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Lembro muito bem do dia, que compreendeu o início da minha adolescência, de forma

significativa: dia 11 de Setembro de 2001. Meus pais se separariam naquele ano, o que configurou
um relativo ganho de autonomia para mim, uma vez que a figura relativamente (ao próprio
discurso) autoritária de meu pai passaria a ter cada vez menos dominância no meu cotidiano, em
relação a horários, deslocamento, e tomada de pequenas decisões. Venho de uma família de classe
média da Aldeota; um pai artista, e desempregado, uma mãe médica, que trabalhava bastante para
fazer as coisas funcionarem em sua vida, dentro e fora de casa. Muitos anos se passariam até que eu
compreendesse que a minha educação supostamente liberal era atravessada por diversos tipos de
preconceitos provincianos, raciais, e de classe social.
Naquele dia, eu me lembro de voltar da escola para casa, sem muito ânimo, pois era o
lembrete de que estava de castigo (não lembro o motivo), e que não haveria muito o que fazer a
respeito. Acredito que o castigo era estar proibido de ver televisão naquele dia, até que a notícia dos
aviões colidindo contra os prédios em Nova Iorque começou a lotar o horário de todos os programas
de televisão. Fui correndo para a sala, ver aquilo que hoje em dia já é bem conhecido na história, no
começo de nosso século. Me lembro muito bem de ficar repetindo, dizendo que não tinham
derrubado os aviões comerciais por decisão, de que aquilo que passava na televisão era uma farsa.
No dia seguinte, na escola, havia uma redação a ser feita, e ali eu coloquei tudo o que eu pensava a
respeito do recente ocorrido. Ali começava a década de minha adolescência e juventude.
Desde aquele evento, ficou evidente até para mim que vivia uma vida confortável, a
necessidade de olhar com muita atenção o que estava acontecendo no mundo, que ele estava
começando a tomar um rumo diferente daquele prometido pelo otimismo de classe média branca,
no qual eu fui criado. Não de uma maneira repentina, mas paulatinamente, fui percebendo o que
tinha lá fora, fui saindo de casa, e vendo o quanto aquele mundo que eu vivia era muito diferente da
maior parte da população. Via o quanto muitas pessoas viviam com menos dinheiro, mas que eram
mais livres, sobretudo os meus amigos mais próximos. Atualmente eu percebo que havia algumas
pessoas que eu conhecia na escola, que vinham de um estrato da classe média bem menos
favorecidos que eu era, e sem romantizar, eu hoje em dia olho com alguma tristeza para as
dificuldades de alguns deles. Por problemas familiares, e de dinheiro, soube que a delinquência e a
rebeldia próprias dos colegas adolescentes debandou para uma vida no crime. Uma minoria de
classe média baixa, que não se adaptava àquele ambiente de escola particular: reproduziam modelos
de afirmação dos mais velhos, pela violência e pela intimidação, ou eram invisibilizados.
Por influência da família por parte de minha mãe, acompanhei de perto toda a euforia das
eleições que viriam em 2002, e sentia que aquilo que estava acontecendo era muito importante. Me
recordo de querer votar naquele ano, e de ver aquela explosão de alegria de muita gente que estava
ali voluntariamente, insatisfeita com tanta desigualdade e disposta a tomar alguma atitude. Para
além das transformações sociais e políticas que são bem conhecidas atualmente, ali foi um
momento pessoal de me perceber cada vez menos identificado com todo o sistema de reputação e
autopromoção que existe entre adolescentes de 14 anos em escola particular. Não via contradição
entre se chamar de nerd e odiar toda aquela rotina de escola particular… e por um motivo ou outro,
me agarrei na chance de ingressar na Escola Técnica.
Durante este período, em que cursei o ensino médio no CEFET-CE, acredito ter sido uma
época realmente privilegiada, pois recebia um ensino de qualidade, enquanto podia partilhar do
convívio de pessoas de diversos percursos na vida, e a partir desse convívio, me reorientar em
minhas aspirações pessoais. Até mesmo para perceber uma certa mediocridade em que eu tinha sido
educado até então. No colégio Marista, sem muito esforço, era um dos melhores da turma, o
“inteligente”, que participava de olimpíadas de Matemática. No primeiro trimestre da escola
técnica, estava eu suando frio com uma prova da mesma disciplina – e tomei nota abaixo da média.
Ainda que o ingresso por meio de um concurso público imponha um elitismo, uma
meritocracia desleal com quem é menos privilegiado economicamente, a situação muda de figura
uma vez lá ingressando. Certamente um elitismo, mas não aristocrático, estamental, por assim dizer.
Aprendi rapidamente a engolir o orgulho, o ar pretensioso, e a olhar para meus colegas com
verdadeiro respeito. Todos nerds, mas o que se divertia enchendo a lousa de cálculos tinha que
almoçar na escola (pois não tinha almoço em casa); o outro vinha de uma cidade da região
metropolitana; a outra pegava três ônibus pra chegar e usava a mesma blusa de banda de rock, mas
raramente alguém ficava reparando; o outro que vinha “contar vantagem” de ter isso ou aquilo era
logo caçoado pela maioria dos colegas. A maior parte realmente gostava de estudar, tinha
curiosidade, e quem era mais respeitado é quem se esforçava, se aprofundava mais no estudo.
Acompanhando não apenas a vida dos amigos e colegas que conheci naquela instituição,
mas as mudanças que aconteceram dentro dela, pude perceber o quanto, num curto período de
quatro anos (um pouco mais estendido por conta dos cursos técnicos) as coisas mudaram
significativamente. No primeiro e segundo ano em que estive lá, ainda presenciei manifestações na
porta da escola, a organização e influência das juventudes de partidos políticos, e uma certa
preocupação dos alunos com o não- sucateamento da escola para garantir direitos que muitos
necessitavam de fato: um lugar arejado e quieto para o estudo, merenda regular e com um mínimo
de qualidade, equipamentos para os cursos técnicos, dentre outros. O aumento do investimento
público, somado ao ingresso do setor privado nos cursos técnicos trouxe um ar corporativo à escola,
que passou a mudar progressivamente de perfil. Antes assemelhava-se a um misto de universidade
com escola pública; depois passou a ser cada vez mais parecida com algum centro técnico privado.
A percepção que eu tinha, à época, do que significava a experiência da adolescência, era
majoritariamente influenciada pelo convívio na escola, pela questão do tempo que eu passava lá.
Cursava o ensino médio em um turno, e o técnico em outro, portanto ficava praticamente o dia todo
na escola. Não mais restrito apenas ao convívio de pessoas do bairro, fechadas em si mesmas numa
espécie de bolha criada pelo conforto e pelos privilégios, aprendi o quanto a cidade é grande e as
pessoas podem tornar-se diferentes, muito além daquilo que eu havia sido habituado a ver.
Apesar das recordações que partilho aqui serem em todo caso a posteriori, redigidas a partir
de um recorte atual da vida, vejo em mim e naquelas pessoas com quem eu costumava conviver
todos os elementos misturados, de conservadorismo e desejo de invenção, de mudança. Acredito
que a adolescência pode ser esse período de desenvolvimento da sensibilidade, da inteligência e da
criatividade, quando as condições para tal são minimamente preservadas ou cultivadas. De acordo
com as necessidades, os desejos e as limitações de cada um, vi meus amigos e colegas tomarem
destinos imprevisíveis em ambos os sentidos, e percebo o quanto o apoio (ou a falta dele) dos
adultos nesse período de formação possibilitou a concretização de futuros possíveis.

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