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REVISÃO E AMPLIAÇÃO COM NOTAS EXPLICATIVAS DO LIVRO

“FRASEOLOGIA MUSICAL” DE ESTHER SCLIAR

REVIEW AND EXPANSION WITH EXPLICATIVE NOTES OF ESTHER


SCLIAR'S BOOK “FRASEOLOGIA MUSICAL”
Caio Giovaneti de Barros.
Orientador: Marcos Fernandes Pupo Nogueira

Campus de São Paulo, Instituto de Artes, curso de Composição e Regência. E-mail: caio.barros@gmail.com. Bolsa
Fapesp de Iniciação Científica.

Palavras chave: Análise Musical; Musicologia; Esther Scliar.


Keywords: Musical Analysis; Musicology; Esther Scliar.

INTRODUÇÃO

Este trabalho tem o intuito de analisar e revisar de forma crítica o livro “Fraseologia
Musical” de Esther Scliar. Trata-se de um dos únicos livros sobre o assunto em português, mas que
merece tal atenção devido a diversos problemas terminológicos e de edição gráfica. Dessa forma,
objetiva-se uma possível reedição do livro ampliado e revisado contribuindo para a criação de
material musical didático e teórico de qualidade em língua portuguesa.
Esther Scliar foi compositora, musicóloga, regente e pianista, além de incansável pedagoga
musical. Uma personalidade plural que trilhou também pelos caminhos da teoria musical, disciplina
e ramo de conhecimento fundamental para a formação de um caráter musical verdadeiramente
autônomo e capaz de senso crítico e criatividade. Entre sua produção teórica encontram-se os livros
“Elementos de Teoria Musical”, publicado em São Paulo pela editora Novas Metas, em 1985, e, três
anos antes, “Fraseologia Musical” publicado pela editora Movimento na cidade de Porto Alegre. As
duas publicações saíram, como sugere a irmã da autora, Leonor Scliar-Cabral, das “caixas e caixas
do material” deixado por Esther Scliar e organizadas, após sua morte em 1978, por Clarice
Dubrovolska, Felícia Wang e Marlene Migliari Fernandes, que trabalharam com as anotações de
aula.
O livro “Fraseologia Musical” chama a atenção em especial por seus diversos problemas
editorais, um provável fruto de sua edição póstuma e origem em anotações de aula. Diversos são os
trechos em que a concisão extremada impede o bom entendimento dos conceitos, páginas estão mal
organizadas graficamente, exemplos musicais apresentam erros de digitação e os termos não estão
claramente definidos. O problema agrava-se quando observamos que “Fraseologia Musical” é um
dos únicos materiais sobre o assunto em português e ainda é comercializado e utilizado por
estudantes e professores de música no Brasil, o que demonstra a inegável carência de material
teórico musical produzido ou traduzido em português.

OBJETIVOS

Basicamente são dois os objetivos do presente trabalho: Em primeiro lugar objetiva-se


contribuir para a discussão acerca da morfologia musical no Brasil, procurando estimular essa
forma de criação de conhecimento dentro da comunidade científica e musical falante de língua
portuguesa. Em segundo lugar objetiva-se revisar e ampliar o livro de Ester Scliar de uma forma
que mostre-se apta para uma possível reedição da obra. Com isso esperamos contribuir para a
criação de material musical didático e teórico em português.

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FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA

Uma das características mais importantes do livro “Fraseologia Musical”, de Esther Scliar, é
a sua fundamentação teórica que busca incorporar, além dos tratados tradicionais, como os de Hugo
Rieman (1928) e Giulio Bas (1933), as reflexões mais recentes de autores como Hugo Leichtentritt
(1951), Grosvenor Cooper e Leonard B. Meyer (1960). A fraseologia musical como tratada neste
livro é concebida como disciplina musical que tem por função conectar a vivência composicional à
experiência interpretativa e, ao mesmo tempo, incorporar o conceito de “compreensibilidade” da
forma, um dos fundamentos do pensamento analítico e teórico de Arnold Schoenberg – outro
criador e teórico caro a Esther Scliar –, conceito de largo espectro que remete à percepção da forma
pelo ouvinte, ou o receptor final do processo composicional.
A própria autora indica em bibliografia os autores acima citados. Trata-se em geral de livros
preocupados em explicar a morfologia musical. Alguns são, na realidade, livros cujo assunto
principal é a Forma Musical, mas sempre remetem à Fraseologia, como o “Trattato di Forma
Musicale” (Tratado de formas musicais) de Giulio Bas (1933), que contém uma grande introdução
sobre ritmo e fraseologia apesar do foco do autor serem as formas musicais propriamente ditas,
“Musical Form” de Hugo Leichtentritt (1951) e “Fundamentos da composição musical” de Arnold
Schoenberg (1993). “Fraseo Musical” de Hugo Riemann (1928) contém uma extensa e pioneira
discussão sobre o assunto. Outra fonte importante é a obra “The Rhytmic Structure of Music” de G.
W. Cooper e L. B. Meyer (1960) que apresenta uma abordagem mais prosódica de análise musical,
que não é objetivo desse trabalho discutir, mas originou vários conceitos e termos utilizados por
Ester Scliar em seu livro.

METODOLOGIA

No momento de formulação e estruturação da pesquisa, ficou claro que o processo deveria


ser dividido em duas grandes partes. Primeiramente a necessária revisão e a edição dos exemplos
musicais em software (Finale) devido aos inúmeros problemas editoriais, em segundo lugar, a
investigação a respeito das origens e definições dos conceitos utilizados pela autora.
As novas transcrições revistas dos fragmentos melódicos de peças de repertório utilizados
pela autora, embora rigorosamente correspondentes aos utilizados na publicação original, estão
completadas pelas demais partes instrumentais ou vocais de modo a oferecer ao leitor a
possibilidade de conhecer o contexto completo de cada exemplo escolhido como ilustração por
Esther Scliar.
A revisão do texto do livro será realizada levando em conta a história e o significado dos
termos utilizados e os pontos de vista de cada autor indicado por Scliar. Almeja-se, assim, entender
como a autora estruturou sua própria teoria, quais são seus pontos fortes e fracos e qual a
pertinência de uma revisão crítica de seu livro.
Em vista do objetivo ser eminentemente (embora não exclusivamente) didático, a pesquisa
promoveu também a inclusão de um glossário contemplando os conceitos fundamentais utilizados
pela autora.

RESULTADOS E DISCUSSÕES

O resultado da primeira parte (reedição em software dos exemplos musicais) pode ser
ilustrada pelo seguinte exemplo:

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EXEMPLO 7b
ORIGINAL

EDITADO
Byrd, William. Pavana – The Earle of Salisbury

OBSERVAÇÃO: No terceiro compasso a nota sol é natural, e não sustenido como no exemplo
original.

Observa-se aqui alguns critérios de edição como o título do exemplo, o uso de um colchete
superior para indicar a linha a qual a autora se refere, o uso do símbolo “T”, indicativo de Thesis,
em substituição das setas e o erro corrigido no terceiro compasso.
A segunda parte, investigação dos conceitos, foi realizada a partir da elaboração de uma
tabela de conceitos contidos no livro e da investigação termo a termo de sua:
1. Definição segundo Scliar;
2. Origem e definições de autores citados na bibliografia fornecida por Scliar;
3. Comparações e considerações.
Até o momento, o procedimento de edição dos exemplos foi aplicado para a primeira metade
dos exemplos contidos no livro e apenas metade dos autores que constam na bibliografia de Scliar
foram considerados na investigação terminológica. Apesar de ser portanto um trabalho em
andamento, já apresenta fundamentos, discussões e resultados bastante significativos e passíveis de
conclusões.

CONCLUSÕES

Acredita-se que foi possível alcançar a proposta desse trabalho: revisar os exemplos
musicais e promover uma discussão sobre a terminologia e teoria de Esther Scliar a partir da
bibliografia e da literatura sobre o assunto de forma sempre criteriosa. Durante a pesquisa, chamou
a atenção o esforço de Scliar por unir em seu corpo teórico os pensamentos tradicionais e também
alguns mais recentes, notadamente Cooper e Meyer (1960), na busca de fundamentos que
possibilitem a escuta musical para além do escopo tradicional que tem a música do séc. XVIII e
mais especificamente no caso da fraseologia a quadratura como paradigma. Trata-se de um grande
valor da obra.
O trabalho buscou tanto a correção dos problemas editoriais que tanto prejudicam o
entendimento, como aprofundar e sistematizar a discussão proposta por Scliar. Com isso, espera-se
criar o conhecimento e as ferramentas necessárias para a reedição não só de um livro que é muito
importante por seu pioneirismo como talvez até subsídios para pesquisas inédias sobre a morfologia
musical.

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BIBLIOGRAFIA

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