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ATIVIDADE INDIVIDUAL

Matriz de atividade individual

Aluno/a: Paula Renata Liberal Costa

Disciplina: Direito Empresarial para Gestores

Turma: 1121-1_6

Introdução

A variante gripal denominada SARS-COVID-19 abalou as estruturas de todos os países ao redor do globo, impondo
severos ajustes sociais, econômicos e políticos. No início, diante das dúvidas sobre a exata dimensão da doença e os
impactos que seriam causados pela pandemia, inúmeros países se fecharam em lockdowns até que houvesse maior
clareza sobre os caminhos a serem trilhados.

Neste contexto, diversas empresas receberam restrição governamental para o funcionamento e, repentinamente,
tiveram que baixar as portas. Deste modo, os ramos empresariais que não foram considerados como ‘atividades
essenciais’ foram colocados à prova, cada qual na peculiaridade do mercado que atua.

Dentre as atividades que receberam restrição de funcionamento, algumas puderam se reinventar e explorar o
comércio on line, a exemplo do comércio de vestuário. Outras, como o segmento de eventos, tiveram que paralisar
totalmente suas atividades e, para permanecerem no mercado, se valeram de ferramentas jurídicas para renegociar
com fornecedores e clientes.

No caso específico das empresas com capital aberto, listadas na bolsa de valores, há indicativo de que praticamente
metade delas terminaria o trimestre com o caixa zerado caso permanecessem fechadas. O presente parecer indicará
3 (três) ferramentas jurídicas para minimizar os impactos financeiros ocasionados pela pandemia.
Ao final, também abordaremos o caso da Cervejaria Backer que está no epicentro de um enorme escândalo de
contaminação do seu produto. O mau funcionamento fabril na produção de suas cervejas adoeceu inúmeras pessoas
e, lamentavelmente, algumas vieram à óbito. O presente parecer abordará ferramentas jurídicas para traçar o cenário
provável da citada empresa.

Desenvolvimento

TEXTO 1 – “Como está o caixa das empresas abertas para sobreviver à pandemia”

Diversos setores da economia tiveram que paralisar suas atividades durante a pandemia, obedecendo medidas
governamentais de restrição de funcionamento. Alguns segmentos foram considerados como atividades essenciais,
tais como indústrias farmacêuticas, empresas de energia elétrica, supermercados, farmácias, dentre outros.

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Não era de se estranhar que o ramo farmacêutico, tanto na indústria quanto no comércio, apresentasse enorme
crescimento. Com as farmácias abertas durante toda a pandemia e as pessoas buscando como nunca aumentar a
imunidade, o segmento apresentou crescimento de 15,6% em 2020, quando comparado a 2019 [1].
Dentre as empresas listas na Bolsa de Valores B3 [2], as que atuam nos ramos essenciais mantiveram uma boa
performance, ao contrário das que necessitaram fechar as portas durante a pandemia (a exemplo das Lojas Renner –
LREN3), conforme se observa pelo histórico de cotação [3].
Lado outro, se imaginarmos o ramo de geração de energia que operou normalmente, a exemplo da CEMIG (CMIG3),
que registrou lucros consideráveis pois vendeu normalmente seu produto (energia) [4], ao contrário das Lojas
Renner que, por não serem consideradas como atividade essencial, não realizaram vendas presenciais.
Neste período, empresas iniciaram venda on line ou otimizaram os canais de venda não presencial, tais como os
restaurantes que puderam operar na entrega de refeições. Já o setor de serviços, a exemplo da limpeza e
manutenção de pisos e telhados, viram seu faturamento encolher sobremaneira durante a pandemia.
Em cenário diametralmente oposto aos ramos empresariais que tangenciam a saúde, o ramo de entretenimento
sofreu (e ainda sofre) um enorme impacto financeiro, haja vista que as atividades dependentes de aglomerações em
locais fechados foram as que mais demoraram para receber liberação governamental e, ademais, uma parte
significativa dos consumidores não quer se arriscar em um show realizado numa danceteria, por exemplo.

Várias destas empresas, sejam as que permaneceram completamente fechadas ou que funcionaram parcialmente,
necessitaram de acessar empréstimos bancários. Ocorre que, quando o auxílio dos bancos não foi suficiente, foi
necessário lançar mão de repactuação de contratos com fornecedores ou clientes.

A primeira ferramenta indicada é a alteração do CNAE, pois uma empresa com atividade exclusiva de “Casa de
Festas” (CNAE 8230-0) que possui um buffet próprio para os eventos, poderia adicionar a atividade de “Restaurante
Delivery” (CNAE 5620-1) e promover a entrega de refeições prontas, criando faturamento durante o período de
restrição.
Antes de adentrarmos às ponderações acerca de medidas judiciais propriamente ditas, importante ressaltar que a
NEGOCIAÇÃO com fornecedores e clientes sempre será uma valiosa iniciativa do empresário para postergar seus
débitos com fornecedores e, de igual modo, repactuar com clientes produtos e serviços que não puderam ser
concluídos nas condições acordadas.
Como exemplo de norma governamental editada para auxiliar um setor específico durante a pandemia, vale citar a
Lei Federal nº14.106/2020 que dispôs sobre o “adiamento e o cancelamento de serviços de reservas e eventos dos
setores de turismo e de cultura”, permitindo às empresas que se eximissem de cumprir os contratos firmados com
consumidores em razão da excessiva onerosidade, possibilitando a remarcação de reservas e eventos, ou
disponibilização de crédito para utilização futura, SEM O PAGAMENTO DE MULTA.
Em seguida, a Lei Federal nº14.148/2021 dispôs sobre “ações emergenciais e temporárias destinadas ao setor de
eventos”, que inclusive instituiu o PERSE – Programa Emergencial de Retomada do Setor de Eventos. Pela citada lei,
as empresas que promovem shows, feiras e eventos, casas noturnas, hotelaria, salas de cinema e prestadores de
serviços turísticos em geral tiveram vários benefícios no período para amortecerem os impactos advindos da
pandemia. A primeira hipótese legal é a possibilidade de renegociação tributária com desconto, seguida de linha de
crédito com o BNDES.
A mola propulsora desta legislação é a ‘Teoria de Imprevisão’, abarcada pelo art. 478 do Código Civil e que prevê a
possiblidade de modificação dos termos contratuais quando ocorrer, por exemplo, a “onerosidade excessiva da
prestação”. Sobre o tema, SCHUNCK explica que “talvez o aspecto mais importante de se analisar para a aplicação ou

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não dessa teoria é o risco inerente ao contrato, uma condição que nem sequer é trazida pelo Código Civil. Com isso,
ocorrendo um evento extraordinário, que onere excessivamente o devedor, modificando a base objetiva do negócio,
e que, não esteja diretamente relacionado aos riscos inerentes àquele contrato, poderá ser aplicada a teoria. A
onerosidade excessiva superveniente não poderá ser aplicada nos casos de fatos extraordinários que atinjam a álea /
o risco normal do contrato.”[5]
Pelo ensinamento da autora fica claro que um suposto fato imprevisto que poderia ser diagnosticável em
determinada atividade não pode ser utilizado como argumento para o descumprimento contratual, todavia, uma
ocorrência anômala totalmente inesperada, como o caso da pandemia, é sim considerado um evento extraordinário
que onerou excessivamente o empresário, sendo possível rever os termos do contrato.
Assim sendo, a segunda ferramenta é a AÇÃO REVISIONAL DE CONTRATO, na qual o empresário poderá postular ao
Juiz de Direito a alteração ou flexibilização de algumas obrigações em decorrência da onerosidade excessiva
ocasionada pela pandemia.
Outra ferramenta legal bastante utilizada pelas empresas nos últimos anos ganhou contornos relevantes no período
pandêmico: RECUPERAÇÃO JUDICIAL.
A Lei Federal nº11.101/2005 que criou o instituto da recuperação judicial, prevê que se deferida a recuperação
judicial fica proibida qualquer penhora de valores em conta bancária advinda de ação judicial, ou busca e apreensão
de máquinas e equipamentos (art. 6, III).
Esta ferramenta concede ao empresário uma série de benefícios para o pagamento de seus débitos, notadamente a
suspensão de pagamento a todos os credores por 180 dias e, após, parcelamento dos débitos em até 36 meses,
somente incidindo SELIC sobre o montante (art. 71). Em suma, a recuperação judicial é uma ação judicial a ser
utilizada em último caso, mas possui inegáveis vantagens para que o empresário passa saldar seus débitos com boas
condições.

TEXTO 2 – Cervejaria Backer

O emblemático caso da Cervejaria Backer demonstra como um simples equívoco no processo fabril pode levar à
bancarrota uma empresa, pois a aplicação incorreta de um produto químico destinado à limpeza das máquinas
acabou por contaminar o produto destinado ao consumo humano, resultando em dezenas de consumidores doentes
e 10 óbitos.
A primeira ferramenta jurídica recomendável seria a tentativa de ACORDO PARA PAGAMENTO DE INDENIZAÇÕES,
visando minimizar ações de indenização bastante pesadas em desfavor da companhia.

Este foi, inclusive, o objeto de um acordo firmado entre a cervejaria e o Ministério Público, visando a constituição de
um fundo para pagamento de indenizações. Uma estratégia comercial é o lançamento de rótulos sem associação ao
nome Backer, o que já foi realizado pela cervejaria no final do primeiro semestre de 2021, após receber autorização
judicial para retornar o funcionamento da fábrica. [6]
Uma ferramenta para tentar minimizar os impactos financeiros à empresa seria mover uma AÇÃO DE INDENIZAÇÃO
contra o fabricante dos tanques de fermentação de cerveja, visto que o Inquérito Policial apurou que um pequeno
vazamento de somente 2mm (dois milímetros) permitiu que os produtos químicos adentrassem ao tanque e
contaminassem o produto. [7]
A última ferramenta jurídica sugerida seria o pedido de RECUPERAÇÃO JUDICIAL, visando melhores condições de
pagamento de indenizações aos afetados, além de certamente dívidas com fornecedores e colaboradores, já que

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repentinamente a companhia paralisou suas atividades por ordem judicial. No âmbito da recuperação judicial seria
possível realizar a venda do maquinário fabril, imóvel da fábrica, dentre outros ativos.

No final da recuperação judicial, a empresa poderia simplesmente adotar um posicionamento de mercado de não
realizar a produção própria, mas utilizar o know how das ‘receitas’ para produzir em fábrica terceirizada (estratégia
que já foi adotada, conforme informado em matéria acima mencionada).
Apesar do presente parecer visar as estratégias para perpetuação dos negócios, o pedido de FALÊNCIA deve ser
fortemente cogitado, pois qualquer associação com a marca, mesmo que em produção realizada por terceiros, irá
repelir os consumidores diante do desgaste ocasionado com os lamentáveis fatos ocorridos. A falência seria uma
maneira de minimizar os danos.

Conclusão

A paralisação das atividades empresariais, tanto em decorrência de imposições governamentais como no caso da
pandemia, quanto por ordem judicial como no caso da cervejaria, provocam um abalo profundo no faturamento das
empresas, com sérias chances de encerramento das atividades.
As ferramentas jurídicas abordadas podem ser a grande chance de resiliência do negócio, com a real possiblidade de
adequação do ambiente de negócios à nova realidade.

Referências bibliográficas

[1] https://guiadafarmacia.com.br/lucro-das-farmacias-foi-r13937-bilhoes-em-2020-crescimento-de-
156/#:~:text=O%20lucro%20das%20farm%C3%A1cias%20brasileiras,acordo%20com%20dados%20da%20IQVIA.

[2] https://www.b3.com.br/pt_br/produtos-e-servicos/negociacao/renda-variavel/empresas-listadas.htm (acesso em


03.01.2022)
[3] https://www.tradingview.com/chart/?symbol=BMFBOVESPA%3ALREN3
[4] https://www.tradingview.com/chart/?symbol=BMFBOVESPA%3ACMIG3F
[5] SCHUNCK Giuliana B. Contratos> onerosidade excessiva superveniente (teoria da imprevisão) e o Covid 19
https://www.migalhas.com.br/depeso/323290/contratos--onerosidade-excessiva-superveniente--teoria-da-
imprevisao--e-o-covid-19
[6] https://g1.globo.com/mg/minas-gerais/noticia/2021/05/11/backer-volta-a-vender-cerveja-capitao-senra-da-ate-
uma-dor-no-coracao-diz-vitima.ghtml

[7] https://pt.wikipedia.org/wiki/Cervejaria_Backer
IBGE - CONCLA Comissão Nacional de Classificação
https://cnae.ibge.gov.br/?view=estrutura&tipo=cnae&versao_classe=7.0.0&versao_subclasse=9.1.0

LEI FEDERAL Nº14.046/2020 - https://www.in.gov.br/en/web/dou/-/lei-n-14.046-de-24-de-agosto-de-2020-


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4
LEI FEDERAL Nº14.148/2021 https://www.in.gov.br/en/web/dou/-/lei-n-14.148-de-3-de-maio-de-2021-317508601
LEI FEDERAL 11.101/2005 http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2004-2006/2005/lei/l11101.htm

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