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ETONISMO SEGUNDO BATSÎKAMA

Januário Kindowa1

Segundo Kajibanga, na Notas sobre a Problemática da Filosofia


Africana (2015), a respeito do debate filosófico africano, a lusofonia
tardou o seu intervencionismo, “só em finais da década de 1980 e inícios
da década de 1990 se começou a falar publicamente (e nas cátedras)
sobre a filosofia africana”, e nesta senda, a Escola Moçambicana de
Filosofia revelou-se a mais fértil e produtiva, tendo os nomes mais sonantes
e requisitados internacionalmente, como Ngoenha, Castiano e Mucale.

Com a morte de Savimbi em 2002, nasceu em Angola o


abacelamento da cultura da paz, todavia, o angolano ainda continuava
actuando como um actor portador de uma cultura que no entendimento
do Imbamba, exposto na obra Uma Nova Cultura para Mulheres e
Homens Novos (2003), encontrava-se em tremenda crise, tendo afectado
os seus valores, os costumes, as famílias, etc., e como proposta de
renovação cultural, Imbamba propôs a cultura do valor da pessoa
humana, da liberdade e da democracia, do trabalho e da
responsabilidade, do amor e da solidariedade, da paz e do
desenvolvimento, com vista o renascimento da identidade angolana.

Depois de ter publicado em 1984 a Teologia e Cultura Africana no


contexto sócio político de Angola, Quipungo em 2003, preocupado em
elucidar as origens de Angola e dos angolanos, publicou o Akuaxi. Somos
nós angolanos, onde dentre outras, referiu através de fontes orais e
escritas, a génese e a evolução histórica dos angolanos, destacando com

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Licenciando em Filosofia pela Faculdade de Humanidades da Universidade Agostinho Neto; Membro da
Associação Etonista de Filosofia, AEF; Membro da Associação de Investigadores e Filósofos Angolanos, AIFA;
Coordenador do Sector de Pesquisa para Assuntos Africanos da Tecni-Filosofia; Coordenador Executivo da
Cérebro Diop – Comunidade de Estudos Avançados, CED-CEA; Mentor da Comissão Multi-organizacional de
Filosofia Angolana, COMFANG.
rigor, a figura de Ngola Kiluanji Kia Samba, como o patrono da nação
angolana.

Motivado em compreender os ventos da modernidade que assolam


o continente africano, em especial os seus valores tradicionais, em 1999
Matumona iniciou a sua pesquisa em volta da filosofia africana, o que
resultou em 2004 na obra A Reconstrução de África na Era da
Modernidade. Ensaio de uma Epistemologia e Pedagogia da Filosofia
Africana, onde buscou despertar, sobretudo no espaço lusófono e em
especial em Angola, o debate sobre a filosofia africana, uma pista que foi
abraçado e avançado doravante por Mambu Muanza, Lando Lau e
Kiavanda Félix.

Embora de forma tímida e sem um devido ambiente de coesão


entre os filósofos, o que condicionou a falta de diálogo enriquecedor da
filosofia angolana e da filosofia académica em Angola, já estava aberta o
debate filosófico angolano do século XXI. E alguns autores como
Imbamba, Matumona e Quipungo, preencheram o acervo dos seus
principais precursores, e por isso, lidos com frequência em ambientes
académicos, em especial em círculos de cultivo livre do autodidactismo.

Assim, a primeira década do século actual, testemunhou o eclodir


da filosofia angolana, numa época em que Angola estava celebrar a paz,
daí que o incremento da cultura de paz e de reconciliação, a unidade
nacional e a necessidade do diálogo cultural, assim como o resgate dos
valores disseminados pela guerra colonial e civil, definiram a emergência
do debate filosófico de tal década, que perdurou até a primeira metade
da segunda década.

Foi deste contexto filosoficamente embrionário que o etonismo


como arte vai ser levado e teorizado como uma filosofia por BatsÎkama a
partir dos anos 2004, 2005 e 2006, altura em que é iniciado a nível
nacional, o debate técnico e abrangente em volta da estrutura temática,

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lógica e gnosiológica do etonismo. Numa mesma altura em que Moreira
Bastos, estava a desenvolver as devidas bases e condições para a
implementação do curso de filosofia na Faculdade de Letras e Ciências
Sociais, actual Faculdade de Humanidades da Universidade Agostinho
Neto.

1. A positivação do etonismo

Natural de Maquela do Zombo, Uige, Patrício BatsÎkama Mampuya


Cipriano, é historiador pela Universidade Pedagógica de Kinshasa e
filósofo pela Universidade de Plymouth. Conforme gostava de se definir, foi
um homem ousado e corajoso que tinha forte ligação com o saber. Das
suas principais temáticas pesquisadas, destacam-se, entre outras, o
legado do Reino do Kongo, Tokoismo e Etonismo.

Discípulo de Obenga e de Etona, BatsÎkama marcou a sua geração


como sendo um dos pensadores com mais produção literária. Escreveu
dentre outras sobre as origens de Angola, a arte angolana, as origens do
Kongo, etc.

O seu entendimento sobre o etonismo compreende três aspectos


essencialistas, a saber, razões, alegações e indulgência. Esta leitura
filosófica parte do facto de que o egoísmo é uma condição inerente ao
homem baseada numa razão radicalizada, ou seja, conforme
hobbianamente se dizia, o homem já nasce egoísta, e como a sociedade
é composta por pessoas, para BatsÎkama, estes formam a convergência
de vários egoísmos. Daí a necessidade do etonismo ser uma filosofia
promotora de razões, alegações, indulgência e tolerância que visam a
gestão do diálogo e da justiça, enfim, da cultura de paz.

1.1. Razões

O etonismo não é um tipo de radicalismo, não se prende na


explicação lógica desta ou daquela razão. O etonismo é uma espécie de

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discurso filosófico que defende razões em vez de razão, no entanto, o
etonista seria, fazendo uso das razões, um conhecedor de causas,
autodidacta e empírico. A caracterização destas razões para BatsÎkama,
pressupõe a existência de três tipos de homens, aquele que busca o
conhecimento das causas, o que é movido pela vontade voluntária a
buscar o saber e aquele que é orientado a pensar a verdade das coisas,
a partir da verdade dos factos.

Em ambientes dialógicos em relação a aquele que seria o mais


beneficiário da razão, BatsÎkama aponta o buscador do conhecimento
das causas como o primeiro que merecia tal privilégio, a seguir o
autodidacta e no final, o empírico, porém, para o etonismo, onde o
debate não deve ser vencido mas convencido, a supervalorização de
uma razão em detrimento da outra, não só definiria um radicalismo, como
não seria rigorosamente capaz de solucionar um dado problema,
garantindo a convivência salutar e harmoniosa entre as partes, que é o
cerne do racionalismo etonista.

Assim, em vez de se prender nesta ou naquela razão, o etonismo


conforme BatsÎkama, estipulou um cânone de três razões, conhecedor de
causa, autodidacta e o empírico.

1.2. Alegações

O etonismo artístico é uma técnica intuitiva que retrata


objectivamente as principais deformações do oprimido causado pelos
conflitos guerreiros como o angolano, por exemplo, e propõe o convite
deste rever-se para que destemidamente ouse fundar um novo modelo
do homem novo. O etonismo filosófico é um tipo de racionalismo
objectivo baseado em três razões. Filosoficamente o etonismo busca
garantir a cultura de paz no seio das relações humanas, e para tal, o
desapego ao radicalismo e a estipulação das três razões são caminhos
que aspiram o alcance de tal ideal.

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E como nas relações humanas, inevitavelmente prevalece o
vencedor e o perdedor, e que por isso, na maioria das vezes o perdedor
chega a incitar revoltas e consequentemente um ambiente de discórdia e
de guerra, BatsÎkama contempla nas alegações, a técnica orientadora de
apaziguação de possíveis conflitos.

Fazendo recurso a etnografia angolana, BatsÎkama define as


alegações, segundo aspecto essencialista do etonismo filosófico, como
um discurso desculposo proferido pelo perdedor ao vencedor, para
conservar a união comunitária, exibindo inteligentemente o seu sentido
eufórico, embora este tenha menos razão, e o vencedor arrogado como
aquele que tenha mais razão.

A derrota não é um sinal de covardia, e muito menos de


irracionalidade. A derrota é a demonstração da falta de preparação
necessária para a conclusão eficiente da actividade em questão, logo o
seu reconhecimento é um acto de virtude e de sapiência, conservando
assim, o princípio da humildade no acto de aprender e na necessidade
da continuidade harmoniosa das relações.

As alegações são também, segundo BatsÎkama, uma forma de


amor fraternal, um certo humanismo capaz de reconhecer a validade da
vitória do outro e a validade da derrota merecida.

1.3. Indulgência e tolerância

Quando alguém comete um crime, segundo batsÎkama (2009),


deve obrigatoriamente ser enviado para um sítio isolado para a sua
reeducação. Ao voltar, e antes de ser reintroduzido na sociedade, o seu
advogado deve fazer etona, que é a indulgência. Deste ponto de vista, o
etonismo é uma prática pedagógica que incrementa a inclusão sem
choques, portanto, ela permite a promoção de um humanismo que toma
o homem como um sujeito que carece de educação e de reeducações.

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A indulgência, adiantado por BatsÎkama, é um pedido de perdão
do pecado cometido no passado e reparado durante a reeducação. O
etonista busca por meio da indulgência, manifestar não só o
reconhecimento do erro cometido e a expressão do perdão, mas
também o facto de este reeducar-se, e no entanto, esperando que a
outra parte, no caso do contexto da aldeia, no caso os anciões, os líderes
da localidade, sejam tolerante e que o recebam de volta à comunidade.

Este é o etonista para BatsÎkama, um filósofo triracionalista que


dispõe de um discurso fraternal, capaz de tolerar e incluir. Assim sendo, o
etonismo filosófico é um exercício ético e pedagógico que defende as
razões, alegações, indulgência e tolerância, como os pressupostos
fundamentais para a cultura de paz.

Conclusão

O facto e a leitura do facto, são coisas diferentes. Etona, o etonismo


e os etonistas, igualmente. No entanto, as diferentes interpretações sobre
Etona2 e etona3 como fundamentos do etonismo feito pelos etonistas,
para além de distintas, são dados multilaterais que fertilmente contribuem
para a evolução diversificada da corrente etonista, ressaltando o facto de
os filósofos serem diferentes e que por isso, cada um é guiado por uma
visão própria.

BatsÎkama possui o mérito de ser o primeiro teórico do etonismo,


porém, a sua visão etonista não é um discurso dogmático e que por isso,
devia ser meditado e repetido sem ser alvo de críticas, ao contrário, ela
não está ausente da possibilidade de ser refutada ou mesmo
ultrapassada. Por exemplo, na leitura feita sobre os dois maiores
precursores do etonismo, o mestre e o discípulo, verificou-se uma tamanha

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A figura central do etonismo.
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Razão, tolerência, alegação, indulgência.

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diferença quanto a definição, contextualização e formas de aplicação
do etonismo.

Diferente de Etona que nos pareceu ser mais conciso e objectivo na


descrição teórica do etonismo filosófico no artigo Democracia vista
endogenamente. Caso do Etonismo, os textos de BatsÎkama4 mostram-se
mais técnicos, subjectivos e de pouco valor histórico-filosófico angolano,
ou seja, sem descurar a relevância do diálogo científico sobre o objecto
estudado, reconhecemos nas obras do Batsîkama sobre o etonismo, um
certo excesso de citações de autores alheios à matéria estudada e
fundamentalmente afugentados do contexto sobre o qual o objecto
estudado foi fundado.

Quando lemos por exemplo, sobre o orfismo, vemos uma conjuntura


de aspectos sociais, políticos, económicos e culturais inerentes à Grécia,
assim como identificamos durantes os tratados órficos, autores
contemporâneos à génese e evolução do orfismo. A mesma coisa
ocorreu com correntes como o racionalismo e o empirismo, então por quê
que com o etonismo o discurso histórico-filosófico deve ser diferente se ela
nasceu em Angola, com os angolanos, sobre o contexto angolano e para
a priori, responder problemas que assolam os angolanos?

O etonismo nasceu em Angola e sobre o contexto histórico


angolano com Etona traduzido artisticamente por meio das suas obras, e
elas emitem mensagens reais e incitam reformas no pensamento e nas
acções. Entretanto, a sua fundamentação deve respeitar tal panorama
histórico, político e social, e não depender dos Aristotelismos, Platonismos,
Cartesianismos, Kantismos, e etc., como suas bases de argumentação, o

4
Etonismo. Uma Filosofia da Arte sobre a Razão Tolerante (2009). Editora JS Comunicação, Rio de Janeiro –
Brasil. Etonismo: Formas e Normas da Razão tolerante (s.d). Universidade Editora, Luanda – Angola.

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que não pressupõe a inexistência de diálogo com elas, mas que esteja na
ordem das analogias.

O conhecimento é um património da humanidade, isso é um facto,


todavia, todo conhecimento produzido possui a sua certidão de
nascimento, daí que quando lemos o aristotelismo, pensamos
rigorosamente a Grécia, o tão acalmado berço de todo conhecimento
europeu, a nação com mais valor histórico-cultural e com alto respeito
internacional, quando se trata de saber.

Angola é o berço do etonismo, logo todos aqueles aspectos que


contribuíram para a sua criação, fundamentação e evolução, devem ser
minuciosamente escritos, analisados, discutidos e divulgados. Etona esteve
inserido dentro de uma vasta arquitectura social quando nasceu nele a luz
da ideia etonista, tendo sido discípulo de mestres que o iniciaram nas
artes, e rodeado de inúmeros contemporâneos que deram a ele, dados
influentes que de certa forma, contribuíram para a sua convicção e visão
sobre o etonismo.

São todos esses aspectos que formam a carga genética do


etonismo, as principais datas, os principais lugares, os principais
personagens, os principais acontecimentos, e finalmente, os principais
manifestos de Etona, e não os Aristóteles, Platão, Descartes, Kant, Hegel e
tantos outros que por mais relevantes que sejam dentro da tradição
filosófica, são menos precisos dentro do debate etonista, estando
reservado a eles, espaço para a referência histórica e valorativa.

Referências Bibliográficas

Batsîkama, P. (2009). Etonismo. Uma Filosofia da Arte sobre a Razão


Tolerante. Editora JS Comunicação, Rio de Janeiro – Brasil.

Batsîkama, P. (s.d). Etonismo: Formas e Normas da Razão tolerante.


Universidade Editora, Luanda – Angola.

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Imbamba, J. M. (2003). Uma nova Cultura para Mulheres e Homens. Um
projecto filosófico para Angola do III milénio à luz da filosofia de Batista
Mondim. Editora Paulinas, Universidade Católica de Angola, Luanda –
Angola.

Kajibanga, V. Notas sobre a Problemática da Filosofia Africana. In. Serra, C.


(2015). Caderno de Ciências Sociais. O que é Filosofia Africana. Escolar
Editora.

Matumona, M. (2004). A Reconstrução de áfrica na Era da Modernidade.


Ensaio de uma Epistemologia e Pedagogia da Filosofia Africana. Edição
SEDIPU, Uíge – Angola.

Quipungo, J. (2003). Akuaxi. Somos nós angolanos. Núcleo – Centro de


Publicações Cristas, Queluz – Portugal.

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