Você está na página 1de 35

Crítica textual do

antigo testamento
Robert B. Chisholm Jr, diz que a
Crítica Textual é fundamental para toda
a interpretação. Antes de perguntar: “O
Qual é o texto? que significa este texto?”, o interprete
deve responder à pergunta: “Qual é o
A mais fundamental de texto?”. Embora seja uma pergunta
todas as perguntas básica e a disciplina da Crítica Textual
seja fundamental para a tarefa
interpretativa, estudantes e não
especialistas frequentemente evitam
esse aspecto da exegese porque o
consideram muito técnico e fora de seu
nível de estudos.
A tarefa parece assustadora, mas
não é preciso escalar as altas montanhas
dos melhores críticos textuais do mundo
para desenvolver um conhecimento
prático do método de Crítica textual e
alcançar um nível adequando de
competência nesta área. Felizmente,
Qual é o Texto? muitas introduções úteis à Crítica
Textual estão disponíveis. Com a ajuda
dessas ferramentas e um conhecimento
do método correto de Crítica textual, é
possível reconhecer a base textual de
qualquer tradução, interagir com os
melhores comentários críticos e fazer
escolhas textuais inteligentes.
O objetivo e a tarefa da crítica
textual
• A crítica textual é a porta de entrada da exegese, sendo que não
existe outra porta lateral ou nos fundos. Muito raramente se leva
em conta o fato de que nem a igreja nem o mundo acadêmico
dispõem do que seria “o” texto bíblico, pois tudo que temos são
cópias que chegaram até nós ao longo da história da transmissão
do texto. Isto significa que o texto não é apenas a base da
interpretação ou exegese bíblica, mas ele próprio é objeto de
pesquisa histórica. Não faz nenhum sentido explicar ou fazer a
exegese de um erro de cópia!
• Por isso, a igreja e o mundo acadêmico têm o dever de
disponibilizar e responsabilizar-se por um texto bíblico confiável,
do qual foram eliminados erros decorrentes do processo de
transmissão e cópia. A critica textual se dedica a essa tarefa,
lançando, assim, o fundamento para todo o trabalho de
interpretação que virá a seguir, autores mais antigos chamavam a
crítica textual de “baixa crítica”, porque ela é a fase preparatória
para a “alta crítica”, que se ocupa com a explicação do significado
do texto.
• Qual é a tarefa da crítica textual;
1. A critica textual contribui para a história do texto,
na medida em que detecta os erros de cópia e as
alterações intencionais que foram entrando nos
textos do Antigo Testamento ao longo do
O objetivo e a processo de cópia, corrige esses erros essas
alterações e explica o surgimento das variantes,
tarefa da para poder exercer controle sobre suas decisões
de ordem crítico-textual.
crítica textual 2. O objetivo da critica textual consiste em
apresentar um texto que seja confiável e
defensável em termos científicos, uma edição que
reproduz de forma aproximada um texto original
que uma vez existiu, mas que não nos foi
transmitido.
O objetivo e a tarefa da
crítica textual
• Entende-se por texto original
aquela forma textual finalizada
que um livro bíblico ou um
grupo de livros bíblicos recebeu
através de sua redação final ou
definitiva, passando a ser, por
meio de edição, o material que
seria transmitido ao longo da
história do texto.
Fundamentalmente, há dois
tipos de razões ou motivos
que, ao longo da história da
transmissão do texto, levaram Alterações do texto e
variantes
a variações textuais: erros de
cópias involuntários e
alterações intencionais;
Erros involuntários
• No primeiro grupo entram todos • Corrupções textuais
os erros que, no processo de involuntárias resultam de
cópia, se originaram a partir de diversos fatores: a qualidade e o
um equivoco inconsciente, seja estado do manuscrito que o
no ato de copiar o texto de copista tinha à sua frente como
forma mecânica ou na modelo podiam levar a erros de
percepção acústica errônea do cópia.
era lido. • O mesmo vale para fatores como
• Exemplo Isaías 21.8 “Leão” e cansaço, desatenção, pressa ou
“vidente”. distração do copista
Alterações intencionais
• No segundo grupo entram • Do ponto de vista dos copistas,
todas as alterações textuais as leituras que fazem parte
que podem ser explicadas a desses grupos não são
alterações textuais no sentido
partir de um raciocínio estrito da palavra, mas uma
consciente, que pode ser honesta (bona fide) reprodução
refeito pelo crítico de texto do texto. Essas leituras procuram
de nossos dias. dizer a coisa correta e excluir a
• Exemplo Gn 2.2 “sétimo” e possiblidade de uma
compreensão errônea do texto.
“sexto”
Tipos de alterações textuais

1. Assimilação ao vocabulário 5. Eufemismos ou a remoção de


comum dos leitores elementos ofensivos
2. Alteração gramatical em 6. Correção de ordem dogmática
função de mudanças na ou ideológica
evolução da língua 7. Alteração devido a
3. Alteração estilística para uma interpretação errônea
melhor compreensão e 8. Acréscimos explicativos
fluência
4. Harmonização por Influência
de textos paralelos
• Além dos erros (involuntários) e das
alterações intencionais, a crítica textual
precisa lidar ainda com um terceiro tipo de
variante. É o caso de diferentes leituras
encontradas em determinado ponto do
texto que não podem ser explicadas nem
como erros de escrita ocorridos de forma
Leituras mecânica nem como alterações
alternativas intencionais.
• o que de modo especial chamou a atenção
para esse tipo de variante foram as muitas
leituras desconhecidas que foram
encontradas nos textos de Qumran,
leituras essas que representam tradições
textuais livres, independestes.
O método da crítica
textual
A aplicação da crítica textual
Peculiaridades da Crítica do texto hebraico

A base para a critica textual do No aparato critico da BHS


texto hebraico é a Bíblia Hebraica aparecem as variantes em
Stuttgartensia (BHS). A BHS é relação ao texto desse códice,
uma edição diplomática. Ela traz com os seus respectivos
o texto de um único manuscrito testemunhos textuais. Essas
hebraico, as saber o Codex informações são o ponto de
Leningradensis, que foi copiado partida da atividade crítico
por volta de 1008 d.c. textual.
A tarefa da critica textual da
Bíblia Hebraica é diferente do Texto
Grego. O aparato Critico do texto
grego já é resultado de um processo
de crítica textual. Em contraposição,
a critica textual do Antigo
Peculiaridades da Testamento não se vale de um texto
Critica do texto
hebraico
Crítico. Ele precisa, por conta
própria, fazer o exame critico
textual. Para isso é preciso recorrer
aos dados da transmissão textual, os
quais foram disponibilizados para
esse fim no aparato crítico da Bíblia
Hebraica.
O processo da 1. Preparação
crítica textual • Faz parte da preparação decifrar o
O processo da crítica aparato critico, para que as
textual pode ser dividido informações ali contidas possam ser
em três etapas: utilizadas na análise que virá logo em
seguida.
• Em conexão com isso é preciso
descrever com precisão o problema
textual encontrado, bem como as
diferentes variantes que se
apresentam.
Como decifrar o aparato crítico da BHS

• Que informações estão contidas no


aparato crítico da BHS?
• Devemos aprender a linguagem
usada no aparato crítico.
• São usados muitos símbolos e
abreviaturas latinas.
• Uma lista de aparece na introdução à
BHS.
• Para nos familiarizarmos com a
linguagem do aparato crítico,
apresentamos a lista de símbolos e
abreviaturas e seus significados.
Testemunhos
textuais

• Os símbolos apontam
para manuscritos de
determinada tradição
textual ou determinada
tradução;
• Ao lado há uma seleção
de siglas e símbolos
que indicam os
principais grupos
textuais:
O processo da 2. Execução
crítica textual • Na execução da Crítica textual, os
dados obtidos serão devidamente
processados. Isso se dá por meio
de dois tipos de análise:
A. Crítica textual externa – os
testemunhos textuais das
diferentes variantes são
inicialmente elencados,
comparados entre si e avaliados
O processo da B. Crítica textual interna – as
crítica textual variantes são, devem ser
examinados à luz de critérios
internos sendo necessário
perguntar se são erros de cópia
involuntários ou alterações
introduzidas de forma
intencional. Este tipo de crítica
tem tido precedência nas
decisões na exegese do A.T.
O processo da 3. Decisão
crítica textual • Avaliação das observações
derivadas da crítica externa e da
crítica interna, tomada a decisão
com o auxilio das regras da crítica
textual.
• Controle sobre a decisão por meio
da explicação das demais
variantes.
• Como já afirmamos, não possuímos um
texto crítico do A. T como temos um
Decisão texto do N. T. O texto Massorético ™ é
“diplomático”.
Alguns princípios
• O Texto Massorético ™ é originário do
operacionais básicos Códice de Leningrado. O texto do A. T
que fazem parte de nossas Bíblias é o
Texto Massorético.
• O Texto Massorético deve ser preferido
dentre todos os outros textos*, seguido
dos: Manuscritos de Qunran,
Septuaginta e Pentateuco Samaritano.
1. Decisões de Crítica textual não devem ser
feitas exclusivamente, nem mesmo
primariamente, com base em evidência
externa. Ou seja, não deve escolher
automaticamente uma leitura de determinada
Decisão : testemunha textual (TM, LII ou Q), mesmo que
seja antiga, superior ou geralmente confiável.
princípios 2. Decisões de Crítica textual devem se basear,
operacionais primariamente, em fatores internos, como
considerações gráficas, léxicas, sintáticas e
básicos contextuais.
3. A interpretação que explica as outras
provavelmente é a original. Alguns intérpretes
pensam que o texto mais curto/ou difícil
geralmente é original. Mas, mais curto ou difícil
pode ter sido por erro do escriba.
• Preparação (elemento
descritivo)
Resumo 1. Decifração do Aparato Critico
Passos a serem seguidos
na critica textual do • Recurso: tabela de abreviaturas
Antigo Testamento
2. Descrição do problema
textual com tradução das
variantes
• Recursos: comentários bíblicos
que incluem critica textual;
• Execução (elemento analítico)
3. Critica textual externa
Resumo • Recursos: edições dos textos
Passos a serem seguidos
na critica textual do
e estudos sobre historia dos
Antigo Testamento textos
4. Crítica textual interna
• Recursos: Léxicos, gramatica,
concordância e
principalmente comentários
exegéticos.
•Decisão (elemento
Resumo crítico)
Passos a serem seguidos
na critica textual do 5. Avaliação e tomada de
Antigo Testamento
decisão
Estudo de caso:
Deuteronômio 32.8
Tradução:
“em repartir o Altíssimo herança as nações,
em seu repartir aos filhos dos homens,
estabeleceu os territórios dos povos,
de conformidade com o número dos filhos
de Israel”
Decifrando o aparato crítico
Na Bíblia BHS foi colocada duas letras “d”, entre a expressão
“filhos de Israel”, indicando que há variantes textuais possibilitando
uma leitura alternativa. O aparato crítico apresenta que “um
manuscrito de Qumran (Q) e a Septuaginta (G) que tem a leitura
avgge,lwn qeou/ (dos anjos de Deus) a versão grega de Símaco (s ,), a
versão Latina Antiga (L) e a Sirio-Héxapla (Syh) têm provavelmente
(prb) a leitura de modo correto (recte), lae ynb ou (vel) ~yliae ynb.”
Em outras palavras, o manuscrito de Qumran apoiado por versões
Grega, Latina e Síria trás a leitura de “filhos de Deus” ou “filhos dos
deuses” e a septuaginta traz a leitura “dos Anjos de Deus”,
enquanto no TM consta “filhos de Israel”. Qual leitura é a leitura
original?
Crítica textual externa e interna
Pela importância do TM é possível que sua leitura esteja correta. Contudo, um
importante manuscrito de Qumran tem leitura diferente com testemunhos de versões
antigas e a LXX com outra variante que podem chegar em um ponto comum de
significado (C.Ex.).
A pergunta que precisamos fazer é qual destas leituras explica melhor as demais
(C. Int.). Se pressupormos que “filhos de Israel”, que é a leitura do TM, é a original,
como poderia ser explicada a leitura do texto de Qumran “filhos de Deus”? Poderíamos
supor que o escriba do TM cometeu um erro de transcrição chamado de haplografia
em relação a letra “Yod” (laer"f.yI yneB.) que é última letra da primeira palavra e a primeira
da segunda palavra. Mas como explicar a supressão das consoantes “rf” de laer"f.y? não
há um motivo evidente para omissão.
por outro lado, se lae yneb. (~yliae ynb) for o texto original, podemos explicar a leitura
do TM como uma leitura interpretativa. Um escriba pode ter interpretado que os
“filhos de Israel” eram os “filhos de Deus” da leitura original que consta no manuscrito
de Qumran, com base no conceito, de que os israelitas são “filhos de Deus”.
Avaliação e tomada de decisão
A evidência interna sugere que o texto originalmente deve ter sido
“filhos de Deus” e não “filhos de Israel”.
E quanto a LXX que trás a leitura “dos anjos de Deus”? A LXX entende
(interpreta) que a expressão ~yliae ynb não é uma referência aos “filhos
de Israel” como no TM, mas aos “anjos de Deus”. É muito provável que
seja uma referencia aos “anjos” porque há uma tradição forte no A. T
que liga ~yliae ynb como “anjos” (Sl 89.6; Sl 29.1; Jó, etc.). Sendo essa
leitura a correta, o texto está dizendo que Deus concedeu aos Anjos
domínio sobre as nações, e quanto a reservou a ele mesmo (v. 9).
Assim ele governa as nações através dos anjos, enquanto reina sobre o
seu povo de forma direta e especial.
Deuteronômio
10.13
Decifrando o aparato crítico
• A BHS informa que há uma variante textual no verso 13 onde a
letra “b” aparece. O Aparato Crítico apresenta que “um
manuscrito de Qumran ( ), o Pentateuco Samaritano ( ), a
Septuaginta ( ), um manuscrito medieval (Ms) e a Peshita ( )
adicionam (+) ao tetragramon hw"hy\ (IHWH) o substantivo “Deus”
com sufixo na 2ª Pessoa masculino singular $'“yhelãoa,> (o teu Deus) que
confere com variante textual do manuscrito hebraico 69 citada na
edição de B. Kennicott”. Ou seja, em um manuscrito de Qumran,
apoiado por diversos outros textos e manuscritos, após o nome
hw"hy> (Senhor) aparece $'“yheloa/. Cuja leitura ficaria “o Senhor teu
Deus”. Qual leitura é original?
Crítica textual externa e interna
A leitura do texto Massorético deve ter prerrogativa no
estabelecimento da leitura. Contudo, o manuscrito de Qumran, com o apoio
do Pentateuco Samaritano, septuaginta, Peshita e importante manuscrito
medieval também reúnem importante testemunho para o estabelecimento
do texto.
No contexto de Deuteronômio 10.13 verificamos que o nome hw"hy é sempre
acompanhado de $'“yhelãoa/. Os dois nomes são citados em conjunto duas vezes
no verso 12, e uma vez verso 14, 17, 20, 21 e 22. E apenas uma vez com hw"hy
sozinho no verso 15 sem nenhuma variante. O que favorece a leitura do
Manuscrito de Qumran que traz $'“yhelãoa hw"hy>. Provavelmente o escriba do TM
na transmissão textual cometeu uma omissão aleatória do nome $'“yhelãoa/. A
explicação inversa, ou seja, que o Manuscrito de Qumran e os outros
testemunhos tenham acrescentado não pode ser explicada satisfatoriamente.
Decisão
Diante do peso das evidencias do manuscrito de Qumran e apoio
de textos de valor textual e mais ainda, asmevidencias contextuais
apresentadas conclui-se que a leitura mais longa de Qumran é original
$'“yheloaã hw"hy>.

Você também pode gostar