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O imperativo da vida colonial brasileira (não se pode falar ainda em um modo de vida

brasileiro) é econômico. Caio Prado Júnior, em Formação Econômica do Brasil, nomina


a Europa de “empresa comercial européia”. O autor o faz, pois claramente não havia
interesse cultural no território brasileiro, o interesse é restritamente material. O Brasil
irá fazer parte do mundo mercantilista, contudo jamais ocupando a vaga de
protagonista deste sistema. Alguns autores defendem o comércio triangular – Brasil,
África e Península Ibérica, do qual o Brasil tinha uma participação relevante, ainda
assim não lhe era permitido o protagonismo. Apesar do debate entre weberianos e
marxistas nas décadas de 60 e 70, já se analisa a chegada dos Europeus ao Brasil como
produto dos interesses econômicos. Em História do Brasil, Frei Vicente expõe que a
chegada ao Brasil lhe causou estranheza, pois ao pedir algo para comer, notou que
nada daquilo que havia pedido estava disponível. Chega a declarar que todo território
não está sob o regime republicano. O olhar europeu está no texto de Fernando Novais,
por isso é gerada uma insuficiência explicativa. Os pólos públicos e privados estão
interligados e são indissolúveis, porém também estão invertidos (como já apontado
por Frei Vicente). A colônia terá características próprias, pois apresentará indícios de
um mundo metropolitano, ao mesmo tempo em que abriga cidadãos que estão
acostumados com o estilo de vida europeu. O que provoca estranheza e antagonismo,
que marcarão a história colonial a terra “Brasis”. O Brasil guarda variáveis complexas e
contraditórias. A monarquia, fruto de um mundo europeu feudal; marcado pela
imposição do cristianismo e a produção de uma sociedade sagrada. Enquanto que há
traços de modernidade, principalmente o fator burguês que traz consigo um Estado
Laico e uma racionalização do mundo – o que levaria, Segundo Weber, alguns séculos
depois, ao processo de desencantamento do mundo. O Brasil não será feudal e muito
menos capitalista, mas será um mestiço de idéias e ações. Não é atoa que será
colocado como um mundo de transição. Transição que não leva a canto nenhum,
contudo assim colocada essa idéia por autores que se debruçaram sobre esta época.
As relações políticas não são mais vassálicas, todavia apresentam níveis traços de
monarquia, na qual simbologias resistem. Um exemplo disso é o direito divino do rei.
Expondo-se, assim, a constante relação conflitante entre Igreja e Estado; com alguns
defensores de uma religião do Estado( “Cujus régio, ejus religio”) e outros reacionários
a isso, já atingidos por ideais que formarão os Estados nacionais modernos. A
privacidade vai se abrindo de acordo com a formação do Estado, pois a separação
entre público e privado se adequa à definição do território brasileiro, ainda sem
preocupação quanto à construção de um simbolismo nacional, pois há uma
transculturação que vai acompanhar a formação do Estado. Como exemplo há o caso
do amor dentro da colônia. Este é concebido na forma cristã – traço feudal, mas toma
proporções românticas e carnais ao se misturar com formas de amar da colônia. O
amor vai ser produto do status quo, mas vai também ser um causador da sua
manutenção; pois está nos moldes feudais, onde Igreja e Estado são uma coisa só. Mas
a idéia do amor romântico se faz presente: era normal aos homens possuir amantes,
os bordeis assumem papel na tomada de decisão política. Somente os nativos e as
mulheres terão a sua sexualidade vigiada e controlada. Este é apenas um exemplo do
quanto analisar vidas públicas e privadas são produtos do século 18 para cá. Antes
disso, a sua separação não é notável, a colônia não foge à regra.

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