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ARTIGO CIENT(FICO

A TEORIA DO AUTO-CUIDADO E SUA APLlCABI LlDADE NO SISTEMA DE


ALOJAMENTO COI'JJUNTO

Adriana Remor1, IIza Schmidt de Brito 1, Vitória Regina Petters 1, Evanguelia K.


A. dos Santos2

REMOR. A. et alii. A teoria do auto�uidado e sua aplica­


bilidade no sistema de aloj amento co njunto . Rev.
Bras. En[., BrasJ1ia, 39(2/3): 6-11, abr./set. 1986.

RESUMO. O trabalho se refere à aplicação da teoria do OREM no sistema de alojamento


conjunto, visando determinar as deficiências das capacidades dos indiv íduos par a execução
de medidas de auto-cuidado.

ABSTRACT. This is a work about the application of OREM's Theory in the Rooming-in
System, in order to determine the deficiencies of individual's capacities for execution of
self-care measu res.

INTRODUÇÃO (ENCONTRO NACIONAL SOBRE ALOJAMENTO


A Teoria do Auto-Cuidado de Dorothea Orem, CONJUNTO I ).
publicada em 1971 e 1980, foi desenvolvida a partir O sistema em que foi desenvolvido o trabalho es­
de um marco conceitual no qual OREM3 acredita que tá localizado na Maternidade Carmela Dutra (MCD)
o profissional de enfermagem juntamente com o da Fundação Hospitalar de Santa Catarina, em Flo­
cliente, deve identificar déficits de capacidade no aten­ rianópolis. Possui sete leitos/binômio destinados a re­
dimento das necessidades individuais de auto-cuidado, ceber puérperas e recém-nascidos considerados nor­
procurando desenvolver nestes indivíduos os poten­ mais, física e mentalmente.
ciais já existentes para a prática do auto-cuidado. Des­
Acreditamos que a natureza materna vem se en­
ta forma, o profissional de Enfermagem funciona no
carregando dos cuidados necessários para a manuten­
auto-cuidado como regulador do sistema. Ele identifi­
ção da saúde do binómio sendo isto de ordem natural
ca os déficits de competência em relação à demanda e não com base em orientações específicas.
de auto-cuidado, faz pelo indivíduo aquilo que ele
não pode fazer, ensina, orienta e promove o desenvol­ Baseados nesta reflexão, procuramos estimular
vimento das capacidades do indivíduo para que ele os instintos maternos nas mães já habituadas a rece­
possa se tornar i ndependente da assistência de enfer­ berem pronto atendimento dos profissionais um
magem assumindo seu auto-cuidado. Estas capacida­ tanto quanto paternalistas. Ainda nos questionamos
des podem se desenvolver no dia a dia, através de um o porquê de não estimularmos estes instintos, já um
espontâneo processo de aprendizagem, auxiliado pe­ pouco adormecidos, colocando em prática a Teoria
la curiosidade intelectual, pela instrução e supervisão do Auto-Cuidado de Orem, quando então atuaría­
de outros ou pela experiência na execução de medidas mos orientando e identificando a capacidade das puér­
de auto-cuidado (OREM3). peras para o auto-cuidado.
Assim sendo, após pesquisas bibliográficas, opta­ O presente trabalho foi desenvolvido no período
mos por utilizar como marco de referência a Teoria de 02/01/85 a 04/02/85 e teve como objetivos tecer
do Auto-Cuidado no Sistema Alojamento Conjunto considerações de natureza prática sobre a aplicabilida­
(Rooming-in) que é definido como um sistema hospi­ de desta teoria no Sistema Alojamento Conjunto, sem
talar em que o recém-nascido (R. N.) permanece ao a pretensão de aplicarmos os aspectos teóricos na
lado da mãe desde o momento do parto até a alta da íntegra e tão profundamente como os profissionais que
maternidade, possibilitando no mesmo espaço físico a têm maior domínio nesta área.
prestação de todos os cuidados assistenciais e de ori­ Iniciaremos a apresentação do tema com a ex­
entação à mãe sobre a saúde do binómio m[e/filho. posição do marco teórico da Teoria de Orem para

1. Formandas do Curso de Graduação em Enfermagem da Universidade Federal de S anta Catarina, Floria nópol is, SC,., Brasil.
2. Universidade Federal de Santa Catarina e Enfermeira da Maternida de Carmela Dutra, Fundação Hospitalar de Santa Catari­
na, Florianópolis, Se., Brasil.

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posteriormente discutirmos sua utilidade prátic� e refere-se à totalidade das ações de auto-cuidado a se­
avaliarmos sua eficiência, opinando sobre sua pratlca­ rem desempenhadas, pelos indivíduos para a manu­
bilidade no Sistema Alojamento Conj\lnto. tenção da vida, saúde e bem estar; c) nursing agency
- refere-se à capacidade ou potencial dos profissio­
MARCO T EÓR I CO nais de enfermagem para desempenhar ações de auto­
NEWMAN 2 define marco teórico como a matriz cuidado para, pelo e com o indivíduo (OREM3, 4).
de conceitos os quais, Juntos, descrevem o foco de A teoria consta também de outros conceitos
investigação.Para OREM3, o foco desta investigação básicos que auxiliam nosso entendimento quando
é o homem, que é definido pela autora como uma procuramos direcioná-la para a prática.São eles:
unidade, funcionando biológica, simbólica e social­ • Saúde é um estado de totalidade ou integri­
mente. dade do ser humano individual, suas partes
Um ser que está em íntima relação com o meio e seus modos de funcionamento.
ambiente, que adapta suas necessidades aos estresses • Déficits do Auto-Cuidado: foco da enferma­
do meio, mas que utiliza tecnologia para controlá-las gem e critérios para identificar quem, quan­
a fim de satisfazer suas necessidades. do e porque enfermagem é necessária.
O funcionamento do homem está ligado ao seu • Ações de Auto-Cuidado: porque as ações

ambiente e juntos formam um todo integrado, funcio­ são necessárias para continuação da vida.
nal, isto é, um sistema. Os valores e normas so­ • Sistemas de enfermagem são o produto da
ciais, os mecanismos fisiológicos e os padrões espe­ prática da enfermagem e é através deles que
cíficos de resposta do indivíduo aos estímulos ambien­ o agency (competência, poder, capacidade)
tais afetarão o curso de ação selecionado e seguido pe­ dos indivíduos em auto-cuidar.,se é regulado.
lo indivíduo. Explica como as pessoas podem ser ajudadas
A enfermagem tem como principal preocupação pela Enfermagem.
a necessidade do indivíduo de auto-cuidar-se e a pro­ OREM3 estabelece três tipos de sistemas de
visão e manutenção deste auto-cuidado de uma forma enfermagem relacionados com a dinâmica do auto­
contínua, de modo a manter a vida e a saúde, recupe­ cuidado.Estes sistemas se referem como determinar
rar a doença ou dano e enfrentar seus efeitos os déficits dos indivíduos para atendimento da de­
(OREM3). manda terapêutica de auto-cuidado, necessária à ma­
A condição que justifica a existência da enfer­ nutenção de saúde e bem-estar.São eles: sistema de
magem para o indivíduo adulto é a ausência da capa­ compensação total, sistema de compensação parcial e
cidade de manter continuamente aquela quantidade sistema de suporte educativo.
e qualidade de auto-cuidado que é terapêutica na ma­ O sistema de compensação total é utilizado
nutenção da vida e da saúde, na recuperação, após a quando o indivíduo está totalmente incapacitado para
doença ou dano, ou a maneira de enfrentar seus efei­ atender a suas necessidades de auto-cuidado.O s1ste­
tos. Para a criança, a condição de existência da enfer­ ma de compensação parcial é aplicado quando o clien­
magem é relacionada à inabilidade dos pais e respon­ te apresenta algumas dificuldades de competência pa­
sáveis em manter continuamente para ela aquela ra atender a suas necessidades de auto-cuidado.Neste
quantidade e qualidade de cuidado terapêutico ne­ sistema, o indivíduo atende a uma parte de suas ne­
cessário. cessidades, mas não consegue atender à totalidade da
OREM3,4 define auto-cuidado como " ...a demanda terapêutica de auto-cuidado.O sistema de
prática de atividades que indivíduos pessoalmente suporte educativo é aplicado quando o cliente necessi­
iniciam e desempenham em seu próprio benefício ta da assistência de enfermagem para adquirir conhe­
para manter a vida, saúde e bem-estar." cimento e habilidades, poder decisório e comporta­
Há três tipos de auto-cuidado: o universal, o de mento de controle em relação às suas necessidades de
desenvolvimento e o de desvios de saúde. auto-cuidado. Segundo OREM3, 4, a determinação
As necessidades de auto-cuidado universal são de sistemas de assistência de enfermagem relaciona­
descritas como atividades da rotina diária ou aquelas dos ao auto-cuidado indicam que espécie de métodos
que vão de encontro às necessidades humanas básicas. o profissional de enfermagem deve utilizar, para insti­
O auto-cuidado necessário para o desenvolvimen­ tuir e manter a assistência ao cliente.Entretanto, os
to ocorre durante determinado estágio de desenvolvi­ objetivos da assistência relacionados a quaisquer dos
mento, ou são derivadas de uma condição (por exem­ sistemas já citados deverão ser desenvolvidos de forma
plo gestação), ou são associado com um evento (por a ajudar os clientes na seleção, planejamento e execu­
exemplo, o nascimento de um bebê). ção das medidas de auto-cuidado, necessárias à manu­
tenção, restauração da saúde e convivência com os
As necessidades de auto-cuidado relativas aos efeitos e limitações da própria doença.
desvios da saúde só são sentidas pelos indivíduos na
presença de doenças ou em certas situações especiais. O inter-relacionamento dos conceitos de
OREM3, 4 são os elementos que constituem sua teo­
O marco conceitual da Teoria de auto-cuidado ria.Segundo a autora, o relacionamento destes con­
inclui três conceitos básicos: a) sei! care agency - é o
ceitos pode ser assim representado:
poder, competência ou potencial dos indivíduos para
se engajarem no auto-cuidado de forma a atender suas
necessidades individuais para a manutenção da vida,
saúde e bem estar; b) therapeutic sei! care demande -

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Auto-Cuidado

Competência dos in­


divíduos para auto­ Demanda terapêutica
cuidado de auto-cuidado


Competência de en­
fermagem para o au­
to-cuidado
R R

FIGURA 1 - Adaptação do relacionamento dos conceitos de OREM4.

Quando ocorrer uma deficiência na competên­ vem tomar em conta os fatores ambientais, tecnológi­
cia dos indivíduos para o auto-cuidado em relação à cos e humanos para a obtenção dos objetivos; devem
demanda terapêutica do auto-cuidado, aí então se es­ ser desempenhadas de acordo com o planejamento,
tabelecerá a necessidade da intervenção da enferma­ mas devem ser feitas as revisões e adaptações no pIa­
gem. nejamento à medida que as condições mudem; e, por
fim, devem ser controladas para verificar se os objeti­
OBJETIVOS vos estão ou não sendo atingidos. Seus componentes
Objetivo Geral: Determinar as deficiências de incluem duas fases: uma intelectual e outra prática.
capacidades dos indivíduos, para execução das Na fase intelectual, deve-se: a) determinar por que a
medidas de auto-cuidado - necessárias à manutenção pessoa precisa da enfermagem, considerando a histó­
da saúde e bem-estar e, a partir deste referencial, ria da vida do paciente e seu estilo de vida; b) deter­
classificar os indivíduos nos sistemas de enfermagem. minar como a pessoa pode ser ajudada pela enferma­
A seguir, conforme estas determinações, devemos gem, ou seja, projetar um sistema de enfermagem que
colocar em prática as ações de enfermagem necessá­ efetivamente contribua para a obtenção dos objeti­
rias, segundo OREM3,4. vos de saúde do indivíduo; c) planejar a assistência
Objetivos Especzficos: incluindo especificação dos papéis (do indivíduo e da
• Identificar o poder de agenciar de cada puér­ enfermagem), recursos, coordenação de atividades em
pera. termos de tempo, lugar e freqüência.
• Classificar as puérperas de acordo com os Na fase prática, deve-se iniciar, conduzir e con­
três sistemas de enfermagem citados por trolar as ações de auto-cuidado.
Orem. Entendemos que a fase intelectual constitui a
• Elaborar um plano de ação de enfermagem, parte principal do processo, na qual o enfermeiro em
de acordo com as necessidades de cada puér­ contato com o paciente irá conhecer as ações de auto­
pera, distribuindo os cuidados de enferma­ cuidado que fazem parte de sua vida, bem como a va­
gem. lidade destas ações, suas crenças e tabus com relação
• Iniciar, conduzir e controlar as ações de en­ a cada etapa de seu desenvolvimento e, em especial,
fermagem necessárias para o auto-cuidado, a esta fase do ciclo biológico vital que inclui duas si­
relacionados com os cuidados' puerperais: tuações importantes, como o nascimento e a repro­
higiene corporal, loqueação, involução uteri­ dução.
na, aleitamento materno, terapêutica e cui­ A fase prática se constitui na continuidade da
dados com os recém-nascidos. fase anterior, uma vez que nos possibilita determinar
• Capacitar as puérperas no seu auto-cuidado o déficit do seu auto-cuidado e planejar a demanda te­
e com o R. N., para que esteja habilitada a rapêutica.
manter e dar continuidade às ações para a • RoteirO de Dados de Base segundo
manutenção de saúde do binômio. OREM3, 4, Baseado nas Necessidades do
Binômio Mãe/Filho.
o PROCESSO De ErJFERMAGEM O roteiro dos dados de base foram ·elaborados
A fundamentação teórica do processo de enfer­ a partir de um questionário (V. Anexo I) que nos per­
magem, segundo OREM4, é a de que as ações devem mitiu a deterniinação da capacidade da puérpera de
estar em consonância com os objetivos desejados; de- auto-cuidar-se e estender o mesmo ao seu Recém-Nas-

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cido . Associado a este questionário , elaboramos al ­ • Classificar as puérperas de acordo com os
guns itens que foram observados no de correr de sua três sistemas de enfermagem citados por
aplicação , que também nos auxiliou n a determin ação OREM 3 , 4 .
do agency . Englobamos a avaliação das capacidades Após aplicação do questionário e relato das ob­
físicas , mentais , motivacionais e emocion ais nestes servaçõe s , as puérperas eram classificadas nos três sis­
questionamentos . temas de enfermagem relacionados com a dinâmica
O questionamento enfermeiro -paciente foi con­ do auto-cuidado , citados por Orem . Dos 66 processos
duzido de maneira inform al, sendo que o diálogo com realizados com as p acientes , 95 ,5% foram enquadra­
as mães foi dirigido pelas perguntas pré-elaboradas , dos no sistema suporte educativo e 4 ,5% , no sistema
não se ficando , poré m , a elas , restrito . de compensação parcial .
Ressaltamos que não roi nossa preocup ação o b ­ • Elaborar um plano de ação de enfermagem ,

te r respostas a todas a s perguntas constante s do rotei­ de acordo com as necessidades de cada puér­
ro como também nem sempre abordamos o assunto pera , distribuindo os cuidados de enferma­
na forma e ordem dele constantes . gem .
Depois de levantarmos as necessidades das
R E SU LTADOS E COM E N TÁ R I OS puérperas e o sei! care agency, elaborávamos a deman ­
Durante a nossa permanência (2 de j aneiro a da d e acordo com o déficit apresentado . A seguir
4 de fevereiro de 1985), foram internadas oiten ta e iniciavámos , conduzíamos e controlávamos estas
uma puérperas e , destas , sessenta e seis receberam as­ ações de enfermagem �ecessárias para o auto-cuidado .
sistência de enfermagem planejada e individualizada , Inicialmente , foi estabelecida uma demanda
através do processo de enfermagem b aseado na Teo ­ terapêutica básica , onde estavam englobada� as orien ­
ria d e OREM 3 , 4 . tações mais freqüentes (Vide Anexo 1 ) . A medida
Esclarecemos, aqui , que as puérperas que ti­ que eram dete ctados novos déficts , o plano de assis­
nham alta na segunda-feira e as que internavam sexta­ tência era complementado .
feira depois das 15 :00 horas eram orientadas apenas A demanda terapêutica contida no processo de
quanto ao auto -cuidado , pois seria impossível dar enfermagem era transcrita p ara o prontuário da paci­
continuidade aos processos tendo em vista que não ente , propiciando assim um maior número de infor­
poderíamos faze r um controle de suas atividades mações registradas e favorecendo m aior intercâmbio
como previsto . multiprofissional .
Acreditamos , ainda , que 1 00% das puérperas
Objetivos Previstos e A lcançados saíram do sistema de alojamento conjunto habilita­
das a manter e dar continuidade no seu auto-cuidado
• Identificar o poder de agenciar (sei! care e com o recém-nascido , mantendo assim a saúde do
agency) de cada puérpera . binômio .
Para determinar a capacidade da puérpera em
auto -cuidar-se , e estender o mesmo a seu recém -nasci­ Objetivos não Previstos e A lcançados
do , utilizamos um formulário e relatamos alguns dos • Estimular banho de sol e e xtração manual
itens já e stabelecidos , o que nos permitiu avaliar mais de leite.
precisamente as capacidades físicas , mentais , motiva­ Conforme diretrizes estabelecidas no nosso
cionais e emocionais . planejamento com relação ao aleitamento materno ,
De acordo com o previsto , a aplicação do for­ não t ínhamos programado levar as puérperas ao sol .
mulário e o relato das observações foram realizados Baseados nas orientações de VINHA S , na rotina
de uma maneira b astante inform al , colocando a paci­ existente na MCD e na nossa conscientização de sua
ente bem à vontade para fazer suas colocações e ques­ importância , decidimos utilizar 1 5 minutos de cada
tionamentos , sendo que aplicávamos o processo apro­ manhã para levar as puérperas ao sol , onde eram
veitando as oportunidades que nos propiciavam orientadas sobre profIlaxia e tratamento de fissuras
maior receptividade por p arte das puérperas , ou sej a , marnilares , engurgitamento mamário , outros proble ­
normalmente durante a chegada d a mãe e d o recém­ mas práticos de amamentação e ainda sobre a técnica
nascido à unidade , para verificação dos sinais vitais , de extração manual do leite .
curativo perineal , etc . � importante salientar que das oitenta e uma
À medida que fomos aplicando o formulário , puérperas que foram orientadas na unidade VIII
sentimos a nece ssidade de alterá-lo com relação a (Sistema de Aloj amento Conjunto) apenas uma pa­
duas pe rguntas , visto que a grande m aioria das puér­ ciente retornou à maternidade com problema de en­
peras não tinha conhecimentos da anatomia de seus gurgitamento mamário , comprovando na prática a
órgãos e suas capacidades de observação n ão eram eficiência da metodologia aplicada .
tão aguçadas . São elas : "Como você se sente após • Participar n a passagem de plantão .
ter tido o bebê "? e "Quais as mudanças que a se­ Não tínhamos previsto participar da passagem
nhora percebe com relação ao seu corpo após o nas­ de plantão conforme rotina da instituição , no entanto
cimento do recém-nascido ? " a acadêmica de enfermagem que cumpria horário das
C onforme havl'àmos planejado , cada acadê ­ 1 5 :00 às 1 9 :00 horas ficava responsável pela transmis­
mica de enfermagem se responsabilizou por duas são de ocorrências de cada p aciente , visto que perma­
puérperas , no entanto , mantinha-se ciente da evo ­ necíamos 1 2 horas prestando assistência contínua ao
lução das demais pacientes , através da leitura do pro­ binômio mãe/recém-nascido (das 07 :00 às 1 9 :00 ho­
cesso de enfermagem e transmissão verbal . ras).

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•Administrar medicamentos. realizaram pré-natal e apenas 3 0 ,3 0% não fize ram
Verificar sinais vitais .
• este acompanhamento médico . No entanto , constata­
Não determinamos , no planejamento , como se ­ mos que e ste atendimento não e stá satisfazendo total­
ria viabilizada a administração dos medicamentos e mente às reais necessida�es desta população , pois che­
verificação dos sinais vitais . De acordo com o ní­ gam no período de trabalho de parto e no puerperal
vel de escolaridade e de auto-determinação , as puérpe ­ cheias de dúvidas e questionamentos , quando ao nos­
ras eram o �ientadas quanto ao nome da medicação , so ve r j á deveriam ter alguma noção do que se passa
dosagem , V1a de administração e finalidade , possibili­ com elas e que tipo de atitude deveriam assumir .
tando assim que a própria paciente realizasse sua tera­ Resta saber se o quem vem ocorrendo é em função
pêutica. Os remédios ficavam dispostos sobre uma es­ da falta de assistência de enfe rmagem nesta área de
tante e elas próprias se auto -medicavam com a nossa atu ação , ou se há falta de interesse médico e mono­
supervisão , exceto as que tinham como via de admi­ polização de seu saber? Ou se isto decorre , ainda , do
nistração in tramuscular . Com relação aos sinais vitai s , baixo nível cultural dessa população que procura ser
nós verificávamos à s 08 :00 horas e 1 4 :00 horas . assistida . Examin an do as sessenta e seis puérperas
• Orientar sobre higiene corporal e curativo com processos de enfermagem em relação ao seu grau
perineal de escolaridade , observou-se que : 3 , 1 % eram analfa­
Pela manhã, as p acientes eram orientadas e au­ be tas , 3 3 ,4% possu íam primário , 4 5 ,4% o 1 9 grau ,
xiliadas quanto à higiene corporal e curativo perineal 1 5 ,1 % o 29 grau e , com grau superior , apenas 3 ,0% .
(rotina) . Além disso , eram informadas onde poderiam Verificamos que , embora as puérperas apresentassem
encontrar curativos perineais , lençóis e iodo aquoso algum grau de instrução , elas continuaram apresentan­
necessários pará realização de seu auto-cuidado . A do déficit com relação à saúde e educação sexual .
partir desses procedimentos , as puérperas realizavam Estes dados servem para reflexão da si tuação atual
seu curativo perineal , troca de lençóis e forrinhos , do ensino com relação à saúde , ou seja: será que o
contando somente com o nosso controle . Apesar das sistema está alerta?
puérperas realizarem estas atividades , adotamos como Do total de sessenta e seis puérperas 44 ,0%
rotina exame físico (mamas , involução uterina , ló­ eram primíparas , 2 2 ,0% secund íp aras e 34 ,0% mul­
quios , episiorrafia) no período matutino e ve spertino , típ aras .
dando condições para uma avaliação do estado geral .
Durante nossa permanência no sistema de alojamento CO N C L USO E S
conjunto , constatamos que realmente se trata do me­ A Teoria do Auto -Cuidado de Dorothea Orem ,
lhor local para o aprendizado e início de auto-cuidado utilizada como marco de referência para atuação no
da mãe e do recém-nascido . Suas vantagens são inú­ Sistema de Alojamento Conjunto , demonstrou ser
meras . eficiente por já fazer parte dos instintos humanos
Verificamos também que normalmente as mul­ "o cuidar dos filhos" , "o cuidar de si mesma", etc .
típaras questionavam quanto à permanência do re­ faltando apenas uma abordagem organizada dos pro­
cém-nascido no primeiro dia , pois estavam bastante fissionais para estabelecer melhor essa relação .
"cansadas e com sono atrasado " . Apesar de serem Das sessen ta e seis puérperas da população
multíparas , a grande maioria necessitava de orienta­ amostraI , 9 5 ,5 % foram enquádradas rio sistema de su­
ções com relação aos cuidados puerperais: in tegridade porte educativo onde prevale ceram as orientações sobre
cutâneo -mucosa, elimin ações, lóquios e terapêutica os aspectos teóricos e práticos da amamentação , os
com o recém-nascido . Questionamos com relação às cuidados gerais com o recém -nascido e os cuidados
grandes multíparas , pois todas tinham receio quanto puerperais .
à higiene e realização de curativo do cordão umbilical A aplicação de uma metodologia de assistência
do recém-nascido . Este fato nos levou a uma dúvida : dirigida ao paciente , aguçou nossa percepção quanto
seria em função do funcionamento do berçário cen­ à importância da mesma, pois , além de sistematizar
tral onde a mãe não lid ava com o recém-nascido nos nossa atuação , não só direcionando mas aperfeiçoan­
primeiros dias , n as internações anteriores? do , beneficiou aquele que a recebeu.
Com relação ao aleitamento materno , perce ­ A escolha e a utilização dos dive rsos marcos
bemos que as grandes multíparas ou mesmo as pri­ teóricos devem ser eleitas , quan do na sua transposi­
míparas já estavam mais conscientes da importância ção para a prática, considerando-se a área de atuação .
da amamentação . No entanto , muitas relataram que ,
em gestações anteriores, amamentaram somente nos
primeiros dias , outras no 19 mês , alegando inúmeras REMOR, A. et alii . The O rem 's theo ry and thei r applica­
razões como : "leite fraco , pouco leite , leite secava , bilit y in the Roo ming-in System. R ev . Bras. Enl ,
seio caído , etc . . . " , reforçando a necessidade de dar B rasllia , 39 ( 2/ 3 ) : 6- 1 1, Ap r./Sept . , 1 9 86.
continuidade aos programas de incentivo ao aleita­
mento matemo .
Concordamos com ZIEGEL & CRANLEy 6 REFERE," NCIAS BI BLlOGRAFICAS
1 . ENCONTRO NACI ON A L SO BRE ALOJA MENTO CON ­
quando afirmam que o povo está aprendendo que em­ J UNTO . Relatório f inal . B ras llia, Ministé rio da
bora a gravidez seja um processo natural , a natureza Saúde/IN AN , 1 9 8 2.
por si só , sem ajuda da ciência médica, não basta p ara 2. NEW MAN , M. Theory development in nursing. Philadel­
phia , F. A . Davis, 1979.
fazer o corpo da mãe continuar funcionando normal­
3 . OREM, D . E . Nursing: concepts of practice . New York ,
mente nas situações de grande tensão . Em análise de Mac Graw-Hill , 1 97 1 . 23 2p .
sessenta e seis puérperas , foi verificado que 6 8 , 1 8% 4. . New Yo r, Mac G raw-Hill , 1 9 80 . 23 2p .

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5 . VINH A , V . H . P . Amamen tação materna; incentivo e Pretendemos abordar estas perguntas de uma
cuidados. São Paulo , Sa rvie r, 1 9 8 3 . maneira b astante informal . Nosso diálogo com a puér­
6 . ZIEGE L , E . & CRAN LEY , M. S . Enfermagem obstétrica .
8 . ed . Rio de Janei ro , Interamericana, 1 9 85 . pera será dirigido pelas perguntas pré -elaboradas , no
entanto , não ficaremos restritas às mesmas . Logo após
o diálogo , o mesmo será anotado no caderno , onde
cada puérpera terá uma folha individual .
Associada a e ste questionário , elaboramos al­
guns itens que serão observados no decorrer da con­
ve rsa , a qual também nos auxiliará n a determinação
AN E XO 1 do agency .

Itens que serão observados:


Desenvolvimento do Instrumento Elaboração
- • Estado físico da puérpera e do R. N .
do questionário que nos auxiliará na determinação • Atividades e /ou procedimentos d a puérpe ­
da capacidade da puérpera de auto -cuidar-se e e sten ­ ra com ela própria e com o seu RN .
der o mesmo ao seu Recém-nascido . Englobamos • Relacionamento da puérpera com as demais
uma avaliação das capacidades físicas , mentais, mo­ pacie ntes , bem como com os fun cionários.
tivacionais e emocionais nestes questionamentos . • Anotações do prontuário .
a) Como se sente após ter tido o bebê? • Nível quantitativo e qualitativo dos questio ­
b) Quais as mudanças que percebeu em relação namentos feitos pela puérpera e suas respos­
ao seu corpo , após o nascimento do bebê? tas frente às nossas perguntas.
c) Já possuía informações de como seria o pe ­ Estes dois requisitos , que constam de relatos de
ríodo puerperal - ("resguardo")? Se as re ­ paciente e impressão d o entrevistador , serão transferi­
cebeu , quais as fontes e qual o tipo de orien­ dos para um cadern o , onde cada p aciente terá seu es­
tação dada? p aço . Após isso , serão avaliados para que se determine
d) Está decidida a amamentar seu bebê? Por em qual sistema de enfermagem a paciente se enqua­
que? dra , a partir dos déficits apresentados .
e) Já recebeu alguma orientação com relação à Acre ditamos que , com estes dois requisitos , te ­
amamen tação? remos dados suficientes para determinar, superficial­
f) Já teve oportunidade de cuidar ou lidar mente , a c apacidade que cada puérpera tem em auto ­
com recém-nascidos? cuidar-se , e estender o mesmo ao seu b ebê .
g) O que sabe sobre os cuidados que devemos Decidimos que cada estagiária de enfermagem
ter com o recém-n ascido? se re sponsabilizará em aplicar o processo de enferma­
h) Su a gravidez foi planejada? Havia prefe rên ­ gem segundo Dorothe a Ore m , em duas puérperas ;
cia com relação ao sexo do seu bebê (sua ou no entanto , se encarregará de ler as anotações referen­
de seu esposo)? tes às demais , bem como acrescentar observações e
i) Pretende dar todos os cuidados necessários auxiliar no c ontrole das mesmas , de acordo com a de ­
ao seu bebê quando estiver em c asa? m anda terapêutica já e stabelecida.

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