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A prisão no Brasil

RICARDO RODRIGUES GAMA

SUMÁRIO

1. Introdução. 2. Espécies. 3. Autoridades. 4.


Execução da pena. 5. Igreja Católica. 6. Recupe-
ração de presos. 7. Criminalidade. 8. Legislador.
9. Cadeias. 10. Presídios. 11. Literatura. 12.
Conclusões.

1. Introdução
No Brasil, o direito constitucional relativo
à liberdade do cidadão não é obedecido por
grande parte das autoridades que executam as
prisões. As polícias judiciária e militar são
constituídas por pessoas despreparadas. A
ignorância atinge tal monta que, muitas vezes,
os seus executores pensam estar cumprindo a
lei. Sob a alegação de escassez de equipamentos
sofisticados no combate ao crime e a falta de
pessoal especializado, tais autoridades
cometem as maiores atrocidades.
A Constituição Federal, em seu art. 5º, traz
que
“Todos são iguais perante a lei, sem
distinção de qualquer natureza, garan-
tindo-se aos brasileiros e aos estrangeiros
residentes no País a inviolabilidade do
direito à vida, à liberdade1, à igualdade,
à segurança e à propriedade...”
Sendo os agentes do Estado os maiores viola-
dores da liberdade de ir e vir, como pode ele
querer garantir essa liberdade? Pela nossa
Ricardo Rodrigues Gama é ex-professor da
Universidade Estadual de Maringá-PR, Ex-professor prática, qualquer resposta seria insatisfatória.
da Universidade do Oeste Paulista-SP, Professor da Em verdade, existe um conflito entre a conduta
Faculdade Anhangüera de Ciências Humanas-GO, estatal e a prescrita na lei. Por limitação de
Professor da Faculdade de Direito de Anápolis-GO, poderes, o Estado não pode restringir o direito
Professor da Universidade Católica de Goiás-GO, de ir e vir de seus súditos. Em situações
Parecerista, Articulista, Escritor Jurídico e Advo-
1
gado. Nosso grifo.
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especialíssimas, permite-se a prisão do particular para o Estado. É o mais vultoso ônus
indivíduo. Contrapondo a Constituição, existem da vida em sociedade. Por ser uma exceção à
muitas prisões que fazem emergir o descaso do liberdade, a prisão não pode ser determinada
Poder Público com o segundo maior direito em qualquer caso. A sua ocorrência exige o
inerente à pessoa humana, à liberdade. A vida preenchimento de alguns requisitos.
ocupa o primeiro posto na importância dos Via de regra, a realização da prisão deve
direitos individuais. Ao determinar o respeito estar acompanhada de uma ordem judicial;
à liberdade, além de impor ao Estado a função porém, a prisão pode dispensar o mandado
de protetor desse direito, a Constituição limita judicial quando o infrator estiver na flagrância
a sua atuação. Como legítimo escudeiro da delitiva. Na decretação da prisão, o magistrado
liberdade, o Estado desenvolve a sua função deve constatar a presença dos requisitos legais
cercado por suas próprias deficiências. A que a autorizam. As seguintes prisões decorrem
proteção estatal à liberdade levou a crimina- de decisão judicial: a) prisão preventiva; b)
lização das condutas a ela ofensivas, surgindo prisão temporária; c) prisão decorrente da
os crimes contra a liberdade individual. Entre sentença de pronúncia; d) prisão decorrente de
esses delitos, o seqüestro e cárcere privado sentença penal condenatória sem o trânsito em
tornou-se muito popular nos grandes centros. julgado; e) prisão decorrente de sentença penal
E, com relação a esses crimes, tem-se tomado condenatória com o trânsito em julgado; f)
muitas medidas de pouca eficiência. Na
prisão do devedor de pensão alimentícia2; g) a
restrição de liberdade entre particulares, o
prisão do depositário infiel3; h) a prisão do
Estado atesta o seu fracasso. No trato com a
liberdade individual, o Estado, mais uma vez, retentor de título extrajudicial4; i) a prisão do
mostra-se incipiente e despreparado. É preciso síndico ou do falido5.
melhorar a própria imagem do Estado brasileiro Presente ou ausente o mandado judicial,
perante seus governados. Não é possível a toda e qualquer prisão reclama o preenchimento
continuidade da transgressão dos direitos de vários pressupostos. A seguir, vamos dar
inerentes ao ser humano, haja vista a ampliação uma noção das exigências legais para a
da insegurança entre os brasileiros e a supressão da liberdade ambulatorial do
manutenção do império da arbitrariedade. indivíduo.
Deveras, existem leis tratando do respeito Como já se afirmou alhures, dispensando a
à liberdade dos indivíduos pela autoridade ordem judicial, a prisão só pode ser efetuada
estatal. A Lei nº 4.898, de 9 de dezembro de quando o infrator encontrar-se em flagrância
1965, regula o direito de representação e o delitiva. A prisão em flagrante pode ser efetuada
processo de responsabilidade administrativa, por qualquer pessoa do povo, devendo ser o
civil e criminal, nos casos de abuso de preso imediatamente entregue à autoridade
autoridade. Essa lei, chamada de Lei de Abuso policial, a qual formalizará o ato. Na realização
de Autoridade, tem pouca aplicação. Na da prisão, as dúvidas dos agentes do Estado
violação da liberdade de locomoção, raramente, são as mais variadas. Muitas questões existem
as vítimas representam as autoridades; ainda, a respeito das prisões indevidas, ilegais. Os
quando fazem valer os seus direitos, ficam investigadores, os escrivães da polícia civil,
expostas a outros constrangimentos. Essa podendo ser incluídos muitos delegados, não
vulnerabilidade deve-se à péssima estrutura sabem quando o delinqüente encontra-se em
estatal, a qual não possui um aparato de flagrância delitiva. Grosso modo, não sabem
proteção contra o possível insurgimento da quando efetuar a prisão. A situação é delicada,
autoridade representada. Assim, na atual isso porque a dúvida leva para o xadrez muitas
conjuntura, depois de representada, a autori- pessoas com direito à liberdade. Em quais
dade pode optar pela forma de coação que vai situações revela-se a flagrância delitiva? Nas
exercer sobre o seu representante. Isso causa 2
indignação em qualquer mortal. Muitas vezes, Art. 5º, LXVII, da Constituição Federal; art.
buscando reparar um direito lesado, a vítima 22, da Lei nº 5.478, de 25 de julho de 1968; § 1º, do
perde um bem maior, a sua própria vida. art. 733, do Código de Processo Civil.
3
Art. 5º, LXVII, da Constituição Federal; Lei
nº 8.866, de 11 de abril de 1994; § 1º, do art. 902 e
2. Espécies art. 904, do Código de Processo Civil.
4
Art. 885, Código de Processo Civil.
A restrição à liberdade do indivíduo 5
Arts. 37, 60, § 1º, 69, §§ 5º e 7º, todos do
constitui a maior transferência de poderes do Decreto-lei nº 7.661, de 21 de junho de 1945.
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quatro circunstâncias seguintes6: a) o infrator duração da prisão preventiva, estabelece-se um
está cometendo o crime ou a contravenção vínculo entre a sua continuidade e a persistência
penal; b) acaba de cometer a infração; c) é da circunstância que a determinou, não
perseguido, logo após, pela autoridade, pelo podendo este período ultrapassar o prazo para
ofendido ou por qualquer pesssoa, em situação a conclusão do processo judicial.
que faça presumir ser autor da infração; e d) é Na prisão temporária, em situações espe-
encontrado, logo depois, com instrumentos, ciais, a supressão da liberdade decorre também
armas, objetos ou papéis que façam presumir de mandado judicial 9. Conforme registra
ser ele autor da infração. Com relação às alíneas Fernando da Costa Tourinho Filho10, a Lei nº
a e b, problemas existem, porém pouco 7.960, de 21 de dezembro de 1989, tem origem
preocupantes. Agora, as situações aventadas na França, onde as relações entre a polícia e o
pelas alíneas c e d põem até inocente na cadeia. Judiciário são bem diferentes no Brasil. Com
As questões de alta indagação estão nos sentidos duração de cinco dias, prorrogável por mais
atribuídos às locuções logo após e logo depois. cinco, a prisão temporária pode ser decretada
Até que momento o perseguido e o portador de pelo juiz nas seguintes circunstâncias: a)
instrumento ou produto do crime podem ser quando se fizer necessário para o desenvol-
presos? Alguns membros da própria polícia e vimento das investigações no inquérito policial;
os meios de comunicação propalam um b) na impossibilidade de identificação precisa
determinado número de horas ou o interstício do indiciado ou quando este não possuir
de um a dois dias. Informação totalmente oposta residência fixa; e c) quando houver fundadas
ao sentido literal da lei. Primeiramente, é razões, mais a materialidade e indícios da
importante frisar que a lei não fornece o espaço autoria ou participação do indiciado, nos crimes
de tempo a ser considerado flagrante. No caso de homicídio doloso, seqüestro ou cárcere
da perseguição, o executor da prisão encontra privado, roubo, latrocínio, extorsão, extorsão
o infrator cometendo ou acabando de cometer mediante seqüestro, estupro, atentado violento
a infração, dando início à perseguição ininter- ao pudor, rapto violento, epidemia com
rupta, culminando com sua prisão. Para o resultado morte, envenenamento de água
infrator portador de instrumento ou produto da potável ou substância alimentícia ou medicinal
infração, não exige a lei um período de tempo qualificado pela morte, formação de quadrilha
entre a prática do crime e o encontro deste; o ou bando, genocídio, tráfico de drogas e crimes
espaço de tempo não pode ser indeterminado, contra o sistema financeiro. Todos os casos de
porque a lei exige que seja ele encontrado logo prisão temporária, sem exceção, poderiam ser
depois da prática do crime ou contravenção. decretados pelo juiz como prisão preventiva.
Na prisão preventiva, para o magistrado Assim, conclui-se que a prisão temporária em
ordenar a prisão são exigidos alguns requisitos. nada inovou.
Estes devem ser entendidos como a existência A prisão decorrente de sentença de pronún-
do crime, indícios suficientes de sua autoria e cia está prevista pelo procedimento do tribunal
o atendimento a algumas circunstâncias. do júri. No Brasil, consumados ou tentados, são
Contrariando a idéia equivocada de poder do julgados pelo tribunal do júri os seguintes
leigo, o juiz precisa fundamentar a sua decisão crimes: homicídio simples, privilegiado e
de determinar a restrição da liberdade da qualificado; induzimento, instigação ou auxílio
a suicídio; infanticídio; aborto provocado pela
pessoa; há exigência expressa da Constituição gestante ou com seu consentimento; aborto
Federal7. Existindo o crime e indícios de sua provocado por terceiro; aborto qualificado.
autoria, as circunstâncias que autorizam a Presentes a materialidade do crime e indícios
prisão preventiva são as seguintes8: a) falta de de sua autoria, ao proferir a sentença de
garantia da ordem pública ou econômica; b) pronúncia, o juiz pode decretar a prisão do
inconvenientes da instrução criminal; e c) acusado reincidente com maus antecedentes11.
insegurança na aplicação da lei penal. Sobre a
Quanto a prisão decorrente de sentença
6
Art. 302, do Código de Processo Penal. judicial sem o trânsito em julgado, o seu
7
Art. 93, inc. IX, da Constituição Federal. Na
9
decretação da prisão, a decisão judicial desprovida Em 1989, com a lei 7.960, a prisão temporária
de fundamentação é nula. Ao exigir esta fundamen- foi introduzida no Direito Brasileiro.
10
tação, acertou o constituinte, pois uma decisão tão Processo Penal. 12. ed. São Paulo : Saraiva,
importante não poderia ficar ao arbítrio do juiz. 1990. v. 3, p. 348-52.
8 11
Arts. 311 e 312 do Código de Processo Penal. § 2º, art. 408, do Código de Processo Penal.
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objetivo é assegurar o cumprimento da pena Por gerar empregos e arrecadar tributos, a
fixada pelo juiz enquanto tramita a apelação empresa comercial ou industrial tem valor
interposta. Na fundamentação da decisão incalculável no meio social. Com o salário
judicial, certamente, deve constar a reincidência obtido pelos serviços prestados, o indivíduo
e os maus antecedentes do acusado apelante. eleva a qualidade de sua vida e de sua família
Na prisão decorrente de sentença penal com e, para o Estado, a receita tributária permite-
o trânsito em julgado, encontra-se a maior parte lhe a melhoria da vida de toda a comunidade.
dos problemas do sistema penitenciário O desenvolvimento dos países passa pelos
brasileiro. Ao invés de cumprir a sua pena e negócios de risco de seus empresários, os quais
receber uma reeducação, o condenado encontra podem obter êxito ou quebrar. Para evitar o
ambiente propício e fértil para lições de descumprimento da lei de falência15 e a possível
criminalidade. A uniformidade nacional na lesão aos credores da massa falida, o juiz pode
superlotação dos presídios de todas as unidades decretar a prisão do falido e do síndico por até
da Federação revela a inércia e o descaso dos sessenta dias. Para efeito da decretação da
administradores para com a questão. prisão, os diretores, administradores, gerentes
Em regra, nenhum indivíduo pode ser preso ou liqüidantes são equiparados ao falido.
por não pagar as suas dívidas. Na verdade, há
duas exceções previstas na Constituição
Federal. Assim, o inciso LXVII do art. 5º da 3. Autoridades
Carta Magna dispõe que
Para se expressar, o Estado utiliza-se de três
“não haverá prisão civil por dívida, salvo poderes: Legislativo, Executivo e Judiciário.
a do responsável pelo inadimplemento Em nível federal, a representação é a seguinte:
voluntário e inescusável de obrigação
alimentícia e a do depositário infiel”. a) o Poder Legislativo é representado pelos
Deputados e Senadores; b) o Executivo, pelo
No processo de execução de pensão Presidente da República; c) o Judiciário, pelos
alimentícia12, o devedor que não pagar ou deixar Ministros do Supremo Tribunal Federal.
de apresentar uma justificativa razoável pode
ter a sua prisão decretada pelo prazo de um a A responsabilidade do Poder Legislativo é
três meses. Indubitavelmente, a prisão do incomensurável, porque, para o Executivo, não
alimentando é por dívida e, por isso, cessa com existe interesse político eleitoreiro na constru-
o pagamento do montante devido. A restrição ção de novas cadeias e novos presídios. Com a
da liberdade do devedor de alimentos tem o determinação legal, o administrador deve
caráter coercitivo; porém, se permanecer a executar a prescrição da lei. No Rio de Janeiro,
inadimplência, o credor da pensão deverá em julho de 1997, o Presidente da República
utilizar-se da expropriação dos bens do devedor inaugurou o Bangu III, construída com recursos
para ver satisfeita a sua pretensão. federais, é a penitenciária mais moderna e
Ao exigir a devolução do bem dado em segura da América Latina. Isso é prova da força
depósito ou do seu valor em dinheiro, o autor da Lei.
da ação de depósito13 tem, em seu favor, a No Poder Executivo, o descaso pode ser
possibilidade da decretação da prisão do réu constatado com as cadeias e penitenciárias
por um período máximo de um ano. Claramente
essa prisão tem por objetivo forçar o depositário superpopuladas. Pouco se tem feito para
a cumprir a sua obrigação. melhorar a vida daquele que cumpre a sua pena
Considerando a grande utilidade dos títulos e busca o restabelecimento. Na segurança
de crédito nas relações jurídicas patrimoniais constitucional16, aos presos são assegurados o
e, por conseqüência, na circulação de riquezas, respeito à integridade física e moral. Como
o legislador institui a prisão daquele que evitar as lesões físicas e morais dos presos no
apreender injustamente a cártula que lhe foi sistema penitenciário atual? É uma questão de
entregue para aceite ou pagamento. A prisão difícil resposta. As presidiárias contam com
decorre da apreensão injusta do título de tratamentos especiais, como permanência de
crédito14 e, não, como poderia se pensar, da seus filhos durante o período de amamentação
recusa em satisfazer o valor nele constante. e a separação de estabelecimentos em virtude
de seu sexo. Teoricamente, elas têm os direitos,
12
Arts. 732 a 735, do Código de Processo Civil.
13 15
Arts. 901 a 906, do Código de Processo Civil. Decreto-lei nº 7.661, de 21 de junho de 1945.
14 16
Arts. 882 a 887, do Código de Processo Civil. Inc. XLIX, art. 5º, da Constituição Federal.
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os quais são desrespeitados em muitas regiões 4. Execução da pena
do Brasil.
Não é segredo que o legislador aumenta o
Na atual Constituição Federal, ocorreu a número de crimes a serem penalizados com a
extinção da prisão administrativa, quiçá tenha
restrição da liberdade. A ação parece-nos
sido a maior inovação da novel Carta. Por meio
dessa revogada modalidade de prisão, a inconseqüente, pois agem como se existissem
autoridade administrativa tinha competência vagas nos presídios.
para decretar a ordem restritiva da liberdade. Excluída a pena de morte, a lei oferta várias
Com isso, a prisão poderia ser decretada pelo outras espécies a serem adotadas. Podem elas
Ministro da Fazenda ou pelos Diretores de ser privativas de liberdade, restritivas de
repartições federais. As raízes da prisão direitos e de multa. O maior número de penas
administrativa no Brasil são os regimes dita- é de reclusão e detenção, estando a revelar o
toriais, conforme a lição de Hélio Tornaghi17, domínio das penas privativas de liberdade no
poucos assuntos foram tão machucados na lei, sistema penal brasileiro. Na restrição de
na doutrina e na jurisprudência quanto esse direitos, a decepção afasta qualquer boa
da prisão administrativa. Por outro lado, a intenção na diminuição da população carce-
permanência da prisão militar, no nosso rária. A explicação é ilógica, ou seja, o nosso
entender, foi necessária, haja vista que a sistema não adota a pena restritiva de direitos
disciplina e a hierarquia reclamam este diretamente, sendo aplicada somente em
instrumento18. substituição. As penas de multa, como os pobres
O descumprimento da Constituição Federal visitam com mais freqüência a prisão, são
não ocorre só por parte de seus executores. As sempre combinadas com a pena restritiva da
autoridades do Poder Judiciário ferem a liberdade, logo a presença destas no sistema
Constituição Federal em muitos momentos. não encontra justificativa plausível. Nas
Inúmeros são os atos protelatórios. Ao dispor contravenções, registre-se, a pena de multa é
que a prisão ilegal será imediatamente utilizada com timidez. Assim não é possível,
relaxada pela autoridade judiciária, a própria pois, como mostra o panorama carcerário,
Constituição19 sofre uma considerável afronta. necessitamos de mudanças urgentes. As
Aliás, se uma pessoa for presa por engano, dificuldades existem e, continuando como está,
como acontece, a prisão dura no mínimo cinco a tendência é piorar a cada dia. Ao invés de
dias. Isso é uma humilhação ao brasileiro e uma pensar em impor a pena, o legislador deve
demonstração da dimensão da crise do voltar-se para a reeducação do criminoso,
Judiciário. Nas varas de execuções penais, com buscando, com leis precisas, devolver um
falta de decisões judiciais, existem presos que verdadeiro cidadão à sociedade. Com a lei, o
já cumpriram as suas penas há mais de um ano; Executivo pode ser pressionado a agir,
isso é um absurdo. O número de juízes é enfrentando as suas obrigações com seriedade.
insuficiente e, por falta de verbas e eficientes Num futuro próximo, esperamos sentir
meios de seleção, o direito sagrado à liberdade
é violado. Quanto às verbas, todos sabemos de orgulho do tratamento dispensado aos afastados
sua escassez, agora, reprovar quase todos os da sociedade pela prática de infrações penais.
candidatos de um concurso, ficando vagas a Com a execução penal atual, a cada passagem
serem preenchidas, isso não é crível. Em pelo sistema, o infrator volta a praticar outras
conclusão, boa parte dos problemas são barbáries de maior gravidade.
estruturais. Antes de prosseguir, é bom que se
diga que a composição do Poder Judiciário 5. Igreja Católica
brasileiro é, por demais, da mais alta qualidade;
os Tribunais são compostos por juristas que Alguns setores da sociedade já apresentaram
alcançam o respeito e a admiração no meio a sua contribuição, repudiando o atual
jurídico nacional e internacional. tratamento dispensado à execução da pena.
Nossa crítica busca somar esforços para dar A sensibilidade da Igreja Católica, pela
aos brasileiros o que lhes é de direito, o respeito assistência religiosa que presta aos presos,
à sua liberdade. conduziu a mais uma Campanha da Frater-
17
Curso de Processo Penal. 4. ed. São Paulo : nidade: Cristo Liberta de Todas as Prisões. Em
Saraiva, 1987. v. 2, p. 93. 1997, A Fraternidade e os Encarcerados
18
Inc. LXI, art. 5º, da Constituição Federal. demonstra o conhecimento da realidade dos
19
Inc. LXV, art. 5º, da Constituição Federal. presos, os quais são tratados de forma
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desumana. As movimentações em favor dos infratores praticam crimes e contravenções
presos são todas bem vindas, ainda, partindo penais.
da Igreja Católica, a recepção é, por demais, Na classe miserável brasileira, ao nascer, o
calorosa. Os apelos em favor dos presos trazem indivíduo já tem o seu destino traçado. Nas
sentimentos de humanidade e respeito pelos favelas, inúmeras crianças são colocadas a
nossos irmãos. Entre as assistências do serviço do tráfico de drogas. A realidade é
condenado, está a religiosa, possibilitando o assustadora e, ao invés de educação, os
restabelecimento das suas relações com Deus20. iniciantes recebem armas e instruções para
Avulta a importância do auxílio religioso, atuar com eficiência na venda de substâncias
devendo ser incentivado e preservado. entorpecentes. Tratando-se de respeito aos
No retorno à sociedade, a integração do poderes da República, primeiro existe a
condenado não pode ser resumida na sua reverência à chefia do tráfico e, em segundo
liberdade, senão na continuidade de seus laços plano, como inimigo, está a organização do
com Deus. Estado. Sociologicamente falando, existem
duas organizações dentro de uma única: os
poderes estatais e o respeito aos comandos do
6. Recuperação do condenado crime organizado. Como a inversão de valores
Pela Lei de Execução Penal, o condenado é já ocorreu, depois de serem reconhecidos como
bem assistido, porém a verdade é outra. cidadãos, os favelados vão reclamar a passagem
Cumprindo pena em cadeia pública, peniten- por um processo de reeducação, restabelecendo-
ciária, colônia, albergue ou hospital, todos se a exata valoração das instituições presentes
estruturados de forma deficiente, a possibilidade no meio social. Pela experiência acumulada
de recuperação é nula. Não é drama, é a realidade. com as ações policiais, fica claro que o seu
trâmite é vagaroso e, depois de conquistada a
Vejamos as assistências de direito dos normalidade, o trabalho de manutenção deve
condenados: a) material, consiste na boa ser uma constante. O descaso é a pior resposta
alimentação, vestuário e instalações higiênicas; à melhoria de vida do povo brasileiro. A
b) saúde, entendido o tratamento médico, criminalidade toma novas dimensões e, como
farmacêutico e odontológico; c) jurídica, se vê, os índices apontam sempre para cima,
compreende a assistência judiciária gratuita; d) aumentando a cada dia o número de pessoas
educacional, abrange a formação escolar e infratoras.
profissional; e) social, responsável pelo preparo
No Brasil, não sobra tempo para se estudar
do preso para o retorno à sociedade; f) religiosa,
o criminoso, isso porque, por uma questão
consiste na participação de atividades reli-
talvez cultural, dá-se maior importância ao fato
giosas, como missas e cultos; e h) egresso,
entendido como a orientação e a instalação do que ao transgressor da lei. Por outro lado, a
preso no retorno ao meio social. A demanda é diminuição dos crimes praticados está direta-
grande e o poder público não procura vencê-la, mente ligada a questões sócio-econômicas.
proporcionando lesões de direitos irreparáveis.
No alvo das conseqüências, não está somente o 8. Legislador
condenado, mas, também, o cidadão que vai
ser lesado em seu patrimônio, na sua integri- Com as suas inovações, a Constituição
dade física... Federal de 1988 trouxe sonhos, os quais foram
Qual a medida a tomar? Será que podemos deixados a cargo da legislação ordinária. Os
continuar com a presente enganação? Os níveis direitos dos condenados sofreram ampliações
insuportáveis de crimes, pelo menos nos consideráveis. Com relação aos presos proviso-
grandes centros, têm abonado a mudança riamente, as conquistas foram desde a proibição
da incomunicabilidade até o fim da prisão
imediata.
administrativa. Por outro lado, de forma
inadvertida, o legislador começa a regredir com
7. Criminalidade as leis ordinárias, as quais aumentam os tipos
penais, principalmente na transformação de
Tipificadas pela lei, as infrações penais algumas contravenções em crimes, como
assumem várias formas. No conjunto, os ocorreu com o porte de arma. A inovação
esperada é no campo das penas, precipuamente,
20
Art. 24, da Lei de Execução Penal. nas restritivas de direitos.
84 Revista de Informação Legislativa
9. Cadeias a visitação. Para cada condenado, a cela
conterá24: a) individualidade; b) dormitório; c)
A cadeia pública é o estabelecimento aparelho sanitário; d) lavatório; e) salubridade
destinado ao recolhimento de presos provi- do ambiente pela concorrência dos fatores de
sórios21. Na realidade, o preso tem os seguintes aeração, insolação e condicionamento térmico
direitos22: a) cela individual com dormitório, adequado à existência humana; f) área mínima
sanitário e lavatório; b) salubridade do de seis metros quadrados; g) a seção de gestante
ambiente; c) área mínima de seis metros e parturiente e a de creche. Caso fosse possível
quadrados. A lei mais uma vez não é cumprida, no Brasil a citada penitenciária, sem dúvida,
porque existem muitos presos sem espaço para seria uma maravilha.
dormir na própria cela por excesso de compa-
nheiros. Pelo que se vê por todo o Brasil, a lei Destinada ao cumprimento de pena em
descreve um quarto de luxo para o preso não regime semi-aberto, a colônia agrícola,
condenado. Lastimável é isso ser uma tremenda industrial ou similar reserva alojamento
inverdade. No caso de prisão provisória, apesar idêntico ao oferecido na penitenciária25. Na
de inexistir sentença judicial condenatória com realidade, as colônias têm uma população
o trânsito em julgado, o preso já começa a ser menor, possibilitando a iniciação do preso em
penalizado. Geralmente, a cadeia pública seu restabelecimento.
funciona junto à delegacia de polícia e a Existem, ainda, a casa do albergado para a
precariedade, por falta de tantas coisas, toma pena a ser cumprida em regime aberto e o
proporções vergonhosas nesta e naquela. hospital de custódia e tratamento psiquiátrico,
Como a localização das cadeias públicas é pouco conhecidos pelo território nacional.
no perímetro urbano, a população sofre com a
constante ameaça de fuga, o descaso das 11. Literatura
autoridades e o aumento dos crimes punidos
com pena privativa de liberdade. Outra As histórias da literatura a respeito da ação
preocupação é o cumprimento de pena nas da polícia e do comportamento do Judiciário
cadeias. A falta de vagas nas penitenciárias ganham as páginas e despertam o prazer pela
justifica a medida, mas a população convive leitura.
com um perigo constante de fuga. No erro judiciário dos Irmãos Naves26,
ocorrido em Araguari, no Estado de Minas
Gerais, existe o relato fiel de erro do juiz e
10. Penitenciária e colônia Tribunal de Justiça mineiros que conduziram
dois jovens irmãos para a cadeia para pagarem
Tratando-se de regime fechado, atribuído por um crime não ocorrido. Simplesmente,
aos crimes de maior gravidade, a pena vai ser como não havia materialidade do crime, o
cumprida na penitenciária; agora, para o regime suposto morto estava vivo e só foi encontrado
semi-aberto, existem as colônias agrícolas quinze anos depois, quando um dos condenados
industriais ou similares. já havia morrido na prisão. De todo o ocorrido,
Como estabelecimento para o cumprimento o impressionante é a absolvição por duas vezes
de pena em regime fechado, a penitenciária pelo Tribunal do Júri e a condenação prolatada
distancia-se do sonho de restabelecimento do pelo Tribunal de Justiça de Minas Gerais em
condenado. As penitenciárias brasileiras são reforma à sabedoria do Júri Popular.
verdadeiros depósitos de criminosos, onde são
No Esquadrão da Morte, o então Procurador
amontoadas várias espécies de infratores da lei
de Justiça do Estado de São Paulo Hélio Pereira
penal. As penitenciárias podem ser destinadas,
Bicudo27, parlamentar na atualidade, relata a
separadamente, aos homens e às mulheres. A
Lei de Execução Penal23 determina que as 24
Art. 88, da Lei de Execução Penal.
penitenciárias sejam construídas em locais 25
Art. 92, da Lei de Execução Penal.
26
afastados dos grandes centros, sem prejudicar ALAMY FILHO, João. O caso dos irmãos
Naves : um erro judiciário. 3. ed. Belo Horizonte :
21
Art. 102, da Lei de Execução Penal (Lei nº Del Rey, 1993.
27
7.210/84). BICUDO, Hélio Pereira. Meu depoimento
22
Art. 88, da Lei de Execução Penal. sobre o Esquadrão da Morte. 4. ed. São Paulo :
23
Art. 90, da Lei nº 7.210, de 11 de julho de Pontifícia Comissão de Justiça e Paz de São Paulo,
1984 (Lei de Execução Penal). 1977.
Brasília a. 34 n. 136 out./dez. 1997 85
atuação truculenta da polícia civil paulista. Um 12. Conclusões
pouco depois da Revolução de 1964, a polícia
civil paulista dava início ao Esquadrão da A deficiência estrutural do Estado e o
Morte, inicialmente, em perseguição aos despreparo de seus agentes não podem justificar
criminosos de alta periculosidade e, mais tarde, injustiças praticadas em detrimento dos
talvez já com o objetivo premeditado, aos indivíduos.
políticos contrários ao novo regime auto- Pelo Decreto Executivo nº 1.904, de 13 de
ritário28. Instalou-se a pena de morte e, com maio de 1996, o Presidente da República institui
isso, muitas vidas foram ceifadas e acobertadas o Programa Nacional de Direitos Humanos. Pelo
por razões obscuras e nada convincentes. Ao PNDH, a liberdade e a reeducação do preso não
invés de seguir o preceito legal, a polícia passou têm prioridade, porém, há uma preocupação
a fazer justiça (na verdade, injustiças). com a superlotação dos presídios e a indicação
Na Rota 66, o jornalista Caco Barcelos29 da construção de novos estabelecimentos
prisionais de pequeno porte, bem como a
revela o lado negro da atuação da polícia militar conversão das prisões nos regimes semi-aberto
na cidade de São Paulo. Como fruto das e aberto. A intenção do Executivo é muito boa,
ocorrências policiais que o autor acompanhou, principalmente quando afirma que vai incen-
as histórias apavorantes ocupam todas as tivar a agilização dos procedimentos judiciais
páginas de seu nobre trabalho. Num ingênuo e dos presos provisórios e, para os condenados,
simples pensamento, conclui-se que qualquer a criação de programas de reeducação e
brasileiro pode ser vítima da violência policial. recuperação e de assistência à saúde. Com
Já não é mais segredo que a população carente relação à Casa de Detenção de São Paulo
conhece a atuação policial desvirtuada com (Carandiru), a sua desativação a longo prazo
profundidade; deveras, com isso, redobra-se o realmente impressiona e merece aplausos.
medo, por um lado, revelado na polícia e, Deveras, é cediço que as penitenciárias são
noutro, presente na ação dos criminosos. Com verdadeiras escolas de criminosos; somadas a
o relato das passagens do autor, os leitores essa agravante, servem como centrais de
podem ter uma idéia do péssimo emprego do comandos das organizações criminosas. A atual
dinheiro do contribuinte. Com extrema frieza, situação é insustentável, necessitando de várias
a polícia militar paulista e, provavelmente, a reformas e do apoio de todo o povo brasileiro.
de outros Estados, recrutam matadores para Aliás, como a criminalidade atinge um número
fazer a segurança pública. indeterminado de pessoas, todos nós somos
responsáveis pelas melhorias do sistema
Como se pode concluir, relatar a violação penitenciário nacional.
dos direitos humanos tem sucesso garantido no
Por fim, as prisões provisórias e as
meio literário. Embora não pareça, afrontar a definitivas devem ser repensadas. Não se deve
liberdade e a integridade física dos desafor- mudar somente a lei, senão, também, a
tunados é uma realidade aflorada. Precisamos mentalidade dos juízes e seus executores. A
exercitar os nossos direitos e aprender a decretação e o relaxamento das prisões
sacrificar algum tempo em favor dos injus- deveriam ser reformulados. Na execução das
tiçados, seja testemunhando ou prestando penas, o reconhecimento da falência do sistema
qualquer espécie de ajuda. Por fim, deixamos penitenciário revela os perigos que acercam os
o nosso registro de admiração e respeito pela grandes centros, aprisionando os cidadãos
coragem dos citados escritores. comuns em suas próprias casas.

28
A conclusão da perseguição política ficou
patente depois dos tempos de glória do Regime Mi-
litar. Porém, após o término das investigações acom-
panhadas por Hélio Bicudo.
29
BARCELLOS, Caco. Rota 66. 16. ed. São
Paulo : Globo, 1993.
86 Revista de Informação Legislativa