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Disciplina: Métodos e Técnicas de Pesquisa Científica em Música

Aluno: Ícaro Tavares Capelo Camanho

Resumo do artigo “A Atitude Científica”, de Marilena Chauí

Neste escrito, que integra a obra Convite à Filosofia, da pensadora brasileira Marilena
Chauí, pode-se constatar como temática central a intenção de marcar a diferenciação entre as
noções cotidianas – também chamadas de “imediatas” pelos filósofos que se debruçaram sobre o
problema da criação de um método científico consistente --, e as proposições, leis ou enunciados
resultantes de um processo de investigação científica. A questão colocada no artigo é de
fundamental importância para que se possa compreender a especificidade do trabalho da ciência,
seja esta do campo das humanidades, da física, do estudo da biologia, ou de qualquer outro ramo.
A autora enumera em características e categorias os pontos do percurso da criação de uma
noção do senso comum, opondo-a à elaboração de um enunciado da ciência. Chauí nos explica que
as coisas que vivenciamos, sentimos ou percebemos – reunidas em torno do termo fenômeno –, à
primeira vista parecem ineludivelmente óbvios. Dizer que o Sol nasce, que os objetos tem cor, que
nos separamos em raças e nos unimos em famílias parece algo inquestionável, se não ousamos
buscar compreender o que torna estes fenômenos o que são, com a regularidade ou variação que
lhes é característica. Daí o nome investigação científica, pois trata-se de uma busca por evidências
daquilo que seria a causa, o princípio, de um dado fenômeno. Esta procura, entretanto, segue um
conjunto de critérios e procedimentos necessários para que se possa realizar, de fato, ciência.
De maneira muito interessante, Marilena Chauí procura retomar as noções do senso comum,
e já numa investigação racional de seu uso e instituição, procura descrever brevemente o que as
define em alguns pontos. O indivíduo, quando toma algum fenômeno percebido por ele sem uma
criticidade mais consistente, o faz de modo exclusivamente subjetivo, isto é, de acordo com o que,
naquele momento aparenta ser de determinado modo. Seguindo apenas as suas convicções,
sentimentos ou opiniões pessoais, este avalia um dado fenômeno de modo qualitativo; qualidade
esta, que é atribuída ao objeto ou evento que ele percebe enquanto intrínseca a estes. Precisamente
por ser algo baseado no que é percebido, sentido, ou avaliado subjetivamente, cada evento ou
fenômeno aparenta ser singular, heterogêneo, sem conexão com outros fenômenos similares, ou
ainda com um princípio ou força comum a outros. Quando reunidos numa dada generalização, esta
é realizada de segundo a mera noção de semelhança aparente (ainda que possivelmente estejam
sendo assemelhados dois fenômenos de natureza bastante distinta). Em decorrência deste modo de
proceder, agrupando elementos díspares sob um mesmo nome ou qualidade, o indivíduo estabelece
relações de causa e efeito que se limitam apenas a uma coletânea de correlações entre eventos, isto
é, limitam-se a marcar a sucessão de um fato a outro sem realmente investigar se o evento anterior
realmente é causa do seguinte (e.g. “– Tomei cloroquina e fiquei bom da doença!”).
O que se pode depreender deste modo de entendimento da realidade, segundo Chauí, é que é
um modo encantado de olhar para o mundo, e dele formar uma compreensão mais geral. São os
fenômenos mais incomuns, excepcionais, que são tomados como algo de uma natureza
completamente diversa do que é cotidiano, do que se repete com forte consistência.
Consequentemente, aquilo que deste modo é percebido como extraordinário é rapidamente, pelas
variáveis culturais, antropológicas, sociais, convertido em algo além do natural, algo místico, de
onde se extrai um fundamento para tudo aquilo que é considerado óbvio – o que demonstra a
maneira pela qual a religião, durante grande parte da história da humanidade, se estabeleceu como
forma de entender o mundo, sobretudo naquilo que à época não era compreensível de outra
maneira. No entanto, não podemos restringir à religião este tipo de método, e podemos vivenciar
isso atualmente, quando um indivíduo atribui, isto é, projeta em algo exterior a ele um sentimento
ou um medo originado da sua construção psíquica, ou cultural e socialmente adquirido.
Assim como as superstições e avaliações científicas já demonstram uma faceta comum à
humanidade, que é de fato a curiosidade, o interesse de saber a respeito daquilo que não se
compreende, historicamente desenvolveu-se um método que buscasse respostas mais consistentes,
mais verificáveis por todos (e não mais apenas por alguma espécie de saber oracular, místico). O
método científico é, portanto, resultado de uma série de procedimentos com vistas a conhecer, e
demonstrar, o princípio, lei, fundamento, de um determinado fenômeno. Passamos da busca por
uma essência mística ou metafísica para a investigação científica, factual, de um princípio.
Para tanto, é necessário que investiguemos com objetividade, isto é, com foco nas
características próprias de um objeto, e não mais segundo opinião ou volição pessoal. Estas
características de um objeto, quando de fato pertencem a este, são verificáveis, mensuráveis de
modo quantitativo, em escalas de grandeza, forças, números, dentre outras métricas. Numa
investigação de caráter científico, são reunidas um conjunto de evidências já mensuradas,
quantificadas, em busca da constatação de um princípio homogêneo, isto é, uma lei geral que é
causa do funcionamento de elementos distintos, operando, no entanto, uma generalização que não
segue mais o critério da semelhança, mas o de um fundamento comum (como é o caso da força
gravitacional, que afeta todos os corpos físicos numa dada proximidade com um astro). Por outro
lado, pode-se diferenciar aquilo que aparentemente seria semelhante, quando um objeto ou
fenômeno não está ligado por uma mesma relação de causalidade a outro. A partir desta análise
quantitativa, pode-se estabelecer reais relações de causa e efeito, e não mais de simples correlação
ou sucessão temporal, uma vez estabelecida um fundamento científico.
Mais que um simples método (tomado aqui como conjunto de passos a serem seguidos com
vistas a um fim determinado), o conhecimento científico gera, portanto, uma atitude diferente
daquela do senso comum, em relação a como observamos, problematizamos, entendemos o mundo.
A regularidade daquilo que antes era óbvio passa a ser objeto da curiosidade daqueles que adotam
tal atitude, gerando uma busca pelo que torna as coisas tais como são. Uma atitude menos encantada
com o estanho, o bizarro, o excepcional, engendra a busca constante por novas explicações que vão
se tornando cada vez mais precisas para a compreensão de um determinado fato. Isto explica o fato
de que numa realidade social onde a ciência seja cada vez mais difundida e desenvolvida entre
todos (e não apenas restrita a um grupo de especialistas) por meio da educação, as superstições e o
misticismo que pretende tudo explicar de modo rápido, fácil e simples, tenham cada vez menos
relevância, orientem cada vez menos as decisões práticas dos sujeitos.

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