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Artigo

A Carta Magna do Espaço Cósmico

José Monserrat Filho *

Neste ano da graça de 2007, quando se


comemoram os 50 anos do início da Era
Espacial, graças ao lançamento do
Sputnik I pela ex-União Soviética em 4
de outubro de 1957, f e ste j a m -se
também os 40 anos do principal acordo
que re gula inte rna cio na lm e nte a s
atividades espaciais: o Tratado do
Espaço de 1967. Suas virtudes são
notáveis, mas, passado tanto tempo,
urge atualizá-lo.

Seu nome real é bem maior: "Tratado


so b r e P r incíp io s Re g ula d o r e s d a s
Atividades dos Estados na Exploração e
Uso do Espaço Cósmico, inclusive a Lua
e demais Corpos Celestes". "Princípios"
são normas básicas, orientam todas as
demais. O acordo regula as "atividades
dos Estados", consideradas
fundamentais, pois são os Estados que
respondem ante à comunidade mundial
pelas atividades espaciais nacionais –
públicas e privadas – e, para isso,
devem não só autorizar tais atividades
como exercer "vigilância continua" sobre
e la s. "Exp lo r a çã o " nã o sig nif ica
"exploração comercial", como se poderia
respondem ante à comunidade mundial
pelas atividades espaciais nacionais –
públicas e privadas – e, para isso,
devem não só autorizar tais atividades
como exercer "vigilância continua" sobre
e la s. "Exp lo r a çã o " nã o sig nif ica
"exploração comercial", como se poderia
supor, mas "exploração científica",
"pe squisa ", "e studo". "Uso" indica
utilização prática. E "espaço cósmico" ou
"espaço exterior" não inclui apenas o
váculo ou vazio sideral, por onde
passam os vôos espaciais e as órbitas
da Terra e dos outros corpos celestes,
m a s ta m b é m o s p r ó p r io s co r p o s
celestes de todo tipo: satélites naurais
como a Lua, planetas como Marte e
todos os demais do sistema solar, além
dos cometas, asteróides e qualquer
outro corpo celeste que possa surgir.

Assim, o Tratado do Espaço, com


substancioso preâmbulo e 17 artigos, é
tão abrangente quanto o âmbito em
que a tua . E co nstitui a pr incipa l
referência legal para avaliar e julgar as
atividades espaciais, sobretudo aquelas
a inda nã o re gula da s de f o rm a
específica.

Foi elaborado em plena Guerra Fria pelo


Subcomitê Jurídico do Comitê das
Nações Unidas (ONU) para o Uso
Pacífico do Espaço (COPUOS), durante
trê s a no s, e m tra ba lho de dif ícil
harmonização conduzido pelo eminente
j ur ista po lo nê s Ma nf r e d La chs,
posteriormente juiz e presidente da
Corte Internacional de Justiça. Aprovado
pela Assembléia Geral da ONU, em 19
de dezembro de 1966, abriu-se à
assinatura dos países, em 27 de janeiro
de 1967, sim ulta ne a m e nte e m
Washington, Moscou e Londres. O Brasil
firmou-o três dias depois, em 30 de
posteriormente juiz e presidente da
Corte Internacional de Justiça. Aprovado
pela Assembléia Geral da ONU, em 19
de dezembro de 1966, abriu-se à
assinatura dos países, em 27 de janeiro
de 1967, sim ulta ne a m e nte e m
Washington, Moscou e Londres. O Brasil
firmou-o três dias depois, em 30 de
janeiro. Como não basta a assinatura
dos governos para um tratado entrar
em vigor, é preciso ratificá-lo (ser
aprovado pelos respectivos
parlamentos), o Tratado do Espaço
entrou em vigor em 10 de outubro
daquele mesmo ano, após ter sido
ratificado por cinco países. O Brasil não
se apressou a ratificá-lo. Só o fez em 5
de março de 1969.

Vivia-se encarniçada corrida


armamentista entre Estados Unidos e
União Soviética, além da corrida para
ver quem chegaria primeiro à Lua.
Havia também a guerra do Vietnã,
desencadeada pelo governo norte-
americano e outros pontos "quentes" no
mundo. O clima geral era de tensão. A
maioria dos países e a opinião pública
mundial se opunham ao conflito na Ásia
e queriam a retirada das tropas de
ocupação. O Tratado do Espaço, ao
contrário, vinha atender aos anseios de
paz e cooperação. Seu Artigo 1º,
d e f inid o co m o "Clá usula d o B e m
Comum", reza que "a exploração e o
uso do espaço cósmico, inclusive da Lua
e demais corpos celestes, deverão ter
em mira o bem e interesse de todos os
países, qualquer que seja o estágio de
se u de se nvolvim e nto e conôm ico e
científico, e são incumbência de toda a
humanidade". Esta é a regra de ouro
das artividades espaciais, a pedra
angular de todo o Direito Espacial.

O Brasil entrou com dois aportes


países, qualquer que seja o estágio de
se u de se nvolvim e nto e conôm ico e
científico, e são incumbência de toda a
humanidade". Esta é a regra de ouro
das artividades espaciais, a pedra
angular de todo o Direito Espacial.

O Brasil entrou com dois aportes


históricos para melhorar ainda mais o
tratado: 1) colocar o critério do bem
comum, que de início constava apenas
da introdução do Tratado, no seu Artigo
1º, dando-lhe um peso jurídico que da
o utr a f o r m a e le nã o te r ia ; e 2)
acrescentar a expressão "qualquer que
seja o estágio de seu desenvolvimento
econômico e científico", para deixar o
mais claro possível que as atividades
espaciais devem beneficar a todos os
países, ricos e pobres, adiantados e
atrasados, ou seja, independentemente
do seu nível de prosperidade e de
avanço científico.

Os princípios básicos adotados no


Tratado do Espaço falam por si:

1) As atividades espaciais devem ser


realizadas tendo em vista o bem e no
interesse de todos os países (Art. 1º/1);

2) "O espaço cósmico, inclusive a Lua e


demais corpos celestes, poderá ser
explorado e utilizado livremente por
to do s o s Esta do s se m qua lque r
discr im ina çã o , e m co ndiçõ e s de
igualdade..." (Art. 1º/2);

3) O espaço e os corpos celestes são


inapropriáveis: não podem ser "objeto
de apropriação nacional por
proclamação de soberania, por uso ou
ocupação, nem por qualquer outro
meio" (Art. 2º);

4) As a tivida de s e spa cia is de ve m


3) O espaço e os corpos celestes são
inapropriáveis: não podem ser "objeto
de apropriação nacional por
proclamação de soberania, por uso ou
ocupação, nem por qualquer outro
meio" (Art. 2º);

4) As a tivida de s e spa cia is de ve m


efetuar-se segundo o Direito
Internacional, inclusive a Carta das
Nações Unidas, "com a finalidade de
manter a paz e a segurança
inte r na cio na l e de f a vo r e ce r a
cooperação e a compreensão
internacionais" (Art. 3º);

5) É proibido pôr em órbita objetos


portadores de armas de destruição em
massa, ou seja, nucleares, químicas e
biológicas (Art. 4º/1);

6) Todos os países "utilizarão o espaço,


inclusive a L ua e de m a is co r po s
celestes, exclusivamente para fins
pacíficos. Estarão proibidos nos corpos
celestes o estabelecimento de bases,
instalações ou fortificações militares, os
ensaios de armas de qualquer tipo e a
execução de manobras militares" (Art.
4º/2);

7) Os astronautas são "enviados da


humanidade no espaço cósmico" e a
eles será prestada "toda a assistência
possível em caso de acidente, perigo ou
aterrissagem forçada sobre o território
de um outro Estado-Parte do Tratado ou
em alto-mar" (Art. 5º);

8) Os países "têm a responsabilidade


internacional pelas atividades nacionais
realizadas no espaço cósmico, inclusive
na Lua e demais corpos celestes, quer
sejam elas exercidas por organismos
governamentais ou por entidades não-
governamentais, e de velar para que as
8) Os países "têm a responsabilidade
internacional pelas atividades nacionais
realizadas no espaço cósmico, inclusive
na Lua e demais corpos celestes, quer
sejam elas exercidas por organismos
governamentais ou por entidades não-
governamentais, e de velar para que as
atividades nacionais sejam efetuadas de
acordo com as disposições anunciadas
no presente Tratado" (Art. 6º);

9) O país que lança um objeto ao


espaço ou permite que ele seja lançado
de seu território ou de suas instalações
será responsável pelos danos causados
a outro país ou a suas pessoas naturais
pe lo o bj e to la nça do o u po r se us
elementos constitutivos, sobre a Terra,
no espaço cósmico ou no espaço aéreo,
bem como nos corpos celestes (Art. 7º);

10) Realizar atividades espaciais levando


em conta os interesses correpondentes
dos demais países (Art. 9º);

11) Evitar atividades espaciais que


causem contaminação e modificações
nocivas ao meio ambiente da Terra (Art.
9º);

12) P ro m o ve r co nsulta s a nte s de


realizar atividades espaciais capazes de
prejudicar as atividades de outros países
(Art. 9º).

O Tratado do Espaço foi ratificado por


98 e firmado por 27 dos 192 países
membros da ONU. Quando um país
assina um tratado, está reconhecendo a
sua importância, mas ainda não está se
comprometendo a cumprí-lo. Só a
ratificação torna o tratado obrigatório
para um país. Mas o Tratado do Espaço
parece ter conquistado um status
especial. Como nenhum país jamais lhe
fez qualquer restrição, ele já teria
assina um tratado, está reconhecendo a
sua importância, mas ainda não está se
comprometendo a cumprí-lo. Só a
ratificação torna o tratado obrigatório
para um país. Mas o Tratado do Espaço
parece ter conquistado um status
especial. Como nenhum país jamais lhe
fez qualquer restrição, ele já teria
a ssum ido o ca r á te r de co stum e
consa gra do por e pa ra toda a
comunidade mundial. Seria
universalmente aceito como obrigação
para todos os países, inclusive aqueles
que nã o o ra tif ica ra m , ne m o
assinaram.

Não por acaso, o Tratado do Espaço é a


matriz dos demais instrumentos sobre o
espaço e as atividades espaciais, quais
sejam: Acordo sobre o Salvamento de
Astronautas e Restituição de
Astronautas e de Objetos Lançados ao
Espaço Cósmico, de 1968; Convenção
sobre Responsabilidade Internacional
po r Da no s Ca usa do s po r O bj e to s
Espaciais, de 1972; Convenção Relativa
ao Registro de Objetos Lançados no
Espaço Cósmico, de 1976; e Acordo que
Regula as Atividades dos Estados na Lua
e em Outros Corpos Celestes, de 1979.
Também se alicerçam no Tratado do
Espaço as seguintes resoluções da
Assembléia Geral das Nações Unidas:
Princípios Reguladores do Uso pelos
Estados de Satélites Artificiais da Terra
para Transmissão Direta Internacional
de Te le visã o, de 1982; P rincípios
Relativos ao Sensoriamento Remoto da
Te r r a de sde o Espa ço , de 1986;
Princípios Relativos ao Uso de Fontes de
Energia Nuclear no Espaço Exterior, de
1992; Declaração sobre a Cooperação
Internacional na Exploração e Uso do
Espaço Exterior em Benefício e no
Interesse de todos os Estados, Levando
Relativos ao Sensoriamento Remoto da
Te r r a de sde o Espa ço , de 1986;
Princípios Relativos ao Uso de Fontes de
Energia Nuclear no Espaço Exterior, de
1992; Declaração sobre a Cooperação
Internacional na Exploração e Uso do
Espaço Exterior em Benefício e no
Interesse de todos os Estados, Levando
em Especial Consideração as
Necessidades dos Países em
Desenvolvimento, de 1996; e Aplicação
do conceito de "Estado lançador", de
2004.

Contudo, por mais que se exalte a


importância do Tratado do Espaço, é
impossível ignorar que ele precisa ser
atualizado – até com urgência em certos
casos –, para impedir qualquer perda de
sua autoridade e ampliar sua força e
eficiência sobre as atividades espaciais,
cada vez mais intensas e complexas.

Em 1967, ao nascer o Tratado do


Espaço, o então presidente dos Estados
Unidos, Lyndon B. Johnson, afirmou:
"Se não foi possível, até agora, livrar o
planeta Terra dos instrumentos de
guerra, pelo menos devemos tentar
impedir o alastramento desse vírus no
espaço". Mal sabia Johnson que este
seria hoje, 40 anos depois, uma das
mais graves lacunas do Tratado do
Espaço: ele proíbe a instalação em
órbita de armas de destruição, mas não
outros tipos de armas, como as anti-
satélite. O resultado é a nova corrida
armamentista no espaço, que ora se
esboça entre, pelo menos, Estados
Unidos, Rússia e China. Ao não vetar
todo tipo de arma espacial, o Tratado
do Espaço acaba se tornando um bom
pre te xto pa ra a pe squisa e o
desenvolvimento de novos artefatos
de stina dos a de struir sa té lite s. A
experiência realizada pela China em 11
esboça entre, pelo menos, Estados
Unidos, Rússia e China. Ao não vetar
todo tipo de arma espacial, o Tratado
do Espaço acaba se tornando um bom
pre te xto pa ra a pe squisa e o
desenvolvimento de novos artefatos
de stina dos a de struir sa té lite s. A
experiência realizada pela China em 11
de janeiro deste ano, alvejando por
míssil um velho satélite de meteorologia
do país, deixa claro que, enquando não
houver um acordo a respeito, o espaço
continuará passível de se converter em
campo de batalha.

Na pauta da Conferência da ONU sobre


Desarmamento, em Genebra, há um
projeto russo-chinês de tratado que visa
eliminar o uso de armas no espaço, mas
a pr o po sta e stá blo que a da pe lo s
Estados Unidos.

Outra solução seria propor uma emenda


ao Art. 4º do Tratado do Espaço,
inclusindo em sua redação o
co m p r o m isso d o s p a íse s d e n ã o
colocarem em órbita qualquer tipo de
armas, sejam de destruição em massa
ou não, nem usarem-nas, de qualquer
forma, no espaço, no espaço em
direção à Terra, ou na Terra em direção
ao espaço. Por seu Art. 15, todo país
que ratificou o Tratado pode propor
emendas a ele, e as amendas entram
e m vigo r pa ra ca da pa ís a pó s a
aprovação da maioria dos países-partes.
Provavelmente, a maioria dos 98 países
que ratificaram o Tratado votaria a
favor da tal emenda. Mas a vitória por
maioria de votos poderia não resolver o
problema: a emenda com certeza não
teria o apoio dos Estados Unidos, e,
sem esse apoio essencial, seria difícil à
nova regra vetar efetivamente o uso de
qualquer arma no espaço. Nesta área,
co m o e m o u tr a s, o m u n d o e stá
favor da tal emenda. Mas a vitória por
maioria de votos poderia não resolver o
problema: a emenda com certeza não
teria o apoio dos Estados Unidos, e,
sem esse apoio essencial, seria difícil à
nova regra vetar efetivamente o uso de
qualquer arma no espaço. Nesta área,
co m o e m o u tr a s, o m u n d o e stá
obrigado a encontrar uma saída com a
participação dos Estados Unidos – pelo
menos enquanto perdurar a atual
co rre la çã o de f o rça s na a re na
internacional. Daí que o futuro do
Tratado do Espaço, quanto a haver ou
não haver guerra no espaço, depende
de uma forte mudança na política da
maior potência atual. Ao resto do
mundo cabe discutir o tema cada vez
m ais e pre ssionar para que e ssa
mudança se dê o quanto antes.

Se e quando for possível alterar esse


quadro estratégico mais sensível, outras
iniciativas para modernizar o Tratado do
Espaço poderão emergir, ser debatidas
democraticamente e merecer aprovação
com mais facilidade.

Neste sentido, nunca é demais recordar


a s prim e ira s pa la vra s de se u
pr e â m bulo . Lá se a f ir m a que o s
Estados-Partes do Tratado inspiram-se
"na s va sta s pe r spe ctiva s que a
descoberta do espaço cósmico pelo
hom e m ofe re ce à hum anidade " e
reconhecem "o interesse que apresenta
para toda a humanidade o programa da
exploração e uso do espaço cósmico
para fins pacíficos".

O espírito do Tratado do Espaço,


fundado na idéia de humanidade, está
necessariamente comprometido com a
época da globalização virtuosa, em que
todos os países e povos, sem exceção,
têm razões de sobra, boas e más, para
para fins pacíficos".

O espírito do Tratado do Espaço,


fundado na idéia de humanidade, está
necessariamente comprometido com a
época da globalização virtuosa, em que
todos os países e povos, sem exceção,
têm razões de sobra, boas e más, para
se sentirem passageiros de uma imensa
nave espacial, o Planeta Terra, com
todos os direitos e obrigações que isso
implica. O desafio hoje é fazer com que
a letra do tratado busque atender mais
plenamente às demandas decisivas do
nosso tempo, como legítima
"incumbência de toda a humanidade".

A tarefa está anos-luz distante de ser


fácil e simples. Mas, afinal, somos ou
não somos a única espécie inteligente
conhecida até agora no Universo, capaz
de descobrir os caminhos mais justos e
produtivos, de discernir eticamente e de
traçar o seu próprio destino?

----------------------------------

* Vice-Presidente da SBDA, membro da


Diretoria do Instituto Internacional de
Direito Espacial, membro da Academia
Internacional de Astronáutica e do
Com itê de Dire ito Espa cia l da
International Law Association (ILA),
autor de "Direito e Política na Era
Espacial – Podemos ser mais justos no
espaço do que na Terra?" (Editora
Vieira&Lent, 2007) E-mail:
monserrat@allternex.com.br

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