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TEORIA GERAL DO PROCESSO


ROTEIRO DE AULA N. 2: EVOLUÇÃO HISTÓRICA DO DIREITO PROCESSUAL
VINÍCIUS SANT’ANNA

1 Evolução histórica do Direito Processual


1.1 Processo romano
O direito processual, como ramo autônomo da ciência do direito, teve como marco de nascimento a
publicação da obra Die Lehre von den Prozesseinreden um die Prozessvoraussetzungen (A teoria das exceções
processuais e os pressupostos processuais), por Oskar von Bülow, na Alemanha, em 1868.

Porém, o processo, como método de resolução de lides, é bem mais antigo, embora apenas em Roma tenha
alcançado seu grau mais alto de evolução. Tanto isso é verdade que o direito processual de quase todas as
nações modernas se inspirou no direito romano.

O direito romano pode ser dividido em dois grandes sistemas (privado e público) e em três períodos (Legis
Actiones, Processo Formulário e Extraordinária Cognitio).

Em um primeiro momento, os romanos entenderam que o direito nascia da ação. Assim, no período das
Legis Actiones (754 a.C. a 149 a.C.), a ação e o direito mantinham uma forte conexão. Inclusive, a ação
poderia ser anterior ao direito, até mesmo para criá-lo. Este período fez parte do sistema privado.

No período do Processo Formulário (754 a.C. a 149 a.C.), também inserido no sistema privado, houve
predominância da oralidade, sendo essa sua principal característica.

Por fim, com a expansão do Império Romano, teve início o período da Extraordinária Cognitio (209 d.C. até
468 d. C.), integrante do sistema público, em que o direito à contraprova passou a ser reconhecido
(atualmente, princípio do contraditório), a sentença passou a afetar somente as partes (atualmente, limites
subjetivos da coisa julgada) e o recurso de apelação passou a existir (atualmente, modo de se buscar a
reforma ou a anulação de uma sentença).

Portanto, no período da Extraordinaria Cognitio o processo já era tido como instrumento de realização do
direito, embora ainda muito ligado ao direito material.

O processo praticado em Roma satisfazia os ideais de justiça da época, quando ocorreu a queda do Império
Romano do Ocidente, com a invasão dos bárbaros (germânicos), que possuíam uma cultura ainda primitiva
e a impuseram aos romanos. Assim, houve um choque entre dois métodos completamente diferentes de
se fazer justiça: o romano, altamente aprimorado, e o germânico, rudimentar e carregado de religiosidade
e misticismo.

1.2 Processo romano-barbárico


Os invasores germânicos procuraram impor aos romanos o seu método de resolução de conflitos,
infinitamente inferior. Todavia, o processo romano continuou resistindo ao desaparecimento, havendo
época em que esses dois tipos de processo (germânico e romano) chegaram a conviver em Roma,
especialmente por conta dos esforços da Igreja, preocupada com a manutenção das instituições romanas.

O processo civil romano-barbárico passou por três diferentes fases: longaborda, franca e feudal.

Na fase longaborda, não existia diferença entre o Direito Penal e o Direito Civil, importando apenas a
reparação do direito violado. O processo era preponderantemente público e oral.

Por sua vez, na segunda fase, franca, havia juízes que davam publicidade ao conteúdo da sentença, proferida
por um conde, autoridade judiciária escolhida pelo rei. O procedimento era movido pelo impulso oficial
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(pela própria autoridade judiciária, independentemente de provação das partes).

Já no período feudal, conhecido como período das trevas (Idade Média), o processo e o Direito, de um modo
geral, sofreram um retrocesso. Passou-se a aplicar a lei do talião (olho por olho e dente por dente) e a
valorizar a jurisdição eclesiástica.

1.3 Período dos glosadores


Com a criação da Universidade de Bolonha, na Itália, no século XI da Era Cristã, surgiu a Escola dos Glosadores
e, posteriormente, a Escola dos Pós-Glosadores, que muito se preocuparam com o estudo do direito romano,
procurando adaptá-lo às necessidades da época.

O período dos glosadores ficou conhecido como a época de recuperação dos termos romanos. Recebeu esse
nome porque os juristas de então anotavam os referidos textos em glosas.

1.4 Período dos pós-glosadores


Este período é marcado pelas seguintes características: a prova e a sentença obedeciam ao princípio da
racionalidade, inspirados pelo direito romano. Para que houvesse juízo e processo era preciso, também, que
houvesse contestação.

Para ser movido, o processo evoluiu da provocação das partes para o impulso oficial.

A coisa julgada, nesta época, representava uma presunção de verdade.

1.5 Período da jurisprudência culta


Neste período houve expansão e desenvolvimento dos institutos criados na fase dos pós-glosadores para a
França e a Alemanha.

1.6 Período moderno (cientificidade do processo)


Foi com o surgimento das codificações que o Direito Processual conquistou a categoria de um
conhecimento científico. Destaca-se, fundamentalmente, a obra de Oskar Von Bülow, conforme dito no
início.

2 Análise histórica do Direito Processual brasileiro


A independência política do Brasil não levou o país a se desvencilhar por completo de Portugal. Assim,
mesmo depois de conquistada a independência, o direito português permaneceu vigente no território
brasileiro, por meio das Ordenações Filipinas e algumas outras leis lusitanas criadas posteriormente, desde
que não confrontassem a soberania nacional.

As Ordenações Filipinas eram segmentadas em livros, sendo que o Livro III era destinado à parte processual.

Neste período, o processo ficou caracterizado por ser escrito (o juiz só podia analisar o que estava inserido
no processo), por as partes não participarem da oitiva das testemunhas e pela forte incidência do princípio
do dispositivo (autor e réu eram “donos do processo”, cuja movimentação era privilégio das partes).

Tal situação perdurou até a edição do Código Comercial de 1850, quando o Governo Imperial editou o
primeiro Código Processual elaborado no Brasil: o Regulamento 737/1850.

Inicialmente, o Regulamento 737/1850 foi aplicado apenas às causas comerciais.

Em 1876 o Governo brasileiro se encarregou de promover uma consolidação de todas as leis vigentes sobre
o processo civil.
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Já em 1890, por meio do Decreto 763, as Ordenações Filipinas foram revogadas, e, a partir daí, o
Regulamento 737/1850 passou a se aplicar também às causas que não tinham natureza comercial.

Com a Constituição Federal de 1891 (CF/1891), foi inaugurado no Brasil o sistema político republicano,
consagrando-se, ao lado da distinção entre Justiça Federal e Justiça Estadual, a divisão de competência entre
a União e o Estado para criar leis processuais.

A divisão de competência entre a União e os Estados gerou grande tumulto, porque permitiu que o processo
fosse disciplinado de maneiras diferenciadas nas várias regiões brasileiras. Assim, com a Constituição Federal
de 1934 (CF/1934), a competência legislativa em matéria de direito processual passou a ser exclusiva da
União, instituindo-se um processo unitário.

Anos depois foi criado o Código de Processo Civil de 1939 (CPC/1973), que, por apresentar falhas relevantes
(ora inovador, ora conservador), veio a ser substituído pelo Código de Processo Civil de 1973 (CPC/1973),
vigente pelo menos até março de 2016, quando será substituído pelo Código de Processo Civil de 2015
(CPC/2015).

O CPC/1973 foi criado numa época em que os problemas existentes na sociedade eram de natureza
individual. Todavia, as transformações tecnológicas, a complexidade dos problemas sociais, o crescimento
da população, dentre outras coisas fizeram aparecer um novo tipo de lide, de natureza coletiva, como as
relativas ao meio ambiente, à ordem econômica, ao consumidor, à criança e ao adolescente, etc.

Para atender a essas novas situações, nos últimos anos foram promovidas inúmeras alterações no
ordenamento jurídico brasileiro e no CPC/1973, que passou a parecer, como dizem alguns doutrinadores,
uma verdadeira colcha de retalhos.

3 Evolução da doutrina processual


Durante muitos séculos o processo foi praticado sem que houvesse preocupação com a elaboração científica
de seus institutos.

A evolução da doutrina processual passou por cinco etapas: a) primitivismo; b) judicialismo; c) praxismo; 4)
procedimentalismo; e 5) processualismo científico.

No primitivismo não havia autênticas exposições processuais, mas obras de diferentes datas, nacionalidade
e natureza, nas quais se encontram dados e ideias acerca da justiça e do seu funcionamento.

O judicialismo recebeu essa denominação por ser o iudicium (processo) um termo tão enraizado na
linguagem processual que o seu conceito se destaca nos trabalhos da época, com seus sujeitos e suas fases.

Por seu turno, o praxismo, que foi um dos períodos mais longos de evolução do Direito Processual,
caracterizou-se por ser um conjunto de recomendações práticas sobre o modo de se proceder em juízo,
havendo uma maior preocupação com a forma de se realizar o processo do que com os estudos teóricos a
seu respeito.

A ideia de recomendações práticas pode ser extraída da própria palavra praxismo, que deriva de praxis, cujo
significado é “aquilo que se pratica habitualmente, rotina, uso prática”.

Neste período, não se fazia distinção entre o direito processual e o direito material, de modo que o processo
era estudado apenas em seus aspectos práticos.

O procedimentalismo sofreu forte influência da Revolução Francesa e, consequentemente, dos Códigos de


Napoleão, o que resultou na separação entre a legislação processual civil e a legislação processual penal.
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Esta etapa foi um importante passo na evolução do direito processual, pois o processo deixou de ser
realizado de acordo com a praxe e passou a ter na lei a sua regulamentação.

Por fim, o processualismo científico teve início em 1868, quando Oskar von Bülow publicou a obra Teoria
das exceções processuais e os pressupostos processuais.

Fala-se em processualismo científico porque não se trata mais de conhecer o processo segundo a praxe, nem
abordá-lo pela forma como a lei o regula, mas de tomar como ponto de partida o estudo do próprio processo,
segundo sua natureza jurídica, e, assim, todos os institutos básicos do direito processual.

Bülow concebe o processo como uma relação jurídica, demonstrando ser ele uma relação de direitos e
obrigações entre as partes e o juiz, ou seja, uma relação jurídica processual.

Neste período, destaca-se a independência do direito processual frente ao direito material e o


estabelecimento de questões primordiais, como a ação, a jurisdição e o processo, que formam a trilogia
estruturante do direito processual.

É preciso ter em mente, porém, que apesar do reconhecimento da distinção entre direito processual e direito
material, entre eles se estabelece uma relação de complementariedade, não sendo um mais importante que
o outro.

O direito processual concretiza e efetiva o direito material, que confere ao primeiro seu sentido.

Atualmente, fala-se em uma nova fase de evolução da doutrina processual, denominada


neoprocessualismo, segundo a qual ao processo devem-se aplicar as normas jurídicas previstas na
Constituição Federal de 1988, sem a necessidade de intermediação por leis, tendo em vista a força normativa
dos preceitos constitucionais.

O neoprocessualismo também pode ser chamado de formalismo valorativo, exatamente por destacar a
importância que se deve dar aos valores constitucionalmente assegurados, além de salientar a importância
de aspectos éticos do processo, como a moral e a cooperação entre as partes.

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