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Navio negreiro (também conhecido como "navio tumbeiro") é o nome dado aos

navios de carga para o transporte de escravos, especialmente os escravos africanos, até o


século XIX.

O navio possuía pouca higiene, os escravos habitavam o porão destes, presos a


correntes. Era tão grande que levava em média quatrocentos africanos amontoados, mal
alimentados e em péssimas condições de higiene. Por causa disso, muitos morriam ao
longo das viagens.O cheiro era quase insuportável, o espaço era mínimo, embora o
navio fosse muito grande, pois eram muitos escravos num mesmo navio. Os "donos"
dos escravos pouco se importavam com isso.

O tráfico de escravos só foi proibido no século XIX, e mesmo depois de proibido ainda
havia navios vindo da África.

Tráfico de escravos para o Brasil


O tráfico de escravos para o Brasil refere-se ao período da história em que houve uma
migração forçada de Africanos para o Brasil. Portugueses, brasileiros e mais tarde
holandeses dominaram um comércio que envolveu a movimentação de milhares de
pessoas.

O comércio de escravos estava solidamente implantado no continente Africano e existiu


durante milhares de anos. Nações Africanas como os Ashanti do Gana e os Yoruba da
Nigéria tinham as suas economias assentes no comércio de escravos. O tráfico e
comércio de escravos era intercontinental, registando-se um grande comércio de
escravos europeus nos mercados Africanos já durante o Império Romano. Mais tarde
com o tráfico de eslavos, os saqaliba, que eram levados para o Al-Andaluz o comércio
passou da Europa para África, e continuou com os raids dos Piratas da Barbária que
duraram até ao fim do século XIX.

O tráfico de Africanos para o Brasil deu-se paralelamente ao tráfico de Europeus para


África. Os portugueses começaram o seu contacto com os mercados de escravos
Africanos para resgatar cativos civis e militares desde o tempo da Reconquista.[1]
Quando Catarina de Áustria autoriza o tráfico de escravos para o Brasil o comércio de
escravos oriundos da África, que antes era dominado pelos Africanos, passa a ser
também dominado por Europeus.

As listas dos resgates de cativos escravizados e libertados durante o reinado deD. João
V revelam que até brasileiros chegaram a ser capturados e vendidos no mercado
Africano.[2][3]

Os escravos Africanos que os portugueses comerciavam, no começo passavam por


Portugal, onde uma parte menor era levada principalmente por via marítima, para outros
países europeus [4] e outra parte destinava-se ao Brasil e ilhas.

O trafico de escravos para o Brasil não era exclusivo de comerciantes brancos europeus
e brasileiros, mas era uma actividade em que os pumbeiros, que eram mestiços, negros
livres e também ex-escravos,[5] não só se dedicavam ao tráfico de escravos como
controlavam o comércio costeiro – no caso de Angola, também parte do comércio
interior –para além de fazerem o papel de de mediadores culturais no comércio de
escravos da África Atlântica.

Brasil

Os portugueses já usavam o negro como escravo antes da colonização do Brasil, nas


ilhas da Madeira, Açores e Cabo Verde. O tráfico para o Brasil, embora ilegal a partir
de 1830, somente cessou em torno de 1850, após a aprovação de uma lei de autoria de
Eusébio de Queirós, depois de intensa pressão do governo britânico, interessado no
desenvolvimento do trabalho livre para a ampliação do mercado consumidor.

Iniciado na primeira metade do século XVI, o tráfico de escravos negros da África para
o Brasil teve grande crescimento com a expansão da produção de açúcar, a partir de
1560 e com a descoberta de ouro, no século XVIII. A viagem para o Brasil era
dramática, cerca de 40% dos negros embarcados morriam durante a viagem nos porões
dos navios negreiros, que os transportavam. Mas no final da viagem sempre havia lucro.
Os principais portos de desembarque no Brasil eram a Bahia, Rio de Janeiro e
Pernambuco, de onde seguiam para outras cidades.

Os índios e o surgimento da escravidão no Brasil

Não é possível entender o Brasil sem antes entender a escravidão no Brasil, já disse uma
grande estudiosa do tema. Antes da chegada dos portugueses a escravatura não era
praticada no Brasil. Há grande dificuldade em se analisar a sociedade e os costumes
indígenas devido à diferença entre a nossa cultura e a dos índios, e ainda hoje existem
fortes preconceitos em torno da temática, sem contar a falta de dados, da diversidade de
documentos escritos e da dificuldade de se obtê-los. Os europeus, quando aqui
chegaram, encontraram uma população bastante parecida em termos culturais e
linguísticos. Esses indígenas se encontravam espalhados pela costa e pelas bacias dos
rios Paraná e Paraguai. Não obstante a semelhança de cultura e língua, podemos
distinguir os indígenas em dois grandes blocos: os tupis-guaranis e os tapuias. Os tupis-
guaranis se localizavam numa extensão que vai do litoral do Ceará até o Rio Grande do
Sul. Os tupis ou tupinambás dominavam a faixa litorânea do norte até a Cananeia, no
sul do atual Estado de São Paulo; os guaranis, na bacia do Paraná-Paraguai e no trecho
do litoral entre Cananeia e extremo sul do Brasil de anos mais tarde. Em alguns pontos
do litoral, outros grupos menores dominavam. Era o caso dos goitacases, na foz do rio
Paraíba, e pelos aimorés no sul da Bahia e norte do Espírito Santo ou ainda pelos
tremembés no litoral entre o Ceará e o Maranhão. Esses outros grupos eram chamados
de tapuias pelos tupis-guaranis, pois falavam outra língua.

Entre as tribos indígenas, além das atividades como a caça, a coleta de frutas, a pesca e,
é claro, a agricultura, havia também guerras e capturas de inimigos. Para a agricultura
usavam a terra até seu esgotamento relativo. Depois se mudavam definitiva ou
temporariamente para outras áreas. A derrubada de árvores e as queimadas eram um
modo costumeiro de preparar a terra para a lavoura e essa técnica foi incorporada mais
tarde pelos colonizadores. Plantavam feijão, milho, abóbora e especialmente mandioca
da qual faziam a farinha, que se tornou um alimento básico no Brasil a partir do período
colonial. A economia era destinada ao consumo próprio, sendo basicamente de
subsistência, e cada aldeia produzia apenas para suprir suas próprias necessidades,
havendo assim pouca troca de mercadorias entre aldeias. Mas existiam, sim, contato
entre as aldeias para a troca de mulheres e de bens de luxo, como penas de tucano e de
pedras para se fazer botoque. Dessas trocas nasciam alianças entre as tribos, que se viam
obrigadas a lutar uma ao lado da outra quando qualquer delas fosse atacada. Daí
nasceram as guerras entre as tribos e a captura de índios e inimigos de uma mesma
tribo.

É bom não confundir o simples apresamento de inimigos com escravização, que é mais
complexa. Tais inimigos, quando capturados, recebiam um tratamento diferenciado,
eram bem alimentados, às vezes andando livremente pela tribo e ajudando na caça e,
inclusive, obtendo da tribo, consentidamente, favores sexuais das índias. Isso se
prolongava até chegar o dia em que eram mortos em meio à celebração de um ritual
canibalístico, cujo costume se baseava na crença de que a bravura do guerreiro inimigo
passaria ao vencedor quando este se alimentasse da carne daquele outro bravo guerreiro.
Toda a tribo participava desse ritual e cabia a cada parcela da tribo (crianças, mulheres,
guerreiros e velhos) uma parte específica do corpo do adversário vencido. O movimento
artístico de 1922, chamado Movimento Antropofágico, tinha como base tais princípios.
Com a chegada dos portugueses os índios seus aliados passam a vender muitos dos seus
prisioneiros em troca de mercadorias. Este comercio era chamado de resgates. No
entanto, só podiam ser resgatados os índios de corda, aqueles que eram prisioneiros ou
escravos capturados nas guerras tribais e que iriam ser devorados; e os índios
capturados nas guerras justas, operações militares organizadas pelos colonos ou pela
coroa. A lei de 1610 decreta que o índio assim resgatado só poderia ficar escravizado
por 10 anos. Esta lei foi alterada em 1626 para que os índios pudessem ser escravizados
por toda a vida. Em 1655 uma nova lei proibia fazer guerra contra os índios sem ordem
do rei e impedia qualquer tipo de violência contra eles. Os índios convertidos ao
cristianismo não poderiam servir os colonos mais tempo do que o regulamentado pela
lei, deveriam viver livres dirigidos pelos seus chefes e padres da companhia. Estas
regulamentações desagradaram os colonos que em 1661 repetidamente se motinaram
em protesto.

Durante o período pré-colonial (1500 – 1530), os portugueses desenvolveram a


atividade de exploração do pau-brasil, árvore abundante na Mata Atlântica naquele
período. A exploração dessa matéria-prima foi possibilitada não só pela sua localização,
já que as florestas estavam próximas ao litoral, mas também pela colaboração dos
índios, com os quais os portugueses desenvolveram um tipo de comércio primitivo
baseado na troca – o escambo. Em troca de mercadorias europeias baratas e
desconhecidas, como espelho e pedaços de pano, os índios extraíam e transportavam a
valiosa madeira para os portugueses até o litoral.

A partir do momento em que os colonizadores passam a conhecer mais de perto o modo


de vida indígena, com elementos desconhecidos ou condenados pelos europeus, a
exemplo da antropofagia, os colonos passam então a alimentar uma certa desconfiança
em relação aos índios. A colaboração em torno da atividade do pau-brasil já não era
mais possível e os colonos tentam submetê-los à sua dominação, impondo sua cultura,
sua religião – função esta que coube aos jesuítas, através da catequese – e forçando-os
ao trabalho compulsório nas lavouras, já que não dispunham de mão-de-obra.

A escravidão no Brasil segue assim paralelamente ao processo de desterritorialização


sofrido por estes. Diante dessa situação, os nativos só tinham dois caminhos a seguir:
reagir à escravização ou aceitá-la.

Houve reações em alguns os grupos indígenas, muitos lutando contra os colonizadores


até a morte ou fugindo para regiões mais remotas. Essa reação indígena contra a
dominação portuguesa ocorreu pelo fato de que as sociedades indígenas sul-americanas
desconheciam a hierarquia e, consequentemente, não aceitavam o trabalho compulsório.
[carece de fontes?]
Antes dos estudos etnográficos mais profundos (fins do século XIX e,
principalmente, século XX), pensava-se que os índios eram simplesmente "inaptos" ao
trabalho, tese que não se sustenta depois de pesquisas antropológicas em suas
sociedades sem o impacto desestabilizador do domínio forçado.

Os índios assimilados, por sua vez, eram superexplorados e morriam, não só em


decorrência dos maus-tratos recebidos dos colonos, mas também em decorrência de
doenças que lhes eram desconhecidas e que foram trazidas pelos colonos europeus,
como as doenças venéreas e a varíola e mais tarde pelos escravos africanos.

Diante das dificuldades encontradas na escravização dos indígenas, a solução


encontrada pelos colonizadores foi buscar a mão-de-obra em outro lugar: no continente
africano. Essa busca por escravos na África foram incentivados por diversos motivos.
Os portugueses, reinóis e colonos, tinham interesse em encontrar um meio de obtenção
de altos lucros com a nova colônia, e a resposta estava na atividade açucareira, uma vez
que o açúcar tinha grande aceitação no mercado europeu. A produção dessa matéria-
prima, por sua vez, exigia numerosa mão-de-obra na colônia e o lucrativo negócio do
tráfico negreiro africanos foi a alternativa descoberta, iniciando-se assim a inserção
destes no então Brasil colônia. Convém ressaltar que a escravidão dos índios perdura até
meados do século XVIII.Os negros vinham em navios negreiros da África do Sul. Eram
escravos. Sofriam castigos físicos, eram apartados definitivamente de seus familiares.
A escravização indígena e africana - o lucrativo tráfico negreiro

A escravidão ameríndia foi a principal forma de obtenção de escravos pelos europeus


após a descoberta da América. A partir de 1530, com a colonização portuguesa tomando
forma, a razão de ser do Brasil passou a ser a de fornecer aos mercados europeus
gêneros alimentícios ou minérios de grande importância. A metrópole portuguesa
passou a incentivar um comércio que tinha suas bases em alguns poucos produtos
exportáveis em grande escala, assentadas na grande propriedade. Assim, por causa da
decisão lusitana em exportar poucos produtos tropicais em grande escala para a Europa,
nasceu em Portugal uma justificativa para a existência do latifúndio no Brasil. Após a
captura, os índios eram forçados a executar um duro trabalho nas lavouras de cana-de-
açúcar, onde eram supervisionados, explorados e maltratados. Os portugueses que
vinham para o Brasil não desejavam executar o trabalho que a produção de açúcar
exigia. Isso se explica em parte porque a tradição católica e ibérica desprezava o
trabalho manual, considerando-o como "coisa de escravo". Os índios capturados nas
guerras tribais também começaram a ser vendidos aos colonos em vez de permanecerem
escravos na aldeia do seu captor.

Os índios sofreram violência cultural, epidemias e mortes. Eles eram difíceis de


escravizar por vários motivos. Um desses era a incompatibilidade com um trabalho
intensivo, regular e obrigatório, como pretendidos pelos europeus. Não eram vadios ou
preguiçosos, apenas faziam o que era necessário à sua sobrevivência. Nada difícil em
épocas de abundância de peixes, frutas e animais. Eles empregavam grande parte de sua
energia nos rituais e nas guerras. Noções como a de produtividade eram estranhas ao
entendimento deles. Outras formas de resistência foram as fugas, a guerra e a recusa ao
trabalho compulsório. Outro fator importante que desestimulou a escravização indígena
foi a catástrofe demográfica, pois eles não tinham defesa biológica contra as doenças
europeias como sarampo, varíola, gripe. Outro fator foi o conhecimento indígena dos
relevos, das terras americanas, posto que o interior permanecia quase inexplorado pelos
invasores portugueses. Isso facilitou uma maior organização de ataques contra as
fazendas e fortes portugueses distribuídos ao longo da faixa litorânea brasileira. Além
disso, a partir de um certo momento, a própria Igreja Católica passou, através
principalmente dos jesuítas, a fazer um trabalho de catequização junto aos índios,
dificultando aos comerciantes e colonos portugueses a escravização dos nativos. Isso
provocou inúmeros atritos entre os padres e os colonos. Mas não significa que os padres
tratavam os índios com respeito, muito menos no que se refere à cultura indígena. A
cultura dos índios, suas crenças religiosas eram consideradas pelos padres inferior se
comparadas à cristã. Os padres chegavam mesmo a duvidar que os índios fossem
pessoas.

As línguas indígenas, apesar de parecidas, não ajudavam a formar uma nação indígena,
coesa contra ataques externos, representando apenas grupos dispersos, muitas vezes em
conflito. Isso permitiu aos portugueses encontrar aliados indígenas na luta contra os
grupos que lhes resistiam. Uma forma de resistência aos colonizadores, principalmente
à escravização, foi o isolamento, alcançado por meio de permanentes deslocamentos
para áreas mais pobres. Os que assim procederam conseguiram, com algum sucesso, a
preservação de uma herança biológica, social e cultural. Se bem que há tribos isoladas
que por comercializarem diretamente com empresas estrangeiras, falam sua língua
materna mas também um inglês rudimentar para viabilizar os negócios. Como resultado,
temos hoje tanto grupos indígenas mais isolados como grupos indígenas que sofreram
uma maior mestiçagem, tanto no aspecto biológico como social e cultural, mostrando
sua influência na formação da sociedade brasileira. Certamente, o encontro desses
povos com os europeus foi catastrófico, pois de uma população tão numerosa - embora
os cálculos variem enormemente, entre 2 milhões e mais de 5 milhões - apenas entre
300 mil e 350 mil indígenas existam atualmente em território nacional.

Além disso, a escravização indígena era uma atividade que gerava lucros internos, ou
seja, a metrópole portuguesa não se beneficiava com ela. Portanto, a preferência pelo
trabalho escravo negro e não pelo índio se deve ao fato de que o comércio internacional
de escravos trazidos da costa africana era tão tentador que acabou se transformando no
negócio mais lucrativo da Colônia. Portugueses, holandeses e, no final do período
colonial, brasileiros disputaram o controle dessa área tão lucrativa. Portanto, o tráfico se
tornou mais do que um meio de prover braços para a grande lavoura de exportação, mas
uma potencial fonte de riqueza para quem vendia os escravos, tratados como coisa,
produto. Devido às dificuldades encontradas em escravizar os índios, a partir de 1570 a
Coroa portuguesa passou a incentivar a importação de africanos, tomando também
medidas para tentar evitar a escravização desenfreada e o morticínio indígena. Porém, a
transição da escravização indígena para a negra africana se deu de maneira diferente na
América portuguesa, variando no tempo e no espaço. Ela acabou mais rapidamente no
núcleo mais importante da empresa mercantil, destinada à exportação de produtos
agrícolas em grande escala. E demorou mais para acabar nas regiões periféricas, como é
o caso de São Paulo.

Esses fatores contribuíram para que a mão-de-obra africana fosse inserida nas lavouras
brasileiras, sendo obtida através do tráfico de escravos vindos principalmente das
colônias portuguesas na África. A atividade do tráfico negreiro inicia-se oficialmente
em 1559, quando a metrópole portuguesa decide permitir o ingresso de escravos vindos
da África no Brasil. Antes disso, porém, transações envolvendo escravos africanos já
ocorriam no Brasil, sendo a escassez de mão-de-obra um dos principais argumentos dos
colonos.

Capturados nas mais diversas situações, como nas guerras tribais e na escravização por
dívidas não pagas, os escravos africanos provinham de lugares como Angola e Guiné.
Eram negociados com os traficantes Africanos (negros, também) em troca de produtos
como fumo, armas e aguardentes e transportados nos chamados navios negreiros. Esses
navios tinham destinos como as cidades do Rio de Janeiro, Salvador, Recife e São Luís,
e delas eram transportados para regiões mais distantes. Durante as viagens, muitos
escravos morriam em decorrência das péssimas condições sanitárias existentes nas
embarcações, que vinham superlotadas. Quando desembarcavam em solo brasileiro, os
escravos africanos eram vendidos em praça pública. Os mais fortes e saudáveis eram os
mais valorizados.

A aquisição de mão de obra escrava tornou-se imperativa para o sucesso da colonização


holandesa. Os holandeses passaram a importar escravos para trabalhar nas plantações. A
Companhia Neerlandesa das Índias Ocidentais começou a traficar escravos da África
para o Brasil.[1]

Havia protestos, embora por vezes distantes, sem continuidade e sem medidas
coercitivas, contra os maus tratos. Em 1º de março de 1700 por exemplo, o Rei de
Portugal D. Pedro II escreveu uma carta indignada ao governador-geral D. João de
Lencastre sobre os maus tratos dados aos escravos no Brasil: «... Não lhe dando fardas e
outros nem ainda farinha», e comentando dos «cruéis castigos, por dias e semanas
inteiras, havendo alguns que por anos se acham metidos em correntes, sendo mais cruéis
as senhoras em alguns casos para com as escravas, apontando-se alguns que obram
tanto os senhores como as senhoras com tal crueldade como são pingar de lacre e
marcar com ferro ardente nos peitos e na cara, executando neles a mutilação de
membros. De Francisco Pereira de Araújo se diz que cortou as orelhas a um, e pingou
com lacre; outro veio do sertão, a quem o senhor cortou as partes pudendas, entendeu
com uma sua negra; de outro, que se curou no hospital, se diz que foi tão cruelmente
açoitado do seu senhor que lhe provocara especialmente o rigor da Justiça Divina, pelo
que é de razão». Diz ainda de castigos que se fazem por suspensão de cordas em
árvores, para que os mosquitos os estejam picando e desesperando, sobre os açoitarem e
pingarem com a mesma crueldade que fazem os demais...»

Houve muito alvoroço com a necessidade de mão-de-obra nas Minas Gerais. Datado de
26 de março de 1700, um Bando do Governador do Rio Artur de Sá e Menezes proibiu
que fossem transportados para as Minas escravos de cana e mandioca, enquanto ao
mesmo tempo a Câmara se dirigia ao Conselho Ultramarino e pedia providências para
facilitar entrada de africanos. Conseguiu duas medidas: a instituição de um tributo de
4$500 por cada escravo tirado de engenhos e despachado para as Minas, (e desde Carta
Real de 10 de junho de 1699 havia direitos de entrada de 3$500 por cada negro vindo da
África para o Rio de Janeiro) e a liberdade de comércio de negros e do tráfico. A
própria Coroa traficava: e desde a Carta Régia de 16 de novembro de 1697 o preço de
cada negro vendido era 160$000; em 1718 o preço tinha subido a 300$000, embora
custo fosse de apenas 94$000.

A atividade do tráfico negreiro foi extremamente lucrativa e perdurou até 1850, sendo
oficialmente extinguida nesse ano com a Lei Eusébio de Queirós.L
O trabalho dos escravos

Os índios que foram assimilados e escravizados pelos colonos portugueses mostraram-


se mais eficientes na execução de tarefas a que já estavam adaptados no seu modo de
vida, como a extração e o transporte de madeira, do que nas actividades agrícolas. Esses
trabalhadores eram superexplorados e muitos morriam em decorrência dos castigos
físicos aplicados pelos seus senhores. O uso de indígenas como escravos perdurou até o
século XVIII.

Diante das dificuldades encontradas no processo de escravização dos indígenas, os


colonos encontram como alternativa a utilização de escravos africanos, obtidos através
do tráfico negreiro. Os escravos africanos poderiam ser designados pelos seus senhores
para o desenvolvimento dos mais diversos tipos de atividades,destacando-se as
atividades agrícolas,lavoura, sendo a extração da cana-de-açúcar a principal, a
mineração e os serviços domésticos.

A atividade açucareira foi durante muito tempo o pilar sobre o qual a economia colonial
se sustentou. Foi desenvolvida principalmente na Zona da Mata, no litoral nordestino,
que oferecia condições naturais favoráveis ao cultivo da cana-de-açúcar, produto que
obtinha grande aceitação no mercado europeu e que garantia alta lucratividade. Para o
seu cultivo, adotou-se o sistema de plantation, caracterizado pelo uso de latifúndios
monocultores. A extração da cana necessitava de um grande contingente de mão-de-
obra e foi a partir dessa necessidade que uma grande quantidade de africanos passou a
trabalhar nos engenhos - propriedades destinadas ao cultivo e produção de açúcar.

Na agricultura, muitos escravos foram utilizados também no cultivo de tabaco, algodão


e café, por exemplo.

Já na mineração, atividade que começa a ganhar grande importância na economia


colonial durante o século XVIII, muitos nativos foram utilizados na exploração de
metais preciosos, principalmente o ouro, na região de Minas Gerais. Vale ressaltar que
com o desenvolvimento da mineração foram desenvolvidas várias atividades
secundárias e dependentes dela, como a pecuária, das quais os escravos também
participaram.

Os escravos domésticos - como indica o próprio nome - trabalhavam nas casas de seus
senhores, realizando serviços como cozinhar e costurar. Existiram ainda casos de
escravos que prestavam serviços remunerados e deveriam pagar parcela de sua renda ao
seu proprietário, os chamados “escravos ao ganho”, além de escravos que eram
alugados pelos seus senhores para desenvolver algum ofício (pedreiro, carpinteiro,
cozinheiro, ama de leite) a um terceiro, sendo assim “escravos de aluguel”. Estes dois
últimos tipos de escravos desenvolviam suas tarefas geralmente nos espaços urbanos.

O escravo encontrava-se na posição de propriedade de seu senhor, não possuindo assim


qualquer direito. Era o seu proprietário o responsável por garantir os elementos básicos
à sua sobrevivência, como a alimentação e as suas vestimentas. O cativo estava à
disposição do seu dono, que o superexplorava. Era vigiado pelos chamados capitães-do-
mato, que também capturavam os escravos fugidos e lhes aplicava os mais diversos
tipos de castigos, como o açoitamento, o tronco, peia, entre outras punições, o que
contribuía para diminuir o tempo de vida dessa mão-de-obra. Em síntese, executava o
seu trabalho nas mais desumanas das condições.

Por parte dos senhores, existia uma discriminação com relação ao trabalho, já que o
consideravam como “coisa de negros”. Convém ressaltar que houve casos de alforria,
isto é, de escravos que foram libertados. Essas libertações ocorriam pelos mais variados
motivos, desde vontade do senhor em virtude da obediência e lealdade do escravo até
casos em que o cativo conseguia comprar a sua liberdade. Vale ressaltar também que a
escravidão foi a base de sustentação da economia brasileira até o final do Império.

Resistência à escravidão

Tanto os índios quanto os cotoco africanos promoveram formas de resistência à


escravidão, não sendo assim passivos a ela.

Os índios resistiram desde o momento em que os colonos tentam escravizá-los a força.


Os africanos e seus descendentes, por sua vez promoveram várias formas de resistência
à escravidão. A mais conhecida de todas foi a criação dos quilombos, uma espécie de
"sociedade paralela" formada por escravos que fugiam de seus senhores, sendo o mais
popular o Quilombo dos Palmares, localizado em Alagoas. Existiram, porém, inúmeras
outras formas de se resistir à escravidão, como o suicídio, assassinatos, rebeliões,
Aborto e revoltas organizadas contra os senhores.

Convém ressaltar que essas revoltas são um dos fatores que contribuíram para a
abolição da escravatura. Diga-se que a escravatura também era frequentemente
praticada nos quilombos, por exemplo, no Quilombo dos Palmares os cativos eram
mantidos como escravos e utilizados para o trabalho nas plantações. No entanto, não era
abolir a escravatura que algumas destas revoltas tinham como objetivo. A revolta dos
Malês não só visava a libertação dos escravos africanos como pretendia escravizar os
brancos, os mulatos e os não muçulmanos.

Abolição da Escravatura

A abolição da escravatura foi processada de forma gradual e decorreu de toda uma


situação formada com a sucessão do processo histórico, sendo ocasionada por uma série
de pressões exercidas tanto por fatores externos quanto internos.

Pode-se encontrar nos fatores internos a ação de grupos abolicionistas compostos por
indivíduos oriundos de diversas camadas da sociedade. Deve-se distinguir entre aqueles
que eram favoráveis ao fim da escravidão os abolicionistas dos emancipacionistas, visto
que estes eram favoráveis a uma abolição lenta e gradual dessa relação de trabalho,
enquanto aqueles defendiam o fim imediato do trabalho escravo. Além da ação dos
grupos abolicionistas, deve-se destacar a atuação de resistência da maior vítima do
processo de escravidão, visto que os escravos não eram passivos e resistiam à
dominação das mais diversas maneiras, como fugas, revoltas, assassinatos, suicídios,
entre outros métodos.

Entre os fatores externos, pode-se destacar as pressões exercidas pelo Império Britânico
sobre o governo brasileiro. A Inglaterra vivia naquele momento o auge do fenômeno do
qual foi berço - a Revolução Industrial. O processo de industrialização demandava a
ampliação dos mercados consumidores a fim de se obter a venda da crescente produção.
O Brasil era um dos grandes parceiros comerciais ingleses, mas a relação de trabalho
escravista não garantia aos trabalhadores que dela foram alvos poder aquisitivo. Além
disso, o governo inglês já abolira a escravidão em todos os seus territórios.

As elites latifundiárias das colônias inglesas nas Antilhas sofreram perdas nesse
processo a partir do momento em que haviam ganhado mais um custo de produção com
o desenvolvimento de relações de trabalho assalariadas e que perdiam espaço na
concorrência com a produção brasileira. Sentindo-se lesados, esses latifundiários
passaram a exercer pressão sobre o parlamento inglês a fim de que a escravidão fosse
combatida de forma mais efetiva. Em 1845, o parlamento inglês aprovou a chamada Lei
Bill Aberdeen (em inglês, Aberdeen Act), que concedia à Marinha Real Britânica
poderes de apreensão de qualquer navio envolvido no tráfico negreiro em qualquer parte
do mundo. Como consequência da pressão inglesa, em 1850, o tráfico negreiro é
oficialmente extinto com a Lei Eusébio de Queirós. Com o fim da principal fonte de
obtenção de escravos, o preço destes elevou-se significativamente, uma vez que ocorre
uma diminuição na sua oferta. Já em 1871, é promulgada a Lei do Ventre Livre, que
garante a liberdade aos filhos de escravos. Oito anos depois, em 1879, inicia-se uma
campanha abolicionista estimulada por intelectuais e políticos, como José do Patrocínio
e Joaquim Nabuco.[2]

O sistema escravista enfraquece-se mais ainda com a Lei dos Sexagenários (1885), que
liberta todos os escravos com mais de 60 anos de idade.

Em 5 de maio de 1888, o Papa Leão XIII, na encíclica In Plurimis, dirigida aos bispos
do Brasil, pede-lhes apoio ao Imperador, e a sua filha, na luta que estão a travar pela
abolição definitiva da escravidão. No dia 13 de maio, a Lei Áurea é assinada pela
Princesa Isabel, extinguindo oficialmente a escravidão no Brasil.

A abolição da escravidão, apesar de garantir a liberdade, não alterou em nada as


condições socioeconômicas dos ex-escravos, que continuaram a viver, de uma forma
geral, na pobreza, sem escolaridade e sofrendo com a discriminação. Não impediu
também que a superexploração de mão de obra em regime de escravidão e o tráfico de
pessoas continuassem sendo praticados até os dias atuais.

Convém ressaltar que, enquanto relação social de trabalho predominante no território


brasileiro, a escravidão foi substituída pela mão-de-obra imigrante assalariada.

A herança dos escravos

Tanto os indígenas quanto os escravos africanos foram elementos essenciais para a


formação não somente da população, mas também da cultura brasileira. A diversidade
étnica verificada no Brasil decorre do processo de miscigenação entre colonos europeus
(portugueses), indígenas e africanos. A cultura brasileira, por sua vez, apresenta fortes
traços tanto da cultura indígena quanto da cultura africana. Desde a culinária, onde se
verificam o vatapá, o caruru e chegando até a língua portuguesa, é impossível não
perceber a influência da cultura dos povos que foram escravizados no Brasil.

A origem da feijoada brasileira tem sido alvo de controvérsias, alguns afirmam que, ao
contrário do que é amplamente difundido, não tem origem entre os escravos, mas em
um prato português. Nesse aspecto, entretanto, é importante ressaltar que partes dos
porcos utilizados no preparo da feijoada não eram usados pelos escravocratas, o que
reforça a tese de que, como em outros espaços da cultura brasileira, houve uma
reelaboração a partir do que os negros dispunham para sua alimentação.