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Globalização e a Cadeia Produtiva da Construção de Edifícios

Márcio Minto Fabricio


Escola Politécnica da USP
e-mail: fabricio@pcc.usp.br

Resumo
O trabalho analisa os impactos, diretos e indiretos, da globalização na atividade de construção de
edifícios e na sua cadeia produtiva, colocando em perspectiva o papel que a abertura econômica e a
modernização tecnológica desempenha na indústria de construção. Também é investigando como atual
conjuntura econômica e as mudanças culturais no mercado consumidor brasileiro, atreladas ao
processo de globalização, acabam repercutindo no setor de construção.
Palavras-chaves: construção de edifícios, cadeia produtiva da construção, globalização

Abstract
This paper analyses the impacts of the globalisation in the building construction industry and in its
productive chain. It focuses on the role that the economic aperture and the technological
modernisation plays in the industry of construction. It also investigates how the current economic
conjuncture and the cultural changes in the Brazilian consuming market, linked to the globalisation
process, affect the construction sector.
Key-words: building construction, supplay chain, globalisation

1. Introdução
A economia brasileira experimentou na década de noventa um significativo processo de abertura
econômica (com a redução das barreiras as importações) e de estabilização da moeda que abriram
caminho para entrada do país no processo de globalização.
Os efeitos da globalização na economia são expressos pelo extraordinário crescimento dos produtos
importados no mercado doméstico e pela proliferação de investimentos estrangeiros na economia
nacional. Tais investimentos têm provocado um processo de desnacionalização de inúmeras empresas,
ao mesmo tempo que viabiliza uma considerável modernização tecnológica em alguns setores
industriais como os de telecomunicações e automobilístico. Por outro lado, a entrada do país na
globalização ao mesmo tempo que abre espaço para a entrada de importantes investimentos
trasnacionais, também vincula os mercados nacionais, mais estreitamente, aos acontecimentos e
instabilidades externas. Outros acontecimentos típicas do processo de globalização como a fusão de
empresas e a desconcentração regional da indústria, também, surgem como fatos novos no país.
Assim, de qualquer ponto de vista que se enfoque a indústria nacional (econômico, financeiro,
tecnológico, de localização, do mercado consumidor, de emprego e recursos humanos, etc.) é possível
identificar nítidas repercussões associadas ao processo de globalização. Entretanto, essa influência não
se dá de maneira homogênea e linear nos vários setores industriais. As especificidades e características
próprias de cada setor tem um importante papel na configuração das empresas a na delimitação do
papel da globalização nestas empresas e no setor como um todo.
O presente trabalho faz reflexões sobre os impactos diretos e indiretos da globalização no setor de
construção de edifícios e na sua cadeia produtiva, colocando em perspectiva o papel que a abertura
econômica e a modernização tecnológica desempenha na indústria de construção e como as mudanças
culturais no mercado comsumidor brasileiro acabam repercutindo no setor de construção. É analisado
principalmente a atividade de construção e incorporação de edifícios, cuja produção é destinada a
venda de apartamentos e outros tipos de imóveis para clientes individuais privados, não se
considerando a produção sobre encomenda e a promoção pública que cumpre um caracter muito mais
social, nos quais as regras de mercado não podem ser aplicadas.
2. Características e peculiaridades do empreendimento de construção frente as pressões de
globalização
O empreendimento de construção de edifícios é bastante complexo, envolvendo a participação de
diversos agentes com objetivos, portes empresarias e tecnologia incorporada bastante diverso. Num
empreendimento típico de promoção e construção de edifícios pode-se contabilizar a participação dos
empreendedores/incorporadores, de agentes financeiros, das construtoras, dos fornecedores de
materiais e componentes, de serviços subempreitados de obra e dos serviços de planejamento e de
projeto, todos com significativas interferências e responsabilidades.
Por outro lado, características próprias do produto como o longo período de produção do edifícios e a
importância fundiária dão um caráter singular ao produto edifício e ao seu processo produtivo.
Diferentemente de outros produtos, o edifício é constituída não só dos atributos fabricados mas
também do terreno na qual está implantada, ou seja, o preço e a qualidade do empreendimento
imobiliário estão, sobre maneira, vinculados à localização do imóvel (padrão sócio - econômico do
bairro/entorno) e às condições da infra-estrutura e equipamentos urbanos disponíveis na proximidade
(pavimentação; redes de água, luz, telefone; proximidade de escolas; hospitais; comércio; etc.).
Diante da dependência fundiária da atividade de construção parte substancial dos rendimentos advém
do negócio imobiliário - chamado tributo fundiár- LIPIETZ (1982). Assim, a importância do terreno
urbano e das atividades de incorporação (atividades não produtivas) é relativamente expressiva quando
comparadas com a atividade de produção (construção) propriamente.
A necessidade de buscar terrenos bem localizados na malha urbana (para o lançamento de novos
empreendimentos), inibe ainda a atuação de empreendedores externos (de outras regiões ou cidades)
que encontram dificuldades em associarem-se aos proprietários de terra locais; além de não
conhecerem as características e tendências do mercado imobiliário nitidamente regional.
Somado às “barreiras” para a incorporação de edifícios em regiões estranhas ao empreendedor; à
necessidade de adaptar o produto (edifício) às características topográficas, geológicas e climáticas
própria de cada terreno e, às particularidades da legislação de uso e ocupação do solo, em cada cidade;
vão surgir sérias limitações para a padronização e para a ampliação das escalas de produção; inibindo
a expansão (externamente a região de atuação) e o crescimento das empresas de construção e,
dificultando a entrada de empresas estrangeiras no mercado nacional de construção de edifícios.
Assim, a indústria de construção de edifícios é altamente fragmentada, com a participação de uma
infinidade de pequenas e médias empresas espalhadas pelas várias cidades e regiões brasileira e são
rara as construtoras de maior porte que atuam no setor. Com isso, nenhuma empresa construtora
consegue exercer força suficiente para influenciar o mercado de edifícios.
De fato, apesar da existência de algumas filiais de empresas de construção estrangeiras operando no
setor, estas concentram-se no mercado de grandes empreendimentos, em especial empreendimentos
comerciais e industriais, não exercendo um papel significativo no mercado de massa de edifícios.
Além disso, a aquisição ou fusão de construtoras nacionais com estrangeiros é um fenômeno
praticamente inexistente no país.
Outras características diferenciais e bastante significativas do produto edificação, referem-se à
complexidade do produto que demanda significativas quantidades de capitais e de tempo para sua
execução; além do preço relativamente elevado do produto implicar em importantes restrições a
aquisição de imóveis pelos clientes através de pagamento à vista ou em reduzido número prestações,
fazendo com que os negócios, no setor, necessitem de financiamentos de longo prazo para serem
viabilizados.
Com a necessidade de financiamentos de longa duração, quer para a produção, quer para permitir a
aquisição do produto, os custos financeiros são bastante significativos e a existência de linhas de
crédito adequadas - com baixas taxas e longos prazos -, desempenham um papel preponderante na
atividade do setor de construção imobiliária em todo o mudo.
Dessa forma, a entrada de capital internacional para financiar a produção de edifícios nacional é
potencialmente importante uma vez que as reduzidas taxas de poupança interna dificultam a
disposição de recursos necessários para o financiamento das demandas nacionais por novos edifícios,
em especial habitacionais. Entretanto, três dificuldades principais limitam a entrada de capital
internacional para esta finalidade.
Primeiramente, a maior parte da demanda reprimida concentra-se nas camadas mais populares da
sociedade onde não existe sovabilidade suficientes para atrair os investidores. Em segundo lugar,
mesmo para a população de classe média, as altas taxas de juros praticadas no país são proibitivas à
realização de empréstimos a longo prazo com taxas de mercado. Por fim, as condições de instabilidade
dos empréstimos imobiliários, associadas as fragilidade estruturais da economia brasileira e as
dificuldades em executar devedores e reaver os imóveis financiados no âmbito do Sistema Financeiro
da Habitação.
Recentemente, o governo brasileiro instituiu o sistema alternativo de financiamento imobiliário SFI
(Sistema Financeiro Imobiliário) que permite uma maior agilidade na retomada de imóveis dos
mutuários inadimplentes, ampliando as garantias dos investidores, além de permitir que os papeis das
dívidas do sistema sejam negociados no mercado secundário. Apesar da maior atratividade do SFI
para os investidores, as condições de instabilidade e de alta taxas de juros não permitiram, ainda, a
decolada do sistema e a entrada significativa de capital estrangeiro para o financiamento imobiliário.

3. A cadeia produtiva do setor e os impactos da concorrência internacional


Diante da complexidade da construção, são necessários para sua materialização, uma série de insumos
materiais (materiais de construção, componentes e equipamentos) e serviços (projetos,
subemprenteiros) que são gerados em diversos segmentos industriais e com graus de industrialização,
patamares tecnológicos e exposição internacional discretos – ver figura 1.
Assim, a cadeia produtiva da construção é marcada heterogeneidade, abrangendo o fornecimento de
diferentes tipos de produtos e serviços e a participação de empresas de porte completamente díspares.

3.1 Fornecedores de Serviços de Obra


A indústria de construção é pautada pela grande desverticalização da produção com a participação
significativa de fornecedores de serviços de obra – subempreiteiros (SILVA et. al., 1999).
Os subempreiteiros da construção são caracterizados, em sua maioria, pela pequena agregação
tecnológica e pela precariedade no atendimento das legislação trabalhistas e nas condições de trabalho.
A principal marca das empresas de subempreita é a utilização da força de trabalho mal remunerada
para realização de trabalhos diretamente nos canteiros de obra. Como o país mantém um contigente de
mão de obra não-qualificada abundante e os trabalhos de subempreita tem eminentemente um caráter
local não existe nenhuma pressão externa sobre esse tipo de empresa e, ainda, as precárias condições
de incorporação do trabalho e os baixos salários do setor, desestimulam investimentos em maquinas e
equipamentos poupadores de mão-de-obra.
Nos países desenvolvidos da Europa e EUA a escassez de mão-de-obra nativa para os serviços do
setor e o maior contigente de migrantes dos países subdesenvolvidos – alavancado pelas dinâmicas
migratórias da globalização - coloca o setor como um dos principais mercados de trabalho para
estrangeiros.
No Brasil, a dinâmica migratória relacionada ao setor restringe-se a emigração de trabalhadores das
regiões rurais e menos desenvolvidas para os centros urbanas mais dinâmicas entretanto, esse
fenômeno foi muito mais intenso no passado (durante o milagre econômico dos anos 60 e 70) e as
dinâmicas migratórias são, atualmente, menos significativas e mais complexas (FARAH, 1992).

3.2 Fornecedores de projeto e serviços de engenharia


Os fornecedores de projetos e serviços de engenharia caracterizam-se pela atuação de um grande
número de pequenas empresas (até 15 funcionários – PSQ, 1997), prestando uma variada gama de
serviços.
Recentemente, com a abertura de mercados, na esteira da globalização econômica, o setor de projetos
nacional começa, ainda que de forma tímida, a sofrer a concorrência estrangeira, principalmente em
nichos de mercado ligados a instalações industriais e a grandes empreendimentos comerciais e de
lazer, como sede de empresas, hotéis e parques de diversão. Nestes segmentos, grandes escritórios
internacionais vêm expondo as limitações técnicas e principalmente organizacionais dos escritórios
nacionais, que vêm perdendo tais mercados para concorrentes mais ágeis e com uma estratégia de
marketing agressiva de atendimento aos clientes.
Segundo declara o arquiteto Edison Musa à revista CONSTRUÇÃO (1997): “O que mais nos
preocupa é que eles (os escritórios estrangeiros) trabalhem pela metade do preço e consigam oferecer
um bom atendimento ao cliente. Um escritório norte-americano pode apresentar vários conceitos de
projeto com cinco ou seis perspectivas coloridas e, às vezes, até maquetes.”

Figura 1. Principais fornecedores e insumos da construção de edifícios


Principais Grandes Cadeias do Macrocomplexo Construção Civil Principais Produtos
Serviços
• pranchas
• esquadrias
Serviços gerais e Subempreiteiro Madeira
• aglomerados
Mão-de-obra não Geral • compensados
Qualificada
• azulejos
• telhas
• Fundações
• tijolos
• Elétrica Subempreiteiro Cerâmica e Cal • manilhas
• Hidráulica Especializados • ladrilhos
• Impermeabiliza- • louça sanitária
ção • cal
• Fôrmas e • calcáreo
estruturas
• mármore
Extração e
• amianto
beneficiamento
• granito
de minerais não- • areia
metálicos • pedra
• gesso
• argila
Construção de
Edifícios • cimento
Cimento • concreto
• blocos
• artefatos
• Projetos do
produto, • canos*
• Orçamentos, Insumos • conexões*
• Planejamento e Químicos* • aditivos*
gerenciamento, • asfalto*
• Estudos de • tintas*
preparação e
Fornecedores de • estruturas
desenvolvimento Projetos e • serralheria
Insumos
de métodos serviços de • perfis *
construtivos, Metálicos* • vergalhões*
Engenharia
• Projetos para • barras*
produção,
Equipamentos e • Ferramentas,
• Engenharia de
martelos, colher de
segurança, instrumentos* pedeiro, etc.*
• Outros. • Equipamentos,
gruas, betoneiras,
etc.*

Figura adaptada de (PICCHI, 1993). Dados, conforme PROCHINIK (1986) .


Observações: (*) - Produzido fora do Macrocomplexo da Construção Civil.

Embora, exista por parte de grandes e médios escritórios de projetos brasileiros um crescente temor
quanto a possibilidade de entrada no mercado nacional de concorrentes estrangeiros, as evidências
atuais, mostram uma participação muito limitada de escritórios estrangeiros no país. Por sua vez, a
conquista de mercados estrangeiros por escritórios de projeto e engenharia de edifícios brasileiros é
também bastante limitada e não aparece como uma estratégia dos escritórios de projetos nacionais que
orientam sua atuação para o mercado doméstico, na grande maioria, concentrado-se na sua cidade ou
região.
Uma maior internacionalização dos escritórios e empresas de projeto e engenharia é desestimulam
pela existência de uma série de condicionantes regionais à atividade de construção de edifícios, como
as diferentes condições climáticas e de tipologias construtivas de cada país, as normas técnicas
nacionais, as práticas construtivas próprias, etc. Assim, a internacionalização da atividade de projeto e
engenharia de edificações demanda um trabalho prévio de unificação de normas e requisitos
construtivos nacionais. Essa aproximação de requisitos e regulamentações pode ser percebida mais
intensamente em mercados comuns mais maduros como a União Européia, onde existe um trabalho
aproximação e unificação das práticas e normas nacionais (BAZIN, 1998), no entanto, no Mercosul,
embora possa-se prever o crescimento do intercâmbio dentro da indústria de construção, os resultados
da integração ainda não se refletem consideravelmente na atividade de construção e projetos de
edifícios.

3.3 Fornecedores de Materiais e Componentes


É nos fornecedores de materiais e componentes que a heterogeneidade entre as empresas é mais
significativa e os impactos da globalização são potencialmente mais importantes.
Os fornecedores e materiais são responsáveis pela produção e venda de diferentes tipos de produtos,
divididos em vários segmentos industriais nos quais atuam desde grandes empresas nacionais e
multinacionais com atuação em todo país, até pequenas e médias empresas que atuam localmente
fornecendo os materiais oriundos de processos de extração ou industriais menos complexos.
Segundo MARTUCCI (1990), estes inúmeros insumos (materiais, componentes e equipamentos)
podem ser divididos segundo dois processos distintos: Extração ou transformação de recursos naturais
e; Produção de substancias químicas, materiais sintéticos e equipamentos.
Em geral, os processos de extração e transformação de recursos naturais, são fragmentados em uma
grande quantidade de pequenas e médias empresas com abrangências a mercados regionais. Os
produtos gerados são marcados por processos de extração e manipulação pouco elaborados e com
níveis tecnológicos limitados. São exemplos as empresas de extração de areia, pedras, saibros,
madeiras cerradas e a fabricação de produtos como telhas cerâmicas, lajotas, tijolos, etc. As exceções a
esta regra são a extração e transformação de cimento, aglomerados de madeira e outros, que apesar de
serem materiais naturais, são produzidos por poucas e grandes empresas com alta capacidade de
investimentos e com forte poder de atuação no mercado nacional.
Por outro lado, os processos de produção de substâncias e materiais sintéticos e de equipamentos, são
gerados predominantemente por grandes empresas nacionais e multinacionais que atuam no mercado
nacional e em alguns casos externos. Os produtos são altamente elaborados por processos industriais
bastante complexos e com tecnologia relativamente avançada, são exemplos, a produção de tintas e
impermeabilizantes, metais, louças, etc.
Com isso, as sete principais famílias de materiais da construção (materiais sanitários, cimento,
cerâmicas e azulejos, perfis de alumínio, vidros, tintas e vernizes, vergalhões de aço) responde por
aproximadamente 65% dos custos de materiais envolvidos nos edifícios. Estes materiais são
produzidos por grandes fabricantes, marcando setores altamente concentrados, em oposição ao setor
de construtoras que é dominado por pequenas empresas e caracterizado pela fragmentação
(SINDUSCON – SP, 1997).
Desta forma, os fornecedores de materiais desempenham um papel considerável nas dinâmicas da
indústria de construção e é o motor das inovações tecnológicas no setor.
No caso dos equipamentos, além destes serem produzidos por grandes empresas, estas estão voltadas
para o atendimento de vários outras indústrias e, muitas vezes, não apresentam uma preocupação de
desenvolver produtos específicos para a construção que fica obrigada a adaptar equipamentos
originariamente destinados a outras atividades.
Diante da fragilidade das empresas de construção de edifícios (em geral pequenas e médias empresas)
frente às grandes empresas de produção de materiais sintéticos e equipamentos, as inovações nestes
insumos, como destaca FARAH (1992), surgem muito mais das conveniências e estratégias dos
fabricantes do que das necessidades de seus usuários.
Desta forma, a inovação no setor esta em grande medida atrelada a iniciativa dos fabricantes de
materiais e componentes que desenvolvem e disponibilizam novos materiais. Neste aspecto a
introdução de materiais e sistemas construtivos estrangeiros têm ganho impulso nos últimos anos uma
vez que o maior contato da população brasileira com produtos e alternativas estrangeiras (em especial
dos países desenvolvidos) tem facilitado a colocação destas alternativas no mercado nacional.
Isso pode ser ilustrado pelo exemplo dos sistemas de vedações leves em gesso acartonado que é
bastante difundido na Europa e na América do Norte e começa a ganhar espaço no Brasil,
inicialmente, a partir da importação de componentes (placas de gesso acartonado e acessórios). Como
os insumos de construção tem relativamente baixo valor agregado ao mesmo tempo que são pesados e
volumosos, os custos alfandegários e de transporte têm impacto significativo no custo total dos
insumos do setor e desestimulam as importações. Assim, os principais fornecedores de placas de gesse
acartonado e acessórios montaram novas unidades de produção no país para atender o crescimento da
demanda.
Como demostra o exemplo anterior, do ponto de vista dos grande industrias fabricantes de insumos de
construção, a globalização tem intensificado o processo, já consagrado no país, de montagem plantas
industrias no país com a finalidade de aproveitar a farta oferta de matérias prima nacional e, na outra
ponta, abastecer o mercado de construção doméstico e, crescentemente, o mercado externo.
Do ponto de vista dos equipamento, segundo BARROS (1996), a partir da recente abertura econômica
começam a ser importados máquinas e equipamentos de origem estrangeira tais como: nível laser;
réguas com bolhas de nível; desempenadeira para arremates de cantos, etc.
Pode-se considerar que é nos grandes fabricantes de materiais, componentes e equipamentos
construtivos que o processo de globalização tem o maior impacto direto dentro da cadeia da
construção. A abertura econômica tem contribuído para modernização do parque industrial de insumos
de construção mas, não tem alterado substancialmente a estrutura vigente e, apesar da recente abertura
e da melhoria das condições de concorrência com a chegada dos insumos internacionais, a existência
de “cartéis” de produtores em importantes segmentos de materiais de construção e equipamentos,
associada as dificuldades e aos alto custos logísticos para importação de materiais de construção ,
significa, ainda, um considerável obstáculo para redução dos preços dos insumos de construção.

4. Fatores internos e a modernização do setor


Se os impactos diretos da globalização são limitados no setor, devido a própria estrutura industrial da
construção, mas, as recentes mudanças econômicas e culturais atreladas a globalização desempenham
um papel significativo na transformação do setor e no engajamento das empresas de construção na
modernização de seus produtos e processos.
A primeira das transformações significativa, na construção de edifícios, está ligada à crise econômica
dos anos oitenta e ao esfacelamento do SFH (Sistema Financeiro da Habitação) causando um forte
desaquecimento do mercado habitacional e deixando profundas marcas nas empresas do setor e no
mercado de edificações que se tornou mais seletivo e exigente, obrigando as incorporadoras a
estabelecerem mecanismos próprios de financiamento (ou com recursos privados) e a diminuírem os
preços das novas obras, como forma de viabilizar a entrada de seus empreendimentos no mercado.
Por outro lado, o aumento da exigência dos clientes em relação à qualidade, que vem ocorrendo em
todos os setores da economia, começa a afetar o setor de edificações pressionando as empresas rumo a
adoção de alternativas organizacionais e construtivas que privilegiem as aspirações de qualidade dos
clientes. Quanto a esse aspecto, destacam-se o papel do Código de Defesa do Consumidor de 1991 e a
maior conscientização da sociedade e a conseqüente ampliação das às exigências em relação à
qualidade dos produtos. Com isso, pode-se verificar na construção de edifícios que a qualidade
começa a ser valorizada como um elemento importante de competitividade.
Um das principais tendências de modernização adotadas pelas empresas da indústria da construção
brasileira tem sido a implantação de programas de gestão e de certificação da qualidade.
Tais programas têm como mote a padronização, o controle e a melhoria dos processos produtivos,
através da formalização e estabilização dos procedimentos de execução e da monitorização e avaliação
desses procedimentos. Com isso, as empresas buscam ampliar o seu domínio técnico sobre seu
processo de trabalho e ampliar os controles sobre os insumos utilizados em obra, qualificando
fornecedores e controlando o recebimento de materiais e componentes.
Também por parte do poder público pode se perceber uma maior exigência quanta a garantias e a
gestão da qualidade na construção, como demonstra o Qualihab (Programa de Qualidade na Habitação
paulista) e o PBQP-H (Programa Brasileiro de Qualidade e Produtividade – setor de habitação) em
nível nacional.
Com a estabilização econômica, trazida pelo plano real, as maiores exigências dos compradores, o
acirramento da competição entre empresas e o novo padrão de relacionamento do governo com o
setor, a eficiência produtiva passa a ser preponderante para o posicionamento das empresas frente ao
mercado e a concorrência.
“Pela primeira vez, o setor se mostrava, em especial para os mercados da promoção-construção
imobiliária privada e da habitação social, realmente concorrencial. Esse novo contexto enfatizava os
limites das lógicas de eficácia comercial e/ou financeiras, que valorizavam até então essencialmente
as dimensões não-produtivas das empresas de construção.” (CARDOSO, 1996)

5. Conclusões
A indústria de construção de edifícios vêm enfrentando nas duas últimas décadas um importante e
complexo processo de transformação das condições economia nacionais e da estrutura competitiva do
setor. Tais mudanças apontam para um importante incremento da competitividade entre empresas e
para a valorização do papel do cliente como foco para os empreendimentos de edificações.
Em parte, essas transformações estão ligadas ao contexto econômico brasileiro que vêm sofrendo
profundas mudanças em virtude da abertura econômica e da estabilização da moeda, impondo as
indústrias brasileiras ou instaladas no país um vigoroso processo de reestruturação produtiva visando
atender as novas condições de competitivas do mercado nacional e global.
Essa reestruturação pode ser observada na maioria dos setores indústrias que, embora apresentem
dificuldades e peculiaridades próprias, enfrentam a necessidade de ampliação da produtividade e da
competitividade frente as demandas dos clientes.
Embora, sejam fruto de dinâmicas de mudanças distintas (e em determinados pontos interconectadas);
o fato é que, tanto a indústria manufatureira, como a indústria de construção brasileira, encontram-se
num contexto de busca por maiores patamares de eficiência produtiva, de qualidade de produtos e de
agilidade de adaptação às mudanças de mercado.
Na indústria manufatureira, o impacto da globalização econômica e produtiva, com a eliminação de
barreiras e redução de impostos na importação de bens manufaturados e a entrada de novos
competidores (empresas que instalam-se ou ampliam sua participação no mercado nacional), tem
exposto as empresas à concorrência dos produtos importados e de novos concorrentes que se instalam
no país, impulsionando, vigorosamente, as exigências em relação à preços (em queda) e à qualidade
(em alta); além de provocar profundas transformações e questionamentos em relação à estrutura
industrial brasileira, que podem ser ilustradas pelo crescente fenômeno de privatizações, aquisição e
fusões de empresas nacionais com empresas maiores (em geral, estrangeiras) e pela pressão no sentido
de redução nos custos estruturais da economia brasileira.
Na construção, por outro lado, as dinâmicas de mudança, embora atreladas as macro-alterações por
que passa a realidade sócio-econômica brasileira (cada vez mais influenciada pelo contexto global),
surgem muito mais de alterações internas ao país do que de efeitos diretos da globalização
(concorrência com produtos e empresas internacionais).
Pode-se concluir que, na construção de edifícios, estrito senso, as dinâmicas de mudança são ditadas
por alterações internas ao setor. A escassez de financiamentos habitacionais no final da década de 80 e
início da de 90, as pressões por maior transparência nos contratos públicos e as alterações nas
condições trabalhistas e disponibilidade de mão-de-obra, contribuíram decisivamente para o aumento
da competição no setor (FARAH, 1992; CARDOSO, 1996; SOUZA, 1997).
Diante das profundas mudanças na conjuntura setorial as empresas do setor vêm sendo pressionadas a
alterarem seus processos de produção no sentido de cortar custos e a adequar a realidade dos produtos
ofertados as condições de mercado.
Tais rearranjos nas lógicas de posicionamento das empresas frente ao mercado acabam primeiramente
deslocando o foco da busca de competitividade das atividades imobiliárias a necessidade de ganhar
eficiência produtiva, desencadeando um processo de alterações organizacionais e tecnológicas nas
construtoras.
Assim, mesmo que se possa verificar influencias da globalização na cadeia de fornecedores da
construção de edifícios, como a crescente importação de equipamentos e materiais de construção e a
penetração de projetistas estrangeiros em determinados segmentos do mercado de edifícios, os
impactos destas podem ser considerados marginais quando comparado a inúmeros outros setores da
indústria seriada (como o setor automobilístico e de auto peças, químico, micro-eletrônico, têxtil, etc.)
uma vez que a atividade central da indústria - construção e comercialização de edifícios - permanece
essencialmente dominada por empresas de capital nacional, com mão-de-obra brasileira e utilizando
tecnologia produtiva predominantemente nacional ou rapidamente incorporada a base tecnológica do
país.
Na cadeia produtiva do setor, os impactos da globalização afetam mais diretamente os grandes
industriais fornecedores de materiais e equipamentos que operam no país, em relação as demais
empresas envolvidas nesta cadeia. E, as empresas de construção de subempreita e de projetos tem
relativamente pouco a temer com a globalização, ao mesmo tempo em que, não apresentam
perspectivas consistentes para exploração de mercados internacionais, permanecendo relativamente
hermético a globalização.
Por fim, embora os impactos diretos da globalização no setor de construção podem ser considerados,
relativamente a outros setores, marginais, a influência indireta, atrelada a reestruturação econômica e
do mercado nacional, têm importantes repercussões no setor de construção e tem contribuído
decisivamente à sua modernização.

Referências Bibliográficas
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