to m atism o s, os
p ro c e sso s d e aq u isição d a lin g u ag e m — in s tig a m a investigação do
psicólogo ed u cacio n al.

d ) O m e io escolar
O m eio escolar deve ser u m lu g a r q u e p ro p icie d eterm in a d as
co n d içõ es q u e facilitem o crescim en to , sem p reju ízo dos contatos
com o m eio social ex te rn o . H á dois p re ssu p o sto s de p artid a :
p rim e iro , é q u e a escola te m com o fin a lid a d e in e re n te a tran sm issão
d o s a b e r e, p o rta n to , req u er-se a s a la d e a u la , o p ro fesso r, o
m a te ria l d e ensino, enfim , o c o n ju n to d a s co n d içõ es que g a ra n ta m o
acesso aos co n teú d o s; seg u n d o , q u e a a p re n d iz a g e m deve ser ativ a e,
p a r a ta n to , supõe-se u m m eio e stim u la n te .

O m eio educativo com põe-se do m e io m a te r ia l (a realid ad e


m a te ria l c o n cre ta d a esco la, d a classe e d a re a lid a d e social), m eio
A PRAX IS D O PSICÓLOGO 17»

p e s s o a l (as in terco m u n icaçõ e s ex istentes e n tre as diferentes peilOM


envolvidas n a situ a ção escolar in c lu in d o a s posições sociais d â l
p esso as e as com unicações q u e se d ão ) e m e io in s titu c io n a l (síntese
dos d e m a is fatores que com põem o m eio educativo, incluindo
in stâ n c ia s e x te rn a s à escola).
O c o n ju n to desses fatores co m p õ e o am b ie n te g lo b a l da
a p re n d iz a g e m q u e ta n to p o d e in ib ir e b lo q u e a r o tra b a lh o p e d a ­
gógico q u a n to pode ser o q u a d ro m o tiv ad o r que possib ilite o
desenvolvim ento das c a p a c id a d e s e p o d e re s d a s crian ças.
U m dos aspectos a re ssa lta r são os a rra n jo s ao nível das
e s tru tu ra s de o rg an iz ação d a s classes. A q u e stã o hom ogeneidade-
h e te ro g e n e id a d e pode ser resolvida p e la fo rm a ç ão de classes e tárias
h e tero g ên eas, ao lado de g rupos hom o g ên eo s p a r a rec u p e ra ção
(a q u isiç ã o de au to m atism o s, m e lh o ra d a le itu ra , consolidação de
u m conceito). Ê possível realizar-se esse tra b a lh o n u m m o m en to das
a u la s, q u a n d o os alunos p o d eria m ser se p a ra d o s em g ru p o s dis­
tin to s: a lu n o s sem d ificu ld ad es, que tra b a lh a ria m in d iv id u alm en te,
os m édios e os m ais fracos, q u e tra b a lh a ria m com a a ju d a de dois
p ro fesso res em torno das d ificu ld ad e s a p re s e n ta d a s . P a rale lam en te,
o u tra fo rm a de o rg an iz ação seria!7i os g ru p o s esp o n tân eo s em torno
d e clu b es ou associações: e sp o n e s, a rte s, tra b a lh o s 'm a n u a is, etc.
E n tre ta n to , o p rin c ip a l fa to r de u m m eio esco la r estim u la n te é
o p ro fesso r (e, talvez, esteja aí u m sério fa to r c o m p ro m ete d o r da
efic ácia d a escola p ú b lica, j á que ele ta m b é m carece d e e stim u ­
la ção ). S obre ele escreveu Z azzo: “ O s p ro fesso res têm e s p o n ta n e a ­
m e n te te n d ê n c ia a e x p licar pela in telig ên cia a situ a ção do m au
alu n o , secu n d a ria m e n te p eia p reg u iç a , m u ito ra ra m e n te pelas
condições d e v id a d a c ria n ç a , e, m enos a in d a p o r su a m á pedagogia:
n à o é a firm a ç ã o g ra tu ita , m a s o re su lta d o d e sérios in q u é rito s”
(1974). Ê co m u m os p ro fesso res le v arem em c o n ta a p en a s o aspecto
in te le c tu a l dos alunos, c o n sid e ra n d o o in sucesso com o fenôm eno
in d iv id u a l, ou seja, o m a u resultado e sco la r d eco rren te de condições
sociais é algo " n a tu r a l” . R e su lta d aí u m a e x p ec tativ a n eg ativ a face
ao d esem p e n h o irre g u la r d aq u ele a lu n o que não co rresp o n d e ao seu
tra b a lh o .
A co n d ição de êxito do tra b a lh o esco la r supõe um p ro fesso r
com u m a fo rm aç ão cien tífica de a lto nível, fo rm aç ão q u e inclua,
ta m b é m , u m a c la ra co m p re en são d o s m e can ism o s do insucesso
esco la r.
176 JOSÉ CARLOS LÍBÀNEO

Psicologia na escola

D e acordo com a p e rsp ectiv a seg u n d o a quaJ o dom ínio


específico d a Psicologia ed u c a c io n a l (isto é, os p rocessos psíquicos
im p lic a d o s no ato pedagógico) resu lta d a s situ açõ es pedagógicas,
s u a a tu a ç ã o n a escola p o d e dar-se e m trê s níveis:

— pelo p ró p rio p ro fesso r, com o " p sic ó lo g o '' em ação;


— pelo su p e rv is o r/o rie n ta d o r ed u c a c io n al;
— pelo p ró p rio psicólogo em C e n tro s d e S aúde ou o rgani­
zações co m u n itá ria s.

O ú ltim o nível a p o n ta d o su p o ria a e x istê n c ia de serviços espe­


cializ ad o s seja p a ra a te n d im e n to de casos especiais d e alu n o s com
p ro b le m a s de ap re n d iz a g e m seja p a r a e v e n tu a l assistên cia às escolas
(p e sq u isa pedag ó g ica, tre in a m e n to em serviço, p ro g ra m a s d e recu­
p e ra ç ã o nas m a té ria s, e tc .). C om o o in teresse d este c ap ítu lo são as
p o ssib ilid ad e s in stitu cio n ais d a escola n ã o h á m a io re s com entários
so b re e ste nlvel.
O s professores d a e sco la p ú b lic a , em g e ra l, são céticos q u an to
às p o ssib ilid ad es de auxilio d a Psicologia, p rin c ip a lm e n te os q u e já
tê m u m a la rg a e x p eriên cia de sa ia d e a u la . M uitos professores
ch e g a m a re c u sa r q u a lq u e r auxilio té cn ico p o sto à sua disposição
p o r d e s a c re d ita r de su a eficácia. H á o u tro s q u e ac e ita ria m de bom
g ra d o os a p o rte s d a P sicologia se ela re a lm e n te aten d esse à pro b le­
m á tic a do ensino. H á, a in d a , u m n u m e ro so g ru p o q ue, m esm o
d isp o sto a a c re d ita r n a c ria n ç a e n a escola, sentem -se im potentes
face à s condições de v id a e d e tra b a lh o p ro d u z id a s p o r um a
so cied a d e segregativa e d isc rim in a d o ra . P o r fim , de u m a fo rm a ou
o u tra , p a ra d o x a lm e n te , a g ra n d e m a io ria dos professores é la rg a ­
m e n te in flu en cia d a pelo psicologism o q u e os leva a tra n s fo rm a r os
c o m p o rta m e n to s d a s c ria n ç a s em m a n ifestaç õ es psicológicas, o que
levou W allo n a escrever q u e “ a in tro d u ç ã o d a P sicologia n a licen­
c ia tu ra deveria te r m en o s a cara cte rística d e m a té ria de en sin o e
m a is a de a c a u te la r os professores c o n tra certo s slo g a n s psicológi­
cos e levá-los a tira r d e s u a p ró p ria e x p e riê n c ia conclusões in s tru ­
tivas p a ra o p ró p rio psicólogo” (1975).
A posição segundo a q u al a escola p ú b lic a deve o rientar-se,
p re d o m in a n te m e n te , p a r a o ensino d a s m a té ria s escolares, im plica
a ssu m ir q u e os apoios pedagógicos devem ser b u sc ad o s nas variáveis
q u e afetam d ireta m e n te a a p re n d iz a g e m esco lar. Isso significa
a c re d ita r q u e nào h á oposição e n tre e n sin o c e n tra d o no alu n o e
A PRAX IS D O PSICÓLOGO 177

en sin o c e n tra d o no professor ou nos p ro g ra m a s, m as u m a co n ti­


n u id a d e . Se p o r u m lado é a c ria n ç a q u e a p re n d e com o sujeito de
su a p ró p ria ap ren d izag em , p o r o u tro , a co n d u çã o do en sin o 6
re sp o n sa b ilid a d e do professor e d a escola. N ão existe a p e tite inato
de a p re n d e r: u m a coisa é reco n h ecer in te re sse s e n ecessid ad es nas
c ria n ç a s e reo rie n tá-la s p a r a q u e p a rtic ip e m a tiv am e n te n a a p re n ­
d iz ag em , o u tra coisa é e n tre g a r a re sp o n sa b ilid a d e dos co n teú d o s à
e sp o n ta n e id a d e d a s crian ças.

O p ro fesso r, assim , é p rim o rd ia l, e o q u e se exige é, a n te s de


tu d o , u m a fo rm a ç ã o cien tífica que a b ra n ja o d om ínio d e su a
m a té ria , d e m é to d o s e recu rso s de e n sin o e, n a P sicologia, o
c o n h ec im e n to dos m ecanism os g e ra d o re s do insucesso escolar,
e sp e c ialm e n te os d eco rren tes d a c o n d iç ã o d e origem d a s c ria n ças.
Sem essa fo rm a ç ã o , u m a b o a p a rte do d iscu rso p ro fe rid o n este texto
te rá sido inútil*
No q u e se refere ao en sin o d a P sicologia, tra ta -se d e a rtic u la r
seus p rin c íp io s e explicações com a p r á tic a c o tid ia n a do p ro fesso r,
p a r a q u e ele p ró p rio os tra n sfo rm e em m étodos e co n teú d o s. Levar
em c o n ta a p ro b le m á tic a re a l d a escola significa: classes n u m e ro sas,
condições d esig u ais nos p ré -req u isito s p a r a a ap ren d iz a g e m , m o ti­
v ação e in teresse s vinculados a p e rsp ectiv as d e classe social,
p ro b le m a s de co m u n icaç ão e e n te n d im e n to p ro fesso r-a lu n o s, indis­
cip lin a, in a d e q u a ç ã o de p ro g ram a s, e tc . A o rie n ta ç ã o do e n sin o se
to rn a psicológica q u a n d o p re te n d e a d a p ta r-s e ao alu n o . N a v erd ad e,
n ã o se e s ta ria e rra n d o m u ito .se se p u d e sse e x tra ir o co n te ú d o d a
P sicologia d a observação a te n ta de com o certo s professores conse­
g uem a p ro x im a r-se dos interesses, c o m p re e n são e lin g u ag em d as
c ria n ç a s sem sacrificar a ta re fa de e n s in a r (e a té com o fo rm a de
e n sin a r), o q u e W allo n c h a m a de “ p o d e r esp o n tâ n e o de s im p a tia
in te le c tu a l” , e q u e infelizm ente n ão p e rte n c e a todos.
O segundo nível de a tu a ç ã o d a P sicologia n a escola se d á
atra v és do s u p e rv iso r/o rie n ta d o r ed u c a c io n a l. O a u to r n ã o faz
d istin ç ã o rele v an te entre supervisor p ed ag ó g ico e o rien tad o ^ e d u ­
cac io n al; q u a n to m ais cresce a convicção d a u n id a d e do ato
ped ag ó g ico n a su a diversidade, m enos sen tid o faz a frag m e n taç ã o
do a te n d im e n to ao professor e ao alu n o ; algo p are c id o se p o d e ria
d iz er do p ró p rio d ire to r de escola.
A p re se n ç a desses p ro fissio n ais n a escola, desde que te n h a m
c o m p etê n c ia , é im prescindível p a r a o fu n cio n a m e n to escolar.
E m b o ra h a ja u m n ú m e ro considerável d e ta re fa s q u e d e sem p e n h am
178 JOSÉ CARLOS LIBÂNEO

n o c o n ju n to da escôla, s e rá d esta c a d o a q u i a p e n a s o aspecto do


p ro fesso r e suas relações com os a lu n o s. C om efeito, o supervisor-
o rie n ta d o r a tu a com o a u x ilia r do p ro fesso r n a sala de a u la , dando
assistên cia a p ro b le m a s d e ap ren d iz a g e m , re la cio n a m e n to profes-
so r-alu n o s, ad eq u a ç ã o c o n teú d o s-m éto d o s às condições sócio-çultu-
rais e psicológicas d a s c ria n ç a s, ativ id ad es d e sensibilização visando
m u d a n ç a d e atitu d e s e exp ectativ as, etc.
O s professores e sp e ra m m u ito d a e q u ip e técn ica, desde que
sejam efetivam ente ap o ia d o s. E les e n fre n ta m , p o r exem plo, o
p ro b le m a d a solidão. S ão solicitados a d a r m u ito , m a s recebem
p o u c o . Seu tra b a lh o é a longo p razo e nem se m p re p o d em experi­
m e n ta r a aleg ria d e ver os alunos c o rre sp o n d e re m ao seu trab a lh o .
S ão ra ro s os m om entos n a escola em q u e p o ssa m tro c a r id éias com
seus colegas, e as escolas n ã o in c en tiv a m n em favorecem a form ação
d e e q u ip e s de professores, m esm o p o rq u e o tra b a lh o d e sa la d e aula
é tã o absorvente q u e à s vezes q u a n to m e n o s se fa la r d e aluno,
m e lh o r.
O s professores re c la m a m , ta m b é m , a p re p a ra ç ã o deficiente
dos a lu n o s dos an o s a n te rio re s, e isso g era a n sie d a d e e afasta m en to
e n tre os colegas. O u tro s m an ifestam u m a p e rm a n e n te aversão e
a n tip a tia pelos p ro b le m a s m a n ifestad o s p e lo s alunos. A fa lta de
e n te n d im e n to e n tre professores e alu n o s, a in d iscip lin a, a não-
c o rre sp o n d ê n c la e n tre a s expectativas de u n s e o u tro s são alguns
fa to re s que provocam fre q ü e n te m e n te reações em ocionais intensas,
O q u e é possível faz e r? C om o a d e q u a r co n teú d o s-m éto d o s
p a r a q u e se articu le m com as condições dos alunos? E is alg u m as
id é ia s:
— refo rçar o co n te ú d o científico do en sin o e investigar
m é to d o s de a p ro p ria ç ã o que p e rm ita m a rtic u la ç ã o te o ria -p râ tic a
social;
— co n sid era r o m e io social d e origem d o s alunos com o p o n to <
d e p a r tid a p a ra as reelab o raçõ es dos c o n teú d o s-m éto d o s; e stu d a r as
c a ra c te rístic a s só c io -c u ltu ra ise psicológicas d a s c ria n ças das classes
p o p u la re s a fim de p o d e r avaliar su as disposições intelectu ais, suas
c a ra c te rístic a s positivas b em com o a s lim itaçõ es efetivam ente exis­
te n te s , s u p e ra n d o o e n fo q u e d a ed u c a ç ã o co m p e n sa tó ria ;
— a tu a r n a m o d ificaç ão d a s ex p e c ta tiv a s e a titu d e s dos
p ro fesso res fren te ao in sucesso esco la r d a s c ria n ç a s m ais pobres;
— e stim u la r a fo rm a ç ã o de e q u ip e s d e professores onde se
to m e possivel u m p ro je to com um d e c o n s tru ir u m a escola dem o-
A PRÁX IS D O PSICOLOGO 179

c rá tic a p a r a re d u ç ã o das d e sig u ald ad es escolares p o r razõ e s de


origem social;
— in c e n tiv a r, pelo m enos, a a titu d e d e p esq u isa p edagógica
que p e rm ita inovações c avanços;
— a ssu m ir o m eio escolar com o o co n ju n to das disposições
m a te ria is, físicas, h u m a n a s e in stitu cio n ais q u e g a ra n ta m o clim a
necessário ao desenvolvim ento m e lh o r possível, a p a rtir d a expe­
riê n c ia social e cu ltu ra] vivida p ela c ria n ça;
— a u x iliar os professores no m a n e jo d e classe e con tro le da
d isc ip lin a a p a rtir de u m a m e lh o r c o m p re en são do co m p o rta m e n to
do a lu n o em suas im plicações d e n a tu re z a social, h ab ilid a d e s de
c o n d u ç ã o de g ru p o s num erosos, etc.;
— faze r u m a revisão de c o n ju n to d a a d e q u a ç ã o d e conteúdos-
m é to d o s face às d isp o n ib ilid a d es psicológicas e sóeio-culturais das
cria n ç a s, b em com o dos p ré-req u isito s de n a tu re z a cognitiva
tra z id o s p elas c ria n ças.

A fo rm aç ão psicológica do e d u c a d o r in c lu iria , pelo m enos, os


seg u in tes tópicos:

1) d e te rm in a n te s só cio-culturais d a ação p edagógica. U niver­


so c u ltu ra l dos a lu n o s e d a escola. M eio só cio -cu ltu ral e disposições
psicológicas. C ondições sociais de vida e de tra b a lh o das classes
p o p u la re s. A specto s do desenvolvim ento físico e cognitivo. O
a m b ie n te escolar;
2) c o m p o n en tes psicológicos. M otiv ação , autoconceito, a titu ­
des. Processos m e n tais d e aq u isição d e conhecim entos, a c o m u ­
n ic ação do cen te. A prendizagem signitiva. C a p ac id ad es exigidas
p e la s m a té ria s de estu do;
3) P sicologia social: p ercepção e ex p ectativ as de p a p é is em
te rm o s de classes sociais. M an ejo d e g ru p o s n um erosos.

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O psicólogo clínico
A lf r e d o N a ffa h N e to

S e r u m psicólogo clínico: so n h o de ta n to s m il v estibulandos


a n te s m esm o de a d e n tra r as p o rta s de u m a fa cu ld ad e de Psicologia.
D e fato , a clínica fascina e a tra i, com o a fa n ta sia de algo im p o rta n te
e m isterio so . L em bro-m e do o lh a r de resp eito e, ao tnesm o tem po,
de so fre g u id ã o com que eu a n a m o ra v a nos idos d a d é c a d a de 60,
q u a n d o e ra a in d a u m e s tu d a n te de Psicologia. E r a algo assim com o
a noiva e s p e ra d a h á ta n to s anos e q u e eu deveria c o n q u ista r com
m a e stria e co m p etên cia. Im aginar*m e se n ta d o n u m a sala e tendo
d ia n te d e m im ... um c l i e n t e !... P u x a i N âo e ra b rin c a d e ira nàol
A lg u ém q u e iria d ep o sita r n o m e u s a b e r os destinos d a su a vida! Isso
m e fazia im p o rta n te e poderoso, E e ra com o u m a a u to -a firm aç ào
p a r a a s m in h a s in se g u ra n ç a s de ad o le sc e n te .1 M ais ta rd e acab ei, de
fa to , d esp o san d o a clínica e, com o em to d o c asam en to , tive de
a p re e n d e r, n a convivência do c o tid ia n o r a desm istificar os dotes
“ s o b re n a tu ra is ” d e tão a fa m a d a d a m a . E co n seg u ir conviver com
e la n u m nível m a is real.
C om ecem os pelo p s ic ô d ia g n ó stic o , tâ o valorizado nos m eus
te m p o s d e alu n o . Saber a p lic a r e in te rp re ta r os testes do R oschach
e ra algo fu n d a m e n ta l; o p rim e iro sin a l d e que tín h am o s “ sen sib i­

(1) Cabe lembrar ao leitor que, nessa época, ser psicólogo clínico
psicoterapeuta era algo que envolvia, para nós, anos e anos de formação.
Jamais pensarfamos — como hoje se fa 2 — em terminar a faculdade e já iniciar
uma prática clfnica sem um curso de especialização.
182 ALFREDO NA FFAH NETO

lid a d e 1' e a p tid ã o p ^ ra o ra m o . D o T .A .T . e n tã o , n em se fale! Já


ex ig ia m aiores co n h ec im e n to s. S en tia-m e u m p ouco com o um
a p re n d iz de feiticeiro. E n ã o tin h a q u a lq u e r con sciên cia c rític a dos
p re ssu p o sto s que ta is p rá tic a s envolviam . Só m ais ta rd e , no
m e stra d o em F ilosofia, le n d o M ichel F o u c a u lt, vim a faze r a c rític a
d a p sico m etria. Á c o m e ç a r pelo uso das ta b e la s e s ta tís tic a s .tão
v alo riz a d a s, então; u m a espécie de e m b le m a d a cie n tific id a d e do
te ste . “ Se o teste foi v alid a d o e p a d ro n iz a d o p a r a a p o p u la ç ã o e m
q u e stã o , en tã o te m v alo r científico” , d iz iam todos, E to m e
esta tística ! M as n in g u é m se p e rg u n ta d a o q u e significava p a u ta r a s
noções de n o rm a l e p a to ló g ic o pelos valores m éd io s de u m a p opu­
la ção . N inguém p e rc e b ia que a m é d ia , e n q u a n to sím bolo a b stra to
d e u m a n o rm a lid a d e , e ra ta m b é m sím b o lo d a m ed io crid ad e e d a
u n id im en sio n a lid a d e do nosso m odelo d é h o m e m . S er n o rm al (e,
p o rta n to , n ão -n eu ró tico ) significava ser m é d io em tu d o (a i de q u em
p a ssa sse do d esvio-padrão!). E com esse p rin c íp io n ão q u estionado,
n ão percebíam os q u e a p a d ro n iz a ç ã o do teste im p lic a v a d ire ta m e n te
u m p rin c íp io de p a d ro n iz a ç ã o do h o m e m . Q u e o que cham ávam os
d e “ saú d e mental** e r a algo q u e tin h a a v er com u m hom em -
p a d rã o : n ã o m ais re sp o sta s em ocionais do q u e a m é d ia d a p o p u ­
la ç ã o , n ão m ais resp o stas globais ou de d e ta lh e s do q u e re z a a ta b e la
de n o rm a s do teste de R oschach. S audável é o hom em m édio, o qu e
q u e r dizer, o hom em m ed ío cre, o h o m e m q u e n ão se desvia d as
n o rm a s , o hom em a d a p ta d o à re a lid ad e . E , p o r incrível que pareça»
n in g u é m se p e rg u n ta v a p o r essa re a lid a d e , se ela e ra b o a ou ruim»
ju s ta ou in ju sta. E e stáv a m o s nos an o s 60, p ic o d a d ita d u ra m ilita r e
do T e rro r no B rasill U m início de con sciên cia c rític a veio, n a época,
a tra v é s de A na M a ria P oppovic q ue, ao in ic ia r seus e stu d o s com
c ria n ç a s c a re n tes c u ltu ra is , d esco b riu q u e n e m sem p re u m baixo
re s u lta d o nos testes d e in telig ên cia sig n ificav a n ecessariam en te
d e fic iê n c ia m e n ta l ; p o d ia significar, ta m b é m , carê n cia c u ltu ra l?
E ra u m p rim eiro v islu m b re d a re a lid a d e p o lític o -c u ltu ra l, b a sta n te
im p o rta n te n o m o m en to (estáv am o s, e n tã o , em 68, ép o ca d a to m ad a
d a P U C pelos alunos, d a s com issões p a ritá ria s e tu d o o m ais). P en a
q u e isto n ã o nos te n h a p o ssib ilitad o faze r a c ritic a m ais p le n a d a
p sic o m e tria e dos p rin cíp io s q u e ela e n c o b re e faz pro liferar.
T a m b é m , n a época, os c a m in h o s e ra m p o u co s: ou op táv am o s pelo

(2) E isso se aplica, sem dúvida, d maioria da população infantil


brasileira.
A PRAX IS DO PSICOLOGO 1U

behaviorism o — que ta m p o u c o fazia a c rític a d a realidade* m al


sim p lesm en te a tran sfo rm a v a n u m co n ju n to de estím ulos v a ría d o i
— ou p ela clín ic a trad ic io n a l, o q u e q u e r dizer, pelos testes.
£ v erd ad e q ue, n a época, a P sicologia e ra rela tiv a m en te nova no
B rasil e q u e tu d o o que tín h a m o s e ra h e rd a d o d o s am e ric a n o s e dos
e u ro p eu s. P ode-se a rg u m e n ta r, nesse sen tid o , q u e o psicólogo
b rasileiro a in d a n ão tiv e ra te m p o su ficien te p a r a faze r a c rític a
dessa h e ra n ç a c u ltu ral e d a c a rg a ideológica q u e ela co m p o rtav a. O
q u e a ssu sta , e n tre ta n to , é p erc e b e r q u e h oje, q u ase vinte anos
depois, o cen á rio ain d a é p ra tic a m e n te o m esm o n a m aio r p a r te das
fa cu ld ad es d e Psicologia. A in d a se e n s in a m as m esm as coisas e fa lta
a m esm a con sciên cia c r itic a ;3 nesse sen tid o , a Psicologia c o n tin u a
a in d a sen d o u m dos b a lu a rte s do p o d e r d isc ip lin a r. C om o nos
m o stra M ichel F o u cau lt: “ ( ...) A a rte d e p u n ir, n u m regim e de
p o d e r d isc ip lin a r, não visa n em à ex p iação , n em m esm o ex a ta m e n te
à re p re ssão . E la coloca em ação cinco operações bem d istin ta s:
re fe rir os ato s, as realizações, as c o n d u ta s sin g u la res a um co n ju n to
q u e seja, ao mesmo tem p o , cam p o de co m p a ra ç ã o , e sp aço de
d ifere n ciaç ão e p rin cíp io d e u m a re g ra a seg u ir. D iferen ciar os
indivíduos uns com relação aos o u tro s ç em fu n ç ã o desta n o rm a de
c o n ju n to — q u e r se a faça fu n c io n a r com o um lim ia r m ínim o, com o
u m a m é d ia a re sp e ita r ou com o um o p tím u m do q u a l deve-se estar
pró x im o . M ed ir em term os q u a n tita tiv o s e h ie ra rq u iz a r em term os
d e v alo r as c a p a c id a d e s, o nível, a ‘n a tu re z a 1 dos in divíduos. P ô r
em jogo, a tra v é s dessa m e d id a 4v a lo riz a n te \ u m a co aç ão em
d ireç ão a u m a co n fo rm id a d e a ser re a liz a d a . T ra ç a r, enfim , o lim ite
que d e fin irá a d iferen ça com re la ç ã o a to d a s as d iferen ças, a
fro n te ira e x te rio r do a n o rm a l A p e n a lid a d e p e rp é tu a que
a tra v e ssa todos os po n to s e co n tro la to d o s os in sta n te s das institu i-
ções d iscip lin ares co m p ara, d ifere n cia, h ie ra rq u iz a , hom ogeneíza,
exclui. N u m a só palav ra: n o r m a liz a ” , 4
M a s o ato d e n o rm a liz a r n ào c a ra c te riz a som ente a psico-
n ie tria , de fo rm a geral. E le e stá p re s e n te se m p re q u e se fala em
d ia g n o stic a r ou em tra ta r; sem p re que se e stá às voltas com alg u m a
“ p a to lo g ia” , desvio de c o n d u ta ou “ anorm alid ad e* 1. A travessa,

(3) Pelo menos é que relatam os alunos do programa de Pós-Graduação


em Psicologia Clínica da PUC-SP, a maioria deles professores em diferentes
cursos d© graduação em Psicologia.
(4) Foucauft, M ., S u rveiller e t P u n ir — N aissance d e fa P riso n , Paris, ed.
Gallimard, 1975, p. 186.
164 A LFR ED O NAFF AH NETO

d e s ta fo rm a , os sen tid o s m ais u su a is q u e definem , n a p rá tic a ,


a p sico te rap ia . S a ir desse ca m p o im p lic a a b a n d o n a r o universo d as
n o rm a s, dos desvios, d a s ta b e la s, dos diagnósticos; im p lic a consi­
derar que o sar h u m a n o , e n q u a n to s in g u la rid a d e , é im ensurável,
in c o m p aráv el, n ã o -h ie rarq u izá v el. Im p lic a desistir de faze r d a
P sicologia o velho m o d e lo d a ciência p o sitiv ista . E em a b a n d o n a r o
co n ce ito de d o e n ç a -m e n ta l . 5
A psican álise te n to u , sem d ú v id a a lg u m a , sair desse m odelo
disciplinar* através do esp írito re fin a d o d e Ja e q u e s L ac an . C riti­
c a n d o o p ra g m a tism o n o rte -a m e ric a n o e re to m a n d o o m e stre F re u d ,
L ac an te n to u fazer d a p sican álise u m a ciên cia d o In c o n sc ie n te e do
p ro cesso psicanalítico u m d e sv e la m e n to desse m esm o In c o n s c ie n te ,
a g o ra red efin id o a p a rtir de categ o rias lin g u ístic a s e concebido com o
a reg iã o d a v erdade a m a is esco n d id a e essencial do ser h u m a n o .
N ão m ais processo de a d a p ta ç ã o , reforço do ego ou norm alização , a
p sican á lise, com L a c a n , busca-se fu n d a m e n ta lm e n te com o u m
p e rc u rso de revelação, d e acesso a u m s a b e r so b re o desejo sin g u la r
de c a d a u m . N ad a disso, e n tre ta n to , im p ed iu q u e ela fosse c ritic a d a
pelos p ró p rio s fran ceses, e n tre eles, F o u c a u lt: 41A psican álise p o d e
ser d e cifra d a h isto ric a m e n te com o o u tra g ra n d e fo rm a de despsi-
q u ia triz a ç ã o p rovocada pelo tra u m a tism o -C h a rc o t. U m a re tira d a
p a r a fo ra do espaço d o asilo a fim de a p a g a r o s efeitos p a ra d o x a is de
so b re p o d e r p siq u iá tric o . M as ta m b é m re c o n stitu iç ã o do p o d e r
m édico, p ro d u to r d a v erd ad e , n u m espaço p re p a ra d o p a ra q u e essa
p ro d u ç ã o p e rm a n e ç a se m p re a d e q u a d a ao p o d e r. Á noção d e
tra n sfe rê n c ia com o p ro cesso essencial à c u r a é u m a m a n e ira de
p e n s a r co n ce itu a lm en te e s ta ad eq u a ç ã o n a fo rm a do conhecim ento,
O p a g a m e n to , c o n tra p a rtid a m o n e tá ria d a tra n sferê n c ia , é u m a
fo rn ia de g a ra n ti-la n a rea lid a d e : u m a fo rm a d e im p e d ir que a
p ro d u ç ã o d a verdade n ã o se to m e u m c o n tra p o d e r q u e dificulte,
a n u le e revire o p o d e r d o m édico” . 6 A firm aç ão q u e pro v o ca u m
se m -n ú m e ro de c o n tra -a rg u m e n to s: “ M as n ã o sab e F o u c a u lt que a
p sic a n á lise , p o r p rin c íp io e seg u n d o o p ró p rio F re u d , n ã o te m n a d a
a v e r com a m e d ic in a ? Com o, p o is, fa la r em p o d e r m éd ico ?”
“ E n ã o sab e F o u c a u lt q u e n ão cab e ao p sic a n a lista p ro d u z ir
q u a lq u e r verdade? Q u e, e n q u a n to su ste n tá c u lo do discurso incons-

45) Ver, nesse sentido, Foucault, M ., D o e n ç a M e n ta ! e Psicologia, Rio


de Janeiro, Ed. Tampo Brasileiro, 1968.
(6) Foucault, M .t " A casa dos loucos", in Micro física do Poder, Rio de
Janeiro, Ed. GraalLtda, 1979, pp. 125-126.
A PRAXIS D O PSICÓLOGO lift

cie n te do p a cien te , ele é a p e n a s a reg iã o d e u m su p o sto sa b e r, s a b e r


q ue, n a v erd ad e , é in e xistente? E q u e p sic a n a lisa r consiste, ju s ta ­
m e n te , em refu g iar-se nesse n ã o -sa b e r e c a la r q u a lq u e r possível
re sp o sta , p a r a q u e o d iscu rso do O u tro , ro d o p ia n d o so b re si
p ró p rio , p ro d u z a a v erd ad e que co n tém sem s a b e r q u e c o n té m ? " Ê
evidente q u e F o u c a u lt conhece todos esses arg u m e n to s; afin a l, o seu
d iscu rso é c o n tem p o rân eo ao de L a c a n , No e n ta n to , a c rític a
p ersiste; p o r quê? U m episódio p o d e ilu s tra r u m a possível resp o sta.
E m ja n e iro de 1982, e sta n d o em P a ris , n u m alm oço n a c a sa de
R o b e rt C astel — ou tro im p o rta n te crítico d a p s ic a n á lis e 7 — num
c e rto m o m e n to com eçou-se a d iscu tir p sic a n á lise e eu lhe p e rg u n te i
se a su a critica a tin g ia a essência d a p sican á lise ou sim p lesm en te os
desvios d ela. Ele sim p lesm en te resp o n d eu : “ E u não critico a p sica­
n álise dos livros m as a que vejo a c o n te c er n a p rá tic a 1*. C om
F o u c a u lt talvez se d ê algo sem elh an te. D e q u a lq u e r fo rm a n ã o são
so m en te as crític a s de F o u c a u lt e C astel q u e a psican álise e n fre n ta
n a F ra n ç a . H á ta m b é m as de D eleuse e G uatarri,® que vêem no
“ im p e ria lism o ” assu m id o pelo com plexo de Ê d ip o n a ó p tic a psica-
n a lític a u m red u cio n ism o q u e c a s tra e d o m estica a p ro d u ç ã o
inconsciente» faze n d o -a ex p rim ir-se e rep ro d u zir-se n u m fa m ilia -
lism o n o r m a liz a n te , de a co rd o com os in teresses do c a p ita l e
re p ro d u z in d o a s u a p ró p ria a p a riç ã o e n q u a n to fetiche: É dipo
te m p o r fó rm u la J + 1, o U m do fálu s tra n s c e n d e n te sem o q u a l os
te rm o s co n sid e ra d o s n ão fo rm a ria m u m triâ n g u lo . T u d o se p assa
com o se a c a d e ia d ita slg nificante, feita d e elem en to s em si m esm os
n ã o significantes, de u m a e sc rita polívoca e de fragm entos d esta ­
cáveis, fosse o b je to de u m tra ta m e n to esp ecial, de u m a c h a ta m e n to
q u e e x tra ísse u m objeto d estac ad o , sig n ifican te despótico em c u ja lei
to d a a c a d e ia p are c e en tã o p e n d u ra d a , c a d a elo tria n g u la d o . E x is te
a í u m cu rio so p a ra lo g ism o , q u e im p lic a u m u so tr a n sc e n d e n te das
sín te se s d o in co n scien te : p a ssa -se d o s o b je to s p a rc ia is sep a rá veis ao
o b je to c o m p le to sep a ra d o , d e o n d e d eriv a m as p e sso a s g lo b a is p o r
in tim a ç ã o ã f a l t a . P o r exem plo, n o código c a p ita lis ta e su a fo rm a
trin itá ria , o d in h e iro com o c a d e ia sep aráv el é convertido em c ap ital

(7) Que, aliás, me foi apresentado por uma amiga com um : Sue
Rolnik, e que é autor, entre outras coisas, do livro 0 psicanalismo, traduzido e
editado pela Graal Ltda., Rio de Janeiro.
(8} Deleuse, G. e Guatarri, E., O A ntiÉ dipo, Rio de Janeiro, Ed. Imafio,
1976 e Guatarri, F. Revolução Molecular — pulsações políticas do desejo, SSo
Paulo, Ed. Brasiliense, 1981.
186 AL FR ED O NAFFAH NETO

co m o objeto sep ara d o , q u e só existe sob o a sp ecto fetich ista do


e sto q u e e d a fa lta . A contece o m esm o co m o código; a libido com o
e n e rg ia de e x tra ç ã o e d e sep araçã o é c o n v e rtid a em fálus com o
o b je to sep a ra d o , este ú ltim o só existindo sob a fo rm a tra n sce n d en te
de e sto q u e e fa lta (a lg o com um e au se n te , que fa lta ta n to aos
h o m e n s q u an to às m u lh e re s )" .9 P en so q u e estas considerações
p o d e m d a r u m a id é ia ao leito r de q u ã o co m p lex a é essa q u estão
político-ideológica q u e atra v e ssa to d a a psico lo g ia e q u e n ão p o u p a
s e q u e r a p sicanálise. N ào é m eu objetivo a q u i, e n tre ta n to , alon­
g a r-m e n essa q u estão ; deixo aos p sic a n a lista s a ta re fa de deb atê-la e
la n ç a r m a is luz sobre o p re se n te te m a.
Q u a n to a m im , m e u cam in h o foi o u tro . T en d o assistido às
p rim e ira s ap ariçõ es do p sico d ro m a no B rasil (atrav és de Jaim e
R ojas-B erm údez) e te n d o g ra n d e c u rio sid a d e pelos m étodos g ru p ais
— se m p re achei q u e se deveria a p re n d e r a lid a r com g ra n d es m assas
h u m a n a s e que o divã p sican a lítico e ra p o u co a d e q u a d o à realid ad e
b ra s ile ira — resolvi to rn a r-m e p s ic o d ra m a tista . No p sic o d ra m a
e n c o n tre i, de início, u m m é to d o in te re ssa n te m a s m al aproveitado e
u m a te o ria sem q u a lq u e r consistência lógica a rticu lá v el, pelo m enos
de fo rm a im e d ia ta . M as resolvi investir. C om ecei a u tiliz a r o m étodo
n a c lín ica e a d e sc o b rir seus m eandros» R esolvi, tam bém « fazer o
m e stra d o em Filosofia com o fo rm a de m e fu n d a m e n ta r p a ra rever
c ritic a m e n te a te o ria m o re n ia n a . A ssim , ap o ia d o , n a p rá tic a , pelas
supervisões de D a lm iro B ustos e n a te o ria , p e la o rie n ta ç ã o c ritica de
M a rile n a C hauí, fu i tra ç a n d o m e u tra b a lh o de re e stru tu ra ç ã o ,
fu n d a m e n ta ç ã o e c rític a d a te o ria e do m é to d o p s ic o d ra m á tic o s.10
O p rim e iro resu lta d o foi a tese d e m e stra d o , d efe n d id a em 1977 e
p u b lic a d a em 1 9 7 9 .” N e la ap a re c e , e n tre o u tra s coisas, u m a
te n ta tiv a de fu n d a m e n ta r a socionom ia (q u e é a d iscip lin a geral
p ro p o s ta p o r M oreno) atra v és do m a te r ia lis m o d ia lético . Se a
co n ce p ç ã o de hom em p ro p o s ta p o r M o ren o é a do ser-em -relação; se
o h o m em m o ren iàn o , m a is do que u m a su b jetiv id a d e fechada» é
in tersu b jetiv id ad e ; se a su a existência c o n c re ta aco n tece n a m u lti­

(9) Deleuse, G. © Guatari, F., O A n ti-È d ip o , op. c r t pp. 98-99.


0 0 ) Para quem nSo sabe, Dalmiro Bustos ô um psicodramatista
argentino, credenciado pelo Instituto M oreno (de Beacon, Nova Iorque) e a
quem nós brasileiros devemos muito enquanto formação. Marilena Chauf
dispensa apresentações.
0 1 ) Naffah Neto, A .( Psicodram a — D esco lon izan d o o Im aginário, S ã o
Paulo, Ed. Brasiliense, 1979.
A PRAXII DO MKCObOQO

p lic id a d e e no e n tre c ru z a m e n to dos M x e i d t r t t i f l l l


envolvido; se, en fim , seu ser é o p u lsar c o n ita at« t n t f l 1 a p l
e ste re o tip a d a do p a p e l social e u m m o v im en to espontlntChcrtadOTi
tu d o isso in d ica q u e o lo c u s d o ho m em m o re n ia n o é o m u n d o s o c ía l ê
p o lític o , o m u n d o das lu ta s d e classes, d a a lien aç ão e d a práxis. P o r
essas razõ es, o m a teria lism o dialético serviu, n a época, p a r a d a r
fo rm a e fu n d a m e n ta r a m icrossociologia e a Psicologia desenvol­
vidas p o r M o ren o , fo rm an d o , até, com elas, u m to d o co n g ru e n te em
te rm o s ló g ic o s.11 E ssa ó p tica ain d a m e a c o m p a n h o u n o livro
seg u in te, pelo m en o s em alguns dos en sa io s q u e o c o m p u n h a m .13
C om o p a s s a r do tem po, e n tre ta n to , fu i p erce b en d o o q u a n to o
m a teria lism o dialético e ra cego a c e rta s q u estõ es h u m a n a s, com o a
q u e stã o do desejo — o hom em m a rx ista define-se p ela n ecessid a d e
— e a q u estão do in c o n scien te — a te o ria m a rx ista está a p o ia d a na
co n sciên cia (de ciasse). A decepção co m o m a terialism o d ia lé tic o '
a u m e n to u com a m in h a viagem a C u b a , em ju lh o de 1983. V iagem
im p o rta n te essa, q u e quase m e pôs esq u izo frên ico , pois n a d a do que
eu via co rre sp o n d ia ao q u e eu sentia! D esco b ri u m país q ue, d e fato,
co n seg u iu resolver o p ro b le m a de su a p o p u la ç ã o em term o s das
necessidades b ásicas essenciais: alim e n ta ç ã o , m o ra d ia , sa ú d e, e d u ­
caç ão — e, nesse sentido, o tra b a lh o d a R evolução foi p rim o ro so —
m as q u e , p a ra a tin g ir esse estágio, teve de se to rn a r u m país de u m a
só cab e ça, u m a única fo rm a de p e n sa r, d isse m in a d a de c im a p a ra
b aix o e rig o ro sam en te c o n tro la d a pelo E sta d o . T u d o pode, desde
q u e d e n tro das “ m etas do so cialism o" (o q u e q u er d iz e r, do
p e n sa m e n to m a rx ista-le n in ista ). U m p a ís o n d e o diálogo, a dem o ­
cra c ia , as sin g u larid ad es, to rn a m -se , nesse sentido, variações d en tro
de u m único te m a e onde as su b jetiv id a d es são p ro d u zid a s pela
m á q u in a do E sta d o com o em q u a lq u e r su p e rp o tê n c ia c a p ita lista . E
o n d e o p o d e r que governa é, nesse sen tid o , o p o d e r d iscip lin a r. País
m arav ilh o so do p o n te d e v ista econôm ico e d etestável do p o n to de
vista p o lític o e q u e , nesse sentido, fez-m e se n tir cindido, esquizado!
E a p s iq u ia tria c u b a n a — q u e ta n ta c u rio sid a d e tem d e sp e rta d o —
n ào re a liz a n a d a m ais, n a d a m enos, do q u e um tra b a lh o de

(12) Isso, inclusive, na medida em que eu assumia o materialismo


dialético através da óptica do existencialismo francês {Merleau-Ponty, Sartre) e
que a teoria moreniana tem muito d ver com o movimento existencialista.
{13) Ver Naffah Neto, A ., " 0 Drama na famftia pequeno burguesa" e
"Psicodrama e Dialética” em P sico d ram atizar — Ensaios, SSo Paulo, Ed.
Ágora, 1980.
m A LFR EDO NA FFA H NETO

re in se rç ã o do Louco h a sociedade p ro d u tiv a , a tra v é s d a la b o rte ra p ia .


N os textos que p u d e le r sobre ta l tra b a lh o , n ão havia q u a lq u e r
m e n ç ã o ao possível c a rá te r revolucionário d o d iscurso d a lo u c u ra ,
n em a q u a lq u e r co n ce p ção d a lo u c u ra q u e n ào a to m asse com o
“ d o en ça m e n ta l” . E n fim , em m a té ria de p s iq u ia tria , os cu b an o s
estão m u ito longe d e L aing, C ooper e F o u c a u lt, O q u e fazem é
p ro c u ra r abolir a lo u c u ra , rein serin d o o louco n a sociedade
p ro d u tiv a , desenvolvendo-lhe o p a p e l d e c id a d ã o e de responsável,
E se a lo u c u ra for s in to m a de algo, se ela re fle tir algo d a s c o n tra ­
dições q u e envolvem a so cied a d e c u b a n a , esse sa b e r é abolid o com o
p o ssib ilid ad e, ao se a b o lir a lo u c u ra p ela re a b so rç ã o social* O que
significa, em su m a, u m a p s iq u ia tria q u e , p o r trá s d a fa c h a d a de
revolucionária, en co b re um . c a rá te r co n serv a d o r e re a c io n á rio .14
M as, enfim , eu dizia tu d o isso p a r a p o d e r ju stific a r o p o rq u ê
d a m in h a urgência em u ltra p a s s a r o m a te ria lism o dialético o u , pelo
m e n o s, em tran sfo rm á -lo em aspectos essenciais. Sem dúvida, h á
coisas do m arxism o q u e a in d a valem e m u ito . N ão h á d e se d esm e­
recer a descrição d a so ciedade c a p ita lis ta e x p o sta em O C apital.
M as h á de se q u e stio n a r o n a tu ra lism o e o p r im a d o d a consciência
n a visão m a rx ista d e m u n d o e de h o m e m . Ê n ecessário se rep en sar
as c a teg o ria s p olíticas e sociais do m a te ria lism o dialético p a r a talvez
d e sc o b rir que, p o r trá s d a s relações c o n tra d itó ria s e n tre as classes
sociais e de to d a a descrição objetiva d a econom ia b urguesa,
p u lu la m fa n ta sm a s e desejos, p erfilam -se tra d iç õ e s a u to ritá ria s,
e n fim , e stru tu ra -se u m In c o n s c ie n te S o c ia l e P o lítico q u e en g e n d ra a
h istó ria nas suas m a lh a s e que n ão se abole com a revolução do
p ro le ta ria d o . Após esse e m p re e n d im e n to , re p e n s a r to d a a q u estão
d a d ia lé tic a .
Q u em p o d eria te r re a liz a d o essa c rític a de fo rm a m ais p le n a
se ria , talvez, a E scola d e F ra n k fu rt. E n tre ta n to , n ão o fez, n a
m e d id a em que p re fe riu p e rm a n e ce r, em c e rta m e d id a, fiel ta n to ao
m a rx ism o q u a n to à p sican álise, fica n d o p re n s a d a e n tre as duas
escolas. P o r ou tro lado, é essa m e sm a c rític a q u e D eleuse e G u a tta ri
têm p ro c u ra d o re a liz a r em livros com o O A n ti-Ê d ip o , p o r exem plo.
E n tre ta n to , a o b ra destes au to res ta m b é m a p rese n ta poutos

{14) E mesmo que se alegue que os Joucos em Cuba são todoe velhos e
que a loucura foi originária do regime anterior ou do choque produzido pela
Revolução, há de se provar que o eeu desenvolvimento e permanência não
reflete algo da atual sociedade cubana.
A PRÀXIS D O PSICÓLOGO

questionáveis, com o o rech a ço talvez p re m a tu ro d a d ia lética; isso na


m e d id a em q u e se apóiam no p e n sa m e n to d e N ietzsche e h e rd a m ,
nesse sen tid o , a s u a c rítica a filosofias do n eg ativ o .15 N ão seria
necessário levar a d ia lética às ú ltim a s c o n seq ü ên c ias p a ra p o d e r, de
fato , re p e n sá -la com m aior vigor ou a té ch e g a r à conclusão d e que,
e n q u a n to filosofia e visão de m u n d o , ela e s tá u ltra p a s s a d a ? 16
M as voltem os ao p sic o d ra m a, p a r a te n ta r m o stra r q u e , n a
id é ia m o re n ia n a d e um C o - I n c o n s c i e n t e ou I n c o n s c i e n t e C o m u m
talvez esteja um elo possível p a ra a fo rm u la ç ã o desse I n c o n s c i e n t e
S o c i a l e P o l í t i c o de que falávam os- O q u e M oreno m o s tra é
sim ples: q u e o p sic o d ra m a com fam ílias e com outros g rupos
e s tre ita m e n te vin culados têm revelado situ açõ es em que a p ro d u ç ã o
in co n scien te de u m m em bro do g ru p o vin cu la-se esp o n ta n e a m e n te à
p ro d u ç ã o in co n scien te d e o u tro m e m b ro do g ru p o , fo rm a n d o u m só
elo d e sign ificação ; m ais que isso, ele o b serv a q u e m a rid o e m u lh e r,
in v e rten d o p ap éis n u m a d ra m a tiz a ç ã o , co n seg u em , m u itas vezes,
tra z e r à to n a conteúdos in conscientes q u e su p o sta m e n te seriam do
p a rc e iro . E conclui pela necessidade d e se p e n s a r em e s t a d o s
i n c o n s c i e n t e s c o m u n s a vários sujeitos, um a espécie de C o - I n c o n s -
c i e n t e t q u e d e se m p e n h a ria , segundo elç, p a p el im p o rtan te n a vida
de pessoas in tim a m e n te asso ciad as, co m o p a i e filho, m a rid o e
m u lh e r, gêm eos, e tc ,, e em g rupos e s tre ita m e n te vinculados, tais
com o: eq u ip es de tra b a lh o , g rupos d e c o m b a te em g u erras, cam p o s
de co n c e n tra ç ã o , g rupos religiosos ca rism á tic o s, e t c . 17 T a m b é m em
m eu tra b a lh o com o p sic o d ra m a tista , te n h o o b servado fenôm enos
in te re ssa n te s nesse sentido: sessões p s ic o d ra m á tic a s de g ru p o s j á
re la tiv a m en te an tig o s (e n q u a n to processo te ra p êu tico ) m o stra m ,

(15) Sobre as críticas de Nietzsche à dialética, ver Deleuse, G .(


Nietzsche e a Filosofia, Rio de Janeiro, Ed. Rio, 1976.
(16) Levar a dialética às últimas conseqüências significa, num certo
sentido, produzindo a si mesmo enquanto subjetividade. Nessa perspectiva, nâo
hegeliano-marxista. Ou seja, recuperar o seu sentido etimológico originário,
expresso no grego diaJégesthai, que significa o processo pelo qual o eu recolhe
o múftiplo para dentro de si, perpassando-o na sua representabilidade e , nesse
sentido, produzindo a sí mesmo enquanto subjetividade. Nessa perpectiva, não
se poderia pensara dialética como um processo infinito, nunca acabado, onde
cada síntese é sempre fragmentária, parcial, onde a totalidade designa o
fantasma do impossível? E onde a multiplicidade permanece sempre como
irredutibilidadedú Ser à consciência?
{17) Ver: M oreno, J. L., "La terapia interpersonal, la psicoterapia de
grupo y la funcíón dei inconsciente" in Las bases de /a psicoterapia, Buenos
Aires, Ed. Horm è S. A . E., 1967.
190 AL FR ED O NAFF AH NETO

m u ita s vezes* o g ru p o com o un i to d o a n te c ip a n d o (n a fase de


a q u e c im e n to d a sessão) trechos de cen a s q u e seriam en cen ad as, em
seg u id a, pelo p ro ta g o n is ta , ain d a n ão d e te c ta d o . O u seja, o g ru p o
fu n c io n a aí com o u m a espécie de coro de tra g é d ia g reg a e, através de
lap so s, atos falhos, deslizes tran sferen c iais, consegue a n u n c ia r fra g ­
m e n to s do d ra m a q u e a in d a e stá p o r ser e n ce n ad o ; com o en ten d er
e sse tipo de fenôm eno se n ão su p o n d o u m C o -In co n scien te gru p ai?
T a m b é m j á m ostrei e m trab a lh o s a n te r io r e s 1® q ue, m u ita s vezes,
vai-se e n c o n tra r o elo d e significação que e s tru tu ra certas crista­
lizações de p ap éis em p erso n ag en s d e d u a s gerações a trá s (com o
avós, p o r ex em p lo ).O u seja, certo s sin to m a s (com o alguns m edos
n ã o com preensíveis) só e n c o n tra m seu se n tid o q u a n d o o p ro ta g o ­
n is ta consegue e n c a rn a r, em cena, esses fa n ta sm a s de an tep assad o s
q u e , atra v és da su a h is tó ria de vida, ex plicam a origem do m edo que
o p a c ie n te vive e c u ja ra z ã o de ser p e rm a n e c e ra , até e n tã o , incons­
c ie n te. C om o, pois, e n te n d e r esse fe n ô m e n o senão su p o n d o u m
C o-Inconsciente fa m ilia r, e stru tu ra d o a tra v é s de gerações e ge­
ra ç õ e s? 1^
E ssas observações p erm item -n o s g e n e ra liz a r e am p lia r o
conceito p a r a ap licá-lo a to d o o co rp o so cial. O u seja, propõem u m a
n o v a visão das relações sociais, n ã o m ais com o relações objetivas e
im e d ia ta s (essa é a ó p tic a p ro p o sta p o r u m c e rto tip o de Sociologia)
n e m m esm o com o relações m e d ia d a s u n ic a m e n te pelo fetiche do
c a p ita l (ó p tica do m a rx ism o ), m as com o re la çõ es m e d iad as p o r u m
n ú m e ro incalculável de fa n ta s m a s in c o n s c ie n te s . O u seja, o fa n ­
ta s m a inconsciente, a n te s d efinido p e la p sic a n á lise com o rep resen ­
ta ç ã o m e n tal, in tra p s íq u ic a , desloca-se d essa c a ix a p re ta c h a m a d a
“ m e n te ” p a ra o c u p a r o lu g a r q u e se m p re lhe foi de direito: as
relações e n tre os h o m e n s, a e s tru tu ra social n a s su a s produções e
transform ações* T o m e-se , p o r exem plo, o caso de H iroshim a:
q u a n ta s gerações viveram e a in d a vivem o seu co tid ian o com o
p e rm e a d o pelos fa n ta sm a s daq u eles q u e m o rre ra m , fan ta sm as d as
c a sa s d estru íd a s, d a s doenças» d a m o rte, do ' ogum elo avassalador

(18) Ver: Naffah Neto, A ., " O Drama na família pequeno burguesa",


op. cit.
(19) Também os psicanalistas conhecem fenômenos desse tipo. Maud
M an no ni, por exemplo (cf. L 'e n fan t, sa "m a la d ie ” e t les a uty es , Paris, Ed. de
Seuil, 1967) nos mostra com o certas produções inconscientes da criança nada
mais fazem do que pôr às claras certos conflitos inconscientes que estruturam
a relação dos pais e da famfl ia como um to d o .
A PRAX IS D O PSICÓLOGO 191

d a b o m b a a tô m ic a ? R epresentações m e n ta is? E ssa é u m a lo rm a um


ta n to id e alista, q u a n d o n ã o equ iv o cad a, d e v er a coisa: c h a m a r de
“ m e n ta is ” esses espectros, essas so m b ra s q u e se e n tre la ç a m n a s
relações, q u e p erm e iam to d o o corpo so cial n as suas ações m ais
c o rriq u e ira s do co tid ian o , c o n stitu i, se n ã o u m ab u so teórico, pelo
m enos, u m a concepção in g ê n u a : a b o m b a atô m ica está d e fa t o lá,
n ã o só n aq u eles q u e ficaram m a rc a d o s p o r e la , n ã o só n a ra d io ­
ativ id a d e que a in d a am eaça a vida das p esso as, n ã o só no p a rq u e e
nos m o n u m e n to s q u e são o seu te ste m u n h o vivo; ela e stá, ta m b é m ,
nos re c a n to s m ais escondidos d a vida d e c a d a u m , n a sa u d a d e
d a q u e le s q u e m o rrera m , nos sonhos d a q u e le s q u e a in d a estã o p o r
vir, n a ino cên cia d aq u eles q u e seq u er fo ra m d ire ta m e n te afetad o s
p o r ela. N ão h á dúvida: as relações sociais em H iro sh iraa a in d a
c o n tin u a m sendo m e d iad a s pelo c a p ita l e, nesse sentido, a ó p tica
m a rx is ta se m a n té m ; e n tre ta n to , q u a lq u e r análise que ficasse
u n ic a m e n te p resa a esse a sp ecto seria sim p le sm e n te sim p ló ria. E
n ão h á dúvida: esse tra u m a social q u e foi a b o m b a atô m ica
e s tru tu ro u e a in d a está e s tru tu ra n d o u m In c o n sc ie n te S o c ia l e
P o lítico q u e atra v essa rá as vidas de g eraçõ es e gerações d a c id ad e
m a rc a d a . E q u a n d o , um d ia , tu d o p a s s a r e a b o m b a for e sq u ecid a
(se isso fo r possível), as gerações p o sterio re s a in d a c o n tin u a rã o a
so n h a r com cogum elos estran h o s, p a re c e n d o feitos de nuvens (o u de
fu m a ç a , q u em sa b e lá?), sem co n sciên cia a lg u m a do que se tr a ta .
E n tre ta n to , essa idéia d e um in c o n s c ie n te S o cia l e P o lítico não
é assim tão nova. O s antigos gregos j á a c o n h e c ia m , e m b o ra n u n c a a
te n h a m n o m e ad o d e s ta forma« T om e-se, p o r exem plo, a noção de
a n a n k é (destino), ta l qual ap are ce n a tra g é d ia grega e nos m itos.
É d ip o -R e i p o d e ilu s tra r o q u e q uerem os d izer. A idéia (n ã o sei se
p ro p ria m e n te fre u d ia n a ou dos fre u d ia n o s) de q u e a tra g é d ia é
m ovida p elo desejo incestuoso e p a rric id a de Ê d ip o é co m p letam en te
falsa, e Je a n P íerre V e m a n t e P ierre V id a l-N a q u e t já o d em o n s­
tra ra m .20 O q u e isso q u er dizer? Q u e r d iz e r sim p lesm en te que en tre
um su p o sto desejo inconsciente de É d íp o e os aco n tecim en to s
ce n tra is d a tra g é d ia (o assassin ato do pai e o casa m e n to com a m ãe)
ex iste, a m ediá-los, u m co n ju n to de o rácu lo s q u e repetem m aldições
de a n te p a ssa d o s, q u e form am u m a tra m a in trin c a d a e nodosa, onde
o desejo d e Ê d ip o é ap en as u m a p e q u e n a p e ça . N ão h á d ú vida:

(20) Vernant, J . P. e Vidal-Naquet, P., "'Édipo' sem com plexo", em


M ito e Tragédia n a Gréciê A n tig a , S3o Paulo Ed. Duas Cidades, 1977.
192 A LFR ED O N A FF AH NETO

a tra g é d ia n ão revçla to d o s esses aspectos; e la a p en a s c o n ta qu e


Laio, p a i de É dipo, re c e b e ra u m o rácu lo p ro fe tiz a n d o que seria
m o rto pelo p ró p rio filh o . E n tre ta n to , b a s ta p e s q u is a r o m ito p a ra
d e sc o b rir que to d a s as versões m ais c o rre n te s referem -se a esse
o rá c u lo com o rep etin d o u m a a n tig a m a ld iç ã o q u e L aio re c e b era, em
te m p o s p assad o s, d e P élo p e, rei de P isa, q u a n d o r a p ta r a seu filho
C risip o , p a ra fazê-lo seu a m a n te . A contece q u e L aio se h o sp e d a ra
n a c a s a de P élope em te m p o s difíceis, e esse ra p to re p resen tav a u m a
tra iç ã o à h o sp ita lid a d e do rei. P o r e sta ra z ã o , P élope lan ço u -lh e a
m a ld iç ã o de que n ão te ria filhos e se os tivesse m o rre ria n a s m ãos do
p ró p rio filho, p e d in d o a Z eus q u e a re a liz a s s e .21 F e ita s essas
colocações, fica b a s ta n te claro q u e se tivéssem os de colocar algum
desejo n a origem d a tra g é d ia de Ê d ip o , esse desejo n ão seria o do
h e ró i, n ão sendo, p o rta n to , desejo incestuoso e p a rric id a ; seria, isto
sim , o desejo hom o ssex u al de seu p a i, L aio. E n tre ta n to , o q u e
c a ra c te riz a a m ito logia g reg a é, ju s ta m e n te , a im p o ssib ilid ad e de se
d e te c ta r a origem d e q u a lq u e r fato : tu d o p a re c e rem e ter a u m
d esfila d e iro de aco n tecim en to s, lu ta s, g u e rra s , d isp u ta s, m aldições,
n u m c o n ju n to d e h istó ria s q u e se irra d ia m u m a s das o u tra s o u tras,
c o m o ra m o s de u m a im e n sa árvore p o v o a d a de h o m en s, heróis e
d eu ses. Nesses e n tre c ru z a m e n to s de h is tó ria s , as ações dos perso*
n a g e n s, freqüentem ente* p ro d u z e m in ju stiç a s e infelicidades de
o u tre m , c o n tra in d o dívidas m o rais e re c e b e n d o m aldições qu e
e n c o n tra m alian ças e n tre os d e u se s.22 E ssa s m aldições, in tem ie-"
d ia d a s p ela v o n ta d e div in a e a n u n c ia d a s pelos oráculos, vão
c o n stitu ir, assim , o a n a n k é dos p e rso n ag en s. D e stin o q u e, e n q u a n to
ta l, se rá h e rd a d o pelo s seus d escen d en tes, q u e e sta rã o , d e s ^ fo rm a ,
se m p re lu ta n d o com fa n ta sm a s, fa ta lid a d e s e in junções que
e sc a p a m ao seu co n tro le e tran sce n d em a s u a existência* A tra g é d ia
g re g a é co n stitu íd a , d e sta fo rm a, p o r u m s c r ip t que é vivido pelo
h eró i m a s cujas razõ es, via de re g ra , lh e £ $ £ a p a m . C om o u m a tra m a
in c o n sc ie n te , C om o form ações d e u m In c o n s c ie n te S o c ia l e P o lítico .
S ocial, p o rq u e se p ro d u z no e n tre c ru z a m e n to d a s relações h u m a n a s.
P olítico p o rq u e o q u e e s tá em jo g o são se m p re relações d e poder;
p o d e r dos h om ens e n tre si, p o d e r e n tre os h o m e n s e os deuses.

{21 > Cf. Ruiz de Elvira, A ., M ito lo g ia Clássica, cap. IV , item 4: "Layo e
Édipo", Madrid, Ed. Gredos,, 1975, pp. 190-204.
(22) A s ações humanas, via de regra, incorrem em falhae e erros de
julgamento devido à presunção e ao orgulho humanos e sua insistência em
desconhecer as leis que regem o mundo ino m ó i} e que são postas pelos deuses.
É esse orgulho, justamente, que receberá o castigo divino.
A PRÃXJS D O PSICÓLOGO 193

R e to m a n d o essa persp ectiv a, o p sic o d ra m a aparece com o u m a


p ráx is de desvelam ento desse In co n scie n te, ta l q u a l a p a re c e e se fa z
p re se n te no co tid ia n o dos h o m en s. P rocesso que é, em si, u m a
d ia lética, e q u e se p ro cessa atrav és d a c o n tra d iç ã o e n tre a p re te n s a
con sciên cia de u m a ação so b e ra n a , livre e responsável e a factu ali-
d a d e d e u m a a ç ã o p re d e te rm in a d a : p a p e l, fa n ta sm a , in ju n ç à o d e
u m s c r ip t in consciente q u e insiste p o r se fa z e r verdade. C o n tra d iç ã o
e n tre a ação d o p resen te e as ações do(s) (an te )p a ssa d o (s). E n tre o
d iscu rso egóico e o discurso an ô n im o . E n tre as gerações. E n tre o
riovo e o velho- E n tre o a rb ítrio e o d estin o . E n tre si m esm o e o
O u tro . E n tre a vida e a m o rte. O n d e a e sp o n ta n e id a d e designa,
ju s ta m e n te , esse e n co n tro e n tre a su b je tiv id a d e a lie n a d a e a su a
h istó ria , m o m en to em q u e o sujeito p e rp a s s a o objeto (seu m undo;
as leis q u ç o regem , os fa n ta sm a s q u e a n u n c ia m a su a verdade) p a r a
to rn á -lo saber-em -a ção , flu x o de significações q u e atra v essa o corpo
p a r a se fazer m ovim ento de tra n sfo rm a ç ã o d a h istó ria. A conte­
cim ento* Q ue D eleuze d efine com p rim o r: “ O aco n tecim en to n ão é
a q u ilo q u e acontece (a c id e n te ), ele é , n a q u ilo q u e acontece, o p u ro
e x p rim id o que nos ía r s ig n o e nos a g u a rd a ( ...) E le é o q u e deve ser
c o m p re en d id o , o que deve ser d esejado, o q u e deve ser re p re se n ta d o
n a q u ilo q u e acontece. B o u sq u et nos diz ( „ , ) : ‘T o rn a -te o hom em
de tu a s infelicidades, a p re n d e a e n c a rn a r-lh e s a perfeição e o
b rilh o ’. N ão se pode d iz er n a d a além disso, n u n c a se disse n a d a
além disso: to rn a rm o -n o s dignos d a q u ilo q u e nos acontece; p o r
c o n seg u in te, desejar isso e re sg a ta r d a í o aco n tecim en to , to rn a rm o -
n o s os filhos d e nossos p ró p rio s a c o n tecim en to s e, a tra v és disso,
refaze r u m n ascim en to , ro m p e r com o n asc im e n to c a rn a l1’. 23 O u,
n a s p a la v ra s de G oethe: “ O que h e rd a s te d e te u s p ais to m a e to rn a
t e u " . 24
N esta persp ectiv a, o p s ic o d ra m a ro m p e com as a n tig a s dico­
to m ias: m u n d o in te rn o /m u n d o externo," fa n ta s ia /re a lid a d e , p s y c h é /
sociusy q u e se m p re a lie n a ra m a P sicologia do m u n d o , to rn a n d o -a
u m a m á q u in a d e fazer cab eças, u m a p rá tic a d e n o rm aliza ção e de
d iscip lin a . C om o p ráx is d e desvelam ento do co tid ian o , consegue,
assim , a b rir novos horizontes p a ra a p r á tic a te ra p ê u tic a . M as a sp ira
a m ais que isso: a po d er, quem sabe, u m d ia , a rre b e n ta r o espaço

(23) DeJeuse, G., L o g iq u e de sens , Paris, Les Editions de M inuit, 1969,


p. 175.
(24) Citação de Rollo M ay: O h o m e m à p ro cu ra de s i m e sm o ,
Petrópolis, Ed. Vozes, 1973, p. 171.
1<M A LFR ED O NA FFA H NETO

p riv a d o d a clínica e to m a r-s e , fin alm en te, aq u ilo que sem pre foi em
essência* desde a su a o rig em : m te a tro te ra p ê u tic o a b erto a todos,
u m p sic o d ra m a público.
M a s , p o d er-se-ia p e rg u n ta r: isso a in d a p o d e ser c h a m a d o de
P sicologia clínica? E com o fica a velha d efin ição d a P sicologia com o
c iê n c ia do co m p o rta m e n to ? £ u m a p e rg u n ta p a r a a q u a l, no
m o m e n to , n ão tenho resposta* T alvez p o rq u e , e n q u a n to questão,
ela n u n c a te n h a, d e fa to , m e p re o c u p a d o .25 D e u m a coisa,
e n tre ta n to , eu sei: se a P sicologia n à o p u d e r ser isso» en tã o cia não
m e in te re ssa . E la que fiq u e com os seus velhos conceitos e n c a r­
q u ilh a d o s e reac io n ário s, faz e n d o as c ab e ç a s d o m u n d o , a té que
a p a re ç a a todos a su a virulência. E la q u e a p o d re ç a d o seu p ró p rio
veneno. E que m o rra.
T e n h o dito.

(25) É possível q ue os outro s autores deste livro possam lançar maior


luz 9obre essa questão.
O papel do psicólogo
na organização industrial
(notas sobre o “lobo mau”
em psicologia)*
W a n d e r ley C odo

O m ovim ento social nos últim os te m p o s tem se m o stra d o com


te n d ê n c ia ineq u ív o ca a u m a c o n ce n traçã o u rb a n a in d u stria i, graças
ao desenvolvim ento do c a p italism o no B rasil, c a d a vez m a is e m ais
o p erário s co n ce n tram -se em g ran d es in d ú s tria s , o que p o r si só é
rele v an te p a ra os psicólogos, in c u m b id o s p o r miSsão e pro fissão a
c o m p re e n d e r e / o u tra n s fo rm a r o c o m p o rta m e n to h u m a n o . M as,
além do a rg u m e n to m e ra m e n te estatístico , h á u m a razâ o a in d a m ais
forte e ig u a lm en te evidente, a in d ú s tria é o m o to r d a sociedade, o
lo cu s onde se g e ra m as relaçòes e n tre a s pessoas, en tre as classes. A
a tu a ç ã o do psicólogo d e n tro d a in d ú s tria dev eria ser a m e n in a dos
olhos d este profissional, os postos m a is co b içad o s en tre o s e stu ­
d a n te s. A re a lid a d e não é esta.
Ao c o n trá rio , q u an to m a is cresce a im p o rtâ n c ia d a in d ú stria
n a so cied a d e c o n te m p o râ n e a , m ais crescem as critic a s que a
Psicologia, p rin c ip a lm e n te no â m b ito aca d êm ico , faz à a tu a ç ã o do
psicólogo n a in d ú stria . E m b o ra seja m u ito difícil o p erac io n alizar
e stas fo rm u laçõ es, sente-se c la ra m e n te q u e os professores e alunos
de P sicologia referem -se a e sta esp ecialid ad e com o u m a espécie de
irm à m e n o r d a Psicologia, u m m isto d e asco e com iseração c o m u m à
m ã e (p re n d a d a ) que se refere a u m a filh a que se p ro stitu iu .

(*> Os dados deste trabalho foram coletados do vol. I da tese de


Doutoramento de Wanderley Codo, “ A Transformação do Comportamento
em MdPcadoria", PUC, São Paulo, 1981.
196 W ANDERLEYCODO

O exam e d esta c o n tra d iç ã o nos o b rig a a re c o rre r à te o ria e à


p r á tic a do psicólogo in d u s tria l, assim com o as críticas q u e são feitas
à su a a tu a ç ã o .
A com eçar p e la funçào te ó ric a do psicólogo in d u stria l:
o d e p a rta m e n to d e seleção de pessoal se o rie n ta pelo p ressu p o sto
fu n d a m e n ta l de “ c o m b in a r os indivíduos com as ocupações com as
q u a is se h a b ilita ” . 1 O p ré -re q u isito básico p a ra o cu m p rim en to
d este p a p e l é que h a ja u m a d e term in a ç ã o ex p líc ita de funções, u m
flu x o g ram a da e m p re sa , ta n to a nível de ta re fa q u a n to a nível d e
p ro d u ç ã o . A p a rtir daí, á seleção deve e la b o ra r teses cap a zes de
d e te c ta r h ab ilid ad e s e / o u c a ra c te rístic a s q u e p o ssa m p rev er o g ra u
de a d a p ta ç ã o do in d iv íd u o à ta re fa , o b je tiv an d o , p o r u m lado,
a u m e n ta r a satisfação no tra b a lh o e, p o r o u tro , a u m e n ta r a
p ro d u tiv id a d e re d u z in d o o tu m - o v e r .
P ara le lam e n te ao desenvolvim ento dos m étodos de seleção,
deve o co rrer, com o aco n selh am os m a n u a is de Psicologia In d u strial,
u m a av aliação p e rió d ic a d e desem penho, com a função de o rie n ta r
as possíveis prom oções e, ao m esm o te m p o , fu n cio n a r com o teste
perió d ico , avaliando os critérios d a seleção e retro a lim en tan d o o
siste m a . O resu ltad o prev isto é o a u m e n to d a eficiência, p a rtin d o do
p re ssu p o sto de q u e u m in d iv íd u o d e se m p e n h a ta n to m elhor q u an to
m e lh o r a d a p ta d o estiver à su a função.
No tre in a m e n to m a n têm -se os m otivos e m u d a m os m étodos^
T ra ta -s e de e n sin ar ao tra b a lh a d o r as especificid ad es de um
tra b a lh o d e te rm in a d o , a u m e n ta n d o seu re n d im e n to n a m e d id a em
q u e o c a p a c ita p a ra o tra b a lh o .
Q u e r n a seleção, q u e r no treinam ento» o p rin c íp io que vigora é
o d e m a n te r o h o m em certo no lu g a r ce rto , e , ta m b é m , a d e q u a r o
h o m e m à m á q u in a , re d u z in d o ao m ín im o a p ro b a b ilid a d e de erro.
Sobre a crítica d a fu n ção te ó rica do psicólogo in d u stria l, já se
tra n s fo rm o u em lu g a r com um as afirm açõ es d e que esta s atividades,
d e sc rita s su cin tam en te a cim a, são in trin se c a m e n te reacio n árias,
o psicólogo se coloca a serviço d a in d ú s tria com o in stru m e n to
ad ic io n a l de exp lo ração do tra b a lh a d o r, ao invés de tra n s fo rm a r a
e s tr u tu ra p ro d u tiv a p a r a q u e ven h a a sa tisfa z e r as necessidades do
ser h u m a n o ; tra n sfo rm a o ser h u m a n o à im ag em e sem elh an ça d a
in d ú s tria , invertendo, p o rta n to , su a m issão d e c o n trib u ir p a ra a

(1) Tiffin, Joseph e M cCormick, Ernest J ., Psicologia Industrial, SSo


Paulo, Ed. Herder, 1969, p. 113.
A PRÀX IS D O PSICOLOGO 19

felicid a d e do ho m em e c o rro b o ra n d o n a alien aç ão do tr a b a lh a d o r


tra n sfo rm a n d o -o em dócil e p a c a to o b je to d e exploração do C a p ita l
Á iguns crítico s m ais afoitos ch eg am a resp o n sa b iliz a r to d a
P sicologia, acu sa n d o -a de e sta r a serviço d a s classes d o m in a n te s
servindo com o in stru m en to destas c o n tra o tra b a lh a d o r.
D e passagem , é bom frisa r q u e n ão é privilégio d a P sicologia
m u ito m enos d a Psicologia In d u s tria l, o seu com prom isso com a
classes d o m in an tes. É fato , já so b eja m e n te co nhecido, que <
d o m ín io de u m a classe sobre a o u tr a tra z com o d e c o rrê n c ia <
d o m ín io das idéias d a classe que e stá 110 p o d e r, e que a ciên cia nã<
esc a p a atra v és de algum exercício m ágico de n e u tra lid a d e . Pei«
c o n trá rio , ao p ro d u z ir co n h ecim en to que n e ce ssariam en te im pltc;
p o d e r, a ciên cia é a p ro p ria d a p elas classes d o m in an tes e utilizada
ern seu benefício,
No e n ta n to , ao c o n sta ta rm o s esta rela ção e n tre ciência «
p o d e r, n ão podem os c o rre r 0 risco de “jo g a r a c ria n ç a fo ra com ;
á g u a do b a n h o \ V ejam os: se o psicólogo, ao d ecla ra r q u e a P sico
Jogia In d u stria l está a serviço d a g ra n d e in d u stria , se recu sa ;
tr a b a lh a r n a á re a , e s tá fazen d o co ro pelo avesso a velhas c a n tile n a
q u e p ro c la m a m a n e u tra lid a d e d a ciên cia, isto sim , p ro d u ti
ideológico típ ico d a s classes d o m in an te s. E m o u tra s p a la v ra s
a c rític a q u e p ro d u z a não in tervenção é u m a c rític a c a o lh a
covarde, q u e la v a as m ãos e se rec u sa em in v e rter o p ap el da c iê n c ia
q u e n ão se su b m ete a c o rre r os riscos do po d er p a r a te n ta
subvertê*lo,
£ v e rd a d e que o psicólogo in d u s tria l é um e m p re g a d o d«
p a trã o , c o n tra ta d o p a r a faze r fren te ao o p e rá rio . P o r isto m esm o, «
psicólogo co nsciente deveria e sta r n a in d ú s tria refle tin d o c o n s c ie a
te m e n te p a ra te n ta r su b v erte r suas funções. F ra n z in d o o n a riz e s<
re c u sa n d o a c u m p rir tã o “ vil p a p e l” , os defensores d este tipo d «
c rític a fazem coro e x a ta m e n te ao sistem a, pois reivindicam pel«
avesso a n e u tra lid a d e d a ciência, q u e d e n u n cia m com o falsa, «
p o u p a m os in d u stria is do in cô m o d o de te r e n tre suas fileiras u n
p ro fissio n al p re o c u p a d o com a defesa dos d ireitos do tr a b a lh a d o r
Im ag in em o s q u e u m o p erário , ao to m a r con sciên cia ds
ex p lo ra ção a q u e é su b m e tid o , se re c u sasse a tra b a lh a r n a fá b ric a ac
invés de o rg a n iz a r su a classe d e n tro d a fá b ric a . T riste e irônicc
conluio e n tre a consciência e a co v ard ia, em u m a p a lav ra, fa lsí
(p seudo)consciência, se tra d u z em om issão.
M as n ã o é a p en a s no p la n o genérico q u e estas criticas s<
m o stra m débeis. Tivem os o p o rtu n id a d e d e faze r u m e stu d o do cas«
198 W A NDE RLEY CODO

de u m a in d ú stria , re la ta d o em u m tra b a lh o a n te rio r, que ap o n ta


p a ra as funções q u e o psicólogo exerce d e fato n a in d ú stria.
P o ssu ím o s razões p a r a s u p o r que os d a d o s c o letad o s sejam passíveis
de g en eralização , g u a rd a n d o p re c a u ç ã o p a r a as possíveis m u d a n ças
q u e o c o rra m de u m a fá b ric a p a r a o u tra , m as q u e , em nossa opinião,
n âo a lte ra m o co n te ú d o básico d a s observações q u e realizam os.
V ejam os, en tão , q u a is sã o de fato as atrib u iç õ e s do psicólogo na
in d ú s tria :
E m se tra ta n d o d e seleção» a in d u s tria l g era lm e n te divide seus
fu n cio n á rio s em d u a s categ o rias: a dos h o rista s e a dos m ensalistas.
O s p rim e iro s são os e n c a rre g a d o s d ire ta m e n te d a p ro d u ç ão , ope­
rá rio s m a is ou m enos q u alifica d o s, e os seg u n d o s são funcionários
do q u e ch am am o s de te c n o b u ro c ra c ia , diversos escritórios de
c o n tro le , engenheiros, psicólogos, etc. C ab e re s s a lta r que os horistas
a p re s e n ta m a m a io ria e sm a g a d o ra (7 0-90% ) do to tal dos em p re­
g ad o s d a fábrica.
P a ra os o p erário s lite ra lm e n te n ã o h á seleção, n ão se aplicam
te ste s psicológicos nem de p e rso n a lid a d e n e m de inteligência,
a p e n a s u m a en trev ista q*ue in d a g a coisas com o o lu g ar o n d e o
o p e rá rio m o ra , o n ú m e ro de filhos q u e te n h a , d ep en d ê n c ia do
sa lá rio e experiência an te rio r, e n te n d id a n o sen tid o de já te r
tra b a lh a d o em u m a fá b ric a an tes “ p a r a n ã o se d e silu d ir” , nas
p a la v ra s d a psicóloga que en tre v istam o s.
D iga-se de p a ssa g e m , n ão p o d e ria ser d e o u tr ^ fo rm a p o rq u e d
p ró p rio p ed id o de m ã o -d e -o b ra n ão d is c rim in a com d etalh es a
fu n ç ã o q u e o o p erário deve realizar. N a fá b ric a q u e e stu d am o s havia
v ários tra b a lh o s d ife re n te s colocados sob o m esm o títu lo : “ m on­
ta d o r “ ; q u em define q u e tip o de tra b a lh o o recé m -ch eg ad o fa rá é o
ch efe d e seção e n ão a seleção de p essoal.
D e m o n ta d o r o o p e rá rio pode p a s s a r a v á ria s o u tra s funções
a té a tin g ir a de e n c a rre g a d o d e p essoal. T o d a s estas prom oções são
feita s p o r critérios estab elecid o s e d e te rm in a d o s pelo chefe de
p ro d u ç ã o , n ã o p assan d o , p o rta n to , pelo crivo d a seleção d e pessoal.
P a ra os m e n salistas, e n ca rre g ad o s em ú ltim a in stâ n c ia de
c o n tro la r o c o m p o rta m e n to do o p e rá rio , o d e p a rta m e n to de seleção
já segue à risca os m a n u a is d e P sicologia In d u s tria l, são ap licad o s os
te stes b asead o s em descrição de fu n ção , etc.
O d e p a rta m e n to d e tre in a m e n to segue a s m esm as diretrizes
b á sic a s, g ra n d e p a rte d a su a aten ção é d e d ic a d a a cursos de relações
h u m a n a s e de lid eran ça, avaliação de d e sem p e n h o (a p lic a d o apenas
aos m e n salistas), cursos d e inglês p a r a os g ere n te s.
A PRAXIS D O PSICÓLOGO IM

P a ra os o p erário s, o d e p a rta m e n to de tre in a m e n to se lim ita a


a lg u m a s in stru çõ es d e com o fu n cio n a a fá b ric a , c h a m a d a p o m p o ­
s a m e n te de ' ‘sem an a d e in te g ra ç ã o ” , e ao a d e stra m e n to , c u ja
in stru ç ã o d u ra , no caso de tarefas m ais co m p leta s, em m édia IS
m in u to s e é fe ita p o r u m a ex -o p erária p ro m o v id a a in s tru to ra .
D epois disto, b a s ta q u e o o p e rá rio re p ro d u z a sob supervisão a ta re fa
a té q u e a lcan ce o ritm o exigido p ela p ro d u ç ã o .
A fá b ric a , com o se vê, p rescin d e d a intervenção d o psicólogo
n a e sco lh a de seus fu n cio n ário s e n a m a n u te n ç ã o de um b o m a n d a ­
m e n to d a p ro d u ç ã o . Isto é possível devido a dois m e ca n ism o s
b ásico s; p rim eiro , através d a interv en çào d a E n g e n h a ria In dustrial»
q u e se d e d ic a ao e stu d o p o rm e n o riz a d o do tra b a lh o , visando a
m a x im ização dos lucros p o r m eio d a sim plificação a d e x tr e m u m d a
a tiv id a d e do op erário , o q u e não só ag iliza , p ela divisão d o tra b a lh o
n a lin h a de m o n tag em , a co n secu ção do p ro d u to final, c o m o
ta m b é m , e n ã o m enos im p o rta n te , to rn a o o p erário fa c ilm e n te
su b stitu ív el (eis a q u i o verdadeiro a g e n te de controle d o co m p o r­
ta m e n to d e n tro d a fáb ric a); e, seg u n d o , p o r u m exército in d u s tria l
de reserv a fa rto e acotovelado às p o rta s d a fá b ric a à esp e ra d e
dem issões q u e possibilitem ao tra b a lh a d o r o acesso c a d a vez m a is
ra ro ao em p reg o .
V ejam os, agora, o que e stas p ro v id ên c ias d escritas a c im a
p ro v o cam no o p erário . A su a ad m issã o ao em prego lhe a p a re c e
com o a le a tó ria , o exercício das ta re fa s d iá ria s , repetitivas, in signi­
fica n tes, ou, com o q u e r G eorges F rie d m a n n , “ o hom em é m aior d o
que o g e sto ", su a dem issão com o a rb itrá ria , su a p ro m o ção d ep en ­
d e n te , em ú ltim a instância» dos c a p ric h o s do chefe d a p ro d u ç ã o .
O o p e rá rio resiste a e sta a lien aç ão de várias m a n eiras, m a s
alg u m as nos interessam a q u i, p a rtic u la rm e n te : su p ervaloriza a su a
p ró p ria seleção, cheg an d o a in v e n ta r testes q u e não fo ra m reali­
zad o s e a trib u in d o à su a ad m issão a in telig ên cia, persp icá cia, etc.,
e, d e n tro d a fáb rica, reivindica e /o u n ão p e rd e a o p o rtu n id a d e de
re a liz a r q u a lq u e r curso técnico com que p o ssa ap erfeiço ar-se. O s
m ecan ism o s são evidentes, tra ta -se d e c o n tra p o r, à desvalorização a
q u e a fá b ric a o subm ete, u m a rev alorização de si m esm o, ain d a que
seja atra v és d a fan ta sia.
R eto rn em o s às qaestõ e s iniciais, to d a a c rític a que se tem feito
à P sicologia do tra b a lh o te m com o alvo p re d ile to a te n ta tiv a de
escolher o h o m e m certo p a r a o lu g a r certo (rig h t m a n to th e rig h t
p la c e ) do p o n to de vista d a seleção ou m e lh o r p ressu p o sto de
“ a d a p ta r o ho m em à m á q u in a " , objetivo q u e em ú ltim a in stâ n cia
200 W ANDERLEY C OD O

re p ro d u z no p lan o dò tre in a m e n to a m e sm a id eologia d a seleção. O


q u e se vê n a fáb ric a q u a n d o o objeto de e s tu d o são os operários,
q u a n tita tiv a m e n te a e sm a g a d o ra m a io ria d o s tra b a lh a d o re s e
q u a lita tiv a m e n te os responsáveis d ireto s p e la p ro d u ç ã o , n ão é
n e n h u m a te n ta tiv a d e a d a p ta ç ã o do in d iv íd u o à in d ú s tria , pelo
c o n trá rio , trata-se d a elim in ação do in d iv íd u o que tra b a lh a , pelo
m e n o s do pon to de vista psicológico.
E m o u tra s p a la v ra s , tra ta -se de tra n s fo rm a r o tra b a lh o do
o p e rá rio em força d e tra b a lh o e u tiliz á -la co m o q u a lq u e r o u tra
fo rç a (elétrica, m e cân ic a) no p ro cesso p ro d u tiv o . E s b u lh a r o
c o m p o rta m e n to p ro d u tiv o d a su a d ig n id a d e , e x p ro p ria r o tra b a lh a ­
d o r do co n tro le do p ró p rio processo d e tra b a lh o , tra n s fo rm a r o gesto
p ro d u tiv o , h u m a n o p o r excelência, em fo rça de traç ão .
Ê que a filosofia d o rig h t m a n in th e r ig h t p la c e tem sentido
em u m c a p italism o em e x p a n sã o , com ta x a s d e crescim ento supe­
rio re s, ao crescim ento vegetativo d a o fe rta d e m ão -d e -o b ra, m á­
q u in a s fu n cio n a n d o a to d o vapor, novos ram o s in d u stria is em
e x p a n sã o . E stam o s vivendo em u m a O utra fase do capitalism o:
recessão , desem prego e m la rg a escala, crescim en to dos setores
fin a n c e iro s d a econom ia em d e trim e n to d a s in d u stria is, a u m e n to da
c a p a c id a d e ociosa d a s u n id a d e s p ro d u tiv a s em fu ncionam ento,
fa lê n c ia d e p e q u en a s e m é d ia s em p re sa s. E m u m a p alav ra, vivemos
n u m a estagflação, nom e teórico q u e os eco n o m istas e n c o n tra ra m
p a r a b a tiz a r u m a situ a ç ã o o n d e co m b in am -se a lta s tax as d e inflação
com a estag n a ção d a econom ia.
O m odo de o p e ra ç ã o de u m a econom ia c a p ita lis ta , n a m edida
em q u e rep o u sa sobre a p ro d u ç ã o co letiv izad a e a posse in dividual
dos m eios de p ro d u ção , ca rre g a em si a c o n tra d iç ã o de necessitar,
p o r u m lad o , de m ã o -d e -o b ra esp ecializad a, ao mesmo* te m p o que
deve o p e ra r p a ra re tira r dos tra b a lh a d o re s o p o d e r q u e é in eren te à
esp ecialização , o q u e faz (teo ricam en te) d a P sicologia org an i­
z a c io n a l u m in stru m en to im p o rta n te n a a d m in is tra ç ã o dos conflitos
e n tre c a p ita l e trabalho* U m q u a d ro d e recessão e desem prego
a u m e n ta em m uito a o fe rta d e m ã o -d e -o b ra e os investim entos em
tecn o lo g ia que fazem o p ên d u lo oscilar e m direção a um a
m ã o -d e -o b ra c a d a vez m a is d escartáv el. Se a lg u m a frase p u d e r
s u b s titu ir o rig h t m a n in th e rig h t p la c e , sugiro em oposição
q u a l q u e r coisa se m elh an te a n o w h ere m a n in a n y p la c e *
T a l situ ação q u e em sín tese p rom ove a tran sfo rm a ção do
tra b a lh o , elim in an d o a d ig n id a d e do tr a b a lh a d o r, coloca os críticos
d a id eo lo g ia d a a d a p ta ç ã o , do h o m e m ao tra b a lh o ., n a p osição de
A PRÁX1S D O PSICÓLOGO X

D om Q u ix o te , a lu ta r c o n tra m o in h o s de v en to , ou com o já «Um


p o e ta , te n ta n d o m a ta r a m a n h ã o velhote, inim igo que m o m
o n te m ,
Se, d u ra n te o p e río d o de recessã o houvesse u m a p o iitic
in d u s tria l q u e efetivam ente selecionasse e trein asse os operários e i
su as funçòes, o que o c o rre ria se ria u m a valorização d o operáric
atra v és d a valorização dos postos de tra b a lh o , d ific u lta n d o
s b u stitu iç ã o d e um hom em por o u tro , ao m esm o tem po q u
a u m e n ta ria a seg u ran ça p sicológica do tra b a lh a d o r n a s u a p ró p ri
c a p a c id a d e . E m u m a p a la v ra , c o n trib u iria no sen tid o de fo rtalecer
o p e rá rio p e ra n te a in d ú s tria , ao invés de en fraq u ec ê-lo .
Im ag in em o s q u e os psicólogos b em p e n san te s, a o invés d
fra n z ir o n a riz p a ra a P sicologia In d u s tria l, p ro cu rassem o c u p a r o
p o sto s q u e lhes cabem n a fáb ric a e c u m p risse m e x a ta m e n te as s u a
funções:

1) b u scan d o selecio n ar e classificar d e fato h o m e n s m a i


c a p a c ita d o s p a r a exercício d e suas funções, esten d en d o a seleção ;
c a d a o p e rá rio d a fá b ric a e, com o reza a n o ssa ética p ro fissio n a l
in fo rm a n d o ao ca n d id a to os re su lta d o s dos testes a que fo
s u b m e tid o , assim com o os critérios que su b jaze m sua aprovação o \
rep ro v ação ;
2) c o n q u ista n d o a ex ten são d a av aliação de d esem p e n h o par«
to d a s a s funções n a fá b ric a , o q u e , a to co n tin u o , im p lic a ria t
d efin ição d e critérios objetivos p a r a a p ro m o çã o , reb a ix am e n to o t
d em issão de c a d a operário;
3) a tu a n d o efetivam ente no sen tid o d e tre in a r o s operário:
n ã o a p e n a s n a sua fu n ção esp ecífica m a s, ta m b é m , m o s tra n d o c
fu n c io n a m e n to d a e s tru tu ra to d a de p ro d u ç ã o .
S em d ú v id a , o psicólogo que assim agisse e sta ria c o n trib u in d c
p a r a a con scien tização do op erário , p a r a o a u m e n to do seu p o d e r d<
b a rg a n h a p e ra n te a fá b ric a e p a r a a se g u ra n ç a e d ig n id a d e
e n q u a n to ser h u m a n o , tão escassas n a s condições a tu a is. T u d o istc
sem p re c isa r b ra n d ir a te o ria m a rx ista de fo ra d a fá b ric a e nem , ac
m enos, re in v e n ta r a Psicologia n e u tra , com as v a n tag en s de tro c a i
as velhas c an tile n as m u rm u ra d a s pelos c a n to s da U niv ersid ad e p o i
u m a a tu a ç ã o d ire ta com o o p e ra ria d o , classe rev o lu cio n ária p o i
excelência, q u e , se n ã o fo r fav orecida com o auxílio té cn ico dos
psicólogos, p elo m enos, au xilia-os a c o m p re e n d e r m e lh o r a h istó ria .
E m o u tra s p alav ras, é h o ra d e fa z e r a c rítica d a c rític a d a
a tu a ç ã o do psicólogo in d u stria l q ue, p a r a se r c o m p eten te, necessita
202 VÇANDERLEY CODO

ser e m p re e n d id a de d e n tro d a p ró p ria fá b riç a , locus sem dúvida


m enos confortável do que as escrivaninhas d a U n iversidade, m as,
p o r isto m esm o, co n cre ta.
É evidente que tal a tu a ç à o está longe de ser possib ilitad a sem
riscos; os psicólogos disp o sto s a a tu a r d e n tro d a in d ú s tria p reci­
s a ria m , ato continuo, de u m a org an ização e n q u a n to categ o ria, com
força o suficiente p a ra z e la r pela m a n u te n ç ã o do p ró p rio em prego e
pela ob servância dos p rin cíp io s éticos em suas atuações,
Com o sem pre, é possível qu e to d a s as nossas considerações
e stejam e rra d a s. Se fo r o caso , a ú n ic a fo rm a d e perceberm os é n a
p rá tic a , o que te rm in a p o r revalidar pelo avesso as conclusões
a cim a. T em os certeza de q u e o d eb ate qu e vier a a p ro fu n d a r, a c a ta r
ou re c u s a r as reflexões que expom os po d e nos c la re a r o cam in h o , se
for b ase a d o no o p erário concreto, n a fá b ric a rea l e n a atu ação do
psicólogo fidedigna. E sta re m o s, sem d u v id a , m e lh o r em basados n a
p rá tic a e m enos suscetíveis às a rm a d ilh a s p ró p ria s dos contos de
fada.

Bibliografia

Codo, Wanderley, A T ra n sfo rm a ç ã o do C o m p o rta m e n to em M e rc a d o ria ,


S ã o P a u lo , T e se d e D o u to r a m e n to , P U C -S P , 1981, m im eo .
F r íe d m a n n , G eo rg e s, O T ra b a lh o em M ig a lh a s f São P a u lo , E d . P e rs p e c ­
tiv a , 1972.
M c C o rm ic k , T iffin , P sicolo gia In d u s tr ia lt S ão P a u lo , E d . d a U n iv e rs id a d e
d e S ão P a u lo /H e r d e r , 1969.
Psicologia na comunidade*
A lb e rto A b ib A n d e r y

P sico lo g ia n a C om unidade é u m a expressão relativam ente


nova em nosso m eio. N ela, a p alavra c o m u n id a d e vem sendo u sa d a
p a ra d esig n ar a in stru m en taliza ção de conhecim entos e técnicas
psicológicas qu e po ssam c o n trib u ir p a ra u m a m elhoria n a q u alid ad e
de vida d as pessoas e gru p o s d istrib u íd o s n as inúm eras aglom e­
rações h u m a n a s q u e com põem a gran d e cid ad e.
Ê um nom e q u e p ro c u ra c a p ta r u m m ovim ento da Psicologia
a tu a l de p a u la tin o d ista n ciam en to do seu lo cu s tradicional: a sala de
experim entos ou de discussões p u ra m e n te acadêm icas; a an te -sa la
d a gerên c ia executiva d as em presas in d u stria is; o consultório p a r ti­
c u la r cen tra d o em a te n d im e n to u n ic am en te individual.
É um m ovim ento de aproxim ação do cotidiano das pessoas
p rin c ip a lm e n te nos b airro s e instituições p o p u lares onde a g ra n d e
p a rc e la d a p o p u la ção vive» organiza-se e c ria seus canais de
expressão.
E ssa b u sca de inserção da P sicologia na C om unidade p a rte d a
d esco b erta de que, nessas situações e lu g a re s, a p resença ativ a dos
conhecim entos psicológicos tem sido p o u c o freq ü en te, privando
in divíduos e g ru p o s m uito num erosos d o s benefícios qu e a ciência

<*) Ao invés de concentrar, neste texto, a atenção no psicólogo,


preferiu-se falar da Psicologia na Comunidade, entendendo ser esta uma prâxis
própria, mas não exclusiva, do psicólogo.
A interdisciplinaridade e a participação de pessoas da própria comuni­
dade são defendidas, neste texto, como integrantes dessa práxis.
204 ALBERTO ABIB ANDERY

deve p ro p o rc io n a r. P ersiste m aí velhos ta b u s, so b re Psicologia, que


p o d em assim ser d e n u n ciad o s. M as é desse co n ta to ta m b ém qu e a
Psicologia e n q u a n to ciência- p ro c u ra renovar-se nos seus conteúdos,
m eto d o lo g ia e técnica, to m a n d o -se m ais p ró x im a de u m a v erd ad e ira
P sicologia Social,
Esse nom e a p a re c e u , p o r p rim eiro , n a In g la te rra 1 e nos
E sta d o s U n id o s2 e, após, esp alh o u -se p o r vários países, inclusive o
B rasil, com aceitação b a s ta n te desigual.
A Psicologia n a C o m u n id ad e não foi c ria d a p a ra designar u m a
nova E sco la de Psicologia n e m u m a nova te o ria o u um novo “ ism o”
de m o d a . R ep resen ta u m a g u in a d a p a ra u m a no v a fo rm a de p en sar
e p ra tic a r a Psicologia, d istin ta d a tra d iç ã o d o m in an te a té o final
dos an o s 50 deste século.
N a sociedade co n te m p o râ n e a , p e r tu r b a d a pelas m u d an ças
tecnológicas, c u ltu ra is e sociais, é preciso te n ta r in serir a Psicologia
com o u m a form a de ex p licação, a ju d a e m u d a n ç a em prol d a
sobrevivência do p ró p rio hom em . A Psicologia dos anos 50
isolava-se dem ais dos pro-blem as coletivos do hom em co n tem ­
p o râ n e o , en cerran d o -se n u m a to rre de cristal d a discussão m e ra ­
m e n te acadêm ica e do a te n d im e n to a poucas pessoas d a elite
económ ica. P ouco se p reo c u p a v a p o r d e fin ir u m a atu ação v erd a­
d e ira m e n te social e c o n stitu ir-se assim n u m a d as ciências sociais
ú teis p a r a nossa época. f
P a ra esse isolam ento co n trib u iu a p ró p ria identificação da
á re a c h a m a d a Psicologia Social. E ssa á re a de p esq u isa e conhe­
c im en to surgiu desde o in ício d o ’século X X , m as su a m an eira de
c o n sid e ra r o que vem a ser o- social em P sicologia p e rtu rb o u d u ra n te
m eio século sua inserção n a -com unidade dos hom ens.
A s co rren tes m ais a n tig a s d efin iram Psicologia Social com o
e stu d o de co m p o rtam e n to s instintivos: g regários, agressivos ou
o u tra s c o n d u ta s e em oções lig ad as a fato res genéticos e h ered itário s,
e iso lad as do contexto social m utável em qu e sem p re reap a re cem .
E m co n tra p o sição a e ssa c o rren te instin tiv ista, su rg iram os
e x p erim en talistas, p rin c ip a lm e n te am erican o s, a to m iza n d o o estudo
dos c o m p o rtam e n to s sociais através do e sq u e m a S-R a b stra to e

(1) Ver Bender, Mike P., Psicologia da Comunidade , Col. "Curso Básico
de Psicologia", Ed. Zahar, 1978.
(2) Ver Korchin, Sheldon J., M o d em Clinica! Psychology. Principies o f
Intervention in the Clinic and Community, Nova Iorque, Basic Books Inc.,
1976.
A PRÃXIS D O PSICÓLOGO 205

vazio de conteúdo social« O s c o m p o rtam e n to s sociais passam a ser


descritos a nível a p e n a s d a ap ren d izag em de reações individuais a
estím ulos p roxim ais, a b stra in d o esses estím u lo s dos contextos mais
gerais: históricos, econôm icos e cu ltu rais, em q u e, de verdade, e s tio
inseridos e dos q u ais g a n h a m significado e sentido.
E ssas ten d ên cias m ais antigas d a P sicologia Social, que hoje
sào co n sid erad as q u ase a-so cia is, d u ra ra m m ais de m eio século, com
exceção talvez de u m ou o u tro a u to r, com o K u rt Lewin, p re m a ­
tu ra m e n te falecido e m 1947. Só nos anos 70 é que essa Psicologia se
considera em crise com o construção especifica de um sa b e r p ró p rio e
busca, n u m a reap ro x im ação às ciências histórico-sociais, sua nova
m a n e ira de tr a b a lh a r o so cia l em Psicologia.
E nesse contexto de crise3 e re d e fin iç ã o 4 que a P sicologia n a
C o m u n id ad e tem s u a h o ra e vez e pode c o n stitu ir-se a té n u m a p o rta
a b e rta à reavaliação da Psicologia e n q u a n to teoria e p rá tic a .
N u m a rece n te resen h a dos quinze anos de ap are cim e n to d a
P sicologia na C o m u n id ad e, o professor am erican o S heldon J.
K o rc h in 5 assim c ara cterizo u os tem as p rin c ip a is que m a rc am o
p e n sa m e n to a tu a l dos qu e tra b a lh a m n a á re a da Psicologia na
C o m u n id ad e:

“ 1) O s fato res sòcio-am bientais são m u ito im p o rta n te s n a


d eterm in a ção e m o d ificação de co m p o rtam en to s.
2) As in tervenções só cio-com unitârias (intervenções o rie n ­
ta d a s p a ra o sistem a em co n tra ste com Intervenções o rien tad as p a ra
as pessoas) podem ser eficientes ta n to p a r a to rn a r as instituições
sociais (p o r exem plo, a fam ília, a escola) m ais saudáveis q u a n to
p a ra re d u z ir o sofrim ento individual.
3) E ssas intervenções deveriam v isar m ais a prevenção d o que
o tra ta m e n to ou a re a b ilita ç ã o de deso rd en s em ocionais. N ão só a
pessoa necessitad a m a s ta m b é m a popu lação -em -risco é a g en u ín a
p reo c u p a ç ã o d a P sicologia d a C om unidade.
4) E ssas in tervenções deveriam te r com o objetivo a m elhoria
da com p etên cia social, m ais do qu e a sim ples red u ção do sofrim ento
psicológico. P ro g ram as o rien tad o s p a ra o co m u n itário deveriam
a c e n tu a r m ais o q u e é a d ap tativ o do que o patológico n a vida social.

(3) Ver Rodrigues, Aroldo e Schneider, Eliezer, in Arquivos Brasüeiros


de Psicologia Aplicada, vol. 30, nf 4,1978, 3-25.
(4) Ver Lane, Silvia T. M., in Educação e Sociedade, n? 6, 1980.
(5) Op. d t , pp. 474-475.
206 ALBERTO A.BIB ANDERY

5) A a ju d a é m ais eficaz q u a n d o o b tid a n a pro x im id ad e dos


a m b ien te s em qu e os p ro b le m a s a p are cem . P o rta n to , os clínicos da
c o m u n id ad e deveriam tr a b a lh a r em am b ien tes fam iliares próxim os
d as pessoas necessitad as, antes qu e em locais social e geografi­
c a m e n te a fasta d o s delas.
6) As clínicas da c o m u n id ad e deveriam ir ao enco n tro dos
clientes, an tes qu e fica r passivam ente à e s p e ra de q u e eles o
p ro c u re m p ro fissio n alm en te . S ua a tu a ç ã o profissional deveria ser
flexível, facilm ente acessível no local e te m p o on d e a necessidade
su rg e e oferecida n u m a atm osfera que re d u z a , ao invés de
a u m e n ta r, a d istâ n cia social e n tre o p ro fissio n al e a pessoa aju d a d a .
A a ju d a deveria ser acessível àqueles qu e d e la necessitam e não só
aos q u e a p ro c u ram .
7) A fim de e m p re g a r recursos de fácil acesso e a u m e n ta r seu
ím p e to potencial, o p rofissional deveria c o la b o ra r com os recursos
h u m a n o s d a co m u n id ad e (responsáveis locais) e em p re g ar tra b a ­
lh a d o re s associados não-profissionais. O tra b a lh o do profissional
po d e envolver m ais co n su lto ria do que a te n d im e n to direto.
8) E xigências do p a p e l trad icio n a l e n o rm as costum eiras
pro fissio n ais devem ser a b ra n d a d a s . Ó exercício d a profissão n a
co m u n id a d e exige u m a p ro g ra m a ç ã o im ag in o sa e novos m odelos
co n ceitu ais; as inovações devem ser e stim u la d a s.
9) A c o m u n id ad e d e fe ria , se n ã o c o n tro la r, ao m enos p a rti­
c ip a r do desenvolvim ento e execução dos p ro g ra m a s form ulados,
lev an d o em conta as necessidades e p reo cu p a çõ es dos m em bros d a
c o m u n id ad e.
10) P ro b lem as de saú d e m en tal dev eriam ser en carad o s de
m a n e ira m ais a b ra n g e n te d o que re strita , desde que eles se e n tre ­
la ç a m com m u ita s o u tra s fa c e ta s d o b e m -e sta r social ta is com o o
em p re g o , h a b ita ç ã o e ed u c a ç ã o . P a ra o b te r eficiência m áxim a, os
p ro g ra m a s de saú d e m e n tal d a co m u n id ad e deveriam o cupar-se com
u m a faix a de p ro b lem as sociais a m ais a m p la possível.
11) A e d u ca ção do p u b lico p a r a co m p re en d e r a n a tu re z a e as
c a u sa s dos p ro b lem as psicossociais e os recursos disponíveis p a ra se
lid ar com esses p ro b lem as é u m a ta re fa valiosa.
12) D esde qu e m u ito s p ro b lem as de saú d e m en tal relacio-
n a m -se com um a a m p la faixa de c a rê n cias sociais, tais como
pobreza» racism o , d e n sid a d e u rb a n a e alien ação , carências essas
qu e e stão fora do alcan ce das intervenções dos profissionais, o
psicólogo da co m u n id ad e d ev eria ser o rie n ta d o p a r a a prom oção e
facilitação d as refo rm a s sociais.
A PRÄX1S D O PSICÓLOGO

13) P ara desenvolver o conhecim en to necessário p a r a u m a


in tervenção com o ad e q u a d o conhecim ento de cau sa, a P sicologia d a
C o m u n id a d e re q u e r a co n trib u içã o das ab o rd ag e n s e p esq u isas ao
n a tu ra l e ecológicas1'.

E ssas características d a P sicologia n a C om unidade m o stra m


que essa práx is se a fa sta tias suas p esq u isas e intervenções do assim
dito n eu tralism o do cien tista e p rofissional em Psicologia.
E sse p o stu la d o de n eu tralism o j á tin h a sido d e rro ta d o pela
c o n statação de que a ciência, e n q u a n to construção h istó rica e
social, nào é n e u tra nas suas m otivações nem n a escolha d e seu
o bjeto de estudo. N ão é n e u tra n as su a s alian ças com as (orças
econôm icas e p olíticas a tu a n te s n a S ociedade.
A P sicologia n a C om unidade p re te n d e aproxim ar-se das
classes po p u lares, aju d a n d o -a s na co n scientização de su a id e n tid ad e
psicossocial de classes subm issas e d o m in a d a s, com o p rim eiro
passo p a ra u m a su p eração dessa d e g ra d a n te situação de subm issão.
S urgindo n u m a época em que a in terd iscip lin arid ad e das
ciências sociais e h u m a n a s é valorizada, em qu e o labor ed ucativo é
tido com o p rim o rd ia l n a atu ação social, a Psicologia na C o m u ­
n id a d e p ro c u ra d ifu n d ir-se através d o tra b a lh o do psicólogo e de
o u tro s profissionais envolvidos com tra b a lh o educativo e social.
V aloriza o tra b a lh o educativo co n scie n tiz ad o r e reconhece,
pio neiros e m estres, au to res qu e não são profissionalm ente Psicó­
logos. Nesse rol, inclui-se n ecessariam ente P aulo F reire, u m dos
b rasileiros que d e stac o u n a Psicologia a m etodologia da a lfa b e ti­
z a ç ã o d as m assas. O m étodo Paulo F r e ir e 6 não é só um a técnica
p edag ó g ica de alfa b etização , m as c o n stitu i-se num m odelo de
tra b a lh o de ap ro x im ação às classes p o p u la re s. M o stra p a ra o psicó­
logo o qu e se po d e fa z e r em prol d a conscientização e d a redes-
c o b e rta do valor d o s indivíduos subm etidos a processos seculares de
d o m in ação e alien ad o s de su a p ró p ria c u ltu ra . A rticula as forças
vivas de resistência, de reação , crescim ento e libertação dos g ru p o s
sociais po p u lares.
A Psicologia n a C om unidade d ev erá assim colocar os recursos
d a P sicologia em p ro l do processo de lib e rta ç ã o . C abe à Psicologia
n a C om unidade tr a b a lh a r nos in divíduos e grupos a visão de
m u n d o , a au to p ercep çâo en q u a n to pessoas e grupos; reavaliar

{61 Ver BrandSo, Carlos R., O que é M étodo Pauto Freire, td .


Brasíliense, 1981.
208 A LBERTO AB1B ANDERY

h á b ito s, atitudes» valores e p rá tic a s individuais e coletivas, fam ilia­


res e g ru p a is, no sentido de u m a consciência m ais p le n a de classes e
de destino.
P a r a a Psicologia n a C om unidade, o im p u lso de sair dos
con su ltó rio s e das gerên cias das e m p re sa s e ir p a ra os b airro s
p o p u la re s, e sua opção m a io r p o r indivíduos e gru p o s das classes
p o p u la re s, ao invés d a clien tela tra d ic io n a l d a classe m éd ia alta,
sig nificam re d ire cio n ar as p esq u isas, desco b rir novas técnicas de
atuaç& o e a té reescrever, a p a r ti r do o b servado e vivido, m u ita s das
teo rias psicológicas. Nesse sentido, a P sicologia n a C om unidade
p o d e vir a ser u m a no v a m a n eira de fazer Psicologia que,
d ia leticam en te, n ega seu p a ssa d o p a r a reco n stru ir-se, aproveitando
elem entos desse p assa d o e do p resen te p a ra co n stitu ir-se n u m a
p rà x is e n u m a nova ciência psicológica, v erd ad e iram e n te, Psicologia
Social.

Visões divergentes

E ssa visão social e d ia lética da P sicologia na C o m u n id ad e não


é u n a n im e m e n te p a rtilh a d a p o r to d o s os que atu a lm e n te a ela se
d ed icam .
H á os que visualizam ap en as u m a a tu a ç ã o , na com unidade,
benev o len te e caritativ a, n a s h o ras vagas, e m p ro l das classes
desvalidas, qu e são c o n sid e ra d a s e c h a m a d a s de “ classes m ais
b a ix a s ” .
A Psicologia seria aplicada» nos b a irro s e in stâ n cias p o p u la ­
res, com m a io r in te n sid a d e e freq ü ên cia do que, até hoje, os
psicólogos o fazem , m as, n u m a p rá tic a assu m id a , explicitam ente,
com o rem e d iativ a e su p erficial. N ão h á n essa visão de Psicologia n a
C o m u n id a d e n e n h u m q u e stio n a m e n to d a Psicologia em si m esm a,
de su a s alian ças h istó ricas, d e seus co n stru cto s e teo rias já p rontos.
N ão se p en sa em inovações técnicas nem se a d m ite m novas visões
teó ricas. M uito m enos reav aliam -se alian ças j á feitas com as classes
d o m in an tes.
O exem plo aca b ad o d e ssa visão é a te n ta tiv a de reprodução
d as clínicas psicológicas n o s b airro s p o p u la re s, sem alterações dos
pro ced im en to s e ro tin as co n so lid ad as n as clinicas trad icio n ais de
a te n d im e n to à b u rg u esia. S im plificam -se os m óveis, elaboram -se
orçam entos de despesa e re c e ita m ais m odestos m as n a d a se a lte ra
A PRÁXIS D O PSICÓLOGO 209

do qu e se entende ser: a relação te ra p eu ta-c lien te, técnicas de


a te n d im e n to já p ro n ta s, p a râ m e tro s de ju lg a m e n to e de diagnóstico.
E ssa visão de P sicologia n a C o m u n id a d e m ereceria m ais o
títu lo de Psicologia P o p u lista e a ssisten ciaü sta e n a d a in flu irá nas
m u d a n ç a s sociais e n a e s tru tu ra de re la cio n am en to a tu a l das classes
sociais. P ode até re ta r d a r m ais u m pouco q u a lq u e r m u d a n ça dessa
n a tu r e z a /
O u tra visão de Psicologia n a C o m u n id a d e , perniciosa aos
m eios p o p u la re s, é a q u e la que p re te n d e ria fo rm ar psicólogos
inseridos nos b a irro s e instituições p o p u la re s n a q u alid a d e de
c o n tro lad o res m orais dos h áb ito s e c o m p o rtam e n to s desviantes.
P ensou-se até em fo rm a r psicólogos n a C o m u n id a d e p a ra controle
social dos toxicôm anos, crim inosos e d em ais desvios estigm atizados
pelos códigos m orais vigentes, incluindo-se aí hom ossexuais, desem ­
p reg ad o s e m enores a b a n d o n a d o s. O psicólogo seria u m a extensão,
no b a irro , do b ra ç o policial e, sem a rm a s, u sa ria as arm a s das
técn icas psicológicas de controle e rep ressão . Nem todas as
p ro p o sta s nesse seu tid o obedecem rig id am en te ao exposto acim a e
h á m atizes de proposição.
P arece qu e n ã o h á m u ito qu e d isc u tir sobre u m a p ro p o sta
assim direcio n ad a, red u zin d o a função social do psicólogo e de
o u tro s profissionais da á re a de h u m a n a s a m eros guardiães da
o rdem in stitu íd a , sem n e n h u m q u e stio n a m e n to dos fatores sociais
que levam aos assim ch am ad o s c o m p o rtam e n to s desviantes.
U m a terceira visão a p o n ta ria p a r a u m ativism o político-
p a rtid á rio , nos b a irro s p o p u la re s, sob o nom e de Psicologia na
C o m u n id ad e.
A o invés de profissionais p reo c u p a d o s com o crescim ento das
p rá tic a s educativas e de conscientização e libertação, os ativistas
p a rtid á rio s p o d eria m , sob o m a n to d a Psicologia, im por seus
p a rtid o s políticos e re c ru ta r seus g rupos ou tendências de apoio
p a rtid á rio .
U m a p ro p o sta assim pode ser c a ta lo g a d a , sem m ais, de
m aquiavelism o da p io r espécie, não servindo, nem aos id e ais d a
P sicologia n a C o m u n id ad e, nem ao desenvolvim ento de um a v erd a­
deira P olítica P o p u la r de su p eração d as raízes de do m in ação
c u ltu ra l, social e econôm ica a que as classes pop u lares estão
s u b m etid as. Só, com o j á foi dito , um tra b a lh o educativo e conscien-
tiz a d o r, a longo p ra z o , po d e levar essa p o p u lação , p o r p ró p ria
iniciativa, a tra ç a r p a r a si os cam inhos de lib ertação .
210 ALBERTO ABIB AN DE RY

A im p o rtâ n c ia d a sinalização, aq u i, dessa te rc eira visão de


Psicologia n a C om unidade resid e no fa to que, infelizm ente, é assim
que são vistos, às vezes, to d o s os profissionais, in d isc rim in ad a­
m e n te , que se e m p en h am n e ssa práx is social que é a Psicologia n a
C o m u n id ad e.
E m b o ra a m a io ria a b so lu ta desses profissionais, envolvidos
seria m e n te com a im p la n ta ç ã o d a P sicologia n a C om unidade,
co n d en e m essa visão m aq u iav élica, m u ita s vezes a ca b am sendo
ac u sa d o s com o agentes de&sas m esm as p rá tic a s o p o rtu n istas p o r
aq u eles que a in d a se m o stra m in c ap azes de en ten d er q u al é
v erd a d e ira m e n te a p ro p o sta d a Psicologia na C o m u n id ad e.

Experiências em psicologia na comunidade

A A ssociação B rasileira de P sicologia Social — A B R A PSO


o rg an iz o u em 1981, em S ão P au lo , u m E n c o n tro R egional p a ra
d e b a te r as experiências em curso, em nosso m eio, sobre Psicologia
n a C o m u n id a d e .7
D iversos p ro fissio n ais — assistentes sociais, educadores,
m édicos, sociólogos e p rin c ip a lm e n te psicólogos — re la ta ra m ,
nesse en co n tro , ex p eriên cias, em an d a m e n to , de p esq u isa e atu a ç ã o
em b a irro s e em instituições p opulares.
O u tra s publicações b ra sile ira s ressaltam a existência de expe­
riên c ias de P sicologia n a C o m u n id ad e em o u tro s países d a A m érica
L a tin a que, p o r sem elh an ça às nossas condições históricas, políticas
e sociais, m ais se a p ro x im am das ex p eriên cias b ra sile ira s.8
E ste breve re la to m o s tra as direções que te m to m ado essas
ex p eriên cias que po d em ser resu m id as n as categorias gerais
d e scritas a seguir.

(7) Ver Anais de /.° Encontro Regional de Psicoíogia na Comunidade,


São Paulo, 1981 ímimeoda ABRAPSOÍ. Endereço para corresp.: Rua Ministro
Godoy, 1029,3.°, s. 326; CEP06015, S3o Paulo, SP.
(8) Cadernos PU C n? 1T — P&fóòiogia, "Rôtlexôos sobro a Prâlica da
Psicologia", Ed. Cortez/EDUC, 1981.
Na Argentina, nos anos 60-70, vários autores destacaram-se, nessa
prâxisf publicando vários livros, como Bleger, J., Psicohigiene y Psicologia
institucional{vw cap. 3, "El Psicólogo en la comunidad"), Buenos Aires, Ed.
Paidos,
A PRÀXIS DO PSICÓLOGO 211

Experiências n a área d a saúde m ental da população

A lguns psicólogos e o utros p rofissionais detiveram -se na


q u estão d a saúde m e n ta l da po p u lação d a p e rife ria das g ran d es
cidades.
É nesse segm ento p o pulacional q u e se con statam graves
fato res de desgaste o u stress em ocional ligados a péssim as condições
de h a b ita ç ã o , alim entação, em prego e salários.
Ê ai na p e rife ria qu e p ro cu ram um teto as correntes
m ig ra tó ria s que vêm d o cam p o p a ra a c id ad e, p erdendo suas raízes
cu ltu rais p ró p ria s e im p ed id as de c ria r novas raízes, devido ao
fenôm eno de turrj-over ou p o u ca p e rm a n ê n c ia de c o n tra to de
tra b a lh o n as em presas, com ércio e serviços n a cidade. M al se
estabelecem num b a irro são obrigadas* p o r razões de desem prego,
a p ro c u ra r outro lo cal de residência, n a m aioria das vezes em
favelas, q u a n d o a situ a ção econôm ica fica quase insuportável.
N os hospitais p siq u iá trico s dessas cid ad e s, os leitos são m ais
freq ü e n te m e n te ocu p ad o s por pessoas q u e, m o ran d o em b airro s
p o p u la re s, estão sujeitas ao desgaste em ocional e não têm , antes d a
crise, acesso aos recursos do aten d im en to psicológico.
A Psicologia n a C om unidade tem tra b a lh o , face a esse
p ro b le m a d a saúde m e n ta l d a poputação-em -risco, em dois catnpos
d istintos: de um lado, h á, desde os anos 70, a te n tativ a de criação de
C en tro s C o m unitários de S aú d e M ental nos b airro s de p eriferia.
Nesses cen tro s a q u estão de saúde m e n ta l é d iscu tid a e tra b a lh a d a
ju n to a essa p o pulação.
As experiências em geral são feitas p o r equipes m ultidis-
cip lin ares e têm o scilado entre um a te n d im e n to convencional a
indivíduos com q ueixas de teor em ocional e trab alh o s educativos
sobre saú d e m ental ju n to a país, fam ílias, escolas e associações
locais de m oradores ou associações religiosas presentes no bairro.
O u tra atuação nessa á re a tem sido a lu ta pela presença de
p rofissionais d a área psicossocial em C e n tro s ou Postos de S aúde,
geridos pelo Governo do E sta d o ou do M unicíp io , fazendo eq u ip e
com os m édicos e en ferm eiras dessas u n id a d e s. Esse aten d im e n to
psicossocial tem v aria d o ta m b é m co n fo rm e a m entalidade real
dessas equipes m u ltidisciplinares e os tip o s de ordens qu e são
e m a n a d a s das chefias superiores, a in d a hoje, quase que exclusi­
vam ente, em m ãos de p siq u ia tra s. N em sem p re essas chefias estão
a fin a d a s com os ventos novos que so p ram n a su a área, e as
212 ALB ER TO ABIB ANDERY

p ro p o sta s de p siq u ia tria n a co m u n id ad e e alte rn a tiv a , em nosso


m eio, são ain d a m ais lite ra tu ra do qu e p rá tic a u s u a l.9
U m a das deficiências nessas ex p eriên cias em curso, nos
C en tro s Públicos de S aúde, é o pouco tem po de d u ra ç ã o dessa nova
p rá tic a e a co n tra ta ç ã o de profissionais não a in d a fam iliarizados
com as p ro p o stas de u m a Psicologia e u m a P siq u ia tria n a C om u­
n id a d e . Sem um p re p a ro acadêm ico a n te rio r a d eq u a d o , alguns
desses profissionais a c a b a m convertendo-se, nesses C entros de
S aú d e voltados à S aú d e M e n ta l d a P o p u lação , e m rep etid o res de
u m a p rá x is psicológica in a d e q u a d a e tra d ic io n a l. Esse fracasso só
vem a refo rçar a lin h a p siq u iá tric a trad icio n al, q u e propõe, p a ra os
assim ch am ad o s d oentes m e n tais, um tra ta m e n to ap en as m edica­
m en to so e de in tern ação , n o s velhos h o sp ita is p siq u iátrico s, m ais
voltados p a ra o lu c ro do q u e p a ra u m a política de saúde m en tal d a
p o p u la ção .
A c o n tra ta ç ã o de u m n ú m e ro g ra n d e de profissionais p a ra
a tu a re m nesses C entros de S a ú d e é u m a d as b a n d e ira s de lu ta hoje
dos psicólogos e de seus ó rg ão s de re p re se n ta ç ão de classe: o sindi­
ca to e o Conselho R egional de Psicologia, com o o é a exigência de
um p re p a ro acadêm ico m a ií refinado p a r a co n d u çã o d a p rá x is de
P sicologia n a C o m u n id ad e nesses C en tro s e Postos de Saúde
P ú b licos.
E ssa c o n tra ta ç ã o não s ó responde aos interesses da população
dos b a irro s com o ta m b é m é u m a solução p a ra o p ro b le m a de
su ste n ta ç ã o econôm ica desses profissionais da á re a psicossocial
d ed icad o s à saú d e m e n tal d a s classes p o p u lares.
F ic a po rtan to , claro que essa lin h a de a tu a ç ã o só p o d erá
desenvolver-se em nosso m eio se os c o n teú d o s d as disciplinas
psicológicas e p siq u iá tric a s em nossas facu ld ad es u niversitárias
p re p a ra re m os alu n o s atra v és d a discussão a p ro fu n d a d a dos fatores
sociais que a tu a m efetivam ente nos p ro b lem as de saúde e doença
m e n ta l d a po p u lação . Ê preciso ain d a, nesses cu rso s, a ap resen tação
de u m novo m odelo de a tu a ç ã o profissional, qu e se co adune com os
p rin cíp io s e objetivos d a Psicologia n a C o m u n id ad e. E sse m odelo
deve s u b stitu ir a m e ra m e d icalização a b ase de rem édios quim io-
te rá p ic o s ou in tern a ç ã o h o sp ita la r. U rge o desenvolvim ento de
ativ id ad e s psicossociais e ed u cativ as qu e levem à m odificação das

(9) Ver Caplan, Gerard B., Princípios de Psiquiatria Preventiva, Ed.


2ahar, 1980. Ver também Serrano, Alan 1., Psiquiatria Alternativa, Ed.
Brasiliense, 1981.
A PRÁXIS D O PSICOLOGO 213

situações am b ie n ta is e pessoais, g e ra d o ra s de desgaste e stress


nervoso e em ocional.

Experiências em grupos de m ulheres e de Jovens nos bairros

O s bairros d as g ra n d e s cidades tê m p o u c a vivência co m u ­


n itá ria . N a m aioria, são b airro s m e ra m e n te residenciais, bairros-
d o rm itó rio em que os tra b a lh a d o re s a p e n a s p ern o itam , p a ssa n d o a
m a io r p a rte de seu te m p o de vigília fo ra deles, na condução e n a
em presa.
Às exceções e essa reg ra constituem -se no g ra n d e contin g en te
de m ulheres, que se o b rig a m a p e rm an ecer em suas casas, en treg u es
às tarefas de cu id a d o dos filhos m enores e do la r, e n q u a n to o
c o m p an h eiro ou m a rid o e filhos m aiores en tre g am -se ao tra b a lh o
a ssalariad o n a s em p re sa s. M esm o as m u lh eres, qu e devem s u p o rta r
a dup la jo rn a d a de tra b a lh o : n a e m p re sa e no lar, são m ais
facilm en te contactáveis através do b airro , em qu e residem , do que
os hom ens com que-convivem .
São algum as dessas m ulheres que se o rg a n iz a m , em pequenos
gru p o s de convivência co m u n itária, em fo rm a de clubes de m ães,
associações de p ais e m estres e grupos d e ap ren d izad o de artes
dom ésticas, ou a in d a , n as reuniões religioso-com unitárias das
igrejas dos bairros.
Ig u alm en te os adolescentes e jovens do b airro perm anecem ,
m ais freq ü en tem en te, d u ra n te o dia, n ele, devido ao crescente
d esem prego e falta de o p o rtu n id a d e de estudo, que afligem
p rin c ip a lm e n te essa fa ix a d a população.
A lguns desses adolescentes e jovens associam -sç em peq u en o s
g ru p o s de q u a rte irã o , de ru a, de e sp o rtes ou de igreja. São
associações inform ais e de c u rta d u ra ç ã o , n a m aioria das vezes.
As experiências, em Psicologia n a C o m u n id ad e, têm p riv i­
legiado ta m b ém a ap ro x im ação a esses g ru p o s de m ulheres e de
adolescentes e jovens p a ra tro ca r co n h ecim en to s sobre assu n to s e
p ro b lem as os m ais variad o s, com o, p o r exem plo, educação dos
filhos, relações afetivas dos jovens e dos c asais, problem as ligados à
p rá tic a sexual, questões qu e envolvem o fu tu ro profissional, etc. São
te m as qu e se d em o n stram ex trem am en te ú teis p a ra fins de u m a
práx is d a Psicologia n a C om unidade.
N ão h á só discussões, a nível verbal, m a s m ontagens coletivas
de peças te atrais, que expressam o co tid ian o d a vida e as pro p o stas
214 ALBERTO ABIB ANDERY

tra n sfo rm a d o ra s desses g ru p o s. T écnicas de d in â m ic a de grupo,


p sic o d ra m a , expressão c o rp o ral, sensibilização, desenvolvim ento
o rg an iz acio n a l têm sido te sta d o s e tra n sfo rm a d o s, nas experiências
a n a lisa d a s até agora.
É ta m b é m nesses g ru p o s que se po d e le v a r u m tra b a lh o de
co n scien tização d as condições adversas do b a irro , com o fa lta de
esg o to , de água potável, de lu z , de creches ou escolas, de postos de
saú d e, etc. T a m b é m se a n alisam as péssim as condições de
convivência e Fazer e são en saia d as novas atividades lúdicas e
educativas.
C om o conseqüência dessas p rá tic a s de aco m p an h am en to
desses grupos, houve u m acréscim o, n a to m a d a de consciência
dessas m ulheres e jovens so“bre os p ro b lem as sociais, p resen tes no
b a irro , e com o afetam a sa ú d e física e m e n ta l d a população. E ssa
co n scien tização levou a ações organizativas e reiv in d icató rias, de
in iciativ a desses grupos, o b te n d o resu ltad o s que m a rc a m o início de
s u p e ra ç ã o desses p ro b le m a s sociais. A p o p u la ç ã o quase qu e te sta
suas p ró p ria s forças e d esco b re, su rp resa , q u e elas são m ais
p o d e ro sa s do que im ag in av a m num p rim eiro te m p o .
U m p eq u en o exem plo nesse sentido é a lu ta p o r creches que,
q u a n d o conseguidas no b a irro , a p a rtir de u m a to m a d a de cons­
ciên cia e um a co n q u ista ju n to ao p o d e r p ú b lico , po d em ben eficiar as
m u lh e re s e as c ria n ças do b a irro e a ca b am co n so lid an d o um local a
m ais de ed u cação e a p ren d izag em de h á b ito s im p o rta n te s p a ra a
saú d e m e n tal dessa p o p u la ç ã o .
É a q u i que se situ a ta m b é m u m p ó lo de te n são e n tre a p o stu ra
e visão política dos profissionais e a dos h a b ita n te s dos b a irro s. O
resp e ito aos interesses, valores, forças e opções d essa p o p u la ção é
um im p erativ o de um tra b a lh o em Psicologia na C om unidade.
C a m in h a r com a p o p u la ção -e não se so b re p o r im p o sitivam ente a ela
ou d o m in á -la p o liticam en te é u m a das exigências p a ra u m a co rreta
a tu a ç ã o .

E xperiências em Instituições populares

N u m a co m u n id ad e p o p u la r, h á p o r vezes clubes cu ltu rais e


recreativ o s, cen tro s de vivência de c ria n ças e jo vens, associações
ju ríd ic a s de m o rad o re s, associações religiosas» n as igrejas, que
p o d em beneficiar-se da p re se n ç a de p rofissionais interessados em
A PRÀXIS D O PSICÓLOGO III

a ju d a r essas instituições através de m a n u se io de con h ed m en to i t


técnicas psicológicas, que visam o desenvolvim ento das pessoas e
g ru p o s, atingidos p o r essas e n tid ad es p o p u la re s.
O s aspectos in stitu cio n ais, o rg an iz acio n a is e de relações
h u m a n a s dessas instituições podem ser objeto de diagnóstico e
in terv en ção de pessoas com petentes. E ssa s pessoas podem s e r os
pró p rio s m o rad o res e freq ü en tad o res dessas instituições, u n ia vçz
que te n h a m sido trein a d o s e p re p a ra d o s p a ra um a intervenção
eficaz.
H á a in d a nessas organizações p o p u la re s a necessidade de
a m p lia r seus h o rizo n tes p a ra o utros p ro b le m a s sociais, c u ltu ra is ou
políticos que, via de re g ra , escapam à sua percep ção .
A tividades c u ltu ra is, film es, d e b a te s, visitas podem in te g ra r
nesse caso o rol de atividades ligadas à p rá tic a da Psicologia na
C o m u n id ad e. A fin alid ad e dessa atu ação é a b rir as perspectivas, a
co m p reen são e a c a p a c id a d e d a p ró p ria p o p u la ç ã o de lid ar satisfa­
to riam e n te com os p ro b lem as de q u a lid a d e de vida do b a irro .
A im p o rtâ n c ia d as experiências e m instituições p o p u lares
reside a in d a n a po ssib ilid ad e de se c o n fig u ra r o u tra in stâ n cia
ju ríd ic a — as instituições pop u lares — q u e po d erão c o n tra ta r, do
m esm o m odo qu e o P o d e r público, nos ce n tro s de saúde e escolas do
E sta d o , os serviços dos profissionais v oltados à Psicologia n a
C o m u n id ad e, re sp o n d en d o assim à q u e stã o an g u stian te qu e se
fazem esses profissionais: qu em pode re m u n e ra r tais tra b a lh o s
com u n itário s?
Ê verdade que no B rasil a in d a não se criou u m a consciência
co m u m , nessas instituições, d a o p o rtu n id a d e e da im p o rtân cia
desses serviços ligados à P sicologia n a C o m u n id ad e.
Só a inten sificação dessa atu ação , ju n to âs instituições p o p u ­
lares, po d e c ria r essa consciência co m u m e c ria r pad rõ es de
c o n tra to e re m u n e ração satisfatórios p a r a am b as as p arte s, exi­
m indo os indivíduos p o b res do b a irro de a r c a r com essa obrigação
de su ste n ta ç ã o c o n d ig n a desses tra b a lh a d o re s sociais.
A q u i se situ am os sindicatos dos tra b a lh a d o re s. A lguns deles
têm vigorosa expressão econôm ica, g raça s às contribuições o b ri­
g ató ria s qu e a rre c a d a m d a categoria. A v e rb a am e a lh a d a é g a sta
m u ita s vezes em serviços m eram en te assistenciais e recreativos sem
u m a p ro g ram a ção sim u ltâ n e a que leve à e d u ca ção e à conscien­
tizaçã o dos tra b a lh a d o re s sócios e suas fam ílias, residentes nos
b a irro s d a periferia.
216 ALBERTO AB1B ANDERY

A lu ta p ela cria ção d e u m a Psicologia n a C o m u n id ad e p assa


e n tã o p o r um a lu ta p a ra le la de reco n stru ç ão c o n tin u a do m ovim ento
sindical.
No B rasil, as distorções desse m ovim ento são an tig as e
e s tru tu ra is , e cabe a p o iar os m ovim entos o p erário s e dos dem ais
tra b a lh a d o re s, que p ro c u ra m d a r aos seus sindicatos, reco n q u is­
ta d o s através das afeições, u m a nova legislação e u m a nova p rá tic a
qu e alterem os vícios h e rd a d o s dos regim es au to ritá rio s do p assad o .
H á experiências em o u tro s países so b re p ro g ra m a s form ativos
p a tro c in a d o s p o r sin d ic ato s de tra b a lh a d o re s qu e se co ad u n am
p erfe ita m e n te com os pro p ó sito s d a P sicologia n a C o m u n id ad e,10

Experiências nas escola* de 1? g rau d a rede pública

Nos b airro s p o p u la re s, a escola de 1? g rau é quase sem pre


u m a d as poucas in stitu iç õ es pú b licas, aí p re se n te s, no co tid ian o d a
vida d as pessoas.
A p o p u la ção qu e fre q ü e n ta essas escolas são c ria n ças e
ad o lescentes, vivendo em fam ílias com en o rm es p ro b lem as de
sobrevivência, onde a c u ltu ra fam iliar tra d ic io n a l entrou em crise e
não p ô d e m ais reco n stru ir-se. Pai e m ãe m u ita s vezes vivem quase
au se n te s do lar, pelo dev er de g a n h a r o salário , sem o q u al as
c ria n ç a s não podem seq u er a lim en tar-se.
E ssas crianças são su b m etid as pelos m eios de com unicação
social e de p ro p a g a n d a a u m b o m b ard e io de anúncios que nelas
d e sp e rta m sonhos inalcançãveis e ta m b é m c o m p o rtam e n to s reativos
de revolta e destruição. S ão am eaçad a s pelo desejo de lu cros do
com ércio de tóxicos e das revistas de baixo nível c u ltu ral e p o rn o ­
gráficas.
A essas crianças e adolescentes, a e d u ca ção fam iliar e escolar
p ro p õ e m u ita s vezes um fu tu ro de aspirações profissionais am b íg u as
e inatingíveis: sonha-se com as m elhores c a rre ira s da sociedade,
q u a n d o a d u ra realid ad e reserv a, de fato , a elas, os últim os ofícios
d a cid ad e.
N essas escolas, os d ireto res e professores são, via de regra,
re c ru ta d o s de m a n eira a m ais b u ro c rá tic a e im pessoal possível,

0 0 } Ver Freire, Peulo e t afíi, Vivendo e Aprendendo (cap. 2?,


especialmente), Ed. Brasiliense, 1980.
A. PRÂXIS D O PSICÓLOGO 217

através de com plicados concursos de p ro m o ç ã o e rem oção, que


criam , freq ü en tem en te, n as escolas, u m a m o b ilid a d e p e rm a n e n te de
pessoal.
O s m estres n e m sem pre c a p ta m as condições reais de
ex istên cia dessas c ria n ç a s e de suas fam ílias, p o r provirem de o u tro s
e stra to s d a p o p u la ção u rb a n a , m elhor aq u in h o ad o s do q u e a
p o p u la ç ã o d a p e rife ria, À rede oficial de e n sin o , com suas exigências
de u n ifo rm id ad e de p ro ced im en to s did ático s, d esestim ula os p ro fes­
sores de p la n e ja r co n teú d o s e p rá tic a s re a lm e n te educativas p a ra
essa p o p u la ç ã o in fa n til e adolescente.
C ria-se assim u m im passe entre os objetivos id eais d a escola e
a p rá tic a de ensino.
A p resen ça d a P sicologia na C o m u n id a d e , nessas c irc u n s­
tâ n c ia s, é de ex tre m a necessidade, não p a r a se o cu p a r com u m a
fu n ção b u ro c rá tic a de d istrib u ição de ta re fa s d id áticas, j á p ro n tas,
m as p a ra c a p ta r e e x p licitar o descom passo de am b as as p arte s q u e
comp&em o cenário escolar: necessidades reais dos alunos e p rá tic a
re a l do processo in stru c io n al e educativo.
A lgum as experiências, em nosso m eio, estão sendo feitas p a ra
\evar a in stitu iç ão escolar a u m tra b a lh o educativo eficaz face às
necessidades e carên cias c o n statad as dos e d u c a n d o s desses bairro s.
A lgum as d as ativ id ad e s que, a tu a lm e n te , os profissionais,
ligados à Psicologia n a C o m u n id ad e, estão te n ta n d o desenvolver nas
escolas da periferia podem ser assim resu m id as: p resença ativa nas
reuniões de p ais e m estres; visitas dom iciliares e reuniões específicas
com m ã es de alunos, p a ra co m p reen d er m e lh o r a c u ltu ra fa m iliar e
p ro b lem as sociais, q u e in terferem n a a p ren d izag em das crianças;
diagnóstico do b a irro e d as c a ra cterísticas psicossociais da p o p u ­
lação, a fim de que d ireto res e professores d a escola possam a d a p ta r
os conteúdos e p ro ced im en to s pedagógicos às necessidades da
p o p u la ç ã o escolar; tra b a lh o s nos h o rá rio s extra-escolares com
g ru p o s de adolescentes, utilizan d o o esp aço d a p ró p ria escola de
b a irro , p a ra a o rg an iz ação co operatívística de estudo, le itu ra e
lazer; exercícios de ex p ressão co rporal e p sico m o tricid ad e com as
c ria n ças e tre in a m e n to de professores e a g en tes da co m u n id ad e,
p a ra lid a r com p ro b lem as de apren d izag em e saúde d as c ria n ças e
jovens do b airro .
A dificuldade p a r a o avanço desses tra b a lh o s profissionais está
na rigidez das direções locais e regionais d a E d u ca ção P ública, q u e
via de reg ra são a in d a m u ito reticentes q u a n to a propostas de
tra b a lh o com o essas.
218 A LBERTO ABIB ANDERY

Não é p o r acaso qu e o n ú m e ro de psicólogos n a rede escolar de


en sin o é m u ito p eq u en o , e infelizm ente a m a io ria dos psicólogos e
dem ais profissionais d a á re a psicossocial n ã o está p re p a ra d a p a ra os «
desafios dessa lin h a de tra b a lh o .
M as experiências de Psicologia n a C o m u n id a d e em Escolas
P ú b lic a s parecem ser d as m a is im p o rta n te s a serem desenvolvidas,
no B rasil, h o jet p a r a fo rm a r novas gerações m e n o s d oentias social e
psicologicam ente.
£ preciso p o rta n to q u e esses profissionais sejam p rep arad o s
n as suas facu ld ad es p a ra o exercício d essa nova p rá x is d a Psicologia
c o m p ro m e tid a com os d estin o s das c ria n ç a s e adolescentes dos
b a irro s de periferia.

Publicações de pesquisas p articipantes

A ú ltim a áre a de ex p eriên cias a ser re fe rid a neste texto são as


p u b licaçõ es científicas re su lta n te s de u m a p rá x is e u m a sistem a­
tizaçã o teó rica dessas experiências em Psicologia na C om unidade.
P arece que n ã o h á , n o m om ento, u m a re se n h a m ais a c u ra d a
sobre o qu e já se publico u so b re o assunto.
O objetivo destes ú ltim o s p a rá g ra fo s do te x to é m ais o de
e n fa tiz a r a im p o rtâ n c ia d essas atividades cien tíficas p a ra o futuro
d a Psicologia no nosso m e io .11

O a p ren d izad o d a Psicologia n a U niversidade rege-se em


d em a sia p o r textos d id á tic o s de origem ou de in sp ira ç ã o estran g eira.
A q uilo que é observado, p e sq u isad o o u p o stu la d o sobre o hom em ou
a m u lh e r e u ro p eu s ou norte*am ericanos, de classe m édia, to m a-se
co nclusão, sem contestação-, sobre a Psicologia e serve de p a râ m e tro
d e co m p a raç ã o p a r a se a v a lia r psicologicam ente os indivíduos e
g ru p o s sociais do nosso p a ís, sem m aiores reflexões ou pesquisas.
N as facu ld ad es de P sicologia é co m u m desconhecerem -se os
aspectos c u ltu ra is e h istó rico s que m o ld am a Psicologia do nosso
povo„ e om item -se n a fo rm a ç ã o do e stu d a n te de Psicologia os
co n tex to s sócio-econôm icos e cu ltu rais qu e condicionam os com por-

{11J 0 texto que segue é parte de uma comunicação minha, prof.,


originalmente apresentada na 3 4 f Reunião Anual da SBPC, em Campinas,
julho de 1962, dentro de tema mais geral: "trabalhos em Comunidade: Seu
Significado para a Produção de Novos Conhecimentos Científicos" (mimeo).
A PRAXIS D O PSICÓLOGO 219

la m en to s com uns e influem nas c a ra c te rístic a s psicológicas das


pessoas e dos grupos sociais populares.
A p licar, n a á re a profissional, esses p a d rõ e s im portados, sem
m a io r a p ro fu n d a m e n to crítico, pode re s u lta r n u m reforço à visão de
m a rg in a lid a d e que a m a io ria do povo tra b a lh a d o r oferece aos olhos
desavisados do profissional psicológico e dem ais profissionais, de
nível u n iversitário, que e stu d a m esse tipo de Psicologia. D aí p a ra a
ro tu lação de excepcionalidade m en tal e de d oença m ental é um
passo.
P a re c e lógico n ã o se aceitar com o evidentes as conclusões da
ciên cia im p o rta d a — ciên cia p o r q u e im p o r ta d a — e p ro c u ra r
o b serv ar m ais de p e rto , e com um m ín im o de em patia, a p a rti­
c ip ação , o co tid ian o da vida da p o p u la ç ã o tra b a lh a d o ra , no seu
b a irro , n a sua fam ília, n as suas o rg anizações m ais esp o n tân eas e
rep resen tativ as p a ra a m p lia r, co n firm ar o u m odificar o que j á se
sabe sobre a Psicologia.
N âo se pode ac e ita r com o p ro n ta s e definitivas as teorias de
p erso n a lid a d e e de desenvolvim ento e as m edidas e testes psico­
lógicos delas resu ltan tes, co m um ente e n sin ad o s em nossas facul­
dades.
H á m u ito a p e sq u isa r a in d a nesta á re a , a p a rtir das p ecu liari­
dades d a c u ltu ra p o p u la r e dos seus valores, que passam d esp er­
cebidos p e la elite p e n sa n te , que ocupa os espaços universitários do
p aís.
P a ra avançar u m pouco, nesse conhecim en to da Psicologia do
tra b a lh a d o r b rasileiro, é preciso prim eiro e x p lic ita r o viés de classe
m édia qu e in stitu i o m od elo burguês com o p a d rã o de n o rm alid ad e e
ju lg a dcsviante e m a rg in a l a classe tra b a lh a d o ra com o um to do,
reservando-lhe o dilem a de escolher o p a d rã o de desenvolvim ento
psicossocial b urguês, inacessível de fato p a r a a classe tra b a lh a d o ra ,
ou e n tã o resignar-se a o estig m a de classe in ferio r não só socialm ente
com o ta m b ém psicologicam ente.
C a b e às pesquisas em Psicologia n a C o m u n id ad e u m a a p ro ­
x im ação ao co tid ian o do tra b a lh a d o r sem p reconceito, convivendo
u m po u co com ele n o seu b a irro o p erário , n as suas organizações
p o p u la re st p a ra a p re e n d e r su a c u ltu ra e fo rm a de vida, su as
exp ectativ as, lu tas e fracassos e deles p a r tilh a r u m pouco ta m b ém ,
n ão com o qu em já sa b e m as com o q u em q u e r prim eiro ap ren d e r. H á
esp e ra n ç a s assim de e n te n d e r de fo rm a m a is ju s ta a v erd ad e ira
P sicologia do tra b a lh a d o r u rb a n o de n o ssa s p eriferias, sabendo-se
que ta l conhecim en to m o d ificará p rá tic a s profissionais, vigentes na
220 ALBERTO ABIB ANDERY

á rea da seleção de tra b a lh o , de diagnóstico e tra ta m e n to clínico e na


p ro g ra m a ç ã o escolar dos estabelecim entos públicos de ensino de
l? e 2 .° g r a u s .
Nestes poucos anos d e d u ra ç ã o da Psicologia na C om unidade,
as observações a in d a não estão, de form a alg u m a, nem acab ad as
nem m uito m enos sistem atizad as. M as a p erce p ção preconceituosa
a n te rio r já se m odificou e j á se reconhece que h á potencialidades e
valores, que não constam nas p ad ro n izaçõ es de testes e nas teorias
vigentes, m as que d ig n ificam esse lu ta d o r in telig en te e criativo, que
é o tra b a lh a d o r b rasileiro, envolvido n u m a tra m a de sobrevivenríd
e x tre m a m e n te adversa.
P a rtilh a r esse esforço de co m p reen são psicossocial sobre o
tra b a lh a d o r brasileiro, com os e stu d a n te s da U niversidade e futuros
profissionais n a área de h u m a n a s, parece ser u m a das contribuições
das p esq u isas e p u b licaçõ e s, ligadas à Psicologia n a C om unidade,
p a ra m odificações n a sociedade b ra sile ira , no sentido de su a real
d em o cratização e resp eito à c id a d a n ia do brasileiro com um .

DK F/ I V I O T ÊCA

• 'L *
* •
Sobre os Autores
A lb e r to A b ib A n d e ry . P rofe ssor d o D e p a r ta m e n to d e Psicologia
S o cia l d a P U C S P , psicó lo go, e x -d ire to r d o S in d ica to dos
Psicólogos do E s ta d o d e Sao Paulo.
A lfr e d o N a ffa h N e to . Psicólogo , p sic o d ra m a tista , m estre em F ilo ­
so fia pela U SP . d o u to r em Psicologia p ela PU C -SP, p r o fe s ­
sor do cu rso d e p ó s-graduação em P sicologia Clinica.
A n to n io da C osta C ia m pa. M estre e d o u to ra n d o e m Psicologia
S o c ia l p ela P U C -SP , pro fesso r n o se to r d e p ó s -graduação
e m Psicologia S o cia l da PU C-SP.
Ira y C arone. P rofessora d o D e p a rta m e n to d e Filosofia da PU C -SP.
L ecio n a a tu a lm e n te “Lógica d o C o n h e c im e n to C ie n tífic o "
no Program a d e E stu d o s P ós-g ra d u a d o s e m Psicologia S o cia l
da PU C -SP .
José C arlos L ih â n eo . P rofe ssor da U n iversid a d e Federal d e G oiás
e d a U niversid ade Católica de G oiás, m estra n d o em E d u ­
cação da P U C -S P .
José R o b e rto T o z o n i R e is . P rofe ssor d e 'T eo ria s e T écnicas Psico-
te rá p ic a s ” d o In s titu to de L etras, H istó ria e Psicologia de
A s s is , m estre e m Psicologia C linica p e la PU C -SP .
M arília G ouvea d e M ira n d a . P rofessora d a U niversid ade E s ta d u a l de
G oiás , m e stre em E d u ca çã o p ela U niversid ade F ed era l d e
S ã o Carlos.
S ilvia T a tia n a M a u r e r L ane. C o orden ad ora d o C en tro d e C iências
H u tn a n a s da PU C -SP, autora d o livro 0 Q ue é Psicologia
Social, d o u to ra e m Psicologia Social.
W a n d erley Codo. P ro fesso r de Psicologia n a U N E SP 7 d ô u to r em
Psicologia S o c ia l p e la P U C -S P , m e m b ro fu n d a d o r da
A B R A P S O — A ssociaçã o B ra sileira de Psicologia SociaL
Um l ivr o i nt r odut ór i o à Psi col ogi a Soci al que n ão exer ci t e ne­
nh u m t i po de t r ai ção à real idade. Pol êm i co c o m o o m u n d o de h o ­
j e. Pr enhe de c on t r ovér si as c o m o o n o sso cam i nho é pr enhe de
cil adas. Inacabado, et er nam ent e, c o m o a vida.
Um l i vr o que b u sc a com p r eender a vi da d o s Ho m e n s com
m ui t o r espei t o m a s se m conf or m i sm o, por que a obj et ividade
cient íf ica não si gni f i ca d e sc o m p r o m i sso polít ico.

Par t e 1 - A Psi c o l o gi a Soci al e um a n o v a c on c e p ç ão


d o hom em
Par t e 2 - A s Cat e go r i as Fu n d am e n t ai s da Psi c o l o gi a
Soci al
Par t e 3 - O In d i víd u o e as In st i t u i ç õe s
Par t e 4 - A Pr áx i s d o Psi c ó l o go

IS B N 8 5 11 15023-4

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