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O Feminino por Claudia Araujo

Reconhecidamente, o ser humano é andrógino. Os homens possuem sua contraparte


feminina, sua anima, que nos fala de sua feminilidade inconsciente. As mulheres, sua
contraparte masculina, seu animus, que se refere à sua masculinidade inconsciente. O
Homem Cósmico Universal, Adan Kadmon, é citado como sendo um ser andrógino, e essa
imagem, é anterior a de Adão, conhecido dos textos bíblicos. Em seu hermafroditismo,
existiriam Adão e Lilith, a mulher que fora criada junto ao homem, ambos saídos do barro.
Durante esse período, ambos, macho e fêmea, faziam parte da psique consciente desse Ser
Primordial. O masculino e o feminino eram iguais em dignidade e ambos provinham da
Mãe Terra, a geradora da vida, sacatando os desígnios de Deus. Lilith era então a mulher
primordial, era a primeira esposa e a outra metade de Adão, ambos eram iguais em
dignidade. Consta ainda no mito, que por não querer ser subjulgada, Lilith fugiu e Deus
então ouvindo os apelos de Adão, decidiu criar uma companheira para ele, uma mulher
criada a partir da costela dele próprio, de onde foi feita Eva, a mãe de todos os seres
humanos. Lilith passa então, a fazer parte da psique inconsciente de Adão, da sua anima. O
que podemos observar é que o estado humano originário é um ser andrógino, sem
diferenciação, e que é a construção do ego que separa o componente feminino do homem e
o masculino da mulher, religando-os ao inconsciente, sendo que o objetivo final da
existência, é a união desses dois elementos, o masculino com o feminino, o inconsciente
com o consciente. A união dos opostos na psique. Temos inicialmente então, ao nascer,
esses opostos fundidos na psique; ao longo da vida, com a construção do ego, o seu
processo de diferenciação; e como alvo final, a união dos dois na psique, a que Jung
denominou individuação. Desde os tempos mais remotos, a lua é associada à mulher e é ela
quem nos dá a fertilidade, o poder de gerar tanto homens como animais e plantas. As
mulheres eram tidas como sendo da mesma natureza da lua e essa associação era feita em
função de seu ciclo menstrual ser de 28 dias, assim como o ciclo da lua. A Lua, a mulher, o
feminino então, era o regente do mundo transitório e mutável, regendo a menstruação, o
nascimento, a morte, os animais e os vegetais. Na fase crescente, a lua simbolizava o poder
da fertilidade e do crescimento. Na fase minguante, ela simbolizava o poder de morte e
destruição. A lua era então, o poder do feminino, aquele que tanto gerava a vida como era
capaz de gerar e acolher a morte e as deusas eram um símbolo desse feminino, desse ciclo
de nascimento, crescimento, destruição e morte.. Nesse período, na fase matriarcal, essa
energia do feminino era representada pela imagem das deusas que se encontravam
diretamente ligadas à terra, à fertilidade e à energia que gerava a vida. Ao se falar nas
deusas, estamos falando de componentes arquetípicos, fatores não-humanos, à uma energia,
conectada com o reino do feminino, embora atuante em ambos os sexos. Só que essa
energia, contém em si tanto o aspecto positivo do feminino (lua crescente), quanto o
aspecto negativo (lua minguante). A vida e a morte. O reino do feminino, é o domínio das
moiras, nornas e parcas, as fiandeiras que tecem nosso destino. Em todas as culturas eram
encontradas imagens da deusa como diferentes nomes em épocas e locais diferentes,
Inanna, Ishtar, Astarte, Anaíta, Atar, Afrodite etc..., mas que na verdade era uma só posto
que um único princípio. Elas se encontravam associadas ao próprio ciclo de reprodução dos
vegetais e usualmente seu culto possuía relação com o grão e a colheita. Essas divindades
eram unas em si mesmas e não possuíam maridos aos quais pertencessem: eram virgens no
sentido psicológico do termo. Elas pertencem ao sistema matriarcal não ao patriarcal, e são
consideradas não apenas mães de seus filhos, mas de toda a vida na terra, além de serem as
responsáveis pela destruição do mundo. Com o passar do tempo, quando a cultura agrária
foi deixando de ser a mais relevante, e a conquista de novos territórios foi ganhando espaço
entre os povos, houve uma transição de sistema. Essa transição na Suméria é representada
pela figura de Gilgamesh, quando esse repudia Inanna; sendo ainda retratada
posteriormente na mitologia grega, pelo roubo do Oráculo de Delfos, que pertencia a Deusa
da Terra, por Apolo o deus Sol, e pelo julgamento de Orestes, quando esse é absolvido do
crime de matricídio, o crime mais hediondo até então. O que torna-se relevante para nós, é
que a Deusa-Mãe era a representação do mistério que incluía vida e morte e destino. Essas
qualidades que compunham o universo de uma só deusa, eram o repositório da consciência
do todo, da nossa totalidade feminina. Esse universo foi arrastado para o submundo, para o
inconsciente, pelo patriarcado que dividiu o poder da Grande-Mãe entre as deusas gregas,
bastante posteriores às culturas da Suméria e Babilônia. Essas deusas se tornaram cada uma
delas, as herdeiras de determinadas qualidades, poderes e atributos que unidos formariam o
todo, o reino da Grande-Mãe. Isso quer significar, que esse arquétipo embora tendo se
tornado fracionado entre as deusas, ainda faz parte de nosso mundo interior, de nosso
inconsciente, do submundo psíquico. As deusas gregas são mais facilmente reconhecíveis
em nós, pois fazem parte da estrutura psicológica em que vivemos na atualidade, elas são
um resultado da consciência patriarcal. O padrão arquetípico das deusas gregas, que atua
em nosso interior consegue de uma certa forma então, caracterizar nossas singularidades,
fazendo-nos mulheres diferentes umas das outras. Através delas, acabamos por conhecer à
nós mesmas.. Podemos tomar por base sete padrões míticos do feminino, que na Mitologia
Grega são representados pelas Deusas: Deméter, Perséfone, Hera, Afrodite, Ártemis, Atena
e Hera. Todos esses padrões são reconhecíveis nas mulheres contemporâneas. Elas se
tornam atuantes por intermédio de cada uma de nós mulheres, que respondemos atuando
um determinado padrão. Para que melhor possamos entender esses padrões, é interessante
que nos reportemos às sete deusas, com seu mito e suas características próprias. E à essa
viagem, estão todos convidados. Um arquétipo define um padrão de comportamento., ele é
uma energia bastante poderosa, contudo, vale ressaltar, não humano. Em razão disso, todos
os sete arquétipos do feminino, caracterizam-se por sua unilateralidade o que não os torna
completos. A individualidade, o ser único, é composta por padrões individuais e não
arquetípicos. Para que possamos nos tornar humanas, distintas, individuais, precisamos
fugir a esse padrão, e incorporar em nós as diversas facetas que podem vir a se constituir
numa única personalidade. São as nossas diferenças individuais reconhecidas e aceitas que
nos apontam como um ser individuado, e para que alcancemos esse estágio de
desenvolvimento individual, é necessário que consumemos internamente, o casamento
quaternio: o aspecto feminino e o masculino da divindade, acompanhado de suas
respectivas sombras, assim como é necessário a integração consciente de nossa própria
sombra pessoal.