Você está na página 1de 130

MARIA MONTESSORI

PAP I RUS
Maria Montessori (1870-1952), psi­
quiatra e educadora, é natural de
Chiaravalle (Itália). À frente de seu
tempo em muitos aspectos, foi a
primeira mulher a obter o diploma de
Medicina em seu país.

Profunda observadora da criança e do


jovem, voltou-se para os estudos peda­
gógicos e estruturou o Sistema
Montessori de Educação, colocando
em prática uma visão de educação
apoiada em seus estudos e nos traba­
lhos de grandes pesquisadores da peda­
gogia e da psicologia. Propõe um
método educacional baseado no
conhecimento científico sobre o modo
de aprender do educando. Suas ideias
se concretizaram por intermédio das
Casas dei Bambini, que rapidamente se
espalharam pelo mundo, exigindo que a
doutora Montessori viajasse para vários
países onde desenvolveu cursos sobre
seu sistema educacional. Além disso,
participou de numerosos congressos
em que defendeu a criança e uma
educação com vistas a um mundo
melhor. A busca da paz por meio da
educação foi uma de suas bandeiras.

Entre as obras de Maria Montessori,


vale lembrar: The Montessori method;
The pedagogical anthropology; The
advanced Montessori method; Peace
and education; The secret of child­
hood; The child in the family; Education
to a new world: What you should know
about your child e From childhood to
adolescence.
PARA EDUCAR
O POTENCIAL HUMANO
MARIA MONTESSORI

Tradução
Minam Santini

Consultoria e revisão da tradução


Sonia Maria Alvarenga Braga

PARA EDUCAR
O POTENCIAL HUMANO

P A PI R U S E D I T O R A
Capa Fernando Cornacchia
Foto de capa Rennato Testa
Coordenação Beatriz Marchesini
Tradução Mirian Santini
Revisão técnica
da tradução Sonia Maria Alvarenga Braga
Copidesque Lúcia Helena Lahoz Morelli
Diagramação DPG Editora
Revisão Maria Lúcia A. Maier e Solange F. Penteado

Dados In te rn a cio n a is d c C a talogação na P u b lica çã o (CIP)


(Câm ara B ra sile ira d o L ivro , SP, B rasil)

Montessori, Maria, 1870-1952.


Para educar o potencial humano (livro eletrônico]/Maria Montessori;
tradução: Mirian Santini; consultoria e revisão da tradução: Sonia
Maria Alvarenga Braga. - Campinas, SP: Papirus. 2014.
3.039 Kb: PDF

Título original: To educate the human potential.


ISBN 978-85-308-1119-8

1. Educação Finalidades e objetivos 2. Educação - História


3. Educação de crianças 4. Montessori Método 5. Psicologia
educacional I. Titulo.

14-03253 CDD-371.392

ín d ic e s para ca tá lo g o siste m á tico :


1. Método Montessori: Educação 371.392
2. Montessori: Método: Educação 371.392

Exceto no caso Proibida a reprodução total ou parcial da obra de acordo com a lei 9.610/98.
de citações, a Editora afiliadaà Associação Brasileira dos Direitos Reprográficos(ABDR).
grafia deste livro
está atualizada
segundo o Acordo D IR E IT O S R E S E R V A D O S PAR A A LÍN G U A P O R TU G U ESA:
Ortográfico da © M.R. C ornacchia L ivraria e E ditora Ltda. - P apirus Editora
Língua Portuguesa R. Dr. Gabriel Penteado, 253 CEP 13041-305 Vila João Jorge
adotado no Brasil F o n e /fa x: (19) 3 2 7 2 -4 5 0 0 - C a m p in a s - S ão P au lo B rasil
a partir de 2009. E -m a il: e d ito r a @ p a p ir u s .c o m .b r w w w .p a p ir u s .c o m .b r
INTRODUÇÃO..................................................................................................................7

1. A CRIANÇA DE SEIS ANOS CONFRONTADA


COM O PLANO CÓSMICO.................................................................................... 11

2. O USO CORRETO DA IMAGINAÇÃO...............................................................17

3. A NOVA PSICOLOGIA DO INCONSCIENTE.................................................... 23

4. O UNIVERSO APRESENTADO Á IMAGINAÇÃO DA CRIANÇA................31

5. O DRAMA DO OCEANO.......................................................................................37

6. COMO A MÃE-TERRA FOI CRIADA..................................................................45

7. UMA GUERRA MUNDIAL PRIMITIVA..............................................................51

8. O PERÍODO CRETÁCEO.......................................................................................57

9. A TERRA OUTRA VEZ EM TRABALHO DE PARTO......................................63


10. O HOMEM PRIMITIVO....................................................................................... 67

11. OS NÔMADES VERSUS OS COLONIZADORES............................................ 73

12. O HOMEM, CRIADOR li REVELADOR.............................................................77

13. AS GRANDES CIVILIZAÇÕES PRIMITIVAS................................................... 83

14. O EGITO ATRAVÉS DAS ERAS........................................................................... 89

15. A VIDA NA BABILÔNIA E SUAS RELAÇÕES COM TIRO............................ 95

16. DIGNIDADE E DESFAÇATEZ........................................................................... 101

17. O ESPÍRITO HELÉNICO-CRIADOR DA EUROPA....................................... 107

18. O HOMEM - ONDE FICAM SEUS LIMITES...................................................113

CONCLUSÕES 121
Este livro tem por objetivo dar sequência à obra Educação para
um novo mundo e visa também auxiliar os professores a contemplar
as necessidades da criança a partir dos seis anos. Pretendemos que o
menino ou a menina de educação fundamental, de 12 anos, que tenha
sido educado até então em uma de nossas escolas, saiba pelo menos tanto
quanto alguém que concluiu o ensino básico, produto de diversos anos
de precedência, e que esse objetivo tenha sido atingido sem qualquer dor
ou distorção causada ao corpo ou à mente. De preferência nossos alunos
estarão com todo seu ser equipado para a aventura da vida, acostumados
ao livre exercício do querer e do julgamento, iluminados pela imaginação
e pelo entusiasmo. Somente tais alunos podem exercitar corretamente as
obrigações dos cidadãos em uma sociedade civilizada.

Os primeiros quatro capítulos são principalmente psicológicos,


mostrando a modificação da personalidade com a qual o professor tem
que lidar quando as crianças estão na idade de seis anos, c a necessidade
de uma correspondente mudança de abordagem. O segredo do sucesso
está na utilização correta da imaginação, cm despertar interesses e no
estímulo de sementes de interesse já apresentadas por meio da utilização
dc materiais atraentes do ponto de vista literário c ilustrativo, mas todos
correlacionados a uma ideia central, de magnífica inspiração - o Plano
Cósmico no qual todos, consciente ou inconscientemente, servem ao
grande propósito da vida. É mostrado como a concepção da evolução
foi ultimamente modificada, por meio das descobertas geológicas e
biológicas, de maneira que a autoperfeição agora tem de gerar frutos em
antecipação à satisfação dos desejos naturais primários.

Os oito capítulos seguintes mostram como o Plano Cósmico pode


scr apresentado à criança, por meio dc um encantador conto dc fadas
sobre o planeta em que vivemos, abordando as lentas mudanças que
ocorreram nas eras anteriores - quando a água era o trabalhador-chefe
da natureza para o cumprimento de seus propósitos como a terra e
o mar disputavam a supremacia e como o equilíbrio dos elementos foi
atingido para que a vida pudesse subir ao palco, para representar sua
parte no grande drama. Ilustrada como deve ser por gráficos e diagramas
fascinantes, a criação da Terra, como nós agora sabemos, se revela à
imaginação da criança, e sempre deve ser dada ênfase na função que
cada elemento tem que representar na natureza, seja consciente ou
inconscientemente, e no fato de que o fracasso disso leva à extinção.
Assim, o conto prossegue até o aparecimento do homem paleolítico,
demonstrado mais significativamente pelas ferramentas que ele utilizava
cm seu ambiente, do que pelas características físicas dessa criatura tão
desprezada. O novo elemento da mente é trazido para a criação pelo
homem, e nesse momento a criança é auxiliada a ver a grande aceleração
que aconteceu na evolução. Ela aprende a reverenciar os pioneiros, que
trabalharam por propósitos muitas vezes desconhecidos deles mesmos,
mas que agora são identificados. O homem nômade e os colonizadores
igualmente contribuíram para a construção das primeiras comunidades
e, na alternância entre guerra e paz, para compartilhar e propagar hábitos
sociais.

A partir do Capítulo 13 são dadas breves descrições de algumas


civilizações primitivas, particularmente com uma visão sobre os impactos
entre elas mesmas, dem onstrando que a sociedade humana foi se
organizando lentamente para alcançar a unidade, da mesma forma que
no scr humano individual, os órgãos do corpo são construídos com base
em diferentes centros de interesse, para serem posteriormente conectados
por meio do sistema de circulação sanguínea e dos nervos, constituindo,
assim, um organismo humano integrado. Então a criança é orientada,
por meio do exame de algumas das mais excitantes épocas da história
do mundo, para ver por quanto tempo a humanidade esteve em estado
embrionário e que só agora está emergindo num verdadeiro nascimento,
capaz dc conscientemente realizar sua verdadeira unidade e função.

Os últimos capítulos voltam aos pontos dc vista psicológicos,


incutindo nos educadores a suprema importância, para a nação e para o
mundo, do papel que lhes é imposto. O professor não deve trabalhar a
serviço de algum credo político ou social, mas a serviço do ser humano
completo, capaz dc exercer com liberdade um desejo de autodisciplina
e julgamento, jamais pervertido e distorcido pelo medo.
A CRIA N ÇA DE SEIS ANOS CON FRO NTADA
COM O PLANO C Ó SM ICO

A educação para crianças de 6 a 12 anos não é uma continuação


direta daquela que ocorreu anteriormente, embora seja construída sobre
as mesmas bases. Psicologicam ente, há uma mudança decisiva na
personalidade, e nós reconhecemos que a natureza concebeu esse período
para a aquisição de cultura, da mesma forma que concebeu o anterior
para a absorção do meio ambiente. Nós somos confrontados com um
desenvolvimento considerável de consciência que já se instalou, mas
que agora é arremessada para fora com um direcionamento especial, a
extroversão da inteligência, e há uma demanda incomum por parte da
criança em saber as razões das coisas. O conhecimento pode ser mais
bem aplicado onde haja ânsia de saber, portanto esse é o período em que o
semear de qualquer coisa pode ser feito. A mente da criança - comparando-
se a um campo fértil - está pronta para receber o que será plantado
culturalmente, mas, se negligenciada durante esse período, ou frustrada
em suas necessidades vitais, tomar-se-á embotada artificialmente, ficando,
desse momento para frente, resistente ao conhecimento transmitido. O
interesse tampouco estará lá se a semeadura for tardia, mas, aos seis anos,
todos os itens da cultura são recebidos entusiasticamente c mais tarde
essas sementes irão expandir-se e crescer. Se questionada sobre quantas
sementes podem ser germinadas, minha resposta será: “Tantas quantas
forem possíveis”. Olhando à nossa volta a situação do desenvolvimento
cultural da nossa época de evolução, nós não vemos limites para o que deve
ser oferecido para a criança, para que seu querer seja um imenso campo de
atividades selecionadas e não seja atrasado pela ignorância. Mas transmitir
a totalidade da cultura moderna tem-se tornado uma impossibilidade e,
assim, surge a necessidade de um método especial, por meio do qual todos
os fatores da cultura sejam introduzidos para a criança de seis anos; não se
trata de um plano de estudo a ser imposto a ela, com exatidão de detalhes,
mas da transmissão do maior número possível de sementes de interesse.
Esses interesses serão imperceptivelmente retidos na mente, mas serão
capazes de mais tarde germ inar- assim como o querer transforma-se em
algo mais diretivo e, dessa forma, a criança poderá vir a se tomar um
indivíduo adaptado a estes tempos expansivos.

Um segundo lado da educação nessa idade refere-se à exploração


do campo moral pela criança, na discriminação entre o bem e o mal. Ela
não mais será receptiva, absorvendo impressões com facilidade, mas irá
querer entender por si mesma, não se contentando com a aceitação de meros
fatos. Conforme a atividade moral vai se desenvolvendo, ela vai querer
utilizar seu próprio julgamento, que com frequência será completamente
diferente dos julgamentos realizados por seus professores. Não há nada
mais difícil do que ensinar valores morais para uma criança dessa idade,
pois ela dá um retomo imediato a tudo que nós dizemos, transformando-
se num rebelde. As mães geralmcnte se sentem magoadas porque seus
filhos, anteriormente amorosos c afetuosos, tornaram-se impertinentes e
arrogantemente dominadores. Uma mudança interna aconteceu; a natureza
é bastante lógica ao estimular agora na criança não somente uma fome de
conhecimento e compreensão, mas a reivindicação de uma independência
mental, um desejo de distinguir entre o bem e o mal com seus próprios
recursos - nesse momento a criança se ressente da limitação imposta pela
autoridade arbitrária. No campo da moralidade, ela agora está em busca
de suas próprias luzes interiores.
Ainda um terceiro fato interessante a ser observado na criança de
seis anos é sua necessidade de associar-sc aos outros, não meramente
por causa de companhia, mas por alguma forma de atividade organizada.
Ela gosta de se misturar com os outros em um grupo em que cada um
tem um status diferente. Um líder é escolhido e ele é obedecido e assim
um grupo forte é formado. Essa é uma tendência natural e é por meio
dela que a humanidade torna-se organizada. Se durante esse período de
interesse social e agudeza mental forem oferecidas à criança todas as
possibilidades de cultura, a fim de expandir sua visão de mundo e suas
ideias sobre ele, essa organização será formada e se desenvolverá; a
quantidade de luz que uma criança tenha conseguido no campo da moral
e os elevados ideais que ela tenha formado serão proveitosos para os
propósitos de organização social cm um estágio posterior.

Entretanto, todos os demais fatores submergem na insignificância


se comparados à importância de alimentar a faminta inteligência e de
abrir vastos campos de conhecimentos para ávida exploração. Se nos
dedicarmos a essa tarefa sem qualquer método, nós com certeza a
consideraremos absolutamente impossível de ser executada. Mas nós já
possuímos o segredo por meio do qual o problema pode ser resolvido,
pois já foi introduzido na própria criança em seus primeiros anos de
vida. Nós não somos desconhecidos para ela, nem ela é desconhecida
para nós, c nós já aprendemos, por intermédio dela, certos princípios
fundamentais de psicologia. Um deles é que a criança precisa aprender
por meio de suas próprias atividades individuais, sendo dada uma
liberdade mental para que ela obtenha o que precisa, e que ela não deve
ser questionada cm sua escolha. Nossa forma de ensino deverá somente
responder às necessidades mentais da criança, nunca ditá-las. Da mesma
forma que uma criança pequena não pode ficar imóvel porque ainda
precisa desenvolver a coordenação de seus movimentos, a criança mais
velha - que parece ser problemática, dada sua curiosidade sobre o que são
todas as coisas que vê, por que são assim e a razão para existirem - está
construindo sua mente por meio dessa atividade intelectual, e a ela deverá
ser dado um amplo campo dc cultura, no qual poderá se alimentar. A
tarefa de ensinar fica mais fácil desde que nós, professores, não tenhamos
que escolher o que obrigatoriamente ensinaremos, mas coloquemos tudo
diante da criança, para a satisfação de seu apetite mental. A criança deve
ter total liberdade de escolha, pois, assim, ela não exigirá nada a não
ser experiências repetidas, as quais se tornarão mais e mais percebidas
pelo interesse e pela séria atenção durante a aquisição do conhecimento
desejado.

A criança de seis anos que frequenta a Escola Montessori tem


a vantagem de não ser tão ignorante quanto a criança privada dessa
experiência. Ela já sabe ler c escrever, tem algum interesse em matemática,
ciências, geografia c história, de maneira que fica fácil introduzi-la a
qualquer volume de conhecimento adicional. O professor se vê confrontado
com um indivíduo que já obteve as bases da cultura e está ansioso
para construir sobre esse conhecimento, para aprender e penetrar mais
profundamente cm qualquer matéria de interesse. Quanto mais claro for o
caminho para o professor, mais passará a impressão de que ele nada tem a
fazer ali! Não é bem assim. A tarefa do professor não é menor ou mais fácil.
Ele tem que preparar uma grande quantidade de conhecimento a fim de
satisfazer a fome mental da criança e ele não é, como o professor comum,
limitado por um plano de estudos, prescrevendo somente o tanto de cada
assunto a ser transmitido dentro de um espaço de tempo, em que nenhuma
explicação pode ser excedida. As necessidades da criança são, claramente,
mais difíceis de responder e o professor não pode mais se defender ou
esconder-se atrás do plano de estudos e do horário. Ele conta consigo
mesmo para adquirir uma relação razoável com cada assunto e, mesmo
fazendo isso, somente a parte externa da superfície do problema terá sido
penetrada. Mas deixe-o criar coragem, para que ele certamente não fique
sem ajuda c desenvolva um projeto testado c planejado cientificamente.

Visto que foi observada a necessidade de oferecer tanto à criança,


deixe-nos dar a ela uma visão do universo todo. O universo é uma
realidade imponente e uma resposta a todas as perguntas. Nós devemos
caminhar juntos por essa estrada de vida, pois todas as coisas são parte
do universo e estão conectadas entre si para formar uma única unidade.
Essa ideia auxilia a mente da criança a tornar-se estável o suficiente para
interromper questionamentos delirantes numa busca sem propósito pelo
conhecimento. A criança está satisfeita, tendo encontrado o centro do
universo em si mesma e em todas as coisas.

É certamente necessário centralizar o interesse da criança, mas


os métodos usuais na atualidade não são eficientes para cumprir com
essa finalidade. Como pode a mente de um indivíduo em crescimento
continuar estimulada se todo o processo de ensino estiver focado em um
assunto particular e de escopo restrito e estiver limitado à transmissão
de detalhes tão insignificantes de conhecimento quanto ela c capaz de
memorizar? Como podemos forçar a criança a ficar interessada quando
o interesse só pode surgir de dentro dela? Somente obrigação e fadiga
podem ser induzidas de fora para dentro, nunca o interesse! Esse ponto
precisa ficar muito claro.

Se a ideia do universo for apresentada para a criança da maneira


correta, isso fará mais do que simplesmente estimular seu interesse, pois
criará nela admiração e curiosidade - um sentimento mais sublime do
que qualquer outro e ainda mais satisfatório. A mente da criança não irá
mais divagar, mas se tomará estável e poderá trabalhar. O conhecimento
que ela então adquirir será organizado e sistematizado; sua inteligência
toma-se total e completa graças à visão de unidade que lhe foi apresentada
e seu interesse espalha-se por tudo e para tudo o que estiver articulado
c que tiver seu espaço no universo no qual sua mente está centrada.
As estrelas, a Terra, as pedras, a vida de todas as espécies formam um
conjunto na relação entre um e outro e tão próxima é essa relação que
nós não podemos entender uma pedra sem que haja alguma compreensão
sobre o grande Sol! Não importa em que toquemos, um átomo ou uma
célula, nós não poderemos explicá-lo sem ter conhecimento sobre o
imenso universo. Qual resposta poderia ser mais bem dada aos que
clamam por conhecimento? Torna-se duvidoso se até mesmo o universo
será suficiente. Como ele foi criado e como irá terminar? Uma imensa
curiosidade aparece e poderá nunca ser saciada, assim se perpetuando por
toda uma existência. As leis que governam o universo podem se tornar
interessantes e maravilhosas para a criança, mais interessantes até que as
coisas cm si mesmas, c cia começa a se perguntar: O que sou cu? Qual a
tarefa do homem neste universo maravilhoso? Nós estamos aqui por acaso
ou há alguma coisa a mais a ser feita por nós? Por que nós brigamos e
lutamos? O que é o bem e o que é o mal? Onde isso tudo irá acabar?

Esse plano de educaçào cósmica como uma pedra filosofal do


método avançado foi primeiramente exposto na Inglaterra, em 1935, e já
foi comprovado que ele é o único caminho pelo qual podemos pisar em
terreno firme, de acordo com pesquisas adicionais sobre educação. Ele
não pode ser aplicado a pessoas complctamente analfabetas ou ignorantes,
mas c recebido com prazer pela criança que tenha sido indiretamente
preparada para isso na Escola Montessori. Sinceramente essa não é uma
ideia nova, ainda que ultimamente em desuso, pois tem sido o plano
natural onde quer que haja educação no sentido real da palavra, voltada
para ensinar, pela primeira vez, às crianças sobre a criação do mundo c
o lugar do homem nele - questões até então respondidas à luz da religião
e da filosofia. A resposta sempre foi a mesma e ainda é: “Deus enviou
você à Terra para trabalhar e cumprir suas obrigações!”. Esse princípio
pode agora, entretanto, ser desenvolvido em um plano específico e ser
transformado em algo muito mais atraente.
O USO CO RR ETO DA IM AGINAÇÃO

Uma criança cie seis anos que vem de uma escola montessoriana,
para quem inicialmente esse curso foi desenvolvido, já é possuidora de
vários interesses culturais c tem um certo tipo de paixão profunda pela
ordem e ate pela matemática, tão frequentemente verificada como um
obstáculo para a criança comum. Além disso, sua mão já é controlada,
possuída e direcionada pela mente nos pequenos movimentos. O trabalho
prático realizado em nossas escolas maternais encontrou tal aprovação
que nosso manual científico de exercícios é amplamente adotado por
escolas que aplicam outros métodos, com respeito aos principais aspectos
da educação. Nesta época mais avançada, continuamos permitindo às
crianças a oportunidade de aprender por meio de atividades manuais,
especialmente em mecânica e física. Por exemplo, as crianças aprendem
as leis de pressão e tensão por meio da construção de um arco de pedras,
de maneira a mantê-lo unido sem a necessidade da utilização de cimento.
Por meio da construção de modelos de pontes, aeroplanos, estradas de
ferro (calculando a curvatura), elas se tornam familiarizadas com os
princípios da estática c da dinâmica como parte da rotina diária da escola,
uma vez que nosso método é devidamente aplicado com a utilização total
do equipamento. Sempre que possível, experiências são apresentadas
para exploração de cada detalhe da vida prática, de maneira que nossas
crianças possam ser preparadas para participar em uma civilização
inteiramente baseada em máquinas.

Algumas escolas modernas, especialmcnte nos Estados Unidos,


ao adotarem essa parte do método, tem ido longe demais, preparando
as crianças nesse estágio dc crescimento intelectual para sc ocuparem
exclusivamente com essas máquinas, planejando, com base nisso, o
desenvolvimento de sua inteligência. Em tais escolas, as crianças, de
posse das máquinas, têm permissão de escolher seus próprios trabalhos,
c isso é considerado muito bom. No entanto, essas escolas excluem,
como sendo insignificante e desprezível, qualquer coisa que não possa
ser aprendida desse jeito, incluindo-se aí a matemática e outros assuntos
abstratos, considerados como estando além da compreensão da criança
como atividade livre e espontânea. Baseadas unicamente no trabalho
prático, essas escolas são opostas às escolas chamadas "fora de moda”,
nas quais principalmente assuntos abstratos são ensinados e fatos são
memorizados. Nós nos opomos igualmente a ambas.

A personalidade é única c indivisível c todas as atividades mentais


dependem de um centro. Esse é o segredo com o qual a criança pequena
revela-se a nós, fazendo um trabalho muito além de nossos sonhos e
expectativas em todos os campos, incluindo o intelectual e o abstrato,
com a condição de que suas mãos possam trabalhar lado a lado com sua
inteligência. As crianças demonstram uma grande atração pelos assuntos
abstratos quando eles chegam a elas por meio dc atividades práticas e
prosseguem para campos do conhecimento até aqui inacessíveis a elas,
como, por exemplo, a gramática e a matemática. Eu me pergunto como
surgiu a teoria de que para trabalhar com a mão o indivíduo deve ter a
mente não cultivada, ou que uma mente cultivada seja alcançada sem
ajuda das mãos. Deve um homem ser classificado como um trabalhador
que utiliza a cabeça ou as mãos, cm vez dc scr permitido a ele funcionar
com sua personalidade total? Onde está a lógica na visão de que o
desenvolvimento de somente um dos lados possa ser benéfico para o
todo? Em conferências recentes, pessoas altamente distintas que vêm
dedicando sua vida à causa da educação discutem seriamente a que se
deve dar preferência, se ao método prático ou a uma disciplina intelectual.
Para nós, as crianças revelaram que disciplina é resultado somente de
um desenvolvimento completo, do funcionamento mental auxiliado
pela atividade manual. Permita ao todo funcionar em conjunto e haverá
disciplina - de outra forma não haverá. Tribos, grupos, nações são o
resultado de disciplina e associação espontâneas. Há apenas um problema,
e é o desenvolvimento humano em sua totalidade; uma vez que ele é
atingido em qualquer unidade seja uma criança ou uma nação tudo
o mais segue espontânea e harmoniosamente.

Sendo convencida então de que toda a personalidade deve estar


engajada c que ela precisa ser primeiramente centralizada na ideia
cósmica, a pergunta que surge é a de como e quando a ideia deverá
ser apresentada. Por meio das crianças mais novas temos aprendido a
efetividade de uma abordagem indireta, como, por exemplo, falando
com crianças mais velhas na presença das mais novas, já que em nossas
escolas as idades são, dentro de uma extensão limitada, misturadas.
Quando nós tentamos mostrar algo às crianças mais velhas, as mais
novas aglomeram-se ao nosso redor, demonstrando ávido interesse. Esse
interesse foi especialmente demonstrado por uma criança de seis anos e
dirigido a um mapa ilustrando os tamanhos relativos do Sol e da Terra pelo
globo e pelo ponto. As crianças mais novas ficaram estarrecidas quando
perceberam o que isso invocava nelas c não eram capazes de sc desligar,
ao passo que as crianças mais velhas, para as quais essa atividade fora
planejada, acharam-na lugar-comum e precisaram de um algo mais para
que fosse despertado nelas interesse similar. Há uma diferença entre tal
entusiasmo e mera compreensão. O ponto e a esfera tocaram a imaginação
da criança mais nova, deixando-a cheia de entusiasmo por algo que está
além de seus limites anteriores e que não pertence ao ambiente físico,
portanto não sendo possível de ser agarrado com a mão. Se, entretanto,
essa ilustração em particular deixou a criança mais velha imóvel, isso
não significa que nada tenha o poder similar de toear sua imaginação,
conduzindo-a além de seu mundinho para um grande domínio, por meio
de enormes progressos em direção ao universo desconhecido; mas a
criança não poderia atingir sem ajuda tais maravilhas e mistérios. E
por esse caminho das grandes realidades, que podem ser tocadas pela
imaginação, que a criança é conduzida entre as idades de seis e doze
anos. A visão imaginativa c completamente diferente da mera percepção
de um objeto, pois esta não tem limites. A imaginação não somente pode
viajar através do espaço infinito, mas também através do tempo infinito;
nós podemos voltar através das épocas e ter a visão da Terra como ela
era e com as criaturas que a habitavam. Para tomar clara essa ideia,
independentemente de a criança ter ou não entendido, nós devemos ver
sc cia pode formar uma visão cm sua mente, sc cia ultrapassou o nível
de mera compreensão.

A consciência humana está no mundo como uma bola inflamada


pela imaginação. Tudo que é inventado pelo homem, de maneira física
ou mental, é fruto da imaginação de alguém. No estudo da história e
da geografia, nós estaríamos perdidos sem a imaginação, e quando nos
propomos apresentar o universo à criança, o que mais podemos utilizar
além da imaginação? Eu considero um crime apresentar tais assuntos
como sc fosse correto c criativo ajudar a faculdade imaginativa de tal
maneira a negar sua utilização c, por outro lado, exigir que a criança
memorize o que cia não foi capaz dc visualizar. Esses assuntos devem
ser apresentados dc maneira que possam tocar a imaginação da criança c
fazê-la entusiástica, para então adicionar combustível ao fogo flamejante
que tenha sido aceso.

O segredo de um bom ensino é respeitar a inteligência da criança


como um campo fértil onde as sementes devem ser semeadas, para
crescer no calor da imaginação flamejante. Nosso objetivo, portanto, não
é apenas fazer com que a criança compreenda e menos ainda forçá-la a
decorar, mas sim tocar sua imaginação no sentido de entusiasmá-la no
seu âmago. Nós não queremos alunos complacentes, mas sim ávidos por
conhecimento; nós procuramos semear mais a vida na criança do que as
teorias, ajudá-la cm seu crescimento mental c emocional, assim como
fisicamente, c para isso devemos oferecer ideias grandiosas c sublimes à
mente humana - a qual encontramos sempre preparada para recebê-las,
exigindo cada vez mais e mais.

E sp ecialistas em educação g eralm en tc concordam que a


imaginação é importante, mas eles a teriam cultivado em separado da
inteligência, da mesma forma que separariam essa segunda da atividade
manual. Eles são os vivisseccionistas da personalidade humana. Na
escola, querem que as crianças aprendam fatos secos da realidade
enquanto a imaginação delas ê estimulada por contos de fadas, interessada
cm um mundo que é certamente repleto de maravilhas, mas que não ê
o mundo à sua volta, no qual vivem. Certamente esses contos possuem
fatores impressionantes que levam a mente infantil a sentir pena e horror,
pois estão cheios de desgraça e tragédia, de crianças famintas, doentes,
abandonadas e enganadas. Assim como os adultos encontram prazer
em teatro dramático e literatura, esses contos de duendes e monstros
dão prazer e movimentam a imaginação da criança, mas eles não têm
qualquer conexão com a vida real.

Por outro lado, oferecendo à criança a história do universo, nós lhe


damos algo cerca de mil vezes mais infinito e misterioso, para que seja
reconstruído com sua imaginação - um drama que nenhuma fábula pode
revelar. Se a imaginação for educada meramente por contos de fadas,
o prazer que isso dá será continuado mais tarde, no máximo, por meio
da leitura de romances, mas nós não devemos jamais limitar tanto sua
educação. Uma mente que está habituada a procurar o prazer somente
em contos fantásticos irá lentamente, porém sem sombra de dúvida,
tornar-se preguiçosa, incapaz de preocupações nobres. Na vida social nós
encontramos inúmeros exemplos desse tipo de mente preguiçosa - pessoas
somente preocupadas em estar bem vestidas, fofocar com os amigos e ir ao
cinema. A inteligência dessas pessoas está desesperançosamente enterrada
sob barreiras que não podem mais ser removidas. O interesse delas toma-
se mais e mais estreito, até que esteja centralizado ao redor de sua própria
insignificância, excluindo as maravilhas do mundo e a solidariedade com
a humanidade sofredora. Elas são verdadeiras mortas em vida.
A NOVA PSICOLOG IA DO IN CO N SC IEN TE

Desde o início do século XX. uma grande mudança tem ocorrido


nos estudos psicológicos e de maneira significativa os novos psicólogos
estão em conflito com os m étodos anteriorm ente estabelecidos de
educação, embora eles próprios estejam impossibilitados de conceber
como as escolas devem ser convencidas a seguir as novas linhas. Mas,
na realidade, essa nova tendência já encontrou uma força de expressão
cm nossas escolas, com a qual as teorias psicológicas mais antigas não
têm nada a ver, seja na prática, seja na organização. A psicologia moderna
adapta-se exatamente ao nosso método, pois apesar de a ciência antiga
ser baseada na observação de fatos superficiais do consciente, a nova
busca observar o inconsciente da mente e experimenta seus segredos a
fim de descobrir a relação entre a mente e os fatos da vida.

Os psicólogos mais antigos traçaram uma forte distinção entre


os fatos da vida c os fatores psicológicos, mantendo-os com os polos
separados; mas os exploradores do campo do inconsciente descobriram
que o estudo desse segundo item pode ser colocado na mesma base que
os fatores biológicos c que, de mais a mais, a mente é uma unidade, um
todo, não divisível em um número de faculdades mentais separadas, tais
como a memória, a razão, a atenção e a associação de ideias, sendo cada
uma conscientemente treinada. A educação utilizada para o interesse
em si mesma, principalm ente com o treinam ento em separado da
atenção- o u seja, o poder de raciocínio para captar o que c ensinado - e
do querer - que é o esforço voluntário para aprender - , fez a mente ser
observada como superior aos instintos vitais, a ser enfatizada e treinada
exteriormente. Na atualidade, a mente c pensada como uma coisa única,
não como faculdades mentais separadas e, primordialmente, conectadas
com a personalidade; assim, a psicologia moderna forma um complemento
ao nosso método de educação.

De acordo com esses novos modos de pensamento, nós nos


preocupamos com três fatores centrais, sendo o primeiro o impulso
vital, parte da própria vida. Ele tem o poder de reter parte de todas as
experiências pelas quais o indivíduo foi submetido e não é exclusivo dos
seres humanos, mas sim de todas as criaturas vivas. A fim de obtermos
algo da vida, nós devemos guardar as marcas das experiências vividas, e
é aqui que entra a memória para nos auxiliar. Mas logo nós percebemos
as desvantagens da memória consciente, quão embaçadas e indefinidas
são suas imagens. A psicologia moderna, entretanto, afirma que o
inconsciente - ou subconsciente - lembra-se de tudo; assim, a memória
assume o aspecto de um vasto mistério, necessitando de um estudo mais
apurado para sua elucidação.

Essa memória subconsciente tem uma mobilidade maravilhosa e


tudo está lá armazenado, mesmo que nós não tenhamos consciência disso.
Assim, há uma memória racial, de cuja ajuda todas as criaturas vivas se
utilizam a fim de realizar a reprodução de sua espécie e perpetuar sua
maneira de viver. Em virtude disso os pássaros podem construir seus
ninhos de acordo com a maneira tradicional, relativa à sua espécie. Essa

1. Maria Montessori. no Capítulo 7 de seu livro Mente absorvente ( Ia ed. 1949; ed. bras.
1987, Rio de Janeiro: Nórdica), explica a mnetne como a memória natural superior,
memória vital. (N.R.)
importante memória é chamada de mneme] e c graças a ela que uma criança
reconhece inconscientemente os sons da fala humana c retem esses sons
para imitá-los. Somente uma parte bem pequena da mneme penetra os
limites do consciente e essa parte é o que nós chamamos de memória. Todas
as experiências pelas quais os indivíduos passam na vida são guardadas na
mneme e não somente a infinitésima parte que entra no consciente.

Para um simples experimento em psicologia, pode ser pedido


a uma pessoa que memorize uma lista de sílabas sem ligação direta e
repita, de memória, o mesmo conteúdo da lista depois de um intervalo de
alguns dias, desde a realização do exercício. Essa pessoa terá esquecido
as sílabas, mas poderá agora ser capaz de memorizá-las em um espaço de
tempo muito menor, porque elas foram retidas na mneme. Isso não é uma
acumulação de memórias que são deixadas na mneme, mas um poder de
retornar experiências para a memória consciente do local de onde elas
foram lançadas. Um homem instruído pode não ter qualquer memória de
muitas coisas que aprendeu na escola, mas tem inteligência e um poder
de rápida apreensão dos assuntos que foram retidos pela mneme. Assim,
não é a experiência por si mesma mas suas marcas deixadas para trás
na mneme que fazem a mente poderosa, e tais marcas são conhecidas
como reminiscências.

O subconsciente está repleto dessas reminiscências, por meio


das quais o intelecto cresce muito mais do que pela memória consciente.
Pela nossa utilização desse fato, sucede que em nossas escolas os poderes
intelectuais da criança tornam-se muito mais ampliados, enquanto em
escolas comuns o único objetivo é armazenar conhecimento na memória
consciente, não sendo dada à criança nenhuma oportunidade para as
experiências contínuas e variadas, a fim de incrementar suas reminiscências.

Outro fator vital da mente é o desejo de conduzir uma ação


ate seu término e isso é parte do que vem sendo chamado de impulso
vital. O filósofo Bcrgson deu esse nome ao desejo vital que conduz toda
criatura humana a experiências, para o armazenamento de reminiscências.
Esse poder faz com que as crianças em nossas escolas trabalhem
espontaneamente, persistindo na repetição da mesma experiência até
que estejam completamentc satisfeitas. Às vezes, isso rcecbe o nome de
desejo de viver e, cm conexão com o ser humano, ó classificado entre o
consciente e os fatores psíquicos, enquanto em outras criaturas humanas
isso se ordena como biológico e subconsciente. Verdadeiramente, o
impulso vital está em cada faceta da vida, e, quando ele emerge à parte
consciente da mente, torna-se um fator voluntário, como o desejo. O tão
imenso desejo vital subconsciente é agora chamado pelos psicólogos
como o impulso espontâneo, o qual possui um campo relativamente
tão vasto em extensão como aquele do desejo consciente, da mesma
forma que a mneme é comparada à memória. Os seres humanos podem
ser forçados a agir por meio do impulso espontâneo sem que o desejo
esteja entrando conscientemente em ação, como no caso do hipnotismo,
c isso c certamente sentido como sendo perigoso para a humanidade,
pois há forças às quais nós ainda não estamos familiarizados c, assim,
consequentem ente, não podemos nos defender bem contra elas. A
inter-relaçào de mentes ocupa o mais importante capítulo da psicologia
humana; os homens frequentemente apresentam atitudes por razões
que eles, geralmente, não são capazes de explicar. Algumas atitudes
apresentadas pelas crianças, que acarretam serias reações nelas mesmas,
são desse tipo; para que as gerações mais novas possam crescer mais bem
defendidas contra esses perigos, é necessário que elas sejam entendidas
e que o desejo consciente seja bem desenvolvido e exercitado logo de
início, como é feito pelo Método Montessori de Educação.

O terceiro fator importante nesse labirinto do subconsciente c o que


geralmente sc chama dc associação de ideias, ou de princípio da formação
sequencial dc pensamentos. É nisso, principalmentc, que todos os métodos
dc educação têm sido baseados, ao redor dc uma ideia inicial - mas
ideias podem ser montadas em sintonia ou diametralmente em oposição
àquela ideia. Os psicólogos modernos agora observam isso como sendo
de importância secundária e somente como verdade superficial. Eles
dão menos importância às ideias do que às reminiscências, as quais
se associam dentro do subconsciente toda vez que a mente se torna
interessada em algo. Essa associação de reminiscências é espontânea
e, de longe, mais ativamente poderosa e duradoura do que qualquer
cadeia induzida de ideias relacionadas. É bem sabido que um aluno de
matemática pode refletir durante horas sobre algum problema sem obter
sucesso, até que decide “dormir sobre o problema" e, assim, ao acordar,
encontrará soluções fáceis. Isso decorre do fato de que ele descansou
e, dessa maneira, pôde entender e pensar melhor? Nâo. Imediatamente
após acordar, ele está consciente do problema já sendo resolvido em sua
mente, como se a solução em si mesma o tivesse forçado a acordar e
registrá-la. Isso somente pôde acontecer porque as reminiscências não
dormiram, mas, em associação, fizeram o trabalho e compeliram-no para
o plano da consciência.

Assim, pode-se dizer que todo ser humano faz seu trabalho mais
inteligente no plano subconsciente, onde os complexos psíquicos são a
construção de reminiscências. E estes fazem muito mais do que criar uma
associação de ideias, pois se organizam para realizar o trabalho que nós
não somos capacitados para cumprir conscientemente. Os complexos
psíquicos auxiliam um escritor a criar ideias maravilhosas, novas para sua
mente e vagamente atribuídas à inspiração. O trabalho desses complexos
é de imensa importância na educação.

De acordo com essas descobertas, nós estamos agora avisados


para não nos esforçarmos em memorizar alguma parte importante do
trabalho, mas dc preferência conhecê-la supcrficialmente c colocá-la dc
lado por alguns dias, a fim dc que as reminiscências tenham tempo para
se organizar em concentração, isso é exatamente o que acontece em uma
escola montessoriana, onde as revelações das crianças sobre seus próprios
processos mentais têm antecipado pesquisas psicológicas. As crianças
são frequentemente vistas caminhando sozinhas enquanto outras estão
trabalhando, pois logo depois de aprenderem algo elas sentem necessidade
de tranquilidade e, ao retornarem à sala de aula. demonstrarão uma nova
habilidade, da mesma fornia que uma criança retomando das férias será
capaz de entender o que antes estava obscuro. Pela luz desses fatos, quão
fútil e até mesmo perversa parece ser a preparação rápida para um exame!

Em bora nós, felizm ente, adm itam os esses tantos pontos de


entendim ento com os psicólogos m odernos, cujos trabalhos são
complementares aos nossos, temos que discordar deles cm um ponto
muito importante. Eles tem ató aqui falhado na aplicação de suas teorias
de problemas educacionais, convencidos de que ela será atingida somente
por futuras gerações de homens, enquanto nós sabemos que essas teorias
podem ser imediatamente aplicáveis se forem realizadas em condições
ideais. Estudos psicológicos têm sido continuados fora das escolas, com
conclusões sendo derivadas da humanidade adulta e de investigações
experimentais sobre o inconsciente, e elas têm sido desapontadoras em
relação às expectativas desses psicólogos de que as crianças deveriam
reagir de uma maneira especial quando seus novos métodos fossem
praticados nelas. Mas nós aprendemos que a psicologia infantil não é
a mesma do adulto e sua condição essencial é a liberdade para agir em
um ambiente preparado, onde a criança possa ser inteligentemente ativa.
Enquanto os professores impuserem suas conclusões às crianças eles
nunca alcançarão a finalidade esperada, que é o interesse espontâneo
da criança e sua aplicação. Assim, muito tem sido dito ultimamente,
seguindo análises psicológicas, sobre a sublimação dos instintos, e tem-se
procurado executar essas análises por meio do cultivo de sentimentos e
de emoções, mas as crianças cm idade escolar mostram-se indiferentes.
Os psicólogos baseiam suas teorias no comportamento animal e na
resposta madura às análises psicológicas e vão em frente em direção à
reforma educacional, juntando-se a nós em um certo ponto do caminho,
na medida em que nós prosseguimos baseados na criança. Eles buscam
um método de educação para satisfazer sua teoria, enquanto nós buscamos
uma teoria psicológica que satisfaça nosso método.

Como exemplo dessa sublimação dos instintos, um escritor


contem porâneo disse corretam ente que a ciência m oderna é um
m onum ento para a cu rio sid ad e su b lim ad a. N ós concordam os
completamente e temos provado que a criança pode adquirir um grande
interesse por ciências e todas as suas maravilhas quando dada a ela uma
visão próxima do princípio da vida e seu progresso até os dias atuais.
Nós vemos que o instinto de curiosidade da criança é sublimado pelos
grandes interesses, mas somente se eles lhe forem apresentados numa
idade bem mais precoce do que os psicólogos poderiam supor como
possível. A criança nos ensinou que somente nesse estágio preeoec está
especialmente favorecida por uma sensibilidade aguda c um interesse que
ela irá demonstrar mais tarde, quando for capaz de estudar cientificamente
e, mais precisamente, quando já estiver equipada com a emoção e o
sentimento por aqueles assuntos. Ela não mais terá simples curiosidade,
mas sim um interesse intenso, um entusiasmo baseado na emoção.

A criança deve amar tudo aquilo que aprende, que esteja ligado ao
seu crescimento mental e emocional. O que quer que seja apresentado a
ela deve ser feito de forma bonita c clara, impressionando sua imaginação.
Uma vez que esse amor tenha sido despertado, todos os problemas que
os especialistas em educação enfrentam desaparecerão. O grande poeta
italiano Dante disse: “La somma sapienza e il primo amore” - ou seja, “a
grande sabedoria é primeiro amar“. Para sublimar a alma, a pessoa tem
que alcançar o estado perfeito do amor - o que vem sendo chamado de
amor intelectual, para distingui-lo do pessoal. As crianças podem e, de
fato, amam assuntos abstratos como a matemática, demonstrando que o
amor pode existir para o trabalho mental; assim, o sonho do psicólogo
para o futuro já teria sido atingido.

Tem-se a esperança de que quando esse sentimento de amor por


todos os assuntos puder ser estimulado nas crianças, as pessoas em geral
tornar-se-ão mais humanas e guerras brutais acabarão. Mas o amor por
ciências c artes c por tudo o mais que a humanidade criou não bastará
para fazer com que homens e mulheres amem uns aos outros. Amar um
lindo pôr do sol, ou observar, maravilhado, um minúsculo inseto não
necessariamente despertam um grande sentimento de afeição dirigido à
humanidade, nem tampouco o amor de um homem pela arte produz um
amor pelo seu vizinho. O que é de fato necessário é que o indivíduo,
desde a mais tenra idade, seja colocado em contato com a humanidade.
Não há qualquer amor em nosso coração para com os seres humanos dos
quais nós tenhamos recebido e ainda estejamos recebendo tanto em pão
e roupas, como em tantas outras invenções criadas para nosso beneficio.
Nós aceitamos e gostamos de tudo que é feito por nós sem que haja com
isso gratidão, como, por exemplo, os ateus que negam sua gratidão e o
amor dc Deus. Talvez nós ensinemos às crianças a agradecer e a rezar
a Deus, mas não a agradecer à humanidade, o mais importante agente
da criação de Deus; nós não dispensamos qualquer pensamento aos
homens e às mulheres que dedicam sua vida para que nós possamos viver
de maneira mais abundante. A criança terá o maior prazer em todos os
assuntos e ela os considerará fáceis de aprender, se tiver sido conduzida
a perceber como esses assuntos vieram à baila e quem os estudou. Nós
lemos e escrevemos, e para a criança poderá ser ensinado quem inventou
a escrita e os instrumentos com os quais nós escrevemos, como surgiu a
imprensa e como os livros tomaram-se tão numerosos. Cada realização
ocorre por meio do sacrifício de alguém que agora já está morto. Cada
mapa fala eloquentemente do trabalho dos exploradores e pioneiros, os
quais se submeteram a dificuldades e experiências as mais variadas para,
por fim, encontrarem novos lugares, rios c lagos c fazerem o mundo
maior e mais rico para nossa habitação.

Permitam-nos, em educação, sempre chamar a atenção das crianças


para a multidão de homens e mulheres que estão à sombra da luz da fama,
tão cheios de amor pela humanidade não o incerto e anêmico sentimento
pregado hoje em dia como fraternidade, nem o sentimento político de
que as classes trabalhadoras devam ser redimidas e levantadas. O que
primeiramente se deseja ó que não haja caridade patronal para com a
humanidade, mas sim uma consciência honrada dc sua dignidade e de
seu valor. Isso deve ser cultivado da mesma maneira que um sentimento
religioso, o qual verdadeiramente deve estar em todos nós, a fim de que
não tenhamos que ser lembrados de que nenhum homem pode amar a
Deus enquanto permanecer indiferente ao seu vizinho.
O UNIVERSO APRESENTADO À IM A GINA ÇÃO DA CRIAN ÇA

Para despertar o interesse das crianças pelo universo, não devemos


começar lhes dando fatos elementares sobre ele com a intenção de faze-
las unicamente entender seu mecanismo, mas começar com noções
muito mais sublimes de uma natureza filosófica, colocadas de uma
maneira acessível, adaptadas à psicologia da criança. Neste momento nós
poderemos evocar, de forma proveitosa, a ajuda de alguns mitos ou de
contos de fadas, mas eles devem ser de forma que simbolizem verdades
da natureza e não inteiramente fantásticos.

Nós podemos falar da Terra em seus três envoltórios: sólido,


líquido e gasoso, e de um quarto envoltório que é a camada da vida,
ocupando toda a atmosfera externa c penetrando também nas outras três
camadas. Às vezes chamada de “biosfera*’, ou esfera da vida, essa quarta
camada é intimamente parte da Terra, como a pele o é dos animais e não
como algo que aconteceu por acaso. É, portanto, parte do corpo da Terra.
Como a pclc dc um animal, sua função c crescer com clc, não somente
para si mesma, mas com o intuito dc manutenção c transformação da
Terra. A vida é uma das forças criativas do mundo; ela é uma energia
com leis próprias que são estudadas pela biologia, da mesma forma que
há leis governando as mudanças tísicas e químicas. Já aprendemos que
a vida tem uma tendência à atividade e que tem o poder de adquirir e
reter impressões. Esses são os poderes que constroem algo novo para a
mente, como estudado em psicologia, e, como energias fundamentais,
são os principais poderes da vida. O impulso pela atividade conduz ás
experiências, as quais são retidas pelo organismo mental. Nos animais,
e igualmente nos homens, a mneme e o impulso espontâneo trabalham
em seus campos específicos, mental e físico, e, enquanto estão em
funcionamento, a vida tende à sua própria manutenção, sendo, ao mesmo
tempo, conduzida por suas experiências para um aperfeiçoamento do
ser - o processo de autoaperfeiçoamento, chamado de evolução.

Da mesma forma que a pele do animal cresce e se modifica de


acordo com o crescimento dele, da mesma maneira que as penas de
uma ave recém-emplumada ganham beleza, forma e cor de acordo com
a chegada da maturidade do pássaro, assim também a vida passa por
mudanças juntamente com a evolução da Terra. Isso não quer dizer que
a vida tenha que chegar à perfeição por si mesma, mas, sendo uma parte
intrínseca da criação, cia faz sua parte na transformação do mundo, suas
variações sendo mais relacionadas às necessidades da Terra do que a sua
própria compulsão pela perfeição.

A vida é um agente cósm ico. Como essa verdade deve ser


apresentada às crianças de maneira que toque sua imaginação? Talvez
a criança seja mais impressionada pelo tamanho e, assim, a tremenda
extensão e magnitude da vida no globo pode ser facilmente introduzida,
porque a criança já possui sob seu controle o poder dos números. Primeiro,
devemos dar à criança os números referentes à população humana em
cada país - estes sendo facilmente recebidos , e então passamos à vida
nas profundezas do oceano, as quais sabemos incalculáveis. Primeiro,
nós lidamos com aqueles impressionantes gigantes do mar as baleias - ,
que devem, logicamente cm virtude de seu tamanho, ser em menor
quantidade que os peixes de tamanho inferior. As baleias vivem em
rebanhos nos mares do noite, mas nadam na estação fria para as regiões
mais quentes, onde se juntam a outros grupos, como, por exemplo, aos
das baleias cachalotes, provenientes do polo sul. Seus rebanhos podem
agora ser contados não por centenas, mas por centenas de milhares, de
maneira que podemos imaginar o restante da vida marítima, consistindo
de uma infinidade de enxames de criaturas de menor importância. Nós
precisamos da ajuda dos números para pintar o quadro imaginário; se
as estatísticas não estiverem disponíveis, nós podemos falar em termos
das áreas cobertas por alguns mares, onde os peixes, em determinadas
estações do ano, são arremessados para a superfície. Eles são conhecidos
nessa época por cobrir uma área de 40 metros quadrados, sendo que
esses são somente alguns dos poucos que chegam à superfície por um
distúrbio submarino. Mais adiante, quando considerarmos que uma região
comparativamente menor demanda algo como dez mil barcos para trazer
à terra o arrastão de peixes, e que as vendas, somente na Europa, de um
único tipo de peixe, o bacalhau, atinge a quantidade de 40 milhões por
ano, nós começaremos a perceber um pouco sobre a extensão da vida
marinha. Novamente considerando as taxas de produção, o arenque
põe 70 mil ovos por vez e o bacalhau, um milhão de ovos duas vezes
ao ano - isso durante seu tempo de vida, que é estimado em dez anos.

As crianças gostam de calcular números colossais e pode-se


então dizer a elas que o peixe pertence à aristocracia da vida, que
as ordens menores são ainda, de longe, mais fecundas e que não há
números suficientes para contá-las. As águas-vivas são conhecidas
por ocasionalmente virem à tona em tal quantidade que o mais rápido
dos navios a vapor demoraria três dias para passar por elas. Esses
vastos aglomerados de águas-vivas vivem para se alimentar das ainda
mais numerosas e menores criaturas vivas, as quais elas agarram com
seus inúmeros tentáculos, mas essas criaturas menores ainda assim
parecem inesgotáveis. Nós podemos imaginar quantas dessas criaturas
microscópicas devem existir para iluminar milhas e milhas de mar
tropical, com sua fosforescência rivalizando-se com as estrelas em uma
noite clara. Sc cm uma única gota cTágua observada cm microscópio
podem-se detectar centenas dc criaturas vivas, então qual será esse
número no imenso oceano? Tem sido estimado que um dos menores
seres da vida marinha pode produzir um milhão de indivíduos iguais a
ele em dez dias. Assim, depois de 20 dias, deverá haver milhões dessa
espécie e um milhão ao cubo em um mês!

Descobertas similares têm sido feitas em relação a plantas e


animais que vivem na terra. Livingstone, o grande explorador, contou 40
mil antílopes cm um rebanho que passou por ele na África Central. No ar,
um bando dc pombos cm voo obscureceu a luz do Sol c certos pássaros
marinhos na América do Sul são tão numerosos que seus excrementos,
deixados nas rochas onde eles descansam, formam um valioso artigo de
comércio chamado “guano”. Enxames de gafanhotos são considerados
uma peste cm várias regiões, limpando cada grão da lavoura conforme
passam pelos campos em seus voos e deixando a fome em seu rastro. Na
vida das plantas, os números são ainda menos calculáveis. Há florestas
onde o subsolo é tão espessamente impenetrável que até mesmo os
animais precisam fazer seu caminho através do topo das árvores em
busca de alimentos.

A vida é arriscada e cercada por muitos perigos, seja no mar, na


terra ou no ar. As espécies marinhas estão constantemente ameaçadas
dc extermínio cm virtude do voraz apetite das criaturas maiores - cias
mesmas vitimadas umas após as outras. Na Terra, além desses perigos, há
também a miséria, as inundações, as erupções, as pragas para modificar
a vida, mas nada é comparável à destruição que poderia sobrevir se
o ar ou a água viesse a faltar. Toda forma de vida poderia, então, ser
aniquilada de uma só vez. Contra todos os demais perigos os animais
estão munidos com seus instintos de autopreservaçào, dc maneira que um
número suficiente sobrevive para dar continuidade à espécie, mas contra a
escassez desses elementos indispensáveis nenhuma criatura tem qualquer
forma de defesa. Além disso, algumas pessoas têm ficado alarmadas com
o perigo que pode ocorrer à Terra se houver um resfriamento do solo ou
uma possível colisão com um cometa, mas esses riscos são remotos e
secundários cm comparação com a falta dc ar ou dc água.
Parece cntâo que desde o princípio remoto de vida na Terra, por
meio das grandes mudanças quando os continentes foram submersos c
o equilíbrio do mundo modificado, esses dois elementos permaneceram
constantes e imutáveis em sua pureza e natureza essencial, embora não
necessariamente na forma que eles têm agora. É essa pureza que deve
ser mantida; mas no que ela consiste? A água é composta de muitos
elementos e tem uma pequena quantidade de um certo sal na proporção
de 7 para 100 mil. Uma pequena quantidade como essa é inócua, mas
se fosse incrementada para algo como 40 para cada 100 mil, nenhuma
forma de vida poderia sobreviver. Como, então, o mar não fica nunca
sobrecarregado com esse veneno, conhecido como carbonato de cálcio,
apesar de os rios estarem constantemente despejando essas cargas no
oceano? Da mesma maneira que o ar possui uma pequena parle dc
um gás venenoso chamado dióxido dc carbono, que também poderia
ter resultados mortais se não fosse constantemente modificado pelo
trabalho de outros agentes. Como podemos confiar em uma óbvia
suficiência de ar adequado à nossa respiração quando sabemos que as
plantas e os animais expelem esse gás venenoso na respiração c que cada
corpo em decomposição corrompe a atmosfera com seus gases? Essa
atmosfera tem somente algumas milhas de profundidade e é mais leve
do que o gás mortal, o qual deve ocupar então a parte mais baixa dela,
condenando-nos - assim poderia parecer ao inevitável. Mas nós não
estamos apavorados por esse perigo. Estamos, na verdade, praticamente
indiferentes a ele, estando seguros de que Deus nos protege... Mas o fato
c que Ele trabalha por meio de agentes nessa proteção que dá a todas
as Suas crianças, e nós Lhe devemos gratidão c alguma compreensão
em relação à parte que esses agentes representam, de maneira que nós
também tenhamos que aprender a fazer de forma mais eficiente a nossa
parte do trabalho no Plano Cósmico. Nossa orgulhosa civilização e
todas as realizações da evolução têm-se tomado possíveis por meio
do autossacriflcio dc salvadores humildes, dc cujos trabalhos nós não
temos consciência, principalmente daqueles que ainda continuamente
purificam o ar que nós respiramos e a água que é necessária para tantos
propósitos vitais.
O DRAMA DO OCEANO

A criação não foi um ato instantâneo dc Deus: ela foi se revelando


continuamente no tempo e ainda não está concluída - o sabat de descanso
não foi alcançado. Desde que a terra e a água se separaram, e a primeira
foi canalizada por correntezas para o escoamento da segunda, os rios
começaram a produzir no oceano quantidades de substâncias calcárias
suficientes para obstruí-lo em um prazo de seis mil anos. Se nada tivesse
sido feito para impedir isso, a terra c a água poderiam ter então se fundido
novamente em um lamacento caos. Mas isso não aconteceu em quatro
milhões de anos a catástrofe foi evitada graças â atividade dos seres
vivos que rumaram para o resgate do equilíbrio das águas, quando as
leis que governavam a natureza inanimada começaram a se mostrar
insuficientes.

Na época em que tal ameaça voltou a acontecer, o reino do mar


era governado por trilobites de várias espécies. Eles eram criaturas
trilobuladas, com muitas pernas e vários outros apêndices para possibilitar
a natação, que desenvolveram formas bastante complexas e poderiam
chegara ter 40 centímetros de comprimento. Outros orgulhosos habitantes
do oceano eram os cefalópodcs - litcrahncntc, “que tem pernas na
cabeça"'-, entre os quais o náutico é o mais famoso, tendo inspirado
o poeta americano Oliver Wendel Holmes em seu hábito de adicionar
continuamente quartos maiores à sua alcova, para viver o mais distante
possível e da maneira mais espaçosa - um símbolo de evolução. Inspirado
pelo náutico dividido em câmaras, o poeta jura a si mesmo:

Construir mais très grandiosas mansões, Oh! Minha alma,


Com a velocidade da mudança das estações!
Abandone teu passado pouco arredondando.
Deixe que cada novo templo, mais nobre que o anterior.
Feche-te do céu com uma cúpula mais vasta.
Cultive-vos pelo menos a arte independente,
Abandonando tua concha pela inquiétante vida do mar.

O náutico tinha cérebro, sistema nervoso c era até que bem


desenvolvido. Esses habitantes do mar bastavam para manter as águas
suficientemente puras para que a vida subsistisse, sendo capazes de
transformar os sais venenosos, que eram por eles assimilados como
alimento, e fabricando cálcio para suas conchas e seus ossos. Mas agora
a situação ficou crítica e novos agentes tornaram-se necessários.

Podemos imaginar uma comissão de anjos ou divas de acordo


com a religião que professam os, filhos mais velhos de Deus que
direcionam as forças naturais da Terra - passando adiante um chamado
para voluntários c entrevistando aquelas criaturas que responderam com
uma oferta dc trabalho. Que visão maravilhosa deve ter vindo ao encontro
de seus olhos quando os crinoides se apresentaram! Isso foi como se o
fundo do mar tivesse se transformado em uma floresta de árvores, com
galhos coloridos flutuando como braços no ar, apesar dc não haver vento
algum por lá. Podemos imaginar os crinoides dizendo:

Olhe para nós! Nós nos parecemos com árvores, mas nossos troncos sáo
feitos de pedras entre as quais esprememos nossos corpos delicados,
assim colocando-nos juntos como pilares; c temos galhos, dc maneira
que nós podemos estender nossos braços para capturar o cálcio que
você quer ver destruído. Ele nos servirá de alimento e, mesmo quando
morrermos, não iremos restituir o cálcio, pois nós já o teremos consumido
c transformado.

Também outras grandes multidões de criaturas vivas humildes -


não da aristocracia dos náuticos ou ainda dos crinoides - atendem ao
chamado e dizem: “Nós temos apenas formas simples, mas vocês podem
confiar em nós para fazermos o trabalho”. Assim, ambas as ofertas foram
aceitas e esses soldados alistaram-se para ofront de batalha nas margens
entre a terra e o mar. Os minúsculos protozoários tinham uma sede tão
insaciável que eles podiam engolir incríveis quantidades de água -
proporcionalmente ao seu tamanho era como se um homem pudesse
beber dois metros cúbicos por segundo, sem parar para descansar nem
sequer um minuto, durante toda sua vida e assim eles filtravam a água
passando-a através de seu corpo, tirando dela os sais para transformá-los
cm sua própria estrutura c devolvendo a água purificada. Além disso,
cada um deles podia produzir em dez dias um milhão de reproduções
de si mesmos, e assim formaram um incrível exército de trabalhadores
que, ao morrerem, deixavam seu corpo cair como uma partícula sólida
de cálcio para ser somada à terra ao redor da linha litorânea.

Isso dificilmente se harmoniza com as ideias consideradas antigas


sobre a evolução, que essas simples formas poderiam ter tomado o
lugar dos muito mais complexos trilobites, mas o Plano Cósmico teve
consideração por essas criaturas que estavam contentes em servi-lo,
sem levar em consideração o seu próprio progresso. Os orgulhosos
trilobites moveram-se por algum tempo com grande elegância, mas logo
desapareceram por não serem mais úteis.

Eras se passaram e a terra continuou a elevar-se das águas e a


secar a si mesma. Novos continentes foram sendo formados, novos rios
os drenaram, carregando ainda grandes quantidades de carbonato de
cálcio para o mar. Os crinoides já não eram mais capazes de trabalhar
tão rapidamente quanto era necessário para manter o equilíbrio e a crise
resultou num novo chamado por voluntários. Dessa vez os bancos de
corais responderam:

Nós parecemos pedras, mas vivemos e crescemos; e devemos ficar juntos


e beber, multiplicando-nos e edificando-nos de maneira interminável. Nós
podemos construir cadeias de montanhas embaixo do mar, cimentadas pelas
nossas formas. Também possuímos nossos aviadores, que transportam
nossas esporas para plantá-las em locais adequados para a nossa
colonização. Mas exigimos boas condições de vida, longe das águas
perturbadas das bocas de rio e precisamos que a nossa comida seja trazida
até nós, sem termos que sair para procurá-la.

O tribunal da natureza aprovou esses termos razoáveis, aceitou


a oferta e os crinoidcs balançaram seus braços em sinal de adeus sua
missão fora cumprida! Assim, os corais assumiram o importante trabalho
de manter o equilíbrio necessário nas águas do oceano e assim têm feito
desde então, sem mudança ou rebelião.

Quem então poderia ser utilizado para trazer a comida a esses


trabalhadores imobilizados? Quem poderia aderir ao trabalho deles?
Alguém deveria movimentar as correntes em redor dos corais e para
essa tarefa surgiram peixes com barbatanas, encouraçados e altamente
com plexos, caçando comida para eles próprios e, acidentalm ente,
movimentando as águas e trazendo aos corais o que eles precisavam.
Mais tarde surgiram também peixes não encouraçados, mais leves
c mais rápidos. Eles tinham espinhas dorsais flexíveis e sem cálcio,
com dois músculos duplos c duas barbatanas para suas caudas, o que
os tornava muito rápidos. Eles eram capazes de uma produção em
massa inacreditável para seu tamanho e sua fragilidade, uma vez que
cada um desses peixes podia colocar um milhão de ovos. O problema
de alimentação dos corais estava resolvido por meio do ciclo em que
uns devoram os outros, sendo a todos dada a velocidade de fuga dos
perseguidores insaciáveis, assim balançando a água no movimento
necessário. Parece-nos cruel o fato de que eles foram feitos para ser
devorados? Temos de encarar o fato de que o Plano Cósmico precisa de
sacrifícios c, da mesma forma que tal sacrifício c alegremente feito pelo
homem quando oferece sua vida por seu país, os animais ficam alegres
em satisfazer o propósito da natureza, embora sejam inconscientes de
qualquer nobreza.

Se me perguntassem se eu concordo com a teoria da evolução, eu


responderia que concordar ou discordar é uma questão sem importância.
Nós precisamos olhar para os fatos a fim de corrigir erros nas teorias
existentes e assim adicionar conhecimentos, e eu aceito o ponto de vista
dos geólogos quanto à evolução agora como um avanço na teoria dos
biólogos, os quais anteriormente presidiram esse campo. A geologia
fornece a melhor prova da evolução, mostrando criaturas marinhas
invertebradas acompanhadas por vertebradas, anfíbios de sangue frio na
terra acompanhados por animais de sangue quente e pássaros.

Resquícios encontrados em rochas permitem que a imaginação


reconstrua tempos passados e entenda uma era quase inacreditável para
a Terra. Um milhão de anos transformam-se na unidade e 25 milhões de
anos, em um mero episódio da história do mundo. Tais estudos, como a
geologia c a astronomia, ajudam-nos a conceber uma eternidade dentro
da imensidão. Eles são os assuntos mais fascinantes do nosso dia e as
crianças podem sentir, e realmente sentem, esse fascínio.

A diferença entre a visão sobre a evolução da geologia e da


biologia é que esta última considera a vida independente da Terra - uma
outra ordem de criação, colocada ali para se desenvolver, para viver e
crescer rumo à perfeição. Essa é uma visão linear, ligada à velha ideia
da Terra como uma superfície plana, sugerindo que alguém que viajasse
interminavelmente em linha reta deveria, em algum lugar, cair da
borda da Terra para dentro do espaço. Agora nós sabemos que a Terra é
uma esfera e que esse viajante imaginário nunca precisaria cessar sua
caminhada. Assim também a visão geológica da evolução mostra-nos
a vida cm maiores dimensões, aquela com o planeta sc desenvolvendo
com c através dela, contribuindo para sua manutenção c seu bem-estar.
Os próprios biólogos tiveram que adm itir algumas falhas em suas
teorias - algumas criaturas que, de forma inexplicável, pareceram
não ter tido força para se desenvolver e permaneceram estáticas, sem
cérebro por meio do qual pensar, sem boca para comer, sem nervos com
os quais sentir! Tais criaturas, como os moluscos, por exemplo, eram
observadas pelos biólogos como fracassos evolutivos, mas agora eles
têm que admitir o seu valor como trabalhadores do mar, preservando
a pureza da água. Da mesma forma, as vidas vegetal e animal agora
precisam ser consideradas de dois pontos de vista, sendo que o mais
importante é aquele que trata das suas funções no Plano Cósmico, o
qual poderá exigir delas o sacrifício de muita paciência em virtude de
um equilíbrio estático, não mostrando qualquer desenvolvimento em
direção à perfeição absoluta.

Um lado da evolução lida com a satisfação de necessidades vitais,


com a defesa, a sobrevivência das espécies e o crescimento por meio de
transformações que buscam atingir a perfeição. Outro fator - ainda mais
forte - em processos evolutivos está relacionado com a função cósmica
de cada ser vivo e até mesmo de objetos naturais inanimados, trabalhando
em colaboração para o cumprimento do propósito cia vida. Todas as
criaturas trabalham conscientemente para si próprias, mas o propósito
real de suas experiências permanece inconsciente, ainda clamando por
obediência. Um coral pólipo, se pudesse expressar-se conscientemente,
escolheria viver em calmas c mornas águas, sem scr perturbado por
correntes dc rios e tendo fiéis serviçais para lhe trazerem comida, sem
que fosse necessário movimentar-se em busca dc alimento. Os corais
nunca se tomarão conscientes de que, por seu modo de viver, preservam
a pureza da água, assim ajudando inumeráveis milhões de outros seres
vivos a sobreviver, nem tampouco da construção dc uma nova Terra
para dar apoio às raças futuras. Assim, as árvores c as plantas talvez
quisessem conscientemente exaltar seus desejos pela luz do Sol e sua
necessidade vital de dióxido de carbono para sua nutrição, inconscientes
de que a natureza já lhes tinha dado esses desejos instintivos com o
propósito de preservar a pureza do ar. da qual dependem todas as formas
de vida superior na Terra. A abelha, que retira da flor o seu néctar, está
ciente somente de suas próprias necessidades ou das necessidades de sua
colmeia, não percebendo que a flor precisa imensamente da sua visita
para que seus propósitos de reprodução ocorram, assim perpetuando a
vida dessas espécies.

O homem também, como todo ser vivo, tem os dois propósitos, o


consciente e o inconsciente. Ele é consciente de suas necessidades físicas
e intelectuais e de suas reivindicações de sociedade e civilização. Ele
acredita na luta por si mesmo, por sua família e por sua nação, mas tem
ainda que se tornar consciente quanto às suas imensas responsabilidades
para com a tarefa cósmica. Sua colaboração, juntamente com os demais,
num trabalho voltado ao seu meio ambiente, para todo o universo - como
verdadeiramente diz a B íblia/ “sabemos que a criação inteira geme até
agora como que em dores de parto” direcionado para a concretização
criativa. A vitória no autodesempenho somente pode acontecer se for
para o todo e, para que isso seja assegurado, alguns ficarão satisfeitos
em sacrificar seu próprio progresso em direção à perfeição da forma,
permanecendo inferiores e sendo humildes trabalhadores como os corais,
de estática utilidade. Outras espécies, tendo inconscientemente atingido
seus limites de utilidade e sendo incapazes de se adaptar às condições que
geraram novas exigências sobre elas, desaparecem dos níveis de vida,
nos quais somente o obediente e disciplinado continuará marchando ao
som da agradável música da canção cia vida.*

* Romanos VIII, 22. (N.T.)


COMO A MÃE-TERRA FOI CRIADA

Para formar uma ideia sobre a economia de nossos arranjos


domésticos cósmicos, é de grande valia voltar muito mais distante nas
épocas geológicas do que na da aurora da vida, pois grandes têm sido
as mudanças e transformações a que o planeta vem sendo submetido
desde os tempos mais remotos. Conchas do mar agora estão embutidas
na substância das rochas que formam os picos de altas montanhas, os
mármores escavados no meio dos continentes comprovam serem feitos de
uma substância calcária muito comprimida e polida, os fósseis das criaturas
cujas formas naturais podem ser traçadas na delicada impressão deixada
em uma rocha. Assim como as criaturas do mar dificilmente poderiam
ter viajado a essas regiões inacessíveis, dada a profundidade aquática em
que vivem, e depois ter retornado ao fundo do mar, a conclusão a que se
chega é a de que essas montanhas e planícies do interior devem ter um dia
estado embaixo do mar, onde essas criaturas viviam e trabalhavam para
a elevação da terra. Como deve ter sido fantástico aquele dilúvio, sobre o
qual há tantas lendas além daquela descrita pela Bíblia! Mármores coloridos
são realmente corais e ainda esses mesmos construtores executaram seu
trabalho, elevando ilhas que formarão, algum dia, um novo continente no
Pacífico. Uina nova Ásia está cm curso de construção enquanto a outra,
velha, lentamente desintegra-se.

Os continentes dissolvem-se no mar e os mares rendem frutos


para as terras em crescimento. Diante de nossos olhos, tudo está sendo
consumido pelo uso, para ser reconstruído em uma nova forma. Quem
é o agente da mudança do mundo? Quem enfeitou as pedras originais,
fundindo-as com depósitos que tomam a forma de fantásticas estalagmites
e estalactites nas cavernas? Torres brancas como a neve e pináculos de
sal brilhante? E quanto às formações de tufos de cores maravilhosas nas
regiões vulcânicas?

Quem trabalhou duro para o surgimento de toda essa beleza e


tesouro foi a água, derretendo substâncias rochosas e conduzindo-as
dissolvidas para o subsolo, para trazê-las, eventualmente, à superfície
da terra para que apareçam e a enriqueçam. A água não é uma ladra,
já que ela devolve o que quer que tenha armazenado; sempre que ela
passa de um local de alta pressão para um de baixa pressão, começa a
preencher cada vazio pela destilação. Gota por gota. ela deixa para trás
uma carga que estava sendo formada c, gradualmente, surge uma pilastra,
como uma massa pendente de gelo, e que se pendura do teto da caverna
em direção a uma outra pilastra que se eleva do chão para encontrá-la,
composta por partículas de cálcio deixadas lá pelo gotejamento. Essas
pilastras majestosas logo encherão a caverna, fazendo dela um palácio de
beleza. Outros minerais, eventualmente, emprestam cores à arquitetura -
vermelho, azul, rosa e amarelo como véus e drapeados de esfuziante
radiação, como, por exemplo, o alabastro de cores diferentes, muito
encontrado na Itália e valorizado pelos escultores. A água é a grande
construtora, criando e transformando. Ela se precipita de amor pelo
oceano, produzindo dádivas, purificando a si mesma, flutuando para o
céu em sua forma mais leve, para retornar como chuva e recomeçar seu
trabalho.

A água é o maior solvente do mundo, capaz de dissolver até mesmo


o ferro. Para ela, isso não é só uma questão de ser capaz de fazer, mas
sim de ter a obrigação, pois essa é a sua lei de existência. Outro poder
com o qual cia c favorecida c o de uma energia indomável. Sempre em
movimento, penetrando em cada buraco c fenda, ela sobe para o céu
como vapor para retornar na forma de chuva. Como seu poder é grande,
ela trabalha melhor ainda como solvente se for auxiliada pelo dióxido de
carbono; portanto, esse veneno é também um agente natural e um amigo
da água, com quem trabalha em parceria. A chuva avidamente retira do ar
o dióxido de carbono, de modo que o ar é limpo de seu veneno e a água é
carregada com a energia que irá auxiliá-la na dissolução das rochas. Assim
carregada, ela é um poderoso escavador, penetrando mais profundamente
na crosta da Terra do que qualquer explorador poderia fazê-lo, para trazer
à circulação os tesouros enterrados no solo, para a consecução do Plano
Cósmico. Quanto mais fundo ela vai, maior é a pressão e mais saturada
c a água com dióxido dc carbono, até que, supersaturada, cia jorra cm
uma nascente, depositando, assim, a abundância que acumulou cm sua
jornada subterrânea. Por meio dos géiseres e das nascentes de água
quente, assim como das erupções vulcânicas, a abundância mineral é
trazida à superfície.

A imaginação pode assim retratar para nós a Terra primitiva de


rocha marrom dura, não realçada pelo verde da grama ou das folhas,
sem o som dos pássaros ou de qualquer outra criatura viva, o silêncio
sendo quebrado apenas pelo precipitar das cachoeiras, pelo rugir dos
trovões ou pelas pedras deslocadas cm avalanches. A terrível crosta
marrom está lentamente sendo modificada e revestida com coberturas
mais hospitaleiras, mas antes que ela possa tomar-se o lar dos seres
vivos alguma ação deve ser feita para assegurar a pureza do ar que eles
terão para respirar.

O ar é o ambiente natural do animal, como a água o é para o


peixe; ser privado de ar para respirar é a pior sorte - pior ainda que a
falta de comida ou de água e esse ar tão necessário é um delicado
composto de oxigênio e nitrogênio em proporções fixas, somados a uma
insignificante quantidade de dióxido de carbono. Um pequeno aumento
do último ingrediente faz com que o ar se torne irrespirável, levando
à morte por asfixia. Na Terra primitiva os gases venenosos devem
ter estado sempre presentes, emitidos pelos géiseres e por crateras de
profundidade caótica. A taxa de dióxido de carbono no ar respirável é
de somente três partes em dez mil; como era mantido e atingido esse
delicado equilíbrio, a fim de que a vida pudesse fazer sua parte na futura
criação do mundo? Certamente há aqui outra vez uma necessidade de
postular uma inteligência governante. A criação inanimada está concluída,
o estágio foi atingido quando a natureza teve que cobrir as rochas e
fertilizar o solo para criar um mundo vivo. Novamente valendo-nos da
imaginação, nós ouvimos um apelo que é ao mesmo tempo uma ordem:
“Venham, ó plantas, por sobre o deserto; vivam nele e transformem-no
em algo bonito e ajustem as condições que vocês encontrarem para as
necessidades das criaturas que virão depois de vocês. Invadam os cantos
mais distantes do planeta c façam seu trabalho!”. A vida vegetal que já
estava estabelecida no oceano ouviu o chamado c transportou-se para a
terra, isso, enfaticamente, não era para melhorar suas condições de vida,
que já eram ideais para satisfazer suas necessidades de sobrevivência e
que poderiam estar bem distantes das que encontrariam na terra. Apesar
disso, de cada margem do mar, de um lago ou de um rio, o transporte
estava sendo realizado e a invasão iniciou o que poderia fazer o lugar
mais selvagem desabrochar como a rosa.

Para a meta a que foram destinados, esses novos recrutas tinham


que estar equipados e da mesma maneira o Sol, o poderoso deus de suas
adorações, deu-lhes a valiosa dádiva da cor verde, da clorofila que os faria
devorar insaciavelmente o dióxido de carbono que eles encontravam no
ar, separando-se o oxigênio. Onde quer que o florescimento se espalhasse,
o ar era purificado c no devido tempo o mundo estava pronto para que
a vida animal iniciasse sua escalada de evolução - o desejo da vida cm
busca da perfeição e da eficiência dos serviços.

Estima-se que a evolução das plantas na Terra tenha levado cerca


de 300 milhões de anos, partindo das algas, dos musgos e dos liquens,
passando pelas samambaias até as mais complexas formas de força e
beleza. A vegetação tem cumprido sua aventura com prazer, conquistando
a terra, ambicionando os céus, agarrando o solo com raízes fortes para
dar suporte a nobres pilastras, cobertas com galhos entrelaçados e folhas
abrindo milhares de bocas famintas à luz do Sol, buscando por dióxido de
carbono como alimento. Por viverem e crescerem buscando a perfeição,
elas então cumpriram sua tarefa cósmica e realizaram mais uma com a
própria morte, pois a vegetação morta era transformada no suprimento
inesgotável de carvão da terra. O que os homens do nosso tempo poderiam
realizar sem o carvão que fora armazenado para eles?

Por muitas e longas eras a vida vegetal governou a Terra, sendo que
os únicos representantes do mundo animal eram os insetos, rastejantes e
voadores, alguns dc tamanho monstruoso. O solo era lamacento c quente c
ainda não havia as mudanças de estações e o eixo da Terra ainda não tinha
a atual inclinação para o plano de sua órbita ao redor do Sol. A terra estava
lentamente afundando em regiões, como ela está ainda hoje, de maneira
que as florestas se transformaram em pântanos que secaram e as águas
dos rios filtradas através das raízes que impediam seu curso, construindo,
com seus depósitos, proteção ao redor das margens até que os sedimentos
cobrissem as velhas raízes e novos níveis fossem criados, e o solo crescia
em camadas. Há lugares onde se podem detectar centenas de florestas
que foram enterradas, umas após as outras, demonstrando quão longo foi
o período de submersão. A vegetação enterrada fermentou, espalhando
gases, que se tornaram a primeira turfa, como as que são encontradas nos
pântanos da Irlanda c da Holanda. Sob pressão adicional, a turfa libera
carvão fóssil e então o carvão de pedra e por último o carvão destinado
a formar a energia motor para nossa civilização industrializada. Nos
Estados Unidos da América há carvão a uma profundidade de 16 metros
cxpandindo-sc por sobre uma superfície dc 224 mil metros quadrados
em somente um campo! Todo esse tesouro de carvão foi dado à Terra
no período carbonífero, por meio do alagamento das terras das florestas.
As terras árticas, como o Alasca e a Sibéria, são quase que totalmente
feitas de carvão, de maneira que devem ter possuído grandes florestas
e clima tropical.

Outro trabalhador humilde no laboratório da Terra foi o micróbio


ferruginoso, que construiu sua concha no ferro que veio dissolvido pela
água proveniente do interior da Terra c deixou seus restos mortais entre as
formas de vida vegetal cm putrefação. Onde quer que haja fermentação e
água estagnada, manchas marrons poderão ser vistas, demonstrando que
o micróbio ferruginoso ainda continua em atividade, da mesma forma
que estava quando os depósitos de ferro foram colocados lado a lado
com o carvão, para a grande conveniência dos fabricantes modernos.
Esses mesmos micróbios também produzem uma substância oleosa que
agora nos produz o petróleo.

É desnecessário dizer que a riqueza c a eficiência moderna que


possuímos são decorrentes das plantas e criaturas do mar e da terra que
as acumularam para nós durante sua vida e morte para que nós também
possamos viver, respirar e trabalhar para dar continuidade â realização do
mandamento Divino: “Sede fecundos e multiplicai-vos, enchei a Terra!".’*

Uma época está sendo concluída na nossa revisão sobre a


criação; seu último capítulo começa na invasão da terra pelas plantas
colonizadoras. A natureza conduziu essas plantas para sua aventura de
exercer esforços prodigiosos e para triunfar, para então serem finalmente
enterradas no subsolo e carbonizadas. Nós temos que concluir que a
natureza é cruel na execução do plano cósmico? De maneira alguma!
Em dando-lhes uma tarefa essencial a ser realizada na sua economia
doméstica ela deu essa incumbência às plantas, na forma de satisfação
de um desejo que não poderia ser frustrado, um prazer, c não um
sacrifício doloroso. Somente a vida pode dizer: “No meu trabalho está
a perfeita liberdade!". Trabalhar com a expressão cósmica é sempre uma
necessidade de vida e um prazer; esquivar-se desse trabalho significa a
extinção, a maldição da desobediência original.

* Gênesis I. 27-28. (N.T.)


UMA GUERRA MUNDIAL PRIMITIVA

Depois de muitos milênios de transformações graduais e pacíficas


na superfície da Terra, com o equilíbrio sendo mantido entre a terra e
o mar por meio de muitos agentes, o solo sendo enriquecido e riquezas
minerais sendo depositadas para as futuras gerações, nós podemos
imaginar um ponto crítico sendo alcançado quando a Terra cresceu
de maneira impaciente c rebelde. Ela não poderia mais aguentar as
invasões da água, mas deveria preparar defesas que pudessem manter
o inimigo represado. Por toda a costa, montanhas vulcânicas expeliram
fogo e arremessaram massas de rocha derretida e de lama em ebulição,
formando uma barreira na Ásia, no norte da Europa e na África - as
M ontanhas Rochosas e os Andes na Am érica do Norte e do Sul,
respectivamente. Aquela foi, de fato, uma guerra mundial titânica,
que durou milhões de anos, espalhando-se para a Austrália, o oeste da
índia e para as Filipinas, levantando enormes barreiras que a água não
poderia ultrapassar, de maneira que regiões do mar foram isoladas,
transformando-se em lagos dos quais a água poderia evaporar, deixando
apenas as areias do deserto. Poder-se-ia também ter a impressão de
que nesse período o calor do Sol diminuiu ou que a Terra não poderia
receber esse calor na mesma medida anterior, em virtude do gelo c
das geleiras espalhadas em todos os lugares, tendo somente a região
equatorial permanecido aquecida. Depósitos colossais de sal, até no
topo das montanhas onde eles formam atualm ente deslum brantes
cumes, estão entre os resultados dessa guerra de gigantes, 'feria sido
a eliminação do sal supérfluo do mar que teria colocado, nessa época,
em risco a vida marinha, uma das razões para o grande conflito que a
nossa imaginação reconstrói? Certamente durante o período penniano,
emergiu uma necessidade premente de reduzir a salinidade da água
do mar e isso não poderia ter sido feito por criaturas vivas, formando
conchas de cloreto de sódio, como foi feito com o carbonato de cálcio
supérfluo. Então a água teve que ser encurralada na terra, como se um
cozinheiro cósmico tivesse entornado a sopa que estava muito salgada,
completando-a com água. Um cozinheiro que assim modificasse o sabor
de algumas misturas certamente não desperdiçaria o líquido por ele
retirado; similarmente, a água do mar que foi encurralada em grandes
lagos salgados somente foi armazenada para utilização futura - a água
evaporando para as nuvens, para ser mais tarde devolvida a terra c jorrar
para o mar, deixando o sal como um rico depósito para a utilização do
homem no seu devido tempo.

Estatísticas mostram que o homem utiliza um milhão de toneladas


de sal por ano e ele vem consumindo sal por muitas eras, de maneira
que vastas quantidades tem sido necessárias. Há minas de sal com
profundidade de 100 metros, palácios magníficos de sal cristalizado,
cúpulas imensas suportadas por pilastras que brilham como diamantes,
refletidas em calmos lagos no chão das cavernas. Uma dessas minas está
situada entre a Áustria e a Bavária, próxima ao famoso Berchtesgaden.
Ela vem sendo explorada há 1.200 anos e ainda não há qualquer risco de
exaustão, pois existe uma cadeia de montanhas desse sal com nascente
a uma profundidade de dois mil metros abaixo da terra. Na Sicília, uma
zona de sal cobre uma área de 3.840.000 metros quadrados e na Polônia
uma outra cobre 52.800.000 metros quadrados e está a 100 metros de
profundidade. A Ásia Menor, a Romênia, a Pérsia e a índia têm também
suas montanhas salinas c a America do Sul possui uma cadeia delas,
com os picos cm forma de cones c pirâmides de sal, brilhando como
diamantes ao Sol. No Tibete, no Kush Hindu, assim como na Abissínia,
encontram-se grandes depósitos, evidências de mares internos que
se evaporaram naquelas grandes altitudes e provas da existência de
resquícios fossilizados de criaturas marinhas encontradas nas rochas.

Essas poderosas barreiras foram levantadas pela Terra em seu


arrebatamento, em um estado de emoção ardente; contudo, cm seu estado
mais pacífico o trabalho continua, dc modo que o equilíbrio c mantido,
a terra é compensada dc suas perdas pela erosão c pelo alagamento, c o
mar livra-se do excedente de sal. Isso pode ser visto nos lagos salgados
na orla do Mar Vermelho, nos deltas onde os rios são forçados a achar
saídas em virtude das barreiras erguidas contra eles, nas lagoas do
Mississipi e na Odcssa. O Mediterrâneo poderia ser uma lagoa, a não ser
pelo estreito de Gibraltar. No Grande Lago Salgado da América, nada, a
não ser uma certa espécie de crustáceo, pode sobreviver, e o Mar Morto
é um outro exemplo muito conhecido de uma porção do mar deixada
para evaporação e obtenção de sal.

O conílito titânico que alterou tanto a face da Terra e deixou


encalhadas grandes porções do oceano finalizou o período chamado dc
paleozoico, c o período seguinte, que os geólogos chamam de período
mesozoico, durou 150 milhões dc anos. No seu começo, os répteis
eram os reis na Terra, tendo se desenvolvido a partir dos primeiros
anfíbios, criaturas que podiam viver na água ou na terra, mas ainda
punham ovos na água, como também fazem os sapos nos dias de hoje.
O primeiro subperíodo do mesozoico, chamado de período triásieo,
viu os maiores anfíbios, especialmente um tipo de sapo que deixava
suas pegadas nas areias da boca do rio - que foram posteriormente
preenchidas com sedimentos e permaneceram impressas nas rochas,
sendo atualmente encontradas. Esse sapo era enorme em tamanho e
muito desajeitado, utilizando suas pernas curtas mais como remos do
que como membros para carregar seu corpo pesado. Ele fez grandes
esforços para desenvolver pernas melhores e alguns até conseguiram
andar, com as patas tendo tres dedos, de maneira que suas pegadas foram
inicialmente confundidas com as de pássaros, ate que os esqueletos
também foram achados. Alguns sentiam uma compulsão por penetrar
mais no interior da terra, arrastando o corpo, e, em vez de desenvolverem
pernas, desenvolveram as formas dos répteis, sendo que alguns tinham
barbatanas dorsais, talvez inicialmente para ajudá-los a caminhar.
Resquícios fossilizados dessas ‘'barbatanas dorsais” mostram ossos
quebrados, como se elas tivessem sido mais um empecilho do que uma
ajuda. Eles possuíam dentes que eram apropriados para esmagar, mas não
para triturar. Os répteis ainda esmagam seu alimento antes de engolir,
assim diferindo de outros animais. Todas essas criaturas triásicas comiam
imensamente, alimentando-se de árvores com folhas muito duras e frutas
também duras como as pinhas, precisando, assim, de dentes muito fortes
c achatados. Esses animais estavam transformando a face da Terra por
meio de seu húmus, o que fez com que o solo se ajustasse a tipos mais
finos de vegetação.

Na próxim a subdivisão do período m esozoico, chamada de


jurássica, surgiram os répteis da família Saurisquiana, como lagartos
monstruosos, tão pesados que precisavam do auxílio da água para se
levantarem e passavam a maior parte do tempo em pântanos. Eles
tinham a cabeça bem pequena em proporção ao tamanho do corpo c
eram criaturas vagarosas e preguiçosas, sempre mastigando. Depois
do aparecimento do dinossauro, alguns poucos saurisquianos menores
tomaram-se carnívoros, uma vez que a carne tomara-se mais abundante.
Eles podiam se mover muito mais rapidamente, caminhando com suas
pernas traseiras, sendo capazes dc dar uma passada larga de 8,40 metros
e pular sobre suas presas. Eles eram muito ferozes e tinham dentes de
20,32 centímetros. Alguns saurisquianos desenvolveram o poder de voar,
sendo os dragões originais das velhas histórias e os pterodáctilos, que
tinham asas medindo de 8 a 10 metros, de lado a lado, quando abertas.
As asas eram membranosas, cada uma apoiada por meio de um braço
e de um dedo, enquanto os outros dedos permaneciam como garras
para se empoleirarem, particularmente como os morcegos na época
atual. Alguns poucos desses répteis eventualmente cansaram-se de uma
residência na terra c voltaram para o mar, como os ictiossauros, cujo
significado do nome traduzia suas formas de meio lagarto c meio peixe.

A evolução poderia agora acelerar seu passo, e o palco estava


pronto para formas de vida mais elevadas fazerem sua aparição.
O PERÍODO CRETÁCEO

Esta última subdivisão do período mesozoico tem esse nome em


virtude do barro e dos depósitos de greda deixados pelos foraminíferos,
criaturas que viviam no mar e em grandes quantidades. As conchas
eram discos arredondados, feitos de 11 anéis, e que foram muito tempo
depois utilizados pelos romanos como dinheiro simbólico. Os radiolários
também apareceram na mesma época c também um molusco de concha
chamado de rodizia, que era capaz de ficar cm pé c carregar sua concha,
entrando nela quando se sentia ameaçado.

Na vegetação terrestre, tinham-se desenvolvido árvores mais


poderosas, com folhas que pareciam leques, e os répteis tiveram que se
armar com uma dura couraça de ossos nas costas e nas laterais do corpo,
alguns tendo desenvolvido até espinhos. Um tipo específico de réptil tinha
chifres, dois sobre os olhos e dois sobre o nariz, formando uma coroa.
Assim, a cada um estava sendo dada alguma proteção para os hábitos
carnívoros de seus vizinhos, mas nenhuma proteção poderia poupá-los da
extinção ao final da era mesozoica, quando eles tiveram que dar lugar a
criaturas muito mais fracas do que eles próprios, uma prova em si mesma
dc que kfca sobrevivência do mais apto" não é uma lei básica da natureza.
Parece que a causa direta para seu desaparecimento teria sido o fato de
eles não terem qualquer cuidado com as gerações seguintes, colocando
poucos ovos e abandonando esses poucos para serem devorados por
criaturas menores, porém com mais inteligência. Os indefesos jovens
eram uma presa fácil, pois seus pais não ficavam a seu lado, de maneira
que os tolos e preguiçosos monstros não mais desempenhavam qualquer
propósito útil, e a única maneira pela qual eles poderiam ser utilizados
seria como adubo para o solo!

Gloriosa cm suas implicações c a descoberta biológica dc que


seus sucessores evolutivos foram os pássaros e os m am íferos, de
corpos frágeis, porém fortes em relação aos instintos maternais, ávidos
por defender suas proles da morte. Se a evolução significasse apenas
crescimento, como os doces pássaros poderiam ter evoluído dc monstros
ferozes, tornando-se herdeiros dc seu reino? Mas os instintos de proteção
de suas proles que eles, da mesma maneira que os mamíferos, revelaram
são a marca verdadeira do avanço da evolução, mais do que qualquer
desaparecimento gradual de dentes e crescimento de penas. A natureza
desenvolveu-se por meio do fortalecimento do que tinha sido um ponto
fraco no comportamento animal, provendo a nova energia chamada amor.
Essa energia deveria ser uma paixão poderosa enquanto durasse, capaz
de fazer um pequeno pássaro esquecer o medo e cuidar de si mesmo.
Significativamente, isso combina com o calor do sangue. O dom do
amor de Deus é poderosamente revelado nos mamíferos assim como nos
pássaros e neles nós reconhecemos o segredo da sobrevivência!

Os únicos répteis encouraçados que sobrevivem até hoje são os


crocodilos e as tartarugas - e ainda é costume das tartarugas incubarem
seus ovos na areia e abandoná-los para que os pássaros ou outros animais
os devorem. Contrastando com esse comportamento, há o cuidado
demonstrado pelos pássaros, que escondem seus ninhos em lugares
remotos e protegem-nos de serem descobertos; eles frequentemente
servem de iscas para atrair os inimigos para longe dos ninhos, por meio
de sua própria exposição ao perigo. Observe jovens pássaros sendo
ensinados a voar, ambos os pais, solicitamente presentes, eompletamente
esquecidos de si próprios!

Foi Fabre, o naturalista francês, quem trouxe à luz essa nova ideia
nos volumes intitulados O amor dos animais e A vida dos insetos.1Aqui
havia um cientista inspirado pela poesia, tudo pela mágica da palavra
“ninho'’, com suas temas associações. Porém, ainda mais capazes de amar
suas proles são os mamíferos, que as protegem permitindo-as crescer
dentro de seus próprios corpos e alimentando-as após o nascimento com
seu próprio sangue transformado cm leite, além de tomarem conta delas
a qualquer custo. Os pássaros c os mamíferos são animais de sangue
quente, diferentemente dos répteis, que têm sangue frio e são desprovidos
de sentimentos.

Os primeiros mamíferos a aparecer na face da Terra eram pequenos


e quase insignificantes; apesar disso, eles eram destinados a ser os reis
do próximo período da evolução da Terra. Eles se tornaram rapidamente
grandes e assumiram a forma que seu corpo tem hoje cm dia nas espécies
que sobreviveram. Os cavalos cujos resquícios fossilizados foram
achados eram do tamanho de um cachorro pequeno. Eles tinham cinco
dedos nas patas e viviam em florestas, alimentando-se de arbustos. Mais
tarde aprenderam a erguer-se nas pontas dos cascos, para aumentar a
velocidade na corrida; os joelhos das pernas traseiras curvavam-se para
trás cm vez de para frente, e os dedos que não estavam sendo utilizados
tenderam a desaparecer, sendo que o único que permaneceu foi o dedo
do meio, enquanto o restante uniu-se à pata, como hoje ainda prevalece
nos cavalos e nos burros.

Os elefantes também eram animais pequenos, mais parecidos com


porcos com um pescoço longo. Antes de a tromba aparecer eles tinham
36 dentes, dos quais dois cresceram muito mais e dez foram descartados *

Henri Fabre (1823-1915), entomologista francês, dcdicou-se à observação de insetos.


Suas principais obras foram A n a is cie ciências naturais e M em órias entom ológicas.
Desta última, a autora cita dois dos de/ volumes que a compõem. O trabalho de Fabre
foi reconhecido pelos cientistas apenas no final de sua vida. (N.R.)
na época cm que o nariz encompridou-se c transformou-sc em tromba.
Ate aquele momento ele já tinha atingido o tamanho de um mamífero
pequeno, verdadeiramente um elefante anão!

O primeiro camelo a ser investigado era do tamanho de um coelho,


mas logo ele pareceu ter-se desenvolvido para o tamanho de uma ovelha.
Seu pescoço cresceu desordenadamente, como o da girafa, de maneira que
os resquícios fossilizados foram inicialmente chamados de camelo-girafa.
Ele comia as folhas das árvores, esticando o pescoço para alcançá-las. Os
camelos mais tarde passaram a habitar os desertos, c assim desenvolveram
as corcovas onde podiam armazenar comida e água.

O rinoceronte também era um animal pequeno, com uma forma


delgada e comprida, pernas finas, capazes de correr rápido. Ele tinha
o corpo coberto por pequenos pelos para protegê-lo das moscas. Os
cangurus desenvolveram bolsas para o transporte de seus filhotes, como
ainda hoje eles fazem na Austrália. Um mamífero feroz era o tigre-
dentes-de-sabre, mas a maioria deles era composta por vegetarianos. Um
mamífero gigante viveu então nas regiões frias; seus resquícios foram
encontrados preservados no gelo, a canic estando ainda suficientemente
fresca para lobos e cães devorarem.

Foram mamíferos como esses que se desenvolveram até as formas


dos animais que conhecemos hoje - e dentre eles inclusive aquele que era
para ser assumido como homem na era cenozoica ou período terciário,
há 580 mil anos a.C. Os cientistas hesitaram em incluir o homem
inteiramente entre a vida animal, e é um fato que nenhuma ligação direta
tenha sido encontrada e que os resquícios humanos tenham sido achados
como pertencendo a uma época anterior à dos grandes macacos, os quais
se pareciam mais com eles.

A Terra agora estava pronta para seres de necessidades mais


delicadas, pois seu solo estava enriquecido dc substâncias orgânicas
para a alimentação desses seres e os pastos acarpctavam o chão para
a pastagem. Novas árvores e plantas desenvolveram-se, propagando-
se por sementes em vez de esporos, e as flores começaram a aparecer,
combinando os ornamentos para a recentemente mobiliada casa da vida.
Isso marca um clímax na evolução das plantas, quando os liquens, os
musgos e as samambaias deram lugar à florescência e à reprodução
das plantas por meio de sementes. A ajuda dos bandos voadores para a
fertilização foi assegurada pela adoção de cores atrativas e de perfumes -
estes espalhados pelo prestativo vento. Sem fim era a variedade, pois
preferências diferentes tinham que ser consideradas e cada flor tinha
seu amigo especial entre os insetos. A planta preparava o néctar, e o
inseto se fazia mais bonito em face do convite para o banquete - a
abelha adicionando pele e veludo a seu casaco e a borboleta cintilando
alegres cores em suas asas. A colaboração era perfeita entre as plantas
e as criaturas. As abelhas carregavam o pólen em seu corpo peludo
para fertilizar as sementes das flores que elas visitavam para coletar
seus tributos de cera e mel, de maneira que as necessidades de ambas
estavam satisfeitas e o propósito mais profundo da natureza estava
realizado. Um clima brando prevalecia em todos os lugares - magnólias
e murtas crescendo em regiões que agora são árticas. A Terra deve ter
sido verdadeiramente linda e os monstros, em sua grossura, estupidez
c feiura, não estavam adequados a ela. Alguns tentaram “perder peso",
encurtaram suas pernas e conseguiram sobreviver - especialmente
aqueles que tiveram inteligência para se transformar em cobras. Aqueles
que eram muito preguiçosos para fazer o esforço de se adaptar só puderam
perecer. As cobras foram as descendentes lineares dos dragões e não
eram venenosas antes do advento do homem. Elas desenvolveram uma
dupla articulação para suas mandíbulas a fim de se tornarem capazes de
engolir criaturas com medidas maiores do que as suas próprias - c elas
vêm mantendo uma reputação de grande perspicácia ou ate mesmo de
inteligência.
A TERRA OUTRA VEZ EM TRABALHO DE PARTO

A Terra estava trem endo com a expectativa e com o bom


pressentimento. Seu coração comovia-se em solidariedade com a alegria
da Criação; tremores passaram rapidamente sobre sua estrutura e lágrimas
emocionadas fluíam sobre ela em novas correntezas. Bem diferente era
seu temperamento daquele do passado, na época permiana, quando ela
tinha travado a guerra contra as águas que passavam dos limites. Agora,
mais gentil e mais quieta, ela fora completamente tocada por sentir a
aproximação do homem, seu senhor predestinado, e novamente presentes
foram trazidos em abundância para uso dele. Simpatia, entusiasmo e amor
irromperam numa forte inundação em muitas partes do mundo. Todos
os tipos de metal que a ferra vinha preparando em seus laboratórios
foram trazidos à superfície e depositados - um era uma substância
brilhante que parecia com o sal, mas era insolúvel, e seria mais tarde
supremamente estimado pelo homem por se tratar do diamante. Dessa
dádiva de riqueza mineral, a índia recebeu uma grande parte por ter sido
o local de maior emoção da Terra. Se o país, hoje, não é o mais rico de
todos, isso se deve ao fato de que seus filhos ainda têm que liberar essa
riqueza. Sc eles mesmos não fizerem isso, outros que trabalham mais duro
c pensam mais que eles devem, inevitavelmente, tomar seus lugares.1
Existem ali rochas fundidas cm resfriamento cristalizado na forma não
somente de diamantes, mas também de esmeraldas, safiras e de outras
pedras preciosas; há o âmbar, desenvolvido da resina das árvores onde
os insetos foram capturados e fossilizados. Os gregos iriam mais tarde
valorizar especialmente o âmbar, que é por eles chamado de elektron, por
ser considerado como tendo poderes mágicos para proteger os homens
do “mau-olhado”. Muitos são os tesouros escondidos e revelados pela
Terra, de poderes não totalmente explorados ainda, guardados pela
natureza não muito distante da superfície, para que os homens possam
procurá-los e descobri-los. Foi a curiosidade de uma criança que levou
à primeira descoberta de diamantes em Kimberley, que resultaram nas
minas da África do Sul. Chegará o dia em que os diamantes serão tão
abundantes que perderão o valor?

Na emoção da Terra, sua crosta enrugou-se para formar cadeias


de montanhas nas quais novamente as águas do mar foram confinadas,
as temperaturas tornaram-se mais amplamente variáveis, com vales
sendo protegidos e aquecidos, enquanto o gelo e a neve cobriam os
topos das montanhas, expandindo em geleiras por meio de movimentos
lentos rumo às planícies. Essa placa de gelo logo prevaleceria por toda a
superfície da Terra, triturando os topos das colinas c reduzindo-os a pó;
empurrado montes acima, esse gelo fez com que a Europa, a América e
o Norte da índia ficassem completamente cobertos por camadas glaciais
de 1.600 a 3.200 metros. Certamente uma recepção fria para o homem,
um ser sem qualquer cobertura de pelo, em um período glacial que durou
muitos milhares de anos! Mas havia alguns vales mais aquecidos nos
quais ele podia viver c o gelo era por si só um trabalho de preparação
para o homem, pois ele triturou as rochas, deixando um solo de grande *

Maria Montcssori viveu na Índia durante a Segunda Guerra Mundial, e conheceu de


perto o potencial das riquezas minerais do país. Tendo em vista o carinho de Montcssori
por esse país que a acolheu tào bem, sabemos que essa frase denota muito mais um
lamento do que qualquer possível postura discriminatória. (N.R.)
fertilidade. A Terra recebeu seu filho com alegria, mas ofereceu a ele
trabalho duro c não algo simples para fazer!

Embora gráficos tenham sido preparados extensivamente para


capacitar a criança a conseguir alguma compreensão da natureza e das
taxas de progresso no modo de viver, não faz parte do Método Montessori
pedir a ela que memorize nomes ou datas; ela deve meramente estar
interessada em ver como a evolução tem continuamente sido acelerada
em seu processo. Sementes de interesse devem prim eiram ente ser
cultivadas na mente da criança - e serão facilmente transportadas se
estiverem primeiro na mente do professor, que deve estar totalmcntc
preparado para dar respostas completas se questionado pela criança
quando ela estiver buscando por mais conhecim ento. As crianças
gostam de primeiro colocar as figuras preparadas separadamente nos
quadros em branco, somente mostrando as épocas, e a compreensão
é auxiliada pelo isolam ento das dificuldades - cada coisa sendo
apresentada a seu tempo para suas considerações a fim de evitar
confusão.2 Não há interesse algum para a criança em um emaranhado de
fatos, a serem memorizados e recitados em ordem. Alguns especialistas
em educação defendem que seja dada à criança a liberdade para aprender
somente o que ela gostar, mas sem preparação prévia de interesse.
Esse é um planejamento para construção sem uma base, ligado aos
métodos políticos que na atualidade oferecem liberdade de expressão
e de voto sem educação; o direito de expressar pensamentos onde
não haja pensamentos para expressar e nenhum poder de raciocínio!
O importante para a criança, assim como para a sociedade, é auxiliar
na construção das faculdades mentais, sendo este o primeiro interesse
na lista de necessidades, assim podendo haver crescimento natural na
liberdade. Meu desejo é restaurar a visão ao cego, para que ele possa
ver por si mesmo, talvez até mais do que eu seja capaz de ver. Tal é

2. Trata-se. aqui, de uma característica do sistema Montessori: nos materiais de


aprendizagem há sempre um objetivo inicial ressaltado e outros surgem, gradativamente,
à medida que a criança se sente apta a ir adiante nas suas descobertas. (N.R.)
o amor de uma mãe que auxilia seu filho a caminhar sozinho, embora
ele possa utilizar esse movimento para correr dela.

O progresso consiste na realização em menos tempo. As crianças


apreciam isso, tendo que preencher mais figuras nos últimos espaços do
quadro. Elas veem quão breve tem sido a existência humana comparada
com o que veio antes, mas apesar disso quão grande tem sido seu
trabalho! À criança é permitido construir livremente, neste ou em outros
pontos de interesse, com o material apresentando os mesmos fatos, mas
de diferentes ângulos. As reminiscências devem scr utilizadas para o
trabalho c, cm dado tempo, essa consciência deve estar clara. Alguns
não demonstram qualquer interesse e outros demoram mais ou menos
tempo para assimilar o que querem. Uma coisa tem ficado bem clara em
nossa experiência: os fatos em si são de menor interesse para a criança
do que a maneira pela qual eles tem sido descobertos, e assim as crianças
podem scr conduzidas para a história das realizações humanas, das quais
elas querem fazer parte.
O HOMEM PRIMITIVO

A lgo novo surgiu no m undo ju n tam en te com o hom em , um a


energia de vida psíquica, diferente de qualquer um a que já tivesse surgido.
D esde o com eço ele utilizou ferram entas, com o nenhum anim al havia
feito antes, em bora alguns tivessem m ãos que os possibilitassem pegar
os objetos. O prim eiro hom em cujos sinais foram encontrados é cham ado
de paleolítico, que quer dizer ‘"aquele que talhou ferram entas na pedra”,
c, em bora pouquíssim os de seus resquícios tenham sido encontrados, sua
presença ficou com provada por m eio da descoberta de seus utensílios,
de pedras polidas e pontiagudas. É significativo que esse hom em tenha
deixado p ara trás seus trab alh o s m anuais, sinal de sua in telig ên cia
criativa, em vez de deixar seus resquícios corpóreos entre os anim ais
inferiores. A qui está a diferença colossal dessa nova energia cósm ica.
Partindo daqueles instrum entos rústicos, logo as arm as e ferram entas
criadas pelo hom em tornaram -se finam ente trabalhadas, dem onstrando,
inclusive, atenção a aspectos com o ornam entação, e ele pôde rabiscar
figuras nas rochas.

O período p aleolítico é dividido em prim itivo, ou de trabalho


inferior, e secundário, com um trabalho m ais refinado em pedra, por
meio do qual os sinais da existência do homem tornaram-se mais
numerosos e expandidos. O subperíodo primitivo c também conhecido
pelos cientistas como cheliano, e aqueles que estudam grupos raciais
chegaram à conclusão de que há ainda cerca de 20 grupos sobrevivendo
no globo que estão nesse estágio de civilização, embora vivendo sob
o domínio de um outro ser superior a eles. Eles foram deixados como
monumentos de um passado muito distante e, juntamente com os sinais
encontrados pelos geólogos e arqueólogos c com as tradições passadas
de pai para filho na literatura durante os últimos cinco mil anos, eles nos
capacitaram a ver a vida humana como um filme.

Cada nova civilização que surge vem, sucessivamente, evoluindo,


cada vez com maiores exigências no processo. Não que o princípio mais
importante tenha sido fazer a vida mais fácil c mais feliz para o indivíduo,
mas principalm ente porque o meio am biente sem pre fez grandes
reivindicações ao trabalho do homem a cada novo passo e somente os
homens poderiam desenvolver-se com seu meio ambiente e por meio do
serviço prestado a ele. Mesmo numa civilização avançada, ficar parado
tem sempre sido sinônimo de estagnar e morrer.

O homem tem relativamente pouca força, tem a pele nua, sem


armadura c com desvantagem lisica cm relação a muitos mamíferos, mas
lhe foi dada grande inteligência, porque ele está destinado a executar um
trabalho essencial na criação, mais do que qualquer outra expressão de
vida que se tenha desenvolvido. Sua nova arma era a mental.

Então, vemos o homem entre animais ferozes, cujas garras e dentes


podiam dilacerá-lo, também sem ajuda contra as barreiras de montanhas
que impediam a exploração e a aventura, invejando nos pássaros as
asas que podiam cortar os céus, nos peixes o seu poder de nadar. Por
natureza, ele não podia voar nem nadar, tampouco despedaçar seus
inimigos ou fugir deles. Mas a nova arma tem provado sobrepujar a tudo
cm efetividade c, com o tempo, a superioridade chegou, não para os que
possuem pernas e braços mais poderosos, mas para o maior cérebro e,
acima de tudo, para a imaginação. O homem é o agente-chefe de Deus
na Terra para a criação, não tendo vindo para ser somente seu senhor
c divertir-se, scr orgulhoso c vangloriar-sc como fazem os tolos. Um
homem que triunfa cm sua superioridade c na de sua raça nunca triunfará
por muito tempo; ele cai, deixando um rastro de morte e destruição, como
a história comprova abundantemente. Os verdadeiramente grandes são
os humildes. Mas nós podemos legitimamente estar orgulhosos e alegres
que o homem tenha transformado seu mundo, ao longo das eras, em um
lugar que agora está além do planejamento da natureza. Encontrando
as piores condições que poderiam scr imaginadas por alguém como
Robinson Crusoé, o homem edificou a civilização.

Houve tres períodos glaciais, com intervalos entre eles, sendo


que o primeiro e o segundo foram os mais longos, avançando mais para
o sul. Não muito antes da chegada do homem, o Himalaia e os Alpes
ergueram a cabeça e o Oceano Pacífico foi formado onde grandes massas
de terra foram submersas. Regiões que estavam anteriormente unidas
tornaram-se isoladas. A Inglaterra c a Irlanda ficaram por um longo
período ‘'acondicionadas no frio"' e o Saara era um campo agradável
e fértil.

No terceiro período glacial a Terra foi novamente recoberta de


gelo, excluindo-se somente o afastado Sul. Entre os Alpes e o Cáucaso
estendeu-se um corredor de temperatura moderada no qual o homem pôde
resistir. Cerca de 18 mil anos a.C. o gelo desapareceu, c as quedas d ’água
verteram tais volumes no oceano que ocorreu outra grande inundação,
talvez a original da história bíblica.

Terras ergueram-se e afundaram e, fora da sublevação, a Itália


assumiu seu formato atual, juntam ente com a Espanha e a Grécia,
o oceano sendo empurrado para dentro da terra para formar o mar
Mediterrâneo do que tinha sido anteriormente um rio. Um outro rio
tornou-se o mar Vermelho e muitas foram as mudanças mais a oeste. A
Terra, mais uma vez, estava calma c poderia prosseguir com a sua toalete!

Durante essas eras tumultuosas, os homens tinham vivido entre


as placas de gelo, a maioria em florestas e à margem das correntezas, na
mesma vizinhança que mamutes gigantes, maquerodos, alces e veados,
como também os pequenos cavalos, uma espécie de búfalo c de castores
gigantes. Ainda não havia leões, ou tigres normais, mas os elefantes
de pequeno tamanho fizeram sua aparição no período acheulense, que
seguiu o eheliano. Então vieram também o boi almiseareiro, o antílope e
a ovelha. Esses homens primitivos eram gigantes, demonstrando pouca
inteligência apesar de utilizarem ferramentas rústicas. Após o ano de
50.000 a.C., uma raça menor e mais inteligente apareceu, utilizando
lascas de pedras como facas e modelando-as com certa habilidade. Sua
comida era composta por grãos, raízes, cobras, lagartos, ovos e sapos;
realmente eles eram onívoros. Eles tinham estranhos ritos funerários de
adoração ao morto. O homem de Cro-Magnon era parecido com o índio
americano. Durante o terceiro período glacial os animais e os homens
viviam, igualmentc, em cavernas para se abrigarem e um perigoso vizinho
era o grande urso das cavernas. Como o gelo empurrou os homens c os
animais para as florestas, o homem então vivia da caça. A arte fez sua
aparição com estátuas, cabeças de cavalos e de outros animais sendo
esculpidas em rochas. Colares e outros ornamentos, armas e utensílios
domésticos começaram a ser queimados com o morto, geralmente
encontrado na posição sentada, com os joelhos emparelhados ao queixo.

Povos migratórios vieram do norte da África trazendo leões, e do


oeste da Ásia trazendo grandes cavalos, e no período que chegaram os
magdalcnianos, o homem não era mais primitivo, mas trabalhava com
ossos c chifres cm vez de pedra os ossos eram utilizados como agulhas
para costurar e também como arpões e lanças para pescar. Esses arpões
ainda são guardados, dada a superstição de que trazem sorte, e é curioso
que eles sejam encontrados na Espanha perto dos Pirineus, onde não
há evidencia de ter existido água na época cm que eles devem ter sido
utilizados. A conclusão é que eles foram transportados e que já existia
um comércio de artigos luxuosos e de beleza artística, pois eles eram
lindamente ornamentados, especial mente os feitos no Egito. Como de
costume, os objetos mercantilizados eram coisas inúteis, que satisfaziam
mais ao espiritual do homem e a suas necessidades estéticas, mas eram
esses os objetos permutados e para trazê-los os homens arriscavam a vida.
O Homo sapiens havia chegado depois que as perturbações que
acompanharam o grande dilúvio - ou o último deles, caso tenha havido
mais de um - tinham se acalmado, e ele foi capaz de cultivar o solo
ricamente fértil, domesticar os animais para que o servissem e manter
os cães para tomar conta deles. Ele era o senhor de tudo, vestindo-se
com peles ou com tecidos feitos da lã das ovelhas, com arco e flecha
como arma, assim como facas, que tinham ornamentação em jade, ouro
e bronze; surge também a cerâmica artística para finalidades domésticas.
Essa era uma sociedade avançada e o homem poderia, de agora em diante,
ser classificado em dois tipos, pastor ou agricultor, os quais se oporiam
uns aos outros por muito tempo.
No início, o homem era um caçador, precisando defender-se
das criaturas ferozes, de força física superior, e mais tarde querendo
matar para obter alimento, já que seu paladar tomara-se mais carnívoro
e ele desenvolvera mais confiança em sua perspicácia. Após algum
tempo, ele aprendeu a domesticar alguns animais, para sua utilização
c conveniência. Essa domesticação não era feita, como geralmente se
imagina, domando os animais, mas sim capturando-os c mantendo-os cm
cativeiro. Animais cativos que eram capazes de se adaptar e reproduzir-se
dentro das condições fornecidas pelo homem tornavam-se domesticados,
enquanto outros, como os antílopes e as zebras, nunca conseguiram se
adaptar. No Egito era comum manterem-se leões, hienas e leopardos
em cativeiro. Parece provável que inicialmente a domesticação tinha
propósitos sagrados mais do que domésticos, com o gado sendo escolhido
para o sacrifício por seus chifres e o leite sendo primeiramente bebido
pelos sacerdotes e depois pelas demais pessoas. A vaca permanece um
animal sagrado na índia e todas as religiões têm relíquias de animais
sagrados. Cerca de 50 dentre 100 mil espécies da vida selvagem foram
domesticadas pelo homem.
Dois instintos podem ser encontrados no homem, um sendo errante
c o outro sendo o seu oposto, o de ficar preso a um lugar. O primeiro foi
expresso mais eedo; pelo fato de o homem ter reunido manadas e rebanhos
de animais domésticos, havia a necessidade de estar continuamente em
movimento, para achar pastagens frescas quando as que ele estivesse
explorando se esgotassem. Mas logo haviam de ser encontrados os
colonizadores, que contrastavam com esses nômades. Após os homens
terem permanecido tempo suficiente em um lugar para efetuar alguma
mudança nele, eles criavam uma ligaçào com o local e permaneciam lá,
cultivando o solo para a colheita e formando uma comunidade. Esses
povoamentos eram geral mente estabelecidos na boca dos rios, ou em
campos com bastante água e terreno fértil.

Os colonizadores produziam e os nômades vinham para pegar


os frutos do trabalho deles, geralmente por meio da utilização dc força
armada. Esse parece ter sido o curso da história desde os tempos mais
primitivos e, embora aparentemente injusto, isso ajudou, por meio
da mistura de produções e de culturas, a desenvolver a civilização.
Foi à revelia deles mesmos que os homens foram colocados juntos e
organizados, pois cada grupo tinha crescido consciente da exclusividade
e da intolerância. À linguagem comum iria unificar o grupo, tendendo a
tornar-se mais complicada com o avanço da civilização, c um sistema
religioso próprio seria formado tendo por base tradições c costumes,
especialmente no que dizia respeito à disposição dos corpos dos mortos.
Cada povoado teria seus tabus contra os hábitos alheios dc alimentação e
vestuário c os sacerdotes tendiam a sc opor a inovações c ficavam alertas
contra qualquer relaxamento dc exclusividade. Nas bacias férteis dos rios
e nos deltas, a aitc e a literatura desenvolveram-se cm todos os tipos dc
aplicações, como a música e os meios de satisfação espiritual, mas o
indivíduo tornara-se mais preguiçoso e egoísta, com sua psicologia sendo
direcionada para a obtenção do máximo resultado por meio do menor
esforço. Os nômades visitavam esses povoados, às vezes atuando como
comerciantes entre um centro c outro dc civilização, c podiam invejar as
condições que encontravam, eles próprios fortes o suficiente para agarrar
pela força o que desejassem, embora fossem considerados inferiores.
A civilização é para ser julgada não somente pela sua aparência
externa, mas também pelos seus padrões morais. Os nômades não
se desenvolveram exteriorm ente tanto quanto os colonizadores e
eram habitualm ente desprezados com o sendo bárbaros, mas eles
desenvolveram certas qualidades que eram muito mais avançadas do
que as daqueles que os desdenhavam. Seu modo de vida obrigava-os
a uma grande disciplina, ordem e bravura, tolerância ao frio, ao calor,
à falta de comida e de água e a uma devoção e lealdade tribal para
com um líder. Tais qualidades deram-lhes uma vitória fácil sobre as
comunidades mais frágeis e assim o plano tinha sido, inevitavelmente,
realizado culturas tribais e raciais misturaram-se e toda a riqueza
humana passou a circular constantemente. Os produtos da civilização
logo se impuseram aos conquistadores selvagens, os quais, por sua vez,
adotaram hábitos colonizados e abrandaram-se. Coisas que significaram
um aprimoramento no que tinha ocorrido antes não puderam nunca ser
perdidas ou descartadas.

Exceto entre tribos primitivas, os aldeões não mais se armavam


contra agressores e estranhos indesejáveis, mas ainda hoje as nações se
armam para defender suas fronteiras e reconhecem responsabilidades
somente para o seu próprio povo, ignorando a unicidade humana, ou
estão apenas começando a dar. de má vontade, algum reconhecimento
a ela. Então está sendo necessário, ate aqui, utilizar a violência para
produzir m isturas, guerras c conquistas, m igrações de excesso de
população para colonização, comércio, exploração de riquezas minerais
ou por mero amor â aventura e às mudanças, o que ainda faz de algumas
pessoas incansáveis perseguidoras de perigos, desafiando obstáculos.
A estagnação sempre significou a morte, de maneira que aos povos
nunca foi permitido que ela fosse muito longa, e as conquistas têm
contribuído, finalmente, para adicionar riquezas de um tipo ou de outro
a ambos, o conquistador e o conquistado, e para a totalidade da vida
humana em geral.

Se a união humana - que é um fato na natureza - vier a ser


finalmente organizada, isso será feito som ente por uma educação
que aprecie devidamente tudo o que foi realizado pela cooperação
humana e que esteja preparada para afastar preconceitos com vistas ao
trabalho em comum, para o Plano Cósmico, o que também pode ser
chamado de desejo de Deus, ativamente expresso no conjunto da Sua
criação. Ouvimos muitas conversas, amplamente ineficazes, sobre a
organização do mundo, mas a palavra que deveria ser utilizada seria,
preferencialmente, “organismo”. Quando for reconhecido que o mundo
já é um organismo vivo, suas funções vitais serão menos impedidas de
operar e isso poderá, conscientemente, entrar em sua herança no dia em
que “toda a criação estiver gemendo e trabalhando arduamente junta“.

As religiões e as línguas mantêm os homens separados, enquanto


as artes, a ciência e os produtos industrializados os unem. Onde há
fixação do espírito para com uma ideia é difícil mudar, e a língua não
pode ser facilmente transmitida porque ela está encarnada. Por meio de
sua linguagem, as pessoas de um grupo ficam em sintonia umas com as
outras, entretanto, outras de fora do grupo não podem sintonizar com
elas. Isso parece um impasse que deve continuar a nos confundir, uma vez
que as linguagens regionais estão sendo revividas em todos os lugares e
defendidas com vigor feroz, e a religião mostra uma pequena tendência a
confederar-se, enquanto leva em consideração ainda haver mais perigos
em deliberadamente cultivar o espírito de irreligiosidade.

A resposta a todas as contradições está na educação correta, c os


resultados não podem ser atingidos de outra maneira, quer seja política
ou social. Isso requer a influência de coisas profundas e sagradas para
mover o espírito, e para as novas crianças da humanidade civilizada
devem ser desenvolvidos uma profunda emoção e um grande entusiasmo
pela causa sagrada da humanidade. A religião então não precisará ser
ensinada, o que verdadeiramente não pode ser feito, mas a admiração pela
verdade, interna ou externa, crescerá em liberdade natural e as barreiras
da linguagem poderão ser eliminadas antes que as forças econômicas
alinhem-se contra elas, quando uma melhor compreensão mútua dos
propósitos humanos prevalecerá.
O HOMEM, CRIADOR E REVELADOR

Reconstruções imaginárias do passado histórico dc nosso globo e


de seus habitantes tem-nos sido possíveis graças às descobertas de homens
inteligentes. Elas têm sido o resultado nào de uma inteligência comum
desassistida, mas que conta com o auxílio da ciência sistemática. O homem
culto da atualidade é superior ao homem natural, tendo poderes sensoriais
que vào muito além daqueles dados pela natureza - por meio do telescópio
c do microscópio, que estendem sua visão, c também do acúmulo dc
pesquisas de matemáticos, químicos e físicos que investigaram os segredos
da natureza por intermédio dos poderes mágicos da mente humana. Assim,
surge a magnitude do homem, um agente criativo e transformador, superior
aos animais e às plantas, explorador do mundo todo e do universo fora
dele, capaz até mesmo de voltar no tempo e explorar o que há muito já
deixou de existir.

Cada assunto dc nosso interesse c estudo pode ser relacionado


aos seres humanos que têm trabalhado, frequentem ente famintos,
para sobrepujar obstáculos para sua compreensão e para nos oferecer
conhecimento sem que tenhamos que sofrer tais pesares. Tudo é fruto
da alma humana c nós encarnamos essa frutificação na educação, esse
repositório de conhecim entos c riquezas passados às nossas mãos
pelo homem. Nós mesmos devemos sentir - e inspirar nas crianças -
admiração por todos os pioneiros, os conhecidos e os desconhecidos,
possuidores da chama que tem iluminado o caminho da humanidade.

As pessoas, em sua maioria, são lentas em interessar-se por coisas


novas; até mesmo as pessoas mais intelectualizadas fazem pequenos
progressos no mundo dos pensamentos, olhando com hostilidade para
cada ideia nova que desafie a segurança de cada um. Mentalmcntc, assim
como fisicamente, há pessoas preguiçosas, desejando apenas aproveitar a
vida. Enorme é a admiração devida àqueles que são diferentes, encorajados
por uma força interna a fazer coisas mesmo contra seu próprio bem-estar
e sua felicidade, a ponto de colocarem em risco a própria vida.

Os gregos, há mais de dois mil anos, tinham atingido grandes


marcos na arte e na literatura e eram altamente cultos para sua época.
Um grego, que era poeta, não se sentiu capaz de aceitar como verdadeiras
todas as coisas que lhe foram ditas sobre os costumes bárbaros existentes
fora da Grécia, de que os povos do Norte dormiam seis meses do ano c que
os do Extremo Sul tinham todos a cabeça raspada. Ele decidiu viajar e ver
por si mesmo se essas coisas eram verdadeiras. Ele foi avisado quanto a
inúmeros perigos, sobre gigantes devoradores de homens e também sobre
feiticeiros, assim como sobre os perigos dos oceanos desconhecidos c das
forças elementares. Mas ele persistiu; ele tinha que viajar para completar
sua vida. Ele se foi em um pequeno navio, lentamente empurrado pelos
remos e pelas velas, enquanto seus amigos imaginavam que jamais o
reveriam. Mas, depois de 17 anos, ele retornou, e seus velhos amigos,
avidamente, reuniram-se ao redor dele para fazer perguntas. Teria ele
visto um ciclope - um gigante com um único olho no meio da testa - ou
um homem que tivesse dormido por seis meses seguidos? E sobre os
centauros e as sereias? Ele respondeu que não tinha visto nada disso,
mas sim grandes maravilhas, homens muito parecidos com ele mesmo
em todos os países, comendo, dormindo e vestindo-se de maneira muito
parecida com a dele; a Babilônia era uma cidade maravilhosa, com
casas dc três pavimentos de altura c com jardins suspensos, senhoras
perfumadas e sábios filósofos; a Pérsia, onde eles cultuavam um único
deus em vez de vários, as pessoas beijavam-se umas às outras quando
se encontravam na rua e ensinavam as crianças a ler, atirar flechas e a
sempre dizer a verdade.

O viajante que havia retomado, cujo nome era Heródoto, escreveu


todas essas coisas e muitas outras em um livro para ler a seus amigos,
e agora ele é chamado “o pai da História”, pois este foi o primeiro livro
do tipo.

Alexandre, o Grande, outro grego, foi também um grande viajante,


descobrindo a Alexandria no Egito e muitas outras cidades chamadas
pelo seu nome. A Alexandria tornou-se o ponto de origem de uma grande
universidade, e seu diretor era também um descobridor, embora de um
tipo diferente. Ele queria explorar mentalmente, jogar uma nova luz
sobre a matemática e a astronomia. Por observações da sombra da Terra
na Lua durante os eclipses, ele descobriu que a Terra era redonda. Ele
dividiu um círculo em 360 partes e calculou as medidas da Terra. Ele
descobriu que quando o Sol estava diretamente em cima dc Assuã, no
mesmo meridiano da Alexandria, isso fazia um ângulo com o zénite de
sete graus, e como a distância real de Assuâ até a Alexandria através
de medição era dc cinco mil estádias, por proporção ele calculou a
circunferência ao redor da Terra. Esse grego se chamava Eratóstencs c
viveu aproximadamente no ano 200 a.C. Também no ano 200 a.C., um
egípcio chamado Ptolomeu fez um mapa com todos os países conhecidos
do mundo, mostrando nele uma grande parte da Ásia e da África, assim
como também de países mediterrâneos da Europa.

Ainda temos descobridores desse tipo entre nós. Há apenas 25


anos,' o presidente do Museu de História Natural de Nova York estava
convencido de que o deserto de Góbi, na Ásia Central, poderia produzir 1

1. Maria Montessori se refere a um fato ocorrido em 1923, já que a primeira edição desta
obra saiu em 1948. (N.R.)
valiosos resultados se fosse explorado para a localização de resquícios
dos monstros primitivos. As pessoas riram dele e pensaram que seria
perda de tempo e de trabalho, mas ele persistiu e organizou uma
expedição com o Sr. Anderson - o curador em pessoa - chefiando,
porque ele tinha anteriormente conduzido uma expedição para estudar
a vida das baleias nos mares árticos e apreciara tal pioneirismo. Com
ele foram dez homens que acreditavam em suas ideias e no projeto.
Eles chegaram a Pequim , onde com praram três carros, mas nada
encontravam além de desencorajamento: todos só os alertavam sobre os
perigos das terríveis tempestades do deserto, do calor excessivo durante
o dia e do frio à noite, da falta de assistência humana ou de conforto.
Além disso, como poderia haver resquícios de répteis anfíbios em um
platô tão elevado, distante de qualquer mar? Mas eles prosseguiram,
armados com rifles, inicialmente acompanhando outras caravanas, mas
logo deixados à própria sorte para penetrar o temeroso desconhecido
do interior do deserto. Ninguém tinha a expectativa de que aqueles
homens loucos sobreviveriam para retomar. Perseverando em meio a
dificuldades tremendas, eles começaram a cavar na areia, num aparente
desalcntador desperdício, numa extensão infindável e monótona. Por fim,
eles repentinamente chegaram a um pedaço de osso de verdade e então
começaram a dançar ao redor dele em deleite, pois essa era a prova de
que a esperança deles era justificada. Antes de retornarem, eles tinham
conseguido provas suficientes - um lugar onde os dinossauros haviam
vivido e morrido às centenas. Eles tinham solucionado o problema por
meio do descobrimento de muitos ovos, comprovando como esses répteis
propagavam a geração dos filhotes. Durante as escavações, eles chegaram
a colunas enormes, parecendo-se com os ossos dc alguns monstros
m am íferos. Então outros ossos foram encontrados, evidentem ente
pertencentes à mesma criatura, e finalmente as pernas na posição em pé,
demonstrando a morte por afogamento na areia movediça.

Assim eles tinham abundantes recursos para retornar a Nova


York e estavam bem satisfeitos, embora não tenham recebido quaisquer
recom pensas pessoais. Eles conquistaram uma vitória m oral e a
adicionaram ao conjunto do conhecimento humano, mas muitos ainda
pensavam que eles eram loucos por cavar em um deserto e regozijarem-
se por ter encontrado alguns ossos velhos.

Nós não cultivamos admiração por esses aventureiros e exploradores


do passado e do presente com o objetivo de pagá-los com a nossa gratidão,
pois eles estão além do nosso alcance; mas nós queremos ajudar a criança
a entender a parte que a humanidade tem representado e ainda tem que
representar, porque tal compreensão conduz a uma elevação da alma
e da consciência. A história tem que ser viva e dinâmica, despertando
entusiasmo, c sendo a destruidora do egoísmo intelectual c da indolência
egoística. Por dois mil anos nós temos sido ensinados: “Amareis vosso
próximo como a vós mesmos”.2 E nós estamos um pouco mais próximos
de fazer isso, pois a mera pregação não adianta nada. A elevação da mente
é geralmente ensinada por meio da poesia e da literatura, expressões da
alma humana, intangíveis c quase sem sentido para a mente da criança.
Mas a história das conquistas humanas é real, uma testemunha viva
da grandeza do homem, e as crianças podem facilmente ser trazidas
à emoção do conhecimento de que há milhões de pessoas como elas
mesmas, aspirando mental e fisicamente por resolver os problemas da
vida, e que todos contribuem para uma solução, embora somente um
possa achá-la.

No campo dos pensamentos, assim como no das eras geológicas, o


ambiente tem que ser preparado para uma mudança iminente. Quando a
preparação correta do pensamento está concluída, as descobertas podem
acontecer por meio da organização de muitas mentes nessa adequada
atmosfera psíquica. O ponto de cristalização de centenas de intelectos
está na pessoa de um homem, que expressa algo proveitoso de forma
notável ou descobre um novo conhecimento. A exceção da poesia, os
pioneiros sempre dependem do auxílio daqueles que vieram antes deles;
o presente se sustenta no passado, assim como a casa se sustenta em
sua fundação. O homem tem ido muito além da natureza no trabalho da

2. Jesus conforme Mateus, cap. XXII, v. 39. (N.R.)


criação, c cie não poderia ter feito isso a menos que tivesse aceitado c
sentido um Deus sem mãos ou pes, que apesar disso caminha através do
comprimento e da largura do universo, criado e ainda sendo trabalhado
por Ele, por meio do homem e de outros agentes.

O homem não se considera mais limitado às próprias mãos para


a realização de seus desejos, pois ele tem as máquinas. A supematureza
é agora seu conhecimento de potencialidade. Uma vida mais ampla e
mais sublime pertence a ele, como nunca antes, e as crianças devem
estar preparadas para isso, dc maneira que o princípio fundamental na
educação deve ser a correlação dc todos os assuntos e sua centralização
no Plano Cósmico.
AS GRANDES CIVILIZAÇÕES PRIMITIVAS

Foi só rcccntcmente que a pesquisa histórica passou a contar com o


auxílio da ciência, e uma consequência disso tem sido o fato dc que datas
hipotéticas referentes aos primórdios das organizações sociais têm sido
rechaçadas e não puderam ainda ser lixadas. E surpreendente achar que
em nenhum período da Antiguidade já explorado, a humanidade tenha
aparecido sem centros de civilização de um tipo rclativamente avançado,
embora os bárbaros fossem a grande maioria - c os acadêmicos têm agora
que admitir uma certa base de verdade em muitas tradições e em muitos
mitos anteriormente desprezados.

Especialmente uma alteração de cronologia torna-se necessária


com respeito às tradições orientais. A civilização tem ultimamente sido
observada como sendo principalmente um produto do Ocidente, ligada
somente superficialmente aos centros ancestrais do Oriente. Sábios
indianos têm reivindicado com consistência uma Antiguidade para seus
registros c trabalhos dc filosofia profunda, os quais têm sido utilizados
para abalar a credulidade dos acadêmicos ocidentais, mas que agora têm
encontrado comprovação suficiente para impor respeito, apesar de ainda
não totalmcnte aceitos. Um fato claramcntc estabelecido é que houve
civilizações asiáticas de tipo avançado muito anteriores à europeia, e
até mesmo à egípcia, e que ambas derivam de uma terra primitiva, um
continente perdido.

Tem sido demonstrado nos capítulos anteriores como frequentemente


a Terra passou por transfonnações, por meio de agentes naturais, para
o cumprimento de um plano. Uma dessas transformações causou uma
terrível inundação que submergiu uma região inteira sob as águas do
oceano Atlântico, cerca dc 75 mil anos a.C. O único remanescente que
restou desse continente atlantc foi uma ilha chamada Poscidonis, a qual por
sua vez afundou no décimo milênio a.C., como registrado historicamente
pelo sábio grego Solon, que tinha recebido o conhecimento dos sacerdotes
egípcios. Essas catástrofes mundiais, que tanto alteraram a face do mundo
ocidental, transformaram também partes da Ásia, submergindo a maior
parte da antiga Lanka, ao sul da índia, c emergindo o Himalaia e o platô
asiático central. Mas a vida não foi interrompida e extirpada na Ásia
como o foi em Atlântida, e civilizações sobreviveram e especialmente
prosperaram, alimentadas por correntezas de imigrantes de Atlântida que
tinham sido talvez conduzidos por presságios e por avisos sacerdotais
para fugir da terra condenada, ou tinham vindo pelo curso habitual da
colonização. Os atlantcs parecem ter sido conhecidos por constituir uma
raça aventureira c colonizadora, assim como também de riqueza e poder
imperial, c a cultura deles sobreviveu por muito tempo no Egito, no Peru
e em muitas partes da Ásia, onde ela pode ser claramente distinguida da
raça subsequente dos ários.

As pessoas que vieram para ocupar as terras pantanosas da Europa


assim que estas estavam suficientemente secas para a habitação chegaram
em ondas sucessivas provenientes da Ásia Central, algum as pelo
Cáucaso e pela costa mediterrânea, e outras por uma rota mais ao norte,
tendo deixado sua terra natal ariana provavelmente porque ela estava
se tomando completamente seca em uma extensão desconfortável, por
volta do ano de 20.000 a.C., pois se imagina que o deserto de Góbi ocupe
agora aquela parte da superfície da Terra. Aqueles que não migraram
para a Europa ou para a África fizeram uma viagem penosa pelo Sul
cm direção à Pérsia c a índia, transformando aquela terra na Aryavarta,
conforme eles iam gradualmente penetrando ou conquistando os estados
de Atlantes existentes por lá. povoados de gente rica e sofisticada, de
uma civilização infértil e de alguns maus hábitos - os Rakshasas dos
antigos contos indianos.

Assim, a índia tomou-se uma grande conexão entre a civilização


mais antiga e a mais recente, criando um certo incômodo decorrente
de algumas diferenças irreconciliáveis, mas desenvolvendo uma rara
tolerância c uma estrutura de coesão social por meio de seus grandes
líderes, filósofos e santos. Os acadêmicos ainda não podem concordar
justamente quanto á parte em que o divino Sri Krishna dirigiu a carruagem
de Arjuna no campo de Hurukshetra, ou quando o perfeito rei Rama
lutou com Ravana para recuperar sua bela esposa Sita, mas poucos agora
negam a esses fatos um lugar na história.

Mais com pletam ente atestados estão os registros de Lorde


G a u ta n a - o Buda cujos seguidores religiosos representam um
grande número entre as crenças, assim como dos filósofos hindus Sri
Sankaracharya e Sri Ramanujacharya, que talvez tenham feito tanto
quanto ele para estabelecer para a civilização indiana uma ideia espiritual
central da qual nenhuma outra nação tem-se aproximado. A índia esteve
isolada por muitos anos de contatos externos saudáveis com outros povos
ários, até que, séculos mais tarde, conquistadores e comerciantes se
assentaram em suas fronteiras, trazendo-lhes benefícios bem como a si
mesmos - os muçulmanos adicionando suas culturas para enriquecer o
padrão nacional de vida e fornecendo uma de suas mais sábias autoridades
na pessoa do Imperador Mongol Akbar. O domínio inglês desde então tem
trazido as correntes provenientes do pensamento moderno do Ocidente
e agitado a atividade política.1

1. Maria Montessori se refere ao período até 1947 em que a índia esteve sob o domínio
inglês. (N.R.)
No mundo antigo, o lugar das universidades era ocupado pelas
instituições religiosas chamadas de “mistérios” - nas quais homens de
grande intelecto procuravam ser admitidos que tinham, verdadeiramente,
filiais internacionais. As maiores delas estavam na índia, na Babilônia
e no Egito - o antigo mistério grego de Elêusis - e tinham ramificações
em outros locais. O centro original era tradicionalmente a Atlântida, em
sua época dourada de esplendor e sabedoria, e os druidas da Britânia e
da Gália também obtinham seus conhecimentos dessa mesma fonte. O
grande sábio grego Pitágoras viajou para a Babilônia e para a índia para
aprender a sabedoria com os magos e brâmanes.

Outro centro asiático de civilização dos tempos remotos é a grande


nação da China - ou Catai agora novamente sendo regenerada, depois
de muitos anos de conflitos da alma em agonia e chamando mais e mais
a atenção dos académicos pelos seus segredos da juventude eterna e da
beleza. Até hoje houve pouca pesquisa arqueológica na China, de modo
que não é possível fixar a data do início dessa civilização. Contudo, o
país abrigou um tipo avançado de cultura, uma vez que nada similar
era do conhecimento de outros povos. Sua falha é atribuída ao tato de
que os chineses estavam tão satisfeitos com sua própria perfeição de
desenvolvimento evolutivo que se isolaram, perigosamente, dos contatos
externos - tão fatal para o percurso humano quanto nós temos observado
ser para as espécies animais.

O povo da China, os turanianos e os mongóis, igualmente, são


imaginados como sendo provenientes da descendência de Atlantes, e
alguns os ligam com os akkades da Ásia ocidental, desalojados pelos
semitas das terras da Mesopotâmia. Ninguém sabe especificar quando
os chineses desenvolveram a arte da impressão, nem invenções como a
bússola, que veio a ser conhecida pelos europeus por meio deles, porém
séculos mais tarde. Seu grande sábio, Lao-Tse, foi o fundador do taoísmo
e foi contemporâneo de Buda, cuja religião foi difundida também na
China, para se harmonizar e misturar a ela. Mas a cultura e as maneiras
dos chineses relacionam-se mais ao sábio Confúcio, também nascido
no século VI a.C., que escreveu o carro-chefe dos clássicos chineses e
ainda é venerado por todos.
Um viajante vcneziano chamado Marco Polo tornou conhecidos na
Europa do século XIII as riquezas e o poder do império da Antiguidade e,
desde então, muitos produtos de consumo e invenções têm sido copiados,
incluindo a impressão, os processos de produção da seda, a seleção dos
chás e a pólvora. Suas portas têm tido que ser forçadas para ser abertas ao
comércio e, apesar de enfrentar muitas vicissitudes, a civilização chinesa
tem conseguido preservar sua integridade espiritual.
O EGITO ATRAVÉS DAS ERAS

A civ ilização egípcia parece ter florescido - com alguns


períodos de completa escuridão - da era paleolítica aos dias atuais e ter
influenciado, por meio dos gregos, a maior parte da cultura europeia. Por
sua posição central e pela riqueza de seus recursos naturais decorrente,
sobretudo, da generosidade de seus rios - , o Egito serviu de ponto de
partida para a disseminação da civilização, com a vantagem adicional
dc ter herdado muitos conhecimentos de ciências c artes provenientes
dos povos primitivos do continente perdido. Os egípcios também tinham
uma genialidade para a colonização, sendo capazes de transferir seu
meio ambiente; eles tinham mentes criativas, capazes de inventar o que
os outros poderiam copiar.

Uma descoberta de tremenda importância para a humanidade


foi feita no Egito, como sempre sendo o resultado de uma série de
descobertas parciais que conduziram a uma ideia final. A inundação
sazonal do Nilo deixou o solo sempre rico e fez germinar a vegetação
cm seu rastro, e o pensamento parece ter ocorrido a algum fazendeiro
de cavar canais para a futura condução das revigorantes correntezas.
Assim, a irrigação passou a ser praticada c foi copiada pelos povos que
viviam cm bacias fluviais similares, especialmente na Mesopotâmia.
Outra descoberta egípcia de grande im portância foi o cobre. Uma
substância verde era depositada nas margens do Nilo, sempre que a
água se movimentasse como um redemoinho em poças estagnadas com
muitas algas boiando no assentamento da água da enchente. Os egípcios
supervalorizavam a cor verde, a qual era por eles observada como
revigorante, chegando até mesmo a pintar seus rostos de verde para ajudar
a ter vida longa. Encontrando, então, essa malaquita verde, eles cavaram
a terra para misturá-la à gordura para a elaboração de uma pomada para a
pele, e tentaram aquecê-la no fogo para que a mistura pudesse ser melhor.
A gordura queimou e restou uma camada dura, que era o cobre. Essa
nova substância começou a ser utilizada para a fabricação de dinheiro,
potes c ornamentos que eram produzidos cm grandes quantidades.
Vasos esculpidos em cobre eram muito caros, mas eram inquebráveis e
por isso tinham uma grande demanda. Assim a mineração foi iniciada
para a obtenção de mais malaquita. Também o latão logo foi utilizado,
com instrumentos musicais sendo feitos de latão e cordas. Os egípcios
eram mestres nas habilidades manuais, insuperáveis em sua técnica, e
amavam seu trabalho. Até as camas eram muito mais bonitas do que as
que temos hoje em dia; elas tinham pés maravilhosamente entalhados
para dar a aparência de animais e tinham degraus ornamentados para
que se pudesse subir nelas, mas somente um duro apoio de cabeça feito
de madeira servia como travesseiro. Isso era assim no ano de 4000 a.C.,
c as mesas, as cadeiras e os espelhos também eram de maravilhosa
beleza. As colheres eram de marfim incrustado c as mulheres usavam
pentes ornamentais nos cabelos. Assim a alma egípcia cxprcssava-sc na
beleza. Eles tinham por costume enterrar os ornamentos e instrumentos
musicais com os cadáveres nas tumbas, além de também incluírem os
utensílios agrícolas c as estátuas de escravos, que imaginavam poder,
magicamente, tornarem-se vivos novamente na terra dos mortos, para
assim serem capazes de cultivar outra vez as terras do seu senhor, da
mesma forma como haviam feito no mundo dos vivos. Corpos mortos
eram levados pelo Nilo em procissões de três barcos. Um carregava os
sacerdotes c os parentes, com o sarcófago ou caixão; o segundo levava
carpideiras profissionais, cuja presença era obrigatória para os ritos; no
terceiro barco havia comida e todos os objetos preciosos para serem
sepultados com o morto para sua posterior utilização. Na chegada ao
outro lado do rio, o caixão era levado para a tumba por touros ou bois,
que eram sacrificados durante os ritos. Muitos registros de escritos
sagrados foram descobertos nas paredes das tumbas. Mais tarde seriam
escritos em rolos de papiros, que foram reunidos no Livro dos Mortos,
e que os acadêmicos têm conseguido decifrar. Esse culto ao morto tem
sido de grande valia para a história, mas sua ideia original não tinha esse
propósito, assim como as plantas também não pretendiam ser enterradas
para nos fornecer o carvão.

Para o cmbalsamamento de seus mortos, os egípcios precisavam


de muitas ervas c especiarias raras, além dc pedras preciosas e metais
para o trabalho ornamental, e utilizavam dois tipos dc barco, um para
o Nilo e outro para o mar, com velas lindamente decoradas. Nesses
barcos eles navegavam ao longo da costa do Mediterrâneo e do mar
Vermelho e desciam a costa leste da África até a Somália; então eles
penetravam o Golfo Pérsico com destino à Síria e para além, sendo
também familiarizados com as ilhas do mar Egeu e da Ásia Menor.

Os sumérios eram colonizadores das costas do Golfo Pérsico, c


uma lenda conta que um grande peixe veio a cies trazendo-lhes pequenos
deuses que lhes ensinaram muitas maravilhas e tornaram a partir dentro
do corpo do peixe. Esses povos sumérios também desenvolveram uma
magnífica civilização, talvez auxiliados pelos egípcios. Há alguns anos,
grandes descobertas arqueológicas foram feitas em Mohen-jo-Daro, ao
noroeste da índia, e lá foram encontrados resquícios dos sumérios.

Os egípcios pagavam a outros homens para que lutassem por


eles c faziam com que escravos trabalhassem para eles - dc maneira
que o progresso da civilização nem sempre envolve bondade moral.
As pirâmides e outros monumentos fabulosos foram construídos por
escravos, sob o jugo de cruéis capatazes. Um grande faraó, que foi um
reformador religioso, surgiu querendo purificar c simplificar o culto,
dizendo que o mais importante dever do homem era viver na verdade
e buscar a verdade. Os sacerdotes opuseram -se fortem ente a ele,
reivindicando que fosse substituído, e ele foi destronado, mas o Egito
não estava mais unido e inieiou-se o seu declínio.

As religiões da Antiguidade não podem mais ser negligenciadas


ou desprezadas quando do estudo da história, porque elas são uma parte
importante da psicologia humana. A maioria dos homens primitivos
possuía sensibilidade religiosa, o que os fazia capazes de ver espíritos
nos vivos c nos mortos, nas árvores, no Sol e nas estrelas. Eles os viam
com os olhos da imaginação, com os quais somos capazes de penetrar os
mistérios existentes na natureza. O homem não pode funcionar sem sua
religião, a qual tem-se adaptado a cada estágio de seu desenvolvimento.
Houve muitas divindades no Egito e muitos mistérios envolvendo-as,
com o chefe supremo de todas elas sendo o Sol, que criou o mundo e o
homem, deixando-os aos cuidados do faraó, seu filho. O Sol era chamado
de Amon-Rá, e nenhum outro se igualava a ele, embora muitos fossem
os deuses de menor valor. Fábulas maravilhosas foram contadas sobre
ísis e Osíris, os deuses encarnados que governaram o Egito. Osíris fora
traído e morto pelos inimigos, e ísis, depois de procurar, durante muito
tempo, por seu corpo desmembrado, finalmente o recuperara. Então
Osíris tornara-se o governante dos mortos, enquanto ísis c seu filho
Hórus haviam passado a governar a Terra. O homem vivia na Terra sob
o olho de Amon-Rá e quando morria ia para Osíris para ser julgado, com
o coração sendo pesado em uma balança cuja medida era a verdade. Os
supersticiosos enchiam o coração do homem morto com chumbo, a fim
de tentarem enganar Osíris na hora do julgamento.

Nenhuma explicação compreensível sobre a história do Egito pode


ser dada aqui, mas apenas um guia para um estudo necessário. A filosofia
da história moderna jaz na ênfase do encontro e da mistura dos povos,
dos grupos com tendência a fundirem-se em grupos maiores, com as
nações finalmente começando a organizar a unidade da humanidade. A
miscigenação tem sido sempre um processo lento, e a civilização é seu
produto. Os professores deveriam estudar a origem, a posição geográfica
e o crescimento de cada grupo, seus movimentos e relações com os
outros, obtendo a história de vida de todo o povo em vez de somente
a dos indivíduos; tais fatos podem ser mostrados às crianças de uma
maneira agradável.
A VIDA NA BABILÔNIA E SUAS RELAÇÕES COM TIRO

A terra regada pelos dois rios, o Eufrates e o Tigre, agora chamada


de Mesopotâmia, tem sido o cenário de uma civilização quase tão antiga
quanto a do Egito. Elas foram por muito tempo contemporâneas e rivais,
mas a Babilônia tinha a mais variada ocupação, frequentemente caindo
diante dos conquistadores, e os arqueólogos tem encontrado nas areias
resquícios de cidades queimadas, como Níncvc, uma adjacente c mais
antiga capital da Babilônia. Os impérios dc Caldeia, Assíria, Babilônia
e Pérsia mantiveram o poder lá, um após o outro, dentro do espaço de
mil anos a.C., em virtude de suas fronteiras não serem bem protegidas
pela natureza.

Rawlinson,1 em sua História da Babilônia, descreve a grande


cidade como ela deve ter sido nos dias do Rei Nabucodonosor, familiar

1. Sir Henry Creswicke Rawlinson (1810-1895), inglês, diplomata, estudou a escrita


cunciforme por ocasião dc uma missão dc reorganização do exército do xá, na Pérsia.
Decifrou as inscrições do Beístum, de Dario 1. rei persa (521-486 a.C.), obra publicada
em 1851. Rawlinson foi chamado de “pai da assiriologia”, pois foi quem revelou a
civilização mesopotâmica. (N.R.)
aos cristãos por meio das páginas da Bíblia. Ela cra cheia dc pessoas
provenientes de todas as partes conhecidas do mundo - os dominantes
semitas, com suas longas barbas e suas túnicas esvoaçantes; os sumérios,
bem barbeados com saias plissadas curtas. Esses sumérios, membros de
uma civilização primitiva que tinha sido subjugada, haviam conseguido
manter o respeito de seus conquistadores semitas graças aos conhecimentos
que possuíam. Muitos vinham consultar seus sábios, os quais eram
profetas e astrólogos. Os templos eram os centros da vida da cidade e
os sacerdotes eram ricos e poderosos.

Havia muito menos beleza arquitetônica do que no Egito, com


ruas apertadas e construções feitas com um tijolo feio da cor da argila. O
latão era utilizado e a cerâmica não era altamente artística. Havia muitos
canais, feitos por Hamurábi, o legendário fundador, que deixou para
seu povo sábias leis, dando proteção especial às mulheres e aos pobres.
Essas leis e outras escrituras foram encontradas escritas em tijolos, os
quais eram utilizados como livros. Um instrumento pontiagudo pode
ter sido utilizado para rabiscar caracteres na argila macia do tijolo, que
deveriam então ser queimados ao Sol para endurecer e preservar a escrita.
Milhares desses volumes foram desenterrados. Nabucodonosor tinha uma
biblioteca cheia deles em seu palácio.

Os babilônios eram um povo pacífico; com a mesma facilidade com


que fugiam do exercito dc um conquistador, retornavam para reconstruir
seus lares. Nessa ocasião havia cerca de sete milhões de habitantes e a
cidade era confinada por um muro com 120 metros de altura, grosso o
suficiente para um grupo de quatro cavalos ser conduzido, lado a lado,
ao longo de seu topo. Esse muro tinha 80 mil metros de comprimento
e 100 portões, o mais bonito sendo dedicado a Ishtar, deusa do Amor
e da Guerra. Esse portão tinha seis torres de bronze e ouro incrustado
com esmalte.

Uma avenida maravilhosa conduzia do Palácio do Rei ao Templo


de Merodach; ela era alinhada cm um dos lados com grandes estátuas de
touros e leões, moldados em metal e esmaltados. Essas estátuas podem
agora ser vistas no Museu Britânico. O Leão e o Touro são dois signos
do zodíaco, também representando a constelação estelar de Leo (Leão)
c Taurus (Touro). Todas as religiões da Antiguidade mantinham esses
símbolos em grande reverência.

A Babilônia negociava não somente com o Egito, mas também com


a cidade fenícia de Tiro, um Estado marítimo cujo povo fazia negócios
por toda a costa da Europa e da África, chegando até mesmo às ilhas
britânicas. Uma fina descrição do esplendor de Tiro é dada pelo profeta
judeu Ezequiel, na Bíblia; sua leitura nos possibilitará imaginar com
clareza como o povo viveu na Babilônia c no Egito, assim como também
cm Tiro e cm suas colônias. Ezequiel profetiza uma grande vitória dc
Nabucodonosor da Babilônia sobre Tiro:

Tu, filho do homem, entoa uma elegia sobre Tiro, a cidade instalada às
margens do mar, que domina o comercio entre os povos, nas numerosas
ilhas: Assim fala o Senhor Javc:
Dizias, ó Tiro: “Eu sou um navio da perfeita beleza".
Teu império estendia-se pelo mar. teus construtores tornaram-te
maravilhosa na beleza.
De cipreste de Senir fizeram tuas quilhas.
Do cedro-do-líbano fabricaram teu mastro;
Dos carvalhos de Bassan, os teus remos;
Teus bancos, de marfim incrustado em cedro das Ilhas dc Cetim.
Tuas velas, dc lindo bordado do Egito, para scrvir-tc dc estandarte.
Jacinto e púrpura das ilhas de Elisa formaram teu toldo.
Os habitantes de Sidon e Arvad eram teus remeiros.
E teus sábios, 6 Tiro, estavam a bordo como marinheiros.

Társis, tua fornecedora, atraída pelo vulto de tuas riquezas, fornecia prata,
ferro, estanho c chumbo cm troca dc tuas mercadorias. Javan, Tubal e
Mcsec negociavam contigo: escravos e utensílios de bronze cm troca de
tuas mercadorias. De Bet-Togarma recebias cavalos de traçào, corcéis e
muares em troca de tuas mercadorias. Traficavas com os habitantes de
Dedan, e inúmeras ilhas eram tuas fornecedoras. Marfim das defesas do
elefante e ébano te serviam de paga. Edom era teu cliente, em vista dos
teus produtos; pelas tuas mercadorias davam-te turquesas, púrpura, linho,
corais e rubis. Também Judá e a terra de Israel negociavam contigo: em
troca de tuas mercadorias te forneciam o trigo de Minit, cera. mel, azeite
e bálsamo. Damasco negociava contigo, graças à quantidade de teus
produtos c de tuas riquezas, dando-te vinho de I lelbon c là de Saar. Dan
e Javan, desde Uzal, te proviam de ferro manufaturado, canela e cana
aromática, em troca de tuas mercadorias. Dedan negociava contigo com
estofos para cobertura de selas. A Arábia e todos os príncipes de Cedar
negociavam com cordeiros, carneiros e bodes. Os negociantes de Sabá
e de Ramá permutavam contigo as melhores qualidades de bálsamos,
todas as pedras preciosas e ouro.

***

Faziam comércio de vestes de luxo, mantos de púrpura, tecidos


multicores, tapetes coloridos, cordas bem traçadas resistentes, em troca
de tuas mercadorias.
Os navios de Társis eram tuas caravanas mercantis.
Eras rica e gloriosa
No coração dos mares.
Foste levada ao mar alto
Pelos teus remadores;
O vento do Oriente te fez naufragar
No seio dos mares.

Tal é a descrição do poeta da rica Tiro, destinada à humilhação pela


ainda mais poderosa Babilônia, então alcançando o poder mundial. Mas
outro poeta judeu, chamado Jeremias, foi quase que ao mesmo tempo
denunciando a perversidade da Babilônia e profetizando sua maldição:

Babilônia era taça de ouro nas mãos de Javé:


serviu para inebriar toda a terra.
As nações beberam de seu vinho.
Por isso ficaram alucinados.
De repente Babilônia caiu e foi destruída, gemei por ela.
Buscai bálsamo para sua ferida, para ver se cura...
... Afiai as setas! Enchei as aljavas!
Javé excitou o espírito dos reis da Média.
Projeta destruir Babilônia.

Em outras passagens da Bíblia podem ser encontradas a história


da maldição da loucura de Nabucodonosor e o banquete fatal de seu
filho, quando os dedos de uma mão aparecem escrevendo na parede
que o reino estava para ser tomado dele naquela mesma noite. Assim,
realmente aconteceu um ataque surpresa à Babilônia e o império passou
para Dario da Média e Ciro da Pérsia.

Os medos c os persas eram povos mais austeros, virtuosos c de


menos civilização, por terem, não havia muito tempo, emergido dos
hábitos nômades; eles eram destinados a passar a tocha da civilização
aos gregos no tempo apropriado.
DIGNIDADE E DESFAÇATEZ

Dc acordo com o ponto dc vista cósmico, as misturas dc civilizações


são ocasionadas para a obtenção de resultados desejados, assim como
na arte culinária. Ingredientes diferentes são preparados separadamente,
manipulados com cuidado e pacientemente deixados, talvez para ferver
em fogo brando ató que o ponto desejado seja atingido, antes de serem
acrescentados ao prato onde o sabor adicional é necessário. Assim
também no período egípcio os eventos foram poucos c aconteceram
lentamente, com a civilização se espalhando pacificamente e muitas
coisas sendo desenvolvidas gradualmente. A civilização da Babilônia
então foi adicionada a ela como um tipo de molho, tendo ela mesma sido
bem temperada com muitos ingredientes anteriores, assim também com
algumas pitadas de hititas e de cíticos. Acrescentaram-se os medos, mais
os persas e aconteceu a transformação de tudo isso em um prato. Uma
mudança química parece ter ocupado o lugar da mistura e algo uniforme
e novo foi criado - algo que não estava previamente lá.

O império de Dario era muito rico e maravilhoso, com palácios


em Susã, Persépolis e Tebas, todos de igual esplendor, como se houvesse
muitas capitais. Os medos tinham sido montanheses e os persas vinham
da mesma origem, povos nômades como os cíticos c os hititas, os quais,
guiados por grandes líderes, repentinamente desenvolveram uma força
devastadora e receberam os despojos da vitória. Eles tinham um grande
amor pela verdade e uma reverência especial às leis; não por acaso, as leis
dos medos e persas ficaram famosas por ser invioláveis. Ciro conquistou
não somente a Babilônia, mas o Egito também, estabelecendo influência
sobre todos os países menores. Dario consolidou o império, indicando os
sátapras, ou governadores, para governar em seu nome e administrar com
justiça. Ele construiu boas estradas ligando a índia à Grécia. Dario era
muito generoso e libertou os judeus que encontrou cativos na Babilônia,
para que pudessem voltar a Jerusalém e reconstruir seus templos, os quais
haviam sido destruídos por Nabucodonosor.

A cama do rei em Persépolis era maravilhosamente bela; sua


pérgola era coberta com uma videira onde as folhas e os frutos eram
talhados em ouro. Possuidor de uma guarda composta por dez mil
homens, ele conduziu uma campanha contra os cíticos que viviam nas
montanhas entre o Cáspio e o mar Negro, cuja força e cuja ferocidade
eram fabulosas. Dario não acreditava no que era falado sobre esses
gigantes: dizia-se que eles tinham somente um olho e pés de cabra que
os ajudavam a escalar as montanhas. Então, invadiu o país deles c o
ocupou por quatro anos, obrigando os cíticos a migrar para as estepes do
Norte c do Oeste. Muitas inscrições em rocha tem sido encontradas em
locais diferentes, celebrando os grandes feitos de Dario, o Rei dos Reis,
como a que foi encontrada por Rawlinson numa base rochosa de 1.200
metros de altitude, em um país montanhoso pelo qual cie passou durante
sua viagem para a índia cm 1828. Até mesmo esse poderoso império de
Dario logo desmoronou, pois seus próprios bravos medos e persas eram
insuficientes para juntos guardar um império tão vasto, dependendo, para
sua defesa, de homens errantes e heterogêneos.

Dario, o Rei dos Reis, cujos decretos foram espalhados pelos


quatro cantos do mundo para obediência imediata, foi um dia informado
de um incidente ridículo. Um pequeno vilarejo em uma ilha da Grécia
rcbclara-sc contra sua autoridade, tendo sido ajudado por algumas pessoas
chamadas atenienses - vermes miseráveis que viviam do outro lado
do mar Egeu! Era quase inacreditável que eles pudessem ousar tanto,
e o poderoso Dario não levou o fato a sério, pedindo a seus cortesãos
apenas que o lembrassem frequentemente do nome de Atenas - afinal,
aquela cidade presunçosa não poderia ficar sem punição, apesar das
preocupações do Rei com assuntos muito mais importantes.

Quem eram esses gregos das ilhas e quem eram esses atenienses
inconsequentes que tinham enfrentado a cólera do Rei cm uma disputa
que não era deles?

A mais antiga descrição dos gregos, ou helénicos, é dada em


dois longos poemas épicos - Ilíada e Odisseia - , ambos atribuídos a
um poeta cego chamado Homero. Ilíada conta a história de uma longa
guerra entre a confederação dos príncipes da Grécia e o rei de Troia, cujo
filho havia roubado a linda Helena, esposa de um líder grego. Gregos
e troianos eram de raças parecidas e vinham dos cáucasos, que haviam
colonizado lados diferentes do Helesponto,1 Troia (ou Ilium) sendo o
estado mais velho. Troia foi finalmente tomada e destruída, e os gregos,
vitoriosos, navegaram para casa, deparando com muitas aventuras e
muitos perigos pelo caminho, contados em Odisseia, a fábula das viagens
de Odisseu - homem de astúcia e perspicácia, que auxiliou muito seus
amigos a trazer a vitória, mas que acabou atraindo a cólera dos deuses
em decorrência de seus engodos. Então, ele naufragou c teve que sofrer
muito antes que pudesse retornar para sua esposa. Entre outros que o
auxiliaram estava o rei Minos, de Creta, e muito é contado sobre esse
centro de civilização. Creta era chamada de “Estrela dos mares”, e a
partir dela foi que primeiro se espalhou uma nova civilização para o
Oeste, diferente daquela do Egito e da Ásia. Os comerciantes cretenses
negociavam com a Espanha, e certos bailarinos espanhóis ainda usam
uma vestimenta derivada de Creta durante o período de Minos, antes que

1. Helesponto antiga denominação do estreito de Dardanelos. (N.R.)


o palácio labiríntico fosse destruído por volta de 1500 a.C. Há não muito
tempo, Sir Arthur Evans2 trouxe à tona o maravilhoso palácio cretense,
com galerias e tudo o mais dentro de uma única construção, realmente
como um labirinto, e mostrando traços de ter sido deixado às pressas,
provavelmente quando os inimigos destruíram a cidade. Diz-se que os
cretenses teriam migrado para Toscana, levando com eles sua arte para
a posterior fama dessa região.

Troia também foi descoberta pelo arqueólogo Heinrich Schliemann,


que inicialmente se surpreendeu por ter desenterrado uma cidade que não
correspondia à descrição feita cm Ilíada. Não menos do que seis cidades
foram então encontradas enterradas uma sobre a outra, sendo uma delas
exatamente como a descrita por Iíomero.

Foram os descendentes desses gregos que no século V a.C. fizeram


cair sobre si a cólera de Dario, especialmente os homens de Atenas, uma
das cidades-país separadas de Hélade. No tempo devido, o rei despachou
um de seus melhores generais com uma tropa punitiva para subjugar
Atenas e seus amigos c trazer seus líderes capturados para Persépolis. Mas
o resultado foi um grande choque para o orgulho persa, pois o impossível
havia ocorrido o rato havia conquistado o elefante! O ultrajado monarca
estava preparado para ir, em pessoa, vingar-se do insulto, mas a morte
o impediu c seu filho Xerxcs era um homem inferior. Entretanto, para
executar o plano de seu pai, Xerxcs preparou uma enorme tropa de 200
mil homens, para combater cinco mil atenienses, e enviou uma esquadra
formidável de navios, fantástica em beleza e enorme em tamanho. Ele
tinha uma ponte de barcos ancorados de lado a lado do Helesponto, que
seu exército poderia cruzar sem ter que molhar os pés, e havia um trono
preparado para ele na vertente de um monte de onde poderia assistir ao
triunfo de seu exercito.

Atenas, agora em grande perigo, enviou uma mensagem para


outros estados gregos, pedindo ajuda para que pudessem salvar juntos

2. Arqueólogo inglês (1851-1941), que desenvolveu grandes e importantes pesquisas,


sobretudo no norte da Europa.
a terra natal comum c suas liberdades. Esparta enviou 300 homens para
guarnecer a passagem do estreito de Termópilas e eles mantiveram
a tropa persa lá por três dias, somente um homem tendo retornado a
Esparta. Os persas, entào, arrastaram-se para incendiar Atenas, mas isso
foi uma vitória estéril, pois os líderes de Atenas haviam abandonado sua
cidade para se refugiarem na proa de seus navios. No estreito do Golfo
de Atenas os grandes navios persas estavam em desvantagem e Xerxes
teve a mortificação de ver sua frota magnífica completamente abatida
na Batalha da Maratona, sendo derrotada e escorraçada em desordem.

A guerra entre gregos e persas era para durar por muitos c longos
anos, com destinos variáveis, pois os gregos não poderiam manter para
sempre seu alto grau de heroísmo ou fortalecer em paz os laços de união
que eles tinham formado na hora do perigo. No entanto, a tocha da vida
estava agora com cies c sua civilização cresceu enquanto a persa declinou,
até que, 200 anos depois, ocorreria o retorno dos gregos para invadir e
queimar Persépolis. A civilização tinha passado da Ásia para a Europa.

Os gregos tinham um novo ideal político - aquele referente à


liberdade. Eles achavam monstruoso que um homem devesse governar
e todos os outros devessem obedecer. As leis deveriam ser feitas por
meio da concordância geral e então deveriam ser respeitadas. Os gregos
possuíam forte autoestim a e, quando unidos, eram invencíveis, ao
contrário dos exércitos persas, que eram compostos de homens recrutados
de muitos povos subalternos, oprimidos por tiranos. Os gregos também
eram diferenciados por sua inteligência, seu amor à literatura, ao drama
e à arte. Eles se preocupavam supremamente com a beleza física e com
a saúde, organizando competições de atletismo.
O ESPÍRITO HELÉNICO - CRIADOR DA EUROPA

Os atenienses reconstruiram sua cidade e seus templos, gastando


cm abundância sua fortuna e suas habilidades artísticas em nobre
arquitetura e dignidade cívica, preocupando-se o mínimo com o esplendor
pessoal. Palas Atena, deusa virgem de sabedoria e protetora de sua cidade,
era o seu ideal de perfeição, e o escultor Fídias foi encarregado de criar
em marfim c ouro uma estátua para expressar sua beleza perfeita. Fídias,
juntamente com Praxítclcs c seus alunos, encheu a cidade de estátuas
maravilhosas, ainda tomando a deusa como padrão de perfeição para as
dimensões da forma humana e suas proporções. Os gregos observavam
a beleza física como um aspecto moral, e o cultivo da saúde do corpo
humano era para eles uma obrigação para com os deuses. Jogos de
atletismo eram organizados como parte das festividades religiosas, e uma
coroa de louros era o prêmio nas competições de força e de habilidade,
sendo tão ou mais valorizada do que se fosse feita de ouro.

Atenas assumiu o comando na liberdade de pensamento. Um sábio


homem chamado Sócrates, líder de um círculo intelectual, misturou-se
aos cidadãos, abordando questões capciosas, por exemplo, perguntando-
lhes como uma estátua feita de marfim e ouro poderia proteger a cidade
do perigo c como eles acreditavam tão facilmente nas palavras que
lhes eram ditas pelos sacerdotes, cm vez de pensarem por si mesmos.
Depois de algum tempo, a Câmara Municipal resolveu agir, e Sócrates
foi levado a julgamento como sendo um corruptor de jovens. Após um
longo julgamento, os votos de seus inimigos prevaleceram e ele foi
condenado à morte por envenenamento, sendo obrigado a beber cicuta.
Tantos foram os que ficaram horrorizados com a ideia da execução de um
homem tão sábio que Sócrates foi particularmente avisado dc que a ele
seria permitido escapar de Atenas, mas ele se recusou a fugir, dizendo que
Atenas tinha o direito de exigir sua vida e que não iria ofender suas leis
esquivando-se delas. Passou, então, seus últimos dias discutindo questões
filosóficas com seus amigos, e bebeu calmamente o veneno quando este
lhe foi trazido pelo guarda que chorava. A uma pergunta sobre onde
gostaria dc ser enterrado, com humor Sócrates respondeu dizendo que
eles teriam que agarrá-lo primeiro, antes que pudessem enterrá-lo, mas
que eles poderiam fazer o que quisessem com seu corpo.

E assim o senso crítico foi estimulado, e uma sede por novos


conhecimentos continuou com Platão, um dos maiores filósofos, por
Eratóstenes, que foi quem revelou que a Terra era uma esfera, e ainda
por Aristóteles, que pesquisou e realizou experiências sobre a ciência
natural. Eles foram grandes educadores, cujos métodos nós devemos
seguir hoje cm dia; eles acenderam em alguns uma chama, que foi por
estes espalhada para muitos. Ocorria também em Atenas, e em outras
cidades gregas de menor extensão, o nascimento de uma grande literatura
c do teatro; as peças de Esquilo e Eurípedes foram modelos para o drama
shakespcariano, c a poesia e a literatura gregas foram copiadas pelos
escritores latinos, influenciando toda a Europa. Um grande inventor foi
Arquimedes, que, analisando por que razão era sustentado pela água
quando nadava, descobriu os princípios básicos sobre o peso na água,
utilizando-se dos olhos da imaginação. Ele também utilizou espelhos
para focar os raios do Sol em uma frota romana hostil de fora de
Siracusa, assim causando um incêndio que invadiu os barcos do inimigo.
Arquimedes era um grande matemático e estava estudando os triângulos
quando os soldados romanos invadiram seus aposentos e o mataram.
O reino da Maccdônia, que era considerado pelos gregos apenas
meio helénico, atingiu um grande poder, comandado por um rei chamado
Felipe, que teve sucesso na união dos estados gregos sob sua hegemonia,
emocionando-os com a ideia de realizar uma invasão à Pérsia, uma
antiga inimiga. O poder persa nas fronteiras da Grécia ainda significava
uma ameaça, principalmente porque os helenos estavam enfraquecidos
em decorrência das exaustivas guerras entre Atenas e Esparta, nas quais
outros estados gregos também tomaram parte para a ruína de todos. A
invasão macedônica foi o resultado, e o rei Felipe tinha reivindicado
origem puramente grega para si e tido a sabedoria de colocar seu jovem
filho, Alexandre, sob a tutela do filósofo Aristóteles. Os gregos, então,
chegaram a um acordo com Felipe: lutariam, liderados por ele, contra a
Pérsia, desde que ele não os roubasse a livre cidadania c a independência
dc cada um dentro dc sua própria cidade, com o que Felipe concordou.

F elip e da M accdônia era um grande com andante, tendo


desenvolvido novas artes de guerra, como, por exemplo, a utilização
das invencíveis linhas de batalha da infantaria. Ele também desenvolveu
técnicas de cavalaria usadas ainda hoje, homem e cavalo tornando-se
duplamente fortes quando em perfeita união e disciplina. O jovem
príncipe, Alexandre, quando contava com apenas 12 anos, estava certa
vez assistindo ao treinamento desses cavalos quando teve uma explosão
dc riso, caçoando dos treinadores quando viu que um cavalo feroz não
permitiria que nenhum deles o montasse. Os treinadores sentiram-se
ofendidos pelos insultos da criança. O rei Felipe, reprovando a atitude
do filho, explicou-lhe que para domar um cavalo de espírito intrépido
era necessário muito tempo, mas o príncipe replicou dizendo que ele
poderia faze-lo com uma única tentativa. Para curá-lo dc se gabar, o rei
ordenou que o deixassem tentar. “Deixem-no aprender a lição", disse
ele. De qualquer forma todos estavam alarmados. Mas Alexandre foi até
onde estava o cavalo selvagem, tomou suas rédeas e rapidamente virou
sua cabeça para outra direção. Imediatamente o cavalo tornou-se quieto
e permitiu ao garoto que o montasse. Todos pensaram ser mágica, mas
o garoto explicou que o cavalo tinha meramente ficado assustado com
sua própria sombra e assim teria empinado na aproximação do cavaleiro,
ate que sua cabeça tivesse sido virada. A mãe de Alexandre ensinou-lhe
que ele era um filho de Zeus ou Júpiter, chefe dos deuses gregos, e isso
lhe deu grande elevação da alma.

Antes que tivesse amadurecido seus planos para a invasão da


Pérsia, e contando 40 anos, o rei Felipe foi assassinado, e Alexandre
herdou seu trono e os devidos preparativos. Ele foi inflamado pela paixão
pela conquista de outros países e pela ânsia de obter conhecimentos sobre
o mundo. Alexandre reuniu cientistas e especialistas de todos os tipos
cm torno de si, assim como engenheiros para a confecção de mapas - c
também livros de poesia, drama c história para alívio intelectual. Ele
poderia discutir com seus capitães sobre botânica e zoologia, ao redor de
uma fogueira, e enviava eonstantemente cartas a Aristóteles, descrevendo
as coisas novas que tinha visto e encaminhando amostras. Teofrasto, em
Atenas, escreveu uma história de plantas e animais, baseado no material
que havia sido fornecido por Alexandre.

Os soldados de Alexandre admiravam-no como sendo um ser


sobrenatural c ele tinha triunfos cm todos os lugares. Depois da conquista
dc Tiro, o rei da Pérsia tentou suborná-lo com a oferta de metade do
império; o general Parmênius aconselhou-o a aceitar, mas sua resposta
foi: “ Eu aceitaria se fosse Parmênius, mas eu sou Alexandre!”. No
Egito, ele foi saudado como o filho de Amon-Rá. Alexandre derrotou
complctamcntc os exércitos persas que foram enviados contra ele,
queimou Persépolis, mas demonstrou cortesia com a realeza capturada
e continuou sua marcha vitoriosa até a índia, de onde enviou à Grécia
descrições de elefantes e camelos.

Agora seus soldados estavam cansados de viajar e pediam para ser


levados para casa. Pela primeira vez eles não mais seguiriam Alexandre;
ele se enfureceu com os soldados, mas teve que ceder e retornar.
Ainda durante o percurso dc volta para casa, cie queria lazer algumas
explorações, para descobrir sc o Golfo Pérsico cra um lago ou uma
parte do oceano; enviou, então, seus navios ao longo da costa, enquanto
marchava com alguns de seus homens por terra. No caminho, Alexandre
teve febre e morreu, pois a viagem pelo deserto era muito difícil e ele
não poderia ser mais bem tratado com relação a água e comida do que
seus homens, que também estavam morrendo de sede e de fome.

Assim, o império de Alexandre, o Grande, dissolveu-se. Alguns


de seus generais, que tinham sido mandados para administrar províncias
distantes, logo as tomaram independentes. Alexandre tinha alterado a face
da Terra e essa tinha sido a primeira expedição exploradora sistemática
da história, somente rivalizada pela segunda, 250 anos depois, executada
pelo romano Júlio César.

Os romanos reivindicavam uma origem parecida com a dos gregos


c essa seria sua tarefa: consolidar a civilização mundial que o espírito
grego havia inspirado e criado.
O HOMEM - ONDE FICAM SEUS LIMITES

Foi-nos revelado um método único significativo em toda a


construção natural. Está claro que a natureza segue um plano, que é o
mesmo - seja para um átomo, seja para um planeta. Foi em 1924 que o
embriologista Childe revelou esses pontos de atividade febril chamados
de graus fisiológicos, nem todos começando juntos, ou com a mesma
intensidade, mas cada um a seu próprio tempo, com cada um seguindo
um curso independente. Só para começar, a unidade das células cra
exatamente como todas as outras, mas, por meio de suas atividades,
elas cresceram para se diferenciarem e tornaram-se especializadas para
a formação de um órgão e por último vieram os sistemas circulatório
e nervoso para ligar cada órgão aos demais, criados similarmente em
independência, mas com uma função final diferente.

Estes são considerados como sendo os princípios básicos do plano


da natureza:1

1. Liberdade e independência dos órgãos em seus múltiplos desen­


volvimentos.
2. Desenvolvimento por meio da especialização das células.
3. Unificação dos órgãos por intermédio do (luxo do sistema circu­
latório.
4. Comunicação diretiva estabelecida pelo sistema nervoso.

O sangue também é constituído por células, mas sua composição


contém resíduos lançados pelas células orgânicas, assim como os
elem entos provenientes do am biente externo. Os horm ônios são
produzidos pelas glândulas endócrinas e liberados na corrente
sanguínea. Eles são necessários para estimular o desenvolvimento e o
crescimento dos órgãos, que são retardados quando esses hormônios
são insuficientes. Um tipo de hormônio é produzido pela glândula
tireoide c outro pelo fígado. As células do sangue chamadas de glóbulos
vermelhos são apenas “burros dc carga” que transportam o oxigénio do
ar e os nutrientes da comida para todas as partes que precisam delas. Esse
é o mecanismo de atendimento às necessidades físicas básicas; mas então
devem ser consideradas as necessidades mais complexas, preparando
o comportamento para a vida. No interesse dessas necessidades, as
células efetuam uma total autorrenúncia, transform ando-se, para a
natureza, na função a ser satisfeita. Nos estágios mais elevados, não há
somente adaptação ao trabalho, mas uma força tão veemente que nada
mais importa, de maneira que somente a especialização é alcançada.
Finalmente, o controle do sistema nervoso gera sensibilidade e vitalidade.
Inúmeros filamentos originários do cérebro conectam tudo à psique.
Um organismo não é uma mera coleção de órgãos. As células nervosas
especializam-se no refinamento c uma não pode scr concebida sem que
uma outra chame para si a responsabilidade de transformar o amido
em açúcar, ou dc lutar contra um micróbio. Elas se aprisionam em um
compartimento, o crânio, c não é por nenhuma eleição direta que elas
chegam ao cargo dc governantes do corpo. O embrião pode nos ensinar
a falta de lógica do nosso mecanismo social, cm que um grupo reivindica
a dominação de um outro simplesmente pela questão da autoridade, sem
que haja entendimento. A natureza é a professora da vida - deixem-nos
seguir seus caminhos.
A rápida revisão que nós tivemos sobre a história da civilização
humana teve como objetivo demonstrar o mesmo projeto básico em
ação, pois a humanidade também é uma unidade orgânica que ainda
está nascendo. Como os órgãos, os diferentes centros de civilização
têm sido cuidados para resistir ao isolamento, sendo então trazidos
para os contatos por meio dos quais eles se consolidaram em grandes
organizações, ou dividiram o que tinham de valor para o enriquecimento
de exploradores antes de serem destruídos, caso fossem tão inadaptáveis
para a sobrevivência. Crueldades e explorações, as guerras e todas as
formas de violência tiveram que cumprir sua parte, porque os homens
não tinham percebido, ainda, sua humanidade comum e o trabalho dela
no desempenho de um destino cósmico.

Forças que agitam o mundo estão agora percebendo a unidade


humana como uma necessidade urgente. Já passou o tempo em que alguns
grupos raciais ou de nações podiam ser civilizados, deixando outros serem
servis ou bárbaros. A persistência a essas ideias ultrapassadas somente
pode conduzir a mais guerras e autodestruição, e uma mudança geral de
pensamento pode ser efetivada apenas pelo professor; não como tirano
ou missionário, mas como um líder essencial da geração nascente. O
professor moderno tem que ser um estudante entusiasta de biologia e
de psicologia do crescimento da criança e também do homem. A escola
deve significar algo mais do que um lugar de instrução, onde um ensina
para muitos, com sofrimento para ambos os lados - a condução de um
esforço com um mínimo de sucesso.

A presença escolar tem sido compulsória em todo lugar - há


recenseamento militar no front educacional, uma mobilização comparável
ao chamado feito por uma nação em perigo urgente; essa não é uma
mobilização nacional, porém extremamente grandiosa, sendo universal
e para a vida ao invés da morte!

Poderes im ensos são confiados aos professores, que não


podem evadir-se deles. Da mesma maneira que a saúde física deve
ser primeiramente considerada, deixe-nos rever quais reformas são
necessárias a esse respeito, caso os professores estejam desempenhando
sua responsabilidade sagrada.

E necessário que as escolas registrem as observações sobre o


crescimento de cada criança, com quaisquer aberrações do padrão normal.
O crescimento não é somente um aumento harmonioso do tamanho, mas
uma transformação. O homem é um escultor de si mesmo, encorajado
por uma força interior misteriosa para a realização de uma determinada
forma ideal. O crescimento pode ser definido como uma procura pela
perfeição, dada por um impulso de vida.

É essencial que a civilização produza crianças bonitas. Um


antigo ditado fala que “o que vale é a beleza interior”, e as crianças têm
sido dissuadidas de olhar no espelho, como uma explosão de vaidade
pecaminosa. Mas nós reivindicamos que as escolas devam ser instituições
que auxiliem a beleza, porque a beleza é uma indicação de condições
saudáveis de vida. Boas condições induzem à beleza da forma e faz
parte do Método Montessori atingir tal harmonia. Nós consideramos a
beleza por meio de dois pontos de vista, o primeiro sendo hereditário e
o segundo sendo induzido pelo ambiente.

A taxa de mortalidade para crianças em seu primeiro ano de vida


c enorme, completamente anormal, c isso c decorrente da ignorância
e da imperfeição das condições sociais c não do desejo de Deus! A
taxa diminui gradualmente até a idade de seis anos, então atingindo e
mantendo um nível dentro do normal dos seis aos doze anos. Aquelas
mortes prematuras anormais são assassinatos, mortes não naturais, pelas
quais todos temos que compartilhar nossa parte na responsabilidade,
admitindo-nos como criminosos. Depois do 12u aniversário, o nível
de mortalidade sobe novamente até os 18 anos; esse é outro período
perigoso, associando-se a grandes transformações, com a vida tomando-
se novamente segura somente depois dos 18 anos.

Veja o adulto vitorioso, entre 24 e 36 anos, ajustado para a


reprodução da vida em vez de para pagar o tributo da morte! O período
reprodutivo é realmente dos 18 aos 42 anos, mas os limites mais estreitos
para a idade dos pais rendem indivíduos mais fortes, que vivem até
idades mais avançadas e atingem a fama. As crianças nascidas de pais
muito jovens ou muito velhos apresentam, em geral, dificuldades, sendo
diferentemente saudáveis e felizes.1

Sobre essas estatísticas relacionadas à mortalidade, pode-se dizer


que a escola não precisa se preocupar com isso. Mas cada morte é uma
catástrofe em meio a acidentes menores.12 A doença nem sempre traz a
morte imediatamente, e a alta mortalidade entre as crianças abaixo de
seis anos é uma identificação de que há um grande número de crianças
doentes. Para cada criança morta deve haver uma centena de crianças
doentes, parcialmente vencendo a doença. É quando a resistência dos
órgãos é superada que nós caímos doentes, e para cada criança em
recuperação existem muitas na fronteira de estar nessa condição. Assim,
muitas crianças em nossas escolas, abaixo de seis anos, e novamente cm
especial dos 12 aos 18, são fracas e predispostas a doenças, um fato que
deveria ser apreciado pelos educadores.

É um erro esperar um trabalho duro e um progresso incontestável


durante a puberdade. Indulgência deve ser demonstrada para com aqueles
que ficam para trás nesse período. A vida de um homem está toda nessa
extensão, como um cordão. Tocada em uma parte, toda a extensão vibra;
assim, pode haver consequências na vida adulta, derivadas de algumas
ocorrências que pareceram triviais na infância, c como acontecimentos
desfavoráveis são mais prováveis durante esses momentos de fragilidade,
a responsabilidade do professor é grande com relação à humanidade.

A antropologia pedagógica tem feito grandes avanços na Europa e


na América nos últimos anos. Na Itália, prisioneiros têm sido estudados e
tem-se identificado com frequência terem má-formação física. O homem

1. A autora quer alertar sobre o problema da fornia eomo essas crianças são educadas,
pois pais muito jovens ou pais com muita idade tendem a ser. genericamente, mais
permissivos, o que pode acarretar no comportamento das crianças uma fraqueza de
caráter moral, resultante dessa falha na educação. (N.R.)
2. Montessori, aqui. chama a atenção para o fato de que a mortalidade infantil também
deve ser preocupação da educação. (N.R.)
feio c um criminoso? Um assassino ou ladrão raramente c diferente de
outras crianças quando nasce, mas as condições em que vive são tais que
eles não conseguem se adaptar às leis de seu país. As condições sociais
atuam no corpo e na mente, e o indivíduo se torna “anormal”; o criminoso
geralmente reflete os erros da sociedade. Muito raramente nascem
criminosos, portanto será fácil erradicar a criminalidade do mundo, no
momento em que nós entendermos e fizermos um esforço nesse sentido.
A conformação física pode ser indicadora de propensões ao crime.3

Nota-sc também que o maior número dc pessoas com má-formação


está entre os insanos, os quais raramente herdam geneticamente a
insanidade. Ilá milhões de insanos hoje cm dia e os números estão
aumentando, mas tem sido provado não ser um caráter hereditário, assim
isso diminuirá se a criança for cientificamente estudada c lhe for dado
o cuidado apropriado.

A tuberculose é uma terrível calamidade, assim como o são o


raquitismo, as doenças cardíacas e muitas outras deformidades do corpo,
antigamente imaginadas erroneamente como sendo hereditárias. O peito
do paciente tuberculoso é anormalmente estreito e esse defeito poderia ter
sido remediado por meio de exercícios corretos feitos durante a infância.
O estudo da bacteriologia tem diminuído as doenças infecciosas e há de
chegar o dia em que os cuidados científicos às crianças serão observados
como uma profilaxia social sem a qual será vão julgar as coisas de um
ponto de vista moral. Certas deformidades físicas são comprovadamente
comuns em qualquer classe social - elas ocorrem igualmente para ricos ou
pobres; o curioso é que muitas vezes as próprias escolas eram apontadas

3. Entre os profissionais que influenciaram o pensamento montessoriano, podemos eitar o


italiano Cesare Lombroso (1835-1909) - criminologista, professor e clínico psiquiatra.
Dedicado estudioso das anomalias hereditárias, neurológicas e psíquicas, ele acreditava
em sua relação com a formação da personalidade delinquente e defendia a tese dc que
determinados traços da configuração física (fisionômicos, conformação óssea etc.)
poderiam identificar os criminosos. Por muito tempo sua teoria influenciou o campo do
direito penal. Posteriormente desacreditada pela psicologia contemporânea, a teoria de
Lombroso serviu apenas como alerta para a necessidade de um tratamento mais humano
dos criminosos. (N.R.)
como as responsáveis por algumas dessas deformidades. Era como se
os professores regulassem as costas das crianças, suspendendo-as com
pesos nas pernas durante os períodos de descanso, e as obrigassem
a sentar a maior parte do tempo com as costas curvadas sobre uma
carteira. Similarmente, ao final do século passado, foi descoberto que
era ruim para as crianças sentarem-se em aposentos fechados com pouca
luminosidade, pois isso produzia a miopia, e o remédio era dar óculos
para crianças de oito anos!

Que história terrível tem sido essa da criança! Nós podemos


rir desses cuidados especiais hoje em dia, mas pelo menos as janelas
começaram a ser abertas para a entrada de mais ar, e desde que a
panaceia para a curvatura da coluna foi imaginada para ser aplicada em
intervalos para estabilização da espinha depois do descanso de uma hora,
o princípio do descanso frequente no trabalho foi estabelecido. Ainda
não havia sido concebida uma possibilidade tal como uma educação feliz
para as crianças, assim muitas ainda tiveram que ser sacrificadas para a
civilização e o melhor que elas podiam fazer era abrir mão, reduzindo
ao mínimo as horas de instrução, cortando do currículo disciplinas como
gramática, geometria e álgebra, tornando a diversão externa obrigatória
e adiando a idade para entrar na escola. Entretanto, aumentaram-se
muito os períodos livres, encorajando as crianças mais a brincar do que a
estudar, e, estranhamente, as crianças tinham permanecido mentalmente
fatigadas, não obstante todas essas reformas. As escolas Montessori têm
comprovado que a criança precisa de um ciclo de trabalho para o qual
ela tenha sido mcntalmente preparada; o trabalho inteligente feito com
interesse não é fatigante c ela não deverá ser arbitrariamente interrompida
de fazê-lo em virtude de um chamado para brincar. O interesse não nasce
imediatamente; se quando ele tiver sido criado, o trabalho tiver que ser
interrompido, será como se estivesse sendo desestimulado o apetite à
comida que irá satisfazê-lo.

Por meio de longas experimentações, chegamos agora à eliminação


de muitos erros e estamos de posse de uma chave que pode abrir para as
crianças os portões de uma educação saudável e feliz. De nossa coragem e
de nossa perseverança na sua utilização depende o futuro da humanidade.
CONCLUSÕES

O indivíduo trilha o caminho da vida, pressionado por perigos


de todos os lados. A vida é um verdadeiro campo de batalha; alguém
pode sobreviver, mas estará avariado ou com cicatrizes causadas pelo
sofrimento até o momento em que entra na fase pacífica da vida e toma-se
um adulto triunfante. Então, ele passa a ficar sob a proteção da sociedade,
que assume o lugar dos seus guardiães anteriores c fornece a ele os
recursos para viver com uma companheira. Juntos, agora eles trilham
o caminho da vida, escalando cm direção ao seu destino desconhecido;
antes que decresçam, eles terão deixado para trás frutos de seu amor.
Em seu declínio eles se separam; a marcha descendente é solitária e eles
passam ao esquecimento.

A sociedade considera im portante o período de ascensão,


quando eles estão construindo monumentos de suas ações, e todas
as recompensas vão para os triunfantes e bem-sucedidos. As classes
privilegiadas são o interesse c a preocupação da sociedade, a despeito
da Revolução Francesa, entre outras. Os pobres ainda não tiveram a
consideração apropriada e sempre resta uma classe que é ainda mais
completamente ignorada, até mesmo entre os ricos. Tal classe é a da
infância! Todos os problemas sociais são considerados de acordo com o
ponto de vista do adulto e de suas necessidades - habitação, desemprego,
questões salariais, direito de voto etc. Muito mais importantes são as
necessidades da criança, em quem existem forças que podem ficar
contidas ou que podem agora ser amplamente desenvolvidas, como não
fora possível antes. Não é suficiente assegurar à criança comida, roupas
e abrigo; da satisfação de suas necessidades mais espirituais depende o
progresso da humanidade - a verdadeira criação de uma humanidade
mais forte e melhor.

Os problemas sociais da criança c do adulto então integrados,


mas também podem ser considerados separadamente, e a escola sustenta
uma responsabilidade especial para com a criança. A juventude é
universalmente recrutada na escola para o grande exército da vida. As
potencialidades dc uma humanidade cultivada deveriam ser a raiz dc cada
questão social, mas o adulto está além da reforma e os experimentos com
ele repetidamente fracassam! Ele é uma matéria rígida para ser moldada
para a revelação de novas possibilidades humanas. Nós nos iludimos de
que atingimos altos níveis de filantropia com nossas miseráveis migalhas
de caridade social, mas até mesmo essas tais migalhas são distribuídas
somente para os adultos. Para alguns, comida, para outros, uma esmola
a um desempregado, para outros ainda, o privilégio da liberdade de
expressão - nenhuma dessas panaceias contribui muito para melhorar
as doenças sociais.

Suponha-se que nós levemos às escolas o mesmo aprimoramento


social que nós somos tão orgulhosos de ter alcançado! Deixem-nos
alimentar as crianças, deem-lhes um parquinho, roupas, liberdade de
expressão (o direito de livremente fazer perguntas ao professor). Essas
pequenas coisas serão um começo, mas não irão bastar. E para aprender
que grandes medicamentos são necessários, nós precisamos estudar a
natureza da humanidade, como revelada nos primeiros anos da vida.
Então nós deveremos saber, com absoluta certeza, o que é necessário e
também que os medicamentos podem ser muito mais efetivos se aplicados
à criança do que ao adulto.
Há certamcnte uma diferença entre aqueles que estáo famintos,
nus e silenciosos c os que estão alimentados, felizes c falantes, mas
essa diferença não é suficiente. É somente por meio da ciência e da
personalidade valorizada que o medicamento do mundo virá - não por
darmos um bocado de comida ou um trapo para servir de roupa, nem
mesmo por darmos a cidadania.

I lá algo que falta, fundamentalmente, à humanidade e isso deve


ser procurado na origem absoluta da vida. Só lá pode ser achada a chave.

Como já dissem os neste livro, os professores que estejam


assumindo classes Montcssori cm nível mais avançado deverão estar
previamente familiarizados com o curso básico, no qual a psicologia tem
necessariamente uma parte maior na preparação para o método. Assim,
tem havido menos ênfase aqui sobre a atitude esperada do professor em
direção à criança sob seus cuidados, e alguns lembretes conclusivos não
podem ser esquecidos.

No estágio adiantado, assim como no básico, o primeiro passo a dar


de forma a se tornar um professor Montcssori c livrar-se da onipotência e
tornar-se um alegre observador. Se o professor puder rcalmcntc penetrar
no prazer de ver as coisas nascendo e crescendo sob seus próprios olhos
e puder vestir-se com o traje da humildade, muitos prazeres - que são
negados àqueles que assumem infalibilidade e autoridade diante de uma
classe - estarão reservados a ele. Tais professores sofrem de ilusões,
estando muito distantes da verdade. Eles concordam que é necessário
cultivar o desejo na criança, por interesse espontâneo, mas sustentam
que isso deve ser estritam ente controlado e refreado. Isso é uma
contradição - você não pode desenvolver pela repressão. Infelizmente,
a lógica não funciona em pessoas que sofrem de ilusões, de maneira
que esses professores entram na escola e começam a executar suas
contradições. Eles fazem a coisa mais fácil - reprimem, dão ordens,
destroem! A destruição c rápida c facilmente feita, indcpcndcntcmcntc
de a estrutura ser simples ou complexa; qualquer um pode fazê-la! Mas
como é difícil construir!
O professor antiquado, de forma subconsciente, fez uma exaltação
de suas próprias virtudes. Ele era perfeito no sentido de saber o que
deveria ser feito e o que deveria deixar de ser feito. Ele tinha seres
vazios diante si para ser preenchidos com fatos, e criados moralmente à
sua própria semelhança - Deus os ajude! Aqueles seres que ainda têm
em sua alma outro grande criador foram forçados a parecerem-se com
o professor, que estava determinado a moldá-los de acordo com seu
modelo de “bondade*’, ou puni-los por desobediência. Tal professor não
é sequer um tirano, pois é necessário ser inteligente para se tornar um
tirano, conforme precedente histórico.

À obediência não é uma coisa mecânica, mas uma força natural de


coesão social, intimamente relacionada ao desejo, até sua sublimação.
À primeira vista este relato pode surpreender, mas ele é verdadeiro. A
obediência da maneira correta é uma sublimação do desejo do indivíduo,
uma qualidade na alma humana sem a qual a sociedade não poderia
sobreviver. Mas uma obediência sem um verdadeiro autocontrole, uma
obediência que não é consequência de um desejo desperto e exercitado
leva nações inteiras ao desastre.

O professor faz então sua grande renúncia ao poder e à autoridade,


para se encontrar imensamente vencedor por essas perdas. Ele atinge a
paciência de um cientista, uma paciência que na verdade é um interesse
intenso em assistir. Os cientistas também renunciam às coisas que os seres
humanos geralmente consideram atrativas, mas eles pouco se arrependem
disso. Nós nos lembramos de Madame Curie, que somente se aborreceu
quando uma universidade quis interromper seu trabalho sobre o rádio
para conferir a ela um grau honorário. Edison também, um dos primeiros
amigos do Método Montessori, estava cansado de ser arrastado por sua
moderna esposa para as funções sociais, quando seu coração estava de
fato no laboratório. Um dia retornando para casa ele arrancou a gravata e
a roupa de gala, amarrou-as em uma trouxa e jogou pela janela, dizendo:
“Lá se vai seu marido social!*’ resumindo-se a um roupão e chinelos
para trabalhar. As pessoas gostam daqueles que levaram em conta que
não é sacrifício renunciar às coisas menores para obter grandes prazeres.
Eles fizeram de fato o que mais gostavam de fazer, tendo adquirido um
interesse intenso que os transformou e enobreceu. E o professor que atinge
esse estágio de interesse é similarmente transformado. Ele ou ela junta-
se ao feliz grupo dos homens que tomaram o caminho da vida. Assim
como os cientistas, eles penetram os segredos da vida e conquistam sua
recompensa, não somente para si mesmos, mas para todos.
Crianças estressadas:
Causas, sintom as e soluções
Marilda Lipp (org.)

Educação infantil:
Enfoques em diálogo
Eloisa A.C. Rocha
Sonia Kramer (orgs.)

Educação infantil: Saberes e


fazeres na formação de professores
Luciana E. Ostetto (org.)

Educação infantil e diferença


Anete Abramowicz
Michel Vandenbroeck (orgs.)

Inteligências m últiplas e
seus estím ulos (As)
Celso Antunes

Jardim de cada um (O)


Nye Ribeiro

Meio ambiente:
Interdisciplinaridade na prática
Karen L. Currie e colabs.

Pedagogia da felicidade de
Makiguti (A)
Rita Ribeiro Voss

Pedagogia das diferenças


na sala de aula
Marli Eliza D.A. de André (org.)

Por uma educação romântica


Rubem Alves

editora@papirus.com.br
www.papirus.com.br
www.papiruseditora.blogspot.com
twitter.com/PapirusEditora
PARA EDUCAR 0 POTENCIAL HUMANO
Este livro a p re s e n ta o q u e M aria M o n tesso ri c h a m o u d e
E d u c a ç ã o C ó sm ica, isto é, a e d u c a ç ã o d a crian ça, a p artir d o s
seis a n o s, v o lta d a p a ra o p le n o d e s e n v o lv im e n to d e su a s
c a p a c id a d e s p a ra o a m o r e o re sp e ito p e lo m u n d o .

S e g u n d o a p e rsp e c tiv a p ro p o s ta p e la a u to ra , a o p e ra c io n a li-


z a ç à o d o p la n o m a io r d e u m a e d u c a ç ã o in teg ral r e q u e r q u e
s e d e se n v o lv a a c o n sc iê n c ia d o tra b a lh o d e c a d a a g e n te
c ó sm ico , fa v o re c e n d o a p e rc e p ç ã o d a in te rd e p e n d ê n c ia d e
to d o s o s e le m e n to s n atu ra is, d e m o d o q u e se criem c o n d i­
ç õ e s p a ra q u e a crian ça, o h o m e m cio fu tu ro , veja d e s a b ro ­
c h a r e m si o s se n tim e n to s d e c o o p e ra ç ã o , d e re s p e ito e d e
a m o r e m re la ç ã o à n a tu re z a e a o co sm o s.

Para tan to , ela faz u m a b re v e an álise d a s características


infantis e a p re se n ta , c o m o se fo ssem fábulas, a história d a
fo rm a ç ã o d a T erra, o su rg im e n to d a vida, a trajetória ev o lu tiv a
a té o a p a re c im e n to d o h o m e m , e n o ssa p artic ip a ç ã o n as tra n s­
fo rm a çõ e s d o m u n d o até a a tu a lid a d e , h istó rias q u e e n c a n ta m
a crian ça e d e s p e rta m a c u rio sid a d e cio a d u lto q u e as lê.

1a Ed.
IS B N 9 7 8 -8 5 -3 0 8 -1 1 1 9 -8

788530 81 1 1 98

PAPIRUS EDI TORA

Você também pode gostar