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Cidadania

e

POR LUIZ GOMES DE MOURA
FACULDADE FRASSINETTI DO RECIFE
COORDENAÇÃO GERAL DE GRADUAÇÃO
CIDADANIA E FÉ

CIDADANIA E FÉ EM REGIME DE EAD


POR LUIZ GOMES DE MOURA

RECIFE, 2015
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FICHA CATALOGRÁFICA

Moura, Luiz Gomes.


Cidadania e fé em regime de EAD. [recurso
eletrônico]. Luiz Gomes Moura. – Recife:
Faculdade Frassinetti do Recife (FAFIRE), 2016.

1. Educação cristã. 2. Humanismo social


cristão 3. Cidadania cristã 4. Teologia social 5.
Cidadania e fé – Educação à distância I. Título.

CDD 261.5

Elaborada por Lenice Moura CRB-4/564.

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SUMÁRIO

06 O ocidente em nosso mundo................................................................... BL1


Fenômeno Religioso

10 Contribuição Greco-Romana para a formação do Ocidente............ BL1


15 As grandes tradições religiosas vêm do oriente..................................... BL1
20 Fé: tão pequena e tão grande................................................................ BL2
23 Uma viagem ao Mundo dos Símbolo...................................................... BL2
28 Ciência ou Fé?............................................................................................ BL2
32 Culturas afro-ameríndias............................................................................. BL3
36 A condição da mulher no judaísmo......................................................... BL3

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Bloco 01
BLOCO 1
O OCIDENTE EM NOSSO MUNDO
O mundo em que vivemos pertence à parte do globo que chamamos de Ocidente. Aliás,
vivemos na parte mais ocidental do Ocidente. Devemos fazer algumas considerações
sobre essa realidade, e para isso nos valeremos de um trabalho de um filósofo francês
chamado Roger Garaudy. Ele escreveu um tratado chamado o “Ocidente é um acidente”
que pode nos oferecer boas pistas para o desenvolvimento da disciplina “Cidadania e fé”.

Retrato da sociedade
Retrato é uma palavra que não é mais usada
hoje; caiu no anacronismo; tornou-se arcaica; re-
trato lembra as fotografias feitas pelas máquinas
fotográficas chamadas de lambe-lambe, utiliza-
das em feira de cidades do interior. O matutinho
se postava em frente à máquina, o fotógrafo bo-
tava a mão numa mochila posicionada ao lado
e a outra mão em uma outra mochila do outro
lado; mexia em alguns botões ali dentro e já esta-
va preparado para o retrato. Preparava o freguês,
Foto retirada do site:https://jadiziaoamauri.wordpress.com/tag/fotos/
que já estava na frente, e pronto, tirava a tampa
da abertura da frente e estava feito o retrato. Era
importante agora ver se a foto estava focalizada ou não.

Costumo fazer com os alunos um retrato da sociedade em que vivemos: O retrato da socie-
dade será uma foto de boa qualidade? Ou incomoda a vista quando se vê? É de boa ou de
péssima resolução? A descrição da atual sociedade feita pelos alunos é mais ou menos assim:

A sociedade em que vivemos é de modo de produção capitalista; nesse sistema, o capital


ou o dinheiro é mais importante que a pessoa humana; a pessoa está em segundo plano.

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Esse sistema é intrinsecamente mau, porque é explorador e excludente; é explorador porque acu-
mulou riqueza à base da exploração dos pobres, dos humildes e da classe mais simples do povo.
Os pobres têm sua vida diminuída em função de trabalho pesado, cujos lucros sustentam as classes
dominantes da sociedade; ao lado disso, não têm acesso à saúde de forma adequada e seus filhos
frequentam o sistema escolar com muita dificuldade, quando têm acesso. É uma vida pesada e
de muito sofrimento. A exclusão social é a face mais nova do sistema capitalista de feições liberais.
Num país de 200 milhões de habitantes, o Estado se organiza direitinho para atender somente 100
milhões; os outros 100 milhões são excluídos. São desempregados, subempregados; pessoas sem
acesso à escola, à saúde, penam na fila do INSS e não têm possibilidade de sonhar; esperam e não sa-
bem o quê. Some-se a isso a filosofia do individualismo que alimenta esse sistema injusto; o sistema
ensina cada um a olhar somente para si; partilha e solidariedade se encontram longe desse sistema.
Esse sistema alimenta preconceitos e desigualdades: preconceitos e desigualdades sociais onde os
ricos são mais privilegiados que os pobres; para os ricos tudo; os homens são mais privilegiados que
as mulheres; para o trabalho são iguais, mas a remuneração é diferente, ainda hoje; existe preconcei-
to religioso, onde a religião oficial é a verdadeira; as demais são classificadas na categoria de seitas;
e se se tratar de religião de negro e de pobre, chega a ser satanizada; há preconceito racial, onde os
privilégios são para os brancos e seus descendentes; para os negros, as cotas e todas as dificuldades
de ascensão social; existe preconceito cultural; valorizados são aqueles que conseguem passar pelas
cadeiras escolares e são portadores de diploma; os demais são destinados a serviços de últimas cate-
gorias, como serviços pesados ou entendidos como desprezíveis. Esse é um retrato da sociedade em
que vivemos.
Mas sabemos que nossa sociedade não é somente isso; tem muita coisa positiva nesse
mundo de meu Deus. Porém, durante mais de 20 anos elaborando um retrato da sociedade
com os alunos, esta tem sido a imagem mais comum; aqui e ali, em meio a isso tudo, apa-
recem: solidariedade, partilha, amor; uma gota no mar. Apenas uma turma de centenas
com que trabalhei, produziu uma foto da sociedade, de boa resolução. Diante desse quadro,
vamos buscar no passado as raízes de tudo isso. Por que vemos assim a sociedade?

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Ocidente: cultura de morte
Vivemos no lado globo terrestre onde o sol morre, por isso que se chama Ocidente. Ociden-
te vem de OCCIDERE, palavra latina que significa tanto matar como morrer. Ocidente é
puramente um termo geográfico; estamos do lado onde o sol se põe (morre), Ocidente. Se
vivêssemos do lado onde o sol nasce (orior – nascer), nossa cultura seria oriental.

Por ironia da sorte, a cultura ocidental se apresenta também como cul-


tura de morte. De que maneira o branco, civilizado, europeu e cristão
chegou ao continente americano? De forma pacífica? Como foi o en-
contro da cultura civilizada e europeia com as muitíssimas culturas indí-
genas existente no continente? Humana, fraternal? Segundo o relato do
jornalista uruguaio Eduardo Galeano, em seu livro As Veias Abertas da
América Latina, na verdade não houve encontro e, sim uma trombada.
Falando sobre Eduardo Galeano, o acadêmico Luiz Fernando Belatto as-
sim se expressa sobre As Veias Abertas da América Latina.

“Mostra como os espanhóis e portugueses chegaram àquelas terras virgens no século XV e se


aproveitaram das riquezas que o continente possuía. Os primeiros, fixados desde o planalto
mexicano até os Andes, tiveram sorte e encontraram ouro e prata nas primeiras andanças. Os
lusitanos, ocupando a faixa litorânea do Oceano Atlântico, tiveram de construir um império
colonial à base da cana-de-açúcar enquanto não encontravam os metais. Embora em áreas
diferentes, a tônica da exploração foi a mesma: trabalho forçado, agressão física, enriqueci-
mento, opressão colonial. Os espanhóis encontraram dois exércitos de mão-de-obra disponí-
veis: os índios astecas no México e os incas no Peru. Estas civilizações, para Galeano, retratam
o caráter do domínio colonial: socialmente e militarmente evoluídas, foram destruídas nas mi-
nas e com o trabalho forçado nas mitas e encomiendas. Já os portugueses, depois de tentar
a exploração dos índios nos engenhos de açúcar e não obter sucesso, transformaram-se no
maior traficante de negros mundial. Vindos da África, os negros deixavam à força seus reinos
para, em terras brasileiras, ser escravos e motor da produção açucareira”.

Num livro sobre Catequese, de um Franciscano holandês chamado Frei Chico, fixado, creio,
em Minas Gerais, é contado um fato, para nós, surpreendente. Segue o conto do fato: Ne-
nhum Papa na história da Igreja andou tanto pelo mundo como João Paulo II, hoje santo
canonizado. Onde chegava era saudado por representante da sociedade local: aqui por
intelectuais, ali por representantes do clero, em outro lugar por chefes de estado etc.

No Peru, o Papa foi saudado por um representante indígena aimara. Em sua palavra de
saudação ao pontífice, disse entregando a Bíblia:
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Santidade! Tome esse livro que vocês nos trouxeram há 500 anos, porque para nós ele só
tem sido sinal de morte e destruição. Tome de volta! E entregou a Bíblia ao papa.
O Papa recebeu a Bíblia de volta e teve que reconhecer o que os brancos, europeus,
civilizados e cristãos fizeram no passado com as populações aqui estabelecidas. Hoje a
Igreja pede perdão, em documentos oficiais, por aquilo que os cristãos europeus, civilizados
e brancos fizeram com as populações indígenas e negras no continente.

Catolicismo guerreiro
Outro fator que certamente contribuiu para reforçar essa mentalidade de cultura de morte,
característico do mundo ocidental, foi a mentalidade religiosa que se deslocou da penín-
sula ibérica para as Américas: catolicismo guerreiro. Essa mentalidade se desenvolveu bas-
tante sobretudo em Espanha e Portugal, países colonizadores da América Central e do Sul.
No século VII surge na península arábica a mais nova das grandes
Estreito de Gibraltar
religiões. O islamismo. Fundamentado nas tradições religiosas do ju-
daísmo e cristianismo, se difunde de forma tão rápida que já no sé-
culo VIII domina todo o norte da África. Todos sabemos que o norte
da África é separado da península ibérica apenas por um estreito.
Logo os muçulmanos, como são chamados os fieis do islamismo, já
se encontram nessa grande península da Europa.

Como a Europa tem como religião oficial o catolicismo, começa


agora em Espanha e Portugal a luta contra os infiéis muçulmanos, Foto retirada do site:https://jadiziaoam-
que só finda oficialmente em 1492, data que coincide com a con- auri.wordpress.com/tag/fotos/
quista da América. O resultado dessa briga entre cristãos católicos
e muçulmanos é a mentalidade de um catolicismo guerreiro. Quem conquista a América?
Portugal e Espanha, dominado pela mentalidade do catolicismo
guerreiro que se forjou durante estes 7 séculos.

Os espanhóis e portugueses, ao chegarem ao continente ameri-


cano, não encontram os infiéis muçulmanos, mas encontram ou-
tros “infiéis”: os índios, num primeiro momento, e posteriormente
os negros africanos. Pelo fato de não serem batizados, devem ser
combatidos ou feitos cristãos pelo batismo.

Fruto dessa mentalidade, é o que diz D. José Maria Pires, no ser-


mão da Missa de Quilombos, realizada no pátio da Igreja do Car-
Foto retirada do site:http://edgar-ama-
pa.blogspot.com.br/2012/01/histo- mo, em Recife, em 1982:
ria-dos-jesuitas-no-amapa.html
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Sermão de Dom José Maria Pires na missa de Quilombos
– disponível no filme “Pé na caminhada”

“Eles foram trazidos à força da África para essas terras, arrancados de sua Pátria, separados
de seu povo e de sua família, misturados com pretos de outras línguas e de outros costumes.
Violentaram-lhes a consciência, impuseram-lhes uma nova religião que não escolheram.
Até o nome lhes roubaram e os chamaram por nomes destituídos de significados para eles”
O título de N. S. Auxiliadora, dado a Maria, é um título guerreiro fruto dessa mentalida-
de. Na batalha de Lepanto, entre cristãos e muçulmanos, os cristãos, em menor número,
conseguem derrotar os muçulmanos, graças à ajuda de Nossa Senhora. Por esse motivo,
a Igreja lhe agregou mais um título: Nossa Senhora Auxiliadora do povo cristão, porque
Maria ajudou os cristãos a derrotarem os infiéis muçulmanos.
Aqui no Brasil, quando os portugueses chegaram àquela região onde hoje é Vitória do Espírito
Santo, encontraram um lugar estratégico para se fundar uma fortaleza; para conseguirem o
seu objetivo, teriam que massacrar cerca de 60.000 mil índios. Massacraram os índios e fun-
daram um forte, que recebeu o nome de “Forte de Nossa Senhora da Vitória”, porque acre-
ditaram que Nossa Senhora ajudou os portugueses a massacrar os índios. Ao redor do forte
cresceu a cidade, que com o passar do tempo passou ser chamada de simplesmente de
Vitória, hoje capital do Espírito Santo.
No primeiro encontro de Comunidades Eclesiais de Base – CEBs – o bispo da cidade, que
conhecia esse fato, pediu publicamente perdão aos índios presentes, por aquilo que os
portugueses cristãos fizeram, no passado, com os índios.
Pode-se concluir essa parte com esse pedido de perdão da Igreja a índios e negros e seus
descendentes.

CONTRIBUIÇÃO GRECO-ROMANA PARA


A FORMAÇÃO DO OCIDENTE
O Ocidente se levanta sobre três grandes tradições: a tradição grega, a tradição romana
e a tradição cristã. O Ocidente carrega as marcas dessas tradições, porém a marca
mais forte é a da tradição grega. Quanto à tradição romana nada tem de novidade. Os
romanos importaram para dentro do império a cultura grega, por isso dizemos que nossa
cultura é greco-romana. Do ponto de vista religioso, quem de verdade marca o Ocidente
é o cristianismo. Essa trempe dá sustentação ao que chamamos hoje de cultura ocidental.
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Nosso modo de pensar
Em outras palavras, pensamos como os gregos; herdamos sua maneira de pensar; não
temos herança indígena em nossa maneira de pensar. Nossa forma de gestão, de edu-
cação e de organização social são de características greco-romanas; nosso direito é ro-
mano. Direito de quem? O direito dos romanos era o direito dos nobres ou das classes
privilegiadas; não era o direito dos escravos, dos estrangeiros ou o direito das mulheres.
O que herdamos da cultura grega que contribuiu para que nossa sociedade fosse da for-
ma que é? Herdamos o modo de pensar e uma das características do modo de pensar
grego era o dualismo.

Dualismo
O dualismo é uma forma de ver o mundo, de ver a realidade como se essa realidade ou
mundo fosse um composto de opostos; se eu penso o mundo como se o mundo fosse
formado de um lado por matéria e de outro por espírito, compreendendo que um lado
se opõe ao outro; entendendo também que tudo que se refere à matéria tende a ser
negativo, e tudo que refere ao espírito tende a ser positivo, eu estou pensado o mundo de
forma dualista.
Se eu penso o homem como se ele fosse um composto de corpo e
alma, onde um pólo se opõe ao outro, entendendo que tudo que
se refere a corpo tende a ser negativo e tudo que se a alma
tende a ser positivo, eu estou pensando o homem de forma
dualista. Essa forma de pensar o homem herdamos dos gregos;
não herdamos, por exemplo, da tradição judaico-cristã ou
da cultura oriental. Na cultura judaico-cristã o homem é
compreendido como uma totalidade; ele é corpo; ele é
espírito. Quando se diz corpo está dizendo homem todo;
quando se diz espírito está dizendo igualmente homem
todo. Na tradição judaico-cristã o homem é uma totalidade,
mas tem dimensão corporal, da mesma forma que tem
dimensão espiritual. O Yin e Yang na cultura oriental nos ajuda
a compreender o homem e o mundo naquela cultura: o Yin não
se opõe ao Yang, mas garante a harmonia, garante o equilíbrio.
Enfim, a cultura oriental não conhece o dualismo.
Em nossa fala, inconscientemente já reproduzimos esse dualismo tão
presente dentro de cada um de nós. É impressionante isso. Um exemplo: Quando eu
digo “o homem tem alma” ou “o homem tem corpo”, nessa fala ou nesse modo de falar
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eu já estou reproduzindo o dualismo. Na verdade o homem não tem corpo, o homem não
tem alma, mas ‘o homem é corpo; o homem é alma’.

Assista ao filme ‘Asas do Desejo’

O filme “Asas do desejo” é uma reflexão poética sobre a dicotomia clássica entre carne
e espírito, sobre a consciência de si e sobre a metafísica do tempo e do espaço, numa
atmosfera nostálgica de uma fotografia, em larga parte, em preto e branco.

Consequências do dualismo em nossa sociedade, hoje


Se fizer para alguém essa pergunta: o trabalho é uma coisa boa ou não?
O que responder? Muitas respostas certamente; mas na antiguidade
grega o trabalho era entendido com ‘algo negativo’, já que era uma
atividade ligada ao corpo e à matéria, e tudo o que se referia a corpo
e matéria era negativo, então o trabalho era visto como uma atividade
negativa, e por isso indigna do homem livre; o homem livre haveria de se
dedicar às atividades ligadas ao espírito, à alma como a contemplação,
à filosofia, à artes ou outras atividades similares. O escritor latino Cícero
afirma em uma pequena obra sua, “de oficiis”, que “o trabalho é uma
atividade indigna do homem livre”. Entre gregos e romanos existia uma
determinada categoria de pessoas para exercer essa atividade: os escra- Foto retirada do site: https://
pt.wikipedia.org/wiki/C%C3%AD-
vos. Isso liberava os homens livres para a filosofia, para a contemplação. cero

E essa outra pergunta: o sexo é uma coisa boa ou ruim? Muitas respostas igualmente, mas a ló-
gica é a mesma. Como o sexo é uma atividade do corpo, atividade da matéria, e matéria não
presta, corpo não presta, então a tendência é entender a atividade sexual como negativa.
Por que o celibato na Igreja? Também por esse motivo. Celebrar a Eucaristia era uma coisa
muito sagrada, enquanto a prática sexual era entendida como carnal, pecaminosa e feia; não
se pode juntar o feio com o bonito; daí o celibato. Na época em que os padres podiam casar,
havia uma lei eclesiástica, chamada lei da continência, que proibia a relação sexual dos pa-
dres casados na noite anterior à celebração da Eucaristia. Como a Igreja obrigou os padres a
celebrar missa diariamente, a lei da continência ficou sem sentido, sendo introduzido o celibato
obrigatório.

O dualismo está em nós


O dualismo não surge da tradição judaico-cristã, mas é importado para dentro do
cristianismo nos primeiros séculos da era cristã; a tradição judaico-cristã não conhecia o
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dualismo; quando dizia ‘corpo’, estava dizendo ‘homem todo’; quando dizia ‘espírito’,
estava dizendo igualmente ‘homem todo’. Infelizmente não herdamos a concepção
unitária de ‘homem’ da tradição judaico-cristã; também não herdamos a filosofia do Yin
e do Yang que vem do Oriente. No Oriente, o Yin (positivo) e o Yang (negativo) não é para
se contrapor ou fazer oposição; Yin e Yang é para estabelecer o equilíbrio; estabelecer
a harmonia. Enfim, é o dualismo que está em nós e não a filosofia da harmonia e do
equilíbrio que vem do Oriente.
Ao meu ver, o dualismo grego fortificou entre nós o preconceito e as desigualdades; a so-
ciedade valoriza mais o homem que a mulher (preconceito sexual), mais o branco que o
negro (preconceito racial), mais o rico que o pobre (preconceito social), mais o instruído
que o analfabeto (preconceito cultural), mais a religião dominante que outras manifesta-
ções religiosas (preconceito religioso), e se essa religião for de negro, duplica o preconceito.

Nossa herança: sociedade de classe de modelo greco-romano


Nossa sociedade de classe de modelo capitalista tem também suas raízes lá atrás. Não
herdamos o modelo de sociedade de classe do povo egípcio ou persa, herdamos sim o
modelo de sociedade da antiguidade grega. Na Grécia antiga, quando se dissolveu o
regime de modo de produção primitivo, a terra, que era propriedade de todos, tornou-se
propriedade do homem (masculino), em detrimento da mulher (feminino). A terra então
perde seu caráter sagrado e se torna um objeto do homem. A relação entre homem e
terra agora é de dominação; o homem domina a terra, domina a natureza; teve fim a
relação de harmonia e equilíbrio.
Quando o homem se tornou dono ou senhor da terra,
teve necessidade de se tornar dono do outro homem,
para trabalhar a terra; o homem é reduzido a objeto, cuja
finalidade era trabalhar a terra (escravo). Agora existem
duas categorias de pessoas: homem senhor, dono e ho-
mem escravo, objeto; a relação entre um e outro é de
Foto retirada do site: http://www.ultracurioso.com.br/
os-5-piores-castigos-dados-aos-escravos-no-passado/
domínio; o homem domina o outro homem, da mesma
forma como domina a terra; o homem escravo trabalha
para liberar o homem livre para pensar; por esse motivo, a filosofia nasceu na Grécia.

O que isso tem a ver com escola? Pois tem. Na antiguidade grega só podia frequentar a
SKOLÉ (escola) quem não trabalhava; somente os homens livres, dispensados do trabalho é
que a podiam frequentar. Como os escravos mergulhados no trabalho podiam frequentar
a Skolé? A palavra SKOLÉ, que gerou ESCOLA, significa ÓCIO. Antigamente a SKOLÉ era
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o lugar dos que não tinham nada que fazer. Olhando bem, a atual escola ainda tem um
pouco dessa mentalidade antiga. Ou não?

O homem se tornou dono da terra, tornou-se dono do outro homem e tem necessidade
de se tornar dono da mulher. Para quê? Para gerar o herdeiro. Na antiguidade, os laços
familiares eram determinados pelo lado da mulher; agora não; tudo muda a partir de
agora. Os filhos dela são os filhos dele, e se são deles e se são homens continuam a posse
da terra. Quem me dá a garantia que os filhos dela são dele? Há imposição de critérios:
virgindade, fidelidade, entre outros. Isso pode nos dar uma relativa certeza que os filhos dela
são dele. Surge o casamento monogâmico. Até parece que o casamento monogâmico
surge como ato de posse. Até a celebração religiosa ou a que se realiza diante de um
juiz também. Quando você compra uma terra tem as provas que a terra é sua: os papéis
assinados; o casamento é a mesma coisa: tem os papéis assinados no cartório e a bênção
do padre ou do pastor.

Enfim, o homem domina a terra, o homem (superior) domina o outro


homem (inferior) e domina a mulher. Agora precisa fazer que todos
acreditem que isso é natural, que isso é assim mesmo; que isso é
normal. Na Grécia antiga quem vai fazer esse papel não é a religião ou
qualquer igreja, mas a filosofia. Quem são os filósofos? Só homens. Sua
filosofia é para satisfazer as necessidades dos homens superiores ou das
classes dirigentes. Na Política, obra de Aristóteles, é esboçado o motivo
Foto retirada do site: http://
pelo qual o homem livre é superior ao homem escravo; é dito também www.ultracurioso.com.br/
os-5-piores-castigos-da-
porque o homem é superior à mulher. Quando Aristóteles explica porque dos-aos-escravos-no-pas-
sado/
o homem é superior à mulher, escreve:

Homem tem alma? Tem. Mulher tem alma? Tem também; só que a alma no homem tem
a virtude do comando, enquanto que a alma na mulher tem a virtude da submissão.
Por isso, para Aristóteles, jamais a mulher pode participar plenamente da vida da POLIS
(política); ela não tem na alma a virtude do comando. Quando expõe esse arrazoado,
ilustra com uma frase de um poeta da época, chamado Sófocles, que disse: “O silêncio
para uma mulher é fator de beleza”

No Ocidente, quando a mulher vem participar da política? Aqui no Brasil, há 80 anos, no


tempo de Getúlio Vargas. Observe como o Ocidente foi obediente a Aristóteles.
Nessa exposição estão as raízes da forma de organização de nossa sociedade hoje,
conforme descrita no retrato: Capitalista, com uma filosofia individualista, que consagra a
exploração e a exclusão social.
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AS GRANDES TRADIÇÕES RELIGIOSAS VÊM DO ORIENTE
A razão ocidental
O Ocidente é marcado pela cultura greco-romana, que, dentre muitos
pontos positivos e negativos, herdamos também a racionalidade. A
razão é grega, mas a declaração do primado ou primazia da razão
aconteceu no século XVII por René Descartes: “Penso, logo existo”.
Isto significa que a partir de agora vale a razão. Tudo agora tem que
passar pelo crivo da razão.
Com a declaração da primazia da razão se deu início o surgimento
das ciências, e isso foi muito bom. Quem pode reclamar disso? Antes Foto retirada do site:https://
en.wikipedia.org/wiki/
disso, a teologia e a filosofia eram as áreas de conhecimento mais Ren%C3%A9_Descartes
importantes. Para se construir uma ponte havia de consultar um
teólogo. Tudo mudou com a declaração da primazia da razão. Agora vale a verdade da
ciência; vale o que for comprovado; o que não passar pelo crivo racional não tem valor.
Como consequência da declaração do primado da razão, muita coisa mudou; a ciência
prolongou a vida humana, cresceu a expectativa de vida; a comunicação revolucionou
e as distâncias se encurtaram. Coisa maravilhosa! Mas a declaração do primado da razão
pode também ter gerado uma mentalidade racionalista, e isso é negativo. Mentalidade
racionalista acha que tudo tem que passar pelo crivo da razão, tudo tem que ser
comprovado. Quem disse que tudo tem de ser comprovado?
Deus existe? Me prove! Está vendo? Mentalidade racionalista que acha que tudo tem que
ser comprovado. Deus não se submete a esse critério; não passa por qualquer instrumento
de análise ou investigação. Então não existe? Tem alma no homem?
Vamos abrir o homem e procurar; se encontrar ... Tem. Mentalidade racionalista. Se abrir o
homem não vai encontrar nunca. Então não tem? Se abrir a Bíblia sagrada vai encontrar
lá: nascimento virginal. Cristo nasceu de uma virgem. Nasceu? Me prove! Vamos convocar
os ginecologistas e que nos dêem as provas. Vai conseguir? A Bíblia não é livro de ciência;
não é livro de história e a narrativa ali não segue esse critério. A Bíblia é um livro de fé, e
deve ser lida nessa perspectiva. É um livro de catequese, e nessa perspectiva deve ser
entendida. O critério racional não serve para esse caso

Da razão à mentalidade simbólica


Vamos deixar um pouco de lado a razão ocidental e vamos visitar um outro mundo; uma
outra realidade. Enquanto o Ocidente privilegia a razão, o Oriente, sobretudo o antigo
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Oriente, privilegia o ‘mythos’. O mito é uma maneira de um povo, uma sociedade, uma
comunidade explicar sua realidade; o mito não é o real; o real se encontra por trás do
mito. Para o mito não se pode perguntar se é verdadeiro ou falso. Ao mito se deve per-
guntar: ‘o que significa’. O mito portanto se encontra na dimensão do significado. Em
‘Saber Cuidar’, Boff elucida: “O mito quer expressar valores de grande irradiação que não
podem ser adequadamente expressos por conceitos. Criam-se, estórias. Estórias são nar-
rativas carregadas de emoção, de símbolos e representações” (BOFF, 2011, p. 60)
Quando os espanhóis chegaram ao continente americano encontraram
grandes civilizações que nada deviam ao velho continente. Civilizações
que tinham conhecimentos de arquitetura, de engenharia, de matemática
e de calendário mais perfeitos que os nossos. Praticavam grandes religiões e
tinham livro sagrado. O Popol Vuh era um livro sagrado dos astecas-maias;
ali estavam registradas as tradições religiosas daqueles povos. Como na Bí-
blia, o Popol Vuh fala da criação do mundo e do homem. Segundo o Popol
Vuh, os deuses fizeram o homem de um material, mas não tiveram sucesso;
desmancharam. Numa segunda tentativa, fizeram de um outro material, Foto retirada do site:
http://www.amazon.
mas igualmente sem sucesso; novamente desmancharam; Houve ainda com/Popol-Vuh-Ameri-
can-Spirituality-Translated/
uma terceira tentativa que também não deu certo. Somente na quarta ten- dp/0806138394

tativa é que dá certo.


Segundo o Popol Vuh, o homem foi feito do milho. Certamente a cabeça racional vai dizer:
“me prove!”. A narrativa do Popol Vuh não é uma descrição racional; é sim uma narrativa
mítica; eu tenho que perguntar o que significa na cultura do Popol Vuh o homem feito do
milho, e não se é verdadeiro ou falso que homem foi feito do milho. Se responder se falso ou
verdadeiro, vai quebrar a cara; não foi nessa perspectiva que foi escrita a narrativa. Tem que
buscar saber o que significa naquela cultura o homem feito do milho. Que significa milho?
Milho é a alimentação básica; se é alimentação básica é sagrado; é sagrado porque é vida.
Milho e vida são o mesmo. Tem sentido nessa cultura dizer que o homem foi feito do milho.
Na literatura bíblica, dizer que o homem foi feito do barro da terra é o mesmo. Terra era onde
o povo buscava a sobrevivência. Terra é vida; é sagrada. É por isso que o povo costuma cha-
mar a terra de “terra de Deus”. Não posso perguntar se é verdade ou não que o homem foi
feito do barro. Eu tenho que perguntar o que significa. Estou diante de uma literatura mítica.
O mesmo vale dizer para o símbolo. No Oriente tudo é carregado de valor simbólico. O
símbolo está na dimensão do significado. Voltando à narrativa do nascimento virginal, eu
não posso perguntar se é verdade ou não que Cristo nasceu de uma virgem. Eu tenho que
perguntar o que significa nessa tradição o nascimento virginal.
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O professor Gilbraz, apresentando o livro “Mosaico religioso: face do sagrado”, reforça o va-
lor do símbolo: “A religião é paixão, é amor pelo ideal em confronto com a realidade, é for-
ça estruturante e significativa dos dados e fatos, construída pela matriz valorativa da cons-
ciência. A experiência religiosa deve ser razoável, mas está para além da razão, é exercício
do desejo humano frente à consciência de pouco poder para a gente ser na vida, é uma
imaginativa e sentimental antecipação do real (ainda) inexistente (...). O que é religião? É a
encenação ritual de um conjunto de mensagens simbólicas de importância medular para
a conservação do estatuto humano do homem (LAIN 2012, p. 8).

As grandes tradições religiosas da humanidade nasceram no Oriente


O hinduísmo, o budismo, o judaísmo, o cristianismo e o islamismo, grandes tradições religio-
sas espalhadas pelo mundo, nasceram todas no Oriente, privilegiando, portanto, mais que
a dimensão racional, a dimensão mítica e simbólica. No hinduísmo tudo é carregado de
significado, tudo tem valor simbólico. Banhar-se nas águas do rio Ganges e receber os raios
do sol ao nascer do dia é envolver-se na divindade. No final da vida, entregar seu corpo
para ser queimado após a morte é como devolver a pessoa à divindade. Na tradição ju-
daico-cristã os números não são racionais ou matemáticos, mas simbólicos. O mundo feito
em 7 dias, 7 igrejas, 7 anos, 7 vacas gordas e 7 vacas magras, perdoar 70 vezes 7; não estou
diante de números matemáticos, mas simbólicos; eu tenho que perguntar o que significa o
mundo feito em 7 dias. 40 anos, 40 dias ou 40 noites não são números racionais; 12 tribos de
Israel, 12 apóstolos ou 12 cestos são números simbólicos.
Os livros sagrados não são livros de ciência ou livros de história, mas livros de fé, livros reli-
giosos que privilegiam o mito e o símbolo muito mais que a racionalidade. O islamismo que
surgiu sob a influência do judaísmo e cristianismo, também recebe as mesmas caracterís-
ticas das demais tradições religiosas.
Deus é chamado nessas religiões de nomes diferentes: a tradição judaica chama de Javé; a
sabedoria budista chama de Tao e na experiência cristã é Pai (mãe) de bondade. Podemos
ainda acrescentar que na tradição afro-brasileira é Olorum. Não importam os nomes, mas sim
o sentir de sua atuação em meio a seu povo, em meio a seus fiéis (Cf. BOFF, 2008, p. 138)

Cristianismo: tradição religiosa que marca o Ocidente


O judaísmo, cristianismo e islamismo são três religiões consideradas irmãs; são filhas do mes-
mo pai: Abraão. De Abraão com Sara, Isaac e Jacob (Israel), surgem os judeus. De Abraão
com Agar, Ismael, surgem os árabes, os muçulmanos. O movimento de Jesus surge dos ju-
deus; Cristo era judeu. O cristianismo era uma ruptura do judaísmo. Nasceu no Oriente, mas
cresceu no Ocidente; surgiu em Jerusalém, mas se deslocou para Roma.
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Chega em Roma como uma seita, em dois sentidos: no sentido etimológico de ruptura ou
separação do judaísmo e no sentido sociológico, como um grupo religioso pequeno dentro
do império que tinha sua religião oficial. No império se prestava culto ao imperador como
divindade e se sacrificava aos ídolos. Só que essa seita a quem o império não dava valor,
pois considerava como outro grupo religioso qualquer, cresceu dentro do império como
fogo em palha seca, porque anunciava a fraternidade, liberdade e o amor universal num
ambiente escravista. O que o escravo quer ouvir senão a liberdade? Dessa forma o cris-
tianismo cresceu dentro das estruturas do império como religião ilícita. Dessa forma sofreu
quase duzentos anos de perseguição; quanto mais perseguição, mais o cristianismo crescia.
Em 313, com o Edito de Milão, o imperador Constantino dá liberdade aos cris-
tãos; foi a saída imperial para que o império sobrevivesse por mais tempo. O
pior veio com o imperador Teodósio: o cristianismo é declarado como religião
oficial do Estado. Os bispos se tornam verdadeiros príncipes da Igreja, com o
mesmo status dos governantes do império: báculo, anel e mitra. Absorve tam-
bém os costumes do Estado. Isso não foi bom para a Igreja. Os interesses do
estado se misturam com os interesses da Igreja. A História chama isso de regime
Foto retirada do site: https://
de cristandade. Nessa época, o cristianismo se torna religião oficial do império pt.wikipedia.org/wiki/Con-
stantino
romano e é proibida qualquer outra expressão religiosa que não seja a fé cristã.
Enquanto o cristianismo na época da perseguição viveu com fidelidade a sua fé; na época
da cristandade manifesta sua face humana e sombria; época de pouco fervor, fogueiras e
tribunais de inquisição. Humana e divina, a Igreja cristã cai e se levanta; peca e se arrepende.
Hoje tem governo centralizado, mas se adéqua aos costumes locais e às diversas culturas,
dialogando com as demais tradições religiosas de forma aberta.

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