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O risco do equívoco sobre quem é Deus.

O credo apostólico, que é a confissão de fé que irmana todos os cristãos,


começa afirmando não somente a fé no Deus Pai criador, mas realça o fato de
que este mesmo Deus criador é também o Deus “Todo poderoso”. É bem
provável que a primeira geração de cristãos se sentisse inspirada pelas tradições
do Antigo Testamento quando neste se louvava a grandeza de Deus. Isaías fala
de Deus como aquele que “na concha de Sua mão mediu as águas” (Is. 40,12).
No livro dos Salmos, onde este aspecto do rosto Divino melhor é desenhado, é
recorrente se falar dos atos portentosos de Deus, o qual expôs nos céus a Sua
majestade. Para o salmista, no mundo criado pode ser visto a obra de Seus
dedos (Sl. 8,2-3).
No credo apostólico expressa-se a fé de um grupo de cristãos e cristãs
ainda intimidados e angustiosos, vivendo num mundo hostil e avesso à fé, então
embrionária. O Cristianismo dos primeiros séculos ainda não contava com todo
o aparato institucional que herdou com a assim chamada “virada constantiniana”,
da qual aqui já fizemos menção. Não gozava, por isso, nem de benesses ou
direitos expressos outorgados pelo Império romano, que já vivia seus primeiros
sinais de esgarçamento e decadência institucional. A chamada “era da
hipocrisia” ainda não havia esmaecido a vitalidade dos primitivos cristãos. A
adesão ao projeto de Jesus Cristo ainda tinha um caráter marcadamente
transformador. Seguir a Cristo importava correr riscos. Mas, mesmo assim, esta
compreensão de Deus Todo poderoso permaneceu no discurso cristão como um
caudal perene. Volta e meia adquiria feições mais marcantes. Não poucas vezes,
para legitimar projetos nada evangélicos, como foram, por exemplo, as
Cruzadas.
Não pretendemos questionar o fato de que Deus, que do nada trouxe à
existência todas as coisas, não seja de fato o Todo poderoso. Reiteramos aqui
o discurso de Paulo em Atenas quando disse que em Deus “vivemos, e nos
movemos e existimos” (At. 17,28). Deus, que é a fonte de toda a vida, pode sim,
todas as coisas. Desejamos, entretanto, que recaia nossa atenção nas
representações de Deus e Sua forma comunicativa para os tempos em que
vivemos. Constatamos, nem sempre prazerosamente, que com grande
recorrência não temos sido capazes de expressar e transmitir uma ideia de Deus
que esteja de fato próxima de quem Ele realmente é. Nosso testemunho de Deus
tem estado, não poucas vezes, associado a representações equivocadas, seja
por ignorância nossa, seja pela influência que recebemos de um mundo marcado
por egocêntrico materialismo. Os óculos com os quais vemos a Deus nos dão
percepções às vezes imprecisas de quem Ele realmente é. É assim hoje, mas
não foi diferente nem mesmo nos tempos de Jesus. Para sua questão “quem as
pessoas diziam que Ele era” (Mt. 16,13ss), recebeu diferentes e divergentes
reações. As respostas dos discípulos para sua pergunta (Jesus seria ou João
Batista, ou Elias, Jeremias, ou um dos profetas) indicam que o povo nutria
opiniões um pouco destorcidas sobre quem, de fato, era Jesus Cristo e qual era
sua missão.
Mesmo quando cuidamos conhecer a Deus e sua vontade, estamos
sujeitos a equívocos. Não poucas vezes nossa ideia de Deus é reflexo de nossos
próprios preconceitos. Inconscientemente projetamos em Deus nossos temores
e angústias. Fazemos com que Ele seja reflexo de nossas próprias limitações. O
tornamos uma imagem de nós mesmos. Ele acaba, assim, tendo que referendar
nossas concepções. Ele perde Sua liberdade, base de Sua Aliança com os seres
humanos. Em tal contexto não é pequena a chance de Deus ser transformado
em ídolo. Se assim realmente fosse, Freud estaria correto ao dizer que o Deus
dos cristãos não passava de “uma ilusão infantil” e a religião cristã não passaria
de uma neurose: fuga da pessoa adulta ao mundo infantil.
Os discípulos mais próximos de Jesus Cristo não estavam imunes a uma
visão destorcida de Deus. Também eles estiveram infectados de uma visão
errônea, pois queriam ocupar o primeiro lugar e a posição de mando,
esquecendo-se que no Reino de Deus, o maior, é o que se faz menor; o que
deseja mandar deve ser o que mais serve e os primeiros devem fazer-se os
últimos (Mc 10,35-45). Também não aceitavam que as crianças se achegassem
ao Senhor Jesus, por achar que o Seu ensino, era coisa exclusiva para os
adultos (Mc. 9,33-37). Não foram capazes de perceber que o futuro havia
chegado e que, com a irrupção do reinado de Deus em Cristo, a (des)ordem do
mundo começava a ser subvertida. Para Jesus, ao contrário do que os Seus
discípulos pensavam, “das crianças era o Reino de Deus” (Mt. 18,3).
Nosso conhecimento sobre Deus é fruto de Sua graça infinita. Graça esta
que se encarnou em Jesus Cristo. Este é, sim, a graça de Deus em ato. Mas
Deus não pode ser conhecido pelo ser humano, exceto quando se deixa
conhecer. Ninguém jamais O viu. Ele é um mistério que fascina e faz tremer
como dizia Rudolf Otto, mas que, paradoxalmente, se revela aos simples e
pequeninos (Lc. 10,21-22) de modo preferencial. Deus escolheu os
despossuídos desta terra para fazer-se conhecido (1. Co. 1,26-29). Quando
afirmamos que o conhecimento de Deus é um mistério de graça, estamos
também dizendo que ninguém pode ser arrogante e achar que sabe ou conhece
tudo sobre Deus e Sua vontade. São Paulo diz claramente: “em parte
conhecemos” (1 Co. 13,9). Por mais que conheçamos a Deus, sempre haverá
algo novo a conhecer. Isto deve nos encher de humildade. Todos os dias somos
desafiados a abrirmo-nos mais para mais e melhor conhecermos nosso Deus e
seus desígnios. (Ef. 5,17). Só conhece mais e melhor a Deus, aquele que se
abre humildemente em atitude de escuta. Conhece a Deus quem é apto para vê-
lo revelado no rosto dos que sofrem, na face dos oprimidos desta terra. Quem
está sensível aos clamores do mundo por justiça e verdade, está mais perto de
Deus que pode imaginar. Quem assim procede, mesmo que não o saiba, está
na trilha da verdade sob a inspiração do Espírito de Cristo.
Mas onde residiria o risco da representarmos a Deus como o Todo
poderoso? Ao afirmar que Deus é o Todo-poderoso corremos o risco de o
associarmos aos poderes e aos poderosos deste mundo. Quem carreia
superlativos para Deus (sua figura e sua ação no mundo), mesmo que não o
queira, pode (inconscientemente) estar obstruindo a porta de acesso de muitos
que vivem no limite e na fragilidade da vida. Os muitos que precisam
experimentar no quotidiano de suas vidas a dor sem uma razão, a morte
prematura, a injustiça inexplicada e não resolvida, acabam por se sentirem
esmagadas pela ideia de uma entidade majestosa e universal. Um Deus Todo-
poderoso pode ofuscar o rosto simples e meigo daquele a quem Jesus Cristo
descreveu como Paizinho (Mt. 11,25-27). Deus é, acima de tudo, um Pai de
(ma)ternas misericórdias. Ele é o Pai dos pobres e despossuídos do mundo. No
natal de Jesus Ele não preferiu os palácios e a corte, antes esteve entre os
pobres, para os quais não havia um lugar. Por conta disso é que a criação do
mundo e da vida não precisa ser exclusivamente identificada com um ato de
poder. Criando os céus e a terra, Deus não mostra em primeiro plano Sua força,
mas isto sim, Seu amor generoso e humilde. Deus, mesmo sendo grande em
força e glória, se fez frágil e se esvaziou.
A história da revelação de Deus, vista em sua totalidade e em
consonância com o seu momento mais sublime – Jesus Cristo, Palavra
encarnada de Deus dirigida aos seres humanos – mostra sua atitude de
crescente generosidade em nossa direção. Deus entrou na história humana.
Paulatinamente foi mostrando-se, deixando conhecer-se como o Deus da vida e
da justiça. Em Cristo vimos sua face mais límpida. Uma Teologia da criação não
pode ser bem entendida se vista dissociada desta história salvadora. O jardim
do Éden e seu relato mítico da realidade de um mundo são, onde reinaria paz e
harmonia entre Deus e os seres humanos, entre os seres humanos de seus
semelhantes e entre estes e a criação, tem também no Êxodo uma importante
chave de leitura. A libertação do Egito, da terra da servidão, é como que
aplicação do ideal expresso nos relatos da criação do Gênesis (SÖLLE, D., 18-
40). Toda a criação é em si um ato salvador.
Na criação sempre esteve presumido o desígnio salfívico divino. Deus age
sempre visando o nosso bem e isto Ele o faz de modo gracioso. A ato criador é,
então, um ato também de humilhação divina, posto que Ele opera uma forma de
esvaziamento em nosso favor. Deus se auto-contraiu para que houvesse espaço
no mundo de algo (e alguém) distinto dEle. Nada, nem ninguém, fica excluído do
alcance redentor deste ato criatural trinitário. Quando cria, Deus dá oportunidade
para que, o que é distinto dEle, exista num estado de correspondência, mas de
não-coercitiva dependência. A criação ocorre por meio de um ato sistólico
Trinitário. A multissecular tradição judaica da Cabala já falava desta
autocontração de Deus. Por meio dela permitiu-se vir a existência tudo o que há.
A questão que se levanta é como conciliar a infinitude Divina com a
possibilidade de que em algum momento, houvesse algo distinto dEle. Se Deus
é um mistério que ocupa todos os espaços, como poderia haver uma local, no
qual Ela já não habitasse. O pensamento do grande mestre cabalista medieval
Isaak Lurja (1534-1572) 1 criou o termo “Zim-zum” para dar uma explicação
plausível para isto. No seu entender, o Deus Trino, ao criar tudo o que há fez um
duplo movimento: um interno para dentro de Si mesmo, e outro externo para fora

1
Isaak Lurja foi filho de imigrantes alemães que se radicaram em Jerusalém. Foi educado no Cairo onde
atuou como místico desde 1569.
da vida intra-trinitária. Primeiro Deus se auto-recolhe. Num segundo momento,
sim, o Deus Trino Se abre para fora de Si mesmo fazendo existir todo o mundo.
Deus dá vida ao mundo não existente. Isaak Lurja impediu, com seu princípio do
Zim-zum, que se abrisse porta alternativa a uma forma panteísta de ver a ação
criadora de Deus. Ele via o entrelaçar-se de Deus e do o mundo criado de forma
misteriosa, mas sempre como duas realidades distintas. Entre Deus e o mundo
não há qualquer confusão. O Deus Trino criou a vida e nisso revelou sua paixão
eterna por cada um de nós, pelos animais e por tudo que nos rodeia. Seu amor
pela vida extra-trinitária se traduziu num ato concreto de auto-entrega.
Ver o mundo (sua criação e sua preservação) como um ato de paixão
divina de auto entrega tem profundas implicações no ser e no existir dos cristãos
e cristãs hoje. Lhes dá, sim, um futuro. Não que não se possa ver o amor criador
de Deus em pura contemplação, mesmo que esta seja agradecida. Não cabe
aqui nem a inércia nem a omissão. A criação nos inspira a responder também
de modo apaixonado. Paixão pela vida em todas as suas facetas é a maneira de
ser daqueles e daquelas que podem ver na criação muito mais do que mero
acaso. Esta forma de ver a criação Divina adquire um caráter marcadamente
performativo na vida dos filhos e filhas de Deus, pois uma vez que Ele saiu de Si
num gesto de despojamento visando a criar a vida, não pode ser diferente na
existência de Seus filhos e filhas. Na criação, ainda que embrionariamente, se
delineou o projeto de Deus manifesto plenamente na cruz de Cristo. Na criação,
foi revelado o Deus que se fez vulnerável e padecente em favor da redenção de
todo o mundo.
A tradição cristã tem nos ensinado o princípio da asseidade (aseitas) de
Deus. Ele é o auto-existente. Não tem, em nada, fora de Si, a motivação para a
Sua existência. Deus basta-se a Si mesmo (Jo. 5,26). Ele não seria sido menos
Deus se não tivesse criado a vida do mundo. Se houvesse sido preservada
apenas a vida intra-Trinitária Sua glória não perderia nenhum grau em perfeição.
Mas Deus não quis que as coisas fossem assim. Decidiu em Sua graça livre, ter
a companhia de cada um de nós. Preferiu a companhia com aqueles que lhe
eram diferentes. Optou pela comunhão, em vez do isolamento. O Uno desejou a
multiplicidade. É por isso mesmo que Sua sabedoria só poderia ser multiforme
(Ef. 3,10). Essa realidade não se deve dissociar de outra verdade da fé, que diz
que a criação é também uma realidade contingente. Está aí porque Deus assim
quis, mas poderia não estar, poderia não existir. Deus não se conteve em Sua
graça invencível. Ele quis que viesse à existência algo e alguém distinto dele,
mas a Ele vinculado e a Ele correlato. Crer desta forma deve nos encher de um
misto de sentimentos: por um lado uma profunda alegria e confiada gratidão,
pois não existimos por puro acaso. Estamos vinculados a um desígnio eterno.
Nosso presente e nosso futuro estão sendo conduzidos por Deus, por Sua
providência. Ele nos toma pela mão e procura caminhar conosco, guiando-nos
pelos caminhos de vida.
A história de Deus conosco tem amplitude cósmica, posto que a mesma
abarca também o universo material. Mas a criação de Deus por conta de sua
contingencialidade não pode ser bem percebida sem sua correspondente atitude
de espanto e humildade. Estamos aqui por conta de uma força estranha a nós,
que nos amou antes mesmo que pudéssemos sinalizar amor responsivo. Deus
é o garantidor desta parceria. Ele amou-nos ontem, nos ama hoje e nos amará
eternamente. Entretanto, Ele é um mistério abscondituos et revelatos. Esconde-
se de nós e se apresenta diante de nós em liberdade permanente. Nunca estará
condicionado por nada nem por ninguém, exceto por Seu amor, o qual não tem
limites. Criou tudo o que há fundamentalmente desde uma vontade
absolutamente liberta de condicionamentos. Estamos falando, portanto de um
tipo de amor sem paralelo. De um amor “apaixonado” (que sofre e se condói
solidariamente com o mundo), pelos seres humanos. Inspirar-se e se deixar
plasmar por esse amor pode, por certo, garantir o futuro da Igreja.

Extraído com autorização de: Bastos, Levy/ Moltmann, Jürgen, Um Cristianismo


de futuro, pp. 69-74

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