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Teoria do Estado I

OLAVO DE CARVALHO

Aula 4
27 de novembro de 2003

[versão provisória]
Para uso exclusivo dos alunos do Seminário de Filosofia.
O texto desta transcrição não foi revisto ou corrigido pelo autor.
Por favor, não cite nem divulgue este material.

Bom, muito bem. Vamos lá. Quem consegue resumir a última aula? Vamos lá, Henrique.
Aluno: Bem, não sei se começou dessa forma, mas... acredito que o Estado não é um fenômeno
primário. O que seria um fenômeno primário? Uma vaca, por exemplo. O Estado é um fenômeno
secundário, ele construído, ele é uma modalidade. O que significa um fenômeno primário? É aquilo
que é reconhecível apenas por descrição. O Estado não pode ser [reconhecido] apenas por
descrição. [O senhor] falou também sobre a rede de relações humanas que se dá através da
linguagem: o início da sociedade humana se dá através da ordem dada, do imperativo. Por exemplo:
“Olhe aquilo ali!”. O imperativo existe em todas as línguas. Mas, animais não dão ordens, eles
intimidam outros animais por meio da força, mas não dão ordens.
Olavo: Vocês estão acompanhando a explicação dele? Estão ouvindo lá atrás ou não?
Alunos: Não.
Olavo: Vamos começar tudo de novo então. Venha aqui, [Henrique], e pegue o microfone.
Aluno: Muito bem. O Estado não é um fenômeno primário como, por exemplo, uma vaca, é um
fenômeno construído, é uma modalidade. Um fenômeno primário é reconhecível apenas por
descrição. E o Estado, é o quê? Bom, eu poderia dizer que é uma forma de organização territorial.
Mas, então, como é que eu explico o povo judeu errante, que é um Estado? Logo, apenas essa
definição de “organização territorial” não basta para definir o Estado. Falamos também da rede de
relações humanas, que se dá através da linguagem. O início da organização social se dá por uma
ordem dada. Por exemplo: “Olhe aquilo ali!” – alguém deu uma ordem a alguém em algum tempo;
esse tempo verbal imperativo existe em todas as línguas. Em contraste, os animais não dão ordens.
Eles podem impor a sua força, [podem apenas usar a] intimidação. Agora, o imperativo estabelece
uma relação no tempo e no espaço; é uma ação deliberada no tempo. Pede-se ou manda-se. Um “por
favor” é uma ordem, de certa forma. O que é uma organização social senão um sistema de ordens
que tenham retorno?
Olavo: Retorno garantido, né.
Aluno: Retorno garantido. Estabelece-se a curva do tempo. A primeira condição para a organização
social é o sistema de imperativos ou sistema de obediência. Essa obediência é garantida. Mas essa
obediência implica numa promessa de lealdade de cumprimento da ordem, é um controle do futuro.
Essa ordem também não pode ser dada na base da força, [mas sim] na base da lealdade – há aí o
princípio do fascínio.
Olavo: Vocês estão lembrados disso? Ou não estão nem sabendo do que ele está falando?
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Alunos: Sim.

Aluno: Ou seja, a origem da obediência não pode ser baseada na supremacia física, pois essa é
transitória. A autoridade, novamente, surge como um fascínio. Essa relação de fascínio tende a se
transformar em uma relação de mando. Segundo o filósofo Eric Voegelin, a ordem é a própria ordem
da sociedade humana, e a consciência é um componente da estrutura da realidade – é um fato do
mundo. Ou seja, a consciência que eu tenho do mundo é um fato do mundo. Tomar consciência é
tornar luminosos pedaços ou coisas do mundo...
Olavo: Aspectos.
Aluno: Aspectos do mundo. Segundo o filósofo Schelling, no livro Filosofia da Revelação, o homem
não é só um observador, ele é parte do universo, ele nunca pode se colocar de fora e dominando o
universo, mas sempre dentro. O homem é, portanto, nesse caso e sempre, objeto de si mesmo; é um
claro e escuro para si mesmo. Isso aí depende mais da relação que vou explicar agora, entre esse
claro e escuro. Esse “claro e escuro” pode se chamar participação anamnética, ou seja, de
recordação. Ele reconhece a si mesmo, mas dentro do universo. É recomendado o exercício do
recorte anamnético das experiências pessoais – foi até aqui que eu tinha anotado.
Olavo: Muito bem, obrigado. Bem, embora fragmentado assim, acho que os temas todos estão aí. O
mais certo seria, de uma aula para outra, vocês transcreverem a aula inteira. Esse assunto aqui não é
fácil. Não vai ser ouvindo uma vez que vocês vão pegar a unidade interna da explicação, e muito
menos dominar o assunto.
Agora, [para] dominar o assunto depende de um fator fundamental: o quanto vocês querem dominar
o assunto? O quanto a pergunta sobre a natureza do Estado e a origem do Estado é importante para
vocês? Se ela não for importante, então nada poderá ajudá-los a compreender o assunto. E, se não
compreenderem o assunto, evidentemente, pouco adianta vocês terem o certificado desse curso, pois
o certificado pode no máximo lhes dar acesso a determinados empregos, os quais vocês exercerão
com uma incompetência formidável, tendo depois de construir toda as suas vidas em cima de um
sistema de subterfúgios e auto-desculpas que lhes permitirão proceder exatamente como os
governantes e administradores que vocês odeiam e criticam e os quais vocês se consideram
infinitamente superior. Como eu não quero nada disso para vocês, eu prefiro que compreendam o
assunto.
Não existe a menor possibilidade de uma seriedade moral no desempenho da função de gestor público
se não existe sequer a seriedade do pensamento, quer dizer, a seriedade intelectual é a base para toda
a seriedade na conduta, seja de ordem prática, seja na ordem dos próprios estudos. Nunca será demais
enfatizar que esse aspecto de seriedade intelectual é o grande obstáculo, é o grande abismo, na
sociedade brasileira. A sociedade brasileira é marcada por um profundo desprezo ao conhecimento e
pela crença mágica de que bons resultados podem ser alcançados igualmente por quem conhece o
assunto e por quem não conhece. É uma crença inteiramente mágica, estúpida e que não merece
discussão, mas que, no entanto, está na base da quase totalidade das nossas condutas em assuntos
públicos.
Mais ainda!, nunca esperem que, se vocês não compreendem exatamente o que estão fazendo, se
essas questões que são importantes para vocês não lhes são inteligíveis, sempre haverá alguém acima
na escala hierárquica que sabe perfeitamente o que estão fazendo e a quem vocês podem recorrer em
caso de dúvida. O mais certo seria pressuporem que aquilo que vocês não entenderam sozinhos
ninguém vai entender no seu [respectivo] lugar. Ou seja, a responsabilidade intelectual cognitiva é
absolutamente intransferível, mas a resistência à aquisição dessa responsabilidade é tão grande, mas
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tão grande, nesse país, que é um pouco insensato esperar qualquer melhora para a próximas décadas
ou séculos.
Hoje, quando os jornais noticiaram que nós, esse ano, ao invés de alcançarmos o “Fome Zero” nós
alcançaremos o PIB zero, deveríamos ficar contentes, porque afinal de contas a parte numérica do
raciocínio estava certa: o zero estava certo! [risos]. Quando as pessoas veem isso ficam surpresas e
dizem que foi uma decepção, isso quer dizer que elas esperavam que 2+2 desse 5 ou 4,5 ou 3,9 ou
10,2 e se surpreenderam ao ver que dá 4, isto é, existe o hábito de transferir o domínio das
expectativas, dos desejos e das apostas emocionais à solução de todos os problemas.
Por exemplo, quando a gente começa a descrever a situação, têm pessoas que dizem “Não, seja mais
otimista, não seja tão pessimista”, ora, é fácil perceber que “otimista” e “pessimista” é o nome apenas
de duas reações emocionais e não têm nada a ver com a descrição do problema. A descrição pode ser
verdadeira ou falsa, exata ou inexata; em si mesma, ela não pode ser “pessimista” ou “otimista”.
Digamos, por exemplo, que se descreva uma situação desesperadora: isso não quer dizer que o sujeito
seja pessimista. O otimista é o sujeito que, mesmo sabendo que a situação é desesperadora, ainda
tenta fazer alguma coisa; não é aquele que, dentro da situação desesperadora, foge de ver como é
gorda a situação por medo de ficar deprimido – esse é o contrário, ele é um pessimista crônico; ele é
tão pessimista que só se pode contar a ele fatos animadores, se contar para ele um fato mais
acabrunhante, o sujeito entra em depressão e precisa tomar remédios. O brasileiro é um bicho que
está sempre fugindo da depressão, sempre fugindo do susto, sempre fugindo da decepção, o que quer
dizer que ele já está totalmente decepcionado, já está totalmente deprimido.
Esqueçam esse negócio de otimismo e pessimismo. Georges Bernanos dizia que o otimista e o
pessimista são apenas o gordo e o magro da filosofia. A reação pessimista ou otimista inclusive varia
de momento para momento. Diante de uma mesma situação, se pode num certo momento se sentir
animado e no outro desanimado. Quando nós descrevemos uma situação e damos o diagnóstico dela,
nós não estamos nem pregando o otimismo e nem pregando o pessimismo, estamos descrevendo uma
situação de fato perante o qual cada um está livre de ter a reação otimista ou pessimista que queira;
esta reação subjetiva em nada interferirá na situação descrita.
Fazendo a equação dos meios e dos fins, ou seja, dos recursos humanos que este país de cento e
oitenta milhões de habitantes tem para tratar os seus problemas e buscar “um futuro melhor”, os
recursos humanos são enormemente ricos no que diz respeito à força de trabalho física. Também é
errado dizer que o brasileiro é preguiçoso, ao contrário, dificilmente se vai encontrar um povo tão
esforçado como esse que aguenta trabalhar dez, quinze horas por dia nas condições mais adversas e
nem sequer reclama. Portanto, [o brasileiro] é um povo esforçadíssimo. Porém, do ponto de vista
intelectual, quando deixamos de olhar para o povão e olhamos para as classes mais altas, as elites
falantes e os governantes, os recursos intelectuais delas estão próximo do zero – isso não é exagero,
não é pessimismo, não é algo feito para insultar ninguém, é simplesmente a descrição de uma situação
real.
Creio que já mencionei aqui outras vezes o caso do anuário científico da Enciclopédia Britânica, né?
Lembram disso? Ano após ano eu procuro um brasileiro na lista dos prêmios científicos e não tem.
Tem sujeito da Serra Leoa, da Zâmbia, do Gabão, mas do Brasil não tem. Vocês não vão querer dizer
que nós temos menos recursos para pesquisa científica do que estes países onde as pessoas realmente
não têm nem o que comer. Quando nós observamos nossa inépcia nessas coisas, gostamos de acreditar
que estamos assim por falta de recursos financeiros e, para nos convencer de que nós somos pobres e
miseráveis, acreditamos que no Brasil existem sessenta milhões de miseráveis – o que seria um
verdadeiro milagre, haja vista a taxa de mortalidade por fome ser praticamente nula. Então, temos
sessenta milhões de miseráveis que, por mágica, jamais morrem de fome; pode-se dizer que eles
vivem da fome. Qualquer país com muito menos miseráveis tem uma taxa de mortalidade por
desnutrição muito maior. Quando nós nos descrevemos a situação catastrófica do ponto de vista
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econômico, é porque nós não queremos ver que ela é catastrófica não desse ponto de vista, mas
catastrófica exatamente do ponto de vista humano. Países que têm muito menos recursos do que nós
são capazes de criar uma intelectualidade muito mais eficiente e de enfrentar os seus problemas com
muito mais realismo, com muito mais dignidade, do que nós temos sido.
Se observarmos, por exemplo, o livro do Wilson Martins, A História da Inteligência Brasileira,
veremos que 90~95% das ocupações intelectuais daqueles que nos precederam desde o
descobrimento consiste em futilidades que não podem ter para nós, hoje em dia, o menor interesse,
isto é, cinco séculos de produção intelectual não significam absolutamente nada para ninguém, e
somente uma alma bondosa, como a de Wilson Martins, pode se debruçar sobre aqueles livros
absurdos e estúpidos e lhes dedicar a atenção que, absolutamente, eles não merecem. Merecem a
atenção dos historiadores evidentemente, que têm de registrar os fatos, mas, humanamente falando,
não tem interesse algum.
Vocês mesmos, quando estavam no ginásio, devem ter tido a experiência de como a nossa literatura
dos séculos anteriores é chata, tediosa e sem a menor importância. Eu me lembro de quando eu estava
no ginásio, o professor me deu A Moreninha para ler, quando cheguei à página cinquenta, eu estava
absolutamente chocado de que alguém quisesse seriamente que eu me interessasse por aquela
futilidade, aquela bobagem, simplesmente pelo fato de ser uma bobagem nacional – bobagem por
bobagem, isso era mais ou menos como uma campanha que fazem no Rio de Janeiro: “Halloween é
o cacete! Viva à cultura nacional!”, bom, Halloween é a cultura do capeta, a cultura dos demônios, e
entre um demônio nacional ou um estrangeiro, eu não creio que haja uma diferença qualitativa muito
grande; se é para cultuar o capeta, então tanto faz, mesmo porque eu duvido muito que ele próprio, o
demônio, ligue muito para essas considerações de nacionalidade.
Isso é para mostrar a vocês como às vezes o culto do que é nacional é tão desligado de considerações
de qualidade que se torna puro fetichismo. Entre duas coisas de baixíssima qualidade, que diferença
faz se é nacional ou estrangeiro? Muitas vezes, as pessoas esquecem também que nacionalidade não
é em si mesma um valor. Uma nacionalidade tem de se justificar perante o mundo, perante a história
do mundo, por aqueles valores humanos que ela criou, que ela expressou, que ela representa e que
afinal de contas ela dá para o restante da humanidade.
Por exemplo, toda vez que comemos macarrão, contraímos uma dívida com os chineses. Cada vez
que fazemos uma coisa como estamos tentando fazendo aqui, ou seja, organizar um mundo de
conhecimentos, contraímos uma dívida com os gregos – e assim por diante. E [temos de] pensar
assim: daqui a dois mil anos, que dívida a humanidade futura terá para conosco, os brasileiros?
Absolutamente nenhuma! O que significa que, historicamente falando, do ponto de vista histórico-
cultural, o Brasil não existe – apesar do seu tamanho, apesar da sua riqueza, apesar dos seus recursos
extraordinários. E aí, só falando como o Boris Casoy: “Isto é uma vergonha!”. E isso não é só uma
vergonha, isso é a mãe de todas as vergonhas, porque quando vemos os índices de criminalidade,
corrupção, a má administração, a ineficácia geral, a loucura generalizada, tudo isso, é efeito disto, [da
nossa inépcia intelectual]. Tudo o que o ser humano faz é porque ele pensou antes; toda ação nasce
dentro da imaginação humana, da inteligência humana, e depois se exterioriza. Então, se já na fonte
a coisa está estragada, como é que vai sair alguma coisa que preste depois?
Como vemos, por exemplo, nós tivemos uma [Assembleia Nacional] Constituinte em 1988 que gastou
um dinheirão, reuniu seiscentas pessoas discutindo o tempo todo, e depois, quando lemos, vemos que,
pela nossa Constituição, matar um animal é crime inafiançável, exceto se for um animal da espécie
homo sapiens, vemos que o sujeito que assinou isso fez uma sentença e se condenou a si mesmo:
“Olha, não mate gato, cachorro, vaca, mas eu, não tem problema nenhuma” – isso é um primor de
inconsciência. Depois, mais tarde, veio uma equipe de juristas com um projeto de novo código penal
que tornava crime qualquer expressão de desapreço por motivo de religião ou conduta sexual. O que
quer dizer que se o padre falasse contra o homossexualismo e o homossexual dissesse que o padre é
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um sujeito repressivo, os dois iriam para a cadeia. As pessoas gastam muito dinheiro, muito tempo e
muito esforço intelectual para produzir essas coisas.
Me lembro que na época eu publiquei um artigo sobre isso, mas daí a discussão sobre esse tópico foi
“varrida para de baixo do tapete” – “Disfarça, não vamos mais falar disso”. Eles não reconhecem o
erro, “De fato, isso era uma burrice, a gente estava dormindo”, [eles] não [fazem isso], eles escondem.
Eu já vi isso acontecer tantas e tantas vezes nesse país, que chega um momento em que a gente começa
a desconfiar que o brasileiro deve ter algum tipo de problema; algo de errado tem, mas eu não sei
exatamente o quê. [Problema] genético não pode ser, pois as pessoas não são todas parentes entre si.
Mas pode haver um problema ecológico qualquer – ou geotérmico, geofísico, que deprima a
inteligência das pessoas nessa parte do mundo.
A gente nota, por exemplo, que o estudante brasileiro não espera seriamente que a gente lhe peça para
ler, digamos, oito ou dez livros de um mês para o outro. Se fizermos isso, eles pensam que o sujeito
está fazendo piada. Entretanto, isso deveria ser considerado normal; no mundo inteiro isso é o normal.
Então, por que há esse problema? Por que quando o sujeito abre um livro dá aquele sono, o assunto
todo parece tão distante, tão etéreo, tão vazio? Não se consegue apreender aquilo que o autor está
falando. Por que é assim? Por que existe esta profunda indolência? Eu não sei a resposta. Mas eu sei
que se nos conformarmos de que a coisa é assim e de que isso é ser normal, então continuaremos
sendo normais segundo o padrão brasileiro, isto é, anormal pelo padrão humano.
Não há outra maneira de explicar como um país desse tamanho, com estas proporções, com os
recursos absolutamente formidáveis que tem e sem nenhum problema crônico do tipo cataclísmico –
terremotos, desertos, etc., em suma, obstáculos naturais de grande monta –, como é que pode, depois
de cinco séculos, estar capengando, estar caminhando de joelhos? Obviamente, isso é uma vergonha!
E não adianta culpar o governo, porque afinal de contas o governo faz parte do povo. Eu não sei se
cada povo tem o governo que merece, mas o brasileiro, indiscutivelmente, sempre teve. E agora
continua merecendo: mereceu os milicos, mereceu a ditadura Vargas, mereceu aquela corrupção toda
do tempo do João Goulart e hoje merece esta parafernália petista; pelo simples fato dele achar que o
governo vai resolver alguma coisa nesse sentido, ele já merece, pois um povo que espera coisas do
governo, em vez de fazer ele próprio, ele já merece o que quer que o governo lhe faça.
Em cada turma de alunos, eu procuro sempre dizer: “Olha, esqueçam esse negócio de governo,
esqueçam o que os outros podem fazer. Vocês têm de agir como se a solução de todos os problemas
dependesse exclusivamente de vocês”. Façam esta experiência, digam a si mesmos: “O culpado de
todos os problemas sou eu!” – não importando quais o sejam. Isso não é exatamente verdade, mas é
só um experimento. Então, durante algum tempo, o que quer que dê errado, vocês não vão acusar
ninguém. Vocês vão fazer tudo para resolver [os problemas], como se vocês fossem o próprio
Robinson Crusoé: está sozinho na ilha e ninguém pode lhe fazer mal, se algum mal lhe acontecer, foi
ele mesmo quem fez. Está bem? É fácil! Experimentem isso durante alguns anos. Vocês vão ver
quantas energias insuspeitadas aparecerão.
Bom, após esse prólogo moral, vamos lembrar o seguinte: na aula passada eu tentei alertá-los para o
fato de que, na discussão dos assuntos políticos, geralmente nós partimos de palavras que estão
carregadas de significados mais ou menos convencionais e tratamos essas palavras como se elas
representassem coisas efetivamente, entidades reais. Às vezes é assim, às vezes elas representam
mesmo, mas outras vezes não. E o único jeito de fazermos [uma análise] é decompor esses termos até
a origem histórica dos seus conceitos e vermos as sucessivas camadas de significado que foram sendo
depositadas ali de modo a sairmos de dentro de um universo de discussão puramente verbal e
tentarmos nos aproximar da experiência real humana.
Quando eu falo em experiência real humana, também não podemos partir da premissa ingênua de que
o tipo de experiência que temos agora, enquanto adultos, é a experiência simples e direta do ser
humano, porque ela também já está carregada de pressupostos culturais. Ademais, vemos que
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passamos a maior parte do nosso tempo desempenhando certos papeis sociais que só coincidem
parcialmente com a realidade da nossa pessoa. Quando arrumamos um emprego, por exemplo, não
participamos dele com a totalidade de nossas respectivas [personalidades] ou almas, mas somente
com um certo recorte: dali saímos e vamos para a escola, lá, temos outro recorte. Como a convivência
humana é feita sempre na base de papéis sociais que, numa sociedade complexa como a nossa, pouco
têm a ver com a realidade dos indivíduos [que estão] por trás, também a experiência pessoal
frequentemente não é tão pessoal quanto imaginamos. É possível haver um grande número de pessoas
que convivem, umas com as outras, na base da troca de símbolos que pouco têm a ver com o que
efetivamente está se passando dentro delas; pessoas que acabam não tendo sequer a capacidade de
expressão verbal de seus verdadeiros estados – isso é muito comum.
Evidentemente, quando nós estudamos História, sobretudo a história das instituições políticas, nós
projetamos uma espécie de experiência falseada em cima delas e acabamos entendendo tudo errado.
Para estudarmos História não temos outro instrumento a não ser a sua própria alma e a própria
experiência acumulada, de maneira que a capacidade de registrar, esclarecer e narrar para si mesmo
a própria experiência é a condição básica da compreensão da História. Afinal de contas, o que é o
estudo da História? O estudo da História é algo que acontece a indivíduos humanos reais que num
certo momento de suas vidas acreditam que acontecimentos transcorridos há milênios podem ter uma
significação compreensível para ele e que possam ser importantes de algum modo. Ou seja, o conjunto
dos seus conhecimentos históricos fará parte da sua experiência humana; vocês compreenderão os
dados da História com a mesma alma, com a mesma psique com que compreende os assuntos do dia-
a-dia. Portanto, daí a necessidade de limpar o equipamento.
No outro curso, o curso de Ética, eu insisto muito nessa coisa da narrativa, da consciência da própria
experiência, da sinceridade para si mesmo, isso tudo faz parte da limpeza do equipamento;
evidentemente, essa é uma condição necessária, mas não suficiente. Além de limpar o nosso próprio
equipamento pessoal, nós precisamos, para compreender a origem das instituições, fazer a limpeza
do equipamento cultural, isto é, do vocabulário com que nós lidamos e de certos conceitos e
expectativas – tão disseminados no nosso meio que chega a nos parecer inteiramente naturais.
Se estudamos, por exemplo, a organização política do Egito, da Babilônia, da China de cinco mil anos
atrás, nós tendemos evidentemente a equacioná-la em termos que tenham algo a ver com a nossa
situação. Mas a diferença no caso pode ser tão grande, mas tão grande, [00:30] que há um abismo entre
o que podemos compreender do Estado atual, ou da sociedade atual, e o que os egípcios ou os
babilônios de cinco mil anos atrás podiam entender da sua própria situação. De cara, vejam que cada
um de vocês, quando pensam nessas coisas do Estado, da política, etc., cada um tem uma opinião,
não tem? Quer conheçam o assunto ou não, cada um tem uma opinião. Tendo uma opinião, proferem
um julgamento que pode ser negativo ou positivo a respeito de instituições, leis etc. Isto quer dizer
que este conjunto do mundo político é, para ele, um objeto no qual ele pode pensar mentalmente como
uma coisa que é distinta dele: “Aqui tem eu, fulano de tal, estou examinando, e lá está o Estado
brasileiro, com suas leis, seus costumes, suas regras, etc., a respeito dos quais eu penso isto, isto e
isto”. Essa ideia de que o Estado ou a organização social possam ser objetos a respeito dos quais
temos uma representação e cuja a representação temos uma opinião a respeito, isso, para um sujeito,
de cinco mil anos atrás era absolutamente impensável. Nesses impérios primitivos, não havia o
conceito da ordem social como uma coisa que era separada dos indivíduos que estão dentro dela.
Isso é o item nº 1 para entender o que é aquilo que nós podemos chamar de uma experiência primária
da existência.
O ser humano, desde que ele se vê existindo num planeta... Na verdade, em primeiro lugar, ele nem
sequer o concebe como um planeta. Vamos chamar este cenário no qual ele se encontra de cosmos,
no sentido de totalidade que o engloba, da qual ele faz parte, e a respeito do qual ele não pode ter
julgamento nenhum. Cosmos e existência, nesta etapa da vida humana, são exatamente a mesma
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coisa. Esse cosmos não se apresenta para ele nem como um caos total, uma desordem, nem como um
conjunto inteiramente inteligível. Ou seja, a busca da ordem nas suas ações, de modo a conseguir
[atingir] os seus objetivos, é idêntica, para ele, e é uma coisa só com a própria ordem do cosmos em
torno.
Quando um rei da antiguidade, um faraó, se considerava a si mesmo uma encarnação ou manifestação
de uma certa divindade, ele não estava fazendo isso do ponto de vista que hoje nós diríamos
“ideológico”, isto é, o sujeito tem um poder e em seguida ele quer justificar esse poder com um
discurso, isso simplesmente não existia. A distinção entre o poder e a divindade não existia, eram
exatamente a mesma coisa. O que são as divindades, nesse caso? São as próprias forças estruturantes
que aparecem em ação no próprio cosmos. Existe uma infinidade dessas forças. Existe, por exemplo,
o tempo. Todo mundo percebe que existe o tempo. Além do tempo, existe o espaço, existem as
transformações, existe a morte, tudo isso existe. O que quer que aja, o que quer que tenha ação dentro
do conjunto cósmico, é uma expressão dessas forças. Ninguém ali dentro se vê como um agente
autônomo que faz o que quer. Para o ser humano perceber o abismo que existe entre a vontade dele e
as forças em torno, precisou passar muitos milênios. A ideia de uma ação individual livre, quer dizer,
o cosmos inteiro está indo para um lado mas eu quero ir para o outro, foi uma longa conquista da
inteligência humana. O faraó egípcio, quando ele se considerava uma encarnação do deus fulano ou
beltrano, ele não estava construindo um raciocínio para justificar um poder do qual ele tivesse
consciente independentemente da presença do referido deus.
Esta identificação das forças criadoras e estruturantes no próprio tecido do cosmos coincidia com a
identificação da própria ação que cada um estava empreendendo. Nós podemos dizer que a
experiência do mundo, tanto numa tribo de índios quanto nessas civilizações que hoje diríamos
primitivas, se caracteriza pela constância com que busca no próprio cosmos a presença da ordem que
o estrutura. Nós estamos dentro de um cenário que é organizado, que tem uma coerência, que não é
um caos, uma névoa completa, mas que também não é facilmente inteligível à primeira vista, e nós
identificamos esta ordem, nós conseguimos inteligir algo dessa ordem na medida em que nos
identificamos com ela e sabemos qual é o nosso papel no conjunto. Cada ação humana, por pequena
que seja, está imediatamente vinculada a uma totalidade cósmica. Por exemplo, um sujeito que vai
plantar um pé de milho: não é ele quem está plantando o pé de milho, é o próprio ciclo de nascimento,
crescimento e morte da natureza que age através de mim. E, notem bem, esse tipo de intuição da
realidade, que associa tudo o que acontece ao conjunto cósmico, é uma intuição perfeitamente
verdadeira da realidade; de fato, as coisas são assim.
Durante toda uma fase da história humana nós podemos dizer que os seres humanos se dedicaram a
identificar as forças criadoras e estruturantes do cosmos mediante a sua própria participação nelas. E
é por isso mesmo que um rei podia se identificar com um deus, porque na verdade ele sabia que ele
sozinho não tinha se criado nem se posto na condição de rei, logo, algo o pôs. E é este algo que age
através dele.
Se interpretarmos o discurso de auto-identificação de um faraó como uma ideologia, um discurso
publicitário no sentido moderno, então voamos para longe da realidade. A possibilidade de, tendo um
certo poder, criar um discurso para justificá-lo a posteri de tal de modo que não haja conexão íntima
entre o discurso e o poder que ele visa a justificar, significa que o poder está livre do discurso, ele
pode usar o discurso – tanto que ele pode inventar um pretexto ou outro. Isso, hoje em dia, com os
governantes modernos, poderia soa como uma apelação a um discurso de legitimação teológica ou
um discurso de legitimação científica; dizer que ele está ali naquele cargo porque a evolução histórica
de determinada maneira exige que ele faça tal ou qual coisa – ele pode [ainda] trocar de discurso, mas
o faraó não podia.
O faraó não apreendia a noção do seu poder político como uma coisa separada das forças cósmicas
que tinham feito dele aquilo que ele era. A sua função de rei de fato não era distinta da corrente de
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ações do deus respectivo assim como o humilde gesto de plantar milho também não era distinto do
próprio ciclo de germinação, nascimento, crescimento e morte que abrangesse toda a natureza.
De um lado, vemos que a consciência do ser humano, nas mais simples ações da vida, implicava a
abertura para um cenário enorme. É nesse sentido que Heráclito dizia que “o mundo está cheio de
deuses”, quer dizer, os deuses não estavam ausentes em nenhuma ação humana.
É desta visão primária, ou primitiva, da natureza que surge a apreensão, a intuição de que as etapas,
os acontecimentos da vida humana, não sendo distintos da vida cósmica em torno, podem ter algo a
ver com os ritmos e ciclos da natureza e mais especificamente com os ritmos e ciclos mais facilmente
identificáveis, que são os ciclos planetários. Toda a concepção astrológica do universo, que está
presente em todas as civilizações, reflete isso aí. A maneira de descrever isso aí pode variar um pouco
de civilização para civilização – há vários sistemas astrológicos diferentes –, mas a intuição de base
é exatamente a mesma.
Nada é mais evidente do que o fato de que este tipo de intuição do cosmos não pode nem ser validada
por nós e nem impugnada. Porque todas as nossas observações, nossas ciências, etc., simplesmente
se constroem em cima de uma outra estrutura de visão cósmica diferente dessa, mas que de algum
modo a conserva, por assim dizer, numa espécie de subconsciente que continua se baseando nela sob
muitos aspectos.
Por exemplo, a ideia mesma de uma individualidade biográfica, de que um sujeito tem uma vida que
pode ser contada. Essa consciência biográfica se aprimora muito na Idade Moderna, a partir do século
XVIII mais ou menos, quando começam a aparecer narrativas e mais narrativas de vida e aparece
inclusive o gênero romance. De tanto contar suas vidas, os seres humanos acabam tendo a consciência
de uma forma ou de um esquema da sua vida individual que passa a constituir para eles uma realidade
autônoma e independente do resto. Mas quando se vê a vida como uma totalidade que pode ser
contada independentemente de qualquer referência a ciclos cósmicos, se faz isso precisamente porque
esses ciclos cósmicos já se incorporaram a tal ponto na cultura que não é preciso mencioná-los.
Quando se desenvolve essa capacidade maior de narrativa biográfica que faz o indivíduo moderno
sentir mais a autonomia da sua individualidade, ele conquista um novo conhecimento, sem dúvida,
mas esse conhecimento tem o efeito colateral de eclipsar o conhecimento antigo no qual ele se baseia.
Isso quer dizer que qualquer concepção moderna que tenhamos a respeito do homem, da sociedade,
etc., longe de ela ter superado qualquer cosmovisão antiga, ela se baseia nela e frequentemente não
passa de uma especificação, de uma particularização de certos domínios da realidade aos quais nós
dedicamos mais atenção e que por isso mesmo nos parecem mais reais do que o resto.
Esse fenômeno que nós chamamos Estado não é senão um dentro de uma série enorme de visões da
ordem social humana a partir de algum modelo primário tido como a experiência mais fundamental
da realidade.
Desses modelos primários, temos dois que são particularmente importantes. O primeiro é esse modelo
cosmológico ao qual nós estamos nos referindo, ou seja, no Egito, ou na Babilônia, ou na China
antiga, a ordem social não era vista senão como um aspecto dentro da ordem cósmica que ela refletia
a seu modo. Estando dentro da ordem cósmica, ela não é distinta da ordem cósmica, ela é um
prolongamento ou é uma espécie de microcosmo que imita o cosmos maior. Isso quer dizer que
ninguém se lembraria de fazer uma distinção, como nós fazemos hoje, entre acontecimentos de ordem
natural e de ordem social, pois é tudo a mesma coisa.
Por exemplo, se houvesse um terremoto ou uma crise econômica, ambos igualmente se veriam como
dependentes, ao mesmo tempo, da natureza e dos seres humanos. Hoje nós pensamos ao contrário:
“Não, nós não temos culpa nenhuma do terremoto, o terremoto é um fator externo à ordem humana”
9

– não é assim que nós pensamos? Já uma crise econômica, não. Essa pode ser causada pela ação
humana.
Isso quer dizer que na concepção moderna nós isolamos mais a natureza do cenário social e buscamos
conscientizar principalmente a diferença entre uma coisa e outra. Ao passo que no mundo antigo se
via mais a continuidade entre uma coisa e a outra. Uma dessas visões não é melhor do que a outra
nem mais real do que a outra, pois sempre haverá entre esses dois domínios, natureza e sociedade,
diferenças e semelhanças, continuidades e descontinuidades.
Para um habitante desses impérios antigos, uma catástrofe natural sempre teria algo a ver com o
mundo humano ao qual ela sobrevinha; nunca era uma coisa totalmente alheia e externa. Qual é de
fato a relação entre a ação humana e as catástrofes da natureza. Vocês sabem? Eu não sei.
Aluno: O desmatamento é uma ação humana.
Olavo: No sentido físico da causalidade, nós podemos causar catástrofes, é claro! Mas é só assim que
nós podemos causar catástrofes? Se existe efetivamente uma ordem cósmica e se as ações humanas
estão dentro dela, podemos causar desequilíbrios que são de escala muito maior do que o que nós
chamamos de “ecológico”, e atrairíamos, então, o que seria representado como a “ira dos deuses” –
que é apenas um símbolo de uma conexão causal desconhecida, que para os antigos era uma
obviedade e que para nós já se tornou mais difícil de identificar, mas da qual nós sabemos, na verdade,
tanto quanto eles, ou seja, nada.
Por exemplo, nós sabemos efetivamente se...
Qual é a dúvida lá atrás?
Aluno: Os antigos não sabiam que existia o movimento das placas tectônicas. Hoje nós sabemos que
os movimentos causam os terremotos.
Olavo: Não. Eu estou falando de uma coisa de escala muito maior, eu estou falando de ordem
cósmica; eu não estou falando de equilíbrio ecológico. Se existe de fato uma ordem cósmica, e se a
ação humana tem alguma relação com ela, então de fato pode haver algum princípio de conexão
causal entre ações humanas e desequilíbrios de escala muito maior do que planetária. Você sabe se
isso existe? Não. Você pode jurar se isso existe ou não? Não. E os antigos, podiam? Também não.
Apenas eles estavam habituados a prestar atenção nisso e nós não; nós nos voltamos de preferência
para outros fatores.
Agora, a ideia de que “Ah, eles não conheciam isto, mas nós conhecemos”, essa ideia geralmente é
errada. Sempre que dizemos isso, podemos também fazer o raciocínio contrário: “Eles conheciam
uma outra coisa que nós hoje não conhecemos mais” – sempre tem isso. Toda a história do
conhecimento humano vem junto com a história da ignorância. [Para] cada conhecimento que se
adquire, se perde outro, e frequentemente os universos antigos de conhecimentos se tornam
incompreensíveis para a nova geração sempre que essa adquire um novo conhecimento.
Por exemplo, quando se substitui a famosa visão ptolomaica geocêntrica por uma visão heliocêntrica:
ora, o cenário da vida humana é essencialmente geocêntrico e, mais ainda!, ele se dá numa Terra
imóvel: nenhum ser humano é capaz de percorrer a mínima distância calculando o desvio atribuível
à rotação da Terra – nunca ninguém fez nada que historicamente exigisse esse cálculo. Para fins
históricos, a Terra é imóvel, porém, a Terra, considerada como planeta, não é imóvel. Acontece que
planeta não é um conceito historicamente válido; é conceito um astronômico, isto é, muda-se de escala
de observação.
Para aqueles indivíduos que observavam o desenrolar da vida humana em cima de uma Terra imóvel,
entre eles e nós, a diferença é que nós também continuamos agindo na Terra imóvel, só que, na aula
10

de geografia, nos lembramos que ela é móvel. Toda a cosmovisão antiga continua embaixo disso tudo
e funcionando do mesmo jeito. Existe sempre a ilusão de que com um novo conhecimento, quando
se muda a escala de observação, passou-se da falsidade para a verdade, e isso, sim, é uma falsidade.
[Por exemplo], aquele famoso físico, Sir Arthur Eddington, chegava nos alunos e dizia: “Vocês
pensam que isto aqui é uma mesa, mas eu, que sou físico, sei que é um aglomerado de átomos”. Ao
que se poderia responde-lo: “O senhor pensa que isto é um aglomerado de átomos, mas eu que estou
vendo de fora sei que é uma mesa” – só que ninguém ousava responder isto na época, né. Com isso
ele estava dizendo que a visão macroscópica dos objetos, numa escala de percepção correspondente
ao tamanho do corpo humano, é falsa, e que só é legítima a visão microscópica da ciência física.
Agora, seria possível que Arthur Eddington se sentasse e lecionasse numa mesa vista na escala
microscópica da ciência física? Ele não poderia fazer isso! Então, aí há simplesmente uma mudança
da escala de referência. E a mudança de escala de referência não pode ser nem mais verdadeira e nem
mais falsa. No entanto, nós estamos habituados com isso, que evidentemente não faz parte da estrutura
do conhecimento científico, mas faz parte da ideologia científica.
Aí já não é a ciência como conhecimento, mas a ciência como exploração de prestígio e instrumento
de poder sobre as multidões de babacas que acreditam que realmente o físico conhece a estrutura da
realidade melhor que eles. A estrutura da realidade é oferecida uniformemente a todos os seres
humanos; todos os seres humanos vivem dentro da mesma estrutura da realidade e têm igual acesso
a ela por diferentes meios. O que difere de um ser humano para outro é apenas o modo como ele a
expressa e as partes dessa estrutura às quais ele presta uma atenção mais diferenciada, as quais ele
costuma considerar mais reais do que as outras. Sempre que se muda de escala, de perspectiva de
observação, o quadro inteiro aparece de uma outra maneira e nenhuma dessas maneiras é
necessariamente mais legítima do que a outra.
Para o estudo da ciência política, isso é absolutamente fundamental. Não vamos entender uma única
instituição da antiguidade se não formos capazes de nos transpormos a uma visão de estrutura cósmica
tal como eles vivenciaram na época e tal como simbolizavam através dos seus mitos e rituais e das
suas próprias instituições.
Por exemplo, existe um livro muito interessante de Mircea Eliade chamado O Mito do Eterno Retorno
no qual ele estuda uma infinidade de ritos da antiguidade que tinham por finalidade neutralizar a
passagem do tempo e devolver o cosmos à sua origem – nós ainda temos isso [em nossa cultura]:
nossas festas de ano novo são isso, sua festa de aniversário é isso. O tempo corre sempre em linha
reta; ele não volta. Através de determinados ritos faz-se como se o ciclo tivesse sido fechado e
estivesse começando de novo. Então, esses ritos tinham uma finalidade regeneradora. Por meio deles
a sociedade retornava à consciência da origem de todas as coisas e sentia que, com esse retorno,
estava não apenas revigorando as suas possibilidades, mas o próprio cosmos fisicamente considerado.
Eles estavam certos ou estavam errados? Vocês podem me dizer se eles estavam certos ou errados?
Podem dizer: “Mas isso é uma estupidez! Como é que eles podiam, através de um rito, regenerar o
cosmos? Como é que eles podiam retornar a origem do tempo?” – bom, vocês conhecem a origem do
tempo? Não. E eles também não.
A visão de um cosmos que existe dentro do tempo e que se desgasta irreversivelmente é tão justa
quanto uma visão que acredita numa restauração periódica. Você escolhe uma ou outra: se você
escolher de um jeito, as coisas vão aparecer de uma certa maneira, se escolher de outro, as coisas vão
aparecer de outra maneira. A única vantagem que nós temos de ter vindo [historicamente] depois [dos
antigos] é precisamente que nós podemos saber a articulação das duas [cosmovisões]. Porém, se nós
aderirmos à visão mais moderna e acreditarmos que ela superou a antiga, então deixamos de
compreender a antiga – nesse caso, não avançamos no conhecimento: simplesmente substituímos um
referencial por outro.
11

A vantagem da passagem do tempo e a vantagem de se viver num tempo [historicamente] posterior é


apenas a possibilidade da comparação, de modo que se conserve as possibilidades cognitivas antigas
e acrescente as novas. Entretanto, sempre que se [adquire] uma nova, se se apaga as antigas, então
não se ganhou nada, ao contrário, criou-se uma ilusão terrível: a de que nada aconteceu de importante
antes de sua chegada ao mundo ou antes do advento das ideias nas quais [atualmente] se crê – nesse
caso, as pessoas são idiotas mesmo!
Qualquer pajé que faça um rito para o tempo voltar a sua origem é mais esperto do que elas, pois pelo
menos ele sabe que o tempo tem uma origem que não é ele, enquanto que as outras pessoas acham
que a origem do tempo são elas. Com isso, há um permanente, aliás, cíclico apagamento da
consciência histórica. Perde-se as possibilidades culturais imaginativas das etapas anteriores e
aprisiona-se dentro de um universo que elas próprias criaram e que para elas passa a ter valor absoluto.
Por exemplo, nós acreditamos que superamos o geocentrismo porque descobrimos o heliocentrismo:
bom, descobrimos o heliocentrismo, mas ele só vale numa certa escala. Podemos observar, por
exemplo, que todos os mapas de navegação do mundo ainda são feitos com um referencial
geocêntrico; ninguém vai navegar para fora da Terra: a representação heliocêntrica seria
enormemente complicada e totalmente inútil. Portanto, digamos, a verdade não é nem geocêntrica e
nem heliocêntrica: é uma simples mudança de referencial.
Na verdade, ninguém, absolutamente ninguém, é capaz, até hoje, de dizer em torno de que se move
o cosmos inteiro. Se pegarmos um pedaço [do cosmos], podemos dizer que esse pedaço orbita em
torno de algo, mas, se ampliarmos [o campo de visão], veremos que esse movimento é puramente
ilusório, pois na verdade enquanto um está girando aqui, ele está descrevendo um outro movimento
em relação a um outro ponto e, então, aquela curva virou espiral. Se ampliarmos mais ainda [o campo
de visão] a espiral vira outra figura mais complicada ainda, e assim por diante.
O único motivo que nós teríamos para ter um certo sentimento de superioridade em relação aos
antigos seria se, aos novos conhecimentos que nós adquirimos, nós somássemos a conservação do
que eles tinham antes. Ou seja, sabemos o que eles sabiam e sabemos o que nós descobrimos depois.
Mas se só sabemos o que descobrimos depois e esquecemos o que eles tinham antes, então nós
estamos é reinventando a roda – isso é uma causa constante de queda das discussões científicas,
políticas, etc., para um nível pueril. Cada vez que acontece uma dessas revoluções do conhecimento
– “Ah! Descobrimos tudo de novo” –, o que acontece é que, entusiasmados com a nova descoberta,
eles perdem de vista a unidade da realidade, a unidade da existência humana e a unidade da
experiência do cosmos; eles esquecem que ainda estão vivendo no mesmo cosmos em que viveu o
homem de Neandertal, e daí passam a viver no cosmos fictício de sua própria invenção. Vocês
entendem a gravidade desse processo? [1:00]
Isso evidentemente é um motivo permanente de emburrecimento, de perda de consciência e da
proliferação de charlatanismos sem fim que, durante um certo tempo, terão até um prestígio científico
ou filosófico considerável pelo menos para certos grupos de pessoas.
Ora, se nós nos voltamos para esses assuntos sobre as instituições da política em busca de um
conhecimento científico válido a respeito, então obviamente nós temos de nos livrar não somente das
armadilhas mitológicas antigas mas também das modernas. A única maneira de fazer isso é
precisamente articulando o que se sabia antes com o que se sabe depois – exatamente como fazemos
em nossas vidas.
[Interrupção na aula]
...você entra na adolescência. Quando você entra na adolescência, evidentemente, você adquire novas
emoções, uma nova vivência etc. Isso apaga a sua infância? Não apaga de jeito nenhum. Ela
12

[continua] lá dentro e frequentemente as emoções infantis ainda continuam se agitando dentro de


você, apenas elas são conscientizadas com outros nomes.
Na chamada evolução dos conhecimentos, frequentemente a comunidade intelectual e científica age
precisamente como uma pessoa que a cada nova idade da sua existência se esquecesse da etapa
anterior. Existe um livro, que eu recomendo, que é do Jean Fourastié – Les Conditions de l'Esprit
Scientifique – em que ele propõe precisamente, junto com a história da ciência, a história do
esquecimento, a história da ignorância. Quando começamos a desencavar aquilo que foi esquecido,
perdido, vemos que [o volume] é uma monstruosidade. Evidentemente se isso não tivesse acontecido,
perguntas científicas que continuam sem resposta já poderiam ter sido respondidas há muito tempo.
Resgatar, recuperar essas possibilidades cognitivas antigas é uma condição sine qua non para que
tenhamos consciência da unidade do real e da unidade do campo de experiência humana; só tendo
noção dessa unidade é que podemos comparar uma coisa com a outra e chegar a alguma inteligência
do conjunto.
Quando dizemos que o Estado, no sentido moderno, não é senão uma das múltiplas versões da ordem
social que foram criadas com base em sucessivos modelos ao longo do tempo, é preciso ver que, se
nós olharmos as formações anteriores à luz do modelo [de] Estado [atual], nós estamos falseando
tudo. Porque é o Estado que nasce delas e não elas do Estado; elas não são um tipo de Estado, o
Estado é que é um tipo delas.
Nós sabemos, por exemplo, que um tigre e um gato têm diferenças entre si, porém elas remetem a um
tipo comum, que não é nem um nem outro, e que nós chamamos de espécie “felina”. Mas nós sabemos
isso, por quê? Se nós primeiramente descobrimos o gato e depois descobrimos o tigre, nós não caímos
na esparrela de abolir a existência do gato. Se fizéssemos isso, jamais chegaríamos à noção da espécie:
cada novo exemplar, cada nova variedade que nós descobríssemos, apagaria as anteriores. No entanto,
nós fazemos isso em história e em ciência política.
Quando nós descobrimos, por exemplo, o Estado, nós passamos a encarar as formações anteriores
como se fossem tipos de Estado, ou só as inteligimos através da comparação com o Estado. Isso é um
erro muito grande porque, pelo fato de que elas vieram antes, elas têm uma força originadora, causal,
sobre o surgimento do Estado, e não o contrário. É por isso que eu me proponho a compreender o
Estado desde esta vivência primária da ordem social como expressão da ordem cósmica, e não o
contrário.
Do ponto de vista do Estado moderno, qualquer governante que diga que a palavra dele é uma
fatalidade cósmica, ditada pelos deuses, será retirado do cargo e internado. Como é assim, então nós
acreditamos que os faraós estavam loucos e nós só os perdoamos da sua loucura dizendo que eles
eram seres primitivos, que eles não tinham os maravilhosos conhecimentos que nós temos etc. Não é
isso que geralmente nós fazemos? Só que isso é falsear totalmente a ordem das coisas, porque o faraó
não estava tentando fazer um Estado moderno, no qual a separação do fator sócio-histórico e natural
é absoluto. Ele estava tentando fazer exatamente o contrário: ele estava tentando captar a inserção da
sociedade na ordem natural e é justamente porque eles obtiveram algum sucesso nisso que em seguida
nós podemos fazer uma separação – desde que não tomemos esta separação como absoluta.
Estão acompanhando esse raciocínio ou estou indo muito depressa?
Aluno: Dessa forma, então, daqui a dois mil anos pode ser que haja um novo tipo de organização
social que nos enxergue da maneira errada, nós enxergue como um povo primitivo.
Olavo: Claro! A gente sempre cuspiu no passado, portanto, jogamos fora todos aqueles
conhecimentos do passado que constituem a base do presente, ou seja, estamos continuamente
serrando o galho em que estamos sentados. Se você aprende uma coisa nova à custa de esquecer todas
as anteriores, então, como resultado [disso], você acaba perdendo.
13

A noção de progresso do conhecimento exige que os conhecimentos anteriores sejam conservados, e


não substituídos. Senão, é como um sujeito que, a cada novo capítulo do livro que ele escreve, apaga
todos os capítulos anteriores – ele nunca sai do capítulo nº 1. Isso realmente acontece! Durante os
últimos duzentos ou trezentos anos, esse foi o vício estrutural da compreensão histórica que o ocidente
tem do universo. Estão continuamente e sucessivamente apagando [o que os precedeu], porque
acreditam que tiveram acesso a uma verdade fundamental – mesmo quando essas “verdades” não são
sequer provadas, mesmo quando são meras hipóteses.
Para vocês terem uma ideia: quando Newton cria a concepção mecanicista do universo, ele está
fazendo uma analogia entre o conjunto cósmico – do qual ele abstrai umas certas partes que não lhe
interessam – e uma máquina, um relógio, por exemplo. Ou seja, o cosmos virou uma espécie de
relógio. O que é isso senão uma analogia entre o cosmos e a ordem humana? Porém, não considerada
no seu todo, mas apenas num de seus produtos mais insignificantes. Então, entendemos que o
mecanicismo inteiro não é senão uma metáfora, uma figura de linguagem: uma construção poética
tornada mais elegante pela matematização dos seus componentes. Entretanto, o fato de [os
mecanismos] serem matematizados não os torna mais reais; é apenas uma analogia, bonita, muito
bem-feita, entre um produto da ação humana, que é um relógio, e algo que ele encontrou pronto, que
é o universo. Só tem um problema: os relógios foram feitos dentro desse universo, isto é, o relógio é
uma realidade cósmica entre outras – os relógios e as outras máquinas – e eles não existem num extra-
universo ou num universo paralelo, eles existem neste [universo] mesmo. Logo, para que o modelo
mecanicista valesse não como metáfora e sim como realidade científica, seria preciso também que
ele explicasse a própria existência do relógio e explicasse porque alguém teve a ideia de criar um
relógio.
Hoje em dia, o modelo mecanicista está superado: partimos para o modelo informático. Existem
milhões e milhões de teses de modelos informáticos do cosmos. O sujeito descreve o cosmos como
um programa de computador; a diferença é que o programa de computador foi ele mesmo quem
inventou. Tudo isso são metáforas, ou analogias.
Ora, o faraó, quando associava o seu poder imperial ao poder da divindade que o sustentava e que ele
expressava, ele estava fazendo o quê? Uma analogia ou metáfora. Portanto, o procedimento cognitivo
era exatamente o mesmo. Mais ainda!, se um sujeito disser que o sucesso tecnológico prova a sua
tese, então a do faraó está muito mais comprovada. Por quê? Porque o sistema egípcio durou cinco
mil anos. [Em contrapartida], a analogia informática não vai durar mais vinte: daqui a vinte anos
surge outro modelo e isso muda.
Isso é para vocês verem que absurdo, que coisa aberrante que é essa pretensão: “Ah, hoje nós sabemos
isso, na época não se sabia” – é verdade, hoje nós sabemos uma coisa que eles não sabiam, mas eles
também sabiam coisas que hoje nós não sabemos.
Vamos lá.
Aluno: Então eu tenho que acreditar que, mesmo o que é provado cientificamente hoje, eu tenho que
ter em conta de que aquilo é especulação também?
Olavo: Não. Dentro dos limites do campo científico determinado você pode dizer até que a coisa é
verdadeira. O que é conjectural é a sua inserção no corpo geral do conhecimento e, portanto, o próprio
valor da descoberta; uma descoberta científica pode ser inteiramente verdadeira, mas não ter
importância nenhuma, ser um flatus vocis, ser uma bobagem.
Aluno: Mas no futuro, quando eles puderem comparar o nosso conhecimento hoje e o conhecimento
passado, podemos comparar com hoje?
Olavo: Certamente eles nos desvalorizarão um bocado.
14

Aluno: Bastante, não é?


Olavo: Se fizerem essa comparação e se não caírem no mesmo erro nosso, ou seja, descobrem outras
coisas e esquecem o que nós sabemos – isso pode acontecer também. Só que, se existe alguma coisa
que realmente se ganha no curso desse processo, é justamente a consciência da necessidade de
comparar uma coisa com a outra e de não perder nada – isso aí se ganha realmente. Nós podemos
comparar o nosso conhecimento com o dos egípcios e eles podiam fazer [também] outra comparação,
mas [com outro conhecimento], com o nosso, eles não podiam. Então, de fato, nós podemos subir um
pouco acima deles – mas muito menos do que alguns imaginam –, mas com a condição de que não
percamos o que eles tinham.
Essa visão do cosmos, como uma unidade na qual tudo estava ligado com tudo e tudo de certo modo
tinha uma analogia e representava outra coisa, foi uma conquista absolutamente indispensável da
civilização. Se nós a perdemos, perdemos o sistema das analogias e começamos a fazer analogias
fortuitas entre partes e partes desconectadas umas das outras. Ora, as analogias feitas pelos antigos
tinham pelo menos este critério: se se compara uma coisa com outra, essa comparação nunca é feita
isoladamente; se isso corresponde àquilo neste plano, aquilo corresponde a outra coisa, e a outra, e a
outra, etc., em todos os planos – portanto, deve haver um senso de organicidade do mundo das
analogias. O sistema das analogias, o sistema dos símbolos, a organicidade e inteireza do sistema de
símbolos, era uma garantia da inserção na realidade, pois nada está fora desse sistema. Se perdemos
a noção dos sistemas de analogias, começamos a substituir as analogias por meras metáforas ou
figuras de linguagem, ou seja, [por] comparações fortuitas que só valem para fins da linguagem
humana e que não têm um fundamento na realidade.
Por exemplo, comparemos o cosmos a um relógio. Como comparamos a uma máquina que nós
mesmos a construímos, então a comparação pode ser mais meticulosa e mais exata do ponto de vista
matemático, e quanto mais exata, mais absurda ela será, porque tanto mais estará desligada do
conjunto da realidade. Mais ainda, como a construção daquela analogia mecânica deu ao sujeito muito
trabalho, e como tão logo ele a publica ele fica famoso, as pessoas começam a achar que aquela
fórmula, aquela comparação que ele descobriu, além de servir para aquele domínio em que ele a
aplicou, pode servir para outros: “Se o cosmos é um relógio, quem sabe [se] eu mesmo [também] sou
um relógio? E quem sabe as tartarugas, vacas e etc. são outros tantos relógios? Pensando bem os anjos
e o próprio Deus também. Deus pode ser comparado a um relojoeiro, por exemplo. O relojoeiro
constrói o relógio e Deus construiu o mundo como um relojoeiro” – Ele o construiu, dá corda [no
relógio] e vai dormir. [risos]
Começam a construir uma sequência de teorias absolutamente imbecis, porque a metáfora da qual
partiram, sendo isolada, não tem noção dos limites dela dentro do campo da realidade. Uma coisa é
dizer que o universo, o cosmos, provavelmente tem aspectos mecânicos, que para serem reais é
preciso que sejam combinados com outros aspectos, com outras analogias que já não serão tão
mecânicas assim, ou que pelo menos não dirão respeito a um relógio, mas a um outro equipamento
qualquer, bom, pode se dizer que sob um aspecto parece um relógio, mas sob outro aspecto pode
parecer um motor a explosão, ou um motor elétrico, ou um computador etc. Em suma, a analogia só
é uma autêntica analogia, funcional, quando ela está inserida num sistema de analogias que, em
princípio, pode-se expandir infinitamente em todas as direções. Ora, esses sistemas os antigos tinham,
mas nós não temos. Resultado: nós construímos analogias fortuitas e nos esforçamos para lhes dar
exatidão matemática, porém isso só vale dentro do quadro referencial criado por essa comparação em
particular.
Depois se descobriu que a mecânica de Newton só funcionava para certos setores da realidade e, mais
ainda, mesmo dentro desses setores, era preciso abstrair outros vários. Em suma, se se conservasse
do universo só aquilo que se parecia com um relógio, ele se pareceria terrivelmente com um relógio
– isso vale também para os modelos de informática: se abstrairmos tudo aquilo que do universo [não]
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se parece com um programa de computador, ele ficará tremendamente parecido com um programa de
computador. Nós nos consolamos dessa miséria conceitual mediante a elegância matemática: usamos
equipamento lógico-matemático de alta precisão para lidar com conceitos absolutamente grosseiros
e pueris. Por isso, do ponto de vista da formalização matemática, nós buscamos a máxima perfeição,
mas, do ponto de vista conceitual com os quais estamos lidando, estamos usando-os magicamente –
a exemplo, o mecanicismo.
Ora, qualquer sacerdote egípcio ou babilônico, ao fazer uma comparação entre uma coisa e outra,
sabia que essa comparação dependia de outra, e de outra, e de outra etc. Por exemplo, tomemos como
exemplo os conceitos do yang e do yin chineses, que seriam dois processos coexistentes: um, o yang,
é um processo criador, ativo e infinitamente expansivo, o outro, o yin, é responsivo, adaptativo e
amoldável. Qualquer chinês sabia que, o que quer que existisse, como essas eram as forças macro em
ação no universo, elas só existiam como tais no plano da realidade inteira e que, portanto, dentro do
cosmos, nos planos mais particularizados da realidade, nada poderia ser yang ou yin, mas cada coisa
iria ter uma dosagem enormemente complexa que era yang, sob certos aspectos, e yin, sob outros
aspectos; esses aspectos, conforme o plano, se mudam, e assim por diante. Eles jamais fariam
comparações taco-a-taco, do tipo “Está aqui o cosmos e está aqui o relógio”; eles sabem que as
comparação dependem de outras comparações, e que dependem de outras etc., de tal modo que o
universo simbólico, o universo das analogias expresse com a maior riqueza possível a própria riqueza
do cosmos dentro do qual nós estamos – eles sabiam fazer isso.
Ora, o que é mais importante: saber fazer isso ou saber fazer uma comparação fortuita qualquer e
torná-la matematicamente exata? As duas coisas podem ser importantes, mas uma não pode substituir
a outra. Do ponto de vista antigo, a comparação do cosmos com o relógio é fortuita e, pensando bem,
é absurda, pois se está comparando o cosmos apenas com uma parte dele e, mais ainda!, uma parte
que nem sequer tem existência em si, mas que foi criada pelo arbítrio humano.
Além do mais, de onde surgiram os relógios? Eles não surgiram dos movimentos planetários? Fizeram
o relógio para ele imitar o tempo de um movimento planetário, no entanto, em seguida, dizem que os
movimentos planetários o imitam: opa!, isso aí já é esquizofrenia – e da braba, hein!, pois realmente
está se trocando sujeito e objeto aí. Contudo, como a paranoia é matematicamente exata, acham que
ela é muito científica.
Nós [não] lidarmos com conceitos da ciência física, lidamos com os conceitos da ciência política,
[porém], cometemos barbaridades ainda piores. Uma delas, por exemplo, é explicar a identificação
do faraó com o deus como se fosse um discurso de auto-justificação ideológica.
Quando Napoleão se auto-coroa imperador e diz que vai governar daí para diante em nome de Deus,
ele sabe que está fazendo isso em nome próprio, mas, se ele disser que é em nome de Deus, sabe ele
que “pega” melhor; ele é capaz de conceber o poder político dele por um lado e o poder de Deus por
outro como coisas absolutamente distintas e imaginar o prestígio dos dois, enquanto coisas distintas,
para em seguida criar uma fusão. Isso é exatamente o que o faraó egípcio não podia fazer, porque
todas as comparações e todas as analogias estavam dentro de um sistema.
Se não fosse essa penetração simbólica na rede de analogias cósmicas, nós não teríamos a menor
noção do cosmos como totalidade e muito menos da sociedade como totalidade. A concepção
cosmológica da sociedade continua perfeitamente válida, embora já não possamos nos contentar
somente com ela, temos de ter, além dela, mais alguma coisa. O principal limite dessa concepção
cosmológica aparece de duas maneiras.
A primeira é esta ideia mesma de ciclo: quando, ao fim do ciclo, se retorna ao ponto de partida e
através de um ritual todas as possibilidades que tinham sido perdidas ao longo do ciclo são resgatadas,
como num novo nascimento, numa nova inauguração do mundo, nunca se tem certeza de se a coisa
realmente funcionou, pois se vê que, tanto na natureza quanto na ordem social, algumas coisas se
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renovam e outras não. Não é verdade que para cada morte corresponde um nascimento – às vezes,
para cada morte, corresponde um nascimento, porém não da mesma coisa e sim de outra. Por exemplo,
quando morremos, nasce um monte de vermes em nossos corpos: essa é a vida deles, não é a nossa.
Ademais, há um outro problema, o problema da memória coletiva. Para que os impérios funcionem
e continuem ao longo do tempo, é necessário que eles tenham algum registro. Assim, começam a
surgir registros históricos daqui e dali; os da China, por exemplo, são bastante meticulosos, e os do
Egito também. Com esses registros, acabamos por ver que não houve ciclo de maneira nenhuma,
houve sim uma continuidade linear, [e não circular]. Desse modo, acabamos desenvolvendo uma
consciência de tempo histórico que vai diretamente contra a antiga concepção cíclica do universo –
aí estamos nós com um problema. Já na própria concepção cíclica, tínhamos um outro pequeno
problema: se o cosmos percorre um ciclo e em seguida é devolvido a sua origem, ele está funcionando
mais ou menos em ciclo fechado – e aqui surge o problema da origem – e sendo assim “Como, então,
tudo isso começou?”.
Vejam, quando realizamos o rito, no fim do ano, e devolvemos tudo à origem, essa origem já está no
tempo, mas e a origem da origem? O começo do processo dos ciclos, de onde veio isso? Quer dizer,
todo o universo dessas sociedades organizadas na base da concepção cosmológica, todas elas têm o
angustiante sentimento de estar boiando dentro do nada; todos os seus ritos de restauração do tempo
primordial [justificam-se porque] eles tinham um verdadeiro pavor da dissolução. Por quê? Toda a
realidade se assenta num fundamento que está na origem e como, através do rito, eles voltam de novo
a essa origem, a coisa funciona num circuito fechado. E o que está para além do circuito fechado?
Para além do circuito fechado só existe o nada. A presença obsidiante desse nada era um elemento
constante; esse temor, esse horror da dissolução que perpassa a civilização egípcia, babilônica,
chinesa, etc., todos elas, o têm.
Ademais, à medida que os registros históricos progridem, surge a necessidade de se articular a
narrativa humana conhecida – “Primeiro reinou o rei fulano de tal, depois veio outro e teve uma
batalha aqui etc. – com a ideia da origem. Assim, articulam a narrativa dos acontecimentos humanos
que conhecem, que foram registrados no papel, com relatos de uma origem que de fato não conhecem.
Há, então, a origem mítica, “aqui estão os deuses, Urano, que gerou Saturno, que gerou Júpiter, que
gerou Marte etc.”, e daí vem Júlio César, que passou a coroa para fulano de tal, que a passou para
outro, e outro, e outro etc. Houve, então, evidentemente, uma passagem de nível.
Ora, quando isso acontece, a própria origem mítica acaba estando presa dentro de uma lógica linear
e não há civilização cosmológica que tenha solução para isso. Só com os judeus é que se descobre a
saída disso: quando se apela para a ideia de que o fundamento não está na origem, mas na eternidade,
no supratempo, ou seja, em algo que não está dentro do cosmos, mas que o transcende infinitamente;
o cosmos boia dentro do nada, ele busca seu próprio fundamento na origem, mas sobra sempre a
incerteza, a angústia de que o cosmos retorne à origem, porém, se a própria origem está dentro dele
e pode ser resgatada por um rito dentro dele, então não se sabe exatamente se esta origem é o
fundamento.
Primeiro com os profetas hebraicos e depois com os filósofos gregos, aparece a ideia de que o
fundamento do real não pode ser cósmico, tem de estar fora e acima de todo o cosmos existente; o
cosmos, por assim dizer, não está dentro do existente, está num supraexistente [1:30] ou em um
existente que é a eternidade.
Essa é uma descoberta científica da mais alta importância. É isso que permite que o ciclo mítico e o
sistema dos símbolos e analogias sejam transcendidos em vista de um tipo mais permanente de
ciência. Toda a ciência que aparece com os gregos está baseada num tipo de verdade que não é
cósmica, mas supracósmica: a própria ciência da geometria, onde aparece as relações geométricas,
não é cósmica, ela independe desse cosmos – ou de qualquer outro. A partir daí se busca um tipo de
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verdade que não seja a própria vida do cosmos, mas que transcenda essa vida, uma verdade que seja
eterna e que condicione o próprio cosmos; todas as ciências buscam isso até hoje.
Estes dois momentos – a civilização cósmica e a descoberta da transcendência ou eternidade – estão
na base do conhecimento que nós temos. Nós não podemos progredir para fora disso, só podemos
progredir em cima disso, conservando esses dois momentos. Por quê? A descoberta da transcendência
não abole o tecido das relações analógicas percebidas dentro do cosmos, isto é, não apaga o cosmos,
esse não se torna irreal simplesmente porque se descobriu uma verdade eterna e transcendente para
além dele; o cosmos continua sendo o campo no qual nós vivemos, nós continuamos vivendo dentro
do tempo-espaço desse.
Entretanto, o impacto da ideia de uma ciência voltada para a verdade eterna é tão grande, mas tão
grande, que a partir daí os caras começam a achar que eles transcenderam a representação
cosmológica: temos aí mil e quinhentos anos de história da ciência, da civilização moderna, dedicados
a soterrar a representação cósmica a tal ponto que a visão do cosmos no sentido antigo, como
totalidade interligada, desaparece completamente da cultura e, em nome [dessa] nova da ciência –
que tem um grau de abstração muito maior do que a antiga, certamente, e que pode ser matematizada
etc. –, se reduz o cosmos, enormemente rico no simbolismo da mitologia antiga, a um relógio! – aí,
de fato, mataram a natureza; a natureza do cosmos virou apenas uma máquina que pode ser de certo
modo compreendida na sua estrutura total e pilotada, manejada como [se essa fosse] um relógio. Isso
dura mais ou menos até o século XIX: as contradições internas do sistema mecanicista acabaram se
avolumando de tal modo que já não era mais possível escondê-las.
Esse é o ponto da história em que nós estamos: na crise do sistema mecanicista e não temos nenhum
[outro] para substituí-lo. Desse modo, o pessoal improvisa o quê? Eles começam a ler uns livros
antigos de cosmologia etc., e procuram criar uma visão ecológica, ou seja, resgatar a noção da unidade
da natureza etc. Mas o que eles querem fazer imediatamente com isso? Tão logo [percebem que havia
antes uma concepção] cosmológica e que depois se passou para uma da verdade transcendente, agora
[eles pensam] ter descoberto a realidade ecológica: é o ecossistema, é o enfoque sistêmico, é a
interdisciplina, é o culto de Gaia. O que fazem, então? Apagam a verdade transcendente, sobretudo
na sua expressão religiosa, e emburrecem ainda mais formidavelmente do que quando o fizeram no
tempo do mecanicismo.
Aluno: Eu, na minha opinião, isso são ciclos: isso vai acabar daqui a duzentos ou trezentos anos...
Olavo: Você é um profeta! [risos] Chega! Nem precisa falar mais se vai acabar ou não. Isso é um
chute. Veja, na hora em que você entrou nesse curso aqui... Escute, opinião é uma coisa, ciência é
outra. Se são ciclos ou se não são, como é que você vai saber, meu Deus do céu?
Aluno: Olhando para trás.
Olavo: Ah! E houve algum ciclo que voltasse?
Aluno: Apareceram novos. Pela aula que eu estou ouvindo há uma hora...
Olavo: Mas se apareceram novos, não são ciclos! Ciclo é o que volta.
Aluno: Não nesse sentido.
Olavo: Se não existe retorno, não há ciclo, há uma nova etapa. Essa nova etapa se dá dentro de uma
escala de tempo linear ou se dá dentro de um tempo cíclico? Ou numa tensão insolúvel entre os dois?
Eu não sei, então não venha com essa certeza “Ah, são ciclos!”, pois nós não sabemos exatamente.
[Pancada na mesa] Olha aqui, menino! Se você fica brabinho quando é contrariado, eu te expulso
desse curso é já!
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Aluno: De maneira alguma, de maneira alguma...


Olavo: Isso é infantilidade, é puerilidade brasileira, “Ah, eu acho isso, eu acho aquilo” e fica brabinho
quando é contrariado. Que estupidez! Uai? Se sabe que as coisas não são assim, então por favor me
explique, terei todo prazer de aprender com você. Agora se simplesmente não gosta e fica brabinho,
então não está qualificado para este curso!
Eu estou fazendo isto aqui com o máximo de seriedade possível, num nível que geralmente a
universidade brasileira não exige de ninguém. Nesse sentido, esse curso não deixa de ser um
experimento – que pode, sim, ser até traumático na universidade brasileira. [risos]
Então, é evidente que todo esse processo que eu estou descrevendo é enormemente complexo. A
quantidade de material, de documentos que vocês precisariam ler e estudar, até para conferir se isso
é assim do jeito que eu estou dizendo ou não, é muito grande – eu espero realmente que o façam ao
longo do tempo, mas até o momento eu tenho a impressão de que essa explicação dá conta do conjunto
do material existente.
Ainda é muito cedo para a gente dizer se essa nova concepção ecológica etc. corresponde às suas
pretensões de ser uma nova era ou se isto é apenas um fenômeno cultural superficial e uma espécie
de “confissão de fracasso” – para mim, me parece, ser mais esta última [opção], pois o que mediria o
sucesso nisso seria a capacidade de integrar as duas etapas anteriores numa explicação maior. O
simples fato de estarmos nos sentindo mal dentro do mecanicismo e querermos achar uma saída mítica
para ele – como, por exemplo, o Paul Feyerabend faz e tantos metodologistas hoje fazem – é em si
uma confissão de fraqueza; não estamos sabendo resolver o problema e não somos nem capazes de
confessar que não sabemos, por isso, inventam uma saída que alivia, de algum modo, à custa de
esconder parcelas imensas do problema.
Querem fazer um intervalo?
Alunos: [Queremos comer algo.]
Olavo: Por mim estariam todos aí comendo, ora.

***

...se um homem e uma mulher têm relações sexuais, eles estão entrando dentro de uma cadeia causal
que remonta às primeiras gerações. O código genético que está em você, e que vai se misturar com o
dela, não apareceu com você; você está entrando na cadeia de gerações, portanto é evidente que é um
acontecimento que, a rigor, está na escala cósmica.
Como é que nós pudemos partir desta visão cósmica, que está aberta para a totalidade do cosmos e
que admite em cada ação humana um conjunto simultâneo de interferências de escala cósmica,
fazendo com que, por exemplo, o faraó perceba, na sua própria ação, a ação do deus que o constitui
como faraó? Não é que deus causou aquilo no faraó, não, deus está agindo através dele naquele
mesmo momento, porque, individualmente, não foi ele que construiu o reino, e no entanto o reino
está na mão dele. Ou seja, esta abertura de escala é que caracteriza a visão das sociedades
cosmológicas. Para que isso pudesse fechar foi necessário que abrisse se um outro sentido, quer dizer,
só na hora em que a escala cosmológica por ser, por um lado, fechada dentro de um ciclo e, por outro
lado, contraditada pelo fluxo do tempo linear, foi só quando essa contradição se tornou insuportável,
que apareceu efetivamente a consciência de que o fundamento do real não era cósmico, mas
supracósmico; de que ele não estava nem no tempo e nem num ciclo, mas na eternidade, na absoluta
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imutabilidade; de que não estava dentro de uma escala sequer cósmica, mas numa escala infinita –
bem, é isso que chamamos de “a descoberta da transcendência”.
Ora, pela descoberta da transcendência, qualquer indivíduo que tenha tido acesso a ela está colocado
instantaneamente numa escala de realidade infinitamente superior não só da sua sociedade, mas do
cosmos inteiro. Ele está raciocinando agora, está vivenciando tudo numa escala de verdade eterna,
absoluta, imutável, supracósmica e que, o que quer que aconteça no cosmos, não vai mudar. É
justamente essa ligação direta entre a alma do indivíduo e essa percepção de eternidade que faz com
que esse indivíduo, agora fundamentado na unidade dessa verdade eterna, desenvolva uma
consciência de sua própria unidade independente do meio cósmico – esse é o sentido da vida eterna,
ou seja, esse cosmos será destruído e nós continuaremos na vida eterna, nós temos a vida eterna, mas
a sociedade não tem e o cosmos também não. O que significa essa vida eterna? É esse acesso que o
homem tem por instantes à noção da verdade supracósmica.
Agora, acontece o seguinte: a relação do faraó com os seus deuses era uma relação de percepção, ou
seja, a percepção dele estava aberta para a simultaneidade de fatores cósmicos em ação. Não é que
ele acreditasse que era deus, não, ele sabia que ele era. Assim como um homem que estava gerando
um filho sabia que era a sucessão inteira das gerações que estava agindo ali e não somente ele, era a
força geradora presente em todas as gerações de seres humanos que estava atuando ali de novo nele.
Portanto, não era evidentemente um acontecimento da escala privada, não eram crenças, eram simples
aberturas de percepção. Pela própria amplidão da abertura, a gente vê que essa visão era enormemente
rica, porém, necessariamente imprecisa: é como observarmos um quadro em grande escala, um
quadro enorme, e observarmos, nele, um detalhe: não vamos poder observar o conjunto com a
[mesma] precisão com que vamos observar os detalhes. Contudo, ainda que confusa e ainda que
sujeita a equívocos, a visão da amplitude é perfeitamente real e, afinal de contas, nós ainda estamos
dentro do mesmo cosmos no qual estava o faraó, o que ele observou ali continua válido para nós –
mesmo que nós não lhe prestemos atenção.
Como será a relação do homem com a verdade transcendente, com o fundamento transcendente? Se
é transcendente, ele não está presente; você não o vê, você sabe que ele existe, mas sabe por uma
espécie de necessidade metafísica. Você não pode observá-lo vivencialmente como o faraó observava
as forças cósmicas em ação na sua própria vida e nas suas próprias ações. O sujeito que está plantando
um pé de milho e vê aquilo nascer e crescer, ele sabe que as ações dele se inserem dentro de um ciclo
cósmico enorme; não é que ele acredite nisso, ele está vendo isso, ele sabe disso, isso é uma vivência
intuitiva direta. Mas e com o Deus transcendente? Por mais que se amplie a visão, tudo o que se vê é
o quê? Cosmos. Esse cosmos, por instantes, se rompe e deixa entrever algo que está para além dele,
mas esse algo não é visto, é somente entrevisto, ou adivinhado; e é aí que entra, precisamente, o
elemento fé. Como é o modo de relação do homem com esse tipo de verdade?
Aluno: Professor, é o que o Giovanni Reale chama de terceira navegação? Seria isso ou não?
Olavo: Não, não. Esqueça isso. Não faça essa analogia. Eu entendi sua pergunta, mas não vá por aí,
não faça essa associação, pois você me obrigaria a uma semana de explicações e não iria adiantar
nada. Faça outra comparação. Essa aí não funciona; não que ela seja errada, mas é muito indireta.
Então, esta descoberta da realidade metafísica, quer dizer, metacósmica, supracósmica, extracósmica,
é de um impacto tremendo e sabemos que aquilo tem de existir. Mas como é que se relaciona com
isso? Não podemos observá-la, temos de levá-la em conta mesmo quando ela não está [diante de nós],
e isto é o que se chama fé; vamos levar em conta o fundamento invisível da realidade. Notem que só
fazemos isso, por quê? Porque a gente quer. Porque se não pensarmos mais naquilo, voltamos
instantaneamente para o ambiente cósmico em que estávamos – é precisamente isso que é o elemento
fé.
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O elemento fé consiste em levar em conta algo que se sabe que é real, mas que não está aí, que não
pode ser observado, e que só aparece num estado muito peculiar de consciência, que é uma espécie
de hiperconcentração que permite, num certo momento, vislumbrar que a totalidade do existente tem
um fundamento supra-existente – esse supra-existente não é um dado de experiência; supra-existente
também quer dizer que, por um lado, ele é mais que o existente, mas, por outro lado, ele é inexistente,
é um não-existente. Toda e qualquer relação do homem com essa instância se dá apenas através do
esforço espiritual.
Aluno: Esse não-existente pode explicar o existente, professor?
Olavo: Ele é o fundamente supra-existente do existente. [risos] Mas isso é muito simples! Até as
verdades do tipo matemática elementar: o fato de dois mais dois ser quatro e não cinco, eu lhes
pergunto, onde é que é assim? Em qualquer lugar. E isso é mesma coisa que dizer “Em lugar nenhum”.
Aluno: O não-existente pode explicar o existente efetivamente ou somente através da fé?
Olavo: Não, não! Uai se ele não explicasse... se você disser que ele explica através da fé, então seria
o ato humano que seria o fundamento da explicação – nesse caso não explicaria absolutamente nada.
Mas se você entende que o conjunto do existente, o cosmos, não tem fundamento dentro de si mesmo
e que, por outro lado, ele não pode estar pairando no nada o tempo todo, tem de ter algum fundamento,
então você entende que o fundamento está para além do cosmos. É neste instante que você descobre
uma dimensão da realidade que você mesmo chama de metafísica, ou seja, que está para além do
cosmos.
Aluno: Numa aula o professor usou a seguinte expressão, que a ciência também diz, “Que o menor
vem do maior”.
Olavo: Espere aí! Em que sentido?
Aluno: Isso se encaixaria nessa supra-existência que o senhor nos coloca?
Olavo: Não. Você percebe que a relação entre o metafísico e o físico não é uma relação entre maior
e menor, porque é absolutamente heterogênea. Não se trata de ser maior. Você quer dizer maior em
que sentido? Físico?
Aluno: Não. Físico não...
Olavo: Bom, eu vou explicar isso de um outro jeito. Tudo o que acontece dentro do tempo e do espaço
forma um conjunto definito de processos espaço-temporais: acontecem essas coisas e não outras. É
fácil você entender que o que quer que aconteça, acontece porque, dentre outras coisas, é possível
acontecer; se fosse impossível, não aconteceria. Então você entende que o conjunto do acontecido, o
conjunto do real, está dentro do conjunto da possibilidade que, além do real, abrange outras coisas
que são possíveis mas que não aconteceram e que também contêm em si a impossibilidade, ou seja,
os limites da possibilidade.
Se você me perguntar o que é metafísica, eu digo: metafísica é o estudo da possibilidade universal,
que certamente abrange a totalidade do real, mas que não pode ser dita ela mesma real. O que é a
possibilidade universal? É o que se chama “onipotência”: é a totalidade da possibilidade.
Num certo momento da história, a importância desse fator supracósmico, supra-real, apareceu para
alguns homens. E, evidentemente, [eles] entendiam que essa estrutura, essa lógica interna da
possibilidade universal, das leis da possibilidade universal, estava presente em tudo e estruturava a
totalidade do cosmos existente sem nunca aparecer fisicamente nele. Aquilo não podia ser visto com
“os olhos da cara”, nunca poderia se apresentar em público como as forças cósmicas.
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Aluno: Nem poderia ser trazido para o cosmos...


Olavo: Nem se pode ser trazido para o cosmos.
Aluno: ...para ser entendido.
Olavo: Isso tem de ser entendido na sua própria escala, a qual nunca está fisicamente presente, nunca
pode aparecer sob a forma de acontecimentos públicos – como um terremoto ou uma guerra, que são
testemunhados por todos – e, portanto, nunca pode ter validade social e, entretanto, tem mais força
do que qualquer força cósmica. Pois as forças cósmicas não são senão processos causais já existentes
que se delineiam dentro do corpo da possibilidade universal que os limita severamente.
Por exemplo, a própria irreversibilidade do tempo. O que quer que tenha acontecido nunca mais
desacontece – pode ser neutralizado por outra coisa que vem depois, mas não pode desacontecer. Essa
é uma lei cósmica? Não. Essa é uma lei metafísica: tudo no cosmos está submetido a isso. Ou seja,
aquilo que entrou dentro do real não sai mais. Pode tornar-se passado, mas isso não o torna irreal.
Pode ser esquecido e desconhecido, mas isso não o torna irreal. Mas aquilo que nunca aconteceu –
nunca, nunca aconteceu – só existe como possibilidade. Isso é o quê? São leis metafísicas. Nada no
cosmos pode escapar disso.
Esse vislumbre do eterno, do absoluto, do transcendente, alguns homens podem ter tido em algum
momento, e mesmo dentro das civilizações cosmológicas, você vê de vez em quando alguém ter quase
um sinal disso aí.
Eu trouxe aqui um livro do Eric Voegelin em que ele dá uma prece babilônica, numa época em que
não tinha metafísica nenhuma, em plena cultura cosmológica, no qual dentro da linguagem mítica
cosmológica aparece quase um vislumbre da transcendência. O sujeito diz assim: “Que a fúria do
coração do meu senhor se acalme para comigo, que o deus que não é conhecido se acalme para
comigo, que a deusa que não é conhecida se acalme para comigo”. Que deus é esse que não é
conhecido?
Quando São Paulo Apóstolo chega numa cidade e vê um monumento ao deus desconhecido: é disso
aí que os caras estavam falando: “Nós conhecemos um monte de deuses e tem outros que nós não
conhecemos”. São Paulo diz: “É desse que eu estou falando!”. Porque aqueles que são conhecidos
estão aí presentes de algum modo: é o tempo, é o espaço, é a causalidade, é a própria natureza, são os
ventos, as tempestades. Todas as forças cósmicas existentes estão presentes, mas tem um que não
está, que é sempre desconhecido e dentro de cuja a esfera de poder estão todos esses.
Os outros deuses nos lembram continuamente da sua presença, justamente porque eles não são
onipresentes, eles agem aqui ou ali, eles se movem. Mas desse [Deus], sua ação é tão contínua que
não aparece em parte alguma; ela não pode ser objeto de percepção.
Aluno: E sobre os milagres? Em algum texto o senhor diz que os milagres acontecem não em
contradição com o conhecido...
Olavo: Basta você levar em conta a noção de possibilidade universal que você entende que milagres,
no sentido de uma transcendência das leis naturais conhecidas, não apenas acontecem como têm de
acontecer necessariamente – seria impossível que não acontecesse. Dizer que não acontecem milagres
é o mesmo que dizer que o conjunto das leis cósmicas encerra o quadro da possibilidade universal,
ele fecha o quadro da possibilidade universal – e isso é evidentemente impossível.
Se você imaginar o cosmos, a totalidade do real, como um conjunto de possibilidades que já estão
articuladas umas com as outras e que desencadeiam processos causais específicos, ainda que em
número ilimitado, você entende que o conjunto é limitado e definido. Se esse conjunto é limitado e
definido, então ele certamente é menor do que o conjunto da possibilidade universal. Se ele é limitado
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e definido e ele está dentro do conjunto da possibilidade universal, então ele não tem em si seu próprio
fundamento, [logo], o fundamento dele está na possibilidade universal. E sendo assim, ele não poderia
ser um conjunto fechado de maneira alguma, o conjunto do real tem de ser continuamente
entrecortado e vazado pela possibilidade universal que o alimenta, isto é, o real é alimentado pelo
possível.
É por isso que você não pode definir um milagre como ruptura das leis da natureza, porque as leis da
natureza não precisam ser rompidas por aquilo que as transcende, porque aquilo que transcende
abrange. Se aqui há uma “lei natural”, você tem a lei e já dentro dela, na sua própria estrutura, há as
condições da sua superação.
Ora, tudo isso, uma vez explicado, é de uma obviedade monstruosa e chega a ser estranho que as
pessoas possam às vezes não compreender isso. [risos] Mas não compreendem isso [porque]
simplesmente ainda não têm intuição metafísica, porra. De certo modo, [elas] ainda continuam
raciocinando em termos de cosmos, ainda que já tenham na sua ciência, nos seus hábitos e raciocínio
uma série de elementos que são derivados da descoberta da transcendência, elas os usam
fragmentariamente [2:00] sem referi-los à noção da transcendência e, portanto, recaem dentro de uma
referência cósmica, só que deformada e limitada. Sendo assim, elas acabam caindo abaixo do nível
do próprio faraó: o faraó estava limitado à esfera cósmica, mas ele tinha amplitude, ele não tinha a
verticalidade da dimensão transcendental, mas ele tinha a amplitude, tinha a horizontalidade, ele
estava aberto para a totalidade das forças cósmicas, logo, ele sabia que dentro do cosmos nada estava
separado. Tudo o que acontece em escala pequena está acontecendo na grande – quer a gente perceba
ou não, mas geralmente percebe.
Por exemplo, dentro da cosmovisão astrológica, cada ato humano está acontecendo aqui e tem o seu
equivalente planetário no mesmo momento, quer você preste atenção na conexão ou não. É quase
impossível que nesta abertura para a percepção do cosmos, na sua extensão horizontal, não houvesse
erros monumentais, mas, é quase impossível também que não houvesse acertos. É justamente isso
que nos permite, hoje, com métodos de observação mais detalhados e mais exatos que nós criamos e
desenvolvemos para setores mais limitados da realidade, rearticular certos conhecimentos antigos e
verificar sua a profunda exatidão.
Por exemplo, é um fato estatisticamente reconhecido no mundo inteiro que em noites de lua cheia há
mais internações em hospitais psiquiátricos do que em todas as outras noites. Isso aí, para o faraó, era
a coisa mais óbvia do mundo, porque ninguém fica louco isoladamente: se ele fica louco aqui é porque
está acontecendo uma outra coisa em uma outra esfera: “É a deusa que naquele momento apareceu e
endoidou todo mundo”.
Percebemos, então, que tanto fazendo enunciar isso em linguagem mito-astral ou em linguagem
estatístico-científica, estará dizendo a mesma coisa. Não se aproximou mais da realidade, apenas se
está conferindo o que foi percebido numa certa referência, que é a referência cosmológica, e
revalidando em outra, que é a referência lógico-científica fundamentada na transcendência. Mas,
como ao mesmo tempo não se relaciona isso à transcendência, então têm aí uma visão fetichista da
lógica científica e acabam a aplicando mal.
Por exemplo, a ideia mesma de mensurar certas regularidades cósmicas matematicamente – uma
ciência matematizada da natureza – jamais teria aparecido sem a noção da transcendência, porque
dentro do universo cosmológico nada pode ser medido exatamente, tudo é tão simultâneo que não há
limites precisos. Como é que vai isolar, dentro do ambiente cosmológico, um determinado processo
natural? Porque tem um, tem outro, e tem outro, e tem outro, está tudo cruzado; é uma espécie de
imensa confusão multicolorida. A visão, no entanto, que temos dessa confusão é perfeitamente real,
mesmo porque nós ainda estamos dentro da mesma confusão, apenas nos isolamos mentalmente dela
para olhar somente certos pedaços separados. A possibilidade de nós nos isolarmos vem de onde?
Sair de dentro do cosmos nós não podemos. Mas, nós sabemos que estamos ligados a uma dimensão
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supra-cósmica que valida os nossos conhecimentos, que os valida para além do próprio processo de
transformação cósmica. E a ideia de uma ciência matemática da natureza nasce daí, sem ela, não
vigora absolutamente.
Agora, como a essa dimensão supra-cósmica nós não tem acesso experimental, temos [somente] uma
vaga intuição de que aquilo é uma necessidade absoluta, de que tem de ser assim, então a única relação
possível é a da fé: a fé vai fazer com que sempre levemos em conta este elemento invisível quando
olhamos o visível, ou seja, não deixamos mais dissolver o fluxo cósmico. É daí que nasce a ideia de
uma imortalidade individual que dá à alma do indivíduo humano uma duração superior à do próprio
cosmos: “O cosmos vai acabar, mas nós vamos existir na eternidade”. Por que que nós vamos existir
na eternidade? Porque já estamos lá. Se tivemos algum acesso é porque estamos lá de algum modo –
ainda que esse acesso seja como uma semi-intuição que logo em seguida nos escapa. Mas podemos
insistir em voltar lá [sucessivamente].
Para nos mantermos na linha dessa intuição metafísica, temos de disciplinar inteiramente as nossas
[respectivas] almas para que elas recuem do fluxo cósmico e se mantenham atentas no fundamento
de outras coisas. Toda ascese, toda moral religiosa – “Não faça isso, não faça aquilo” – é tudo uma
prática para isso. Ou vocês acham mesmo que inventaram tudo isso apenas para sacanear os outros?
A ligação que o faraó tinha com a totalidade do cosmos é substituída por uma ligação que o indivíduo
tem com o supra-cosmos, com Deus. E as duas implicam tipos diferentes de obrigações.
Aluno: Eu queria fazer uma analogia. Me desculpe, eu tenho até um pouco de constrangimento de
falar isso, mas eu queria falar o seguinte...
Olavo: Faça-a. Sem fazer analogia a gente não entende nada. Se a analogia for despropositada ou
muito complicada, eu te aviso.
Aluno: É o seguinte. Por exemplo, Johann Sebastian Bach acreditava que se comunicava com Deus
através da música e a música não é como a matemática...
Olavo: Ele não podia se comunicar com Deus através da música. O que ele podia é fazer música que
de algum modo expressasse essa ligação dele com Deus. Mas o que é a música de Bach senão uma
imensa estruturação matemática quase que do conjunto da experiência sensível? Como é que uma
mente humana individual se levanta a este ponto, de criar estruturas que ajudem os outros a também
se elevar e ver algo para além do cosmos? Como é que o ser humano pode fazer isso? Não é que ele
tenha feito isso através da música, mas ao contrário, ele fez a música através disso. A música é
somente uma materialização parcial dessa experiência.
Mas a música, a matemática moderna, toda a ciência moderna, tudo, é uma expressão disso, ou seja,
nós desdivinizamos o cosmos, pois percebemos uma outra instância divina superior a ele. Mas
acontece que desdivinizar o cosmos também está errado, porque aí vai se falsear também: o sujeito
vai pensar que agora virou deus, que agora tem a linha direta e não precisa mais do cosmos, então
agora é um anjo – isso falseia toda a visão.
Quando a ciência moderna, as ciências a partir do século XV/XVI, vai reduzindo o cosmos a uma
visão matematizada e mecanizada – pueril na verdade – que dá uma tremenda sensação de poder para
o sujeito que faz isso, o que ele está fazendo? Está se autonomeando Deus: “Agora eu tenho a linha
direta com Deus, essa porcaria de cosmos aqui, para mim, é apenas um relógio”. O que foi que houve?
Ele descobriu uma verdade importantíssima só que, em vez dele somá-la e articulá-la com a anterior,
ele jogou a anterior fora. Resultado: ele caiu para baixo do que a que ele estava; ele se tornou mais
burro do que o faraó.
Aluno: O ateísmo que existe muito nesse meio científico, seriam cientistas se colocando nessa
posição?
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Olavo: É porque o sujeito acredita que esse referencial lógico-matemático metodológico que ele criou
a partir dessa noção da transcendência é independente dela – quando não o é, evidentemente.
Considerado independente da transcendência, é apenas uma construção humana, é uma analogia
como qualquer outra. Qualquer “lei científica” só é validada através da noção metafísica da
possibilidade universal, senão ela não é, senão ela é apenas um esqueminha que fizeram criando
analogias mais ou menos fortuitas tentando dar a elas uma exatidão matemática. É evidente que se se
apaga a noção da transcendência, a ciência toda vai para o brejo. Mas se ela vai para o brejo, e ela ao
mesmo tempo ainda continua tendo uma função social, embora já não tenha mais nenhum fundamento
dentro em si, então ela continua sendo cultivada não pelo seu valor cognitivo mas apenas pela sua
utilidade – porque alguém pode ganhar um dinheiro com isso. Então, é saída de leão e chegada de
cão: descobriram a transcendência, mas agora não têm nem transcendência, nem cosmos, nem coisa
nenhuma; têm apenas um monte de reloginhos que inventaram e que acreditam que aquilo é a suprema
realidade – aí estão loucos mesmo!, fugiram da realidade cósmica e divina ao mesmo tempo.
O desespero criado por isso faz com que, a partir do século XVIII, se criem novas visões da realidade
que possam adquirir uma validade cósmica e divina através do profetismo, do anúncio do mundo
futuro, quer dizer, eles acreditam que quando o mundo futuro chegar, validará retrospectivamente
tudo que fizeram – que é o que eu chamo de “raciocínio messiânico”: inventam um futuro e
reinterpretam, à luz dele, todo o passado e o presente, só que como o futuro nunca é do jeito que
profetizaram, têm de inventar uma nova profecia recorrentemente. Daí vem Hegel, Comte, Karl Marx,
Nietzsche, etc., e essa besteirada toda até hoje.
No fundo, é um processo simples: uma grande parte da nossa cultura perdeu o fio da meada da
evolução dos conhecimentos. Passou de um patamar para o outro, mas só se passa para o seguinte se
se conservar o primeiro.
Na própria expressão judaica da transcendência já aparece uma série de esforços para articular a nova
verdade divina transcendente com a antiga verdade cósmica. Por exemplo, as forças do cosmos, as
divindades cósmicas, agora são vistas como expressões da divindade primordial; elas não
desaparecem. Quando a Bíblia diz que “os céus narram a glória de Deus”, quem é os céus? É Urano,
Saturno, etc., as velhas divindades cosmológicas. Elas continuam agindo, elas têm a sua força. Só que
essa força não tem em si seu próprio fundamento, que é o fundamento supracósmico; não se vai
desprezá-las por isso, apenas vai articular na ordem da hierarquia metafísica [correta].
Mas, notem bem, a descoberta da transcendência não é um ato de fé. Sem a descoberta da
transcendência teríamos fé em quê, porra? A fé é a relação humana, é a prática humana de conservar
a sua alma, a sua consciência, fiel a essa visão que você teve naquele momento. A fé não produz
conhecimento, ao contrário, supõe-se o conhecimento para que haja a fé. Precisa haver a fé, por quê?
Porque esse conhecimento é necessariamente imperfeito e impermanente: o indivíduo o esquece, isso
é evanescente demais. Não somos, a toda hora, recordados da presença de Deus como somos
recordados da presença dos planetas, dos terremotos, da gravidade etc. [Nesse sentido], os deuses
antigos estavam o tempo todo interferindo: para onde quer se olhasse aparecia um deles, justamente
porque eles eram diferenciados e específicos e não estavam em toda parte: onde estava um, não estava
o outro, quando não agia um, agia o outro, ou agiam em parceria, mas [eles] eram identificados. Mas
esse não: esse é indiscernível por ser onipresente, portanto, Ele não tem distinções espaciais e nem
temporais, Ele não está mais hoje do que ontem [sic], Ele é supra-espacial e supra-temporal.
Ora, nós estamos dentro do cosmos, dentro do fluxo cósmico, estamos submetidos a isso. O fato de
termos percebido que há algo acima do cosmos não nos coloca acima do cosmos: nós continuamos
sendo os mesmos bichinhos submetidos às forças cósmicas que éramos antes. Só que, nós não
queremos perder esse estatuto de seres conscientes da infinitude metafísica. E como é que fazemos
para manter isso? Isso chama-se fé, fidelidade: é não cair da dignidade recém-conquistada. Então,
evidentemente, para manter essa possibilidade, que é intelectual-cognitiva, são necessárias certas
25

alterações na conduta e no modo de vida, é necessária uma dedicação a isso: daí que saem exatamente
todas essas morais religiosas, etc. – umas mais eficazes, outras menos eficazes, umas mais claras,
outras mais confusas, porém, no fim, é tudo isso o que se está buscando.
Mas como a moral religiosa, por outro lado, aparece dentro da história, então ela aparece dentro do
cosmos, logo, ela é um elemento material entre outros. Ela também entra dentro do fluxo, e ela
também se corrompe, e pode continuar sendo mantida como fato cultural que já não produz o
resultado que esperavam. Daí, é como aquele negócio: “Quanto mais eu rezo, mais assombração
aparece”. [risos] Eu estou rezando, mas não está adiantando nada, pois o negócio não acontece.
A presença do Deus metafísico é uma coisa absolutamente necessária: não há como se livrar Dele.
Mas também não há como vê-lo, pois a nossa própria forma de existência é transitória e
impermanente, enquanto que a Dele é permanente e constante, ou seja, a nossa intermitência de ser
humano nos torna de certo modo incompatíveis com a vivência da eternidade. Nós não temos vivência
da eternidade, temos apenas noção da eternidade e essa, logo, se esfarela numa palavra vazia e temos
de a recordar regularmente.
Quando o Cristo, na Santa Ceia, parte o pão e serve o vinho diz “Fazei isto em memória de mim”,
quer dizer, é para não esquecer, ora, que isso aconteceu. Isso foi o absurdo dos absurdos: de repente,
o Deus supracósmico estava presente aqui em forma humana, no tempo. Parece um absurdo, mas
seria possível que isso jamais acontecesse? Não. Se o Deus supracósmico, portanto, supra-sensível,
fosse sempre e eternamente só supra-sensível e nunca estivesse fisicamente presente, Ele seria
terrivelmente limitado. Então, Ele tem de ser, ao mesmo tempo, eterno, absoluto e supra-sensível e
tem de, por outro lado, também ser temporal e humano. Então, é por isso que o Filho é co-eterno com
o Pai: é o Deus-homem encarnado, ele é a própria forma da humanidade – que já está dada na
possibilidade universal.
É preciso alguma fé para entender isso, para entender que isso é verdade? Não precisa de fé nenhuma.
Precisa de fé para lembrar disso. Por isso: “Fazei isto em memória de mim”. Contudo, haverá um
monte de cretinos que acreditam que “Ah, aqui existe o conhecimento racional e científico e ali,
naquele livro, [a Bíblia], há a matéria de fé” – isso é ciência de almanaque, isso é para quem não
entendeu nada, é para semi-analfabeto. Não existe nenhum conhecimento que é dado pela fé, a fé sem
o conhecimento é nada; a fé é simplesmente a condição de resgate e renovação de algo, de um
conhecimento que já nos foi dado. E é justamente através dela, da fé, que conservamos a nossa
qualidade de ser metafísico, isto é, de ser que está colocado um pouquinho acima do fluxo cósmico –
mas só um pouquinho, pois, por outro lado, continuamos sendo o mesmo bichinho submetido às
mesmas forças cósmicas etc.
Bom, espero que depois disso aqui vocês entendam que todos os debates – sem exceção! – sobre
ciência e religião que se vê por aí é tudo besteira, é tudo coisa de cultura popular, cultura pop, das
quais um homem de estudo, um professor universitário, um acadêmico não tem o direito de participar.
Quando começar uma conversa dessas, vocês digam: “Olha, isso aí não é comigo, isso é para vocês
aí que estão no Mobral, entende? O meu nível aqui é outro. Essa discussão fica para vocês que acham
que existe um ‘treco’ chamado religião e outro ‘treco’ chamado ciência; são nomes que vocês dão
apenas, são criações culturais que vocês inventaram para vocês mesmos acharem que sabiam do que
estavam falando, e nas quais vocês acreditam.” Na verdade, isso tudo são apenas objetivações
culturais de uma experiência humana fundamental que veio antes. Ora, a realidade está na experiência
da vivência real, e não nas palavras: assim como vocês entram num restaurante, a comida não está no
cardápio, no cardápio está apenas os nomes das comidas; se vocês pegarem o cardápio e comer, vocês
não está se alimentando absolutamente – mas nessas discussões sobre religião e ciência acontece que
as pessoas comem o cardápio. “Ah, isso aqui é pela fé, isso aqui é pela razão” – tudo isso é uma
besteira! É matéria de discussão popular mesmo!, tipo jornalística, para televisão. Do tipo daquele
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programa da Hebe Camargo: “O que que o senhor acha disso etc.” – lá sim eles dão aquelas opiniões.
Mas nós não estamos aqui para isso; nós somos estudiosos, somos gente séria, gente de conhecimento.
Nós sabemos a que se referem remotamente essas discussões e sabemos que seria muito difícil
explicar a essas pessoas o que no fundo elas querem saber, pois para saber isso, é preciso estudar,
logo, explicar isso no programa da Hebe Camargo?, eu não posso, não dá!, para isso aí seria preciso
um milagre. Quem quiser entender isso, vai ter de ler, vai ter de estudar, vai ter de sentar aí e aguentar
o professor – a vida é assim, porra!
Aluno: Esse tipo de discussão que o senhor falou aí ocorre não só no Brasil, né?
Olavo: Não, isso é a cultura popular do mundo inteiro. A diferença específica é que, no meio
acadêmico, as discussões no exterior, na Europa, nos EUA, já estão mais ou menos nesse nível, mas
no Brasil, as pessoas nem sequer suspeitam: entrem no meio acadêmico daqui que vocês encontrarão
idiotas, como esse Alaôr Caffé que eu encontrei outro dia, dá até pena do cara, não é um professor
universitário, não é um professor de ginásio – poderia, quem sabe, dar um bom instrutor do Mobral,
e olhe lá! É aí que a gente fica com vergonha: simplesmente não existe vida intelectual superior neste
país; não existe mais. Existia antes, na década de cinquenta e sessenta um pouquinho, mas depois,
[puff], apagou. Isso tem de se reconquistado.
Se é para este país continuar existindo, isso não depende de política econômica, não depende da
produção, não depende de a gente acabar com a criminalidade, nada disso, depende disto aqui: é a
cultura superior que segura um país, é ela que justifica a existência dele, é ela que sobra quando o
país acaba. O que sobrou da Grécia? A política econômica? O que vocês sabem da vida econômica
dos gregos? Nada. Vocês sabem o quê? Platão, Aristóteles, os teatros gregos etc.: isso é a Grécia e
por isso ela tem uma identidade histórica permanente presente ainda hoje, porque ela deu algo à
humanidade. Se a gente quer que o Brasil exista, em primeiro lugar, a gente tem de garantir que ele
dê algo. Mas antes dele dar, ele precisa pelo menos aprender o que os outros têm a ensinar, senão não
chega nem na fase de dar [algo]. Pelo menos nessa altura, temos de aprender, temos de ser capazes
de nos elevar à condição do debate universal; participar da discussão com Platão, com Aristóteles,
com Lao-Tsé, etc., só a partir daí poderemos dar alguma coisa – antes disso, não.
Alguma dúvida?
Eu espero que vocês entendam que, em face da altura desses estudos, nenhuma opinião pessoal tem
a mais mínima importância – nenhuma mesmo!, tanto as minhas como as suas. Evidentemente tudo
isso que eu estou lhes dando aqui não é opinião pessoal. Pode haver erros num ponto ou noutro, mas,
no conjunto, não. Isso aqui é o status quaestionis: é o ponto em que a discussão chegou até hoje. O
que o sujeito acha ou deixa de achar não tem a mínima importância.
Bom, na próxima aula vamos ver se a gente articula... Vamos ver se vocês conseguem adivinhar: qual
a articulação entre essa descoberta da transcendência e, concomitante substituição ou perda da visão
cosmológica, com o surgimento da noção moderna do Estado? Porque é aí que está a explicação.
Então, obrigado. [2:25:15]

Transcrição: Flávio Montenegro


Revisão: Rahul Gusmão

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