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TEORIA DA

CONSTITUIÇÃO
PARA GABARITAR: DE CONCURSOS
DE TÉCNICO A JUIZ FEDERAL
--------------------------------------------------------------
A CONSTITUIÇÃO
RESUMO AULA 1

#SouOuse
#TôDentro
CURSO DE TEORIA
DA CONSTITUIÇÃO

1. Constituição

1.1 Definição e Conceito



Incialmente, é preciso compreender o que é Constituição. Todavia, estabelecer o
conceito de Constituição é, sem dúvida, uma tarefa árdua, pois o termo é multifacetado, não
havendo uma linearidade e univocidade em torno de sua base semântica.

A noção de Constituição remete a milhares de anos. Já se falava em Constituição na
Grécia antiga. Veja o seguinte trecho de Aristóteles:

“A antiga constituição, tal como existia nos tempos de Drácon, estava


organizada da seguinte maneira: os magistrados eram eleitos entre as
pessoas de alta sociedade e de opulenta. Embora o governo não fosse
vitalício, estendia-se por períodos de dez anos. Os primeiros magistrados
eram hierarquicamente os seguintes: o Rei, o Polemarca e o Arconte”
(ARISTÓTELES. A Constituição dos Atenienses. 332 a.C. e 322 a.)

Ocorre que a noção de Constituição da antiguidade clássica aos nossos dias sofreu
profundas alterações. Nos dias atuais a ideia de Constituição guarda muito mais proximidade
com o conceito surgido após as chamadas revoluções burguesas (século XVIII), nascendo,
portanto, o dito “conceito moderno de constituição”. Logo, percebe-se que a Constituição é
uma ideia que vem se desenvolvendo ao longo dos tempos.

Assim, para se começar a entender o que é uma Constituição, inicialmente, serão


apresentadas duas definições básicas de Constituições:

“A Constituição é o Estatuto jurídico do político”. (Canotilho)

“A Constituição é o Estatuto do Governo” (Goffedro Telles Junior)

É possível perceber, portanto, partindo das definições acima, que quando se fala
em Constituição, traz-se uma ideia jurídica que tenta regulamentar a política. Assim, uma
constituição é tentativa do Direito em regulamentar a Política/o Poder dos Governantes.

Vistas as definições acima, pode-se trabalhar com um conceito (lembrando que os


conceitos já são formulações mais elaboradas em relação às definições do objeto que se busca
apreender) que traz mais elementos sobre a ideia de Constituição que aqui se busca captar:

“A definição usual de ‘constituição’ alude à existência de um conjunto


unitário de normas jurídicas que, no sistema normativo geral do
ordenamento, ocupa o lugar de mais alta hierarquia. Tendo se

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firmada paralelamente à forma prevalecente de organização política


consubstanciada no Estado moderno, é conceito inseparável da ideia
de Estado, e pode ser compreendido em sentido amplo e sentido
restrito”. (COELHO, Luís Fernando. Direito Constitucional e Filosofia da
Constituição. 2011)

Por sua vez, nesse conceito de Constituição, Luís Fernando Coelho já o relaciona com
o Estado moderno, conceituando-a como um conjunto de normas jurídicas que tenta organizar
a vida política do Estado e que tem o lugar de mais alta hierarquia dentro do ordenamento
jurídico. Ocorre que, mesmo dentro desse conceito, é possível ter um sentido amplo e um
sentido restrito.

1.2 Acepção Ampla e Acepção Restrita de Constituição

Em acepção ou sentido amplo, Luís Fernando Coelho afirma:

“Lato sensu designa o conjunto de princípios reguladores da organização


básica do Estado e, sob este aspecto, não precisa necessariamente ser
um texto unitário, mas um complexo de normas, costumes e tradições
políticas”. (COELHO, Luís Fernando. Direito Constitucional e Filosofia da
Constituição. 2011)

Em outras palavras, qualquer conjunto de normas (esteja ela em um texto único ou


não; esteja ele em um lugar de maior hierarquia ou não), de princípios, que regule a organização
básica do Estado é uma Constituição.

Por sua vez, em um sentido estrito:

“Stricto sensu, a constituição identifica um corpo unitário de prescrições


jurídicas que delimitam os poderes do Estado e determinam o respeito aos
direitos dos indivíduos”. (COELHO, Luís Fernando. Direito Constitucional
e Filosofia da Constituição. 2011)

Esse é um conceito de Constituição tipicamente liberal. Nesse sentido, só será


Constituição aquilo que estiver um único corpo unitário de normas, que limitar o poder do
Estado e que consagrar direitos individuais.

Assim, percebe-se:

 Em acepção ampla, Constituição significa qualquer regulamentação jurídica geral


da organização básica de qualquer sociedade em qualquer momento da história;

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 Em acepção estrita, Constituição tem como pressuposto o Estado tal como o


entendemos hoje (que conforme ensina História e a Ciência Política, tal modelo
estatal surge na Idade Moderna, possuindo como elementos um território, um povo,
a soberania e a finalidade), sendo a Constituição o instrumento jurídico que impõe
limites normativos ao(s) Poder(es) existente(s) dentro da estrutura estatal.

1.2 Sentidos de Constituição

Não obstante essas noções iniciais, muito já se estudou, pesquisou e se escreveu


sobre a Constituição. Sentidos de Constituição são assim, justamente, as reflexões teóricas dos
autores e pesquisadores do Direto Constitucional a respeito do que é Constituição. Ao longo
da história do Direito Constitucional, diversos sentidos foram desenvolvidos. Vejamos os mais
importantes.

1.2.1 Instrumental

Esse sentido de Constituição é principalmente desenvolvido por Jorge Miranda:

“Por um lado, Constituição instrumental vem a ser todo e qualquer texto


constitucional, seja ele definido material ou formalmente, seja único
ou plúrimo. Por outro lado, mais circunscritamente, por Constituição
instrumental pode entender-se o texto denominado Constituição”
(MIRANDA, Jorge. Manual de Direito Constitucional. Vol. 2.).

É o sentido mais básico. Resumidamente, Constituição em sentido instrumental é


o texto denominado Constituição. É o instrumento de trabalho do profissional do Direito. É o
documento palpável. É aquilo que se vê quando se abre o Vade Mecum ou se acessa o site do
Planalto na área referente à legislação.

Importante registrar que a Constituição em sentido instrumental não é sinônimo de
Constituição em sentido formal, mas o expressa, como será visto mais à frente.

1.2.2 Histórico

Para entender esse sentido, importante lembrar do seguinte brocardo: Ubi homo ibi
societas; ubi societas, ibi jus (onde existe ser humano, existe sociedade; onde existe sociedade,
existe direito).

Disso surge uma noção de Constituição que remete àquela mesma noção de
Constituição em sentido amplo vista anteriormente, ou seja, a Constituição em sentido histórico
é todo o conjunto de normas que sirva para regulamentar a vida em sociedade. Se Constituição é
a organização básica da sociedade, onde quer que tenha existido sociedade houve Constituição.

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Otto von Gierke, juspublicista alemão, é um exemplo de autor que defende o sentido
histórico.

Não obstante, alguns autores criticam esse sentido, pois entendem que só se pode
falar em Constituição, quando há um documento jurídico oriundo depois da formação dos
Estados Modernos.

1.2.3 Formal

Incialmente, vale observar o seguinte trecho de Daniel Sarmento e Cláudio Pereira


de Souza Neto:

“Algumas vezes, fala-se em Constituição para aludir-se às normas


jurídicas dotadas de superior hierarquia no ordenamento do Estado,
independentemente de seu conteúdo. Essa é a Constituição ‘em sentido
formal’, ou Constituição formal”. (SARMENTO & SOUZA NETO. Direito
Constitucional. Teoria, história e métodos de trabalho. 2014. P. 52)

Em outras palavras, Constituição em sentido formal é tudo aquilo que está na estrutura
que foi consagrada pelo Constituinte como norma constitucional, independentemente, da
matéria (assunto) sobre o qual discorra, tendo recebido a proteção diferenciada do sistema
jurídico por ser norma de cúpula do ordenamento. Tudo que está no texto da Constituição é
formalmente constitucional.

Na Constituição brasileira, existem vários exemplos de normas APENAS formalmente


constitucionais. Pode-se citar o art. 242 e o art. 173. (...) § 5º:

Art. 242. (...) § 2º O Colégio Pedro II, localizado na cidade do Rio de Janeiro,
será mantido na órbita federal.

Art. 173. (...) § 5º A lei, sem prejuízo da responsabilidade individual dos


dirigentes da pessoa jurídica, estabelecerá a responsabilidade desta,
sujeitando-a às punições compatíveis com sua natureza, nos atos
praticados contra a ordem econômica e financeira e contra a economia
popular.

1.2.4 Material

Veja o seguinte trecho de Paulo Bonavides:

“Do ponto de vista material, a Constituição é o conjunto de normas


pertinentes à organização do poder, à distribuição da competência,

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ao exercício da autoridade, à forma de governo, aos direitos da pessoa


humana, tanto individuais como sociais. Tudo quanto for, enfim,
conteúdo básico referente à composição e ao funcionamento da ordem
política exprime o aspecto material da Constituição.” (BONAVIDES,
Paulo. Curso de Direito Constitucional. 2001. P. 63.

Assim, quando se fala em Constituição em sentido material, busca-se fazer referência


àquilo que é assunto de Constituição. De acordo com o referido autor, tudo que for referente à
composição e ao funcionamento da ordem política é Constituição em sentido material.

Nasce, então, um questionamento entre os autores: O que é assunto de Constituição?

Grande parte da doutrina assevera que é assunto de Constituição apenas o diz


respeito à limitação do Poder do Estado e à garantia de direitos fundamentais. Todo o resto
seria desdobramento desses assuntos.

Em resumo, é aquela escrita ou não em um documento constitucional e que contém as


normas tipicamente constitutivas do Estado e da sociedade. Há certos temas que são típicos de
uma Constituição e a regulação desses assuntos compõe o que se classifica como Constituição
material. Ocorre que nem todas as normas do ordenamento jurídico que tratam de tema que se
possa considerar como tipicamente constitucional se acham contidas no texto da Constituição.

Por fim, vale registrar que a diferenciação entre normas formalmente e materialmente
constitucionais é decisiva tanto para a ideia de recepção de normas e de supremacia da
constituição quanto para a teoria da inconstitucionalidade.

1.2.5 Sociológico (ou Real)

Foi desenvolvido por Ferdinand Lassale:

“Sendo a Constituição a lei fundamental de uma nação, será — e agora


já começamos a sair das trevas — qualquer coisa que logo poderemos
definir e esclarecer, ou, como já vimos, uma força ativa que faz, por uma
exigência da necessidade, que todas as outras leis e instituições jurídicas
vigentes no país sejam o que realmente são, de tal forma que, a partir
desse instante, não podem decretar, naquele país, embora quisessem,
outras quaisquer”. (Lassale)

Assim, para Lassale, a Constituição é uma força que diz como as coisas são. É uma
força ativa dentro da sociedade que é capaz de dizer como as instituições devem funcionar, de
dizer quais são os institutos jurídicos, definir o que um direito, etc.

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“Os fatores reais do poder que regulam no seio de cada sociedade são essa
força ativa e eficaz que informa todas as leis e instituições jurídicas da
sociedade em apreço, determinando que não possam ser, em substância,
a não ser tal como elas são”. (Lassale)

Em outras palavras, para Lassale, dentro da sociedade existem fatores reais de poder,
sendo que estes são forças sociais ativas que determinam como as coisas são. O referido autor
cita como fatores reais de poder a monarquia o Exército, a Aristocracia, a Grande Burguesia, o
Banqueiros, a Pequena Burguesia e a Classe Operária.

Os fatores reais de poder são, portanto, aqueles indivíduos ou grupos de indivíduos


que têm a capacidade de dizer como as coisas devem ser. Então, se a Constituição é uma força
ativa e, segundo Lassale, essa força ativa são os fatores reais de poder, a Constituição, em
essência, é aquilo que os fatores reais de poder dizem que ela é.

“Essa é, em síntese, em essência, a Constituição de um país: a soma dos


fatores reais do poder que regem um país”. (Lassale)

Concluindo, Lassale afirma:

“Mas, que relação existe com o que vulgarmente chamamos Constituição;


com a Constituição jurídica? Não é difícil compreender a relação que
ambos conceitos guardam entre si. Juntam-se esses fatores reais do poder,
escrevemo-los em uma folha de papel, dá-se-lhes expressão escrita e a
partir desse momento, incorporados a um papel, não são simples fatores
reais do poder, mas sim verdadeiro direito, nas instituições jurídicas e
quem atentar contra eles atenta contra a lei, e por conseguinte é punido”.
(Lassale)

Nesses termos, a Constituição escrita (folha de papel – Blatt Papier) seria adequada
se, e somente se, correspondesse aos fatores reais de um determinado país, pois, se isto não
acontecer, sucumbiria diante da Constituição real que efetivamente regularia a sociedade.

1.2.6 Político (ou Decisionista)

Foi desenvolvido por Carl Schmitt. Para o referido autor, a Constituição é basicamente
uma decisão política fundamental.

Na sua obra “Teoria da Constituição”, o referido autor vai falar que a Constituição
pode ter os seguintes sentidos:

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a) Sentido absoluto: significa a concreta maneira de qualquer unidade política


existente, ou seja, a Constituição no sentido absoluto seria unidade política de um
povo.

b) Sentido relativo: a Constituição aparece como uma pluralidade de leis particulares,


ou seja, um conjunto de normas que tratam de diferentes assuntos.

c) Sentido positivo: que significa a Constituição ser a decisão de conjunto sobre modo
e forma de unidade política. (É o conceito ao qual o autor dá ênfase).

d) Sentido ideal: designa aquela definida por razões políticas e sociais, sendo
dominante no modelo de estado burguês.

Em resumo, para o autor, a Constituição é a decisão política fundamental de um povo


a respeito da sua forma de organização social. Assim, só pode ser considerado Constituição
aquela norma que for resultado da decisão política fundamental de um povo.

A partir desse conceito de Constituição, Carl Schmitt desdobra uma diferenciação


entre Constituição e Leis Constitucionais.

i) Constituição: seria formada, exclusivamente, por temas que revelam a decisão


política fundamental de um povo;

ii) Leis Constitucionais: seriam aqueles assuntos tratados na Constituição, mas sem
um caráter de decisão política. Seriam normas desprovidas de conteúdo político,
mas presentes na Constituição. Na verdade, segundo o autor, esses assuntos nem
deveriam constar na Constituição, por exemplo, na nossa atual Constituição,
visualizamos um exemplo no artigo 242, §2º, que determina que o Colégio Dom Pedro
II, localizado na cidade do RJ, será mantido na órbita federal.

1.2.7 Jusnaturalista

É um sentido de Constituição bastante inusual nos dias atuais. Para esse sentido, a
Constituição seria a expressão do sentimento de justiça de um povo em relação às normas que
regulam a sua vida. Em outras palavras, seria Constituição tudo aquilo que o direito natural
garante ao indivíduo.

Traz consigo a inerente ideia de direitos naturais anteriores ao próprio Estado, que
passam a ser incorporados na Constituição como direitos fundamentais.

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1.2.8 Jurídico-Positivista (ou apenas Jurídico)

Traz a concepção de Constituição do Positivismo científico de Hans Kelsen. Para


esta concepção a Constituição é a norma de cúpula que ordena, dá fundamento, validade e
harmonia a todo o sistema jurídico, sendo isenta de preocupações sociológicas ou axiológicas.

Com base em Kelsen, é possível separar dois planos do fenômeno jurídico:

i) Plano lógico-jurídico: A Constituição depende de uma norma hipotética fundamental


(NHF), que seria uma norma anterior ao próprio sistema jurídico. A NHF não está posta
no ordenamento jurídico, mas sim pressuposta por ele. Ela fornece uma condição
de possibilidade ao estruturalmente do ordenamento jurídico, pois ela é, no plano
lógico, o que fundamenta a Constituição posta. Como a NHF é algo pressuposto, um
corte epistemológico apenas para delimitar o início do sistema jurídico, evitando
regressos ao infinito e deixando claro que o ordenamento possui um teto além do
qual não se vale a pena ir, não faria sentido sequer se questionar sobre o conteúdo
dessa NHF.

ii) Plano jurídico-positivo: A Constituição deve ser entendida como a norma


fundamental do sistema jurídico. Ela está POSTA (POSITIVADA) no interior e na cúpula
do ordenamento jurídico. Esta norma fundamental tem a função de ser fundamento
de validade de todo o sistema jurídico, pois uma norma é válida quando uma norma
hierarquicamente superior dá validade a ela, e, assim, sucessivamente, até chegar à
Constituição.

A partir dessa distinção de Kelsen, a doutrina em geral construiu a chamada Teoria


da Pirâmide do Ordenamento. Com base na compreensão kelseniana de que o ordenamento
jurídico está organizado por normas escalonadas “em degraus”, estando a Constituição no
patamar mais elevado, devendo todas as demais normas se coadunar com a Lei Suprema, o
próprio ordenamento passou a ser visto como uma pirâmide que possui na cúpula a Constituição,
em que as normas as demais normas a ela inferiores encontram fundamento último de validade.

1.2.9 Total

Foi desenvolvido por Hermann Heller. De acordo com o autor:

“Toda teoria que prescinda da alternativa do direito ou do poder, da


norma ou da vontade, da objetividade ou da subjetividade, desconhece
a construção dialética da realidade estatal” (HELLER, Hermann.
Constituição do Estado).

Heller critica, portanto, as visões parcializadas da realidade.

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“A Constituição de um Estado coincide com a sua organização enquanto


esta significa a constituição produzida mediante a atividade humana
consciente”. (HELLER, Hermann. Constituição do Estado).

Então, Heller propõe um conceito de Constituição que compreenda que esta tem
uma dimensão política, jurídica e social. Em outras palavras, o sentido de Constituição de Heller
busca somar a Constituição Sociológica de Lassale com a Constituição Política de Schmitt e
com a Constituição Jurídica de Kelsen.

1.2.10 Jurídico-Normativista

Foi desenvolvido por Konrad Hesse. Para ele, a Constituição jurídica não configura
apenas a expressão de uma dada realidade. Graças ao elemento normativo, ela ordena e
conforma a realidade política e social. Essa teoria é uma crítica a concepção de Lassale.

A Constituição escrita não é apenas a expressão da realidade, podendo se impor aos


fatores reais de poder, transformando a realidade social. Havendo conflito entre a Constituição
e os fatores reais de poder, estes nem sempre prevalecerão. A força da Constituição variará
conforme a “vontade de constituição”, ou seja, ao maior ou menor empenho dos cidadãos
de mudar pela efetivação das normas constitucionais. Ao mesmo tempo, nessa visão, a
Constituição não deve tratar de tudo, devendo alguns temas serem tratados de forma ampla,
geral. A Constituição deve ser interpretada por meio de um processo de concretização, que deve
considerar o texto e a realidade. Para essa teoria, interpretar é concretizar a constituição. É por
essa razão que essa teoria é concretista.

Veja algumas palavras de Konrad Hesse:

“Embora a Constituição não possa, por si só, realizar nada, ela pode impor
tarefas. A Constituição transforma-se em força ativa se essas tarefas forem
efetivamente realizadas, se existir a disposição de orientar a própria
conduta segundo a ordem nela estabelecida, se, a despeito de todos os
questionamentos e reservas provenientes dos juízos de conveniência, se
puder identificar a vontade de concretizar essa ordem. Concluindo; pode-
se afirmar que a Constituição converter-se-á em força ativa se fizerem-
se presentes na consciência geral — particularmente, na consciência dos
principais responsáveis pela ordem constitucional —, não só a vontade
de poder (Wille zur Macht), mas também a vontade de Constituição (Wille
zur Verfassung)”. (Hesse, Konrad. A Força Normativa da Constituição)

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1.2.11 Integracionista

Foi desenvolvido por Rudolf Smend. Ele sustenta a Constituição como uma ordem
objetiva de valores, ou seja, a Constituição traz em si os valores de um povo, de uma comunidade
jurídica.

A Constituição é a realidade integradora da comunidade política, ou seja, é na


Constituição, por dos seus valores plurais, que a comunidade jurídica se encontra. Haveria
integração mesmo entre valores antagônicos.

1.2.12 Culturalista

Para esse sentido, a Constituição é um produto cultural de um povo e um dado


momento histórico. Traz consigo, assim, elementos históricos, sociais e racionais.

1.3 Classificação das Constituições

1.3.1 Quanto à forma

a) Escritas: São aquelas que foram formalizadas em texto redigido. Podem ser de dois
tipos:

i) codificadas: são aquelas que todo o seu texto está condensado em um só


corpo normativo (Ex: Constituição brasileira); e
ii) legais: também chamadas de inorgânicas, que são aquelas cujo o texto que
forma a Constituição está espalhado em diversos documentos (Ex.: Constituição
francesa de 1875).

b) Costumeiras (ou não escritas): São aquelas que decorrem da prática reiterada de
atos tido como aceitos e socialmente exigíveis. Também podem ser de dois tipos:

i) totalmente costumeiras: São as Constituições unicamente costume (não há


nenhum documento escrito); e
ii) parcialmente costumeira: São aquelas formadas por uma parte escrita e por
uma parte decorrente da tradição (Ex.: Constituição da Inglaterra).

1.3.2 Quanto à origem



É a forma pela qual as Constituições podem nascer. São assim divididas:

a) Dogmáticas: São aqueles que existe um momento solene para o seu surgimento.
Podem ser divididas ainda em:

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i) outorgadas (autoritárias ou despóticas): é aquela não dotada de legitimidade


popular, na medida em que o povo não participa de seu processo de feitura,
nem mesmo de forma indireta.

ii) cesaristas (ou bonapartista): é aquela produzida sem participação popular,


mas que, posteriormente à sua elaboração, é submetida a referendo popular,
para que o povo diga sim ou não sobre o documento.

iii) promulgadas: é aquela dotada de legitimidade popular, na medida em


que o povo participa do processo de elaboração, ainda que por meio de seus
representantes.

iv) populares: o povo é chamado a eleger seus representantes para a assembleia


nacional constituinte. Estes, então, elaboram o texto constitucional e, com o
texto pronto, este é submetido a um referendum (Ex.: Constituição francesa de
1848 e 1875).

b) Não dogmáticas: Nascem de forma não corriqueira. Por meio de divisões sociais
intensas ou por obra da tradição. Dividem-se em:

i) pactuadas (ou dualistas): são aqueles que surgem do confronto de duas forças
que disputam o poder em um determinado momento da história (Ex.: Magna
Charta 1215; Bill of Rights 1689; Act of Settlement de 1701; Constituições da
Espanha de 1845 e 1876).

ii) históricas: é aquela elaborada de forma esparsa no decorrer do tempo,


sendo fruto de um contínuo processo de construção e sedimentação do dever
histórico.

1.3.3 Quanto à estabilidade do texto

Diz respeito à facilidade (ou não) de alterar o texto constitucional. Podem ser divididas
da seguinte forma:

a) Imutáveis (ou graníticas): não prevê nenhum tipo de processo de modificação em


seu texto (Ex.: Constituição da Finlândia de 1919);

b) Rígidas: é aquela que necessita de procedimentos especiais, mais difíceis para sua
modificação (Ex.: Constituição Brasileira de 1988);

c) Flexíveis: é aquela que pode ser modificada por procedimentos comuns, os


mesmos que produzem e modificam as normas ordinárias (Ex.: Constituição inglesa

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– Westminster Model);

d) Semirrígidas: é aquela que contém, no seu corpo, uma parte rígida e outra flexível
(Ex.: Constituição Brasileira de 1824);

e) Superrígidas: parte do texto alterável por procedimento mais dificultoso que o das
leis em geral e parte imutável. De acordo com Alexandre de Morais e Daniel Sarmento,
a CF/88 seria superrígida. Todavia, esse não é o entendimento que prevalece.

1.3.4 Quanto à extensão

Diz respeito ao volume do texto. Divide-se em:

a) Concisas (Sintéticas): É aquela Constituição que versa apenas de normas essenciais


à estruturação do Estado, sua organização e funcionamento, bem como da divisão
de Poderes e dos direitos fundamentais (Ex.: Constituição Americana).

b) Prolixas (Analítica, volumosa ou extensa): é aquela Constituição que tenta reger


tudo da vida social. Trata de temas estranhos ao funcionamento do Estado, trazendo
minúcias que encontrariam maior adequação fora da Constituição, em normas
infraconstitucionais. (Ex.: Constituição Brasileira de 1988).

1.3.5 Quanto à ontologia

Essa classificação é de Karl Loewnstein. Essa classificação busca analisar a relação


do texto da constituição com a realidade social (concordância das normas constitucionais com
a realidade do processo de poder). Quanto à ontologia, as Constituições podem ser:

a) Semânticas: Reproduz o que a realidade de poder determina. São criadas apenas


para legitimar o poder daqueles que já o exercem. Nunca tiveram o desiderato de
regular a vida política do Estado. É típica de regimes autoritários.

b) Nominativas: Não há adequação do texto constitucional e a realidade social. Os


processos de poder é que conduzem a constituição, e não o contrário (a constituição
não conduz os processos de poder). O lado positivo dessas constituições é o seu
caráter educacional, pedagógico. Os detentores de poder produziram o texto
diferente da realidade social, mas, se o texto existe, ele pode servir de “estrela guia”,
de “fio condutor” a ser observado pelo país, que, apesar de distante do texto, um dia
poderá alcança-lo

c) Normativas: São aquelas em que há uma adequação entre o texto constitucional


e a realidade social. A Constituição conduz os processos de poder (e é tradutora dos

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anseios de justiça dos cidadãos), na medida em que detentores e destinatários de


poder respeitam a Constituição.

1.3.6 Quanto à finalidade

Analisa o objetivo da Constituição a ser criada. Podem ser divididas em três tipos:

a) Garantia: Tem um viés no passado, visando a garantir direitos assegurados contra


possíveis ataques do Poder Público. Trata-se de Constituição típica de Estado
liberal que se caracteriza pelo seu abstencionismo e sua atuação negativa (de não
interferência ou ingerência na sociedade). Essa Constituição também intitulada por
alguns autores de Constituição-quadro foi concebida apenas como um instrumento
de governo que deveria trazer a limitação ao Poder com a devida organização do
Estado, assim como direitos e garantias fundamentais. Porém a rigor, mesmo as
constituições atuais têm um pouco de constituição garantia e se apresentam também
como tal. Obviamente, mesmo as Constituições sociais e de Estado Democrático
de direito do século XX também objetivam em certa medida a garantir direitos
assegurados aos cidadãos à luz de um determinado momento histórico.

b) Balanço: Trata-se de um modelo necessário para representar algumas Constituições


de países socialistas, em que ocorre a elaboração de um novo texto a cada etapa
de transição para o socialismo. Destinada a registrar um dado estágio das relações
de poder no Estado. Sua preocupação é disciplinar a realidade do Estado num
determinado período, retratando o arranjo das forças sociais que estruturam o Poder.
Faz um “balanço” entre um período e outro.

c) Dirigente (ou Programática): Também podem estabelecer garantias e direitos


pessoais (mistas), no entanto, também possuem a preocupação de estabelecerem
metas sociais a serem alcançadas pelo Estado e pela comunidade. É uma Constituição
típica de Estado Social e de seu pano de fundo paradigmático. Constituições
dirigentes são planificadoras e visam a predefinir uma pauta de vida para a sociedade
e estabelecer uma ordem concreta de valores para o Estado e para a Sociedade. Ou
seja, estabelecem metas, programas de ação e objetivos para serem cumpridos pelo
Estado e também pela sociedade.

1.3.7 Quanto aos compromissos axiológicos

Analisa a relação entre a Constituição e os valores do povo que ela consagra. Pode
ser classificada da seguinte forma:

a) Monistas (ou ortodoxas): É aquela Constituição que prevê apenas um tipo de


ideologia em seu texto (Ex.: Constituição do Irã de 1979 e da URSS de 1936).

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b) Pluralistas (ou compromissórias): É aquela Constituição que traz a previsão em seu


texto de mais de uma ideologia (Ex.: Constituição Brasileira de 1988).

c) Imparciais: São as Constituição ideologicamente neutras; que não teriam


compromissos axiológicos dentro de si.

1.3.8 Quanto à permanência

a) Provisórias: São aquelas que são elaboradas para terem certo tempo de validade.
Para regimes de transição Institucional

b) Definitivas: São as Constituições sem tempo de duração pré-determinado.

1.3.9 Quanto ao sistema

a) Principiológica: É aquela em que predominam os princípios. Normas basicamente


principiológicas

b) Preceitual: Normas constitucionais menos abstratas e de aplicação mais imediata,


prescindindo de regulamentação. Em outras palavras, é aquela Constituição em que,
embora possa conter princípios, predominam-se as regras.

1.3.10 Quanto ao papel das Constituições em relação ao restante do Ordenamento

Nessa classificação, Virgílio Afonso da Silva divide as Constituições da seguinte forma:

a) Constituição-Lei: a Constituição é entendida como uma norma que está no mesmo


nível das outras normas do ordenamento jurídico. Nesse caso, a Constituição não teria
supremacia e nem mesmo vinculatividade formal para com o legislador ordinário,
funcionando apenas como uma diretriz para a atuação do Poder Legislativo. Ou seja,
os dispositivos constitucionais, especialmente os direitos fundamentais, teriam uma
função meramente indicativa, pois apenas indicariam ao legislador um possível
caminho, que ele não necessariamente poderia seguir.

b) Constituição-Fundamento (ou Constituição total): a lei fundamental, não somente


de toda a atividade estatal e das atividades relacionadas ao Estado, mas também a
lei fundamental de toda a vida social.

c) Constituição-Moldura (ou Constituição quadro): A Constituição é apenas um limite


para a atividade legislativa. É apenas uma moldura, sem tela e sem preenchimento.
Nesses termos, caberá a jurisdição constitucional apenas a tarefa de controlar se o
legislador age dentro da moldura.

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d) Constituição-Dúctil: a Constituição reflete o pluralismo social, político e econômico


da sociedade. A Constituição dá muita margem de interpretação para os juízes.

1.3.11 Quanto à autonomia

a) Autônomas (ou autoconstituições ou homoconstituições): são criadas pelo próprio


povo e Estado sob o qual irá reger. É o modelo corriqueiro

b) Heterônomas (ou Heteroconstituições): a Constituição é imposta por forças


alienígenas ao povo e Estado sob o qual a Constituição irá reger. (As primeiras
Constituições dos Países da Commonwealth; a Constituição da Bósnia-Herzegovina;
A Constituição Japonesa de 1946)

1.4 Tipologia Constitucional

São algumas espécies de Constituições que não se enquadram dentro das


classificações clássicas transcritas anteriormente.

1.4.1 Constituição Aberta

Foi proposta por Peter Häberle e defendida, no Brasil, por Paulo Bonavides. Veja as
seguintes palavras de Paulo Bonavides:

“A construção teórica de Häberle parece desdobrar-se através de três


pontos principais: o primeiro, o alargamento do círculo de interpretes da
Constituição; o segundo, o conceito de interpretação como processo aberto
e público e, finalmente, o terceiro, ou seja, a referência desse conceito à
Constituição mesma, como realidade constituída e ‘publicização’” (Paulo
Bonavides. Curso de Direito Constitucional. P 466.)

Para ele, a verdadeira Constituição é o resultado (temporário) de um processo de


interpretação aberto, historicamente condicionado e conduzido à luz da publicidade. Isso
significa que a Constituição, nessa visão, não se resume a um ato pontual de vontade do poder
constituinte. Para ele, a norma constitucional é sempre uma norma resultante de um processo
interpretativo, que deve ser conduzido publicamente.

Essa interpretação, no entanto, não é mera investigação da vontade do constituinte


ou do conteúdo histórico da constituição. Em verdade, o conteúdo da constituição é aberto,
situado no tempo dentro de um processo de interpretação que capta tanto as experiências já
presentes em uma dada sociedade (abertura para o passado), como também as mudanças
(abertura para o futuro).

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DA CONSTITUIÇÃO

Além disso, essa interpretação é feita por uma sociedade aberta de intérpretes,
cotidianamente, e não por uma sociedade fechada de intérpretes, composta por juízes e tribunais
que detinham o “monopólio” da interpretação constitucional, como foi durante muito tempo.
É por essa razão que essa teoria se vincula a constituição aberta. A ideia de constituição aberta
afirma que a constituição não é objeto hermético, enclausurado em si mesmo; ao contrário,
deve ser um objeto aberto a novos interesses e novas necessidades da sociedade e do Estado.

A Constituição, portanto, é um regime aberto de normas, e essa abertura ocorre


mediante várias formas, a exemplo da existência de mecanismos de alteração da constituição,
seja formal (emendas) ou informal (mutação constitucional), e da existência de conceitos jurídicos
indeterminados. De fato, os juízes e os tribunais terão palavra decisiva sobre a interpretação
das normas constitucionais; no entanto, para adotar uma posição sobre a constituição, os juízes
e tribunais devem levar em consideração, também, a interpretação da sociedade aberta.

1.4.2 Constituição Simbólica

A expressão “Constituição Simbólica“ foi criada pelo grande doutrinador Marcelo


Neves, na sua obra denominada “A constitucionalização simbólica”. De acordo com o referido
doutrinado, toda legislação possui duas funções: instrumental (função de resolver problemas
sociais) e simbólica.

Segundo Marcelo Neves, pode-se afirmar que a Constituição Simbólica é definida


como aquela em que há predomínio ou hipertrofia da função simbólica (essencialmente político-
ideológica) em detrimento da função jurídico-instrumental (de caráter normativo-jurídico).

A legislação simbólica classifica-se em três tipos diferentes:

a) A legislação simbólica como confirmação de valores sociais: privilegia a posição


valorativa de um determinado grupo da sociedade. Como exemplo, podemos
mencionar a conhecida “lei seca”.

b) Legislação Álibi: é a legislação que surge para dar uma “resposta aparente” a
um determinado problema, gerando a impressão de que o Poder Público está
prontamente capacitado para solucioná-lo;

c) Legislação como fórmula de compromisso dilatório: elaboração de planos e metas


que propõem solucionar os conflitos sociais a um longo prazo, para um futuro
indeterminado.

“Trata-se da Constituição que não corresponde minimamente à realidade,


não logrando subordinar as relações políticas e sociais subjacentes”
(Marcelo Neves).

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Marcelos Neves ainda afirma que a Constituição simbólica possui dois efeitos:
o negativo e o positivo. O efeito negativo é que a constitucionalização simbólica possui
um déficit de concretização jurídico-normativa do texto constitucional, perdendo a sua
capacidade de orientação generalizada das expectativas normativas. Por outro lado, o efeito
positivo da constitucionalização simbólica serve para encobrir problemas sociais, obstruindo
transformações efetivas na sociedade.

Vale registrar, por fim, a Constituição Simbólica se assemelha com a Constituição


NOMINATIVA de Karl Lowenstein.

1.4.3 Constituição Plástica

A doutrina se divide:

 Para Pinto Ferreira, Constituição plástica seria sinônimo de Constituição flexível.

 Já Raul Machado Horta afirma que plástica é aquela Constituição que traz
vários conceitos indeterminados, necessitando de grande esforço do legislador
infraconstitucional para adequar o texto constitucional a realidade social.

1.4.4 Constituição em Branco

É aquela que não estipula limitações explícitas ao poder de reforma. O poder


de alteração da constituição pelo legislador é muito amplo. Nesses termos, as reformas
constitucionais ficam sob a margem de discricionariedade do Poder Constituinte Derivado de
Reforma. O Constituinte Originário dá “um cheque em branco” para o Constituinte Derivado.

1.4.5 Constituição Dúctil

Proposta por Gustavo Zagrebelsky. Para o autor, o constitucionalismo tem como


objetivo a fixação, através das normas constitucionais, os princípios de justiça material,
destinados a informar todo o ordenamento jurídico.

A “ductilidade constitucional” traduz uma ideia de fluidez, consubstanciada em


uma noção de pluralismo, que seria um metavalor absoluto do sistema jurídico-constitucional,
possibilitando a convivência entre os princípios e a solução amistosa, combinatória ou
compensatória, entre valores sociais.

A Constituição não predefine ou impõe uma forma de vida, mas sim cria condições
para o exercício dos mais variados projetos de vida. Ela deve acompanhar a descentralização
do Estado, e com isso, refletir o pluralismo ideológico, moral, político e econômico existente nas
sociedades

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1.4.6 Constituição.com (ou Crowdsourced Constitution)

É a ideia de Constituição de origem em multidões nas redes sociais; A Constituição é


debatida pela Internet e pelas Redes Sociais.

Não há um modelo pronto que se possa citar da utilização das redes sociais para criar
uma Constituição. No entanto, pode-se citar o Processo Islandês de 2010, que utilizou a ideia
de debatida da Constituição pela Internet e pelas Redes Sociais. A Constituição da Islândia em
2010, todavia, NÃO chegou a ser aprovada.

No Brasil, para o debate das leis infraconstitucionais, há canais de participação


popular pela Internet junto às casas do Congresso Nacional:

 CÂMARA: E-Democracia;
 SENADO: E-Cidadania.

1.4.7 Constituição Subconstitucional

Inicialmente, o termo foi desenvolvido por Hild Krüger. Já no Brasil, o tema é


trabalhado por Uadi Lamego Bulos.

Segundo Krüger, as constituições só devem trazer aquilo que interessa à sociedade


como um todo, sem detalhamentos inúteis. A praxe de se incluir temas variados, tornando
a constituição prolixa seria um equívoco segundo ele. Por isso, para o autor alemão, a
Constituição, a rigor, seria somente aquilo que diz respeito à comunidade, à nação e ao sistema
político. Segundo Krüger, o excesso de temas constitucionalizados formam as Constituições
Subconstitucionais ou, simplesmente, Subconstituições.

1.4.8 Lei Constitucional

Foi desenvolvido por Carl Schmitt, conforme já visto anteriormente. Para o autor,
como só se pode considerar Constituição aquilo que é decisão política fundamental de um povo,
as demais normas presentes em uma Constituição e que não possam ser consideradas decisões
políticas fundamentais são apenas LEIS CONSTITUCIONAIS. Todavia, é preciso registrar que
essa teoria não foi adotada no Brasil.

1.4.9 Lei Fundamental

A Alemanha chama seu texto constitucional de Lei Fundamental.

Antes do século XIX, as “Leis fundamentais” expressavam leis centrais e importantes


da vida pública, mas marcado pelo tratamento parcial da realidade social. Por sua vez, em 1949
a expressão foi utilizada com outra conotação.

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Em 1949, foi utilizado, pois se pensou em uma norma provisória. Seria um tratamento
parcial, posto que se esperava que, depois da reunificação, um novo documento fosse elaborado.
(Konrad Hesse).

Hoje em dia, a Lei Fundamental de Bonn de 1949 é a própria Constituição da Alemanha.

1.4.10 Constituição Expansiva

Foi desenvolvido por Raul Machado Horta. É aquela que constitucionaliza temas novos
e amplia a proteção constitucional de temas clássicos. Em outras palavras, são as Constituições
que, além de manter temas já consolidados socialmente, os expande e ainda abordam novos
temas, não previstos nas Constituições anteriores.

De acordo com o autor, para definir uma constituição como tal depende de uma
análise em 3 níveis:

i) Conteúdo anatômico e estrutural da Constituição;

ii) Comparação Constitucional Interna (comparação de um texto constitucional com


outros textos constitucionais anteriores);

iii) Comparação Constitucional Externa (comparação de um texto constitucional com


textos constitucionais de outros países).

1.4.11 Constituição Silenciosa (ou fixa)

Segundo Bernardo Gonçalves, Constituição fixa ou silenciosa é aquela que só pode


ser modificada pelo mesmo poder que a criou (poder constituinte originário). São as chamadas
Constituições silenciosas, por não preverem procedimentos especiais para a sua modificação.
Exemplo: Constituição Espanhola de 1876.

1.4.12 Constituição Horizontal

Luís Fernando Coelho afirma o seguinte:

“A ordem jurídica que corresponde à ordem social é um ordenamento


circular, onde as leis são apenas referenciais da ação política e articulam-
se de acordo com as necessidades derivadas da atuação política dos grupos
microssociais hegemônicos. Nesse sistema circular de leis, decretos e
regulamentos, a constituição ocupa lugar central, não acima das leis,
mas na mesma horizontalidade, exercendo um papel de coordenação”
(Direito Constitucional e Filosofia da Constituição. P. 330)

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Assim, para esta concepção, a Constituição não é uma estrutura de hierarquia do


sistema jurídico, mas de coordenação.

1.5 Elementos de uma Constituição

Segundo a classificação de José Afonso da Silva, há cinco elementos que caracterizam


a Constituição, de acordo com a finalidade das normas constitucionais, são eles:

1.5.1 Elementos Orgânicos

Normas que regulam a estrutura do Estado e do Poder. Ex.: Título III (Da Organização
do estado), Título IV (Da Organização dos Poderes e do Sistema de Governo).

1.5.2 Elementos Limitativos

Normas que compõem o elenco dos direitos e garantias fundamentais, limitando a


atuação dos poderes estatais. Ex.: Título II (Dos Direitos e Garantias Fundamentais), exceto o
Capítulo II do Título II (Dos Direitos Sociais).

1.5.3 Elementos Socio-Ideológicos

Normas que revelam o compromisso da Constituição entre o Estado individualista


e o Estado Social, intervencionista. Capítulo II do Título II (Dos Direitos Sociais), Título VII (Da
Ordem Econômica e Financeira) e Título VIII (Da Ordem Social).

1.5.4 Elementos de Estabilização Constitucional

Normas constitucionais que asseguram a solução de conflitos constitucionais, a


defesa da Constituição, do Estado e das instituições democráticas. Ex.: art. 102, I, “a” (ADI),
arts. 34 a 36 (Intervenção nos Estados e Municípios), art. 59, I, e 60 (Processo de emendas à
Constituição).

1.5.5 Elementos Formais de Aplicabilidade

Regulam normas que estabelecem regras de aplicação das normas constitucionais,


qual sejam, o preâmbulo, o dispositivo que contém as cláusulas de promulgação, as disposições
constitucionais transitórias e o § 1º, art. 5º, que determina que as normas definidoras dos
direitos e garantias fundamentais têm aplicabilidade imediata.

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1.6 Bloco de Constitucionalidade

A ideia de bloco de constitucionalidade surgiu na França com Luis Favoreu. Para o


autor, bloco de constitucionalidade é a ideia de que a Constituição seria formando não por um
documento, mas por um conjunto de documentos.

A ideia de bloco de constitucionalidade foi trazida para o Brasil após a EC nº 45, sendo
que pode ser entendida de forma ampla (art. 5º, §2º) ou restrita (Art. 5º, §3º). De forma ampla,
bloco de constitucionalidade é aquele composto não só pela Constituição e pelos Tratados de
Direitos Humanos incorporados com quórum de Emenda à Constituição, mas também todos os
demais tratados dobre direitos humanos.

Por outro lado, para a corrente restrita, adotada pelo STF, somente compõem o bloco
de constitucionalidade os Tratados Internacionais de Direito Humanos incorporados com status
de Emenda à Constituição

Em razão desses tratados possuírem status constitucional, eles são fundamento de


validade para as demais normas (controle de convencionalidade)

1.7 Supremacia da Constituição

Inicialmente, veja as palavras de Barroso e Barcellos:

“Do ponto de vista jurídico, o principal traço distintivo da Constituição é


a sua supremacia, sua posição hierárquica superior à das demais normas
do sistema. As leis, atos normativos e atos jurídicos em geral não poderão
existir validamente se incompatíveis com alguma norma constitucional. A
Constituição regula tanto o modo de produção das demais normas jurídicas
como também delimita o conteúdo que possam ter. Como conseqüência,
a inconstitucionalidade de uma lei ou ato normativo poderá ter caráter
formal ou material. A supremacia da Constituição é assegurada pelos
diferentes mecanismos de controle de constitucionalidade”. (BARROSO
& BARCELLOS)

A compreensão da Constituição como lei fundamental implica o reconhecimento


da sua supremacia na ordem jurídica, bem como a existência de mecanismos suficientes para
garanti-la juridicamente contra agressões. Para assegurar tal supremacia, necessário se faz um
controle sobre as leis e os atos normativos, o chamado controle de constitucionalidade.

Nos dizeres de Gomes Canotilho, a Constituição possui autoprimazia normativa, ou


seja, recolhe o fundamento de validade em si própria; por ser norma suprema, será normae
normarum, fonte de produção jurídica de outras formas; e detém superioridade normativa

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em detrimento das demais, tendo aplicação o princípio da conformidade de todos os atos dos
poderes públicos com a Constituição.

Assim, a Constituição, em razão da sua supremacia, determina tanto como as demais


leis abaixo dela são feitas como ela determina se seu conteúdo é compatível com o sistema
jurídico ou não. Em outras palavras, dado à sua supremacia, a Constituição determina formal e
materialmente os demais atos normativos.

1.8 Sistema Constitucional e a Constituição como Acoplamento Estrutural

Inicialmente, vale mencionar que há várias compreensões de Constituição e sistema


constitucional. Aqui, em razão da relevância do tema na atualidade, será trabalhada a concepção
da Teoria dos Sistemas de Niklas Luhmann e a posição da Constituição nesse cenário.

Para entender a Constituição dentro da Teoria dos Sistemas de Luhmann, é preciso


compreender um pouco sobre a própria Teoria dos Sistemas e os conceitos de Diferenciação,
Acoplamentos Estruturais e Direito e Política. Esses temas serão tratados de forma extremamente
sumária. Pode-se afirmar que serão expostos de forma até mesmo rústica, pois se trata de uma
teoria bem mais complexa, mas que, em razão da limitação e dos propósitos deste espaço, não
teria como se discorrer mais alongadamente sobre o assunto.

Inicialmente, é preciso entender as noções de tradição e complexidade em Luhmann.


A ideia básica desse autor é que tudo que formava uma sociedade antiga/tradicional estava
dentro de uma amalgama. Com o desenvolvimento do capitalismo, as sociedades vão se
tornando cada vez mais complexas/dinâmicas, sendo que os elementos que formam uma
sociedade vão se diferenciando um do outro (criando sistemas sociais próprios).

Luhmann, então, desenvolve a ideia de quanto mais as sociedades vão saindo da


tradição para a modernidade (tornando-se mais complexas), o que era uma grande amalgama
social vai criando sistemas sociais próprios. Para o autor, cada sistema funcionaria com códigos
binários próprios. Ocorre que, por mais que os sistemas funcionem com suas regras próprias,
existem canais de comunicação entre eles, sendo tais canais chamados de acoplamentos
estruturais.

Assim, para a Teoria dos Sistemas de Luhmann, a Constituição seria o acoplamento


estrutural entre Direito e Política, ou seja, a Constituição é o canal de comunicação entre o
Sistema Jurídico e o Sistema Político, permitindo a troca de informações e o funcionamento
operativamente fechado, mas cognitivamente aberto de ambos os sistemas.

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1.9 Sentimento Constitucional

Termo cunhado por Pablo Lucas Verdu. Segundo o autor, a Constituição e os direitos
fundamentais, para serem efetivos, não dependem apenas de aspectos técnico-jurídicos, mas
também de uma consciência social em torno desses direitos, ou seja, as disposições jurídicas
para serem efetivas necessitam de um mínimo de reconhecimento social. Esses aspectos psico-
sociológicos configuram o chamado sentimento constitucional. Assim, ainda segundo o autor,
o Estado Moderno necessita criar laços de fraternidade e harmonia, baseados em noções como
as de patriotismo, cidadania, nacionalidade e outros, entre seus cidadãos, que façam com que
eles cumpram as normas e mantenham a integridade do Estado.

1.10 Patriotismo Constitucional

Passagem do livro de Nathalia Masson falando sobre a teoria do patriotismo constitucio-


nal, elaborada por Habermas:

“Segundo preceitua o autor, desde a antiguidade até a modernidade,


sempre foi necessário buscar mecanismos que possibilitassem a
convivência entre os homens. Em comunidades arcaicas, a divisão do
trabalho como única forma de sobreviver em um ambiente inóspito;
na polis grega, a homogeneidade de seus valores, tais como o bem,
a verdade, o justo; nas monarquias absolutistas, o vínculo pessoal
de caráter transcendental e divinatório entre os súditos e o rei; e nos
Estados Nacionais, o nacionalismo implícito no conceito de Estado-
nação. Estas fórmulas se sucederam temporalmente na busca do
estabelecimento de vínculos e solidariedade entre estranhos e,
atualmente, questiona-se: qual seria o fio condutor da união e altruísmo
entre os indivíduos em sociedades pós-modernas? Habermas aposta
no patriotismo constitucional como ideal capaz de unir todos os
cidadãos, independentemente de suas nacionalidades, antecedentes
culturais ou heranças étnicas, imprimindo nos indivíduos uma lealdade
constitucional que, não podendo ser imposta juridicamente, deve estar
internalizada nas motivações e convicções de cada um dos cidadãos – o
que só é possível quando cada um deles entende o Estado Constitucional
enquanto uma realização de sua própria história”.

Segundo Habermas, o patriotismo constitucional produziu de forma reflexiva uma


identidade política coletiva conciliada com uma perspectiva universalista comprometida com
os princípios do Estado Democrático de Direito. Isto é, o patriotismo constitucional foi defendido
como uma maneira de conformação de uma identidade coletiva baseada em compromissos com
princípios éticos e constitucionais democráticos capazes de garantir a “integração e assegurar
a solidariedade entre os povos”, com o fim de superar o conhecido problema do nacionalismo
étnico, que por muito tempo opôs culturas e povos.

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Nesse contexto, a Constituição passa a desempenhar relevante papel na vida do


cidadão e da sociedade, na medida em que os defensores do patriotismo constitucional apontam
a Constituição, em face de seu poder aglutinante, como um elo que aproxima os cidadãos com
base nos pressupostos de um Estado Democrático de Direito fundado nos Direitos humanos e
na solidariedade social, por mais que pertencentes a grupos étnicos e culturais diversos.

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