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MANUAL DE FORMAÇÃO UFCD 6685

Domínio Intrapessoal da Cognição,


Emoção e Motivação

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MANUAL DE FORMAÇÃO UFCD 6685

FICHA INFORMATIVA

Autor(a) Patrícia Ervilha

Ano de elaboração 2021

Formandos da modular de Domínio Intrapessoal da Cognição,


Destinatários
Motivação e Emoção

Objetivos Gerais
Distingue a dimensão cognitiva e afetiva do comportamento e
reconhece as relações que se estabelecem entre ambas.
Identifica os diferentes conceitos de inteligência e aplica-os em
situações de relacionamento interpessoal.
Reconhece as estratégias de gestão de crenças e emoções inadequadas
no quotidiano.
Conteúdos
Processos cognitivos
Capacidades cognitivas do sujeito
- Atenção
- Concentração
- Percepção
Objetivos
- Aprendizagem
- Memória
- Inteligência
Perspectiva das inteligências múltiplas de Gardner
Pensamento
- Pensamento convergente
- Pensamento divergente
Cognição
- Metacognição
Processos emocionais
- Inteligência emocional
- Implicações nas relações interpessoais
- Relações entre os pensamentos e as emoções

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Estratégias para gestão de crenças e emoções inadequadas


Processos motivacionais
- Motivação
- Motivação intrínseca
- Motivação extrínseca
Expectativa e atribuição
Diferenças e complementaridades no processo motivacional
- Motivação e satisfação
- Pirâmide das Necessidades de Maslow
- Pressupostos

Forma de organização da
Formação a distância
formação

Nenhuma parte deste manual pode ser copiada, cedida ou transmitida


Condições de utilização de qualquer modo, sem autorização expressa, por escrito, do seu Autor
ou da Gerência da NERLEI

AFONSO, M. J. (2007). Paradigmas diferencial e sistémico de


investigação da inteligência humana: perspectivas sobre o lugar e o
sentido do construto. Tese de doutoramento em Psicologia (Psicologia
Diferencial). Faculdade de Psicologia e Ciências de Educação –
Universidade de Lisboa. 703 pp.
ALMEIDA, L. S., Guisande, M. A., & Ferreira, A. I. (2009). Inteligência:
Perspectivas Históricas. Coimbra. Almedina.
BRANDES, Donna e PHILLIPS Howard, (1997).Manual de Jogos
Bibliografia Educativos, Moraes Editora
CASTANYER, Olga (2005). A assertividade – expressão de uma auto-
estima saudável, Psicologia e Autoajuda, Tenacitas
GARDNER, H. (2009). Estruturas da mente: A teoria das inteligências
múltiplas. Porto Alegre. Artmed.
GOLEMAN, Daniel, An EI-Based Theory of Performance, from the book
The Emotionally Intelligent Workplace.
GOLEMAN, D., Inteligência Emocional, Lisboa, Temas e Debates, 1997.
NETO, Luís Miguel e MARUJO, Helena Águeda, Optimismo e Inteligência
Emocional – Guia para Educadores e Líderes, Editorial Presença, 2002.

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Conteúdo
1 – Introdução ............................................................................................................................... 5
2 - Processos cognitivos ................................................................................................................ 7
2.1 Atenção ............................................................................................................................... 8
2.2 Concentração ...................................................................................................................... 9
2.3 Percepção ............................................................................................................................ 9
2.4 Aprendizagem ................................................................................................................... 10
2.5 Memória ............................................................................................................................ 11
3. Inteligência .............................................................................................................................. 12
3.1 Perspectiva das inteligências múltiplas de Gardner ......................................................... 13
4. Pensamento ............................................................................................................................ 17
4.1 Pensamento convergente e divergente ............................................................................ 17
4.2 Cognição ............................................................................................................................ 18
4.3 Metacognição .................................................................................................................... 19
5-Processos emocionais .............................................................................................................. 21
5.1 Inteligência emocional ...................................................................................................... 21
5.2 Implicações nas relações interpessoais............................................................................. 22
5.3 Relações entre os pensamentos e as emoções ................................................................. 26
5.4 Estratégias para gestão de crenças e emoções inadequadas ........................................... 27
6 - Processos motivacionais ........................................................................................................ 29
6.1 Motivação.......................................................................................................................... 29
6.2 Motivação intrínseca ......................................................................................................... 30
6.3 Motivação extrínseca ........................................................................................................ 30
6.4 Expectativa e atribuição .................................................................................................... 30
6.5 Diferenças e complementaridades no processo motivacional ......................................... 32
7 - Pirâmide das Necessidades de Maslow ................................................................................. 33

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“Quanto mais aumenta o nosso conhecimento, mais evidente fica a nossa ignorância”.
John F. Kennedy

1 – Introdução
Entender o funcionamento do homem por meio de suas capacidades cognitivas é entrar
em constructos que, nomeadamente nos meios científicos da psicologia, se apresentam
sob várias denominações: processos cognitivos, funções cognitivas, habilidades
cognitivas, flexibilidade cognitiva, cognição ou inteligência, por exemplo.
Desde tempos imemoráveis, que cada sociedade se debate acerca do que é ser
inteligente. Na Antiga Grécia, Platão acreditava que os seres humanos eram, em grande
medida, ignorantes e que o seu conhecimento correspondia a uma pequena ideia
imprecisa de uma verdade mais vasta e perfeita.
A única forma de começar a abordar o conhecimento era através do estudo da
geometria e da lógica. Aristóteles, sucessor e aluno de Platão, discordava do mestre. Na
perspetiva de Aristóteles, o ato de reunir informação não correspondia a uma procura
de ideais inatingíveis, mas sim a um traço da alma humana, da qual a mente é parte
integrante.
Referindo-se à “sabedoria filosófica”, Aristóteles considerava que os seres humanos
apresentavam duas excelentes aptidões mentais: rápidas compreensões das causas e
das situações e boas opções morais. Mais tarde, pensadores renascentistas como
Maquiavel, Leonardo da Vinci e Thomas More retomaram as capacidades humanas da
razão e da criatividade, apresentando-as como forças capazes de controlarem e até
refazerem o mundo. O século XX trouxe uma mudança notória na definição de
inteligência, talvez pela crescente compreensão do cérebro humano e respetivos
processos cognitivos.
Ao longo da carreira, as pessoas deparam-se com diversas etapas cruciais, em que são
confrontadas com a necessidade de tomar decisões. Estas decisões irão definir o
percurso formativo e profissional, e contribuir de forma significativa para o bem-estar e
realização pessoal.

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Dessas decisões depende em parte a realização do potencial humano, do nosso


propósito de vida, e por outro lado a riqueza do contributo que iremos dar à sociedade
em que nos inserimos. São tomadas com base em informações pessoais e sobre o
mundo. Entre as informações que podem ser relevantes para uma tomada de decisão
ao longo da carreira podemos mencionar informações sobre os recursos cognitivos que
as pessoas julgam ter disponíveis, as crenças de auto-eficácia, auto-estima, resultados
conseguidos até ao presente, informações sobre a oferta ao nível do ensino e também
do mercado de trabalho, entre outras. Nesta linha de pensamento surge a importância
desta temática: domínio intrapessoal da cognição, emoção e motivação .

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“Primeiramente nasce o homem, depois nasce a condição humana.”


Edgard Morin

2 - Processos cognitivos

A capacidade cognitiva favorece a adaptabilidade do indivíduo ao meio em que vive,


direcionando atividades e assegurando a continuidade da sobrevivência; promove o
funcionamento orgânico, social e intelectual em todos os aspetos de vida. A cognição
possibilita ao homem alterar o ambiente adaptando-o às suas necessidades.
O termo cognição reporta-se a todos os processos pelos quais a entrada sensorial da
informação é transformada, reduzida, elaborada, armazenada, recuperada e utilizada. É
o substantivo referente ao ato de conhecer, e cognitivo é o adjetivo que designa o que
é relativo a esse ato.
A cognição, por definição, é sinónimo de ato ou processo de conhecimento, ou algo
que é conhecido por meio dele. Assim, é a capacidade racional de apreender e
organizar dados. Compreende-se que a cognição é um substrato das diferentes
operações mentais (capacidade psicológica) que as transforma em experiências e os
conhecimentos já construídos pelo aprendiz em novas representações mentais
expressadas pelo indivíduo (output); um processo de conectividade cerebral através
de impulsos de circuito neuronais, responsáveis pelas manifestações manuais e orais.
O fenómeno de processamento é a forma como o cérebro percebe, aprende, recorda e
pensa todas as informações captadas pelo mecanismo de aprendizagem, por meio do
qual a entrada de informações (input) é processada no cérebro. Os neurónios aferentes
são os responsáveis por captar e transportar as informações oriundas do meio interno
e externo, e os neurónios de associação (analisar), de prover a resposta à projeção aos
neurónios eferentes (ação ou execução de tarefas), procedimento motor e sensitivo.

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2.1 Atenção

A definição de atenção envolve o processamento de informação externamente gerada,


mas também situações em que uma pessoa esteja voltada aos seus próprios
pensamentos. Deste modo, atender, ou prestar atenção, significa ouvir, olhar ou estar
consciente.
A atenção é uma das funções cognitivas mais complexas, e que, no processo de
memorização, é fundamental. O modelo cognitivo do sistema de atenção tem um papel
primordial no nosso quotidiano.
As nossas atividades mentais ocorrem em ambientes repletos de estímulos, relevantes
ou não, que se sucedem de modo ininterrupto. Diversas funções cognitivas dependem
fortemente da atenção que é dispensada no processamento da informação que nos
chega ou está disponível no momento em que se aprende ou realiza uma tarefa.
A atenção representa uma das funções mentais mais importantes do ser humano,
porque o ambiente contém muito mais informações que que a quantidade que o ser
humano pode processar e compreender num determinado momento.
Neste quadro, a atenção tem caráter direcional e seletivo, o que nos permite manter
vigilância em relação ao que acontece ao nosso redor, responder aos estímulos
relevantes e inibir aqueles que não correspondem aos nossos objetivos ou tarefas
imediatas.
Sem uma seleção adequada dos estímulos, a quantidade de informação seria tão grande
e desorganizada que nenhuma atividade consciente seria possível. Com relação à
natureza ou origem da atenção podemos encontrar a atenção voluntária e a atenção
involuntária.
A atenção voluntária é um ato social desenvolvido pelas crianças já em idade escolar,
requerendo certo grau de maturação do sistema nervoso e relaciona-se à capacidade de
responder a instruções faladas, mesmo diante de estímulos distrativos. Sabe-se, assim,
que atenção voluntária é um processo mental crítico e requer uma organização
complexa.

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A atenção involuntária é de origem biológica, desencadeada pela força de estímulos


externos e internos. Num e noutro caso, os mecanismos neurofisiológicos responsáveis
pelo caráter seletivo da atenção passam pela ativação ou estados de vigília do córtex,
sendo o nível de vigília (excitabilidade) assegurado pelos mecanismos de manutenção
do tônus cortical.

2.2 Concentração

As teorias cognitivistas adoptam a perspectiva do processamento de informação,


equiparando a mente humana a um computador, e que tenta explicar como o
computador humano conhece e resolve problemas, que processos mentais são
utilizados – processos como atenção, memória, percepção e concentração.

2.3 Percepção

A percepção é uma das funções cognitivas particularmente associada à capacidade de


reconhecimento, não se baseando numa imagem única, mas na combinação de sinais
distintos.

As crianças, nas primeiras horas e dias de vida, preferem imagens organizadas e olham
mais tempo para imagens decorativas do que para imagens simples. Já na infância, áreas
associativas posteriores do cérebro estão envolvidas na percepção visual e
desempenham papel importante na formação de padrões ou organizações de estímulos
internos.
A percepção tem por finalidade dar sentido à informação sensorial, enquanto a
sensação é a entrada de dados brutos no cérebro com base nos sentidos. A percepção
é a integração desses dados sensoriais brutos onde convergem elementos de
informação externa recolhida e conhecimentos prévios do indivíduo.
A percepção é um conjunto de processos mentais pelos quais as pessoas reconhecem,
organizam, sintetizam e conferem significação às sensações recebidas por meio dos
estímulos ambientais captados pelos órgãos dos sentidos (visão, audição, gustação, tato
e olfato), ocorrendo a percepção à medida que os objetos do ambiente são percebidos,

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sendo por meio das vias sensoriais ativadas que fazemos a identificação dos objetos e
formando novos conceitos.
Duas abordagens fundamentam a relevância da percepção no funcionamento
cognitivo: percepção direta e percepção construtiva ou inteligente da informação.
A percepção direta assume que toda informação que a pessoa necessita para perceber
está no input sensorial recebido; já a percepção construtiva sustenta que o receptor
constrói ou cria o estímulo que é percebido, usando tanto o conhecimento prévio e a
informação contextual, como a informação sensorial.
Esta distinção pode ser relevante no momento de descrever os disfuncionamentos ou
déficits de memória, por exemplo na agnosia a pessoa não possui a capacidade de
perceber a informação sensorial. As pessoas com agnosia visual têm a sensação normal
daquilo que está diante dela, mas não o seu movimento ou transformação pois
geralmente está afetada a compreensão e o controlo das relações entre o seu corpo e
as configurações espaciais dos contextos ao seu redor.

2.4 Aprendizagem

Em termos das abordagens que relacionam a cognição com a aprendizagem, destaca-


se a teoria cognitiva da aprendizagem.

Na perspectiva desta teoria, assume-se a cognição, enquanto conjunto de processos


cognitivos internos de obtenção, organização, memória e recuperação de informação
como central à aprendizagem.

Entendendo a pessoa como processador de informação nas situações de aprendizagem


e de realização cognitiva, tais funções são decisivas ao desempenho das pessoas, e, no
caso dos alunos, ao seu sucesso académico. A cognição, nessa abordagem, implica em
uma compreensão sobre a conexão entre a ação e as suas consequências.
A abordagem cognitiva da aprendizagem tem a preocupação em perceber como as
pessoas organizam a sua mente, levando em conta as suas experiências. Ou seja, esta
perspectiva dá ênfase à análise dos processos cognitivos internos usados pelas pessoas

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na resolução de diferentes tarefas cognitivas, nomeadamente os processos inerentes à


seleção, codificação, armazenamento e evocação de informação.

2.5 Memória

A memória é a função cognitiva, como a atenção, mais utilizada pelo ser humano.
Entendida como a capacidade de armazenar e evocar informações, tem havido um
esforço dos pesquisadores em diferenciar a memória de curto prazo, a memória de
trabalho e a memória de longo prazo. Esta última, associada à retenção no tempo de
um maior volume de informação, é também nomeada de memória episódica, semântica
e procedimental.
No processo de desenvolvimento, a neurociência sugere que a memória implícita é
controlada por um sistema neurológico de memória que se desenvolve
prematuramente, podendo inclusive se apresentar no momento do nascimento. Por
outro lado, o desenvolvimento da memória declarativa ou explícita depende de um
sistema de memória que se desenvolve mais tarde no cérebro, atingindo a sua
maturidade entre os 8 e os 10 meses. A partir de então a criança desenvolve melhores
estratégias de memória, por exemplo, treinar as informações e a sua organização por
forma a facilitar a sua evocação posterior.
Com a idade, por outro lado, as crianças mais velhas têm mais conhecimentos, e isso
facilita-lhes a aprendizagem, a retenção e evocação de informações, podendo
emergirem sinais de uma metamemória, ou seja, o conhecimento que temos sobre a
nossa própria memória.
Podemos diferenciar três sistemas de armazenamento de memória: memória
sensorial, memória de curto prazo e memória de longo prazo.
A memória sensorial refere-se ao armazenamento inicial da informação por meio dos
sentidos, como uma imagem visual ou auditiva, sendo de duração muito curta.
A memória de curto prazo (MCP) é a memória operacional na qual a informação é
brevemente armazenada e processada.
A memória de longo prazo (MLP) contém informação e experiências que foram
armazenadas para uso futuro.

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O armazenamento sensorial constitui o repositório inicial de muitas informações que,


no final, passam a fazer parte da armazenagem de curto prazo e de longo prazo. A
memória de curto prazo não armazena apenas poucos itens pois inclui também alguns
processos de controlo que regulam o fluxo de informações por períodos mais longos.
Normalmente, os dados permanecem no receptáculo de curto prazo por cerca de 30
segundos, a não ser que o cérebro seja estimulado para os reter por mais tempo, e
geralmente nessa altura promovendo a sua estruturação de alguma forma.

3. Inteligência

De acordo com o dicionário de Língua Portuguesa “inteligência” significa a faculdade


de pensar e compreender. A inteligência designa a capacidade de conseguirmos
compreender as coisas escolhendo assim o melhor caminho. Neste sentido, a
inteligência é a capacidade mental que permite aprender, compreender e até mesmo
adaptar-se com facilidade a uma nova situação ou a algo novo.
Inteligência é um conceito estudado por vários autores, elevado de grande
complexidade, que tem sido alvo de muitas pesquisas, e numa perspetiva cognitiva
defende-se o conceito inteligência como um conceito muito mais amplo, do que apenas
centrado em indicadores biológicos de inteligência. Devido a interpretações erróneas
difundidas sobre testes de inteligência, também cada vez mais, se atribuí menor ênfase
aos ditos testes de inteligência (QI), dando relevância a outros fatores para explicar o
complexo conceito de inteligência.
Durante mais de um século, o estudo da inteligência foi abordado primordialmente a
partir de um panorama de testes, esta ótica destaca apenas a medida do total de
inteligência que as pessoas têm e a explicação porque algumas têm mais do que outras,
sendo talvez uma perspetiva um pouco simplista e desajustada aos nossos dias.
O conceito de inteligência vai muito mais além do que é definido pelos testes de QI, ou,
do seu sentido reduzido em que refere inteligência como a faculdade de conhecer, de
compreender: a inteligência distingue o homem do animal, é óbvio que a noção de
inteligência pode ser definida abreviadamente, mas para a percebermos no seu todo e
para que a mesma nos faça sentido, há que abrir horizontes e olhar a inteligência com

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outros olhos, de forma a percebermos que todos nós a possuímos, cada um à sua
maneira.
Com base na ideia de que o termo inteligência poderá ser entendido de diferentes
óticas, há que, concluir, que para além dos fatores hereditários, também os fatores
culturais e ambientais moldam o comportamento, e com isso, também a inteligência
humana é moldada devido à complexa interação entre os ditos fatores. Esta nova
abordagem, vem colocar em questão a valorização remetida para o quociente de
inteligência – QI (cognitiva) como produtor do desempenho profissional, já que este é
inato e imutável, por contraponto ao quociente emocional (QE), que pode ser
desenvolvido e aumentado. Neste sentido, as competências emocionais para a liderança
emergem não como um tema "agradável e interessante", mas sim como um tema
importantíssimo, dotado de um conjunto de competências nucleares que cada líder,
deverá ter imprescindivelmente, nas organizações presentes e futuras.

3.1 Perspectiva das inteligências múltiplas de Gardner

A Teoria das Inteligências Múltiplas (TIM) surgiu em 1983, quando Howard Gardner,
professor de Neuropsicologia e de Ciências da Educação na Universidade de Harvard,
publica a obra intitulada Estruturas da Mente: A Teoria da Inteligências Múltiplas, na
qual propõe uma definição diferente da habitualmente conhecida até então.

Para Gardner a inteligência é a capacidade de resolver problemas ou de criar produtos


que sejam valorizados dentro de um ou mais cenários culturais”, o que ultrapassa o
contexto puramente académico.

A Teoria das Inteligências Múltiplas proposta por Howard Gardner é uma teoria da
cognição humana que reformula o conceito de inteligência, pluralizando-a.
Contrariamente à visão mais tradicional de inteligência, segunda a qual se trata duma
única aptidão geral, a Teoria das Inteligências Múltiplas multiplica o espectro abrangido
pelo conceito, expandindo de certa forma a visão tradicional de inteligência – ao invés
de se enfatizar a existência de um fator responsável pelo funcionamento intelectual
geral de cada indivíduo – o denominado fator ‘g’ -, a inteligência é reconceptualizada de

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forma a que este construto englobe um maior número de aptidões cognitivas, de


diferentes modos de computação cognitiva.
Nas suas investigações sobre a aprendizagem, Gardner quis provar que a criatividade, a
capacidade ou habilidade para fazer coisas e desempenhar papéis na sociedade são
fatores importantes no desenvolvimento do ser humano. Além disso, reconhece que as
pessoas são todas diferentes e têm várias capacidades de pensar e diversas maneiras de
aprender.

A Teoria das Inteligências Múltiplas (TIM) advoga que todos os indivíduos são dotados
de uma inteligência plural, formada por múltiplas capacidades intelectuais
relativamente autónomas em vários domínios.
A sua principal contribuição para o segmento educacional tem a ver com o facto de que
todos os indivíduos são dotados de múltiplas inteligências que não podem ser
mensuradas pelos instrumentos tradicionais de avaliação psicométrica. Pergunta-se,
contudo, por que é Gardner insiste em chamá-las de inteligências em vez de talentos ou
aptidões. Gardner percebeu que muitas pessoas referem que “Ele não é muito
inteligente, mas tem uma aptidão maravilhosa para a música”. Assim, ele usou a palavra
inteligência de uma forma muito consciente e intencional para descrever cada categoria.
Fracionou, portanto, a noção tradicional de inteligência em sete categorias: linguística,
lógico-matemática, espacial, musical, corporal-cinestésica, interpessoal e
intrapessoal. Mais tarde, em 1995, acrescentou uma oitava inteligência – a naturalista
– e, recentemente, já é também considerada como parte integrante da teoria uma
nona inteligência, a espiritual.
As inteligências são ficções úteis – para discutir processos e capacidades que, como tudo
na vida, são contínuos.
A Teoria das Inteligências Múltiplas (TIM) propõe que cada pessoa possui capacidades
que se podem inserir nas nove inteligências e que essas inteligências funcionam de
maneira interdependente, de uma forma única, e produzem uma variedade de
respostas.

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Caracterizam-se, de seguida, as nove inteligências, realçando os traços


caracterizadores dos indivíduos que manifesta cada uma delas em elevado grau:
― inteligência linguística – habilidade natural para ler, escrever, ouvir e expressar-se
oralmente. São indivíduos que gostam de literatura; apreciam usar criativamente as
palavras e recorrem a trocadilhos, metáforas e comparações. Podem passar horas
seguidas a ler.
― inteligência lógico-matemática – análise de dados, números, lógica e encontrar
padrões como modo de pensar. Encontram facilmente relações de causa-efeito,
estabelecem sequências, planeiam experiências de forma controlada e apreciam testar
ideias.
― inteligência espacial – capacidade superior de percecionar, criar e recriar imagens.
Os indivíduos que possuem esta inteligência bem desenvolvida utilizam representações
visuais (tais como imagens, vídeos, diagramas e mapas para apreenderem a
informação).
― inteligência musical – utiliza música, ritmo, batidas e canções como forma de
comunicar. Os indivíduos com forte inteligência musical são sensíveis a todos os tipos
de sons não-verbais e aos ritmos dos ruídos do dia-a-dia.
― inteligência corporal-cinestésica – relação com o corpo e a capacidade de o usar de
diferentes formas. Estes indivíduos gostam de atividades onde possam usar as mãos,
mexer-se e construir objetos.
― inteligência interpessoal – preferência por trabalho em grupo, são cooperativos e
partilham. São naturalmente sociáveis e são frequentemente amigáveis e extrovertidos.
Sabem avaliar, identificarem-se com e reagirem ao temperamento dos outros.
Aprendem melhor quando podem interagir com os outros.
― inteligência intrapessoal – preferência por trabalho individual. Têm um grande
sentido de justiça e refletem bastante sobre si mesmos. São introspetivos e capazes de
estabelecer objetivos realistas e de formular imagens precisas de si mesmos.
Estas sete inteligências foram as propostas inicialmente por Howard Gardner. No
entanto, atualmente foram adicionadas outras duas inteligências a esta Teoria, com o
consentimento do criador da mesma:

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― inteligência naturalista – apreciação pela natureza e gosto de estar ao ar-livre,


reconhecem padrões e classificam a informação. Esta inteligência está patente nos
indivíduos que estão em superior sintonia com o mundo natural.
― inteligência espiritual – capacidade do indivíduo ter consciência das suas próprias
dimensões, não só como um corpo, mas como uma tríade corpo-mente-espírito. A
inteligência espiritual permite ao indivíduo ter uma visão global dos acontecimentos, e
relacionar as suas ações com um contexto global. A inteligência espiritual permite
identificar problemas de significado e de valor.

Todo o indivíduo, segundo Gardner, tem potencial para treinar e desenvolver


habilidades que envolvam cada um dos nove tipos de inteligência. Em função de fatores
genéticos e estímulos ambientais, cada indivíduo aprimora mais determinados tipos de
inteligência. Ainda segundo a teoria, os indivíduos podem apresentar variações nos
níveis de forças e fraquezas para cada inteligência. Esta constatação revela que as
inteligências trabalham em combinação umas com as outras, mas são independentes
entre si. A combinação das inteligências permite que um indivíduo execute atividades
que exijam habilidades em um, dois ou mais tipos de domínios. Esta definição de
inteligência mudou a perspetiva de avaliar e também de ensinar. Passou-se de um
conceito de inteligência unitário para um conceito pluralista.

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4. Pensamento

Para alguns autores pensamento reúne o conjunto de faculdades cognitivas,


significando que o pensar devidamente envolve a mobilização de todas essas funções.
Se atendermos à sua abrangência, também facilmente reconhecemos que pensamento
se pode diferenciar em função dos processos e dos conteúdos que mais mobiliza num
determinado conjunto de tarefas.
Por exemplo, em termos de conteúdo, podemos diferenciar um pensamento abstrato
de um pensamento concreto ou prático, por exemplo tomando os estádios da
inteligência segundo Piaget (primeiro um pensamento concreto e só depois um
pensamento abstrato). Por outro lado, se pensarmos mais em termos de processos
cognitivos, podemos ilustrar com a distinção entre pensamento divergente (mais
centrado na produção deliberada de várias respostas diferentes entre si) e pensamento
convergente (mais centrado na produção da resposta lógica que responda às
condicionantes de um problema). Apesar desta diversidade de especificações,
pensamento significa a mobilização de um conjunto alargado de funções cognitivas ou
a resolução de situações e problemas completos.
Esta abrangência pode também traduzir qualidade do trabalho mental produzido, por
exemplo quando falamos em pensamento criativo e pensamento crítico. Neste caso,
estamos face a dois conceitos recentes na qualificação do pensamento, diversos entre
si, mas podendo também ter alguma margem de sobreposição.
A criatividade, no sentido de flexibilidade ou originalidade, não implica que não se tenha
que atender ao contexto e aos objetivos; ao mesmo tempo que o pensamento crítico
pode implicar a abertura do pensamento para se tomar em consideração diferentes
perspectivas ou o abrir-se à novidade inerente às situações a resolver.

4.1 Pensamento convergente e divergente

São cinco as operações, também designadas por modos de funcionamento cognitivo:


cognição (compreensão da informação); memória (retenção e evocação da informação);

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avaliação (comparação da informação, com vista a uma tomada de decisão); produção


convergente e produção divergente de respostas. Estas duas últimas operações são
fundamentais para o conceito de criatividade, e a sua distinção é de extrema
importância para o autor, já que as utiliza para explicar a manifestação criativa. Assim,
a produção convergente consiste em conceber uma resposta singular que satisfaça uma
determinada situação.
O processo de busca caminhará no sentido daquela resposta com critérios bem
definidos e rigorosos, pelo que essa resposta será a única possível. Por outro lado, a
produção divergente assenta em várias respostas, todas elas distintas, obtidas através
de uma busca de informação ampla e com critérios flexíveis, ou seja, nesta operação o
fundamental não é a descoberta da resposta certa, mas sim a quantidade e a variedade
das respostas dadas.
Ao desenvolver testes que deveriam medir as capacidades de pensamento criativo,
GUILFORD identificou dois tipos diferentes de pensamento capaz de resolver
problemas:
o pensamento convergente e o pensamento divergente.
Enquanto o pensamento convergente acontece quando são aplicadas determinadas
regras e normas aprendidas, o pensamento divergente é um pensamento flexível e
ajustado a diferentes objectivos. Não se encontrará uma única solução certa e já
conhecida; antes aquilo que foi aprendido será aplicado para produzir várias ideias e
novas possibilidades de solução válidas. Assim, o pensamento divergente também é
descrito como pensamento impulsivo, emocional e expressivo, enquanto o pensamento
convergente é um pensamento lógico, racional e dedutivo, pelo que apenas pode
conduzir a soluções convencionais.

4.2 Cognição

A abordagem cognitivista da criatividade, visa compreender as representações e


processos cognitivos subjacentes ao pensamento criativo. Dentro deste modelo, surgem
duas vertentes de aspecto cognitivo: uma, mais clássica e estrutura o modelo do
desenvolvimento cognitivo de Piaget (1970) e outra, mais recente e funcional, o modelo
de processamento da informação (Posner & McLeod, 1982). Dentro desta abordagem

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situam-se os estudos do pensamento criativo quer de seres humanos, quer de


simulações com computador e ainda as abordagens relacionadas com a Resolução de
Problemas.
A resolução de problema é um campo específico da abordagem cognitivista, sendo o
pensamento criativo dependente de ferramentas pesquisáveis.
O modelo de Piaget enfatiza os conceitos intimamente relacionáveis da inteligência e
do conhecimento do ambiente, como necessários ao desenvolvimento cognitivo.
Refere que o aluno, em constante interacção com o meio, torna-se mais activo e
inventivo no processo de aprendizagem. Vê a inteligência e o conhecimento, não como
entidades estáticas, mas como processos mentais flexíveis.

A inteligência, sempre activa e dinâmica, procura explicações e compreensão, tanto


para se construir, como para funcionar com eficácia. O conhecimento, sempre
cumulativo e constantemente em expansão, procura adaptar, organizar e assimilar,
transformando o estímulo, quer interno quer externo, numa nova experiência.

A explicação da acção humana não é considerada possível, sem a ponderação dos


processos cognitivos, constituindo estes, o meio pelo qual o indivíduo avalia o seu
significado e valor, orientando a sua acção. A teoria de Piaget, baseada no
construtivismo, procura demonstrar que, a informação só é integrável nas estruturas
cognitivas do indivíduo se o organismo estiver sensibilizado ou preparado para o
incorporar.

4.3 Metacognição

Desde inícios do século XX, investigações realizadas no âmbito da psicologia e pedagogia


revelam a tomada de consciência dos seus autores sobre a necessidade de recorrer a
processos metacognitivos para a resolução de atividades cognitivas, como a leitura e o
estudo. Contudo, é na década de 70 que o conceito de metacognição é introduzido
explicitamente.
Em resultado do caráter polivalente e da abrangência da utilização do termo, não existe
uma definição universalmente aceite. No entanto, a maioria dos autores destaca dois

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MANUAL DE FORMAÇÃO UFCD 6685

elementos constituintes da metacognição: o conhecimento metacognitivo/dos


processos cognitivos e a autorregulação desses processos.
Analogamente ao proposto por Flavell (1979), Cross & Paris (1988), Kuhn & Dean
(2004) e Schraw, Crippen & Hartley (2006) definem o conhecimento dos processos
cognitivos como o conhecimento que o sujeito tem sobre si próprio enquanto aprendiz,
sobre os fatores que atuam e interagem no percurso e nos resultados dos seus processos
cognitivos e sobre as estratégias metacognitivas.
Alguns autores, como Paris & Winograd (1990), defendem que o conhecimento
metacognitivo diz respeito, apenas, ao conhecimento sobre si próprio enquanto
aprendiz e sobre os fatores que afetam o seu desempenho cognitivo, enquanto para
Schraw & Moshman (1995), o conhecimento metacognitivo mais não é do que o
conhecimento das estratégias que viabilizam a execução da tarefa.
A segunda componente constitutiva da metacognição – autorregulação dos processos
cognitivos – é definida em função de três atividades que a complementam: o
planeamento, que consiste na identificação e seleção de estratégias apropriadas aos
objetivos de uma tarefa em particular; a monitorização, que se baseia na realização
dos processos de autorreflexão sobre o desempenho na execução de uma tarefa; e a
avaliação, que integra a revisão e avaliação dos processos e produtos de
aprendizagem.

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“O futuro estende-se à nossa frente, mas atrás de nós também há um acúmulo de


história – um tesouro para a imaginação e a criatividade.”
Hara

5-Processos emocionais

5.1 Inteligência emocional

A noção de inteligência emocional surgiu desde o início da década de 90, com o


lançamento do livro de Daniel Goleman, intitulado “Inteligência Emocional” (1996), este
definiu a inteligência emocional como:
“a capacidade de a pessoa se motivar a si mesma e persistir a despeito das frustrações;
de controlar os impulsos e adiar a recompensa; de regular o seu próprio estado de
espírito e impedir que o desânimo subjugue a faculdade de pensar; de sentir empatia
e de ter esperança”.

Mais tarde, Goleman reformula a definição de inteligência emocional como “a


capacidade de reconhecer os nossos sentimentos e os dos outros, de nos motivarmos
e de gerirmos bem as emoções em nós e nas nossas relações”.

Os níveis elevados de inteligência emocional contribuem para o sucesso em diferentes


áreas da vida, tal como a educação, o trabalho e as relações interpessoais.
A Inteligência Emocional pode ser definida como a capacidade para conciliar emoções
e razão: usar as emoções para facilitar a razão, e raciocinar inteligentemente acerca
das emoções. Numa versão mais técnica, ela representa a capacidade para percepcionar
as emoções, para aceder e gerar emoções que possam auxiliar o pensamento, para
compreender as emoções e o conhecimento emocional, e para reflexivamente regular
as emoções de tal modo que possam promover o crescimento intelectual e emocional.
Nesta lógica a emoção torna o pensamento mais inteligente, e a inteligência permite
pensar e usar de modo mais apurado as emoções.

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A Inteligência Emocional refere-se às capacidades que fazem com que a pessoa atue de
uma forma adulta e autocontrolada, evitando incorrer em comportamentos regressivos
e emocionalmente imaturos. Inclui características como: a capacidade de avaliação
correta dos estados de espírito próprios e alheios, a regulação adaptativa das emoções
próprias e alheias, o uso inteligente das emoções nas diferentes atividades da
organização.
O quadro de referência de competências emocionais elaborado por Goleman,
fragmenta a Inteligência Emocional em cinco capacidades. Não obstante, ao falarmos
quer de competência, quer de capacidade, parece-nos premente descodificar os
respetivos conceitos.

5.2 Implicações nas relações interpessoais

Quase todos nós conhecemos alguém que em algum contexto da vida não consegue
relacionar-se bem com uma certa pessoa ou pessoas. Todos nós temos problemas para
interagir com algumas pessoas, em especial quando elas são muito diferentes de nós.
Problemas de relacionamento existem em todos os lugares e fazem sempre parte das
nossas vidas.
Sabemos que as pessoas são únicas, mas às vezes sentimo-nos frustrados com aquelas
que não combinam completamente com nosso estilo ou com nossa maneira de ver o
mundo. Mas para tornar-se um empreendedor de sucesso ou tornar-se parte de uma
equipa de trabalho, precisamos transpor certas dificuldades de relacionamento. É como
fazer um time funcionar. No desporto assim como na vida pessoal de cada um,
encontramos pessoas diferentes que se unem com um objetivo comum. Por mais que
todos tenham vontade de chegar ao topo do pódio, as diferenças pessoais, o
individualismo excessivo, os problemas de comunicação e os conflitos podem destruir
as melhores hipóteses de uma equipa.
O fato é que a habilidade de construir bons relacionamentos interpessoais, sejamos
um líder ou o membro de uma equipe, é cada vez mais valorizada em todos os tipos de
organização. Não basta que desenvolvamos uma grande competência técnica, embora

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isto também seja fundamental. Precisamos aprender a perceber e a respeitar as


diferenças.
O relacionamento intrapessoal é a capacidade de integração do autoconhecimento,
autodomínio, autoafirmação e a automotivação. Esse relacionamento somado ao
interpessoal resulta no conceito de inteligência emocional, que segundo Daniel
Goleman é “a capacidade de identificar os nossos próprios sentimentos e os dos
outros, de nos motivarmos e de gerir bem as emoções dentro de nós e nos nossos
relacionamentos e também, é a grande responsável pelo sucesso e insucesso das
pessoas.”
Os benefícios do autoconhecimento não são novidades dos dias de hoje e não
pertencem somente as novas gerações. Pelo contrário. Há mais de 2000 anos atrás Sun
Tzu general, estrategista e filósofo chinês, fez a seguinte afirmação: “Se você conhece o
inimigo e conhecesse a si mesmo, não precisa temer o resultado de cem batalhas. Se
você conhecesse a si próprio, mas não conhece o inimigo, para cada vitória ganha
sofrerá também uma derrota. Mas se não conhecemos o inimigo nem a nós mesmos,
perderemos todas as batalhas.”
Numa organização, lidamos com diversos tipos de pessoas de temperamentos
diferentes e capacidades diferentes. Quando conhecemos os nossos limites, as nossas
reações e as nossas motivações, a forma de encarar situações turbulentas é vista de uma
maneira mais racional e menos exposta às nossas emoções, diminuindo assim, o risco
de tomarmos decisões impulsivas e até mesmo errôneas.

A tarefa de nos conhecermos um pouquinho mais por dia vai sendo adiada e dessa forma
privamo-nos de alcançar melhores desempenhos nas nossas realizações. As nossas
emoções são acumuladas durantes anos e são guardadas em uma caixinha. A grande
questão é perceber que nosso comportamento é influenciado e resultante do conteúdo
que guardamos por todo esse período.
Conflitos internos também estão presentes quando falamos de inteligência
emocional, são eles que nos auxiliam no fortalecimento das emoções. Portanto, não
tenha medo quando dúvidas, anseios e incertezas começarem a surgir no meio do
processo de relacionamento com você mesmo. Quando o relacionamento intrapessoal
é de fato existente, é possível notar comportamentos positivos tão procurados entre

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tantos profissionais. A facilidade na comunicação de pontos de vistas pessoais,


prioridades em ações estratégicas bem estabelecidas, energias focadas para o alcance
dos objetivos propostos por si próprio e tomadas de decisões com tranquilidade e
equilíbrio são só algumas das características de um bom relacionamento intrapessoal.
Em qualquer momento o indivíduo convive e relaciona-se com outras pessoas em
diferentes lugares, formam grupos por afinidades e aproximações como família, escola,
igreja e trabalho. Os seres humanos são essencialmente seres sociais, instintivamente
motivados por uma necessidade de se relacionar. É nessa interação que descobrem suas
próprias capacidades e as exercitam. A importância dada aos relacionamentos parte do
pressuposto de que as necessidades e interesses das organizações são as necessidades
e interesses dos indivíduos de forma coletiva.
Pertencemos a uma sociedade com alto desenvolvimento tecnológico que
proporciona aproximações, mas também desenvolve um baixo contato interpessoal.
Existem vários tipos de relacionamentos como: abertos ou fechados, criativos,
conflituantes, gratificantes ou destrutivos.

A competência interpessoal é a habilidade de lidar eficazmente com as relações


interpessoais, de lidar com outras pessoas de forma adequada às necessidades de
cada uma e às exigências da situação, ou seja, é a forma com a pessoa se relaciona
com os outros, está relacionada aos comportamentos e atitudes que interferem no
convívio com as pessoas.

O processo de interação humana é complexo e ocorre permanentemente entre pessoas,


sendo a forma mais frequente e usual representada pelo processo de comunicação, seja
verbal ou não-verbal. O processo de interação humana ocorre permanentemente entre
pessoas, sob forma de comportamento manifesto e não manifestos, verbais e não
verbais, pensamentos, sentimentos, reações mentais ou físicos corporais.
A competência interpessoal é revelada na relação indivíduo-indivíduo e nas relações
indivíduo-grupo(s). A partir deste contexto percebe-se que existe sempre a interação
para a convivência e construção da sociedade. Relacionar-se é imprescindível para
qualquer finalidade de um grupo, já que as relações entre indivíduos são interações

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cooperativas, diretas ou indiretas, ou não seria possível a sobrevivência dos sistemas


sociais.
A questão dos relacionamentos interpessoais, e da sua inerente dimensão emocional,
é crucial para a vida associada, pois são esses processos interativos que formam o
conjunto de sistemas que a organizam. As condições em que ocorrem tais
relacionamentos definem a forma de convivência entre os seres humanos, que são seres
de relações, e destes com a natureza. Fazem a diferença entre sofrimento e bem-estar
e definem como a vida social é.
O relacionamento começa com o primeiro contato, as primeiras impressões remetem
significados que podem favorecer ou prejudicar a relação. Dentro dessa dinâmica, a
comunicação é determinante para o desenrolar de todo relacionamento. É através da
linguagem que são expressos os sentimentos, elogios e críticas e desencadeado a
intimidade entre as pessoas. Um bom relacionamento desenvolve-se quando há
confiança, empatia, respeito e harmonia.

O relacionamento interpessoal no ambiente de trabalho é complexo, pois relaciona o


autoconhecimento, empatia, autoestima, cordialidade, ética e principalmente a
comunicação. Considerando essa interação entre pessoas diferentes num meio
competitivo, é necessário conhecer e entender o comportamento humano dentro das
organizações e compreender a importância da socialização dentro do trabalho, visto que
o grande desafio para o ser humano é conciliar a ternura, a cordialidade, e o cuidado à
sua ocupação. Conhecer pessoas, processos de grupos, cultura organizacional e o modo
como esses processos interagem entre si, passou a ser uma exigência essencial de
qualquer gestor que almeje sucesso no mundo dos negócios e das organizações.
Pode-se perceber que dentro de cada relacionamento interpessoal, efetua-se trocas de
sentimentos e experiências e é necessário o empenho de ambas as partes para que esse
convívio seja o mais harmonioso possível.
É importante relacionar o conceito do trabalho que cada pessoa traz consigo, essa
ligação tem que ser favorável para o indivíduo desempenhar as suas funções dentro da
organização. Além do significado do trabalho como fonte de renda, de prazer e de
conflitos para os trabalhadores.

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5.3 Relações entre os pensamentos e as emoções

Os atuais estudos sobre o órgão máximo do ser humano, o cérebro, já sinalizam a


necessidade de derrubar as barreiras entre os estudiosos tradicionais que lidam com o
sistema nervoso tais como, biólogos, filósofos, neurocirurgiões, neurologistas,
psicólogos, psiquiatras entre tantos outros criados para estabelecer métodos de
estudos. Esta quebra de barreiras fica evidente nos estudos desenvolvidos na última
década do século XX e nesta primeira do século XXI. Estes estudos tratam da função mais
complexa do cérebro, as emoções.
Na verdade emoção e razão são aspetos genéricos de um mesmo contínuo e expressam
as mais sofisticadas propriedades do cérebro humano. Num extremo, há a
racionalidade, como o cálculo mental, operações lógicas e a resolução de problemas. Na
outra ponta há a emoção, como a agressividade, o medo e o prazer. Entre uma ponta e
outra existe uma infinidade de possibilidades, tais como o ajuste social, a criação
artística, a liderança, o planeamento do futuro e a tomada de decisões. Aí é que reside
a importância de ter conhecimento sobre o cérebro humano, principalmente no tocante
às possibilidades, que são imensas, entre razão e emoção.

Desde Descartes, as emoções têm ocupado um papel privilegiado em diferentes


domínios do saber. A emoção é a primeira forma de linguagem empregue por cada ser
humano, nos primeiros segundos de vida através do choro, a primeira forma de
comunicação.
Damásio demonstra nos seus estudos que sem emoção é impossível tomar qualquer
decisão. As emoções são reações a acontecimentos, que surgem inesperadamente, e
têm uma duração breve, estando por isso relacionadas com o presente. Quando um
indivíduo se emociona, transmite para o exterior algo que evidencia a sua emoção, esta
manifestação de emoções pode ser feita através da expressão facial, do tom de voz, do
corpo ou de movimentos.
A emoção é um movimento em direção ao exterior, um impulso que nasce do interior
de nós próprios e que fala aos que nos rodeiam, uma sensação que nos diz quem somos
e que nos coloca em ligação com o mundo. Assim sendo, as emoções têm a capacidade

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de influenciar as escolhas pessoais, os relacionamentos com os outros e os


comportamentos, de acordo com estudos realizados por alguns investigadores existe a
possibilidade das emoções serem educadas. Quando o indivíduo é emocionalmente
inteligente, consegue experimentar todas as emoções tendo plena consciência quando
elas ocorrem e o que fazer para as controlar.

5.4 Estratégias para gestão de crenças e emoções inadequadas

Do ponto de vista teórico, vários foram os autores que estudaram as emoções, e devido
à grande diversidade de teorias e definições, tentar estabelecer uma teoria que defina
de facto o que é a emoção constitui sem dúvida, um grande desafio.
Desta forma, tentando descrever do ponto de vista histórico o conceito de emoção,
verificamos que as primeiras referências, surgem muito antes das primeiras teorias da
emoção. De facto, o conceito de emoção não é novo, e as teorias sobre a emoção
provêm já desde a Grécia antiga, em que filósofos e pensadores supunham uma
separação entre razão e emoção.
Platão pareceu desvalorizar a emoção. Razão, espírito e apetite conformavam o seu
conceito de alma tripartida e, por isso, a emoção não tinha qualquer posição central.
Por sua vez, para Aristóteles, as emoções eram facetas da existência muito mais
interessantes, considerando-as produto de uma combinação da vida cognitiva superior
e da vida sensual inferior. Além disso, considerou ainda que a emoção estava ligada ao
prazer e à dor e referiu diversas emoções específicas, como a raiva, o medo e a piedade.
Depois de Aristóteles, foi a conceptualização da emoção de Descartes, que predominou
até começarem a surgir as teorias psicológicas no final do século XIX. Descartes, com a
sua célebre afirmação "penso, logo existo", também sugeria a separação entre emoção
e razão, atribuindo ainda superioridade de valor à esta última. Ainda com esta
abordagem dicotómica, Kant diz da impossibilidade do encontro entre razão e
felicidade, afirmando que se Deus tivesse criado o homem para ser feliz, não o teria
dotado de razão. Kant também julgava as paixões como "enfermidades da alma" .
Em 1872, Darwin publica o primeiro grande estudo sobre “A expressão da emoção nos
animais e nos humanos”. Darwin, focou-se essencialmente no estudo da evolução das
respostas emocionais e expressões faciais nas espécies, e verificara que as emoções

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eram respostas inatas e adaptativas do organismo a estímulos relevantes no ambiente,


intensificando assim a possibilidade de sobrevivência da espécie.
Por volta da década de 60, surge uma terceira grande teoria precursora de uma atitude
cognitivista, a teoria de Schachter-Singer. Segundo esta teoria, após o acontecimento
provocar a activação fisiológica, esta activação tem de ser interpretada cognitivamente
pelo sujeito, para que se seja possível identificar a razão dessa activação e assim poder
experienciar-se e rotular a emoção.
Na perspectiva contemporânea, iremos enfatizar a abordagem biológica-evolutiva (em
que se incluirá não apenas as abordagens da Biologia, mas também da Fisiologia,
Neurociências e Neurobiologia) e ainda a abordagem cognitiva. Uma das preocupações
da abordagem biológico-evolutiva, passa pelo estudo do sistema fisiológico, responsável
pela formação e produção de emoção biológica. Assim, os estudos da emoção nesta
perspectiva, centraram-se acima de tudo, sobre o funcionamento do cérebro, como o
grande impulsionador da emoção.

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“Só fazemos melhor aquilo que repetidamente insistimos em melhorar. A busca da


excelência não deve ser um objetivo, e sim um hábito.”

Aristóteles

6 - Processos motivacionais

6.1 Motivação

A motivação é a força propulsora (desejo) por trás de todas as acções de um


organismo. É o processo responsável pela intensidade, direcção, e persistência dos
esforços de uma pessoa para o alcance de uma determinada meta.

A motivação é baseada em emoções, especificamente, pela busca por experiências


emocionais positivas e por evitar as negativas, onde positivo e negativo são definidos
pelo estado individual do cérebro, e não por normas sociais: uma pessoa pode ser
direcionada até à automutilação ou à violência caso o seu cérebro esteja condicionado
a criar uma reacção positiva a essas acções.

Verificou-se que todo comportamento humano é motivado e que a motivação, no


sentido psicológico, é:
• Uma energia inesgotável que determina não só a satisfação, mas também o
desejo de cada colaborador em cumprir as suas actividades.
• A tensão persistente que leva o indivíduo a alguma forma de comportamento
visando à satisfação de uma ou mais determinadas necessidades.
• Inconsciente e que não há, no ambiente de trabalho, acções de motivação que
possam ser adoptadas sem a participação efectiva do colaborador, pois ele é que
indicará se a sua necessidade foi ou não satisfeita.
• Definida pelo ego, que acciona o superego para a definição dos estímulos que
efectivamente serão aceites para suprir as necessidades presentes.

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• Assumir poder sobre o trabalho, uma vez que não há como um indivíduo no
ambiente de trabalho se sentir satisfeito se não tiver o sentimento de liberdade
de acção para exercer a sua função.

6.2 Motivação intrínseca

A motivação intrínseca refere-se ao desejo de ser eficiente e de desempenhar um


comportamento por si mesmo, as pessoas com motivação intrínsecas encaram o
trabalho ou a diversão em busca do prazer, interesse, expressão pessoal ou desafio
enquanto a motivação extrínseca é o desejo de ser eficiente e de desempenhar um
comportamento procurando recompensas externas ou evitar punições.

6.3 Motivação extrínseca

A motivação extrínseca refere-se a uma valorização que vem do meio externo pode ser
uma palavra do professor, um aplauso, o carinho de alguém querido. É uma força
originada pela vontade de conquistar um reconhecimento externo.
As pessoas são diferentes no que toca à motivação:
• As necessidades variam de indivíduo para indivíduo;
• Os valores sociais também são diferentes;
• As capacidades para atingir objectivos, também diferem;
• Os objectivos são distintos de pessoa para pessoa;
• As necessidades, os valores e as capacidades variam no mesmo indivíduo
conforme o tempo

6.4 Expectativa e atribuição

Todo o comportamento humano é motivado. A motivação, no sentido psicológico, é a


tensão persistente que leva o indivíduo a alguma forma de comportamento visando à
satisfação de uma ou mais determinadas necessidades. Daí o conceito de Ciclo
Motivacional.

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O Ciclo Motivacional pode ser assim explicado: O organismo permanece em estado de


equilíbrio psicológico (equilíbrio de forças psicológicas), até que um estímulo o rompa e
crie uma necessidade. Essa necessidade provoca um estado de tensão em substituição
ao anterior estado de equilíbrio.
A tensão conduz a um comportamento ou acção capaz de atingir alguma forma de
satisfação daquela necessidade. Se satisfeita a necessidade, o organismo retornará ao
seu estado de equilíbrio inicial, até que outro estímulo sobrevenha.

Toda a satisfação é basicamente uma liberação de tensão, uma descarga tensional que
permite o retorno ao equilíbrio anterior.

O motivo é a razão que leva o organismo a agir; é o estado do organismo pelo qual a
energia é mobilizada e dirigida a determinados elementos do meio.

No ciclo motivacional existem geralmente três etapas: necessidade, impulso e resposta


(meta).

É a necessidade (estado de falta fisiológica ou psicológica) que origina o impulso ou


pulsão. O impulso é a força que impele a pessoa à acção, ao conjunto de
comportamentos que permitem atingir o objectivo. O impulso termina quando a meta,
o objectivo, é alcançada. Se a meta é atingida, a necessidade é satisfeita e o impulso é
reduzido.

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6.5 Diferenças e complementaridades no processo motivacional

A motivação pode ser adquirida através dos alvos que dirigimos para a nossa vida.
Grandes alvos geralmente trazem grande motivação. É preciso que haja um motivo para
uma ação. Se o nosso estado emocional não for bom, o cliente vai apercebe- se desse
facto. A motivação precisa ser estimulada todos os dias na vida de um profissional. Sem
ela as metas deixam de fazer sentido, os objetivos ficam vazios, o desejo da conquista
apagado e o sucesso fora do alcance.
A motivação é uma energia poderosa para realização de nossos objetivos e por isto é
uma qualidade essencial que deve ser aprendida e praticada. Existem três conjuntos
principais de representações mentais, e cada pessoa consegue motivar-se mais por um
determinado conjunto de representações:

➢ Representações visuais – existem pessoas que são motivadas principalmente


quando vêem uma situação ou imaginam visualmente esta situação. Por
exemplo, para motivar alguém a comprar um determinado tipo de carro é
preciso que o vendedor descreva a sua aparência, mostre fotografias, filmes,
opções de cores, etc. Estas pessoas reagem fortemente a apelos visuais.
➢ Representações auditivas – Algumas pessoas motivam-se melhor através de
estímulos auditivos. Provavelmente gostam de realizar tarefas ao som de
música, e necessitam de muita explicação auditiva para se convencerem a
realizar alguma tarefa.
➢ Representações cinestésicas – Outras pessoas têm um sentido táctil, o olfato e
o paladar mais apurado. No caso da venda de um automóvel, para motivá-las o

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vendedor precisaria descrever as qualidades do carro como conforto, maciez,


sensação táctil da direção e dos bancos, etc.

O comportamento motivado está intimamente ligado ao funcionamento do sistema


endócrino e a diferentes estruturas do sistema nervoso.

No ciclo motivacional, a necessidade pode ser:


• Satisfeita: Se a necessidade for satisfeita, deixa de ser motivadora de
comportamento, já que não causa tensão ou desconforto.
• Frustrada: Neste caso a tensão provocada pelo surgimento da necessidade
encontra uma barreira ou um obstáculo, provocando agressividade,
descontentamento, tensão emocional, apatia, indiferença.
• Compensada: Acontece quando a satisfação de uma outra necessidade reduz a
intensidade de uma necessidade que não pode ser satisfeita.

7 - Pirâmide das Necessidades de Maslow

Existem diversas teorias da motivação que procuram analisar o fenómeno


motivacional na sua origem, evolução, direccionalidade, bem como os efeitos e
consequências da sua dinâmica no comportamento e mundo laboral.
Maslow procurou compreender o homem dentro de uma percepção
multidimensional, considerando a existência de diversas necessidades, desde as mais
básicas até as mais complexas e numa inter- relação dinâmica ainda pouco estudada.
Ao conceber, entretanto, a motivação como o caminho para a satisfação da
necessidade dominante, Maslow fugiu ao aspecto da espontaneidade contido no
conceito da motivação.
O modelo de Maslow sugere que as pessoas têm um conjunto de cinco categorias
de necessidades que organizou por prioridade: fisiológicas, de segurança, sociais,
estima e de realização pessoal.

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Quando um nível de necessidades for satisfeito, passa-se automaticamente ao


próximo. Assim, os dois primeiros níveis de necessidades (fisiológicas e de segurança)
constituem as chamadas necessidades primárias e os restantes níveis constituem as
necessidades secundárias.
Segundo Maslow, as necessidades não satisfeitas são os motivadores principais do
comportamento humano, havendo precedência das necessidades mais básicas sobre
as mais elevadas. Logo, se as necessidades fisiológicas não estiverem satisfeitas, um
indivíduo não se sentirá estimulado pelas necessidades de estima. No entanto,
satisfeitas as necessidades de um nível, automaticamente surgem as necessidades de
nível superior no indivíduo, deixando as de nível inferior de serem motivadoras.

As necessidades fisiológicas constituem o nível mais baixo de todas as necessidades


humanas, mas de vital importância. Neste nível estão as necessidades de alimentação
(fome e sede), de sono e repouso (cansaço), de abrigo (frio e calor), o desejo sexual,
etc. São necessidades que já nascem com o próprio indivíduo, contudo estão
relacionadas com a sobrevivência e com a preservação da espécie. Quando alguma
destas necessidades está insatisfeita (como por exemplo a fome), o ser humano não
pensa em outra coisa. A maior motivação, neste caso, será a necessidade fisiológica e
o comportamento do indivíduo terá a finalidade de encontrar alívio da pressão que

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nessas necessidades produzem sobre o organismo.

As necessidades de segurança constituem o segundo nível das necessidades


humanas. São as necessidades de segurança ou de estabilidade, a busca de protecção
contra a ameaça ou privação, a fuga ao perigo. Estas têm grande importância no
comportamento humano, uma vez que todo o empregado está sempre em relação de
dependência com a empresa, na qual as acções administrativas arbitrárias ou decisões
incoerentes podem provocar incerteza ou insegurança ao empregado quanto a sua
permanência ao emprego.
As necessidades sociais ou de associação surgem no comportamento, quando as
necessidades mais baixas (fisiológicas e de segurança) se encontram relativamente
satisfeitas. Dentro das necessidades sociais, estão a necessidade de associação, de
participação, de aceitação por parte dos companheiros, de troca de amizade, de
afecto e amor. Quando estas necessidades não estão satisfeitas, o indivíduo torna-se
resistente e hostil em relação as pessoas que o cercam. Na nossa sociedade, a
frustração das necessidades de amor e de afeição conduz a falta de adaptação social
e a solidão.
As necessidades de estima são os desejos de respeito próprio, sentimento de
realização pessoal e de reconhecimento por parte dos outros; estão relacionadas com
a maneira pela qual o indivíduo se vê e se avalia. Para satisfazer estas necessidades as
pessoas procuram oportunidades de realização, promoções, prestígio e status para
reforçar as suas competências. Contudo a frustração pode produzir sentimentos de
inferioridade, fraqueza, dependência e desamparo que podem levar à sua total
desmotivação.
As necessidades de auto-realização pessoal são os desejos de crescimento pessoal e
da realização de todos os objectivos pessoais. Uma pessoa que chegue a este nível
aceita-se tanto a si como aos outros. Estas pessoas normalmente exibem
naturalidade, iniciativa e habilidade na resolução de problemas. Correspondem às
necessidades humanas mais elevadas e que estão no topo da hierarquia.
Assim, o modelo de Maslow baseia-se em quatro pontos base:
Uma necessidade satisfeita não é motivadora;
Várias necessidades afectam uma pessoa ao mesmo tempo;

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Os níveis mais baixos têm de ser satisfeitos primeiro;


Há mais maneiras de satisfazer os níveis mais altos do que os níveis mais baixos.

“Não sei dirigir de outra maneira que não seja arriscada. Quando tiver de ultrapassar,
vou ultrapassar mesmo. Cada piloto tem o seu limite. O meu é um pouco acima do dos
outros.”
Ayrton Senna

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