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TÍTULO: CONSTRUÇÕES GEOMÉTRICAS

Autor: Regina Carla Lima Corrêa

Instituição: Universidade Federal de Ouro Preto

e-mail: regina carla@iceb.uf op.br

Objetivos: Estando as construções geométricas cada vez mais ausentes dos currı́culos
escolares, este trabalho pretende ajudar a resgatar o assunto do esquecimento e mostrar a
sua importância como instrumento auxiliar no aprendizado da geometria. Os problemas
de construção são motivadores, às vezes intrigantes e frequentemente conduzem à des-
coberta de novas propriedades. São educativos no sentido que em cada um é necessária
uma análise da situação onde se faz o planejamento da construção, seguindo-se a execução
dessa cosntrução, a posterior conclusão sobre o número de soluções distintas e também
sobre a compatibilidade dos dados.
Aqui, trataremos das construções elementares, ou seja, da criação das primeiras ferramen-
tas que serão utilizadas na solução dos exercı́cios propostos e das expressões algébricas,
onde interpretaremos geometricamente algumas equações da álgebra.

Público Alvo: Alunos de Gradução em Matemática, Professores de Matemática do


ensino básico e médio.

Material Necessário: Lápis, borracha, papel, régua, compasso, esquadro.

Texto:

Introdução

As construções com régua e compasso já aparecem no século V aC, época dos
pitagóricos, e tiveram enorme importância no desenvolvimento da matemática grega. Na
grécia antiga, a palavra número era usada só para inteiros e uma fração era considerada
apenas uma razão entre estes números. Estes conceitos, naturalmente, causavam difi-
culdades nas medidas das grandezas. A noção de número real estava ainda muito longe
de ser concebida, mas, na época de Euclides (século III aC) uma idéia nova apareceu.
As grandezas, no lugar de serem associadas a números, passaram a ser associadas a seg-
mentos de reta. Assim, o conjunto dos números continuava discreto e o das grandezas
contı́nuas passou a ser tratado por métodos geométricos. Nasce então neste perı́do uma
nova álgebra, completamente geométrica onde a palavra resolver era sinônimo de cons-
truir. Nessa álgebra, por exemplo, a equação ax = b não tinha significado porque o lado
esquerdo era associado à área de um retângulo, o lado direito a um segmento de reta e um
segmento de reta não pode ser igual a uma área. Entretanto, resolver a equação ax = bc
significava encontrar a altura x de um retângulo de base a que tivesse a mesma área de
um retângulo de dimensões b e c.

Construções Geométricas

P
Perpendiculares

Para traçar por um ponto P uma perpendicular a uma A B r

reta r, traçamos um cı́rculo de centro P cortando a reta


r em A e B. Em seguida, traçamos cı́rculos de mesmo
raio com centro em A e B obtendo Q, um dos pontos
Q

de interseção. A reta P Q é perpendicular a AB, pois,


como P A = P B e QA = QB, a reta P Q é mediatriz de
AB e portanto perpendicular a AB.

Paralelas

Para traçar por um ponto P uma paralela a uma reta P Q

r podemos proceder da seguinte forma. Traçamos 3


cı́rculos, sempre com o mesmo raio: o primeiro com A B r

centro em P , determinando um ponto A na reta r; o


segundo com centro em A, determinando um ponto B
na mesma reta e o terceiro centro em B, determinando
um ponto Q sobre o primeiro cı́rculo. Da forma como
foi feita a construção, P ABQ é um losango e portanto,
seus lados P Q e AB são paralelos.
P
Mediatriz

A mediatriz de um segmento AB é a reta perpendicu-


lar a AB que contém seu ponto médio. Para cosntruir, A B

traçamos dois cı́rculos de mesmo raio, com centros em


A e B. Sejam P e Q os pontos de interseção destes
cı́rculos. A reta P Q é a mediatriz de AB porque sendo Q

AP BQ um losango, suas diagonais são perpendiculares


e cortam-se ao meio.

Bissetriz B

A bissetriz de um ângulo AÔB é a semi-reta OC tal Y

que AÔC = C ÔB. Para construir a bissetriz do ângulo


AÔB dado, traça-se um cı́rculo de centro O determi- O X A

nando os pontos X e Y nos lados do ângulo. Em seguida,


traçam-se dois cı́rculos de mesmo raio com centros em X
e Y que possuem C como um dos pontos de interseção.
A semi-reta OC é a bissetriz do ângulo AÔB. De fato,
pela construção feita, os triângulos OXC e OY C são
congruentes e portanto X ÔC = C ÔY .

Arco Capaz M

θ
Consideremos dois pontos, A e B sobre um cı́rculo. Para
M'

todo ponto M sobre um dos arcos, o ângulo AM̂ B = θ θ

é cosnstante. Este arco chama-se arco capaz do ângulo θ


sobre o segmento AB. Um obserador, portanto, que se B

mova sobre este mesmo arco, consegue ver o segmento A


N

AB sempre sob o mesmo ângulo. Naturalmente que se


um ponto N pertence ao outro arco, o ângulo AN̂ B é
também constante e igual a 180◦ − θ.
Antes de construir o arco capaz de um ângulo dado sobre um segmento dado, devemos
mostrar como se transporta um ângulo de um lugar para outro. Suponhamos então que
um ângulo θ de vértice V é dado e que desejamos construir um ângulo B ÂX = θ sendo
dada a semi-reta AB.

Para resolver este problema, traçamos um cı́rculo qual-


quer de centro V , determinando os pontos P e Q nos A
θ
P' B

P
lados do ângulo θ e um cı́rculo de mesmo raio com cen- Q'
θ
tro em A determinando P em AB. Em seguida com

V Q

raio P Q, traçamos um cı́rculo de centro P ′ para deter-


minar Q′ sobre o primeiro cı́rculo. É claro que, com essa
construção, teremos P ′ ÂQ′ = P ÂQ = θ.

Para construir um arco capaz procedemos da seguinte


forma. Dado o segmento AB, traçamos a sua mediatriz
e o ângulo B ÂX = θ (dado). A perpendicular a AX M

θ
traçada por A encontra a mediatriz de AB em O, cen-
tro do arco capaz. O arco de centro O e extremidades O

A e B situado em semi-plano oposto a X (semi-planos


relativos a AB) é o arco capaz do ângulo θ sobre AB. A θ C B

Para justificar a construção observe que se C é o ponto


médio de AB . Se B ÂX = θ, teremos C ÂO = 90◦ − θ, X

AÔC = θ e AÔB = 2θ. Portanto, como a medida do


ângulo inscrito é a metade da medida do ângulo central
correspondente teremos para qualquer ponto M do arco
construı́do, AM̂B = θ
Divisão de um segmento em partes iguais

A B
Para dividir um segmento AB, por exemplo, em 5 partes P1 P2 P3 P4

iguais, traçamos uma semi-reta qualquer AX e sobre ela A1

A2

construı́mos, com o compasso, os segmentos iguais AA1 , A3

A4
A1 A2 , A2 A3 , A3 A4 e A4 A5 . As paralelas a A5 B traçadas
A5

pelos pontos A1 , A2 , A3 e A4 , determinarão no segmento


AB os pontos P1 , P2 , P3 e P4 que o dividirão em 5 partes
iguais.

Traçando retas tangentes a um cı́rculo

A tangente a um cı́rculo por um ponto P deste cı́rculo A

é a reta perpendicular em P ao raio OP , sendo O o


centro do cı́rculo. Para traçar tangentes a um cı́rculo P O

por um ponto P exterior devemos inicialmente obter os


pontos de tangência. Se O é o centro do cı́rculo e A é
A'
um dos pontos de tangência então o ângulo P ÂO é reto.
Logo, A pertence a um arco capaz de 90◦ sobre P O.
Determinamos então o ponto médio de P O e traçamos o
cı́rculo de diâmetro P O que determinará sobre o cı́rculo
dado os pontos de tangência procurados A e A′ .

A 4a proporcional

Dizemos que o segmento x é a 4a proporcional entre os


a c a
segmentos a, b e c quando = . O A c C

b x
Esta relação é equivalente a ax = bc que discutimos na b

B
x
introdução deste trabalho, usando as idéias dos gregos D

antigos. Porém, usando o ainda mais antigo Teorema


de Tales podemos obter uma outra construção para x
na relação dada acima. Sobre um ângulo qualquer de
vértice O tomemos sobre um lado OA = a e AC = c e
sobre o outro lado OB = b. Traçando por C uma par-
alela a AB, obtemos D na semi-reta OB. Então BD = x
é solução da equação dada.

a2 ± b2

√ x a
Se x = a2 + b2 onde a e b são segmentos dados, então b x

a
x é a hipotenusa de um triângulo retângulo cujos catetos b

são a e b.

Se x = a2 − b2 então x é agora um cateto de um
triângulo retângulo de hipotenusa a, onde o outro cateto
é igual ab.

Média Geométrica Q

Dados dois segmentos a e b, definimos a sua média arit-


a+b R P S

mética por m = e sua média geométrica por


√ 2
g = ab. A construção da primeira é elementar e a
da segunda pode ser feita utilizando-se as conhecidas
relações do triângulo retângulo: h2 = mn ou b2 = am, Q

onde a é a hipotenusa, b é um dos catetos, h é a altura


relativa à hipotenusa e m e n são as projeções dos cate- P S R

tos sobre a hipotenusa.



Nas cosntruções ao lado P R = a, P S = b e P Q = ab

Podemos também usar o conceito de potência de um


B

ponto em relação a um cı́rculo para resolver o problema



de determinar um segmento b quando a e ab são dados.
A
Na figura ao lado a secante P AB e a tangente P T ao
cı́rculo possuem a relação P T 2 = P A.P B (este valor é P

chamado de potência do ponto P em relação ao cı́rculo).


√ √
Assim, se a e ab são dados, desenhamos P T = ab e T

um cı́rculo qualquer tangente em T a P T . Em seguida,


determinamos um ponto A deste cı́rculo tal que P A = a.
A reta P A determinará o ponto B sobre o cı́rculo e
teremos P B = b.
Exercı́cios Propostos

1. Construir o triângulo ABC sendo dados os lados AB = c, BC = a e o ângulo  = θ.

2. Construir o triângulo ABC sendo dados o lado BC, a altura h relativa a esse lado
e o ângulo Â.

3. Construir o triângulo ABC sendo dadas as medianas ma e mb e a altura ha .

4. São dados um cı́rculo de centro O e um ponto P , exterior ao cı́rculo, desenhados


no papel e ainda um segmento a. Pede-se traçar por P uma reta que determine no
cı́rculo uma corda igual a a.

5. São dados um cı́rculo C, uma reta r, exterior ao cı́rculo, e um ponto A sobre r.


Construir um cı́rculo C ′ , tangente exteriormente a C e tangente em A à reta r.

6. Inscrever no triângulo ABC dado um quadrado tendo um lado sobre BC.


√ √ √
7. Dado um segmento a, obter todos os segmentos da sequência a 2, a 3, a 4, . . .

8. Construir um quadrado conhecendo a soma s da diagonal com o lado.

9. Resolver graficamente a equação x2 − ax + b2 = 0, onde a e b são segmentos dados.

10. São dados dois pontos A e B de um mesmo lado de uma reta r. Construir um
cı́rculo passando por A e B que seja tangente a r.

Referência Bibliográfica: ‘Construções Geométricas’, Eduardo Wagner, IMPA.