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O YOUTUBE COMO CRIAÇÃO E EVOLUÇÃO CULTURAL

Camila Deckmann Fleck

O YouTube, com seu surgimento, intensificou um comportamento


característico do século XXI: a habituação à acessibilidade instantânea a uma
quantidade muito grande de informação. Com isso, essa informação torna-se ou
completamente obsoleta, ou permanentemente relevante. O conteúdo que acessamos
na internet hoje não se limita mais a esse universo isolado, mas sim está presente à
nossa volta o tempo todo, quer percebamos ou não. O que antes era apenas uma
facilidade se torna parte da nossa vida, infiltrando-se na formação cultural dessa
geração. Desse modo, a influência que o fenômeno do YouTube exerce sobre a cultura
atual confere a ele uma importância significativa.
A revista norte-americana Time, em novembro de 2006, elegeu o YouTube
como a melhor invenção do ano por, entre outros motivos, "criar uma nova forma para
milhões de pessoas se entreterem, se educarem e se chocarem de uma maneira como
nunca foi vista".

1. O YOUTUBE COMO CRIAÇÃO CULTURAL

Com o advento do YouTube e de outros sites similares de compartilhamento de


conteúdo − seja esse conteúdo audiovisual ou não −, está mais fácil do que nunca
produzir e distribuir conteúdo próprio. Nessas circunstâncias, como destacar-se nesse
mar infinito de informação? A internet, por seu formato anárquico, força os usuários a
aprenderem a comportar-se e adaptar-se dentro do ambiente cibernético, que tem suas
próprias regras. Após certo tempo de uso, tornam-se instintivas e naturais as reações a
estímulos intra-internet. Interesses comuns agem como imãs e grupos se formam; os
usuários encontram uns aos outros, pelas próprias características da rede. Com isso, a
produção de conteúdo tende a voltar-se para esse interesse em comum, tornando o
destaque mais alcançável, devido ao "público" mais específico e confiável.
A internet em si já permite a comunicação entre pessoas com os mesmos
interesses, mas um site como o YouTube permite, além disso, o compartilhamento de
conteúdo entre essas pessoas, tornando essa comunicação ainda mais profunda e
direta; em vez de apenas comentar experiências, pode-se reproduzi-las, repetidamente,
tornando-as parte do repertório de quem quer que as acesse. Essa possibilidade de
compartilhamento − tanto de conteúdo, quanto de experiências relativas a ele −, por
sua vez, estimula a produção de mais conteúdo, e essa produção exige certos
conhecimentos e habilidades específicos. Desse modo, os usuários espectadores que
desejam tornar-se produtores autonomamente buscam esse conhecimento, e acabam
por ser autodidatas − no caso do YouTube, na arte e técnica da edição e da produção de
conteúdo audiovisual. Além disso, de forma geral, esse conhecimento não estaciona,
mas evolui, aperfeiçoa-se e é repetidamente compartilhado entre essas pessoas
pertencentes ao grupo de interesse comum, ou até mesmo entre grupos de interesses
distintos. O conhecimento cresce, e descobrem-se talentos e formam-se habilidades
de forma coletiva a orgânica.
É essa possibilidade de se produzir algo próprio, de interferir, de contribuir, de
interagir, de receber feedback, de exibir seu ponto de vista num grupo de interesse
comum que torna o YouTube o ambiente ideal para a criação de elementos culturais; a
constante atividade de elaboração e consumo de conteúdo propicia a obtenção tanto
de informação sem grande valor cultural quanto de enorme relevância nesse sentido.
Essa abertura para a manifestação individual em direção ao coletivo é sedutora, e, por
isso, viável. No momento em que esse conteúdo produzido se difunde e alcança o
limite do âmbito cibernético e passa a ser referenciado no convívio diário ou tem
algum tipo de influência no mundo externo à internet, ele revela-se como cultura.
Um bom exemplo dessa produção de conteúdo referente a grupos de interesse
específicos são os chamados fanvideos (ou fanvids), cujos grupos são os fandoms. A
palavra "fandom" surgiu na década de 1930, e seu sentido evoluiu desde então, até as
múltiplas definições aceitas hoje: 1. O microcosmo composto de pessoas que são fãs
de um gênero ou subgênero de ficção ou outra mídia; grupo de seguidores ou
entusiastas; todos os fãs ativos de algo. 2. O estado ou atitude de ser fã; o estado de
ser um fã ou tudo que engloba a cultura e o comportamento de fã em geral. Os
fanvideos são um produto dos fandoms, tomando a primeira definição.
A produção de fanvideos iniciou-se em 1975, dentro do fandom da série
televisiva do fim da década de 60 Jornada nas Estrelas, mas havia muitas limitações
técnicas na época que impediam que esse tipo de produto de fã fosse difundido.
Mesmo com o surgimento da possibilidade de gravar fitas de vídeo em casa, o
processo ainda era muito trabalhoso e demorado, podendo levar de seis a oito horas,
dependendo da complexidade do projeto. Com a ascensão do YouTube nos dias de
hoje, esse trabalho torna-se imensamente mais fácil, tanto em termos de produção −
graças à tecnologia de edição e combinação de mídias disponível − quanto de
distribuição. A produção massiva de fanvideos que se tem hoje deve-se ao YouTube e
às possibilidades que ele apresenta. É importante ressaltar que, assim como no campo
das fanfictions (a produção literária proveniente dos fandoms), existem ambos os
extremos de qualidade: é confeccionado conteúdo desde o mais tosco até autênticas
obras de arte, muitas vezes alcançando ou superando o nível de produtos profissionais
ou originais; a única diferença, nesse último caso, é que não há remuneração a não ser
a aprovação de outros fãs e a satisfação pessoal.

2. O YOUTUBE COMO EVOLUÇÃO CULTURAL

Esse fenômeno de produção massiva e coletiva de conteúdo gerada dentro do


âmbito cibernético, além de contribuir para a geração de elementos culturais em geral,
participa na criação e articulação da própria cibercultura e tudo que ela engloba. A
cultura produzida nesse meio tende a evoluir de se propagar de forma viral, criando
uma espécie de unanimidade cultural da internet, a despeito dos diferentes grupos de
interesse. Pelo contrário, essa cibercultura permeia esses grupos e une-os, de forma a
criar novas combinações de conteúdos e novos objetos culturais.
Pode-se dizer que um aspecto cultural tradicionalmente cibernético (embora o
conceito esteja presente fora da internet) são as memes. "Meme" significa literalmente
a transmissão de uma idéia de um cérebro para outro; no caso da internet, refere-se a
termos, temas, referências e qualquer outro tipo de comportamento social que se
espalha viralmente até se tornar amplamente difundido. As memes tornam-se "piadas
internas", hábitos, repetições de comportamento ou padrão linguístico.
Essas "piadas internas" não são realmente internas dentro do contexto da
internet, por serem amplamente disseminadas e poderem ser encontrados vestígios ou
menções a elas nas mais diversas áreas da rede; porém, num contexto que engloba a
"vida real", as memes aparecem como pertencentes somente àqueles que as
presenciam na internet. A partir daí, elas podem ou não escapar do universo
cibernético e passar a coexistir com os aspectos culturais extra-internet.
Grande parte das memes existentes hoje surgiu a partir de vídeos
especialmente marcantes disponíveis no YouTube − independente da relevância de seu
conteúdo −, pelo fato de o site ter se tornado um espaço amplo que tem a capacidade
de englobar os diferentes grupos existentes dentro da cibercultura e de abrigar seus
variados interesses de forma abrangente e acessível a todos. Alguns exemplos de
memes originadas a partir de conteúdo oriundo do YouTube são a garota apelidada de
Boxxy, a frase "All your base are belong to us" (que é uma das memes de maior
repercussão fora da rede, com referências em produtos externos à ela como video-
games e programas televisivos de grande audiência) e a reprodução de falas da
animação "Charlie the Unicorn", e a tradicional pegadinha do "Rickrolling", que
consiste em enviar a outros usuários um link alegando ser um vídeo relevante ao
tópico em discussão, mas que na verdade leva quem o clica ao clipe da música "Never
Gonna Give You Up", de Rick Astley, no YouTube.
Além das memes, outros aspectos da evolução da cultura cibernética relativos
ao YouTube podem ser mencionados, como a criação de novas formas de
interatividade pelos usuários. O usuário da internet é, por definição, irrequieto e
inconformado com o status quo do que o limita em suas ações, e sempre busca modos
de quebrar essas barreiras. Os usuários do YouTube não diferem desse padrão, e a
busca por uma maior interatividade entre produtores de conteúdo audiovisual e
espectadores é o que motiva grande parte das modificações na cibercultura e em seus
veículos.
Um fenômeno relativamente recente (presume-se que tenha tido início em
2008, a partir do surgimento da ferramenta "Annotations" implementada pelo site) é o
conceito de jogos interativos através de vídeos no YouTube, que são feitos pelos
usuários, conectando vários vídeos diferentes (frequentemente no estilo "Escolha Sua
Aventura", no qual são apresentadas alternativas que levam o jogador a consequências
e resultados distintos) através do recurso das "Annotations", disponíveis a qualquer
usuário.
A possibilidade de interação com essa enorme diversidade de informações e
pessoas tanto reflete quanto gera uma constante evolução na cultura intra-internet
(que vaza para a cultura extra-internet). O site é, de certa forma, feito pelos usuários,
que o transformam no que estiver a seu alcance. Embora algumas grandes empresas,
afiliadas à Google, mantenham canais online para a distribuição e divulgação de seus
produtos, a maior parte do conteúdo é gerado por usuários, que encontram ali uma
liberdade de expressão, criação e comunicação antes impossível.
À medida que as culturas intra- e extra-internet evoluem, misturam-se e se
modificam de acordo com os variados estímulos presentes, o YouTube torna-se,
também, um local para registro e armazenamento da memória audiovisual da
humanidade, apresentando exemplares culturais particulares a essa geração ou às
anteriores.

WEBGRAFIA

http://en.wikipedia.org/wiki/Vidding
http://pt.wikipedia.org/wiki/YouTube
http://pt.wikipedia.org/wiki/All_your_base_are_belong_to_us
http://pt.wikipedia.org/wiki/Rickrolling
http://knowyourmeme.com/memes/youtube-interactive-games
http://fandom101.tripod.com/about.html
http://www.urbandictionary.com/define.php?term=fandom

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