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TRABALHANDO COM AS EMOÇÕES

por Lama Gendun Rinpoche

“Estamos sempre prontos para deixar nossa mente ser dominada por esses estados
emocionais. Mas quando se trata de realmente experimentar o sofrimento resultante,
ficamos menos entusiasmados.”

Este ensino foi ministrado pelo Lama Gendun Rinpoche em Dordonha, França, no
verão de 1990. Lama Gendun é de origem tibetana, um dos monges que teve que fugir
de seu país, quando os chineses invadiram o Tibete. Muito conhecido por sua
habilidade como um meditador que passou muitos anos em refúgio no Tibete e na
Índia, ele foi convidado para Dordonha nos anos 70 para ensinar meditação aos
ocidentais interessados.
Desde então, Lama Gendun Rinpoche, fez do país sua própria casa, e no momento
está inteiramente voltado em orientar seus alunos durante o retiro de três anos, para o
qual, ele tem sete centros em Auvergne.

PREFÁCIO

A Noção de Tendrel

By Anila Rinchen Palmo

Tendrel é uma palavra tibetana que carrega consigo a ideia de um conjunto complexo
de causas inter-relacionadas que produzem algo, cuja existência depende
inteiramente da presença contínua dessas mesmas causas.

Em reconhecimento à fecundidade da relação interativa entre professores e alunos no


centro espiritual, Dhagpo Kagyu Ling, o ensinamento sobre Tendrel foi escolhido como
o título de sua revista, iniciada em 1982. Nos últimos dez anos, a Tendrel tem dado
aos franceses membros falantes do centro, publicações e transcrições do ensino
ministrado por Lamas visitantes ou residentes. Apesar do fato de que grande parte do
material original estava em inglês - o ensino foi dado nesse idioma, ou a tradução
original era do tibetano para o inglês - até agora era impossível imaginar uma
publicação semelhante na língua inglesa.
No entanto, para comemorar os dez anos de atividade, da Tendrel a editora do Centro
Dzambala, realizou esta edição especial de dois dos ensinamentos mais importantes
da última década.

Tive o privilégio e o prazer de realizar a tarefa de compilar, editar e traduzir, as duas


obras aqui apresentadas. Espero que sua alegria em aprende-los, seja igual à minha
em prepará-los.
TRABALHANDO COM AS EMOÇÕES
UMA MUDANÇA DE EXPRESSÃO

© Editions Dzambata

Os direitos de Gil são reservados, nem o texto nem as ilustrações podem ser
reproduzidos ou traduzidos sem a permissão por escrito do editor. ISBN 2 - 906940 -
08 – 9. Ilustrações de Max e Gerard Muguet: fotos de Bernard Boulanger e Bertrand
Villeneuve, os desenhos nas páginas 2, 72 e 103 são reproduzidos de ‘La peinture
tibétaine’ com "a gentil permissão do editor.
O texto em que se baseia o ensino é uma obra de Chagme Rinpoche, um lama culto e
experiente do século XVII. Incansável em seu trabalho de compilar a diversidade do
material escrito: disponível em sua época e transformando-os em manuais coerentes,
devemos a ele muitos comentários usados ainda hoje por sua exatidão e clareza.
Entre suas obras mais conhecidas está Mountain Teaching, uma coleção de conselhos
sobre uma ampla gama de tópicos relacionados à prática espiritual e à vida em retiro,
totalizando cerca de seiscentas páginas. Sua orientação é organizada em capítulos
independentes de acordo com o assunto, e um deles diz respeito às emoções. Ele
entra no capítulo, O Grande Pavão. O livro refere-se à fábula do pássaro e a sua
capacidade de comer veneno e transmutá-lo.” Nas cores perfurantes de sua
plumagem é um símbolo muito empregado no budismo tibetano para o processo
espiritual de transformação de energia emocional, em energia de sabedoria.

1. ABANDONANDO AS EMOÇÕES.
2. REMEDIANDO AS EMOÇÕES.
3. TRANSFORMANDO AS EMOÇÕES
4. VENDO A VERDADEIRA NATUREZA DAS EMOÇÕES.
5. USANDO AS EMOÇÕES COMO UM CAMINHO ESPIRITUAL
CONCLUSÃO
O QUE É UMA EMOÇÃO?

Antes de prosseguirmos, é importante deixar claro o que queremos dizer com a


palavra Emoção?
Usamos a palavra Dally, para descrever algo que pode ser identificado de forma
avermelhada, um sentimento definido na mente que é, tanto uma reação quanto uma
força motriz. No budismo, entretanto, a emoção é muito mais do que isso. É um
estado mental, que se inicia no instante em que a mente funciona em um modo
dualístico, muito antes que nos estejamos conscientes do que de fato esta se
passando.

A emoção, é o apego habitual que nos faz categorizar automaticamente nossas


experiências de acordo com o que nosso ego acha atraente (desejos), não atraentes
(raiva) ou neutras (ignorância). Quanto mais apego houver, mais fortes serão nossas
reações, até que chegam a um ponto em que finalmente penetram em nossa mente
consciente e se manifestam como os sentimentos óbvios que geralmente chamamos
de emoções.
As reações acima são denominadas de, os três venenos, os quais podem ser
somados, uma vez que de consideramos nossa própria experiência como
predominante (orgulho), e de julgar nossa própria posição em relação ao objeto
percebido (ciúme), para dar os cinco pólos. A palavra veneno é usada porque essas
reações envenenam nossa mente e impedem o aparecimento de sua sabedoria
intrínseca.

Ao ler as - instruções de Chagme Rinpoche expressas por Lama Gendun, devemos,


ser bastante cuidadosos em entender cada palavra, para as cinco emoções no sentido
mais amplo possível. Quando não observamos corretamente, podemos tornar o
aprendizado mais difícil ou mudar completamente, o significado do ensinamento.

INTRODUÇÃO

O texto do qual este ensinamento trata sobre as emoções e foi extraído e composto
por Lama Chagme Rinpoche. É apenas um capítulo de uma grande obra que consiste
em conselhos práticos destinados principalmente para aqueles que praticam retiro nas
montanhas em tempo integral. Este capítulo específico é intitulado O Grande Pavão,
aquele que vence os venenos.
Aqui poderemos encontrar muitas instruções inestimáveis sobre o que fazer com os
cinco venenos: como abandoná-los, controlá-los e transformá-los, como reconhecer
sua verdadeira natureza de sabedoria e, finalmente, porque interpretamos as emoções
como nossa dor.
O autor começa com uma homenagem ao Buda Shakyamuni: ele se prostrou diante
de Shakyamuni, com uma profunda devoção com seu corpo, fala e mente.
Shakyamuni é considerado por ele o Buda perfeito que sabe tudo o que há para saber
sobre o Universo, e o qual foi o primeiro, que compartilhou sua compreensão com os
outros, na forma das Quatro Nobres Verdades.
Ele então explica que as instruções dadas neste capítulo têm sua origem em um
pedido de um de seus discípulos, Lama Karma Tsundru Gyamtso. Ele procurou o
autor em desespero porque, apesar de todos os seus esforços, ele foi incapaz de livrar
sua mente dos cinco venenos, e portanto, pediu a Chagme Rinpoche, para ser gentil o
suficiente, para lhe dar alguma orientação especial que o permitiria evitar ser
influenciado por essas emoções. O capítulo que temos aqui é a resposta de Chagme
Rinpoche.
Aqui encontramos em quatro, as seções importantes. Devemos começar
abandonando os cinco venenos, e então aprender a controlá-los, através da aplicação
dos remédios apropriados para cada veneno. Mais tarde, seremos capazes de
reconhecer a verdadeira natureza da emoção como sendo uma energia de sabedoria,
que nos levará finalmente, a usar as emoções para que se tornem uma forma de
promover nosso progresso espiritual.

O ensinamento sobre abandonar as emoções atinge fortemente o âmago do que há de


errado com elas. Se quisermos trabalhar com as emoções, temos que começar,
sabendo por que temos que fazer algo sobre elas. Isso pode parecer óbvio, mas na
verdade não é tão fácil. Algumas emoções são bastante agradáveis, estar sem elas é
quase incompreensível.

O que acontece conosco quando não temos nenhuma emoção?

O ensinamento especial do Vajrayana, nos diz que a emoção em si, não é um


problema. É simplesmente atividade mental, energia em movimento, que se torna
positiva ou negativa de acordo com nossa reação a ela.
Se esta energia da mente ocorre em um estado de confusão, um estado de apego ou
resistência, teremos o que normalmente chamamos, de 'emoções' que dão origem, por
sua vez, a diferentes formas de sofrimento. Se, no entanto, esta mesma energia
manifesta-se sem confusão, evita completamente tornar-se emocional e opera como
uma atividade de sabedoria que beneficia os seres vivos.
Isso é particularmente importante para os ocidentais entenderem, a fim de evitar
interpretações errôneas da ideia de estar livre de emoções. Portanto, muitas vezes é,
aconselhável começar com algum conhecimento teórico da abordagem Vajrayana
para que, quando falarmos sobre livrar-se das emoções, abandoná-las ou transformá-
las, saibamos que isso não significa nos tornarmos um zumbi, insensível e obtuso.
Significa desistir das reações confusas que temos com a atividade dessa energia
natural de nossa mente.
Outro ponto essencial é ser muito claro sobre o que significa abandonar uma
emoção?
É reconhecer que uma emoção é algo que termina em sofrimento. Visto que, de modo
geral, o sofrimento é exatamente o que estamos tentando descobrir ao máximo,
devemos desenvolver um conjunto de atitudes que permitirá que nossa mente seja
livre de emoções tanto quanto possível.
Abandonar as emoções, não significa impedir que ocorram, como quando deixamos
nossa mente muito tensa, recusando-nos a reconhecer nossas emoções e
desenvolvendo uma fina camada de proteção contra todas as atividades emocionais
da mente, acabaremos com uma mente tão tensa que se expõe a distúrbios
psicológicos profundos. Por esta razão, devemos ter cuidado para não confundir e
abandonar as emoções, com suprimi-las.
Compreender o lado não atraente de nossas emoções, nos torna mais afiados para
desistir delas. Diminuindo o poder das emoções, transformando-as em algo menos
importante, ao fazer isso, criamos uma distância - entre nós, e a emoção à medida que
ela ocorre. Com esta "abordagem, ao invés de apenas seguir uma emoção, quando “o
eu" aparecer, devemos parar e pensar:

“Veja esta emoção”!

Se você continuar reagindo a cada emoção que se apresentar, então o sofrimento


será sua única consequência, e essa atitude não vai deixar passar sem contestação.”
Esse distanciamento da emoção é o espaço que nos permite trabalhar com o SE, com
a possibilidade.

1. ABANDONANDO AS EMOÇÕES

A primeira seção sobre o abandono dos cinco venenos ou emoções centra-se no


esboço das quatro nobres verdades dadas pelo Buda em seu primeiro ensinamento.
Nele existe uma definição de sofrimento e a causa desse sofrimento e apontada. Buda
explicou que, se quisermos parar de sofrer, tudo o que precisamos fazer é parar o que
está causando o sofrimento, e a maneira de fazer isso, é nos comportando de maneira
virtuosa. ‘Considere-se um exemplo’, recomendou ele, ou seja, trate os outros como
gostaria de ser tratado. Temos plena consciência de que não gostamos de ser
magoados, por isso podemos compreender facilmente que os outros pensam da
mesma forma, e deixar de feri-los com a mandíbula do Karma.
O Buda nos ensinou que tudo no Universo, seja o que for, é o resultado natural de
uma ou várias causas diferentes. Por causa disso na lei natural, a lei do Karma,
aprendemos que nós mesmos e o mundo em que vivemos somos simplesmente, o
resultado de nossos atos anteriores. O mundo é criado por nossa mente e percebido
de acordo com a ilusão produzida por nossas ações anteriores, nosso Karma.
O tipo de mundo que a mente projeta, assim como um sonho, vai depender do nosso
Karma. Por exemplo, certos seres experimentam um estado de existência em que
sofrem constantemente, não há sequer um minúsculo momento de felicidade. Nós os
encontramos no Hells, no mundo dos fantasmas famintos ou dos animais. Isso se
deve, ao fato de que por um longo tempo eles nunca realizaram nenhuma ação
positiva. Seu mundo ou sua existência é o resultado de um longo período de atividade
negativa que produziu uma experiência de mundo caracterizada pelo sofrimento.
Encontramos no ensinamento do Buda alguns questionamentos, como por exemplo:
"De onde vem o piso de metal fundido em chamas do inferno, o que produz as chamas
no inferno? E a resposta é, pura e simplesmente a mente autocentrada.
Autocentrismo, é a atitude da mente que dá origem a ações negativas. O mundo que
habitamos é simplesmente a manifestação ilusória de nossa mente. É a nossa mente
que cria o mundo, no qual nos encontramos e se nossa mente estiver cheia de Karma,
negativo, os resultados de nossas ações negativas anteriores, então o mundo
projetado por essa mente será desagradável e cheio de sofrimento.

Não existe apenas um único inferno, mas dezoito deles, cada um com seu tipo
particular de sofrimento. E por que é isso?
Porque os seres vivos que nasceram em tais estados acumularam no passado,
diferentes “tipos de más ações em diferentes graus, e é por isso que não existe
apenas um único estado de sofrimento infernal, mas dezoito deles. O mesmo se aplica
ao reino dos fantasmas famintos.
Diz-se que existem quatro categorias específicas de fantasmas famintos, cada um
com sua forma especial de sofrimento, todos eles relacionados à fome e à sede.
Podemos ver por nós mesmos a grande variedade de seres pertencentes ao reino
animal, sabemos que alguns vivem no mar, alguns em terra, alguns passam a vida no
ar. Alguns deles sofrem em particular por serem possuídos e explorados por seres
humanos, outros são livres, mas vivem com medo de serem perseguidos.
Se voltarmos nossa mente dos reinos inferiores de existência, para os reinos
superiores, vemos a mesma coisa. Em nosso próprio reino, o reino humano, podemos
ver que algumas pessoas são felizes, enquanto a vida de outras contém um grau
muito maior de sofrimento. Isso ocorre porque no passado aqueles que estavam
destinados a nascer como seres humanos e realizaram uma mistura de ações
positivas e negativas, que amadurecerão esporadicamente durante a vida humana
como felicidade ou sofrimento, razão pela qual este mundo não é de felicidade total e
nem um de sofrimento total.
É dito que os seres nos reinos inferiores são tão numerosos quanto os grãos de solo
encontrados em um grande pedaço de Terra, em comparação com os que renascem
como humanos ou deuses são tão numerosos quanto os grãos de solo cobrindo uma
superfície do tamanho de uma unha do dedo.
Mas, por que isso acontece?
A razão para que isso aconteça, é que são poucos os seres no universo que praticam
ações positivas, daí a disparidade nas populações dos diferentes reinos. Você pode
achar que é melhor não pensar no sofrimento, porque, ao fazer isso, só ficamos
deprimidos, mas essa atitude é completamente falsa, estamos simplesmente nos
enganando. Se evitarmos pensar sobre o sofrimento, nunca poderemos ser realmente
felizes, pois estaremos evitando a confusão mental, que está na raiz de nossa miséria
atual.

Assim que avaliarmos a quantidade de sofrimento no Universo, nós nos sentiremos


estimulados a fazer algo para acabar com ele. Seria verdade dizer que nossos
maiores aliados em nossos esforços para alcançar o estado de Buda, são aqueles que
estão neste momento suportando os tormentos dos infernos, porque é refletindo sobre
o sofrimento que eles estão passando, que nos somos motivados a alcançar o estado
de Buda o mais rápido possível. Sua dor é nosso estímulo espiritual e, como tal, é
muito valiosa para nós.
Aprendemos também com o Buda que, se quisermos conhecer nosso passado, só
precisamos olhar para quem somos agora, e para ver o que seremos no futuro,
precisamos simplesmente olhar para nossas ações presentes. Isso significa que, se
realmente queremos saber, que tipo de pessoa fomos em nossas vidas anteriores,
devemos olhar para nossa vida presente, quanto sofrimento temos? Como esse
sofrimento se apresenta? Quanta felicidade experimentamos? Então seremos
claramente capazes de deduzir que tipos de ações fizemos antes do início desta vida.
E se quisermos ver o que vai acontecer conosco após a morte, uma vez que sabemos
que tudo o que fizermos nesta vida, vai determinar nosso futuro estado de existência,
um vislumbre de como temos nos comportado nesta vida nos dirá o que nos
tornaremos.
Isso ocorre porque a lei do Karma, é algo bastante imparcial, qualquer ação produzirá
o mesmo resultado para todos, seja quem for. O que não implica dizer que as ações
que realizamos são perdidas ou esquecidas, cada ato produz o resultado
correspondente, mais cedo ou mais tarde.
Devemos nosso conhecimento desta lei do Karma, à onisciência de Buda. Tendo visto
o funcionamento desta lei em sua meditação profunda, ele então os explicou
claramente, em seus ensinamentos, para que outros também pudessem ser
beneficiados com este conhecimento e usá-lo para moldar seu futuro, Karma e
felicidade. Todos os seres humanos compartilham as mesmas aspirações, todos nós
queremos ser felizes e evitar o sofrimento. Mas, apesar de todos os nossos esforços
para impedir que qualquer tipo de infortúnio nos sobrevenha, descobrimos que somos
vítimas das circunstâncias, desamparados diante dos acontecimentos. Este
sentimento de desamparo, é devido ao funcionamento da lei do Karma. Se estamos
felizes agora, ou sofremos agora, isso já esta determinado pelas ações que realizamos
no passado, e é por isso, que esse sentimento de não poder fazer nada em relação à
nossa situação atual é bastante justificado. Estamos lutando em vão, simplesmente
porque não entendemos que algumas coisas na vida são pré-determinadas.

Ao invés disso, devemos nos preocupar com nosso futuro e mudar a maneira como
nos comportamos agora, para que corresponda ao tipo de futuro que desejamos. Se
quisermos ser felizes no futuro, devemos praticar ações positivas agora, se quisermos
evitar o sofrimento no futuro, devemos agora evitar ações negativas, só assim
conseguiremos os resultados que procuramos.
Os frutos de nossas ações são infalíveis, eles sempre corresponderão à natureza
original da ação. É como plantar sementes, se plantarmos as sementes de uma
macieira e de uma laranjeira, quando as sementes crescerem em suas respectivas
plantas, os frutos que aparecem nas árvores corresponderão à semente original
plantada, o mesmo se aplica à lei do Karma.
Quaisquer ações que realizemos irão amadurecer na forma de felicidade ou sofrimento
de acordo com a semente lançada no momento do ato original. Não há como alterar
essa lei natural. Portanto, é importante escolher cuidadosamente as ações que
realizamos se quisermos ser felizes e evitar o sofrimento.
O que torna uma ação positiva ou negativa é a atitude mental que temos quando
agimos. Se estivermos pensando principalmente em nós mesmos quando agimos,
nossa ação será contaminada pelo apego ao ego, então, torna-se uma ação negativa
que traz sofrimento em seu rastro. Se, no entanto, nossa única intenção é ser útil para
outra pessoa, a ação será positiva e produzirá felicidade, simplesmente porque não
houve ego-conscientização envolvida enquanto ela foi realizada.
Todas as diferentes formas de felicidade que vemos no mundo - riqueza,
contentamento, harmonia, criatividade e assim por diante – só são possíveis pela
bênção dos Budas. É isso que move os Bodhisattvas, em suas aspirações para ajudar
outros seres a seguir o caminho do Buda.
Um Bodhisativa, é alguém que vive para os outros, e é destituído de interesses
próprios. Este é o ideal espiritual das escolas Mahayana, o caminho espiritual para
desejar que todos os seres vivos no futuro possam encontrar, facilmente tudo o que
precisam, que tudo o que os faria felizes aconteça, que quaisquer desejos que eles
tenham possam ser realizados. Os Bodhisattvas, dedicam todo o mérito que
acumulam para que todos os seres vivos possam encontrar o estado desperto que
procuram, e como resultado desses desejos especiais fundados na prática da virtude,
que este mundo tem tal potencial para a felicidade.
Mas cada indivíduo só pode se beneficiar dessa felicidade, se tiver acumulado um
bom Karma anteriormente. Há muitos que não estão felizes, que sofrem, estão em
dificuldades ou são pobres, isso não é devido à ineficácia das aspirações dos
Bodhisattvas, mais sim, por más ações realizadas no passado por aquela pessoa em
particular e significam que, essas pessoas não poderão ser beneficiadas por meio do
acúmulo de mérito ou das práticas e aspirações feitas pelos Bodhisattvas.
Nós também devemos seguir o exemplo dos Bodhisativas, para acumular tantos atos
virtuosos quanto possível e dedicar seus efeitos à felicidade de todos os seres vivos
do Universo. Depois de tal dedicação, devemos então continuar a praticar a aspiração
de desejo espontâneo e atingir, dessa maneira o estado desperto, ou estado de Buda.
Assim como fazem os Bodhisattvas, formulando orações para que por meio desse
mérito, todos os seres vivos possam desfrutar da felicidade e que nunca precisem
passar por qualquer tipo de necessidade. Dessa forma, gradualmente nos treinamos
para ser Bodhisattvas, seguindo o exemplo que eles nos dão.
Entre as seis categorias de existência que compõem o universo, encontramos os
reinos divinos, céus onde todos os que ali nascem, experimentam, durante sua vida
como um deus, felicidade total. O sofrimento é desconhecido para eles, o que leva
alguém a nascer como um deus? É o acúmulo de mérito passado desses seres, mérito
não associado à sabedoria (consciência desperta), durante o acúmulo. É mérito
limitado por conceitos, pontos de referência para a mente, que a mantêm presa ao
reino do sujeito, objeto e ação.
A pessoa que cria esse tipo de mérito não entendeu, como deixar a mente descansar
em um estado de sabedoria, livre das ideias limitantes de sujeito, objeto e ação. Ele é
incapaz de dedicar o mérito que acumula aos seres vivos, como resultado, é que se
amadurece no renascimento, como um deus. A felicidade encontrada, não é
duradoura, mais cedo ou mais tarde ele se exaurirá, e nesse ponto, sem nenhum
mérito adicional sobrando para ele, esse ser, inevitavelmente cairá nos estados
inferiores de existência onde seu sofrimento não conhecerá limites.

Podemos ver, portanto, que esse tipo de felicidade não é confiável, então não
devemos ter como objetivo esse renascimento. Em vez disso, devemos dedicar todo o
mérito que acumulamos para o benefício dos seres vivos e deixar a mente descansar
após cada dedicação em um estado de completa abertura, livre de todos os pontos de
referência. Nesse estado, a mente está livre de se apegar a ideias de sujeito, objeto e
ação, o mérito que acumulamos nunca pode ser gasto, torna-se inesgotável. Se
quisermos ser sinceros em nossa prática dos ensinamentos do Buda, temos que
deixar ir completamente todas as nossas preocupações, com as coisas deste mundo e
nos devotar inteiramente, no corpo, fala e mente, para nossos objetivos espirituais.
Devemos dedicar, os resultados de tudo o que fazemos, para o benefício de outros
seres vivos. Se nos comportarmos desta forma, iremos progredir gradualmente
através de todas as diferentes etapas no caminho de um bodhisattva, até chegarmos
a: “Toda a nossa vida está repleta de frustração. Quando chove, não gostamos do
molhado, quando não chove, nos preocupamos com a seca. Nada é perfeito."
Iluminação suprema e perfeita, nesse momento estamos totalmente livres de todo o
nosso sofrimento e, somos plenamente capazes de libertar os outros dos seus
sofrimentos. Nossa atividade torna-se tão ampla quanto o céu, podemos atuar sem
qualquer limitação, com muitos recursos até então desconhecidos à nossa disposição.
Portanto, é muito importante conhecer e confiar no funcionamento dessa infalível lei do
Karma, a lei de causa e efeito. Somente quando tivermos compreendido totalmente,
essa lei, poderemos avaliar a natureza insatisfatória da existência cíclica, emoção e
ego.
Em última análise, o ciclo de existência está vazio de qualquer realidade verdadeira,
mas enquanto a mente está nublada pela ignorância, ela permanece inconsciente
disso, e cria uma realidade própria. Desenvolve-se na mente de cada indivíduo uma
ideia muito sutil de um ego ou um eu, um senso de identidade que gradualmente se
solidifica no que chamamos de "apego ao ego".
A ideia de um EU, implica automaticamente uma ideia de "o outro", e nos encontramos
operando em um mundo de dualidade. Nossa mente é influenciada como quando
julgamos o relacionamento entre nós e os outros. Consideramos algumas pessoas
próximas de nós, outras distantes, sentimos apego por alguns e ódio por outros. Essas
reações fazem com que a mente seja, constantemente perturbada pelos cinco estados
emocionais básicos, e isso faz com que nosso comportamento produza
sistematicamente uma reação. À medida que essas reações múltiplas amadurecem,
elas determinam a forma do mundo ao nosso redor.
Então, na verdade, o mundo em que vivemos nada mais é do que o produto ilusório da
atividade iludida da mente, é a criação da mente, sem nenhuma realidade verdadeira.
Mas enquanto não entendermos isso, estaremos convencidos de que existe e,
portanto, quando agirmos, o faremos completamente convencidos de que nossas
ações são importantes, que terão algum impacto no mundo ao nosso redor.
É como estar dormindo e sonhando, no sonho, estamos convencidos de que o mundo
criado pela mente é real e por isso usamos nossa energia realizando todos os tipos de
ações para alterar o curso dos eventos no sonho. Quando não temos sucesso,
sofremos e nos sentimos frustrados. É difícil para nós pensarmos na ignorância como
uma emoção, mas se pensarmos com cuidado, podemos ser influenciados pela
ignorância tanto quanto pelo desejo ou pela raiva. A ignorância não é algo neutro, sem
efeitos ou consequências, é um estado de espírito definido que nos faz agir de uma
determinada maneira.
Ignorância é quando somos incapazes, de ver as coisas como realmente são, isso
pode ser consciente ou inconsciente, a incapacidade de reconhecer o que está
acontecendo, por vezes elogiada como inocência, ou talvez um sentimento definido de
indiferença, mesmo deliberadamente, por não querer saber. Pode variar desde a
confusão geral sobre o que realmente está acontecendo até a formação de visões
errôneas definitivas. Também existe um certo elemento de apego a ignorância que
pode até ser bastante confortável (‘Ignorância é bem-aventurança). Se olharmos para
nós mesmo de perto, encontraremos essa atitude em muito de nosso comportamento.
Do ponto de vista budista, a ignorância é tudo menos bem-aventurança e inocência.
Na verdade, é a principal causa de nosso sofrimento, e é por isso, que a encontramos
firmemente incluída nos cinco venenos, é exatamente o que está acontecendo durante
nossa vida desperta.
Todas as diferentes ações que realizamos em nossas vidas diárias, têm o objetivo de
nos ajudar a realizar nossos desejos, mas muitas vezes nossos esforços permanecem
sem sucesso, mesmo que obtenhamos o que buscamos, seremos confrontados com
sua possível perda. O que quer que façamos para evitar uma situação, ainda assim,
podemos ter que enfrentá-la, outras vezes, faríamos qualquer coisa para que uma
situação acontecesse, mas ela nos escapa.
Toda a nossa vida é repleta de frustração, quando chove, não gostamos do molhado,
quando não chove, preocupamo-nos com a seca. Nada é perfeito, todas essas
reações diferentes são devidas às demandas do ego, e é por isso que o Buda ensinou
que o apego ao ego está na raiz de toda a existência cíclica.

Todas as emoções fundamentais que experimentamos - desejo, raiva, ignorância,


ciúme e orgulho - são projetadas para produzir algum tipo de benefício para o ego.
Quando agimos impulsivamente por causa de uma emoção, é para manter a
existência do ego. Isso nos leva a realizar muitas ações não virtuosas em apoio ao
nosso ego, e tudo isso termina em sofrimento. No momento da morte todos os bens,
poder ou riqueza que gastamos, tudo por tanto tempo acumulado terá que ser deixado
para trás. Por outro lado, não queremos levar conosco os resultados de todas as
ações negativas que realizamos, no caso do ego, mas infelizmente não temos
escolha. O Karma que acumulamos nos segue, e é nesse ponto que começa a nos
causar grande sofrimento, se pensarmos cuidadosamente, sobre a natureza
insatisfatória da existência mundana comum, reconheceremos que ela é caracterizada
pelo sofrimento. Devemos, portanto, visar diretamente ao estado de Buda e desviar
nossas mentes dos valores mundanos. Nesse caso, existe uma base sólida para
nosso caminho espiritual, é por isso que se diz, que a renúncia, são as pernas de
nossa meditação com as quais caminhamos para a iluminação plena.

Como seres humanos, muitas vezes temos que tomar uma decisão sobre o caminho
que devemos seguir. É como se estivéssemos em uma bifurcação, podendo ir para a
direita ou para a esquerda. Como escolher? Depende da quantidade de consciência
ou ignorância em nossa mente, se permanecermos na ignorância, ainda estaremos
convencidos de que podemos encontrar felicidade duradoura neste mundo, então
todos os nossos esforços são direcionados para nos tornarmos felizes ou evitar o
sofrimento.
No entanto, embora permaneçamos ignorantes das realidades do mundo, todos os
nossos esforços serão em vão, não podemos criar felicidade a longo prazo.
Continuamos a sofrer de uma vida para outra, circulando por uma forma de sofrimento
após a outra. Se, no entanto, escolhermos a consciência, isso significa que a nossa
compreensão, é de que o ciclo da existência é caracterizado pelo sofrimento, a única
maneira de acabar com o sofrimento de uma vez por todas é ir para o estado de Buda
e transcender completamente a existência mundana comum. Esta é a decisão que
devemos tomar como ser humano, e é algo que devemos fazer agora, se quisermos
que tenha algum efeito sobre nosso futuro. Se esperarmos até o momento da morte,
será tarde demais.

As quatro nobres verdades e as emoções.

Vimos que devemos todo o nosso sofrimento às nossas ações não virtuosas, qualquer
ação realizada enquanto a mente é influenciada por um, ou outro dos cinco venenos, é
automaticamente uma ação negativa e levará ao sofrimento. Essas ações, motivadas
pelas emoções perturbadoras, são ações que devemos abandonar, até que o
façamos, teremos que viver o sofrimento desta existência atual.
Para apreciar plenamente esta, é a primeira das quatro nobres verdades, a nobre
verdade do sofrimento, e por causa da tendência persistente, que temos de nos
apegar à ideia de um eu ou um ego, considerando sempre nosso próprio corpo com
seus cinco psico-físicos. Os constituintes psico-físicos (skandhas em Sanscrito), são
forma, sentimento, percepção, associações mentais e consciência. Que entendemos
como, "constituintes dos nossos eus’, esta é a nossa própria pessoa, nós nos
identificamos com ela.
Essa atitude é a causa do nosso sofrimento, porque por meio dela, nossa mente será
constantemente agitada pelas emoções, e são precisamente o que nos levará a agir
de forma negativa, trazendo sofrimento em seu rastro. O reconhecimento desse fato é
a nobre verdade da causa do sofrimento. Os cinco venenos são a causa do nosso
sofrimento porque é por meio deles que cometemos ações negativas.
Se pudessemos acabar com os distúrbios emocionais em nossa mente, poderíamos
então estar livres do sofrimento. Esta é a nobre verdade da cessação do sofrimento,
trabalhando nosso caminho através dos diferentes estágios do caminho ensinado pelo
Buda, finalmente seremos capazes de alcançar a iluminação, onde toda oposição, as
cinco emoções incluídas, serão finalmente superadas. Esta é a nobre verdade do
caminho, o caminho que nos conduz para fora do sofrimento. Temos aqui, em resumo,
os pontos essenciais do primeiro ciclo de ensino que o Buda, Shakyamuni, deu em
Benares, alguns dias após sua iluminação.

As emoções e o renascimento

O texto prossegue explicando que, se nossa mente for influenciada pela emoção do
desejo - apego, isso acabará resultando no renascimento de um fantasma faminto:
influenciado por uma forte raiva, renasceremos nos infernos. Se nossa mente é
dominada pela ignorância ou embotamento mental, a vida como um animal nos
espera. Por meio do ciúme, renasceremos como um semideus, enquanto o orgulho,
leva a uma existência como um deus ou como um ser humano. Essas são apenas
indicações gerais relacionadas a estados emocionais muito fortes. Não significa, por
exemplo, que toda vez que estivermos com raiva, nasceremos no inferno. A lei do
Karma é muito mais sutil e complexa do que isso.

É apenas se nutrirmos uma raiva intensa por um longo período ou em um período


crítico, como no momento da morte, que vamos cair diretamente nos infernos como
resultado. Em outras circunstâncias, a raiva pode produzir o renascimento como um
semideus, onde há muitas brigas, ou podemos nascer como um ser humano e nos
encontrarmos frequentemente no meio de um conflito. Talvez nos tornemos alguém
cuja raiva apareça rapidamente, de alguém com uma personalidade muito agressiva.
A mesma coisa pode ser dita de ‘compreender a lei de causa e efeito nos ajuda a
perceber por que algumas emoções são mais ativas e poderosas em nós do que todas
as outras emoções.
Embora cada emoção seja predominante em um determinado estado de existência,
como foi explicado, nós as encontramos todas, até certo ponto, em todos os lugares.
Se nascemos em um dos três reinos inferiores - os infernos, o reino dos fantasmas
famintos ou o mundo dos animais - os tormentos ali são insuportáveis e continuam
sem interrupção.
Mesmo se nascermos nos reinos superiores como um deus, semideus ou ser humano,
seremos felizes até certo ponto, mas é temporário. Por causa de seu estado de
impermanência, se quando ouvirmos conselhos, lembrarmos apenas dos agradáveis,
obvio que, alguns parecerão mais agradáveis que outros, porque nos permitem ficar
como somos, tudo o que acontece, é que o ego torna-se mais pronunciado”.

Nossa natureza, nossa felicidade arduamente conquistadas mais cedo ou mais tarde
será substituída pelo sofrimento, uma transformação que pode ocorrer muito
rapidamente. Nós próprios sabemos, que, como seres humanos, devemos enfrentar
as quatro características do sofrimento humano: nascimento, velhice, doença e morte,
tudo isso inúmeras vezes, sem qualquer possibilidade de libertação dessas dores
humanas. Na raiz de tudo isso está, a atividade das cinco emoções na mente, é por
isso que precisamos abandoná-las, se ainda precisamos ser convencidos, devemos
simplesmente olhar ao nosso redor para as pessoas que conhecemos. Podemos ver
por nós mesmos que cada pessoa tem uma emoção diferente e predominante em sua
mente.

Para alguns, é a emoção do desejo que é mais ativa e muito do sofrimento que eles
têm em suas vidas, vem das ações realizadas quando motivadas pelo desejo. Para
outros a emoção principal é a raiva, para outros ainda é o Ciúme, fazendo com que
cada pessoa reaja de forma diferente em cada situação. A razão pela qual, como
seres humanos, qualquer uma das cinco emoções principais pode predominar, é por
causa de nossas ações em vidas anteriores. Se no passado acumulamos atos
motivados principalmente pela raiva, agora descobriremos que a raiva é a forma mais
ativa de emoção em nós. O mesmo se aplica às outras emoções, compreender a lei
de causa e efeito, nos ajuda a perceber por que, para nós, algumas emoções são mais
ativas e mais poderosas do que outras. Essa pode ser uma das vantagens de
abandonar as emoções.

Quaisquer que sejam nossas emoções, é somente abandonando-as que podemos


evitar o sofrimento que elas causam. A ideia de abandonar as emoções, mesmo que
signifique também livrar-se do sofrimento a elas associado, é muito difícil para nós
aceitarmos. A razão para isso, é que somos motivados pelo apego ao ego e achamos
desagradável ouvir palavras de conselho que irão diminuir a influência do nosso ego.
Somente mantendo essas instruções em mente e refletindo sobre elas regularmente,
nossas atitudes serão gradualmente transformadas por sua aplicação e prática.
Se quando ouvimos conselhos nos lembrarmos apenas, das partes agradáveis que
nos parecem atrativas porque nos permitem ficar como somos, mais tarde, quando
tentamos realizar esses aspectos isolados, tudo o que acontece é que o ego se torna
mais forte, porque se escolheu as instruções que estão de acordo com o que
realmente deseja para si. Devemos, portanto, ter cuidado para não cometer esse erro,
mas aceitar o que Buda, ensina sem fazer uma escolha pessoal.
Aparentemente, estamos muito felizes em acolher as diferentes ideias que surgem
quando nossa mente é agitada pelas cinco emoções perturbadoras, deixamos nossa
mente ser facilmente dominada por esses estados emocionais, no entanto, quando se
trata de realmente experimentar o sofrimento que resulta nos três reinos inferiores,
ficamos menos entusiasmados.
Sempre que a mente é invadida por pensamentos relacionados aos cinco venenos,
não devemos simplesmente não fazer nada. Este é o momento de seguir as instruções
dadas pelo Buda Shakyamuni, sobre este assunto.

O Buda, é o Rei de todos os ensinamentos, e suas instruções devem ser consideradas


como as ordens de um rei poderoso, ordens que não podem ser desobedecidas sem
consequências graves. Ignorá-las trará muito sofrimento para si mesmo, se falharmos
em tomar o curso de ação correto diante das emoções, conforme aconselhado pelo
Buda Shakyamuni, nasceremos para muitas centenas e milhares de vidas nos reinos
inferiores, condenados a suportar seus sofrimentos. A atividade das cinco emoções
deve ser acalmada, e a única maneira de dominar as emoções é através da prática
dos ensinamentos de Buddha. Sem isso, as constantes perturbações e emoções
fortes continuarão a causar empecilhos para que caiamos nos reinos inferiores, onde
temos que experimentar muito sofrimento ao longo de muitas vidas como resultado.

Uma vez nascidos neste mundo, sabemos que mais cedo ou mais tarde teremos que
morrer e o momento da morte, não é uma experiência fácil de passar. Mas se não
seguirmos as instruções do Buda, a respeito das atitudes corretas em face das
emoções, do sofrimento que temos no momento, a morte será multiplicada por um
fator de cem mil. Ao aprender a modificar nossas tendências emocionais, entretanto,
se tivermos uma boa conduta ética, então, mesmo que morramos, é como se a morte
não existisse para nós, porque no momento da morte, renascemos instantaneamente
com um corpo belo, em uma existência muito agradável, evitando assim qualquer
sofrimento no momento da morte e de todas as reflexões para nos ajudar a abandonar
as emoções.
Se abandonarmos nossos compromissos e votos por apego a algo muito bonito ou
atraente, seremos como uma mariposa, tentada pela presença de uma lamparina de
manteiga, por causa de seu apego, a mariposa cairá na chama da lamparina de
manteiga e morrerá. Se permitirmos nos apegar a algum objeto agradável, estaremos
nos comportando como mariposas e criando nossa própria morte.

Quando a mente é invadida por uma massa inerte de emoções emaranhadas,


podemos nos apegar à vaga sensação de conforto e segurança, que é fornecido por
este estado de espírito. Mergulhar nessa sensação comum de felicidade é como
espalhar feno em cima de uma lareira, cujas brasas ainda estão quentes, e ir dormir. O
feno parece muito confortável e a pessoa gosta de sentir o calor fornecido pelas
brasas morrendo, mas uma vez adormecido, o feno pode explodir em chamas e nos
queimar vivos.
Se esquecermos os compromissos que assumimos em relação à nossa atitude em
relação à comida e bebida, e bebermos muito álcool ou comermos muita carne, o
prazer que se tem é como lamber o mel de uma lâmina de barbear, repleto de perigos,
pois poderemos, cortar nossas línguas. Podemos tentar suprimir inimigos poderosos,
matando-os ou roubando seus bens, mas nunca teremos sucesso em vencer todos
eles, pelo contrário, estamos simplesmente roubando nossa felicidade, não apenas
nessa vida, mas por um número incontável de vidas. Além disso, o mérito acumulado
durante muitas vidas, vividas por centenas e milhares de eras, pode ser destruído por
um único momento de raiva. Portanto, é muito importante abandonar a ideia de
inimigos e não pensar neles como algo a ser destruído ou derrotado a todo custo.
Se uma abelha se apega ao mel que ela faz, se adere a ele, não pode se libertar e
morre. Este exemplo nos mostra o que acontece se permitirmos, nos apegarmos à
felicidade e contentamento comuns deste mundo, ficaremos presos à existência cíclica
para nunca mais nos libertarmos. Por esta razão, devemos aprender a ter poucos
desejos e desenvolver a qualidade de contentamento, e ficar satisfeito com o que
temos. A emoção da ignorância, ou embotamento mental, se mostra na forma de
dormir, o sono é algo que nos rouba a oportunidade de nos envolver em ação virtuosa,
mesmo que vivamos por cem anos, uma longa vida por quaisquer padrões, cerca de
metade desse tempo foi gasto em um estado cadavérico, uma completa perda de
tempo.

Tradicionalmente, existem cerca de vinte falhas diferentes atribuídas ao sono, mas


todas se resumem, ao fato de que quando nós estamos dormindo, não podemos
praticar a virtude. Devemos, portanto, nos esforçar para dormir menos e aplicar mais
do nosso tempo para fazer algo mais positivo. "Outro aspecto do embotamento mental
é que somos incapazes de distinguir certo do errado, nós confundimos completamente
o que é o ensinamento do Buda, com o que não é, isso pode nos levar a desprezar o
verdadeiro Dharma, e elogiar o que não é autêntico. Tal erro é pode ser usado como
comparação a alguém faminto, comendo com uma lâmina afiada e cortando sua
língua. Seu ato não tem sentido, ele esta apenas, privando-se dos meios de apreciar o
sabor dos alimentos quando consegue algum. Se ouvirmos o ensino sobre a lei de
causa e efeito, o que deve ser abandonado e o que adotou, as qualidades e os
defeitos de diferentes aspectos de nossa vida diária. E ainda assim confundir seu real
significado, nossas visões tornam-se contrários aos do Buda.
Nós os transformamos em seus completos opostos, sustentando que, o que é falso
como verdade, e a verdade como não verdade. Se persistirmos teimosamente em tal
interpretação errônea, nós acumularemos um Karma, muito negativo que se tornará
impossível de purificar meramente por confissão, é por isso que não podemos nos
permitir continuar sendo influenciados por, embotamento mental ou estupidez ou
qualquer outra coisa que não seja autêntica.
Outra emoção com a qual temos de lidar é o ciúme. O texto diz, que se pelo desejo de
ser o melhor ou o mais importante, nos comportamos de uma forma ciumenta para
com os outros, corremos o risco de talvez macular um bodhisattva. Diz-se que não
existe mal pior do que este no Universo, ou consequências tão ruins as quais são
ainda maiores do que as que podem vir, de ter matado um ser humano. Para evitar a
possibilidade de isso acontecer, devemos abandonar qualquer ciúme que tenhamos
dos outros.
Alguém que faz votos monásticos pode desenvolver orgulho, e parabenizar-se por ser
puro e vítreo, alguém especial, sendo de longe, melhor do que a pessoa comum que
ainda se apega a ideias mundanas de riqueza. Qualquer pessoa com este sentimento
de superioridade, fará com que todas as suas virtuosas condutas, tornem-se impuras,
uma vez que fazemos votos, e nos tornamos parte da ordem monástica, o único
pensamento em nossa mente deve ser seguir alegremente os passos do Buda.

Não deve ser com a intenção de se tornar melhor ou mais puro do que outros,
qualquer pessoa que use as vestes monásticas, torna-se parte da Sangha, a terceira
das Três Jóias, nunca devemos desprezar tal pessoa, porque embora sua conduta
possa não ser exteriormente perfeita, não podemos ver dentro deles e realmente
entender sua motivação ou seu estado de espírito. O mesmo se aplica aos praticantes
ou a qualquer pessoa. Em vez disso, desenvolva uma visão pura, um entendimento
sincero de que todos os seres vivos tem a natureza de Buda. Não há razão para
desprezar qualquer ser vivo e pensar nisso como algo inútil. Mesmo o menor inseto
tem a natureza de Buda, e um dia se iluminará, é importante treinarmos
constantemente nossa visão, nesta visão imaculada que respeita profundamente
outros seres vivos.

De modo geral, faríamos bem em cultivar uma visão de nós mesmos que nos
considera inferiores a todos os outros seres vivos. Desta forma, nunca iriamos ser
vítima de sentimentos, como orgulho ou ciúme. Essas reflexões destinam-se a nos
encorajar a, abandonarmos os cinco venenos da mente, e dessa forma, chegamos ao
final da seção sobre o abandono das emoções.

Os métodos descritos nesta parte, são usados principalmente na tradição Sravaka, a


tradição dos ouvintes. As três joias, são os três refúgios preciosos de todas as formas
de sofrimento. Eles são o Buda, que representa o objetivo da iluminação, o Dharma,
que é cada aspecto do Buda ensinando, fornecendo o caminho e a Sangha, a
comunidade espiritual cujos membros atuam como guias até que a meta seja
alcançada. A tradição Sravaka, pertencente à escola Hinayana, traduzindo
literalmente, "ouvintes". Eles aspiram à libertação da existência cíclica por meio da
confiança nos ensinamentos canônicos do Buda.
Nossa prontidão para deixar de lado as emoções (os cinco venenos), e a iniciação na
amplitude e flexibilidade no evento emocional em nossas mentes. Essas são as
principais qualidades que resultam da prática de abandonarmos as emoções, isso
prepara a arena da mente para a batalha prestes a começar. Quando começamos a
nos interessar pelas coisas espirituais, nós paramos nossa decepção, para descobrir
que embora nos sintamos atraídos por certos ideais, ainda assim, temos grande
dificuldade em permanecer fiel a eles. Isso se deve a esmagadora influência que
nossas tendências "naturais" têm sobre nós, achamos que podemos nos comportar de
maneira inadequada, apesar de nossas boas intenções. Isso pode ser REMEDIADO,
apenas quando o hábito de fazer o bem torna-se tão forte, ou mesmo, MAIS FORTE,
que o hábito de fazer o mal, ou quando nossa força espiritual “recém-encontrada”,
começa a se fazer sentir.

EMOÇÕES.

É neste ponto que nossas qualidades internas têm a capacidade para influenciar as
emoções, à medida que aparecem em nossa mente. Somente como o antídoto
tomado para o veneno, tais qualidades podem modificar os efeitos das emoções.
Quanto mais poderoso o antídoto, melhor será a dispersão do veneno. No início,
devemos cultivar deliberadamente essas codornizes (um tipo de ave), uma vez que
eles estão longe do natural/ideal, para a nossa existência egocêntrica. Mas com tempo
e paciência, eles tornam-se tão inexpugnáveis, que vencem todas as vezes, em face
de nossas emoções. Chagme Rinpoche, nos diz quais são as qualidades específicas,
mais eficaz em neutralizar cada uma das cinco principais emoções. Uma vez que o
antídoto é conhecido, resta-nos fabricar e administrar, depois devemos aprender como
disciplinar as emoções através da aplicação dos remédios apropriados.
Meditações para remediar o desejo

Podemos desenvolver um grande desejo por um homem ou mulher em particular,


alguém de boa aparência por quem nos sentimos atraídos assim que o vemos. Vamos
observar a natureza exata da pessoa a quem estamos ligados. Na realidade, embora
ele ou ela possa ser exteriormente muito agradável de se olhar, dentro deles são
muitas as substâncias desagradáveis. A pessoa é como um vaso de ouro, repleto de
algumas substancias, tais como urina e excrementos, o corpo nada mais é do que um
saco cheio de uma lista habitual, de trinta e duas substâncias impuras. A parte
superior do corpo está cheia de sangue, pus e fluido cerebral. Já a parte inferior do
corpo está, cheia de urina e excrementos, bile e linfa. Se alguém realmente olha para
a pessoa, como ela realmente é, pode se perguntar o que de fato, você acha tão
atraente nele/nela.
O corpo também abriga 84.000 vermes que estão trabalhando constantemente para
destruir o corpo. Quando nos sentimos atraído por alguém que está no processo de
ser comido por vermes, não estamos cometendo um erro grave? Esta reflexão é
denominada como a contemplação profunda das impurezas do corpo. Quando
alguém morre e seu cadáver, é posto fora para ser comido por abutres selvagens, o
esqueleto fica bastante visível. Nós achamos isso horrível e intimidador, não queremos
estar perto disso, no entanto, este mesmo esqueleto está dentro do corpo quando
estamos vivos, em nosso próprio corpo, e no dos outros. Se ponderarmos isso com
cuidado, não iremos desenvolver desejo e apego por este esqueleto envolto em várias
outras partes do corpo vivo.
Também podemos imaginar que diante de nossos olhos está o cadáver de nossa
amado/a, com vermes rastejando por sobre seus corpos. Podemos também imaginar
vários cadáveres, em vários estágios de decomposição, alguns dos quais acabaram
de morrer, outros já parcialmente decompostos e exalando um odor fétido. Ainda e
possível observar um outro ângulo, que seria de meditar sobre um esqueleto que não
tem mais carne. As órbitas abertas de seus olhos completamente vazias,
mentalmente, nós podemos multiplicar o número de cadáveres uma e outra vez, até
que, toda a área à nossa frente esteja coberta de cadáveres. É importante realizar tais
visualizações com detalhes meticulosos.
Em outra versão, imaginamos nosso próprio corpo, ou o da pessoa a quem estamos
ligados dissolvendo-se progressivamente. Começamos com o exterior, a pele que se
derrete para revelar os órgãos internos, em um desfalecimento horrível, então um por
um, os órgãos desaparecem até que apenas o esqueleto seja deixado. Também
podemos imaginar que o corpo está virado do avesso para que todos os órgãos dentro
dele que normalmente não vemos, como os pulmões, coração, fígado e assim por
diante até que todos estejam expostos claramente. As últimas cinco meditações são
conhecidas como a contemplação profunda dos aspectos desagradáveis do corpo.

Qualquer um desses métodos, é considerado altamente eficaz na superação o veneno


do desejo, na verdade, este tipo de meditação também pode ser estendido para as
outras emoções. Sempre que estamos tentando superar nossas reações para
qualquer pessoa, seja favorável provocada por desejo ou desfavorável provocado por
raiva e repulsa. Este tipo da meditação pode destruir a emoção. Também supera o
orgulho, porque se meditarmos em nós mesmos, desta forma, todo o orgulho que
temos de nós mesmos como uma pessoa agradável desaparecerá. Diz-se que este
grupo de métodos inclui as principais meditações ensinadas em Vinaya. Na verdade,
são os Sravakas, que se concentram na contemplação e aplicações do conteúdo
impuro do corpo vivo. Os Arhats, estão um passo adiante e desenvolveram uma série
de meditações sobre a decomposição do corpo, com base em suas observações nos
cemitérios, e locais onde os corpos são cremados. O objetivo de tais práticas
contemplativas é, realmente compreender a impermanência, e a falta de identidade
duradoura do corpo.
As mesmas meditações são usadas aqui para superar o desejo pelo corpo físico. Por
meio de tais práticas, somos capazes de diminuir a ideia que temos da nossa própria
importância. Normalmente podemos nos considerar, atrativos ou bons, mas se
regularmente considerarmos o fato de que, nossos corpos são apenas um
conglomerado de substâncias impuras. Então, esta contemplação nos dará o antidoto
para que nós não mais nos apeguemos ao imaginário da beleza ideal que pintamos
para nós mesmos.
Em um sentido mais amplo, a mesma meditação nos ajuda a apreciar a
impermanência e a destrutibilidade do corpo. Vemos que o corpo não é algo estável,
no qual podemos apoiar o nosso ego, não somos o nosso corpo, e este é o primeiro
passo no desenvolvimento a sabedoria do não-ego. Amor e paciência como antídotos
para a raiva e o ódio. O remédio para a raiva é refletir com muito cuidado sobre o fato
de que todos os que vivem, seres em todo o universo, qualquer que seja seu estado
atual de existência, todos, sem exceção, em algum momento do passado, nasceram
como nossos pais, não uma, mas inúmeras vezes. No momento em que nós éramos
seus filhos, eles nos deram uma grande quantidade de carinho e amor. O Vinaya, é a
compilação dos ensinamentos canônicos, sobre o tema da ética, em particular, uma
disciplina monástica.
O Arhat, é um dos principais ideais de santidade nas escolas Hinayana, a palavra
significa alguém que superou toda a oposição à iluminação. Agora, esses mesmos
seres não conseguem reconhecer que tenham sido nossos pais no passado. Para
eles, não somos seus ex-filhos. Desconhecendo o antigo relacionamento parental que
existia entre nós, agora fazem o seu melhor para nos prejudicar. É como se
estivessem enlouquecidos pelo demônio da confusão. Nós, por outro lado, estamos
mais conscientes, nós sabemos que estes seres são nossos antigos pais. Devemos,
portanto, evitar responder na mesma moeda a sua raiva e agressão em relação a nós
e fazermos tudo que estiver ao nosso alcance, para ajuda-los.
Devemos pensar nisso com cuidado até que realmente nos sintamos gratos pela
bondade que eles demostraram para conosco no passado. Tais reflexões nos
permitirão responder com bondade amorosa em vez de agressão, mesmo quando
estamos diante de pessoas que são injustificadamente agressivas conosco. Quando
nós temos esse sentimento básico de gratidão para com nossos inimigos em
potencial, não vamos ter raiva imediatamente. Vamos nos preocupar com eles
pensando: Como essa pessoa foi gentil comigo no passado? Como posso fazer o
melhor agora, o que posso fazer para satisfazer seus desejos? Assim como nós,
nossos inimigos querem ser feliz e evitar o sofrimento.
Devemos, portanto, tentar fazer o que pudermos para que eles acumulem as causas
da felicidade. Nós sabemos que a causa da felicidade, é a ação virtuosa e isso deve
nos levar a tentar ser habilidoso e criar situações em que nossos inimigos possam
usar o corpo, fala e mente para realizar ações virtuosas. Deveríamos faze-los ter
contato com os ensinamentos do Buda, e isso lhes dará as informações de que
precisam para realizar ações positivas. Devemos fornecer-lhes as condições
necessárias para a sua prática.
Então estaremos realmente ajudando, uma vez que estamos dando a eles a
oportunidade de fazer algo que irá produzir felicidade mais tarde. Devemos reconhecer
que para alcançar a iluminação perfeita, temos que aperfeiçoar as seis virtudes
transcendentais, uma das quais é a virtude da paciência. Sem pessoas que são
agressivas e que tenham raiva de nós, a prática da paciência é impossível, não temos
meios de desenvolver essa qualidade, que se faz absolutamente, necessária. Nesse
sentido, a pessoa que está agindo como nosso inimigo é comprovadamente muito útil.
A situação agressiva que ele está produzindo é uma excelente oportunidade de
aprender a ser paciente, dando-nos algumas valiosas instruções.
E ele não é mais um inimigo, mas um amigo espiritual que está nos ajudando a
desenvolver as virtudes necessárias para a iluminação, através da prática da
paciência. Desta forma, sempre que somos desprezados ou criticados, ou se nossas
falhas são expostas por outros, somos capazes de purificar uma quantidade
incalculável de obscuridade que reside em sua mente.
Diz-se que não existe um mal pior que a raiva, porque um instante de raiva pode
destruir todos os méritos acumulados ao longo de milhares de vidas. E não há virtude
como a paciência, que tenha o poder de purificar todas as ações negativas
acumuladas naquele mesmo número de vidas. Portanto, se quisermos alcançar a
iluminação perfeita, a paciência é indispensável, pode-se dizer que esta, é uma das
principais qualidades que compõem a mente iluminada. Para desenvolver esta
qualidade devemos encontrar inimigos, tanto no sentido físico quanto abstratamente,
como situações difíceis.
Consequentemente, todos aqueles que nos desprezam, ou que são agressivos, são
realmente nossos amigos, porque eles estão nos fornecendo a oportunidade ideal
para que possamos treinar a paciência, e purificarmos nossas ações negativas
anteriores, e os presentes véus mentais.
Se nunca, encontrarmos em nosso caminho, pessoas sofrendo de fome e sede,
pobreza e necessidade, seria impossível desenvolver compaixão ou generosidade. Se
nós nunca conhecermos pessoas pobres, como podemos aprender a ser generosos?
Se nós nunca encontrarmos o sofrimento, como podemos desenvolver o desejo
compassivo de aliviar isso? No entanto, sem generosidade, compaixão e qualidades
semelhantes, nunca seremos capazes de alcançar a iluminação. As situações que
encontramos são muito necessárias para nós, uma vez que ver outras pessoas nestas
circunstâncias desagradáveis, pode ser nosso melhor amigo para alcançar a
iluminação.
Poderíamos dizer, inclusive, que estes outros seres vivos são mais para alcançarmos
a iluminação, que os Budas. Três das seis virtudes transcendentais - generosidade,
conduta ética e paciência - só podem ser desenvolvidas na companhia de outros seres
vivos que são gentis o suficiente, para permitir-nos treinar com a sua ajuda. Para
praticar a generosidade, devemos ter pessoas com quem possamos ser generosos. A
conduta ética, só pode ser considerada em relação aos outros, uma vez que é definido
como desistir de todos os tipos de dano para outros seres vivos, seja do corpo, fala ou
mente. Nesse ponto do texto, entendemos que, paciência significa um modo de estar
sem qualquer dano, ou atitudes em face da agressão aos outros.
Podemos ver por nós mesmos que não há como essas três qualidades serem
desenvolvidas na ausência de outros seres. É, portanto, completamente inapropriado
ficar com raiva das pessoas que estão ajudando a prática. Diz-se que até o Buda
Shakyamuni alcançou a iluminação antes de Maitreya, apenas graças a seu primo,
pelo o mal comportamento de Rathula. Devemos entender que, é apenas através da
bondade de tais forças negativas, que somos capazes de desenvolver qualidades tais
como bondade amorosa e compaixão que são indispensáveis para a iluminação.
Em seu ensinamento, Tilopa diz que, quem quer se iluminar rapidamente não deve
procurar a companhia de bons amigos, mas gastar mais tempo com maus amigos.
Isso porque, se estivermos com bons amigos, todo o tempo, nunca seremos
contrariados, permaneceremos confortavelmente incontestados, nossas emoções
aumentando e nenhuma qualidade se desenvolvendo. Se gastarmos nosso tempo
com maus amigos, temos que aprender a ser muito pacientes, e como o resultado que
nos tornaremos iluminados mais rapidamente.
Se os métodos anteriores não conseguirem apaziguar nossa raiva. Nós deveríamos
imaginar que, o inimigo à nossa frente, é nossa própria mãe. Meditando sobre isso
inúmeras vezes, até que realmente sintamos que a pessoa é nossa mãe, devemos
então, passar a pensar que nosso inimigo atual tem sido nossa mãe em muitas
ocasiões anteriores. Dessa forma, seria apropriado sermos odiosos e agressivo com
essa pessoa, agora?
Outro método que podemos usar é meditar sobre nós mesmos como o inimigo e o
inimigo como nós mesmos, trocando as personalidades. Isso também vai ter o efeito
de trocar os sentimentos experenciados pelas duas partes. Nós aprenderemos a ver
as coisas do ponto de vista da oposição, e deveremos meditar assim repetidamente,
até que tenhamos realmente substituído nossos próprios desejos e considerações
pelas atitudes e pensamentos da outra pessoa.
Normalmente só estamos atentos, à nossa própria ideia de nós mesmos, mas
devemos aprender a pensar em nós mesmo sob a perspectiva dos outros, e como eles
nos veem, e pensar sobre eles, e na forma como eles mesmo se reconhecem.
Alteramos nossa percepção de como vemos as coisas nos colocando no lugar da
outra pessoa, essa transformação de atitude é muito útil para superar todas as
emoções, mas particularmente a emoção da raiva. Por estarmos gradualmente nos
treinando no caminho do Bodhisattva, nós aprendemos sempre mais, para conceder
aos outros todo o sucesso e realização, assumindo assim, a falha e dificuldade em nós
mesmos.
O melhor antídoto para a raiva é praticar profundamente, estar absorvido na qualidade
da bondade amorosa, que é o principal método de meditação daqueles que seguem a
Tradição Sutra com seus 21.000 sutras tradicionais, muitos dos quais, contêm
ensinamentos específicos sobre a bondade amorosa.
Muitas pessoas acreditam que o desenvolvimento através da bondade amorosa e
paciência, são extremamente difíceis. Entretando, poderíamos imaginar que essa é
uma tarefa impossível, mas não devemos nos desesperar, porque isso é só uma
questão de prática. Se nunca fizermos um esforço para cultivar essas qualidades
regularmente, então logicamente, elas parecerão inatingíveis. Maitreya é previsto para
ser o próximo Buda histórico, e a tradição do sutra, é baseada nos sermões canônicos
do Buda, dos doze estágios que são:
1. Descida do Paraíso Tushita
2. Entrando no útero
3. Nascer
4. Demonstrando habilidade em artes
5. Divertindo-se com alegria em meio às mulheres
6. Renunciar ao mundo
7. Praticando ascetismo
8. Meditando sob a árvore bodhi
9. Derrotando os Gemons
10. Atingir iluminação
11. Girando a roda do ensino
12. Falecendo em - Paz.

Soluções para a ignorância e o gosto pelo sono

O primeiro antídoto para a ignorância sugerido, é aprender de cor os doze estágios na


vida do Buda Sakyamuni, começando no momento em que ele deixou o reino dos
deuses. O próximo método é aprender através dos doze elos da cadeia de eventos
que levam à produção da existência cíclica, aqui esta a fonte da ignorância. Isso dá
origem a várias impressões mentais que por sua vez produzem uma sequência
completa de eventos que conduzem às experiências finais de nascimento, velhice e
morte. Este é o processo cíclico que todos os seres vivos sofrem, à medida que
passam de uma vida para outra. Aqueles que se libertam, são Budas, aqueles que não
o fazem permanecem no sofrimento que ele gera, um círculo eterno mantido pela
ignorância.
Este processo é simbolizado por uma roda precisamente por causa de sua natureza
sem fim, é por isso que falamos da roda ou do ciclo da existência. Qualquer uma das
quatro categorias diferentes de nascimento nos apresenta informações, nova
existência, podemos ter certeza de que terminará em morte. Não há como evitar a
morte e o subsequente renascimento. Todos os seres vivos sem exceção tem que
passar por essa experiência. É por isso que na tradicional representação da roda da
existência, a roda é retratada com o Heid, na boca do Senhor da Morte, representada
por uma grande figura demoníaca que parece estar mordendo a roda.
Os seis diferentes reinos da existência aparecem no centro de seu estômago porque
todas as coisas vivas devem passar de uma existência para outra, por via da morte.
Para auxiliar os praticantes regulares e membros da Sangha, a entender essa
realidade, tradicionalmente encontra-se pintada no lado esquerdo das portas do
mosteiro uma representação dessa roda da existência. Qualquer um que consiga
acabar com a ignorância irá automaticamente interromper o resto do processo, as
associações mentais e os outros elos na cadeia de eventos que, por sua vez, levam à
velhice e à morte. O processo é invertido, terminando na liberação da existência
cíclica.
Para ajudar os praticantes a se lembrarem disso, frequentemente encontramos do
lado direito da porta dos mosteiros o desenho de uma roda de oito raios representando
os ensinamentos de Buda, de cor branca, a roda simboliza a pureza. Os oito raios
simbolizam o nobre caminho óctuplo, o método ensinado pelo Buda para pôr fim à
cadeia de eventos que produzem o ciclo da existência.
O que exatamente é ignorância?
Ignorância é a mente que não conhece a si mesma, aquela que não tem consciência
de sua verdadeira natureza. É por isso que permanecemos em existência cíclica,
vagando por uma vida após a outra, em uma busca vã pela felicidade. No entanto,
quando a ignorância chega ao fim, no momento em que a mente reconhece sua real
natureza, alcançamos o caminho dos nobres, que é a saída do sofrimento. Portanto,
nossa principal tarefa é limpar essa ignorância para que a mente possa se reconhecer.
Para combater o embotamento da ignorância, devemos tentar não dormir tanto,
levantando-nos mais cedo e indo para a cama mais tarde. Como uma ajuda, podemos
anexar a um pilar ou poste em nossa casa os símbolos do Corpo, Fala e Mente dos
Budas. Em vez de dormir, devemos circundar a coluna em respeito a esses objetos e
ao que eles representam, ou fazer prostrações ou recitar mantras. Desta forma, não
estamos permitindo que a mente perca tempo no desfrute do sono e no reforço dessa
manifestação de ignorância.
Uma forma alternativa de reduzir nosso apego ao sono é realizar a seguinte meditação
à medida que a noite se aproxima e começamos a sentir sono. Devemos imaginar no
alto de nossa cabeça uma lamparina de manteiga acesa e manter nossa atenção em
sua chama, visualizando muito claramente. Diz-se que essa mentalização, tem o
poder de dissipar as sensações de sono e entorpecimento quando ocorrem, bem
como encurtar o tempo de sono necessário e torná-lo menos pesado. No puro ensino
do Abhidharma, refletir profundamente sobre as doze cadeias interdependentes de
eventos é considerado o melhor remédio para a ignorância ou embotamento da mente.
Os quatro tipos de nascimento, quais seriam:
 nascer de um útero;
 de um ovo;
 do calor e da umidade (como bactérias);
 e do nascimento espontâneo (como um deus, por exemplo).

O Nobre Caminho Óctuplo, consiste no conjunto de oito práticas: compreensão


correta, pensamento correto, palavra correta, esforço correto, modo de vida correto,
atenção correta, concentração correta, ação correta. O Abhidharma é a parte das
escrituras budistas, que trata da filosofia e da psicologia. Demolindo o orgulho e a
auto-importância, a próxima emoção, à qual os antídotos devem ser aplicados, é o
orgulho. Isso é feito realizando a seguinte reflexão:
Por um número incontável de existências vividas durante o curso de muitos éons,
tenho vagado em círculos sem fim. Quão teimoso devo ser, pois, para que, apesar de
todo sofrimento por que passo, permaneço destemido, sempre pronto para mais.
No passado, muitos Budas diferentes surgiram no mundo, e todos eles deram
ensinamentos, mas ainda assim foram incapazes de usar essa riqueza de instruções
para me libertar da existência cíclica. Somente nesta vida, olhe para o número de
iniciações, transmissões de leitura, comentários, porção de conselhos especiais que
foram dados, mas ainda estou preso na roda de existências. Tudo isso até agora, não
teve efeito ...
Em meus esforços para seguir o ensino central, pedi repetidamente, e recebi os três
níveis de votos: os votos externos de conduta ética, os votos internos do Bodchisattva,
com os quais me comprometi, obtendo a iluminação para o meu benefício e de outros,
e os votos secretos do Vajrayana, em que me comprometi a manter uma perspectiva
pura. Ainda assim, trai esses votos e minha disciplina tornou-se completamente
impura, e então, todos os dias, uma avalanche de falhas e transgressões são
cometidas.
Eu investi muito do meu tempo, recitando mantras e realizando os mais variados tipos
de meditações, para um número incrível de Deidades, e ainda não pude ver sequer
uma delas, nem por um único instante. Minha mente é completamente nublada e
obscurecida, como resultado, não tive nenhuma experiência de realização ou
meditação. Para mim eles são tão desconhecidos, como os cabelos na parte de trás
de uma carapaça.
Da infância à morte em incontáveis vidas não fiz nada, com toda a minha vida.
Simplesmente dormia e comia e geralmente perdia meu tempo. Nenhum tempo foi
gasto na prática do Dharma e na prática da iluminação. Eu me entreguei aos prazeres
mundanos da vida, sem qualquer sensação de verdadeiro prazer.
Nunca satisfeito, sempre pronto e ansioso, para despender mais e mais tempo e
energia, nas coisas comuns mundanas. Por dentro, minha mente estava cheia de
perturbações criadas pelos cinco venenos, mas externamente coloquei-me como um
ser puro, vestindo as vestes certas e carregando uma tigela de esmola.
Totalmente incapaz de explicar ou debater os tópicos de um único texto, eu penso em
mim mesmo como sendo muito erudito e inteligente. Eu estou sempre ostentando meu
grande conhecimento e compreensão de textos religiosos para os outros, mesmo que
eu não tenha tido sucesso na redução dos cinco venenos, eu ainda estou convencido
de que sou uma pessoa muito boa, e influencio a opinião de outros. Eu não só me
sinto muito confuso, como também causo confusão no processo de iluminação de
outros.

Eu não tenho conhecimento do que me espera quando morrer. Entretanto, eu ainda


dedico meu tempo de vida, convencido de que posso guiar a consciência daqueles
que já morreram. Nunca sei quando minha própria morte ocorrerá, eu ainda não
pensei nisso também. Tudo o que eu faço é, me orgulhar da bênção que eu tenho que
é, limpar e afastar os obstáculos dos outros.

Enquanto passamos a vida pensando em nós mesmos como muito bons, nós
continuamos a esconder nossas falhas de nós mesmos. Assim, nunca nos livraremos
delas, esta reflexão nos faz admitir nossas próprias falhas, pavimentando assim o
caminho de sua remoção. Nosso orgulho por nós mesmos e nossas qualidades é
superado.
Quer sejamos um Lama ou um amigo espiritual, ou simplesmente alguém que prática
os ensinamentos do Buda, é muito importante olhar para os nossas próprias mentes e
examinarmos regularmente em busca de falhas. Uma vez identificadas, elas podem
ser eliminadas e substituídas por boas qualidades. Se não admitirmos as nossas
próprias faltas, nós apenas nos tornamos mais e mais orgulhosos, e o orgulho nos faz
ver nossas próprias falhas como qualidades, e nosso comportamento em relação
aos outros se deteriora. As pessoas com quem estamos são persuadidas a
compartilhar nossa própria opinião sobre nós mesmos e, além disso, nós nos
convencemos de que estamos certos, por estar trocando as impurezas em nossa
mente pela pureza.
Isso acaba fazendo com que nós mesmos e os outros caiamos em estados inferiores
de renascimento, é por isso que devemos praticar o Dharma, constantemente para
purificar nossas próprias falhas, e acabar com suas consequências, em primeiro lugar
devemos começar por!
Deidades não são seres divinos, mas sim, aspectos de nossa própria mente
visualizados por meio de um imaginário, altamente complexo, através da qual criamos
um acesso à nossa natureza interior. 'É muito importante procurarmos em nossa
própria mente e examinarmos a nós mesmos, e buscarmos informações por falhas,
regularmente. “Uma vez detectadas, essas falhas poderão ser removidas e
substituídas por boas qualidades.”
Olhando para nós mesmos, observando nossas falhas e, em seguida, devemos usa as
instruções que estão em nossa posse, para nos livrarmos delas. Uma vez que nossa
mente esteja completamente livre de todas as falhas, todas as nossas ações tornam-
se perfeitas. Alcançamos a pureza genuína do, Estado de Buda, iluminação perfeita.
Ver automaticamente, as falhas em nossa própria mente, faz-nos sentir
envergonhados, e isso por si só, diminuirá os sentimentos de orgulho dentro da mente.
Encarando o fato de termos muitos defeitos em nossa mente, essa já é uma excelente
forma de reduzir nosso orgulho, e sentir prazer em ver o sucesso dos outros, isso irá
neutralizar o ciúme.
Uma prática semelhante de reflexão serve para reduzir o ciúme. Nós pensamos em
quando recebemos os votos de Bodhisattva. Durante a cerimônia os Budas estavam
olhando como testemunhas do voto que fizemos naquele dia para comprometermo-
nos a alcançar a iluminação para o benefício de todos os seres vivos, e após a
iluminação, colocando-os também nesse mesmo estado.
Ao mesmo tempo, prometemos nos comportar de forma a produzir tanto quanto for
possível, a virtude e ações positivas, para outros seres vivos, agindo o tempo todo
apenas para o benefício deles. Também nos comprometemos em orar constantemente
pelos outros, formulando o desejo de que sejam felizes, e venham a possuir as causas
da felicidade.
Está certo, então, para ignorar tudo isso e, em vez disso, cada vez que vemos alguém
feliz ou bem-sucedido, alguém que está melhor do que nós ou quem alcançou algo a
mais, imediatamente sentimos ciúmes e ressentimento dessa pessoa? Se esta for a
nossa reação, estaremos indo contra todos os nossos compromissos anteriores. Cada
vez que vemos alguém feliz, em vez de nos sentirmos contentes, porque nossos
desejos como um bodhisattva estão sendo cumpridos, sentimos ciúmes deles, algo
bem ao contrário das promessas que fizemos na frente dos Budas. Para neutralizar
essa reação de ciúme, toda vez que vemos alguém feliz ou alegre, ficamos feliz por
eles, este é o antídoto para a emoção do ciúme. Devemos entender que sentir ciúmes
sempre que vemos alguém melhor do que nós mesmos, simplesmente resulta em
renascimento no inferno, ou como um semideus, e todo o sofrimento que tal existência
envolve. Devemos, portanto, pensar tudo isto com muito cuidado para apaziguar
nosso ciúme.
Isso nos leva ao final da segunda seção sobre como lidar com as emoções, como
superar as emoções através do uso dos remédios apropriados. Os métodos ensinados
nesta segunda parte correspondem à aqueles dos Sutras comuns, tanto Mahayana
quanto Hinayana. O cânone do sutra da escola Mahayana, é maior que o da
Hinayana. Graças ao que chamamos de acúmulo de mérito ou a crescente influência
que nosso comportamento positivo acumulado tem sobre nosso estado mental,
começamos a sentir uma sensação crescente de consciência. Nossa mente começa a
emergir de sua obscuridade, a sensibilidade se desenvolve em pura intuição. Se
formos um praticante regular de meditação, o primeiro sinal desta nova fase do nosso
crescimento espiritual será experiênciar um sentimento de vazio interior. O mundo
parece não ter solidez, nada é fixo ou permanente como antes, e ainda assim tudo
parece perfeitamente natural, sem qualquer sensação de enfermidade. Se nosso ego
estiver preparado para liberar seu domínio sobre uma concepção concreta do mundo,
nossa lucidez mental durante a meditação melhora, e o "Sentimento" desaparece,
deixando a mente clara como cristal.
É neste tipo de ambiente, que podemos praticar a procura na verdadeira natureza do
que temos chamado até agora, de 'emoção'. Usando nossa nova clareza como um
holofote, podemos ver as emoções pelo que realmente são: energia da sabedoria.
Mesmo o breve momento da descoberta inicial, da realidade por trás da máscara,
criadas pelo ego, impede a confusão da emoção e por uma fração de segundos
conhecemos a sabedoria. O instante passa, mas a memória permanece e nunca
somos os mesmos novamente, nossa atitude em relação às nossas emoções, estará
completamente revolucionado.
No entanto, antes deste momento, haverão muitas tentativas de ver as emoções,
algumas delas obviamente, malsucedidas que revelam-se uma farsa, somente depois
de algum tempo, muitas vezes graças ao efeito catalisador de um professor
experiente. Antes do raiar da verdadeira clareza, a emoção só pode ser vista como
uma emoção, recusando-se a reconhecê-la como tal, na vã ambição de ver outra
coisa, que só pode nos desencaminhar.

Tal como acontece com a aplicação de antídotos, as fases iniciais da prática, são
deliberadamente orquestradas de modo a favorecer um alto grau de clareza. Esta é a
prática da meditação do discernimento, parte do caminho tradicional já mapeado para
quem pratica meditação informal, contemplando a mente como ela é. Aqueles que
confiam na visualização de imagens universais como uma técnica de meditação, tem
uma prática especial da sua mente, dissolvendo o mundo concreto no vazio e
imaginando as cinco emoções, como os cinco aspectos universais da mente
iluminada. Essas visualizações servem para treinar novamente a mente para uma
visão de coisas que se perderam quando o ego assumiu o controle. Chagme Rinpoche
chama isso de transformação da emoção, e a trata como uma seção separada, antes
de voltar sua atenção para a principal parte que trata da percepção direta da mente
usando a nossa própria lucidez inata.

TRANSFORMANDO AS EMOÇÕES
Os cinco caminhos que nos conduzem para o renascimento são aqueles que abrem-
se na frente de nossa consciência, depois da morte, e os quais irão liderar o caminho
para o renascimento, em um dos seis reinos. O reino dos homens e dos deuses
renascidos, são contados como somente um. Nessa próxima seção, trataremos da
descrição de um método, sobre a dissolução dos cinco venenos no vazio, fazendo
com que as emoções desapareçam, através das visualizações. No instante em que
qualquer um dos cinco venenos se mostrarem em nossa mente, recite o mantra de
Sobhawa, e possivelmente, todas as emoções serão limpas em uma clara vacuidade.
Imagine que, as cinco emoções perturbadoras na mente, e outras emoções, e em
suas presenças potenciais, transformam-se nos cinco Budas Dhyani (as imagens
universais da energia purificada das cinco emoções).
Visualize muito claramente sua raiva assumindo a forma de Dorje Sempa, seu orgulho
Ratnasambhava, e seu desejo apego em Amitabha, ciúme Amogha- siddhi e
ignorância são a forma de Vairocana.
Imagine que esses cinco Budas enviam raios de luz que preenchem o todo o universo.
Eles purificam não apenas todo o Karma negativo produzido como resultado da
atividade dos cinco venenos em cada ser vivo, mas ao mesmo tempo, as nossas
próprias emoções.
As mentes dos seres vivos tornam-se completamente livres de todas as emoções,
acabando completamente com todas as possibilidades de qualquer renascimento
subsequente, em qualquer um dos diferentes estados de existência, simbolizado pelos
cinco caminhos que levam ao renascimento. A luz retorna para se dissolver nas
figuras de Buda, sobre as quais se fundem em luz e desaparecem completamente no
vazio. Devemos realizar esta meditação regularmente sempre que, qualquer uma das
emoções apareçam em nossa mente, e depois disso, faça o seguinte desejo: desde
essa vida em diante, e em todas as minhas vidas futuras, que todos os que entrarem
em contato comigo, seja por me ver, me ouvir ou pensar em mim, encontrem os véus
das cinco emoções perturbadoras, purificados. Que eu tenha essa habilidade. Além
disso, quando eu mesmo já tiver alcançado a iluminação, que o mundo do Buda, seja
projetado da minha própria mente, que não mais conterá, nenhum dos cinco venenos
de qualquer espécie.

Que esses desejos, possam também, ser feitos mentalmente ou recitados, ou mesmo
com palavras, sempre que essa meditação for usada, sempre que nosso desejo de
purificar as emoções em vacuidade, se realize através da visualização dos cinco
Buddhas. Este método de transformar os cinco venenos é mais usado por aqueles que
praticam a meditação criativa (um método baseado em imagens). A base na qual,
fundamenta-se essa meditação é a seguinte: em um sentido amplo, e que a
verdadeira natureza do universo possa ser um recipiente, o palácio puro para a
divindade. Todos os seres vivos contidos nele têm sido divindades Yidam, desde o
início dos tempos.
Devemos fazer essa vizualização muito claramente e, estando "ciente de que isso irá
apaziguar nossa ignorância". O desejo comum e o apego, nunca devem ser
desenvolvidos para as divindades Yidam, nem tampouco poderemos ficar zangados
ou insultá-las. Se todo mundo é uma divindade Yidam pura, então todos são iguais,
portanto, não há razão para pensar em algumas pessoas como superior e outros como
inferiores.
Não há lugar para orgulho ou ciúmes. Podemos ver, então, que por meio desse tipo de
contemplação todos os cinco venenos cessarão automaticamente. Por causa da
ignorância, não vemos a verdadeira natureza dos diferentes elementos psicofísicos
que constituem nosso ser, as cinco Skandhas. Esses cinco elementos e as energias
das quais eles dependem, tem sido, desde o começo dos tempos, as mesmas
energias que se manifestam como os Budas e suas Consortes. Quando falhamos em
não reconhecer isso, veremos apenas seres humanos comuns e perceberemos a
atividade dessas energias apenas, como emoções problemáticas que aparecem
regularmente em nossa mente. Mas, na verdade, esses elementos e suas energias
são bastante puros. Na realidade os cinco venenos nada mais são do que as cinco
sabedorias, a única diferença que existe entre uma emoção e sua sabedoria
correspondente, é a presença ou ausência de consciência. Quando estamos cientes
da verdadeira natureza das coisas vemos as cinco sabedorias, caso contrário, vemos
apenas os cinco venenos e iremos experencia-lós como tal. É importante, todavia,
reconhecer que uma emoção não é algo inerentemente impuro, é simplesmente,
porque não vemos que emoção ela realmente é: uma das cinco sabedorias.
Se desenvolvermos uma ideia de nós mesmos como a divindade Yidam, pura e ainda
assim, ao mesmo tempo, ver aos outros, como comuns e impuros, esta é apenas outra
forma de orgulho. Essa atitude continua a ser baseada no apego ao ego, porque
embora estejamos prontos para nos ver como uma divindade, nós continuamos a
desprezar os outros como pessoas comuns, com todos os defeitos habituais.
Isso definitivamente não é o puro orgulho de nossa natureza divina. Assim que
deixarmos ir nosso ego, poderemos perceber em nossa mente a sabedoria primordial,
que é livre de todo ego porque está além do ego. Esta é a mente genuína da
divindade, onde não apenas nós somos a divindade, mas também toda a vida no
Universo. Com a mente neste estado de pura consciência, não há lugar para
ignorância, nem para raiva, apego, orgulho ou ciúme.
A mesma base de pensamento também é usada para na prática de ver dentro da
natureza dos cinco venenos descritos na próxima seção.

VER A VERDADEIRA NATUREZA DAS EMOÇÕES


A segunda parte do mesmo capítulo prossegue para dizer que aqueles que praticam o
Vajrayana, os ensinamentos tântricos secretos, tenham um compromisso sagrado, de
não rejeitar as emoções de apego, raiva, ignorância, orgulho e ciúme. A razão para
isso é, que se nós desistirmos, nunca seremos capazes de descobrir a nossa
sabedoria intrínseca. Quando abandonamos os cinco venenos, abandonamos ao
mesmo tempo qualquer possibilidade de realizar as cinco sabedorias, uma vez que
elas nunca serão encontradas em nenhum outro lugar, que não seja nas emoções. É
por isso que quando estamos engajados na prática tântrica, devemos trabalhar com os
diferentes objetos que dão origem as reações emocionais a fim de experimentar a
sabedoria correspondente. Os próprios objetos de apego, ódio e assim por diante
tornam-se os meios para a liberação do conflito emocional.
Praticamente, isso significa que quando um dos cinco venenos aparece na mente,
temos que olhar diretamente para sua essência, até entendermos que, de fato, não
tem existência real,

Percepção, emoção e sabedoria.


As emoções aparecem por causa das condições criadas por nossas mentes confusas.
Nossa consciência fundamental, que está em um estado de ignorância na atualidade,
projeta de si mesma a ideia de um mundo experimentado através dos cinco sentidos,
os cinco órgãos dos sentidos e seus relacionamentos com os objetos externos, por
causa de nossos hábitos anteriores, a mente projeta de si mesma, imagens que
considera separadas dela.
O Vajrayana faz parte da escola Mahayana e, como tal, é baseado na motivação de
alcançar a iluminação para o benefício de todos os seres vivos. A visão de mundo, e a
prática dentro da visão de Vajrayana, são derivados do ensino dos Tantras, como algo
diferente daquele dado nos Sutras. “Tornem-se samambaias que agem como objetos
para a vista; sons que são objetos para nossa audição, e assim por diante. A presença
destes objetos aparentemente, independentes faz com que a mente seja perturbada,
permitindo a manifestação das emoções.”
Por exemplo, quando nossos olhos vem uma forma, as coisas não param por aí,
reagimos imediatamente a ele, quando achamos a forma agradável, nos sentimos
atraídos para isso, se o acharmos desagradável ou repulsivo, rejeitamos e queremos
fugir disso. O mesmo se aplica a todas as nossas outras informações sensoriais,
sempre que ouvir, cheirar, provar ou tocar algo. Cada vez que os órgãos sensoriais
funcionam, devemos olhar diretamente para a real essência do que está acontecendo.
Gradualmente, percebemos que o objeto que estamos percebendo é, na verdade,
apenas a mente em ação. Não é diferente da mente, o objeto é a mente. E, portanto,
não há necessidade de criar qualquer dualidade artificial, mantendo uma distinção
clara entre sujeito e objeto. Se olharmos para a essência desta não dualidade, a
verdadeira natureza dos dois, o objeto e a mente que o percebe, vamos descobrir a
essência da nossa própria mente. Esta percepção da essência da mente ocorre
quando todas as percepções e pensamentos pararam, e o próximo pensamento ainda
não apareceu.
A mente está no presente espontâneo, sua própria realidade. É a mente que vê sua
própria essência, e isso é o que chamamos de sabedoria primordial, a presença da
sabedoria primordial da mente, em seguida, essa mente limpa as emoções
automaticamente. É como acender uma vela em um quarto escuro: assim que a luz
está presente, a escuridão desaparece automaticamente.

Da mesma forma, o simples fato da sabedoria estar na mente serve para banir
completamente todas as emoções. Se conseguirmos meditar desta forma no momento
em que detectarmos as emoções em nossa mente, naquele mesmo instante, vemos
sua sabedoria e assim, nos libertamos de seu aspecto emocional. Isso é conhecido
como aparecimento e liberação simultânea das emoções, cada um dos cinco venenos
é então, reconhecido como uma das cinco sabedorias. Se, no entanto, não
conseguirmos ver o aspecto de sabedoria do evento ocorrendo na mente, tornamo-nos
mais uma vez envolvidos na dualidade. Nós seguimos o pensamento, nos deixamos
ser influenciados por ele, e começamos a reagir ao objeto, seja aceitando-o ou
rejeitando-o, até que a mente seja invadida por confusão e emoção e acabamos tendo
que experimentar o sofrimento que se segue.
Diz no texto que, se abandonarmos os cinco venenos, será impossível encontrar
alguma sabedoria. A atividade das emoções é a atividade da mente, cada emoção que
aparece nada mais é do que a própria mente em ação, então se rejeitarmos as
emoções, estaremos ao mesmo tempo rejeitando a mente. Ainda assim, é somente
através de sua atividade que chegaremos a descobrir a atividade de sabedoria, então,
ao rejeitar a atividade emocional da mente, rejeitamos ao mesmo tempo, a
possibilidade de encontrar sua atividade de sabedoria. Isso nunca vai levar-nos a
perceber a última realidade da mente.

UMA NOTA DE ADVERTÊNCIA

Abandonar as cinco emoções perturbadoras é seguir um caminho menos direto para


iluminação, é o caminho seguido pelos Sravakas. Mas vendo a verdadeira natureza
das emoções, à medida que ocorrem não é uma tarefa fácil. E se nós apenas, nos
permitirmos olhar para as emoções uma após a outra, elas aparecerão na mente da
maneira habitual, e não seremos diferentes do que éramos antes, nada mudou. Se
realmente gostamos das nossas emoções, deliberadamente aumentamos sua força,
até nos sentirmos completamente intoxicados por elas, nós estamos nos comportando
como alguém possuído, e como resultado, acumulamos o Karma de um demônio.
Pode acontecer também que nos tornemos o tipo de pessoa que cresce, mais e mais,
orgulhoso de sua capacidade de lidar com as emoções, olhando para sua verdadeira
natureza. Apesar de seu entendimento não estar totalmente desenvolvido, ele
aumenta o poder das emoções. Quanto mais fortes elas ficam, maior torna-se seu
orgulho. E não para por aí! Mesmo que não sejamos realmente livres de confusão
emocional, nos dizemos que somos, e nos apresentamos como um exemplo para os
outros, de como experimentar as emoções sem ser levado por elas. Motivado por
grande orgulho, nos buscamos constantemente, melhorar nossa reputação para
sermos reconhecidos como alguém muito importante, alguém bem conhecido por sua
habilidade de lidar com as emoções, mais e mais descontroladas, cada vez mais
confusas, dessa forma, acumulamos Karma, que fica cada vez mais negativo.

UM BUDA PARA CADA EMOÇÃO


Se conseguirmos olhar diretamente, para a realidade de cada um dos cinco venenos
como eles aparecem, nós os reconheceremos como, nada menos que as cinco
sabedorias. O veneno da raiva e do ódio que percebemos no espelho, como a
sabedoria que corresponde ao Buda Dorje Sempa. Olhando diretamente para a
verdadeira natureza do orgulho, encontramos a sabedoria da igualdade e o Buda
Ratnasambhava. Na natureza do desejo, descobrimos a descriminação da sabedoria
como o Buda Amitabha. Se olharmos para o ciúmes, vemos toda a realização da
sabedoria do Buda Amoghasiddhi. E quando olhamos para a ignorância, encontramos
a sabedoria do Dharmadhatu, e da mesma forma quando vemos a própria realidade, é
o Buddha Vairocana.

Esses Budas também correspondem às diferentes energias elementares em seu


corpo, cada uma das quais está relacionada com uma das emoções. Vendo o que a
emoção produz por dentro, não veremos apenas a realização de um aspecto da
sabedoria, também veremos a transformação do elemento correspondente do corpo,
em um dos cinco Buddhas. Neste caminho não procuramos apenas abandonar as
cinco emoções, mas também olhar diretamente as suas essências ou realidades, onde
são automaticamente transformadas, nas cinco sabedorias e dessa forma, geramos
espontaneamente as mentes dos cinco arquétipos do Buda.
Este tipo de prática é empregado por aqueles que meditam de acordo com o
Mahamudra ou com a tradição Dzogchen. Um medicamento para todas as doenças,
olhar diretamente para a essência ou para a natureza de uma emoção, é um método
que pode ser aplicado em todos os casos, assim como podemos usar um único
medicamento para curar uma centena de doenças.
O praticante de grande capacidade usará este método para nivelar as emoções assim
que qualquer uma delas aparecerem na mente, é como colocar uma pequena faísca
em um monte de feno seco: ele imediatamente explodirá em chamas e será
completamente destruído. Embora a centelha original seja minúscula, ela pode
queimar qualquer quantidade de feno. Da mesma forma, apenas uma pequena
centelha de sabedoria pode queimar completamente toda a confusão da mente e as
emoções associadas a ela, até que tudo o que restar na mente seja a realidade final.
Aqueles de capacidade média usarão este método da seguinte maneira, assim que
eles detectarem a presença de uma emoção na mente enquanto estão meditando,
eles olham para a emoção diretamente, a olho nú, e então a emoção se acalma e
libera seu controle sobre o indivíduo. Este processo é descrito como o reconhecer da
não dualidade das ondas e da água. Muitas ondas estão em movimento, assumindo
uma variedade constante de formas e contornos diferentes. Pode ser visto também,
na superfície do oceano, e ainda assim o conteúdo das ondas é simplesmente água
do próprio oceano. Não há distinção real a ser feita, tudo é água. Da mesma forma, os
muitos e variados aspectos emocionais das formas que aparecem na mente nada
mais são do que a própria mente. E portanto, não há razão para rejeitar a emoção ou
considerá-la diferente da mente. O praticante médio será capaz de entender isso,
experenciando, na sua prática diretamente. O fato de perceber que as emoções são,
simplesmente as suas próprias mentes, então eles irão acalmar-se por conta própria.
O praticante de capacidade normal será capaz, por meio desta prática, de estar ciente
da emoção conforme ela aparece na mente, ele não se tornará essa emoção;
Envolver-se e deixar-se levar pela emoção, que é o que normalmente acontece. É
como se alguém louco de repente caísse em si; livre de sua loucura retorna sua
consciência ordinária. Da mesma forma, assim que tal pessoa percebe a presença de
uma emoção, ela aplica a prática que considera adequada nesse caso específico,
estar ciente da emoção. Mesmo que nossa consciência não seja clara o suficiente
para nos libertar completamente dela, ainda assim, fornece o ponto de partida para a
aplicação de outras abordagens mais acessíveis.
Chagme Rinpoche termina esta seção dizendo que uma vez que ele pessoalmente
usou até certo ponto todos os métodos que delineou até agora, ele aconselha Tsundru
Gyamtso, o Lama que lhe fez a pergunta original sobre as emoções, para colocá-las
em prática visto que estas são frutos, de sua própria experiência direta.
Anteriormente, a única consequência do excesso de confiança, era a falha. Aqui nós
corremos o risco de sofrer danos incalculáveis quando nos doarmos a esse conjunto
de técnicas, é por isso que Chagme Rinpoche teve uma nota inserida no texto neste
momento alertando o leitor para não ir mais longe se ele não foi autorizado a fazê-lo.
Usando a energia da emoção como o meio para erradicá-la, requer uma vigilância
incomum de nossa parte. Tais métodos inicialmente aumentam a força da emoção,
uma vez que é somente, quando está em sua intensidade total que pode se refinar o
suficiente para queimar todas as impurezas, os riscos são evidentes. É por isso que
todas essas práticas estão envoltas em mistério, a linguagem na qual eles são
expressos necessariamente ecoa o contexto habitual da emoção e os abre para má
interpretação, mas a experiência subjetiva é bastante diferente para o praticante
capaz. O discípulo não qualificado, no entanto, perde o ponto completamente,
afogando-se na poderosa onda de emoção gerada pela técnica e destruindo todo o
progresso anterior. O que é ainda pior, ele lidera outros, se extraviam dando mal
exemplo.
Portanto, não é surpreendente que o pleno conhecimento deste aspecto de trabalhar
com as emoções é reservado para aqueles que já provaram ser capazes de dominar
as técnicas anteriores. Em seu ensino nesta parte do capítulo, Lama Gendun,
descreve os princípios das práticas associadas as três emoções principais, de modo
que este aspecto importante é representado. Ao dar suas explicações, ele partiu do
texto de Chagme Rinpoche, baseando-se diretamente em suas próprias experiências.
'Das três emoções tratadas, trabalhar com a ignorância durante o sono traz pouco ou
nenhum perigo, por isso que é desenvolvido mais do que os outros dois. No entanto,
deve ser dito que as instruções dadas estão longe de ser abrangentes. Qualquer
pessoa que realmente deseja praticar tais métodos deve aprende-los primeiro no retiro
de três anos.
USANDO AS EMOÇÕES COMO UM CAMINHO ESPIRITUAL

Nesta abordagem, as emoções não são abandonadas nem modificadas de forma


nenhuma, em vez disso, elas próprias tornam-se o caminho para sabedoria. No
entanto, antes de dar essas instruções, Chagme Rinpoche avisa seus discípulos que,
porque esses métodos são muito especiais, eles não podem ser usado por pessoas
que têm um nível normal de realização ou experiência em sua prática. Só depois de
julgar cuidadosamente as habilidades de nossos discípulos podemos incentivá-los a
praticar esses métodos específicos. Para serem eficazes, o discípulo deve ter um nível
muito alto de realização. É por esta razão que encontramos uma nota no texto deste
ponto onde diz que a próxima seção é muito secreta e não deve ser dada para
aqueles que ainda não tenham confiança nestas instruções, caso contrário, eles
desenvolverão uma forma de visão errada, e criarão Karma negativo, usando a
ignorância para superar a ignorância.
Procedimento prático
Encontre um lugar limpo e isolado, um refúgio longe de qualquer perturbação ou
distração. Você deve ficar lá em total solidão, sem ver qualquer outra pessoa durante
sua prática. Comece realizando uma série de práticas de purificação. Purifique-se
antes de mais nada, e purifiquem as pessoas que podem prejudicar sua prática por
associação. Por exemplo, se você se misturar com pessoas que danificaram seu
Samaya, isso vai afetar adversamente sua própria pureza de mente, razão pela qual é
melhor fazer a prática do sono em completa solidão, livre de qualquer interferência de
outras pessoas.

A comida que você come durante este retiro deve ser sido obtida por você mesmo.
Você não deve comer alimentos oferecidos por outras pessoas. A razão para isso é
que geralmente as pessoas que vêm e oferecem comida aos lamas têm algum
interesse em fazê-lo. Talvez eles queiram que o Lama faça orações ou rituais para
eles, a comida em si é consequentemente poluída pelo desejos dos outros, e quando
comido, coloca o praticante sob obrigação para com o doador. Essas ligações
Kármicas podem tornar-se um obstáculo durante a prática no período do sono, razão
pela qual esse alimento é proibido. Para os praticantes do Vajrayana, Samaya é o
vínculo sagrado que os conecta a realidade primordial, se prejudicadas por atitudes
indignas, as dificuldades tornam-se uma característica constante de suas vidas.
Em seguida, lave-se bem e purifique-se com incenso. Faça os rituais e praticas
oferecendo ao Dorle Sempa, recitando seu mantra de cem sílabas, pensando que
você confessa e purifica toda a negatividade das ações que você cometeu desde o
início dos tempos e, particularmente, qualquer Samaya danificado ou quebrado. Todos
esses preparativos estão levando o praticante a ter uma confiança em sua própria
pureza e na pureza de seu ambiente.
Tome muito cuidado para não adormecer nem por um instante durante o dia. Ocupe o
corpo fisicamente, com prostrações e circunvoluções. Quando chegar a hora de
dormir, deitar em uma cama confortável, com a postura que o Leão costuma deitar, a
postura em que o Buda Shakyamuni morreu, deitado para a direita, com a mão direita
sob a face.
Visualize-se muito claramente como sua própria divindade Yidam, e imagine em seu
coração um lótus com quatro pétalas. O centro do lótus é branco e tem um OM
branco, a sílaba esta de pé sobre ele, a pétala da frente é azul com uma letra A nele, a
pétala à direita, no sul, é amarelo, e tem a silaba NU de pé sobre ele. A pétala à
oeste, é vermelha com a sílaba TA de pé sobre ela, a pétala do norte, que é verde,
tem a silaba RA nela.
Conforme você começa a adormecer, antes de tudo, deixe sua mente descansar na
letra A na pétala da frente. Conforme você se sente mergulhando cada vez mais fundo
no sono, volte sua atenção para as sílabas nas outras três pétalas, uma por uma, até
chegar ao ponto em que está prestes a perder a consciência, apenas à beira do sono,
momento em que sua mente deve estar no centro da lótus. Descansando na sílaba
OM. Deixe a mente permanecer nesta sílaba, sem vacilar ou se distrair em outro lugar,
até que você realmente perca a consciência e adormeça.
Quando isso acontecer, você pode ter a impressão de que o mundo lá fora, e todas as
diferentes manifestações criadas pela mente, se dobram e chegam a dissolver no
coração. Isso é seguido por um instante onde a mente torna-se muito opaca, sem
qualquer clareza, apenas escuridão completa. Nesse ponto as diferentes energias da
mente entrarão no canal central, e apenas por um breve instante a clara luz da mente
aparecerá. Se pudermos permanecer nele sem nos distrairmos com outro lugar,
seremos capazes de reconhecer a clara luz. O canal central é a "posição" da mente
quando está livre de qualidade, esta energia sutil. O canal é muito usado nos métodos
iogues do sistema Vajrayana de prática.
SONO E A MORTE
Por que é tão importante aprender a estar ciente desses estados? É porque o sono é
como uma forma menor de morte. Quando você adormece, você vai exatamente pelo
mesmo processo que ocorre no momento da morte. Portanto, se aprendermos a
reconhecer as diferentes fases do sono e estarmos cientes deles conforme ocorrem,
estamos usando esta vida como um campo de treinamento para o que acontece no
momento da morte e depois. À medida que passamos por uma forma de existência
após a outra, estamos experimentando uma sucessão de estados intermediários, ou
bardos. O bardo em que nos encontramos atualmente é chamado de bardo da vida e
consiste em no intervalo de tempo entre o momento em que nascemos e o momento
em que morremos. Quando estamos dormindo, nossa mente entra em outro bardo, o
bardo no qual nos dormimos e sonhamos, e aí permanecemos até acordar. Esses dois
podem ser usados como um contexto, para treinarmos para os outros bardos que
começam a aparecer no momento da morte.
Se pudermos estar totalmente cientes da natureza ilusória de nosso estado de vigília
de mente, também teremos sucesso em ver além das manifestações de confusão que
aparecem quando estamos dormindo e quando sonhamos. Nós estaremos cientes do
sonho como um sonho e, assim, libertar nossa mente da confusão do estado de
sonho. Se nos treinarmos nisso inteiramente, no momento da morte, e depois quando
nosso Karma começar a se manifestar nas diferentes ilusões produzidas e
experimentadas por nossa mente, também seremos capazes de, libertar-nos dessa
confusão.
‘No momento em que reconhecemos que uma emoção não pode realmente ser vista,
nós entendemos que é a verdadeira natureza. Olhando para a realidade que a emoção
nos permite fique livre do SE. ”
Os mundos de dormir e acordar

No bardo desta vida presente, nossa mente não tem consciência do verdadeiro estado
das coisas, e por causa dessa ignorância nossa mente produz os cinco venenos, e as
cinco emoções perturbadoras. Estas, por sua vez, dão origem a todos os tipos de
pensamentos e idéias. Todos os nossos pensamentos, grosseiros ou sutis, derivam da
influência de um ou outro dos cinco venenos em nossa mente. Se não estivermos
cientes disso, assim que o pensamento parecer e os seguirmos, nós o desenvolvemos
ainda mais. Nos lembramos que, se nós trabalharmos isso em nossa mente,
alcançaremos certas coisas que queremos evitar, e assim passamos pela vida cheios
de esperança e medo, esperando conseguir o que queremos, e com medo de
acontecer o que não queremos. É por isso que sofremos, se não tivermos sucesso
obtendo o que queremos, sofremos, e mesmo se tivermos sucesso, podemos evitar o
sofrimento imediato, mas a impermanência significará que mais cedo ou mais tarde
perderemos o que já temos, e sofreremos ainda mais.
Mesmo se alcançarmos a ambição de nossa vida, não poderemos sentar satisfeitos,
porque não há garantia de que seremos capazes de manter o sucesso que
alcançamos. As coisas estão sempre mudando. Todas as nossas realizações não
serão suficiente, ainda que por muitas vezes, experimentamos um estado de coisas
agradáveis, mesmo assim, esse estado agradável é seguido por uma fase em que
temos que lidar com algo de que não gostamos. Ainda que não tenhamos tido escolha,
teremos que conviver com essa condição.
Por causa disso, grande parte de nossa vida é governada pelo medo. Temos medo de
doença e velhice, de morte e renascimento, temos medo de perder o que nós temos e
não obtemos o que gostaríamos.
Todos os diferentes estados do Bardo, são a forma visível das tendências inerentes
que resultaram de nossas ações anteriores. Isso significa que, o que quer que
aconteça conosco em qualquer um dos bardos corresponderá ao acúmulo de carma
armazenado em nossa mente. É por esta razão que tentamos pensar que nossa vida
não está completamente sob nosso controle. Na verdade, a forma com que essas
ilusões ocorrem depende das ações que já executamos.
Os produtos visíveis de nossa confusão, os vários estados do bardo, na verdade não
têm realidade sólida, nenhuma forma, formato ou cor real. Eles só parecem ter isso,
por causa da confusão da mente, mas não entendemos, e nós sofremos com as
consequências. Tudo o que pensamos ou percebemos, tudo é simplesmente uma
impressão criada em nossa mente. Devido à própria confusão da mente, nós estamos
convencidos de que tudo o que aparece, é externo à mente e para que possamos
controlá-lo, alterá-lo, influenciá-lo. Todos os nossos esforços são direcionados para
atingir certos objetivos, manter certas situações ou interromper que certas coisas
aconteçam, mas tudo o que estamos fazendo é criar mais sofrimento para nós
mesmos porque estamos vivendo em uma ilusão.
Temos que aprender, como já explicado na seção sobre como reconhecer a natureza
das emoções, para experimentar a verdadeira realidade de cada uma das cinco
emoções sempre que aparecem em nossa mente. Quaisquer que sejam os
pensamentos provocado por elas, sejam grosseiros ou sutis, olhe para a verdadeira
essência de cada ideia quando Ela aparecer na mente, você verá que essas ideias,
essas formas emocionais, não têm forma ou cor particular, não há nada definitivo,
nada pode ser dito sobre essas emoções. No momento em que reconhecemos que
uma emoção não pode realmente ser vista, entendemos sua verdadeira natureza. É só
como o espaço. Quando vemos isso, estamos olhando para a realidade definitiva da
emoção, e isso nos permite ficar livres da emoção. Neste momento ficamos livres da
mente confusa e da confusão criada por ela. Nós já não experimentamos as coisas em
termos de sujeito e objeto.
Se pudermos entender isso em nossa vida desperta, então quando estivermos
dormindo e sonhando, seremos capazes de ter o mesmo entendimento sobre o sonhar
enquanto realmente estiver acontecendo. Seremos capazes de nos libertar da ilusão
do sonho. Se pudermos permanecer livres do apego as diferentes percepções que
aparecem na mente em nosso estado de vigília atual. Da mesma forma, quando
estamos dormindo, podemos nos livrar do apego.
O mundo que vivenciamos quando acordados é, em muitos aspectos, como um
Sonho, no sentido de que não é real ou sólido, não existe senão como uma projeção
da mente. Devemos aprender a deixar nossa mente se acostumar e permanecer neste
entendimento. Não estamos negando vigorosamente a realidade de um mundo que
pensamos que existe; estamos simplesmente deixando nossa mente reconhecer por si
mesmo o fato de que este mundo nunca, em qualquer momento, teve qualquer
existência, é apenas uma projeção da nossa mente.
Uma maneira de chegar a esse entendimento é considerar a lei de impermanência. Se
olharmos como o mundo muda, não vemos que nada permanece o mesmo por um
instante, o tempo nunca para. ‘Apesar das aparências, o mundo não é algo sólido do
qual podemos depender. É mais como um sonho ou uma ilusão, um filme sobre na
televisão de nossa mente. Aparências, o mundo não é feito de algo sólido do qual nós
podemos depender, é mais como um sonho ou uma ilusão, um filme na televisão de
nossa mente. Nós devemos aprender a considerar nossa experiência de vida desperta
como sendo esta natureza, não nos permitindo ficar apegados aos eventos que
acontecem. Em tudo o que acontece, cultive a consciência da vida desperta como
sendo nada mais do que uma ilusão ou um sonho. Desenvolvendo esta consciência,
como a verdadeira natureza da nossa existência, que é nada mais, é do que a
confusão projetada de nossa mente, eventualmente nos libertamos dela. Podemos
permanecer constantemente com a consciência de que tudo é a mente.
Este é o primeiro passo para praticar a transformação do sono. Habituando-nos a esta
forma de ver as coisas, estabelecemos um hábito que se reafirma à noite, quando
estamos sonhando. No meio de um sonho, de repente perceberemos o sonho como
um sonho, uma ilusão projetada da mente. Uma vez que percebemos a verdadeira
natureza do sonho podemos, então, descansar na realidade última da mente e nos
libertar da confusão demonstrada pelo sonho.
As causas dos nossos sonhos
O que causa os sonhos, de onde vêm, o que os produz?
Nossos sonhos são produzidos pelas formas habituais de pensar e agir que nós
desenvolvemos durante nossa vida. Porque pensamos que tudo está acontecendo em
nossa experiência de vigília é real, acumulamos tendências para pensar e agir de uma
forma particular que é então, projetada pela mente durante o sono, em forma da ilusão
do sonho. Se, quando estamos acordados, estamos acostumados a pensar neste
presente estado de confusão como realidade, então a mesma suposição ocorrerá
durante nossos sonhos. Estaremos convencidos de que o que está acontecendo é
realmente importante, e essa avaliação pode até continuar depois de acordar:
pensamos que nosso sonho tem algum tipo de relação com nossa vida desperta. Se
tivermos um sonho agradável, ficamos muito felizes com isso, pensamos que pode ser
um sinal de que algo de bom vai acontecer conosco. Se tivermos um sonho
desagradável, nós nos preocuparemos com isso, vendo como um mau presságio. O
próprio sonho é usado para abastecer ainda mais nossas esperanças e medos diários,
algo que nos faz sofrer ainda mais.
Uma vez que reconhecemos que os sonhos são simplesmente a manifestação de
nossas próprias mentes, não somos mais afetados por seu conteúdo. Veja o exemplo
de duas pessoas dormindo e sonhando na mesmo quarto, o fato de estarem
fisicamente no mesmo lugar não significa que eles irão compartilhar o mesmo sonho.
Vai depender das tendências do indivíduo, alguém pode ter um sonho muito agradável
e acordar feliz, outro pode ter um pesadelo e se sentir muito assustado e angustiado.
A mente de cada um cria seu próprio sonho.

Se olharmos com atenção o momento em que acabamos de acordar de um sonho, e


que não tínhamos certeza de que existia quando estavamos nele evaporou
completamente. Realmente fazendo um esforço para ver isso cada vez que
acordarmos, pararemos de tentar criar uma conexão real entre o sonho e a vida
desperta. Se deixarmos nossa mente descansar em seu próprio estado natural
durante a meditação, em sua realidade natural que chamamos de Mahamudra, então
sempre que um pensamento aparecer na mente, reconheceremos imediatamente sua
verdadeira essência e nos tornaremos livres desse pensamento.
Este processo também funciona durante o sono. É o que nós estamos aprendendo a
fazer quando nos treinamos para reconhecer o sonho. Mas para ter sucesso na
consciência dos sonhos requer o desapego em vida desperta mencionada acima. É
isso que posteriormente nos permite reconhecer a clara luz, quando adormecemos e
qualquer sonho ocorre. Resumindo, se quisermos trabalhar com as manifestações da
mente enquanto estivermos dormindo, devemos começar com nossa vida desperta.

CLARA LUZ: A CLARA E SUAVE LUZ


Já mencionamos a clara luz como sendo a experiência da mente adormecida quando
nenhum sonho está presente. A clara luz pode ser experimentada em muitos níveis
diferentes, é por isso que existem vários termos para tais experiências. Falamos, por
exemplo, da clara suave e luz, da profunda clara luz, a clara luz da meditação, e a
clara luz real ou definitiva.
A clara e suave luz, é um estado que ocorre quando fazemos esta prática com muito
apego. À medida que perdemos a consciência, nossa mente não adormece realmente.
Estamos tão desesperados para reconhecer nossa mente adormecida que nossa
mente permanece em um estado que não está acordado nem dormindo, e ainda esta
totalmente consciente da situação.
O que acontece então, é que a mente projeta de si mesma, um estado de ilusão que
se assemelha muito a situação em que normalmente nos encontramos na vida
desperta, tanto que não podemos decidir se estamos dormindo ou acordados. Nós
permanecemos no meio da experiência, tentando inventar vários meios pelos quais
podemos determinar se estamos acordados ou dormindo, mas nenhum critério parece
confiável. Esse tipo de experiência muito vívida se deve a um forte traço de memória.
Nós nos esforçamos para ter a experiência da clara luz, e o nosso desejo por isso é
tão grande, que a mente fica muito lúcida.
Isso estimula a memória da meditação que fazíamos quando acordados, que é então
reproduzido pela mente confusa. Portanto, o que estamos encontrando é, na verdade,
a lembrança de nossa meditação. Tal experiência é frequentemente vivida por
pessoas no retiro de três anos, porque eles desenvolvem o hábito de meditar durante
o dia que surge, facilmente durante o sono. É também, frequentemente produzido pela
meditação no lótus e suas sílabas, descritas acima.
A razão para isso é que, se meditarmos nessas sílabas com muito apego - temos um
desejo real de experimentar a clara luz, e ficamos muito entusiasmados com a
perspectiva e então a mente fica muito tensa. Na verdade, às vezes a tensão na
mente criada por nossa excitação, é tão grande que nos priva de dormir
completamente. Eventualmente, quando conseguimos dormir, o processo natural do
sono é modificado, e a mente se encontra presa na fronteira entre dormir e acordar,
daí a experiência da clara e suave luz.

COMO MEDITAR DURANTE O SONO

Consequentemente, quando você vai dormir, você deve simplesmente deixar a mente
permanecer em sua verdadeira natureza, sem tentar fazer nada. Então descanse sua
mente gentilmente em cada uma das letras do lótus, sem se distrair para longe da
meditação. Considere essas letras como objetos de meditação, você utiliza-se delas,
para acalmar a mente, mantenha a mente no objeto, mas sem se distrair, sem forçar.
Esse processo deve ser muito relaxado e amplo. Gradualmente, com a prática, você
começará a detectar os diferentes estágios de entorpecimento que dominam a mente
quando você adormece e até os sinais sutis que acompanham a perda de poder dos
elementos do corpo. As energias masculinas e femininas fundamentais irão então se
encontrar juntos no coração, com sua consciência presa entre eles. Sentido como um
instante de inconsciência, aliás, isso é exatamente o que acontece no momento da
morte, é por isso que dormir e morrer, são processos semelhantes.
Nesse instante da inconsciência, nós podemos relaxar, e deixar-se ir pelo meio que
cultivamos durante nossa prática da meditação, na nossa vida desperta. Na prática de
Mahamudra, nos desenvolvemos a capacidade de meditar de um modo muito claro e
relaxado de nossa própria natureza desperta, unindo-se a manifestação de clara
vacuidade.

Essa tendência nos realinhará, para esse ponto da mente, e então nossa mente
estará, mais uma vez, como uma clara luz, apesar do sono, a mente esta realmente
em estado de meditação. Você descansa nesse estado, e poderá fazer isso por um
longo período. Eventualmente emergirá um sonho, assim que a mente começar a
projetar suas ilusões. Nesse momento, você ainda não esta sob influência dessas
tendências usuais, você assistirá o sonho como se fosse um reflexo no espelho. A
mente reconhece que o sonho não é de fato verdade, além disso, você não estará
envolvido nos eventos que ocorrem no sonho, você não será afetado por esses
eventos de maneira nenhuma, assim como a superfície do espelho, não é afetada
pelos diferentes reflexos nele. Não importa o quão agitadas ou complexos os reflexos
possam ser.
A razão para o sonho aparecer desta forma é que na vida desperta, nós nos treinamos
para não sermos influenciados pela atração ou repulsão, apego ou rejeição. Esta
tendência reaparece durante o sono, e assim, mesmo enquanto a mente está
projetando formas, padrões e pensamentos confusos, nós não os perseguimos ou
rejeitamos.
A mente permanece livre de emoções perturbadoras, imerso na meditação
Mahamudra. Assim que, cada pensamento aparece, é automaticamente reconhecido
como irreal, e dessa forma, desaparece naturalmente, e então, voltamos ao estado de
meditação. É por isso que nos mantemos desligados do sonho, mesmo enquanto ele
está em andamento. Se você reconhecer durante o sonho, que está sonhando, poderá
fortalecer essa consciência tentando deliberadamente influenciar os eventos de dentro
do sonho, por exemplo.
Agora nos voltamos para o que é chamado de clara e profunda luz. É um estado onde
a mente repousa na meditação Mahamudra, e permanece nela durante todo o tempo
enquanto estamos dormindo. Repousando além da dualidade, e tão profundo que não
reconhecemos a mente como sujeito ou experiências, nem tão pouco como objeto que
podem ser sentidos. Nós não estamos conscientes de absolutamente nada, sem
experiências, nem sonhos, e no instante em que a mente acorda, ainda nos
encontramos meditando na última essência da mente. Sentimo-nos felizes e
confortáveis, tanto física, como mentalmente, até a pele é muito pálida e delicada,
segundo Gampopa. Estes são sinais que estivemos na luz clara e profunda, mas não
é uma experiência na qual podemos estar conscientes.
A CLARA LUZ DA MEDITAÇÃO
Outro tipo de clara luz, é o que chamamos de, natureza ampla e luminosa da
mente, na meditação. Esta vem da prática persistente de calma mental. Durante tal
meditação encontramos as três experiências que caracterizam a calma mental
profunda: bem-aventurança, clareza e não-conceitualidade. Se eles são cultivados,
eles permanecem na mente mesmo quando estamos dormindo e afetam nossa
percepção do sono.
Depois que dormirmos, temos a impressão de que a mente esta irradiando do
coração, cheio de brilho e clareza. Parece preencher o corpo inteiro enquanto espalha-
se para fora e por todo o espaço ao seu redor de onde estivermos. Temos a
impressão de poder olhar para baixo, vendo nosso próprio corpo adormecido e todo o
ambiente que esta em torno, como os objetos no local. Ao mesmo tempo sabemos
que estamos dormindo, porém, não há dúvida de que tudo é real.
Este tipo de experiência pode acontecer quando nossa mente desperta esta bem
estável na meditação. Quanto mais desenvolvermos a estabilidade da mente, mais a
luz/clareza, da mente adormecida pode irradiar mais e mais longe, desse modo a
mente pode alcançar além do cômodo em que estamos. Quanto mais estável a mente,
mais longe a luz pode ir.

A CLARA E SUAVE LUZ

A clareza da mente iluminada, é algo que é encontrado quando todas as experiências


associadas à calma mental foram descontruídas por meio do poder da meditação, e da
percepção. Esta é uma prática avançada que gera a verdadeira sabedoria primordial
da mente, ponto em que todas as experiências de clara luz desaparecem, para ser
substituída pela realidade final da mente de clareza e vacuidade. Agora, a mente
adormecida repousa na clara luz suave, que é a sua verdadeira realidade.
Durante a prática da calma mental, nós pacificamos todo o nosso apego grosseiro à
realidade do mundo, e é isso o que produzimos na meditação e durante o sono, como
nas experiências que foram descritas. Durante o insight meditativo, trabalhamos para
limpar o apego mais sutil que temos diante da realidade do mundo. É por isso que no
sonho e em nossa pratica diária as experiências deste tipo de meditação são muito
diferentes. Todas as mais variadas experiências e realizações que temos na nossa
pratica de meditação terá efeito em nosso sono.
Isso nos leva ao final da primeira das práticas que nos permitem usar a emoção como
o caminho para a realização. Meditando durante o sono e sonho, não temos mais que
desistir dessas manifestações de ignorância, mas em vez disso trabalhar dentro delas
para alcançar a iluminação, usando o desejo para dissolver o desejo.

UNIÃO NO VAJRAYANA

Parte de nossa prática consiste em realizar a união de método e sabedoria. É um


aspecto muito falado no Vajrayana, mas muitas pessoas cometem um grande erro
sobre o que, isso realmente significa. Eles costumam pensar que a não dualidade ou a
união do masculino e feminino significa a união entre homens e mulheres. Na verdade,
esta é uma visão muito estreita que irá introduzir inúmeros e profundos, erros na
experiência da meditação.
Quando falamos de sabedoria, esse é o aspecto feminino, estamos falando da
realidade de que todos os fenômenos, sem exceção, não possuem absolutamente
nenhuma, existência intrínseca. Quando usamos a palavra método, estamos falando
sobre o lado masculino de todos os fenômenos, e o fato de que eles são visíveis.
Mencionando a união entre sabedoria e método, é uma forma de se referir à verdade
de que não há distinção a ser feita entre a manifestação dos fenômenos e a falta de
existência intrínseca entre os mesmos. Isso significa não rejeitar a vacuidade em favor
de manifestação e não rejeitar a manifestação em favor da vacuidade. Nós devemos
aprender a descansar a mente na união natural desses dois opostos.
Se não compreendermos totalmente a união de método e sabedoria neste sentido,
cada vez que meditarmos nas divindades em união, nós apenas aumentamos o
veneno do desejo. Nossa emoção de apego fica cada vez pior, o que não é maneira
de resolver o problema.
Devemos evitar, no entanto, cair no extremo oposto de rejeitar totalmente a ideia das
mulheres como sendo sabedoria e os homens como método. Fazer isso significa que
adotamos o niilismo extremista que nos levará a rejeitar, verdadeira realidade das
coisas.
Todas as manifestações que emergem de nossa mente, devem sua forma à mente
que os produz. Isso é o que chamamos de Tendrel, a relação interdependente que
existe entre a manifestação e a mente da qual se origina. Contanto que nossa mente
funcione em um modo dualístico assim como o mundo produz, está fadado a ser a
expressão da dualidade, e parte dessa dualidade é para projetar no mundo a
existência de membros do sexo oposto, junto com a frustrante sequencia de
relacionamentos que resultam quando estes dois pólos de atração tentam resolver a
dualidade da qual eles são reflexo.
Uma vez que nossa mente esteja totalmente pura, suas manifestações serão a
expressão de uma pura sabedoria, é por isso que temos a imagem da união natural
das divindades de sabedoria. Desta vez, a mente se expressa em termos da não
dualidade de manifestação e vazio. As próprias divindades da sabedoria não têm
apego ao desejo em tudo, eles não estão em união porque estão absolutamente
apaixonados um pelo outro. Meditamos nas divindades que se abraçam a fim de criar
uma conexão entre a nossa mente presente e o estado de não-dualidade, a
manifestação de sabedoria à qual pertence a união das divindades. Para quem não
entende esta realidade natural, meditar sobre divindades em união, só ira cultivar
ainda mais os hábitos de desejo que ele tem em sua mente. Todos nós temos em
mente, em qualquer momento, duas tendências: ignorância e sabedoria. Enquanto a
ignorância predominar, não poderemos reconhecer a realidade iluminada de nossa
mente e assumirmos que somos pessoas comuns.
A única diferença real entre um Buda e uma pessoa comum, é que um Buda viu a
verdadeira natureza de sua mente, enquanto um pessoa comum, não. Se realmente
nos virmos/reconhecermos como divindades, a natural visão que vem do
reconhecimento da verdadeira realidade da nossa mente, então nós somos um Buda,
temos sabedoria. Mas se não enxergarmos essa verdadeira natureza, nossa a mente
permanecerá influenciada por emoções como ódio e apego. Que nos leva a
experimentar um mundo cheio de impurezas. Nós não temos que sair para encontrar o
estado de Buda, isso é algo que já temos, nós simplesmente temos que reconhecer
isso.
Entre as diferentes emoções, o apego é o mais difícil de se livrar. Isso ocorre porque
todos nós temos uma inerente tendência de buscar e agarrar as coisas e achamos a
ideia de realmente deixar ir todo apego, como sendo uma ideia muito estranha. O
apego sexual, em particular é onde estamos constantemente presos à existência
cíclica através da corda do apego, que é extremamente difícil de cortar.

OS QUATRO MUDRAS

O método para usar o desejo como um caminho para a iluminação funcionando é


chamado de, os quatro mudras.
O primeiro Mudra, é o Karma Mudra. Usar um Karma Mudra, significa praticar união
física com uma mulher, mas ela deve ser uma mulher qualificada. No entanto, quem
ainda não atingiu os níveis de Bodhisattva cairá nos reinos inferiores se tentar usar
esses métodos. O sinal de uma realização do Bodhisattva, é o desapego à dualidade e
ao ego, que permite que ele aja de muitas maneiras incríveis no mundo exterior, atos
que chamamos de milagres. Tudo o que está acontecendo é que as realizações
internas de tal pessoa estão se tornando visíveis no mundo exterior.
Mas quando alguém se engana sobre seu próprio nível de realização, que por seu
orgulho pensa que já está nos níveis de Bodhisattva, estará sob a ilusão de que não é
mais necessário que ele cumpra os votos de conduta ética. Sua mente será
influenciada por emoções cada vez mais fortes, e ele continuará entregando-se às dez
ações não virtuosas, assumindo que ele está além da lei do Karma, e portanto, livre de
todas as consequências. Ele não só engana ele mesmo, mas também desencaminha
outros que, sem saber, confiam nele e seguem seu exemplo, é por isso que uma
consequência tão importante como o renascimento nos reinos inferiores o espera.
É possível, entretanto, para aqueles que não entraram na ordem monástica e que são
treinados nas práticas que usam os canais de energia sutil, usar sua energia para
confiar em um Karma Mudra. Eles são então chamados chefes de família
empunhando o Vajra. Esses praticantes ainda tomam cuidado para manter os votos
gerais de conduta ética, os votos do leigo. Diz-se que muitos 'os tertons, os
descobridores de tesouros, e também membros do Sakya e das escolas Drikung
empregam essa prática.
O segundo tipo de mudra é o Samaya Mudra, que se refere à prática do Tummo, o
calor místico. Isso consiste em meditar sobre o fogo da sabedoria, e o calor que é
produzido faz com que a energia de Bodhichitta derreta em seu corpo. Cada vez que
sentimos desejo, o calor gerado pela emoção, Tummo, será experimentada como a
união de bem-aventurança e vazio, desde que nossa mente repouse em um estado de
vacuidade imperturbável ao longo da prática. Na prática do Tummo, é muito
importante não perder a força interna do corpo, o que significa proteger nossa energia
sexual como protegemos nossa vida, então que nada disso seja perdido pelo apego.
Esta prática é comum na Linhagem Dhagpo Kagyu. O terceiro tipo de mudra é o
mudra de sabedoria, o mudra jAana em Sânscrito. O mudra de sabedoria, é a mente
em meditação, nesta prática, nós meditamos sobre a divindade em união, aspectos
masculino e feminino se encontrando são vistos como inseparáveis. Com este tipo de
meditação, estabelecemos uma conexão com a igualdade dos opostos, inerente ao
estado de realidade final. É a união da manifestação e do vazio descrita acima.

O último dos quatro mudras é o Mahamudra, a própria mente vazia, também chamado
de Mãe dos Budas dos Três Tempos, porque dela aparecem as quatro nobres
verdades: os sravakas, pratyekabuddhas, bodhisattvas e budas. Meditar sobre o vazio
também é conhecido como a prática da Grande Mãe. É um método de valor particular
para aqueles que não podem empregar as práticas iogues que usam os canais sutis e
a sua energia, os idosos, por exemplo.
Nestes quatro mudras, encontramos os diferentes métodos para usar o desejo como
um caminho para atingir a iluminação. Usando a raiva para purificar a raiva, ciclo de
vida de um demônio. Ficamos com raiva quando temos pessoas ou situações que são
contra nossas ideias. Para trabalhar com essa emoção, portanto, precisamos de
inimigos. O melhor tipo de situação para treinarmos são as diferentes circunstâncias
obstrutivas que encontramos no dia a dia, essas dificuldades muitas vezes são o
trabalho de seres sutis que se sentem contrários em relação a nós e gostam de criar
dificuldades para nossa vida diária.

Essas forças negativas ou demônios são seres que, em uma vida anterior cometeram
muitos atos malignos. Por causa disso, eles acumularam uma tendência de gostar de
causar danos aos outros, uma tendência que distorce nossa maneira de pensar a tal
ponto, que eles constantemente nos levam a cometer erros, pontos de vista, atitudes
negativas e um desejo de ver os outros sofrerem. Estes desejos negativos alcançam
sua realização em um renascimento onde tais seres, mesmo enquanto sofrem,
passam a vida inteira procurando causar sofrimento para quantas pessoas for
possível. Seu único pensamento é manter a existência cíclica e todo o sofrimento nela,
e assim sua principal intenção, é parar as pessoas que estão no caminho para
alcançar a iluminação. Esses seres certamente encontrarão seu caminho para o
inferno por causa das terríveis consequências dessas ações negativas.

Se desenvolvermos ódio e raiva em relação a tal ser quando o encontrarmos, ele


assumirá o controle de nosso corpo e mente. Nos tornaremos possuídos por ele,
forçados a fazer o que ele quiser. Mas se desenvolvermos compaixão por ele, então é
ele quem fica sob nosso controle e nós poderemos ajudá-lo e libertá-lo de seu terrível
tormento.

O sofrimento e a disposição negativa de tais demônios são tão severos, que eles não
podem ser transformados pela compaixão pacífica comum. É necessário uma
compaixão especialmente forte, do tipo que emerge da mente na forma de uma
divindade colérica. Esta compaixão colérica reconhece que o sofrimento de tais
demônios não reside apenas no fato de que, eles mesmos não chegam perto da
iluminação, mas que eles continuamente, prejudicam os outros e evitam que outros
também, tornem-se iluminados. Esta compreensão nos leva a gerar um forte desejo de
ser capaz de libertar essa força negativa de sua negatividade. Usar a raiva para
superar a raiva significa imaginar que nós cortamos e destruímos completamente, e de
uma só vez todo o carma ruim e as tendências negativas na mente deles, deixando-as
pura e livre, capaz de fundir-se com a realidade final.

Mas para que essa destruição seja efetiva, nossa compaixão colérica deve ser dotada
da sabedoria, e não da dualidade. Nossa mente deve perceber que, a obstrução nada
mais é, do que uma manifestação de nossa própria mente. O inimigo somos nós
mesmos raiva e compaixão. Devemos estar na posição de encontrar tal ser e ainda
assim, se formos incapazes para fazer qualquer coisa por ele, podemos deixá-lo
seguir o caminho que escolheu. Enquanto, ao mesmo tempo, formulamos um desejo
profundo, de que ele possa ser libertado de seu estado negativo. Se não temos o
poder de ajudá-lo, não há culpa ou falta em não fazer nada.

No entanto, se tentarmos destruir a negatividade do ser, quando não temos a


consciência e sabedoria na mente que torna isso possível, não é diferente de ficar com
raiva de alguém e destruí-lo. Quando nossa mente está cheia da raiva comum, que
vem da percepção dualística, tal ato de destruição é como matar alguém, a nós ou
nossos irmãos, para sofrer mais tarde as consequências deste ato. Além do mais, se
nós, não somos capazes de destruir sua negatividade, ele se sentirá traído por nossa
ação, e ficará com raiva e nos causará todos os tipos de dificuldades. Portanto, é
muito importante estar ciente sobre o que podemos e não podemos fazer, ou corremos
o risco de piorar as coisas. Se realizada corretamente, a energia que aparece na
mente não é a emoção da raiva, é a pura energia da compaixão que irá beneficiar o
ser negativo, porque ele será definido por esta ação de uma vez por todas, para o
caminho da libertação. Essa compaixão colérica é o oposto de nossa emoção comum
de raiva ou ódio. É assim que se comporta, em relação às forças nocivas que não são
entidades físicas.

INIMIGOS HUMANOS

Quando nos deparamos com um inimigo físico, por outro lado, é melhor, simplesmente
desenvolver uma consciência do lado positivo da situação. Se nos depararmos com
alguém que nos deixa com raiva, alguém de quem não gosto, alguém com quem não
podemos nos dar bem, devemos reconhecer que sua atitude hostil para conosco não é
culpa dele. Ele é simplesmente a manifestação dos resultados de nossa própria raiva
anterior. Aceitando isso, nós devemos ver a situação como uma boa oportunidade
para praticar a paciência, e uma boa oportunidade só se apresenta por causa desse
ser, portanto, deveríamos ser gratos a ele, a ponto de desejar que os efeitos de nossa
raiva no momento, seja nossa para vivenciarmos no futuro. Se não formos capazes de
evitar ficar com raiva quando a situação realmente ocorre, quando nos acalmarmos,
devemos olhar para trás, para a situação e ver se a pessoa que nos deixou com raiva,
realmente nos deu uma boa ajuda mostrando nossa falta de paciência. Ele nos deu
uma lição espiritual.

Lições semelhantes podem ser aprendidas quando nos sentimos ameaçados por
obstáculos ou dificuldades, que são percebidas como tais simplesmente por causa de
nossa própria visão particular de uma situação. Precisamos reconhecer que essa
reação é meramente nosso apego ao ego. Autocentrado, nós queremos que as coisas
aconteçam da maneira que queremos, caso contrário, sentiremos que estamos sendo
obstruídos. Se puder, veja a situação como uma lição sobre a existência do apego ao
ego, e vamos reconhecê-lo como um bom amigo.

Isso nos leva a abordagem final, sobre como lidar com as emoções. Neste texto
encontramos um vasto número de maneiras, para trabalharmos com as emoções. No
texto, aprendemos como abandonar as emoções, para cada emoções que surgir,
aplique seus respectivos antídotos, para transformá-los e reconhecer sua verdadeira
natureza e, finalmente, use-os como o caminho para a iluminação.

Lembrando dessas instruções muito claramente, e aplicando-as quando localizarmos a


oportunidade, logo encontraremos nosso caminho para sair da confusão mental,
controlada pelas emoções. O autor do texto, Chagme Rinpoche, termina com um
pedido de desculpas por qualquer erro no texto, pedindo para ser perdoado por
aqueles que sabem mais das escrituras, que ele mesmo, e faz um desejo que, por
meio do mérito desta composição, todos possam desenvolver o gosto pelo Dharma e
praticar. Pode haver muitos monges futuros, e outros seguirão até o fim o ensino do
Buda.

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