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Análise literário.

(Angela Sánchez)

As alianças.

“Aquela noite, a mais solitária de minha vida, carecia de amigos, não havia
canções, e o meu deus interior encolhia-se” El sol viaja rápido. Angela Sánchez

“A sua ficção (..) documenta essa fidelidade a uma realidade forjada pela linguagem.
Ele é o ficcionista da solidão, das ilusões perdidas, da incomunicabilidade entre os
seres em busca da identidade (...) Seus temas são a solidão, a desilusão, o
desencontro, a colisão da criatura humana com a realidade, a evasão presente tanto
nos contos da infância, com o mar e nos navios, como nas histórias cariocas...”

Coutinho, A. 1986, 10-11

A personagem Jandira, a quem tentaremos analisar aqui através de seus própios ditos
e pensamentos, experimenta essa solidão, mas, O que é a solidão? Um sentimento ou
uma condição?

O homem está cada vez mais só. Só nas cidades, no trabalho, com os outros ou consigo
mesmo. É a solidão do homem perante o tudo ou o nada, perante Deus ou a sua
ausência. A solidão mora assim no fundo de cada romance, poema, pintura ou
sinfonia, e também no coração de cada homem. Mas, como vive quem mora dentro
dela? Ou porventura, quem se julga vivendo fora dela? “Jandira levantou-se da cama e,
depois de calçar os chinelos, aproximou-se da janela, fitando através das vidraças. Não
podia furtar-se à sensação forte de abandono e solidão, que a prendia e esmagava....”
(Cap. VIII, Pág. 113)

A solidão, quando não por escolha de assim viver a vida, é um sentir doloroso, uma
exclusão, uma invisibilidade. Diz, quem pelos caminhos da mente alheia se aventura,
que o narcisismo é o principal responsável por este padecer “Olhava seu corpo, e
concluía que havia nele uma grande unidade, como se as mãos se lembrassem dos pés,
e os cabelos soubessem da existência do ventre (Cap. IV, Pág. 44)

Gabriel García Marquez, autor de “Cem anos de solidão”, define a palavra com um
conceito político “solidão, o contrario de solidariedade”, reduzindo-nos ao dilema: ser
solitário ou ser solidário. Então se compreende solidão como egoísmo. Então a
insegurança de não ser amado e sentir-se ameaçado não conduzem a outro caminho
que não seja o individualismo, o vazio emocional, a solidão e a incomunicação social.
Entanto a solidariedade é a capacidade de pensar o outro, a possibilidade de
incorporar os outros sem sentir que a causa disso deixa-se de “ser”, mas pelo contrario
se “é” mais, soma-se “....Habitualmente as pessoas se completam em outras, são como
pecas de armar ou letras de palavras cruzadas, e se consomem à espera de um futuro
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que só termina com a morte. Mas Jandira enxotava os exemplos que tinham o sabor
de uma rendição, e invejava aqueles que, dispensando a transferência desapontadora,
a contemplação em espelhos alheios, a ninguém confiam o cuidado de viver os seus
sonhos e ambições. ( Cap. XI, Pág. 202)

A solidão é um dos sentimentos, que quando expressado no ser humano, imprime-lhe


uma característica única. Uma característica que o diferencia dos animais. Faz com que
o homem, defrontado consigo mesmo, realize então, uma atitude de análise e
reflexão, e em outras ocasiões, amarra-o deixando-o estático “Que era pois a aurora,
brotando como uma luz cada vez mais resplandecente, se, na escuridão de sua alma,
Jandira esperava por outra aurora que a jogasse em uma ilha onde houvesse
eternamente sol?” (Cap. XI Pág. 162) Dessa maneira o ser humano ainda que quieto,
ainda que só, continua com o seu cérebro ativo, redesenhando, seja em sua memória,
seja em seus pensamentos, situações, descrições de fatos ou mesmo de sensações
“Ela se lembrava desse tempo em que andava pelo campo, sozinha. Como eram largas
as sombras oferecidas pelas arvores frondosas em que ela caminhava sem pensar em
nada, quebrando gravetos entre as mãos, ouvindo passarinhos, descobrindo fileiras
infinitas de formigas que destruíam arbustos. Havia uma ladeira que desaparecia atrás
de um monte. De lado, estavam os montes escuros, escondendo a planície onde o
trem corria velozmente. Flores simples nasciam na beira da estrada. Ao longe,
pastavam vacas, o riacho corria espelhando ao sol e brilhavam, como se fossem de
vidro, as pedras das margens” (Cap. V, Pág. 56). Seja descrevendo a si próprio ou a
outros “José era um desconhecido. Jandira conhecera pessoas simples como um vidro
atravessado pela claridade do sol. Seu marido, no entanto, era diferente_ dócil
algumas vezes, áspero em certos momentos, indecifrável, dedicado, brutal. Ela não
poderia arranjar uma definição para ele. Não se pode definir o mar, o que é versátil
sem ser odioso, o que não oferece nenhuma certeza mas se exprime pela insubmissão
e surpresa. Quando a iluminava a esperança de caracterizá-lo por intermédio da
descoberta de uma qualidade ou de um defeito esclarecedores, José lhe fugia,
deixando-a desapontada.(Cap. XI, Pág.170) Também pode em um ato de
autocomiseração, sentir-se o mais abandonado ou pelo contrario perceber o
abandono de outrem. “... E o pior era que tinha de engolir o próprio sofrimento,
guardar mesquinhamente o tormento avassalador” (Cap. XI, pág. 165)

É bom lembrar que alcança-se a solidão de alguma maneira, quer dizer, nós fazemos
algo para que ela aconteça, ou as vezes, o que importa é na realidade o que não
fazemos para evitá-la. Inclusive, na maioria das vezes alcança-se esse estado sem
sequer entender como se chega a ele “Por outro lado, tinha dificuldades em imaginar
uma vida diferente da que levava. Era uma dessas pessoas que vivem sabendo que
todos os acontecimentos, embora as surpreendam, sucedem obedecendo a uma
trama interior, possuindo portanto uma razão de ser e uma finalidade... Nada
aconteceu que não estivesse escrito. (Cap. XI, Pág. 164)
Análise literário. (Angela Sánchez)

Solidão é um sentimento de vazio, de vão, uma percepção que nos isola do mundo e
de aqueles com quem gostaríamos de ter contato “As vezes, Jandira não sabia que
atitude deveria tomar diante do marido. Examinando-se bem, chegava à conclusão de
que, depois de casados, passadas as pequenas alegrias suscitadas pelo convívio, eram
dois estranhos. Nenhum laço os ligava, fora a mesa onde faziam refeições, as ocasiões
em que saiam juntos, e o quarto de dormir. Ela continuava guardada para si mesma,
território inabordável” (Cap. XI, Pág.159)

É o paradoxo da existência humana para procurar preencher uma necessidade que


nunca pode ser satisfeita, preencher o vórtice da solidão nas nossas vidas “O que é que
falta à tua vida _indagou-lhe José um dia, vendo-a triste e silenciosa, a olhar para alem
da janela como se quisesse sorver a paisagem. Jandira continuou em silencio, depois
esboçou um ligeiro sorriso. Examinando-se, fez aos seus botões a mesma pergunta.
Como poderia explicar a José que faltava alguma coisa à sua vida? Contudo, faltava-lhe
alguma coisa imprecisa e inqualificável, que se nutria de sua solidão e desencanto
(Cap.XI,Pág. 179)

Escondem-se os sentimentos “Jandira estava afundada em seu mutismo, o olhar


perdido na claridade da lua cheia. Não queria conversar com ninguém, apenas voltar-
se para a noite de plenilúnio, e imaginar que daria tudo para estar caminhando na
praia, ouvindo as ondas” (Cap. X, Pág. 135)

Escolhem o isolamento e a fantasia “Jandira se refugiava nos romances que sua


imaginação trabalhava silenciosamente (...) Esses romances continham personagens
inventados e algumas pessoas reais. Era um mundo diferente, em que todos os seres
se amavam (...) Jandira crescera, e os romances tinham durado anos” (Cap. I, Pág. 13)

Refugiam-se no sono, a última estratégia que algumas pessoas usam como meio para
escapar da solidão, porque é na esperança do amanhã que elas confiam, quando um
novo despertar traga aquilo de bom que o ontem não teve “Assim mesmo fechara os
olhos. Não queria que o sono viesse. Mas, nenhuma força do mundo a faria resistir à
delicia de aceitar a sensação de repouso que lhe percorria o corpo, dando-lhe uma
confiança extraordinária às pernas estendidas e aos bracos que amparavam a cabeça”
(Cap. I, Pág.13)

As pessoas solitárias se sentem assim porque muitas vezes estão experimentando uma
larga variedade de emoções e sensações e não tem ninguém para falar, para
compartilhar “Queria falar com alguém, mas todos estavam ausentes” (Cap XI,
Pág.164) “... As criaturas voltavam ao que eram, fechadas em si mesmas, triviais e
cautelosas (...) Como a escuridão fazia bem às pessoas, revelava-as em sua brutalidade
pessoal, valorizava a epiderme! No escuro, as pessoas falavam, confessavam-se, as
palavras readquiriam virgindade, nenhum sol incidia sobre elas” (Cap. VIII, Pág. 103)
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Mas, como nos mostramos aos outros? Somos tão cálidos como esperamos que sejam
conosco? “Entre a lancha e o mar, estava o corpo de Jandira. Uma inesperada
imobilidade o aprisionara, e ele não se movia, cercado pela sua própria solidão...
Entretanto, ele não possuía nem comunhão com os outros seres, nem hostilidade.
Situava-se em seu silencio natural, liberto de qualquer correspondência com as outras
coisas que não fossem as sugeridas pela sua eventual posição no espaço e no tempo.
Tal vez houvesse um momento em que ele inspirasse desagrado ou repulsa, não
agarrasse a mão que lhe fosse estendida, recusasse amparo ou contato. Mas, estava
ali, sem que a noite o dominasse. Dir-se-ia que se algum movimento o impulsionasse,
ele seria capaz de ressuscitar a claridade do dia. Nem amigo, nem inimigo. Apenas um
corpo, isolado em sua própria unidade, protegido pelas partes que poderiam servir de
ligação com os outros seres (...) aquele corpo bem poderia viver só, desnudar-se sem
necessitar de outro corpo que lhe cobrisse a nudez, isolar-se sem ter medo de morrer
ou ser destruído. Era a solidão do corpo, mais visível que a solidão da alma, que se lhe
representava ao olhar sequioso. Havia duas mãos que poderiam apertar as de outra
pessoa; entretanto, elas não morreriam se se dedicassem exclusivamente a segurar
objetos. A boca se abriria apenas para ingerir os alimentos, sorrir e dizer palavras
claras e simples. E os cabelos, excitantes, se limitariam às rudes investidas do vento.
Nem comunicação, nem desespero. E esse corpo não necessitaria levantar-se,
desesperado, e gritar o seu grande grito mudo e áspero “Vem” (Cap. VIII, Pág. 107)

As pessoas nos ajudam a deduzir que tipo de talento possuímos, nossos pontos bons e
nossos pontos maus. Em outras palavras, nos ajudam a manter um sentido de
identidade “Apesar do caráter enigmático de José, ela se orgulhava de ter sabido viver
com ele, sem, aliás, se esforçar para segui-lo. Temia que essa tranqüilidade um dia se
rompesse. Quem sabe se ele não fugiria, deixando-a sozinha? Entretanto, ela não
estava quase sempre sozinha, nutrindo-se de um estranho monólogo?_ Ambos nos
casamos porque éramos sozinhos, e necessitávamos um do outro para enfrentar, não
a vida e os homens, mas o que acontece dentro de nós enquanto vivemos.
Precisávamos um do outro para não trair nossas vidas._ Sentia-se então turbada como
se fosse enlouquecer. Era inteligente demais, nesses instantes. Dominava-a uma
sabedoria que não solicitara, mas brotara gratuitamente em seu espírito. Via então
que aprendera alguma coisa, não nos livros, nem na observação direta das pessoas
que a cercavam. Aprendera em si mesma, examinando-se, sentindo que a mais
desprezível das criaturas abriga dentro de seu coração uma matéria feita de
eternamente” (Cap. XI, Pág. 172)

Diz o psiquiatra David Payne Pereira, quem leva muitos anos na profissão médica, que
a solução passa por estimular-se as pessoas a manterem os seus laços de relação.
Antes há que entender e aceitar que nos percursos de todos nós prevalecem as
separacões. Começamos por nos separar do útero materno, depois do regaço da mãe.
Separamo-nos da casa paterna quando vamos para a escola. Separamo-nos dos pais
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quando iniciamos uma vida a dois, ou quando, para afirmarmos a nossa


individualidade, precisamos de romper com a proteção familiar. É o preço a pagar para
nos afirmarmos como indivíduos: se assim não fosse, não seriamos como somos. “Seus
olhos se encheram de lágrimas, e ela nada mais viu. Uma paz a invadia naquele
instante e, humilde e silenciosa aceitava-a sem temor. Ela chorava de alegria, porque
sabia que não estava só. Sim, o tempo avançaria, sacudindo suas vagas em todas as
praias. E haveria ainda o vento, a soprar nas árvores, a subir até as estrelas. Mas
saberia resistir a esse avanço obscuro. Dentro de si, estava guardando algo que não se
consumiria nunca. Era necessário chorar muito, sorrir depois, estender suas mãos a
esse homem adormecido: ela não estava só.(Cap. XII, Pág. 255)

Finalmente, lembrando Camões, estaremos condenados ao solitário andar por entre as


gentes? Estaremos condenados irremediavelmente a padecer de solidão? Afinal
nascemos e morremos sós.

Angela Sánchez

Manilkara

Publicado no Recanto das Letras em 10/12/2006. Código do texto: T314617


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