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Aquisição e desenvolvimento fonológico

Qual a tarefa da criança?


Descobrir as unidades fonológicas para converter o estímulo contínuo acústico em
conhecimento da linguagem.
Distingir traços mínimos tanto na produção como na percepção.
Descobrir que diferenças são linguisticamente relevantes ou não.
Saber quando negligenciar variações de sons insignificantes e tratar sons como
equivalentes ainda que difiram.
Descobrir as regras fonológicas e fonotácticas que originam a forma das palavras.
Combinar segmentos sonoros em unidades fonológicas maiores (unidade
suprassegmentais) e sequenciá-las.
Confrontar as unidades suprassegmentais e os sistemas da sua organização.
Relacionar os dados com a representação e descobrir o “esqueleto secreto”.
Descobrir que combinações de sons não são possíveis na sua língua.
Relacionar percepção com produção de fala.
Mapear a partir das pistas acústicas.
Descobrir que pistas são críticas na língua.
Ou seja, a criança tem de decifrar o código.
Percepção da fala
o Percepção categorial

O contínuo da fala não é percebido com contínuo, os sons da fala são


automaticamente categorizados.
Recém-nascidos com algumas horas demonstram já a capacidade de percepção
categorial.
o Discriminação dos sons da fala

Os recém-nascidos mostram uma grande sensibilidade às distinções que caracterizam


os sons das línguas do mundo até aos 6 meses.
A partir daí e até aos 12 meses, começam a ser sensíveis a fonologia da sua língua.
Percepção à produção da fala
As primeiras produções das crianças revelam que elas “decifram o código”, mas as
primeiras palavras e frases mostram muitos meses de desenvolvimento fonológico até
a produção ser conforme o modelo do adulto.
Muitos processos fonológicos “deformam” as produção das crianças.

HIPÓTESES de explicação das deformações:


1. as crianças estão biologicamente programadas para produzir deformações;
2. as crianças, nos estádios iniciais de desenvolvimento, são biologicamente
inábeis de produzir as necessárias combinações de sons, embora possam ter
representações subjacentes do sistema semelhante ao adulto;
3. as crianças confrontam-se com a tarefa de gramatical mapping, pela qual o
sistema da sua língua deve ser criado.
O desenvolvimento fonológico depende:
- da capacidade inata para reconhecer padrões (o que é voz humana, identificar
a voz da mãe, distinguir diferentes entoações);
- do aumento das capacidades de atenção e memória; - da capacidade de
discriminação auditiva (ponto de articulação e contraste entre sons vozeados e
não vozeados);
- do conhecimento linguístico.

Fonologia
Hierarquização das unidades fonológicas

Sistema alvo
Descrição das principais caraterísticas fonológicas inerentes aos sistemas consonântico
e vocálico no português (variedades europeia – PE e brasileira – PB) assim como dos
respetivos padrões fonotáticos.
Descrição das ferramentas teóricas necessárias para a compreensão dos padrões de
aquisição segmental.
Sistema fonológico do PE
o Consoantes

o Vogais

O desenvolvimento dos aspetos


fonológicos suprassegmentais (sílaba, acento...) desenvolve-se a par e passo com o
desenvolvimento dos aspetos fonológicos segmentais (sons).
As primeiras produções das crianças organizam-se em torno de padrões rítmicos
(trocaicos ou jâmbicos) e os primeiros processos fonológicos operam sobre a unidade
sílaba.
Formato silábico universal
- padrão silábico correspondente à estrutura CV*, presente em todas as línguas
do mundo
- No Português, este formato representa 52% das sílabas [Andrade & Viana
(1993)].
*Princípio de Ataque Máximo – uma sequência de tipo VCV silabifica como V.CV e não
VC.V

Etapas de desenvolvimento fonológico - VOGAIS vs CONSOANTES


Segmentos vocálicos adquiridos muito antes dos segmentos consonânticos.
Vogais – 1 ano e 8 meses
Consoantes - depois dos 5 anos
Tendência de aquisição segmental nas línguas do mundo:
- Vogais: aquisiçãi da vogal baixa /a/ e de vogais altas antes de vogais médias
- Consoantes: MA – aquisição de oclusivas e nasais antes de fricativas e líquidas,
PA – aquisição de consoantes labiais e coronais antes de dorsais e Vozeamento
– aquisição de obstruintes não vozeadas antes de vozeadas

o Vogais

1. Vogais recuadas - ɐ a
2. Vogais não recuadas - e ɛ i
3. Vogais labiais (ou arredondadas) – o u ɔ
Variablidade na produção, sobretudo no traço de altura, dependente também de
estrutura silábica e acento de palavras.
Produção de ditongos mais tardia, a partir dos 3 anos.
o Consoantes

Aquisição de forma gradual, determinada por:


- Associação de graus de complexidade distintos às várias classes de sons;
- Posição que os segmentos ocupam em unidades fonológicas hierarquicamente
superiores (sílaba e palavra)
Ordem de aquisição:
- Primeiros segmentos consonânticos a estabilizar no PE – ataque inicial e
medial: /p,b,t,d,m,n/
- Ordem de aquisição das oclusivas – interação entre PA e vozeamento (PE –
inês): [p] (1;9) >> [t] (2;2) >> [k] (2;6) >> [b,d] (2;10) >> [g] (3;0)
- Ordem de aquisição de classes de segmentos consonânticos, por MA (PB e PE):
oclusivas, nasais >> fricativas >> líquidas
- Ordem de aquisição de classes de segmentos consonânticos por PA (PB e PE):
labial >> coronal [+ anterior] e dorsal >> coronal [- anterior]

Português Brasileiro - Lamprecht et alii (2004)


- Cronologia da aquisição dos fonemas do PB por idade nas diferentes posições
silábicas
- Cronologia da aquisição dos fonemas do PB por classes de sons, nas diferentes
posições silábicas
Português Europeu - Guimarães e Grilo (1996,...); Lima (2008), Freitas et al (2012)
- Philip Dale – domínio intantil (aos 2 anos):
 Consoantes: /p, t, s, f, m, n/
 Vogais: /a, u/
 Glides: /w/
- Olmsted - domínio infantil (aos 4 anos):
 Consoantes: /p, t, s, f, m, n, k, b, d, g, ʃ, v, -z-, l/
 Vogais: todas
 Glides: /w, j/
Entre os 3 anos e os 3 anos e 11 meses:
- Dominado: oclusivas [excepto [t] inicial (m) e [b] medial (f)] e nasais e fricativas
- Adquirido: sibilantes e líquidas [excepto [R] inical (m) e [ʎ] medial (m e f)]
A

estabilização da informação segmental no interior de cada constituinte é importante,


embora relacionada.
Ordem de emergência e a estabilização dos constituintes silábicos
Estádio I – ataque e núcleo não ramificado
Estádio II – coda (rima ramificada)
Estádio III – núcleo ramificado
Estádio IV – ataque ramificado
Escala global de desenvolvimento silábico - (Freitas, 1998; Freitas & Santos, 2001)
Estádio I – produçã de formatos silábicos CV e øV
Disponíveis: ataques e rimas/núcleos não ramificados
Estádio II – produção de formatos silábicos CVC e VC
Disponível: coda (rima ramificada)
Estádio III – produção de formatos silábicos CVG (C)
Disponíveis: núcleo ramificado
Estádio IV – produção de formatos silábicos CCV (C)
Disponível: ataque ramificado

Modelos Teóricos
- Fonologia Linear (Chomsky & Halle, 1968)
- Fonologia Natural (Stampe, 1969,1973, 1979)
- Geometria de Traços (Clements 1985; Clements & Hume 1995)

o Fonologia Linear

A aquisição da fonologia é vista como um processo de aquisição de regras.


Os segemtnos são conjuntos de traços distintos binários (matrizes de traços sem
ordenamento) e o mapeamento entre a representação fonológica, abstrata e a
representação fonética dá-se por meio de regras, num processamento linguístico que
prevê derivação serial.
A aquisição dos segmentos implica a incorporação, no sistema fonológico da criança,
de coocorrência de traços que os caracteriza e do valor contrastivo dos mesmos.
o Fonologia Natural

A variação das deformações fonológicas nos estádios precoces de desenvolvimento da


linguagem parece refletir tanto a criatividade das crianças como a sua análise da
fonologia da língua específica a ser adquirida.
A aquisição da Fonologia é vista como um processo gradual de eliminação de
processos mentais, naturais, universais e inatos, até que a criança chegue ao sistema
linguístico alvo.
O desenvolvimento envolve limitação e ordenação de um conjunto de processos
linguísticos naturais inatamente determinado, afetados pela experiência com uma
língua natural.
Processo fonológico
«operação mental que se aplica à fala para substituir, em lugar de uma classe de sons
ou sequências de sons que apresentam uma dificuldade específica comum para a
capacidade de fala do indivíduo, uma classe alternativa idêntica em todos os outros
sentidos, porém desprovida da propriedade difícil» Stampe (1973) citado por
Lamprecht et alii (2004)
Se a aquisição da linguagem é determinada por princípios da GU, espera-se que haja
semelhanças entre a estrutura das línguas naturais e os processos de mudança
linguística.

- Omissão da consoante final


- Omissão de sílaba átona (pré-tónica)
- Redução de grupo consonântico
- Vocalização ou semi-vocalização de líquida
- Oclusão
- Anteriorização de oclusivas
- Posteriorização de oclusivas
- Despalatalização ou anteriorização de fricativas
- Palatalização ou posteriorização de fricativas
- Desvozeamento final
- Vocalização

o Geometria de Traços

A Fonologia Autossegmental e a Geometria de Traços assumem o pressuposto de que


os segmentos são constituídos por traços organizados numa hierarquia, de modo a
representar a possibilidade de cada traço funcionar isoladamente (como
autossegmento) ou em conjuntos solidários com outros traços, vinculados ao mesmo
nó de classe.
O desenvolvimento fonológico é entendido como a construção gradual da estrutura
que caracteriza os sons da língua, por meio da ligação sucessiva de diferentes tiers. A
criança iniciaria a construção do seu sistema com estruturas básicas, não marcadas,
responsáveis pelas grandes classes de sons das línguas: obstruintes, nasais, líquidas e
vogais (Matzenauer, 1996), sendo /p, t, m, n/ as primeiras consoantes a emergir na
constituição do inventário fonológico.

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