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Educação e Sociedade

Avalie!

É inevitável que todos os indivíduos, satisfeitos com o status que de


uma sociedade dada, em que vivem, esperam que a instituição
escola transmita inalteradas, à nova geração, as normas de sua
sociedade.

Para essas pessoas, qualquer modificação que os professores


tentem introduzir, compreendendo a educação como “prática da
liberdade”, segundo as palavras de Paulo Freire, é vista com
desconfiança.

Esperam, assim, que a escola contribua para manter inalterada a


sociedade, apesar dos seus inúmeros problemas. Dessa forma,
fixa-se uma função conservadora para a escola, reservando-se sua
função inovadora para alguns aspectos do conhecimento. Tal
constatação é válida também para sociedade em períodos de
revolução: não é a escola que a inicia, mas é ela que tem a
responsabilidade de consolida-la, transmitindo a seus alunos os
novos valores.

O que integra o indivíduo na sociedade e no grupo social em que


vive é o patrimônio cultural que ele recebe pela educação.

Assim, são objetivos da educação: a transmissão da cultura, a


adaptação dos indivíduos à sociedade, o desenvolvimento de suas
potencialidades e como conseqüência o desenvolvimento da própria
sociedade. A criança, por exemplo, passa desde cedo pelo
processo de socialização, na medida em que aprende as regras de
comportamento do grupo em que nasceu.

A educação pode ser informal, ou formal.


Educação informal, assistemática ou difusa.É a que acontece na
vida diária pelo aprendizado das tarefas normais de cada grupo
social, pela observação do comportamento dos mais velhos, pela
convivência entre os membros de uma sociedade. É realizada sem
qualquer plano, sem local ou hora determinada. Todas as pessoas,
todos os grupos, toda a sociedade participam dessa forma de
educação. A expressão popular “Quanto mais se vive, mais se
aprende”exprime esse processo.

Educação sistemática ou formal. Embora a educação informal


esteja sempre presente na vida do indivíduo, em sociedades
complexas ela não basta. A divisão do trabalho e a extrema
especialização exigem das crianças a passagem pela escola, onde
recebem educação sistemática ou formal. Seu objetivo básico é a
transmissão de determinados legados culturais, isto é de
determinados conhecimentos, técnicas ou modos de vida.

A educação formal seleciona os elementos essenciais e sua


transmissão se dá por pessoas especializadas.

Do ponto de vista sociológico, a escola pode ser vista como grupo


social e instituição.

Considerada uma reunião de indivíduos (alunos, professores e


funcionários) com objetivos comuns e em contínua interação, a
escola é um grupo social que transmite cultura.

A escola pode também ser vista como uma instituição, ou seja, um


conjunto de normas e procedimentos padronizados, altamente
valorizados pela sociedade, cujo objetivo principal é a socialização
do indivíduo e a transmissão de determinados aspectos da cultura.
É Fernando de Azevedo, em sua obra Sociedade educacional,
quem demonstra ser a educação um processo social geral no qual
torna-se necessário distinguir os pedagógicos dos sistemas
propriamente ditos, vistos como fatos institucionalizados. Para ele,
“a educação é, portanto, um processo social de que não é possível
ter uma compreensão bastante nítida se não procuramos observa-lo
na multiplicidade e diversidade dessas forças e instituições que
concorrem ao desenvolvimento da sociedade. Só por abstração é
que podemos isola-lo do sistema de relações e instituições sociais
e, ainda quando a educação adquire uma forma mais definida ou
uma estrutura (escola, sistemas escolares), não é possível
compreender o sistema pedagógico, senão colocando-o em seu
lugar, no conjunto do sistema social em que se organizou e a que
serve, como uma das instituições destinadas a assegurar a sua
unidade, o seu equilíbrio e o seu desenvolvimento”.(Apud delorenzo
Neto 1974:125).

Brookover acentua esta característica do processo educacional,


afirmando que “precisamos considerar o sistema educacional como
um aspecto da sociedade global, ã luz dos processos gerais de
mudança cultural. As escolas não funcionam como algo ã parte, que
podem modelar a sociedade. Não são agências extra-societárias:
encontram-se inseridas no sistema social e não acima e sobre ele”.
(In; Pereira e Foracchi, 1973:81-2).

Outro aspecto a destacar é que o efeito da educação, visto como


um todo, é o de aumentar a rapidez com que as várias mudanças,
tanto tecnológicas quanto materiais, se expandem na sociedade.
Ora, este fator é considerado de forma ambivalente pelos
componentes da sociedade: se realmente há o desejo de que a
escola estimule a mudança no campo material e tecnológico,
espera-se, ao mesmo tempo, que mantenha inalterados os padrões
de relações, as normas e os valores de uma sociedade dada. Em
outras palavras, espera-se “que o sistema educacional impeça
qualquer mudança nos sentimentos e crenças relativas às relações
humanas e que, ao mesmo tempo, ensine a ciência e a tecnologia –
as quais, quase certamente, tornarão obsoletas algumas formas de
relações humanas”(Brookover In: Pereira e Foracchi, 1973: 84-5).
Educação para a Liberdade

A educação para a liberdade é outro fator que leva a escola a


contribuir para a mudança social. O indivíduo educado para ser livre
é aquele capaz de analisar criticamente uma situação e, a partir
dessa análise, tomar a decisão que achar mais viável diante dela:
poderá concluir que a situação é a mais adequada e, por isso, lutar
para mantê-la; mas poderá também julgar que a situação deve ser
modificada e contribuir para a mudança.

Só é possível uma educação para a liberdade num clima de


liberdade. A liberdade não se ensina, qual matéria escolar teórica,
mas se aprende praticando. Assim, não adianta o professor e a
escola declararem-se a favor da liberdade se, ao mesmo tempo,
reprimirem toda e qualquer manifestação dos alunos.

Liberdade não significa cada um procurar apenas seu próprio


interesse. Mais do que isso, quer dizer o indivíduo contribuir para o
interesse comum através de meios que ele julga os mais indicados.
Evidentemente, o indivíduo estará constantemente avaliando esses
meios e sua eficácia, modificando-os quando achar que não servem
mais.

Num clima de liberdade, o professor pode discordar do aluno, e


vice-versa, mas um defender o direito de o outro expor seu ponto de
vista. Quando há liberdade, desenvolve-se um clima de respeito
mútuo, de valorização da pessoa do outro. Compreende-se que,
sendo respeitado em seu direito de divergir, o indivíduo também
considere necessário respeitar os demais e sua liberdade.

Educação e Complexidade Social

À exclusão social opõe-se a participação. A escola pode ser um


fator importante na aprendizagem da participação. Isso ocorrerá na
medida em que o aluno for estimulado a se interessar pelo que
acontece na escola, na sala de aula e fora dela; na medida em que
o programa de estudos não for imposto de cima para baixo, mas se
permita aos alunos dar sua contribuição na escolha dos assuntos,
dos métodos de trabalho, etc.; na medida em que a direção da
escola se dispuser a ouvir os alunos, a estimula-los a discutirem os
eventuais problemas da escola e as maneiras de resolve-los; na
medida em que os alunos tiverem oportunidade de fazer
programações culturais, sociais e esportivas sob sua inteira
responsabilidade.

A própria escola poderá modificar-se, superar seus graves


problemas, se dispuser a possibilitar maior participação dos alunos.
O problema dos altos índices de reprovação na primeira série –
cerca de 50% – e de evasão escolar, por exemplo, poderia ser
encaminhado de maneira satisfatória se alunos e ex-alunos
pudessem discuti-lo livremente e propor soluções.

Estimulando a participação dos alunos, a escola estará contribuindo


para a formação do cidadão consciente de suas responsabilidades
sociais, que é um dos objetivos do ensino de primeiro e segundo
graus, segundo a lei 5692/71. Educado para a participação social, o
indivíduo não se submeteria facilmente às injustiças e
desigualdades sociais vigentes na sociedade. Ao contrário, teria
condições de se envolver de forma atuante na luta pela mudança
dessas condições.

Educado para a participação, o indivíduo exigiria participar, opinar a


respeito das decisões que influem nos destinos do país e da
comunidade, ser respeitado em seus direitos fundamentais, em sua
liberdade, em seus direitos a condições dignas de vida. Não
admitiria ser excluído da vida da sociedade, mas seria um
importante fator de transformação social.

À medida que a escola contribuir para diminuir os índices de


exclusão escolar, estará dando sua contribuição para reduzir o
número de marginalizados e para construir uma sociedade mais
justa, mais igualitária.

A escola será tanto mais eficiente quanto mais estiver aberta às


condições do país e do mundo em que vivemos. O interesse pelos
problemas atuais que afligem a humanidade não poderá deixar de
existir dentro da escola, na medida em que esta pretender formar
pessoas para atuarem de forma construtiva na solução desses
problemas.

A escola pode também contribuir para a superação da segregação


entre as pessoas, para a compreensão da pessoa, qualquer que
seja, como princípios e fim das atividades humanas, para a
solidariedade na luta por melhores condições de vida.

Cultura e Educação

No início de abril de 1984 os jornais estamparam a seguinte notícia:


dois alunos foram expulsos de uma escola de primeiro grau de
Porto Alegre. Causa da expulsão: os dois estavam fazendo um
plebiscito entre os colegas a respeito de sua posição sobre as
eleições diretas para presidente da República.

Na verdade, a preparação do aluno para o exercício consciente da


cidadania é um dos objetivos do ensino de primeiro e segundo
graus, de acordo com a Lei 5 692/71. E tanto mais eficiente será
essa preparação quanto mais ela for feita na prática, a partir da
discussão e da participação na vida social do país. Punir alunos que
promovem discussões sobre os problemas do país contraria tanto
as leis do ensino quanto os objetivos mais amplos da educação.

Nenhuma escola se localiza fora de uma comunidade, fora de um


país. Refletir e pensar sobre as condições dessa comunidade e
desse país é uma das responsabilidades da escola. Só assim ela
estará preparando os alunos para conhecerem a realidade em que
vivem e participarem ativamente em sua transformação.

A escola, antes de mais nada, é a agência através da qual as


gerações adultas introduzem as novas gerações no domínio do
patrimônio cultural da humanidade e a cultura de um país não se
resume às matérias escolares, nem ao conteúdo dos livros
didáticos.

Tanto a cultura universal quanto a cultura própria de um país ou de


uma comunidade manifestam-se através de formas próprias de
expressão.Quanto maior o contato do aluno com essas formas de
expressão, mais ele apreenderá e vivenciará a cultura do seu povo.
Na medida em que a escola oferecer aos alunos oportunidades de
contato com a cultura humana, do passado e do presente, ela
estará cumprindo seus objetivos educacionais. As ciências e as
artes são manifestações importantes dessa cultura.

As possibilidades no campo artístico são numerosas. O contato dos


alunos com profissionais que atuam nas diversas artes (literatura,
teatro, cinema, música, pintura, escultura, arquitetura), bem como o
exercício dos próprios alunos nesses campos constituem
experiências de inestimável valor educativo, que abrem as
perspectivas profissionais dos educandos.

Na comunidade em que se localiza a escola, no município ou na


região, não é raro encontrarem-se pessoas que atuam em uma ou
em várias das atividades artísticas citadas. A presença na escola de
um escritor, de um poeta, de um autor ou ator de teatro, de um
diretor ou ator de cinema, de um músico ou de um conjunto musical,
de um pintor, de um escultor, enfim, de profissionais do campo
artístico, contribui para que os alunos tenham um contato mais vivo
com a arte. Muitas vezes há artistas na comunidade, de grande
valor, mas desconhecidos do público. A escola pode descobrir,
promover e divulgar a obra desses artistas. Será uma contribuição
ao conhecimento da comunidade e à educação dos alunos.
Além do contato com os artistas, da observação e do estudo de
suas obras, os alunos também podem exercitar-se fazendo
experiências artísticas. É claro que para isso a escola precisa de
recursos, mais para algumas artes e menos para outras. Assim, não
há necessidade de muitos recursos para que o aluno escreva
poesias e outros textos literários, para que escreva uma peça de
teatro ou participe como ator, para que componha e execute obras
musicais, para que pinte quadros ou faça esculturas. Já no caso do
cinema, os meios necessários são mais caros.

Além das atividades promovidas dentro da escola, os alunos podem


sair para tomar parte de eventos artísticos: assistir a um filme, ver
uma peça de teatro, visitar uma exposição artística, participar em
festivais de músicas e em sessões de autógrafos são apenas
alguns exemplos de iniciativas que a escola pode tomar. A maior ou
menor participação dos alunos em atividades artísticas depende em
grande parte da iniciativa dos educadores, tanto administradores
quanto professores. A iniciativa dos alunos em promover atividades
e exigir a participação em eventos que ocorrem fora da escola
constitui outro fator importante, principalmente no caso de ser
necessário vencer a acomodação rotineira a que muitos educadores
podem submeter-se.

Em síntese: compreender a prática social global como ponto de


partida e de chegada da prática educativa implica compreender a
prática educativa como uma atividade mediadora no seio dessa
prática mais ampla, uma atividade que tem por função
instrumentalizar o indivíduo, enquanto ser social, para sua atuação
no meio social onde está inserido. Essa instrumentalização se
refere à aquisição pelo indivíduo do saber escolar, compreendido
como ferramenta cultural necessária para a vida dentro de uma
sociedade letrada. Esse “saber escolar” constitui-se nos elementos
essenciais do conhecimento humano sistematizado e em
sistematização, devidamente às diversas faixas etárias dos
educandos.
Bibliografia

PILETTI, Nelson – Sociologia da educação.


OLIVEIRA, Pérsio Santos – Introdução à sociologia.
LAKATOS, Eva Maria – Sociologia Geral.
COSTA, Maria Cristina Castilho – Sociologia – Introdução à ciências
da Sociedade.
OLIVEIRA, Betty A. DUARTE, Newton – Socialização do saber
Escolar.

Autor: Angela Meira

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