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AULA EXPOSITIVA NO ENSINO DE FÍSICA

Organizador: Nilson O. da Silva


Dourado-MS, março de 2007
Fonte: Moreira, M. A. “Melhorias do Ensino”, n. 29, PADES UFRGS, 1984

1. INTRODUÇÃO

Apesar das críticas recebidas, o ensino expositivo tradicional é e continuará sendo


por muito tempo a forma dominante de ensinar. Todo nosso aparato educacional favorece
esse tipo de ensino, mas mesmo que haja uma mudança radical em nossas escolas,
provavelmente a aula expositiva sobreviverá. Isso porque não há algo intrinsecamente
errado com aula expositiva como mecanismo de ensino. Sua imagem está tão desgastada
simplesmente em razão do uso ou do mau uso que dela se faz. Isto é, muitas vezes a aula
expositiva é o único recurso instrucional utilizado tornando-se, portanto, rotineiro e
sofrendo um desgaste natural. Em outros casos, ela é usada em situações inoportunas ou é
mal dada, prejudicando decisivamente sua imagem e conduzindo a resultados medíocres
em termos de aprendizagem.
Vemos então que para a aula expositiva cumpra seu papel é necessário que sejam
bem aplicadas e alternadas com outras técnicas instrucionais.
Neste texto veremos como planejar e executar um boa aula expositiva,
fundamentando-se na teoria de Ausubel.

2. A TEORIA DE AUSUBEL

Ausubel é um psicólogo da aprendizagem cujo posicionamento teórico é


nitidamente cognitivista. A psicologia da cognição (cognitivismo) trata de processos da
compreensão, armazenamento e uso da informação envolvida na cognição (atribuição de
significados à realidade).
Para Ausubel, novas idéias e informações podem ser aprendidas e retidas na medida
em que conceitos relevantes e inclusivos estejam adequadamente claros e disponíveis na
estrutura cognitiva do indivíduo e sirvam, dessa forma, de ancoradouro a novas idéias e
conceitos. Estrutura cognitiva de um indivíduo é o complexo organizado resultante de
processos cognitivos através dos quais adquire e utiliza o conhecimento. Segundo palavras
do próprio Ausubel, (1978, p. iv):
“Se tivesse que reduzir toda a psicologia educacional a um só princípio, diria o seguinte: o
fato mais importante influenciando a aprendizagem é aquilo que o indivíduo já sabe.
Descubra isso e ensine-o de acordo.”
A teoria de Ausubel, no entanto, trata também não só da aprendizagem cognitiva
mas também de como ela pode ser facilitada sem recorrer a recursos tecnológicos, métodos
de descoberta ou de projetos, ou sofisticadas técnicas de ensino. As proposições de
Ausubel se aplicam ao cotidiano da sala de aula tal como ela é na grande maioria das
escolas, isto é, àquela sala de aula convencional onde predomina o ensino expositivo
voltado para a aprendizagem receptiva.

2.1. Aprendizagem Significativa X Aprendizagem Mecânica

O conceito central da teoria de Ausubel é o de aprendizagem significativa, um


processo através do qual uma nova informação se relaciona de maneira não arbitrária e não
literal a um aspecto relevante da estrutura cognitiva do aprendiz. Ou seja, este processo
implica na interação da nova informação com uma estrutura de conhecimento
específica, a qual Ausubel chama de “subsunçor”.
O subsunçor é um conceito, uma idéia, uma proposição já existente na estrutura
cognitiva, capaz de servir de ancoradouro a um novo conceito, idéia ou proposição de
modo que o indivíduo possa atribuir significados a essa nova informação. Esse processo de
ancoragem, por sua vez, resulta em crescimento e modificação do subsunçor que se torna
mais elaborado e mais capaz de facilitar outras aprendizagens significativas.
Portanto, novas idéias, conceitos, proposições podem ser aprendidos
significativamente (e retidos) na medida em que outras idéias, conceitos, proposições
relevantes e abrangentes estejam adequadamente claros, estáveis e disponíveis na estrutura
cognitiva do indivíduo e funcionem, dessa forma, como ponto de ancoragem (subsunçores)
às primeiras.
Contrastando com a aprendizagem significativa, Ausubel define aprendizagem
mecânica (ou automática) como sendo aquela em que novas informações são aprendidas
com pouco ou nenhum relacionamento com conceitos relevantes existentes na estrutura
cognitiva, sem ligar-se a conceitos subsunçores específicos. Nesse caso a nova informação
é armazenada de maneira arbitrária. Não há interação entre a nova informação e aquela já
armazenada. O conhecimento assim adquirido fica arbitrário e literalmente armazenado na
estrutura cognitiva.
Ausubel não estabelece a distinção entre aprendizagem significativa e mecância
como dicotômica, e sim como um continuum. Por exemplo, a simples memorização de
fórmulas situar-se-ia em dos extremos desse continuum (o da aprendizagem mecância),
enquanto que a aprendizagem de relações entre conceitos poderia estar no outro extremo (o
da aprendizagem significativa).

2.2. Aprendizagem por Descoberta X Aprendizagem por Recepção (Receptiva)

Segundo Ausubel, na aprendizagem receptiva o que deve ser aprendido é


apresentado ao aprendiz em sua forma final, enquanto que, na aprendizagem por
descoberta, o conteúdo principal a ser aprendido deve ser antes descoberto pelo aprendiz..
Entretanto após a descoberta em si, a aprendizagem só é significativa se o conteúdo
descoberto interagir com conceitos subsunçores relevantes já existentes na estrutura
cognitiva. Isto é, quer por recepção ou descoberta, a aprendizagem é significativa, segundo
a teoria de Ausubel, se o novo conteúdo incorporar-se de maneira não arbitrária e não
literal à estrutura cognitiva.
A distinção entre aprendizagem por descoberta e por recepção também não é
dicotômica, elas podem ocorrer concomitantemente na mesma tarefa de aprendizagem e
situam-se ao longo de um continuum.

2.3. Diferenciação Progressiva X Reconciliação Integrativa

Quando um novo conceito ou proposição é aprendido através do processo de


interação e ancoragem em um conceito subsunçor, este também se modifica. A ocorrência
desse processo uma ou mais vezes leva a uma diferenciação progressiva do conceito
subsunçor, isto é, ele se torna mais elaborado, mais diferenciado, adquire novos
significados.
Por outro lado, às vezes, no curso de novas aprendizagens, idéias, conceitos ou
proposições estabelecidas na estrutura cognitiva podem ser reconhecidos como
relacionados. Assim, novas informações são adquiridas e elementos existentes na estrutura
cognitiva podem se reorganizar e adquirir novos significados. Essa recombinação de
elementos previamente existentes na estrutura cognitiva é referida por Ausubel como
reconciliação integrativa.

2.4. Organizadores Prévios

Supondo que a aprendizagem significativa deve ser preferida em relação à


mecânica e que ela pressupõe a existência prévia de conceitos subsunçores, o que fazer
quando eles não existem? Ausubel recomenda o uso de organizadores prévios que são
materiais introduzidos antes do próprio material de aprendizagem e apresentados em um
nível mais alto de abstração, generalidade e inclusividade. Por exemplo, dependendo da
situação de aprendizagem, uma palestra, um filme, uma analogia, uma demonstração,
podem servir de organizador prévio.

3. A AULA EXPOSITIVA SOB UM ENFOQUE AUSUBELIANO

3.1. Visão esquemática da implementação de uma aula expositiva em uma perspectiva


ausubeliana

CONTEÚDO DA AULA

1. Determinar a 2. Identificar os 3. Diagnosticar


estrutura subsunçores aquilo que os
conceitual e especificamente alunos já sabem
proposicional relevantes

4. Ensinar de acordo,
usando organizadores
prévios e princípios
programáticos

Aprendizagem
significativa
3.2. Detalhamento da etapa 4 do esquema anterior
DIFERENCIAÇÃO PROGRESSIVA

Organizador Prévio

Idéias, conceitos, princípios


mais gerais, inclusivos

RECONCILIAÇÃO INTEGRATIVA
Organizador Organizador

Conceitos e princípios Conceitos e princípios


intermediários intermediários

Organizador Organizador Organizador Organizador

Conceitos Conceitos Conceitos Conceitos


específicos, específicos, específicos, específicos,
exemplos exemplos exemplos exemplos

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