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Nexo de Causalidade.

Desde as primeiras ordens jurídicas a referirem-se à responsabilidade conceberam a


aferição da culpa como indispensável à reparação do dano, descrito em um princípio
geral reparador. Por outro lado, com a concepção da teoria objetiva passou-se a
questionar o princípio da culpa como critério exclusivo do dever de indenizar, adotando
as teorias do risco como fundamento de que a responsabilidade deve ser indenizada pela
coletividade mesmo que não houve culpa do agente. Outros juristas, como Antunes
Varela, defendem que o fato do agente, isto é, fato ilícito, culposo, decorrendo,
necessariamente um prejuízo, é o elemento básico da responsabilidade para descrever a
obrigação de indenizar. É nesse sentido que o nexo de causalidade surge como
fundamental entre o fato e o dano.
Foi no campo dos acidentes de trabalho, lembra Sérgio Cavalieri Filho, que a noção
de culpa, como fundamento da responsabilidade, revelou-se primeiramente insuficiente.
Na medida em que a produção passou a ser mecanizada, aumentou vertiginosamente o
número de acidentes, não só em razão do despreparo dos operários, mas, também e
principalmente, pelo empirismo das máquinas então utilizadas, expondo os
trabalhadores a grandes riscos. O operário ficava desamparado diante da dificuldade de
provar a culpa do patrão. A injustiça que esse desamparo representava estava a exigir
uma revisão do fundamento da responsabilidade civil. Algo idêntico ocorreu com os
transportes coletivos, principalmente trens. Na medida em que foram surgindo, os
acidentes multiplicaram-se, deixando as vítimas em situação de desvantagem, como
iriam provar a culpa do transportador por um acidente ocorrido a centenas de
quilômetros de casa, em condições desconhecidas para as vítimas ou seus familiares?
A rede causal, em seus níveis de conhecimento, de verificação, de constatação, visa
identificar o responsável pelo dano causado a outrem, permitindo a identificação do
liame, indispensável à realização da conexão entre o fato ilícito culposo e o prejuízo
passível de reparação.
De acordo com a ilustre professora Jussara Suzi Assis Borges Nasser Ferreira, da
Universidade Norte do Paraná – UNOPAR é com a evolução do princípio da imputação
que o nexo causal aparece, quando em verdade buscava a conexão do ato ilícito, como
pressuposto, e a reparabilidade do dano, como conseqüência, enquanto sanção. Para a
professora, seguindo pensamentos de Weber e Popper, na responsabilidade subjetiva
não há declaração do conhecimento oriundo de testes, exames, que recorram aos dados
empíricos e pela mais rigorosa crítica, o que é existente no âmbito da responsabilidade
objetiva, pois esta tem a seu favor a própria estrutura do conhecimento objetivado,
contudo aberto à crítica, facilitando a elucidação do nexo de causalidade neste tipo de
responsabilidade civil.
A objetivação da responsabilidade conquista maior grau de adesão, por significar
esta facilidade na absorção e apreensão do conhecimento do risco e conseqüente
reparabilidade, se e quando vier a causar prejuízo a outrem, independentemente do
enfrentamento de outros níveis de demonstração de evidências.

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Com efeito, se o evento danoso e o dano aparecem como pressupostos necessários da
obrigação de indenizar, é certo que sua presença num caso concreto não será suficiente
para autorizar que alguém seja condenado à satisfação, assim que, tratando-se de
responsabilidade subjetiva ou objetiva, é necessário que haja uma relação de
causalidade que se interponha entre o prejuízo e o fato lesivo que o antecedeu.
Dentre os ilustres juristas brasileiros, Caio Mário da Silva Pereira afirma: “É
pressuposto essencial da reparação, em regra, a imputabilidade da falta, contratual ou
extracontratual, ao agente”. Em termos científicos o nexo de causalidade se chama
meio de conhecimento, “in casu”, meio para conhecer o autor do dano, a culpa, o dano,
a ilicitude, o prejuízo causado a outrem.
A necessidade de determinação do nexo de causalidade entre um antecedente e um
conseqüente é, na oportuna lição de Eduardo Jorge Laje, um imperativo de razão que,
não admitindo que nada provenha do nada, indaga da origem das coisas e das relações
que enlaçam, seja nas ciências da natureza, seja nas ciências do espírito, entre as quais
se inclui o Direito.
Para Francisco Manoel Pereira Coelho, o “momento” causalidade, no quando dos
pressupostos da responsabilidade civil, distingue-se por se ele que nos permite
determinar a extensão do dever de indenizar, fixar a sua medida ou o seu quantum, dizer
até onde é que ele vai, que prejuízos, quais prejuízos, devem ser reparados.
Sabiamente, Gisele Leite conceitua o nexo causal como o vínculo, a ligação ou
relação de causa e efeito entre a conduta e o resultado.
A relação causal, portanto, estabelece o vínculo entre um determinado comportamento e
um evento, permitindo concluir, com base nas leis naturais, se a ação ou omissão do
agente foi ou não a causa do dano. Determina se o resultado surge como conseqüência
natural da voluntária conduta do agente.
Também segue o mesmo entendimento o doutrinador Flávio Tartuce, segundo qual a
responsabilidade civil não pode existir sem a relação de causalidade entre o dano e a
conduta do agente. Se houver dano sem que a sua causa esteja relacionada com o
comportamento do suposto ofensor, inexiste o nexo causal, não havendo a obrigação de
indenizar.
Sérgio Cavalieri Filho é mais incisivo afirmando que pode haver responsabilidade
sem culpa, mas não pode haver responsabilidade sem nexo causal, isto é, sem o
elemento referencial entre a conduta e o resultado.
A causalidade não deve ser confundida com a culpabilidade, pois é perfeitamente
possível ocorrer não somente culpa sem nexo causal, como se dá disparo de arma de
fogo com a intenção de matar pessoa já morta; mas, também, nexo causal sem culpa,
como se verifica no homicídio levado a efeito em legítima defesa. A aferição do nexo
causal deve, sempre, antecipar a apuração da culpabilidade: previamente se estabelece a
ocorrência da relação causal entre o evento danoso e as conseqüências danosas, para,
numa etapa posterior, julgar, quando for o caso, a presença da culpa.
O problema do estudo jurídico da causa foi primeiramente proposto por doutrinadores
da área criminal, que até nossos dias permanecem em debate sobre as questões da causa.
O direito civil trouxe algumas das teorias propostas pelos penalistas para seu campo de
atuação, embora, não haja uma preocupação ao nível em que o problema se propõe.
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Existe uma dificuldade enorme quando se procura chegar ao critério usado para se
definir a causa de um fato. Quando se fala em fato jurídico, há a presunção de ter havido
uma modificação no mundo exterior por ordem, por intervenção de seres humanos.
Cada acontecimento faz parte de uma cadeia de causas onde uns fatos são
antecedentes e outros são conseqüentes. Cada um, dentro de seu campo de interesse,
constitui a condição que considera como sendo a mais importante para ser a causa.
Assim, a causa, necessariamente, deverá ser uma condição, que, se for suprimida, fará
com que o evento não se dê. E aí reside todo o problema proposto pelas teorias jurídicas
sobre a causa: saber qual das condições é a que efetivamente contribuiu para o evento
danoso, qual das condições pode ser considerada a causa sem a qual não ocorreria o
fato.
Mais difícil que saber a causa sem a qual não ocorreria o dano é a hipótese de
causalidade múltipla, ou seja, quando há uma cadeia de condições, várias circunstâncias
concorrendo para o evento danoso, e temos que precisar qual dentre elas é a causa real
do resultado. Flávio Tartuce as divide em:
a. Causalidade ordinária, conjunta ou comum – aquela que existe entre as
condutas coordenadas ou dependentes de duas ou mais pessoas, que de forma
relevante participam para a produção do evento danoso; todos os agentes
respondem solidariamente.
b. Causalidade acumulativa – é existente entre as condutas de duas ou mais
pessoas que são independentes entre si, mas que causam o prejuízo. Cada
agente deverá responder na proporção de suas culpas.
c. Causalidade alternativa ou disjuntiva – é aquela existente entre as condutas de
duas ou mais pessoas, sendo que apenas uma das condutas é importante para
ocorrência do evento danoso. Somente o ofensor responderá.
Sérgio Cavalieri Filho diz que as concausas são circunstâncias que concorrem para o
agravamento do dano, mas que não tem a virtude de excluir o nexo causal desencadeado
pela conduta principal, nem de produzir o dano. O dano surge da coincidência de várias
circunstâncias e decorre de causas diversas, basta que o autor seja responsável por uma
delas, sempre que desta provenha o dano, estabelecida a sua relação com as demais. As
divida em:
a. Concausas preexistentes – são condições que já existiam quando da conduta do
agente, embora agravantes do resultado, em nada diminuem a responsabilidade
do agente, o qual responde pelo resultado mais grave, independentemente de ter
ou não conhecido da concausa antecedente que agravou o dano. Por exemplo, o
agente que provoca lesão leve na vítima e esta morre, pois era hemofílica.
b. Concausas supervenientes ou concomitantes – a causa superveniente não produz
o resultado, mas o reforça, ocorre já depois do desencadeamento do nexo causal,
embora concorra também para o agravamento do resultado, em nada favorece o
agente. Por exemplo, a vítima de atropelamento que tem demora no seu socorro
e acaba perdendo muito sangue, provocando seu falecimento.
A meu ver, de acordo com tais teorias, o fato preexistente à conduta não afeta no
nexo causal ou algum fato superveniente agravam o resultado, mas não beneficiam o
réu. Deveria beneficiar, pois se o réu causasse um dano a alguém que não tenha
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problema preexistente ou superveniente ao evento danoso, as conseqüências seriam
mais amenas, por isso, é importante, realmente, que haja uma averiguação seria do caso
concreto e solução proporcional aos fatos.
Carlos Roberto Gonçalves caracteriza tal exposição de concausas sucessivas, em que
se estabelece uma cadeia de causas e efeitos.
Para tentar amenizar o problema da causalidade múltipla a doutrina criou algumas
teorias para explicá-las:

I. Teoria da equivalência dos antecedentes:


Não há distinção entre causa e condição. Se várias condições concorrem para o
mesmo resultado, todas têm o mesmo valor, a mesma relevância, não se indaga se uma
delas foi mais ou menos eficaz. Também é chamada de conditio sine qua non (condição
indispensável). Frente à abrangência desse conceito de causa, que obriga a se
considerar, não só as condições próximas ao evento, como também as condições
mediatas, e até condições remotas, sob pena de não haver causa do dano, e assim
agindo, buscar causas até o infinito, corremos o risco de considerar como causa de um
dano uma ação fortuita de uma pessoa que de forma alguma contribuiu para que o
evento se desse. Tendo em vista sua inadequação frente à prática da vida e aos
propósitos do direito, que, como se vê, poderá criar situações um tanto estranhas,
longínquas do ideal de justiça, pois há uma exacerbação da causalidade, colocando o
nexo causal como infinito elemento entre todos os antecedentes da conduta e do
resultado.

II. Teoria da causalidade adequada:


Uma condição só é juridicamente causa de um dano quando se mostra, em abstrato,
não só necessária, mas, também, adequada à sua produção, segundo o curso ordinário
das coisas e a experiência da vida. Se várias condições concorreram para determinado
resultado, nem todas serão causas, mas somente aquela que for a mais adequada à
produção do evento. Causa será apenas aquela que foi mais determinante,
desconsiderando-se as demais. Causa adequada será aquela que, de acordo com o curso
normal das coisas e a experiência comum da vida se revelar a mais idônea para gerar o
evento.
Para Flávio Tartuce, o CC/02 adotou a teoria da causalidade adequada, pela qual se
deve identificar, na presença de uma possível causa, aquela que, de forma potencial,
gerou o evento dano. Por esta teoria, somente o fato relevante ao evento danoso gera a
responsabilidade civil, devendo a indenização ser adequada aos fatos que a envolvem.
Para os que a criticam é considerada como uma grande limitação, pois se tratar-se de
caso singular, irrepetido, não há como aplicá-la, pois a regularidade tanto do evento
quanto de sua conseqüência é possível, tão-somente, quando já verificada uma
pluralidade de casos da mesma índole daquele que se encontra sobre juízo.
III. Teoria do dano direto ou imediato:
Para que a ação de responsabilidade possa ter cabimento em proveito da vítima, é
necessário que o dano se ligue diretamente à falta do réu, e que tal relação não seja
interrompida. Seria infindável para o Direito procurar a causa das causas, e as origens
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de cada uma delas; desse modo, se limita à causa imediata e julga os atos praticados,
sem remontar mais além. É a teoria consagrada nos Códigos Civis Francês, Italiano e
Argentino. A doutrina da causa direta e imediata propõe que, na aferição do nexo
causal, se considere como causa exclusiva do resultado danoso a condição que tenha
sofrido, no tocante à acusação do prejuízo, a interferência superveniente de outra
condição, com rompimento da cadeia causal.
Dessa forma, se uma dada conduta causa um dano e este, em seqüência, gera outro
dano, o agente ficará obrigado a reparar apenas aquele, e não este, porque a conduta
desencadeou, direta e indiretamente, apenas o primeiro dano. A crítica que, de modo
geral, se faz a esta conduta diz à dificuldade em apurar de que maneira se reconhecerá
que um dado evento pode ser declarado causa direta e imediata do dano.
O Código Civil brasileiro adota a teoria da causalidade adequada, pois em sede da
responsabilidade civil, nem todas as condições que concorrem para o resultado são
equivalentes, mas somente aquela que foi a mais adequada a produzir concretamente o
resultado. Por outro lado, a teoria da equivalência das condições predomina na esfera
penal. Sustentam seus defensores que o resultado é uno e indivisível, de forma a ser
atribuído a cada uma das condições como antecedentes necessários do resultado, que se
equivalem.
Segundo Gustavo Tepedino, o Supremo Tribunal Federal tem mais adotado a teoria
do dano direto ou imediato ou teoria da interrupção do nexo causal, a qual cita que
havendo violação do direito por parte do credor ou do terceiro, haverá interrupção do
nexo com a conseqüente irresponsabilidade do suposto agente.
É importante ressaltar que não há consenso sobre tais questões e teorias, pois a
jurisprudência nacional ainda é bastante divergente. Em minha opinião, já que o nexo
causal é indispensável para unir a conduta ao dano, ele deve ser identificado em qual
ponto foi mais incisivo, para que se delimite uma adequada indenização.
Passamos agora para outro enfoque, tratando sobre a exclusão do nexo causal, como
isenção da responsabilidade, estudando os casos de impossibilidade superveniente do
cumprimento da obrigação não imputáveis ao devedor ou agente. As hipóteses que
podem operar, assim, a ruptura da conexão causal, via de conseqüência, a
responsabilidade do agente da causa interrompida pelo resultado da causa
superveniente, são: fato da vítima, fato de terceiro, caso fortuito e a força maior.

A. Fato exclusivo da vítima: quando o fato da própria vítima funciona como


condição exclusiva do resultado danoso, compete a ela suportar o próprio dano.
Silvio Rodrigues exemplifica tal hipótese: “se a vítima, querendo suicidar-se,
lançou-se sob as rodas do veículo, sua é toda a culpa pelos ferimentos que
experimentou e decerto será vencida na ação de responsabilidade que
eventualmente intentar”. O fato exclusivo da vítima exclui o próprio nexo causal
em relação ao aparentemente causador direto do dano, pelo que não se deve falar
em simples ausência de culpa deste, mas em causa de isenção de
responsabilidade.

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B. Fato de terceiro: há ruptura do nexo causal em virtude de alguém que, entre o
fato do demandado e o prejuízo do demandante, insere uma ação que é causa
determinante do dano verificado: é o que, por exemplo, ocorrerá se alguém
empurrasse o indivíduo sob as rodas de um automóvel que está passando,
causando-lhe gravíssimos ferimentos. Considera-se terceiro toda pessoa distinta
da vítima ou do demandado.
Para Giselda Maria Fernandes Novaes Hironaka, do conceito de terceiro
“estarão excluídas aquelas pessoas por quem o agente responde, como os filhos,
tutelados, curatelados, prepostos, empregados etc., de modo que, nessa
qualidade, não lhe será, em qualquer hipótese, permitido eximir-se de
responder, invocando, para a excludente do fato de terceiro.”

C. Caso fortuito e força maior: para alguns doutrinadores é irrelevante a distinção


conceitual entre tais termos jurídicos, sendo o importante é que ambas produzem
as mesmas conseqüências, ou seja, a interrupção do nexo causal. Para os outros
doutrinadores que defendem a dualidade de conceituação, caso fortuito é o fato,
apesar de imprevisível seria evitável se pudesse ter sido previsto, enquanto que
força maior consiste em acontecimentos naturais ou em ações humanas, os fatos
e suas prejudiciais conseqüências seriam inevitáveis ou irresistíveis, mesmo que
pudessem, como efetivamente podem, ter sido previstos. Enfim, para caso
fortuito predomina a imprevisibilidade, ao passo que na força maior prevalece a
inevitabilidade.
As excludentes do nexo causal supracitadas mantêm relação com a teoria do dano
direto e imediato e o ofensor não pode ter culpa concorrente para que se exclua o nexo
causal, pois se a culpa não for exclusiva da vítima ou de terceiro, ou caso fortuito e
força maior, o dever de indenizar subsistirá.
Portanto, como assevera Luiz Bonsi Júnior, falecido diretor da Faculdade de Direito
de Bauru (ITE), a exigência de interposição, entre o dano e o evento lesivo, de um nexo
causal tem seu fundamento racional no postulado de justiça que aconselha não carregar
sobre o indenizante a obrigação de reparar todos os danos experimentados pelo lesado,
quando a experiência da vida mostra que nem todos os prejuízos que se seguem ao
evento danoso, ligam-se efetivamente a este, numa relação de causa e efeito.
A partir desse momento, passarei ao exposto da responsabilidade do Estado e o nexo
causal em diferentes situações concretas:

1) Responsabilidade civil do Estado no Direito Brasileiro, sentido e alcance da


norma do art.37, §6º, CF – tal tema foi tratado por Ronaldo Brêtas de Carvalho
Dias, o qual abordou o Art. 37 – “A administração pública direta e indireta de
qualquer dos Poderes da União, dos Estados, do Distrito Federal e dos
Municípios obedecerá aos princípios de legalidade, impessoalidade, moralidade,
publicidade e eficiência e, também, ao seguinte: § 6º: As pessoas jurídicas de
direito público e as de direito privado prestadoras de serviços públicos
responderão pelos danos que seus agentes, nessa qualidade, causarem a

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terceiros, assegurado o direito de regresso contra o responsável nos casos de
dolo ou culpa”.
Para seu entendimento, a interpretação desse preceito constitucional, que impõe
a responsabilidade do Estado pelos danos causados aos particulares, leva à
conclusão de que, primeiro lugar, consagra a responsabilidade objetiva e direta
de todas as pessoas de Direito Público, ancorada na atual teoria publicista do
risco criado ou teoria do risco administrativo. Logo, dispensa a necessidade de
se perquirir a culpa do serviço público, bastando a comprovação do dano
causado ao particular, em decorrência da prestação de um serviço público
qualquer.
Evidentemente, alcança as três fundamentais funções exercidas pelo Estado:
administrativa, legislativa e a jurisdicional, não havendo razão jurídica, lógica
ou razoável para se excluir qualquer delas de sua abrangência, daí a
possibilidade de se sustentar a tese de uma responsabilidade unitária do Estado.
Por fim, referido preceito constitucional tem incidência em quaisquer situações
de danos causados pelo Estado, independentemente de sua origem ou da
natureza da atividade lesiva.
Na jurisprudência do STF, a responsabilidade civil das pessoas jurídicas de
direito público e das pessoas jurídicas de direito privado prestadoras de serviços
públicos, responsabilidade objetiva, com base no risco administrativo, ocorre
diante dos seguintes requisitos: do dano, da ação administrativa e desde que haja
nexo causal entre o dano e a ação administrativa.

2) Responsabilidade civil do Estado por atos comissivos de policiais militares – tal


tema é matéria jurisprudencial do TJDF, tendo como relator o Desembargador
Lecir Manoel da Luz, julgada em 2004, segundo a qual é cabível ação de
indenização por agressões sofridas por parte de policias militares, uma vez que
estes agiram com excessos, ocasionando na limitação da capacidade laborativa e
em deformidade na vítima. Neste caso concreto, o nexo causal foi demonstrado
pela prova produzida nos autos, da truculência da ação policial, causando lesões
na vítima, isto é, presente o nexo causal entre o evento danoso e a conduta ilícita
do agente público a ensejar a reparação.
O TJDF concebeu a reparação por dano moral, atendendo os critérios da
razoabilidade e da proporcionalidade que norteiam o entendimento do TJ, bem
como levando em conta a situação do ofendido e a capacidade econômica do
ofensor.
Por outro lado, apesar da gravidade de lesões sofridas, o apelado encontra-se
recuperado, mostrando-se capacitado para a prática de qualquer atividade
laboral, razão pela qual o TJDF excluiu da condenação o dano material.

3) Responsabilidade extracontratual patrimonial do Estado por atos legislativos –


o advogado Luiz Gustavo Pollini abordou o nexo de causalidade e dano
indenizável neste caso concreto, onde o liame causal e o dano são essenciais
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requisitos para que se desprenda a imputação de responsabilidade para o Estado,
desta maneira erigindo-se a obrigação de indenizar. Para que um dano ou lesão
seja imputável à entidade pública se requer que concorra um elemento de caráter
objetivo, que é a existência de uma relação de causa e efeito entre a atividade do
órgão público e o dano.
É o administrado quem deve provar a relação de causa e efeito entre o serviço
público e a lesão sofrida. Será indenizável quando o ato, embora lícito, motivado
pelo interesse público, causar prejuízo especial e anormal, isto é, ato impositivo
de sacrifício e não simplesmente, restritivo de direito.
Enfim, para ocorrer imputação ao Poder Público de responsabilidade por dano
advindo de lei constitucional danosa, deverá o particular, além da prova do dano
e do nexo causal, demonstrar a característica de especialidade e anormalidade da
lesão, para obter a devida compensação, pois se trata de comportamento lícito.
Todavia, tal hipótese é rara de acontecimento. Em matéria de responsabilidade
do Estado por danos decorrentes de atos legislativos não se aplicam as hipóteses
de exclusão de responsabilidade.

4) Responsabilidade civil do Estado por erro na elaboração do mandado de prisão


– tal assunto é também matéria jurisprudencial, vinda do TRF 5º Região, tendo
como relator o Desembargador Federal Rogério Fialho Moreira, julgada em
2003, onde se entendeu serem cabíveis os danos morais nos casos de prisão
decorrente de erro manifesto na elaboração do mandado, o qual foi revogado
após comprovado o erro, através de diversas provas materiais e testemunhais,
inclusive por pedido formal de desculpas subscrito pela autoridade judiciária
responsável pela expedição do mandado.
Evidente o nexo causal entre o erro havido na elaboração do mandado de prisão
e o dano moral causado pelo cumprimento da ordem, em pleno local de trabalho,
no horário de expediente do autor da ação contra o Estado.
Embora a revogação foi feita no mesmo dia em que foi dada a prisão, o dano
moral foi configurado, e o magistrado fixou razoável o quantum indenizatório
que atende aos critérios de compensação ao lesado e desestímulo ao lesante.

Concluindo sobre o tema da responsabilidade civil do Estado e o nexo de causalidade


é oportuno elucidar o entendimento do advogado Henrique Lima, de que a
Responsabilidade do Estado não se resume à simples noção de que esse sempre
responderá pelos danos, diretos ou indiretos, relacionados à atuação da Administração
Pública, independentemente de culpa, como pode sugerir uma leitura apressada da
norma contida no parágrafo 6º do artigo 37 da Constituição Federal de 1988. Segundo
ensinamento de Clóvis Beviláqua, o fundamento da responsabilidade Estado é o
princípio de justiça segundo qual toda lesão de direito ou dano devem ser reparados, de
modo que “o Estado, tendo por função principal realizar o direito, não pode chamar a si
o privilégio de contrariar, no seu interesse, esse princípio de justiça.”. Desde a
Constituição Federal de 1946 que no Brasil se adota a Teoria do Risco Administrativo,
também chamada de Teoria do Risco Criado ou, ainda, de Teoria da Responsabilidade
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Objetiva, atualmente fundada no parágrafo 6º do artigo 37 da Constituição Federal de
1988. Assim, o ponto principal da Responsabilidade do Estado deixou de ser a culpa do
funcionário e passou a ser a verificação do nexo de causalidade entre a ação ou omissão
e o dano ou lesão sofrida pelo terceiro. A necessidade de existência desse elo entre o
dano reclamado e a atividade ou omissão do Estado é assim referida por Yussef Said
Cahali: “... a responsabilidade da Administração Pública, desvinculada de qualquer fator
subjetivo, pode, por isso, ser afirmada independentemente de demonstração de culpa -
mas está sempre submetida, como é óbvio, à demonstração de que, foi o serviço público
que causou o dano sofrido pelo autor”. Reconhecendo-se que o Estado nada mais é que
a união dos esforços e das contribuições de toda a sociedade, não é justo que fique sem
a devida reparação o indivíduo que sofra um prejuízo decorrente de uma ação estatal,
ainda que sem culpa da Administração, por ser presumido que, por agir o Estado em
função do bem comum, aquele ato trouxe benefício social, cujos ônus devem ser
socializados. A Teoria do Risco Administrativo, ao contrário da Teoria do Risco
Integral, admite a prova das excludentes de responsabilidade, ou seja, culpa da vítima –
ou de terceiro – força maior ou caso fortuito, por terem o condão de desfazer, romper, o
liame causal imprescindível à responsabilização do Estado.
Quanto ao nexo de causalidade, o Supremo Tribunal Federal no julgamento do RE
130.764 assentou que a teoria adotada é a do dano direto e imediato, também
denominada Teoria da Interrupção do Nexo Causal, que “só admite o nexo de
causalidade quando o dano é efeito necessário de uma causa, o que abarca o dano direto
e imediato sempre, e, por vezes, o dano indireto e remoto, quando, para a produção
deste, não haja concausa sucessiva”, conforme explica o professo Agostinho Alvim,
citado no referido acórdão.
Em ambas as hipóteses – inexistência de nexo de causalidade ou a existência de
excludente de responsabilidade – o ônus da prova caberá ao Poder Público.

Enfim, sobre o complexo tema do nexo causal no sistema de responsabilidade civil


brasileiro, concluo que o objetivo da responsabilidade civil é trazer de volta o equilíbrio
perdido através de um dano - sendo que, para haver dever de ressarcir haja um dano, e
só se poderá ressarcir este prejuízo se alguém por ele for responsável. Só haverá
responsabilidade se houver conexão causal. Constatamos que, na dinâmica da vida, na
prática, não haverá culpabilidade se não houver dano, e para que esse dano gere
responsabilidade, deverá haver nexo causal.
Concordo plenamente com a professora Giselda Hironaka quando afirma que: “mais
importante que reparar o dano é repará-lo em maior número, e mais adequadamente.
Mais importante que reparar o dano em maior número e adequadamente, é não reparar,
uma vez que, prevenido, não ocorreu.”
Termino citando Dr. Luiz Bonsi Júnior: “o problema jurídico do nexo causal tem
relevância, no plano da responsabilidade civil, pois tem a correta pesquisa, pelo
julgador, da causalidade que, por imperativo legal, deve mediar entre o evento danoso e
o dano dele resultante; é manifesto que, se, de um lado, a solução judicial dos conflitos
de interesse na responsabilidade civil deve, em atenção aos princípios constitucionais da
solidariedade social e da justiça distributiva, porfiar por não deixar o lesado sem cabal
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reparação, impõe-se, de outro, que o responsável não seja injustamente sobrecarregado
pelo dever de indenizar danos que não tem qualquer conexão com seu comportamento
ou sua atividade, nestes termos, portanto, logo deixa ver quer se, porventura, o
magistrado, no caso vertente, se não ajuizar cuidadosamente da configuração do nexo
causal, mediante aplicação de critério doutrinário ou legal reputadamente seguro,
certamente o lesado ou, então, o demandado amargará inominável injustiça.”

Bibliografia:

1. Programa de Responsabilidade Civil. Sérgio Cavalieri Filho.


2. Responsabilidade Civil. Vol. 3. Pablo Stolze Gagliano e Pamplona Filho.
3. Direito Civil Brasileiro, Responsabilidade Civil. Carlos Roberto Gonçalves.
4. Obrigações e Responsabilidade Civil. Flávio Tartuce.
5. Manual de Direito Civil, Obrigações e Responsabilidade Civil. Roberto Senise
Lisboa.
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6. Trabalho de monografia com tema “O problema jurídico-civil donexo causal” do
Dr. Luiz Bonsi Júnior, apresentada ao curso de Mestrado em Direito Civil ITE-
Bauru.
7. Artigos publicados pelas professoras Giselda Maria Fernandes Novaes Hironaka
e Jussara Suzi Assis Borges Nasser Ferreira.
8. Artigos publicados na Revista Síntese de Direito Civil e Processual Civil. Maio-
Junho/2009. Responsabilidade Civil do Estado (I).
9. Jurisprudências comentadas da Revista IOB de Direito Civil e Processual Civil.
Maio-Junho/2009.

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